Revisada por: Sagitário♐
Última Atualização: 18/2/26O calor que fazia em Mônaco naquele domingo era incrivelmente irritante, principalmente porque odiava os dias de sol escaldante. Seu irmão mais velho diria que era por causa do seu mau humor constante de adolescente e a vontade de ser diferente de todo mundo, mas se você perguntasse a , ela diria que o sol em excesso deixava as pessoas à vontade demais. E ficar à vontade demais não era saudável, principalmente se ela quisesse levar aquele sonho adiante.
Com algum esforço, seu pai tinha conseguido levá-la até o circuito histórico e famoso de Monte Carlo. Foi um fim de semana incrível cheios de conversas, passeios pelo paddock e momentos de pai e filha. Durante os treinos classificatórios, Michael Schumacher tinha perdido a pole position por conta de uma colisão evitável, sendo assim Mark Webber ia largar em primeiro para surpresa de que tinha visto tudo tão de perto que era como se ela fosse correr naquele domingo. A emoção das pessoas, o clima de competição que estava no ar e poder ver os pilotos tão próximos era tudo o que ela queria para sua vida daquele momento em diante. Seus olhos brilhavam cada vez que um carro passava por ela, seu coração batia mais acelerado a cada segundo que se aproximava da largada.
Aquele final de semana estava sendo um sonho, melhor que isso só se ela estivesse dentro de um daqueles carros, sentindo sua respiração acelerar no interior do cockpit, o som do motor invadir seus ouvidos e a adrenalina que ela sentia cada vez que estava em um carro. Era um sonho um dia chegar até a categoria principal, e sabia muito bem. Era a única menina da sua idade que disputava os campeonatos de kart no seu país e, muitas vezes, se sentia sozinha nos fins de semana que disputava alguma corrida. Mas também era verdade que ela já tinha ganho alguns desses campeonatos, a maioria nos últimos dois anos, e ia começar a participar de campeonatos europeus maiores em 2013. Estava empolgada com essa oportunidade, principalmente com a expectativa de começar a trilhar seu caminho rumo ao seu sonho por mais difícil que parecesse.
Naquele momento só podia imaginar e sonhar com o seu futuro. Futuro que nem ao menos sabia se ia se concretizar. A competitividade no esporte era gigantesca e nem sempre o melhor conseguia uma vaga na categoria principal e dar tudo de si não era garantia de nada. sabia de todos os poréns, mas estar em Mônaco em um dia de corrida depois de ter andado por todo o paddock sentindo o cheiro de borracha, ouvindo de perto o som dos motores dos carros mais rápidos do mundo, era como se todo o seu corpo se ativasse com toda aquela adrenalina que seu corpo disparava em seu sistema sanguíneo.
— Está se divertindo, filha? — seu pai perguntou e, mesmo que já soubesse da resposta, queria ver o sorriso aberto da filha antes da largada.
mal conseguia se concentrar em qualquer conversa naquele momento. Os dois assistiam a corrida junto a milhares de torcedores em uma arquibancada completamente cheia e animada, diferente das pessoas mais ricas que viam das sacadas de seus apartamentos ou de hotéis de luxo.
— Muito — sorriu com seu rosto inteiro. Aliás, sempre foi assim. Quando a garota sorria seus olhos se fechavam, as covinhas em sua bochecha ficavam evidentes. — É o melhor fim de semana da minha vida. — Completou.
— Por enquanto — disse. — Um dia ainda vou te ver naquele pódio. — O pai da menina completou com um sorriso no rosto, como se profetizasse.
Poucos minutos depois a corrida começou e, já nas primeiras voltas, o caos foi instalado. Pastor Maldonado e Romain Grosjean se envolveram em um acidente. O carro de Schumacher ficou imprensado. Uma verdadeira desordem, foi preciso a presença do safety car na pista por quatro voltas, e logo depois houve a relargada, dessa vez sem tumulto.
Mônaco não era um circuito de muitas surpresas, na verdade, poderia ser um pouco monótono para quem não entendia o valor histórico do circuito. Se fosse bem sincera, diria que Mônaco simbolizava todo o glamour, história e personalidade do automobilismo então sim, mesmo com poucas chances de surpresas e ultrapassagens, aquela era a sua pista favorita.
Timothy , ou Tim, pai da jovem piloto, tentava entender o que estava acontecendo ali. Não conseguia perceber quem estava em primeiro e quem era o último, só sabia que aqueles carros faziam muito barulho e que era um esporte que sua filha adorava e ficava fascinada com cada detalhe. E por mais que tentasse entender as nuances e regras do esporte, ele sempre era o pai que não entendia nada, aquele que ficava perdido no paddock tentando entender de estratégias, tempos e os nomes dados para cada engrenagem do kart que desandava a falar ao fim de cada treino ou competição. Queria se sentir mais presente na vida da filha, queria entender mais sobre o esporte para poder incentivar mais. Por isso, quando o GP de Mônaco acabou com a vitória do australiano Mark Webber, Tim também comemorou com a filha, mesmo que nem soubesse quem era o piloto. Mas aquele fim de semana era dela, ele sabia que era.
Todos os restaurantes de Mônaco estavam lotados, era impossível entrar em algum sem uma reserva. E é claro que Tim não tinha pensado nisso, e é claro que estava considerando levar Ally para o McDonald 's mais próximo do hotel. O que Tim não esperava era encontrar seu amigo de longa data Jean-Jacques Gasly, o francês que sempre encontrava nos campeonatos em que a filha participava e que entendia absolutamente tudo sobre automobilismo. O patriarca da família Gasly foi campeão em diversas categorias do kart e de rally. Diversas vezes, Jean e Pascal passavam metade da corrida explicando regras básicas do esporte para Tim . Por isso, não foi uma surpresa quando a família francesa os convidou para jantar.
— Como você está grande, menina — Pascal disse com um tom carinhoso direcionado à .
Estavam todos esperando para entrar no restaurante, conversando amenidades como se fosse uma atividade comum. A garota estava um pouco sem graça, principalmente por se sentir totalmente deslocada naquele lugar, mas era inevitável sentir-se confortável ao lado de Pascal, ela era sempre muito carinhosa e paciente com a menina.
— Realmente, faz algum tempo que não nos vemos — respondeu polida com um sorriso no rosto.
detestava situações sociais em que tivesse de usar toda a educação que seus pais lhe deram. A maneira mais educada de se sentar, qual talher usar, as palavras certas para dizer, o sorriso sempre no rosto. Ela simplesmente não tinha esse dom da etiqueta social, por mais que sua mãe sempre tenha sido exigente e estrita quando se tratava de comportamento social. Mas ela sabia muito bem como se misturar: as mães a amavam, e ela fazia amizade com todas, diferente de adolescentes da idade dela. Sua avó costumava dizer que ela tinha uma "alma antiga", mas aquela era só uma expressão para substituir "perdedora pra cacete".
— Soube que você vai começar a disputar campeonatos maiores agora — Pascal continuou, estreitando os olhos para a garota.
— Sim, creio que nos veremos mais, vou disputar mais vezes contra o Pierre. — Deu um sorriso sem graça trocando o peso da perna esquerda para a direita.
Pierre Gasly era um dos filhos de Pascal e Jean-Jacques Gasly. O menino seguia os passos do pai com primor, sempre se destacava nos campeonatos que disputava. Era alguns poucos anos mais velho do que e já estava conquistando seu espaço. , no entanto, não o conhecia tão bem assim, talvez pela dificuldade que tinha em entender e falar francês ou por simplesmente não saber se misturar com pessoas da idade dela.
— Tenho certeza que sim — Pascal respondeu em um tom baixo, quase como se fosse uma confissão, o que fez Ally rir. — Espero também que sua mãe possa nos acompanhar.
Mesmo sabendo que aquela era uma situação extremamente improvável, a jovem simplesmente acenou com a cabeça e sorriu como se fosse uma confirmação. Liana nunca iria a corridas, nem se a filha estivesse disputando um campeonato mundial. Liana não acreditava que teria algum sucesso em um esporte extremamente masculino e com tão pouca classe. Ainda mantinha a esperança que aquele hobbie da filha passasse rápido e ela se encontrasse logo.
Logo já estavam dentro do luxuoso restaurante monegasco em uma mesa repleta de pais e pilotos jovens, parecia uma convenção anual dos dramas paternos e da euforia jovem motorizada. Seu pai e Jacques conversavam animados, Pascal tinha engatado um papo entusiasmado com outras mães de piloto como se aquele fosse o domingo internacional do encontro das mães preocupadas.
A parte mais jovem daquele jantar decidiu por livre e espontânea vontade se dispersar dos mais velhos assim que terminaram de comer. O restaurante tinha um grande espaço externo sem mesas, mas com uma vista maravilhosa da cidade. Dava até para ouvir o mar se você se esforçasse o bastante. os seguiu depois de Pascal insistir muito, ela não se sentia bem ou à vontade, mas também não sabia dizer não. Pierre, que ainda não tinha trocado uma palavra com , estava entretido o bastante com os próprios amigos para dar atenção a ela como Pascale o orientou, até que um deles decidiu incluir a garota na conversa. Talvez por pena, talvez por curiosidade.
— Você também corre? — O garoto de cabelos lisos castanhos e olhos bem claros, que tinha quase certeza de que se chamava Charles, perguntou depois de algum tempo a encarando.
se assustou quando percebeu que a pergunta era para ela. Suas bochechas coraram um pouco ao notar que todos os meninos também a olhavam esperando uma resposta. Sentiu seu sorriso se abrir de uma maneira estranha e talvez mecânica e antes que sua insegurança tomasse conta, respondeu:
— Sim — disse comedida. Ela já estava acostumada com a curiosidade dos meninos. Ela até gostava dessa curiosidade, a destacava, ela se sentia diferente.
Não seria a vida inteira assim, mas ali com 14 anos e com um menino bonito querendo saber sobre ela e dividindo os mesmos interesses, não tinha como não sentir especial de alguma forma.
— Nunca te vi disputar as competições europeias — ele disse com algum desdém. De certa forma, sentia-se intimidado pela garota de um jeito que não entendia.
— Vai ver em breve. — Suspirou, ajeitando a franja que caía em seus olhos. — Provavelmente ano que vem. Tenho tido resultados muito bons no kart. — Retrucou rapidamente como se tivesse um ponto para provar.
— Espero que tenha sorte.
— Obrigada, você também — ela devolveu no mesmo tom, encarando os olhos do garoto de forma sagaz.
O silêncio se instalou por alguns longos segundos. Os dois queriam continuar a conversa mesmo que fosse para falar qualquer coisa. Ao lado os outros meninos conversavam sobre as expectativas para a nova temporada de kart. A maioria deles se conheciam desde muito novos, era inegável a intimidade que tinham. Charles e Pierre eram muito próximos, talvez por falarem o mesmo idioma e terem ainda alguma dificuldade com o inglês, no mesmo grupo ainda tinha George e Alex. Esses dois conhecia bem, também corriam nos campeonatos ingleses, eram extremamente focados e talentosos, mas também não tinham disputado campeonatos europeus, mas podia apostar seu rim esquerdo que Charles não os julgava por isso.
Por alguns segundos, desejou ter um grupo como aquele nas categorias que disputava. Queria ter meninas que também corressem para poder compartilhar o quão difícil era correr quando estava com cólica, ou como era horrível encarar o semblante de pena das pessoas quando a viam toda paramentada, mas era igualmente maravilhoso encarar o olhar de raiva dos pilotos que duvidaram dela quando subia no lugar mais alto do pódio.
Aos poucos, o grupo foi se dispersando. George e Alex foram embora depois da sobremesa, Pierre muito a contragosto teve de socializar com seus pais que apresentavam amigos importantes que seriam muito úteis no futuro.
Logo, na varanda barulhenta e com Monte Carlo toda iluminada naquela noite, sobraram só e Charles. A garota sabia que seu pai estava se divertindo pela primeira vez naquele fim de semana, estava cercado de adultos conversando sobre política, ações de bolsa de valores e todos aqueles assuntos que fingia que ouvia quando ele começava a falar, por isso decidiu continuar sentada mais um pouco naquele banco encarando o horizonte maravilhoso de Monte Carlo.
— Seu pai não entende nada de automobilismo? — perguntou o garoto de cabelos castanhos totalmente lisos e olhos claros, desacreditado depois que a inglesa pontuou como sua família lidava com o fato dela ter decidido por uma carreira tão diferente da deles.
— Não, ele mal gosta de dirigir, na verdade. —Ally deu de ombros e tirou os cabelos que insistiam em cair em seus olhos.
— Mas ele te acompanha nas competições? — perguntou confuso.
— Eu gosto de pensar que ele faz isso por mim, para estar mais perto, sabe? — A garota sorriu encarando os olhos claros do jovem piloto.
Charles já tinha ouvido os rumores que ela disputaria competições europeias no ano seguinte. Alex e George não paravam de falar sobre isso, era engraçado imaginar uma menina competindo com eles. Se tivesse pesquisado, talvez soubesse do quanto ela era rápida, esforçada e muito, mas muito estudiosa. Mas ele não tinha pesquisado, e por isso mesmo Charles sentia até um pouco de pena de , ela parecia tão frágil para aquele mundo.
— É um jeito de pensar. — Charles se aproximou mais dela. Era ridículo pensar o quão interessante aquela garota estava se tornando, ou poderiam simplesmente ser seus hormônios adolescentes falando.
— Eu acho que é o melhor jeito de pensar, porque quando eu correr em Mônaco e ganhar um pódio, eu vou saber que vou ter meu pai me aplaudindo — disse com tanta convicção que Charles realmente acreditou em suas palavras.
— Você é bem confiante, — retrucou com um sorriso no rosto.
— Acho que faz parte. Não consigo imaginar o Schumacher com medo de correr, ou o Senna com alguma dúvida de que um dia seria campeão. — Deu de ombros e voltou a encarar o mar a sua frente.
— Justo. — Levantou as sobrancelhas e lançou um sorriso simpático à garota.
Monte Carlo não era uma cidade silenciosa, principalmente em fim de semana de corrida. A música tocava alto naquele restaurante de frente para o mar, as pessoas falavam alto e o tilintar dos talheres era constante, se parassem para prestar atenção ainda conseguiam pescar uma ou outra conversa. Mas a atmosfera entre Ally e Charles parecia impenetrável desde que ficaram sozinhos na varanda daquele restaurante super caro.
— Por que está me olhando assim? — perguntou depois do que pareceu uma eternidade de silêncio entre os dois.
— Assim como? — Charles desviou o olhar sem graça.
— Assim, como se quisesse falar alguma coisa para mim. — por sua vez sustentou o olhar no garoto a ponto de perceber as pintinhas discretas perto do olho esquerdo de Charles.
— Você é muito bonita — sussurrou Charles não conseguindo encarar a garota.
Se ele tivesse olhado talvez perceberia a bochecha da inglesa corando violentamente. Nenhum garoto tinha dito aquilo para ela. Nunca.
Com a coragem que só Monte Carlo proporcionou, se aproximou mais de Charles. E com uma súbita coragem encostou seus lábios nos lábios do garoto. E ali aconteceu o seu primeiro beijo, com a cidade mágica de testemunha e umas tantas pessoas que nem ligavam para os dois adolescentes. O coração de batia violentamente rápido, e o de Charles não era tão diferente. Ele mal podia acreditar na coragem daquela menina, mas seu inconsciente agradecia por isso, ele nunca teria essa coragem.
De Clara Sinelli
(21) apareceu como uma luz natural e o ar refrescante do esporte, que sempre pareceu priorizar pessoas iguais.
Quando a jovem inglesa surgiu na Fórmula 2, não foi difícil prever que ela ganharia em seu primeiro ano, pois logo na primeira corrida conseguiu a proeza de subir no andar mais alto do pódio. não só ganhou o campeonato, como ganhou com muitos pontos de vantagem do segundo colocado, conseguindo assim uma vaga na categoria mais disputada do esporte a motor.
Mesmo com bons resultados, foi surpresa para todo mundo quando a equipe irlandesa McDonnell Racing Team decidiu apresentar como sua piloto no inverno de 2018. Chocou boa parte da imprensa especializada, que não acreditava em seu talento ou capacidade de disputar em pé de igualdade com os melhores pilotos do mundo. A menina de cabelos perfeitos, maquiagem sempre alinhada parecia destoar do ambiente de borracha queimada e carros velozes, chegando até a ser comparada com sua mãe, Liana , famosa apresentadora da televisão inglesa.
Mas mesmo com desconfianças, pela primeira vez na história tivemos uma mulher disputando um ano inteiro pela categoria de elite do motorsport e correndo bem. Nem seus críticos e, muito menos, os fãs mais desacreditados puderam negar que o primeiro ano de foi especial. Tivemos uma representante jovem que conseguiu pódios muito importantes na temporada, desbancando inclusive nomes consagrados do esporte. O talento de e o carro certo a fizeram, sem muita dificuldade, em 2019, conquistar pódios e pontos importantes na temporada, o que a fez terminar em quarto lugar no campeonato mundial de pilotos em seu primeiro ano na categoria.
trouxe consigo pouca experiência em entrevistas, mas um carisma inegável. Conseguiu o marketing certo para a equipe McDonnell Racing Team, que desde 2015 decidiu apostar em talentos femininos em todos os setores da equipe. E deu certo!
2020, no entanto, foi um completo fracasso para a inglesa. Resultados pavorosos na pista começaram a aparecer com frequência, e ela não podia culpar o carro, prova disso foi o segundo lugar de seu companheiro de equipe — Zachary Hawk — que contrasta com o seu frustrante nono lugar no campeonato.
A queda de rendimento de é visível. A menina que se tornou sucesso nas redes sociais, e uma espécie de símbolo feminino em um esporte machista, tem muito a provar ainda. E talvez seja hora de se preocupar menos com cabelos e delineados perfeitos e focar mais na pista.
Capacidade e habilidade tem de sobra, mas a jovem inglesa ainda tem muito o que provar. Com diversas inconstâncias e a arrogância típica de quem sempre ganhou tudo o que disputou, tem a obrigação de confirmar que não estavam errados a seu respeito.
Para quem é fã da Fórmula 1, é bom ver uma mulher que disputa pelo terceiro ano consecutivo a categoria mais rápida do automobilismo. No entanto, 2021 pode ser decisivo para , que precisa mostrar na pista que consegue competir com os maiores do mundo.
Quinta-feira era o último dia que tinha para ela — pelo menos quinta à noite, pois já tinha feito suas obrigações com os patrocinadores e com o marketing da equipe. Era também a semana do seu aniversário, não que tivesse muitos motivos para comemorar. Seu pai não tinha conseguido tirar a semana de folga do trabalho e sua mãe não se importava tanto com a data ou com ela. Seu irmão estava preocupado com a prova de residência na faculdade. A previsão só não era pior, pois Noah tinha conseguido o final de semana para passar com ela. Era melhor do que nada. sabia que não conseguiria dar toda atenção ao namorado, pois no dia seguinte teria os treinos livres, sábado a qualificação e domingo seria a corrida. Na melhor das hipóteses, ela iria bem na corrida e se sentiria minimamente confortável de procurar um bom restaurante para comemorar seus 22 anos em pleno domingo.
Mas tinha de pensar no agora e, naquele momento, estava parada em frente ao espelho do imenso quarto de hotel em Ímola, analisando se seu vestido não estava curto demais, o salto alto demais ou a maquiagem exagerada demais. Lia diria que não, ela mesma diria que não, Tom diria que não, qualquer pessoa razoavelmente sã diria que não, mas as fotos que já imaginava que vazariam diriam que sim. Principalmente por ela estar cometendo o crime de se divertir com os poucos amigos que tinha conseguido nesses anos de automobilismo para comemorar de maneira decente e antecipada o seu aniversário. Já conseguia até prever Clara Sinelli, a pedra italiana no seu sapato Louboutin, com a manchete: " esbanja glamour em bares italianos, mas decepciona na pista", sentia seus olhos arderem só de imaginar.
No entanto, a pilota inglesa não tinha tanto tempo para se martirizar, pois seu celular começou a apitar indicando que estava relativamente atrasada. E ela odiava estar atrasada. Pegou sua bolsa que estava jogada de qualquer jeito na cama, desbloqueou seu celular e sorriu antes de sair do quarto quando leu a mensagem de Lia a apressando.
O elevador não demorou para chegar no térreo e logo a inglesa pôde avistar seus amigos, todos perfeitamente arrumados e sorridentes. Lia tinha escolhido um vestido florido que combinava impecavelmente com sua pele naturalmente negra e sua maquiagem marcada. Tom por outro lado tinha apostado nas cores claras destacando seu físico perfeito. Faltava Zach e, se ela bem conhecia o piloto, não o veria pelas próximas duas ou três horas. Além de pontualidade não ser o forte do italiano, por algum motivo ele sempre chegava no meio das festas.
— Você está tão linda que eu poderia morrer agora — Tom exclamou assim que viu sair do elevador.
De fato, ela estava muito bonita com o vestido que valorizava sua cintura e colo, marcando as partes certas do corpo e com o tecido mais soltos no quadril. ficava muito bem de preto, era definitivamente sua cor. Diferentemente de outras pessoas, a cor dava mais vida para a garota, que estava especialmente espetacular naquela noite com o sorriso aberto e os acessórios certos.
— Só diz isso porque hoje é como se fosse o meu dia. — Mordeu os lábios em um sorriso sem graça. — E também não quer que eu acorde de ressaca amanhã.
— Pode apostar que sim, meu bem. — Entrelaçou os braços com os de e caminharam até a porta acompanhados por Lia.
— Não seja tão duro com ela, uns drinks não fazem mal a ninguém — Lia falou em um tom tranquilo tentando se equilibrar em um salto alto demais enquanto tentava acompanhar o passo e Tom.
— Isso é porque você não tem de lidar com o mau humor dela logo cedo e a pouca vontade de treinar que ela sente todos os dias — alegou Tom como se fosse óbvio.
conheceu Tom quando ainda era adolescente e procurava um preparador físico que a auxiliasse com as novas e muitas exigências que começavam a aparecer cada vez que progredia no esporte. Tom, ainda recém-formado, apareceu em sua vida no momento certo por indicação de um amigo de seu pai, foi amor à primeira vista. adorou o jeito despojado e criativo dos treinos de Tom, e o preparador físico adorou o humor meio torto e reclamão da inglesa. Não se largaram desde então. O rapaz acompanhou cada progresso, cada conquista de de perto e foi recíproco, um crescia com o outro. Tom se especializando cada vez mais em preparação esportiva de alto rendimento e realizando seus sonhos no esporte a motor. Iam se separar em alguns dias, quando Tom começaria mais uma especialização, então tentavam aproveitar juntos cada momento.
— Nossa, eu ainda estou aqui, por Deus. — revirou os olhos e agradeceu mentalmente quando seu carro apareceu no meio fio trazido pelo funcionário do hotel.
Iria dirigindo, é claro. tinha duas certezas em sua vida:
1. Ela só era ela mesma atrás de um volante.
2. Não se põe açúcar no chá em hipótese alguma.
Então não havia muita discussão quando o assunto era guiar um carro, exceto, é claro, quando bebia demais, mas eram poucas as vezes em que bebia demais. Nem em comemorações de pódios, campeonatos e muito menos aniversário, Noah costumava reclamar cada vez que ingeria qualquer quantidade de álcool.
O carro que ficaria à disposição da pilota naquele fim de semana logo apareceu e os três entraram rapidamente. O modelo era um Bentley Bentayga Hybrid. Para os leigos, era um carro preto muito luxuoso e extremamente confortável de duzentos mil euros circulando pela cidade de Ímola. Passavam por ruas estreitas normais para cidades de Bolonha e por catedrais que habitavam aquele lugar por mais tempo do que podiam calcular.
Tom estava no banco do carona e dominando o rádi,o assim como todas as vezes que os três dividiam um carro. Lia e apostaram o rim direito que que o preparador físico escolheria alguma música antiga da Madonna, nunca tinham conhecido alguém tão obcecado pela cantora.
— Alguém conseguiu falar com o Zach hoje? — perguntou Lia com o falso tom de desinteresse.
É engraçado como as pessoas podem ser previsíveis quando você convive muito tempo com elas. Até mesmo Lia, que era dona da beleza e confiança, podia ser previsível quando se tratava de Zachary Hawk. Por mais que tentasse soar profissional ao lado do piloto, sua voz falhava com muita frequência cada vez que estavam perto um do outro. Era até um pouco ridículo e também um milagre como Amelia Campos, a brasileira e chefe do grupo de comunicações da McDonnell Racing Team, ainda não tivesse percebido o descontrole de Lia ao lado de Zach.
— Por que o interesse? — perguntou arqueando a sobrancelha direita e com um sorrisinho esperto no rosto.
— Nenhum interesse. — Arregalou os olhos grandes e castanhos. — Apenas curiosidade. — Voltou seus olhos para o celular e não viu o sorriso debochado que e Tom trocaram.
—Você sabe como ele é, se marcamos às 19h é capaz que ele chegue lá pelas 21h. — Concluiu Tom.
Lia e não estavam erradas de fato, Tom colocou Crazy For You da Madonna para tocar e o breve caminho até o restaurante terminou nos últimos acordes da música. Realmente as pessoas eram previsíveis.
estacionou o carro próximo ao meio fio e sem pestanejar entregou sua chave para o valet sorridente, os três caminharam até a entrada do restaurante com cara de despojado e moderno, mas que facilmente arrancaria 15 euros em uma água. Uma atendente simpática os levou até a mesa bem localizada na esplanada com iluminação baixa, mas suficiente do local. A noite em Ímola estava fresca, mas não fria, nada que uma ou duas taças de vinho tinto não resolvessem.
— Eu adorei o lugar — disse assim que sentaram e puderam dar uma boa vista de olhos.
— Eu também, olha essa vista —Tom disse com o olhar encantado. O inglês estava acostumado com sua cidade natal sempre cinzenta, e cada chance que tinha de apreciar o céu aberto era momentos que aproveitava de verdade, talvez fosse a melhor coisa de viajar o mundo inteiro.
Ímola era uma das cidades preferidas de . O clima era sempre agradável, as atrações da cidade variavam da alegria das festas de rua para o aconchego de um bar desconhecido no centro. Era a mistura perfeita do que uma cidade deveria ser. Era sempre muito cheia de turistas, talvez fosse a parte ruim, mas a vista, a comida e o sotaque valiam a pena. A vista privilegiada que tinham naquele momento era mais do que poderia pedir. Naquela época do ano, o sol se punha mais tarde, então o céu alaranjado contrastando com as luzes dos postes que começavam a ser ligadas era simplesmente um espetáculo previsível de uma cidade grande, e a inglesa adorava.
— Sim, vocês escolheram bem o restaurante, quase que perdoo os bonitos pelo meu último aniversário — disse gesticulando exageradamente, mas com o sorriso de covinhas no rosto ao se lembrar do seu último aniversário.
— Você nunca vai esquecer essa história? — Lia revirou os olhos de maneira divertida.
— Na verdade não, às vezes acordo no meio da noite com medo de aparecer um palhaço bizarro embaixo da minha cama. — sorriu debochada deixando seu olhar passear pelo local.
— Você é tão dramática que me comove, Ally — Tom revirou os olhos.
O garçom logo apareceu com o pedido dos três, uma sangria tinta para Lia, um mojito para Tom e uma água saborizada para — qual é, ela estava dirigindo, afinal.
— Eu? Dramática? — dramatizou. —Vocês contrataram um palhaço para cantar parabéns para mim no meio de um paddock cheio de gente. Foi a maior vergonha da minha vida. E eu sou dramática?
— Em minha defesa, a Amélia achou que você ia adorar e nós mal nos conhecíamos na época. — Lia deu de ombros se desculpando. — Ela tinha lido em algum lugar que você gostava de mágica e palhaços.
Em 2019, quando entrou na McDonnell Racing Team, Lia fez questão de ficar responsável pela piloto, a orientando em como dar entrevistas, dicas de como se expressar melhor e a organizar sua vida. Contudo, por mais amigável que fosse a relação das duas ainda assim não tinha dado o clique, foi só depois do desastroso aniversário que as duas deram chance para uma amizade fora do paddock.
— É claro que sim, eu adoro exposições públicas envolvendo palhaços — retrucou irônica. — Quem não gostaria de receber uma surpresa dessas no meio do trabalho?
— Garanto que esse ano não vai ter nada parecido — Lia garantiu ajeitando sua franja. — Talvez um bolo, mas é só para postarmos nas mídias sociais da equipe.
A noite seguiu animada em meio a sangria, mojitos, águas com sabores e as últimas fofocas que rolaram nos bastidores da equipe. Jack Russel, o herdeiro da equipe irlandesa tinha sido flagrado aos beijos com a mulher de um ex-piloto. Um verdadeiro caos de que aparentemente Lia sabia todos os detalhes, pois teve de ajudar a equipe de comunicação a abafar a fofoca toda que se espalhou mais rápido do que a velocidade da luz no vácuo.
estava mesmo se divertindo com aqueles dois. Mesmo sem ter bebido uma única gota de álcool, era bom ouvir e falar de assuntos que não envolviam velocidade ou rendimento. Pensou que deveria sair mais vezes, já tinha quase 22 anos e agia como se um peso muito maior vivesse em seus ombros constantemente, o que de fato era verdade se considerasse que o trabalho de muita gente dependia do seu. No entanto, não parecia tão errado se divertir com seus amigos de vez ou outra. O maxilar de estava dolorido de tanto rir com os amigos que faziam imitações duvidosas das pessoas enquanto compartilhavam as histórias.
Tom já estava pra lá de Bagdá quando Zach chegou com aqueles olhos azuis brilhantes e o sorriso largo que era característico do rapaz. Claro, ele estava acompanhado, uma morena de sorriso contido e olhos bem escuros, mas talvez outros atributos se destacassem para o piloto. A mesma morena que tinha viajado com a equipe na etapa anterior e não tinha deixado Lia dormir por conta do barulho excessivo que ecoava pelas paredes não tão à prova de som do hotel. Lia cerrou os olhos quando os viu, trancou o maxilar de tal jeito que ficou com medo de precisar procurar um ortodontista às nove da noite.
— Parabéns, bella. — Zach se aproximou da mesa com uma animação de quem já tinha bebido algumas doses extras de álcool.
se levantou e abraçou o companheiro de equipe, que a pegou pelos braços e a apertou com entusiasmo. Podia sentir o olhar da morena queimando suas costas. Coitada, pensou a inglesa, não conhecia a mulher, mas queria sentar alguns minutos com ela e explicar o golpe que Zachary era. A cara de bom moço, o sorriso fácil e os olhos azuis enganavam fácil qualquer ser que respirava.
— Muito obrigada, Hawk. — sorriu sem graça quando se separou do abraço do italiano. Cumprimentou a modelo com um sorriso e o casal recém-chegado logo se aconchegou ao lado dos amigos.
O clima que antes estava ameno entre risadas e fofocas que rolaram pelo paddock ficou um pouco pesado, talvez por Lia se sentir um pouco ciumenta e Tom ter detestado a falta de sensibilidade de Zach em levar uma completa desconhecida para uma comemoração que ela não tinha sido convidada. E ? Bem, era adepta de vários macetes que foram desenvolvidos com o tempo, como: seu humor autodepreciativo, a dificuldade em confrontar pessoas e uma autoestima que variava entre ela ser a melhor do mundo e desacreditar de todos os seus feitos.
O trauma do aniversário passado reacendeu sua mente quando, no meio de uma conversa entre a importância de fazer uma skincare elaborada antes de dormir e a não utilização de produtos de qualidade duvidosa, Lia e a acompanhante de Zach começaram a se exaltar. Na realidade, o monólogo entre Lia e a morena, que por acaso se chamava Beatriz, parecia bem efervescente. percebeu que Tom queria pontuar sua opinião, mas logo era cortado pelas duas. Zach mal prestava atenção e a sua diversão naquele dia era sua bebida colorida com duas doses de vodka. Então usando seu macete de autopreservação decidiu que fugir seria uma boa escolha.
— Eu...é... eu vou ao banheiro, volto já — anunciou para espectadores que não estavam prestando atenção nela.
Caminhou a passos rápidos até o banheiro feminino e quis rir sozinha. O quão ridícula era sua vida? Não, ela não reclamava da sua profissão, por mais que não estivesse no melhor momento de sua carreira, nem reclamava de seus amigos, mas situações constrangedoras e aleatórias lhe perseguiam sem sombra de dúvidas. Pelo menos esse ano não tem palhaço, pensou.
Enquanto retocava sua maquiagem, que por sinal estava muito bem feita e alinhada, tinha de ser honesta consigo, se a noite estava prestes a ficar bizarra pela falta de noção de Zach, ao menos o seu delineado estava deslumbrante. Sorriu mais uma vez para si mesma no espelho, se admirando por breves segundos, e saiu do banheiro. Enquanto guardava o batom vermelho em sua pequena bolsa esbarrou com alguém. Um alguém de olhos verdes e cabelos bem melhores do que cinco anos atrás. Alguém que ela pouco falava no paddock ou durante qualquer momento de reunião entre pilotos. Charles. Charles Leclerc. O piloto monegasco que sempre a deixava nervosa por algum motivo irracional. O crush de boa parte da sua adolescência.
— Me desculpe — arriscou um pouco sem graça. Era ridículo, ela sabia, mas era inevitável.
— Sem problemas — o monegasco respondeu com um sorriso tímido no rosto. Era inevitável para ele também, não que percebesse.
O piloto estava especialmente bonito naquela noite com seus cabelos que desafiavam a etiqueta e estavam rebeldes, um terno preto que delineava bem seu corpo e um sorriso bem bonito. Particularmente o preferia mais despojado, com os tênis habituais, jeans e moletom, talvez até a bandana inseparável, mas não diria isso — aliás nunca disse, pois, dizer era admitir que passava um tempo considerável de sua vida reparando em como Charles se vestia, andava e falava, o que não era a completa verdade. Por exemplo, naquele momento, estava parada em frente ao monegasco o encarando de um jeito que poderia ser até considerado esquisito se ele não estivesse fazendo a mesma coisa.
— Bom, eu vou indo antes que a pré-comemoração do meu aniversário vire uma guerra... — Mordeu os lábios e fez uma careta debochada.
— Espero que sem palhaços dessa vez. — Riu da cara da inglesa quando ela fechou os olhos em lamentação.
Charles lembrava muito bem do último aniversário de , nunca tinha visto um show tão bizarro nos seus poucos anos como piloto. O palhaço contratado pela equipe de mídia tinha um ar assustador vestido todo de vermelho com detalhes em preto e a maquiagem não era colorida, era quase melancólica. Foi um "parabéns" triste cheio de balões e um bolo tão estranho que as pessoas que assistiam sentiram pena de , o que era bizarro se considerasse que era o dia do aniversário da menina.
— Eu também espero — concordou e encerrou a pequena conversa. Se despediu do piloto com um sorriso tímido.
caminhou até sua mesa com o sorriso ainda no rosto. Seu celular, no entanto, lembrou de apitar, escandalosamente se era permitido dizer. Abriu a bolsa no meio do caminho e desbloqueou o telefone quando viu que era uma nova mensagem de Noah.
"Ally, precisamos conversar. Chego no seu hotel em dez minutos..."
Tradições trazem em si o conceito de carregar fatos, lendas, histórias e costumes que são levados de geração para geração. O poder de uma tradição é tão forte em uma sociedade que repetimos costumes milenares sem nem saber o porquê. Tradições são tão reais e simbólicas que permanecem e não são questionadas. Aniversários desagradáveis eram uma tradição na vida de .
Poderia elencar sem precisar pensar muito o top 3 de aniversários desagradáveis:
1. Com 12 anos, ficou menstruada pela primeira vez no dia do seu aniversário. No meio de uma importante prova de kart, na frente dos seus colegas pilotos!
2. Com 15 anos, descobriu que o garoto que estava namorando também ficava com sua melhor amiga.
3. Com 20 anos, passou a noite no hospital depois de comer uma pizza estragada na sua festa de aniversário surpresa.
Todo aniversário tinha um ponto, no mínimo, incômodo no dia. Sua terapeuta a perguntaria se não colocando fatos desagradáveis numa perspectiva completamente aumentada. diria que não, que era realmente uma tradição. E como as tradições não podem ser quebradas, lá estava ela dentro de um quarto de hotel com seu vestido espetacular e olhando para parede enquanto seu namorado tentava encontrar as palavras certas para dizer o que ela já sabia. Mas não descartaria a hipótese de Noah ter voado dois dias antes para passar mais tempo com ela, ou, quem sabe, as coisas tenham ficado difíceis na faculdade e em casa e ele precisasse passar um tempo longe de Londres. Eram hipóteses credíveis e aceitáveis se seus pessimismos não levassem todos aqueles meses separados e com pouca saudade em consideração.
Quinze minutos antes, quando o encontrou no lobby do hotel, tentou parecer suave e decidida, mas aquela pose não enganava nem ela mesma. Sua ansiedade teimava em criar os piores cenários possíveis.
— Olha só quem chegou mais cedo — disse com o tom de voz suave ao notar que estava frente a frente ao namorado.
— Me desculpe por atrapalhar a sua saída com seus amigos, eu... eu não sabia. — Noah estava nervoso.
Era perceptível até para quem não o conhecia.
Seu sorriso era pequeno, seus dedos se esfregavam na palma da mão direita, Noah sequer conseguia olhar para a namorada.
— Não tem problema — se apressou em dizer. — Eu já ia voltar para o hotel.
Noah concordou rapidamente. Não era preciso ser um gênio para perceber que havia algo muito estranho entre Noah e . O casal estava junto há três anos e tinha construído uma intimidade que parecia real nos bons momentos, mas, naquele instante, os dois estavam completamente imersos em seus pensamentos enquanto o silêncio os fazia companhia. Dois meses atrás, os dois estariam comentando a última série que viram ou o quão bom tinha sido o último disco do Harry Styles. Apesar disso, aquele momento era preenchido por um silêncio escandaloso e quase doloroso de dois desconhecidos.
— Você viajou de Londres para Itália dois dias antes do combinado — começou se levantando da cama depois de não aguentar mais encarar a parede do quarto que, por acaso, estava com a pontinha do papel de parede descolando.
Se arrependeu por breves segundos quando notou o quão bagunçado seu quarto estava. Realmente, ela não era modelo algum de organização — o completo oposto de Noah, que era quase a Marie Kondo. Mas Noah nem notou o pijama jogado no chão ou a mala mal desfeita no meio do quarto, só se sentou na cama e encarou a namorada que estava em pé e quase estática em sua frente.
—Eu não sei como te dizer isso, Ally. — Desviou o olhar e respirou fundo.
Era nítido o nervosismo do rapaz. Não estava com um sorriso afetuoso ou com o olhar de quem sentia saudade. Sua voz não estava firme e seu tom de voz parecia incerto.
—Me dizer o que, Noah? — disse com a voz já embargada.
sempre foi muito sensível e, por mais que aparentasse ser confiante demais quando estava trabalhando ou respondendo perguntas ácidas de jornalistas, na sua vida pessoal, a inglesa sempre se permitia ser mais real.
— Eu vou dizer isso o mais rápido possível. — Mirou os olhos castanhos e expressivos da garota e continuou — Eu não consigo mais continuar te namorando, não dá.
— Eu não entendo, o que aconteceu? — respirou fundo tentando controlar seu coração que batia acelerado.
— Não aconteceu nada, eu simplesmente não consigo mais. — Bufou. — As coisas não são como eram antes e eu entendo isso. Eu entendo que você tem um compromisso com a sua carreira e, de verdade, eu respeito isso. — Sorriu triste. — Mas eu não consigo te ter pela metade, Ally. Eu preciso te dividir o tempo todo, e eu não consigo mais.
— Noah, você está terminando comigo? — perguntou o óbvio ainda desacreditada.
Os olhos verdes e costumeiramente claros de Noah estavam mais escuros, sua postura sempre confiante estava curvada e reticente. Era a decisão mais difícil que tinha tomado nos últimos anos de sua vida, talvez a primeira decisão difícil. Mas naquele momento era uma necessidade se sentir egoísta, era a vontade de ter seu espaço.
Conheceu ainda muito jovem e acompanhou cada vitória da garota, mas ter alguém tão maior do que você ao lado poderia ser sufocante. E Noah se sentia sufocado naquele momento por tudo o que a namorada tinha conquistado. Era difícil não tê-la durante jantares com seus amigos, sua presença em festas, não saber exatamente em que parte do mundo ou em qual fuso horário ela estava.
— Sim — respondeu. Lágrimas grossas rolavam por seu rosto.
— E agora? — perguntou , que tentava controlar suas lágrimas. Seus olhos ardiam por causa da tentativa.
— Agora vou torcer por você de longe, Ally. — O garoto levantou e parou em frente da agora ex-namorada.
não respondeu nada, apenas aceitou o abraço que conhecia muito bem. Não conseguia assimilar ainda que não teria mais aquela comodidade a que estava acostumada. Noah era essa pessoa que trazia uma sensação conhecida quando ela precisava fugir das suas difíceis responsabilidades, era seu lugar confortável. Era alguém que ela amava. Por isso foi tão difícil segurar o choro quando ele finalmente decidiu extravasar. Seus olhos estavam queimando e o buraco no seu peito só parecia ficar cada vez maior.
Era verdade que os últimos meses tinham sido difíceis. Quase não se viam pessoalmente e o relacionamento acontecia por videochamadas, mas não era justo dizer que não tentava. A garota tentava e muito fazer aquele relacionamento acontecer mesmo com os fusos malucos, ou com a necessidade quase obsessiva que tinha em ser cada vez melhor.
— Não é justo, Noah — disse tão baixo que o rapaz quase não ouviu. — Você não me ama mais?
— Eu te amo — o rapaz disse incerto e desfez o abraço. — Mas não consigo mais te ter de longe. Você ao menos se lembra da última vez que saímos com nossos amigos?
— Eu sei que estou vivendo um momento complicado, mas é também uma chance em um milhão. Você sabe disso, não sabe? — devolveu a pergunta em uma tentativa de se explicar.
Noah a abraçou de novo. Ele sabia que entrariam em uma espiral de acusações em pouco tempo e, de alguma forma, iriam se machucar mais. Ele sentia que precisava ir embora — tanto que sabia que tinha comprado uma passagem de volta para aquele mesmo dia.
— Eu preciso ir. — Noah se soltou dos braços de e sinalizou a porta.
Ele não ficaria mais tempo que o necessário, se conhecia muito bem para saber que mais cinco minutos e diria que aquilo era um mal-entendido. Mas não era, por mais que não tivesse certeza de sua escolha sentia que aquilo era o certo.
Bastava se lembrar da sua festa de aniversário que não compareceu porque estava correndo na Bélgica, ou as vezes em que ela desistiu de sair com seus amigos porque estava cansada demais por conta dos milhares de compromissos, ou os fins de semana em que simplesmente não existia tempo para um namorado. Noah deixou com lágrimas nos olhos e saiu depois de beijar sua testa de maneira fraterna.
se jogou na cama e se sentiu completamente inútil. Dessa vez o seu inferno astral estava se superando. Mal conseguia pensar em algo pior para acontecer no seu aniversário, mas não brincaria com a persistência e a criatividade do universo. Encarou o teto do quarto de hotel enquanto tentava não pensar em nada, mesmo sabendo que seria impossível.
Na sua cabeça, só passavam os treinos livres do dia seguinte, a qualificação de sábado e a corrida de domingo. Ela não podia fracassar de novo, era só a segunda corrida do ano, mas já sentia a cobrança cair sob seus ombros.
Com esses pensamentos rondando sua cabeça, entendeu Noah: era realmente difícil competir com sua paixão pelo automobilismo, ele nem deveria tentar. Não era justo com ela e, muito menos, com ele. Mas não se sentia egoísta, sempre deixou claro que sua carreira sempre estaria em primeiro lugar. Depois de três anos de namoro, ter suas decisões de vida sendo jogadas na sua cara não era tão fácil para quem via de fora. sentia-se insuficiente e incapaz. Afinal, como seus colegas conseguiam fazer essa dinâmica funcionar e ela não?
Tom estava eufórico na manhã daquela sexta-feira. Tinha bebido doses consideráveis de sangria na noite anterior, principalmente quando tinha decidido sumir da sua própria comemoração e o deixado com o show de horrores que foi Lia discutindo política econômica grega com a atual ficante de Zach para impressioná-lo. Beatriz ficou impressionada com a eloquência de Lia, ao mesmo tempo em que disparava palavras bem organizadas igual seu pensamento, mas o piloto italiano ficou pouco deslumbrado com uma briga intelectual por sua atenção. Em menos de 30 minutos, toda a diversão tinha tirado férias para bem longe daquele restaurante, então Tom bebeu sem medo de parecer exagerado.
— Bom dia, minha flor — Tom cumprimentou assim que a viu chegar na academia improvisada pela equipe.
Sexta-feira era dia de treinos mais leves e mais concentrados na boa performance, ou seja, alongamentos e exercícios para o pescoço e postura eram o foco. Sexta-feira também era um dia que Tom, enquanto preparador físico, passava horas consideráveis criando estratégias para melhorar a performance da sua atleta.
No entanto, ao notar Ally chegar logo de manhã, não foi difícil perceber os olhos fundos da amiga e a voz baixa quando ela o cumprimentou. Era palpável o seu desânimo.
— O que aconteceu? Por que está com essa cara? —Tom apertou os olhos e levantou a sobrancelha esquerda.
— Noah terminou comigo. — Suspirou e disse dando os ombros. — Ele viajou de Londres até Ímola só para terminar comigo. — Respondeu sem expressão alguma.
Foi uma noite horrível. só queria suar todo aquele sentimento ruim e esquecer que tinha uma vida pessoal. Focar na carreira era o caminho que seguiria daquele dia em diante.
— Como assim? Do nada? — A voz de Tom aumentou algumas oitavas. Ele estava claramente incrédulo.
Ele já tinha ouvido algumas tantas vezes o quão perfeito era Noah, por mais que não tivesse a mesma opinião. Nas poucas vezes em que se encontraram com o rapaz, ele tinha sido bem desagradável e o ignorado completamente. Tinha ouvido pouco sobre Noah nos últimos meses, era bem verdade, mas não os imaginava terminando de uma hora para outra, ainda mais tão perto do aniversário de . Que tipo de monstro ele era?
— Do nada, ele simplesmente disse que não aguentava mais me dividir com a minha carreira. — Soltou o ar de uma vez e se aproximou da esteira. Correr uns bons quilômetros faria bem para sua saúde mental e física.
— Não faz sentido — analisou Tom.
— Não faz, mas agora você vai fazer o seu trabalho direitinho e me deixar pronta para vencer a corrida no domingo. Eu estou cansada de as coisas só darem errado na minha vida. — Lamentou soltando um suspiro cansado.
tinha o dom para o drama. Aquele era um daqueles momentos, usaria o drama do término de namoro como se nenhum aspecto da sua vida estivesse dando certo e elevaria à máxima potência até conseguir um fôlego extra para alcançar o seu objetivo. Era um daqueles momentos que descarregar sua frustração amorosa nas pistas poderia ser útil. Afinal, é como dizem: sorte no jogo, azar no amor.
— Mas é isso que vamos fazer, minha flor —Tom disse em um tom quase paterno. — Eu sinto de verdade que esse vai ser o seu fim de semana, prevejo até um pódio. — Sorriu enquanto pegava o elástico.
— Que assim seja, eu preciso de um pódio, nem que seja para jogar na cara daquela jornalista ressentida com a vida — disse entre dentes enquanto se ajeitava na maca de exercícios.
Clara Sinelli, a jornalista ressentida com a vida, alimentava os instintos assassinos de . A italiana tinha um prazer oculto em colocar lentes de aumento em cada erro que a jovem piloto cometia na Fórmula 1, cada ultrapassagem mal calculada, cada largada atrapalhada, cada posição cedida lá estava para enfatizar seu erro no jornal. não achava que era a melhor piloto do grid, mas seu ego era pisoteado em pedacinhos cada vez que lia uma matéria assinada pela italiana.
— Você precisa de um pódio por você. — Tom arqueou as sobrancelhas e sorriu de lado.
bufou e não disse mais nada. Só obedeceu Tom, que fazia os alongamentos certeiros para evitar dores horríveis no pescoço e na coluna pós corrida. Como tinha imaginado, suar um pouco tirou um pouco do seu mau humor e cansaço.
Não pensou em mais nada também, pelo menos até sair da improvisada academia e andar até sua equipe, tendo de parar para uma ou duas entrevistas no caminho. Tentou colocar o seu melhor sorriso e evitar assuntos desagradáveis. Lia tinha sido uma boa media trainer, ensinando técnicas de entrevista e como sempre ser agradável, mesmo em seus piores dias.
Continuou andando e já podia visualizar o hospitality da McDonnell Racing. As cores azul e branco se destacavam enquanto notava alguém correr até ela.
— Por que saiu tão cedo da sua comemoração ontem? — Zach perguntou sem rodeios enquanto caminhavam lado a lado. não tinha parado para esperá-lo, mas tal qual nas pistas o italiano também era rápido.
— Meu namorado viajou de Londres para cá pra terminar comigo. — Deu um sorriso irônico. — Eu meio que precisei encontrá-lo.
Aquele era o primeiro estágio do término. A ironia que estaria presente pelos próximos dias sempre que alguém perguntasse sobre Noah era sua maneira de lidar e tentar não passar os próximos dias chorando. Os primeiros cinco dias eram os piores e todo mundo sabia disso.
— Sinto muito — Zach disse sincero. — Não sei como é terminar um namoro, mas deve ser horrível.
— É sim, mas vai passar assim que eu ganhar de você no domingo. — deu um sorriso esperto e piscou o olho esquerdo assim que chegaram no hospitality.
A sexta-feira de treinos estava só começando.
O cheiro de gasolina e o barulho dos motores funcionando, misturado com a torcida entusiasmada, fazia o estômago de qualquer apaixonado por automobilismo se revirar em euforia.
O paddock estava abarrotado de pessoas andando de um lado para o outro mesmo àquela hora da manhã. Charles passou sua credencial pelas catracas de entrada e cumprimentou algumas pessoas antes de chegar à garagem da equipe. Muito em breve começariam as classificatórias e todos pareciam agitados demais.
— Bom dia, flor do dia — Allegra cumprimentou com um sorriso largo no rosto assim que viu o piloto monegasco passar pela porta de seu quarto no motorhome da equipe.
Allegra era a assessora de imprensa designada para o piloto desde o momento em que chegou na equipe italiana. A napolitana era extrovertida demais e se destacava com facilidade no meio dos assessores mais sérios e tradicionais. Era fácil localizá-la nas coletivas de imprensa, era sempre a loira com acessórios demais no cabelo, uniforme vermelho sempre bem alinhado, mas com tênis coloridos e brilhantes que não combinavam em nada com o uniforme vermelho da scuderia. Naquele dia eram verdes.
— Que animação é essa? — Charles perguntou franzindo o cenho.
Ajeitou suas coisas em sua sala exclusiva e foi acompanhado pela animada Allegra.
— Depois de amanhã vou ter alguns dias livres para viver a vida que eu finjo que ainda tenho desde que comecei a trabalhar na equipe. — Deu de ombros como se sua afirmação fizesse sentido, o que foi acompanhado por um riso baixo de Charles.
— Ainda tem a corrida de amanhã, e pode dar tudo errado e aí teremos que passar essa semana em Maranello e... — ele começou o discurso com o objetivo de provocar a italiana.
— Nem começa, você vai ganhar essa corrida. O Carlos vai chegar na frente também e eu vou ter meus dias de folga mais do que merecidos. — Alterou o tom de voz deixando-a mais aguda — E durante esses dias você vai se comportar e não vou precisar apagar incêndio nenhum, que tal?
— Eu sabia que você me considera o melhor piloto da equipe e que secretamente me imagina ganhando sempre. — Piscou um olho e lançou um sorriso esperto para a garota.
— Vai se ferrar! — disparou já saindo da saleta. Arrumou a sua inseparável prancheta junto ao corpo e antes de fechar a porta disse: — Pequena entrevista com a SportingV do Brasil hoje, repórter nova, não deve fazer perguntas muito difíceis.
Charles sorriu quando Allegra fechou a porta e tentou acalmar seus nervos. Não era muito adepto de meditações ou concentrações guiadas, mas naquele momento, em que sentia o peso da responsabilidade em seus ombros, queria algum tipo de alento. O ano anterior tinha sido um fracasso em termos de desempenho e pontuações, e por mais que a equipe o tivesse em alta conta, ainda assim se sentia pressionado. Tentava aprender com os erros que tinha cometido, mas de um jeito ou de outro, estava cansado de cometer erros. A ansiedade em mostrar que era bom era grande demais.
Em uma tentativa de acalmar o frio na barriga que sentia, pegou o telefone e discou o número que já sabia de cor.
Um, dois, três, quatro toques depois e pode escutar a voz calma e serena da pessoa que o acalmava. Seu relacionamento com Georgia tinha tido muitos momentos conturbados durante esses anos, e talvez até tivesse começado um pouco torto, mas atualmente as coisas estavam funcionando relativamente bem.
— Bonjour mon amour, como está? — Georgia atendeu com a voz um pouco ofegante.
— Um pouco nervoso com as classificatórias — admitiu jogando a cabeça para trás encostando no pequeno sofá disponibilizado em sua sala.
— Você está preparado, não é como se não soubesse o que fazer — concluiu.
Do outro lado da linha, Charles conseguia ouvir pincéis caindo e chiados constantes enquanto a namorada falava. Ela estava trabalhando, decerto, então já sabia que a ligação seria curta. Georgia era uma competente artista plástica em formação que conseguia transformar tudo à sua volta em arte, além de ser uma modelo famosa, talvez até mais do que ele.
— Você tem razão. — Suspirou. — Bem, tenho de ir, só liguei para ouvir sua voz. — Finalizou.
— Boa sorte, mon amour. Vai dar tudo certo. — Desligou sem demora.
Por alguns segundos se sentiu egoísta: queria que Georgia lhe desse mais atenção, talvez a querendo por perto para poder conversar e desabafar as angústias que não falava com ninguém. Por outro lado, se sentia péssimo com essa carência toda fora de hora, principalmente porque sabia que ela estava trabalhando. Especialmente porque em breve ele estaria trabalhando.
Ouviu algumas batidas na porta e sabia que era hora de sair da caverna, colocar o sorriso confiante no rosto e fazer aquilo que tinha nascido para fazer: correr. Seu engenheiro principal o chamou e juntos começaram a repassar detalhes importantes das mudanças feitas, seu estrategista o acompanhava deixando claro seus planos para aquele circuito histórico e com muitas ultrapassagens.
Desde 2007, o circuito não fazia parte da categoria, o que gerava muita expectativa e ansiedade tanto dos torcedores quanto das equipes. Mesmo sendo bem treinado para não deixar aspectos externos invadirem sua concentração, era impossível não sentir o clima agitado do autódromo.
— Quero que preste atenção nas curvas 11 e 15, são mais fechadas e com possibilidade de grande trânsito — o estrategista disse com muita certeza enquanto indicava os equipamentos que Charles utilizaria.
Na pista, os carros da McDonnell Racing já faziam suas primeiras tentativas de tempo mais rápido. O carro de número de 90 — o de — corria com voltas mais rápidas do que seu companheiro de equipe. Talvez a inglesa tivesse um aniversário melhor afinal de contas.
Charles não tinha muito tempo para pensar nisso, colocou a balaclava, fechou o macacão, respirou fundo e entrou no cockpit. A adrenalina dos treinos classificatórios era bem menor do que um dia de corrida, mas mesmo assim a responsabilidade era enorme. O carro 16 saiu da garagem da Ferrari pronto para começar a primeira tentativa do dia.
Em dez segundos, o carro já atingia a velocidade máxima e passava pela curva 5. Diferente dos anos anteriores a potência do carro vermelho era melhor em retas, tudo parecia correr bem demais. Não havia muitos carros na pista ainda, era uma estratégia segura tentar voltas mais rápidas nos primeiros instantes. Afinal, os pneus precisam aquecer e, por mais conhecido que aquele asfalto fosse,era melhor saber que havia tempo suficiente.
Charles estava vivendo seu sonho e sabia, o que de certa forma o acalmava, mesmo que carregasse o sonho de muitas pessoas com ele.
— Está indo muito bem, Charles, mas pode acelerar sem medo depois da curva 9 — disse Paolo, o engenheiro chefe, pelo rádio.
— Tudo bem.
O carro estava com um bom desenvolvimento, não foi inesperado quando chegou com tempo necessário para passar para o Q2. Se desse sorte, chegaria ao Q3 com boas chances de pole position.
A classificação para a corrida terminaria em dois minutos, e Charles, Carlos, Hamilton e Zach disputavam o melhor tempo. Os carros da Ferrari saíram em vantagem no último minuto da corrida, deixando Hamilton e Zach para trás no Grid. A garagem da Ferrari era só gritos de felicidade, P1 e P2 era o melhor que podiam imaginar para aquele fim de semana.
— Parabéns Charles, P1 — o engenheiro confirmou.
O piloto levou o carro até o Grid e o posicionou em frente ao totem de número 1. Largaria em primeiro e poderia dormir bem melhor naquele dia. Mas ainda teria de enfrentar algumas entrevistas antes de poder ir descansar. Depois da pequena euforia da comemoração, Allegra chegou com sua prancheta colorida indicando com quais repórteres o piloto falaria, todos estavam empoleirados no pitlane com o objetivo de receber as mesmas respostas de sempre. Charles se direcionou para os repórteres seguindo Allegra que ia na frente e dava instruções básicas para repórteres afoitos.
— Boa tarde, Charles. Como se sente sendo P1 em Ímola, parece importante para a largada. — o sotaque francês do repórter se destacava em meio a frase, não que Charles não o conhecesse. O paddock era uma pequena cidade do interior onde todos se conheciam.
— Sim, sabemos como a pista de Barcelona funciona, sem sombra de dúvidas é uma grande vantagem largar em primeiro — respondeu com um sorriso pequeno nos lábios.
Algumas perguntas depois, Charles foi seguindo para outros jornalistas que estavam ali dispostos, televisão italiana, francesa, inglesa, uma combinação do mundo todo. Quando pensou que estava quase no fim, uma repórter que ele nunca tinha visto antes o chamou. Sua roupa arrumada demais para os padrões jornalísticos, o vestido florido e o blazer amarelo se destacavam mesmo que ela não quisesse.
— Sente que a pole de hoje é um novo ponto de partida para a Ferrari, visto que o carro apresentou um desempenho infinitamente superior nas retas e estabilidade maior nas curvas? — a repórter perguntou com um sorriso no rosto. Um sorriso confiante de que tinha feito uma boa pergunta.
— Na verdade, sim, é a primeira pole do ano e o carro tem apresentado um bom desenvolvimento — Charles respondeu trocando o peso da perna direita para a perna esquerda um pouco impaciente.
Allegra acenou para a jornalista querendo que ela terminasse a entrevista. Ainda tinha muita coisa para fazer antes que pudesse por fim poder descansar, fazer releases para a imprensa do mundo todo e, como tinha sido um bom sábado, não teria muitas páginas para digitar, tampouco explicações para dar. Ou seja, havia grande possibilidade de chegar antes das oito no hotel, pedir um vinho e, se estivesse de bom humor, ainda assistir uma série qualquer.
— Muito obrigada pela atenção, Charles e boa sorte amanhã — finalizou a jornalista desligando a câmera e abaixando o microfone.
— Obrigado — agradeceu Charles e seguiu seu caminho, não sem antes esbarrar em , que parecia um pouco frustrada ao julgar seu semblante tristonho.
Não teve muito tempo para acompanhar o resultado de seus colegas, mas tinha a vaga lembrança de ter visto na oitava colocação quando viu o resumo da qualificatória. Qualquer pessoa que entendesse alguma coisa do esporte diria que aquela posição era horrível, se fosse comparar com o quarto lugar conseguido por Zachary. Então ele entendia mais do que ninguém aquele semblante triste, principalmente ao saber que Clara Sinelli seria extremamente indelicada e faria as perguntas mais perspicazes e inadequadas para momentos de frustração.
sorriu para Charles assim que seus corpos se encontraram por conta da sua distração e seguiu até a imprensa sem olhar para trás.
— Walsh, como consegue explicar a classificação de hoje? — Ouviu a voz de Clara soar afiada demais, mas continuou andando.
Derrota, frustração, fiasco, desastre: todos sinônimos de como tinha sido aquele domingo. O ar condicionado frio no motorhome da equipe trazia desconforto, e se não bastasse, ainda tinha de lidar com o silêncio que vinha de todas as partes.
Diana White, a chefe de equipe, tinha chamado para conversar e ela sabia que era sobre seu desempenho. Afinal, não tinha sido convocada para a tradicional reunião pós corrida com todos os engenheiros, estrategistas e pilotos para discutir o desempenho catastrófico de horas atrás. sabia que tinha feito merda, sabia que tinha fracassado de novo, mas ter de encarar o olhar de desilusão de Diana era demais para ela. Tudo o que ela queria naquele momento era fugir dos seus problemas de maneira bem covarde, se jogando em sua confortável cama durante as próximas horas.
Enquanto se martirizava pelo resultado desastroso, Diana abriu a porta e chamou a piloto para sua sala que, apesar de pequena, era muito aconchegante.
A loira estampava um sorriso contido nos lábios. Diana White, além de ser a pessoa que organizava toda equipe, era também o seu maior modelo dentro de um esporte tão masculino. Na década de 90, a irlandesa foi uma promissora pilota que sonhava em conquistar o mundo. Ela tinha talento, muito talento, só não chegou à categoria principal do automobilismo porque, na época, houve uma grande polêmica por ela ter engravidado com 20 anos, o que acabou com suas chances de concorrer de igual para igual com outros pilotos depois de se tornar mãe.
— Não vou me alongar muito, . Você não está aqui para ouvir de todas as coisas que você já sabe.
Diana se apoiou em sua mesa encarando a jovem que estava sentada em sua frente. O tom de voz da chefe de equipe era calmo e quase sereno, como de alguém que já tinha passado por muitas frustrações dentro do esporte.
— Hoje você não fez o seu melhor trabalho, não foi a em que apostamos e acreditamos que um dia vai chegar ao título — continuou. —E eu, sinceramente, não sei o que está acontecendo com você, mas eu gostaria muito de tentar entender. — Disse em um tom quase maternal.
suspirou fundo e, mais do que nunca, quis sair correndo, mas ela não era assim. Desde pequena, tinha aprendido a enfrentar seus problemas de forma corajosa. Aprender com seus erros sempre foi um traço de sua personalidade, no entanto, ultimamente se sentia muito inferior, mesmo que tivesse chegado onde sempre quis estar. Tudo parecia fora de ordem, sem controle e, mesmo que quisesse, não sabia explicar o que de fato estava prejudicando seu desempenho. O automobilismo era um esporte cruel, nem sempre dar o seu melhor era garantia de sucesso, por isso, não podia explicar exatamente o que estava acontecendo.
— Eu me sinto uma fraude. Não sinto que mereço estar aqui e eu vou entender completamente se a equipe decidir não me apoiar mais. — Suspirou mais fundo, não se deixando chorar em frente à sua chefe, seria embaraçoso demais. — Sinto que, por ser mulher, eu não posso ser medíocre. Não posso ficar feliz por chegar em quarto lugar em uma corrida, porque isso já é um resultado ruim. Eu preciso ganhar sempre pra ser levada a sério. Estou cansada dessa cobrança, estou cansada de não poder me irritar com medo das pessoas dizerem que meu temperamento é ruim.
Pela primeira vez, desde que saiu de dentro do cockpit, se sentia mais leve. sabia que não deveria ter sido tão sincera com sua chefe. Afinal, seu contrato terminava no fim do ano e expor de forma tão crua o quanto não sabia lidar com cobranças externas não era nada bom para quem deveria mostrar profissionalismo.
— , eu entendo a sua exaustão. — Soltou um suspiro resignado e continuou. — Eu vejo o jeito que os outros pilotos te tratam como se você fosse frágil, como se tivessem que tomar cuidado sempre que você está por perto. Eu vejo tudo isso porque também sou mulher, eu também já fui a única mulher dentro de um grid. — Riu sem humor. — Você não precisa ser forte o tempo todo e nem precisa ganhar sempre, mas eu te conheço, , e sei que você não se contenta com pouco.
— Eu só preciso me encontrar de novo.
Reconhecer o que faltava era uma coisa, mas mudar de atitude demandava muito trabalho interno. Sua cabeça não parava de reviver as memórias dos momentos que sucederam sua curta corrida.
Assim que chegou na garagem da equipe, foi seguida por Lia, que tinha o cronograma de suas próximas ações. Infelizmente, isso incluía entrevistas. seguiu até o pit lane e encarou os jornalistas afoitos por uma declaração, a maioria caras conhecidas até demais. Respirou fundo e ouviu a primeira pergunta.
— O que aconteceu logo na largada? — perguntou o jornalista de olhos azuis e cabelos desgrenhados.
— Preciso ver as imagens, mas pelo que pude ver dentro do carro, Max estava um pouco afoito com a ultrapassagem e as coisas não correram muito bem — finalizou sem seu habitual sorriso de entrevista que consistia em ser o mais educado possível mesmo nos piores momentos.
— A sua sequência desta temporada não está favorável para você. Zach tem ficado várias vezes na sua frente, o que prova que o problema não é o carro. O que pretende mudar para a próxima corrida?— Clara Sinelli, a jornalista italiana, perguntou sem muitas papas na língua, com um pequeno sorriso confiante no canto da boca.
Clara por si só era intimidadora, seus cabelos bem pretos com os olhos marcados cor de café davam medo à primeira vista e à segunda também. Seu tom de voz sempre arisco e pronto para disparar perguntas ásperas eram o conjunto completo das noites mal dormidas dos atletas.
— Com certeza há mudanças substanciais que precisarão acontecer para a próxima corrida, no entanto, não posso fazer uma avaliação agora. — tentou não soar raivosa demais, uma manchete falando do seu humor era tudo o que ela não precisava no momento. — Mas melhorar as largadas pode ser um bom começo.
Respondeu mais três perguntas e pode por fim seguir para o box para terminar de acompanhar a corrida que, como já imaginava, não estava competitiva. Delyon provavelmente ganharia, podendo comemorar o seu primeiro pódio da temporada. Ele conseguia defender a posição como ninguém, era quase um alento poder acompanhar o monegasco construir a sua carreira. Talvez não fosse certo dizer que torcia por outro piloto, mas essa regra tinha sido quebrada algumas vezes, com Zachary na maioria das vezes, e com Charles em ocasiões suficientes para conhecer aspectos da sua carreira.
Só que acompanhar corridas no box era horrível, pois faltava a agitação que seu corpo sentia em cada curva ou reta rápida demais, faltava a emoção da ultrapassagem, era como se tirassem uma parte de quem ela era. Podia observar os olhos dos mecânicos cheios de expectativas e absolutamente todos focados na transmissão da corrida.
sentiu-se novamente com quatorze anos assistindo às corridas pela televisão com seu pai e seu irmão, tendo que explicar cada ultrapassagem para os dois enquanto sua mãe a olhava com um semblante de puro horror. De alguma forma, sentiu falta de casa, dos domingos em família, da implicância constante do seu irmão e do abraço do seu pai cada vez que ia muito mal em uma corrida. Por alguns segundos ela o quis ali.
— Vai ficar tudo bem — Tom sussurrou em seu ouvido, se aproximando devagar da inglesa.
— Eu sei que vai — respondeu rapidamente, sem desviar seus olhos da corrida.
Conforme sua previsão indicava, Delyon chegou em primeiro lugar, seguido por Hamilton e Zachary. A equipe estava em completa euforia, afinal era um pódio em um circuito bem difícil. acompanhou toda a comemoração do companheiro de equipe, que estava em puro estado de euforia, o que a fez rir de um jeito sincero pela primeira vez no dia.
Mas logo foi chamada para uma conversa privada com Diana White e todas as suas inseguranças decidiram se fazer presentes. Contudo, estar sentada ali naquele momento, com uma mulher tão forte e que sabia tanto do esporte que ambas amavam, mas que era tão cruel na maioria das vezes, era como se ela tivesse tirado um peso de suas costas. A frustração ainda estava ali e a sensação de fraude também, mas era bom poder compartilhar com alguém que já tinha sentido na pele todas aquelas sensações.
— Agora vai aproveitar o seu aniversário, só se faz 22 anos uma vez na vida — Diana finalizou com um sorriso no rosto, confiava no potencial dos seus pilotos e sabia que não adiantava ficar horas conversando com alguém que tinha muitos assuntos internos a se resolver.
saiu do motorhome da McDonnell com o corpo mais leve. O clima italiano lembrava um pouco Londres, o que era uma pena para aquele domingo. Queria aproveitar o começo da noite em um clima mais ameno. Talvez até chamasse Tom para beber alguma coisa, mesmo sabendo dos horários restritos do preparador físico. Não arriscaria Lia, pois tinha a total certeza que ela trabalharia até tarde. Eram grandes as possibilidades de passar o aniversário sozinha.
— Hoje não é um dia bom, mas é seu aniversário. — Zachary passou os braços pelos ombros da companheira de time assim que a viu cruzar o paddock sozinha.
O paddock já não estava cheio de pessoas circulando por todos os lados. Jornalistas já se preparavam para deixar o lugar e o que lugar que antes exalava euforia, alegria e apreensão agora parecia um pouco mais calmo. Zach estava acompanhado de Charles, que estava com o maior sorriso do mundo. Não era de se estranhar, afinal mesmo depois de todo o caos que foi a corrida, o monegasco tinha conseguido o lugar mais alto do pódio de um jeito quase heróico.
— Hoje definitivamente não é um dia bom. — suspirou alto dando de ombros.
— Vai ter uma festa hoje no bar do hotel, não vai ter muita gente e você vai ser minha convidada. — Apertou os ombros da inglesa com delicadeza e direcionou um sorriso reconfortante.
— Eu não sei se é uma boa ideia — murmurou desanimada, encarando os dois colegas de profissão.
— Não é errado se divertir um pouco — Charles falou um pouco desconfortável por ser intruso em uma conversa que não era sua. e Zachary eram amigos há muito tempo e tinham uma conexão forte. Era muito difícil se intrometer na conversa dos dois sem se sentir estranho.
— Está vendo? Até o menino Charles concorda comigo, você nunca se mistura e nem vai às festas, não vai ser uma hoje que vai perder a pose de boa moça. — O sorriso de Zach estava tão aberto que ninguém negaria nada para ele naquele momento.
Zach tinha um poder de convencimento maior do que seu ego. Talvez fosse seu sorriso sempre tão alinhado ou aqueles olhos azuis cristalinos que convenciam uma pessoa a fazer o que ele pedisse sem hesitar em meio segundo. E esse era um daqueles momentos, diria sim para a festa só porque olhou aqueles olhos lindos e convincentes.
—Tudo bem, mas não prometo ficar mais de uma hora nessa festa — disse entredentes e recebeu um sorriso animado de Zach.
O rapaz, mesmo não sendo muito mais alto do que ela, bagunçou seu cabelo do jeito irritante de um irmão mais velho.
— Não pediria mais do que isso, Walsh. — Zach se afastou dando uma piscadela para a colega e seguiu para cumprimentar cada pessoa que passava deixando um par de pessoas desconfortáveis sem saber o que falar ou como agir.
— Bem, é... Então até mais tarde — murmurou desconcertada para Charles, que andava ao lado dela sem saber exatamente o que fazer ou se falava alguma coisa. Talvez desejar feliz aniversário?
Zachary também tinha esse dom: aproximar pessoas! Era sempre assim, Zach era a cola que unia grupos, juntava pessoas diferentes num mesmo lugar e depois sumia acreditando no potencial do seu trabalho de união.
não demorou cinco minutos para se arrepender: ela era péssima em festas e a prova era aquele momento constrangedor.
2020 foi um ano tão merda que Charles nem lembrava mais como era comemorar um pódio — talvez nem soubesse mais como comemorar. Sorte que tinha amigos que sabiam bem como.
Pierre e Zach eram os melhores exemplares de amigos que sabiam como comemorar uma vitória. Os dois estavam sempre dispostos a organizar, em tempo recorde, qualquer coisa que envolvesse bebida e muita conversa furada. Poder finalmente extravasar toda a euforia daquela tarde, regada a amigos e bebidas, era o que ele precisava para deixar a bagunça da temporada anterior para trás. Em seu íntimo, sabia que merecia aquela noite. Ele era um cara que não vivia de passado e tentava a todo o custo aprender com seus erros, mas a vida agitada e cheia de responsabilidades também o fazia esquecer que ele era apenas um jovem, que merecia curtir um pouco o que a vida tinha a oferecer. Por isso, naquele domingo pós corrida, se deu ao luxo de não pensar no dia seguinte e simplesmente aproveitar o presente.
Já passava das oito da noite quando chegou no bar do hotel. Não estava cheio, mas se analisasse bem, muitos dos rostos estavam no paddock horas atrás trabalhando. Até seus amigos que não tinham ido tão bem na corrida estavam ali. Aparentemente, o sentimento de viver enquanto ainda se podia estava presente na cabeça de todos os presentes, dos engenheiros sempre carrancudos aos mecânicos sempre concentrados.
Charles seguiu até o balcão onde as bebidas estavam sendo servidas e logo pôde avistar seu amigo talvez mais antigo no esporte — Pierre Gasly. O francês não tinha ido tão bem naquela corrida, mas naquele ano, o jovem piloto estava dando seu máximo e basicamente tirando leite de pedra do carro da Alpha Tauri, que com toda a certeza não era o melhor do grid. Sentia pelo amigo, afinal conhecia seu potencial e sabia que tudo o que o francês precisava era de mais confiança e um carro melhor.
Pierre tinha sido o encarregado da vez de levar bebida até a mesa onde todos estavam acomodados. Deu graças a Deus quando viu Charles se aproximar, ao menos faria uma viagem só.
— Finalmente — exclamou. — Me ajuda a levar essas bebidas para a mesa.
— Trabalhando de garçom? — questionou em tom de brincadeira.
— Perdi uma aposta, vai ser a noite inteira assim. — Torceu a boca e ofereceu três garrafas de cerveja ao amigo, que entendeu exatamente qual seria seu papel.
— Você precisa parar de apostar com a Aimeé. — Charles revirou os olhos dizendo óbvio.
A relação de Pierre e Aimeé vivia à base de apostas desde que se conheceram aos quinze anos. A primeira aposta deles foi Aimeé a responsável. Em troca de um beijo, a francesa queria que Pierre ganhasse uma corrida. O piloto nunca se esforçou tanto para ganhar uma corrida.
Alguns meses depois, Pierre apostou com Aimée que a pediria em namoro se ela ganhasse dele no Fifa. A francesa sabia que ele o faria de qualquer forma, mas mesmo assim se dedicou por um mês inteiro pedindo dicas para Charles e descobrindo os pontos fracos do ainda não namorado, e mais uma vez, Aimeé ganhou.
— Em minha defesa, eu realmente achei que conseguiria assistir O Senhor dos Anéis sem dormir — finalizou sem entrar em mais detalhes.
O bar, apesar de não estar tão cheio, estava animado por conta da música latina que tocava em um volume não ensurdecedor, o que facilitava a conversa das pessoas presentes. As luzes baixas propiciavam o clima aconchegante junto com as velas na mesa. Mas se de fato quisesse animar aquilo, precisaria beber quantidades consideráveis de álcool.
Ao se aproximar da mesa, pôde notar que todos já estavam alegrinhos. A namorada de Pierre conversava animadamente com Allegra, que também já estava sorridente demais, certamente aproveitando sua folga que tinha recém começado. Quando Charles e Pierre chegaram com as bebidas, as meninas não esconderam a animação, o que fez Charles rir.
—Parabéns pela corrida, Charles — Aimée disse com o tom de voz mais alto. — Mas nada de ajudar seu amigo com as bebidas. Se ele conseguisse ficar acordado não precisaria de ajuda. — Mordeu os lábios em provocação enquanto encarava o semblante irritadiço do namorado.
— Vocês precisam parar com essas apostas — Allegra se pronunciou deixando seu semblante mais sério.
Conversaram algumas amenidades com os pilotos que começavam a chegar e sentar junto deles. Os chefes de equipe também tinham sido convidados, mas já dizia o ditado: os olhos não veem o coração não sente, logo era muito melhor saber o quanto menos das festas de comemoração.
— Olha só quem chegou — Pierre disse um pouco mais alto para sua voz ser ouvida. Todos olharam em direção à porta sem fazer muita questão da discrição.
Com um vestido preto comportado e um salto que deixava ela ainda mais elegante, estava . A piloto que nunca participou das festas pós-corrida mesmo as que ela ganhava. era o exemplo a ser seguido, a menina perfeita que nunca cometia erros. Sempre falava as coisas certas nas entrevistas, nunca se exaltava e a queridinha dos patrocinadores, era até irritante.
Mas ali estava ela, mais bonita do que nunca e com um batom vermelho marcante nos lábios, pouco lembrava a pessoa sempre focada, organizada e séria do paddock. Acompanhando a jovem, estava Zach com seu sorriso habitual de quem sabe o que está fazendo, e de fato sabia. Ao contrário de , o piloto era figurinha carimbada em qualquer comemoração que acontecesse entre os pilotos, o verdadeiro arroz de festa.
— A princesa decidiu sair do castelo? — Allegra disse em um tom surpreso.
parecia perdida e até um pouco incomodada, fazendo pouca questão de esconder.
— Zach merece todos os pontos por isso, quem diria? — Pierre respondeu com um sorriso esperto no rosto.
— Eles estão juntos, tipo, em um caso? — Aimeé questionou enquanto brincava com sua cerveja que já estava pela metade, esperando que alguém pudesse esclarecer a dúvida que parecia realmente ser importante naquele momento.
— Só se tiverem um relacionamento aberto, porque a namora com aquele rapaz que tem cara de nojo… — Allegra não terminou a frase, mas nem era preciso. A fama do namorado de o precedia.
— Isso é verdade, mas se ele conseguiu tirar a princesa do castelo, alguma coisa tem aí —Pierre disse com um tom de voz mais baixo como se fosse segredo.
— Hoje é aniversário da . — Charles revirou os olhos e se intrometeu naquela mesa-redonda da fofoca. Estava tão absorto em sua cerveja que nem tinha percebido todos os olhares surpresos se virando para ele.
Charles era péssimo com datas, seu próprio aniversário ele esqueceria se não fosse os parabéns que recebia no dia. Ele se lembrar do aniversário de outra pessoa era realmente estranho para dizer o mínimo.
— Pelo menos não teve palhaços esse ano — Allegra recordou o bizarro episódio do ano anterior mudando de assunto rapidamente quando percebeu que Charles ficou sem graça com toda a atenção que estava recebendo.
— Palhaços? — Aimeé arregalou os olhos surpresa sem conseguir imaginar uma comemoração de alguém com mais de 12 anos envolvendo um palhaço.
E então começaram a explicar para a menina a desastrosa surpresa que a equipe irlandesa tinha feito para . Era inacreditável como cada um lembrava de um detalhe bizarro. Como o palhaço de maquiagem assustadora, o parabéns cantado com a voz rouca de um fumante de 90 anos, a cara de puro horror que fez na hora.
Mas Charles não prestou atenção na história que Allegra e Pierre contavam com uma riqueza incrível de detalhes. O monegasco só conseguia olhar para a piloto inglesa, que trocava palavras com Zach enquanto bebia sua long neck de um jeito absurdamente sexy. Não era segredo para ele mesmo o quanto ele a achava talentosa, inteligente e muito bonita, mas para o resto do mundo era, e por mais que tentasse o seu olhar sempre dava um jeito de procurá-la quando estavam no mesmo ambiente. Era até um pouco irritante a quantidade de vezes que aquilo acontecia desde que se conheceram na adolescência.
Ao notar estar sendo observada, encontrou os olhos de Charles e lançou um sorriso sem graça, um sorriso que o rapaz já estava acostumado a receber sempre que a encontrava no paddock ou em algum compromisso profissional. Eles não conversavam com muita frequência — na realidade, poderiam até numerar a quantidade de vezes que tinham trocado palavras desde que a inglesa tinha ingressado na Fórmula 1, com certeza não passava de dois dígitos. Zach acompanhou o olhar de encontrando Charles e os outros amigos, puxando a mão da companheira de equipe e se direcionou até a mesa mais bêbada e animada do bar.
— Não seria festa se você não viesse, não é mesmo, Zach boy? — Aimée disse com um sorriso aberto no rosto assim que viu o italiano chegar com sua aura festeira de sempre.
A verdade é que a francesa estava tão bem inserida naquele grupo, que além de ser namorada de Pierre, era também uma parte essencial de qualquer comemoração. Aimée era despojada, engraçada e muito, mas muito extrovertida, o que era quase que o completo oposto do namorado.
— Já cheguei, já podem tirar essa cara de tédio do rosto — respondeu Zach já se sentando no lugar vago da mesa.
só quis ser uma avestruz naquele momento, seu rosto estava quente, tamanha era a vergonha que sentia. Não era como se não conhecesse ninguém, afinal trabalhava com esses caras há pelo menos dois anos, porém aquele não era um ambiente de trabalho, as pessoas estavam mais soltas, divertidas e bêbadas. Cumprimentou todos com um sorriso tímido no rosto e se sentou no único lugar disponível da mesa — ao lado de Charles, que trocou um olhar amigável com ela.
— Soube que hoje é seu aniversário, . Meus parabéns. — A francesa tomou a frente e foi a primeira da mesa a falar com a garota. deu um sorriso em sua direção e agradeceu as felicitações, logo todos desejavam os melhores cumprimentos à inglesa.
Aos poucos, a inglesa foi se entrosando sempre porque Aimeé a incluía na conversa. O bicho de sete cabeças foi ficando menor para a garota. Naquele momento, Charles desejou que Georgia estivesse por perto, a namorada fazia falta em seus momentos de comemoração. Apostava que ela estaria se divertindo ali visto que conversava Allegra e Aimeé de forma cordial, não o acusaria de ser deixada de lado, e foi só pensar na namorada que sentiu seu telefone vibrar. Era ela. Se afastou da mesa que estava agitada, comentando sobre a fofoca da vez do paddock — aparentemente, um dos engenheiros da Williams tinha descoberto que a noiva o estava traindo com um mecânico da McLaren e os dois acabaram saindo no soco na quinta—feira.
Charles se dirigiu até a área externa do bar para atender Georgia. O clima fresco da Itália e aquela noite calma de domingo só fez com que o rapaz desejasse ainda mais a namorada naquele momento.
— Parabéns, mon amour — Georgia disse com a voz manhosa. — Quando você volta para casa para a gente comemorar? — Se apressou. Charles sabia do pavor da namorada em falar ao telefone. Sempre era sucinta e direta ao ponto, por isso não estranhou a pressa.
— Meu voo é amanhã de manhã, devo chegar a tempo de almoçarmos juntos. — Se apoiou no balaústre daquela imensa varanda.
— Estou com saudades — disparou. — Espero que esteja aproveitando sua noite.
— Estou no bar do hotel com uns amigos, estamos bebendo e jogando conversa fora — disse em um tom mais comedido como se não fosse nada demais.
— Amigos, é? Conheço por acaso? — perguntou interessada.
— Os de sempre, Pierre, Aimeé, Allegra... — respondeu enquanto passava as mãos pelos cabelos.
— Hum... — murmurou contrariada. — Zach? — Questionou mesmo que já soubesse a resposta.
Georgia odiava Zach com todas as forças. Sempre que se encontravam, a francesa fazia questão de deixar isso bem claro, Charles não sabia como esse ódio tinha começado. Se lembrava claramente da festa dos pilotos do ano anterior, em que a namorada passou a festa toda com a cara fechada só por estar no mesmo ambiente que o italiano.
— Sim, ele veio acompanhado da — comentou despreocupado.
— Que milagre é esse? nunca se mistura com vocês, não sabia que eram amigos. — Sua voz ficou mais aguda.
— Eles só apareceram, acho que Pierre os chamou, não tenho muita certeza — Charles disse com um suspiro.
Confraternizações após um pódio eram comuns quando se tinha a vida tão agitada estando cada final de semana em um país. Por mais que viajassem o mundo, não era como se de fato aproveitassem a experiência, por isso cada oportunidade de relaxar um pouco era aproveitada com sucesso. Porém, o que Charles não gostava era de dar explicações de coisas que estavam fora de seu controle, e Zach e estavam nessa lista. Não podia excluir Zachary de qualquer confraternização porque Georgia não gostava dele, tampouco que mal saía do seu quarto de hotel em seu tempo livre. Então não, não diria que fora ele quem tinha organizado aquela pequena festa no bar do hotel e convidado despretensiosamente o piloto italiano que tinha decidido de última hora aparecer com uma acompanhante com todo o seu aval.
— Entendi — Georgia disse a contragosto, Charles a podia imaginar revirando os olhos e até fazendo algum tipo de birra. Ele não era burro e sabia que ela não estava nem um pouco feliz com a presença dele naquela festa.
— Amor, não vou ficar muito tempo, preciso dormir cedo. — Ponderou suas palavras.
— Não tem problema, aproveite sua noite.
Sabe aquela vontade de não ficar mais em um ambiente porque sabe que vai arrumar confusão com a pessoa que você gosta? Pois é. Charles sentia exatamente isso naquele momento. De repente dividir uma cerveja com os amigos enquanto comemorava uma conquista pessoal e jogava conversa fora não parecia tão interessante quanto cinco minutos atrás.
— Só mais uma cerveja e vou para a cama — finalizou com um suspiro. Desligou o telefone segundos depois e aproveitou um pouco da brisa da noite italiana.
Não gostava de parecer ingrato, sendo que tudo o que sonhou até o momento tinha conseguido, mas era inegável que sua rotina de trabalho entrava em conflito com sua vida pessoal mais vezes do que gostava de admitir. Se perguntava repetidas vezes se era o melhor amigo, filho ou namorado para as pessoas que amava e diversas vezes ficava sem resposta para essa pergunta tão simples. Sinceramente, não queria pensar nessas coisas, ele deveria estar feliz pela sua primeira vitória no ano, e não se lamentando pela vida que não poderia ter.
Charles guardou seu celular no bolso e voltou para a mesa do bar. O reggaeton que tocava já não era tão agitado, mas aparentemente ninguém reparava, Allegra e conversavam animadamente e Zach e Aimeé estavam apostando quantas cervejas cada um conseguiria tomar em dois minutos, tudo sob o olhar atento de Pierre.
— Namorada? — Pierre se aproximou do amigo ao perceber sua feição preocupada.
— O mesmo de sempre. — Bufou cansado.
— Já sei que vai começar a se culpar e nada disso vai resolver — pontuou. —Só aproveita a noite hoje, não é tão difícil fingir ser uma pessoa normal.
Charles riu da frase do amigo olhando ao seu redor, todos pareciam felizes. Talvez não fosse difícil fingir ser uma pessoa normal, mesmo com milhões de perguntas não respondidas em sua cabeça.
A cabeça de girava mesmo ela tendo tido o cuidado de não ultrapassar o limite saudável das taças de vinho tinto e as garrafas de cerveja. Suas pernas estavam moles e seu corpo inteiro parecia uma pluma. Definitivamente estava bêbada, no dia do seu aniversário, no dia em que tinha tido um resultado pavoroso nas pistas. Com certeza seria motivo de muito desgosto para sua mãe, que sequer tinha tido a decência de dar um telefonema para sua filha mais nova. sempre soube que nunca conseguiria suprir as expectativas da poderosa Liana , pois sempre foi a filha que gostava de esportes masculinos demais, não entendia nada sobre balé ou falava francês perfeitamente.
Só que sua cabeça girava demais para pensar naquilo, decerto seus traumas maternos não seriam bem—vindos àquela altura, principalmente quando estava no banheiro de um bar quase às traças, sendo amparada por uma pessoa que tinha conhecido duas horas atrás.
— Eu acho que é hora de parar por aqui — Aimée se pronunciou depois de algum tempo em silêncio.
Aimeé tinha bebido quantidades consideráveis de álcool a mais do que a inglesa, mas seu organismo aparentemente era mais resistente do que o de e Allegra, que estavam pálidas, enjoadas e com a feições de quem iam vomitar a qualquer momento. A relações públicas da Ferrari já tinha vomitado duas vezes, mas não parecia normal e tentava controlar sua respiração com o objetivo da sua cabeça parar de girar.
No entanto, toda desgraça adorava uma companhia: não bastasse o estado e o cheiro de álcool por todos seus poros, a porta do banheiro se abriu e entrou a última pessoa que queria lidar naquele momento.
Com um sorriso no rosto, cabelos perfeitos e saltos muito finos, Clara Sinelli invadiu o espaço com sua soberba de sempre.
Sem dizer uma palavra, a jornalista entrou em uma das cabines livres, não sem antes disparar um olhar de julgamento para a piloto, olhando-a dos pés a cabeça. Fez o mesmo com Allegra, que tremeu com a possibilidade de não parecer profissional o suficiente mesmo que estivesse em seu horário de folga. O cheiro do perfume caro de Clara tomou conta de todo o banheiro e a fragrância adocicada só piorou a situação de e Allegra, que sentiram em sincronia seus estômagos revirarem e uma vontade súbita de vomitar. Se a teoria da sincronicidade menstrual era verdade, aparentemente a empatia de duas mulheres bêbadas também era.
Aimée se equilibrou em seu salto e tentou ajudar da melhor forma que conseguia. Fez uma avaliação rápida e percebeu que estava em pior estado, segurou os cabelos longos e castanhos da menina pela terceira vez naquela noite, enquanto a inglesa só tinha vontade de chorar por ser fraca demais para o álcool. Estar abraçada a um vaso sanitário em um bar de hotel não era seu melhor momento, principalmente depois dos acontecimentos dos últimos dias.
— Eu só queria esquecer esse final de semana — murmurou com a voz rouca prestes a chorar.
Aimée soltou uma risada baixa e seguiu para analisar o estado de Allegra, que estava na cabine ao lado com os olhos fechados. Clara saiu da cabine e deu mais um olhar de julgamento para , que por um segundo pensou em responder algo que seu senso crítico se culparia no dia seguinte, mas estava fraca o suficiente para formar frases coerentes de ódio. fez o que pode fazer naquele momento: retribuiu o olhar da jornalista e a encarou até ela sair pela porta do banheiro com sua postura inabalável.
— Ok, vou levar as duas para o quarto, não há a mínima possibilidade de eu deixar vocês em um lugar tão público como esse... — Aimée se aprumou e disse calmamente enquanto ajeitava seu cabelo.
— Eu queria começar a minha folga em alto estilo — Allegra se pronunciou com a voz arrastada e lenta.
— Meu namorado terminou comigo três dias antes do meu aniversário — confessou de repente com a voz chorosa que só uma bêbada poderia proporcionar.
Empatia, compreensão, entendimento ou afinidade, todos sinônimos do mesmo sentimento que só os banheiros femininos de um bar, doses extras de álcool no sangue e experiências iguais permitiam. E foi exatamente isso que Allegra e Aimeé sentiram naquele momento, a sensibilidade perante a um relacionamento que tinha terminado há tão pouco tempo de maneira traumática e pouco preocupada com o outro.
— Pode falar... — Allegra se arrastou até a inglesa e nesse momento as três estavam sentadas no chão do banheiro como se fossem velhas amigas.
— Não tenho o que falar, só acabou. — deu de ombros levemente, ainda sentindo sua cabeça girar.
— Mas vocês não estavam juntos há, sei lá... três anos? — Aimeé questionou enquanto se ajeitava melhor entre e Allegra.
Não era segredo o namoro da piloto, todos no paddock e fora dele conheciam o rapaz meio nerd, com óculos de hastes grossas e com semblante de quem não queria estar ali. Também não era segredo que não era uma visita apreciada nas poucas vezes em que ele acompanhava a corrida, mas ninguém sabia explicar muito bem o motivo. Aimée tinha a opinião de que Noah parecia blasé demais, passando sempre a impressão de que era muito melhor do que todos ali. Era bom demais para vestir calças jeans e tênis esportivos, ao contrário disso, ele sempre aparecia com sua calça de alfaiataria e cabelos sempre bem penteados com gel.
— Sim, três anos de namoro e ele decidiu que não conseguia me dividir com o meu trabalho. — Bufou. — Três anos de namoro para ele terminar em menos de quinze minutos em um quarto de hotel.
— Meu último namorado pediu para a mãe dele terminar comigo — Aimée confessou jogando a cabeça para trás em claro sinal de frustração, mesmo sabendo que seu último namoro antes de Pierre tinha sido a quase dez anos atrás.
— Como assim? — reagiu com uma feição de espanto.
— Pois é, términos são horríveis, eles doem por mais que a pessoa não mereça. Os primeiros cinco dias são a pior coisa que pode acontecer com a gente, mas depois passa e a gente percebe que dá para sobreviver — a francesa terminou e deu de ombros como se realmente entendesse muito sobre términos de relacionamento.
— E se não passar posso te apresentar alguns amigos que seriam uma boa distração — Allegra concluiu com um sorriso espertinho no rosto.
— Pelo amor de Deus, tudo o que ela não precisa agora é de homem — Aimée disse com uma quase indignação enquanto franzia o cenho.
— É, eu preciso mesmo focar na minha carreira, fazer os bons resultados acontecerem logo. — suspirou cansada.
sentia—se no meio de uma comédia romântica com baixo orçamento para contratar um bom roteirista. Não que desgostasse da presença das meninas, na verdade, era bom ter alguém com quem conversar especialmente no dia do seu aniversário, mas aquela cena era tão clichê que nem o mais cético dos seres humanos poderia negar. nunca se imaginou sentada no chão sujo do banheiro de um bar depois de ter se embebedado com pessoas que trabalhavam com ela e mais, conversando sobre sua vida com pessoas que tinha acabado de conhecer. Era a versão de de uma comédia romântica sem a parte do romance, e por mais que seu coração estivesse em pedacinhos naquele momento, era bom ter com quem compartilhar.
— Não acho que estou no melhor momento da minha carreira, e participar de festas não me distrai o suficiente desses problemas. — Continuou encostada na parede fria sentindo seu corpo relaxar perigosamente.
— Eu não sei como é estar na sua pele, mas lido com pilotos há tempo suficiente para saber que fases ruins acontecem, e que depende muito de como você lida com elas —Allegra pontuou depois de alguns segundos.
— Eu sei, mas tudo parece estar desmoronando. Cometo erros consecutivos na pista, meu namorado terminou comigo esse fim de semana e minha mãe não me ligou no meu aniversário, ou seja... acho que é mais do que uma fase ruim. — desabafou tentando evitar chorar na frente de desconhecidas. — E agora acho que falei demais, não é? — Franziu o cenho se arrependendo logo depois, pois sua cabeça começou a girar.
— Meu chefe é um machista do caralho e promoveu o sobrinho dele que não faz metade do que eu faço e ganha mais do que eu — Aimée disparou com um toque de raiva na voz.
— Eu só quero ter uma semana de folga sem me importar com o que a dupla sertaneja da Ferrari vai fazer, porque eu tenho um encontro depois de dois meses na seca total e irrestrita.
— Dupla sertaneja? — franziu o cenho.
— Charles e Carlos, eu os chamo assim quando eles me irritam — Allegra respondeu com um sorriso de lado.
Se faltava alguma coisa para o perfeito clichê de comédia romântica depois da fala de Allegra já não faltava mais nada. e Aimeé não conseguiram segurar as risadas que surgiram não ligando para a cabeça doendo ou para o enjoo que estava fraco, mas ainda existia.
Não era difícil imaginar que acordaria na manhã seguinte com uma ressaca horrível. Lamentou—se imensamente assim que ouviu batidas insistentes em sua porta às dez da manhã. Assim que abriu e viu Lia com o sorriso aberto de sempre, desejou nunca ter bebido todas aquelas taças de vinho, pois se bem conhecia a amiga, ela não lhe daria sossego até chegarem em Londres sãs e salvas.
— Sua cara está horrível — Lia disparou assim que viu com os cabelos castanhos desordenados e com olheiras visíveis.
— Saí com Zach e acabei bebendo vinho demais. — voltou a se jogar na cama cobrindo seu rosto com o pesado edredom branco.
Lia soltou uma risada baixa e se sentou na ponta da cama. O quarto da inglesa ainda estava bagunçado com roupas espalhadas por todo o canto e consideráveis embalagens de doce no chão. Com toda a certeza não era um exemplo de organização.
— Você? Saiu para beber com o Zach depois de uma corrida? — Lia perguntou alarmada. Aquela era uma mudança considerável de postura.
— Eu bebi vinho demais, Aimeé e Allegra me acompanharam até o quarto e aparentemente contei todos os meus dramas para pessoas que eu nem conheço. — tirou o edredom do rosto e notou Lia realmente chocada com aquelas informações.
— Primeira vez em três anos que te conheço que estou realmente impressionada, mas não temos tempo para isso. Em uma hora precisamos estar no aeroporto.
levantou da cama com a coragem que não tinha e, com a ajuda de Lia, arrumou sua mala. Não via a hora de estar em casa, com suas coisas e todo seu drama. Já tinha se acostumado a viajar o ano inteiro para países completamente diferentes, mas voltar para casa sempre seria a melhor sensação do mundo, principalmente depois de um fim de semana desastroso no trabalho. Dessa vez seria diferente, Noah não estaria a sua espera para contar como tinham sido os últimos dias na universidade ou descrever sobre como o fim de semana com os amigos no golf tinha sido divertido, no meio do jantar que ele prepararia, a confortaria pelo resultado ruim da corrida e diria um pouco dos seus dias mais difíceis na universidade. Dessa vez, seu apartamento estaria vazio e sem o cheiro de sabonete que invadia todo o espaço quando ele estava presente. Só dessa vez seria horrível voltar para casa.
Não demorou muito para Lia, Tom, e todo o resto da equipe chegarem ao aeroporto. Cada um seguiria para um lado, a maioria para o Reino Unido, mas só Zach e ela estavam com a cara da derrota por causa da bebida. Contudo, não era só a McDonnell Race Team que se preparava para ir para casa, diversos funcionários da Ferrari também, então o aeroporto de Bérgamo estava coberto das cores vermelho e verde. O engraçado era saber que, em menos de dez dias, todas aquelas pessoas se encontrariam de novo em outro país para uma nova etapa e se dependesse da maré de má sorte que cercava com resultados não muito diferentes.
— Não perguntei antes porque achei indelicado com sua ressaca, mas o que aconteceu depois que saiu do autódromo ontem? — Tom se ajeitou melhor nas cadeiras desconfortáveis da área de embarque e direcionou seu olhar curioso para que mantinha seus olhos fechados coberto pelos óculos escuros grandes demais para seu rosto.
— A bonita saiu para beber com Zach, tomou vinho e demais e desabafou com estranhos — Lia respondeu com uma pitada de julgamento na voz.
Lia estava curiosa e com uma pitada de inveja da noite de , não por causa das coisas que a inglesa ainda nem tinha esclarecido, mas por nunca concordar com suas noitadas por achar que são arriscadas demais para sua imagem. Por Deus, Lia era relações públicas da equipe e dos pilotos, ela sabia todos os macetes para se divertir sem ter que arcar com consequências midiáticas.
— Mais ou menos isso, Zach achou que eu estava triste demais por causa da corrida e o meu namoro fracassado, saí para beber com ele e alguns outros pilotos — murmurou, sua cabeça ainda doía.
Durante os seguintes quinze minutos, explicou com uma riqueza de detalhes tamanha que se sentiu Eça de Queiroz escrevendo Os Maias. Tom era o mais curioso, querendo saber detalhes irrelevantes sobre o cardápio do bar do hotel ou como os pilotos se comportavam perto de suas namoradas, Lia por outro lado era mais objetiva soando ciumenta quando comentou sobre Aimeé e Allegra. A inglesa riu com as interjeições da amiga, pois ela sabia de onde vinha aquela atitude, mas sabia como Lia poderia ser ciumenta, principalmente depois de saber que outra pessoa ocupou o cargo de confortá—la depois de um término.
Antes que tivesse de explicar como era a decoração do bar ou como o sotaque de Pierre era charmoso demais depois de duas cervejas, escutaram o auto falante do aeroporto que fez a primeira chamada para o voo com chegada em Londres. Calmamente, foram caminhando em direção ao portão de embarque. ajeitou sua mochila nos ombros e o capuz em sua cabeça com a clara tentativa de se esconder, os amigos caminhavam com mais rapidez a frente. Seus passos eram lentos, mas ritmados tanto que mal percebeu quando seu corpo se chocou com outro que com rapidez a segurou pelos braços impedindo que os dois caíssem no chão.
— Está tudo bem? — O sotaque carregado francês se sobressaltou sobre as vozes altas e agitadas do aeroporto. E pela primeira vez naquela manhã pareceu sóbria.
— Vou ficar. — direcionou um sorriso sem graça para Charles enquanto ajeitava sua mochila nos ombros. — Mais duas horas de sono e vou ficar bem. Muita água e glicose e vou estar nova em duas horas.
O monegasco deu uma risada contida, não conversava muito com , mas em todas as oportunidades que tinham tido a chance ou acontecia um pequeno desastre ou ela falava coisas sem sentido.
— Talvez ficar longe de vinho tinto também seja uma boa ideia — Charles respondeu com um sorriso travesso.
espelhou o comportamento do rapaz e quis por alguns segundos conversar mais com o piloto, mas seu olhar se encontrou com o dos amigos que estavam mais à frente com sorrisos maliciosos no rosto.
Portimão, Portugal.
— Muito bom, . — Pelo rádio a inglesa ouviu o engenheiro com a voz calma de quem tinha acabado de sair de um spa. Tinha terminado o terceiro treino livre na quarta colocação, com certeza o seu melhor resultado no ano.
Dez dias passaram rápido demais. Nesse meio tempo, Lia visitou seus pais em Bolton, Tom ajudou a reorganizar sua dieta e exercícios diários, inclusive se inscrevendo junto com ela em um grupo de zumba só por diversão e para tentar ajudar a amiga a sentir menos falta de Noah, que odiava dança.
Terminar um relacionamento era difícil por vários motivos, mas se deparar com você mesma, seus gostos e preferências era penoso demais depois de um relacionamento longo. Nos dias em que passou longe do trabalho, teve algumas crises de choro por não saber se preferia sorvete de limão ou morango, pois passou tempo demais com Noah pedindo sempre o mesmo sabor nos restaurantes. Nesse dia, Tom teve que ir ao apartamento da amiga munido de diversos sabores do doce e, junto com ela, decidiram quais sabor ela gostava mais, não era morango e nem limão.
Mas o martírio de ter de lidar com um término, pelo menos, tinha acabado no momento em que pisou em Portugal. O país sediaria o próximo GP, o que era a oportunidade perfeita para melhorar seus resultados. Pelo menos, foi isso que ela decidiu assim que chegou ao autódromo de Portimão: seria uma nova com resultados positivos e menos reclamona.
Era sexta—feira e os treinos livres já tinham acabado, estava naquele momento sentada dentro do cockpit correndo como nunca. A sensação de alta velocidade e adrenalina era o que a trazia de volta a vida. Na pista não lembrava de namoros fracassados ou das suas derrotas pessoais, na pista podia ser ela mesma, sem medo de parecer tímida demais, ousada demais ou alguém que deve se desculpar por gostar do que gosta. Então, no momento em que ouviu seu engenheiro a parabenizando pelo desempenho, pôde sentir que tudo estava de volta aos eixos.
Assim que saiu do carro e tirou seu capacete e a balaclava ficou claro que estava no caminho certo. Viu Lia se aproximar com sua habitual prancheta e gravador, aquilo só poderia indicar que seu dia ainda não tinha terminado.
— Como é possível seu cabelo continuar bonito depois de ficar uma hora com esse capacete? — perguntou franzindo o cenho como se aquela fosse realmente a pergunta importante do dia.
— Não me faça perguntas difíceis — respondeu descendo metade do zíper do macacão. — Eu só queria voltar para o hotel agora.
— Eu sei, meu anjo, mas temos agendadas pequenas entrevistas com dois canais ingleses e prometo que em menos de duas horas eu te libero. — Lia sorriu mostrando todos os dentes sabendo a possibilidade de as entrevistas durarem um pouco mais.
seguiu para seu motorhome onde se ajeitou minimamente, trocou de roupa, fez uma maquiagem bem básica e colocou o tradicional uniforme da equipe, ou seja, camisa branca com detalhes em azul royal e uma calça jeans preta. Lia já a esperava do lado de fora e foi dando indicações de como a entrevista seguiria, aquilo que poderia falar e como responder do melhor jeito.
— Hoje aconteceu uma coisa interessante. Clara Sinelli apareceu me dando indiretas sobre uma certa piloto inglesa que se divertiu demais na Itália e acabou bebendo tanto que vomitava sem pudor algum no banheiro do bar do hotel.
Lia com suas sobrancelhas impecáveis e traços marcados e valorizados pela maquiagem disse com o tom de voz que era conhecido por como "ferrou geral". Esse tom de voz havida sido usado duas vezes com : a primeira quando a inglesa esqueceu o aniversário da amiga, e a segunda quando não foi convidada para um show exclusivo do Harry Styles com direito a foto e uma possível, mas não confirmada, troca de telefones entre o cantor e a piloto.
— É realmente uma história incrível. Você deveria lembrar a Sinelli que ela é uma jornalista esportiva e não de fofoca. — Deu de ombros com um sorriso debochado no rosto.
— E foi exatamente o que eu disse — respondeu no mesmo tom.
— O quanto eu vou ter de falar sobre esse assunto com a imprensa? — perguntou tentando não soar preocupada, seria a primeira vez que algo do tipo sairia na mídia e sabia que aquilo tinha algum potencial de arranhar sua imagem.
— Nada. — Lia deu de ombros enquanto analisava alguns papéis. — Consegui que a Sinelli não publicasse nada, mas tudo o que eu te peço é um pouco mais de cuidado.
Lia direcionou seus olhos grandes e castanho para e disse em seu tom quase maternal. Muitas vezes esse era o papel da assessora, e por mais que Lia odiasse precisava pontuar com frequência que era uma pessoa pública e que deveria ter alguns cuidados quando saía. Chegaram a uma pequena sala com uma vista privilegiada para a pista e encontraram o jornalista britânico de sorriso fácil.
xx
Já passava das sete da noite quando pôde voltar para o hotel. Tinha tido uma boa reunião com a equipe, analisou seus resultados e estava confiante para a qualificação do dia seguinte, além de ter dado todas as entrevistas agendadas para o dia, Lia ainda ficaria horas a fio organizando as redes sociais da equipe junto com alguns mecânicos e engenheiros que finalizaram o dia analisando os últimos dados.
caminhava com Tom ao seu lado, o preparador físico iria dirigindo até o hotel, o que causou certo desconforto na inglesa, mas aquele não era um dia de discussões e sim de aceitar a vitória daquele dia. Mas seu telefone tocou, era sua mãe, decidiu ignorar a ligação, mas se bem conhecia Liana ela ligaria insistentes vezes até atender como se o mundo girasse em torno da sua urgência.
— Mãe, está tudo bem? — perguntou a inglesa depois da quinta ligação seguida enquanto andava a passos lentos até o carro.
— Está sim esquilinho, marquei de te entrevistar segunda—feira às 14h00, esteja pronta, sim? — Liana perguntou com a voz habitualmente suave.
Liana era um grande nome da televisão inglesa, tinha um programa de atualidades que misturava culinária, entrevista com especialistas de diversas áreas, música, cinema e todo o tipo de variedades. A mulher de quase cinquenta anos era um sucesso de público, arrebatando tanto as donas de casa quanto mulheres que trabalham fora e também o resto da família. Liana também era mãe, mas para essa era sua pior função, pelo menos para ela, que era a filha caçula que nunca supriu com as altas expectativas da mãe.
— Mãe, eu já te expliquei que existe uma hierarquia, você precisa conversar com a equipe de comunicação da McDonnell primeiro. —Suspirou cansada, sabendo que Lia comentaria se sua mãe tivesse de fato agendado uma entrevista.
— Não preciso conversar com ninguém para entrevistar minha própria filha, era só o que me faltava. — Riu sem humor e um pouco impaciente.
— Precisa quando sua filha é uma piloto de uma equipe grande de automobilismo — retrucou também cansada. Sua mãe tirava toda a sua energia.
— Esquilinho, já está tudo certo para eu te entrevistar na segunda-feira, só preciso que esteja em Londres e que estude um pouco sobre Síndrome de Burnout em atletas...
— Por qual motivo eu preciso estudar sobre isso? — perguntou com a voz mais arisca já imaginando como aquela conversa se desenvolveria.
— Por que mais seria? Acho que se relaciona um pouco com o que está acontecendo na sua carreira... — disse com um tom de obviedade.
respirou fundo três vezes antes de responder. Imaginou os melhores mantras que a yoga a tinha ensinado, mas mesmo assim só quis desligar o telefone imediatamente para que toda aquela conversa com sua mãe não a desviasse do objetivo daquele final de semana.
— Mãe, não acho que me encaixo nessa pauta — respondeu com agressividade enquanto acelerava os passos e entrava no carro. Tom estranhou a entonação de voz mais agudo e alto. — Acho que pode encontrar outros atletas que ficariam imensamente felizes em participar do seu programa.
— Não seja assim, . — esbravejou. — Você nunca participou do meu programa.
Talvez porque eu só tenha sido convidada para falar sobre: dificuldades em entender etiquetas sociais, porque as mulheres não querem casar e aparentemente atletas que lidam com o alto nível de exaustão, falta de energia e resultados ruins no trabalho, pensou , mas ao invés disso, apenas suspirou e disse que não estaria em Londres na segunda—feira. Era mentira, seu voo estava programado para domingo a noite, mas estava disposta a passar uma semana inteira em Portugal se fosse para fugir da sua mãe e seu programa esquisito de televisão. Principalmente por conta de tudo que envolvia estar perto de Liana, as entrelinhas dando a entender que ela poderia desistir a qualquer momento do seu sonho e que o ambiente no paddock não era para uma mulher como ela, que não precisava ficar cercada de cheiro de gasolina, borracha queimada e principalmente aquele macacão horrível que Liana destacava em toda e qualquer conversa. tinha a impressão que sua mãe preferia que ela fosse casada com um piloto de fórmula um e não uma mulher que dirigia carros a 300 quilômetros por hora como profissão.
— Não penso que seria uma mais—valia para seu programa, mãe. — Fechou os olhos e apertou sua têmpora com certa pressão exagerada.
— Não seja boba, .
pôde imaginar sua mãe revirando os olhos igual fazia toda a vez que considerava alguma de suas falas idiotas demais.
— Sinto muito, mãe. Quem sabe da próxima? — disse assim que chegou ao carro, encostou seu corpo no capô antes de finalizar a conversa.
Liana desligou o telefone, recomendando que a filha tivesse muito cuidado com a alta velocidade que corria e dizendo que ela tinha que ligar mais vezes para o seu pai.
A piloto entrou no carro e toda a felicidade que sentia antes, se dissipava na mesma velocidade em que o carro avançava pelas ruas da cidade portuguesa. Tom tentou puxar assunto, mas sabia que quando o assunto era a mãe da piloto muitas vezes o melhor era ficar quieto. Nem colocou suas habituais músicas da Madonna, e sendo assim chegaram ao hotel em pouco menos de vinte minutos que só não foi em total silêncio pois a chuva começou a cair forte na cidade portuguesa.
A chuva que caía na cidade de Portimão era proporcional à tristeza que sentia naquele momento.
Sua mãe sempre foi um assunto delicado em sua vida e toda vez que ela aparecia era a mesma coisa. Mas daquela vez parecia pior, porque se sentia fracassada. Tinha sido um bom treino livre, mas toda sua confiança, ou falsa confiança, se esvaía toda vez que lembrava de todo o julgamento de Liana . Se fosse honesta consigo mesma conseguia encontrar razão em algumas das falas de sua mãe, ultimamente o esporte que mais amava trazia mais frustração do que esperança.
entrou no elevador se sentindo um pouco mais aliviada quando se percebeu sozinha pela primeira vez nas últimas oito horas. Respirou fundo e permitiu que as lágrimas entaladas em seu peito rolarem livremente, mas como uma piada do destino alguém se apressou em entrar no elevador, nos últimos segundos de porta aberta.
As portas do elevador fecharam rapidamente e Murphy com suas leis caóticas decidiu brincar com a inglesa e a sensação de solidão atingiu em cheio no mesmo momento em que Charles adentrou o ambiente. A inglesa só queria sua cama quente e um cobertor que a cobrisse de si mesma. Não demorou muito para que o elevador parasse e as luzes começassem a piscar. Era tudo o que faltava, pensou Charles. , no entanto, não conseguiu segurar mais o choro e simplesmente desabou. As lágrimas começaram a rolar sem controle como se precisassem sair naquele exato momento.
— Você tem medo de lugares fechados ou algo do tipo? — A voz de Charles soou com um leve toque de desespero por não saber o que fazer.
não conseguia responder nada, simplesmente continuou chorando como se aquela escuridão lhe desse permissão para ser quem era, para desabafar a relação materna desastrosa e o fracasso de seu namoro recém terminado. Sem a resposta da piloto, o monegasco ficou ainda mais nervoso, não sabia lidar com pessoas chorando. Aos poucos foi se aproximando na inglesa, quando já estava perto o suficiente apoiou suas mãos no ombro de tentando acalmá-la fazendo um leve carinho não querendo parecer invasivo demais.
— Vai ficar tudo bem — disse o mais calmo que conseguiu — Foi só um pequeno apagão, certamente o hotel vai resolver isso o mais rápido possível.
Não conseguia ver direito as feições de , mas sentiu quando a menina afastou suas mãos por um breve segundo para logo o abraçar o pegando de surpresa. A inglesa simplesmente se jogou em seus braços e sem pudor o entrelaçou em um abraço confortável.
O cheiro dos cabelos da inglesa eram conhecidos, como se ela não tivesse mudado de xampu desde que se conheceram anos atrás. Em uma sensação conhecida, o rapaz passou seus braços pelos ombros da inglesa. Charles não era muito mais alto do que e para um primeiro abraço poderia dizer que tinha o encaixe perfeito se os dois tivessem pensado nisso.
O abraço não durou muito, pois seria demasiadamente embaraçoso. confessaria se sentir imensamente confortável e acolhida, ao passo que Charles, realmente surpreso com a atitude inesperada, demoraria algum tempo para declarar o porquê tudo pareceu tão certo.
caiu em si e se desenroscou de Charles assim que se deu conta do que fazia e secou as lágrimas que rolavam livremente por seu rosto.
— Desculpa, eu não sei o que me deu, só.... Desculpa. — Sua voz saiu entrecortada e um pouco tímida.
— Não precisa pedir desculpa, é normal sentir medo... — Charles respondeu docemente tentando passar algum tipo de conforto.
— Eu não estou com medo, é só que... As coisas estão complicadas demais...
Talvez a escuridão tivesse dado coragem para Charles ou fosse só a curiosidade mesmo, mas quando viu já estava interessado demais no que a garota tinha pra dizer.
— Complicado tipo bater o carro com mais três pilotos por causa de uma desatenção idiota? — perguntou com um tom irônico. Mais cedo, Leclerc tinha se envolvido em uma batida quase cinematográfica, e era só o treino livre.
— Complicado tipo não saber se sou boa o suficiente para estar aqui. — Sua voz saiu embargada.
— Claro que você é boa . Você já ganhou tudo o que disputou, como pode ter dúvida? — O sotaque francês saiu mais puxado por conta da certeza em sua voz.
— E se eu for uma fraude que ganhou tudo quando era adolescente e agora meu melhor momento já passou? — tentou mais uma vez.
Charles suspirou e sentou no piso gelado do elevador. Afinal, não sairiam dali tão cedo pelo andar da carruagem. não hesitou em acompanhá—lo e o monegasco continuou.
— Todo mundo tem uma fase ruim na vida, é normal até para os melhores. A gente só precisa saber como lidar e se cercar de pessoas que acreditam no nosso potencial.
— E quando nem a nossa mãe acredita no nosso potencial? — apertou suas mãos com força, se sentindo mais frágil.
— Então você liga para o seu pai, que se eu bem me lembro é seu fã número um, mesmo não entendendo nada sobre automobilismo — finalizou lembrando da primeira vez que conversaram ainda adolescentes.
se surpreendeu com aquela fala. Como Charles se lembrava de seu pai? Quer dizer, os dois mal conversavam, como ele se lembrava de um detalhe desses?
— Tenho que admitir que você sabe o que dizer para uma garota Charles Leclerc — disse algum tempo depois com seu sotaque britânico que ele gostava tanto.
— Sempre que precisar. — Deu de ombros e depois soltou um sorriso bonito que ela não viu por causa da escuridão.
— Bem, se considerar meu desempenho nessa temporada, vou precisar bastante — soltou com seu sarcasmo usual.
— Acho que você precisa de um banho de otimismo, .
— Como você lidou com a temporada passada? Digo, você não tinha um carro tão bom assim...
Charles riu da fala explícita de que não teve vergonha alguma de dizer que seu desempenho no ano anterior tinha sido desastroso.
— Eu dei o meu melhor, mesmo com um carro não tão bom.
Se tivesse mais claro, Charles veria o virar de olhos que deu. Pode ver minimamente, pois seus olhos já se acostumavam com o escuro.
— Eu não sou uma repórter, Charles. Pode me dizer a real, você não tinha um carro bom e seus resultados não eram os melhores...
— Mas eram os melhores — rebateu. — Eram os melhores que eu podia conseguir com aquele carro. — Deu de ombros como se fosse óbvio.
Charles era um eterno otimista. O cara que aprendia com seus erros, o quase oposto de que não estava acostumada a perder e errar.
— Mas você não se frustrava em não conseguir um pódio, pelo menos?
— Claro que sim, a gente corre pela vitória e você sabe disso. — Suspirou. — mas nem tudo está no nosso controle.
sorriu sabendo que aquilo era verdade e se sentiu mais calma por isso. Os dois pilotos continuaram conversando sobre a vida envoltos naquele clima escuro e aconchegante. Meia hora depois, a luz voltou. O elevador deu um solavanco e toda a atmosfera amena se quebrou. percebeu que estava perto demais de Charles e aquilo a fez se afastar rapidamente. Desde os 14 anos não ficavam tão perto daquele jeito. Os dois se levantaram em um rompante e voltaram a encarar as portas pouco interessantes do elevador.
O elevador não demorou a chegar no décimo andar, era a deixa de Charles. O monegasco quis dizer alguma coisa, mas não disse, saiu do lugar e rumou até seu quarto. por sua vez sentiu que deveria dizer algo, segurou as portas do elevador, e antes que ele pudesse entrar no quarto...
— Charles! — ela gritou e o viu se virar em sua direção. — Obrigada.
O rapaz sorriu terno em sua direção e a porta do elevador se fechou com uma um pouco menos nervosa.
— Muito bom, . — Pelo rádio a inglesa ouviu o engenheiro com a voz calma de quem tinha acabado de sair de um spa. Tinha terminado o terceiro treino livre na quarta colocação, com certeza o seu melhor resultado no ano.
Dez dias passaram rápido demais. Nesse meio tempo, Lia visitou seus pais em Bolton, Tom ajudou a reorganizar sua dieta e exercícios diários, inclusive se inscrevendo junto com ela em um grupo de zumba só por diversão e para tentar ajudar a amiga a sentir menos falta de Noah, que odiava dança.
Terminar um relacionamento era difícil por vários motivos, mas se deparar com você mesma, seus gostos e preferências era penoso demais depois de um relacionamento longo. Nos dias em que passou longe do trabalho, teve algumas crises de choro por não saber se preferia sorvete de limão ou morango, pois passou tempo demais com Noah pedindo sempre o mesmo sabor nos restaurantes. Nesse dia, Tom teve que ir ao apartamento da amiga munido de diversos sabores do doce e, junto com ela, decidiram quais sabor ela gostava mais, não era morango e nem limão.
Mas o martírio de ter de lidar com um término, pelo menos, tinha acabado no momento em que pisou em Portugal. O país sediaria o próximo GP, o que era a oportunidade perfeita para melhorar seus resultados. Pelo menos, foi isso que ela decidiu assim que chegou ao autódromo de Portimão: seria uma nova com resultados positivos e menos reclamona.
Era sexta—feira e os treinos livres já tinham acabado, estava naquele momento sentada dentro do cockpit correndo como nunca. A sensação de alta velocidade e adrenalina era o que a trazia de volta a vida. Na pista não lembrava de namoros fracassados ou das suas derrotas pessoais, na pista podia ser ela mesma, sem medo de parecer tímida demais, ousada demais ou alguém que deve se desculpar por gostar do que gosta. Então, no momento em que ouviu seu engenheiro a parabenizando pelo desempenho, pôde sentir que tudo estava de volta aos eixos.
Assim que saiu do carro e tirou seu capacete e a balaclava ficou claro que estava no caminho certo. Viu Lia se aproximar com sua habitual prancheta e gravador, aquilo só poderia indicar que seu dia ainda não tinha terminado.
— Como é possível seu cabelo continuar bonito depois de ficar uma hora com esse capacete? — perguntou franzindo o cenho como se aquela fosse realmente a pergunta importante do dia.
— Não me faça perguntas difíceis — respondeu descendo metade do zíper do macacão. — Eu só queria voltar para o hotel agora.
— Eu sei, meu anjo, mas temos agendadas pequenas entrevistas com dois canais ingleses e prometo que em menos de duas horas eu te libero. — Lia sorriu mostrando todos os dentes sabendo a possibilidade de as entrevistas durarem um pouco mais.
seguiu para seu motorhome onde se ajeitou minimamente, trocou de roupa, fez uma maquiagem bem básica e colocou o tradicional uniforme da equipe, ou seja, camisa branca com detalhes em azul royal e uma calça jeans preta. Lia já a esperava do lado de fora e foi dando indicações de como a entrevista seguiria, aquilo que poderia falar e como responder do melhor jeito.
— Hoje aconteceu uma coisa interessante. Clara Sinelli apareceu me dando indiretas sobre uma certa piloto inglesa que se divertiu demais na Itália e acabou bebendo tanto que vomitava sem pudor algum no banheiro do bar do hotel.
Lia com suas sobrancelhas impecáveis e traços marcados e valorizados pela maquiagem disse com o tom de voz que era conhecido por como "ferrou geral". Esse tom de voz havida sido usado duas vezes com : a primeira quando a inglesa esqueceu o aniversário da amiga, e a segunda quando não foi convidada para um show exclusivo do Harry Styles com direito a foto e uma possível, mas não confirmada, troca de telefones entre o cantor e a piloto.
— É realmente uma história incrível. Você deveria lembrar a Sinelli que ela é uma jornalista esportiva e não de fofoca. — Deu de ombros com um sorriso debochado no rosto.
— E foi exatamente o que eu disse — respondeu no mesmo tom.
— O quanto eu vou ter de falar sobre esse assunto com a imprensa? — perguntou tentando não soar preocupada, seria a primeira vez que algo do tipo sairia na mídia e sabia que aquilo tinha algum potencial de arranhar sua imagem.
— Nada. — Lia deu de ombros enquanto analisava alguns papéis. — Consegui que a Sinelli não publicasse nada, mas tudo o que eu te peço é um pouco mais de cuidado.
Lia direcionou seus olhos grandes e castanho para e disse em seu tom quase maternal. Muitas vezes esse era o papel da assessora, e por mais que Lia odiasse precisava pontuar com frequência que era uma pessoa pública e que deveria ter alguns cuidados quando saía. Chegaram a uma pequena sala com uma vista privilegiada para a pista e encontraram o jornalista britânico de sorriso fácil.
Já passava das sete da noite quando pôde voltar para o hotel. Tinha tido uma boa reunião com a equipe, analisou seus resultados e estava confiante para a qualificação do dia seguinte, além de ter dado todas as entrevistas agendadas para o dia, Lia ainda ficaria horas a fio organizando as redes sociais da equipe junto com alguns mecânicos e engenheiros que finalizaram o dia analisando os últimos dados.
caminhava com Tom ao seu lado, o preparador físico iria dirigindo até o hotel, o que causou certo desconforto na inglesa, mas aquele não era um dia de discussões e sim de aceitar a vitória daquele dia. Mas seu telefone tocou, era sua mãe, decidiu ignorar a ligação, mas se bem conhecia Liana ela ligaria insistentes vezes até atender como se o mundo girasse em torno da sua urgência.
— Mãe, está tudo bem? — perguntou a inglesa depois da quinta ligação seguida enquanto andava a passos lentos até o carro.
— Está sim esquilinho, marquei de te entrevistar segunda—feira às 14h00, esteja pronta, sim? — Liana perguntou com a voz habitualmente suave.
Liana era um grande nome da televisão inglesa, tinha um programa de atualidades que misturava culinária, entrevista com especialistas de diversas áreas, música, cinema e todo o tipo de variedades. A mulher de quase cinquenta anos era um sucesso de público, arrebatando tanto as donas de casa quanto mulheres que trabalham fora e também o resto da família. Liana também era mãe, mas para essa era sua pior função, pelo menos para ela, que era a filha caçula que nunca supriu com as altas expectativas da mãe.
— Mãe, eu já te expliquei que existe uma hierarquia, você precisa conversar com a equipe de comunicação da McDonnell primeiro. —Suspirou cansada, sabendo que Lia comentaria se sua mãe tivesse de fato agendado uma entrevista.
— Não preciso conversar com ninguém para entrevistar minha própria filha, era só o que me faltava. — Riu sem humor e um pouco impaciente.
— Precisa quando sua filha é uma piloto de uma equipe grande de automobilismo — retrucou também cansada. Sua mãe tirava toda a sua energia.
— Esquilinho, já está tudo certo para eu te entrevistar na segunda-feira, só preciso que esteja em Londres e que estude um pouco sobre Síndrome de Burnout em atletas...
— Por qual motivo eu preciso estudar sobre isso? — perguntou com a voz mais arisca já imaginando como aquela conversa se desenvolveria.
— Por que mais seria? Acho que se relaciona um pouco com o que está acontecendo na sua carreira... — disse com um tom de obviedade.
respirou fundo três vezes antes de responder. Imaginou os melhores mantras que a yoga a tinha ensinado, mas mesmo assim só quis desligar o telefone imediatamente para que toda aquela conversa com sua mãe não a desviasse do objetivo daquele final de semana.
— Mãe, não acho que me encaixo nessa pauta — respondeu com agressividade enquanto acelerava os passos e entrava no carro. Tom estranhou a entonação de voz mais agudo e alto. — Acho que pode encontrar outros atletas que ficariam imensamente felizes em participar do seu programa.
— Não seja assim, . — esbravejou. — Você nunca participou do meu programa.
Talvez porque eu só tenha sido convidada para falar sobre: dificuldades em entender etiquetas sociais, porque as mulheres não querem casar e aparentemente atletas que lidam com o alto nível de exaustão, falta de energia e resultados ruins no trabalho, pensou , mas ao invés disso, apenas suspirou e disse que não estaria em Londres na segunda—feira. Era mentira, seu voo estava programado para domingo a noite, mas estava disposta a passar uma semana inteira em Portugal se fosse para fugir da sua mãe e seu programa esquisito de televisão. Principalmente por conta de tudo que envolvia estar perto de Liana, as entrelinhas dando a entender que ela poderia desistir a qualquer momento do seu sonho e que o ambiente no paddock não era para uma mulher como ela, que não precisava ficar cercada de cheiro de gasolina, borracha queimada e principalmente aquele macacão horrível que Liana destacava em toda e qualquer conversa. tinha a impressão que sua mãe preferia que ela fosse casada com um piloto de fórmula um e não uma mulher que dirigia carros a 300 quilômetros por hora como profissão.
— Não penso que seria uma mais—valia para seu programa, mãe. — Fechou os olhos e apertou sua têmpora com certa pressão exagerada.
— Não seja boba, .
pôde imaginar sua mãe revirando os olhos igual fazia toda a vez que considerava alguma de suas falas idiotas demais.
— Sinto muito, mãe. Quem sabe da próxima? — disse assim que chegou ao carro, encostou seu corpo no capô antes de finalizar a conversa.
Liana desligou o telefone, recomendando que a filha tivesse muito cuidado com a alta velocidade que corria e dizendo que ela tinha que ligar mais vezes para o seu pai.
A piloto entrou no carro e toda a felicidade que sentia antes, se dissipava na mesma velocidade em que o carro avançava pelas ruas da cidade portuguesa. Tom tentou puxar assunto, mas sabia que quando o assunto era a mãe da piloto muitas vezes o melhor era ficar quieto. Nem colocou suas habituais músicas da Madonna, e sendo assim chegaram ao hotel em pouco menos de vinte minutos que só não foi em total silêncio pois a chuva começou a cair forte na cidade portuguesa.
A chuva que caía na cidade de Portimão era proporcional à tristeza que sentia naquele momento.
Sua mãe sempre foi um assunto delicado em sua vida e toda vez que ela aparecia era a mesma coisa. Mas daquela vez parecia pior, porque se sentia fracassada. Tinha sido um bom treino livre, mas toda sua confiança, ou falsa confiança, se esvaía toda vez que lembrava de todo o julgamento de Liana . Se fosse honesta consigo mesma conseguia encontrar razão em algumas das falas de sua mãe, ultimamente o esporte que mais amava trazia mais frustração do que esperança.
entrou no elevador se sentindo um pouco mais aliviada quando se percebeu sozinha pela primeira vez nas últimas oito horas. Respirou fundo e permitiu que as lágrimas entaladas em seu peito rolarem livremente, mas como uma piada do destino alguém se apressou em entrar no elevador, nos últimos segundos de porta aberta.
As portas do elevador fecharam rapidamente e Murphy com suas leis caóticas decidiu brincar com a inglesa e a sensação de solidão atingiu em cheio no mesmo momento em que Charles adentrou o ambiente. A inglesa só queria sua cama quente e um cobertor que a cobrisse de si mesma. Não demorou muito para que o elevador parasse e as luzes começassem a piscar. Era tudo o que faltava, pensou Charles. , no entanto, não conseguiu segurar mais o choro e simplesmente desabou. As lágrimas começaram a rolar sem controle como se precisassem sair naquele exato momento.
— Você tem medo de lugares fechados ou algo do tipo? — A voz de Charles soou com um leve toque de desespero por não saber o que fazer.
não conseguia responder nada, simplesmente continuou chorando como se aquela escuridão lhe desse permissão para ser quem era, para desabafar a relação materna desastrosa e o fracasso de seu namoro recém terminado. Sem a resposta da piloto, o monegasco ficou ainda mais nervoso, não sabia lidar com pessoas chorando. Aos poucos foi se aproximando na inglesa, quando já estava perto o suficiente apoiou suas mãos no ombro de tentando acalmá-la fazendo um leve carinho não querendo parecer invasivo demais.
— Vai ficar tudo bem — disse o mais calmo que conseguiu — Foi só um pequeno apagão, certamente o hotel vai resolver isso o mais rápido possível.
Não conseguia ver direito as feições de , mas sentiu quando a menina afastou suas mãos por um breve segundo para logo o abraçar o pegando de surpresa. A inglesa simplesmente se jogou em seus braços e sem pudor o entrelaçou em um abraço confortável.
O cheiro dos cabelos da inglesa eram conhecidos, como se ela não tivesse mudado de xampu desde que se conheceram anos atrás. Em uma sensação conhecida, o rapaz passou seus braços pelos ombros da inglesa. Charles não era muito mais alto do que e para um primeiro abraço poderia dizer que tinha o encaixe perfeito se os dois tivessem pensado nisso.
O abraço não durou muito, pois seria demasiadamente embaraçoso. confessaria se sentir imensamente confortável e acolhida, ao passo que Charles, realmente surpreso com a atitude inesperada, demoraria algum tempo para declarar o porquê tudo pareceu tão certo.
caiu em si e se desenroscou de Charles assim que se deu conta do que fazia e secou as lágrimas que rolavam livremente por seu rosto.
— Desculpa, eu não sei o que me deu, só.... Desculpa. — Sua voz saiu entrecortada e um pouco tímida.
— Não precisa pedir desculpa, é normal sentir medo... — Charles respondeu docemente tentando passar algum tipo de conforto.
— Eu não estou com medo, é só que... As coisas estão complicadas demais...
Talvez a escuridão tivesse dado coragem para Charles ou fosse só a curiosidade mesmo, mas quando viu já estava interessado demais no que a garota tinha pra dizer.
— Complicado tipo bater o carro com mais três pilotos por causa de uma desatenção idiota? — perguntou com um tom irônico. Mais cedo, Leclerc tinha se envolvido em uma batida quase cinematográfica, e era só o treino livre.
— Complicado tipo não saber se sou boa o suficiente para estar aqui. — Sua voz saiu embargada.
— Claro que você é boa . Você já ganhou tudo o que disputou, como pode ter dúvida? — O sotaque francês saiu mais puxado por conta da certeza em sua voz.
— E se eu for uma fraude que ganhou tudo quando era adolescente e agora meu melhor momento já passou? — tentou mais uma vez.
Charles suspirou e sentou no piso gelado do elevador. Afinal, não sairiam dali tão cedo pelo andar da carruagem. não hesitou em acompanhá—lo e o monegasco continuou.
— Todo mundo tem uma fase ruim na vida, é normal até para os melhores. A gente só precisa saber como lidar e se cercar de pessoas que acreditam no nosso potencial.
— E quando nem a nossa mãe acredita no nosso potencial? — apertou suas mãos com força, se sentindo mais frágil.
— Então você liga para o seu pai, que se eu bem me lembro é seu fã número um, mesmo não entendendo nada sobre automobilismo — finalizou lembrando da primeira vez que conversaram ainda adolescentes.
se surpreendeu com aquela fala. Como Charles se lembrava de seu pai? Quer dizer, os dois mal conversavam, como ele se lembrava de um detalhe desses?
— Tenho que admitir que você sabe o que dizer para uma garota Charles Leclerc — disse algum tempo depois com seu sotaque britânico que ele gostava tanto.
— Sempre que precisar. — Deu de ombros e depois soltou um sorriso bonito que ela não viu por causa da escuridão.
— Bem, se considerar meu desempenho nessa temporada, vou precisar bastante — soltou com seu sarcasmo usual.
— Acho que você precisa de um banho de otimismo, .
— Como você lidou com a temporada passada? Digo, você não tinha um carro tão bom assim...
Charles riu da fala explícita de que não teve vergonha alguma de dizer que seu desempenho no ano anterior tinha sido desastroso.
— Eu dei o meu melhor, mesmo com um carro não tão bom.
Se tivesse mais claro, Charles veria o virar de olhos que deu. Pode ver minimamente, pois seus olhos já se acostumavam com o escuro.
— Eu não sou uma repórter, Charles. Pode me dizer a real, você não tinha um carro bom e seus resultados não eram os melhores...
— Mas eram os melhores — rebateu. — Eram os melhores que eu podia conseguir com aquele carro. — Deu de ombros como se fosse óbvio.
Charles era um eterno otimista. O cara que aprendia com seus erros, o quase oposto de que não estava acostumada a perder e errar.
— Mas você não se frustrava em não conseguir um pódio, pelo menos?
— Claro que sim, a gente corre pela vitória e você sabe disso. — Suspirou. — mas nem tudo está no nosso controle.
sorriu sabendo que aquilo era verdade e se sentiu mais calma por isso. Os dois pilotos continuaram conversando sobre a vida envoltos naquele clima escuro e aconchegante. Meia hora depois, a luz voltou. O elevador deu um solavanco e toda a atmosfera amena se quebrou. percebeu que estava perto demais de Charles e aquilo a fez se afastar rapidamente. Desde os 14 anos não ficavam tão perto daquele jeito. Os dois se levantaram em um rompante e voltaram a encarar as portas pouco interessantes do elevador.
O elevador não demorou a chegar no décimo andar, era a deixa de Charles. O monegasco quis dizer alguma coisa, mas não disse, saiu do lugar e rumou até seu quarto. por sua vez sentiu que deveria dizer algo, segurou as portas do elevador, e antes que ele pudesse entrar no quarto...
— Charles! — ela gritou e o viu se virar em sua direção. — Obrigada.
O rapaz sorriu terno em sua direção e a porta do elevador se fechou com uma um pouco menos nervosa.
Portimão, Portugal
O domingo ensolarado em Portugal pouco lembrava a sexta e o sábado chuvosos que fizeram uma grande bagunça na classificação, deixando o favorito Lewis Hamilton em sétimo lugar e uma pole position quase perfeita para Zachary, que estava realmente eufórico com aquele final de semana. tinha conseguido um decente sexto lugar na classificação e estava contente apesar de tudo.
Decidira ignorar algumas ligações de sua mãe para cuidar da sua saúde mental e, de fato, dera resultado. Na hora da largada, estava tão focada que conseguiu conquistar uma posição, ficando boa parte da corrida em quinto lugar. No entanto, por um erro de estratégia da Ferrari, que decidiu parar o piloto monegasco na penúltima volta, a inglesa diminuiu segundos importantes e, na última volta, fez uma ultrapassagem emocionante e terminou em quarto lugar. Zachary, por outro lado, sem a experiência do sete vezes campeão, não conseguiu segurar o inglês Lewis Hamilton, que escalou o grid inteiro se consagrando o melhor piloto da corrida. O italiano, apesar de tudo, não estava frustrado, afinal, tinha conseguido o seu segundo pódio do ano.
O domingo não podia ter sido melhor para a equipe irlandesa, que estava eufórica cantando sea shanties enquanto Zach comemorava mais um pódio. estava ali no meio comemorando com a equipe e Diana, que estava realmente empolgada com o terceiro lugar no campeonato de construtores — e ainda era só o começo do ano. Zach desceu do pódio e se jogou nos braços dos mecânicos e engenheiros em completa euforia.
Depois de toda a comemoração, Amélia Campos, diretora de comunicação da McDonnell Racing Team deixou bem claro que Zachary Hawk e não poderiam comemorar com bebidas o bom resultado do domingo, não depois de Clara Sinelli ter dado incontáveis indiretas sobre o estado alterado dos dois pilotos em Ímola. Por mais inofensiva que a brasileira baixinha de óculos de grossas hastes parecesse ninguém desafiava sua fúria: se ela dizia que não teria festas, não teria festas e ponto final. Amelia Campos era uma pequena mãe com toques de avó para todos na equipe, quando aparecia não precisava de muito mais de cinco minutos para tomar conta do lugar e de todos, portanto ninguém a desafiaria naquele domingo. Ninguém, exceto Zachary que tinha certa dificuldade em lidar com proibições.
Por isso, não foi surpresa quando horas depois o piloto apareceu na porta do quarto de com um engradado de cerveja, cabelos bem penteados e o sorriso cheio de sempre estampado no rosto. Zach além de tudo era um cara bom de equipe, mais do que comemorar quando estava nos seus melhores momentos ele comemorava quando seus amigos iam bem e tinha ido bem naquele domingo depois de algum tempo lidando com resultados ruins, mas o principal de tudo era que o italiano sentia que a piloto estava começando a recuperar a confiança em si mesma. Quando se conheceram alguns anos antes, Zach se lembrava de ter ficado fascinado com a menina inteligente, dedicada e esperta que conheceu depois de um campeonato em que ela ganhou com facilidade e muita técnica. , com seu jeito tímido, podia parecer arrogante com seus dezesseis anos recém completados e sua língua afiada, mas quando sentou ao seu lado com um saco de pipoca e começou a discursar por minutos intermináveis sobre o leite de hipopótamo ser rosa. Naquele momento, Zachary Hawk soube que seria sua amiga por muito tempo.
— Pensei que a Amélia tinha deixado bem claro que não nos queria envolvidos com álcool hoje. — A inglesa levantou a sobrancelha esquerda ao mesmo tempo em que acompanhava Zach apoiar a cerveja na mesa de canto do seu quarto.
agradeceu mentalmente por não ter tido tempo suficiente para bagunçar demais o quarto. Não que o italiano não estivesse acostumado, já a conhecia tempo o suficiente para saber de toda a sua habitual desorganização, mas se sentia intimidada toda vez que alguém entrava em contato com sua bagunça, talvez reflexos de seu relacionamento com Noah.
— Bella, Amélia seria muito ingênua se achasse que não iríamos comemorar um segundo e um quarto lugar. Aliás, parabéns pelo P4, Ally. — Abriu a primeira cerveja e estendeu para a menina com seu habitual sorriso sedutor.
— Obrigada, estava mesmo precisando de um resultado decente. — confessou ao aceitar a cerveja oferecida por Zach e deu um longo gole na bebida antes de fechar a porta.
— Quem sabe em Barcelona não consegue um pódio? — arriscou enquanto se jogava na cama bagunçada da inglesa, sem sequer tirar os sapatos, para desespero de que empurrou as pernas do amigo.
o acompanhou já ligando a televisão em um canal de televisão qualquer. Um pódio em Barcelona parecia até um sonho, não muito distante se for pensar que, com o mesmo carro, seu companheiro de equipe já tinha conseguido duas vezes só aquele ano.
— É o que eu quero — sentenciou. — Decidi que minha vida ia mudar a partir desse GP, eu realmente preciso deixar fatores pessoais fora da pista.
— Noah ou sua mãe? — Zach encarou com os olhos atentos.
— Os dois! — voltou a dar um longo gole em sua cereja. Zach entendeu no mesmo instante que aquele era um assunto a não se comentar naquele instante.
Como se tivesse sido salva pelo gongo, batidas animadas e ritmadas em sua porta desviaram o foco da conversa. se apressou em abrir a porta e teve a certeza que começaria uma festa clandestina. Uma menos problemática do que Ímola, já que não cruzaria com jornalistas estando bêbada demais em um banheiro público, mas animada o suficiente por poder comemorar com quem realmente importava.
Lia e Tom estavam munidos de três caixas de pizza, mais cerveja e é claro, sorvetes de frutas tropicais, claro que foram chamados por Zach e por saber que negaria descumprir qualquer regra decidiram organizar a pequena confraternização sozinhos e simplesmente apareceram no quarto da inglesa.
— Imagino que a Amélia não saiba dessa pequena festa... — disse em um tom irônico encarando a assessora e o preparado físico.
— E nem vai saber, senão vou ser demitida e vocês vão assistir longos seminários e palestras sobre o malefício do álcool. — Lia deu de ombros como se já soubesse todo o roteiro.
— E tudo o que não queremos é que ela descubra, ou seja, a comemoração vai ser comedida e com responsabilidade — Tom disse mais para si do que para alguém.
— Eu odeio que vocês me façam descumprir regras... — refletiu enquanto fechava a porta.
— Ok, Miss Perfeição, mas hoje é dia de comemorar o seu quarto lugar e tirar a zica do ano passado... — Zach enfatizou já levantando da cama e seguindo até as caixas de pizza.
— Detesto concordar com esse meliante, mas é verdade, Ally. Você foi bem e merece comemorar o bom resultado. — Lia direcionou um sorriso terno a segurando pelos ombros.
Algum tempo depois os quatro estavam jogados na cama de assistindo algum reality show de construções de casa enquanto comiam pizza e bebiam cerveja. Poderiam assistir a corrida, e ver por mil ângulos especiais a ultrapassagem que fez sobre Charles Leclerc na última volta da corrida, fazendo que ela ficasse em quarto lugar. Se estivessem vendo a corrida perceberiam também a prova fácil de Zach, que demonstrou toda sua técnica impedindo que fosse ultrapassado por Max Verstappen e em alguns momentos pressionando o sete vezes campeão Lewis Hamilton. Também ouviriam os rádios empolgados de e o engenheiro Jim que comemoraram pouco discretamente e ultrapassagem enquanto Charles se lamentava. Mas ao invés de reviver a tarde daquele domingo com imagens privilegiadas e com uma narração emocionante, os quatro preferiram comentar sobre a vida alheia, mais precisamente sobre a briga de Leclerc com sua namorada em um paddock lotado de fofoqueiros os dois fizeram pouca questão de esconder os gritos logo pela manhã.
— Pois é, pelo que eu soube, até Allegra teve que intervir — Lia adicionou uma informação extra e continuou. — A Geórgia não estava nem um pouco feliz com o principezinho de Mônaco.
— Ela detesta assistir às corridas, detesta quase todo mundo do paddock, não sei porque ela ainda insiste — Tom comentou entre uma mordida e outra na pizza de quatro queijos que estava especialmente divina.
— É natural que ela o acompanhe, eu só não entendi qual foi o motivo da briga. — franziu o cenho direcionando um olhar para Zach que com certeza saberia a fofoca com riqueza de detalhes.
— Aparentemente, a Clara Sinelli comentou com ela sobre a festa em Ímola, e a Geórgia não gostou nada de saber quem eram as pessoas envolvidas na festa. — Deu de ombros como se não se importasse.
— Quem estava? — Lia tentou recordar. — Pierre e Aimeé, Allegra, e...Ah, você estava nessa comemoração... — Lia pausou na tentativa de Zach continuar, mas o italiano não o fez, obrigando—a a continuar — Por que ela te odeia tanto?
— Vocês precisam me embebedar muito mais do que isso para eu contar essa história. —Zach piscou um olho e deu um gole longo em sua cerveja.
— Como assim? Eu preciso saber, Zachary... — esbravejou curiosa.
A inglesa sempre quis saber o motivo do ódio tão grande que circulava entre Geórgia e Zach, ambos não poderiam estar em um mesmo lugar que faíscas saíam por tudo o que é lado. Muitas das vezes por parte de Georgia, que fazia questão de demonstrar seu descontentamento cada vez que o italiano se aproximava dela ou de Charles.
— Um dia, Bella, um dia. — Sorriu misterioso.
Continuaram a conversar e a beber, até que o assunto daquela noite se direcionou para o término recente de . A inglesa que apesar de ainda sentir que doía, também era capaz de perceber que quando sua carreira começava a entrar nos eixos, era cada vez mais difícil pensar em Noah, ou era isso em que queria acreditar. No entanto, estava bem com sua situação, até saber que estava cercada de um bando de fofoqueiros que comentavam sobre sua vida sem que ela soubesse.
— Você achou que ninguém ia saber? — Tom perguntou com um olhar de quase pena. — Esse paddock é pior do que casa de tia, absolutamente todo mundo sabe da vida de todo mundo.
— No dia do seu aniversário todo mundo já sabia com riqueza de detalhes o que tinha acontecido — Zach pontuou. — Mas fica tranquila que todo mundo é Team .
— Como assim? — a inglesa perguntou alarmada. — Todo mundo sabe que o Noah terminou comigo perto do meu aniversário? E existem times?
— Claro que sim, mas ninguém nunca foi muito fã dele — Lia se pronunciou e deu de ombros como se fosse óbvio demais.
— Como assim? — ainda estava em choque e seus olhos azuis arregalados não escondiam sua surpresa.
— Ele sempre foi esnobe demais, nariz empinado demais, com aquelas camisas polos, cabelos loiros perfeitos e pose de quem é melhor que todo mundo.
— , os pilotos do paddock achavam ele esnobe, herdeiros de fortunas inteiras, tem noção disso? — Tom disse pausadamente.
— Por Deus, como ninguém nunca me disse nada? — perguntou inconformada.
— Dizer o que? "Hey, Ally, sabe o seu namorado? Todo mundo acha ele mauricinho demais" — Lia respondeu irônica. — Não fazia o menor sentido.
tentou puxar na memória as vezes em que o ex—namorado tinha sido desagradável, mas não conseguia chegar lá. Era verdade que Noah muitas vezes reclamava de ter de encontrá—la em um paddock cheio de gente e ter de disputar sua atenção com mecânicos, engenheiros e repórteres, mas nunca tinha sido mal—educado, talvez esnobe. lembrava—se dos jantares pós corrida em que o ex—namorado dizia como as pessoas com quem trabalhava tinham pensamentos simples demais, ou como ter vícios como aquele esporte podia ser nocivo para a saúde mental.
É, talvez Noah fosse de fato desagradável nos finais de semana em que a acompanhava, mas não era de todo ruim.
— Vocês têm razão, mas o que me impressiona é comentarem sobre meu relacionamento por aí. — pausou um instante e de repente fez uma cara de pleno horror antes de perguntar. — O que mais falam sobre mim?
E então um silêncio se fez. Tom, Lia e Zach sabiam exatamente o que comentavam sobre no paddock. O piloto italiano lembrou—se das diversas vezes em que escutou o quanto a inglesa era certinha, boazinha e irritantemente inteligente o que era verdade, principalmente enquanto namorava com Noah que parecia querer encaixá—la em um modelo ideal de mulher, o que era amplamente apoiado pela mãe da menina.
Esse era outro assunto que as pessoas comentavam sem pudor: o fato de ser filha de uma grande estrela inglesa e não se parecer nem um pouco com a personalidade altiva, extrovertida e divertida da mãe. Lia nunca diria à amiga, mas já tinha escutado de jornalistas algumas vezes que era sem graça demais, pouco espontânea e com respostas sempre polidas e prontas.
— Anda, Zach, diz logo... — ela o apressou impaciente.
— Nada demais, Bella. —Zach desviou o olhar — Comentam o quanto você é certinha, respeita as regras, mas não são coisas ruins.
O domingo ensolarado em Portugal pouco lembrava a sexta e o sábado chuvosos que fizeram uma grande bagunça na classificação, deixando o favorito Lewis Hamilton em sétimo lugar e uma pole position quase perfeita para Zachary, que estava realmente eufórico com aquele final de semana. tinha conseguido um decente sexto lugar na classificação e estava contente apesar de tudo.
Decidira ignorar algumas ligações de sua mãe para cuidar da sua saúde mental e, de fato, dera resultado. Na hora da largada, estava tão focada que conseguiu conquistar uma posição, ficando boa parte da corrida em quinto lugar. No entanto, por um erro de estratégia da Ferrari, que decidiu parar o piloto monegasco na penúltima volta, a inglesa diminuiu segundos importantes e, na última volta, fez uma ultrapassagem emocionante e terminou em quarto lugar. Zachary, por outro lado, sem a experiência do sete vezes campeão, não conseguiu segurar o inglês Lewis Hamilton, que escalou o grid inteiro se consagrando o melhor piloto da corrida. O italiano, apesar de tudo, não estava frustrado, afinal, tinha conseguido o seu segundo pódio do ano.
O domingo não podia ter sido melhor para a equipe irlandesa, que estava eufórica cantando sea shanties enquanto Zach comemorava mais um pódio. estava ali no meio comemorando com a equipe e Diana, que estava realmente empolgada com o terceiro lugar no campeonato de construtores — e ainda era só o começo do ano. Zach desceu do pódio e se jogou nos braços dos mecânicos e engenheiros em completa euforia.
Depois de toda a comemoração, Amélia Campos, diretora de comunicação da McDonnell Racing Team deixou bem claro que Zachary Hawk e não poderiam comemorar com bebidas o bom resultado do domingo, não depois de Clara Sinelli ter dado incontáveis indiretas sobre o estado alterado dos dois pilotos em Ímola. Por mais inofensiva que a brasileira baixinha de óculos de grossas hastes parecesse ninguém desafiava sua fúria: se ela dizia que não teria festas, não teria festas e ponto final. Amelia Campos era uma pequena mãe com toques de avó para todos na equipe, quando aparecia não precisava de muito mais de cinco minutos para tomar conta do lugar e de todos, portanto ninguém a desafiaria naquele domingo. Ninguém, exceto Zachary que tinha certa dificuldade em lidar com proibições.
Por isso, não foi surpresa quando horas depois o piloto apareceu na porta do quarto de com um engradado de cerveja, cabelos bem penteados e o sorriso cheio de sempre estampado no rosto. Zach além de tudo era um cara bom de equipe, mais do que comemorar quando estava nos seus melhores momentos ele comemorava quando seus amigos iam bem e tinha ido bem naquele domingo depois de algum tempo lidando com resultados ruins, mas o principal de tudo era que o italiano sentia que a piloto estava começando a recuperar a confiança em si mesma. Quando se conheceram alguns anos antes, Zach se lembrava de ter ficado fascinado com a menina inteligente, dedicada e esperta que conheceu depois de um campeonato em que ela ganhou com facilidade e muita técnica. , com seu jeito tímido, podia parecer arrogante com seus dezesseis anos recém completados e sua língua afiada, mas quando sentou ao seu lado com um saco de pipoca e começou a discursar por minutos intermináveis sobre o leite de hipopótamo ser rosa. Naquele momento, Zachary Hawk soube que seria sua amiga por muito tempo.
— Pensei que a Amélia tinha deixado bem claro que não nos queria envolvidos com álcool hoje. — A inglesa levantou a sobrancelha esquerda ao mesmo tempo em que acompanhava Zach apoiar a cerveja na mesa de canto do seu quarto.
agradeceu mentalmente por não ter tido tempo suficiente para bagunçar demais o quarto. Não que o italiano não estivesse acostumado, já a conhecia tempo o suficiente para saber de toda a sua habitual desorganização, mas se sentia intimidada toda vez que alguém entrava em contato com sua bagunça, talvez reflexos de seu relacionamento com Noah.
— Bella, Amélia seria muito ingênua se achasse que não iríamos comemorar um segundo e um quarto lugar. Aliás, parabéns pelo P4, Ally. — Abriu a primeira cerveja e estendeu para a menina com seu habitual sorriso sedutor.
— Obrigada, estava mesmo precisando de um resultado decente. — confessou ao aceitar a cerveja oferecida por Zach e deu um longo gole na bebida antes de fechar a porta.
— Quem sabe em Barcelona não consegue um pódio? — arriscou enquanto se jogava na cama bagunçada da inglesa, sem sequer tirar os sapatos, para desespero de que empurrou as pernas do amigo.
o acompanhou já ligando a televisão em um canal de televisão qualquer. Um pódio em Barcelona parecia até um sonho, não muito distante se for pensar que, com o mesmo carro, seu companheiro de equipe já tinha conseguido duas vezes só aquele ano.
— É o que eu quero — sentenciou. — Decidi que minha vida ia mudar a partir desse GP, eu realmente preciso deixar fatores pessoais fora da pista.
— Noah ou sua mãe? — Zach encarou com os olhos atentos.
— Os dois! — voltou a dar um longo gole em sua cereja. Zach entendeu no mesmo instante que aquele era um assunto a não se comentar naquele instante.
Como se tivesse sido salva pelo gongo, batidas animadas e ritmadas em sua porta desviaram o foco da conversa. se apressou em abrir a porta e teve a certeza que começaria uma festa clandestina. Uma menos problemática do que Ímola, já que não cruzaria com jornalistas estando bêbada demais em um banheiro público, mas animada o suficiente por poder comemorar com quem realmente importava.
Lia e Tom estavam munidos de três caixas de pizza, mais cerveja e é claro, sorvetes de frutas tropicais, claro que foram chamados por Zach e por saber que negaria descumprir qualquer regra decidiram organizar a pequena confraternização sozinhos e simplesmente apareceram no quarto da inglesa.
— Imagino que a Amélia não saiba dessa pequena festa... — disse em um tom irônico encarando a assessora e o preparado físico.
— E nem vai saber, senão vou ser demitida e vocês vão assistir longos seminários e palestras sobre o malefício do álcool. — Lia deu de ombros como se já soubesse todo o roteiro.
— E tudo o que não queremos é que ela descubra, ou seja, a comemoração vai ser comedida e com responsabilidade — Tom disse mais para si do que para alguém.
— Eu odeio que vocês me façam descumprir regras... — refletiu enquanto fechava a porta.
— Ok, Miss Perfeição, mas hoje é dia de comemorar o seu quarto lugar e tirar a zica do ano passado... — Zach enfatizou já levantando da cama e seguindo até as caixas de pizza.
— Detesto concordar com esse meliante, mas é verdade, Ally. Você foi bem e merece comemorar o bom resultado. — Lia direcionou um sorriso terno a segurando pelos ombros.
Algum tempo depois os quatro estavam jogados na cama de assistindo algum reality show de construções de casa enquanto comiam pizza e bebiam cerveja. Poderiam assistir a corrida, e ver por mil ângulos especiais a ultrapassagem que fez sobre Charles Leclerc na última volta da corrida, fazendo que ela ficasse em quarto lugar. Se estivessem vendo a corrida perceberiam também a prova fácil de Zach, que demonstrou toda sua técnica impedindo que fosse ultrapassado por Max Verstappen e em alguns momentos pressionando o sete vezes campeão Lewis Hamilton. Também ouviriam os rádios empolgados de e o engenheiro Jim que comemoraram pouco discretamente e ultrapassagem enquanto Charles se lamentava. Mas ao invés de reviver a tarde daquele domingo com imagens privilegiadas e com uma narração emocionante, os quatro preferiram comentar sobre a vida alheia, mais precisamente sobre a briga de Leclerc com sua namorada em um paddock lotado de fofoqueiros os dois fizeram pouca questão de esconder os gritos logo pela manhã.
— Pois é, pelo que eu soube, até Allegra teve que intervir — Lia adicionou uma informação extra e continuou. — A Geórgia não estava nem um pouco feliz com o principezinho de Mônaco.
— Ela detesta assistir às corridas, detesta quase todo mundo do paddock, não sei porque ela ainda insiste — Tom comentou entre uma mordida e outra na pizza de quatro queijos que estava especialmente divina.
— É natural que ela o acompanhe, eu só não entendi qual foi o motivo da briga. — franziu o cenho direcionando um olhar para Zach que com certeza saberia a fofoca com riqueza de detalhes.
— Aparentemente, a Clara Sinelli comentou com ela sobre a festa em Ímola, e a Geórgia não gostou nada de saber quem eram as pessoas envolvidas na festa. — Deu de ombros como se não se importasse.
— Quem estava? — Lia tentou recordar. — Pierre e Aimeé, Allegra, e...Ah, você estava nessa comemoração... — Lia pausou na tentativa de Zach continuar, mas o italiano não o fez, obrigando—a a continuar — Por que ela te odeia tanto?
— Vocês precisam me embebedar muito mais do que isso para eu contar essa história. —Zach piscou um olho e deu um gole longo em sua cerveja.
— Como assim? Eu preciso saber, Zachary... — esbravejou curiosa.
A inglesa sempre quis saber o motivo do ódio tão grande que circulava entre Geórgia e Zach, ambos não poderiam estar em um mesmo lugar que faíscas saíam por tudo o que é lado. Muitas das vezes por parte de Georgia, que fazia questão de demonstrar seu descontentamento cada vez que o italiano se aproximava dela ou de Charles.
— Um dia, Bella, um dia. — Sorriu misterioso.
Continuaram a conversar e a beber, até que o assunto daquela noite se direcionou para o término recente de . A inglesa que apesar de ainda sentir que doía, também era capaz de perceber que quando sua carreira começava a entrar nos eixos, era cada vez mais difícil pensar em Noah, ou era isso em que queria acreditar. No entanto, estava bem com sua situação, até saber que estava cercada de um bando de fofoqueiros que comentavam sobre sua vida sem que ela soubesse.
— Você achou que ninguém ia saber? — Tom perguntou com um olhar de quase pena. — Esse paddock é pior do que casa de tia, absolutamente todo mundo sabe da vida de todo mundo.
— No dia do seu aniversário todo mundo já sabia com riqueza de detalhes o que tinha acontecido — Zach pontuou. — Mas fica tranquila que todo mundo é Team .
— Como assim? — a inglesa perguntou alarmada. — Todo mundo sabe que o Noah terminou comigo perto do meu aniversário? E existem times?
— Claro que sim, mas ninguém nunca foi muito fã dele — Lia se pronunciou e deu de ombros como se fosse óbvio demais.
— Como assim? — ainda estava em choque e seus olhos azuis arregalados não escondiam sua surpresa.
— Ele sempre foi esnobe demais, nariz empinado demais, com aquelas camisas polos, cabelos loiros perfeitos e pose de quem é melhor que todo mundo.
— , os pilotos do paddock achavam ele esnobe, herdeiros de fortunas inteiras, tem noção disso? — Tom disse pausadamente.
— Por Deus, como ninguém nunca me disse nada? — perguntou inconformada.
— Dizer o que? "Hey, Ally, sabe o seu namorado? Todo mundo acha ele mauricinho demais" — Lia respondeu irônica. — Não fazia o menor sentido.
tentou puxar na memória as vezes em que o ex—namorado tinha sido desagradável, mas não conseguia chegar lá. Era verdade que Noah muitas vezes reclamava de ter de encontrá—la em um paddock cheio de gente e ter de disputar sua atenção com mecânicos, engenheiros e repórteres, mas nunca tinha sido mal—educado, talvez esnobe. lembrava—se dos jantares pós corrida em que o ex—namorado dizia como as pessoas com quem trabalhava tinham pensamentos simples demais, ou como ter vícios como aquele esporte podia ser nocivo para a saúde mental.
É, talvez Noah fosse de fato desagradável nos finais de semana em que a acompanhava, mas não era de todo ruim.
— Vocês têm razão, mas o que me impressiona é comentarem sobre meu relacionamento por aí. — pausou um instante e de repente fez uma cara de pleno horror antes de perguntar. — O que mais falam sobre mim?
E então um silêncio se fez. Tom, Lia e Zach sabiam exatamente o que comentavam sobre no paddock. O piloto italiano lembrou—se das diversas vezes em que escutou o quanto a inglesa era certinha, boazinha e irritantemente inteligente o que era verdade, principalmente enquanto namorava com Noah que parecia querer encaixá—la em um modelo ideal de mulher, o que era amplamente apoiado pela mãe da menina.
Esse era outro assunto que as pessoas comentavam sem pudor: o fato de ser filha de uma grande estrela inglesa e não se parecer nem um pouco com a personalidade altiva, extrovertida e divertida da mãe. Lia nunca diria à amiga, mas já tinha escutado de jornalistas algumas vezes que era sem graça demais, pouco espontânea e com respostas sempre polidas e prontas.
— Anda, Zach, diz logo... — ela o apressou impaciente.
— Nada demais, Bella. —Zach desviou o olhar — Comentam o quanto você é certinha, respeita as regras, mas não são coisas ruins.
