Prólogo
Monte Carlo, Mônaco, 2012.
O calor que fazia em Mônaco naquele domingo era incrivelmente irritante, principalmente porque odiava os dias de sol escaldante. Seu irmão mais velho diria que era por causa do seu mau humor constante de adolescente e a vontade de ser diferente de todo mundo, mas se você perguntasse a , ela diria que o sol em excesso deixava as pessoas à vontade demais. E ficar à vontade demais não era saudável, principalmente se ela quisesse levar aquele sonho adiante.
Com algum esforço, seu pai tinha conseguido levá-la até o circuito histórico e famoso de Monte Carlo. Foi um fim de semana incrível cheios de conversas, passeios pelo paddock e momentos de pai e filha. Durante os treinos classificatórios, Michael Schumacher tinha perdido a pole position por conta de uma colisão evitável, sendo assim Mark Webber ia largar em primeiro para surpresa de que tinha visto tudo tão de perto que era como se ela fosse correr naquele domingo. A emoção das pessoas, o clima de competição que estava no ar e poder ver os pilotos tão próximos era tudo o que ela queria para sua vida daquele momento em diante. Seus olhos brilhavam cada vez que um carro passava por ela, seu coração batia mais acelerado a cada segundo que se aproximava da largada.
Aquele final de semana estava sendo um sonho, melhor que isso só se ela estivesse dentro de um daqueles carros, sentindo sua respiração acelerar no interior do cockpit, o som do motor invadir seus ouvidos e a adrenalina que ela sentia cada vez que estava em um carro. Era um sonho um dia chegar até a categoria principal, e sabia muito bem. Era a única menina da sua idade que disputava os campeonatos de kart no seu país e, muitas vezes, se sentia sozinha nos fins de semana que disputava alguma corrida. Mas também era verdade que ela já tinha ganho alguns desses campeonatos, a maioria nos últimos dois anos, e ia começar a participar de campeonatos europeus maiores em 2013. Estava empolgada com essa oportunidade, principalmente com a expectativa de começar a trilhar seu caminho rumo ao seu sonho por mais difícil que parecesse.
Naquele momento só podia imaginar e sonhar com o seu futuro. Futuro que nem ao menos sabia se ia se concretizar. A competitividade no esporte era gigantesca e nem sempre o melhor conseguia uma vaga na categoria principal e dar tudo de si não era garantia de nada. sabia de todos os poréns, mas estar em Mônaco em um dia de corrida depois de ter andado por todo o paddock sentindo o cheiro de borracha, ouvindo de perto o som dos motores dos carros mais rápidos do mundo, era como se todo o seu corpo se ativasse com toda aquela adrenalina que seu corpo disparava em seu sistema sanguíneo.
— Está se divertindo, filha? — seu pai perguntou e, mesmo que já soubesse da resposta, queria ver o sorriso aberto da filha antes da largada.
mal conseguia se concentrar em qualquer conversa naquele momento. Os dois assistiam a corrida junto a milhares de torcedores em uma arquibancada completamente cheia e animada, diferente das pessoas mais ricas que viam das sacadas de seus apartamentos ou de hotéis de luxo.
— Muito — sorriu com seu rosto inteiro. Aliás, sempre foi assim. Quando a garota sorria seus olhos se fechavam, as covinhas em sua bochecha ficavam evidentes. — É o melhor fim de semana da minha vida. — Completou.
— Por enquanto — disse. — Um dia ainda vou te ver naquele pódio. — O pai da menina completou com um sorriso no rosto, como se profetizasse.
Poucos minutos depois a corrida começou e, já nas primeiras voltas, o caos foi instalado. Pastor Maldonado e Romain Grosjean se envolveram em um acidente. O carro de Schumacher ficou imprensado. Uma verdadeira desordem, foi preciso a presença do safety car na pista por quatro voltas, e logo depois houve a relargada, dessa vez sem tumulto.
Mônaco não era um circuito de muitas surpresas, na verdade, poderia ser um pouco monótono para quem não entendia o valor histórico do circuito. Se fosse bem sincera, diria que Mônaco simbolizava todo o glamour, história e personalidade do automobilismo então sim, mesmo com poucas chances de surpresas e ultrapassagens, aquela era a sua pista favorita.
Timothy , ou Tim, pai da jovem piloto, tentava entender o que estava acontecendo ali. Não conseguia perceber quem estava em primeiro e quem era o último, só sabia que aqueles carros faziam muito barulho e que era um esporte que sua filha adorava e ficava fascinada com cada detalhe. E por mais que tentasse entender as nuances e regras do esporte, ele sempre era o pai que não entendia nada, aquele que ficava perdido no paddock tentando entender de estratégias, tempos e os nomes dados para cada engrenagem do kart que desandava a falar ao fim de cada treino ou competição. Queria se sentir mais presente na vida da filha, queria entender mais sobre o esporte para poder incentivar mais. Por isso, quando o GP de Mônaco acabou com a vitória do australiano Mark Webber, Tim também comemorou com a filha, mesmo que nem soubesse quem era o piloto. Mas aquele fim de semana era dela, ele sabia que era.
Todos os restaurantes de Mônaco estavam lotados, era impossível entrar em algum sem uma reserva. E é claro que Tim não tinha pensado nisso, e é claro que estava considerando levar Ally para o McDonald 's mais próximo do hotel. O que Tim não esperava era encontrar seu amigo de longa data Jean-Jacques Gasly, o francês que sempre encontrava nos campeonatos em que a filha participava e que entendia absolutamente tudo sobre automobilismo. O patriarca da família Gasly foi campeão em diversas categorias do kart e de rally. Diversas vezes, Jean e Pascal passavam metade da corrida explicando regras básicas do esporte para Tim . Por isso, não foi uma surpresa quando a família francesa os convidou para jantar.
— Como você está grande, menina — Pascal disse com um tom carinhoso direcionado à .
Estavam todos esperando para entrar no restaurante, conversando amenidades como se fosse uma atividade comum. A garota estava um pouco sem graça, principalmente por se sentir totalmente deslocada naquele lugar, mas era inevitável sentir-se confortável ao lado de Pascal, ela era sempre muito carinhosa e paciente com a menina.
— Realmente, faz algum tempo que não nos vemos — respondeu polida com um sorriso no rosto.
detestava situações sociais em que tivesse de usar toda a educação que seus pais lhe deram. A maneira mais educada de se sentar, qual talher usar, as palavras certas para dizer, o sorriso sempre no rosto. Ela simplesmente não tinha esse dom da etiqueta social, por mais que sua mãe sempre tenha sido exigente e estrita quando se tratava de comportamento social. Mas ela sabia muito bem como se misturar: as mães a amavam, e ela fazia amizade com todas, diferente de adolescentes da idade dela. Sua avó costumava dizer que ela tinha uma "alma antiga", mas aquela era só uma expressão para substituir "perdedora pra cacete".
— Soube que você vai começar a disputar campeonatos maiores agora — Pascal continuou, estreitando os olhos para a garota.
— Sim, creio que nos veremos mais, vou disputar mais vezes contra o Pierre. — Deu um sorriso sem graça trocando o peso da perna esquerda para a direita.
Pierre Gasly era um dos filhos de Pascal e Jean-Jacques Gasly. O menino seguia os passos do pai com primor, sempre se destacava nos campeonatos que disputava. Era alguns poucos anos mais velho do que e já estava conquistando seu espaço. , no entanto, não o conhecia tão bem assim, talvez pela dificuldade que tinha em entender e falar francês ou por simplesmente não saber se misturar com pessoas da idade dela.
— Tenho certeza que sim — Pascal respondeu em um tom baixo, quase como se fosse uma confissão, o que fez Ally rir. — Espero também que sua mãe possa nos acompanhar.
Mesmo sabendo que aquela era uma situação extremamente improvável, a jovem simplesmente acenou com a cabeça e sorriu como se fosse uma confirmação. Liana nunca iria a corridas, nem se a filha estivesse disputando um campeonato mundial. Liana não acreditava que teria algum sucesso em um esporte extremamente masculino e com tão pouca classe. Ainda mantinha a esperança que aquele hobbie da filha passasse rápido e ela se encontrasse logo.
Logo já estavam dentro do luxuoso restaurante monegasco em uma mesa repleta de pais e pilotos jovens, parecia uma convenção anual dos dramas paternos e da euforia jovem motorizada. Seu pai e Jacques conversavam animados, Pascal tinha engatado um papo entusiasmado com outras mães de piloto como se aquele fosse o domingo internacional do encontro das mães preocupadas.
A parte mais jovem daquele jantar decidiu por livre e espontânea vontade se dispersar dos mais velhos assim que terminaram de comer. O restaurante tinha um grande espaço externo sem mesas, mas com uma vista maravilhosa da cidade. Dava até para ouvir o mar se você se esforçasse o bastante. os seguiu depois de Pascal insistir muito, ela não se sentia bem ou à vontade, mas também não sabia dizer não. Pierre, que ainda não tinha trocado uma palavra com , estava entretido o bastante com os próprios amigos para dar atenção a ela como Pascale o orientou, até que um deles decidiu incluir a garota na conversa. Talvez por pena, talvez por curiosidade.
— Você também corre? — O garoto de cabelos lisos castanhos e olhos bem claros, que tinha quase certeza de que se chamava Charles, perguntou depois de algum tempo a encarando.
se assustou quando percebeu que a pergunta era para ela. Suas bochechas coraram um pouco ao notar que todos os meninos também a olhavam esperando uma resposta. Sentiu seu sorriso se abrir de uma maneira estranha e talvez mecânica e antes que sua insegurança tomasse conta, respondeu:
— Sim — disse comedida. Ela já estava acostumada com a curiosidade dos meninos. Ela até gostava dessa curiosidade, a destacava, ela se sentia diferente.
Não seria a vida inteira assim, mas ali com 14 anos e com um menino bonito querendo saber sobre ela e dividindo os mesmos interesses, não tinha como não sentir especial de alguma forma.
— Nunca te vi disputar as competições europeias — ele disse com algum desdém. De certa forma, sentia-se intimidado pela garota de um jeito que não entendia.
— Vai ver em breve. — Suspirou, ajeitando a franja que caía em seus olhos. — Provavelmente ano que vem. Tenho tido resultados muito bons no kart. — Retrucou rapidamente como se tivesse um ponto para provar.
— Espero que tenha sorte.
— Obrigada, você também — ela devolveu no mesmo tom, encarando os olhos do garoto de forma sagaz.
O silêncio se instalou por alguns longos segundos. Os dois queriam continuar a conversa mesmo que fosse para falar qualquer coisa. Ao lado os outros meninos conversavam sobre as expectativas para a nova temporada de kart. A maioria deles se conheciam desde muito novos, era inegável a intimidade que tinham. Charles e Pierre eram muito próximos, talvez por falarem o mesmo idioma e terem ainda alguma dificuldade com o inglês, no mesmo grupo ainda tinha George e Alex. Esses dois conhecia bem, também corriam nos campeonatos ingleses, eram extremamente focados e talentosos, mas também não tinham disputado campeonatos europeus, mas podia apostar seu rim esquerdo que Charles não os julgava por isso.
Por alguns segundos, desejou ter um grupo como aquele nas categorias que disputava. Queria ter meninas que também corressem para poder compartilhar o quão difícil era correr quando estava com cólica, ou como era horrível encarar o semblante de pena das pessoas quando a viam toda paramentada, mas era igualmente maravilhoso encarar o olhar de raiva dos pilotos que duvidaram dela quando subia no lugar mais alto do pódio.
Aos poucos, o grupo foi se dispersando. George e Alex foram embora depois da sobremesa, Pierre muito a contragosto teve de socializar com seus pais que apresentavam amigos importantes que seriam muito úteis no futuro.
Logo, na varanda barulhenta e com Monte Carlo toda iluminada naquela noite, sobraram só e Charles. A garota sabia que seu pai estava se divertindo pela primeira vez naquele fim de semana, estava cercado de adultos conversando sobre política, ações de bolsa de valores e todos aqueles assuntos que fingia que ouvia quando ele começava a falar, por isso decidiu continuar sentada mais um pouco naquele banco encarando o horizonte maravilhoso de Monte Carlo.
— Seu pai não entende nada de automobilismo? — perguntou o garoto de cabelos castanhos totalmente lisos e olhos claros, desacreditado depois que a inglesa pontuou como sua família lidava com o fato dela ter decidido por uma carreira tão diferente da deles.
— Não, ele mal gosta de dirigir, na verdade. —Ally deu de ombros e tirou os cabelos que insistiam em cair em seus olhos.
— Mas ele te acompanha nas competições? — perguntou confuso.
— Eu gosto de pensar que ele faz isso por mim, para estar mais perto, sabe? — A garota sorriu encarando os olhos claros do jovem piloto.
Charles já tinha ouvido os rumores que ela disputaria competições europeias no ano seguinte. Alex e George não paravam de falar sobre isso, era engraçado imaginar uma menina competindo com eles. Se tivesse pesquisado, talvez soubesse do quanto ela era rápida, esforçada e muito, mas muito estudiosa. Mas ele não tinha pesquisado, e por isso mesmo Charles sentia até um pouco de pena de , ela parecia tão frágil para aquele mundo.
— É um jeito de pensar. — Charles se aproximou mais dela. Era ridículo pensar o quão interessante aquela garota estava se tornando, ou poderiam simplesmente ser seus hormônios adolescentes falando.
— Eu acho que é o melhor jeito de pensar, porque quando eu correr em Mônaco e ganhar um pódio, eu vou saber que vou ter meu pai me aplaudindo — disse com tanta convicção que Charles realmente acreditou em suas palavras.
— Você é bem confiante, — retrucou com um sorriso no rosto.
— Acho que faz parte. Não consigo imaginar o Schumacher com medo de correr, ou o Senna com alguma dúvida de que um dia seria campeão. — Deu de ombros e voltou a encarar o mar a sua frente.
— Justo. — Levantou as sobrancelhas e lançou um sorriso simpático à garota.
Monte Carlo não era uma cidade silenciosa, principalmente em fim de semana de corrida. A música tocava alto naquele restaurante de frente para o mar, as pessoas falavam alto e o tilintar dos talheres era constante, se parassem para prestar atenção ainda conseguiam pescar uma ou outra conversa. Mas a atmosfera entre Ally e Charles parecia impenetrável desde que ficaram sozinhos na varanda daquele restaurante super caro.
— Por que está me olhando assim? — perguntou depois do que pareceu uma eternidade de silêncio entre os dois.
— Assim como? — Charles desviou o olhar sem graça.
— Assim, como se quisesse falar alguma coisa para mim. — por sua vez sustentou o olhar no garoto a ponto de perceber as pintinhas discretas perto do olho esquerdo de Charles.
— Você é muito bonita — sussurrou Charles não conseguindo encarar a garota.
Se ele tivesse olhado talvez perceberia a bochecha da inglesa corando violentamente. Nenhum garoto tinha dito aquilo para ela. Nunca.
Com a coragem que só Monte Carlo proporcionou, se aproximou mais de Charles. E com uma súbita coragem encostou seus lábios nos lábios do garoto. E ali aconteceu o seu primeiro beijo, com a cidade mágica de testemunha e umas tantas pessoas que nem ligavam para os dois adolescentes. O coração de batia violentamente rápido, e o de Charles não era tão diferente. Ele mal podia acreditar na coragem daquela menina, mas seu inconsciente agradecia por isso, ele nunca teria essa coragem.