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Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 20/07/2025


“O projeto de para a cerimônia de abertura da temporada foi medíocre e básico, mas tudo funciona para ela, visto que é filha dos patrocinadores da universidade. Muitas ideias criativas e inovadoras foram apresentadas, mas sinto que sequer foram consideradas quando colocadas lado a lado com o projeto dela. Isso já vem acontecendo há um tempo, não conseguimos entender porque isso acontece. Enquanto todos se esforçam passando dia e noite nas salas de estudo, buscando parcerias e patrocínios, se aproveita da função de monitora para passear de um lado para o outro com os professores. Talvez seja isso que chamam de networking. É injusto que a Srta. se destaque tanto sem mérito próprio, uma turma inteira está sempre buscando alcançar os parâmetros dela, mas é como se faltasse um degrau no caminho de todos nós; como se o degrau dourado estivesse nas mãos dela, um degrau extra que ela não precisa, mas faz questão de segurar para que não haja disputa em sua jornada glamurosa e iluminada pelo privilégio.”

Na sala de estudos individual, as paredes pareciam querer sufocá-la. As palavras foram como lâminas afiadas sendo enfiadas sem aviso no corpo de . O texto publicado anonimamente no portal estudantil do departamento tinha sido encaminhado para de várias fontes. Ela franziu o cenho, se perguntando quem poderia ter feito algo como aquilo, quem poderia enxergá-la dessa forma, embora estivesse claro que quem escreveu não estava só naquele protesto. Seu projeto para a cerimônia de abertura da temporada do time de beisebol tinha sido selecionado por ser o mais viável pela atenção à acessibilidade, coisa que a administração do time ressaltou várias vezes junto ao financeiro. havia ficado empatada com outros dois projetos, mas o seu teve considerações específicas que davam uma folga no orçamento, o que ajudou na decisão final. Ela sabia que algumas pessoas não iam com a cara dela, mas aquilo era novo.

[09:05]: , tá tudo bem por aí?

[09:20]: Chegou uma coisa aqui pra mim. Me retorna quando tiver livre.

O pior estava na frase do e-mail encaminhado pelo seu pai:

“Bom saber da sua real reputação. Pode esquecer do cargo na Pluto Marketing.”

Todas as noites sem dormir, todos os compromissos cancelados, todos os eventos que se recusou a participar para ficar em casa dando seu melhor nos projetos do período. Todo esforço que custou cada pingo de energia em seu corpo foi descartado por causa da competição em que ela estava sendo acusada de fraudar. Contou todos os passos para que pudesse impressionar os pais — para se libertar deles —, mas a decepção ou inveja de pessoas estranhas valia mais do que a competência de sua única filha.
Agora precisava decidir se sairia da sala para a última aula do dia ou se escaparia através das paredes até que chegasse em casa. Soltou uma risadinha amarga quando colocou as opções na balança, pois ir para casa estava longe de ser considerada uma opção pacífica. O que poderia fazer? Seu projeto era incrível e já estava aprovado, teria que coordenar a equipe no próximo período, independente se gostassem dela ou não. Assim, decidiu que enfrentaria os olhares julgadores por mais algumas horas. Dois de seus amigos mais próximos estavam numa pesquisa de campo com parte do time de beisebol, a previsão de volta ainda era de cinco dias. Os outros três estavam ocupados com as próprias obrigações, mas não achava que poderia se esconder deles por muito tempo.

[10:35]: Almoço por minha conta hoje?

[10:36]: Seu tornozelo já melhorou?

[10:36]: Meus colegas de quarto podem me carregar e considerar isso um treino, sem problemas.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto dela.

[10:36]: Aviso quando estiver a caminho, me esperem na portaria.

[10:38]: Ok, se cuida.


estava no centro da cidade, mais especificamente sentado na sala de espera de uma das empresas de marketing mais renomadas do país. Se sentia extasiado por ter conseguido a entrevista não apenas ali, mas em outras duas empresas de grande sucesso. Na verdade, a ligação desta franquia tinha sido tão inesperada que deixou para trás toda frustração sobre ter sido rejeitado pelas duas anteriores.
— Ficamos felizes de receber um currículo tão bom como o seu. Nosso RH é bem rígido, então pequenas coisas acabam se tornando elemento de eliminação antes dele sequer chegar até nós — explicou o entrevistador. — Felizmente temos um acesso especial na sua universidade que nos ajuda a filtrar certos currículos com mais cuidado, visto que ela conhece a competência de cada um pessoalmente.
— Se me permite perguntar, de quem está falando?
. — gelou. — Ela também estuda marketing e trabalha com o time de beisebol, acredito que tenha a conhecido em algum momento.
— Ah, sim. Já fomos parceiros de projeto uma vez. — Ele sorriu, tentando soar casual. — As recomendações dela costumam funcionar na empresa?
— Com certeza. As observações dela nos permite analisar em qual subsidiária a pessoa irá se encaixar melhor. Confiamos bastante nas indicações de , veja só, nos trouxe você.
— É uma honra.
O sorriso se manteve profissional. Em nenhum momento deixou transparecer a culpa que lhe consumia, não permitiria que aquela oportunidade fosse perdida, ainda menos agora que sabia o que estava em jogo. Primeiro se provaria competente para a vaga, então imediatamente correria até onde estivesse para tentar reparar o que tinha feito, para tentar convencê-la de que não havia dado uma chance de ouro para o maior idiota do planeta.
Embora, no fundo, nem mesmo ele acreditasse nisso.
só conseguiu encontrá-la no dia seguinte, organizando alguns blocos de papel sobre a mesa depois da aula. Os olhares julgadores haviam piorado após a publicação do texto, agora eram muito mais descarados. Antes, a expressão despreocupada de lhe incomodava como uma pedra no sapato, mas talvez fosse apenas foco, porque talvez ela sequer estivesse ciente de que era alvo de desprezo pelos corredores. Se suas indicações tinham anotações tão atenciosas, era porque não tinha sua análise afetada pelo que pensavam dela. precisava saber se ela se importava, mas o cansaço na expressão da mulher deixava óbvio que as horas naquele lugar haviam se tornado mais difíceis desde que ele clicou no botão de enviar durante uma crise patética de inveja.
— Oi, .
— E aí, . Tudo bem?
— Tranquilo. Parece cansada.
Ela deu de ombros.
— Ah, sério? Infelizmente não pude focar tanto na minha aparência de ontem pra hoje. Tenho pensado muito se devo provar minha capacidade intelectual pra um bando de estranhos.
assentiu devagar.
— Desculpa, não devia ter soltado uma dessa de repente.
— Lamento por tudo isso. Me sinto bem envergonhado porque fui uma das pessoas que te julgaram nesse último projeto. Me senti ainda pior depois de uma entrevista de emprego ontem, a entrevista que você conseguiu pra mim.
apresentou uma leve surpresa.
— Não sei do que você tá falando.
, por favor. Ouvi diretamente da boca do entrevistador, além disso, fiz minha pesquisa sobre aquela subsidiária.
— Não quero que pense que só te chamaram porque eu pedi, o talento é todo seu.
— Bom, de certa forma, foi por sua causa, mas não é negativo. Eu descobri que você tem toda uma curadoria de currículos como trabalho extra.
— Não sei até onde o sigilo desses arquivos vai, mas fiz tudo com a permissão dos professores.
A forma como ela mantinha contato visual o deixava nervoso, como se a qualquer momento ele fosse ser descoberto. Por outro lado, achava quase engraçada a maneira que ele desviava o olhar toda vez que alguém passava, como se o holofote sobre ela também estivesse queimando sua pele.
— Então você se ocupa com as próprias atividades e ainda ajuda os meros mortais a serem vistos?
— Tá debochando de mim?
— Não, muito pelo contrário, estou admirado. Admirado e muito agradecido. — Ele respirou fundo, então decidiu: — Quero te retribuir de alguma forma.
— Não sei se vou ter tempo, .
— Talvez devamos começar por aí. Você não aparece nas festas, nem nos eventos que não oferecem horas. Quais são seus hobbies?
— Faz tanto tempo que não penso nisso.
— Eu te ajudo. Te ajudo com suas pesquisas e a descansar também. Considere um pedido de desculpas e uma forma de agradecimento.
o encarou por um instante. Os dois tinham amigos em comum, logo não seria estranho se ele fizesse parte dos encontros do grupo. Talvez até o agradeceriam caso ele realmente conseguisse fazê-la quebrar alguns hábitos nada saudáveis. Não tinha mais nada a perder, então não importava se estava compensando pelo erro de outra pessoa.
— Tudo bem. O que tem em mente?




Continua...


Nota da autora: Sem nota!

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