Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 22/05/2026Não soube dizer com exatidão qual parte sua que me atraiu primeiro porque, sinceramente, ela era um conjunto de tudo o que mais me agradava e ao mesmo tempo me instigava. Talvez eu fosse um completo sonhador, mas alguma coisa naquela mulher me dizia que, a partir daquele momento, era apenas com ela que eu desejaria estar.
Era loucura, porque eu não a conhecia de verdade. Não sabia absolutamente nada sobre ela, além do seu nome e do fato que ela sempre comparecia aos nossos shows em Nashville, mas era ela. E a forma como meu coração batia alucinadamente só me fazia ter ainda mais certeza disso. Talvez isso fizesse de mim um tolo, mas eu não ligava, desde que eu pudesse continuar a ser agraciado com a visão daquela mulher.
As luzes coloridas, que normalmente me incomodavam, porque eu não era o maior fã daquele tipo de festa, pareciam acompanhar os movimentos que seu corpo fazia, e davam um significado completamente novo à melodia agitada que tocava, como se a música fosse feita exclusivamente para ela, ou o oposto, ela havia sido feita para a música.
O mais irônico nisso era que eu não costumava acreditar em paixões às primeiras vistas. Devia saber que uma hora ou outra pagaria com minha própria língua.
Mas juro que nunca vi uma mulher tão perfeita quanto aquela. Parecia uma verdadeira deusa na pista de dança. Se movia como se não houvesse amanhã e encantava cada pessoa atraída em sua direção.
Não sabia dizer tampouco o que me prendia tanto ao lugar onde estava. Eu era livre para fazer o que bem entendesse e para me envolver com quem quisesse, então nada me impedia de levantar daquela mesa e seguir em sua direção, de repente dançar com ela pelo restante da noite e acabar aquilo tudo do jeito que era para ser.
No entanto, eu não movi um músculo, apenas continuei ali, babando, enquanto notava as familiaridades nela que eu sempre considerei existirem, devido ao fato de ela ser uma fã assumida da minha banda, a Diamonds on the rough.
Ela era minha fã.
Talvez esse fosse o real motivo de tanto receio, já que eu não costumava me envolver com nenhuma delas. Não era o que poderia ser chamado de bom moço, já que tinha alguns casos por aí, mas sabia bem que, quando se tratava de alguém que enaltecia o meu trabalho, as coisas eram mais delicadas. Era muito mais saudável então construir amizades a resumir tudo a apenas uma noite.
Meus colegas de banda já não pensavam da mesma forma. talvez fosse o que mais agisse de maneira contrária ao meu comportamento, mas eu não o julgava, e ele tampouco fazia o mesmo. Respeitávamos as escolhas um do outro, e talvez por isso nossa amizade desse tão certo.
A música mudou e, ainda assim, parecia acompanhar a dança daquela que era a dona da minha atenção desde o momento em que meus olhos pousaram nela. Notei que seu olhar se encontrou com o meu e um sorriso travesso brotou em seus lábios, o que me instigou a seguir em frente com o que quer que estivesse pensando. E, ainda assim, eu continuava preso ao meu lugar.
— Porra… — murmurei comigo mesmo, me servi de um pouco de uísque e o virei todo de uma vez.
— Ih, vá com calma aí, . Ninguém vai te carregar hoje, já to avisando. — ergueu as duas mãos e se isentou de qualquer responsabilidade naquela noite.
— enchendo a cara depois de séculos? Eu vivi para ver isso! — me zoou, o que fez com que meus olhos se revirassem.
— Qual é, o cara não pode beber um pouco de uísque que vocês já estão implicando? Deixem ele ser feliz — interveio, e eu o olhei agradecido.
— Vocês esquecem que eu não sou que nem vocês. — Dei de ombros.
— Verdade. Você já tá na fase de ser um velho ranzinza, que não aguenta nem meia hora em uma balada. — riu e foi acompanhado por .
— Parem de ser babacas e cuidem da vida de vocês — retruquei, ao me fazer de ofendido, mas ri no fim, porque eu sabia que estavam apenas sendo os pés no saco de sempre.
No fundo, de qualquer forma, realmente era verdade. Eu não gostava de baladas mesmo. Preferia muito mais curtir um pub com música ao vivo, ou até mesmo ficar em casa, assistindo um filme qualquer e tomando umas cervejas. Minha vida já era bastante agitada sem as festas, e eu conseguia aproveitá-la ao máximo mesmo assim.
Cada show de minha banda me trazia mais uma dose da sensação de que aquele seria o último dia da minha vida, e isso não era ruim, muito pelo contrário. A adrenalina fazia com que eu desse tudo de mim em cada nota que emitia, ao mesmo tempo em que absorvia cada emoção que o público demonstrava.
No passado, eu precisava de álcool para me sentir nas nuvens, mas, quando isso perdeu o sentido, entendi que a música era o meu melhor vício.
Isso, é claro, antes de vê-la. A garota que eu não fazia ideia do nome, ou sequer havia chegado perto. Era uma espécie de amor platônico que se revelasse para qualquer um de meus amigos, até mesmo , seria zoado pelo resto da vida.
Por alguns segundos, não a encontrei mais na pista de dança e me senti vazio de um jeito muito engraçado. De repente, já não queria mais ficar ali naquela balada, o uísque caiu mal, e a música que tocava estava muito alta.
— Quem é o alvo? — Escutei a voz de ao meu lado e o olhei com uma sobrancelha arqueada.
— O quê? — perguntei, meio confuso.
— Ah, vamos lá, . Você tava olhando para a pista de dança feito um zumbi minutos atrás. Agora tá todo agitado como se tivesse perdido alguém. Vai, me diz como ela é que tento te ajudar. — Me deu um tapinha nos ombros e, no fim das contas, não faria mal nenhum deixá-lo me ajudar.
Porém eu faria o que se a encontrássemos novamente? Ficaria lá paralisado de novo e me xingaria mentalmente por cobiçar uma fã?
— Deixa pra lá, . Eu tenho quase certeza de que ela é nossa fã. — Fiz uma careta, e ele pareceu não entender.
— E daí? — questionou, enquanto arqueava uma sobrancelha e roubava a garrafa de cerveja das mãos de para tomar alguns goles.
— Ei, seu fodido — resmungou, e apenas deu de ombros, sem dar a mínima para as queixas dele.
— Não fico com fãs, — respondi, como se a interrupção não tivesse acontecido.
Ele revirou os olhos para o meu comentário, simplesmente porque não concordava comigo.
— Você não faz ideia do que está perdendo, cara.
— Com a vida que a gente leva, não acho isso legal. Deixo isso pra você, e . — Dei de ombros e sorri de canto.
— Mas isso também não precisa ser uma lei absoluta. Se você ficou interessado na garota, vai fundo. Qual o problema em quebrar regras uma vez ou outra? — se meteu na conversa, e sinceramente? Aqueles dois pareciam dois diabinhos que subiram nos meus ombros e murmuravam contra o anjo da minha consciência.
Talvez diria novamente para os dois saírem do meu pé, mas… Onde ele estava mesmo?
Era incrível a capacidade que tinha de sumir do nada.
— De qualquer jeito, eu a perdi completamente de vista, o que deve ser um sinal óbvio de que a noite tá encerrada pra mim. Amanhã temos essa entrevista cedo, e vocês dois deviam dar o fora daqui também. — Encarei os dois ao me levantar e os vi trocarem um olhar antes de rirem alto.
— Até parece que não nos conhece, . — negou com a cabeça.
— É, foi o que eu pensei. — Ri, dando de ombros. — Divirtam-se.
Segui para fora da balada, sem deixar de procurar aquela que havia me deixado completamente louco sem nem saber disso, mas, de repente, era como se ela tivesse evaporado.
Já , eu encontrei a alguns metros da entrada, com duas ruivas penduradas no pescoço. Tinha certeza de que logo os três estariam em seu quarto de hotel.
No dia seguinte, eu acabei acordando mais cedo do que esperava e decidi que sair para correr um pouco me ajudaria a começar bem o dia.
A parte ruim de ser um rockstar famoso era ter que sempre andar disfarçado onde quer que fosse, e eu precisava admitir que correr de óculos e boné não era bem um dos meus maiores prazeres da vida. Pensar nisso sempre me fazia hesitar, mas, no fim das contas, ignorava o incômodo e prosseguia com a ideia, porque os exercícios sempre me ajudavam a pensar.
Eu havia sonhado com a garota da noite anterior e acordado suado porque, bem, no sonho ela dançava montada em cima de mim, se é que me entende.
A mera lembrança disso despertava lugares que não podiam ser acordados em público, então foquei meus pensamentos nas coisas mais opostas possíveis e busquei me acalmar antes de ser preso por atentado ao pudor.
Tropecei nos meus próprios pés, coisa que nunca havia me acontecido antes, então parei e dei uns soquinhos em minha perna ao sentir a cãimbra me paralisar. Obviamente, aquilo não seria o bastante para a minha vergonha, porque o boné escapou de minha cabeça, e quando fui tentar pegá-lo, o vento o jogou para mais longe.
Normalmente, eu não era estabanado daquele jeito, parecia alguma conspiração do universo ou algo assim, por mais que eu não acreditasse nessas coisas.
— Isso é seu? — Escutei uma voz feminina e, de repente, uma mão segurando o boné entrou em meu campo de visão.
Bom, retiro o que eu disse sobre não acreditar no universo.
Ergui meu olhar para a dona da mão, e qual foi a minha surpresa quando encontrei a garota que havia dominado meus sonhos a noite toda. Digo, quais eram as chances?
Abri um sorriso meio bobo, porém percebi segundos depois o quão esquisito aquilo me deixava, então tentei manter minha expressão o mais neutra possível.
— Eu… — Pigarreei quando minha voz soou mais rouca do que o normal. — Sim. É meu. Muito obrigado. — Peguei o objeto de suas mãos.
— Por nada. — Ela devolveu meu sorriso e me encarou de cima a baixo. Por mais discreta que sua análise fosse, eu ainda assim consegui perceber, e isso fez algo dentro de mim se agitar.
Talvez meus amigos estivessem certos, e eu pudesse quebrar minhas próprias regras pelo menos uma vez. A vida era muito curta, afinal de contas.
— Será que posso te compensar por salvar a minha vida? Sabe, sem esse boné aí, eu poderia morrer mesmo — brinquei e a vi arquear uma sobrancelha e negar com a cabeça.
— Imagina. É só um boné. Não precisa tanto.
— Eu insisto. — Tentei não soar desesperado, mas não sabia se tinha conseguido.
— Tudo bem. E como você quer me compensar? — Me olhou curiosa.
— Um jantar talvez? Eu te chamaria para um café agora mesmo, mas eu tenho algumas coisas para fazer e…
— Um jantar está ótimo. Te encontro no bar do hotel, às oito. — Piscou para mim e eu gostei daquele jeito dela de tomar as rédeas.
Não que eu estivesse tentando esconder alguma coisa, porém, ainda assim, ela também demonstrar que me conhecia me pegou de surpresa.
— Então você sabe quem eu sou — provoquei, depois de assentir para o horário e local marcados por ela.
— Tem como não reconhecer ? E sabe de uma coisa, ? Acho que não sou tão estranha assim pra você. — Sorriu enviesado, o que deixou claro que ela tinha me notado a encarando na noite anterior.
— Não é — confirmei, mesmo não sendo necessário.
— Ótimo. Às oito então — repetiu, se aproximou e deixou um beijo em meu rosto. — Até mais, .
— Até mais… — Olhei para ela embasbacado, então sacudi a cabeça e me permiti chamar sua atenção quando ela já tinha se afastado em alguns passos. — Ei, você não me disse o seu nome.
— .
— Até mais tarde, .
Me senti um completo otário, no entanto, quando cheguei ao bar do hotel e passei exatas duas horas esperando por . Primeiro, porque havia levado bolo de alguém depois de anos, e segundo, porque eu poderia muito bem ter anotado o número dela, ou algo do tipo, porém nem pensei no assunto.
Se eu não era o cara mais burro do universo, não sabia quem era.
Acabei de péssimo humor, bebi como fazia anos que não bebia, e quando estava voltando para meu quarto, pensei estar tendo alguma espécie de ilusão ao ver a dona dos meus pensamentos sair por uma das portas. Não saberia dizer qual, porque realmente não estava em condições de ler muita coisa.
— ? — Ela soou surpresa, e eu me perguntei por quanto tempo aquele devaneio duraria. Eu só podia estar ficando louco ao fantasiar daquele jeito com uma garota que eu mal conhecia e claramente não me queria de volta.
— Me deixe em paz — resmunguei, então estreitei os olhos e tentei ler os números nas portas. Precisava encontrar meu quarto e talvez, se eu testasse meu cartão chave em cada uma delas, desse certo.
Isso se conseguisse acertar sua posição.
— , você está bêbado.
— Sério? Nem percebi. — Soltei sarcástico, e ela bufou.
— Vem. Eu te ajudo a achar o seu quarto. Qual é o número dele? — perguntou e se aproximou de mim. Quando senti sua mão tocar meu braço, a encarei espantado.
— Você realmente está aqui, ? — Devo ter soado ainda mais patético do que parecia.
— Estou. Agora me diz o número antes que você vomite em cima de mim. — Ela riu.
Fiz uma careta, porque vomitar nela seria realmente o fundo do poço.
— 1314 — respondi e a senti me puxar para encaixar meu braço em volta de seus ombros.
Sinceramente, antes eu ser carregado por e do que me humilhar daquele jeito na frente da garota que eu estava…
O que eu estava por ela? Apaixonado não era a palavra, porque eu mal conhecia .
Encantado talvez? Querendo beijar?
Eu realmente era patético.
Minhas chances com ela provavelmente se extinguiriam completamente depois daquela noite.
Tive a impressão de ter sentido uma luz piscar com um clique, porém ignorei. No estado que eu estava, só podia ser mais uma ilusão.
Deixei me carregar para dentro do quarto e quando ela fechou a porta atrás de nós, não soube muito como agir.
— Tudo bem. Agora você precisa de um banho gelado.
Era o quê?
— É o quê? — repeti meus pensamentos, e ela estreitou os olhos para mim.
— Um banho, . Não sei o que te fez encher a cara desse jeito, já que você sempre pareceu o mais sóbrio dos quatro, porém também não vou te julgar. Para baixo do chuveiro. Agora! — ordenou, soando quase como uma mãe, e isso ecoou totalmente errado em meus pensamentos.
— Eu não vou para o chuveiro coisa nenhuma — resmunguei, mas a senti me empurrar até o local e não ofereci nenhuma resistência.
Talvez ela soubesse dos seus efeitos sobre mim e estivesse usando isso ao seu favor.
— Celular. — Estendeu sua mão, e eu franzi o cenho.
— O quê? — Fiquei confuso, mas ela não repetiu.
De repente, estava tão próxima de mim que eu podia sentir seu perfume misturado ao cheiro de nicotina. Não sabia que ela fumava, mas, novamente, eu não sabia nada sobre ela. O fato é que nunca aquele cheiro havia me atraído tanto.
Quando se afastou com meu aparelho e minha carteira em mãos, foi que eu percebi que sua aproximação era apenas um meio para pegar aqueles objetos de meus bolsos.
Mal me dei conta disso e senti o choque da água gelada sobre mim.
Quando foi que ela me enfiou embaixo do chuveiro mesmo?
— Puta que pariu, isso tá gelado pra caralho! — xinguei alto e praguejei todos os deuses do universo por aquele castigo.
— Ótimo. Assim sua bebedeira vai curar mais rápido. — sorriu satisfeita, e eu, mais uma vez, estreitei meus olhos em sua direção.
— Ah, é? — E, num movimento rápido até demais, considerando meu estado de embriaguez, eu a puxei para baixo do chuveiro comigo.
— ! — A ouvi gritar e minha reação foi gargalhar bem alto.
— Você me deu o bolo. É o mínimo que pode fazer para compensar — comentei, enquanto ainda ria.
— Cuidar de você bêbado já não é o suficiente? — Ela arqueou a sobrancelha.
— Considerando que eu só enchi a cara porque fiquei plantado no bar, acho que não. — Fui sincero.
— Ei, não me culpe pela sua bebedeira! Você bebeu porque quis. — Ficou um tanto séria, e eu bufei, porque ela tinha razão.
— Tá bom, mas eu não podia sofrer sozinho de qualquer forma.
— Você é um idiota, — ela resmungou e abraçou seus próprios braços, enquanto seu queixo tremia.
De repente, eu queria esquentá-la e sabia muito bem um jeito de fazer aquilo.
Encarei seus olhos e mantive um sorriso no meu rosto. Ela retribuiu, com o olhar fixo no meu.
— Por que você não veio, ? — Me ouvi perguntar, magoado.
— É complicado. — Ela suspirou ao me responder.
Toquei a maçã de seu belo rosto e limpei um pouco da maquiagem dela que havia escorrido ali.
— Posso descomplicar para você se quiser.
— Eu gostaria disso — ela respondeu, o que me fez tomar o impulso necessário para aproximar minha boca da sua e beijá-la.
Nossos lábios se encostaram por alguns segundos, e eu aprofundei o beijo assim que houve consentimento de sua parte.
Suspirei ao quando minha língua tocou a sua e a acariciou do mesmo jeito calmo. Levei minhas mãos até sua cintura ao senti-la enlaçar meu pescoço com as suas, apertei seu corpo contra o meu, então intensifiquei um pouco mais minhas carícias. Meu corpo esquentou e, pela forma como ela correspondia, parecia que se sentia da mesma forma.
No entanto, tão rápido quanto foi o meu impulso, ela se afastou de mim, me encarou com os olhos arregalados e negou veementemente.
— , eu não posso fazer isso. Não com você.
De repente, senti a água fria tocar meu corpo novamente.
— O quê? Por quê? — balbuciei, totalmente confuso.
— Me deixei levar, mas não posso. Nós dois. Isso aqui não pode acontecer. Nunca. Me desculpe — gaguejou pela primeira vez e saiu do chuveiro.
Em questão de segundos, ela já não estava no quarto, certamente após ignorar que corria com as roupas molhadas pelo hotel.
Tentei alcançá-la, porém, quando cheguei ao corredor, já era tarde demais.
Outra vez, tive a impressão de sentir aquela luz piscar com um clique e ignorei, porque nada daquilo importava naquele momento.
já havia partido e, mais uma vez, eu não tinha pego seu número.
