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Passaporte Rússia, 2018

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Prólogo


Apertei F5 novamente e nada. Ouvi um apito e suspirei, jogando as cobertas para o lado e me levantei, deslizando os pés pelo apartamento, provavelmente deixando as meias bem sujas pela falta de limpeza. Abri o micro-ondas, vendo meu almoço borbulhar lá dentro e tirei o prato com pressa, queimando levemente a ponta dos dedos, e o apoiei na pia, sorrindo com aquela alegria em forma de lasanha congelada.
Peguei os talheres e comecei a cortar a massa em pedaços pequenos, para evitar que caísse molho nos lençóis recém trocados da minha cama. Ouvi um barulho forte vindo da porta e olhei para a mesma, vendo-a ser aberta com rapidez, me assustando, e Bernardo aparecer.
— Já saiu?! – Ele fechou a porta correndo e eu o encarei assustada, ele estava vermelho e suava bastante.
— Você veio correndo só para isso?
— Como assim, “só para isso”? É o emprego dos sonhos, . – Ele me sacudiu pelos ombros e eu ri fraco, negando com a cabeça.
— Ainda não e duvido que eu vá conseguir. – Ele me olhou indignado, me soltando em seguida.
— Você passou por todas as fases do processo seletivo, . Você foi entrevistada pessoalmente pelo presidente da CBF, essa vaga é sua – ele falou animado e eu balancei a cabeça, pegando meu prato e voltando para meu quarto.
— Você está mais animado do que eu, Nardo, e você nem gosta de futebol. – Me sentei novamente na cama, colocando uma almofada em meu colo e o prato em cima.
— Você só diz que não está animada, mas aposto que vai adorar receber aquele salário de dez mil reais e ainda trabalhar perto dos jogadores mais bonitos da atualidade. – Suspirei.
— Exato! Aí que está o erro, que pessoa de 24 anos ganha um salário de dez mil reais? – Virei para ele. – Isso é loucura! – Ele riu.
— Sim, isso é verdade, mas é a CBF, provavelmente não vai ser o salário mais limpo do mundo, mas... – Ri fraco, balançando a cabeça.
— Eu não sei, seria demais, mas tinham outros candidatos na entrevista. – Suspirei. – Vai ser difícil.
— Bom, você é a jornalista com o melhor currículo que eu conheço e só tem 24 anos, além de amar futebol, eles só ganhariam contigo. – Sorri.
— Obrigada, Nardo. – Ele sorriu, se sentando na minha poltrona em frente à escrivaninha.
Coloquei o primeiro pedaço de lasanha na boca, sentindo—a queimar minha língua e a devolvi no prato quase na mesma hora, ouvindo um toque vindo do meu computador. Eu e Nardo nos entreolhamos e eu afastei a almofada com o prato com rapidez e puxei meu computador, vendo na tela que tinha um novo e—mail na caixa de entrada.
— Confia, ! – ele falou e eu engoli em seco, alterando as abas do navegador e respirei três vezes antes de abaixar o olhar para o e—mail recebido.
“Bem-vinda à CBF”, dizia o título e eu arregalei os olhos, abrindo o e—mail correndo.
— “Senhorita Lima, é com enorme prazer que te recebemos em nossa equipe!” – Nardo gritou quando eu li a primeira frase. – “Seu nome foi escolhido entre tantos candidatos para compor a nossa equipe de comunicação. Seu currículo e entrevistas nos mostraram que suas habilidades e conhecimentos só trariam adições à nossa equipe”. – Engoli em seco. – “Para informações sobre horários e locais de trabalho, leia o arquivo em anexo, esperamos notícias suas muito em breve. Coordenadora de Comunicação da CBF, Michelle Martins”. – Li lentamente, arregalando os lábios quando finalizei o mesmo.
— Você conseguiu! – Bernardo gritou ao meu lado, se jogando em cima de mim na cama. – Tu vai trabalhar com Neymar, Marcelo, Jesus, Alisson... Meu Deus! – ele falou me apertando e eu gargalhei. – Minha amiga tá rica, gente! – Ele se levantou, me sacudindo e eu ri, não sabendo se as lágrimas eram de alegria ou de desespero. – Tu vai para Rússia, .
— Eu não vou para Rússia, Bernardo.
— Ok, provavelmente não, mas você vai trabalhar coladinho daqueles homens de coxas grossas e...
— Agora entendo seu interesse pelo futebol! – Ele gargalhou, me abraçando fortemente.
— Isso é demais, . A gente precisa sair para comemorar. Em um lugar bem caro porque agora você pode! – Revirei os olhos, sentindo—o me apertar.
— Eu preciso que a ficha caia antes, Bê. – Soltei o ar devagar. – Terminar de ler o e—mail, contar para minha mãe, abrir uma conta no Itaú, parar de chorar... – Falei embolado.
— Ah, amiga! – Ele me apertou novamente, me fazendo rir. – Podemos comemorar com vinho barato, então. – Gargalhei, apoiando minha cabeça no ombro dele.
— Você vai atrás do vinho que eu vou ler tudo aqui.
— Eu já volto! – Ele me soltou rapidamente, saindo do meu quarto, voltando logo em seguida. – Segunda—feira é a convocação, não é?! Será que você vai acompanhar?
— Ah, acho que não! Eu sou peixe pequeno. – Falei rindo, dando de ombros, mas ao mesmo tempo sentia meu coração bater muito rápido, como num jogo de futebol.

Capítulo 1 – Bem-Vinda à CBF

— Obrigada! – Falei para o moço do Uber e saí do carro com a bolsa colada no corpo.
Olhei para cima e encarei o prédio espelhado da CBF no meio da Barra da Tijuca e senti um frio na barriga, me fazendo apertá—la por alguns segundos. Respirei fundo algumas vezes e segui para a portaria, me apoiando sobre a guarita quando uma pessoa abriu a mesma.
— Bom dia, no que posso ajudar? – ele perguntou.
— Eu vou começar a trabalhar aqui hoje, área de comunicação – falei e ele assentiu com a cabeça.
— Pode seguir pela entrada principal que te darão as informações necessárias lá dentro.
— Obrigada! – falei, atravessei a rua do lado de dentro das grades e olhei rapidamente para as bandeiras hasteadas ali e o brasão da CBF ao fundo, não pude evitar um pequeno sorriso.
Passei pela porta giratória no lugar e me encontrei no saguão, onde um balcão estava apinhado de atendentes e seguranças e, ao fundo, as bandeiras de todos os estados no Brasil. Me aproximei do mesmo, aguardando minha vez chegar e uma moça me atendeu sorridente.
— Olá, no que posso ajudar? – ela perguntou.
— Eu sou , vou começar meu emprego hoje na área de comunicação, a responsável é Michelle Martins. – Ela assentiu com a cabeça.
— Claro! – ela falou. – Vou só fazer seu crachá, me empreste seu RG, por favor. – Abri minha carteira, entregando o documento a ela e aguardei enquanto ela passava todas as informações para o computador. – Olhe para a câmera, por favor. – Ela falou e eu tentei dar um sorriso menos empolgado para a mesma, mas eu estava bem animada. – Pronto, senhorita Lima. – Ela me entregou o crachá e o documento. – Só seguir pela entrada lateral da direita e ir para o quarto andar. – Assenti com a cabeça.
— Obrigada! – falei, seguindo para onde ela havia dito e passei o crachá na catraca, pendurando—o no pescoço enquanto passava pela mesma.
Entrei em um dos elevadores e vi que o número quatro já tinha sido apertado. Logo a caixa de metal se encheu e começou a subir, parando em todos os andares possíveis. Quando ele parou no meu, eu saí com mais três pessoas. Andei devagar pelo local, vendo que tinha uma recepção com uma pessoa mais nova do que eu ao telefone. Aguardei com que ela desligasse o mesmo e ela olhou para mim.
— Oi, eu sou ... – Ela abriu um sorriso.
— Ah, você vai começar hoje, certo? – Ela riu fraco. – Eu sou Giovanna, a estagiária, é um prazer te ter conosco. – Ela estendeu a mão e eu a apertei.
— O prazer é meu – falei e ela sorriu.
— Eu vou te levar para Michelle, vem comigo. – Ela tirou o fone da orelha e o apoiou o em sua mesa.
Seguimos para dentro das portas de vidro e soltei um suspiro involuntário. O local era grande, branco com móveis brancos e os detalhes em verde, amarelo e azul, com diversas fotos dos jogadores espalhadas pelas paredes e todo tipo de publicidade à vista. Havia notado que o pessoal principal ficava nas mesas comuns no centro do local e nas laterais tinham salas especiais, como da Michelle, da fotografia, RH e afins. Ela deu dois toques na porta de Michelle e não esperou alguma resposta, abrindo a mesma.
— Michelle, a está aqui. – Eu não vi a reação de Michelle para Giovanna, mas ela saiu e abriu espaço. – Pode entrar! – Sorri para a mesma e entrei devagar na sala.
— Peça para Lucas vir aqui daqui a pouco, Gi? – Olhei para a moça alta e de cabelos escuros lisos se levantar da cadeira e sorrir para mim. – Olá, , tudo bem? Que bom que veio! – Ela me estendeu a mão e eu apertei a mesma.
— Obrigada! Estou feliz em estar aqui. – Michelle encostou a porta e me acompanhou até sua mesa. – Sente—se, por favor. – Ela começou a organizar as papeladas que bagunçavam sua mesa e eu vi vários arquivos sendo juntados. – Ignore a bagunça, hoje o dia está meio conturbado. – Ela falou rindo. – Temos a coletiva da convocação às 14 horas e tudo está uma bagunça.
— Sem problemas!
— Bom, , hoje é seu primeiro dia aqui e eu sempre gosto de passar algumas informações para os colaboradores novos, principalmente nesse clima Copa, que acaba mudando um pouco a rotina de todos aqui na CBF. – Assenti com a cabeça. – Quando estivermos fora de campeonatos e disputas internacionais, seu horário de trabalho será das oito às 18 horas, de segunda a sexta—feira, com uma hora e meia de almoço e mais dois intervalos de 15 minutos que você fará na hora que quiser. – Assenti com a cabeça. – Já em épocas como as que estamos se aproximando, as coisas acabam mudando um pouco, você colocou no seu formulário que tem disponibilidade para viagens, certo?
— Sim, sim! – Falei prontamente.
— Então, quando os jogadores estiverem treinando na Granja Comary, nós pedimos para que alguns funcionários se aloquem lá, para repasse de informações mais agilizado, contato com os jogadores, além de que gostamos desse contato equipe e jogadores, porque acaba trazendo algumas ideias incríveis. – Assenti com a cabeça. – Como social mídia, seu trabalho vai ser, praticamente, fazer artes e publicar nas nossas redes sociais, Facebook e Instagram, temos outras redes sociais, mas com outros responsáveis. Além de interatividade com o público, fazer todo o monitoramento e acompanhamento e, também, fazer artes para as divulgações dos jogadores, normalmente acaba sendo um trabalho em parceria com a assessoria deles, mas isso é papo para outra hora.
— Certo! – falei rindo.
— Por isso, essa primeira semana você vai ficar aqui nesse prédio, pegando o andamento da CBF, conhecendo o pessoal, mas, na semana seguinte, eu vou precisar de você lá na Granja Comary em Teresópolis.
— Sem problemas! – Tentei conter o sorriso.
— Lá as coisas mudam de figura, você ficará hospedada lá, terá um quarto e banheiro só teu, cumprirá o horário de trabalho, mas terá um diferencial: ele não vai ser tão quadrado como aqui, lá você vai ter que caçar pauta, como dizemos, acompanhar os jogadores de perto, o treinador, a equipe técnica, vai realmente encontrar o que fazer. Você vai poder usar todos os meios da CBF, andar pelo local, usar os espaços em comum, academia, refeitório, são três refeições por dia, café da manhã, almoço e jantar, além de um lanche na parte da tarde e outro depois das 10 da noite. – Assenti com a cabeça. – Academia e afins você pode usar antes ou depois do seu horário de expediente e só nos fins de semana que você terá que ficar lá também, até que eles vão para Londres.
— Tudo bem. – Suspirei.
— Mas seu horário será diferente de fim de semana, você estará no seu horário livre, mas se necessitar de algum trabalho, enfim... – Ela respirou fundo. – Depois eu te passo o briefing certinho, são muitas informações, estou tentando me lembrar de tudo.
— Não se preocupe, qualquer dúvida eu pergunto. – Ela riu fraco, respirando fundo.
— O que mais? – Ela perguntou. – Ah sim. Você precisará se apresentar em Teresópolis na segunda—feira que vem, dia 21 de maio, que é quando os jogadores chegam. Nós teremos um ônibus saindo daqui as seis e meia da manhã, mas se preferir ir com seus meios, a gente se encontra lá as nove da manhã e reporemos seus gastos. – Assenti com a cabeça novamente.
— Eu vou ficar lá durante a Copa? – perguntei.
— Não, você vai ficar só uma semana lá na Granja, dia 27 eles vão para Londres se preparar para o amistoso e então você volta para a cidade e segunda—feira voltamos normalmente.
— Você não vai com eles? – Ela riu fraco.
— Ah não, já tive drama suficiente na minha vida. – Ela riu nervoso. – Hoje eu cuido da parte no Brasil mesmo, temos uma equipe de três pessoas mais fotógrafos que estão se preparando para ir.
— Legal! – falei, rindo em seguida.
— Quando eles forem para Londres, você receberá todas as informações dos assessores de lá por meio de um fórum que temos e vai elaborando as postagens, elaborando relatórios semanais, etc... – Ela balançou a cabeça e ouvimos a porta bater. – Ah sim! – ela falou rapidamente. – Pode entrar.
— Pediu para me chamar? – Um moço, mais ou menos da minha idade, entrou na sala e sorriu para mim.
— Por favor, Lucas, entre – ela falou e ele se sentou ao meu lado. – Essa é , nova social mídia, queria que vocês se conhecessem, pois vocês vão trabalhar lado a lado lá em Teresópolis.
— Olá, tudo bem? – Ele estendeu a mão para mim e eu a apertei.
— Lucas é o fotógrafo oficial da Seleção, ele vai para Teresópolis, depois para Londres e acompanhará os meninos na Rússia, ele que vai te passar as fotos e algumas informações para elaborar as postagens.
— Beleza! – Sorri, assentindo com a cabeça.
— Você vai gostar daqui, é tudo sério, mas é bem despojado.
— Despojado! – Michelle falou se levantando e seguindo para um dos armários. — Quanto você usa de blusa, ? – Ela me perguntou.
— M ou G, dependendo da forma. – Ela pegou algumas coisas e voltou para a mesa.
— Aqui nós não exigimos uniforme, mas temos algumas blusas oficiais, caso interesse. Mas em Teresópolis sim, para diferenciarmos quem é equipe, imprensa, funcionários, entre outras coisas. – Ela me entregou cinco camisetas. – Depois prove e veja se está certinho.
— Obrigada! – Falei, colocando as camisetas em meu colo, rindo em seguida.
— Estou me esquecendo de alguma coisa, Lucas? – Ela perguntou.
— Não sei o que falou para ela, mas qualquer coisa você pode perguntar para gente, somos bem de boa.
— Obrigada! – falei rindo.
— Ah, só uma curiosidade, tem passaporte?
— Tenho – falei, franzindo a testa.
— Já viajou para fora?
— A última vez faz dois anos, fui para Londres estudar por um mês. – Ela assentiu com a cabeça.
— E as vacinas estão em dia?
— Sim, tomei as atrasadas junto com a campanha da gripe. – Ela sorriu.
— Bom saber! – Ela riu fraco. – Nossa equipe para Rússia está completa, mas vai que todos os nossos 12 assessores adoeçam e...
— Dramática! – Lucas brincou, se levantando da cadeira e eu ri.
— Ah sim, falando em assessores. – Michelle lembrou. – Às vezes fazemos um rodízio nas ocupações, para dar uma mudada nos ares, então indicamos ficar próximo aos assessores, ver como eles se portam. – Assenti com a cabeça. – É tudo junto, os releases, notícias, até postagens são divulgados para todos, então as coisas acabam se misturando um pouco.
— Eu gosto bastante de assessoria também, então, estou nas nuvens.
— Ótimo! – Ela sorriu. – Vamos conhecer seu local de trabalho? Algumas pessoas?
— Claro! – falei, me levantando prontamente.

— Bem, aqui é o seu espaço de trabalho. – Michelle me apontou para uma mesa de canto. – Computador com todos os programas necessários instalados, você vai configurar ele da forma que quiser com uma senha pessoal sua. Usamos bastante o WhatsApp Web para nos comunicarmos, depois vou pedir para a Giovanna ou o Lucas te colocarem no nosso grupo. – Assenti com a cabeça. – Nas gavetas temos blocos de notas, papéis timbrados, um arquivo com as suas obrigações semanais, como o relatório de trabalho e, todo dia, em cima da sua mesa, vai ter um papel com seus deveres diários, às vezes são mais coisas, às vezes menos, e às vezes você vai ter que procurar o que fazer. – Assenti com a cabeça, tirando minha bolsa e colocando—a na poltrona. – Nas gavetas também tem um iPad e um celular, que serão seus para uso fora daqui, para levar para a Granja, eventos nos fins de semana, etc...
— Certo! – falei.
— Tem também o notebook, mas ele fica em outro local, então, no fim da semana, você dá um toque na Gi que ela te entrega um para levar para Granja.
— Perfeito. – Assenti com a cabeça.
— Bem, vamos conhecer as pessoas – ela falou e eu a segui para o começo do andar. – Inicialmente temos nossos assessores de imprensa. – Ela entrou no quadrante da assessoria onde eu vi nove pessoas. – Aqui temos Andrea, Joana, Luana, Gabriela, Roberto, Diana, Carlos, Cléber e Débora. – Acenei para eles. – Essa é a , gente, ela é nossa nova social mídia!
— E aí, ? – eles falaram juntos sorridentes e eu retribuí.
— Está faltando o Theo, a Angelica e a Bianca, mas eles vão para a Rússia, então, estão se preparando para a coletiva. – Assenti com a cabeça.
— Prazer, gente! – Acenei sorrindo.
— Vamos seguir aqui para trás – ela falou, me chamando com a mão. – Aqui temos o pessoal da fotografia, o Lucas que você já conhece. – Acenei para ele. – O David, a Anna e a Bruna. – Acenei para todos. – Lucas e David vão para Rússia.
— Olá, tudo bem? – falei e eles sorriram.
— Depois temos o pessoal do marketing, mas eles trabalham mais na parte de materiais de divulgação, uniformes, comerciais, propagandas, etc... – Assenti com a cabeça, vendo o outro grupo de pessoas. – Aqui ficam o João, Anita, nossa estrangeira Telma e Lopes. – Acenei para todos.
— Como você está? – Sorri, acenando para eles.
— E aqui no fim temos as equipes menores, a Júlia e a Dulce do RH, Iago, Murilo, Inês e Nina são nossa turma de relações públicas, o que você provavelmente vai passar bastante tempo com eles e o Vinícius que é... – Ela parou um pouco quando ele sorriu. – Bom, você vai descobrir com o tempo o que o Vinícius faz. – Franzi a testa e a turma em volta deu risada. – Acho que é isso.
— Não ligue para ela, meu trabalho é o mais legal! – Vinícius falou e eu ri. – Prazer te conhecer.
— O prazer é meu. – Sorri.
— Espero que goste daqui – uma das meninas do RH falou.
— Certeza que vou gostar. – Sorri.
— Bem, , é muita informação ao mesmo tempo, mas com o tempo você vai se ligando, eu indicaria você ficar perto do pessoal que vai para a Teresópolis para você pegando o ritmo da coisa. – Michelle falou e eu assenti com a cabeça.
— Beleza, perfeito! – Sorri.
— Bem, temos algumas horas até a convocação ainda, porque você não vai configurando seu computador, vai conversando com o Lucas sobre a forma que vocês vão trabalhar, protocolos que vão criar e tudo mais e duas horas você desce com o pessoal da assessoria para acompanhar a convocação, que tal?
— Eu? Acompanhar a convocação? Mesmo?
— Por que, não? Você trabalha com a gente agora. – Abri um largo sorriso.
— Vai ser ótimo! – falei rindo.
— Perfeito! Qualquer coisa eu estou na minha sala e você pode falar com a Giovanna, ela vai tirar suas dúvidas.
— Obrigada! – Sorri, suspirando.
— Vamos conversar? – Virei e vi Lucas ao meu lado.
— Claro! – Sorri.
— Vamos lá na sua mesa, assim você já vai organizando tudo.
— Beleza! – Falei rindo, seguindo com ele em direção à minha mesa.

Voltei do almoço 15 minutos mais cedo no meu primeiro dia, não para demonstrar interesse e comprometimento, mas sim porque a convocação começava bem na hora do meu retorno e eu não queria pegar a chegada da imprensa em peso. Subi rapidamente para o quarto andar, guardei minha bolsa e peguei o iPad e o celular, precisaria descobrir quem seriam os convocados para começar a seguir todos e entrar em contato com todas as assessorias.
— , você aqui! – Olhei para trás, vendo Michelle saindo de sua sala.
— Oi! Vim mais cedo para pegar a coletiva do começo.
— Gosta de futebol?
— Muito! – Suspirei. – Joguei por muito tempo na escola e pela faculdade.
— Sério? Acho que deveríamos ter perguntado isso em um dos processos seletivos. – Sorri.
— Acho que não será tão útil para o emprego.
— Quem sabe na confraternização de fim de ano da empresa? – Ri fraco, balançando a cabeça.
— Talvez eu seja útil.
— Que posição você jogava?
— Goleira! – falei orgulhosa. – Minha família é composta por goleiros, meu pai, meu tio, minha prima. – Sorri. – Difícil completar time nos encontros em família.
— Posso imaginar! – ela falou rindo. – Bem, me acompanha?
— Claro! – Peguei as coisas e a segui pelo corredor, quando as portas se fecharam dentro do mesmo, ela me estendeu uma das várias folhas de sua prancheta.
— Vai começando os trabalhos – ela falou e eu franzi a testa, virando a capa e encontrando uma lista com o nome de 23 homens.
— É a lista da convocação? – cochichei para ela.
— Exclusivamente para ti. – Abri a boca surpresa e ela riu. – Divirta—se! – Ela disse e eu fechei a mesma correndo quando as portas do elevador se abriram no primeiro andar.
Saí correndo atrás dela e entramos na sala de imprensa. Parei por alguns segundos ao vê—la apinhada de pessoas e me assustei um pouco vendo jornalistas de diversos meios de comunicação do Brasil (e mundo) nas cadeiras dispostas e câmeras organizadas na parte de trás.
— Psiu! – Virei para o lado, vendo Vinícius escorado na parede junto de outros funcionários da área de comunicação e me aproximei deles, me apertando entre ele e outra moça que eu não conhecia. — Bianca, essa é , a nova social mídia. – Ele falou para a mulher e eu sorri.
— Ah, você é a menina nova – ela cochichou e eu sorri. – Muito prazer te conhecer. – Ela apertou minha mão e eu sorri.
— O prazer é meu – falei sorrindo.
Olhei rapidamente para os lados, vendo se não tinha ninguém da imprensa de papagaio de pirata, apesar de o local estar fervendo e abri a capa da lista rapidamente, descendo os olhos rapidamente para os goleiros: Alisson da Roma, Ederson do Manchester City e Cássio do Corinthians, abri um pequeno sorriso e fechei a lista novamente.
Eu não conhecia muito o trabalho do Alisson, eu até torcia por um time italiano, mas não era o dele, mas eles avançaram bem durante a Liga dos Campeões da Europa. O Ederson eu realmente não acompanhava, campeonato inglês não era comigo, agora o Cássio eu conhecia muito dos jogos do Corinthians aqui no país. Não torcia pelo time dele, mas tinha que admitir que ele era muito bom.
Ouvi um alvoroço e olhei para frente, vendo Tite e outros três homens entrarem na coletiva e se sentarem à mesa, acabei descobrindo que eram Cléber Xavier, braço direito de Tite, Edu Gaspar, coordenador técnico da Seleção e Rodrigo Lasmar, médico da Seleção. Ergui meu celular rapidamente e tirei uma foto, enviando correndo para Bernardo com a frase: “Olha o que está acontecendo aqui!”. Queria esperar pela resposta surtada do meu amigo, mas um dos homens começou a falar e eu liguei o iPad, seguindo para o Instagram para começar a seguir todos os jogadores convocados.
— Gostaria de iniciar com um agradecimento a todos os atletas que fizeram parte dessa caminhada conosco até aqui. Vale lembrar que chegamos em 2016 com o jogo contra o Equador. E todos os atletas que estiveram conosco em todas as convocações, nosso profundo agradecimento, pois sabemos a importância que eles tiveram na nossa preparação e nos resultados que tivemos aqui. Então, em nome da comissão técnica e de todos nós, a todos os atletas, nosso muito obrigado pelo trabalho que eles vêm fazendo conosco até agora.
Ele continuou falando sobre o preparo dos atletas na Granja Comary, sobre as estruturas do local, sobre a preparação que aconteceria em Londres, depois sobre o terceiro período de preparação quando a equipe chegar a Sochi. Em seguida, ele falou da presença dos familiares na preparação dos jogadores, que eles terão tempo também para descansar e aproveitar esses momentos.
— Bem, falando tudo isso, eu passo a palavra para o professor. – Ele falou e eu engoli em seco, olhando para Tite.
— Boa tarde. Respaldado, seguro e com a expectativa muito grande sobre a recepção de vocês, mas vamos direto. – Me assustei com a rapidez. – Goleiros: Alisson, Roma; Cássio, Corinthians; e Ederson, Manchester City. – Comecei a mexer no Instagram rapidamente, tentando acompanhar o nome de todos, mas ele era rápido. – Defensores: Danilo, Manchester City; Geromel, Grêmio; Filipe Luís, Atlético de Madrid; Marcelo, Real Madrid; Marquinhos, PSG; Miranda, Inter de Milão; Fagner, Corinthians; Thiago Silva, PSG. – Sorri ao ouvir o nome do Thiago Silva na lista novamente. – Meio campistas: Casemiro, Real Madrid; Fernandinho, Manchester City; Fred, Shakhtar Donetsk; Paulinho, Barcelona; Phillipe Coutinho, Barcelona; Renato Augusto, Beijing. – Ele virou para o lado. – Tá boa a velocidade assim? – Ri fraco, vendo—o sorrir. – Willian, Chelsea. – Ele finalizou. – Atacantes: Douglas Costa, Juventus. – Me contive em comemorar a presença de um bianconeri na seleção brasileira. – Firmino, Liverpool; Gabriel Jesus, City; Neymar Júnior, PSG; Taison, Shakhtar. – Abri um sorriso, feliz por estar ali.
— Por favor, apresentem nome e veículo antes da pergunta – o primeiro homem falou e eu me afastei, saindo da sala de imprensa e voltando para o quarto andar e começando a procurar todas as informações sobre esses 23 jogadores convocados, abrindo diversas abas no navegador.
Vi que tinha um e—mail não lido na minha caixa de entrada e notei que era uma arte que deixaram preparada para divulgar, com o nome de todos os 23 jogadores. Abri as redes sociais rapidamente e disparei loucamente! Depois de fazer isso, eu respirei um pouco mais aliviada, comecei pelo primeiro da lista e fui seguindo, acompanhando o briefing montado pela CBF e os Instagram deles, vendo que a maioria já tinha divulgado que fora convocado, o que eu achei engraçado, todos já tinham suas artes prontas, esperando por esse momento.
Confesso que me vi tentada em parar nas redes sociais do Alisson, que homem bonito! Como eu nunca tinha reparado antes? Acho que agora com o Buffon saindo da Juventus, poderia começar a crushar outro goleiro de time italiano, principalmente pela incerteza de aonde Buffon jogaria, mas eu nunca trairia minha Juventus e torceria pela Roma.

Enquanto eu me indignava com algumas opiniões na internet sobre as escolhas da convocação, mesmo não tendo muita opinião formada sobre, recebi uma mensagem em meu celular de Michelle, pedindo para que eu voltasse à sala da coletiva de imprensa. Franzi meu rosto, mas não indaguei nada, juntei minhas coisas novamente e voltei a descer. Só agora havia notado que a sala voltara a encher novamente. Devo ter ficado vidrada com as informações sobre a convocação.
Notei que a sala da coletiva estava vazia agora, somente com algumas emissoras que retiravam suas câmeras, mas, no geral, tudo já tinha finalizado. Encontrei Michelle, Bianca e mais uma pessoa conversando com os quatro homens que falaram na coletiva. Me aproximei deles, mas, envergonhada em interromper, aguardei.
— Michelle, ela está aqui. – Bianca deu um toque em Michelle e eu dei um rápido aceno para ela.
— Ah, , vem cá! – Ela falou e eu me aproximei acanhada, engolindo em seco. – Tite, Edu, Cléber, Rodrigo, essa é . – Eles estenderam a mão e eu apertei a de cada um deles. – Ela está começando conosco hoje, ocupando o cargo de social mídia e eu queria apresentá—la a vocês, já que ela vai acompanhar vocês em Teresópolis na semana que vem e vai ficar bem próxima de toda a ação.
— Como está, ? Prazer te conhecer – Tite falou e eu sorri.
— O prazer é meu – falei sorrindo.
— se destacou bem em nosso processo seletivo por ter um currículo incrível e se comunicar bem em qualquer uma das ambientações que fizemos. Além de ser nova. – Michelle falou e eu assenti com a cabeça, então, foram esses os motivos que me trouxeram aqui? – Além de que ela jogou futebol na escola, na faculdade, ela entende do meio e fez parte. – Ponderei com a cabeça.
— Mesmo? – eles comentaram.
— Bom, não foi nenhum jogo profissional, mas nos demos bem em alguns campeonatos e jogos universitários. – Eles riram.
— E o que achou das minhas escolhas? – Tite perguntou e eu franzi o cenho, analisando se essa pergunta realmente havia sido feita para mim.
— Eu não tenho muita opinião formada sobre, meu interesse maior são os goleiros – falei sorrindo.
— Jogava como goleira?
— Sim – falei, sorrindo. – Com isso, acabo tendo certa inclinação maior para isso.
— E como estão essas escolhas? – Ponderei com a cabeça.
— Provavelmente vou poder te dar uma opinião melhor quando vê—los em prática. – Tite se surpreendeu com a resposta e eu abri um sorriso, rindo em seguida.
— Estarei aguardando sua opinião, então. – Rimos juntos.
— Bem, vocês terão muito mais tempo para socializar, queria só apresentá—los para não chegar aquele clima estranho na semana que vem.
— Por mim está ótimo – Tite falou, olhando para os outros homens. – Vai ser bom ter uma mulher com a gente para mandar na coisa toda. – Não segurei a gargalhada, mas depois notei que era sério.
— Bem, espero poder ajudar. É para isso que eu estou aqui.
— Muito bom! – Ele sorriu, estendendo a mão novamente. — É um prazer te conhecer, vai ser bom trabalhar contigo. – Sorri.
— Com vocês também, obrigada! – Assenti com a cabeça.
— Temos algumas entrevistas, não? – Tite falou e eu me afastei.
— Claro, Bianca vai acompanhá—los. – Acenei para eles e observei Bianca sair com os quatro.
— E aí, o que achou?
— Olha, se todos meus dias forem um por cento do que foi esse primeiro, eu vou amar esse emprego! – Ela riu.
— Vamos dizer que fora das competições internacionais acaba ficando meio chato, em compensação durante elas, é uma empolgação e um calor no coração que fica todo mundo apaixonado. – Sorri.
— Eu amo Copa do Mundo, então, estou adorando tudo isso. Meu Deus, conseguir a lista de convocados antes de todo mundo. – Ela riu.
— Privilégios de trabalhar com a gente, se você estivesse começado antes, já saberia desde quinta—feira. – Sorri.
— Isso é demais! – Suspirei. – Estou empolgada para ir para Teresópolis, confesso.
— Todos ficam na sua primeira vez. Eu já estou velha, acompanhei três Copas do Mundo, Olimpíadas e afins, mas vocês jovens adoram, além de que é uma farra. Vocês trabalham, mas com os jogadores tudo acaba virando festa. – Ri com ela. – E não julgamos vocês por isso, idades parecidas, os jogadores acabam enturmando vocês, trocam telefones e Instagram e as amizades são feitas. – Assenti.
— Vou adorar! – Ela riu.
— Então, , eu vi que você fez algumas postagens da convocação, o trabalho é o que você imaginou? Você entrou em um dia bem conturbado, então não pude te dar tanta atenção, mas queria saber o que você achou, se você está confortável com os termos, a viagem para Teresópolis, ter que ficar lá...
— Calma, Michelle! – interrompi rindo. – É o primeiro dia, então eu não vou poder te dar um relatório completo de tudo que achei, mas começar em dia de convocação e poder acompanhar? Nossa! Estou muito feliz. – Falei rindo. – Eu adoro jogar futebol, amo Copa, esse clima gostoso de nervosismo que a gente fica, isso acompanhando de casa, imagina acompanhar com a Seleção? Mesmo que seja só por uma semana e depois acompanhar eles daqui, mas assim, dentro da CBF... – Ri fraco. – Eu vou ser honesta que estou adorando, além do mais, é um emprego que nunca na vida eu imaginaria conseguir com três anos de formada e 24 anos nas costas. – Ela abriu um largo sorriso. – Pessoas da minha idade não conseguem isso.
— Eu fico feliz por isso, , mesmo. A área de comunicação é uma área mais dinâmica, então, tentamos valorizar o pessoal mais jovem. – Assenti com a cabeça. — Bom, as coisas vão melhorando, amanhã vou fazer uma reunião com o pessoal que vai para Teresópolis e começaremos a nos organizar melhor. – Assenti com a cabeça.
— Estarei aguardando ansiosamente todos os passos. – Ela sorriu.
— Bom, , você já fez uma postagem, nem esperávamos por isso, mas você pode ir para casa por hoje, o dia foi corrido, vai descansar, amanhã começamos do zero.
— Mesmo? – perguntei. – Talvez possa ajudar com outras coisas e...
— Confia, a semana vai ser bem louca, precisamos da equipe descansada. A maioria do pessoal já vai embora também. – Assenti com a cabeça.
— Beleza. – Sorri. – Obrigada! – Falei.
— Eu que agradeço. – Ela sorriu. – Gostei de ti, sinto que teremos grandes feitos vindos de você.
— Espero que sim. – Sorri, me virando novamente e seguindo de volta para o quarto andar para finalizar minhas coisas e ir para casa.

Abri a porta do apartamento e entrei no mesmo, fechando a porta, soltei as camisetas na mesma e coloquei a mochila que eu havia ganho, com todos os apetrechos eletrônicos da CBF, em cima da pequena mesa de jantar que eu e Bernardo tínhamos na sala. Caminhei até meu quarto e tirei meu sapato de salto preto, movimentando os dedos, relaxando.
— E aí? – Me assustei com Bernardo saindo do banheiro e ri fraco.
— Você não tem que trabalhar, não?
— Mudei meu turno, vou entrar às seis hoje. Adorei ver que você chegou mais cedo. – Sorri, me sentando na minha cadeira do computador do meu pequeno espacinho.
— Ah, Nardo! – Suspirei. – Foi tão bom! – Falei rindo. – Eu estou nas nuvens, sério! Foi demais.
— Eu vi a foto que você mandou, você foi a convocação, menina! – Ele se sentou em minha cama, levantando os pés.
— E eu recebi a lista dos convocados 10 minutos antes de começar.
— Mentira! – Dei de ombros. — Mas, me conta, como vai ser? – Ele falou.
— Ah, nossa! Nem sei por onde começar – falei rindo. – Eu vou trabalhar diretamente com eles no prédio da CBF lá na Barra da Tijuca e enquanto eles estiverem em meio a treinamentos e preparação para competições na Granja Comary, eu vou acompanhar de perto.
— Você vai trabalhar em Teresópolis? – ele falou surpreso.
— Eu não só vou trabalhar lá, eu vou ficar lá! Com os jogadores! – falei animada e ele deu um grito.
— Isso é sensacional! – Ele falou rindo e eu sorri. – E você vai agora?
— Eu vou semana que vem, tu vais ficar uma semaninha sem mim.
— Ah, nem ligo, poderosa! – Ri com suas palavras. – Nossa, , que demais! – Suspirei.
— Eu estou muito feliz. – Relaxei os ombros. — Aí ela falou que eu posso usar tudo da Granja nos horários livres, academia, piscinas, terei três refeições e dois lanches, um quarto só meu, vou acompanhar de perto os jogadores, ajudar um pouco na assessoria se for necessário, eu estou amando, Nardo.
— Eu estou amando. – Ele falou rindo. – Isso é incrível! – Ele falou e eu ri. — E depois?
— Bom, dia 27 eles vão para Londres, aí eu volto a trabalhar aqui na cidade. – Suspirei.
— E não falaram nada de Rússia? – ele perguntou.
— Ah, só mencionaram que a equipe está pronta, mas perguntaram se eu tenho passaporte e se minhas vacinas estão em dia.
— Imagina só se...
— Não, Nardo, eu não vou para a Rússia – falei rindo e ele fechou a cara. – Eles têm 12 assessores, posso te garantir que se alguém não puder ir, eu sou a última na lista. – Ele franziu os lábios.
— Tá, não importa, você vai ficar uma semana com os jogadores no maior centro de treinamento do Brasil. – Ele ergueu as mãos, maravilhado. – É um sonho! – Balancei a cabeça.
— Tonto! – Ele riu.
— O que mais? – ele perguntou. – Vai! Me conta!
— Ah, eu conheci o Tite e um pessoal da equipe técnica.
— Sério? Tipo, pessoalmente?
— Você conhece outro jeito de conhecer alguém? – Fui irônica e ele me mostrou a língua. – É, conheci! – Suspirei. – Minha chefe quis nos apresentar por causa da ida para a Granja. Eu não perguntei, mas tive a leve impressão que não vai muita gente para Teresópolis, vai um grupo mais jovem.
— Mais proximidade com os jogadores! – Revirei os olhos.
— Você sabe que eu vou lá para trabalhar e não paquerar, certo?
— Ninguém falou nada em paquerar, mas uma amizade longa e duradoura a qual você vai apresentar seu amigo quando tiver a primeira oportunidade.
— Claro. Uhum, senta lá, Cláudia! – Ele riu e suspirou.
— Ah, mas eu estou muito feliz por você, . Sério! Agora só falta eu arranjar um emprego fantástico e sair de lá.
— Ei! Eu não vou reclamar de continuar ganhando uns cupões de desconto do Outback e, vamos ser honestos, você ganha bem demais para um garçom. – Ele ergueu o dedo e ficou sem fala.
— Você tem razão, mas ainda não é o emprego dos sonhos ou com um salário como o seu. – Ri fraco.
— Eu só vou acreditar quando esse dinheiro cair na conta e vou começar a me programar para dar entrada em um apartamento ou trocar minha lata velha. – Ele riu.
— Talvez seja uma boa você comprar um presente fantástico para seu amigo!
— Pode ter certeza que sim, e de quebra, vou te levar para um rodízio lá na Churrascaria Palace.
— Ah, amei! – Ele falou rindo.
— Bem, você foi quem mais me instigou a participar disso, não me custa nada. – Ele sorriu, puxando minha cadeira de rodinhas e me abraçando de lado.
— Você é fantástica e vai se sair muito bem. Fé no pai! – Ri fraco, suspirando.
— Vamos ver!

A semana que se seguiu acabou passando muito rápido. Como eu havia imaginado, acabei trabalhando com o seleto grupo que iria para a Granja, Lucas da fotografia, Theo da assessoria e Vinícius, que eu ainda não havia descoberto o que fazia e parecia que todos estavam escondendo sua ocupação de mim.
Eu passei a semana fazendo ligações para a confirmação da presença da imprensa nos treinos abertos da Seleção em Teresópolis e mexendo no arquivo de fotografias dos 23 jogadores para elaborar imagens de divulgações, mas eu estava meio travada, não conseguia ter grandes ideias para publicações sensacionais. Os alcances estavam bem baixos e não é como se uma página como a da CBF precisasse de impulsionamento com 12 milhões de curtidas.
Também passei muito tempo em reuniões sobre a Copa do Mundo, todos os detalhes de chegava, saída, treinamentos, coletivas de imprensa, encontros com familiares, eram programados por segundo, tornando a agenda do dia totalmente doida. Na teoria, em Teresópolis era para ser assim também, mas parecia que Theo, o assessor que nos acompanharia, estava mais preocupado com a Rússia, então eu, Lucas e Vinícius, acabamos deixando as coisas para lá, a gente que mandaria naquilo, os jogadores que obedecessem aos horários deles e a equipe técnica. Nossa responsabilidade era outra.
Coloquei ponto final no relatório da minha primeira semana e demorei mais 15 minutos para revisar ao texto. Mandei imprimir e me levantei da cadeira para pegar as três cópias que saíram dali. Voltei para minha mesa, grampeando as cópias individualmente e assinei cada uma.
Voltei para o computador rapidamente, programando uma publicação para segunda—feira nove da manhã, o momento em que os jogadores chegariam a Teresópolis, lá eu pegaria algumas fotos e vídeos e começaria o trabalho pesado.
Levantei novamente e segui para a sala de Michelle, batendo duas vezes na porta, antes de abrir a mesma. Ela estava ao telefone, então, entrei devagar em sua sala, me sentando em uma das cadeiras à sua frente.
— Ok, obrigada! – Michelle falou, desligando o telefone. – E aí, menina? – Ela falou e eu estendi o relatório semanal para ela.
— Meu primeiro relatório.
— E aí, conseguiu fazer?
— O pessoal me passou um modelo, acabei seguindo. – Ela olhou rapidamente as páginas, assinando as cópias e me devolvendo uma.
— Uma fica contigo, outra comigo e outra vai para os superiores. – Assenti com a cabeça.
— Perfeito! Acho que é isso – falei. – Eu já programei uma postagem para segunda—feira quando o pessoal chegar a Teresópolis e lá eu e o Lucas combinamos de ficar meio próximos para conseguir repassar as coisas com mais facilidade.
— Está ótimo! – Ela falou. – Lá na Granja você vai ver que as coisas serão mais fáceis, mais descontraídas. Vocês terão várias inspirações, então, vai ser bem mais divertido. – Ri fraco.
— Se eu já estou achando essa correria divertida, mal posso esperar quando chegar lá. – Ela sorriu.
— Falando nisso, eu preciso saber como você vai segunda—feira.
— Eu vou com meu carro, mesmo – falei. – Os jogadores vão quatro da tarde para o aeroporto para pegar o voo para Londres às seis, eu vou aproveitar e voltar para o Rio, se não vou ter que ir para o aeroporto e só depois ir para casa.
— Sem problemas! – Ela sorriu. – Peça então para Giovanna, um dos nossos cartões corporativos para você abastecer. – Arregalei os olhos surpresa. – Combinado?
— Perfeito! – falei rindo. – Te vejo em Teresópolis, então?
— Eu não vou! – Ela riu. – Meu lugar é aqui, eu te vejo dia 28 agora e em algumas ligações esporádicas pelo Skype. – Assenti com a cabeça.
— Beleza! Você me manda mensagem que combinamos as ligações.
— Pode deixar! – Ela sorriu. – Bom, , acho que você já tem toda as informações, o uniforme, horário de chegada, horário de trabalho, compromissos dos jogadores, já pegou os eletrônicos para trabalho... – Ela colocou a mão no queixo. – Acho que é isso, lá você vai receber os horários da Granja para poder usar os ambientes comuns, descanso, refeições, serviço de lavanderia... – Franzi a testa. – Enfim, tudo certinho. – Confirmei com a cabeça.
— Acho que é isso. – Dei de ombros.
— Ah, lembrei! Segunda—feira à noite vai ter um jantar de recepção, algumas pessoas seletivas da imprensa, então, aconselho colocar uma roupa mais fina no armário, nada de gala, só melhor... E, se não tiver, use o cartão corporativo para comprar...
— Pode deixar! – Ri. – Eu tenho. – Ela sorriu.
— Então, é isso! – Ela se levantou de sua mesa, me dando um rápido abraço. – Boa viagem, bom trabalho, nos falamos. E te vejo daqui duas segundas—feiras.
— Pode deixar! – Sorri. – Boa noite. – Falei, acenando para ela.
— Boa noite – ela respondeu e eu saí de sua sala com minha cópia do relatório.
Voltei para a sala, colocando o relatório sozinho no meu arquivo e desliguei tudo. Peguei o cartão corporativo com Giovanna, pendurei a mochila com os eletrônicos nas costas e minha bolsa no ombro e saí da sala, seguindo com alguns funcionários pelo elevador.
Minha preguiça não permitiu que eu pegasse um ônibus lotado naquele dia, acabei chamando um Uber, mesmo que isso causasse uma grande conta no meu cartão no final do mês, mas ok, valeria à pena quando meu salário caísse, mesmo que parcial, no começo do mês que vem.
Entrei em casa e fui direto para o banho, tomando aquele banho completo que fazia até com que o cheiro do sabonete subisse no ar. Coloquei uma camisola e amarrei a toalha na minha cabeça para que secasse um pouco o cabelo e puxei minha mala para a parte alta do armário, eu precisava arrumar minha mala para levar para Teresópolis, mas eu estava bem perdida do que levar.
Olhei para as cinco blusas azuis polo da Seleção e sabia que calça jeans skinny era o que mais combinava com elas. Peguei várias calças jeans, outras roupas mais confortáveis para usar no meu tempo de folga, um vestido mais bonito para o tal jantar, algumas roupas de ginástica (não que eu pretendesse malhar, mas vai que...), um moletom e um casaco melhor, o básico de higiene pessoal e maquiagens.
Segui para meu armário de sapatos e coloquei três opções de salto alto, um tênis mais despojado, um tênis de ginástica e duas sapatilhas. Fiquei em dúvidas sobre roupa de cama e banho e acabei mandando mensagem para Lucas para tirar essa dúvida, ele logo disse que era igual um hotel, não precisaria me preocupar com isso, fiquei feliz, pois minha mala já estava lotada.
Depois dos sapatos, eu fui conferir se tudo na bolsa de eletrônicos estavam ok, notebook, iPad, os dois celulares, fontes, câmera fotográfica, baterias e cartões de memória reserva. Guardei tudo de volta, fechando a mochila com um cadeado e deixei ao lado da mala. Ouvi um barulho na porta e me distraí.
— Cheguei! – Ele gritou.
— No quarto! – Respondi, analisando a mala aberta em cima da cama e abri uma das blusas da Seleção, esticando—a na minha cadeira, separando junto de uma calça jeans e meu sapato preto.
— Ei! – Ele falou, dando um rápido beijo em minha testa. – Arrumando as coisas? Nossa! Quanta coisa! – Ri fraco.
— Eu não sei o que esperar, então, estou cobrindo pelo básico, ou seja, tudo. – Ele riu fraco.
— Você vai assim segunda—feira? – Ele perguntou, apontando para a roupa em cima da cadeira e eu afirmei com a cabeça.
— Sim, o que acha?
— Acho que vai ficar um arraso, mas pode melhorar! – Ele falou, tirando um embrulho de trás das costas e eu franzi a testa.
— O que é? – Perguntei, apoiando em cima da mala quando ele se sentou na lateral da cama.
— Um presentinho para você usar em Teresópolis. – Ele falou e eu ri.
Rasguei o pacote, dando de cara com uma caixa de sapatos. Olhei rapidamente para Bernardo e ele tinha um largo sorriso no rosto. Abri a mesma, ficando maravilhada pelo scarpin amarelo ovo que tinha lá dentro. Peguei o mesmo, de boca aberta e soltei um suspiro, olhando para Nardo.
— Um scarpin amarelo? – Ele deu de ombros.
— Achei que combinaria com essa blusa maravilhosa e nessa mulher maravilhosa.
— Meu Deus, Bê! Ele é lindo demais. – Falei rindo e o abracei de lado. – Mas porque amarelo?
— Amarelo é uma cor que significa luz, calor e desperta criatividade. Achei que pudesse te dar sorte. – Sorri, suspirando. – Além de que é a cor da Seleção e eu achei a sua cara, você vai arrasar. – Soltei uma risada divertida.
— Ele é lindo demais, mas deve ter custado um pouquinho demais. – Ele abanou com a mão.
— Não se preocupe! – Ele falou. – Depois você paga meu cartão de crédito. – Gargalhei, abraçando—o de lado. – Eu cuido da casa até você voltar, ok?! – Ele falou e eu assenti com a cabeça.
— Obrigada, amigo. – Suspirei. – Eu te devo muito.
— Bem... – Ele ponderou. – Me mande fotos dos jogadores malhando sem camisa que estaremos quites. – Gargalhei, balançando a cabeça.
— Vou tentar. – Falei rindo.
— Vai, agora vai lá experimentar essa roupa, eu acho que vai ficar um sucesso! – Ele falou, me empurrando e eu ri, pegando os sapatos, a roupa e seguindo para o banheiro.


Capítulo 2 – Localização: Granja Comary, Teresópolis

A viagem para Teresópolis era mais longa do que eu esperava, quando eu coloquei no GPS, havia descoberto que durava quase duas horas de onde eu morava. Eu acabei colocando tudo correndo no carro, me despedi de Bernardo com algumas lágrimas e brincadeiras dramáticas e peguei a estrada pouco depois das sete da manhã na segunda—feira.
No geral, a viagem foi bem entediante. Enchi meu pendrive com as mais variadas músicas e cantava todas a plenos pulmões para que eu pudesse me distrair um pouco. Mas eu tive uma outra distração logo que cheguei em Teresópolis, o escudo da CBF visto ao topo do morro da Granja Comary, me fazendo entender a minha louca paixão por futebol.
Me aproximei do portão, olhando para o horário e vendo que era 10 para as nove, estava com o horário bem apertado. Puxei o freio de mão, abaixei o vidro e aguardei um dos seguranças se aproximar do meu carro.
— Olá, senhorita, no que posso te ajudar?
— Eu sou , trabalho para a comunicação da CBF. – Entreguei meu crachá para ele que assentiu com a cabeça.
— Lima, certo? – ele falou e eu confirmei com a cabeça. – Estávamos à sua espera. – Ele falou e eu sorri. – Você pode entrar, a sua equipe estará na dentro. Pendure esse crachá no seu carro, por favor. – Ele me devolveu um crachá para colocar no espelho e o meu.
— É... –chamei novamente. – Para que lado eu vou?
— Só seguir o caminho, terá um estacionamento no fim dele. Depois você pode seguir para o prédio um.
— Obrigada! – falei sorrindo e liguei o carro novamente, vendo os portões se abrirem e eu segui em direção ao escudo que ficava bem na entrada.
Segui pelas curvas que o caminho fazia, subindo até os prédios no topo, acreditando no segurança quando ele disse que eu acabaria caindo em um estacionamento. O local era muito bem arborizado, além de parecer um paraíso. Aquilo era um sonho! Cheguei ao estacionamento que o segurança da entrada havia dito e parei em uma vaga, conferindo se eu não estava parando em nenhum lugar privativo para algum peixe grande.
Saí do carro, sentindo o vento bagunçar meus cabelos e soltei um suspiro ao olhar para baixo e notar três campos de futebol, lado a lado, para treinamento. Dei uma volta rápida ao redor do meu próprio corpo, encontrando o “Prédio Um”. Era um prédio espelhado bem na frente do estacionamento, escondido um pouco na lateral.
Abri o porta—malas do carro e me sentei na quina do mesmo, tirando os tênis que eu havia usado para dirigir até aqui e peguei a caixa de sapatos que Bernardo havia me dado, tirando meu novo sonho de consumo dela, os sapatos amarelos. Calcei, vendo que meu look havia melhorado completamente e abri rapidamente minha mala para espremer os tênis lá dentro.
Coloquei o crachá em meu pescoço e comecei a me arrumar. Pendurei a mochila com os eletrônicos nas costas, tirei minha mala de rodinhas do porta—malas e pendurei a bolsa em meu braço. Acho que era tudo. Fechei o carro, ativando o alarme e guardei a chave na bolsa.
Puxei a mala pelo caminho vazio e observei o prédio espelhado do outro lado da rua. A porta abria e fechava conforme as pessoas entravam e saíam da mesma e eu respirei fundo três vezes antes de atravessar a mesma. Passava das nove e eu já estava atrasada. Assim que a porta automática se abriu para mim, eu passei pela mesma, prendendo o ar rapidamente.
Eu não estava sozinha.
O local estava lotado. Lotado de jogadores da Seleção Brasileira se cumprimentando. Reconheci todas as figurinhas carimbadas da convocação, dos briefings, das fotos e dos treinamentos para esse dia em especial. Mordi meu lábio inferior quando notei que todos os olhares se viraram para mim, afinal, olhando rápido, eu era a única mulher ali.
Quis dar uma olhada mais longa em todas os homens, principalmente as carinhas que eu já conhecia, mas eu achei que seria melhor não encarar. Senti um alívio passar pelo meu corpo quando Vinícius apareceu, passando por entre algumas pessoas e eu até soltei a respiração aliviada.
— Aí está você! – ele falou, me segurando pela mão.
— Eu estou em desespero! – cochichei para ele que riu.
— A primeira vez é assim mesmo – ele falou rindo. – Vem comigo! – Ele me puxou por entre as pessoas e eu passei colada de Neymar, Gabriel Jesus e companhia, tentando parecer calma, mas eu estava realmente surtando internamente.
— Oi, , como está? – Acenei para Theo que falava com Lucas que estava distraído tirando fotos.
— Tudo bem. – Olhei em volta rapidamente. – Eu acho. – Ele riu.
— Isso é completamente normal. – Ele abanou a mão. – Estamos reunidos aqui para a distribuição de quartos, daqui a pouco o pessoal já vai seguindo para seus lugares. – Assenti com a cabeça.
— Perfeito! – falei rindo.
— Pedi um quarto só para você, tá? – ele falou e eu confirmei. – Você é a única mulher aqui, achamos que não se sentiria confortável dividindo com alguém.
— Ah, obrigada! – Sorri. – Mas eu sou realmente a única mulher aqui? – Engoli em seco.
— Tirando as pessoas que trabalham aqui no CT, sim... – Arregalei os lábios.
— Ok.
— Se sentindo privilegiada?
— Me senti privilegiada quando consegui esse emprego, agora eu estou nas nuvens. – Os três riram.
— Olá, tudo bem? – Um homem apareceu ao nosso lado. — É a equipe de comunicação, não é?
— Sim! – Theo tomou as rédeas da situação.
— Vou levá—los ao quarto de vocês, vamos?
— Claro! – Lucas falou animado, pegando sua mala do chão.
— Me sigam, por favor! — O homem falou e o seguimos, enquanto passava pelos jogadores, aproveitei para dar uma rápida olhada para eles, abrindo um sorriso discreto.

A primeira coisa que eu havia percebido era o quão enorme era aquele lugar! Sério! A gente andava, andava e parecia não chegar aos lugares. Mas, com isso, eu consegui conhecer um pouco das acomodações, restaurante, sala de jogos, caminho para as piscinas, academia, centro de treinamento, lavanderia e muito mais! Se eu não estivesse lá a trabalho, poderia dizer que estava em um resort, até cabeleireiro e manicure tinha ali, mas tenho certeza que não era para mim!
Um longo corredor denunciou os quartos da Granja e, quando eu digo quartos, quero dizer quartos de todas as pessoas hospedadas naquele lugar. No começo do corredor, tinha os quartos da comissão técnica, cada um sozinho e o nome indicado na porta. Em seguida, 10 quartos para os jogadores. Cada quarto tinha dois nomes na porta, totalizando 20 pessoas, foi aí que eu me lembrei de que Marcelo, Casemiro e Firmino só se juntariam à turma em Londres, depois de competir pela final da Champions League.
Observei a porta do quarto de Alisson e Cássio e olhei para a do lado, vendo meu nome solitário na mesma, com a minha ocupação embaixo. Achei engraçado como eu acabava atraindo os goleiros mesmo sem querer. À minha frente tinha o quarto de Lucas e Vinícius, e ao lado o de Theo e acabava o corredor.
— Bom, gente, se acomodem, desfaçam as malas, temos uma reunião com a equipe as 10 horas. Tem um briefing em cima da cama de vocês com as informações do dia. – Theo falou. – Todo dia terá um briefing para vocês na porta, olhem, analisem, vejam os horários dos jogadores e liguem os seus nos dele para que vocês possam cumprir suas ocupações, beleza?
— Beleza! – falamos quase juntos.
— Nos encontramos daqui a pouco, então – ele falou e eu fiquei em dúvidas por dois segundos sobre como abriria a porta, mas o cartão chave estava conectado na mesma. O puxei de volta e a porta se abriu em um clique.
Assim que eu a abri, tive certeza que estava em um hotel cinco estrelas. O quarto era sensacional! No meio da mesma, uma cama de casal com almofadas e travesseiros fofos tomavam a mesma e uma manta no pé da cama. Em cada lado da cama, uma pequena mesa de apoio, uma com um telefone e outra com algumas folhas, o briefing do dia e informações sobre os horários de funcionamentos dos locais.
Atrás da cama, uma janela com uma vista incrível da Granja, melhor que de muito quarto de hotel que eu fiquei na vida, incluindo quando visitei Londres. Uma televisão estava colocada na parede em frente à cama e uma pequena escrivaninha com o espaço perfeito para eu deixar meus eletrônicos quando precisasse trabalhar em um lugar mais calmo. E, acima disso, um espaço aberto para eu acomodar minhas roupas com alguns cabides.
Do lado, uma porta que dava para um banheiro incrível também! Banheira, chuveiro, toalhas almofadadas e aquele cheiro delicioso de limpeza. Tudo isso em branco com detalhes nas cores do Brasil. Eu estava realmente nas nuvens!
Voltei para o quarto e peguei as regras da Granja para ler, lá tinha o horário de todas as refeições diárias. Café da manhã das sete as nove, almoço das 11 a uma da tarde, jantar das sete às nove. Das três as cinco tinha um pequeno lanche da tarde e depois das 11 a uma da madrugada tinha outro. Academia e piscinas ficavam abertas das seis da manhã até às 10 da noite, uso livre sempre, com exceção nos horários de treinamento. Lavanderia funcionava toda manhã. Camareira limpava o quarto e trocava as toalhas todos os dias depois das nove da manhã e trocava roupas de cama a cada dois dias.
Além disso, tinha algumas informações sobre lugares restritos, acesso somente com crachá, proibição de caminhar nas áreas externas após as 11 da noite, e sobre o contato com a imprensa, mas eu era a imprensa, sabia muito bem que não deveria falar com eles sem a minha permissão. E, no fim de tudo, um mapa, que me deixou muito feliz.
Passei a folha e achei o briefing que Theo falou, era a programação diária e nesse dia estava bem vazia. Tínhamos uma reunião programada para as 10 da manhã com toda equipe técnica, jogadores e assessores e tinha uma longa duração. À tarde teriam as avaliações físicas de cada jogador e, no fim do dia, o jantar de recepção. Olhei o relógio rapidamente e vi que ainda tinha alguns minutos antes de ter que procurar a sala de reunião externa.
Coloquei a mochila em cima da cama e tirei o iPad e o celular da mesma, imaginando que Lucas me acompanharia hoje e durante a avaliação, e depois me passaria as fotos. Peguei minha mala e ergui na cama também, abri a mesma e comecei a tirar os itens que eu usaria mais, higiene pessoal, maquiagem, pijama e trocas de roupas mais leves para usar quando eu estivesse fora do meu horário de trabalho.

Terminei de organizar todas as minhas coisas e me sentei na cama um pouco, tentando fazer com que a ficha caísse. Aquilo era fantástico, oportunidade única da vida e eu estava aqui! Ouvi uma batida na porta e abri a mesma, encontrando Lucas e Vinícius parados na mesma.
— Ei! – falei e eles sorriam.
— O que tá achando? – Lucas perguntou e eu suspirei.
— É um paraíso – falei rindo.
— Dá até tristeza quando voltamos para casa – Vinícius comentou e eu ri.
— Ah, nem quero pensar quando chegar à hora, vocês ainda vão à Rússia, eu vou ficar abandonada lá no Rio. – Eles riram.
— A gente te manda notícias – Lucas brincou e eu ri. – Vamos?
— Vamos sim. – Peguei o iPad e o celular, colocando o meu e da CBF no bolso e puxei a porta.
Não era a primeira vez de Vinícius e Lucas ali, então eles sabiam para onde ir. Fomos em silêncio, o único barulho que ecoava eram meus saltos batendo contra o piso de granito branco.
Não era tão longe quanto a entrada do prédio principal, mas precisamos subir alguns andares e seguir por outros caminhos que eu ainda não conhecia. Lá era praticamente uma linha reta, acabava não tendo muito como errar. Percebi que chegamos quando vi algumas caras conhecidas entrando no mesmo lugar que nós.
Puxei e soltei o ar três vezes antes de entrar atrás de Lucas e Vinícius. Me vi em uma sala de coletiva de imprensa. Um pequeno palco no alto com algumas cadeiras e embaixo cerca de 20 fileiras com um corredor no meio. Engoli em seco quando notei os jogadores lá na frente e segui Lucas e Vinícius, nos sentando em uma das fileiras ao fundo.
As pessoas continuaram entrando e se acomodando nas cadeiras e eu aguardei. Aquilo parecia uma sala de escola, as conversas e risadas eram altas, fazendo com que eu percebesse que aquilo não passava de uma excursão escolar e eu era a aluna nova. Tite e a turma que eu conheci na coletiva, além de Theo, subiram no palco e o barulho cessou um pouco.
— Bom dia, bom dia! – Tite falou, oficializando o silêncio. – Bem—vindos a Teresópolis, hoje começamos nossos treinamentos para a Copa do Mundo. – Os jogadores começaram a aplaudir e eu e os meninos acompanhamos. – Aqui serão feitos todos os tipos de treinos e avaliações para que vocês nos ajudem a trazer o nosso hexacampeonato! – Os gritos continuaram, igualzinho na escola. – Bem, antes de eu passar para as informações técnicas, vamos esclarecer algumas coisas. – Ele coçou a cabeça. – Todos receberam as informações da Granja, horários de funcionamento, horários de trabalhos e tempo livre. Além disso, vocês receberão todo dia uma programação diária que deve ser cumprida, caso você não esteja na programação diária, você está livre para fazer o que quiser, menos sair daqui. – Ele falou, me fazendo rir fraco. – Sabe que sempre permitimos familiares, mas aqui é o trabalho de vocês, então, vamos manter a calma, beleza?
— Beleza! – eles concordaram quase em uníssono.
— Como vocês aqui, vai começar a divulgação da Seleção em si, fotos, vídeos, entrevistas, então o pessoal da comunicação, fotografia, todos ficarão bem perto de vocês, acompanhando tudo, então, dê atenção a eles, eles estão trabalhando aqui igual vocês. Alguns são figurinhas que vocês já estão acostumados, mas outros são... – Theo cochichou algo para Tite que interrompeu sua fala. – Ah sim! – Ele disse. – Bem, como eu ia dizendo, alguns já estão com a gente faz tempo, mas temos uma pessoa nova no nosso time que é alguém bem diferente do que vocês estão acostumados. – Senti meu rosto esquentar. – , pode vir aqui, rapidinho? – Arregalei os olhos e olhei para Lucas ao meu lado e ele fez sinal para que eu levantasse.
Me levantei e engoli em seco, mas podia ser aquela vontade de vomitar chegando à boca. Agarrei firme o iPad em minha mão e caminhei pelo pequeno corredor até o palco, somente ouvindo os barulhos do salto batendo contra o piso. Eu sentia que estava sendo observada, principalmente pelos jogadores que se sentaram no corredor, e isso fazia com que meu corpo esquentasse. Subi o pequeno degrau que separava os dois níveis e me coloquei ao lado de Tite.
— Essa é a ! – ele falou e eu dei um pequeno sorriso. – Ela entrou para substituir o Marcos, vocês se lembram dele, certo? – Alguns assentiram, mas a maioria ficou quieta. – Ela é a nova social mídia da CBF, ou seja, o trabalho dela é ficar bem perto de vocês, pegando todos os acontecimentos, todas as referências e divulgando o andamento de vocês para a Copa, além de ajudar vocês em eventuais crises. – Abri um sorriso e alguns riram. – Ah, e a melhor parte, ela gosta de futebol, então, valorizem—na, ok?! E respeito sempre.
— Pode deixar! – Alguns falaram e eu abaixei o olhar, encontrando com o de Alisson que estava na primeira fileira e me senti uma tonta, desviando o olhar de uma pessoa bonita como se eu tivesse 15 anos novamente.
— Quer falar alguma coisa? – Tite perguntou e eu ponderei com a cabeça.
— Vamos só esclarecer que esse “ficar bem perto de vocês” que o Tite falou, é de um jeito respeitoso, tá? Dos dois lados! – brinquei e eles gargalharam. – Falando sério, meu trabalho é um tanto criativo demais, então, se vocês tiverem ideias, sugestões, quiserem mostrar algo de diferente, estarei por aqui acompanhando vocês. – Sorri para eles e para Tite que retribuiu.
— É isso aí! — Tite falou. – Obrigado, , bem—vinda à CBF de novo. – Ele falou e o pessoal começou a gritar enquanto eu voltava para o meu lugar e eu não consegui segurar a risada, meu rosto deveria estar muito vermelho de vergonha. – Vamos agora falar sobre treino... – Tite começou e Lucas ria da minha cara quando eu sentei ao meu lado.
— Você fez piada com a Seleção? – Ele cochichou rindo e eu dei de ombros.
— Acho que é o que eu faço de melhor. – Brinquei e ele riu.
— Muito bom!

A reunião acabou durando umas boas três horas, fazendo com que minha barriga começasse a roncar no final. Foi meio desnecessário que a equipe de comunicação ficasse na reunião, eles somente falaram sobre os treinos que seriam feitos em Teresópolis, toda a agenda programada para aquela semana e depois começaram as análises sobre a Croácia e a Áustria que seriam os dois países que enfrentaríamos nos amistosos que antecediam a Copa.
Eu tinha meus conhecimentos da época de jogos universitários e o básico da época da escola, mas fazia muito tempo que eu não tocava em uma bola para valer, com aquela garra e força de vontade, então, as palavras da equipe técnica não passavam de zunidos para mim. Além da distância da tela que parecia que tudo estava um pouco desfocado.
Apesar de sentarmos longe, a compensação veio no final da apresentação, fomos os primeiros a seguir para o refeitório e em ter o prazer de começar a fila do self-service. De cara eu havia notado que o cardápio era claramente feito pensando nos jogadores. Tinha toda a sessão light com saladas, grãos e comidas integrais, mas depois seguia para pratos que todo brasileiro estava acostumado. O desse primeiro dia era feijoada. Tentei não ser a esfomeada no almoço de domingo em família e me conter na quantidade que eu tirava, mas aquilo está simplesmente sensacional, precisei repetir mais uma vez, mas os jogadores estavam se matando de comer com pratos dignos de pedreiro, então, ninguém estava me notando.
Depois do futebol, eu, ou melhor, os jogadores tiveram uma hora de descanso antes das avaliações físicas, então, eu aproveitei para também tirar uma hora de descanso. Ao invés de ficar trancafiada em meu quarto, eu acabei seguindo para a parte de fora, para aproveitar um pouco melhor da vista e ligar para minha mãe e para Bernardo para dar sinal de vida.
Fiquei o resto do meu almoço falando com ambos, minha mãe estava toda preocupada sobre minha ida sozinha para Teresópolis, pegar estrada e afins, além da curiosidade em querer saber se eu tinha conhecido alguém importante. Importante para ela eram os jogadores. O papo com Bernardo acabou seguindo o mesmo nível, mas não pude evitar de falar que alguns jogadores, não dando especificidade para ninguém, eram muito gatos pessoalmente.
Nessas duas conversas, o meu tempo de descanso até passou um pouco do planejado. Eu estava sozinha agora e teria que achar a academia. Não foi tão difícil, depois de me perder três vezes e ter que perguntar para um dos auxiliares de limpeza que estavam trabalhando por ali.
Quando cheguei à porta da academia, percebi que fazia parte do novo Centro de Excelência que eu estava lendo na semana passada. Uma academia superequipada, preparada para avaliar e treinar os jogadores. Um pequeno gasto de 17 milhões de reais. Nada demais! Entrei na mesma com medo do que encontraria, olhei rapidamente meu celular e notei que Lucas já havia me informado que estava lá.
Soltei um suspiro de alívio quando notei que todos os jogadores estavam devidamente vestidos enquanto puxavam ferros e torneavam mais aqueles músculos. Era quase uma visão pornográfica: 20 jogadores com as coxas mais saradas do mundo puxando ferro na minha frente de shortinho. Notei que estava com os sapatos errados ao entrar por ali, pois na parte acolchoada, meus pés afundavam e na parte de concreto, o barulho ecoava como o som de estalinhos.
— Ei, aí está você! – Senti Lucas me cutucar e virei para ele.
— Desculpa, me perdi – falei rindo e ele balançou com a cabeça.
— É uma boa você andar com aquele mapa que deixaram no quarto.
— Eu estava com você, achei que não teria problemas. – Ele riu.
— Vem! – ele me chamou. – Estou fotografando e Vinícius está filmando as avaliações físicas dos jogadores.
— Ah, então é isso que Vinícius faz? – perguntei. – Para que tanto mistério?
— Bem, quando ele não está na sua ocupação principal, ele filma as coisas para gente.
— E qual é a ocupação principal dele? – Lucas me ignorou e eu franzi os lábios.
O segui para um local mais reservado, passando pelos jogadores que treinavam e alguns acenaram para mim, me fazendo sorrir. Espero que a recepção de mais cedo tenha servido para me enturmar um pouco. Passei pela divisão e levei à mão a boca imediatamente, quase desmaiando de tanto que eu prendi a respiração.
Alisson estava sem camiseta, com eletrodos colados em seu peito cabeludo enquanto corria na esteira com Rodrigo e Fábio analisando seus movimentos e batimentos cardíacos. Ele estava bem de frente para mim, então tentei suavizar minha reação, mas não tinha como. Além de ele ser bonito, seu corpo era perfeito, e a calça estava baixa o suficiente para que eu visse os ossos de sua bacia bem demarcados.
Acho que esse trabalho seria mais difícil do que eu pensava.
— Então... – falei baixo para Lucas que tirava algumas fotos. – Qual está sendo a ordem de chamada? Número da camisa ou ordem alfabética? – Perguntei, tentando arranjar outra coisa para me distrair, o cronômetro estava em regressiva e faltavam oito minutos para aquela tortura acabar, isso se não tivessem outros testes.
— Posição, na verdade – Lucas me respondeu. – Goleiros, laterais, zagueiros, meias e atacantes. – Coloquei a mão no queixo, fazendo um bico e assenti com a cabeça.
— Beleza! Acho que podemos juntar tudo isso e mandar para o pessoal fazer postagens na CBF TV, vou falar com o pessoal da propaganda e pedir uma vinheta especial para a preparação da Copa, notei que o YouTube é atualizado bem esporadicamente, é a época perfeita para renovar isso. Muita gente não sabe do site da CBF TV.
— A ideia é boa! – Lucas comentou, com os olhos em sua câmera.
— Além de um meme que surgiu na minha cabeça agora.
— Qual? – Ele perguntou e eu virei de costas para a cena para respondê—lo.
— “Como matar a social mídia de ataque cardíaco no primeiro dia”. – Dei um sorriso irônico e ele ergueu os olhos para Alisson novamente e logo ficou vermelho e começou a rir.
— Ainda bem que você não é um cara ou sua excitação já estaria à mostra.
— Ainda bem que meu sutiã tem bojo. – Falei, colocando a mão levemente em cima dos seios e ele começou a gargalhar alto, se virando de costas e passando o braço pelos meus ombros.
— Você se acostuma! Eu não babava pelos corpos sarados deles, apesar de invejar um pouco, mas eu sempre gostei muito de futebol, então eu parecia um fã louco, você está se comportando nessa parte.
— Já na outra... – Deixei a dúvida no ar ele riu, negando com a cabeça e nos viramos para apreciar a cena.
— Está tudo certo? – Alisson nos perguntou enquanto corria, provavelmente ao notar a gargalhada que demos e eu e Lucas nos entreolhamos segurando a risada novamente.
— Tá tudo ótimo! – falei, franzindo os lábios. – Só me pergunto se é uma boa ideia fazer essa avaliação depois de bater uma pratada de feijoada! – Dei um sorriso e Lucas voltou a gargalhar ao meu lado e Alisson abriu um sorriso, reduzindo sua velocidade de corrida.
— Te conto depois que isso acabar! – Sorri, balançando a cabeça, fazendo positivo com os dedos.
O resto do dia passou daquele jeito. Avaliações nos outros 19 jogadores. Cada posição tinha um tipo de avaliação diferente, mas todos tinham que especificamente fazer o teste na esteira, permitindo uma visão interessante por 10 minutos, tirar sangue e urinar em um copinho para o exame toxicológico.
Depois de finalizar com Taison, o último da lista, eu e os meninos ainda demos uma sondada rápida na academia. A maioria estava nos aparelhos de pernas e braços, me fazendo entender um pouco como as pernas deles ficavam daquele jeito.
— Você acha que foi uma boa ideia vir de salto para uma academia? – Thiago Silva me perguntou quando passei por ele.
— Posso te garantir que seria muito pior se eu fosse malhar, mas como estou a passeio, acho que está tudo bem. – Dei de ombros e ele riu. – Mas é, acho que meu All Star funcionaria melhor aqui. – Ele sorriu e eu voltei a andar pelo local.
— Bom, acho que já temos imagens o suficiente. – Vinícius voltou, fechando seu tripé.
— Ok, eu preciso dos cartões de memória, vou fazer algumas postagens e entrar em contato com a Michelle para saber para quem eu mando para fazerem a edição do vídeo. – Eles retiraram os cartões das máquinas e me entregaram.
— É o pessoal da propaganda, só não sei quem vai assessorar a gente do Rio. – Assenti com a cabeça.
— Bem, eu descubro. – Suspirei, parando para pensar. – Bem, vou falar com o Theo antes, não é?!
— Melhor – Lucas confirmou com a cabeça.
— Ok, eu vou para o quarto para fazer meu trabalho, nos vemos no jantar à noite?
— Que roupa vocês vão? – Vinícius perguntou e eu franzi a testa.
— Homens também perguntam isso? – retribuí e ele riu.
— Eles falaram que é algo melhor, mas não sei se chega a ser black tie. – Ponderei com a cabeça.
— Espero que não, eu não trouxe um longo na minha mala. – Eles riram.
— Não, acho que é algo mais despojado, eu vou de jeans, blazer e sapatênis. – Lucas comentou e eu ponderei com a cabeça.
— Se vocês descobrirem alguma coisa, me avisem para eu caçar uma roupa melhor. Eu vou para o quarto.
— Pode deixar! – Lucas falou.
— Até mais! – Vinícius disse e eu dei meia volta, desviando dos jogadores e seguindo para fora da academia.
Voltei para o quarto com mais facilidade, eu havia reparado que tinham placas indicativas para os locais, então, tinha sido só falta de atenção minha mesmo. Quando entrei no corredor dos quartos, vi uma sombra ao fundo, pensei com quem eu teria que me enturmar, mas relaxei quando vi que era meu grupo favorito daquela Copa.
— Ei, é a social mídia! – Cássio falou e eu dei um pequeno sorriso, rindo em seguida.
— Oi, gente! – falei, me aproximando dos três goleiros.
— Até a social mídia é alta, gente. – Ederson brincou e nós rimos.
— Vamos dizer que com um pai com dois metros de altura, seria difícil eu sair baixinha.
— A feijoada bateu bem, viu?! – Alisson falou e eu levei a mão aos olhos, tentando minimizar minha risada.
— Não sei de quem foi a ideia de servir feijoada depois fazer avaliação física, mas acho que não foi uma das melhores. – Dei de ombros e ele riu.
— Eu ainda me dei mal por ser o primeiro...
— Desvantagens de ser o número um! – Ele sorriu.
— Vai ficar aqui na área com a gente? – Cássio perguntou e eu me afastei um pouco, apontando para a porta do meu quarto.
— Bem perto de vocês. – Eles sorriram.
— Eita que não vai desgrudar da gente – Ederson brincou.
— Vão se acostumando. – Peguei meu cartão chave do bolso, colocando no local. – Eu preciso trabalhar um pouco, nos vemos no jantar?
— Claro! – eles responderam e eu empurrei a porta do quarto, deixando que ela batesse sozinha.

Entrei no quarto e segui rapidamente para o computador, repassando rapidamente por algumas fotos da seleção e fazendo algumas postagens nas redes sociais. Selecionei as melhores fotos de cada jogador e também enviei para o e—mail da assessoria da CBF, a assessoria de cada jogador e, também, pelo WhatsApp deles, antes de escrever um texto falando quem eu era. Me senti tão importante por um momento em ter o telefone pessoal dos jogadores e, mais importante ainda, quando eles responderam agradecendo ou fazendo a mesma piada do Cássio lá fora: “Olha! É a social mídia!”, acho que esse seria meu novo nome!
Eu acabei ligando para Michelle lá no Rio de Janeiro para pegar as informações sobre os vídeos, o que ela achava da minha ideia e dos meninos em ativar o canal da CBF novamente com esses vídeos. A ideia foi muito bem—vinda e ela pediu para Telma, a estrangeira, falar comigo, para que eu explicasse a ideia dos vídeos. Dois vídeos, descobri pelos cartões de memória que eles também tinham filmado a chegada dos jogadores antes de eu aparecer por ali.
Acabei terminando tudo quase sete horas da noite, Michelle havia falado que seis horas eu podia parar de me preocupar com isso, mesmo com trabalho pendente, mas eu tinha perdido bastante tempo por causa da reunião e, com o acompanhamento da avaliação, eu nem parei para olhar as redes sociais, além das minhas, que eu fazia questão de postar algumas coisas, afinal, era o meu trabalho e eu estava adorando tudo aquilo!
Saí correndo para tomar um banho e me arrumar, no cronograma falava que o jantar começaria às oito horas e eu não sabia o quão pontual eles eram, mas imaginei que muito. Não precisei lavar meu cabelo novamente, já que não tinha suado hoje, mas perdi alguns minutos no banheiro para fazer uma maquiagem decente. Normalmente era Bernardo que fazia minha maquiagem, mas eu precisei me virar sozinha.
Deixei os cabelos soltos, somente jogando a franja para trás e fui atrás do vestido que eu usaria no dia. Era um vestido azul marinho simples , estilo mullet, com a parte de trás mais comprida e os ombros caídos lateralmente. Na minha escolha, eu tentei me atentar ao básico, acho que os sapatos amarelos já chamariam atenção suficiente.
Quando vi que faltavam cinco minutos para as oito, eu saí do quarto, encontrando Lucas e Vinícius também saindo de seus quartos. Ambos sorriram quando me viram, tínhamos idades semelhantes, mas Lucas era casado e creio que Vinícius não me olhava de forma diferente da que eu olhava para eles. Éramos amigos, quase como se Bernardo estivesse aqui.
— Você está ótima! – Vinícius falou e eu sorri.
— Vocês também!
— Vamos? – Lucas me estendeu o braço e Vinícius também. Ri sozinha e dei o braço para ambos, andando em direção ao restaurante.
Estranhei ao não ver ninguém mais saindo dos quartos, suspeitei que eles já estivessem lá ou tivessem outro compromisso que não tinha sido informado no meu cronograma, mas assim que entramos no restaurante, notei que eles já estavam lá e comecei a me perguntar em quantos dias eu levaria para falar alguma besteira sobre esses jogadores.
Black tie talvez não era necessário para os ralés da comunicação, mas para os jogadores sim. Todos usavam aqueles ternos azuis escuros maravilhosos com o brasão da CBF no paletó, camisa e gravata longa da mesma cor e sapatênis nos pés. Olhei para eles arrumados e soltei um suspiro, percebendo que Vinícius olhava para mim.
— Gostando do que vê? – Dei um sorriso envergonhado.
— Façam suas apostas: em quanto tempo eu me demito ou sou demitida por indiscrição? – perguntei e ambos riram.
— Deixa disso! – Lucas brincou. – Não vejo problema nenhum em você achar eles bonitos, só não todos.
— Ah não, eu tenho minhas preferências. – Pisquei e eles riram.
— Altos e goleiros?
— Xí! – Coloquei o dedo sobre a boca e eles riram.
— Oi, gente! – Theo apareceu ao nosso lado e eu sorri.
— Oi, Theo! – falamos quase em uníssono.
— Se divertindo?
— Sempre! – respondi rindo.
— Você está ótima! – ele me falou e eu sorri, assentindo com a cabeça. — Vamos entrar! – Ele acenou com a cabeça e eu segui junto dos meninos para dentro do restaurante. – Fiquem à vontade.
— Obrigada! – falamos juntos.
— Vocês estão bem acompanhados, hein, garotos? – Virei o rosto, vendo Neymar passando com alguns jogadores.
— Não precisa ter inveja, tem para todo mundo. – Ele saiu rindo e eu me acomodei em uma das mesas com Lucas, Vinícius, Theo e alguns dos meias: Renato Augusto, Phillipe Coutinho, Paulinho e Willian.
O jantar foi composto de entrada, prato principal e sobremesa, como todo jantar chique deveria ser. Uma música calma tocava ao fundo e só era ouvido algumas conversas contidas pelo local. Na nossa mesa, eu acabei sendo o assunto.
— Eu tenho que dizer, é realmente interessante ter uma mulher aqui. Sempre só tem homens. – Paulinho falou e eu ri. – Onde você estava antes?
— Ironicamente, eu comecei a trabalhar na CBF na segunda passada. — Eles riram. – Eu nem esperava vir para cá, confesso.
— Vai para Rússia com a gente? – Willian perguntou.
— Não, não. – Neguei com a cabeça. – Isso não, mas vocês terão a companhia desses dois. – Bati nos ombros de Lucas e Vinícius. – Quem sabe em 2022 no Catar?
— Ah, mancada! – Renato falou e eu dei de ombros. – Voltaremos à testosterona.
— Não é por nada não, mas uma mulher para tudo isso de homens, não faz nem cócegas. – brinquei e eles riram.
— Mas eu entendo o que o Renato disse, é outra coisa ter uma mulher na equipe, não sei explicar, mas parece que tem mais controle... – Phillipe falou e eu assenti com a cabeça.
— Valeu. – Sorri.
— Você gosta de futebol, não é? – Willian emendou o papo.
— Adoro! Joguei na época da escola e depois representando a faculdade durante os quatro anos.
— Então, temos alguém que entende do assunto. – Renato riu.
— Um pouco, mas tirando algumas peladas esporádicas, faz muito tempo que não jogo profissionalmente. – Sorri.
— Qual sua posição? – perguntaram.
— Goleira. – Eles sorriram.
— Ei, ei! Quem falou em goleira aqui? – Ederson apareceu e eu ri. – Você? – Sorri, erguendo os ombros.
— Senta aí! – Lucas falou, puxando a cadeira.
— Conta mais! – Ele puxou uma cadeira e se sentou entre mim e Lucas. – Onde você jogava?
— Eu estudei em uma faculdade particular, então, tinha uma valorização maior no esporte e eu acabei conseguindo um desconto por jogar. – Ponderei com a cabeça. – Tipo filmes americanos? – Eles assentiram. – Era algo assim...

Acordei no dia seguinte com o despertador. O jantar no dia anterior até que tinha sido legal. Depois daquele papo com o pessoal da nossa mesa, outros jogadores acabaram se juntando à nossa mesa: Neymar, Gabriel Jesus, Douglas, Fred e Geromel. Os assuntos se tornaram mais diversos, mas as risadas ficavam cada vez mais altas e estridentes, chamando a atenção até dos dirigentes, fazendo com que eles parassem uns segundos perto de nós para saber o que estava acontecendo.
Eu realmente estava me divertindo, por um momento eu até esqueci que aquelas pessoas eram muito famosas, ganhavam milhões por ano e representariam nosso país atrás do hexa! Ali todos pareciam adolescentes em uma viagem escolar, e eu estava no meio como a aluna que foi transferida para a escola errada.
A diversão podia rolar a noite toda, mas meia—noite em ponto os jogadores foram expulsos para dormir, já que o treino começava cedo no próximo dia. Eu, Lucas e Vinícius nos entreolhamos e acabamos seguindo pelo mesmo caminho, afinal, eles eram a graça, nós só estávamos participando. Todos se despediram no corredor e as portas foram batidas.
Eu achei que demoraria para dormir, queria ficar olhando as fotos que eu havia tirado com alguns jogadores, ver o que eles haviam postado nas redes sociais, mas o dia havia sido cansativo e meus pés estavam em frangalhos.
Segui direto para o banheiro na manhã seguinte, tomei um banho rápido, aproveitando a deixa para lavar o cabelo e, enquanto me secava, segui para a porta do quarto, onde uma folha de papel havia sido deixada debaixo da porta com a programação do dia. Os treinos começariam, mas, pelo que estava escrito na programação, seria mais uma apresentação para a imprensa. Não sabia o que isso significava, mas pensei em sair com meu notebook para adiantar algumas coisas da lista de afazeres que havia chego em meu e—mail, enquanto Lucas tirava as fotos.
Vesti minha calça jeans e blusa da Seleção e olhei para meu sapato amarelo. Pensei por um momento e tirei meu All Star da mala. Meus pés ainda estavam um pouco doloridos do dia anterior e eu desceria para o campo com eles, não era o melhor terreno para bater meus sapatos novos.
Passei um bom protetor solar naquele dia, estávamos no outono, mas o sol que entrou pela minha janela já queimou meu corpo, imaginei que não estivesse tão frio quanto o esperado. Fiz uma maquiagem leve no rosto, coloquei um boné na cabeça, juntei meu notebook e o celular da empresa e saí do quarto.
— Bom dia. – Sorri com Danilo saindo do quarto com Miranda.
— Bom dia – respondi.
— Vai tomar café? – Miranda perguntou.
— Por favor. – Falei rindo e eles acenaram com a cabeça para seguirmos juntos.
Thiago Silva e Marquinhos se juntaram a nós no meio do caminho, fazendo que os cinco entrassem juntos no restaurante. Outros jogadores já estavam lá, a maioria com cara de sono, tomando café da manhã. Nos dissipamos e eu peguei uma mesa vazia em um dos cantos no local e deixei meus eletrônicos no mesmo.
Segui para a mesa de comida e fui seguindo o movimento das pessoas na minha frente, pegava a bandeja, colocava a toalha de papel, prato, xícara, copo e talheres e seguia para as comidas. Tinha todo tipo de opção que uma pessoa poderia querer, mas eu acabei caindo no básico, pão com presunto e queijo e um pouco de ovo mexido para acompanhar. Peguei um copo com café com leite e outro com iogurte.
— Bom dia! – Olhei para o lado, vendo Alisson se servindo também.
— Bom dia! – Abri um pequeno sorriso, pegando minha bandeja e me retirando da fila.
Apoiei minha bandeja na mesa e abri o notebook, dando algumas garfadas no ovo enquanto ele ligava. Digitei rapidamente minha senha, vendo o computador abrir com o logo da CBF no mesmo. Dei um gole em meu café e estranhei quando vi Gabriel Jesus e Coutinho se sentando ao meu lado.
— Ei... – falei meio confusa.
— Esses lugares estão vagos? – Gabriel perguntou.
— Sim! – Falei rindo.
Bem, eu tinha que me enturmar e acho que eles estavam levando o recado de Tite ao pé da letra, o que me deixou bem feliz, era difícil depender só de Lucas e de Vinícius, afinal, não tinha nenhum sinal deles até agora.
Terminei de tomar café enquanto olhava a lista de afazeres que Michelle havia me mandado, nada fora do que eu estava acostumada, mas encontrei em meu drive os dois vídeos que eu havia pedido para o pessoal da propaganda editar para mim e as senhas de acesso ao CBF TV e ao YouTube. Era hoje que eu ia fazer a internet pegar fogo! Só esperaria estar em um local com acesso constante à internet e programar os uploads.
Depois do café, acabei seguindo com Neymar para o campo de treinamento. Ele acabou me perguntando um pouco sobre o que eu fazia e como eu havia chegado até ali. Contei rapidamente sobre o processo seletivo de três meses e minhas atuais ocupações que acabavam se misturando um pouco com publicidade e relações públicas, mas que eu gostava.
Ele se afastou junto com os jogadores e a equipe técnica e eu me coloquei do lado de fora da linha e abri um pequeno sorriso ao me lembrar dessa sensação de campo, quadra e futebol, sentindo uma nostalgia da época da faculdade. Puxei o celular do bolso e tirei uma foto rapidamente da equipe reunida e enviei para o grupo das antigas Focas de Laço Azul da minha universidade. “Um dia no campo, outro para fora da linha”, algumas ex—jogadoras responderam surtadas rapidamente, me dando uma vontade imensa de juntar essas meninas e voltar a jogar.
O alongamento começou e eu olhei para o lado, encontrando Lucas com sua câmera na mão, franzi os lábios, me sentindo uma tonta por não tê—lo procurado nos lugares mais óbvios antes e andei até ele, cutucando—o rapidamente.
— Ei! – ele falou sorrindo. – Você está aí.
— É! E você está aqui. – Cruzei os braços. – Caiu da cama, foi?
— O contrário, para falar a verdade. – Ele coçou a cabeça. – Perdi a hora, vim direto para cá.
— Tá explicado! – Apoiei meu notebook no degrau mais baixo da arquibancada.
— E onde está Vinícius e Theo?
— Vinícius perdeu hora também, ele estava saindo do banho quando eu saí e Theo está lidando com os jornalistas. – Ele apontou a cabeça para o lado contrário de onde estávamos e notei meia dúzia de jornalistas e diversas câmeras apontadas para os jogadores. Separados por alguns metros, alguns torcedores.
— Bem, eu vou ficar por aqui resolvendo alguns pepinos, quando tiver algumas fotos interessantes, me avise.
— Entra no meu drive, tudo que eu tiro fica lá! – ele falou. – Vou compartilhar a pasta contigo.
— Fechou!

Peguei meu notebook e subi dois degraus, tentando pegar um cantinho de sombra da arquibancada e conferi se a internet pegava bem lá embaixo e fui fazer as postagens do dia, upar o vídeo de ontem, responder a assessoria de alguns jogadores, fazer clippagem de tudo que os 23 jogadores tinham postado nas últimas 24 horas em todas as redes sociais. Isso, 23, inclusive Marcelo, Firmino e Casemiro que nem ali estavam, mas eles faziam parte da lista de convocados, então incluía no meu trabalho.
De vez em quando eu me distraía e olhava para o campo, mas eles só estavam fazendo treinamentos leves, passes, alongamentos, chutes a gol, aquela bobagem toda para encher linguiça para a imprensa e começar a coisa boa quando eles forem embora.
Me assustei quando olhei para frente novamente e vi uma coisa amarela grande no canto do campo, sacudindo as mãos para os lados. Era o mascote da Copa. O canarinho. O que ele estava fazendo ali? Graça para as crianças? Franzi a testa, cogitando me levantar, mas tive minha resposta quando ele se virou.
Meu Deus! O que fizeram com o mascote da Seleção? Ele estava com cara de bravo, de mau... Isso era muito estranho! Ele acenou para mim e eu retribuí, fazendo a mesma cara sisuda para ele que colocou as mãos na cintura, provavelmente se fingindo de bravo para valer.
— Por que você está bravo? – Perguntei um pouco mais alto para o canarinho.
Ele não respondeu, só ergueu as mãos como quem diz “eu sou assim” e eu ponderei com a cabeça. Pensando que poderia usar isso para alguma coisa. O encarei por mais alguns minutos, permitindo que ele me encarasse por mais uns minutos, mas logo ele se distraiu, indo brincar com os jogadores.
Voltei para o notebook e procurei possíveis significados para “bravo”: enfezado, irritadiço, aborrecido, revolto, tempestuoso, severo... Não, nenhum dava aquele tcham especial. Ele parecia puto! Bom, depois de levar sete na última Copa dentro de casa, até eu fiquei puta.
Acho que minha avó tinha uma expressão engraçada para quando alguém ficava muito bravo em casa. “Nossa! Essa menina está muito...”, o que era mesmo? Peguei meu celular e mandei uma mensagem para minha irmã mais velha, perguntando se ela se lembrava ou se poderia perguntar lá em casa. Ela respondeu quase imediatamente dizendo que não se lembrava, mas que iria perguntar e logo me respondia.
O canarinho sumiu algum tempo depois e a seleção começou a se preparar para almoçar. Olhei em meu relógio e vi que já era hora mesmo. Chamei Lucas e seguimos junto com os jogadores e equipe técnica, enquanto eles falavam sobre o treino do dia e como a imprensa presente deixava tudo mais lento.
Entramos no restaurante e os jogadores atacaram legal o buffet, me fazendo olhar surpresa, até que eu lembrei que estava lidando com homens gastando energia e voltei a lembrar da época da faculdade, eu era igual. Abri a boca, notando o canarinho sentado em uma das mesas, sem a sua cabeça, enquanto comia. Era minha oportunidade de falar da ideia que eu tive!
— Ei, você! – Me aproximei, vendo—o se virar e se levantar e, quando ele fez isso, eu comecei a gargalhar loucamente no meio do restaurante, chamando muita atenção. — Você?! – Falei, sentindo as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. – Meu Deus! Isso não podia ser melhor! – Me apoiei nos meus joelhos, não conseguindo parar de gargalhar. – Ah, espera um minuto! – Coloquei a mão no peito, olhando para cima para ver se as lágrimas cessavam e respirei fundo, seguindo a rir.
— Oi, ! – Vinícius falou e eu apoiei minha mão em seu ombro, vendo algumas pessoas em volta gargalharem da minha risada.
— Isso é melhor que a encomenda! – Coloquei a mão na boca, tentando respirar fundo. – Meu Deus!
— Ok, ok! Chega! – Ele falou, abanando as mãos e eu ergui um dedo.
— Espera um minuto! – Coloquei a mão na barriga, puxando e soltando o ar diversas vezes, tentando normalizar a respiração. – Ah, eu não consigo! – Apertei as mãos nos olhos, sentindo—os molhados e tentei me concentrar, puxando a respiração e soltando em seguida, mordendo os lábios para que a risada não saísse.
— Alguém dá água para essa menina! – Ouvi Tite falar, enquanto ria também.
— Ah, eu estou bem! – Abanei as mãos e olhei para Vinícius. – Eu só não consigo parar de rir. – Continuei puxando e soltando o ar, até que a risada foi se normalizando aos poucos.
— Tudo bem? – Tite perguntou e eu mordi os lábios novamente.
— Tá tudo ótimo! – Sorri para Vinícius.
— Ah, meu Deus! Não me olha assim! – ele falou, se sentando novamente e eu soltei a respiração.
— Eu nunca mais vou te ver de outra forma, mas falando sério, precisamos conversar. – Falei, dando a volta na mesa. – Alisson, pode pular uma cadeira para o lado, por favor, para eu falar com... – Cocei a nuca, segurando a risada, e notei que Alisson e Ederson voltaram a rir, abaixando a cabeça e escondendo a boca com as mãos. – Isso!
— Claro! – Alisson falou, mais vermelho que o normal, e pulou uma cadeira para o lado, puxando sua bandeja junto.
— Eu pensei que você sofreria bullying aqui, não eu.
— Quem mandou não me contarem que você é o mascote? – Falei, olhando a divisão da roupa da fantasia em seu pescoço. – Eu teria me acostumado antes e não teria feito esse show. – Ele revirou os olhos e falou.
— Vamos dizer que não tem nada errado em ser o mascote, ok?! Eu ganho muito mais do que sendo garçom ou qualquer coisa, além de que eu faço as gravações...
— Ei, ei, eu não estou minimizando seu trabalho. – Me afastei dele, erguendo as mãos. – Eu só achei engraçado e é! Você é perfeito para o mascote, você é divertido, interage com qualquer um, então, pode parar! – Falei, respirando fundo. – Mas eu tive uma ideia para usar o mascote como item de divulgação.
— Já adiantando, os mascotes estão proibidos pela FIFA de participarem dos jogos.
— Ok! – Ponderei por dois segundos. – Mas os torcedores não estão só nos jogos, certo? – Cruzei os braços em cima da mesa, me inclinando para frente.
— Qual sua ideia? – ele perguntou.
— Para começar, a pessoa que fez o canarinho parecer bravo depois do sete a um foi um gênio! – Falei sorrindo. – Parece que estamos indo em busca de vingança. – Movimentei a cabeça para os lados. – E posso dizer que, entre meu grupo de amigos, estamos. – Dei um pequeno sorriso. – A gente pode usar essa raiva, esse rancor, como produto de divulgação. É perfeito!
— Será que o povo libera? – Ele perguntou.
— Preciso falar com Theo e Michelle ainda, mas eu preciso saber antes se você topa, porque vai ter que vir de você também, você é o canarinho, você que vai dar a cara a tapa.
— Acho que vai ser legal! – Ele sorriu e eu senti meu celular vibrar, o puxei do bolso de trás da calça, me levantando e abri a mensagem de minha irmã.
“Mamãe disse que a vó usava a expressão ‘pistola’ para bravo. Tem relação com um tal de Ariri Pistola, vai saber”. – Arregalei os olhos, olhando para Vinícius e saí da mesa, tropeçando rapidamente na cadeira e peguei a cabeça do canarinho no chão, encarando—a.
— Mano! Isso é perfeito! – Falei rindo e devolvi a cabeça no chão.
— O quê? – Vinícius levantou atrás de mim e notei que já tinha chamado a atenção do restaurante inteiro de novo.
— O que acha de rebatizar o mascote como “Canarinho Pistola”? – Mordi meu lábio inferior com animação
— “Pistola”? – Vinícius repetiu.
— É! – Abri um largo sorriso e ele retribuiu.
— Gostei! – Ele falou e eu segurei seu rosto e estalei um beijo em sua testa.
— Eu vou falar agora com a Michelle, provavelmente vamos ter que criar um Twitter só para isso, mas vai ficar sob minha responsabilidade. Também ter ideias para vários memes ‘rancorosos’, pegar algumas fotos de divulgação com o Lucas... – falei rápido, pegando meus itens na mesa novamente. – A gente se fala mais tarde. – O empurrei levemente, começando a me afastar.
— Mas, , o almoço! – ele falou alto e eu roubei uma batata frita de seu prato, colocando na boca.
— Isso é mais importante! – falei, saindo correndo do restaurante.

A quarta—feira começou mais turbulenta no dia seguinte. Eu havia jogado a ideia do Canarinho Pistola nos ombros de Michelle e ela tinha simplesmente amado a ideia, mas falou que conversaria com a equipe da publicidade para fazer uma pesquisa da reação que isso daria para os torcedores brasileiros. Com isso, ela tinha pedido para eu elaborar algumas artes ou textos que eu imaginaria para essas postagens.
Eu acabei nem saindo do meu quarto naquela manhã, tinha trazido alguns lanches para meu quarto depois de não almoçar e ter que atacar o lanche na parte da tarde. Sucos e achocolatados de caixinha, além de alguns pães de queijo murchos e bolachinhas caseiras. Aquilo foi meu café da manhã naquele dia.
Além de pegar as fotos de divulgação do Canarinho com o Lucas, eu acabei entrando em vários Tumblr de futebol para ver o que as pessoas estavam falando da Seleção Brasileira ou de outros times, descobrindo o que estava na boca do povo, além de fazer uma bela pesquisa em busca de vídeos, gifs, imagens e comentários no Twitter sobre futebol. Depois dei uma zapeada em canais de TV para pesquisar sobre as vinhetas que estavam saindo sobre a Copa, estávamos a pouco mais de 15 dias da Copa, as propagandas já estavam saindo, poderia usar para pensar em alguma sátira também. Acabei replicando algumas coisas já existentes, mas fiz questão de dar os devidos créditos. Caso o projeto fosse para frente, precisaria elaborar um protocolo para pedir liberação de uso para as pessoas.
Poucos minutos depois de eu mandar as amostras para Michelle, ela perguntou se eu podia me conectar ao Skype. Saí desesperada da cama e me sentei na escrivaninha, me ajeitando para atender sua ligação.
— Oi, ! – Michelle falou e eu acenei para a tela.
— Oi, Michelle, tudo bem?
— Tudo certo! E aí na Granja? Aproveitando bastante?
— É realmente sensacional. – Sorri. – É tudo o que você disse e mais um pouco.
— E os jogadores? Interagindo contigo ou se fecharam no grupinho masculino deles?
— Eles estão sendo ótimos, para falar a verdade. – Sorri. – Triste que já é quarta—feira. – Ela sorriu.
— O tempo passa muito rápido quando a gente faz o que gosta. – Assenti com a cabeça. – Mas que bom que o pessoal está sendo legal contigo. – Ela sorriu. – Então, eu falei aqui com o pessoal da propaganda, a gente viu suas amostras e a ideia é simplesmente sensacional. O mascote sempre foi um pouco apagado e a imprensa já tinha dado algumas declarações sobre ele parecer bravo, mas nunca pensamos em como tornar isso bom, mas você sim.
— Acho que a ideia de um mascote bravo representa a situação do torcedor brasileiro depois da Copa de 2014. Eles estão bravos, eles estão putos, eles estão indo em busca de vingança. Brasil pode encontrar a Alemanha logo nas oitavas e os brasileiros estão com sangue nos olhos. – Suspirei. – Estamos indo atrás de vingança.
— Você acha? – ela perguntou e eu dei de ombros.
— Não compartilhei da minha opinião com os jogadores ainda, mas eu sei que eu estou. E acho que precisamos disso depois da última Copa. – Ela assentiu com a cabeça.
— Mesmo depois das Olimpíadas que, inclusive, a final foi contra a Alemanha?
— Acho que algumas pessoas não consideram aquilo uma revanche. Não era o mesmo elenco, a decisão foi nos pênaltis, acho que vingança mesmo seria exatamente na mesma situação, mas não temos, então que seja em outra Copa do Mundo. – Ela assentiu com a cabeça. – Além de que é diferente uma Olimpíada, onde o futebol é só um entre várias modalidades, e uma Copa do Mundo onde só importa o futebol.
— Muito bom! – Ela falou rindo. – Bem, você tem o sinal verde, só temos que conversar depois para decidir sobre as postagens quando eles estiverem na Rússia.
— Cogitei deixar o Vinícius mesmo lidar um pouco com isso. Acho que me passar as informações do que aconteceu diariamente ou dos acontecimentos mais relevantes, não vai tomar o tempo dele. – Ela assentiu com a cabeça.
— Beleza! Eu vou falar com ele, antes de batermos o martelo. – Ela suspirou. – Eu vou te passar agora para falar com o Lopes, ele vai te ajudar nesse projeto, pode ser?
— Claro!
— A gente se fala depois, bom trabalho. – Ela disse e eu assenti com a cabeça, vendo—a sair da cadeira e dar espaço para Lopes na tela.
— Oi, , como está aí?
— Tudo certo! – Sorri. – Já estão sentindo minha falta?
— Seu trabalho está certinho, finalizando, você pode até morar aí na Granja. – Rimos juntos.
— Confesso que não ia me importar.
— Bons tempos, não? Deve ter mudado muito desde a última vez que eu fui. – Sorri. – Bom, vamos ao que interessa. Sua ideia de usar o Canarinho como divulgação é fantástica, é a cara do brasileiro, cheio de memes e tiradas, além da ideia de realmente assumir que ele é um mascote bravo, pronto para a briga...
A reunião demorou mais que o planejado, quando finalizei a ligação, precisei sair correndo para o banheiro, estava muito apertada. Quando olhei para o relógio, vi que já passava das três da tarde e eu ainda não tinha colocado a cara no sol. Acho que eu merecia um descanso! Coloquei meus tênis do dia anterior, pendurei o crachá em meu pescoço e saí em direção ao restaurante, os pães de queijo e bolachinhas tinham sido o suficiente para meu café da manhã, mas não para me manter em pé o dia inteiro.
Olhei rapidamente as opções e peguei um lanche de mortadela bem quentinho que tinha ali, devorando—o com rapidez e, antes de sair do restaurante, peguei um saquinho de pipoca que tinha sido recém—colocado na mesa.
Fui para a área externa, enquanto devorava a pipoca, pensando em formas de passar um pouco o tempo. Ir para a academia não era uma opção e eu realmente não estava a fim de ir à piscina com vários homens naquele local. Olhei para os campos e vi que os três estavam vazios, me fazendo ter uma ideia. Segui o caminho até os mesmos e beirei o mesmo enquanto terminava de comer a pipoca.
Amassei o saco vazio e coloquei em meu bolso, andando até o carrinho de bolas e olhei em volta, para ver se a área estava limpa mesmo e joguei duas bolas no chão, segurando a terceira em minhas mãos, apertando—a levemente e levando—a até o nariz, sentindo o cheiro de grama na mesma.
Joguei—a no chão, chutando a mesma, fazendo com que ela erguesse e eu fizesse algumas embaixadinhas com a mesma, revezando as pernas enquanto a bola subia em velocidade constante. Ergui a bola mais uma vez, girando o corpo e batendo o pé fortemente na mesma, vendo—a seguir alta até mexer a rede do gol. Sorri sozinha, observando a bola sair do mesmo sem a mesma velocidade e suspirei.
Estralei os braços e o pescoço e coloquei os pés na lateral de outra bola e respirei fundo três vezes antes de pular e jogar os pés para trás, fazendo a bola subir e cabeceá—la algumas vezes para cima, antes de jogá—la para frente e chutá—la forte novamente até o gol. Ah, como eu sentia falta daquilo.
— Muito bom! Demais! – Virei assustada para o lado, ouvindo algumas palmas abafadas em seguida. – Mas o que você faz com uma defesa? – Alisson perguntou, com aquele sotaque cantado, se aproximando de mim e eu senti meu rosto queimar.
— Você viu isso? – Perguntei, colocando as mãos no bolso da calça.
— Nós vimos. – Ele apontou para trás e vi Cássio, Ederson e Taffarel, que era da equipe de treino, um pouco mais afastados.
— Ah! Que ótimo! – Senti meu rosto queimar, rindo sozinha.
— E aí, quer tentar? – Ele abriu um largo sorriso, que fazia seus olhos verdes se fecharem um pouco e eu suspirei.
— Vamos dizer que ser atacante não é a minha posição – brinquei, dando de ombros.
— E qual é? – Ele parou em minha frente, cruzando os braços.
— A mesma que a sua. – Sorri.
— Você é goleira? – Ele falou visivelmente surpreso.
— Eu fui goleira! – corrigi. – Faz muito tempo que eu não jogo. – Suspirei.
— Isso é demais! – Ele deu um sorriso sincero.
— Pensei que as informações já tivessem sido vazadas, comentei isso com Ederson no jantar segunda—feira. – Alisson olhou rapidamente para trás.
— Acho que ele se esqueceu de passar a informação. – Assenti com a cabeça. – Aonde você jogava? Algum time profissional?
— Só na faculdade mesmo. – Sorri. – Campeonatos universitários, jogos de comunicação e por aí vai. Mas eu era boa. – Suspirei.
— Isso é muito legal, sério!
— Nós éramos as Focas de Laço Azul.
— “Laço Azul?” – Ele me perguntou, franzindo a testa.
— É uma longa história. – Falei rindo. – As cores da comunicação eram azuis, aí tinha uma piada besteirenta com focas, como toda universidade tem. Depois a gente começou a usar uma faixa azul amarrada no braço em apoio a uma causa e por aí vai... – Balancei a cabeça. – Acabou pegando. – Ri sozinha.
— Parece que você sente falta de jogar... – Ele falou, deixando no ar.
– Confesso que estou tendo muitas lembranças dessa época e sentindo falta dos treinos. – Suspirei, cruzando os braços em cima do peito. – Às vezes parecia que eu estava lá mais para jogar do que me formar jornalista. – Ele tirou as luvas, me estendendo—as.
— Por que você não relembra os velhos tempos e eu faço uns chutes em você? – Segurei suas luvas pretas, vendo suas iniciais e número cravadas na mesma, “AB1”, e suspirei.
— Sabe há quanto tempo que eu não uso uma dessas? – Soltei uma risada fraca, sentindo meus olhos marejados e mordi meu lábio inferior.
— Provavelmente o mesmo tempo em que eu não vejo uma mulher bonita como goleira. – Ergui os olhos para ele, tentando analisar se ele realmente tinha dito isso na minha cara, mas ele só me encarava de volta, com um pequeno sorriso escondido em sua barba.
— A Seleção Brasileira também tem um cara muito gato como goleiro e eu não vejo ninguém reclamando. – Dei de ombros, mordendo meu lábio inferior e ele riu fraco, abaixando a cabeça envergonhado. – Bom, acho melhor eu não pagar mico na frente de quatro grandes goleiros. – Estendi as luvas de volta. – Ou deslocar algum osso por falta de treino ou alongamento. – Ele pegou as luvas, tocando levemente na ponta dos meus dedos.
— Elas estarão disponíveis para quando você precisar – ele falou e eu assenti com a cabeça, sorrindo.
— Obrigada! – Suspirei. – Mas acho que eu vou precisar arranjar algumas do meu tamanho quando a hora chegar. – Me aproximei dele, dando uma leve batidinha em seu ombro. – Vou deixar vocês treinarem. – Falei, seguindo para fora do campo, passando pelos outros três goleiros que nos esperavam.
Olhei para trás rapidamente, vendo Alisson ainda me acompanhando com o olhar e eu mordi meu lábio inferior novamente, voltando a subir o morro para voltar para os prédios da Granja, ainda sem entender o que exatamente tinha acontecido ali, mas adorando cada momento.

Na quinta—feira tivemos uma mudança de ares lá na Granja, a imprensa estava presente novamente nos treinos, então Theo acabou pedindo minha ajuda para auxiliá—lo. Eram muitos jogadores, muitos jornalistas e pelo menos todos os titulares dariam alguma declaração. Tudo isso acabou acontecendo no campo mesmo. Enquanto os jogadores treinavam, Theo e eu chamávamos quatro jogadores por vez para levá—los até os jornalistas.
Eu tentei me manter calma, depois do pequeno clima que aconteceu no dia anterior, mas eu sentia que estava sendo observada a todo o momento pelos goleiros. Podia ser minha impressão, mas eles estavam treinando próximo da imprensa e eu sabia que ficava muito bem de calça skinny e aqueles sapatos amarelos para ser encarada.
Quando chegou a hora de levar o Alisson para a entrevista, eu agarrei em Jesus como se minha vida dependesse disso, literalmente. Ok! Podia ter sido um elogio inofensivo, mas ele era muito gato para eu ver como um elogio inofensivo. Afinal, eu nem tinha com o que me preocupar, minha felicidade acabaria em três dias e eu provavelmente só o veria novamente nas preparações da Copa América no ano que vem, que seria aqui no Brasil, ou em algum em algum amistoso aleatório pós Copa do Mundo. Isso se eu fosse convidada também, tinham muitos profissionais que poderiam me repor.
Depois que a imprensa se dissipou, eu saí rapidamente dali, estava usando salto no gramado, então, estava me equilibrando com a ponta dos pés por três horas, estava doendo demais! Fui almoçar acompanhada de Vinícius e Lucas, ainda estávamos falando sobre a ideia do Canarinho Pistola, então precisava alinhar tudo com Vinícius para quando eles fossem para a Rússia.
Na parte da tarde eu me isolei no quarto novamente, tinha novas postagens para fazer, vídeos para upar e ainda queria adiantar o relatório que eu teria que mandar na sexta—feira à tarde. Amanhã tinha treino aberto para os torcedores e eu sabia que seria uma loucura. Lá pelas cinco da tarde e eu consegui finalizar as coisas pendentes. Vendo rapidamente alguns vídeos na CBF TV, eu acabei capotando na cama.
Acordei em um pulo algum tempo depois e olhei em meu relógio, vendo que passava das oito da noite. Saí correndo para o banheiro, largando a roupa na pia do banheiro e tomei um banho correndo! O jantar acabava as nove e eu não estava a fim de esperar pelo lanche da noite para comer alguma coisa. Larguei as formalidades e coloquei shorts, regata e chinelos e segui em direção ao restaurante.
Estranhei quando entrei no mesmo, eram quase nove horas, mas o restaurante não costumava ficar tão vazio, os jogadores acabavam conversando e saindo tarde dali. Mas dessa vez não, o local estava vazio. Tite conversava com alguns membros da equipe técnica enquanto comiam, Filipe Luís, Danilo, Fagner, Geromel, Marquinhos, Fred e Taison ocupavam outra mesma e era só. Nem sinal da turma do barulho e muito menos de Lucas e Vinícius.
Me aproximei do buffet e me animei com alguns caldos que tinha ali e peguei duas cumbucas com sabores diferentes e algumas torradinhas. Me sentei junto aos jogadores e acabamos conversando um pouco sobre a movimentação da imprensa e toda a confusão de mais cedo para todos os jornalistas falarem com todos os jogadores principais.
Eles acabaram me deixando sozinha no fim da refeição, dava para ver o cansaço na cara deles. Eu teria que arranjar alguma cosia no Netflix para ver, tinha descansado bastante nessa soneca mais cedo, então demoraria a dormir.
— Deixa eu te fazer companhia um pouco – Tite falou, se sentando em minha frente e eu sorri.
— Obrigada! – falei, colocando mais uma torrada na boa.
— Parece que os meninos estão gostando de te ter por perto. – Assenti com a cabeça.
— Pois é, está sendo melhor do que eu imaginava. – Ele riu.
— É uma pena que não vá para a Rússia com a gente, aposto que poderia me ajudar a puxar algumas orelhas, se for necessário. – Soltei uma risada gostosa, balançando a cabeça.
— Eu sou nova na equipe, Tite, não dá para eles mandarem alguém tão novo assim para uma Copa do Mundo. – Ele ponderou com a cabeça.
— Talvez não, mas eu estou vendo você com os jogadores e eles parecem bem à vontade perto de ti. – Sorri.
— Bem, eu sou a única mulher aqui, eles me veem como um deles, creio eu. – Ele ponderou e eu limpei a boca, apoiando o guardanapo na lateral da mesa. – Falando nisso, o que aconteceu com eles? – Perguntei, franzindo a testa. – Todos perderam o jantar ou todos vieram cedo demais?
— Eles estão farreando, para falar a verdade. – Ele riu e eu movimentei a cabeça em concordância. – Por que você não vai lá?
— “Lá”, onde? – Franzi o cenho.
— Na piscina, tentando relaxar depois da imprensa hoje. – Ri irônica.
— Até parece que não estão acostumados. – Ele riu comigo. – Quero ver amanhã!
— Nossa! – Ele fez uma careta. – Até eu acho que vou dormir mais cedo para aguentar o tranco de amanhã.
— Acho que vocês realmente estão precisando de uma mulher para dar a cara à tapa nesses momentos! – Ele sorriu.
— Seria bom! – Ele sorriu. – Quem sabe na Copa América? – Ele brincou.
— Espero que nós dois ainda estejamos aqui. – Ele assentiu.
— Tomara! – Ele falou e eu sorri. – Boa noite.
— Boa noite! – Sorri.
Vi Tite sair do restaurante e me levantei em seguida, deixando os materiais usados para os funcionários e saí do mesmo. Ponderei por alguns segundos se deveria ir atrás dos jogadores na piscina, mas minha decisão foi favorável no momento em que eu recebi uma mensagem de áudio do Vinícius.
“Onde você está? Vem aqui na piscina coberta agora, você tá perdendo uma festa!” – No fundo tinha um barulho de pagode e me perguntei se eles realmente estariam fazendo uma festa na área das piscinas.
Segui em direção à piscina coberta e me perguntei quem tinha liberado isso! A piscina coberta era para reabilitação, fisioterapia e alguns treinos de força e exaustão. Bem, eu não apitava nada, então não seria eu a chata para acabar com a diversão. Tite sabia, era o que importava. Ouvi alguns batuques antes mesmo de eu entrar no centro aquático. O som ecoava, fazendo com que parecesse que uma escola de samba tocava lá dentro.
Coloquei a cabeça para dentro, um tanto quanto envergonhada e com medo da visão que eu encontraria ali, mas estava seguro. Os 13 jogadores restantes, além de Lucas e Vinícius, estavam espalhados pelo local, com pandeiros, reco—reco, surdo e alguns instrumentos que eu não sabia o nome, tocando músicas que eu até conhecia. Obviamente, todos estavam sem camisa.
Os jogadores que tocavam como Thiago Silva, Miranda, Paulinho, Willian e Neymar, estavam sentados na beirada da piscina, com as pernas para dentro e os outros estavam dentro da mesma rindo e batendo as mãos no ritmo da música. Olhei rapidamente em volta, encontrando Lucas e Vinícius encontrados espalhados por ali, Lucas com sua câmera e Vinícius com sua filmadora, mas claramente rindo e movimentando os lábios no ritmo da música. Olhei em volta rapidamente à procura de Alisson e o encontrei apoiado na beirada da piscina, dando alguns goles em um chimarrão (ou era tereré?), que me fez franzir a testa.
— Ei! Olha quem apareceu! – Thiago Silva chamou atenção ao me ver, batendo a mão fortemente em seu tambor e os outros o imitaram, fazendo com que o som lá dentro ficasse ensurdecedor.
— A festa chegou! – Neymar brincou e eu andei para perto deles, parando ao lado de Willian.
— Até parece! Vim acabar com a festa! – falei séria e todos me olharam com a cara fechada até que eu comecei a rir sozinha. – Não, mentira! Isso não é problema meu! – Ergui as mãos e eles voltaram a gritar e a bater nos instrumentos e eu sorri.
— Aproveita, – Fernandinho falou, apontando para a piscina e eu ri, passando o olhar rapidamente para Alisson que me encarava.
— Ah não! Estou bem! – Ergui os braços e olhei para a água cristalina. – Talvez só os pezinhos! – Falei para Fernandinho que riu.
Segui até o armário de toalhas e peguei uma, estendendo—a dobrada algumas vezes na beirada da piscina e me sentei em cima dela, mergulhando as pernas na piscina quase até os joelhos. As músicas do Thiaguinho começaram a ser tocadas uma atrás da outra, incluindo outras que eu realmente não conhecia. Eu não era a maior fã de pagode, mas o clima estava gostoso. Estaria melhor se não fosse uma piscina climatizada e o suor não começasse a escorrer pelo rosto de todo mundo e pelos meus seios.
Olhei para o lado por um momento e notei Alisson se encostando ao meu lado. Ele encostou as costas na parede da piscina e apoiou o braço livre na mesma. Mordi a ponta do dedão como quando eu ficava nervosa e fiquei quieta. Ele me estendeu sua cuia e eu neguei com a cabeça.
— Não gosta? – Fiz uma careta, negando com a cabeça.
— Não! – falei rindo.
— Imagino que não seja do sul, então...
— Eu não tenho esse sotaque cantado – falei sorrindo.
— Uh, você também não tem sotaque de carioca. – Neguei com a cabeça.
— Também não, apesar de morar aqui no Rio de Janeiro há sete anos. – Ele assentiu com a cabeça.
— Você é paulista! – ele falou e eu assenti com a cabeça.
— O que me denunciou?
— Esse “morar” caipira aí. – Sorri, assentindo com a cabeça.
— Eu sou de Ribeirão Preto, interior de São Paulo.
— Conheço. O que veio fazer no Rio?
— Estudar, na verdade, mas eu não fiz nenhuma federal, então poderia ter estudado em qualquer faculdade particular no estado de São Paulo.
— Então, por que no Rio de Janeiro? – Ele se virou de frente para mim, apoiando os braços no chão. Suspirei, ponderando com a cabeça.
— Meu pai é carioca e eu tinha uma avó no Rio, ela sempre foi doentinha, mas tinha meu tio para cuidar dela. Só que ele conseguiu um emprego no Nordeste e foi com a família inteira. – Ponderei com a cabeça. – Minha avó não podia ficar sozinha, aí calhou de ser na época do meu vestibular, eu conversei em casa e vim fazer faculdade no Rio para ela não ficar sozinha e cuidar dela. – Dei de ombros.
— Ela está bem? – ele perguntou.
— Ela faleceu no meu terceiro ano de faculdade. – Suspirei. – Não deu tempo de ela ver eu me formar. – Ele assentiu com a cabeça.
— Sinto muito. – Assenti com a cabeça, dando um pequeno sorriso.
— Está tudo bem. – Sorri.
— Por que seu pai não foi para o Rio para cuidar dela? — Ele perguntou.
— Meu pai é aviador, instrutor de cadetes em Pirassununga, interior de São Paulo. É lá que minha família mora agora.
— Bacana! – Ele sorriu. – Eu pensei em ser militar durante um tempo...
— Mas o futebol entrou na sua vida? – Perguntei.
— O futebol já existia na minha vida, para falar a verdade, mas eu não tinha certeza se daria certo até os 17, 18 anos. – Assenti com a cabeça.
— Ainda bem que deu. – Sorri. – Mas você ficaria muito bem de farda. – Vi seu rosto avermelhar mais que o normal e balancei a cabeça.
— ! – Me assustei com Lucas atrás de mim e ergui o indicador rapidamente para Alisson e me levantei, me aproximando do mesmo.
— Fala aí! – Sorri e notei que parecia que ele estava cansado. – O que aconteceu? – Perguntei.
— O Theo foi embora. – Franzi o cenho.
— O quê? Por quê? – Perguntei.
— Ele não está muito bem. – Ele negou com a cabeça. – Ele desmaiou mais cedo e Rodrigo achou melhor ele voltar para o Rio para descansar e ficar pronto para a viagem domingo.
— Eita! O que será que aconteceu? – Cruzei os braços e Lucas fez uma careta, dando de ombros. – Ué... – Abanei as mãos. – Espero que ele fique bem.
— Bem, estamos sozinhos até domingo agora. – Ele falou.
— Amanhã eu falo com a Michelle se eles vão precisar de algum apoio na parte de assessoria, afinal, só tem eu aqui agora. – Ele assentiu com a cabeça e eu senti meu celular vibrar no bolso, puxei o mesmo, encontrando o nome de Michelle no mesmo. – Não morre mais. – Virei o celular para ele e atendi a ligação. – Oi, Michelle, tudo bem? – Virei para Alisson, apontando para o celular e ele assentiu com a cabeça. – Espera um pouco, está muito alto aqui. – Dei uma corrida rápida para fora da área da piscina e o som ficou menos abafado.
— , está me ouvindo?
— Oi, Michelle, tudo bem? Os jogadores estão fazendo barulho aqui hoje. – Ela riu.
— Acho que você está sabendo de Theo, não é?
— Sim, Lucas acabou de me falar.
— Você se importa de auxiliar mais a parte de assessoria só enquanto estiver aí na Granja? Não vale a pena enviar outro assessor para dois dias e meio.
— Não, tudo bem, sem problemas. Só falar o que eu preciso fazer que eu faço.
— Ah, muito obrigada! – Ela falou aliviada. – Bom, vamos lá...

Sexta—feira começou da forma mais comum possível. Saí para tomar café da manhã, vendo os jogadores com cara de sono. Eu acabei ficando uma hora ao telefone com Michelle, então, quando desligamos a ligação, eu fui direto para cama, mas pelo jeito a festa foi até tarde. Cumprimentei rapidamente os jogadores e equipe técnica, comi rapidamente um lanche de presunto e queijo e bebi um café. Depois eu fui para uma reunião com a equipe de segurança da CBF para falar sobre o treino aberto que aconteceria hoje.
Theo estava por dentro de tudo o que aconteceria, agora com a sua ausência eu precisaria tomar as rédeas da situação. Agora, pela parte da manhã, os jogadores treinariam normalmente. Depois do almoço, a Granja seria aberta para cerca de oito mil torcedores para um jogo entre os 20 jogadores. Algo de uma hora e meia, rápido e fácil. Depois disso os jogadores passariam para falar com eles nas grades, tirando fotos e dando autógrafos. Espero que dê tudo certo.
A principal informação que eu peguei na reunião com os seguranças foi sobre as saídas de emergência. Pontos estratégicos que eu deveria encaminhar os jogadores em caso de brecha na segurança, ou seja, fãs surtados invadindo o campo.
Antes do almoço, eu passei no quarto e dei uma ajeitada em mim. Fiz uma escova rápida nos cabelos, dei uma retocada na maquiagem e calcei meus sapatos amarelos. Me olhei no espelho e respirei fundo algumas vezes, tentando me manter calma.
Peguei o iPad e o celular e olhei rapidamente a lista de imprensa que estaria presente, nada de novo. Entrei no refeitório e todos estavam lá. Acenei rapidamente para alguns jogadores e segui para o buffet, pegando o tradicional da comida brasileira dessa vez. Depois do almoço alguns jogadores deram uma rápida passada nos quartos, mas iríamos nos encontrar no restaurante, para passar as últimas informações. Acabei tendo a companhia de Cássio, Fernandinho, Taison e Danilo.
— , todos voltaram, caso tenha algo para passar. – Edu cochichou em meu ouvido e eu me levantei, confirmando com a cabeça.
— Ah, gente, podem se aproximar, por favor? – falei, me colocando no centro do restaurante, sentindo meu rosto esquentar de vergonha.
Observei os jogadores saírem de seus lugares e se aproximarem de mim, fazendo uma meia lua à minha volta. Passei os olhos lentamente em cada um deles e puxei o ar, soltando a respiração pela boca.
— É o seguinte, como a informação já deve ter chegado a vocês, Theo, o responsável pela assessoria, precisou se ausentar por um mal súbito que o afetou na noite de ontem. – Soltei a respiração pela boca novamente. – Ele é o assessor número um, é ele que vai com vocês para Rússia, então, ele voltou para o Rio para descansar e estar nos trinques até domingo. – Eles assentiram com a cabeça. – Como eu sou a única pessoa da área de comunicação e sou jornalista, pediram para eu segurar as pontas até domingo.
— É! – Neymar gritou, aplaudindo, puxando o coro e eu revirei os olhos.
— Obrigada, obrigada! – Movimentei as mãos para baixo para reduzirem os ânimos. – Agora nós vamos descer para o campo, onde terá o treino aberto, que já é tradição aqui na Granja. – Eles assentiram com a cabeça. – Vocês farão um jogo, convencional, 90 minutos. Dividiremos vocês em dois times. Ederson, como você é o terceiro goleiro, você vai intercalar com o Cássio, primeiro tempo ele, segundo você. – Ele assentiu com a cabeça. – Como o Alisson é nosso primeiro goleiro, ele precisa mostrar trabalho. – Ele riu sozinho lá atrás. – Depois do jogo, vocês terão 30 minutos para falar com os fãs que estarão em volta, podem tirar fotos, dar autógrafos, mas já avisando! – Frisei. – Eles ficarão para fora da grade, vocês para dentro, começou empurra—empurra, eu coloco vocês para dentro na hora! – Eles assentiram com a cabeça. – Bem, não eu, os seguranças. – Eles riram em seguida. Matutei rapidamente. – Sem falar com a imprensa dessa vez, beleza? Ouviu, Neymar? – Ele assentiu com a cabeça, erguendo o polegar. — Ah, e um aviso do pessoal da segurança: em caso de brecha na segurança, empurra—empurra ou qualquer tipo de problemas, nosso ponto de referência é o vestiário lá de baixo. Fechamos com grades, então, viu alguma merda acontecendo, corre para lá. – Eles afirmaram com cabeça, me olhando atentamente. – Entendidos?
— Sim! – eles responderam forte.
— Perfeito! – Sorri, virando para Tite. – Acho que é isso.
— Me lembre de te chamar quando precisar brigar com eles – ele falou e eu ri, dando de ombros.
— Estamos aqui para isso. – Sorri, olhando rapidamente para meu relógio. – Bom, vamos? – Falei e eles assentiram. – Lucas! – Chamei, que já estava com seus apetrechos na mão. – Cadê o Vinícius?
— Você quer o Vinícius ou...
— Você sabe de quem eu estou falando – falei e ele riu.
— Tá lá com a galera já. – Bati a mão na testa e vi Paulinho rir ao meu lado.
Peguei meus eletrônicos, coloquei em meu braço e bolso e segui para fora do restaurante, indo para o lado de fora. Alguns carrinhos de golfe nos esperavam para descer para a área de treino. Entrei em um com Lucas ao meu lado e chegamos até o campo com tudo sob controle. O Canarinho já estava fazendo a festa com a galera, literalmente sendo um animador de torcida. Tentei segurar a risada, mas era inevitável.
O jogo correu sem grandes surpresas, era visível que os jogadores não estavam dando duro de si, parecia uma pelada no fim de semana. O jogo acabou um a zero, o time que Ederson e Cássio revezaram deixou um gol do Gabriel Jesus entrar. Eu fiquei na lateral do campo com Lucas, acompanhando—o nas tiragens de fotos.
Depois disso, eu me senti no meu primeiro grande pesadelo profissional. A chuva começou a cair fina no meio do segundo tempo, nada preocupante, mas também não tinham somente oito mil pessoas lá dentro, tinha muito mais. Eles estavam agitados e nem os seguranças ou as grades dariam conta.
— Junte suas coisas e leve o Vinícius para dentro agora – cochichei para Lucas e ele me olhou com a testa franzida.
— Por quê? – ele perguntou.
— Só entre! Agora! – falei firme. Ele não perguntou mais nada, junto seus materiais e se levantou do mesmo, puxando Vinícius com ele.
Olhei ao longe, próximo ao gol que era ocupado por Alisson e vi alguns seguranças se juntarem para conter o local. Pressionei o olhar para tentar ver se algum jogador estava perto, mas a chuva apertou, dificultando a minha visão e me fazendo gelar com a água molhada.
— Ei, social mídia, está tudo bem? – Cássio se aproximou e eu apoiei a mão em seu ombro.
— Me ajuda a tirar os jogadores daqui agora! – falei firme.
— O que está acontecendo? – Um grito alto me distraiu e vi a grade tombar para frente, fazendo com que alguns torcedores caíssem para dentro do campo.
— Agora! – Falei novamente e ele saiu correndo para uma direção e eu segui para outra, tentando evitar que os saltos afundassem na grama molhada. – Para dentro, agora! – Passei os braços pelas costas de alguns jogadores, vendo—os correrem na mesma direção.
Observei o ponto de confusão e vi que os seguranças pareciam estar contendo, mas com aquela chuva caindo e os holofotes em meu rosto, eu não confiava muito no que eu via. Droga! Eu seria demitida na minha segunda semana!
Os jogadores seguiram correndo para o ponto combinado e eu olhei em volta rapidamente, vendo que o campo não tinha mais nenhum ponto amarelo e azul e corri em direção ao vestiário lá de baixo. A chuva parou de bater em meu corpo quando eu entrei embaixo da cobertura e com pressa no local, sentindo o pé da frente deslizar por causa da lama e eu cair, me apoiando na maçaneta da porta.
— Opa! – Ouvi alguém falar, mas eu ignorei, deslizando o corpo para frente e batendo a porta, respirando aliviada.
— Tá todo mundo aqui? – gritei, com a respiração acelerada.
— Três, cinco, oito, 11, 14, 18, 20... – Alguém contou. – Tite, Lucas e Vinícius também. – Suspirei, encostando meu corpo na porta, tentando normalizar a respiração.
— Você está bem? – Olhei para cima, vendo Alisson me encarando de cima, a poucos passos de mim. Era um vestiário, o local era pequeno.
— Eu acho que torci o pé! – reclamei, sentindo meu pé doer.
— Vem cá! – Douglas me esticou as mãos e eu ergui a mão para ele esperar.
Puxei os saltos para fora dos pés, sentindo um alívio passar pelo meu corpo. Olhei o mesmo e suspirei, esperando que eu conseguisse limpar a terra. Eu teria que parar de ir de salto para o campo, talvez não seja minha melhor ideia. Estiquei as mãos para Douglas e Alisson que me ajudaram a ficar de pé, sem que eu apoiasse o pé esquerdo e eu andei até a mesa de apoio no centro do local e me sentei na mesma, apoiando a mão no ombro de Alisson, dando um pequeno sorriso quando o fiz.
— Vamos chamar o Rodrigo para dar uma olhada. – Tite falou, desviando das pessoas e aparecendo ao meu lado, fazendo Alisson se afastar um pouco.
— Eu estou bem – falei, suspirando. – Eu preciso pensar o que eu vou falar para a imprensa agora. – Apoiei a mão na boca.
— O que aconteceu, afinal? Só vi todo mundo correndo. – Marquinhos perguntou.
— Liberaram entrada de muito mais gente do que o combinado, depois derrubaram uma das grades do canto norte do campo, torcedores começaram a entrar, aí começou a chover e eu não consegui ver mais nada. – Suspirei, com a respiração ainda acelerada. – Entre o sim e o não, preferi trazer todo mundo para dentro.
— Valeu! – Thiago Silva sorriu, esticando o punho para mim e eu bati no mesmo, sorrindo.
— Acho que agora você tá pronta para proteger a gente assim na Rússia. – Miranda brincou e eu ri fraco, dando um sorriso de canto.
— Ela não vai para Rússia. – Willian anunciou e me assustei com as diferentes reações.
— O quê?
— Como assim?
— Tá de brincadeira, não é? – Olhei para Alisson e seu olhar me parecia bem decepcionado, até se afastando para o fundo.
— Ei, gente! Para com isso! – falei alto, chamei a atenção de todos. – Eu não deveria nem estar aqui na Granja, estou na CBF desde o dia 14 só. – Balancei a cabeça. – Eu vou ficar com vocês até domingo, depois vocês terão que enfrentar o mundial sem mim. – Sorri de lado. – Adoraria ir para Rússia, mas eu acabei de começar, têm muitas pessoas mais preparadas para cuidar de vocês lá. – Dei de ombros. – Mas não se preocupem, teremos Catar em 2022, Copa América ano que vem... – Sorri. – Ainda nos encontraremos em outras oportunidades.
— Tudo bem – Coutinho falou. – Mas cortou o coração. – Ri fraco, balançando com a cabeça.
— Bom, deixa eu limpar a bagunça lá fora. – Fiz menção de descer da bancada, mas Tite segurou meu pulso.
— Você fica e espera o Rodrigo para ver seu pé.
— Mas eu... – tentei falar para ele só me encarou e eu fiquei quieta, como uma criança.

Depois do fracasso do treino no dia anterior, eu me permiti mais 15 minutos de cama no dia seguinte. Acabamos ficando presos no vestiário por cerca de uma hora até que os seguranças nos encontraram e disseram que a barra estava limpa, que eles já tinham conseguido evacuar todo mundo.
Rodrigo, médico da seleção, apareceu junto de Cléber e Edu, preocupados conosco. Rodrigo já deu uma olhada em meu tornozelo, mas disse que estava tudo certo, era só uma leve torção, com descanso melhoraria. Fiquei aliviada!
No que eu saí do vestiário, olhei a bagunça que tinha sido feita no local, mas todos nós relevamos, que a gente pensasse naquilo no dia seguinte. Com a ajuda de um carrinho de golfe, nos levaram de volta para os prédios. Segui para o quarto apoiada em Vinícius e dava para notar que o clima havia ficado depressivo, todos seguiram em silêncio para seus quartos e só ouvia as portas batendo uma a uma.
Antes de entrar em meu quarto, olhei rapidamente para Alisson, mas ele não me deu sinal nenhum, somente entrou no quarto. Suspirei e agradeci a Vinícius pela ajuda e entrei no quarto. Apesar de o tempo ter escurecido mais cedo por causa da chuva, acabava de passar das seis da tarde.
A primeira coisa que fiz foi tomar banho e me livrar daquelas roupas geladas, poderia ter tido uma torção no pé, mas também não queria pegar uma gripe. Depois do banho, peguei meus sapatos e os coloquei na banheira, aliviada por ver que ele só estava sujo com barro, imagina se eu já destruísse o sapato que Bernardo nem tinha acabado de pagar?
Depois eu falei com Michelle, expliquei a situação para ela e ela só pediu para eu elaborar um press release para divulgar para a imprensa. Ela até me aliviou falando que aquilo acontecia, mas eu havia ficado preocupada. Fiz na hora o que ela me pediu e já enviei para que fosse liberado pelo pessoal do Rio.
Lucas me enviou algumas fotos do treino, antes das coisas bagunçarem, e eu postei algumas fotos nas redes sociais da CBF, fiz uma postagem do Canarinho, vendo os seguidores aumentarem no Twitter cada dia mais e, para finalizar meu trabalho, eu enviei algumas fotos para os jogadores, tendo resposta de quase todos, menos de quem eu queria. Ele parecia chateado.
Tentei não me abalar com isso, mas eu optei por pular o jantar naquele dia. Comi um pacote de salgadinhos que eu tinha trazido para dentro, tomei um analgésico para meu pé que Rodrigo me deu e capotei antes que o Netflix pudesse carregar.

Não notei nada de diferente quando entrei no restaurante naquele sábado de manhã, animação era alta e as risadas ecoavam pelo local. Observei os jogadores amontoados em uma das mesas e me aproximei deles, vendo vários álbuns da Copa e figurinhas espalhadas pelo local.
— Ei, ! Quer um álbum? A Panini mandou! – Renato perguntou e todos viraram para mim.
— Vocês estão atrasados, meu álbum está completo faz tempo! – falei, notando todos me encarando.
— Como assim? – Eles me olharam surpresos.
— Eu trabalho na CBF, gente! – brinquei, rindo em seguida. – Mentira, eu estou montando desde que começou a vender. – Sorri. – Mas faltam algumas brilhantes, se sobrar, estou aceitando. – Falei e eles riram.
— Como está o pé? – Douglas perguntou e eu apontei para meus pés de chinelos.
— Parou de doer, é o que importa. – Sorri e ele assentiu com a cabeça. Procurei Alisson com o olhar, mas fui distraída por alguém me chamando.
— ! – Virei para o lado, vendo Michelle a alguns passos de mim.
— Michelle? – falei, me aproximando dela. – Meu Deus, o que está fazendo aqui? – Falei, abraçando—a rapidamente e ela sorriu.
— Podemos conversar? – Ela perguntou e eu senti meu estômago revirar. Droga! Eu realmente estava demitida e ela veio para Teresópolis só para me dizer isso.
— Claro! – Nos afastamos dos jogadores, nos sentando em uma mesa ao fundo do restaurante e eu engoli em seco algumas vezes, tentando me preparar para o que vinha em seguida.
— Bom, , eu tenho uma notícia boa e uma péssima para te dar. – Ela respirou fundo. – Eu não viria aqui se não fosse importante. – Assenti com a cabeça.
— Se for sobre ontem, me desculpa. Eu preciso me encontrar com os seguranças para saber exatamente o que aconteceu e... – Ela negou com a cabeça.
— Não, não tem nada a ver com ontem. Essas coisas acontecem, entram mais pessoas que o permitido, torcedores brasileiros são muito calorosos... Um mais um são dois, não se preocupe. Não é sobre isso. – Assenti com a cabeça, mas senti um alívio passar pelo meu corpo.
— Então, é sobre o quê? – Perguntei.
— O que aconteceu com Theo não foi só um mal súbito, , ele realmente está mal. – Arregalei os olhos e os lábios.
— Como assim? – Perguntou.
— Ele fez alguns testes e encontraram um tumor no cérebro...
— Meu Deus! – Levei às mãos à boca. – Ele está bem?
— Ele está fazendo todos os exames, os médicos estão analisando as chances dele, mas, por mais feio que pareça, isso não é problema nosso... – Ela suspirou, coçando a cabeça. — Bem, eu acho que não preciso mais enrolar. – Ela suspirou. – Ele não vai mais para Rússia. – Assenti com a cabeça.
— Imaginei, e quem vai no lugar dele? – perguntei.
— Se você puder, você mesma! – Arregalei os olhos.
— O quê? – Falei um tanto surpresa.
— Parece que não, mas eu acompanhei todos os seus trabalhos aqui na Granja, não só o que você me mandou, como o que o Lucas, Vinícius e até o Theo mandou. Você está realmente nos surpreendendo... – Ri envergonhada. – Além disso, os jogadores realmente gostaram de você. – Ela falou. – Achei que mandar uma mulher sozinha para cá seria um tiro no pé, mas você lidou muito bem com a situação, os jogadores estavam se perguntando de ti quando eu cheguei... – Assenti com a cabeça.
— Eu confesso que me afeiçoei a eles também, é um trabalho muito gostoso de fazer e eles foram muito gentis. – Sorri. – Até falamos sobre isso ontem, e eles não ficaram muito felizes com eu não ir. – Ela sorriu.
— Bom, eu conversei com o pessoal acima de mim, conversei com os dirigentes, com Tite, com Angélica e com Bianca, você é a nossa primeira opção. – Ela sorriu. – É questão de popularidade, você está sendo bem vista pelos jogadores e pela equipe e acho que aguentaria o tranco na Rússia. Passar esses dois meses com eles. Além de que você acabou de fazer exame médico para começar seu trabalho conosco e é a única que está com ele atualizado. – Assenti com a cabeça, suspirando.
— Uau! – falei rindo.
— E por mais que eu adoraria te dar alguns dias para decidir, aceitando isso, você tem que ir amanhã com eles para Londres. Então, eu preciso da sua decisão agora para preparar a documentação e outros itens importantes para a viagem. – Respirei fundo três vezes, mas balancei a cabeça rapidamente.
— Eu não tenho o que pensar, Michelle. Eu aceito! – falei com um largo sorriso no rosto. – É uma oportunidade única na vida, eu não vou perder e prometo que vocês não vão se arrepender. – Falei, sentindo o choro na garganta.
— Essa é a minha garota! – Sorri. – Bem, lá na Rússia você não vai atuar como social mídia... – Ela balançou a cabeça. – Me deixa reformular. Você não vai trabalhar só como social mídia, você vai acabar auxiliando a parte de social mídia, o Vinícius, o Canarinho e o Lopes no Brasil, mas lá na Rússia, eu preciso de três assessores. – Assenti com a cabeça. – Tivemos só a experiência de ontem contigo, mas com a sua presença aqui com os jogadores, decidimos te colocar em um trabalho direto com eles: imagem. – Assenti com a cabeça. – Seu trabalho é acompanhar e analisar a imagem dos jogadores.
— Ok... – Franzi a testa.
— Em poucas palavras? Cuidar e brigar com os jogadores, se for necessário.
— Brigar?
— Em um jogo de futebol, os ânimos dos jogadores ficam exaltados demais, então, dependendo da situação, algumas palavras feias acabam saindo, os jogadores e a Seleção são mal vistos, etc... – Assenti com a cabeça. – Bom, seu trabalho, no geral, vai ser acompanhar os jogos, treinamentos e afins, analisar e controlar a imagem dos jogadores, nos enviar relatórios sobre isso a cada jogo. – Confirmei.
— E as redes sociais?
— Esqueça—as por enquanto, temos outras pessoas que poderão fazer seu trabalho enquanto você estiver fora. – Assenti com a cabeça. – Foque nos jogadores, na imagem dos jogadores, nos jogos, nos acontecimentos e divirta—se, você vai acompanhar uma Copa do Mundo de dentro, esse é o sonho de muitas pessoas. – Sorri.
— O meu também. – Assenti com a cabeça.
— Bom, eu vou te passar outras informações depois, mas eu preciso de algumas informações para enviar para a FIFA para a elaboração de crachás, reserva de quartos, te colocar na lista da CBF, nas listas de voos, além de tamanho de roupa para uniformes, ternos da CBF e tudo mais...
— Eu vou ganhar um terno daqueles? – falei abobalhada.
— Você vai ganhar uma viagem com tudo pago para Inglaterra, Áustria e Rússia e está pensando no terno? – ela falou e eu ri.
— Oh meu Deus. – Parei rapidamente. – Temos um problema. – Me lembrei.
— Qual? – Ela perguntou.
— Minha família mora no interior de São Paulo, meu passaporte está lá, minhas malas maiores estão lá... – Respirei fundo.
— Onde sua família mora?
— Pirassununga, é perto de Ribeirão Preto.
— Se eu te liberar agora e ficar no seu lugar entre hoje e amanhã, você consegue ir direto para o aeroporto Santos Dumont pegar um voo para Ribeirão Preto e voltar para o aeroporto do Galeão até amanhã às 17h45? – Ela me perguntou. – O voo para Londres sai às seis.
— Consigo! – falei firme. – Eu vou ligar para o meu pai ver se tem algum avião da Força Aérea Brasileira indo para Pirassununga saindo do Galeão, se eu conseguir, ele para na minha cidade. – Ela me olhou confusa. – Ele é instrutor na FAB.
— Ok. – Ela balançou a cabeça, se levantando. – Vá, agora! Use o cartão corporativo para o que for necessário, mas eu preciso de você às seis horas naquele avião para Londres.
— Pode deixar! – Abracei—a fortemente, com um largo sorriso no rosto. – Obrigada! – Sorri. – Muito obrigada!
Me afastei da mesma dando pequenos pulos no lugar e me virei, saindo desesperada para fora do restaurante, somente ouvindo os barulhos do meu chinelo estalarem fortemente contra o piso.


Capítulo 4 – A Copa do Mundo Começou

Para variar, eu fui a última a sair do segundo ônibus que levava até a pista onde pegaríamos o voo de Viena com destino a Sochi, nossa casa na Rússia por pouco mais de três semanas, contando que tudo desse certo.
Fiquei feliz por poder dispensar o terninho hoje. Estava ventando bastante em Viena, então, pude usar minha roupa de guerra: jeans, polo azul e o tradicional sapato amarelo. Entrei no avião, cumprimentando os comissários e a primeira coisa que notei foi que o avião era bem mais simples que o da ida para Londres. Era um avião convencional, mas ainda tinha a divisão entre a equipe e os jogadores.
Olhei rapidamente em volta, notando o pessoal da equipe técnica bem ajeitada em todos os locais dessa primeira parte e franzi a testa, à procura da minha equipe. Acenei rapidamente para um pessoal e segui novamente, passando para a segunda área e parei, ao ver que Lucas tirava uma foto do pessoal todo reunido.
— Aí sim! – Sorri, parando ao lado dele e apoiei a mão em meu peito. Olhando todos sorridentes, espremidos e amontoados uns nos outros até o teto, percebi que a gente até poderia não trazer a taça para casa, não que eu achasse isso possível, mas ganharíamos muita coisa com isso.
— Pronto, galera! – Lucas se virou, se assustando comigo e começamos a rir.
— Fomos enxotados para trás? – perguntei e ele riu.
— Avião menor. – Assenti com a cabeça e ele apontou para as quatro primeiras fileiras daquela parte, onde minha equipe estava se ajeitando. – Senta aí! – Ele falou e eu olhei para duas poltronas aparentemente livres e joguei minha mochila para uma mais perto da poltrona e coloquei minha bolsa no bagageiro, depois a sacola menor com o terninho e, depois de tirar meu iPad da mesma, enxotei a mochila ali.
— Oi – Alisson falou e eu olhei para ele que se sentava na poltrona atrás da minha e eu soltei um pequeno riso.
— Você está me seguindo – falei baixo, vendo—o rir.
— Você que sempre chega atrasada nos lugares. – Abanei a mão, me sentando na poltrona e me preparando para a decolagem.
O bom de estarmos em Viena é que o voo também foi mais curto, quase quatro horas. Eu até tentei dormir, mas eu estava muito empolgada de estar indo para a Rússia. Ou melhor, indo para a Rússia para acompanhar a Seleção Brasileira de Futebol na competição mais importante do esporte.
Claro que eu sonhei anos com isso quando era mais jovem, ter a chance de representar meu país. Claro que antes de eu descobrir que essa Copa do Mundo era só para homens, mas era uma oportunidade única na vida, mesmo eu não achando que merecesse estar lá tão cedo, apesar de estar amando tudo isso.
Mas além da empolgação, alguém interrompeu minha tentativa de sono.
— . – Virei para o lado, vendo Paulinho se sentar ao meu lado.
— Ei! – falei, tirando os fones da orelha.
— Pode confirmar uma coisa para mim? – ele perguntou e eu franzi a testa, vendo—o olhar para trás rapidamente e abaixando o tom de voz.
— Claro!
— Já passou da meia—noite, então, é aniversário do Fagner? – Ele apontou para trás e eu franzi a testa, tirando rapidamente dos meus filmes baixados no Netflix e abri os arquivos dos jogadores, procurando pelo de Fagner.
— O que vocês estão fazendo? – Abaixei o iPad, vendo Alisson se debruçar sobre minha poltrona e eu relaxei.
— Ah, é você! – Ergui o iPad novamente, passando os arquivos e encontrando do dito cujo. – Sim, Paulinho, 11 de junho, 29 aninhos. – Ele abriu um sorriso animado.
— É aniversário do...? – Alisson começou a perguntar baixo.
— Xí! – Paulinho colocou a mão na boca. – Será que eles têm bolo no avião?
— Acho que só o muffin. – Ergui o lanchinho que eles tinham dado no começo do voo e que ainda estava embalado.
— Vem comigo! – ele falou para Alisson e eu abanei com a mão, voltando ao meu filme.
Não deu tempo de eu ver mais 10 minutos do filme. Tomei um susto quando Paulinho, Alisson e outros jogadores envolvidos nisso, apareceram do fundo do avião cantando parabéns para Fagner, fazendo—o ficar vermelho de vergonha na hora. Paulinho encontrou um bolo para ele — bem, quase, era o muffin da companhia aérea, com um palito de dente fincado no mesmo como se fosse vela. Todos cantamos parabéns e Vinícius e Lucas se posicionaram para filmar alguma coisa, logo fazendo aquele sinal para mim de “já te mando”.
O resto do voo foi calmo, até consegui dormir por alguns segundos, mas logo eu precisei me levantar e me arrumar como todos os passageiros daquele avião, então as coisas ficaram meio turbulentas com somente seis banheiros. Eu e as meninas da comunicação acabamos pedindo licença para as comissárias de bordo e usei a área de descanso delas. Confesso que foi mais confortável que o banheiro minúsculo sacudindo a 11 mil metros do chão. Principalmente a liberdade em passar rímel sem manchar a cara inteira.
Pousamos em solo russo com gritaria da parte dos jogadores, me permitindo fazer novamente aquela reza silenciosa sobre os desafios e pressões que seriam colocadas em cima desses moços de 21 a 33 anos. Além das surpresas que poderiam vir do meu trabalho que me testariam. Seja o que Deus quiser.
Depois de todos vestidos, os membros da polícia federal russa, ou sei lá como eram chamados aqui, entraram no avião para conferir e carimbar o passaporte de todos, me fazendo feliz ao ver mais um carimbo no meu livrinho vazio. A oficial que carimbou o meu falou algo em russo, espero que tenha sido “seja bem—vinda”. Eu sabia falar cinco línguas, mas não tinha aprendido a falar russo, afinal, nunca estava em meus planos vir para cá.
Descemos do avião na ordem das poltronas, menos Lucas e Vinícius, como sempre. Mesmo sem necessidade, Lucas fazia questão de tirar fotos minhas e eu vou assumir que adorava, aquele cara tinha um olhar incrível, então, eu sempre estava linda nas fotos dele e acabava sendo sucesso no Instagram, principalmente depois de novos seguidores por causa da minha posição.
Aguardei ao lado de Lucas enquanto todos os jogadores desciam do avião e foi difícil organizar todas as 23 crianças em frente ao avião para a primeira foto oficial na Rússia. Caramba! Eu estou na Rússia! Dei uma olhada rápida no aeroporto de Sochi e franzi os lábios, era um aeroporto comum, tirando os escritos em uma língua que eu realmente não entendia como aquilo formava palavras.
— Tendo devaneios aí? – Lucas me cutucou, e eu notei que a foto já havia sido tirada e os jogadores seguiam em direção ao ônibus que nos aguardava.
— Estamos na Rússia, Lucas. – Ele riu. – Não sei você, mas nem em sonhos eu pensei em vir para cá. – Suspirei.
— Eu também não. – Ele sorriu.
— Prontos para desbravar juntos? – Ele esticou a mão para cima e eu suspirei, batendo na mesma.
— Vamos lá! – falei e ele riu, passando o braço pelos meus ombros e me levando até o ônibus.
— Vamos, Brasil! – Jesus gritou da porta do ônibus e gritamos com ele, batendo palmas e assoviando.
— É a nossa hora – falei mais para mim do que para os outros e entrei no ônibus, me sentando no primeiro banco vago que eu encontrei, afinal, tinha ficado por último de novo.

Demoramos cerca de uma hora para seguirmos do aeroporto para o hotel. Bem, hotel não, o lugar dos meus sonhos. Aquele lugar era fantástico, eu estava abismada! A frente do hotel era composta por várias cascatas iluminadas que subiam até o prédio principal do incrível Swissôtel Resort Sochi Kamelia, um hotel cinco estrelas onde a diária de um quarto não saía por menos de 1400 reais.
Parecia que eu estava num palácio! Era tudo lindo, maravilhoso e nem em sonhos eu imaginaria ficar em um lugar desses, mas essa era uma das vantagens de acompanhar a Seleção, ficar em lugares desses, de tirar o fôlego. Aquilo era um resort, então, eu podia usar todo aquele espaço ao meu favor, como inspiração talvez? Imagina minha felicidade ao descobrir que também tinha uma praia privativa? Eu estava nas nuvens, mas parecia que os jogadores não compartilhavam da mesma emoção de meros mortais, afinal, ganhando milhões de euros por mês, eles já deveriam ter ficado em lugares melhores.
Chegamos ao hotel em clima de festa! Passava das quatro da madrugada e todos estavam pilhados como se fosse meio dia, além de que uma comitiva surpreendente nos esperava. Bom, surpreendente para mim que não sou relações públicas e não me interessei em saber o que aconteceria quando chegássemos.
Fui uma das primeiras a sair do ônibus e dei uma volta ao redor do meu corpo para pegar alguns detalhes daquele hotel. Aquilo era um palácio e eu tentava não aparentar muito surpresa com tudo, mas aquilo era fascinante. Segui o pessoal da comunicação e saí da frente das lentes dos meus companheiros.
Não sabia se era da FIFA ou do hotel, mas uma fileira de pessoas, colocadas dos dois lados, formando um corredor para passarmos, nos recebeu. Todos usavam crachás e tentavam tirar aproveito de ver os jogadores brasileiros mesmo que fosse por alguns segundos.
Balões azuis, amarelos e verdes, um quinteto de cantoras russas e pessoas vestidas a caráter, nos esperavam para a recepção. Uma das mulheres em trajes típicos segurava um tipo de doce, pelo menos eu acho, que parecia um bolo de caramelo e estendia em nossa direção, mas eu não sabia o que era, então, passei reto, seguindo alguns dos dirigentes.
Ao fim do corredor de pessoas, viramos à direita e encontrei a recepção do hotel. Ou a recepção preparada para nossa chegada. O local tinha alguns sofás e poltronas e fomos nos ajeitando na mesma, enquanto aguardávamos a chegada de todo mundo.
— . – Um dos peixes grandes da CBF se aproximou de mim e se sentou ao meu lado.
— Olá, senhor Silvestre – falei e ele sorriu.
— Você que é a assessora ligada aos jogadores, certo?
— Sim, sou. – Ele me estendeu algumas folhas.
— Aqui algumas informações para serem passadas a eles. – Ele se levantou. – Obrigado. – Ele saiu e eu franzi a testa, olhando para as folhas enquanto a sala enchia, rindo com a ironia do destino.
É claro que eles se livrariam de falar as partes mais tensas. Em minha mão estava a programação e informações sobre meu trabalho e principalmente sobre o contato com a família e elas não eram muito boas. Respirei fundo e esperei todos os jogadores e comissão entrarem e logo a porta foi fechada, trazendo alguns funcionários do hotel e da FIFA, já que Angelica não desgrudava dele.
— Boa madrugada, brasileiros – ele falou em português com um sotaque bem forte. – Hoje vocês começam sua jornada para a Copa do Mundo. – Ele sorriu e algumas pessoas aplaudiram bem fracamente. – Aqui em Sochi e nesse hotel, vocês ficarão hospedados durante quase toda jornada e se mudarão para outros pontos, conforme forem passando de fases. – Ele sorriu. – Mais informações serão passadas pelas suas próprias equipes e depois vocês conhecerão suas acomodações. – Assenti com a cabeça. – Após isso, teremos uma recepção para vocês na parte externa do hotel. Obrigado pela presença de todos e boa sorte na sua jornada. – Ele sorriu e aplaudimos. – Agora vocês receberão informações do gerente do hotel e depois da assessoria de vocês. – Ele assentiu e outro homem engravatado apareceu e começou a falar em inglês.
— Bom dia, Brasil. Como estão? – Seu sotaque era bem puxado para o russo, mas perfeitamente entendível. – Eu sou Ivan Mikhail, gerente do Swissôtel Resort Sochi Kamelia, o novo lar de vocês durante essa batalha. – Sorri. – Para facilitar o deslocamento de vocês ao Yug—Sport Stadium, local de treinamento de vocês, a menos de um quilômetro daqui, nós reservamos toda a parte norte do hotel para a hospedagem. Lá será exclusivo para vocês e transformamos a cobertura em restaurante para dar mais privacidade a vocês. Fizemos a separação dos quartos como determinação da FIFA e da CBF, e vocês poderão pegar as chaves no balcão, após a reunião. – Ele sorriu e eu assenti com a cabeça. – Desejo a vocês uma boa estadia e muito boa sorte no trabalho de vocês.
O pessoal aplaudiu e eu bufei sozinha, me levantando da mesma e carregando comigo os papéis. Andei até Angelica novamente, vendo—a abrir um largo sorriso e eu neguei com a cabeça, vendo—a rir e sussurrar um “desculpa”, mas me coloquei em frente aos jogadores, equipe técnica e dirigentes e olhei para o papel.
— Vamos lá – falei, passando a mão no rosto. – Eles deixaram as informações mais chatas para mim. – O pessoal mais próximo começou a rir. – Pior que é sério! – Eles fecharam o rosto. – Primeiro de tudo, sobre os treinos, aqui vai ser mais pesado. Agora na primavera, começo do verão, temos muita incidência de sol e pouca noite, então a equipe técnica quer trabalhar com vocês o maior tempo possível. Os treinos começarão as oito da manhã e seguirão até as sete da noite. – Falei. – Café da manhã a partir das cinco e meia da manhã, almoço a partir das 11h30 e janta a partir das oito horas. – Olhei novamente no papel. – O local de treinamento de vocês é aqui perto, cerca de 600 metros. Terão carrinhos de golfe para levar vocês lá ou vocês podem ir a pé. – Respirei fundo. – Sobre a minha parte, todo dia vocês terão coletivas de imprensa, como estava tendo lá em Londres, então, sim, eu vou continuar buscando um de vocês todo dia para falar na coletiva. – Eles fizeram caretas e eu ri. – Além disso, acabei de ser informada que eu terei um local de auxílio para vocês, qualquer problema com a imprensa, com a imagem de vocês e com as famílias, eu estarei disponível, não sei aonde ainda, para auxiliar vocês. Abaixei o papel. – Agora a parte chata, o elefante branco na sala: famílias – falei, chamando atenção dos jogadores. – A CBF liberou a presença dos familiares com vocês, mas terão algumas restrições. – Respirei fundo, bufando fortemente. – A primeira é o local em que as famílias de vocês ficarão. A CBF fechou o Pullman Hotel para as famílias e amigos de vocês ficarem hospedados. Esse hotel fica a cinco quilômetros daqui, ao norte. Também, a CBF fretou um avião para trazê—los à Rússia, interessados tanto no hotel, quanto no avião, precisam me falar amanhã, para eu repassar para eles. O voo será na sexta—feira. – Suspirei. – Sobre folgas, elas serão dadas pelo Tite quando ele quiser, nesses períodos vocês terão total liberdade para sair do hotel, encontrar suas famílias e fazer o que bem entendem nesse tempo, voltando para cá no horário estipulado. – Cocei a cabeça, bagunçando meus cabelos. – Sobre a presença dos familiares nos treinamentos: serão permitidos a entrada deles somente às quatro da tarde ou em treinos abertos. E no hotel, eles poderão ficar aqui até meia noite. Já avisando, não está permitido que nenhuma esposa, namoradas ou filhos durmam aqui. – Eles começaram a murmurar. – Fui clara? – Falei firme.
— Foi... – eles falaram meio de mau gosto.
— Não foi eu quem fiz as regras, gente. Eu só estou passando informação, eu sou a isca. – Ergui as mãos e eles riram. – A presença de familiares aqui no hotel, em qualquer lugar, incluindo quartos, é só nos horários permitidos a noite ou nas folgas que serão estipuladas ainda. – Passei os olhos pelos papéis. – Bom, acho que é isso. – Dei de ombros. – Amanhã... Bem, hoje, contando que já passam das quatro da madrugada, teremos o dia livre para descanso, vamos descobrir melhor os protocolos e amanhã começamos o trabalho. – Bati as mãos e eles me copiaram.
— Por favor, podem vir pegar as chaves. – O gerente do hotel voltou a falar e eu vi os jogadores se amontoarem na recepção e me sentei em um dos sofás, esperaria pela minha vez.
Fui a última e vi que a chave era nominal, com o número do quarto e o andar em qual ele ficava. Eu havia ficado no quarto andar. Achei estranho só ter meu nome na chave, mas peguei o elevador com alguns dirigentes, parando em todos os andares e segui para o quarto, vendo as portas se abrirem.
Na minha frente tinha um corredor vertical e eles se abriram em dois longos horizontais. Segui para um dos corredores e é claro que eu errei, vendo os nomes dos jogadores nas portas e os números aos poucos. A CBF podia ter economizado um pouco nos aposentos na pré—Copa, mas a FIFA não tinha essa intenção não, era um quarto para cada. E eu havia notado, por um momento, que tinha ficado no andar dos jogadores, o que me deixou bem confusa.
— Deu sorte, hein?! – Firmino brincou e eu franzi a testa.
— Como assim? – perguntei.
— Não viu ainda? Seu quarto é o maior. – Ele cruzou os braços e eu vi alguns jogadores se aproximarem de nós.
— Nem cheguei nele ainda. – Ri fraco e ele apontou para o fim do corredor, onde alguns jogadores estavam e eu segui para o mesmo, vendo uma porta centralizada na parede que ocupava a extensão inteira do andar e vi meu nome na mesma.
Coloquei o cartão na porta e ouvi a mesma destravar. Empurrei a porta e fiquei mais abismada ainda. Sim, pelo que eu havia visto das portas abertas, meu quarto era maior que o dos outros jogadores, mas tinha motivo. Para começo de conversa, eu estava em um hotel cinco estrelas, então, qualquer quarto já seria magnífico. E para término de conversa, meu quarto não era só um quarto, ele também era um escritório. Do lado direito da porta, uma cama de casal com mesas de cabeceira, armários, poltronas, porta para o banheiro e outros detalhes feitos pensando especialmente no cliente. Do lado esquerdo da porta, uma mesa em “L” que circundava a parte da lateral e a do fundo, onde também ficava uma janela em toda extensão da mesa. Apoiada nela, no canto, uma grande TV de provavelmente 50 polegadas, espaço suficiente para eu arrumar todos meus eletrônicos, duas poltronas laterais, uma mesa para café e um papel.
— Eita! – falei, abismada.
— É do caralho, não é? – Marcelo falou ao meu lado e eu suspirei.
Entrei no quarto, deixando minha mala e mochilas no meio do caminho e fui até a janela, abrindo o blackout da mesma lateralmente, ficando de boca aberta. De um lado, eu tinha a vista para a praia privativa do hotel e do outro um canto do Yug—Sport Stadium, que estava sendo iluminado com as cores do Brasil. Eu não conseguia ver tudo do novo CT, pois tinham alguns prédios na frente, mas conseguia ver a trave sul do gol, parte do campo e parte da concentração que ficava na lateral.
Peguei o papel em cima da mesa de trabalho e sorri ao ver uma carta de Michelle para mim. Era sobre minhas ocupações na Rússia. Meu trabalho seria aliviado um pouco, pouco mesmo. Meu trabalho como social mídia tinha sido totalmente esquecido. Agora eu era assessora em período integral e tinha que cuidar da imagem dos jogadores e auxiliar Bianca com a imprensa.
Eu continuaria acompanhando os jogadores nos jogos e faria todo caminho jogadores—imprensa, juntamente de Bianca, mas, além disso, eu assistiria aos jogos, por isso a TV enorme, e repassaria as informações para a CBF, equipe técnica e jogadores. E, nos jogos do Brasil, eu continuaria acompanhando igual os amistosos, mas dessa vez eu teria que fazer um relatório sobre possíveis crises para repassar para a equipe de comunicação, ou seja, estresse dos jogadores, erros de arbitragem ou até possíveis derrotas.
Resumindo: qualquer coisa que pudesse dar merda!
E, por último, sobre a questão de auxílio aos jogadores, era que meu quarto seria realmente escritório e os jogadores poderiam me encontrar ali, caso precisassem de qualquer tipo de auxílio, ajuda ou até mesmo informações. As portas deveriam ficar, literalmente, abertas para eles das oito às oito. Ok, dava para o gasto, mas só teria que lembrar de manter meu quarto apresentável.
— Acho que agora entendi o que eles falaram sobre eu ficar disponível para vocês – falei para o pessoal que tinha se acumulado em minha porta e respirei fundo.
— Como assim? – Marcelo perguntou e eu entreguei a folha para eles, respirando fundo.
— Festa no seu quarto? – Firmino perguntou e eu ri.
— Só que não! – brinquei, suspirando. – Falando em festa, precisamos descer.
— Ah! – Eles fizeram caretas e eu saí na porta, me encostando na mesma, vendo todos os jogadores ali.
— Eu também estou com sono e com preguiça, gente, mas só uma horinha. Depois vocês podem dormir o dia inteiro.
— Se eu te ver amanhã... – Neymar começou, levantando uma das mãos.
— Você vai me dar bom dia, um abraço e um beijo no rosto. Olha que beleza! – Ele riu, abaixando a mão. – Mas não, amanhã essa porta ficará bem fechada. – Falei, saindo da mesma e puxando—a. – Vamos!Mal vejo a hora de colocar meu pijama, esquecer que vocês existem e...
— Blé! – Eles começaram a me zoar e bagunçaram meus cabelos.
— Ah, nem vem! – Ergui as mãos, entrando no elevador. – Eu vou ficar por sei lá quantos dias mais com vocês, mereço meu descanso. – Eles riram. – Só um toque, não cabem 24 pessoas no elevador. – Falei e eles começaram a se dividir.
A leva que entrou comigo apertou o botão do térreo e o elevador se fechou, me fazendo querer ficar apoiada na parede e dormir. Aquilo não era hora de eu estar acordada. Na teoria, era para eu estar comemorando que o Brasil venceu, mas também não estava permitindo álcool, então não fazia diferença.

A festa foi fraca. Um jantar, as músicas russas e todo mundo com cara de sono. Eu acabei fugindo de lá logo depois da sobremesa, quando peguei Vinícius seguindo de mansinho. Eles pararam no terceiro andar e eu segui para o quarto andar, entrei no quarto, me livrando do terninho e já colocando—o no cesto para a lavanderia, tomei meu banho e morri na cama.
Literalmente.
Eu dormi por 12 horas direto, sem interrupções. Levantei até meio assustada, com uma poça de baba no travesseiro, meu rosto marcado e o braço doendo por ter dormido em cima. Eu precisava resolver a questão dos voos dos familiares dos jogadores, mas não precisou.
Quando olhei na soleira da porta, alguns papéis estavam jogados no mesmo. Ou melhor, 23 papéis. Alguns diziam que queriam e já passaram nomes completos e documentos, outros só disseram que não queriam. Liguei o computador rapidamente para repassar essa lista e mandei para o pessoal do Brasil.
Cogitei sair para jantar, mas isso implicaria em ter que socializar um pouco e eu não estava no clima. Acabei pedindo um serviço de quarto, nem sabia se isso estava permitido ou não, mas o fiz mesmo assim e coloquei na minha lista de afazeres do dia seguinte que eu conferiria isso. Mas o cardápio que estava no quarto tinha uma impressão especial em cores do Brasil e estava com tradução em português, então, imaginei que tínhamos esse direito.
Jantei, tomei outro banho e deitei novamente. Dormir muito me deixava com preguiça, então foi só colocar um episódio bobo de série que eu dormi antes dos créditos iniciais.
No dia seguinte a situação começou para valer. Trabalhos e reuniões a todo o tempo, e não digo para auxiliar ninguém, eles estavam treinando, mas para organizarmos os protocolos, ocupações e afins.
A única coisa chata era o deslocamento do hotel até o CT. Eu ia e voltava em horários diferentes dos jogadores, andando mesmo. Claro que eu não seria tonta de ir de salto, fiz questão de aprender isso logo no primeiro dia, além de que meus pés ainda estavam doendo do dia anterior.
Entrei no complexo de treinamento com o nome que eu chamaria na coletiva na ponta da língua. Talvez um dos nomes que eu mais tinha gostado de chamar, sendo bem honesta. Observei—o treinando junto dos outros goleiros e me aproximei do mesmo por trás da linha do gol, dando um assovio fino, chamando a atenção de Taffarel e fiz um sinal de tempo, fazendo—o segurar a bola que Alisson devolveu para ele.
— Para! Para! – ele falou para Alisson e Ederson que treinavam defesas e eu atravessei a linha, entrando no campo e me aproximando de Taffarel.
— Eu preciso roubar um dos seus hoje. – Ele fez uma careta. — Reclama com aquele ali. – Apontei para Tite e ele riu, coçando a careca.
— Escolha sua arma. – Virei de costas para ele, estendendo o braço e apontando para Alisson.
— Hoje é seu dia, ô do sul! – Ele fez uma careta.
— Ah, fala sério! – ele falou entre risada e reclamação e eu cruzei os braços.
— Não sei nem porque vocês reclamam, eu só faço o trabalho sujo, gente – falei e ele riu, tirando o colete que usava e o entregou a Taffarel.
— Ok, vamos lá – ele falou e eu dei outro assovio, fazendo—o colocar a mão no ouvido.
— Ai! – Ele reclamou e vi metade do time me olhar, menos quem eu queria.
— Tite! – gritei para o técnico e ele me olhou. – Vamos! – Falei, chamando—o com a mão e ele falou rapidamente com Cléber e veio em minha direção.
Segui um pouco mais à frente dos dois, feliz pela coletiva ser no próprio centro de treinamento, eu acabaria deixando minhas pernas torneadas com esse sobe e desce. Entramos por uma sala lateral e eu fechei a porta quando ambos me seguiram. Apoiei a mochila em uma das cadeiras dispostas ali e tirei uma troca de roupa oficial para Alisson.
— Aqui! – Estiquei para ele que a segurou. – Pode se trocar ali na porta da direita. – Indiquei e ele foi.
— Temos alguma mudança hoje, ? – Tite me perguntou e eu entreguei o iPad com as informações para ele.
— Nada demais, tá muito frio ainda, eles estão trabalhando só com as informações de treino e mudanças no regulamento, eles não têm nada.
— Especulação, então? – Tite perguntou e eu ponderei com a cabeça.
— Tipo isso. – Ouvi um barulho de porta e vi Bianca entrar pela sala da coletiva.
— Tudo pronto? – ela perguntou.
— Alisson só está se trocando – falei e ela assentiu com a cabeça.
Participar de coletivas para a CBF na Rússia era uma merda! Eu cuidava da imagem dos jogadores, mas Bianca era responsável pelo contato com a imprensa. Então, eu tinha que ir atrás do jogador que faria parte da coletiva e o entregava para Bianca. Bianca fazia o contato com a imprensa, mas eu não poderia sair, pois precisava saber as respostas que os jogadores fariam para eu saber o que repercutiria na imprensa horas depois. Só Angelica se livrava dessa, em compensação, tinha reuniões cansativas com os peixes grandes e velhos da FIFA e da CBF. Dividíamos a caixa de analgésicos.
— Pronto! – Virei para trás, vendo Alisson sair do banheiro com o moletom padrão da CBF e a mesma camiseta polo que eu usava, cheia de patrocínios.
— Está ótimo! – Sorri para ele. – Eu estava falando para Tite que não precisa se preocupar, eles estão trabalhando sem informações, então serão aquelas perguntas bobas e que vão de nada a lugar nenhum.
— Tá tudo bem, eu acho. – Ele riu fraco e eu assenti com a cabeça.
— Bianca vai acompanhá—los. – Apontei para a outra assessora e eles seguiram para a outra sala e subiram no pequeno palco montado na mesma.
Eu os segui, mas fui para trás, encontrando Vinícius com sua câmera na mesma. Cumprimentei—o rapidamente e a coletiva começou. Primeiro Alisson responderia algumas perguntas, depois ele voltaria para o treino e Tite continuaria.
— Vamos lá? – Bianca falou e vi um dos jornalistas se levantar.
— É, Alisson, eu estou aqui na sua ponta direita. Quero te fazer uma pergunta sobre a novidade da Copa, que é o árbitro de vídeo que você experimentou no campeonato italiano. Qual sua opinião? Ele veio para ajudar? Ele veio para ficar? Veio para complicar? Você gosta do árbitro de vídeo? Vai ser uma boa para a Copa?
— Primeiramente, boa tarde a todos. Acredito que o VAR venha a somar, vem para ajudar na Copa do Mundo. Eu tive experiência do VAR na Itália e deu muito certo, uma margem de erro do árbitro de vídeo muito baixo, menos de um por cento, então acredito sim que venha ajudar, em alguns momentos, em alguns lances, em que coloca o árbitro em dificuldade, principalmente lances muito rápidos de impedimento, acredito que o VAR venha como uma ajuda muito boa sim. Lógico que às vezes tem aquela parada para o árbitro ver o vídeo, isso incomoda um pouco, mas aumentando ali a chance de acerto, né?! Fica um jogo mais justo, sem erros, então acredito que venha ajudar sim.
Abri um sorriso com a resposta do Alisson, me dando até um suspiro e querendo conhecer a assessora desse homem. Ele falava bem com a imprensa e tinha uma calmaria que não era comum para alguém que vivia nessa vida corrida de jogador de futebol.
Ele foi bem em todas as perguntas, o que fez até que eu suspirasse um pouco. Ele era ótimo mesmo. Eu achava que tudo estava indo bem, até com as perguntas da Globo que normalmente eram um pouco mais pressionadas, mas não foram eles que fizeram a pergunta de fora do cronograma, deixando a mim e Bianca perdidas.
— Alisson, bom dia, desejo muito sucesso para você, e duas perguntas para você. Há uma preocupação da mídia, não de toda mídia, parte dela, do problema da sua alergia no rosto... – Alisson riu no palco, mas eu me aproximei de Bianca na lateral da sala.
— O que ele está fazendo? – ela cochichou para mim.
— Eu não sei – falei.
— ...Se ela te preocupa, deixa você mais tenso quando você passa por isso? E a perguntinha já tradicional: friozinho na barriga chegando?
— A gente impede isso? – ela me perguntou e eu virei para Vinícius que nos olhava confuso.
— Já respondo direto... – Alisson falou antes de decidirmos.
— Nem vai precisar, eu acho – falei, olhando para ele.
— Não me incomodo não, isso faz parte, porque eu estou na puberdade. – Coloquei a mão com vontade de rir da resposta dele e eu e Bianca respiramos aliviadas.
— Ufa! – ela falou e eu senti meu coração até bater mais forte, mas relaxei quando o ouvi rir.
— Friozinho na barriga, com certeza, agora que está chegando o momento. Cada vez que vai se aproximando, vai batendo um pouquinho de ansiedade, mas aquela ansiedade na quantidade justa, para ajudar a ficar ligado, acionar a adrenalina e ficar bem concentrado para ter um excelente desempenho, né?! E conseguir ótimos resultados.
— Ele é ótimo! – Bianca falou aliviada e eu ri, vendo—a se aproximar do palco. – É isso gente, obrigado. Agora, Alisson, pode seguir para seu treinamento que falaremos com Tite. — Chamei Alisson com a mão e esperei que ele entrasse na sala para que eu entrasse logo atrás dele, encostando a porta.
— Me desculpa! – falei, apoiando os materiais em uma cadeira. – Se soubesse que eles fariam uma pergunta indelicada teríamos cortado o jornalista na pré—seleção.
— Se preocupa não, estou acostumado já das pessoas perguntarem disso. – Ele deu de ombros e eu assenti com a cabeça. – É acne, faz parte da vida. – Franzi a testa.
— Eu não sou nenhuma especialista, Alisson, mas isso não é acne nem aqui, nem na China. – Falei, me aproximando dele.
— Como não?
— Isso é rosácea. – Toquei sua testa que agora estava vermelha como suas bochechas. – Já notou que elas ficam piores quando você toma sol ou fica nervoso? Tipo agora. – Comentei e notei o que estava fazendo, abaixando as mãos. – Desculpe. – Falei, rindo nervosamente. – Com uma estranha passando a mão na minha cara, eu também não ficaria confortável. – Ele riu nervoso, mais vermelho do que antes.
— Como você sabe o que é? – Suspirei.
— Vamos dizer que eu sei mais de vocês do que vocês mesmos. – Dei de ombros. – Mas você se saiu muito bem, você fala bem. – Sorri e ele retribuiu. – Bom, acho que você pode se trocar de volta e retornar ao treino. – Ergui as duas mãos até as têmporas, massageando as mesmas. – Em breve abriremos os portões para os torcedores e isso vai ficar um caos. – Suspirei. – Deus, me ajude! – Falei e ele riu.
— Não vai ser tão ruim. – Ele seguiu para o banheiro.
— Você se lembra do treino da Granja?
— Oh! – ele falou, o local fechado mantinha sua voz abafada.
— Exatamente! – Respirei fundo. – Pelo menos aqui tem arquibancadas, fecharemos de todos os lados e não foram vendidos mais ingressos que o permitido. – Respirei fundo, movimentando as mãos, tentando relaxar.
— Vai dar tudo certo! – ele falou.
— Vai dar tudo certo! – repeti, soltando o ar devagar e abri os olhos, encontrando—o na minha frente novamente. – Ah, você saiu. – Ri fraco. – Vamos, eu vou te acompanhar. Depois preciso ir atrás do Vinícius. – Respirei fundo. – Preciso falar com o garoto russo que vai nos auxiliar nas filmagens também. – Parei um minuto. – Esquece! Nem sei por que estou dividindo isso contigo. – Abanei a mão, saindo da antessala, com ele ao meu lado.
— Tudo bem. Eu gosto de te ouvir falar. – Deu uma piscadela e seguiu andando em minha frente, me fazendo parar por alguns segundos. – Você não vem? – Ele parou um pouco mais a frente, olhando para mim e eu revirei os olhos. – O quê? – Ele perguntou.
— Nada – comentei, seguindo em sua direção. – Eu só achava que você era quietão, porque gostava dos seus olhos castanhos. – Repeti a piscadela para ele, dando uma risada e seguindo em sua frente para a área de treinamento novamente.
Droga! Esse jogo estava ficando perigoso demais! E eu começava a pensar em quem seria o primeiro a desistir ou a se machucar, e eu tinha uma leve impressão que seria eu.

— Tá tudo certo, não precisa surtar – falei para mim mesma, vendo as arquibancadas cheias e os torcedores acumulados nas grades.
— Parece que está tudo bem – Bianca comentou e eu ponderei com a cabeça.
— E espero que continue assim. – Conferi meu relógio rapidamente e suspirei. – Eu vou dar uma volta. – Apontei para trás de mim e ela confirmou com a cabeça.
— Beleza, eu vou para o outro lado! – ela falou e seguimos para lados contrários.
Passei por entre alguns torcedores brasileiros, mas principalmente por russos, e dei a volta atrás do gol, dando aquela observada básica em Alisson fazendo saltos de defesa e segui para o meio do campo, do lado contrário aos torcedores, encontrando Vinícius, Lucas e o russo Bóris que estava auxiliando Vinícius nas gravações, já que ele tinha que ser o mascote também.
— E aí, ? Tudo certo? – Lucas comentou e eu me apoiei na grade.
— Tudo certo. – Suspirei. – Pelo menos parece que está.
— Relaxa! Aqui a segurança é bem mais controlada, tá todo mundo registrado. – Vinícius falou e eu suspirei.
— Tudo bem, mas fiquei traumatizada depois daquele dia. – Rimos juntos e virei para Vinícius. — Vini, em meia hora vamos fazer uma aparição do Canarinho, dar algumas bolas de presente, aquilo que foi conversado na reunião...
— Beleza! – ele falou. – Só estou esperando Neymar e Marcelo voltarem para ver o que eles vão aprontar. – Olhei rapidamente em volta.
— Como assim? Cadê eles? – Pisei na grade, ficando um pouco mais alta e tentando olhar em volta. – Eu perdi o Neymar e o Marcelo?
— Ei, se acalma! – Lucas se levantou do seu lugar, me empurrando do outro lado da grade. – Relaxa! – Ele falou. – Eles foram pegar farinha lá no hotel...
— Farinha? –interrompi.
— É aniversário do Coutinho – ele falou. – Não me diga que se esqueceu, você que falou para gente no café...
— Eu sei! Eu sei! Mas a gente já cantou parabéns, teve bolo no almoço. O que mais eles querem? – Perguntei e Vinícius fez um movimento com a cabeça.
— Humilhação pública. – Ele sorriu e vi Neymar e Marcelo surgirem no meio do campo novamente.
Eles aproveitaram a distração de Coutinho que amarrava suas chuteiras e abriram o pacote de farinha em cima dele. Coloquei a mão na boca, vendo—o tentar fugir, mas os outros jogadores o encurralaram em uma rodinha, jogando ovos e seu uniforme ficou inteiro branco de farinha. Fiz uma careta, mas comecei a rir logo em seguida.
— Vamos lá, Vinícius, eu vou te levar para se trocar.
— Eu vou me trocar, você continua gravando. Lucas vai te ajudar, se precisar – Vinícius falou para Bóris em inglês e seguimos para o lado dos vestiários. – Hoje vai ser um dia gostoso, você vai ver.
— Parece que sim! – Dei de ombros. – Na programação do pessoal de relações públicas temos sua aparição como canarinho, depois os jogadores vão falar com eles e tchau, sumam daqui!
— Ah, , relaxa... – Rimos juntos.
— Só questão de precaução, Vini. Prometo. – Suspirei. – Mas acho que hoje não tem muito que preocupar. – Dei de ombros. – Quero só ver na hora deles falarem com os torcedores. – Fiz uma careta. – Aí meu coração não aguenta.
— Aguenta sim! – Rimos juntos e entrei no vestiário com ele, esperando que ele se arrumasse como Canarinho.
— Mas sério, para quem foi contratada como social mídia, acho que eu tive um upgrade incrível. – Ele gargalhou de dentro do vestiário.
— Você veio para Rússia! – ele falou alto. – Eu trabalho na CBF há três anos e, tirando amistosos, esse é o primeiro campeonato internacional. – Ele riu. – Quero saber com quem você dormiu lá para vir tão rápido.
— Rá! Rá! Rá! – falei irônica, revirando olhos. – Primeiro que isso foi ofensivo. Segundo que eu não dormi com ninguém não, só que os jogadores deram um ótimo feedback para a equipe técnica e acharam bom me manter, mas para entrar aqui eu só fiz aquele processo seletivo chato. – Ele saiu do vestiário, só sem a cabeça do boneco.
— Eu sei, me desculpe. Falei besteira. – Ele suspirou. – Mas eu bem estou vendo os olhares que você tá dando para o Alisson.
— Ah, nem vem. Ele é bonito para caramba. – Ergui as mãos. – Não custa nada olhar. – Ele riu e eu não acrescentei mais nada do que estava acontecendo.
— Não custa. – Ele riu. – Mas ele também está olhando para você. – Ele piscou para mim e eu suspirei.
— Eu sei! – falei, mordendo meu lábio inferior. – Quero saber até aonde vai essa brincadeirinha.
— Também quero! – Ele riu. – Mas sem pressa, temos um mês aqui ainda, além de que estamos a trabalho e o dele é só um dos mais importantes na equipe, não vamos deixar o moço distraído, ok?!
— É o que eu menos quero, por isso que eu só dou corda quando ele joga, fora isso, eu fico no meu canto. – Dei de ombros e ele me estendeu a cabeça do mascote e eu o ajudei a colocar.
— Mas só digo uma coisa, você e Alisson Becker? A visão é muito bonita.
— E você falando para não ter pressa. – Ele riu abafado por causa da cabeça.
— Desculpa, me empolguei. – Balancei a cabeça e seguimos para fora, vendo Murilo parado na porta.
— Ah, , você está aqui. Pensei que ele estava sozinho.
— Não, não. Vim aqui dar uma ajuda! – Falei rindo e acenei para ambos.
— Bom trabalho! – falei e vi as atenções passarem dos jogadores que aliviavam nos passes de bola, para dar licença para o Canarinho passar.

— Bom dia – cumprimentei para alguns dos jogadores que aguardavam o elevador.
— Bom dia – eles me responderam com a mesma voz de sono e eu entrei no mesmo, vendo Filipe Luís apertando o botão para o quinto andar.
Chegamos rapidamente na cobertura do hotel, onde tinha se tornado nosso restaurante, para manter afastado das outras partes do hotel e segui direto para a mesa, pegando um dos copos mais altos e enchi de café, seguindo para uma mesa qualquer e dando um longo gole na mesma.
Olhei novamente o cronograma daquele dia e respirei fundo. Hoje o dia seria cheio e chato, e eu sabia que eu teria dor de cabeça com 23 jogadores e um técnico. Além de Lucas e Vinícius, é claro.
— Gente! – Chamei a atenção deles rapidamente, me colocando na entrada do restaurante. – Sei que a maioria nem abriu os olhos ainda, mas vocês podem me dar uma atenção?
O pessoal que estava no buffet se virou para me olhar, o pessoal que estava de costas também se virou, e a equipe técnica se encontrava em pé. Olhei rapidamente para programação do dia e respirei fundo.
— Hoje vai ser um dia diferente do normal – falei, coçando a cabeça. – Já adiantando que vai ser chato, estressante e eu vou agradecer muito se vocês não me matarem ao fim do dia. – Falei e alguns riram. – É o seguinte, hoje temos quatro compromissos, então, tentaremos fazer tudo agora na parte da manhã para livrar vocês para o treino na parte da tarde. – Olhei o cronograma. – Primeiro de tudo, a FIFA está vindo e vocês vão gravar os protocolos dos inícios dos jogos. Aquele vídeo de dois segundos que é mostrado apresentando a escalação. – Falei. – Quando vocês cruzam os braços na frente ou para trás, erguem o dedo para o céu ou fazem positivos... – Falei e eles riram. – É, sabem do que eu estou falando! – Sorri. – Depois disso, vamos aproveitar que vocês já estarão uniformizados e faremos as fotos da CBF, elas são mais descontraídas, é algo mais de boa e bem menos engessado. – Falei. – Em seguida, vocês irão para uma palestra sobre o árbitro de vídeo, ministrada pelo Wilson Seneme, Membro do Comitê de Arbitragem da FIFA, para vocês aprenderam um pouco mais dessa nova ferramenta. Por último, o Lucas quer uma sessão de fotos especial com os ternos da CBF, beleza? Aí depois vocês estarão livres para treinar. – Falei, respirando fundo. – Terminem de tomar o café e vão direto para o vestiário lá do campo e se arrumem. Os uniformes já estão preparados. – Falei e voltei para minha mesa.
Eu tomei meu café na maior calma do mundo, acabei seguindo para o Yug—Sport Stadium com a última leva de jogadores. Pelo menos, dessa vez, eu consegui carona nos carrinhos de golfe e não precisei ir a pé.
Fui ao encontro dos membros da FIFA que fariam as gravações e tudo já estava preparado. Um pano verde cobria um canto da sala, a câmera do outro e os holofotes me cegaram um pouco.
— Olá, como está? – cumprimentei os dois técnicos, falando em inglês. — Como quer fazer isso?
— Você pode trazer dois ou três de cada vez, é bem rápido. – Assenti com a cabeça. – Depois vou te pedir para levá—los na outra sala, onde faremos umas sessões de fotos.
— Ok, podemos começar?
— Claro! – Eles falaram e eu saí da sala, andando mais um pouco pelo corredor e chegando ao vestiário, respirando fundo antes de entrar.
— Mulher entrando! – gritei, feliz por ver todos vestidos. – É o seguinte, galera, eu vou levar três de cada vez, vocês farão a gravação e depois já seguirão para a sala do lado para fazer algumas fotos, beleza? Depois vocês aguardam que vamos para a palestra.
— Beleza! – Alguns falaram enquanto se olhavam no espelho, amarravam chuteiras e afins.
— Quem já está pronto? – Olhei em volta rapidamente. – Alisson! – Gritei para o mesmo, assustando—o. – Neymar e Willian! – Fiz um movimento com a cabeça e saí da sala, esperando que eles me seguissem.
Entrei na sala novamente e me coloquei na lateral, enquanto o auxiliar da FIFA explicava como aquilo funcionaria. Seriam três gravações, com os três movimentos que eu zoei mais cedo, cruzando os braços na frente, depois para trás e erguendo o polegar para cima.
Neymar foi o primeiro, eles eram posicionados no centro, estendiam uma placa com seu nome e gravavam as três cenas rapidamente. Senti um leve empurrão em meu ombro e virei para o lado, vendo Alisson mexendo no celular e fingindo que não era com ele. Repeti o movimento em seu ombro e rimos juntos.
— Sua vez! – falei, atravessando a tela verde. – Você pode ir por aqui, Neymar! – Apontei para a próxima sala e saí rapidamente para olhar a sala e vi que Angelica estava lá, aliviando um pouco. Lá eles tirariam fotos no fundo verde e no fundo branco. Seria fácil.
Coloquei a cabeça rapidamente para dentro da sala novamente vendo Alisson fazer suas gravações e saí da sala, seguindo para o vestiário, mas parei logo na porta, vendo uma fila formada, me fazendo sorrir.
— É por isso que eu adoro vocês. – Sorri, abraçando Jesus, que era o primeiro da fila, pelos ombros. – Pode entrar. – Falei, vendo Alisson seguindo para a outra sala e toquei levemente em seus ombros, para que ele andasse um pouco mais rápido para eu mudar de sala.
— Um olho no peixe e outro no gato, é?! – ele comentou e eu ri.
— São 23 crianças, dois ambientes, é muita coisa para lidar – brinquei e ele riu.
— Tá tudo certo, ! – Angelica falou. – Eu cuido daqui. – Assenti com a cabeça, fazendo positivo com as mãos, mas ficando parada no batente da porta, entre as duas salas.

A palestra sobre o VAR, o árbitro de vídeo, foi bem chata. Na real, eu ainda não tinha criado maturidade para achar palestras interessantes, não importava o assunto. Então, me coloquei no fundo da sala, ao lado de alguns membros da comissão técnica e fiquei ouvindo a mesma, enquanto eu conferia alguns e—mails.
A palestra não se estendeu por mais que uma hora, o que eu fiquei feliz, estava começando a bocejar e logo ficaria feio para mim. O palestrante Wilson logo nos liberou e eu fiquei feliz só de sair da mesma com uma sacolinha de lembrancinhas da Louis Vuitton.
Eu juntei a galera novamente e eles ficaram bem putos por terem que voltar para o hotel. Eu já fiquei feliz, poderia aproveitar o carrinho na volta e ficar por lá. Enquanto os jogadores se arrumavam, eu segui para a cobertura, reparando no incrível set que Lucas tinha montado e escondido o restaurante. Era basicamente uma sala de jogos, como daquelas mansões que vemos na TV, ou desses jogadores. Tinha estantes, sofás de couro, quadros, jogos de xadrez, abajures, telescópio, coisas até comuns, mas que eu sabia que ficariam sensacionais aos olhos de Lucas.
As noivas subiram aos poucos e, a cada vez que aquele elevador se abria, eu tinha uma palpitação no coração. Ficava só imaginando no que aconteceria quando o elevador se abrisse e Alisson saísse do mesmo. Aqueles ternos azuis da Seleção eram incríveis, e eu sabia muito bem disso. Eu ficava muito bem nele e já estava careca de ver os jogadores usando, mas a arrumação, o cuidado... Ah! Uma garota não aguenta.
Lucas era somente um, mas Bóris o ajudava em algumas coisas e eu sempre estava por perto e não me importava em ajudar, mas o que me interessava era olhar o making of e analisar as imagens que apareciam magicamente no notebook dele a cada clique.
Me apoiei em Thiago Silva quando o elevador se abriu e Alisson apareceu no mesmo, passando as mãos nos cabelos. Engoli em seco e senti que meu coração explodiria em meu peito. Jesus, me ajuda!
— Tá tudo bem? – Thiago perguntou e eu balancei a cabeça, olhando para baixo e fingindo que arrumava meus saltos.
— Tá tudo certo. – Me levantei, soltando dele e encontrei Alisson há alguns passos de mim, arrumando a gola do paletó.
— O que acha? – ele me perguntou e eu fiz questão de respirar bem fundo, pensando no que responderia.
— Eu não posso falar o que eu acho, o horário não permite – falei, erguendo a mão até a boca e ele abriu um sorriso.
— Fiquei curioso agora. – Ele riu e eu dei de ombros.
— Quem sabe depois das 10? – brinquei e não dei chance de ele responder. – Opa! Acho que minha porta já está fechada há essa hora.
— Tudo bem, eu abro! – ele respondeu com um sorriso maroto no rosto e dessa vez ele me deixou quieta, me enervando quando isso acontecia.
Me ajeitei em um banco alto e ainda tive a audácia de esticar os pés para cima. Fiquei acompanhando a sessão de fotos olhando para a cena em que acontecia. Lucas tinha pedido para os jogadores se espalharem em vários cantos do local e seguiu andando por ela, passando por todos. Eu fiquei com o notebook dele, então toda foto que eu tinha a impressão que teria ficado sensacional, eu olhava no notebook que estava em meu colo para ter certeza.
Alisson estava sozinho em um sofá colocado em frente a uma estante de livros. Ele somente fez aquela cara fechava que eu já estava acostumada e colocou a mão no queixo. Quando as fotos começaram a pipocar na tela, eu tive que segurar com muita vontade a água que eu bebia, pois eu teria feito um belo estrago.
— O que acha, ? — Lucas perguntou, como estava fazendo em todas, e eu abaixei minha cabeça para trás do notebook e estendi o polegar para cima. – Ótimo! – Lucas falou. – Obrigado, Alisson. Vamos seguir por aqui. – Aproveitei a deixa para me enviar a foto dele para meu e—mail. Aquilo tinha ficado sensacional e eu guardaria de recordação.
Notei Alisson saindo de esguio e eu joguei a cabeça para trás um pouco, vendo—o se ajeitar junto dos jogadores. Ele abriu um sorriso quando percebeu que eu estava notando e eu tive vontade de erguer o dedo do meio, assim, de graça, mas tinha muitas testemunhas. Então, me contive em morder meu lábio inferior e voltei a prestar nas outras fotos que surgiam na tela, babando pelos outros 22 jogadores restantes.

Respirei fundo ao passar pelas portas do Yug—Sport Stadium e parei um momento para respirar. Caramba! Estávamos no terceiro dia aqui e eu já não aguentava mais ir e vir do local de treinamento. E a Copa nem tinha começado ainda.
Entrei, atravessando os corredores e seguindo para o campo, onde os jogadores estavam espalhados, com as bolas nos pés ou treinando com equipamentos espalhados pelo chão. Atravessei por trás dos gols, esperando que nada atingisse minha cabeça e olhei para a folha, vendo que o escolhido de Tite para fazer parte da coletiva com Rodrigo era Paulinho.
— Mas anda mais que dinheiro, hein?! – Cássio comentou e eu ri.
— Isso que a Copa nem começou – respondi, fazendo os goleiros se distraíssem um pouco. – Mas aposto que estou malhando as pernas mais que vocês. – Eles riram e segui em frente, parando para fora da linha do campo, esperando que Tite olhasse para mim para eu pedir um tempo.
Senti meu celular vibrar em meu bolso e puxei o mesmo, franzindo ao ver uma mensagem de Michelle. A primeira coisa que eu pensei foi: o que eu fiz? Respirei fundo e abri a mensagem dela.
“Salário está na conta”. Falava a primeira mensagem.
“Demoramos um pouco para depositar, pois estávamos recuperando sua conta com o RH. Quando voltar da Rússia mudaremos sua data de depósito para o quinto dia útil e acrescentaremos os bônus e diárias da viagem. Bom trabalho”. Franzi a testa com a mensagem e segui rapidamente para o aplicativo do banco.
Eu provavelmente cairia para trás, se não fosse a grade que circundava o campo, quando eu olhei aqueles cinco dígitos na minha conta. Coloquei a mão na boca, respirando fundo e rindo sozinha. Meu Deus! Era verdade! Na verdade, era muito mais que verdade.
Claro que tinha os descontos da carteira de trabalho e aqueles impostos do governo, mas havia sido depositado, junto do meu salário, o vale alimentação e o vale transporte, totalizando muito mais que o esperado.
— Porra! – falei sozinha, rindo comigo mesma.
— Cuidado! – Ouvi um barulho, mas não deu tempo de eu olhar o que estava acontecendo quando senti uma bolada bater em cheio em minha cabeça.
Meu corpo foi levado para trás um pouco e apoiei minhas mãos na grade atrás de mim, sentindo um zunido alto em meu ouvido. Meu Deus! Fazia muito tempo que eu não levava uma dessas e, cara! Eu não senti falta nenhuma!
— Meu Deus, ! – Eles começaram a se aproximar, Taffarel foi o primeiro.
— Está tudo bem? – Ergui a mão, abanando a mesma como se não tivesse acontecido nada.
— Eu estou bem! – falei, guardando o celular no bolso de novo e procurei a bola. – Tá tudo bem! – Peguei a bola e a coloquei na linha e me afastei o pouco que a grade permitia.
— Lá vai! – eles falaram animados e eu ri.
— Segura aí! – Corri em direção à bola e chutei—a fortemente, vendo—a fazer uma curva alta e Willian cabecear do outro lado do campo.
— Uau! – Vi Alisson ao meu lado e sorri. – Muito bom! – Ri fraco.
— Foi que nem andar de bicicleta. – Sorri e olhei para o treino que tinha voltado novamente. – Paulinho! – Gritei, vendo todo mundo se distrair de novo. – Preciso de você para coletiva! – Ele apontou para si. – É! Você mesmo! – Ele correu em minha direção.
— Sou o escolhido do dia? – perguntou.
— Sinto muito! – falei e ele riu.
— Está tudo certo, pelo menos eu estou bem acompanhado! – Ele me abraçou pelos ombros e eu ri.
— Quero ver se vocês vão agir assim quando suas esposas e família aparecerem aqui. – Ele riu.
— Pior que elas sabem – ele comentou. – A minha sabe, pelo menos.
— E o que ela acha? – Virei para ele, atravessando o campo.
— Ela acha bom ter alguém para puxar nossas orelhas. – Ri fraco.
— Esse é o Tite! – comentei. – Eu só xingo. – Falei rindo.
— Tá valendo! – ele brincou e rimos.
— Vamos lá, Paulinho. Hoje a coletiva é com o Rodrigo.
— Beleza! – ele falou e seguimos para dentro do centro de esportes.

Depois da coletiva de Paulinho na parte da tarde, eu segui saí com Vinícius e Bóris para andar por Sochi e fazer imagens do Canarinho. Bóris era meio quietão, mas ele acabava se soltando depois de um tempo.
O pessoal da comunicação não nos levou para pontos turísticos em Sochi, por assim dizer, eles nos levaram para os pontos turísticos da Copa. Como se fosse o “centro olímpico”, mas da Copa. Passamos por um longo caminho, onde tinha o arco de boas—vindas, vendo e interagindo com várias pessoas que andavam por ali, mas eu adorava sua interação com as crianças.
Elas eram tão fofas, tão ingênuas, que dava vontade de apertar. E Vinícius era interesseiro, ele cumprimentava todas as meninas, dando beijo na mão, bem, bico na mão, e depois recebia um beijo em troca. Claro, tudo do mascote.
Depois chegamos na frente do letreiro “Rússia 2018”, fazendo algumas passagens em frente do mesmo, e eu aproveitei para tirar fotos, é claro. Estava enchendo meu celular, mas eu estava em um local novo, então era como se fossem férias para mim.
Nas imediações do estádio, Vinícius conseguiu roubar um patinete de uma criança. Sim, você leu certo. Deu algumas voltas com o mesmo, mas logo entregou para os dois irmãos. O bom de Vinícius é que ele tinha aquele jogo de cintura, o que o tornava bem quisto em todo lugar que aparecesse, mas quando entregamos uma bola para ele, as coisas ficaram mais preocupantes, mas ao ver alguns passes, notei que Vinícius era o melhor jogador que eu já tinha visto, fazendo embaixadinha usando uma roupa com aquele peso? Ah, só ele mesmo!
Eu me afastei dos dois e fui tirar algumas fotos, principalmente no centro das bandeiras. Sentindo aquela emoção bater em meu peito e tomar conta de mim. Amanhã começava a Copa do Mundo e eu estava aqui. Não só como mera espectadora, mas eu estava trabalhando na Copa do Mundo. Eu tinha chegado ao ponto máximo da minha carreira e da minha vida e só tinha me dado conta ali em Sochi, com o estádio ao fundo e o sol brilhando sob o mesmo.
— Acho que podemos ir – Bóris me chamou e eu me distraí.
— Já? – perguntei em inglês também e ele apontou para Vinícius.
— “Já”? – Ele seguiu na língua de Bóris. — Não é você que está suando dentro de uma fantasia de pássaro. – Tentei segurar a risada, mas balancei a cabeça. – E está ficando tarde. – Apesar de o sol estar à pino ainda, meu relógio marcava quase oito horas da noite.
— Vamos lá! – falei.
Nos colocamos na van da CBF e voltamos para o hotel. A essa hora os jogadores já tinham acabado seus treinos e, provavelmente, já tinham até jantado. Meu estômago estava roncando e eu estava tentada a experimentar o strogonoff russo que tinha no hotel, apesar de que, depois que eu experimentei o borscht, uma sopa de beterraba e tomate, eu estava mais animada a experimentar as outras coisas. Afinal, estava em um país totalmente diferente do meu, com uma cultura bem diversificada, não podia ignorá—la.
Entramos no hotel e eu ajudei Vinícius a se livrar da roupa e ele disse que tomaria um banho antes. Eu deixaria o banho para depois da janta, aproveitaria, já colocaria pijama e dormiria até amanhã. Assim que as portas do elevador se abriram, eu comecei a ouvir uma música de fundo, um suave toque de violão e entrei no restaurante, seguindo em direção ao barulho.
Alguns dos jogadores estavam espalhados pelos sofás da sessão de fotos do dia anterior, alguns conversando e outros ouvindo a música, mas todos de forma organizada. Alisson estava em uma das poltronas com seu violão, cantando uma música que eu conhecia. Apoiei minhas mãos na poltrona de Taison e abri um pequeno sorriso, acompanhando a música.
— ...Além de apresentar o caminho que você percorre com a sua boca. Mas ó: é só uma ideia boba, é só uma ideinha boba... – Abri um sorriso, começando a cantar baixinho com ele.
— Tudo bem. Se é pra você me usar o que é que tem? Só de tá com você fico bem, posso não ser o amor da sua vida. Tudo bem. Se é pra você me usar o que é que tem? Tanto faz se você não me ama. Posso não ser o amor da sua vida, mas eu sou o amor da sua cama... Mas eu sou o amor da sua cama... – Ele ergueu os olhos para mim, ao notar que alguém o acompanhava e eu dei um sorriso, abaixando o rosto.
— Tenho vontade de ir mais fundo, mas não tenho certeza se ainda posso. Certeza eu tenho que posso ir além do que virar seus olhos. – Ele voltou a cantar olhando para mim, e eu queria desviar o olhar, mas não conseguia. — Além de transpirar seus poros, além de arrancar sua roupa, além de apresentar o caminho que você percorre com a sua boca. Mas ó: é só uma ideia boba, é só uma ideinha boba. – Senti meu corpo arrepiar e passei as mãos em meus braços, cruzando os mesmos. — Tudo bem. Se é pra você me usar o que é que tem? Só de tá com você fico bem, posso não ser o amor da sua vida. Tudo bem. Se é pra você me usar o que é que tem? Tanto faz se você não me ama. Posso não ser o amor da sua vida, mas eu sou o amor da sua cama... Mas eu sou o amor da sua cama... Tudo bem... Tudo bem! – Soltei um suspiro quando ele parou e cantar, mas seu olhar continuou sobre o meu.
Foi aí que eu percebi que um silêncio tinha se instalado no local e os olhares começaram a ser percebidos. Engoli em seco e ajustei minha postura, forçando uma tosse. Cocei a nuca e tentei sair daquela situação.
— Ok, Alisson. Vamos conversar. – Fingi ponderar por um momento. – Você é bonito, alto, jovem, goleiro da Seleção Brasileira, toca violão e ainda canta... – O pessoal em volta deu risada. – O que mais você quer da vida? – Esperei que ele não respondesse, mas por precaução eu emendei outra coisa. – Acho que você poderia dividir alguns talentos com o pessoal que tem menos atributos. – Falei, deixando a questão no ar e segui para o buffet, tentando me esconder o mais longe possível deles.
Com o estômago embrulhado, eu acabei pegando um pouco de macarrão alho e óleo mesmo, me manteria no que eu conhecia. Me sentei de costas de onde os meninos estavam e em um dos cantos, tentando passar despercebida, mas não adiantou nada. Enquanto eu comia com a cabeça baixa, uma pessoa se sentou na cadeira à minha frente. E eu não precisei olhar para saber quem era, então continuei fingindo que não era comigo.
— Você gosta de sertanejo, não é? – ele perguntou e eu ergui os olhos para encará—lo.
— Eu nasci no meio da roça, mesmo se a gente não gostar, a vida faz questão de nos fazer gostar. – Dei de ombros. – Além da faculdade, é claro!
— Legal! – Ele sorriu.
— Me deixa perguntar... – Engoli em seco. – Tem algo que você faz mal?
— Vamos descobrir! – Ele deu de ombros e eu sorri. – Boa noite. – Ele falou.
— Boa noite – respondi, vendo—o se levantar e soltei um suspiro, relaxando meus ombros, mas analisando sua resposta de diversas formas possíveis.

Eu acordei pilhada no dia seguinte. Era o começo da Copa do Mundo e eu não podia estar mais empolgada! Copa do Mundo sempre me empolgou bastante, desde que eu me entendia por gente, mas acho que essa era a primeira vez que eu acompanharia tudo, e o melhor, de perto! Ao lado da Seleção do meu país.
Eu só queria gritar! Mas achei melhor não ter alguns jogadores aparecendo na minha porta para saber se estava tudo bem. A cerimônia de abertura seria só as cinco e meia da tarde e eu tinha vários trabalhos para fazer antes disso, incluindo outra coletiva de imprensa, a qual eu levaria Gabriel Jesus para falar.
Tomei um belo banho antes de descer para tomar café e fiz questão de colocar meus saltos amarelos, junto da blusa cheia de patrocínios da CBF. Hoje era um dos dias mais felizes da minha vida e ainda teria jogo, mesmo sendo Rússia e Arábia Saudita, com Copa a gente se empolgava por qualquer coisa.
Depois que eu me vi pronta, dei aquela rápida olhada nas minhas redes sociais e encontrei um longo e—mail de Michelle. Ela me desejava boa sorte e me aconselhava não deixar minhas emoções falarem mais alto. Era a Copa do Mundo! Eu sabia que esse conselho era muito sábio e necessário, mas tinha a leve impressão que não seria fácil. Às vezes eu ainda ficava abismada pelo fato de eu realmente participar de tudo isso.
Subi para o café da manhã sozinha. Acabei demorando ao responder o e—mail de Michelle. Cheguei ao restaurante chamando a atenção de algumas pessoas pelo barulho do salto pelo local.
— É para dar sorte? – Fred perguntou e eu ponderei com a cabeça.
— Talvez. – Sorri, me aproximando dele e apoiando a mão em seu ombro.
— Estou sabendo que Rodrigo te liberou.
— Sim! – Ele assentiu com a cabeça. – Bem a tempo. – Rimos juntos e eu me afastei do mesmo, me colocando no centro do restaurante.
— Bom dia, galera! É o hoje o dia, hein?! – Falei, vendo vários rostos desesperados e suspirei, todos deveriam estar nervosos. – Eu vim trazer a programação para os próximos dias. – Respirei fundo, olhando novamente no celular. – Hoje vocês vão treinar normalmente, eu vou aparecer por lá para pegar Gabriel Jesus e Tite para a última a última coletiva antes da viagem para Rostov. Amanhã vocês farão um treino fechado e vamos à noite para Rostov, onde será o jogo. Não se preocupem que o voo é só de 1h15, chegaremos rapidinho. – Alguns acenaram com a cabeça, mas a maioria me ignorou. – Amanhã vocês terão a parte da manhã livre, depois uma reunião com a equipe técnica sobre o jogo e no fim do dia um treino de uma hora no nosso palco de estreia! – Falei, respirando fundo. – E no domingo, começa nossa participação. Senti o peso daquelas palavras logo que eu falei, pois o ambiente pesou, me fazendo soltar a respiração algumas vezes. – Eu sei que vocês estão nervosos, ansiosos, com medo... A maioria das pessoas aqui nunca participou de um evento desses, eu me incluo nessa, mas eu me direciono aos jogadores e a equipe técnica, pois são vocês que vão dar a cara à tapa. – Suspirei. – Saibam que nós confiamos em vocês. Nós acreditamos em vocês e estaremos com vocês não importa o resultado. – Abri um sorriso. – Vamos chegar lá e mostrar o que a gente sabe fazer de melhor: jogar futebol. Eu estou acompanhando vocês desde as eliminatórias, pessoalmente, desde o dia 21 de maio. Faz quase um mês e eu posso falar com certeza que vocês estão prontos. – Sorri. – Então, ergam essas cabeças, alarguem esses sorrisos, porque aqui é Brasil, e a gente não vem para brincar. Com a gente, a luta é séria! – Falei e Tite foi o primeiro a aplaudir, me fazendo sorrir e o resto do pessoal do restaurante o seguiu, me deixando feliz.
— Meu Deus! Chegou a hora. – Ouvi Jesus falando e começamos a rir.
— Quando Jesus pede ajuda para Deus, vemos que a coisa ficou séria – Firmino comentou e rimos.
— É gente, a coisa ficou séria! – Tite falou e eu engoli em seco, suspirando.
Caramba!

Capítulo 5 – É... Começou Fraco: Brasil x Suíça

O que se seguiu daquele dia foi meu céu e o começo do meu inferno. Eu sabia que a Copa do Mundo me daria dores de cabeça, principalmente me colocando para cuidar das imagens dos jogadores, mas não pensava que um dos motivos seria a família deles.
Fui informada logo depois do café que as famílias dos jogadores estavam chegando ao Pullman Hotel e Murilo, das relações públicas, acompanharia. Eu não saberia quantas pessoas chegariam e quem exatamente chegaria, supus que a maioria das esposas, namoradas e filhos, talvez alguns pais, mas não cheguei a ver a lista completa, só fiz o caminho entre Murilo e os jogadores.
Na parte da manhã eu fiquei acompanhando as notícias e especulações sobre o jogo de estreia da Copa do Mundo, além de separar aquela básica tabelinha da Copa para anotar todos os resultados e ir passando para a equipe técnica, mesmo sabendo que para esses primeiros três jogos, os estudos já estavam todos prontos e repassados um milhão de vezes, até eu já sabia as táticas deles.
Faltava cerca de uma hora para a coletiva quando eu resolvi minhas pendências com a CBF. Aproveitei o tempo livre e peguei meu caminho para o centro de treinamento, na maior calma possível, mas nem toda calma evitou o meu susto quando eu cheguei lá.
Parecia que outro treino aberto estava acontecendo, mas não, eram só os familiares dos jogadores que vieram para cá, assim que entraram no complexo. Os jogadores estavam dispersos, falando com seus familiares e eu estava pronta para fazer um escarcéu, mas Tite estava lá e eu sabia que ele mandava dentro do campo, meu problema era fora.
Aproveitei que o treino estava parado e atravessei pelo meio do gramado para falar com Tite do outro lado. Ele estava reunido com Edu e Cléber, falando bem baixo. Assim que notaram minha presença, eles pararam de falar.
— Oi, – Tite comentou e eu olhei para os jogadores.
— Está tudo certo? – Franzi a testa.
— Eles apareceram aqui e demos alguns minutos para eles cumprimentarem...
— Mas não tínhamos estipulado tempo? – Ele somente assentiu com a cabeça.
— Exatamente, mas como não tinha nenhum controle de entrada e eles estão com crachás, foi tudo liberado.
— Vamos precisar reorganizar isso, não dá para ficar assim. – Ele assentiu com a cabeça novamente.
— Eu vou repassar a informação para os dirigentes. Qualquer novidade, certeza que vai chegar em você. – Assenti com a cabeça, respirando fundo.
— Beleza! Eu preciso de você e do Gabriel na coletiva daqui alguns minutos.
— Beleza! – ele falou. – Em quanto tempo?
— 20 minutos – falei. – Volto para chamar vocês ou...? – Ele olhou o relógio.
— Não precisa, a gente vai lá. – Confirmei com a cabeça.
— Bem, espero que vocês tenham um bom treino, o jogo é depois de amanhã. – Ele bufou alto, colocando a mão no rosto. – Você está nervoso, Tite, quer que eu dê um jeito nisso? Ninguém me conhece, então eu posso ser chata. – Ele riu.
— Você não se importa? – Abri um sorriso sarcástico.
— Até parece! – falei rindo e me afastei do mesmo, seguindo para o aglomerado dentro e fora da cerca.
— Quero só ver. – Ouvi Edu comentar e eu ri, negando com a cabeça.
— Galera! – falei alto o suficiente para poucos virarem em minha direção, respirei fundo e tentei novamente. – Oh! – Gritei, vendo o silêncio que se formou. – Eu não sei o que está acontecendo aqui, mas vocês têm treino agora. E que eu saiba, seus familiares não deveriam estar aqui até às quatro da tarde. – Fui firme. – Se não quiserem que o privilégio seja totalmente cortado, espero que todos cumpram seus papéis. – Alguns familiares começaram a reclamar e eu só sustentei o olhar.
— Mas, ... – Gabriel foi o primeiro a reclamar.
— Não, Gabriel. Não vamos esquecer que isso foi um acordo entre CBF e Tite, porque em outras eras, os familiares não apareciam nem nos jogos. Que tal? – Ele se calou. — E você tem coletiva em 18 minutos – disse firme. – Te espero lá. – Respirei fundo e olhei para a equipe de técnicos que escondiam a boca com a mão, mas eu sabia que todos riam.
Segui para fora do campo e notei Alisson e Cássio treinando com Taffarel como se nada tivesse acontecido. Preferi não perguntar, mas supus que suas famílias não tinham chegado ainda, não viriam ou encontrariam direto no jogo.
Passei para fora das grades, seguindo por trás dos familiares e vi que a situação voltava a se normalizar dentro do campo. Os familiares se afastavam e seguiam para as arquibancadas, eles deveriam sair, mas eu preferi não causar mais, depois conversaria com mais calma com eles. Ou não, na teoria, se não afetasse a imagem deles, não era minha responsabilidade. Apesar de que não tinha outra pessoa para falar isso.
Ouvi alguns passos apressados de dentro do centro de treinamento, saltos como o meu e vi Bianca sair da mesma, soltando a respiração aliviada quando me viu. Pronto! Alguma merda já aconteceu!
— Ah, graças a Deus você já chegou! – Ela me segurou pelo braço, me puxando para a lateral.
— O que aconteceu? Você está pálida.
— Você pode lidar com os jornais italianos de novo? – ela me perguntou. – Eu estou sendo aloprada, mas tem a coletiva agora e não tem como eu lidar com tudo isso ao mesmo tempo.
— Calma! – Segurei em seus ombros. – Me passa seu celular e as informações que você tiver. Cuide da coletiva, depois falamos.
— Mas não tem só jornal italiano falando...
— Eu falo português, inglês, espanhol, francês e italiano, certeza que eu consigo me virar com qualquer pessoa.
— Mesmo? – Ela sorriu.
— Mesmo, Bianca! Relaxa. Vai beber alguma coisa também, você está branca igual um papel. – Ela suspirou, relaxando os ombros. – Vai!
— Obrigada! – Ela sorriu e eu peguei o celular de sua mão e trocamos os iPads, vendo que ele já brilhava novamente.
— Atenda em inglês, eu estou pedindo para todo mundo se identificar, aí você descobre de onde fala. Ah, um detalhe, não estamos mais credenciando para o jogo, agora só quando voltar para Sochi.
— Perfeito! – Sorri. – Agora vai! – Ela riu e saiu correndo de volta para a sala. – Vamos ver o que vai rolar. – Deslizei o botão, atendendo em inglês.
— Olá, com quem estou falando? – falei, seguindo para fora do centro de treinamento, pensando se voltaria para o hotel, mas decidi seguir pela praia, eu só a via da minha janela e não tive nem a oportunidade de colocar os pezinhos na água, e eu tinha a impressão que a Rússia era fria, mas estava se assemelhando ao Brasil.
— Aqui é Enzo, do jornal... – ele respondeu em italiano. Só pode estar de brincadeira comigo.
— Ah Enzo, é você de novo! Aqui é – falei na sua língua, já me identificando para facilitar a situação.
— Ah, senhorita! Há quando tempo não conversamos? – Revirei os olhos, me sentando em uma das espreguiçadeiras do hotel que ficava num deque acima da areia.
— Sim, sim. Como posso te ajudar? – Cortei o papo rapidamente, encostando—me à almofada e ergui os pés, começando uma longa conversa com Enzo.
Eu fiquei algumas boas horas falando com os jornalistas, pois Bianca apareceu um tempo depois, provavelmente no fim da coletiva e havíamos combinado de não passar de uma hora de perguntas, tanto que reservávamos o tempo baseado nisso. Falei para ela deixar comigo e seguir para o que ela tinha para fazer. Algum tempo depois, eu ouvi um alto assovio, vindo de alguns jogadores que iam almoçar. Aparentemente ninguém estava bravo comigo... Aparentemente.
Eles seguiram para o hotel, e eu continuei na praia, esperando que as ligações cessassem, pelo menos para eu ir comer.

O dia acabou se seguindo assim. Quando eu consegui cessar um pouco as ligações, eu fui para o hotel, mas acabei ficando por lá mesmo. Eu e Bianca subimos para meu quarto, limpando a lista de imprensa que não parava de ligar e, claro, assistir ao jogo de abertura da Copa do Mundo.
Ficar no quarto era uma intenção de estar disponível para falar sobre o elefante branco na sala: o rolo do treino de mais cedo. Esperava que algum jogador aparecesse para lidar com isso, mas ninguém apareceu. O treino terminou, eles voltaram para seus quartos, mas tirando acenos rápidos, ninguém parou para conversar.
Bem, ninguém que eu esperasse.
— Acho que eu vou tomar meu banho também – Bianca falou e eu assenti com a cabeça.
— Vai lá! Eu vou esperar o jogo acabar e logo já vou também.
Ela acenou e saiu do quarto. Voltei a apoiar meus cotovelos na escrivaninha e segui olhando para a tela do jogo. Rússia já tinha metido três gols na Arábia Saudita no primeiro tempo e eles queriam mais.
— Substituição, sai Bianca, entra Angelica. – Ri fraco, olhando para Angelica parada na porta e chamei—a para dentro. – Não posso. – Ela falou
— O que aconteceu? Você não me está com uma cara boa. – Ela riu.
— Pessoal da CBF quer falar com a gente. – Franzi a testa.
— Com a gente? – Apontei para nós duas.
— Sim! Agora. – Respirei fundo.
— Lá vem bronca! – Me levantei, seguindo—a para fora do quarto e puxando a porta.
Virei o corredor com ela e quase esbarrei em Coutinho que saía do quarto. Apoiei as mãos em seus ombros e me afastei de costas, pedindo desculpas com o olhar. Ele sorriu, mas eu bati as costas em outra pessoa.
— Opa! – Ouvi a voz de Alisson e ri com a minha sorte.
— Campo minado! – falei ao virar de frente e ele riu. – Desculpe.
— Tudo bem! – Ele sorriu e eu entrei no elevador com Angelica.
— Você e Alisson, hum? – ela comentou quando as portas se fecharam e eu olhei para ela.
— O quê?
— Ah, , todo mundo já notou o climão que fica quando vocês estão perto, só que ninguém fala nada. – Ri fraco. – Mas e aí, já rolou algo?
— Como assim “rolou algo”, Angelica? Estamos aqui a trabalho. Não vai rolar nada. Além de que é só provocação, não sei se rolaria algo. – Ela deu de ombros.
— Ah, não sei, , mas se fosse comigo, eu não perderia uma oportunidade dessas. – Ela piscou para mim. – Além de que é um partidão.
— Claro! Um partidão que mora em Roma. – Ela riu, dando de ombros.
— Pelo menos para brincar um pouco. – Ri fraco, balançando a cabeça.
— Ah, você é um perigo, Angelica. – Ela riu. – Mas não sei. Eu vim aqui a trabalho e ele vai representar o Brasil na Copa do Mundo, além de que temos muitas testemunhas.
— Não é por nada não, mas tirando a equipe técnica e os dirigentes, todo mundo sabe que tá rolando alguma coisa. – Suspirei. – Principalmente depois daquele dia dele tocando violão. O clima pesou legal! – Ela falou me apontando uma direção.
— Você estava lá? – falei um pouco mais alto e ela sorriu.
— E todo mundo que estava lá notou, queridinha. – Suspirei.
— Não sei, Angelica. Sério. Vamos focar numa coisa de cada vez. – Dei de ombros. – Se for para rolar, ótimo. Se não, pelo menos a brincadeira está sendo divertida. – Ela sorriu. – Mas agora falando dessa reunião, o que aconteceu?
— Não sei. – Ela foi honesta. – Só pediram para chamar você. – Respirei fundo e ela bateu duas vezes em uma das portas e logo passamos pela mesma.
Era uma sala de reuniões com uma mesa oval e vários lugares ocupados por todos os membros da comissão técnica e alguns engravatados da CBF, engoli em seco.
— Olá, pediram para me chamar? – Falei, me aproximando da mesma.
— Por favor, . – Tite falou, me chamando com a mão e eu olhei para Angelica, mas ela só assentiu com a cabeça. Dei a volta na mesa e me sentei no lugar vago ao seu lado, em frente aos dirigentes.
— O que está acontecendo? – Perguntei e todos se entreolharam.
— O que você fez mais cedo... – Tite falou e eu franzi a testa.
— Oh meu Deus, me desculpem se eu não deveria ter feito aquilo, mas eu achei...
— Não, não, senhorita. – Um dos dirigentes falou. – Você fez certo e te agradecemos muito, adoraríamos se você continuar fazendo esse controle. – Assenti com a cabeça.
— Ah, claro, mas... – Balancei a cabeça. – O que está acontecendo?
— Nós liberamos a presença dos familiares nos treinos, fretamos o avião, fechamos um hotel perto, mas eu sinto cheiro de problemas – um dos dirigentes falou.
— Diga – falei.
— Temos a confirmação de 120 pessoas entre as que chegaram e as que ainda vão chegar após o jogo em Rostov – Tite falou e eu virei para ele. – Como vamos controlar tudo isso de gente? Nós já liberamos...
— Eu acho simples, para falar a verdade. – Respirei fundo. – Foi um acordo feito entre vocês e os jogadores, certo? Lá em Teresópolis? Que seria permitida a presença de familiares nos treinos, mas nos horários reservados, que os familiares poderiam ficar no hotel até um horário permitido e que os jogadores só poderiam sair daqui nas folgas que seria dada por você? – Virei para Tite.
— Certo!
— Então – falei, dando de ombros. – De onde eu venho, promessa é dívida. – Virei para os dirigentes. – E outra, se começar a dar problema, corta! Eles não vieram aqui para turistar, nós não viemos aqui para turistar. Viemos para trabalhar, certo? – Encostei as costas na cadeira.
— Como vamos controlar isso? – Edu perguntou.
— Bem, eu já fiquei marcada como a chata mais cedo, então, se quiserem que eu fique de plantão nos treinos, para controlar isso, eu posso ficar. – Dei de ombros. – Meu trabalho principal é com eles mesmo. – Eles suspiraram, passando a mão nos rostos.
— Hoje o dia já acabou, vamos para Rostov em algumas horas e amanhã não teremos a presença dos familiares no hotel, nem no treino – Angelica falou, se apoiando do outro lado da mesa. – Porque não esperamos a volta e analisamos novamente? – Assentimos com a cabeça.
— Eu tenho uma reunião mesmo marcada com a equipe depois de cada jogo para falar sobre possíveis pautas que eles deram para a imprensa. – Tite e a equipe técnica confirmaram com a cabeça. – Qualquer coisa eu já falo sobre isso.
— Bom! – Cléber falou. – Você pode adicionar na sua lista que os amigos do Gabriel Jesus denunciaram toda nossa escalação para domingo. – Ele disse e eu arregalei os olhos.
— Como assim? – Perguntei e ele assentiu com a cabeça. — Eu vou bater tanto naquela criança... – Falei involuntariamente e eles riram. – Enfim... – Respirei fundo. – Todos concordam, então, que eu fale com eles sobre isso após o jogo? Acho justo dar responsabilidade para eles, afinal, não estamos aqui para ser babá dos familiares, só deles. – Balancei a cabeça, revisando os olhos. – Nem deles, na verdade, mas vocês têm que concordar comigo que...
— É, você tem razão. – Tite comentou e eu ri. – A gente meio que sente pais deles, principalmente por ter um elenco tão jovem, acabamos fazendo o papel de pai. – Sorri.
— Me contem depois qual papel eu estou fazendo, o da irmã mais nova e mais responsável? – Eles riram.
— Tipo isso. – Sorri.
— Acho que seria interessante já liberar a escalação, para não ficar na especulação – Angelica falou e a equipe técnica se entreolhou.
— Pode ser! – eles falaram. – Vai ser a mesma do amistoso contra a Áustria. – Confirmamos com a cabeça.
— Bom, já está quase na hora da viagem, analisamos essa situação novamente na volta. – O dirigente falou e assentimos com a cabeça, nos levantando. – Boa viagem e bom jogo! – Respirei fundo e engoli em seco.

Chegamos a Rostov on Don por volta de nove horas da noite, o voo foi bem curto, então nem me dei ao trabalho de abrir notebooks e afins, aproveitei aquele tempinho livre e dormi durante aquela uma hora e pouco de voo.
A chegada ao hotel Ramada em Rostov foi mais calma, não tinha festa, música e, os poucos torcedores, eram mantidos do outro lado da rua, por obrigação da polícia russa. Eu agradeci por isso, minha cabeça estava um pouco pesada por causa do sono e eu ainda estava um pouco incerta sobre a responsabilidade que eu tinha me oferecido para ajudar.
Entrei no hotel e logo fui parada pelos jogadores acumulados no lobby do mesmo. Tirei o fone de ouvido e olhei na mesma direção de todos: na televisão que passava Portugal e Espanha. Estava no fim do jogo e Espanha estava ganhando por três a dois. Balancei a cabeça e desviei deles, seguindo para a galera de comunicação que falava com o gerente do hotel sobre as chaves e afins.
— Como vai ser? – perguntei, me apoiando no balcão.
— Quatro jogadores por quarto e três para a comunicação... – Franzi a testa.
— Meu Deus – falei rindo. – Uma hora a FIFA abusa e outra eles restringem. — Eles riram.
— Divide com a gente, ? – Angelica e Bianca perguntaram quase juntas e eu assenti com a cabeça.
— Claro! – Virei para Lucas e Vinícius. – Não sintam minha falta, ok?! – Eles riram.
— Pode deixar! – Respirei fundo.
— Faz as honras? – Bianca me empurrou as chaves e eu respirei fundo.
— Sempre, não é?! – Peguei—as em minhas mãos, organizando—as. – Cinco quartos de quatro e um de três? – Contei as chaves rapidamente.
— É! – Angelica falou e eu respirei fundo.
— Gol! – Eles gritaram e eu olhei para a TV, vendo Cristiano Ronaldo comemorando mais um gol e fiquei abismada, seis gols ao todo em um jogo. Deveria ter sido fantástico.
— Eita que jogaço! – falei, vendo o árbitro dar cinco minutos de acréscimo. – Eu estou com as chaves. – Apontei para as mesmas. – Serão cinco quartos com quatro pessoas e um com três, beleza? Façam sua turminha e venham pegar as chaves.
— Eita! – Geromel falou e eu assenti com a cabeça.
— É para ficar todo mundo bem juntinho – falei e eles riram. – Venham, venham!
Aguardei um pouco eles decidirem e os primeiros quatro a se aproximarem foram Geromel, Coutinho, Filipe Luís e Willian. Depois Miranda, Firmino, Paulinho e Fagner. Depois Alisson apareceu em minha frente com Jesus, Fred e Danilo. Ele fez questão de dar outra piscadela, mas dessa vez fingi que não vi. Mais dois grupos vieram e sobrou Thiago Silva, Neymar e Marcelo.
— Ah, isso vai dar merda! – falei entregando a chave para Neymar que riu.
— A gente não julga – ele falou e eu neguei com a cabeça.
— Rapidinho, gente! – chamei a atenção de todos. – Os horários aqui são o mesmo que em Sochi, a diferença é que não vai ter treino, mas, por favor, não deixem o hotel, ok?! – Respirei fundo. – Amanhã por volta das quatro nós vamos para o estádio onde acontecerá o treino por uma hora e depois uma coletiva com o capitão da Seleção e a equipe técnica. – Fiz positivo com os dedos. – Tem um jantar rolando aqui embaixo, se quiserem. Boa noite. – Acenei para eles e alguns ficaram lá embaixo esperando os minutos finais do jogo, mas eu subi com Bianca e Angelica e alguns jogadores.
Eu tinha fome, mas eu também tinha sono. Aproveitei que as meninas foram jantar, tomei um longo banho e me ajeitei na cama de solteiro que eu havia escolhido. Achei que dormiria logo, mas os episódios do Netflix foram passando e eu sabia que estava começando a ser pega por aquela ansiedade pré—jogo e tinha o dia inteiro de amanhã ainda.

— É só isso? – Marcelo perguntou saindo da coletiva e eu assenti com a cabeça.
— É sim! – Falei. – Você pode seguir para o ônibus que eu só vou esperar o pessoal e já vamos.
— Obrigada, ! – Ele falou, batendo sua mão contra a minha e eu ri, vendo—o sair.
A hora permitida para o treino já tinha acabado faz tempo, entrei com Tite, Edu, Cléber, Rodrigo e Marcelo, que tinha sido escolhido capitão do time, na coletiva de imprensa. Aguardei Bianca finalizar a coletiva e voltamos para o ônibus, vendo já alguns jogadores dormindo por causa da demora.
Bem, melhor aguardarem no ônibus do que fazer duas viagens. E estava proibido esperar dentro do estádio, apesar de que dentro do estádio não era dentro do campo, mas preferi não discutir com as regras da FIFA.
Chegamos de volta ao hotel e cada um seguiu para seu canto como formigas dentro de um formigueiro. Eu pensei por alguns segundos no que eu faria, mas estava cedo. Aguardei Bianca sair do banho e fui tomar o meu. Eu queria conversar com Tite no jantar, para ver se tinha alguma informação específica que eu precisasse saber.
Enquanto eu me trocava, recebi uma mensagem de Lucas, me fazendo franzir a testa.
“O que está fazendo agora?”, dizia, e eu me sentei na cama para responder.
“Acabei de sair do banho, estou enrolando para a hora do jantar,” respondi.
“Ronaldo está aqui! Você não conseguiu conhecer o Zagallo, agora é sua chance!”
Arregalei os olhos e saí correndo de volta para o banheiro, tirando a toalha do cabelo e passando rapidamente uma escova no mesmo.
— O que houve? – Angelica perguntou enquanto eu enfiava uma sapatilha nos pés.
— Ronaldo está aqui! – falei correndo e não me dei ao trabalho nem de passar uma maquiagem na cara e saí correndo do quarto, batendo a porta.
Não perguntei para Lucas onde ele estava, então cobri o básico e desci direto para o térreo, tentando não parecer uma louca enquanto corre atrás do ídolo. Assim, não que Ronaldo fosse meu maior ídolo do futebol, mas a lembrança mais incrível que eu tinha do futebol brasileiro era da Copa de 2002, quando eu tinha apenas oito anos, e da Seleção que trouxe o penta: Cafu, Roberto Carlos, Ronaldinho, Rivaldo, Roque Júnior, Kaká, são Marcos e, claro, Ronaldo. Além de Felipão como técnico.
Eles eram fantásticos, mas o que mais me emocionava, emociona até hoje ao rever os jogos, era que o futebol brasileiro era uma arte, os passes, os chutes a gol, as defesas... Ninguém fazia igual. Mas, infelizmente, 16 anos se passaram e os outros países também aprenderam a jogar bola. Talvez não com o mesmo estilo, mas com a mesma vontade de ganhar.
— Oi, ! – Vi Vinícius vestido de canarinho entrando no hotel e tirando a cabeça.
— Onde você estava? – Acenei para Bóris ao seu lado.
— Fomos dar uma volta por Rostov para gravar um vídeo. – Ele deu de ombros.
— Ah, queria ter ido. – Fiz uma careta e ele riu.
— Não dá para ter tudo, né?! – Suspirei.
— Ah, nem fala. Estou tão atolada de coisas, no dia da folga eu vou dormir o dia todo.
— O que você está fazendo aqui? –perguntou.
— Ronaldo, o fenômeno, está aqui. Eu quero uma foto dele. – Ele riu.
— Zagallo, Ronaldo... – Neguei com o dedo.
— Não, não. Eu não conheci Zagallo, lembra? – falei, revirando os olhos. – Eu fui embora antes para me arrumar para cá.
— Ah, verdade! – Ele bateu na cabeça.
— E nem conheci o museu do futebol, mas tá valendo. – Respirei fundo, olhando em volta. – Só preciso achar o Lucas.
— Eu preciso tirar essa fantasia. Manda whats sobre onde ele estiver – ele comentou e eu assenti com a cabeça, fazendo positivo e ambos entraram no elevador. Peguei o telefone e mandei uma mensagem para Lucas.
“Onde você está?”
“Terceiro andar. Corre!”, ele falou e eu entrei no elevador, malhando o dedo no botão.
A porta se abriu e saí no andar dos jogadores. Acho que tinha chego ao local certo, já que todas as portas do andar estavam abertas. Alguns jogadores encostados nas paredes e a maioria de chinelo nos pés.
— Ah, meu Deus! – Firmino falou ao me ver e eu ri.
— Não vim atrás de vocês, relaxa.
— Fã? – ele perguntou e eu dei de ombros.
— Já tenho fotos com todos vocês, já dá para criar um álbum com jogadores. – Dei de ombros e ele riu.
— Ele está lá no fundo. – Ele apontou e eu segui pelo corredor, olhando dentro de todos os quartos.
Ouvi vozes de um dos quartos e segui para dentro do mesmo. Tinha muito mais pessoas do que os jogadores do quarto, mas tinha Ronaldo. Lucas estava em cima de alguma mesa ou banco ao fundo do quarto e Ronaldo agora abraçava meu carma, Alisson.
— Fala aí, ! – Jesus se apoiou em meu ombro e eu franzi a testa.
— Você não está bravo comigo? – perguntei e ele riu.
— Para quê? Não vai adiantar nada, eu sempre vou perder. – Rimos juntos.
— Ainda bem que sabe. – Sorri.
— Vem, deixa eu te apresentar! – ele falou e eu engoli em seco, vendo—o se aproximar de Ronaldo, provavelmente pela segunda vez naquele dia.
— Ronaldo, deixa eu te apresentar a nossa âncora aqui. – Jesus falou e o mesmo olhou em minha direção. – Essa é a ...
— Bem que Tite disse que tinha uma mulher mantendo vocês na linha aqui na Rússia. – Ele sorriu para mim e eu me aproximei. – É um prazer te conhecer.
— O prazer é meu, acredite! – falei sorrindo e ele me abraçou. Fechei os olhos por um momento, tentando evitar que as lágrimas caíssem de meus olhos e nos afastamos.
— Tirando manter eles na linha, qual sua real ocupação?
— Assessoria! Cuidar da imagem deles.
— Agora eu entendo. – Ele riu.
— Faz parte e agradeço todos os dias por isso. – Ele sorriu.
— Mantenha—os na linha, hein?! – Soltei uma risada fraca, mas não contive o sorriso sarcástico que eu dei, olhando fixamente nos olhos de Alisson ao meu lado.
— Pode deixar! – Sorri e me afastei para que ele passasse, saindo do quarto.
— Me diz que você fotografou aquilo! – falei, puxando Lucas para descer do banco em que ele estava.
— Claro que sim! – Ele me esticou a câmera, para eu ver as fotos e eu sorri.
— Obrigada! – falei, abraçando—o fortemente e olhei em volta, percebendo os jogadores do quarto nos encarando, principalmente Alisson por cima dos ombros de Lucas. – Acho que eu vou cair fora. Boa noite, gente! – Acenei para os jogadores e segui Lucas para fora do quarto.
— Boa noite! – eles responderam em coro e eu puxei a porta.
— Você vai dormir? – ele perguntou.
— Não, eu já perdi o jantar ontem, não dá para perder hoje de novo não – falei e ele riu.
— Eu vou seguir aqui mais um pouco, já te encontro lá embaixo.
— Beleza! – Acenei para ele e vi Ronaldo cumprimentando os jogadores pelo corredor e eu empurrei a porta de emergência, descendo pelas escadas mesmo.

Era hoje o dia! Hoje começaria, oficialmente, a Copa do Mundo para o Brasil. Domingo, 17 de junho finalmente havia chegado.
O clima tinha ficado pesado o dia inteiro. Jogadores largados pelos cantos, equipe técnica tentando manter a calma e eu, no meio disso tudo, isso tentando não surtar. Era só o primeiro jogo, mas não era por isso que eu estava surtando, era por toda situação.
Sete horas da noite eu saí do hotel com os jogadores para a Arena Rostov, minha barriga borbulhava em um nível que eu achava que não aguentaria aquela pressão toda. Nem minhas músicas favoritas faziam com que os ânimos me acalmassem e eu já tinha tomado dois copos de água com açúcar.
Esperei ao lado da minha dupla dinâmica que todos os jogadores entrassem no ônibus e reparei Alisson entrar com seu mate de sempre e franzi a testa quando Neymar passou em minha frente com... Bem, eu não consegui identificar aquela coisa amarelo ovo em excesso que estava em cima do seu cabelo, mas preferi não comentar nada durante a filmagem. Entrei atrás dele com os meninos e Tite, e o ônibus logo começou a andar.
Andei até o fundo do ônibus, me segurando nas poltronas, até me colocar ao lado de Neymar e me abaixei ao lado dele, vendo—o tirar o fone da orelha e olhar para mim.
— O que foi? – ele me perguntou e eu respirei fundo.
— O que você fez no seu cabelo? – perguntei, tentando me manter o mais gentil possível.
— Gostou? – ele perguntou e eu franzi os lábios.
— Já avisando, você vai virar meme hoje. – Ele riu fraco, colocando os fones novamente.
Voltei para meu lugar e me sentei, mas não por muito tempo. A viagem até o estádio durava menos de 15 minutos e eu estava pilhada, mudava de música toda hora e me mexia ao lado de Lucas na mesma intensidade.
Assim que o ônibus parou novamente, eu fui uma das primeiras a descer, junto da comissão técnica. Entramos pelos fundos do estádio e seguimos direto para o vestiário. Entrei no mesmo e apoiei minha mochila no balcão central e olhei rapidamente se tudo estava no mesmo lugar de ontem, quando vim conferir sobre televisão, tomadas, etc...
Fiquei na parte de trás do vestiário, onde não atrapalharia os jogadores que começavam a se arrumar e ainda ficaria de frente para uma das televisões. Tirei todos os componentes eletrônicos da mochila, conectando os carregadores na tomada e desbloqueando todos os aparelhos.
Conferi meu relógio rapidamente e entrei no site do Google, entrando na aba de Copa do Mundo 2018, que ficava aberta 24 horas por dia, e procurei pelo jogo que tinha acabado a alguns minutos, da Alemanha. Arregalei os olhos, colocando a mão na boca e soltando uma risada.
— Alemanha perdeu do México! – falei um pouco mais alto, chamando a atenção dos jogadores e começando a rir.
— O quê? – Marcelo, um dos que jogou no fatídico 7x1, apareceu ao meu lado e eu me afastei, permitindo que os jogadores olhassem no computador.
— Meu Deus! – Willian, que também participou, falou, começando a rir sozinho.
— Isso já anima o suficiente para o jogo de hoje – Fernandinho foi o último a falar e eu sorri.
— Gente, não vamos nos animar – Tite falou, pedindo para abaixar os ânimos e os jogadores sem camisa, sem shorts ou só de meias, começaram a voltar para seus lugares. – Muito bom esse resultado, creio que muitos brasileiros estão comemorando hoje. – Abri um sorriso, vendo—o rir. – Mas vamos nos manter firmes ao jogo de hoje. Temos três jogos antes de pensar em enfrentar a Alemanha novamente. – Eles assentiram com a cabeça e o pessoal voltou a se arrumar.
Abri os programas necessários, mas dessa vez, ao invés de abrir as redes sociais, eu abri um novo documento do Word. Eu precisava prestar atenção ao jogo, estudar os movimentos dos jogadores brasileiros, gols, faltas, xingamentos ou possíveis brigas e compartilhar essa informação com Bianca, que cuidava da imprensa, e falar com os jogadores na reunião pós—jogo, preparando—os para um possível enfrentamento da imprensa. Eu estava com tudo pronto, os jogadores também estavam prontos para o aquecimento antes do jogo e eu respirei fundo, esperando a hora passar.
— Tudo certo aí? – Tite apareceu ao meu lado e eu franzi a testa.
— Tudo certo – confirmei.
— Queria te levar para o banco, mas...
— Estamos a trabalho, Tite. Não se preocupe – assegurei. – Vamos fazer o nosso melhor que quem sabe eu vejo o jogo da final de lá, com vocês? – Ele sorriu.
— Vamos torcer! – Ele riu. – Tem como você me fazer um favor?
— Claro!
— Faz uma planilha para mim sobre o grupo do Brasil. Sobre o jogo da Sérvia e da Costa Rica.
— Pode deixar! – falei, batendo rapidamente em seu ombro. – Te entrego depois do jogo. – Ele assentiu com a cabeça e eu aproveitei o tempo de espera e os jogadores saírem para treinar para fazer seu pedido.
Comecei a ouvir alguns toques de celulares e eles ficarem cada vez mais intensos, me fazendo franzir a testa. Não era um celular tocando, eram vários. Meu Deus! O que estava acontecendo? Tentei relevar, mas logo os jogadores voltaram e começaram a se arrumar para o jogo. Eu pensei em falar que tinha celular tocando, mas preferi ficar quieta, eles não podiam se distrair, mas a maioria se arrumou e deu aquela rápida olhada no telefone. Quando eu menos esperava, boa parte deles estavam com os celulares nas orelhas.
— Como assim? Não, não tem o que eu fazer. – Me aproximei de Thiago Silva que estava ao meu lado e o ouvi falar. – Não, não tem. Daqui a pouco vocês chegam. Tá, não! – Ele falou e eu franzi a testa. – Eu tenho que ir. – Ele falou, desligando o celular.
— O que está acontecendo? – perguntei a ele.
— Aparentemente o ônibus dos nossos familiares ficou preso no trânsito...
— Aí também? – Neymar o cortou.
— Aqui também! – Outros jogadores falaram.
— Ah, e eles estão ligando para vocês, faltando cinco minutos para vocês entrarem na estreia da Copa do Mundo, como se vocês pudessem fazer alguma coisa? – falei, cruzando os braços. – Inacreditável. – Balancei a cabeça. – Se eu ver alguém mexendo nesse celular, eu juro que confisco de todo mundo e jogo na piscina do hotel. – Alguns afastaram a mão e eu respirei fundo.
— Está na hora! – Cléber falou e todo mundo se entreolhou, o olhar de Alisson encontrou com o meu e ele deu mais uma bebericada em sua cuia e eu assenti a cabeça, vendo—o imitar o gesto.
— Bom jogo! – falei mais para ele, mas todo mundo acabou dando pequenos sorrisos.
— Esse é o momento, gente! – Tite falou rapidamente. – Vocês estão preparados para isso, vocês estão sincronizados e vocês estão treinados. Foram quase um mês treinando e sei que vocês são capazes! Vamos lá! – Começamos a bater palmas fortemente e eles começaram a sair do vestiário.
Assim que eles saíram da sala, eu fiz alguns Pai Nosso e Ave Maria e fechei a porta do vestiário, me vendo sozinha no local, somente com o barulho que vinha das arquibancadas e subi em uma das caixas, para aumentar o som da TV, ouvindo o comentarista russo falar. Procurei pelo controle em uma das gavetas e apertei a tecla SAP, ouvindo—a mudar para inglês e respirei aliviada. Melhor!
Peguei uma das garrafas de isotônico dentro de uma das caixas e fui para meu lugar, puxando um banco para próximo da mesa e respirei fundo, vendo os jogadores entrar e se posicionar para o hino. Fechei minha mão em punho algumas vezes, sentindo a ponta dos dedos gelados e o coração bater forte.
Era agora!

Ouvi o som do apito, a plateia gritando acima de mim e eu engoli em seco, sentindo meu coração parar por alguns segundos, mas logo a adrenalina tomou conta de mim.
Os primeiros cinco minutos de jogo foram fracos, parecia que eles estavam aquecendo, mas já deu para perceber que os suíços viriam para cima. A primeira tentativa de gol foi quando Alisson recebeu a bola, mandou para o meio de campo e foi recebida por Jesus. Ele passou a bola para Paulinho que correu com a bola, mas acabou indo para fora.
Menos de quatro minutos, tivemos outra tentativa de Paulinho. Neymar e Coutinho passaram a bola um para o outro, na tentativa de uma abertura. Neymar viu Paulinho próximo ao goleiro e mandou para o mesmo que fez a tentativa, a bola passou raspando pelo gol e foi para fora. Merda! Passei a mão nos cabelos, puxando os mesmos. Brasil estava indo com tudo. Poucos minutos depois Marcelo passou para Jesus que tentou o cruzamento para Willian, mas foi muito forte, passou longe do jogador.
— Vamos, Brasil! Vamos! – Bati as mãos uma com as outras, respirando fundo. – Pô! Isso é falta! – Falei quando vi um suíço bater no Neymar e o mesmo cair no chão. Olhei a cara de deboche do jogador suíço e, como dizia minha mãe, queria arrancar com a mão.
Neymar cobrou a falta, mas explodiu na barreira suíça, me fazendo soltar o ar pela boca. O tempo já estava em 15 minutos do primeiro tempo e as mãos já começavam a coçar por um gol. Coutinho chutou para Jesus que fez sua tentativa, mas o goleiro pegou no meio do caminho, fazendo Jesus sair com um sorriso travado no rosto, me fazendo rir.
— É agora! – falei, vendo a aproximação de Neymar. Ele passa a bola para Coutinho que está fora da área e ele chuta direto. – GOL! – Gritei, erguendo as mãos para o alto, igual Alisson apareceu na tela. – É gol! – Falei animada, movimentando meus braços animadamente. – Agora sim, gente! Vamos lá! – Bati as mãos novamente.
Um dos suíços cobrou escanteio e Casemiro e um suíço caíram como um castelo de cartas. No replay, deu para notar que eles deram uma cabeçada forte, me fazendo franzir a testa. Casemiro logo mostrou que estava bem e eu relaxei. Enquanto eles conferiam o jogador suíço, os jogadores deram um tempo para hidratar.
O jogo se seguiu com mais algumas tentativas e jogadas polêmicas. Um dos jogadores famosos da Suíça puxou Neymar pela camisa. Depois Jesus faz uma tentativa a gol, mas Neymar estava em posição irregular e foi dado o impedimento. Um dos suíços tentou o ataque, mas Thiago Silva estava na posição correta e impediu que ela chegasse ao Alisson, mas impediu com a sua orelha, fazendo—o cair no chão, visivelmente com dor.
— Ninguém mexe com Thiago, hein?! – falei, respirando fundo.
A bola voltou a rolar e foi passada por Paulinho para os pés de Jesus, que tentou o ataque novamente, mas ele ficou preso na marcação suíça, me fazendo respirar fundo. Os suíços surgiram pela direita algum tempo depois, mas Thiago Silva estava bem posicionado e tirou de cabeça.
Acréscimo de dois minutos.
Escanteio do time brasileiro, Thiago Silva tentou de cabeça, mas mandou por cima da trave. Ah, meu Deus! O negócio estava difícil. O goleiro chutou a bola para o campo brasileiro novamente e Coutinho acabou tropeçando nele, fazendo falta para a suíça.
— Agora não! Aqui não entra suíço, não – falei sozinha, me sentindo uma tonta segundos depois, mas abanei o ar com a mão.
A bola foi por cima, um dos suíços cabeceou, mas Alisson pegou, me fazendo relaxar. Alisson se preparou para mandar a bola, mas o juiz apitou antes disso. Respirei fundo e corri para o banheiro, aproveitando que ele estava livre, antes dos jogadores invadirem o mesmo.
Antes de sair do mesmo, já ouvi algumas vozes vindas do vestiário, saí do banheiro, dando de cara com alguns jogadores entrando e voltei a me posicionar no meu banco. Alguns jogadores trocaram de blusas e meiões e Tite se colocou em frente a eles.
— Vocês estão indo bem, gente! Estavam meio travados no começo, mas acho que era o nervosismo da estreia. Parabéns pelo gol, Coutinho, foi ótimo. – Fiz positivo para Coutinho que sorriu. – Mas vocês precisam ser mais ofensivos. – Ele falou. – A defesa está boa, mas nesse final vocês tiveram mais dificuldades em passar para o outro lado. Sigam as jogadas, se lembrem das análises táticas e cuidado com os suíços, principalmente com aquele Behrami, ele está debochando a cada falta, não entrem na provocação dele.
— Pelo amor de Deus, sem brigas na estreia – falei um pouco alto demais e eles olharam para mim.
— Na estreia não pode, mas nos outros jogos pode? – Alisson perguntou e eu ri.
— Você não pode nunca, não queremos ver goleiro expulso. – O pessoal riu. — Mas o que eu quero dizer é que é a estreia, é o teaser do que vai acontecer nesse mês, vamos manter a calma, ok?! – Falei.
— Tem algo mais a acrescentar? Vendo daqui? – Tite perguntou.
— Não, não, você disse tudo. Só que o cabelo do Neymar já virou meme – falei sorrindo.
— Você postou no Canarinho Pistola, não foi? – ele falou e eu ergui as mãos.
— Nem vem, eu estou fora dessas responsabilidades, mas, por acaso, eu só mandei a foto para o pessoal do Brasil e eles fizeram a postagem, só isso. – Eles riram.
— Meu Deus! – Ele revirou os olhos e eu ri.
— Mas, ei, não sou só eu que faço meme, não. Brasileiro é um povo fantástico. – Sorri e eles riram.
— Vamos voltar! – Cléber falou e eles se levantaram novamente.
— Continuem jogando bem. – Gritei, enquanto eles saíram e ainda recebi alguns positivos.

E começou o segundo tempo.
Logo nos primeiros segundos o suíço manda a bolo para o gol, mas passa longe de Alisson. Fez nem cócegas. Coutinho faz uma tentativa a gol logo em seguida, mas bate na barreira e logo passa para os pés do suíço, mas Casemiro não deixa, entrando por baixo do suíço e é dado o cartão amarelo.
— Ah, Casemiro! Faz isso não. – Bati a mão na testa, respirando fundo.
A bola chegou aos pés de Jesus por Coutinho e ele tentou um gol, mas o goleiro suíço pegou de fora da área. A bola saiu pela lateral e foi a vez dos suíços fazerem um escanteio. Até tirei os dedos do computador quando isso aconteceu. O suíço mandou para área e um dos jogadores cabeceou.
— Gol! – falei desanimada, mas franzi a testa ao rever o lance. – Êpa! Isso foi falta! – Falei ao ver o jogador empurrar Miranda para frente. – Isso é irregular, caramba! Quero ver agora o que o VAR faz... Nada? – Reclamei inconformada quando a bola voltou para o meio do campo. – Tem o VAR para quê, porra? – O sangue começou a ferver. – Agora vocês vão ver, seus suíços filhos da...
Tive alguns segundos para recuperar minha raiva, mas logo um suíço fez falta no Coutinho e Neymar correu para cobrar, causando irritação dos suíços, o que fez com que ele pegasse a bola com a mão, interrompendo o ataque da Suíça.
A bola foi para lateral da Suíça e outra tentativa do gol dos vermelhos, mas Alisson pegou a mesma com facilidade. Alisson devolveu a bola para nosso time e eles cruzaram o campo fazendo passes, como se estivessem costurando o time suíço.
Paulinho passou por Willian, ricocheteou em um dos suíços e chegou aos pés de Coutinho. Ele fez um chute, batendo nos suíços e depois chutou novamente, tendo o mesmo retorno. Da segunda vez, a bola passou nos pés de Casemiro, Marcelo e depois para Neymar, chutando a bola, atingindo a rede por fora.
— Ah! – gritei, puxando os cabelos novamente.
Substituição. Saiu Casemiro, entrou Fernandinho.
Falta no Marcelo ao entrar com violência no mesmo, batendo na coxa. Depois falta no Neymar ao puxar a camisa deles. Respirei fundo, juntando as mãos.
— Dai—me paciência.
Substituição. Saiu Paulinho, entrou Renato Augusto.
Outra falta no Neymar do idiota do Behrami, mas dessa vez, pelo menos, o juiz idiota deu cartão amarelo. O jogo seguiu e tivemos duas tentativas seguidas de gol, uma de cada lado. Neymar passou para Coutinho que recebeu no peito e mandou por cima, mas foi para fora.
— Relaxa, Coutinho. Relaxa que dá! – Tentei me acalmar também, mas foi tão perto.
Os suíços pegaram a bola e cruzaram para o campo brasileiro, mas a bola foi direto para a mão de Alisson. Jesus foi para o contra—ataque e Marcelo mandou para Renato Augusto, que mandou para Jesus que foi derrubado na área.
— PÊNALTI! – Comemorei erguendo as mãos para cima, vendo a indignação de Jesus. – Cadê o VAR? – Gritei novamente, vendo o jogo retornar. – Ah, para puta que pariu! – Gritei, jogando minha garrafa no chão. – Ah não! – Respirei fundo.
Depois daquele lance do Jesus, eu já nem pensava direito e anotava tudo no automático. Tentativa de gol de Fernandinho, mas foi para fora. Depois tentativa de Neymar, mas direto nas mãos do goleiro. Dava para notar que o Brasil estava jogando na raiva já, essas duas injustiças com a gente deveriam estar entaladas na garganta.
Substituição. Saiu Jesus, entrou Firmino.
Firmino entriu na raça, mas chutou muito alto, indo para fora, no replay até ele notou seu erro, deixando para trás. A bola rolou para o campo brasileiro novamente, mas não deu em nada, fazendo a bola seguir para a fora, dando arremesso lateral para a suíça. Eles tentaram, mas perderam a bola para Miranda que estava bem posicionado.
Franzi a testa quando vi um balão vermelho aparecer no campo brasileiro e Alisson seguiu para o mesmo correndo, metendo o pé no mesmo, estourando—o com as travas da chuteira, comecei a rir.
— Isso aí, Alisson! – Comemorei como se tivesse sido um gol. – Achei pouco. – Falei rindo.
Me distraí com isso um pouco e, quando notei, Neymar recebeu a bola no meio da grande área, mas cabeceou e foi direto para as mãos do goleiro, me fazendo bufar e olhar o tempo do jogo, estava quase.
— Vamos Brasil, mais um para terminar bem. – Respirei fundo.
Cinco minutos de acréscimo.
— Vamos que dá tempo! – Respirei fundo.
Tivemos outras duas tentativas que foram para fora, uma do Miranda que passou raspando pela trave direita, indo para fora. E depois uma cobrança de falta brasileira, por uma falta feita em cima do Neymar e a bola foi tirada pelo suíço, me fazendo apertar os lábios fortemente.
Apito final.
— Droga! – falei, fechando a tela do computador com força, mas me arrependendo logo em seguida.

Bianca me mandou mensagem falando que Coutinho, Miranda e Marcelo iriam para a entrevista pós—jogo e abri o drive de Lucas, procurando pela foto de Alisson estourando o balão e enviei para o pessoal do Rio de Janeiro, pedindo que fizessem algo em cima daquilo. “Alisson pistola” ou “Canarinho decidiu jogar”, dei ideias, mas deixei nas mãos deles.
Os jogadores entraram todos meio tensos no vestiário novamente e foram se ajeitando nos seus lugares. Alguns já começaram a se hidratar, outros tiravam suas blusas e tentavam parar de suar um pouco. Olhei de esguio para Alisson, mas ele ainda estava morto, se entupindo de isotônico. Droga!
Tite entrou com a equipe técnica e logo outros membros da comunicação apareceram. Ele estava quieto, mas não parava de andar de um lado para o outro, até o paletó já tinha sido jogado no chão. Creio que ele estava esperando a volta dos últimos jogadores. E foi o que aconteceu, assim que Coutinho, Miranda, Marcelo e Bianca entraram no vestiário, a porta foi fechada e Tite se colocou no meio da sala novamente.
— Eu nem tenho o que falar depois dessa – ele falou, respirando fundo. – Não foi um dos nossos melhores jogos e, para ajudar, tivemos dois lances ao nosso favor que não foram contabilizados. – Ele respirou fundo. – Vocês estavam prontos, mas senti que vocês estavam um pouco agitados, fazendo chutes a esmo, não pensando direito antes de fazer. Faltou um pouco mais disso, mas os passes, a união... Controlamos mais de dois terços de jogo e senti que a equipe principal está pronta, vocês são meus titulares, gostei das substituições, tudo está muito bem, falta só alinhar algumas coisas. – Ele passou a mão na testa. – No demais, vocês foram bem! – Ele falou e aplaudimos, mas nos mantivemos quietos. – Amanhã eu vou dar a folga para vocês, vamos voltar para Sochi daqui a pouco, se quiserem encontrar seus familiares, vocês já vão poder ir. – Ele coçou a testa. – Só quero vocês de volta dia 19 cedo. – Ele falou e todos assentiram com a cabeça, não sabia se aquilo era para mim, mas descobriria depois.
— Você já quer aproveitar todo mundo aqui e fazer sua reunião, ? – Edu me perguntou, fazendo algumas pessoas me olhar. – Não sei se tem o que falar.
— Eu estava programando para fazer amanhã ou no voo, mas posso adiantar. – Ele assentiu.
— Talvez seja melhor. – Ele movimentou os dedos e sabia do que ele estava falando.
— Posso ficar a sós, então, só com os jogadores e o Tite, por favor? – perguntei e o pessoal avulso saiu da sala.
Parei por um momento para pegar os pontos importantes dos jogos, mas todo mundo já sabia quais eram. Respirei fundo e me levantei, apoiando as mãos na bancada.
— Bom, gente, como vocês sabem, eu sou responsável pela imagem de vocês, então, depois de todo jogo, eu vou juntar vocês e vamos falar os pontos de possíveis conflitos com a imprensa. Tudo bem? – perguntei e eles assentiram com a cabeça. – Perfeito. – Respirei fundo, coçando a testa. – Vamos começar falando do VAR, que não serviu para porra nenhuma. – Falei bufando. – E você disse que viria para ajudar, não é mesmo, Alisson? – Falei para o mesmo que abaixou o rosto. – Pois é, vemos que não. – Respirei fundo. – Com isso, já sabem que toda imprensa brasileira e talvez até internacional vai falar desse lance. Então, Miranda, Willian, Alisson, Neymar, podem esperar perguntas sobre isso, já que vocês que denunciaram o lance e o idiota não se deu ao trabalho de olhar para o telão. – Respirei fundo, vendo alguns sorrisos se formarem. – Jesus, seu lance também foi polêmico, o cara te agarrou, deveria ter sido pênalti na certa, isso também vai causar polêmica e um pouco de dor de cabeça.
Suspirei, dando outra rápida olhada na minha lista.
– Alisson... – chamei, fazendo positivo e andando em sua direção. – Você virou gif, você virou meme. Obrigada por estourar aquela bexiga. – Ele riu e todo mundo gritou por ele, me fazendo aplaudir e estender a mão para ele que bateu na mesma sorrindo. – Você representou a raiva de todos os brasileiros no final daquele jogo e você vai para o Twitter do Canarinho, fica de olho. – Ele riu, negando com a cabeça. – Sério, foi sensacional! Se orgulhe disso! – Falei rindo, andando em direção a outro jogador. – Coutinho, belo gol! Fantástico! – Estiquei a mão para o mesmo também e ele bateu. – Assim que deve ser. Vi várias outras tentativas que foram meio bruscas, mandando para fora ou isolando a bola, mas vamos ajeitando. – Ele sorriu, assentindo com a cabeça e eu voltei ao meu lugar.
— Obrigado! – ele falou baixo e eu sorri.
— Bom, gente, do jogo foi isso. – Respirei fundo. – Agora eu tenho uma coisa para falar para vocês que, na verdade, era para eu ter falado antes do jogo, mas eu quis manter a calma de vocês, mas amanhã vocês estarão de folga e eu preciso que a informação seja repassada. – Respirei fundo. – Suas famílias. – Falei e vários jogadores já franziram a testa. – É, vocês já sabem do que eu estou falando. – Cruzei os braços. – Vocês não fizeram um acordo com o Tite lá na Granja? Dos horários permitidos para seus familiares? As folgas? Eles próximos de vocês aqui na Rússia? – Perguntei e eles baixaram a cabeça. – Não foi combinado isso, galera?
— Foi – alguns falaram tímidos.
— Então, gente! – Abaixei o braço. – Vocês estão aqui a trabalho, eles estão aqui a trabalho, eu estou aqui a trabalho. – Respirei fundo. – Vamos nos manter aos combinados. Se não a gente vai ter que cortar e vocês, nem eles, vão gostar. – Respirei fundo. – Além disso, outra coisa que deu problema. – Virei para Jesus. – Gabriel, seus amigos ficaram naquele treino sexta—feira e postaram uma foto no stories ou no Instagram, não sei, mas divulgou a escalação inteira e o Tite nem tinha liberado ainda. – Respirei fundo. – Nos treinamentos, vamos tentar manter alguns momentos sem fotos, pode ser? – Ele assentiu com a cabeça.
— Eu percebi isso depois, me desculpe. Eu falo com eles. – Assenti com a cabeça, passando a mão nos cabelos.
— Obrigada! – falei. – E teve uma última coisa que todos vocês notaram: as esposas de vocês ligando faltando cinco minutos para a porra do jogo começar! – Fui mais firme. – Isso não pode acontecer, gente! Aqui é para ser um ambiente sem estresse. Com liberdade para vocês extravasarem, tirarem seu momento, fazerem seu ritual. Não dá para ter esposa ligando porque ônibus tá preso em trânsito. – Falei rindo sarcasticamente. – Elas queriam que vocês fizessem o quê? Saíssem para resgatá—las? – Cruzei os braços novamente. – Vamos combinar que vocês não vão usar esse celular depois que voltar do treino, ok?! Eu juro que eu vou começar a confiscar e só devolvo lá em Sochi. – Eles assentiram com a cabeça. – Esse aviso é sério, gente! Espero que vocês repassem a informação ou eu falarei com eles e eu não falarei com a mesma calma. – Respirei fundo. – Além de que podemos cortar esses privilégios a qualquer momento. Entendidos?
— Entendidos – eles responderam e eu assenti com a cabeça.
— É só isso por hoje – falei e Tite assentiu com a cabeça.
— Vamos nos preparar para o voo de volta – ele falou e eu afirmei com a cabeça.

Eu também acabei tendo folga naquela segunda—feira. Chegamos a Sochi de madrugada novamente e cada um foi para seu canto, já que subiram comigo no elevador. Todos estavam meio abatidos por causa do empate. Não era o jogo que esperávamos. Eu entrei no quarto, tomei meu banho, me livrando daquela blusa da CBF e dos sapatos amarelos e, logo depois, deitei na cama, fazendo questão de ficar no meio da mesma, capotando logo em seguida.
Eu notei no café da manhã do dia seguinte que os jogadores tinham saído em debandada. Eu encontrei três ou quatro jogadores e o pessoal da equipe técnica. Também não seria eu quem ficaria no hotel. Chamei Bianca e Angelica e falei que precisava arranjar uma manicure, já que minhas unhas estavam um desastre. Eu tinha conseguido fazer na rápida passada pela minha cidade, mas já fazia 20 dias, as cutículas já estavam grandes, o esmalte já tinha sido tirado na unha e eu precisava me sentir melhor novamente.
Elas adoraram a ideia, então saímos por Sochi procurando um salão de beleza com uma cara confiável e com pessoas que falassem inglês, apesar de que Angelica sabia falar russo. Lá eu descobri a manicure russa, o método de tirar as cutículas a seco. Estranho, mas bem interessante.
Aproveitei e fiz uma hidratação e escova em meu cabelo, fazendo com que as duas gostassem do resultado e também decidiram fazer. Saímos do salão no fim do dia já, ainda estava claro, obviamente, mas já passava das seis horas. Entramos as três no hotel, comentando sobre nossos cabelos e unhas renovadas e seguimos direto para a cobertura. Estávamos famintas, só tínhamos almoçado fast-food, mas já fazia algumas horas. Quem sabe conseguíamos pegar o fim do lanche ou o começo do jantar?
— Uau! Olha elas! – Douglas Costa falou assim que saímos do elevador e rimos juntas, balançando a cabeça. Olhei à sua volta e lá estava Alisson, Miranda e Danilo.
— O que acham? – perguntei, dando uma batidinha nos cabelos e eles sorriam.
— Vocês tão ótimas! – Alisson falou sorrindo em minha direção e eu mordi meu lábio inferior.
— Então, o que já estão fazendo aqui? – perguntei, me aproximando.
— , vamos pegar um lanche, quer? – Angelica perguntou e eu assenti com a cabeça.
— Por favor! – falei.
— Do quê?
— Do que tiver! – falei exageradamente. – Se tiver só pão, pode ser só pão mesmo. – Eles riram.
— A gente decidiu voltar mais cedo, só isso. – Me sentei no sofá, ao lado de Alisson, apoiando os cotovelos nas coxas e o rosto nas mãos.
— Nos preparando para o segundo round – Danilo comentou e eu assenti com a cabeça.
— Não tá sendo fácil, não é?! – perguntei, me referindo ao empate.
— Era para ter sido melhor, muito melhor – Alisson falou colocando a mão atrás da cabeça e abaixando o rosto.
— Ei, ei, ei! – Deslizei no sofá, ficando próxima do mesmo, abaixando sua mão. – Não fiquem assim. – Falei, olhando para os outros. – Vocês foram ótimos, deve ter sido só o nervosismo da estreia. Relaxa! Sexta—feira vocês estarão perfeitos. – Sorri e notei que ainda segurava a mão de Alisson, reparei que Angelica voltava e peguei a deixa para soltar a mesma e me levantar em direção à minha superiora.
— Obrigada. – Sorri, me sentando novamente e mordendo o lanche. Parecia do McDonalds, pão, carne e queijo, com o release no meio, que os russos colocavam em tudo. – Está gostoso. – Comentei, ponderando com a cabeça.
— Não é um xis, mas... – Alisson comentou e eu ri.
— Pô, tu moras em Roma faz dois anos, lar de uma das melhores gastronomias do mundo, e está pensando num xis? – falei rindo.
— Conhece? – ele perguntou.
— Eu tenho padrinhos no sul. Eu comi um dia, sensacional, mas enorme! – Falei e ele riu comigo.
— Você disse um dia que foi para a Itália, não é?
— É, depois que eu estudei um mês em Londres, eu fiquei mais um mês passeando por alguns países da Europa. Na Itália eu fiquei quase 10 dias.
— O que conheceu lá? – ele perguntou.
— Ah, o básico. – Dei de ombros. – Roma, Florença, Milão, Veneza, Verona, Pisa, o Vaticano... – Ponderei com a cabeça. – Ah, e claro, Turim. – Sorri, fazendo um coração com a mão. – Não podia deixar de conhecer Turim.
— Aê! – Douglas comemorou e eu ri.
— Exatamente por isso que eu fui a Turim – falei. – Queria conhecer o estádio da Juventus e ver um jogo com o Buffon.
— Ah, mano, não acredito! – Alisson falou e eu bati na mão de Douglas, vendo—o sorrir. — Tu torces para Juventus?
— Todo mundo tem um lado ruim – Miranda brincou, talvez provocando e eu ri.
— Você é do Inter de Milão, né?! – falei para Miranda que deu de ombros. – Ah, gente, sinto muito, mas na Itália meu coração já tem dono. – Sorri.
— E ainda o Buffon, quem compete com Buffon? – Fingi que pensava um pouco.
— Ninguém, para falar a verdade. Mas agora ele saiu da Juve, só Deus sabe para aonde ele vai, agora preciso aguentar aquele Chsenzky, Ksenszy...
— Szczęsny... – Alisson falou.
— Isso! – falei rindo. – Ele é muito ruim! Pelo amor.
— Ei, ele saiu da Roma! – Alisson brincou e eu ri.
— Tá explicado!
— Oh! Essa doeu! – Danilo falou e eu ri.
— Não, brincadeira, Alissinho, me desculpe! – falei tentando conter a risada. – Mas eu não gosto dele, se você estivesse na Juve, eu ia gostar muito mais. – Sorri.
— A Juve não chegou à semifinal da UEFA – ele falou.
— A Juve pelo menos tem uma UEFA! – falei sorrindo e ele franziu os olhos. – Eu tinha dois anos quando ganhamos, mas ainda sim. – Sorri. – Além de que a última vez que a Roma ganhou campeonatos italianos fazem o quê? 10 anos? – Ri fracamente. – E se eu não estou enganada a Juve ganhou esse ano o Campeonato Italiano, a Copa Itália e em 2015 a SuperCopa da Itália. – Sorri para ele, vendo—o negar com a cabeça. – Confirma para mim, Douglas! – Falei e ele segurava a risada, mas confirmou com a cabeça.
— Mano, você sabe tudo! – ele comentou e eu sorri.
— Dá jeito nele, Douglas. Vê se o Allegri o aceita. – Alisson revirou os olhos e eu ri fraco.
— Não, obrigado. Estou muito bem na Roma. – Sorri, dando dois toques na perna de Alisson.
— Não se preocupe, Alissinho. Você pode não jogar na Juventus e não ser nenhum Buffon, ainda – Frisei. – Mas você tem tudo para ser. – Sorri, virando para ele. – Por mais que eu nunca torça para seu time, eu já vi suas defesas na Roma, na época do Inter, aqui nos treinos, você tem tudo para ir muito longe. – Vi suas bochechas se avermelharem. – E você é novo, a vida está te dando várias oportunidades, só não deixar nenhuma passar. – Ele sorriu, assentindo com a cabeça.
— Valeu. – Ele deu um pequeno sorriso e eu assenti com a cabeça.
— Estou aqui para isso, não só para dar broncas. – Sorri, mordendo meu lábio inferior. – Agora deixa eu voltar para o meu lanche, vai – falei e ele riu.

Capítulo 6 – Mostra Sua Força, Brasil! Que venha a Costa Rica!

— Vamos lá, então. – Passei a mão no rosto, olhando para Angelica em minha frente quando um dos dirigentes da CBF falou. – Hoje eles voltam para treino e precisamos decidir a questão da família. – Virei para o lado, olhando para Tite.
— Tite... – falei para o mesmo.
— O que você acha? – Ele respirou fundo, coçando os olhos.
— Eu conversei com eles depois do jogo, você viu. – Ergui as mãos. – A gente pode dar um voto de confiança. – Dei de ombros. – A gente faz o teste hoje, amanhã a gente analisa de novo, se for necessário. – Parte da equipe técnica assentiu com a cabeça.
— Sendo bem honesto com vocês, eu não queria restringir a presença dos familiares, acho que vai fazer bem para eles e para gente também. A maioria são pais, tem crianças pequenas... Talvez torne o treino mais leve, mais divertido...
— Não é para ser divertido... – interrompi o dirigente da CBF.
— Não é por nada, senhor, mas quando se faz algo com diversão, deixa de ser trabalho. – Sorri para ele. – Eu estou me divertindo muito aqui e só ouço vocês elogiando meu trabalho. – Dei de ombros. – Afinal, não estaria aqui, em uma reunião com os chefões da CBF, se não estivessem. – Sorri.
— Acho que a decisão tem que ser de Tite – Sylvinho falou e eu assenti com a cabeça.
— Vamos fazer o teste hoje. Treinamento normal até às quatro da tarde, depois liberamos a presença da família, liberamos o campo para as crianças e voltamos a analisar amanhã, que tal? – Confirmamos com a cabeça. – , você pode estar presente no treino quando eles chegarem?
— Posso sim. – Assenti com a cabeça. – Tenho uma coletiva com Coutinho e Rodrigo nesse meio tempo, depois eu fico lá no campo. Angelica e Bianca estarão lá também por causa da presença da imprensa. Vai ser nosso teste de fogo. – Tite bufou, respirando fundo em seguida.
— Todas as informações já foram dadas? – o dirigente perguntou.
— Sim, falei tudo isso antes de ontem, horários de treino, proibição de proximidade dentro do hotel nos horários combinados, tudo. E pedi para que os jogadores repassassem a informação. – Eles assentiram com a cabeça.
— Está tudo certo, confiem na . – Angelica falou. – Não queremos outro acidente como aquele do Barbosa no bar ontem à noite, não é? – Tentei segurar a risada, lembrando—me da loucura que tinha dado no dia anterior pelo assessor pessoal do presidente da CBF ter quebrado um copo na cabeça de um torcedor por falar mal de Nunes, o presidente.
— Não, não queremos – ele falou, engolindo em seco.
— Esse é um assunto delicado, mas acho que manter essa responsabilidade com a é a melhor alternativa – Edu falou. – Ela está entrosada com os jogadores, eles gostam dela... Ela não veio para Rússia para ser babá, mas parece que eles estão ouvindo o que ela diz. – Sorri para ele. – Isso já é alguma coisa, não?
— Além de que é uma via de duas mãos, eles nos ajudam, nós os ajudamos. – Dei de ombros. – Estamos abrindo a mão, permitindo a presença de familiares, se eles colaborarem, nós mantemos. Caso não, cortamos e vai ficar aquele clima pesado, mas não tem dor de cabeça.
— É esse clima pesado que eu não quero – Tite falou. – Você que está por fora vê, , eles estão entrosados, todas as equipes também, isso que eu quero. É muito mais importante do que só treino, treino, treino...
— Entendo sim, Tite, e concordo contigo. – Assenti com a cabeça.
— Vamos fazer isso. – Ele sorriu e assentimos com a cabeça.
— , Bianca, podem ficar? Precisamos resolver sobre o presidente da CBF. – Fiz uma careta, coçando a cabeça.
— Lá vem! – falei e Angelica riu.
— Vamos lá! – Bianca falou e a equipe técnica saiu para o resto do horário de almoço e eu e Bianca ficamos com o dirigente, um dos muitos que eu não lembrava o nome.

— Phillipe, aqui, boa tarde – A jornalista chinesa falou com um sotaque forte.
— Boa tarde. – Ele sorriu.
— Para começar, o primeiro jogo na primeira Copa, quando estava cantando o hino do Brasil, que imagem estava na sua cabeça? E também, depois do primeiro gol, na hora da comemoração, qual imagem estava pensando? – Sorri com a pergunta dela e também me interessei.
— Ah, é um momento muito emocionante, a gente que sempre sonhou em estar aqui e eu estar disputando minha primeira Copa, realmente, quando você entra em campo tem um sentimento diferente, toda aquela ansiedade, aquele nervosismo um pouco antes do jogo, que bate, acaba tudo ali. – Ele sorriu. – Naquele momento a gente fica pensando no que pode fazer de bom no jogo, da melhor forma de ajudar a equipe, de repente fazer um gol, ou criar jogadas, então é isso que vai passando na minha cabeça. – Ele emendou a segunda resposta. – E... Sobre o gol, é, realmente é um momento muito emocionante, quando você marca, principalmente se falando de uma estreia de Copa do Mundo, então foi por isso que eu extravasei bastante, mas espero marcar mais gols e as comemorações a gente vê se vai ser assim ou não. – Olhei rapidamente na minha lista, vendo que estava acabando.
— Oi, Coutinho, tudo bem? Glenda.
— Tudo bem? – Ele respondeu à repórter da Globo.
— A Seleção vem de uma sequência muito vitoriosa. Enfim, a gente falava sobre isso, o favoritismo, e tal. Aí chegou à estreia e teve esse empate, para você, como atleta, como jogador, primeira Copa do Mundo, qual foi a mensagem que esse empate, logo na estreia da Copa, passou para você, olhando para frente? – ela perguntou. – Sabe aquela hora que a gente coloca a cabeça no travesseiro? E não consegue dormir, né?! Pensando em outro resultado e, enfim, acaba dando errado do que a gente imaginou? Queria saber a sua opinião, bem pessoal mesmo, a mensagem que você tem olhando para frente? Que esse jogo deixou para você?
— O que ficou claro é que todos os jogos serão bem difíceis, às vezes muitos torcedores, muita gente acha que a gente por ser Brasil vai chegar e ganhar fácil, e vai fazer muitos gols e essa é a mensagem que ficou. Porque todos os jogos são difíceis, o mundo tá se preparando cada vez mais, então é uma Copa do Mundo, essa é a mensagem que ficou. – Assenti com a cabeça. – É claro que agora a gente tem que, ao invés de ser 100, 110 por cento, para poder ganhar os jogos. – Ele sorriu, franzindo os lábios.
— Obrigada, gente! Obrigada, Coutinho! – Bianca falou e eu chamei Coutinho, enquanto Rodrigo passava as informações. Seguimos para a antessala.
— Você foi muito bem. – falei para Coutinho e batemos as mãos. – Meio tímido, mas bem! – Ele riu.
— Valeu! – Ele falou rindo.
— Pode ir lá! Daqui a pouco eu vou. – Ele assentiu com a cabeça e me abraçou rapidamente, saindo da sala.
— ! – Me assustei com Bianca que falou um pouco mais alto e eu virei para ela, vendo—a entrar em fechar a porta.
— Diga!
— Uma jornalista acabou de me pedir uma declaração, queria saber se você a consegue para mim. – Franzi a testa.
— Claro! O que foi? – Abri meu iPad no bloco de notas.
— Obviamente estão comparando o Alisson e o Navas para o jogo de sexta—feira, Navas já deu uma declaração sobre o Alisson, ela queria uma do Alisson sobre o Navas. – Assenti com a cabeça.
— Tá fácil! – falei e rimos juntas. – Peça os contatos dela, mas eu consigo isso agora. – Fui saindo, mas parei. – O que o Navas falou do Alisson? Aposto que ele vai perguntar.
— Está tendo especulações sobre a venda do Alisson para o Real Madrid, onde Navas joga... – Assenti com a cabeça. – Ambos só levaram um gol até agora... Enfim. – Ela abanou a mão. – Navas disse que “Alisson é um jogador novo com um grande futuro pela frente, que tem apresentado ótimos resultados na Roma. Além de um grande goleiro, ele já demonstrou eficácia em outros aspectos do futebol e se for para o Real, será um prazer em tê—lo”. – Ela me mostrou o celular.
— Printa isso e me manda? Meio longo para guardar. – Ela riu.
— Já mandei! – ela comentou e eu assenti com a cabeça.
— Te vejo lá fora! – falei e segui pelos corredores do centro de treinamento e engoli em seco antes de sair para o campo.
Já tinha passado das quatro horas, então eu estava tensa sobre toda aquela questão jogadores e suas famílias. Esperava encontrar a mesma situação de antes do jogo da Suíça, mas até relaxei quando cheguei ao campo.
Os familiares estavam lá sim, mas organizados. A maioria ocupava lugar nas arquibancadas, os mais interessados estavam debruçados nas grades que davam para o campo, mas sem que os jogadores estivessem acumulados no mesmo. E os filhos... Estavam aloprando os pais dentro do campo. Abri um sorriso ao ver as filhas de Casemiro, Ederson, Firmino, Cássio e filhos de Neymar, Marcelo, Thiago Silva e outros. As idades eram bem diferentes, mas cada criança tentava jogar bola do seu jeito.
Passei por trás das grades, seguindo para o fundo do campo, onde tinha a entrada para o pessoal autorizado e olhei do outro lado do campo, suspirando ao ver Alisson erguendo sua filha acima da sua cabeça e brincando com ela de foguete. Ederson também estava do lado, sentado no chão, com sua filha no meio das pernas e Cássio na grade, entregando sua pequena de alguns meses para sua esposa.
Olhei rapidamente para ver se o perímetro estava seguro e se eu não levaria nenhuma bolada novamente, mas as bolas estavam baixas e ninguém estava realmente jogando, até Tite brincava com a filha de Casemiro.
Alisson se afastou do gol quando comecei a me aproximar e foi para a grade, estendendo sua filha para... Uma mulher, fazendo meu corpo gelar na hora. A mulher esticou as mãos para a loirinha, fazendo com que ela saísse do colo do pai e passasse rapidamente pelo da menina. Alisson ainda fez algumas brincadeiras com a menina, mas se apoiou ao lado da morena mais baixa e ficou papeando um pouco.
Aquilo havia me pego de jeito e me desnorteado um pouco. Não que eu realmente acreditasse que sairia uma linda história de amor de nossas provocações, mas eu estava gostando daquilo. Eu fazia as provocações tão na inocência que nem tinha percebido que estava realmente gostando dele.
Mas, o pior de tudo, é que nada fazia sentido na minha cabeça. Ele tinha uma esposa, ou uma namorada esperando por ele em casa e estava fazendo brincadeiras comigo? Ele parecia uma boa pessoa, mas agora eu tinha milhões de dúvidas pairando na minha cabeça. Não era dever meu saber que ele tinha esposa, apesar de que isso nunca tinha sido denunciado nos arquivos dos jogadores. Talvez seja uma namorada recente.
Abaixei os óculos escuros só por precaução, eu achava que não estava chorando, mas preferi não me denunciar. Talvez meus olhos estivessem vermelhos ou eu só estivesse com raiva também. Vai saber. Voltei a andar em direção aos três, chamando a atenção de Alisson antes mesmo de eu me colocar ao seu lado.
— Alisson! – chamei e ele se virou para mim.
— ... – Ele falou, abrindo um largo sorriso. – Vem conhecer a Helena! – Ele me chamou e eu revirei os olhos por baixos dos óculos escuros, me aproximando deles. – Helena, essa é a . – Ele falou para a menina risonha e eu dei um pequeno sorriso.
— Oi. – Sorri para a menina que esticava os braços para mim, mas eu somente ri, me afastando um pouco.
— E essa é Natália, ela é minha...
— Prazer conhecer vocês! – Tentei dar meu melhor sorriso para ambas e a mais baixa repetiu o gesto.
— é social mídia, assessora, enfim, ela cuida da gente. – Franzi a testa.
— Me rebaixaram para o posto de babá – brinquei com a namorada dele que riu.
— Deve ser pior do que crianças. – Sorri.
— Você não tem ideia. – Virei para Alisson. – Eu preciso falar contigo. – Falei, me afastando um pouco delas.
— Pode falar! – Ele falou sorrindo.
— Eu preciso de uma declaração sua. – Fui direta. – Navas comentou sobre você e a jornalista gostaria de um comentário seu sobre ele. Quer falar alguma coisa? – Peguei meu celular, abrindo o gravador para facilitar.
— Ah legal! – ele falou empolgado. – O que ele falou de mim? – Quis bufar e jogar a cabeça para trás, mas me mantive no que me lembrei que Bianca havia dito.
— Que você é um ótimo jovem jogador, que tem um futuro brilhante pela frente e blá, blá, blá! – Balancei a cabeça e ele me encarou.
— Tá tudo bem? – ele me perguntou e percebi que tinha sido direta demais.
— Eu estou com dor de cabeça. – Inventei a primeira coisa que veio e ele assentiu com a cabeça. – E aí? – Ele apontou para o celular e eu apertei o botão.
— Ah, fala que o Navas é um grande goleiro, um dos grandes jogadores da atualidade e é sempre um prazer vê—lo em campo. Eu vejo muito os vídeos dele para aprender e estou feliz em poder dividir o campo com ele na próxima sexta—feira. – Apertei o botão novamente.
— Obrigada! – falei, guardando o celular no bolso. – A gente se vê. – Não esperei que o mesmo respondesse e segui para fora por trás do gol, sorrindo ao ver Ederson com a sua pequena.
— Quem é essa? – Me aproximei de ambos, me abaixando.
— Essa é a Yasmim. – Ele falou sorrindo e sua menina sorriu para mim.
— Ah meu Deus! Essas bochechas.
— Fala “oi”, Yasmin – Ederson falou para a filha que olhou para mim, abrindo um largo sorriso.
— Oi – ela falou, se aproximando de mim e me dando um abracinho.
— Ah, meu Deus! – Acariciei os cachinhos da mesma e sorri. – Ela é uma fofa, Ederson! – Me levantei devagar.
— Obrigado! – ele falou e eu olhei para trás por alguns segundos, vendo Alisson brincando com sua filha novamente, enquanto ela era segurada pela mulher sorridente do outro lado da grade.
Suspirei, seguindo pelo lado contrário. Eu sabia que Alisson tinha uma filha, tinha feito questão de andar pelo seu Instagram inteiro, passando pela época do Inter, até os dias atuais. Eu só não sabia que ele tinha uma namorada, há anos que ele não postava algo com uma mulher e, ver aquela cena, fez com que meu coração doesse e eu quisesse sair dali o mais rápido possível, mas parecia que todos os jogadores queriam me mostrar suas crias.
Contagem regressiva: 27 dias para o fim da Copa... Ou menos.

Passei a bola de um pé para o outro e chutei a mesma em direção à parede, vendo—a voltar para meus pés pelo curto espaço entre a cama e a parede. Conferi o relógio e vi que estava cedo ainda, então chutei novamente.
— ! – Ouvi uma voz feminina e franzi a testa, levantando da cama e seguindo para a porta, abrindo uma pequena fresta, encontrando Angelica e Bianca ali.
— Entra! – falei e elas entraram, me fazendo fechar a porta rapidamente.
— Nossa! – Bianca falou franzindo a testa e me sentei novamente, pegando a bola com os pés.
— Você não vai jantar? A gente mandou mensagem no grupo e você não respondeu – Angelica perguntou.
— Eu vou mais tarde.
— Por quê? Está ocupada? – A mais velha olhou em volta e eu respirei fundo. – Vai tomar banho? Esperando o jogo acabar? – Ela olhou para TV que passava os primeiros jogos da segunda leva da fase de grupos, Rússia e Egito.
— Não, nada disso. – Balancei a cabeça. – Estou fugindo do Alisson. – Suspirei.
— O quê? Por quê? – Bianca falou, se sentando ao meu lado. – A gente estava até apostando se vocês ficariam durante a Copa ou depois dela. – Olhei para ela.
— Bianca! – Angelica a repreendeu e escondeu o rosto nas mãos.
— Esquece a aposta, simplesmente não vai rolar. – Suspirei, parando a bola nos pés e pegando—a com as mãos.
— O que aconteceu? – Angelica perguntou.
— Ele tem uma esposa. – Respirei fundo. – Ou namorada, vai saber. – Dei de ombros.
— Alisson tem esposa? – Bianca franziu a testa.
— Irmã eu posso te garantir que aquela mulher não era. – Respirei fundo. – Ela tem a mesma faixa etária que ele, bonita, longos cabelos castanhos, a filha dele interagia muito bem com ela... – Balancei com a cabeça.
— Mas você também é tudo isso que falou. – Dei um pequeno sorriso.
— Não, Angelica. A questão não é essa. – Balancei a cabeça. – Para começar que eu não me envolvo com homem comprometido. E para continuar, ele podia ter me falado, sabe? – Balancei a cabeça. – Ou melhor, não ter me cantado lá na Granja, para começo de conversa. – Elas suspiraram, me dando aquele olhar baixo.
— Por que você não fala com ele? – Angelica sugeriu.
— E falar o quê? Brigar com ele por ter me cantado? Ou por não ter contado que tem alguém? – Ri irônica. – Vai dar muito certo mesmo.
— Fiquei chateada agora, confesso – Bianca falou. – Todo mundo estava gostando desse clima entre vocês. – Balancei a cabeça. – Vocês dariam um ótimo casal. – Ri fraco.
— Valeu, Bianca, mas não vai rolar. – Suspirei.
— E como você vai ficar? – Angelica perguntou e eu dei de ombros.
— Temos ainda quase um mês de Copa, se tudo der certo. Eu vou entrar no modo profissional. – Movimentei as mãos. – Seja o que Deus quiser. – Elas assentiram com a cabeça.
— Vai ficar tudo bem. – Sorri.
— Vai sim. – Ri fraco. – Só passar o susto. – Elas assentiram com a cabeça.
— Não quer subir mesmo? – Bianca perguntou.
— Não, não. Ele costuma jantar cedo. Antes do horário acabar eu vou.
— Ok! – elas falaram, acenando e se retiraram do quarto.
Peguei a bola nos meus pés e abracei a mesma, me deitando na cama e respirando fundo, sentindo meus olhos molhados e uma lágrima escorrer pelo meu nariz, pingando na cama. Eu tinha cometido o erro de me apaixonar por um jogador, quando eu sabia que não teria nenhum futuro com ele, mas, por causa da brincadeira, eu acabei me deixando envolver e só percebi quando era tarde demais.
Pelo menos, depois da Copa, tinha certeza que teria pelo menos uns dois meses até vê—lo, no próximo amistoso do Brasil, isso se eu fosse chamada para acompanhar e se ele fosse convocado, em caso de mudança de técnicos.
Minha cabeça doeu ao pensar em todos os “ses” que rodavam minha vida. Era “se” o Brasil passasse de fase, “se” o Tite continuasse na Seleção, “se” eu acompanhasse outros jogos internacionais, apesar de que podia imaginar que várias pessoas da comunicação me odiavam na CBF por ter furado fila de outros assessores para vir à Copa.
A dor de cabeça era tanta que eu tentei fechar os olhos e dormir, mas não deu. O tempo foi passando aos poucos e decidi parar de enrolar quando faltavam 15 minutos para o fim do horário de janta. Enfiei um moletom qualquer, colocando o capuz na minha cabeça e saí do quarto, deixando a bola quicar pelo quarto.
Saí do mesmo devagar, dando uma rápida olhada em volta, checando se a barra estava limpa. Puxei a porta, evitando fazer qualquer tipo de barulho e segui até os elevadores, apertei o botão do meio deles e afundei as mãos no casaco, aguardando o mesmo, conferindo se os dois lados do corredor estavam vazios.
O elevador se abriu em minha frente e dei dois braços para trás, engolindo em seco ao encontrar a turma de goleiros saindo do mesmo. Carma! Dei um pequeno sorriso vendo meu trio favorito.
— E aí, ? – Cássio brincou e eu respirei fundo.
— Ei! – Falei e apertei o botão da cobertura, vendo o rosto de Alisson sumir pelas portas de metal e eu respirar aliviada, me encostando na parede do elevador por alguns segundos.
Segui direto para o buffet e dei uma rápida olhada no que tinha ali. Respirei fundo com a variedade de comidas russas, brasileiras e afins e segui o básico, pedi um americano de presunto para o homem do outro lado do balcão e fiquei olhando para trás, para ver se alguém aparecia. Enquanto aguardava, peguei duas latas de Guaraná e guardei no bolso do moletom canguru, além de pegar um pedaço de torta de chocolate que tinha de sobremesa.
— Aqui! – O homem falou em português e sorri, pegando a embalagem fechada e fui para a mesa lateral, enchendo os bolsos de guardanapos e ketchup.
Voltei pelo mesmo caminho que vi e bati o pé no piso do elevador, me animando quando o mesmo parou no andar de baixo, abrindo em minha frente. Franzi a testa ao ver boa parte dos jogadores espalhados no chão do corredor central e engoli em seco. Eles estavam com seus batuques e Alisson com seu violão, mas pararam de tocar quando eu apareci.
— Ei, ! Vem cantar com a gente! – Marcelo falou do outro lado da galera, me chamando com a mão.
— É, fica com a gente! – Alisson falou com um sorriso no rosto e eu tentei não retribuir.
— Valeu, gente! Mas eu tenho trabalho acumulado. Tite me pediu para fazer umas coisas. – Falei com um sorriso de lado no rosto. – Quem sabe depois? – Dei de ombros, acenando com a mão livre e segui andando rápido até o quarto, antes que certo alguém pudesse vir atrás de mim e bati a porta, engolindo em seco.
Senti a respiração pesada e me sentei na escrivaninha, abrindo alguns guardanapos na mesma e colocando meu lanche, refrigerantes e sobremesas em cima do mesmo e suspirei, notando que talvez eu não estivesse com tanta fome assim.
Mordisquei a torta de chocolate e bebi um pouco de refrigerante, sentindo um amargar o outro e empurrei ambos, afastando a cadeira da escrivaninha e respirei fundo. Senti meu celular vibrar em meu bolso e, além de mensagens convencionais de minha mãe, do grupo da família e de Bernardo, uma nova mensagem tinha chegado.
Puxei as notificações, vendo o nome “AB1” na mesma e suspirei. Eu tinha colocado os nomes dos jogadores assim para não ficar claro quem era, caso alguém pegasse meu celular. A notificação denunciava duas mensagens.
“Ei!”
“O que está acontecendo?”
Engoli em seco, pensando o que responder. Se mandaria a real e falaria do assunto que estava deixando minha cabeça quente desde mais cedo ou se fingiria que nada estava acontecendo. Engoli em seco, bufando forte e optei pela terceira opção, deixá—lo de ar. Eu não tinha estruturas para lidar com aquilo agora.

Eu não tive maturidade para lidar com aquilo de frente, pelo menos não enquanto tudo tinha acontecido muito cedo, então fiz o que uma pessoa imatura como eu, faria numa situação dessas: fugi do cara.
Claro que foi difícil fazer isso quando a gente comia juntos, trabalhava juntos e eu tinha que ficar disponível para ele o tempo todo. A vantagem é que eles treinaram muito nesses dois dias que antecediam a viagem para São Petersburgo, já que não treinariam lá, só aquela horinha no estádio do jogo. Além de que seus familiares tinham permissão para ficar no nosso hotel até meia—noite, então foi minha deixa.
Tirando reuniões esporádicas com a equipe técnica, da CBF e da comunicação para organizar o jogo, eu ficava em meu quarto o tempo inteiro, com a porta aberta, mas não acreditando que alguém apareceria lá. O bom é que eu consegui ver os jogos quase inteiros daqueles dois últimos dias.
Ele ainda tentou vir atrás de mim pelo WhatsApp no dia seguinte ainda, mas acho que depois que eu ignorei a terceira mensagem, ele notou que eu não estava muito afim de papo e se manteve um pouco longe. Eu me senti aliviada, mas com o coração pequeno quando isso aconteceu, me deixando pior do que eu já estava. Mas agora Inês é morta, outro jogo estava se aproximando, eu estava nervosa com as ligações da imprensa e não queria deixá—lo com algo que provavelmente o deixaria mais nervoso que o normal.
O voo para São Petersburgo saiu do aeroporto às oito horas da noite em ponto. Esse avião era diferente do que estávamos acostumados, não tinha divisão de classes, e muito mais lugares do que precisássemos, então pedi para Angelica se sentar comigo, mas me escondendo na poltrona do canto, tentando me distrair com as músicas do meu iPod e o pôr do sol da Rússia que acontecia bem mais tarde do que estava acostumada no Brasil.
Chegamos ao hotel com festa brasileira, me fazendo esquecer um pouco de Alisson, imprensa, Costa Rica e Copa do Mundo. Eu só pensava que deveria ter pedido para Vinícius vir de Canarinho, conseguiríamos grandes imagens, mas quem sabe no próximo jogo em Moscou?
— Parece que você está em casa – comentei com Cássio, ao ver que o hotel se chamava Corinthia e ele sorriu.
— Só para dar mais saudades de casa – ele falou e eu ri, abraçando—o de lado, ou melhor, passando a mão em suas costas, por ele ser muito mais alto que eu.
— Mas já? – perguntei.
— Você não? – Ele apoiou o braço em meu ombro.
— Eu já moro longe da minha família, então, não faria muita diferença. Talvez do meu colega de quarto, conversar pelo WhatsApp não é a mesma coisa. – Ele riu fraco.
Me afastei dele quando entramos no hotel e toda a turma se juntou no lobby, esperando ouvir as gentis palavras de boas—vindas do gerente do hotel e depois me juntar com o pessoal da comunicação para pegar as chaves dos quartos e me preparar para separar as mesmas.
— Vamos lá, gente! – falei, sacudindo o molho de chaves. Dessa vez eram realmente chaves. – Aqui serão quatro pessoas por quarto novamente, mas dessa vez serão duas camas de casais...
— Ah! – eles reclamaram e eu ri.
— ...Que podem ser separadas em quatro camas de solteiro – finalizei e eles riram. – Caso não queiram dormir agarradinhos, podem separar as camas. – Eles riram. – Os quartos daqui são bem maiores que o de Rostov, então relaxem, beleza? – Ri fraco.
— Beleza! – Eles responderam.
— Talvez tenhamos alguém das três equipes misturadas nos quartos, tá? Pegamos só quartos de quatro, então talvez equipe fica com comunicação, comunicação com jogadores e...
— Aê! – Alguns comemoraram e eu ri.
— Não, gente, não eu! – falei rindo.
— Ah! – Eles brincaram e eu revirei os olhos.
— Ah, venham pegar suas chaves logo. – Sacudi o molho e peguei uma qualquer, entregando para Bianca, olhando sugestivamente para ela.
— Lucas, quer ficar com a gente? – ela perguntou, puxando Angelica também.
— Tá, pode ser. – Ele deu de ombros.
Jogadores e equipe técnica se aproximaram aos poucos, até o molho de chaves ficar vazio. Olhei para Alisson de longe e vi que ele seguia junto de Jesus e Willian. Soltei um suspiro, balançando a cabeça e, quando todo mundo tinha seguido para seus lugares, eu fiz o mesmo caminho com meu trio da vez. Vinícius e Bóris tinham se enfiado no quarto dos RPs.
Depois de cansar de esperar pelo elevador, nós pegamos nossas malas e subimos de escada, encontrando o caos lá em cima. Aparentemente um único andar tinha sido reservado para nós, mas um andar do hotel Corinthia era da largura de um quarteirão inteiro.
Então, quando entramos no corredor pela escada de um lado, tinha um corredor gigante, tomado por malas, homens de chinelo e música alta. Nós quatro nos entreolhamos surpresos e começamos a seguir pelo corredor, desviando das pessoas e procurando nossos quartos.
Eu olhava para dentro dos quartos com as portas abertas à procura dele. Acabava cumprimentando alguns jogadores, pelo meio do caminho, passando a rodinha por cima de alguns pés, mas dando risada de tudo.
Acabei esbarrando no dito cujo ao tentar olhar por dentro de um dos quartos e o mesmo sair, para ver o que estava acontecendo lá fora. Apoiei a mão no peito dele, me afastando alguns passos para trás. Eu precisava dizer alguma coisa, por mais idiota que fosse.
— Oi – falei e ele deu um sorriso de lado, fazendo que eu relaxasse o meu.
— Agora você fala? – ele perguntou baixo e eu abaixei minhas armas.
— Talvez ainda não seja a hora, para falar a verdade. – Dei de ombros.
— Por quê? O que aconteceu, ? – Respirei fundo.
— Eu prometo que eu falo contigo, eu só preciso me organizar. – Assenti com a cabeça e ele fez o mesmo gesto, mas negativamente. – Eu prometo. – Falei sincera, apoiando a mão livre em seu ombro e fiquei rapidamente na ponta dos pés, dando um rápido beijo em sua bochecha, vendo um sorriso se formar em seu rosto. – Boa noite. – Falei me afastando do mesmo e me sentindo burra novamente por ter feito aquilo, mas era difícil resistir àqueles olhos verdes.

A manhã do dia seguinte eu fiquei o dia inteiro no quarto de hotel. Eu, Bianca e Lucas, para falar a verdade. Angelica ainda saiu com os RPs para resolver os últimos preparativos do jogo do dia seguinte. Eu e Bianca ficamos revezando os telefones para repassarmos informações para a imprensa e Lucas ficou na janela tirando algumas fotos do pessoal lá embaixo.
Aquela manhã estava mais gelada em São Petersburgo, foi a primeira vez que eu usei casaco com o real propósito de me esquentar e não de esconder comida ou de me esconder. Quando eu consegui uma brecha dos telefonemas da imprensa, eu liguei o computador e comecei a passar pelas fotos do drive, colocando na minha cabeça que queria viralizar um meme do Alisson.
Procurei pelas fotos dele e acabei achado uma sensacional, do mesmo dia do primeiro meme, dele cumprimentando o canarinho, com Marquinhos vindo atrás dele. Eu queria suspirar em todas as fotos que eu via dele, mas precisava deixar a raiva do Canarinho tomar conta de mim.
Abri a foto no Photoshop, colocando no formato exato e na fonte e tamanho combinado também. Eu estava escrevendo aquilo como torcedora, mas principalmente para chamar a atenção dele. Estralei os dedos e coloquei—o para funcionar, escrevendo uma só frase, dividindo em cima e embaixo da foto.
“Se você levar gol sexta—feira, eu te faço engolir a bola, seu cuzão”.
Fiquei pensando por um tempo sobre a última palavra. Se fosse antes, eu saberia que ele daria risada disso, agora eu já não tinha mais certeza nenhuma. Abanei a mão, salvando o arquivo, enviando para o pessoal do Rio, mesmo sabendo que eles só começariam a trabalhar em quatro horas.
Abri o navegador, entrando no WhatsApp Web e abrindo o grupo da CBF. Naquele grupo não estava só os jogadores, acabou viralizando, então tinha todos os quase 50 membros que vieram para a Rússia, menos os dirigentes, é claro. Mas Tite, a turma da equipe técnica e a comunicação também estavam lá. Enviei a imagem para o grupo e esperei o circo pegar fogo, ouvindo os celulares de Bianca e de Lucas denunciarem que a mensagem tinha chego.
— Mano! – Lucas foi o primeiro a falar, gargalhando. – Isso tá demais! – Ele esticou a mão e eu bati na mesma. – Tá sensacional! – Ele riu e eu olhei as mensagens começarem a surgir pelo computador.
A maioria eram de risadas, gifs de pessoas rindo, definições como a de Lucas, mas tudo com respeito, é claro.
— Acho que você tá provocando – Bianca comentou e eu olhei para ela, dando de ombros.
— Talvez. – Dei de ombros. – Eu não deveria tê—lo ignorado, mas eu travei. – Respirei fundo. – Mas eu não vou falar com ele agora, ele já deve estar bem nervoso por causa do jogo, vou esperar passar. – Ela assentiu com a cabeça.
— Eu tentei procurar alguma coisa sobre a mulher e não achei nada, – ela falou. – No Instagram dela até tem algumas fotos dos dois, mas sempre com a Helena. – Suspirei.
— Eu não sei o que está acontecendo, mas eu vou descobrir. – Relaxei os olhos.
— Do que vocês estão falando? – Lucas perguntou, se sentando na beirada da minha cama.
— Sobre a e o Alisson. Ela o viu com uma mulher no treino segunda—feira e ficou encafifada.
— Ah, eu vi alguém com ele mesmo – ele comentou.
— Sabe quem é? – Eu e Bianca perguntamos juntas.
— Eu hein! – Ele se levantou. – Não sei, mas o Alisson é um cara bacana, tenho certeza que ele tem uma explicação muito plausível para isso. – Ele abanou a mão. – Irmã, talvez.
— Não, ele só tem um irmão mais velho. – Ele franziu os lábios.
— Prima? – Revirei os olhos.
— Ah, fica quieto, Lucas – falei e eles riram juntos.
— Ele respondeu – Lucas falou e eu olhei para o computador, rolando a conversando para cima, até encontrar a dele.
“Acho que alguém não gosta de mim, hahaha”. Ri fraco, vendo várias respostas depois disso, a maioria igual.
“Até parece”. Abri um sorriso, sabendo do que todos estavam falando e marquei a mensagem de Alisson, enviando minha resposta.
“Alguém não, mas um animal amarelo muito desproporcional para sua espécie”. O pessoal voltou a rir e eu sorri, vendo a conversa de Vinícius se abrir.
“Estamos indo andar por São Petersburgo com o Canarinho, vamos?”, dizia a mensagem e olhei rapidamente minha caixa de e—mail limpa e o celular que não tocava há 10 minutos e poderia aproveitar com eles.
“Vamos. Vou só me trocar. Encontro vocês no lobby em 10 minutos”, respondi e me levantei correndo.
— Eu vou sair com o Canarinho – anunciei. – Alguém quer ir?
— Ah, me leva, pelo amor de Deus! Não aguento ficar sem fazer nada – Lucas falou, se levantando e eu ri.
— Bi? – Virei para ela que apontou para os dois celulares e eu assenti com a cabeça. — A gente já volta. – Falei e ela assentiu com a cabeça.
Nosso passeio por São Petersburgo foi rápido. Fomos direto para o estádio, onde encontramos alguns torcedores fazendo festa, cantando a música para o Canarinho. Aproveitamos para tirar algumas fotos com as pessoas e fazer algumas imagens do Canarinho com a bola. Não demorou nem duas horas. Então, voltamos para o hotel e a morgar até a hora do treino.
Bom, morgar era elogio, segui dando aquela força para Bianca não surtar logo nos primeiros dias.

— E aí, como fui? – Thiago Silva me perguntou quando o tirei da coletiva, seguindo para a antessala.
— Eu sou suspeita para falar, você sempre vai ser meu capitão. – Ele olhou para mim com um pequeno sorriso nos lábios.
— Mesmo? – ele perguntou. – E depois do...
— Do jogo da Alemanha? Ah, pelo amor, Thiago. – Passei o braço pelos seus ombros. – Aquilo não foi culpa sua, de ninguém, na verdade. – Dei de ombros. – Se quiser culpar alguém, culpe aquele Zúñiga que meteu uma joelhada nas costas do Neymar que a gente não sabia nem se ele ia voltar a andar. – Dei de ombros e ele sorriu, assentindo com a cabeça.
— Obrigada, . Mesmo. – Vi que seus olhos estavam marejados e o abracei, trazendo para perto de mim.
— Você ótimo, Thiago. – Segurei seu rosto com as mãos. – Não deixe que ninguém te culpe por aquilo. – Ele assentiu com a cabeça. – Confesso que você é quem eu mais penso sobre essa situação de Copa.
— Por quê? – Ele franziu a testa e eu abaixei as mãos, suspirando.
— Na teoria, é a sua última. – Ele suspirou, assentindo com a cabeça.
— Vamos fazer nosso melhor, te prometo. – Ele segurou minha mão e eu assenti com a cabeça.
— Eu sei! – Sorri. – Vocês sempre fazem. – Ele me abraçou de lado e voltamos para o campo da Arena Zenit.
— Eita! O que houve? – Thiago saiu correndo na minha frente e só depois eu notei que uma rodinha estava formada na lateral do campo, com alguns jogadores em volta.
Dei uma corrida em direção ao mesmo e empurrei levemente alguns dos jogadores, vendo—os abrir espaço para mim e encontrei Danilo deitado em uma maca e uma feição de dor no rosto. Bianca e Tite estavam em nossa frente e cada um com a feição pior que Danilo. Respirei fundo, coçando a cabeça e decidi ser a primeira a falar.
— Tite, Bianca? – Eles olharam para mim e eu os chamei para o lado, passando pelos jogadores aglomerados e nos afastamos alguns passos.
— Vocês precisam de uma resposta, não é?! – Tite perguntou e eu assenti com a cabeça.
— Eu preciso saber o que aconteceu, na verdade – falei e Tite passou a mão fortemente no rosto.
— Lesão no quadril – ele e Bianca falaram juntos.
— Mas Rodrigo disse que não tem como ele jogar amanhã.
— Preciso montar um release para a imprensa. – Assenti com a cabeça.
— E com quem você vai substituir? – perguntei e ele pareceu pensar por alguns segundos, respirando fundo. – Você tem um plano B, não tem?
— Eu tenho, mas eu não acredito nisso! Um dia antes do jogo! – Ele respirou fundo.
— Entendo, Tite. Mas precisamos agilizar o processo. É para coisas assim que temos 23 jogadores à disposição. – Ele assentiu com a cabeça.
— Vai ser o Fagner. – Assenti com a cabeça. – Pior que nem temos tempo para treinar, só estamos aqui ainda para tirar Danilo daqui, nosso tempo já acabou.
— Vai dar certo, confia – falei para ele. – Agora vamos, antes que a FIFA nos coma vivos. – Ele assentiu com a cabeça e segui com Bianca, acenei para poucos jogadores que estavam afastados da situação e eles começaram a me seguir.
A viagem de volta para o hotel durou cerca de 30 minutos, os jogadores já seguiram para o restaurante para jantar e provavelmente subiriam para os quartos logo que finalizassem. O jogo era mais cedo amanhã, três da tarde, então era certeza que eles logo se esconderiam nos quartos, afinal, o clima já estava um pouco pesado.
Eu e Bianca subimos para o quarto para preparar um release sobre a lesão de Danilo e a substituição de Fagner em seu lugar e aproveitamos para divulgar para a imprensa. Eu quase já podia ouvir os celulares tocando, com a imprensa aloprada sobre esse release, mas eu e Bianca demos o dia como finalizado e, agora, só depois do jogo.
Bianca optou por jantar antes de tomar banho, disse que quando voltasse tomaria banho e iria direto para a cama. Eu já aproveitei o quarto vazio, enquanto Angelica e Lucas também jantavam, e fui tomar meu banho. Fiquei tentada em não colocar meu pijama e entrar embaixo das cobertas, mas coloquei uma roupa qualquer e meu moletom e segui para o restaurante, encontrando a maioria dos jogadores e equipe técnica voltando para nosso andar.
Encontrei minha equipe esperando no andar de baixo e perguntaram se queria que me esperassem, neguei a companhia, comeria alguma coisinha e já subiria também. Entrei pelo restaurante e o vi vazio. Notei que Tite estava lá junto do seu grupo restrito: Edu, Cléber, Fabio e Sylvinho. Além de poucos jogadores atrasados como Fagner, Marcelo e Willian.
Acenei rapidamente para eles e segui para o buffet. Olhei as opções, mas o macarrão me chamou atenção. Peguei um pouco do mesmo, um pouco de molho branco e algumas batatas fritas para acompanhar. Dessa vez dispensei a sobremesa e peguei um suco de uva natural que tinha no mesmo.
Os jogadores já tinham subido quando voltei para a mesa, então peguei uma sozinha, imaginando que a equipe técnica falava sobre o jogo de amanhã, e comi enquanto acompanhava o jogo que passava na TV. Argentina perdia da Croácia de 1 a 0, mas ainda estava no começo do segundo tempo, eles conseguiriam virar.
— Oi, moça! – Olhei para o lado, vendo Tite na frente da minha mesa. – Posso sentar?
— Claro, professor! – falei e ele riu, se sentando e apoiando os braços na mesa. – Preparado para amanhã? – Perguntei e ele suspirou.
— Sim! – Ele assentiu com a cabeça. – Estaremos lidando com um dos grandes goleiros do mundo, mas vai dar certo! – Assenti com a cabeça, bebericando mais um pouco do seu suco. — E você? – Franzi a testa.
— O quê? Pronta para ser bombardeada de perguntas? Brigar com os jogadores? Me irritar sozinha no vestiário? – Ele riu.
— Não – ele falou rindo. – Pronta para voltar a falar com Alisson?
— Quê? – Franzi a testa.
— Todo mundo já sabe, . – Ele falou sorrindo. – Vocês estão se provocando desde a Granja, homens também fofocam, sabia? – Ri fraco, sentindo meu rosto esquentar.
— Estou sabendo que tinha até uma aposta para saber se ficaríamos junto agora ou depois da Copa. – Ele riu.
— Eu apostei para agora. – Ele ergueu o dedo e eu balancei a cabeça negativamente.
— Vocês! – Ele riu.
— Mas o que houve? – Ele me olhou mais sério. – Um dia estava tudo bem e do nada meu goleiro principal estava triste pelos cantos? Você tá fugindo dele...?
— Ele mentiu para mim, Tite. – Pensei no que tinha dito. – Ou melhor, ele nunca me disse que tinha outra pessoa.
— O Alisson? – Assenti com a cabeça.
— É. – Larguei o garfo, percebendo que não tinha mais fome. – Ele ainda me apresentou a ela na segunda—feira, quando as crianças estavam no campo. – Ele assentiu com a cabeça.
— Só de curiosidade, como ele a apresentou para ti? – Ele perguntou.
— Como... – Parei por um segundo. – Na verdade, eu não deixei que ele terminasse de falar. – Suspirei. – Eu estava travada demais para pensar em outra coisa. – Ele riu, assentindo com a cabeça.
— Ele não tem ninguém, . – Ele falou. – Aquela moça que você viu, ela é a mãe da Helena, mas eles não estão juntos. – Ele negou com a cabeça. – Eles foram namorados na época do Inter, mas depois seguiram para direção opostas. Quando ele foi anunciado no Roma, eles tiveram uma lembrança e nasceu a Helena, mas desde aquela lembrança, eles nunca tiveram mais nada. – Ele deu de ombros. – Mas eles têm uma filha juntos, tentam fazer com que ela tenha uma vida mais normal possível, com os pais longe e tudo mais. – Comecei a rir sozinha, negando com a cabeça.
— Eu fui uma idiota, não fui? – Ele começou a rir também, segurando minha mão em cima da mesa.
— Vocês são jovens demais, . É normal que tirem informações precipitadas e prefiram se fechar em seu mundinho antes de conversar. – Suspirei.
— Isso é o que mais me surpreende, Tite. Ele só tem 25 anos. – Suspirei. – Como alguém dessa idade pode ter uma filha? Trabalhar fora? Sozinho? E ainda agir como um adolescente? – Ri sozinha. — Porque é isso que estamos fazendo. Estamos trocando provocações desde que a gente se viu, praticamente. – Suspirei e ele deu de ombros.
— Vocês estão naquela fase em que querem ter independência, ganhar seu dinheiro, conhecer o mundo, mas aposto que adorariam ficar em casa, de pijama, vendo filmes da Disney o dia inteiro ou que a mãe dê colo quando vocês ficam doentes ou frustrados. – Suspirei, ponderando com a cabeça.
— Você está certo. – Suspirei e ele sorriu.
— Fale com ele! Parem de besteiras. Vocês são ótimos juntos e eu tenho visto uma afinidade que eu não via há muito tempo. – Dei um pequeno sorriso. – Além disso, eu apostei 20 reais que vocês ficam juntos antes da Copa. – Balancei a cabeça, rindo.
— Você está me dando permissão de namorar seu jogador em horário de trabalho? – perguntei e ele deu de ombros.
— Com discrição, é claro. – Ele piscou. – Mas se isso fizer com que ele fique mais calmo, por que não? – Ele se levantou. – Mas claro, longe dos dirigentes, por favor. – Assenti com a cabeça. – Tenho vontade de matar um de vez em quando.
— Somos dois – falei, revirando os olhos e ele sorriu.
— Pare de besteira, ok?! – Assenti com a cabeça, sorrindo.
— Acho que ele está nervoso com o jogo, eu falo com ele depois.
— Talvez seja uma boa ideia. – Ele assentiu com a cabeça. – Precisamos ganhar amanhã.
— Por favor. – Sorri e ele acenou com a mão.
— Boa noite. – Repeti o gesto.
— Boa noite. – Sorri, negando com a cabeça por causa da minha burrice e peguei meu celular no bolso, abrindo o WhatsApp e procurando a conversa dele.
Esperei as informações dele carregar ao lado da foto e suspirei, vendo que ele não mexia no celular há quase meia hora. Segui para o Instagram, vendo que ele não tinha postado nada de novo. Suspirei e bloqueei o celular, seria melhor mesmo eu deixar isso para depois do jogo, todos estávamos com a cabeça quente demais para pensar. Ainda mais em algo pessoal.

Fui uma das primeiras a entrar no vestiário naquele dia, antes mesmo dos jogadores, e já notei que ele era um pouco diferente dos outros jogos. Ele era bem mais largo e no fim do mesmo tinha até um campo reduzido de futebol society, além do vestiário ser ao contrário. Ao invés do espaço para eu me movimentar ser atrás, ele era na frente.
Olhei os uniformes azuis daquele dia e fiz um sinal da cruz, quem sabe se eu pedisse para Nossa Senhora Aparecida, que foi inspirada a cor do segundo uniforme, esse jogo seria melhor?
Me distraí quando os jogadores entraram no vestiário e notei Alisson indo para a minha esquerda quieto, distraído com seu chimarrão e os fones no ouvido. Eu não esperava nenhum tipo de contato naquele momento, que ele ficasse em seu mundo, relaxando para o jogo.
Coloquei a mochila em cima da bancada e comecei a colocar os eletrônicos em cima da mesma, procurar pelas tomadas e conectar em todos os sites e abrir arquivos necessários para fazer essa cobertura.
Atravessei o vestiário, desviando dos jogadores que saiam para o treino e tirei meus sapatos amarelos, subindo em uma das caixas da CBF e dei uma mexida na direção da televisão, encontrando o controle embaixo da mesma. Trouxe o mesmo para mim e já procurei pelo botão SAP, não dava para assistir a amarelinha em russo, não é?!
Os minutos foram passando aos poucos, as mãos começavam a suar e as arquibancadas faziam cada vez mais barulho. Os jogadores voltaram do treino e já se preparavam para sair novamente. Puxei uma das caixas de isotônico e usei como banco, batendo as unhas pintadas de verde na bancada branca.
— Está na hora! – Tite falou e eu me afastei do caminho, me escorando na parede ao lado do armário de Alisson. – Sabemos o quanto esse jogo vai ser difícil, mas precisamos da vitória. O primeiro jogo passou, não vamos nos lembrar dele, mas essa é a nossa última chance de vitória para chegarmos com folga contra a Sérvia. O time da Costa Rica não é muito forte, nem tem jogadores muito conhecidos, mas seu goleiro é um dos melhores do mundo. – Ele falou firme. – Vamos juntos, com garra, para fazer um jogo bonito e sair na frente. Ok?!
— Ok! – os jogadores responderam juntos.
Meu Deus! Passei a mão no rosto, respirando fundo. Meu coração começava a bater forte e o barulho acima da gente ficava cada vez mais ensurdecedor. Fechei os olhos por um tempo, tentando relevar tudo.
— Vamos lá! – Tite falou e eu abri os olhos, vendo os jogadores começarem a sair e eu fiquei no canto, esperando que todos saíssem, respirando fundo.
— Bom jogo – cochichei para Alisson quando ele abaixou sua cuia e o mesmo olhou para mim, assentindo com a cabeça.
— Obrigado! – ele falou e eu assenti com a cabeça, bufando alto quando eles saíram.
— Vamos lá! Vamos lá! – falei, passando a mão uma na outra e segui para a porta do vestiário, fechando a mesma.
Fui para meu lugar, esticando os braços, estalando os dedos e virando o pescoço, ouvindo outro estalo. Abri o drive de Lucas, vendo algumas fotos do treinamento e respirei fundo, olhando para os jogadores entrando no campo e soltei o ar devagar.
Ouvi o hino nacional, filmando devagar cada jogador e eu não conseguia evitar suspirar por Alisson, eu tinha me apaixonado por ele, agora teria que correr para recuperar o tempo perdido.
Fechei os olhos e balancei a cabeça, tirando esses pensamentos inapropriados da minha cabeça e ouvi o apito inicial, me fazendo abrir os olhos e apoiar as mãos sobre o teclado, esperando um grande jogo.
A primeira tentativa de gol veio logo no começo, nos primeiros três minutos, Coutinho mandou uma alta, passando por cima da trave. Cinco minutos tentamos com o Willian novamente, mas o jogador costa—riquenho veio por trás, empurrando—o com as duas mãos. Neymar fez a cobrança da falta, mas também foi tirada de cabeça pelos adversários.
Em uma das idas e vindas da bola, Casemiro acabou levando uma bolada na cara, fazendo com que ele pedisse um tempo, se retirando do campo e pude notar que seu nariz estava sangrando, mas ele estava bem.
Neymar correu com um costa—riquenho, tropeçando no mesmo, fazendo com que ele caísse. A falta foi marcada, mas o jogo seguiu. A Costa Rica veio para o ataque, fazendo com que eu levantasse do banco, debruçando sobre a mesa.
— Alisson! Alisson! Alisson! – falei ao ver a bola se aproximar, mas ela passou beirando o gol e foi para fora. – Uh! – Me sentei novamente.
Logo em seguida a Costa Rica tentou se aproximar, mas a defesa brasileira estava bem fechada. Neymar caiu no chão, me fazendo revirar os olhos. O juiz se aproximou dele, mas logo ele se levanta, apesar de estar fazendo cara de dor, parecia que estava tudo bem.
Só com o aquele começo de jogo, já deu para notar que a Costa Rica não facilitaria muito. Foram feitas faltas no Marcelo, Neymar cobrou, mas foi tirado pela defesa. Depois foi feita uma falta em cima do Willian e outra em Neymar, puxando—o pela camisa, mas foi na mão do Navas.
— Porra! – falei sozinha.
Na saída de bola do Navas, Miranda atropelou o mesmo, parando a jogada, me fazendo bater a mão na testa. Não pode atrapalhar a saída de bola do goleiro, Miranda! Franzi a testa, respirando fundo, vendo a bola correr novamente para o campo brasileiro. A Costa Rica até tentou, mas Alisson a pegou com facilidade, fora da linha do gol. A bola volta para o campo brasileiro, mas não passa pela defesa.
Em uma saída de bola para lateral, Jesus chutou por cima, mas a Costa Rica foi em direção ao mesmo, fazendo—o cair no chão, sentindo a coxa. Passei a mão na cabeça, puxando os cabelos e respirei fundo. Neymar cobrou a falta e Thiago Silva até tentou cabecear, mas foi para fora.
Neymar fez uma tentativa de chute direto para o gol, mas vai para fora. Navas nem precisou se mexer. Ele mandou a bola para o meio do campo novamente, passando para o campo brasileiro, mas a bola voltou para os pés de Willian e foi sendo passada por Thiago, Fagner, Casemiro, Marcelo... E saiu pela lateral.
Marcelo passou a mesma para Neymar que perdeu, passando para Willian que chutou direto para Jesus que ajeitou e a mandou para o fundo do gol.
— Tá impedido, caramba! – gritei ouvindo os gritos, antes mesmo de ver o replay e passei a mão no rosto. – Teria sido um gol lindo. – Respirei fundo, vendo o bandeirinha marcar e estralei os dedos e voltando a digitar.
Neymar tentou duas vezes seguidas para o gol, mas Navas pegou a mesma por baixo, deixando a bola escapar para o lado. E em seguida, foi forte demais, fazendo—o ser desviado para o fundo e a bola ser pega pelo costa—riquenho. Marcelo tomou do mesmo e tentou, mas passou raspando no gol, indo para fora. Coutinho tentou segundos depois, mas chutou—a por baixo, de bico, e a mesma passou por cima da trave, indo para a galera.
— Porra, Navas! Vai ser difícil! – Respirei fundo.
Vi Neymar caindo pouco antes da área e o juiz não marcou, mas ele logo se levantou. Ok, tá bem. Ele voltou novamente com a bola, após ser passada por Paulinho, mas o jogador adversário tira a bola de cabeça. Jesus cai, Neymar cai...
— Vamos, gente, levanta! O tempo está rolando. – Respirei fundo.
Willian tentou o gol, mas chutou forte demais, indo para o alto e para longe do gol. Marcelo tentou em seguida, mas o costa—riquenho tirou de cabeça... Falta no Thiago Silva, mas ele logo se levantou.
— Não mexe no meu capitão, porra! – falei firme, batendo a mão na mesa, ouvindo as arquibancadas gritando acima de mim. Espero que seja de brasileiros.
Em uma cobrança de escanteio, Paulinho caiu da área, mas pareceu normal, juiz não se importou com o lance. A bola atravessou o campo, passando para o campo brasileiro e Alisson se retirou do gol, pegando a bola por baixo, mas o bandeirinha deu como impedido no mesmo tempo.
Coutinho passou para Marcelo que chutou direto para o gol, mas... Não! Foi direto na mão do Navas. A bola voltou para o meio do campo, passando pelos pés dos brasileiros. Willian passou para Fagner, mas também foi direto na mão de Navas. Eita!
A bola cruzou o campo novamente, em uma tentativa de gol da Costa Rica, mas passou longe de Alisson, a defesa afastou a bola rapidamente. Marcelo passou a bola para Neymar, mas ele foi impedido pelo jogador adversário. Ele passou a mão no rosto e levantou reclamando.
— Neymar... – repreendi como se estivesse em minha frente e anotei o lance.
Um minuto de acréscimo.
— Mas já? – falei ao ver o número se formar ali em cima e eu respirei fundo.
A bola cruzou o campo, mas Miranda fez uma defesa um pouco forte, fazendo falta no outro jogador. A Costa Rica cobrou a falta, mas Alisson nem precisou se mexer, a bola cortou o campo na horizontal, saindo na outra lateral.
Fim do primeiro tempo.
Respirei fundo e peguei um dos isotônicos nas caixas térmicas e abri o mesmo, esguichando o mesmo em minha boca e apoiando o mesmo na bancada. Segui para as fotos de Lucas, selecionando algumas rapidamente, enviando para o pessoal do Rio que estava fazendo a cobertura. Olhei para a televisão rapidamente, vendo Thiago Silva afastando Neymar, Miranda e Marcelo, provavelmente por falarem algo com o juiz, mas preferi relevar.
Me levantei de meu lugar quando os jogadores voltaram para o vestiário e eu mordisquei meu lábio inferior, respirando fundo. Os jogadores estavam cabisbaixos e seguiam quietos para seus lugares. Tite entrou logo atrás com a equipe técnica.
— Vamos lá, gente! – Ele bateu as mãos. – O jogo está bom, mas tem alguns pontos que vocês precisam prestar mais atenção. Atacantes, os chutes estão sendo feitos sem mira, indo muito por baixo, caindo direto na mão do Navas ou muito por cima, indo direto para fora. – Ele bateu as mãos. – Alisson, vem um pouco para fora, saia mais do gol, reponha a bola em campo mais rapidamente, chutes mais fortes, não espere só passar para os jogadores da defesa. – Vi o mesmo confirmar com a cabeça e passar a toalha em seu rosto. – Eles estão fazendo vários erros, passes errados, muitas faltas, usem isso a seu favor. – Ele falou firme. – Vamos, porque precisamos dessa vitória. – Ele bateu as mãos novamente e se afastou.
Voltei para meu lugar, me ajoelhando em cima do banco improvisado e vi que tinha uma mensagem em meu WhatsApp, abri a mesma, vendo que era de Lucas. A prévia só dizia: “presente para você”. Franzi a testa e abri a mesma, vendo uma foto de Alisson de costas na lateral do gol e eu abaixei a tela do notebook com força, chamando atenção.
— Eu já volto! – falei, inventando alguma desculpa e segui para o banheiro, enrolando alguns minutos na mesma.

Antes do começo do segundo tempo, Tite fez uma substituição. Tirou Willian e colocou Douglas Costa.
Logo no segundo minuto, o Brasil partiu para cima. Douglas Costa cortou pelo meio, passando para Casemiro, foi para os pés de Jesus e Paulinho tentou competir com o jogador costa—riquenho, mas Navas deu um chute, mandando a bola para frente novamente. Fagner estava pronto para receber, mandou para Neymar, mas Navas pegou a bola antes, esbarrando em Neymar e caiu no chão, sentindo alguma coisa.
— E voltamos bem... – Bufei, respirando fundo.
Paulinho recebeu a bola e passou para Douglas, ele passou para Fagner, em seguida para a área, onde Jesus e Neymar o esperavam. Jesus cabeceou e Navas pulou, mas a bola foi para trave. Paulinho correu atrás da bola novamente, Coutinho tentou o chute, mas foi desviada pela Costa Rica.
Neymar cobrou o escanteio, mas não teve efeito. Em seguida, a bola surgiu nos pés de Marcelo, sendo passada por Neymar que tocou para Marcelo, mas chutou muito forte, indo para a linha de fundo, longe do gol. Neymar tentou outro logo em seguida, recebeu a bola de Paulinho, mas chutou muito forte, mandando para cima e para fora.
— Ah, Jesus! – Bati a mão na mesa.
Paulinho passou para Douglas Costa, que devolveu para Paulinho que deu um toque para Coutinho que meteu a bola no meio do gol... Direto nas mãos de Navas. O goleiro costa—riquenho mandou a bola para o outro lado do campo, forte demais, mas Alisson estava em posição, pegando—a no alto.
Neymar caiu novamente e só vi a mão dele em direção ao árbitro e meu sangue começou a ferver. Se não fosse o suficiente, ele ainda se levantou, o juiz reclamou da sua reclamação e só consegui ler “vai tomar no cu” vindo do mesmo e eu respirei fundo.
— Calma, . Calma! – falei, enquanto digitava o lance em meus registros.
A Costa Rica cobrou escanteio, Jesus mergulhou em cima da bola, tirando—a de cabeça, Coutinho demorou para chegar na bola e a Costa Rica tentou outro ataque, mas foi desviada por Casemiro. Eles tentaram um terceiro, mas o atacante caiu antes de chutar a bola e Marcelo a mandou para fora.
— Ah, meu coração! – Passei a mão no peito. – Sem tomar gol, Alisson. – Respirei fundo.
A bola cruzou, mas não conseguiram dominar, passando direto para o outro lado. Jesus tentou recuperar a bola, mas preferiu manter o jogo mais para o centro do campo. Em um momento focou em Tite e o vi gritando com os jogadores, na leitura labial ficou claro um “não fala mais”. Cocei a testa e segui anotando.
Esse segundo tempo seria longo.
Coutinho passou a bola para Neymar que bateu para o gol com a perna esquerda, mas foi na mão do Navas. O costa—riquenho estava indo muito bem. Logo em seguida Paulinho fez uma falta, tentando um chute por cima, mas encontrando as costas de um adversário no meio do caminho. A falta foi dada, mas a bola já tinha saído pela linha de fundo, voltando nas mãos de Navas.
A Costa Rica conseguiu fazer a bola atravessar, ela veio pela lateral esquerda, foi chutada no gol, Miranda a cabeceou para o lugar errado e mandou na cabeça do adversário. Miranda a tirou novamente, fazendo com que Casemiro e o costa—riquenho lutassem pela mesma, bateu na cabeça de outro costa—riquenho antes de Alisson subir e meter um soco na bola, mas já estava impedido.
— Porra, Alisson! Não me assusta assim! – Relaxei os ombros, voltando a me sentar no banco, que eu notei que já estava bem afastado de mim.
Substituição. Saiu Paulinho, entrou Firmino.
Brasil tentou um ataque novamente, mas Neymar tropeçou antes de conseguir fazer a finalização. O escanteio foi cobrado pelo time do Brasil, mas foi desviado, fazendo vários jogadores caírem pelos cantos, mandando a bola de volta para o meio do campo.
Escanteio para o Brasil, Casemiro pulou e cabeceou, mas foi direto para as mãos de Navas, me fazendo morder meu lábio inferior, eu estava começando a sentir o gosto de sangue já. Coutinho passou a bola para Jesus, mas Neymar a roubou no meio do caminho e chutou em direção ao gol, aproveitando a pouca defesa costa—riquenha... Ela foi para fora.
— Não é para ser. Meu Deus, dá uma força! Tá precisando. – Fechei as mãos em punhos novamente, respirando fundo.
Coutinho correu para tentar uma chance, mas Navas saiu do gol para pegar a bola. Neymar tocou após uma falta feita em cima dele e fez outra tentativa, mas a defesa estava na frente, batendo nas pernas deles. Escanteio.
Neymar caiu na área, mas o juiz fingiu que não viu, eu não posso comentar, pois não vi o lance, mas estava achando um pouco demais as quedas de Neymar. Teria que conversar com ele e com Tite sobre isso. Já tinha vários memes sobre isso e não poderia ter mais.
Coutinho fez outra tentativa, mas foi parar nas mãos de Navas.
Douglas Costa recebeu a bola, deu uma arrancada e passou para Jesus. Ele não conseguiu e mandou para Jesus, mas só vi Neymar parando um lance e cair quase em câmera lenta para trás...
— Pênalti! – gritei, ficando de pé.
A Costa Rica inteira foi em cima do juiz e o comentarista do SAP falava muito rápido que eu não consegui entender. Passou o replay e deu para ver que o braço esquerdo do zagueiro pegou no peito de Neymar, fazendo—o cair com uma reação exagerada, na minha opinião.
O juiz seguiu para a câmera do VAR e bati as unhas na mesa novamente, vendo—o voltar e anular o pênalti.
— Porra, Neymar! – Me sentei com força, puxando os cabelos. – Reação exagerada, é claro que ele não ia dar.
Deveria ser pênalti, foi clara a puxada do costa—riquenho no peito do Neymar, mas a queda dele em câmera lenta, com os braços abertos, certeza que foi aquilo que tirou a chance de gol real do Brasil. Além da reação debochada dele quando foi anunciado que não seria dado o gol.
10 minutos mais acréscimos para o fim.
— Para de reclamar, Neymar! – falei após ele se aproximar do juiz em outro lance.
Neymar passou a bola para Marcelo e mandou de volta para Neymar, Miranda recebeu a bola e a passou para Marcelo que tentou um chute, mas o costa—riquenho estava em sua frente e se sentou no chão por um momento, com a mão na barriga.
Neymar correu em direção à bola e o juiz parou o jogo, fazendo o camisa 10 do Brasil socar a bola com força, me fazendo colocar as mãos nas têmporas. Eu estava vendo que ia matar alguém hoje. O juiz se aproximou do mesmo e estendeu o cartão amarelo. Coutinho se aproximou do juiz para reclamar e levou o dele.
— Porra! Porra! Porra! – Abaixei o rosto, pegando a garrafa vazia de isotônico e a apertei em minha mão.
A bola rolou novamente e Marcelo tentou um lance para a área, mas Navas a defendeu com um soco para lateral, devolvendo a bola para o meio do campo. Outra falta foi feita em cima de Douglas Costa, ao ter um pé colocado em sua frente, mas o juiz deixou rolar. A bola voltou novamente para Marcelo que fez o chute, mas a bola foi desviada por um adversário.
Em um dos replays, apareceu Neymar conversando com Navas e eu só consegui pedir para que Navas abrisse o gol, só um pouquinho. Mas pela cara do Navas, dava para notar que até ele não estava gostando da reação exagerada de Neymar.
— A namorada dele é atriz – gritei, meio sem pensar, mas digitei rapidamente para o pessoal do Rio, se quisessem preparar o meme.
Douglas tentou um ataque mais uma vez, passando para Neymar, que passou para Fagner, que teve o chute desviado pelo adversário, mas que voltou para o mesmo, chutando para o Neymar, mas que parou na barreira costa—riquenha.
Marcelo tentou novamente, passando para Douglas, que rebateu para Coutinho, mas foi lento e chegou com folga nas mãos de Navas. Brasil tentou chegar novamente, mas a bola escapou pelo fundo novamente.
Coutinho tentou novamente, passando para Douglas, mandando para trás para Casemiro que fez a finalização, parando nas mãos de Navas novamente.
— Não é para ser! – Apoiei os cotovelos na mesa, puxando a ponta dos cabelos.
Outra falta foi dada e vi Neymar no chão pela milésima vez naquele jogo com um jogador da Costa Rica. Ele já se levantou reclamando novamente e a bola lhe foi entregue, mas o juiz o parou. Marcelo também, a poucos centímetros dele também tinha outro jogador ao seu lado.
Neymar se aproximou do segundo jogador caído e o juiz tentou afastá—lo, Neymar se afastou antes, mas disse claramente “don’t touch me”, eu só consegui bufar. A equipe da Costa Rica entrou e eu só consegui olhar para o tempo, 42 minutos, caramba!
No replay foi mostrado uma entrada violenta de Neymar em cima do jogador caído número um, o que eu acharia ser digno de cartão. E depois de Marcelo que bateu a mão na cara do segundo jogador, que me pareceu ser sem querer. Logo em seguida Tite foi mostrado reclamando também.
Thiago Silva se aproximou do segundo jogador para ajudá—lo a se levantar e Neymar estava perto, dando um close em seu rosto e o sangue ferveu quando li o que ele disse: “és tu madre, hijo de puta, vai tomar no cu”. Eu bati a tela do notebook com força e dessa vez eu achei que tinha quebrado. Olhei para algo próximo a mim e vi as coisas de Alisson, mas respirei fundo antes de tocar em alguma coisa e mordi as costas da minha mão, soltando a respiração mil vezes.
Neymar merecia uma expulsão depois daquilo, o tal do fair play sumiu naquela hora, mas Thiago o afastou e a bola foi para o chão novamente. Neymar saiu com a bola, mandando uma bola por cima, mas Navas socou a bola com as duas mãos, indo por cima de Casemiro, desmontando—o do chão, Navas também estava caído. Neymar estava puto para variar e eu só respirei fundo.
Tite foi mostrado no banco e também falando “porra” e outras palavras indefinidas.
— Caramba! Caramba! Caramba! Dai—me paciência, porque se me der forças eu mato um.
Seis minutos de acréscimo.
Respirei fundo, me levantando e dando a volta na bancada, subindo na mesma e me sentando mais próxima a TV. Comecei a pensar na tabela... A gente voltaria para casa mais cedo.
Coutinho passou a bola para Marcelo que cruzou a bola, sendo cabeceada por Firmino. Jesus ficou preso na defesa, mas Coutinho tinha o centro livre para ele e chutou por baixo...
— GOL! – gritei, pulando da bancada de joelhos no chão. – Porra! – Gritei, colocando até a mão no peito, sentindo o coração bater acelerado.
Os jogadores comemoraram com Coutinho de um lado, Alisson comemorou sozinho do outro lado e... Tite caiu na área de técnico, ao ser empurrado por Ederson e depois por Cássio, me fazendo começar a gargalhar sozinha, sentindo meu coração aliviar um pouco.
— Acaba logo essa porra, juiz. Agora quatro minutos é muito – falei ao ver a bola ser colocada no centro novamente.
Substituição. Saiu Jesus, entrou Fernandinho.
Respirei fundo, vendo o jogo voltar a andar, mas eu só queria que isso acabasse. Se contenta, galera. Para esse jogo, um tá bom. Firmino se aproximou da área, tentando um grande chute, mas a bola foi muito alta, saindo.
Escanteio para o Brasil. 20 segundos para o fim.
Douglas cobrou, mas com um toquinho para Neymar que deu um chapéu nos dois costa—riquenhos que estavam esperando o escanteio, me fazendo esquecer por segundos que eu queria matá—lo.
Dez segundos.
— Acaba essa porra logo! – gritei para a televisão, mas vi que o lance estava voltando nos pés de Casemiro, em direção ao gol. – Acaba não! Acaba não! – Gritei novamente, vendo o lance se formar.
Casemiro passou para Fernandinho que tocou para Neymar, distraindo Navas e com um toquinho por cima, entrou lindamente o segundo gol do Brasil, me fazendo relaxar e deitar na bancada, sentindo meu coração aliviado.
— Essa foi sofrida! – Respirei fundo, sentindo minhas mãos suarem frio e passei a mão na testa, me sentando na bancada novamente.
A bola foi para o centro e o juiz apitou o fim de jogo. Neymar começou a chorar e eu respirei fundo.
— Agora chora, né?! – Balancei a cabeça. — Parabéns, galera, mas esse jogo foi do Navas.
Navas!
Saí correndo do vestiário, vendo a porta se aberta por alguns jogadores da reserva e eu andei um pouco mais pelo corredor, vendo o vestiário da Costa Rica. Os jogadores também começavam a voltar. Vi a pessoa que eu estava interessada se aproximar cabisbaixa e não contive a emoção.
— Navas! – gritei para o mesmo, vendo—o olhar para mim. – Que grán juego! – Disse para ele que o fez dar um sorriso. – Tu fuiste maravilloso.
— Quién és tu? – ele me perguntou.
— Trabajo para Brazil. – Mostrei a camisa. — Pero tu performace fue... – Balancei a cabeça. – Perfecta. Tu és mi man of the match de hoy. – Ele fez positivo com a mão e estendeu algo em minha direção.
— Gracias! – Ele sorriu. — Para ti! – Ele disse, me entregado suas luvas e entrou em seu vestiário, me deixando boquiaberta.
— Meu Deus! – falei rindo e olhei para as mesmas, achando aquilo inacreditável.
Voltei para o vestiário do Brasil e notei várias coisas logo de cara. Primeiro era a celebração no vestiário, que permitia os jogadores se abraçassem sem camisa, rodando a mesma para cima. A segunda foi Douglas Costa sendo atendido com uma lesão, aparentemente, na coxa e Tite também sendo atendido, depois daquele tombo do primeiro gol.
Me aproximei das minhas coisas, desviando da comemoração e peguei minha mochila, apoiando—a com força na mesa, fazendo questão de chamar a atenção. Comecei a guardar meus materiais ali, enfiando—os com força no fundo da mochila e fechei a mesma, colocando—a nas costas. Peguei as luvas com uma das mãos e olhei para frente, vendo que a maioria das pessoas me encaravam.
— Conversaremos assim que voltarmos para Sochi – falei, respirando fundo. – Acho que todos precisam acalmar os ânimos. – Balancei a cabeça. — Eu os aguardo na sala de reuniões. – Balancei a cabeça e me retirei do vestiário, seguindo para o local de espera dos ônibus e joguei a mochila no chão, respirando fundo, só imaginando tudo que estaria na mídia em algumas horas.

Eu tomei dois remédios para dor de cabeça assim que entrei no ônibus que nos levaria para o aeroporto, para pegar o voo de volta para Sochi naquele dia mesmo. Eu preferi me isolar de todos no ônibus e no avião e, pelo menos, Bianca também compartilhava da raiva que foi aquele jogo.
Eu estava feliz pela vitória do Brasil. É óbvio que sim, eu não sou estúpida, mas eu estava na Rússia por outro motivo e teria o desprazer de cumprir o mesmo. Até com analgésicos, eu não consegui dormir, aproveitei para pegar o arquivo que eu tinha montado durante o jogo e comecei a organizar as informações que eu teria que repassar para eles. Toda a raiva que eu teria que passar para eles.
— Quero todos os jogadores e equipe técnica na sala de reunião em 10 minutos – falei assim que o ônibus parou em frente ao hotel em Sochi, pouco depois das 10 da noite.
Subi para meu quarto só para tirar um tempo para mim. Dar uma lavada no rosto, tirar a maquiagem antiga e tentar organizar meus pensamentos. Um tanto em vão. Juntei minhas coisas novamente e voltei para o primeiro andar, me vendo sozinha no elevador e nos corredores, e empurrei a porta da sala de reuniões, vendo—a apinhada de homens com caras de cansaço.
Passei pelo meio da mesma, somente ouvindo o clássico barulho dos meus saltos baterem sobre o piso e me coloquei atrás da mesa, apoiando a mochila em um canto, começando a tirar os eletrônicos. O som do notebook ecoou quando o coloquei na mesa, depois o iPad e depois cada um dos celulares. Apoiei as mãos na mesa, olhando para os 33 em minha frente e respirei fundo, pensando por onde começar.
— Eu só quero aqui os titulares da partida de hoje, as substituições, Cássio, Ederson e Tite. – Falei, tentando manter a suavidade na voz. – O resto pode ser retirar.
Todos os jogadores se entreolharam e quem eu pedi para sair, saiu, me fazendo respirar fundo.
— Vamos lá! – falei, conectando o cabo do projetor em meu celular e esperando que o mesmo carregasse. – Eu confesso que não sei nem por onde começar. – Passei a mão no rosto. – Acho que vou começar pelas coisas boas. – Fiz uma pausa. – Alisson. – Chamei que ergueu o rosto para mim. – Parabéns! – Tentei falar calmamente. – Só três bolas chegaram a você em 99 minutos de jogo e você as defendeu muito bem. – Ele assentiu com a cabeça, dando um pequeno sorriso. – Só a primeira que eu acho que você podia ter ido mais em cima, para não fazer meu coração quase parar. – Ele deu uma risada fraca e assentiu com a cabeça. – Coutinho, Neymar. – Chamei os dois. – Lindos gols. – Eles assentiram com a cabeça. – Sei que o jogo foi difícil, Navas defendeu todas as finalizações de vocês e fez um jogo bonito. O gol podia ter vindo antes? – Ponderei com a cabeça. – Podia, mas não era para ser. – Respirei fundo. – Parabéns.
— Obrigado – eles falaram quase juntos e eu respirei fundo.
— Jesus – chamei, que ergueu a cabeça. – Seu gol também foi bonito, mas obviamente impedido. – Ele assentiu com a cabeça. – Mas foi intencional, o costa—riquenho percebeu sua presença e deu uns passos para frente. Mas teria sido bonito. – Ele fez um positivo com as mãos, sorrindo. – Tite. – Virei para o treinador. – Você virou meme! – Falei e ele riu, escondendo o rosto com as mãos e eu coloquei o gif que já tinha sido recebido em meu celular, dele caindo diversas vezes. Os jogadores riram e aplaudiram Tite que manteve seu rosto escondido. – Só acho que você deveria ter caído dentro da área, quem sabe não validavam um pênalti nosso, para variar? – Eles riram e eu respirei fundo. – Você está bem?
— Eu fisguei a coluna – ele comentou e eu balancei a cabeça.
— Ê, Adenor! – brinquei. – Não está mais tão jovem, não é? – Ele movimentou a mão e eu ri. – Cássio e Ederson. – Chamei os dois. – Maneirem na comemoração da próxima vez, pode ser? – Eles riram e eu sorri. – Com o técnico não, né?!
— Desculpa! – Ederson falou baixo e eu ri.
— Agora vamos para a parte ruim! – Respirei fundo. – Creio que todo mundo viu as partes ruins e sabem que a imprensa vai querer comer o cu de vocês amanhã, não é?! – Olhei para eles. – Primeiro que eu vou voltar a falar daquela questão de mira. O gol tem dois metros e 44 de altura e sete metros e 32 de largura. Vocês estavam vendo o gol muito maior do que era. Metade dos nossos problemas foi mira errada e a outra metade foi o Navas na frente do gol. – Mordi meu lábio inferior, sentindo—o arder. – Segundo, falta de fair play. – Respirei fundo. – Eu vi que não foi fácil, eu vi os replays, e eu também vi todos comentando. – Mudei o gif, mostrando o do Neymar xingando o costa—riquenho. – Essa não foi a única. – Falei diretamente para Neymar. – Teve socos na bola, vários xingamentos, falando “não me toque” para juiz, falando “filho da puta, vai tomar no cu” em três línguas diferentes na mesma frase para um adversário. Briga com o seu capitão por ele passar a bola para o time adversário, briga com ele por te repreender, cartões amarelos por isso, cartões amarelos por reclamações. – Apoiei as mãos na mesa. – Assim não dá, gente! – Cruzei os braços. – Palavras indelicadas vindo de você também, Tite. – Apontei para ele. – Hoje vocês deram um prato cheio para a imprensa e eu tenho pena da Bianca amanhã. Espero que ela tenha ido dormir, desligado o celular, porque ela vai precisar. – Suspirei. – Isso não é exemplo que se passe. Além das quedas, não é mesmo? Eu cansei de contar. – Puxei a respiração. – Você sabe por que a gente perdeu aquele pênalti, Neymar? Honestamente? – Olhei para ele que não respondeu. – Pela sua reação exagerada. – Falei. – Se você tivesse só caído, a gente teria aberto o placar muito antes. – Suspirei. – Não pode continuar assim. – Passei o olhar por todos. – Sem quedas desnecessárias, sem drama, sem choro. Parem de fazer firula. – Puxei o ar. – Vocês estão aqui para jogar bola, então vão jogar bola. – Engoli em seco. – A vantagem? A Costa Rica está fora da Copa do Mundo por perder dois jogos, mas ainda temos a Sérvia para enfrentar. Então, ajustem a postura de vocês em rede internacional e, por favor, não arranjem encrenca. – Suspirei. – É isso, podem ir! – Falei.
— Espera! – Tite falou se aproximando de mim. – Amanhã teremos treino recuperativo para os titulares e treino normal para os reservas. – Ele falou. – Podem ir.
Os jogadores se levantaram quietos e eu respirei fundo, voltando a arrumar minhas coisas aos poucos. Tudo isso para procurar meu celular.
— Tá tudo bem? – Tite se aproximou. – Você me parecia muito puta depois do jogo.
— E eu estava. – Respirei fundo. – Eu precisava espairecer, do contrário, eu ia sair batendo neles, de verdade. – Ele riu fraco.
— Hoje foi intenso. – Assenti com a cabeça.
— Mas mesmo assim, Tite. O Neymar já não é muito bem—visto lá fora. Ele é o deus ou o diabo. Com esse comportamento, só piora. – Suspirei. – Não dá, por favor. Tenta controlar isso. – Ele assentiu com a cabeça.
— Pode deixar. Vou me controlar também. – Assenti com a cabeça.
— Vai falar com Alisson? – ele perguntou e eu ri fraco, balançando com a cabeça.
— Amanhã! – falei. — Quando eu não quiser matar alguém. – Tite riu e me deu um rápido beijo na bochecha.
— Boa noite.
— Boa noite. – Retribuí, vendo—o sair da sala de reunião.

— Olha ela! – Geromel comentou quando eu apoiei nas grades do campo, desviando meu olhar do celular.
— Fala aí, gente – falei para o pessoal da reserva.
— Veio dar uma olhada nos reservas, é?! – Firmino perguntou e eu ri.
— Só para vocês não acharem que eu só dou bola para os titulares. – Ergui as mãos e eles riram, fazendo caretas e vi uma bola seguir em minha direção, pegando—a rapidamente, mas vi o celular cair na grama do outro lado.
— Não é por nada não, mas se o Alisson desse bola para mim, até eu daria bola só para ele. – Marquinho falou e eu arregalei os olhos.
— Uh! – O pessoal falou e eu joguei a bola em direção a Marquinhos que teve dificuldade em pegar.
— Vocês são... – Mostrei o dedo do meio para eles que riram.
— Só te enchendo o saco. – Balancei a cabeça.
— Estou vendo. – Ri fraco. – Estou sabendo que tem até uma aposta rolando. – Eles riram. – Vai, quem tá ganhando?
— 34 pessoas acham que vocês vão ficar ainda aqui na Rússia e as outras 10 acham que vocês aguardarão o fim da Copa. – Casemiro falou e eu revirei os olhos.
— E quanto é a aposta? – perguntei.
— 20 reais! – Ederson falou e eu revirei os olhos.
— Um dia eu juro que eu vou matá—los – falei e Renato Augusto se aproximou, pegando meu celular e me entregando.
— Mata não, a gente gosta tanto de você. – Revirei os olhos.
— Eu sei! Aposto que se não gostassem, nada disso estaria acontecendo. – Ele riu.
— ! – Virei o rosto para o lado, vendo Fernandinho se aproximar por fora do campo. – Você viu a Mariana?
— Quem? – Perguntei.
— Minha filha mais nova, você a conheceu naquele dia...
— Ah sim! – Balancei a cabeça. – Perdoa, é muita criança. – Ele riu. – Mas não vi, não. Por quê? – Franzi a testa.
— Ela sumiu...
— Você perdeu uma criança no centro de treinamento? – Bati a mão na testa. – Ah, Fernandinho! – Respirei fundo. – Olha no outro campo, eu vou ver se ela está lá dentro.
Saí correndo do campo, entrando na parte fechada do CT e olhei para o corredor, vendo—o vazio. Andei pelo corredor, procurando—a na sala de coletiva, de imprensa, na antessala, banheiros, até forçando algumas portas que estavam trancadas.
Entrei na porta do fundo, na academia e encontrei alguns jogadores fazendo um treino mais leve e olhei para os lados, acenando rapidamente para Jesus, Marcelo, Fagner... Fiz o caminho em “L” da academia e respirei aliviada ao ver a pequena Mariana andando por ali.
— Achei você! – falei, me aproximando da mesma e pegando—a no colo, vendo—a rir. – Tá fugindo, é?! – Assoprei sua barriga, ouvindo—a gargalhar. – Vamos, papai tá te procurando. – Me virei, me assustando ao ver Coutinho, Alisson, Miranda e Thiago Silva nas bicicletas, no fundo a academia. – Oi, gente! – Falei, me sentindo levemente envergonhada e eles só sorriram.
— Oi, ! – eles falaram quase juntos e Mariana se movimentou em meu colo e eu acenei, sentindo meu rosto ferver.
— Até mais! – falei, saindo dali rapidamente.
Devolvi a cria de Fernandinho, vendo—o totalmente aliviado ao receber sua filha risonha e eu pedi para que ele não perdesse mais uma criança naquele lugar gigantesco. A sorte era que tinha seguranças por todos os lados, mas vai saber.
Eu acabei subindo para meu quarto para me arrumar um pouco. Os jogadores não teriam folga após esse jogo, então combinamos de fazer um almoço diferente para todos na hora do almoço e relaxar na parte da tarde, para voltar com tudo no domingo.
Vi as luvas de Navas em cima da minha escrivaninha e pensei por um momento, pegando—as e guardando no bolso do meu moletom. Subi para a cobertura com alguns jogadores perdidos e vi a maioria das pessoas já reunida por ali e o papo às alturas. Segui direto para o buffet e vi uma bela de uma paella caipira ali, me fazendo sentir saudades de casa da minha mãe só com o cheiro.
Me servi um pouco da mesma e peguei um refrigerante, me virando de frente para as mesas. Passei o olhar pelas mesmas rapidamente e encontrei Alisson. Ele estava na ponta de uma mesa com Ederson, Cássio e outros jogadores, por sorte do destino, a ponta estava livre.
Criei coragem e segui até a mesma, percebendo seu olhar acompanhando meus movimentos e apoiei minha bandeja no canto da mesa, puxando a cadeira e me sentando em sua diagonal. Fingi que não percebi os olhares que foram me dados na mesa e aproveitei para abrir meu refrigerante e me servir um pouco do mesmo.
— Com licença! – Cássio, que estava na sua frente, falou e se levantou, me fazendo esconder um sorriso.
— Oi! – falei para Alisson, erguendo o olhar para ele.
— Oi – ele respondeu e eu apoiei os cotovelos na mesa, apoiando meu rosto na mesma, olhando para ele. – Tá tudo bem? – Ele perguntou.
— Sim. – Sorri, mordendo meu lábio inferior. – Agora está.
— Está avermelhado. – Ele se referiu a meus lábios e eu passei a ponta do dedo no mesmo, observando o mesmo.
— Foi do jogo ontem. Vocês me deixaram nervosa. – Ele assentiu com a cabeça.
— Desculpe – ele disse e eu ri.
— Você foi o que teve menos culpa. – Ele assentiu com a cabeça. – Deixa eu te mostrar algo. – Coloquei as mãos nos bolsos, tirando as luvas de Navas e apoiei na mesa.
— Conseguiu luvas, afinal? – ele perguntou, pegando—as.
— São do Navas – falei e ele olhou para mim. – Ele me deu depois do jogo.
— Uau! – ele falou, virando—as para todos os lados. – Como você conseguiu? – Dei de ombros.
— Às vezes falamos algumas coisas legais para outras pessoas e acabamos recompensados. – Ele sorriu, assentindo com a cabeça. – Eu sei que não estou merecendo, mas eu gostaria de um par das suas também. – Ele riu fraco, abaixando a cabeça e logo me encarando de novo.
— Quando você merecer – ele falou e rimos juntos. Sustentei o olhar por um momento, me perdendo em seus olhos e voltei a olhar para meu prato, com um largo sorriso no rosto, comendo devagar e aproveitando a companhia.

Capítulo 7 – Brasil x Sérvia, Agora Vai!

— Então, você achava que eu namorava? – ele comentou e eu balancei a cabeça, rindo em seguida.
— O que você queria que eu pensasse? – Coloquei as mãos no bolso de trás da calça. – Você estava lá, sorridente, com a sua filha e uma mulher linda do seu lado... Queria que eu pensasse o quê? – Ele gargalhou ao meu lado, abrindo o portão do centro de treinamento e eu passei pelo mesmo.
— Você poderia ter me perguntado. – Ele deu um sorriso de lado e eu suspirei.
— Eu pensei sobre isso. – Fiquei de frente para ele, andando de costas pelo corredor. – Mas eu não sabia como fazer essa pergunta sem parecer muito ciumenta ou grossa.
— Fico imaginando como seria isso. – Ri fraco.
— Oh não, isso não é algo que você mostra quando está conhecendo alguém. Provavelmente só depois do terceiro mês de namoro. – Ele riu ao meu lado e saímos para a área do campo.
— E como você descobriu? – Ele franziu a testa. – Apesar de que não sei como você não descobriu antes. – Suspirei.
— Eu achava que era algo novo, na sua ficha de pesquisa, que é tipo um briefing de cada jogador, estava como solteiro e de filiação só tinha seus pais e sua filha. – Dei de ombros.
— Então, quem te contou? – ele perguntou. – Ederson? Cássio? Thiago? – Ri fraco, olhando para ele por alguns segundos.
— Tite. – Ele franziu a testa entrou no campo de treinamento e eu segui do lado de fora, beirando a grade.
— Ele? – Dei de ombros, me apoiando na grade há poucos metros do gol.
— Você sabe da aposta que está rolando, não sabe?
— Aquilo é sério? – ele falou enquanto colocava as luvas. – Eu ouvi o pessoal falando, mas achei que fosse brincadeira.
— Pelo jeito é sério e todo mundo está envolvido, menos eu, você e os dirigentes. – Ele apoiou os braços na grade.
— Eles são loucos, não são? – Arqueei os ombros, balançando a cabeça.
— Vai saber. – Suspirei. – Mas e então? – Apoiei os braços na grade também, sentindo—o tocar nas laterais do meu corpo com as luvas. – Qual que vai ser? – Perguntei e ele ergueu o rosto para mim, com um sorriso nos lábios.
— Quais são as opções? – Me aproximei mais da grade, arqueando o corpo.
— Depois ou durante a Copa. – Ele suspirou, assoprando o ar para cima.
— Eu estou muito tentado ao durante, mas eu gosto de ser bem respeitoso no meu trabalho. – Assenti com a cabeça.
— Eu pensei a mesma coisa. – Suspiramos juntos e rimos.
— Quantos jogos ainda faltam? – Ele cochichou em meu ouvido e eu ri.
— Esperando que dê tudo certo, cinco. – Ele fez uma careta, rindo em seguida.
— Vamos ver. – Eu o empurrei levemente.
— Lembre—se que depois do fim da Copa vamos para lados diferentes. – Ele jogou a cabeça para trás.
— Ah. – Ele gemeu baixo. — Que consigamos chegar à final, então. – Ele me fez rir.
— Deus te ouça – falei. – Agora vai! Vai treinar para que possamos ficar até dia 15 aqui. – Ele assentiu com a cabeça, dando um rápido beijo em minha mão e se virou.
— Ah, caramba! – ele falou ao ver Ederson atrás dele.
— Porra, Ederson! – falei também me assustando. – O que você quer? – Passei a mão no rosto.
— O povo quer saber se a aposta já precisa ser paga ou não. – Alisson virou para mim e reviramos os olhos quase juntos.
— Deus me ajude! – Alisson falou, acenando com a mão. – Até mais. – Pisquei para ele, vendo—o se afastar em direção ao gol.
— E aí? – Ederson perguntou e eu suspirei.
— Me empresta essa bola? – Perguntei, apontando para a bola em sua mão e ele a jogou para mim. Ajeitei a mesma na mão, jogando em sua cabeça, vendo—o fazer uma careta.
— Ah! Ainda não? – Ele perguntou e mostrei o dedo para ele, ouvindo—o rir. – Não, galera! – Ele gritou para o pessoal e repeti as palavras de Alisson: “Deus me ajude”.
— Fagner! – gritei para o mesmo. – Coletiva. Agora! – Falei pausadamente, saindo por fora da grade, vendo—o correr em minha direção.

Desliguei a televisão depois da Arábia Saudita ter ganho de dois a zero contra o Egito e, mesmo assim, ser eliminada junto dele pelo grupo A. Dei aquela rápida olhada na programação do dia.
Já eram sete da noite, tudo que eu precisava fazer naquele dia já estava feito, checado e repassado para todo mundo. Me levantei da escrivaninha e segui para a janela em “L”. O dia ainda estava claro, obviamente, o sol só começaria a se pôr dali uma hora, mais ou menos.
Observei o caminho que os jogadores faziam para voltar do campo de treinamento, mas vi ao longe alguns pontos azuis e verdes no campo. Ergui o relógio novamente e já era para o treino ter finalizado. Ponderei um pouco com a cabeça e peguei meu All—Star na lateral da cama e o calcei.
Abaixei a tela do notebook, coloquei meu celular no bolso e desci em direção ao centro do treinamento. Enquanto fazia o caminho, observei alguns membros da equipe técnica subirem com seus materiais, incluindo Taffarel, o treinador de goleiros. Acenei para eles rapidamente e pensei se não poderia estar rolando uma festinha a qual eu não fui convidada.
Passei rapidamente pelo corredor interior do Centro de Treinamento e saí para o campo pela porta principal, franzindo o rosto. Tirando os jogadores correndo de um lado para outro no campo, não tinha mais ninguém. As arquibancadas estavam vazias, os jornalistas tinham ido embora e só Tite e Rodrigo estavam ali, mas acompanhando de fora, apoiados na grade.
— O que está acontecendo que ninguém me informou? – Perguntei, vendo Tite e Rodrigo se virarem para mim.
— Aí, Alisson, agora dá para fazer dois times de 12. – Tite gritou e percebi Alisson do outro lado o campo, sentado sozinho.
— O que está acontecendo? – perguntei, apoiando na grade também, ao lado de Rodrigo.
— Uma pelada inofensiva antes da viagem de amanhã – Tite comentou e eu olhei para o jogo, onde parecia que ninguém estava muito inofensivo assim e os goleiros faziam mergulhos fortes para defender.
— Inofensivo? – Franzi a testa.
— Eu estou aqui para garantir que ninguém se machuque – Rodrigo falou e eu não comentei nada, afinal, ele era o médico.
— Ei! – Alisson falou, após atravessar o campo.
— Ei! – falei, sentindo—o dar um rápido beijo em minha bochecha.
— Foi cortado? – brinquei e ele riu.
— Não, não! Acharam que eu estava treinando demais e que deveria dar espaço para outros.
— Talvez! – Fui honesta. – Não quero ninguém precisando te substituir. – Ele riu, afirmando com a cabeça.
— Vem, ! – Olhei para o campo, vendo o jogo parado e que Marcelo tinha me chamado.
— Que “vem”, Marcelo? Vou nada não – falei rindo, me afastando um pouco da grade e estendendo as mãos na mesma.
— Ué, não era você que disse que era goleira? – Jesus perguntou, parando ao lado do número 12.
— Eu fui goleira! – respondi. – Além de que eu não jogava com profissionais.
— A gente pega leve, vai! – Neymar parou ao lado do trio e eu revirei os olhos.
— Vocês são loucos! – falei e Alisson olhou sugestivamente para mim.
— Vai lá! Você está me devendo alguns lances.
— Eu não estou te devendo nada. E outra, do que você está falando?
— Teresópolis? – Ele falou em sinal de pergunta.
— Ah, fica quieto! – Falei rindo. – Você estava me provocando, eu só te provoquei de volta. – Tite e Rodrigo riram ao meu lado e Alisson ficou avermelhado.
— Vai! Uma defesa. – Ele me encarou com seus olhos verdes e eu respirei fundo. – Eu prometo que não peço para o Neymar bater.
— Poxa, estava pronto para me vingar daquela reunião – ele comentou e rimos juntos.
— Vai lá – Tite comentou.
— Mano, vocês estão loucos. Sabe quanto tempo faz que eu não jogo assim?
— Acho que eu já ouvi essa história. – Alisson brincou, olhando para o além e eu respirei fundo. – Vai! – Ele falou. – Faça uma defesa e você pode sair daqui.
Ponderei por alguns segundos e vi que tinha certa expectativa por aquele momento. Internamente eu estava morrendo de vontade, mas externamente era como se eu estivesse na quarta série e fosse jogar com o pessoal do ensino médio... Ou pior.
— Você chuta! – falei para Alisson, começando a amarrar meus cabelos e a tirar meu relógio e pulseira.
— Isso! – Ele e outros jogadores comemoraram e eu ri, balançando a cabeça.
Entreguei meus acessórios, crachá e celular para Tite e segui para dentro da grade, vendo os jogadores começarem a se afastar do centro do campo e Alisson me seguiu até o gol. Eu só conseguia pensar nas boladas que eu levaria do meu futuro—possível—namorado ou no vexame em não defender nada.
Não era inteiramente verdade que eu não jogava desde a época da faculdade. Às vezes eu encontrava algumas amigas dos tempos antigos e batia uma bola na quadra do condomínio ou até na praia, quando conseguíamos nos encontrar, além dos encontros de família que sempre acabava em pelada.
Mas estávamos falando dos 23 melhores jogadores do Brasil. Da Seleção Brasileira. Eu já tinha visto Alisson fazer alguns gols, algumas habilidades, mas eu nunca tinha visto em lance livre, como seria ali.
— Imagino que use G – ele falou, me estendendo um par de luvas pretas e eu respirei fundo, soltando o ar lentamente.
— Estudando o tamanho das minhas mãos? – perguntei, com um pequeno sorriso no rosto e ele somente riu.
— Pode ser da marca de pênalti? – Ele perguntou, se afastando de costas, enquanto eu ajustava as luvas em minhas mãos. Eu estava nervosa, as pontas dos dedos estavam geladas e eu sentia o suor escorrer por minhas têmporas.
— Só pega leve, ok? – falei, travando as luvas e respirei fundo, olhando rapidamente em volta, estudando o tamanho do gol, da área e a distância da bola até mim. Esse primeiro campo era reduzido, mas mesmo assim, fazia tempo que eu não jogava nos padrões do futebol.
— Pode deixar! – ele falou e os jogadores ficaram para trás da meia lua, mas todos atentos ao mico que eu pagaria ali. Acho que alguns até queriam ver isso. – Pronta? – Ele perguntou e eu puxei um pouco da calça jeans para cima, batendo as mãos uma com a outra. Tudo aquilo estava errado.
— Alguém filma isso, pelo amor de Deus – pedi e ele riu.
— Pode deixar! – Alguém respondeu e eu só olhava para Alisson.
— Quando quiser — falei e ele colocou a bola na marcação e deu três passos para trás.
Alguém apitou e eu respirei fundo, tentando manter a atenção na bola e não em Alisson. Ele deu uma rápida corrida, chutando a bola, fazendo—a voar em direção ao centro do gol e eu não precisei nem me mexer, a bola se encaixou em minha mão, na altura dos meus olhos. Alguns olharam surpresos e outros aplaudiram.
— Fácil demais – falei, devolvendo a bola para Alisson.
— Estou pegando leve – ele justificou e eu ri.
— Ok, aumenta o nível. – Dei uma girada no corpo, ouvindo alguns ossos estralarem e voltei à posição, vendo Alisson se afastar.
Esfreguei uma mão na outra e olhei para seus olhos rapidamente, tentando estudar para que lado ele chutaria. Apitaram novamente e ele fez o chute, fazendo a bola vir rasteira pelo meu canto direito e eu somente estiquei a perna direita, dando uma bicuda na bola, que voltou para o meio do campo, e eu cai de bunda no chão com o impacto.
— Ok... – ele falou, recebendo a bola novamente, queria sorrir por ele estar impressionado, mas queria manter a concentração. – Aumento mais um pouco?
— Vamos lá! – Movimentei as mãos, sentindo a ponta dos dedos começarem a suar e soltei o ar levemente pela boca.
O apito soou e eu sabia que viria algo um pouco mais difícil. Ele chutou a bola mais forte dessa vez, fazendo—a ir para o canto esquerdo do gol, o lado que não era meu forte. Eu pulei para o mesmo lado, pegando a bola com o peito, enquanto abraçava a mesma, apoiando o queixo.
— Caramba! – Ouvi alguém falando e me ajoelhei no gramado, jogando uma bola rasteira para Alisson, mas ele estendia a mão para mim, me ajudando a levantar.
— Tá perdendo a graça – ele falou e eu ri, sentindo a respiração um pouco mais forte. – Você está me enganando. – Ele se afastou, voltando para a marca de pênalti.
— Acho que nem ela sabe do potencial dela. – Ouvi Tite falando e dei uma risada fraca.
— Vamos ver! – falei, batendo as mãos novamente e olhando para Alisson.
Apitaram e Alisson chutou para esquerda e por cima. A bola deveria fazer uma parábola e entrar atrás de mim pelo alto. Mas eu não ia deixar. Pulei para o mesmo canto da bola, estendendo a mão para o lado e senti a bola bater na ponta dos dedos e desviar, e eu caí no chão logo em seguida, encolhendo o corpo para tentar reduzir o impacto.
— Caralho! – Reconheci a voz de Cássio e sentei no gramado, vendo minha blusa azul escura com folhinhas de grama colada.
— Eu estou abismado! – Alisson falou me estendendo as mãos e eu me levantei, com um largo sorriso no rosto, mas visivelmente cansada. – Mais uma? – Ele perguntou e eu ri.
— Agora eu gostei da brincadeira, né?! – falei, voltando a minha posição e ele a dele.
Passei a luva rapidamente pelo rosto, sentindo algumas folhas no mesmo e centralizei novamente. Alisson se afastou um pouco mais e eu sabia que a bola viria por cima, para balançar com as estruturas. Alguém apitou e ele seguiu em direção à bola, chutando para o alto e para o centro do gol. Eu pulei, esticando a mão direita para a cima, sentindo a bola bater nas pontas dos dedos e sair por cima. Meu corpo arqueou para trás e eu tentei desviar, caindo para o lado, mas o baque foi inevitável, me deixando no chão.
— Porra! – Os jogadores comemoravam, algumas pessoas batiam palmas, mas eu estava quebrada, literalmente, no chão.
Eu sentia minhas costelas e meu peito doerem. Fazia anos que eu não dava uma dessa. Senti uma sombra quando Alisson se ajoelhou em minha frente e eu apoiei a mão no chão, me colocando sentada na grama novamente. Ele tinha um largo sorriso no rosto e eu deveria parecer que estava morrendo.
— Você foi bem! – ele falou.
— Ah! – reclamei, passando a mão na lateral do corpo. – Agora chega, vai! – Falei e ele riu.
— Você está bem? – ele perguntou, passando a mão em meu cabelo, provavelmente tirando uma folha perdida por ali.
— Eu vou precisar de analgésico.
— Você foi demais! – ele falou, me fazendo rir. – Se eu soubesse que você jogava assim, teria te obrigado bem antes. – Ri fraco, massageando a lateral do corpo.
— Me ajuda a levantar. – Estendi as mãos para cima. Ele se levantou e me puxou, fazendo tudo estalar. – Eita! – Reclamei, movimentando o corpo lateralmente. – Eu estou fora de forma. – Respirei fundo.
— Você foi ótima! – ele falou e eu tirei as luvas.
— Essa última ia para fora – comentei e ele riu.
— Provavelmente – ele concordou. – Chutei muito de bico, mas queria saber até onde você ia.
— Acho que eu vou direto para cama.
— Você foi demais! – Ederson se aproximou, abraçando Alisson pelos ombros e eu me afastei.
— Não se aproxima! – falei, apoiando as mãos nos joelhos, respirando fundo. – Você já machucou o Tite, não me mata também. – Ele riu.
— Me manterei longe, mas isso foi foda para um caralho! – Ri fraco, negando com a cabeça.
— Mano, demais! – Os outros jogadores começaram a se aproximar e eu tentei manter meu corpo ereto, mas estava doendo demais.
— Foda!
— Parabéns! – Fiz um positivo com a mão, suspirando.
— Agradeço, gente, mas eu preciso sair daqui. – Fiz uma careta. – Eu provavelmente desloquei alguma coisa e ralei a barriga. – Falei, erguendo o corpo e apoiando a mão abaixo do seio.
— Eu te levo de volta para o hotel – Alisson falou, estendendo meu braço livre e apoiando sobre seus ombros.
— Quer que eu dê uma olhada, ? – Rodrigo perguntou e eu abanei a mão.
— Acho que não. Eu vou olhar melhor, tenho pomada e remédio para dor lá no quarto, qualquer coisa, te aviso.
— Tem certeza? – Alisson cochichou para mim e eu assenti com a cabeça.
— Vamos dizer que eu não estou em forma, com a roupa adequada e nem deveria ter feito isso. – Ele riu. – Mas já fiquei com dores outras vezes e sei como sair dessa.
— Espero que fique bem.
Agradeci pelos carrinhos de golfe estarem lá embaixo e ele me colocou sentada na parte de trás, sentando ao meu lado e outros jogadores encheram os outros lugares e eu respirei fundo.
— Você já pode ser da Seleção, – Firmino falou e eu ri fraco, encostando minha testa no ombro de Alisson.
— Opa! – falei ironicamente. – Titular ainda. – Brinquei e eles riram.
— Precisa de um pouco de treino, mas você foi muito bem – Neymar falou e eu assenti com a cabeça.
— Na próxima Copa, talvez – falei e eles riram.

— E vamos para mais um – Alisson falou entregando sua mala para o motorista do ônibus e eu tentei evitar de rolar os olhos com alguns torcedores ao redor das grades.
— Acho que eu não vou querer viajar por muito tempo quando voltar para casa. – Ele riu, ajeitando o boné em sua cabeça, e abriu espaço para que eu entrasse no ônibus. – Natais e Anos Novos serão no Rio.
— Seria bom, não é?! – Rimos juntos e eu segui para frente, junto da equipe técnica e ele foi para o fundo junto dos jogadores.
Seguimos até o aeroporto de Sochi e entramos no avião pela pista mesmo, como em outras vezes. O avião era enorme para a quantidade de pessoas na equipe. Eu coloquei algumas coisas no bagageiro, o notebook na mesinha e me sentei no corredor. Ele se sentou na mesma fileira, mas do outro lado do corredor.
Eu e Alisson começamos a nos abrir, mas ainda era um tanto incerto o que a gente queria e o que a gente faria, então ele basicamente ficou me observando responder algumas coisas para a imprensa e às vezes eu dava palpite no jogo que ele brincava no celular.
Como sempre, nos separamos para sair do avião. Lucas fazia questão de tirar fotos de todos os momentos, incluindo minhas, mesmo que não fossem ser postadas no Flickr da CBF ou na CBF TV, mas eu estava criando um ótimo álbum de fotos e tinha até algumas com Alisson que eu poderia guardar de recordação.
Bóris fazia algumas filmagens e seguiu no carro da frente, pelo jeito Vinícius chegaria de Canarinho no hotel, onde Angelica já tinha sido informada da aglomeração de alguns torcedores. Eu não dei bola na hora. Grande erro!
Notei a desaceleração do ônibus quando nos aproximamos do hotel Renaissance em Moscou e logo ouvi os gritos e batidas na lateral do ônibus. Os jogadores se levantaram para ver o que acontecia e a turma da assessoria só se entreolhou.
O ônibus parou propositalmente do lado contrário ao que entraríamos e os seguranças foram os primeiros a aparecer. Os jogadores seguiram logo atrás, depois a equipe técnica, depois nós e, por último, a irrelevante equipe de dirigentes, que nem considerávamos muito da galera.
As grades estavam sendo contidas quase da mesma forma que o meu primeiro treino aberto lá na Granja Comary. Os guardas mantinham os braços e corpos distanciados da grade e empurravam—na com força, com medo delas penderam para frente. Os torcedores estavam muito animados, gritavam, cantavam e tinham sinalizadores das cores do Brasil acesos para cima. Mesmo anos indo atrás de bandas e cantores no Rio de Janeiro, eu nunca tinha visto aquilo. Aquilo era o poder do futebol.
— É, 58 foi Pelé! Em meia dois foi o Mané! Em sete, zero o esquadrão! Primeiro a ser tricampeão! – A torcida cantava animada, agitando bandeiras e os sinalizadores. — Ô 94 Romáriô! 2002 Fenomenô. Primeiro tetracampeão! Único penta é o Brasilzão! – Passei por Vinícius de Canarinho e ele me abraçou, me fazendo sorrir, vendo—o colocar a bandeira em sua mão em minhas costas e eu o chamei para dentro, vendo—o me pedir para esperar. — Ô Brasil olê, olê, olê! Brasil olê, olê, olê!
Fui puxada por um dos seguranças na porta e o resto da comunicação veio logo atrás. O barulho ficou para trás e eu e Angelica seguimos para a mesa da recepção, como sempre e o gerente logo nos passou as informações sobre os quartos e chaves. Esse hotel com certeza era um dos melhores.
— Vamos lá, gente! – Falei, batendo as mãos e chamando a atenção do pessoal. – Aqui serão quartos de dois, ok?! – Falei e eles gritaram, comemorando. – Bem mais fácil para dividir o banheiro, não é, não?! – Olhei os números das chaves com a lista de Angelica.
— Sendo quarto de dois, o Alisson e... – Comecei a ouvir Filipe Luís falando, mas Ederson foi mais rápido e colocou a mão na boca dele, fazendo—o ficar quieto. Ederson fez um sinal para calar a boca e sabia o que ele queria fazer, os dirigentes não podiam saber disso ou ferrava para todos os lados.
— Continuando! – Falei, ouvindo algumas risadas. – Faças duplinhas e venham pegar suas chaves.
— ! – Virei para o lado, vendo Bóris entrando correndo no hotel. – Vin... Ele... Él... – Ele tentava falar em várias línguas.
— What? – Perguntei firme.
— He was arrested! – Arregalei os olhos e soltei todas as chaves na mão de Angelica, ouvindo algumas caírem no chão e saí novamente do hotel, vendo um cerco de seguranças e dois policiais puxando o Canarinho para o lado e eu me aproximei dele.
— Ei, o que está acontecendo? – Perguntei em inglês para um dos seguranças e ele se aproximou para ouvir. — Ele está conosco. Ele é nosso mascote.
— Tem certeza? – Ele perguntou.
— Sim! Ele também é nosso cinegrafista. – Movimentei as mãos, puxando o crachá do pescoço do Canarinho e mostrando a eles. — Vê? FIFA, CBF, ele está conosco.
— Desculpe, senhorita. Tenha uma boa noite. – Me desviei dos seguranças e puxei Vinícius pelos braços do Canarinho e entramos no hotel.
— Podem fechar as portas, por favor? – Pedi para o porteiro e ele assentiu com a cabeça. – Ok, acho que estamos todos aqui. – Voltei para o português.
— Eu ia ser preso na Rússia! – Vinícius reclamou, puxando a cabeça do mascote e várias pessoas se seguravam para não rir. – Na Rússia! – Ele gritou a última parte.
— Relaxa! Tá tudo bem. – Tentei acalmá—lo. – Vamos relaxar. – Ele se sentou em um banco na recepção e eu voltei a pegar as chaves da mão de Angelica. – Chaves? – Dei um sorriso e as duplas começaram a aparecer ao meu lado.
Alisson passou com Firmino e pegou uma chave. Ele deu um pequeno sorriso e uma piscadela e eu somente retribuí o sorriso. As duplas foram se formando e só sobrou eu e Lucas lá embaixo.
— Me dá essa honra? – Ele brincou e eu estendi a última chave para ele.
— Vamos, Lucas. Você é a minha dupla desde Teresópolis. – Ele riu e entramos no elevador.
— Apesar de que você está me abandonando um pouco. – Ri fraco, negando com a cabeça. – Ele é mais bonito, mais forte, solteiro, mas... – Ele começou a rir sozinho e saímos do elevador.
— Você é casado, Lucas! – Falei e ele riu fracamente. – E tem um filho.
— Não quero que você se machuque, ok, minha amiga? – Suspirei, encontrando os jogadores levando as malas para dentro dos quartos.
— Eu... – Virei para trás, vendo que ele tinha parado na porta de um quarto.
— Eu cuido dela, beleza? – Ele gritou e imaginei que tinha sido para Alisson. O puxei pela mochila, tirando—o da porta do quarto, vendo Alisson aparecer logo em seguida, franzindo a testa.
— Ignora, ele tem problemas mentais! – Empurrei Lucas para ir à frente e Alisson riu, balançando a cabeça. – Boa noite. – Acenei e ele fez o mesmo, ainda rindo com a situação. Abri a porta e empurrei Lucas para dentro.
— Vocês precisam parar! – Falei para Lucas. – Vocês estão provocando demais... Cara, que quarto fantástico! – Falei, vendo as duas camas queen, a decoração em mostarda e vermelho e os detalhes vintage.
— Mas todo mundo já sabe. – Ele abanou os braços, se livrando de sua mochila. – Uau! – Ele falou também e rimos juntos.
— Para começar: ninguém sabe de nada, porque ainda não aconteceu nada. Segundo: os dirigentes não sabem e chegando à boca dos dirigentes, chega à boca da Michele, eu estou ferrada, e eu acho que eu não vim aqui para namorar. – Ele riu, se sentando no divã em frente a uma das camas. – Pode dar problemas para mim depois.
— Ah, . Mas vocês se deram tão bem. Sério, vocês combinam em um nível que não tem nem o que falar. – Ele riu. – Ele é meio fechadão, mas parece que com você ele se abre, ele brinca mais, ele participa mais... – Suspirei.
— Não foi você que acabou de falar que não quer que eu me machuque?
— Sim, isso também, mas não quer dizer que você não possa dar uma chance. – Suspirei, começando a tirar meu tênis.
— Lucas, você sabe que se a gente ficar agora ou se ficarmos depois, vamos acabar nos machucando naturalmente, não é?
— Porque diz isso? – Ele perguntou e eu suspirei.
— Acabando a Copa, ele vai para Roma, na Itália. Eu vou para o Rio. – Ele fez uma careta. – Como isso vai dar certo? – Suspirei.
— Ah! – Ele falou. – Neymar e Bruna também moram em países diferentes e parece que tem dado certo para eles. – Ele deu de ombros e eu parei para pensar.
— Verdade, né?! – Suspirei e ele riu.
— Vá devagar! – Ele falou. – Depois da final vocês pensam. – Suspirei, assentindo com a cabeça.
— Pode deixar! – Dei um sorriso de lado.
— Posso ir tomar banho ou quer ir?
— Pode ir! – Falei, abanando a mão e suspirei.

O dia que antecedeu ao jogo foi igual a todos os outros, mas com uma surpresa em especial. Acordei naquele dia e esperei Lucas finalizar seu banho e sair do quarto para que eu pudesse ter minha manhã de menina com mais privacidade. Me arrumei como todos os dias, dei aquela ajeitada nos cabelos e na maquiagem e coloquei tênis.
Desci para o restaurante, dando aquela leve ignorada na imprensa logo cedo e entrei no restaurante que estava reservado para nós. Duas longas mesas com equipe de um lado e jogadores do outro e uma longa mesa de buffet ao fundo. Olhei rapidamente pela mesa dos jogadores, vendo—os acenarem para mim e segui em direção ao buffet.
— Bom dia! – Alisson se levantou da ponta contrária da mesa e eu sorri, voltando alguns passos para trás.
— Ei! – Falei sorrindo e ele deu um curto beijo em minha bochecha.
— Dormiu bem? – Assenti com a cabeça.
— Tudo certo! – Falei sorrindo. – E você?
— Tudo bem! Tirando que o Firmino ronca para um caramba. – Rimos juntos.
— Ei! – Firmino reclamou do outro lado da mesa.
— Lucas tem algumas vantagens. – Alisson riu.
— Quer trocar? – Ele cochichou em meu ouvido e eu dei de ombros.
— Quem sabe? – Brinquei, tirando o boné de sua cabeça e virando—o para trás. – Talvez depois do jogo. – Ele sorriu.
— A gente consegue ouvir... – Firmino cantarolou e eu virei para ele.
— Estão se intrometendo onde não devem. – Dei um sorriso para ele e uma piscadela, vendo—o fazer uma careta. – Nos falamos depois? – Virei para Alisson que assentiu com a cabeça.
— Uhum. – Ele sorriu.
— E quem temos aqui? – Virei para o lado, franzindo a testa ao ver um 24º jogador, que com certeza não deveria estar aqui.
— Dani Alves? – Falei em tom de pergunta e ele riu.
— Você que é a...
— Tenho até medo como eles me apresentaram. – Falei e ele riu. – “Namorada do Alisson”? “Garota do Alisson”? Pode ser também a “goleira que não deixou nada do Alisson entrar”. – A mesa começou a gargalhar. – Essa última é boa, porque pode ter várias conotações. – Ele riu e Alisson revirou os olhos, com o rosto avermelhado.
— Eu ia dizer a social mídia, para soar mais respeitoso... Mas já ouvi as outras versões. – Dani brincou e eu balancei a cabeça. – , certo?
— É um prazer te conhecer. – Trocamos beijos e abraços e ele sorriu.
— O prazer é meu. – Ele sorriu. – Estou sabendo que está cuidando bem da galera? – Ponderei com a cabeça.
— Vamos dizer que eles me amam antes do jogo e me odeiam depois dele. – Ele riu. – Depende do humor.
— Isso é bom! Pelo menos tem alguém para colocar eles na linha. – Rimos juntos.
— Era para você estar nessa turma, como está?
— Tudo certo! – Ele ponderou com a cabeça. – Lidando com um dia depois do outro.
— Que bom! – Assenti com a cabeça. – Que bom que veio conversar com eles, acho que estão precisando relaxar.
— Uns menos do que outros, não é?! – Fred bateu nos braços de Alisson que colocou a mão no rosto abaixando a cabeça.
— Sério, gente! – Me apoiei na ponta da mesa. – Vocês precisam parar! – Falei firme.
— Porque eu sinto que eles só estão começando? – Dani comentou e eu suspirei.
— E temos 20 dias de Copa ainda. – Suspirei. – Deus me ajude! – Eles riram e eu voltei para o buffet.
O cronograma daquele dia foi mudado um pouco. Ao invés de fazermos o treino oficial no Estádio Spartak o fim da tarde, ele foi feito na parte da manhã e à tarde teria a coletiva de imprensa com Tite e Miranda, que seria o capitão dessa partida.
Bianca disse que acompanhava o treino no estádio e eu aproveitei sua fofura e fui andar com Vinícius e Bóris por Moscou para gravar mais algumas cenas do Canarinho. Acabamos indo para o estádio também, mas para a parte de fora. Não sei se era o dia ou o horário, mas tinham poucas pessoas andando ali em volta.
Fizemos algumas filmagens, eu acabei tirando algumas fotos mesmo e seguimos para um lugar com um pouco mais de emoção. Lá, até eu fiz um pouco de turismo! Fomos para a Praça Vermelha, o que eu aproveitei e tirei fotos do Kremlin, da Catedral de São Basílio, do Museu Histórico do Estádio, do Mausoléu de Lenin e do Teatro Bolshoi.
Lá estava mais cheia de torcedores, principalmente por ter uma das maiores fan fest da Copa e conseguimos fazer mais imagens e tirar mais fotos dos torcedores com o Canarinho. Principalmente crianças.
Voltamos para o hotel pouco antes da hora do almoço e depois do mesmo, Tite e a equipe técnica fizeram uma reunião com os jogadores para falar dos pontos fortes da Sérvia, nosso oponente de amanhã. Graças a Deus a imprensa tinha dado uma trégua e as poucas ligações que recebíamos, Bianca conseguia lidar com isso.
Eu não tinha o que fazer, então, acabei ficando na reunião. Eu parecia a aluna entediada e os jogadores, incluindo Alisson ao meu lado, tentavam absorver todas as informações que eles passavam. Até eu consegui absorver algumas coisas, principalmente o fato de os jogadores Sérvios serem muito mais altos do que os brasileiros e terem melhor desempenho em bola alta. Aquela porcaria de reunião só tinha conseguido me fazer ficar mais nervosa do que eu já estava.
A gente precisava ganhar, entende? Podíamos jogar por um empate, mas não. Isso nos faria depender do resultado da Costa Rica e da Suíça e meu coração não aguentava mais. Precisamos ganhar! Além de que eu não aguentaria ver Alisson tomando gol, meu coração ficava pequenininho.
Acabando a reunião, eu segui direto com Miranda e Tite para a coletiva de imprensa. Miranda tinha experiência, afinal, ele era um dos mais experientes do time com 33 anos, então ele sabia falar, mas claro que tivemos aquelas perguntas as quais eu briguei com eles depois do jogo de sexta—feira: Neymar.
Miranda soube desconversar rapidamente sobre o choro e as quedas de Neymar no jogo contra a Costa Rica e falou uma frase que eu até anotei para usar em várias outras situações. “Não temos que pensar no individual”. E ele estava certo, eram 23 jogadores, não dá para pensar só nele sempre, tanto que o xingo, após o jogo, não foi individual, foi coletivo.
— Acho que eu vou tentar dormir mais cedo. – Alisson falou depois que voltamos para jantar.
— Nervoso? – Ele deu de ombros.
— Já viu algum goleiro calmo antes de jogo? – Ele perguntou e eu ri.
— Pior que não. – Suspirei. – Vai sim. – Falei, assentindo com a cabeça. – Eu vou tentar também, tenho uns 20 e—mails para responder, depois já vou.
— Vem. – Ele me segurou pela mão e entramos no elevador, subindo lado a lado até nosso andar.
— Qualquer coisa posso te infernizar no WhatsApp? – Ele perguntou e eu ri.
— Claro que pode! – Suspirei. – Mas espero que você durma antes disso. – Saímos do elevador.
— Também espero. – Ele suspirou. – Sempre sobra para o goleiro. – Ele se encostou na porta de seu quarto.
— Não pensa nisso. – Falei, passando a mão em sua barba. – Se exclua de tudo. Finja que só tem você no estádio. – Ele virou o rosto, dando um beijo na palma da minha mão.
— Difícil quando o estádio tem capacidade para 45 mil pessoas. – Ri fraco, negando com a cabeça.
— O de São Petersburgo era maior. – Falei e ele assentiu com a cabeça.
— É! – Ele suspirou. – Mas a responsabilidade desse é maior. – Assenti com a cabeça.
— Vai dar tudo certo. Se Deus quiser. – Ele assentiu com a cabeça e ouvi um pigarro e virei o rosto, vendo Firmino, Thiago e Geromel nos encarando. – Boa noite! – Falei para Alisson e ele deu um rápido beijo em minha testa, entrando no quarto e eu acenei com a mão.
— E então... – Firmino deu seu sorriso e eu revirei os olhos.
— Boa noite, gente! – Falei, andando pelo corredor e acenando para eles, enquanto os ouvia rir.

Eu não conseguia dormir. Já passava das três da madrugada e nada de eu pregar os olhos. Eu acabei respondendo os e—mails rapidamente, afinal, era tudo meio que a mesma resposta, só precisava prestar atenção em que língua era veículo para eu mandar na mesma língua que me foi pedido.
Depois eu liguei meu Netflix e acabei terminando a sexta temporada de Friends pela milésima vez e a bateria acabou enquanto eu assistia “A Barraca do Beijo”. Lucas ficou conversando comigo depois de um tempo, mas até ele que também não conseguia dormir, desmaiou após alguns papos aleatórios sobre vida, família, amor, trabalhos, etc...
Cogitei ligar a televisão e procurar algo na televisão russa, mas não queria acordar Lucas, não quando ele também tinha demorado tanto para dormir. Olhei meu WhatsApp, procurando alguma alma boa acordada, mas Alisson não estava online, pelo menos não me respondeu. Angelica e Bianca também nada. Eu deveria ter pego algum remédio para dormir, ficaria virada no dia seguinte e seria pior.
Joguei minhas cobertas para o lado, calcei os chinelos, coloquei um moletom por cima da regata e saí do quarto. Se fosse para eu ficar irritadiça, que eu ficasse sozinha, fora do quarto, sem morrer de tédio ou sem acordar ninguém.
Franzi a testa quando fechei a porta e encontrei outra alma sentada no corredor. Ela estava encostada em uma das portas, abraçando as pernas e olhando para o nada. Me aproximei do mesmo, notando que era Gabriel e ele ergueu o rosto até mim.
— Ei! – Falei e ele deu um meio sorriso. – Tá tudo bem?
— Oi, ! – Ele falou.
— Posso me sentar? – Ele assentiu com a cabeça e me sentei em sua frente. – Não consegue dormir?
— Não! – Ele suspirou. – Nervoso por amanhã. – Assenti com a cabeça. – Parece que está tudo bem, até ficarmos sozinhos e fechar os olhos.
— Entendo. – Falei. – Também estou. – Ele suspirou.
— Mas aposto que não tem uma pressão em cima de você. – Assenti com a cabeça. – Quantos camisas nove não fizeram gols em Copas?
— Não pensa nisso. – Apoiei minhas mãos em seus joelhos. – Só não foi gol porque não era para ser ainda. – Ele deu de ombros.
— Você realmente acredita nisso?
— Você não? – Me endireitei no chão. – Tivemos várias chances de gol contra a Costa Rica e a bola simplesmente não entrava. – Dei de ombros. – Não só que o Navas defendeu, mas que foi mirado errado, que ia para fora ou que estava impedido. – Ele riu. – Você fez gol, Gabriel.
— Não valeu. – Rimos juntos.
— Eu sei! Mas terão outras oportunidades. – Suspirei. – E eu já falei para vocês não verem o que a imprensa fala de vocês.
— É meio inevitável. – Ele deu de ombros.
— Posso confiscar seu celular, se quiser. – Ele sorriu.
— Seria uma boa, mas acho que não adiantaria. – Ele deu de ombros. – Elas vêm de todos os cantos.
— Pelo menos tente. – Apertei seu joelho que assentiu com a cabeça. – Tire notificações, desinstale aplicativos, o que for. Só releve. – Ele deu um sorriso de lado.
— Obrigado! – Assenti com a cabeça, ouvindo outra porta se abrir e vi Miranda sair da mesma.
— Ei! – Ele falou, seguindo em nossa direção.
— Ei! – Falamos e ele se aproximou de nós.
— Também não conseguem dormir? – Suspirei.
— Não. – Respondi. – Mas vocês deveriam voltar para seus quartos. Amanhã é aquela tensão de novo. – Eles assentiram com a cabeça.
— Eu sei! – Miranda falou. – Mas quem consegue?
— Pois é! – Respondi, bufando.

Eu não sei sobre os meninos, mas eu não consegui pregar os olhos nem por cinco minutos naquela noite. Nada. Zero. Depois de ficar um tempo com Miranda e Jesus no corredor, eu os obriguei a irem dormir. Eu até tinha responsabilidades, mas eles precisaram ter disposição para correr e pontuar durante 90 minutos.
Pela minha falta de sono, eu acabei desistindo de ficar na cama e já fui me arrumar, tomando banho, colocando minha calça jeans, camisa polo azul cheia dos patrocínios e o salto amarelo. Tive que dar aquela bela enfaixada nos pés com band—aid, para conseguir aguentá—lo por mais tempo.
Eu fui a primeira a chegar ao restaurante àquela manhã. Troquei as xícaras pelos copos e enchi de café puro. O jogo era só nove horas da noite, sairíamos daqui as sete e eu duvido que conseguiria um tempinho para dormir e, mesmo se eu conseguisse esse tempo, duvido que eu fosse dormir.
Os jogadores surgiram aos poucos, fazendo com que as mesas de enchessem aos poucos. Alisson apareceu algum tempo depois, quando eu enchi meu segundo copo de café e se sentou ao meu lado.
— Você está bem? – Ele perguntou. – Seus olhos estão vermelhos...
— Vamos dizer que...
— E aí, ? Conseguiu dormir? – Miranda se sentou em nossa frente e eu fiz uma careta.
— Não. – Respondi.
— Nada? – Alisson se virou.
— Nada! – Falei firme, bebendo outro longo gole de café. – E o dia vai ser longo. – Falei, suspirando.
— Meu Deus! Tu vais ter que arranjar um tempo para dormir, nem se for alguns minutos. – Gabriel falou e eu estiquei o copo.
— Vou me virando como posso. – Dei de ombros e eles olharam meio assustados para mim. – Não se preocupe, não é a primeira vez que isso acontece.
— Olha lá, hein?! – Miranda falou e eu assenti com a cabeça.
— Não acredito que não dormiu a noite toda. – Alisson cochichou ao meu lado e eu suspirei.
— Eu tentei! – Falei, colocando mais um pouco de ovo mexido na boca. – Eu juro que tentei, mas não deu. – Dei de ombros. – Lucas capotou, você não estava online, a bateria do meu iPad acabou. – Relaxei os ombros. – Fiquei andando pelo hotel, encontrei Gabriel e Miranda, depois eles foram dormir, eu voltei para o quarto... Quando vi já era sete da manhã, vim tomar café.
— Mano! – Alisson falou e eu passei a mão em seu braço.
— Relaxa. – Falei firme. – Eu só preciso de café, chocolate, energético e Coca—Cola. – Suspirei e os três em volta arregalaram os olhos.
— Meu Deus! – Miranda falou rindo. – Isso é uma bomba. – Dei de ombros.
— Se adiantar em me manter acordada... – Suspirei.
— ! – Bianca apareceu atrás de mim.
— Bom dia, Bi! – Os jogadores falaram e ela sorriu, acenando.
— Bom dia! – Ela riu em seguida. – , treta logo cedo.
— Ah, adoro tretas para o café da manhã. – Me levantei, me afastando com ela um pouco. – Diga!
— Alguns jogadores da sérvia deram uma declaração na coletiva de ontem. – Suspirei.
— Pelo visto falaram merda, né?! – Ela assentiu com a cabeça, me mostrando o celular.
“Jogadores da Sérvia dizem que Brasil não se defende bem. Só sabem atacar, fazer gols e se divertir”. – Franzi a testa.
— Ué... Mas estamos aqui para que? Cozinhar? – Ela riu.
— A gente não sabe se defender, é?! – Thiago Silva apareceu atrás de nós. – Espera só.
— Não se mete, Thiago. – Falei firme, empurrando—o pelo peito.
— E ele também falou que Tite liberou a escalação cedo, sendo uma provocação para eles. – Bianca falou.
— Mas ele sempre libera a escalação antes, por pedido nosso, na verdade. – Dei de ombros, suspirando.
— Eles querem ver o circo pegar foto, só pode. – Thiago falou.
— E você vai ficar quietinho quanto a isso. – Me virei, apoiando as mãos nos ombros de Thiago, e virando—o em direção à mesa. – Cai fora daqui, vai. – Ele saiu rindo, mas imaginei que já fosse compartilhar a informação.
— Eles querem uma declaração. – Bianca falou e eu suspirei.
— Eu posso falar, se quiser. – Thiago voltou e eu olhei brava para ele.
— Cai fora! – Falei e ele saiu erguendo as mãos.
— Português?
— Imprensa brasileira, para falar a verdade. – Ela falou e eu suspirei.
— Vai tomar seu café que eu cuido disso. – Ela agradeceu com a cabeça, me entregando seu celular.
— Obrigada! – Ela falou e eu respirei fundo, saindo do restaurante.
O dia se seguiu daquela maneira. Imprensa ligando, declarações desleixadas dos sérvios, imprensa louca atrás de informações e eu me entupindo de bebidas e comidas energizantes ao longo do dia.
Os jogadores ficaram andando de um lado para o outro no hotel, tentando passar o tempo também. Não tinha treino, não tinha espaço para eles treinarem, então eles tinham que se ocupar, principalmente com jogos de tabuleiro, a única coisa que pedimos era para eles ficarem longe da televisão. Não podíamos lidar com jogadores nervosos agora.
A cada vez que eu passava com uma lata diferente na mão, seja de refrigerante ou de energético, eu via os olhos de Alisson se arregalarem para mim, mas eu estava bem. Aquilo estava impedindo que eu não dormisse, o que já era muito bom.
— Você sabe que horas são? – Perguntei para um dos jornais que me ligava.
— Quase sete. – Ele respondeu.
— Exatamente! O jogo é em duas horas, o que é para ser, será, aguarde mais um pouco que eu saberei te dar até a minutagem dos lances. – Falei, percebendo que estava falando rápido demais.
— Obrigada senhora, mas eu queria...
— Sinto muito, preciso desligar, estamos indo para o estádio agora. Au revoir! – Falei, desligando o celular em seguida.
— Estamos indo mesmo! – Lucas falou na porta. – Pegue suas coisas e vamos! – Ele falou e eu coloquei o crachá em meu pescoço, pendurei a mochila nas costas e aproveitei para pegar mais um energético que eu deixei gelando no frigobar.
— Vamos! Vamos! Vamos! – Falei, saindo saltitante pelo corredor.
— Sério, você precisa parar de beber isso! – Lucas falou e eu virei mais um gole.
— Se eu parar agora, eu durmo.
— Eu acho que você vai passar mal daqui a pouco, isso sim. – Ponderei com a cabeça.
— Talvez. – Falei, saindo do elevador em seguida.
— Você almoçou, pelo menos? – Fiz uma careta.
— Vamos dizer que eu não tive tempo. – Entreguei a chave na recepção, fazendo positivo para o gerente e segui em direção ao ônibus, onde a maioria das pessoas já estavam esperando.
— Mano, você é louca! – Lucas falou, enquanto eu subia no ônibus.
— Ah, fica quieto! – Abanei a mão. – Pronto, galera? – Gritei, vendo a galera gritar junto e me sentei na primeira poltrona do ônibus.
— Essa adrenalina vai ter que ir para algum lugar. – Lucas falou e eu respirei fundo, desbloqueando meu celular e arregalando os olhos.
— Chupa! – Gritei, começando a pular animada no meu assento.
— Ela não tá no normal dela. – Tite comentou para Lucas que somente abaixou a cabeça. – O que foi agora, ?
— A Alemanha está fora da Copa do Mundo! – Falei animada, me levantando e vendo os jogadores fazerem o mesmo.
— O quê? – Os jogadores gritavam e batiam nas laterais do ônibus.
— Alemanha perdeu de dois a zero para a Coreia do Sul e está fuera!
— Nossa! – Eles debocharam e eu gargalhei, tentando me conter.
— Como isso foi acontecer?
— Não eram eles que a gente enfrentaria nas oitavas?
— Ei! – Chamei a atenção deles. – Estamos felizes porque a Alemanha está fora, mas agora foquem para não cair fora também. – Falei firme.
— Ela tá com uns parafusos soltos, mas ela está certa. – Tite falou e eu ri fraco. – Vamos prestar atenção! – Ele falou. – Ainda precisamos ganhar. – Me sentei novamente, finalizando a lata em um gole. – Foquem!

Entrei no estádio seguido dos jogadores e comecei a organizar minhas coisas. Lucas tinha razão, a adrenalina precisava ir para algum lugar, eu já estava começando a suar. Abri os botões da blusa polo, fiz um coque alto e tirei os sapatos. Fucei minha mochila novamente e peguei uma última barra de chocolate, vendo—a ser tirada da minha mão.
— Não! – Alisson falou, jogando—a em seu armário.
— Ei! – Falei.
— Você tá nessa o dia inteiro, isso não vai te fazer bem, me escuta. – Ele falou e eu me sentei na bancada.
— Você não tem que treinar, não?! – Brinquei e ele riu.
— Tenho e vou levar seu chocolate comigo
— Hum, que delícia! Chocolate com suor ou chocolate com grama, não sei o que é melhor. – Ele riu fraco.
— Quer um pouco de mate? – Ele me estendeu a cuia e eu revirei os olhos
— Não! – Falei rindo. – Além de que depois de tudo que eu bebi, mate só vai ser uma bomba para mim.
— Sei não se o mate que vai ser uma bomba para você. Você está inteira vermelha. – Ele apontou para meu colo e eu bem que sentia que estava fervendo.
— Estou com calor, confesso, mas tenho ainda quase duas horas para me manter em pé. – Ele me olhou e entregou o chocolate de novo.
— Te juro que se a gente passar dessa...
— “Se”? Porque todo mundo está falando “se”? Vamos passar, pelo amor. – Falei um pouco mais alto para os outros jogadores ouvirem. – Vai ser hexa, gente. Foca! – Falei rápido demais e eles arregalaram os olhos.
— “Se” a gente passar dessa... – Alisson frisou. – Eu mesmo te faço dormir, se for necessário. Tirando a bomba que você está enfiando para dentro do seu corpo, olha a quantidade de gordura...
— Me faz dormir, é?! – Dei um sorriso malicioso e ele revirou os olhos. – E eu não sou a miss dieta, já avisando. Além de que perdi alguns quilos no fim do ano, fazia tempos que eu exagerava assim.
— Você está falando rápido demais. – Ele abanou a mão.
— Ela tá com pico de glicose. – Rodrigo falou, passando a mão em minha testa. – Tem certeza...
— Eu estou bem, ok?! – Falei, abanando os braços. – Vamos focar no que realmente importa. – Falei. – Brasil e Sérvia? – Alisson abanou as mãos e logo saiu junto dos demais jogadores para o treino.
Eu devorei minha última barra de chocolate enquanto eles estavam treinando e organizei todos os programas, drives e redes sociais. Logo eles voltaram e já se trocaram para o uniforme oficial de jogo. Eu estralava todas as partes do meu corpo e passava a garrafa de isotônico gelado em meu pescoço para ver se eu parava de derreter um pouco. E nem estava tão calor assim em Moscou.
— Vamos lá, gente! – Tite chamou a atenção do pessoal. – Último jogo da fase de grupos. Podemos nos classificar só com um empate, mas não deixaremos! Nós somos o Brasil e vamos mostrar do que somos capazes.
— É! – Os jogadores aplaudiram.
— A batalha não está sendo fácil, mas eu me orgulho de vocês e quero ver um jogo limpo, fantástico e com muita garra!
— É!
— Vamos lá e mostrar ao povo brasileiro do que somos capazes!
— É!
— Além de enfiar a bola na boca de alguns sérvios por falarem besteira! – Falei um pouco animada demais e me calei em seguida.
— É?! – Tite deu de ombros e caí na gargalhada.
— É! – Os jogadores gritaram e eu ri.
— Acabem com eles! – Gritei, batendo palmas e eles saíram do vestiário, batendo as mãos contra as minhas e eu acenei para Alisson. – Bom jogo! – Pisquei para ele que balançou a cabeça.
— Fica bem! – Ele falou e eu ri.
— Não deixe nada entrar que eu fico! – Ele riu enquanto eu acenava com a mão.

Respirei fundo ao ver os jogadores entrando no estádio e fiz alguns sinais da cruz, pedindo pelo amor de Deus que a gente conseguisse vencer aquele jogo e que, de preferência, ele não fosse tão sofrido como os dois últimos. Estendi as mãos para cima, estralando as juntas e aumentei a televisão, ouvindo o hino da Sérvia ser tocado.
Em seguida foi a vez do hino brasileiro, mostrando em ordem inversa o time. Quando chegou em Alisson, ele já estava vermelho novamente, de nervoso, provavelmente. Afinal, eu não estava lá para fazê—lo ficar com vergonha. Meu corpo se arrepiou pela primeira vez naquele dia quando o hino acabou e os torcedores do estádio seguiram cantando o hino à capela, fazendo com que as paredes do vestiário tremessem.
Os jogadores se cumprimentaram e se separaram. Miranda se aproximou dos juízes junto do capitão da Sérvia e logo se separaram novamente, Brasil ficando com a bola. Soltei a respiração algumas vezes, observando a escalação do Brasil e Coutinho tomar o centro do campo, pronto para a partida começar.
O árbitro autorizou a partida e tentei me manter calma, meu corpo suava loucamente, mas minhas mãos estavam geladas, como quando eu ficava nervosa. O Brasil fez uma tentativa de gol logo nos primeiros minutos do jogo. Willian passou para Neymar que chutou para Coutinho que fez o chute e acertou em Jesus, mas logo o bandeirinha apitou, declarando o impedimento, Gabriel estava em posição errada.
Willian tentou a arrancada em seguida, caindo, sendo interrompido por um sérvio, aparentemente bravo pela falta ter sido dada. Brasil faz duas tentativas vezes seguidas, uma vez com Jesus que foi desviado pelo goleiro e depois com Neymar que chutou em cima do goleiro, mas também tinha o impedimento no primeiro passe para Gabriel.
Willian caiu novamente no chão, sendo desviado por um sérvio e eu cocei a cabeça. Sem derrubar meus jogadores, cara. A bola saiu, dando lance lateral para a Sérvia. A bola se aproxima do campo brasileiro, mas Thiago Silva tire da cabeça, caindo com força no chão. Thiago sumiu, o sérvio não, fazendo com que ele esbarrasse no sérvio e tropeçasse no mesmo, caindo.
Franzi a testa ao olhar o jogo parado, vendo Marcelo se aproximar da linha próxima a Tite e logo a equipe de Rodrigo se aproximou, trocando algumas palavras com ele. Marcelo anda de um lado para o outro, lentamente e o jogo foi recomeçado, enquanto Filipe Luís se arrumava para fazer a troca com Marcelo.
“Marcelo vai entrar” – Dizia uma mensagem de Angelica em meu WhatsApp e acompanhei os passes de Marcelo dentro do campo, enquanto não fazia a troca.
Substituição. Sai Marcelo, entra Filipe Luís.
Fiquei olhando para a porta e para o jogo, à espera de Marcelo e da equipe médica. Nesse tempo Neymar se aproximou com a bola, na tentativa de uma finalização, mas a bola retorna para o campo brasileiro. Fagner divide bola com o sérvio e acaba derrubando—o no chão, dando a falta.
Observei a bola se aproximando de Alisson, mas ele foi mais rápido e socou a bola, fazendo—a sair rapidamente pela lateral. A bola retornou para a Sérvia, tentando novamente um gol, mas a mesma foi forte demais, fazendo com que Alisson se esforçasse para pegar a bola, evitando que ela desse escanteio para a Sérvia, mas ele deslizou na grama, me fazendo começar a gargalhar sozinha.
— Ah, Alisson virou meme de novo! – Falei sozinha, já fazendo o pedido dessa imagem para o pessoal do Rio, tentando parar de rir.
Willian cruzou o campo, tentando fazer o passe, mas foi forte demais, não tinha ninguém para receber o passe e a bola foi para fora. A cena mudou para um lance passado e eu fiz uma careta ao ver Miranda tentando chegar à bola, mas chutando, sem querer, eu espero, o saco do sérvio em sua frente.
— Miranda virou meme! – Falei também, enviando o pedido da imagem.
O Brasil se aproximou com vontade, Neymar cruzou para Paulinho, mas a bola chegou antes do goleiro sérvio. Vamos, Brasil! Hora de abrir placar! Paulinho tentou logo em seguida, mas não, a defesa da Sérvia tirou antes, jogando a bola para linha de fundo.
Escanteio para a Sérvia novamente. Fechei um dos olhos ao ver o chute em câmera lenta, mas Alisson saiu do gol, estendendo as mãos e socando a bola novamente. Ufa! A bola cruzou o campo, dando outra chance para o Brasil, mas Neymar manda muito reto, seguindo para o outro lado do gol, o goleiro sérvio mal se mexeu. O jogo foi parado um momento enquanto Jesus ficou caído na área da Sérvia, tirando a chuteira rapidamente.
— Ei! – Virei para o lado, vendo Marcelo entrando com Rodrigo, apoiando nas paredes e eu me levantei rapidamente, estendendo minha mão a ele.
— Está tudo bem? O que aconteceu? Ninguém bateu em você, né? – Perguntei tudo ao mesmo tempo.
— Calma! – Rodrigo falou e eu ergui as mãos, vendo—o ajudar Marcelo a se deitar em uma das macas estendidas nas laterais do vestiário.
— Eu estou bem! – Marcelo falou, movimentando com as mãos. – Só preciso... – Ele fez uma careta.
— Foi só um espasmo na coluna. – Rodrigo falou. – Não é nada grave. – Assenti com a cabeça e voltei a me sentar no meu banquinho.
— Qualquer coisa, estou aqui. – Falei e Marcelo sorriu, com lágrimas nos olhos, mas eu só dei um sorriso para ele, voltando a prestar atenção no jogo.
Olhei novamente para a TV e vi que Jesus tentava chutar para o gol, mas a bola rebateu no adversário, impedindo a passagem e saindo pela lateral. A bola voltou para o campo brasileiro e vi Thiago Silva ajudando um sérvio a se levantar, que reclamava de dor na cabeça. No replay mostrou o sérvio tentando cabecear uma bola baixa e Thiago seguindo com o pé, acertando na cabeça dele.
Em uma arrancada de Neymar, o sérvio deu uma entrada no mesmo, fazendo com ele, literalmente, saísse rolando por fora do campo, mas um adversário o ajudou a se levantar e estava tudo bem com ele, mas o replay era engraçado, aquilo precisava ser usado.
— Neymar virou meme e o sérvio ganhou um amarelo. – Marcelo riu atrás de mim e eu tinha me esquecido que não estava mais sozinha.
A Sérvia fez uma tentativa bonita de gol de bicicleta, mas o chute foi forte demais e Alisson nem precisou pular para defendê—la, ela passou por cima de sua cabeça. Olhei para o tempo no relógio e já passava de 34 minutos, o jogo da Suíça e Costa Rica já estava um a zero e estávamos em segundo na tabela.
— Vai, Coutinho! – Gritei ao ver Coutinho correr na tentativa de um lance.
Ele fez um cruzamento e a bola encontrou Paulinho sozinho na área com a defesa da Sérvia inteira. Paulinho estendeu a perna digna de uma bailarina e deu um toque na bola, fazendo—a ir no fundo do gol, enquanto o mesmo tropeçava no goleiro e caía pouco antes da rede.
— GOL! – Gritei, virando para Marcelo.
— Gol! – Ele comemorou também, não na mesma intensidade, mas estendeu a mão para que eu batesse na dele.
— O gol foi lindo, Marcelo. Digno de bailarina. – Falei e ele riu.
— Deve ter sido mesmo. – Sorrimos e voltei a olhar para o jogo.
Falta em cima do Coutinho. Falta em cima da Sérvia. Não brinca, Brasil. Vamos lá! Respirei fundo, estralando os dedos novamente. A bola foi para a área do Brasil e só consegui ver Thiago Silva caído na área brasileira. Pois é, do lado errado. O juiz não deu nada com a queda e foi dado escanteio para a Sérvia, Alisson sai do gol e soca a bola, tirando—a para frente.
Willian passa a bola para Filipe Luís que passa para Neymar. O mesmo tenta uma arrancada e só vi o mesmo no chão, passando a mão no rosto. Aguardei o replay e vi o camisa 10 da Sérvia puxando o mesmo para baixo. Ney não vai se jogar não, conversamos sobre isso.
Acréscimo de dois minutos.
Neymar consegue atravessar a bola novamente, faz a tentativa de gol, com aquela curva perfeita, mas... Passou raspando pela trave superior. Goleiro sérvio nem precisou se mexer. O goleiro mandou a bola para o centro novamente, mas Paulinho fez com que ela voltasse, chutando na mão do goleiro Sérvio.
— Final do primeiro tempo. – Falei para Marcelo e saí do banco, me aproximando do mesmo. – Você está bem, mesmo?
— Está dando umas pontadas, eu estou com bolsa de água quente, mas demora para relaxar. – Peguei uma toalha em uma das caixas e a coloquei em sua testa.
— Você está suando demais.
— Você também. – Ele falou e eu ri.
— Eu estou suando porque eu estou elétrica, você não. – Apertei a toalha em sua testa e ele assentiu com a cabeça, em agradecimento.
— E aí, cara? – Os jogadores voltaram a entrar no vestiário e se aproximaram de Marcelo. Eu me afastei, voltando a me sentar no banco.
— Tá tudo bem. Tá tudo bem. – Marcelo aliviou o pessoal e Rodrigo se aproximou do mesmo, dando algo para ele tomar e desviei o olhar.
— Você, você e você, viraram memes! – Apontei para Alisson, Miranda e Neymar.
— Por quê? – Alisson perguntou. – Eu não fiz nada dessa vez.
— Você tentou buscar uma bola que ia para fora e derrapou sozinho na grama. – Falei, olhando para ele que riu.
— Você viu isso?! – Ele reclamou, se sentando em seu lugar.
— Eu e o mundo inteiro, querido. – Sorri. — E você chutou os países baixos de um homem. – Falei para Miranda.
— Ah, mano! – Ele falou rindo.
— E você saiu rolando, certeza que pensaremos em algo. – Falei para Neymar que começou a rir.
— Essa televisão tem zoom, por acaso? Ou sei lá o quê? – Neymar brincou e eu ri.
— E você! – Virei para Paulinho, subindo no banco. – Gol maravilhoso! – Falei e ele sorriu. – Muito lindo! – Ele sorriu.
— Obrigado. – Ele falou rindo, me jogando um beijo e eu fingi que o peguei e me sentei novamente.
— Agora que a já falou, minha vez. – Tite falou e eu ri, franzindo o rosto e dando um sorriso de lado. – Vocês estão indo muito bem, os ataques cada vez mais precisos, a marcação da defesa mais acertada a cada aproximação e a defesa se posicionando e atingindo muito bem. – Ele falou de Alisson e eu sorri. – Continuem assim que vamos continuar abrindo vantagem. – Como está o outro jogo, ?
— Um a zero para Suíça. – Falei e Tite bateu as mãos.
— Estamos em primeiro no grupo. Vamos manter assim. – Ele falou e assenti com a cabeça. – Vamos! Vamos! Vamos! – Ele gritou e os jogadores voltaram a sair do mesmo, se preparando para o segundo tempo.

O jogo recomeçou novamente e logo uma falta foi feita em cima de Jesus e o sérvio ganhou um cartão amarelo, o segundo dessa fase. Caso ele fosse para a segunda fase, o que não aconteceria em cima do Brasil, ele estará fora do próximo jogo. Neymar marca a falta, tentando o ataque, mas está impedido.
A Sérvia cruza e faz a tentativa, mas vai muito fora, fazendo Alisson ir buscar a bola. A bola atravessa novamente e Willian tenta o cruzamento, mas um adversário está bem posicionado e tira a bola com uma bicuda para fora.
Os acontecimentos do jogo estavam espaçados, isso fazia com que eu batesse meus pés no chão e a unha na bancada, fazendo Marcelo reclamar atrás de mim, mas eu ainda sentia que estava atacada e eu não conseguiria relaxar até o fim do jogo.
A Sérvia faz uma tentativa de ataque, mas Miranda está em perfeito posicionamento, esticando o pé direito e chutando a bola para fora. Brasil cruza o campo e Coutinho faz o passe para Neymar, mas vai fraco, seguindo nas mãos do goleiro.
Costa Rica empata, um a um contra a Suíça.
Escanteio para o Brasil, Neymar chuta a bola, batendo na cara de um Sérvio. Uh! Eu já levei algumas dessa e não é legal. Mas ele parecia legal. Sérvia cruza a bola, fazendo meu coração começar a bater mais forte. Eles chutaram alto, vindo pelo lado norte do campo, mas Alisson pega a bola.
— Falta no Neymar! – Falei, bufando, vendo—o mexer no braço, mas logo se levantar para bater a mesma.
A bola cruzou novamente e respirei fundo ao ver Alisson sair da área para meter um chute na bola, fazendo—a atravessar.
— Pelo amor, não faz isso! – Falei, me levantando, vendo a Sérvia voltar para o ataque. – Pega isso! Pega isso! – Alisson fez a defesa, mas devolveu a bola para a área e o sérvio deu de cabeça, mas Thiago estava bem posicionado, dando uma joelhada na bola que voltou para as mãos de Alisson. – Ufa! – Falei, me sentando novamente.
— O que houve? – Marcelo perguntou.
— Alisson e Thiago acabaram de me salvar de um ataque cardíaco. – Falei, pegando a gola da camisa e movimentando—a, tentando fazer um pouco de vento em meu pescoço. Marcelo riu fracamente.
A Sérvia tentou novamente, mas Thiago Silva já jogou a mesma de volta para o meio de campo. A bola volta, mas Alisson até vai atrás da bola, mas sem necessidade. Um terceiro lance seguido fez meu coração parar, mas Thiago Silva já tirou a bola. E na terceira vez, foi jogada para longe demais. Mostrou Alisson parado um pouco com o juiz e Thiago próximo a eles, mas tudo me pareceu ok.
Substituição. Sai Paulinho, entra Fernandinho.
Escanteio para o Brasil, Neymar tenta, mas a Sérvia tira. Escanteio de novo para o Brasil. Bufei, passando a mãoa uma na outra. Neymar bate, Thiago levanta e...
— GOL! – Gritei, batendo as mãos fortemente na mesa.
— De quem? – Marcelo pergunta.
— Thiago Silva! – Gritei animada. – Ele tá sucesso demais! – Ele riu e esticou a mão para cima e eu bati na mesma.
Coutinho fez uma tentativa de gol, mas chutou errado. Filipe Luís tentou em seguida, mas o goleiro bateu a mão na bola, jogando—a para fora. Neymar tentou, mas bateu na barreira Sérvia. Alguns minutos depois Casemiro tentou também, mas isolou a bola acima do gol. A Sérvia tentou fazer a bola cruzar, mas ao fazer a tentativa, chutou muito alto e para fora.
Substituição. Sai Coutinho, entra Renato Augusto.
Aos 36 minutos do segundo tempo, Neymar fez três tentativas seguidas, com poucos minutos de distância uma da outra. Na primeira vez, Willian fez o passe para ele, mas ele deu de bicuda, fazendo a bola subir alta. Na segunda vez, Neymar tentou dar um chapéu no goleiro, mas ele ergueu a mão, impedindo que a bola passasse por ele. E na última vez, a bola parou na barreira sérvia, no ricochete da bola, ela voltou.
Acréscimo de três minutos.
— Ok, dá para acabar. Vamos lá! Dois a zero, tá ok. – Respirei fundo.
A Sérvia fez duas tentativas nos acréscimos, uma foi impedida de se aproximar por Thiago Silva e, em seguida, a Sérvia voltou, mas a bola foi para fora. Neymar fez uma última tentativa de ataque. A bola chegou em seus pés, passou para Jesus que devolveu para ele que tentaria o chute se o goleiro não tivesse pego a bola de seus pés.
— Fim de jogo! – Gritei, subindo no banco improvisado e dei alguns pulos em cima do mesmo, fazendo Marcelo rir. – Estamos nas oitavas! Estamos nas oitavas! – Falei animada, fazendo uma dancinha sozinha.
— Quem disse que é chato assistir jogo sozinho, não?! – Marcelo brincou e eu ri.
— Mais uma semana em Sochi! Mais uma semana em Sochi! – Falei rindo, tentando um rebolado bem tonto.
— Onde eu acho o botão para desligar?
— Foi demais! – Falei alto, deslizando os pés pela caixa, ouvindo—o rir. – Ah, menino Ney! – Abri os braços quando os primeiros jogadores começaram a aparecer no vestiário e abracei o mais baixo, vendo—o rir. – Não teve gol, mas tiveram muito menos quedas, meus parabéns e muito obrigada! – Falei, segurando o rosto em suas mãos e ele riu.
— Obrigado! – Ele se afastou rindo.
— Menino Jesus! – Ele veio em seguida e eu o abracei também. – Não teve gol ainda, mas você nem só de gols se faz um atacante, os passes estavam perfeitos. – Ele riu, um tanto encabulado, e logo se afastou.
— Hum, obrigado! – Ele riu e olhei meu jogador favorito vindo ao fundo e abri um largo sorriso e os braços para ele que se aproximou olhando um tanto estranho.
— Ah, Alissinho! – Falei, vendo—o se aproximar enquanto bebia seu isotônico e eu segurei seu rosto com as duas mãos, estalando um beijo em sua testa, provavelmente deixando todos surpresos e olhei seu rosto ficar muito vermelho. – Aquela sequência de defesas! Fantástico! – Falei rindo e ele estava travado.
— Voltei! – Thiago falou e eu soltei um grito animada, abraçando—o pelos ombros e tirando meus pés do chão por alguns segundos, sentindo—o me girar no ar e me colocar de volta em cima do banco. – Defesa, gol, defesa! Você é um cara completo! Muito bom, muito bom mesmo! – Ele riu.
— Valeu, .
— E você sabe o melhor? – Eles olharam para mim como se não soubessem. – Estamos nas oitavas!
— É! – Eles gritaram e eu ri, ouvindo todo mundo bater em algum lugar, comemorando.
Parei por um momento, sentindo minha barriga borbulhar um pouco e meu corpo começar a suar mais ainda. Soltei a respiração devagar por alguns segundos, passando a mão nas têmporas, sentindo as gotas começarem a pingar.
— Está tudo bem? – Alisson perguntou e eu balancei a cabeça negativamente, apoiando a mão em seu ombro
— Não! – Falei, descendo correndo do banco e agradeci pelo banheiro ser por esse lado e entrei no mesmo rapidamente.
— Ei! – Ouvi alguns jogadores reclamando, mas ignorei.
Entrei em uma das cabines livres, tentando fechar a porta com o pé e ergui o assento da privada, vendo tudo que eu tinha, ou não tinha, bebido e comido ao longo do dia sair em duas talagadas, me fazendo sentir uma dor no peito com o movimento involuntário e respirei fundo. Coloquei a mão na testa, sentindo—a encharcada e suspirei.
Eu senti meu corpo acalmar quase imediatamente e tudo o que aconteceu nas últimas horas começou a passar em minha cabeça. Eu tinha feito muita merda e pagado muito mico, principalmente nesses últimos segundos. Suspirei, me encostando na porta da cabine aberta e soltava o ar lentamente.
— Ei! – Vi Rodrigo entrar no banheiro e senti uma dor de cabeça forte bater em minha cabeça e ele se ajoelhou ao meu lado. – Agora você vai ficar bem.
— O que aconteceu? – Perguntei, balançando a cabeça. – Porque isso aconteceu?
— Você ficou o dia inteiro a base de bebidas com bastante glicose e cafeína. Elas têm um tempo para fazer efeito sobre o seu corpo, como você não respeitou os intervalos de digestão, quando você parou de ingeri—las, elas assentaram. Junte isso ao fato de você não ter comido nada sólido, seu estômago funcionou literalmente como uma bomba, bateu e voltou. – Suspirei, sentindo—o passar a mão em minha cabeça.
— Ei... – Vi Alisson e outros jogadores entrando.
— Sai daqui, por favor. – Falei e Rodrigo balançou a mão. – Não quero que ninguém me veja assim.
— Eu sei! – Rodrigo falou me entregando um lenço. – Aqui! – Ele falou. – Já arranjo uma bala ou alguma coisa para ti.
— Que vergonha! – Falei e ele riu fraco.
— Da próxima vez que você não dormir, vamos certificar que você consiga um tempo de descanso apropriado, pode ser? – Suspirei.
— Amanhã mesmo eu vou atrás de um sonífero para evitar que isso aconteça. – Ele riu fraco.
— Eu vou pegar meu estetoscópio e o medidor de pressão, ok?! Ver se está tudo certo. – Assenti com a cabeça. – Ou prefere ir lá no vestiário?
— Eu estou bem. – Falei.
— Vamos sair do banheiro, pelo menos. – Ele me estendeu as mãos e eu segurei para me ajudar a levantar.
Eu passei na pia para dar uma lavada em meu rosto e fazer um gargarejo com água mesmo, pelo menos para tirar aquele gosto ruim na boca. Ele me sentou no corredor que antecedia o banheiro, ao lado do vestiário e saiu para o mesmo rapidamente. Ele trouxe os materiais que disse e começou pelo meu coração, ouvindo—o aos poucos.
— Tá um pouco acelerado. – Ele falou, pendurando—o no pescoço e colocou o medidor de pressão em meu braço, começando a apertar o mesmo, fazendo—o inflar e relaxar após alguns segundos. – Meu Deus! – Ele falou. – Sua pressão é sempre alta assim?
— Não. – Falei. – Normalmente é 11 por sete. – Falei, respirando devagar. – Até baixa.
— Está 14 por nove, . Eu vou te dar um remédio para abaixar isso, ok?! Pode te dar uma taquicardia. – Ele falou e eu respirei fundo.
— O que você quiser. – Suspirei, encostando minha cabeça na parede.

Ele voltou e conectou uma bolsa de 250 mililitros de soro em meu braço e injetou uma ampola de algo que fez meu corpo relaxar rapidamente, quase como desinchar um balão. Isso fez com que minha pressão caísse aos poucos e meu coração parasse de bater igual uma escola de samba.
Enquanto ele ficava comigo ali, o resto do pessoal acabou até jantando no estádio de Moscou, como era esperado. Eu não queria aparecer em público, mas precisávamos voltar para Sochi ainda. Agradeci por sempre andar com um casaco na mochila e o vesti, colocando o capuz na cabeça.
Tanto durante a ida de ônibus até o aeroporto, o voo de Moscou para Sochi e o ônibus de volta para o hotel, eu fui lá na frente, ao lado de Rodrigo. Em partes, tentando fugir tanto de Alisson, dos jogadores e da minha própria equipe. Além de que Rodrigo queria continuar monitorando minha pressão, até que ela voltasse ao normal, o que aconteceu logo no começo do voo.
O que tinha sobrado era só vergonha por passar um vexame desses no meio de muitas pessoas famosas, conhecidas e que tinham virado minhas amigas. Pior que eu nem podia me fingir de tonta e falar que ninguém tinha me avisado, porque tinham. Eu só não quis ouvir.
Apesar de que eu já tinha feito isso em outras situações, principalmente após festas da faculdade onde eu teria que ir virada para a aula, ou em jogos importantes os quais eu não conseguia dormir. Acho que o caso principal foi à falta de comida sólida mesmo. Quando bateu, saiu de uma vez.
Assim que chegamos ao hotel em Sochi novamente, eu fui a primeira a descer do ônibus. Enquanto o pessoal esperava as malas, eu me desviei de todos e corri para o quarto. Agradeci pelos elevadores estarem no térreo e entrei no mesmo, apertando o botão do quarto andar rapidamente.
Apoiei a cabeça na parede do mesmo e aguardei até que o mesmo chegasse ao andar. Saí do mesmo, seguindo em direção ao quarto e coloquei a chave no mesmo, empurrando a mesma e entrei nele. Fechei a porta e me encostei na mesma, respirando devagar. Eu queria chorar, mas parecia que eu não tinha lágrimas naquele momento.
— ! – Ouvi um barulho na porta e me afastei da mesma, encarando se a mesma não abriria sozinha. – Vai, . É o Alisson, abre! – Respirei fundo, sentando na beirada da cama e as lágrimas finalmente saíram. – Por favor.
— , por favor. A gente quer saber como você está. – Reconheci a voz de Thiago e peguei meu travesseiro, abraçando o mesmo.
— , é o Rodrigo, eu quero medir sua pressão mais uma vez.
Por mais que eu não quisesse, ignorei todos e segui direto para o banheiro, fazendo as vozes ficarem abafadas. Eu tomei um longo banho, escovei os dentes três vezes para me certificar se o cheiro e gosto tinham saído e coloquei um pijama quente, entrando embaixo das cobertas e agradecendo por conseguir dormir em poucos minutos, ouvindo as vozes insistentes do lado de fora.

Capítulo 8 – Brasil x México, estão deixando a gente sonhar!

Acordei no dia seguinte e me senti nova. Tirando a vergonha, eu estava bem, como se nada tivesse acontecido. Os gritos da noite anterior tinham cessado e tinha um silêncio descomunal no corredor. Era dia de folga! Tite já tinha informado que caso passássemos, ele só queria ver os jogadores novamente na sexta—feira cedo, para se preparar para o jogo contra o México.
Saí da cama e fiz minha higiene matinal. Voltei para o quarto e abri as cortinas, deixando que o sol de Sochi entrasse em meu quarto pela janela em “L”. Segui até minha mochila e peguei meu celular, vendo—o desligado, provavelmente tinha acabado a bateria no meio da noite. O conectei na tomada e me assustei ao ver que passava já das 11 horas da manhã. Eu tinha passado uma noite inteira sem dormir, com certeza tinha conseguido recuperar o sono perdido.
Conectei o celular no wi—fi do hotel e segui para o armário, pegando shorts, uma camiseta que não fosse da CBF e me troquei. Meu celular começou a apitar loucamente, me preocupando que meu celular travaria ou explodiria com tantas mensagens.
Aguardei com que ele parasse de fazer barulho e puxei a aba de notificações. Tinha uma ou duas do Facebook, alguns e—mails da CBF e o resto era tudo mensagem do WhatsApp. O grupo da CBF tinha sido movimentado na noite anterior, não pela vitória, mas com perguntas de como eu estava e se alguém tinha alguma notícia minha. Cogitaram até que eu tivesse fugido pela janela, o que até me fez rir um pouco.
Depois, nas conversas individuais, tinha mensagem de Lucas, Vinícius, Bianca, Angelica, de todos os 23 jogadores, além de Tite e Rodrigo, perguntando como eu estava. Abri mensagem por mensagem, vendo se tinha algo diferente do “como você está?” e só fui limpando as notificações. Eu deveria responder o pessoal, mas confesso que não estava com paciência.
Parei por alguns segundos antes de abrir a mensagem de Alisson. Tinha várias mensagens dele, todas com horários espaçados.
“Ei, abre a porta”.
“Você está bem?”
“Estamos preocupados”.
“Não sou sair daqui até você abrir”.
“Estamos jogando truco na frente da sua porta”.
– Será que foi sério?
“Porque você está assim? É por causa do que houve mais cedo?”.
“Não vai abrir mesmo? Tá dando sono”.
– Ri com essa.
“Não entendo porque você está tão envergonhada, todos já levamos um porre na vida”. – Balancei a cabeça, rindo sozinha.
“Sei que você deve estar chateada, mas, acredite, nós ainda te adoramos e não vamos aguentar o resto da Copa sem você. Isso são coisas que acontecem e que são feitas para aprendermos com nossos erros. Fala comigo”.
“Acho que você já foi dormir. Estou indo para o quarto, não saia agora e pense que eu sou um cara desalmado. Dorme com os anjos”.
– Suspirei com essa última mensagem e olhei as informações de foto e horário e vi que ele estava online.
Pensei por alguns segundos o que responder e comecei a digitar alguma coisa como “estou bem” e “adorei suas mensagens, mas eu realmente já tinha ido dormir”. Antes de apagar as mensagens mil vezes e decidir o que respondia, ouvi uma batida na minha porta e franzi a testa. Deixei o celular na cama e segui para a porta, abrindo a mesma.
— Ah, você está bem! – Senti alguém me abraçar fortemente, me deixando perdida por alguns segundos. Só percebi que era Alisson pela altura e pelo cheiro do perfume.
— Hum, estou... – Falei um tanto em dúvidas e ele me soltou, me segurando pelos ombros.
— Tem noção do quão preocupados nós ficamos ontem à noite? – Ele falou e eu ri fraco.
— Vocês realmente jogaram truco na frente da minha porta?
— Sim! – Ele falou com o cenho sério e eu me senti culpada.
— Desculpe! – Falei, respirando fundo e fiz um movimento com a cabeça para ele entrar. – Eu precisava dormir e eu estava com vergonha. – Neguei com a cabeça.
— Eu entendo! – Me sentei na cadeira e ele se apoiou ao meu lado. – Mas somos jogadores de futebol, certeza que fizemos muito mais besteiras do que você. – Ri fraco, negando com a cabeça. – Não foi o Marcelo que fez um gol contra na abertura da Copa de 2014?
— Foi! – Ri fraco. – Mas eu não tinha como olhar para vocês, olhar para você.
— Por quê? Porque eu saberia que a mulher que eu me apaixonei não é perfeita? – Dei um pequeno sorriso. – Que bom, porque eu cansei de gostar de bonecas, é difícil competir.
— Você está apaixonado por mim? – Perguntei e ele riu fraco, ficando envergonhado.
— Vamos falar disso depois, ok?! – Ele falou e eu sorri.
— O que você está fazendo aqui? – Perguntei. – Vocês não estão de folga?
— Sim. – Ele cruzou os braços.
— Então, o que você está fazendo aqui? Não vai ficar com a sua família? Sua filha? – Dei de ombros e ele riu.
— Eu não ia sair daqui sem checar como você estava. Rodrigo estava aqui até agora perguntando de ti. – Suspirei, apoiando a mão no queixo. — Além de que combinei de encontrar meus familiares no fim do dia, todos os jogadores, na verdade. – Assenti com a cabeça. – Por isso, eu queria saber se você não gostaria de sair comigo, almoçar fora daqui, dar uma volta pela cidade... – Ergui o rosto para olhá—lo que tinha um pequeno sorriso no rosto.
— Você está me chamando para sair? – Cruzei os braços.
— Sim! – Ele sorriu. – Eles chamam de encontro, não é?! – Ri sozinha.
— Me dá uns 30 minutos para eu me arrumar decentemente, falar com a minha equipe, Rodrigo e podemos ir. Que tal? – Ele assentiu com a cabeça.
— Te encontro no corredor, então. – Ele falou e andou para trás, saindo do meu quarto e puxando a porta.
Respirei fundo, sentindo que eu tinha um cabide enfiado na minha boca e segui para o armário. Eu não sabia aonde iríamos, creio que nem ele sabia onde me levaria, então acabei colocando um vestidinho básico, que eu tinha trazido por precaução, e meu conhecido All—Star. Até poderia colocar um salto e ficar mais bonita, mas meus pés precisavam descansar para o próximo compromisso oficial e para o próximo jogo. Dei uma melhorada na cara, com aquele lápis preto e o batom rosado e soltei os cabelos.
Avisei no grupo da equipe que estava viva e bem e logo começou a surgir respostas felizes por saberem disso. Liguei para Angelica para saber o andamento do dia e ela disse que Tite tinha dado folga para todo mundo, inclusive para nós e que deveríamos aproveitar um pouco. Ótimo!
Rodrigo surgiu no meu quarto após minha aparição no grupo da CBF. Ele refez todo o check-up em mim, conferindo o coração e a pressão novamente e ficou aliviado por tudo já ter normalizado.
— Se não ficou claro, não faça aquilo de novo, ok?! – Ele falou e eu ri fraco, fazendo positivo com a mão.
— Vai aproveitar, Rodrigo. – Falei, empurrando—o para fora do quarto.
— Vejo que também vai. – Suspirei, abrindo um sorriso de lado. – Aproveita mesmo, acalma aquele garoto antes do próximo jogo. – Senti minhas bochechas esquentarem e assenti com a cabeça.
— Até mais. – Acenei com a mão e bufei, balançando a cabeça.
Peguei meu passaporte, alguns rublos e dólares guardados na minha carteira, além do cartão de crédito da CBF e a chave do quarto e ajeitei tudo em uma bolsinha que eu tinha enfiado dentro da maior e a cruzei em frente ao corpo. Achei que a usaria em dias de folgas, mas não para realmente sair com alguém.
Coloquei a mão na maçaneta e respirei algumas vezes antes de girar a mesma. Saí do quarto, deixando a porta fechar sozinha e virei o corredor, encontrando Alisson parado ao lado do elevador. Ele usava uma calça jeans, blusa preta, tênis e os cabelos penteados para o lado.
— Ei! – Falei e ele sorriu.
— Ei! – Ele respondeu. – Bom te ver sem aquela roupa da CBF.
— Nem fala! – Rimos juntos. – Então, aonde você vai me levar?
— Eu não tenho a mínima ideia! – Ele falou e rimos juntos. – Tentei procurar algo no Google Maps, mas só aparece em russo. – Ele apertou o botão do elevador. – Quais as chances de você saber falar russo?
— Zero! – Respondi rindo. – Mas podemos sair sem rumo, quando aparecer algum restaurante a gente para e, se cansar, tenho sempre o Uber no meu celular. – Ele riu.
— Talvez seja uma boa. – Ele riu.
Nós saímos literalmente sem rumo pela rua de trás do hotel. Ele perguntava sobre mim, do que eu gostava, da minha família, mas sempre acabávamos caindo no futebol. Era visível que ele se interessava sobre esse lado da minha vida, principalmente por ter pego cinco pênaltis dele alguns dias atrás. Apesar de ainda duvidar que ele tivesse dado tudo de si. Já tinha visto algumas de suas habilidades com os pés e ele não tinha me mostrado todas aquele dia.
Eu já estava mais interessava nele, na sua família, na sua filha, em sua moradia na Itália, além de fazer questão de demonstrar minha surpresa em nunca tê—lo visto antes. Não só durante o Internacional, mesmo morando no Rio de Janeiro, eu sempre torci para um time paulista, mas eu não lembrava de tê—lo visto nem nas eliminatórias da Copa do Mundo, foi como se Alisson Becker tivesse nascido para mim no dia 14 de maio.
Só tinha um pequeno problema. Parecia que estávamos em um bairro privativo. Estávamos andando e papeando há horas e não tinha aparecido nenhum comércio ou barraquinha de comida para sentarmos e dar aquela relaxada.
— Acho que... – Paramos por um momento e olhei os terrenos vazios na lateral.
— Não tem nada aqui. – Ele falou e eu abri o mapa pelo celular, dando um rápido zoom na área que estamos.
— Tem aquele restaurante mediterrâneo e a confeitaria perto do hotel, depois não tem mais nada por vários metros. – Falei rindo. – Tem até um sanatório aqui, mas um restaurante...
— Sério? – Ele perguntou e eu mostrei o celular.
— Sei lá, escreve parecido! – Ele riu.
— Porque a gente não volta? Pelo menos temos a praia do hotel, as piscinas... – Ele parou por um momento.
— O quê? – Perguntei.
— Mas é claro! – Ele riu fraco. – A gente tinha falado que se tudo desse certo ontem, faríamos um churrasco na piscina do hotel.
— Naquela quente? – Perguntei.
— A gente achou uma piscina separada, do lado de fora, com área para festa e tudo mais, meu pai até falou para improvisarmos uma churrasqueira e...
— Eu não sei o que me assusta mais: vocês improvisarem uma churrasqueira ou achar carne boa para fazer churrasco aqui na Rússia? – Falei e ele riu.
— Somos brasileiros, vai dizer que nunca fez uma loucura quando viajou para o exterior? – Ele olhou em meus olhos e ponderei com a cabeça.
— Acho que o que eu fiz ontem vale pela vida inteira. – Comentei e ele sorriu.
— Então, vamos? – Ele me estendeu a mão e eu ri, segurando a mesma.
— Quero só ver se vocês vão vir com carne boa mesmo. – Ele entrelaçou nossos dedos e eu olhei para baixo, tentando não denunciar o largo sorriso em meu rosto.
— Eu sou gaúcho e tenho tendência em ser exigência quanto a carne, mas com a fome que eu estou, aceito qualquer coisa. – Ri, caminhando ao seu lado.
— Você pelo menos tomou café, eu não como nada desde... – Deixei a frase no ar. – Bem, desde o café da manhã de ontem.
— Você não comeu nada hoje?
— Ah, eu acordei tarde, você apareceu com uma oferta que eu não poderia recusar e logo saímos. – Dei de ombros. – Eu estou com um buraco no estômago. Se quer saber, meu esporte favorito é comer. – Ele riu.
— Eu vi pela quantidade de barras de chocolate que você comeu. – Gargalhei, encostando o rosto em seu ombro. — Acho que é a pior parte da dieta para mim. – Ele falou e eu ri em seguida. — Essa é a pior parte de morar na Itália. Você vive de dieta por causa da profissão e mora no país com a melhor culinária do mundo.
— Nossa! – Falei rindo. – Quando eu fui para lá, eu fiquei pouco, mas eu acho que engordei uns sete quilos só por causa de pastas e pizzas e... – Balancei a cabeça, suspirando. – Foi igual na França, eu fiquei três dias e depois que eu comi o crepe francês, eu não parei mais. – Ele gargalhou.
— Sim! – Ele falou rindo. – É uma surpresa muito boa, não é?!
— Sim! – Falei animada. – Seria muito bom se tivesse um desses por aqui. – Suspirei. – Presunto cru, queijo ementhal e ovo. – Coloquei a mão livre no peito. – Ou Nutella com banana. – Suspirei.
— Você tem noção que só estamos falando de comida? – Ele perguntou e eu ri.
— Desculpa! Acho que estou precisando de outro hobby. – Ele riu. – Sobre o que quer falar? – Ele suspirou.
— Bom, eu já sei sobre você, sua família, sua formação, seu amor pelo futebol, sua época de goleira das Focas de Laço Azul... – Comecei a rir sozinha.
— Esse nome era ridículo. – Comentei. – Elas mantêm até hoje. – Neguei com a cabeça.
— E sobre depois da Copa? – Ele me perguntou e eu parei de andar, me virando para ele.
— O quê? – Perguntei, puxando—o pela mão.
— Conexão Roma Rio? – Dei um longo suspiro, soltando o ar pela boca e ponderei um pouco.
— Eu sou a primeira a sofrer por antecipação. – Falei. – Porque a gente não aproveita enquanto podemos? – Ergui uma mão para seu rosto. – Principalmente pelo fato de já ter vazado e os jogadores e equipe estarem dando tanto apoio para gente?
— Só não quero que seja algo de Copa, sabe? Que acabe no fim... – Não evitei em sorrir.
— Não vamos pensar nisso, ok?! Temos até dia 15 de julho aqui, depois alguns dias de comemoração e...
— Você realmente acredita que vamos ganhar? – Ele perguntou e voltamos a andar.
— Eu quero muito acreditar. – Suspirei. – Eu fico nervosa a cada jogo, parece que eu vou desmaiar com cada bola que chega perto de você ou que não entra no gol do adversário, mas eu realmente queria que fôssemos hexa, ainda mais que eu me afeiçoei tanto a vocês e acho que vocês merecem para caramba. – Ele sorriu. – Imagina?
— Seria muito legal! – Ele falou sonhador.
— Além de que faz 16 anos que fomos penta, eu tinha oito, eu nem lembro direito. – Ele riu.
— Verdade, não é?! – Ele riu. – Parece aquela propaganda de 2014, “eu nunca vi o Brasil ser campeão”. – Rimos juntos. – Pelo menos eu vi duas vezes.
— Eu também! – Falei rindo.
— Mesmo? – Ele perguntou.
— Eu tinha uns três meses, na verdade. Minha mãe brinca que a cada gol parecia que ela ia me jogar. – Ele gargalhou.
— Meu Deus! Sua família parece que também sempre foi ligada ao futebol, não? – Dei de ombros.
— Ah, nada profissional, eu fui a que chegou mais perto de jogar profissionalmente e ainda assim não era sonho, nem nada, foram coisas que aconteceram, mas a gente sempre gostou. – Sorri. – Meu avô materno foi o responsável por tudo isso. Ele adorava. – Suspirei. – Ele ia adorar me ver aqui com vocês, trabalhando para a CBF, na Rússia, com a Seleção Brasileira. – Suspirei. – Aposto que eu ia amar apresentar todos vocês para ele.
— Ele já se foi? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça.
— Sim, depois da Copa de 2010. – Dei de ombros. – Tudo na vida acontece por um motivo, certo?
— Sim, com certeza! – Ele me trouxe para mais perto e eu suspirei. – Quem sabe você não leva uma lembrança do hexa para casa? – Ri fraco.
— Me senti a Mulan levando para casa a espada do imperador. – Ele gargalhou e soltou minha mão, passando o braço pelos meus ombros e me abraçando.
— Vem! Vamos ver o que eles estão fazendo com o meu churrasco. – Abracei—o pela barriga e entramos no hotel.

Eu realmente nunca tinha me ligado naquilo e me perguntava como os jogadores tinham descoberto isso. Ele ainda era no hotel, mas era um chalé escondido na própria praia privativa. Quase como um quarto privativo na praia.
Ali era quase como um hotel, tinha uma casa principal, com alguns quartos, salas, banheiros e afins e, do lado de fora, uma piscina, uma longa mesa digna de acampamento, alguns espaços abertos, um onde estavam reunidos os pais e outros os jogadores, um pequeno campo com algumas crianças e... Uma churrasqueira improvisada.
Eu havia contado 12 jogadores ali além de alguns familiares, 13 com a chegada de Alisson. Todos estavam bem relaxados, só de bermudão, aproveitando o tempo brasileiro da Rússia. Thiago Silva, Danilo, Douglas Costa, Marquinhos, Filipe Luís, Paulinho, Fred, Ederson, Fernandinho, Neymar, Phillipe Coutinho e Marcelo, único com a blusa azul da Seleção.
— Ah lá! Ah lá! – Neymar foi o primeiro a nos ver e já começou a gritar por nós, fazendo meu rosto esquentar novamente.
— Aí sim, hein?! – Paulinho gritou e eu revirei os olhos.
— Vocês são ridículos! – Falei, ignorando totalmente seus familiares, e Alisson só me segurou com mais firmeza pela mão.
— Vai, galera, pode abrir a carteira! – Ederson falou se levantando e vi todo mundo começar a mexer nos bolsos dos shorts ou sair de perto para pegar suas mochilas.
— Ei, o que está acontecendo? – Perguntei ao ver Fernandinho dar 20 reais para Ederson.
— Acabou a aposta, ué! – Coutinho falou, entregando o dinheiro.
— Mas... – Franzi a testa em como falar isso.
— Não aconteceu nada, galera. – Alisson foi mais rápido e eu dei um sorriso sem graça. Os jogadores nos olharam e depois se entreolharam.
— Mas é lento, hein?! – Douglas falou e Alisson lhe estendeu o dedo.
— Não é por nada não, vocês podem não ter se pegado ainda, mas vocês já são um casal, isso ninguém nega. – Thiago falou e Alisson me abraçou. – Além de que são uma combinação perfeita.
— Paga, vai! Depois que a Copa acabar a gente nem vai saber sobre esses dois. – Ederson falou e as notas de 20 voltaram a aparecer. – Depois eu cobro do pessoal que não está aqui e divido com quem ganhou.
— Ei, vamos prestar atenção aqui, ok?! – Falei, esticando a mão e pegando as notas da mão de Ederson. – Vocês apostaram em cima da gente. – Apontei para mim e para o Alisson. – Sem nosso consentimento. Então, nada mais justo, do que esse dinheiro ser nosso, ok?! – Dobrei o bolinho de notas e coloquei na minha bolsa.
— Ah, mas... – Ederson falou, ponderando com a cabeça.
— Ela tem razão. – Danilo falou e eu coloquei as mãos na cintura, sorrindo.
— Tá, pode ficar. – Ederson falou e eu sorri.
— Além de que 20, 30 reais não vão mudar em nada a situação monetária de vocês, não é?! – Falei brincando e eles riram.
— E você, ? Como está? – Thiago perguntou, me abraçando rapidamente e dando um beijo em minha cabeça. – Ficamos preocupados.
— Eu estou bem. – Sorri, assentindo com a cabeça. – Com fome, para falar a verdade. – Suspirei.
— Estamos esperando o senhor Alisson aparecer. – Filipe falou. – Seu pai já acendeu, mas falta as coisas esquentarem. – Ri fraco.
— Bom, porque você não cuida da minha comida que eu vou lá no hotel pegar um biquíni e me coloco um pouco mais apresentável?
— Acho muito interessante. – Marcelo comentou e eu o empurrei pelo peito.
— Cai fora! – Falei, vendo—o rir. – Afinal, porque você está com essa blusa?
— Eu me esqueci de colocar a roupa para lavar. – Revirei os olhos.
— Falo nada. – Balancei a cabeça. – Continuando... – Virei para Alisson.
— Pode ser, mas porque você não vem conhecer minha família antes? Do jeito certo? – Ri fraco, assentindo com a cabeça e ele me puxou pela mão.
Ele me puxou para uma das rodinhas do grupo, me fazendo acenar brevemente para os familiares dos outros jogadores, alguns que eu tinha conhecido da pior forma possível, depois de xingar todo mundo naquele primeiro dia, e segui até a rodinha onde se encontrava a família Becker.
— Ah, querido! – O que eu imaginei ser sua mãe, foi a primeira a se levantar. Ela segurou Alisson pelo rosto e estalou dois beijos na face do garoto, parecia que eu estava vendo ela cumprimentar uma criança... Não que ele fosse muito mais velho do que isso.
— Mãe, pai, Muri, eu quero te apresentar uma pessoa. – Ele falou e eu dei aquele sorriso lateral bobo de vergonha. – Essa é .
— Acho que já te vi em algum lugar. – Sua mãe falou e eu assenti com a cabeça.
— Sim! – Sorri. – Eu trabalho com eles aqui na CBF. – Sorri.
— É, a gente tá... – Alisson ponderou com a cabeça.
— Se conhecendo melhor. – Falei, vendo seu irmão rir com a definição.
— É! – Ele sorriu. – É Copa, compromissos, a trabalha com eles...
— Mas vocês parecem bem confortáveis juntos. – Sua mãe falou.
— A gente está se olhando desde o Rio de Janeiro e, como todo mundo já sabe, a gente está se permitindo aos poucos. – Falei e ela riu.
— Fico feliz! – Ela falou. – Sou Magali, mãe dele.
— É um prazer. – Falei, sentindo—a dar dois beijos em meu rosto.
— Meu pai, José. – Ele apontou para o pai que somente estendeu a mão e eu a apertei. – Meu irmão, Muriel. – Ele acenou de longe, enquanto segurava a loirinha de Alisson.
— Olá! – Ele sorriu animado.
— E essa é Helena! – Ele pegou a filha que foi rapidamente para seu colo. – Minha filha.
A menina ficou levemente envergonhada e escondeu o rosto no pescoço do pai. Eu fiz um carinho de leve em seu braço e sorri para Alisson, vendo—o cochichar algumas palavras para a menina.
— É um prazer conhecê—los, mesmo. – Sorri. – Está faltando a mãe dela, não?
— Verdade! Onde está Natalia? – Alisson perguntou.
— Ela sabe se colocar no lugar dela. – Seu pai falou. – Ela não quis atrapalhar. – Alisson assentiu com a cabeça e eu ri nervosa.
— Bem, seu José, ouvi falar que o senhor que vai fazer o churrasco para nós? – Ele riu.
— Ah não, querida, isso é com esse aí! – Ele apontou para Alisson e eu ri.
— Bem, você ouviu seu pai. – Falei. – Eu já volto. – Ele assentiu com a cabeça, dando um rápido beijo em minha bochecha.

Voltei para o hotel, coloquei um biquíni, recoloquei o vestido por cima e peguei uma toalha. Retornei ao lugar onde a festa acontecia e a música já rolava solta e o cheiro de carne queimando já subia pelos ares.
O dia foi ótimo, claro que as brincadeiras comigo sempre pareciam ser as mais interessantes, mas o bom era que eu circulava por todos os ambientes. Com Alisson, com os jogadores, com a família de Alisson, com as famílias dos jogadores, com algumas crianças que pareciam ter se afeiçoado comigo, até com Helena que parecia querer começar a se abrir.
Acabei até entrando na piscina um pouco, claro que teve toda aquela zoação de “olha ela” de novo, mas eu já estava acostumada com isso. A brincadeira era de duas vias, eles me zoavam, eu os zoava.
Depois acabei me aproximando de Alisson e da churrasqueira e pegava as melhores partes da carne, antes de ser passada para o resto do pessoal. Eu poderia ficar ali pelo resto da vida. Sentindo a brisa de leve no corpo molhado, as carnes malpassadas chegando aos poucos, Alisson me dando olhares sugestivos, os jogadores brincando e se divertindo. Era quase um churrascão em família. Mas o dia amanhã começava cedo e eu não podia me esquecer de que estava lá para trabalhar. Além de que estávamos nas oitavas, as coisas começariam a engrossar agora.
— Eu vou subir. – Falei mais para Alisson, mas tive reação de todos os lados.
— Pô, . Qual é! – Douglas comentou.
— Senta aí! – Coutinho falou e eu ri.
— Queria, gente, mas é quase uma da manhã, amanhã voltamos ao horário normal e eu preciso regular meu relógio interno. – Falei e todos começaram a se entreolhar.
— Ela está certa. – O pai de Alisson falou e eu dei um sorriso.
— A gente se fala amanhã, ok?! – Falei para Alisson que deu um rápido beijo na minha testa.
— Eu subo contigo. – Ele falou. – Depois eu volto aqui para ajudar a arrumar.
— Pode ir, bonitão. – Marcelo falou, batendo nas costas de Alisson e rimos.
— A gente se vê depois. – Alisson falou rapidamente para os pais e deu um beijo em Helena que dormia no colo da avó e eu acenei para eles rapidamente.
— Prazer em te conhecer, . – Muriel falou e eu sorri, acenando para os pais.
— Obrigada! – Sorri. – O prazer é meu. – Falei, acenando rapidamente dos familiares restantes dos jogadores e acenei para eles. – E quero todo mundo sete horas no café da manhã.
— Oito! – Ederson falou e eu ri.
— Aí você vê com o Tite. – Brinquei, acenando para eles e saindo dali.
— Foi legal hoje. – Alisson falou e eu ri, ajeitando a barra do meu vestido.
— Foi mesmo! – Sorri. – Fazia tempo que eu não me divertia tanto.
— A turma é legal. – Ele sorriu.
— Sinto que alguns familiares ainda querem me matar, mas pelo menos vocês gostam de mim. – Dei de ombros e ele sorriu.
— Alguns mais que outros. – Ele comentou e eu o empurrei pelo ombro levemente, sentindo—o passar o braço em volta de meus ombros. – Você está gelada.
— Agora esfriou. – Falei rindo. – Mas agora eu tomo um banho bem quente, me cubro e tá tudo certo. – Ele sorriu.
— Espero que ninguém fique doente por isso.
— Nem brinca! – Falei rindo. – Falando nisso, viu que deu uma crise de gripe na seleção do México?
— Sério? – Ele falou e eu afirmei com a cabeça.
— Sim! Seria melhor ainda se eles não pudessem jogar e a gente ganhasse de W.O., só para eles pararem de falar besteira.
— Nem me abalo! – Alisson falou. – Peixe morre pela boca, sabia?
— Você tem razão. – Apertei o botão do elevador, aguardando—o.
— Meus pais parecem ter gostado de ti. – Assenti com a cabeça.
— Seu pai é meio quieto. – Falei.
— Desde sempre! – Ele riu. – Eu e o Muri ganhamos lá em casa de tanto falar. – Ri, entrando ao seu lado. – Mas ele gostou sim, principalmente Muri, ele sempre foi minha inspiração.
— Legal ouvir isso. – Sorri, vendo as portas do elevador se abrirem em nosso andar novamente. – Eu e minha irmã sempre fomos coladas, aí eu fui para o Rio de Janeiro e nos afastamos um pouco, mas só fisicamente, a gente ainda conversa, ri e alopra uma a outra todo dia. – Ele riu.
— Assim que é bom, né?! Ter alguém tão próximo assim da gente, que mesmo longe, parece que sempre está lá, não é?! – Assenti com a cabeça, procurando a chave do quarto e tirando—a da bolsinha.
— Sim! Adoro ir de férias ou ela vir para o Rio e a gente falar besteira e colocar a conversa em dia. – Ele riu. – “Vir”? Até parece que estou no Rio. – Ele gargalhou. – Estamos longe de casa. – Suspirei.
— Bem longe. – Ele sorriu e eu abri a porta.
— Bem, essa é a minha deixa. – Suspirei. – Vamos que amanhã temos um longo dia pela frente.
— É! – Ele sorriu.
Ele me encarou por alguns momentos e fiquei em dúvidas se ele o faria ou se eu teria que fazer, mas ele aproximou o corpo do meu lentamente, me fazendo encostar as costas no batente da porta. Ele segurou meu pescoço com uma das mãos e colou os lábios nos meus levemente, fazendo meu corpo arrepiar. Ergui uma mão para seu peito, amassando sua blusa, mas mantendo—o por perto por mais tempo.
— Você demorou demais. – Falei, ainda com os olhos fechados, somente sentindo sua respiração perto da mim.
— É? – Ele cochichou e eu ri sozinha.
— Espero isso desde o Rio. – Abri os olhos, encontrando seus olhos verdes ali.
— Nem fala! – Ele cochichou, acariciando meu pescoço.
— Não vamos esperar mais. – Cochichei e ele me encarou.
— Mesmo? – Ele perguntou e eu respondi com uma leve mordida em seus lábios e escorreguei para dentro do meu quarto, vendo—o entrar logo atrás e bater à porta.
Ele me segurou pela cintura e nossas bocas se uniram novamente, dessa vez com bem mais intensidade de antes. Ele me apoiou na escrivaninha e eu passava as mãos pelas suas costas e barriga. Ele mesmo puxou sua blusa para fora e eu passei minhas pernas em sua cintura, bagunçando seus cabelos com as mãos a cada beijo que ele depositava em meus lábios, bochecha, escorregando pelo pescoço, até o colo.
Meu vestido encontrou sua blusa logo em seguida e ele me levantou da escrivaninha, fazendo com que eu apertasse meus braços em seus ombros e ele me levasse para a cama. Ele me deitou sobre a mesma e se certificou de tirar seus shorts antes de se deitar sobre meu corpo gelado de biquíni.
Ele beijava as partes do meu corpo e eu me sentia impotente perto dele, só sendo capaz de soltar suspiros pelos lábios e apertar suas mãos que seguravam as minhas. Logo meu biquíni e sua sunga úmidos tocaram o chão e o quarto começou a ficar quente, abafado e nossas respirações falhassem aos poucos.
Eu passei a mão em seus cabelos colados na testa e joguei—os para trás. Ele tinha a respiração abafada, mas um largo sorriso no rosto. Passei a mão em seu rosto, também tentando normalizar a respiração e ele abriu um largo sorriso, fiz o mesmo, puxando seu pescoço para mais um beijo.
Ele se deitou ao meu lado, me trazendo para perto de si e ficamos um tempo em silêncio, aguardando que nossas respirações normalizassem e o suor parasse de escorrer por todas as dobras do meu corpo. Virei o corpo, colando meu peito em cima do dele e passava as mãos lentamente sobre seu peito cabeludo, sentindo—o acariciar minhas costas e dar curtos beijos em minha testa.
— Aqueles malditos sapatos amarelos. – Ele falou e eu ergui o rosto, vendo os sapatos jogados na porta do banheiro.
— O quê? – Perguntei, rindo em seguida.
— No momento em que eu te vi com eles, entrando na primeira reunião lá na Granja, eu sabia que você tinha algo de diferente. – Sorri, passando o braço pela sua barriga.
— Uma garota no meio de vários homens. – Falei e ele riu.
— Não, não foi só isso. – Ele suspirou. – Eu vi a cena em câmera lenta. Os sapatos, as pernas, o corpo, os seios, os cabelos, a boca, os olhos... – Ele riu sozinho. – Era perfeito! – Sorri.
— Uma digna cena de filme.
— É! Tipo isso. – Ele riu e eu suspirei.
— Quando eu entrei na Granja e vi todo mundo lá, eu achei que fosse desmaiar. Eu já estava te estudando há um tempo, mas naquele momento eu simplesmente travei. Deveria ter cavado um buraco e sumido. – Ele gargalhou.
— Eu lembro! Todo mundo parou para te olhar e depois todo mundo comentou de você no grupo do WhatsApp. – Ri fraco. – Foi demais!
— Ainda bem que alguns dias foram o suficiente para gente se acertar. – Ele sorriu. – Imagina só se todo mundo tivesse ficado quieto.
Rimos sozinhos e eu suspirei, sentindo—o me apertar mais contra seu corpo e fechei os olhos, sabendo que eu dormiria a qualquer instante, mas não querendo que aquele momento acabasse por nada nesse mundo.
— Bom, acho que agora a aposta acabou mesmo. – Ele falou, acariciando meus cabelos e eu ri, erguendo o rosto para olhá—lo.
— Vou ganhar mais uma graninha! – Ele riu. – Louca para saber quem achou que aguentaríamos até depois da Copa.
— Nem o Tite apostou nessa opção, deve ter sido o retardado do Firmino, Geromel... Eles se acham os certinhos. – Rimos juntos.
— Amanhã a gente descobre. – Suspirei.
— É, amanhã! – Ele falou, dando um último beijo em minha testa.

Ouvi o despertador tocar e franzi a testa, virando meu corpo na cama e percebendo que o espaço era menor do que o esperado e sorri ao me lembrar da noite passada. Desliguei o despertador do celular e virei para o lado novamente, vendo que Alisson já coçava seus olhos e bocejava.
— Bom dia! – Ele falou e eu passei a mão em seu peito, ajustando a corrente de cruz que ele carregava sempre no peito.
— Bom dia! – Falei, apoiando os cotovelos na cama e ficando virada para ele.
— Fazia muito tempo que eu não dormia tão relaxado assim. – Ele falou e eu ri. – E nem posso falar que o colchão é ruim, porque ele é bom demais.
— Foi isso que fez o Marcelo ter o espasmo no último jogo. – Comentei e ele apoiou os cotovelos para trás e arqueou o corpo. – E você, eu acho que precisava só extravasar. – Comentei e ele riu.
— Que belo jeito, não?! – Ele passou uma mão em meu cabelo e eu arqueei o corpo para frente, colando nossos lábios rapidamente.
— Bem, o dia foi bom, a noite também, mas precisamos voltar a trabalhar. – Falei, me sentando na cama e tirando as cobertas de cima da gente.
— Ah não! – Ele falou, me puxando pelo braço e eu ri.
— É sério, Alisson! Você tem treino, eu preciso pegar alguém para a coletiva, tem treino aberto... – Me levantei. – Pelo menos hoje não tem jogo e eu não preciso ficar trancada aqui dentro.
— Pode me ver treinar. – Ele falou, virando o corpo nu na cama e começando a procurar pelas suas roupas.
— Além de outras coisas. – Falei e ele riu, vestindo a cueca e os shorts.
— Melhor você ir, antes que o pessoal saia do quarto e te veja aqui. – Ele vestiu a blusa.
— Não é por nada não, mas depois que eu não voltei ontem... – Ele se aproximou, passando os braços pelo meu corpo ainda nu.
— Eu sei! Ninguém ali é santo. – Ergui as mãos para seu corpo, fazendo um carinho de leve.
— Mas eu vou para tomar um banho, trocar de roupa... – Ele falou.
— Vai sim! Eu também vou, nos encontramos no café? – Ele me segurou pelo pescoço e colou os lábios nos meus por alguns segundos, me fazendo sorrir.
— Com certeza, social mídia! – Ri fraco, batendo a mão levemente eu seu braço e segui em direção ao banheiro, vendo—o sair de fininho pela porta.
Olhei minhas roupas jogadas no chão e pendurei o vestido na cadeira, que poderia estar um pouco úmido ainda e peguei o biquíni e pendurei no boxe, lavando—o quando fui para o banho. Fiz minha rotina como todas as manhãs, a diferença é que eu tinha acordado com alguém ao meu lado. Peguei meu celular para dar aquele oi diário para minha família e pensei em mandar mensagem para Bernardo, eu precisava compartilhar aquilo com ele, mas a história era longa demais para eu contar por telefone, precisava fazer aquela pipoca caramelizada com leite em pó que a gente gostava e uma bela dose de chocolate quente com tequila para acompanhar, só para contar essa história.
Vesti uma calça jeans limpa e uma das polos azuis que tinham voltado da lavanderia após o jogo. Olhei para os sapatos amarelos no chão e cogitei em calçá—los, já que estava causando uma boa impressão, mas preferi manter no All—Star, eu iria para o campo hoje.
Saí do quarto ajeitando o crachá e encontrei Alisson fazendo o mesmo, trocamos um sorriso e ele estendeu a mão, me puxando para o elevador. Ele me deu um rápido beijo na bochecha e a porta do elevador se abriu. Separamos as mãos e saímos do mesmo.
— Eita nós! – Ouvi um dos jogadores falar e eu e Alisson nos entreolhamos, fingindo que não era com a gente.
— Como foi a noite? – Fernandinho perguntou, vi Alisson se sentar—se à mesa dos jogadores e me aproximei do mesmo.
— Muito boa, e a sua? – Retruquei, apoiando as mãos no ombro do mesmo.
— Ótima! – Ele falou rindo.
— Então, onde estavam os pombinhos? – Neymar perguntou e eu deixei que Alisson respondesse essa pergunta e dei a volta na mesa, apoiando as mãos nos ombros de Ederson.
— Bom dia, . – Ele falou e eu sorri.
— Bom dia! – Falei. – Não vamos nos esquecer de que você ainda tá me devendo uma grana. – Ele se virou para mim.
— A aposta acabou? – Ele perguntou e eu dei de ombros, saindo de perto da mesa.
— Uou! – Ele e outros jogadores que estavam perto falaram e eu segui para o buffet, rindo sozinha.

Dei uma leve batidinha nos ombros de Casemiro e saímos da parte interna do centro de treinamento após a coletiva. Ele correu para o campo e eu parei por alguns segundos, pensando no que eu faria. Os jogadores estavam fazendo um jogo no campo, todos os jogadores estavam no campo, incluindo os goleiros, o que fez com que eu cruzasse os braços e tentasse entender porque Alisson, Cássio e Ederson estavam jogando na linha e porque não tinha ninguém no gol.
Me aproximei da grade, apoiando os braços na mesma e percebi que além dele ser muito bom com as mãos e ter um movimento muito bom, não só no futebol, obviamente, ele ainda era bom com os pés, fazendo passes, embaixadinhas e driblar os jogadores que tentavam tirar a bola de seus pés. Claro que ele e os goleiros eram minoria, então a bola ficava pouco tempo em seus pés.
— Ei! – Virei para o lado, vendo Taffarel se aproximar e sorri.
— E aí, Cláudio, tudo bem? – Ele deu um rápido beijo em minha bochecha enquanto ria.
— Chamando o Tite de Adenor, eu de Cláudio... – Ele riu, se apoiando na grade.
— Sabe como é, estamos tão próximos que parecemos até uma família. – Ele riu.
— Então, fiquei sabendo que você defendeu alguns pênaltis um dia desses.
— Alguns. – Falei, ponderando com a cabeça.
— Fiquei sabendo que defendeu todos. – Ri, balançando a cabeça.
— Eu ainda acho que Alisson estava pegando leve comigo. – Ele ponderou com a cabeça.
— Talvez, mas porque pensa isso? Não acha que seria capaz? – Franzi a testa, olhando para eles.
— Eles são profissionais. Se o Coutinho chuta uma bola do meio de campo em mim, das duas uma, ou eu quebro meu corpo para defender, ou eu saio correndo em desespero.
— Você tem cara de ser alguém que não nega desafios. – Ponderei com a cabeça. – Tanto que permitiu que Alisson chutasse cinco bolas em sua direção e pegou todas. – Suspirei.
— Estávamos no campo menor, a distância era pequena, duvido que ele tenha chutado com toda potência de suas coxas...
— Para de se colocar para baixo! – Ele falou. – Você defendeu, é o que importa. – Ele segurou minha mão e eu sorri.
— Valeu!
— Além de que eu vi o vídeo, aquela última definitivamente ia para fora.
— Não é?! – Falei, rindo em seguida. – Fiquei com dor para caramba à toa.
— Você foi na bola, é o que a gente fala para eles. Que vá para fora, mas e se não fosse? – Suspirei.
— Bom ponto. – Ele sorriu, apertando minha mão. – Eu vou voltar. – Ele falou e eu acenei com a mão, vendo—o se aproximar de Tite e a equipe técnica.
— ! – Virei o rosto, vendo a família de Alisson chegando junto dos outros familiares e olhei no relógio, quatro em ponto, era a hora dos familiares chegarem.
— Oi, gente, tudo certo? – Perguntei, me aproximando deles. Lá estavam os pais de Alisson, o irmão, a filha, a mãe da filha, outra mulher, a qual suspeitei ser esposa de Muriel e outras crianças, que imaginei serem filhos.
— Tudo certo! – Eles sorriram.
— Então, aqui é o seu habitat natural? – Dona Magali perguntou e eu ri.
— Mais ou menos, estou acostumada a ficar dentro de escritórios, esperando as informações chegarem. – Ela riu. – É bom sair.
— Que bom! – Ela sorriu.
— Natália, certo? – Perguntei para a mulher que segurava Helena. – Acho que não tivemos muita chance para conversar. – Ela riu e andou comigo um pouco mais a frente.
— Não se preocupe, você não é a primeira que foge achando que eu e Alisson somos alguma coisa. – Rimos juntas. – Já fomos sim, agora eu só participo por causa de Helena.
— Pelo menos vocês se viram conforme podem. – Ela assentiu com a cabeça.
— Sim. É difícil lidar com essa separação, ele em Roma, eu no Brasil, mas a gente vai lidando como pode.
— Parece que vocês estão fazendo dar certo. – Dei de ombros e ela sorriu.
— Um dia de cada vez. – Ela riu e olhei para a filha de Alisson que pulava no colo da mãe. Os cabelos loiros e olhos claros como da avó.
— Oi! – Helena falou animada, acenando para mim e eu ri, segurando sua mãozinha.
— Oie! – Falei rindo.
— Então, vocês... – Natalia perguntou e eu suspirei.
— Não sei, para falar a verdade. Estamos nos provocando há mais de um mês e agora que parece que as coisas estão andando.
— Ele gosta de você, sabia? – Ela falou e eu olhei Alisson ao longe. – Ele estava falando de você naquele dia, antes de você aparecer.
— Ele te falou isso? – Perguntei.
— Ele não precisa falar, fica claro em seus olhos quando ele fala de quem gosta. – Assenti com a cabeça, sorrindo. – Quem sabe não dá certo? – Suspirei.
— Não sei... – Cocei a cabeça. – É o que você falou, ele em Roma, eu no Brasil... É difícil adivinhar o que vai acontecer depois da Copa.
— Se vocês realmente se gostarem, vocês dão um jeito. Itália é ali do lado, não? – Ri fraco, suspirando.
— Se Deus quiser temos mais duas semanas aqui, eu gostaria de conversar sobre isso, mas ainda é cedo. – Balancei a cabeça. – Não quero assustá—lo. – Ela riu.
— Ele não costuma se assustar fácil, mas entendo o que diz.
— Faz só um mês só que nos conhecemos, tudo isso está acontecendo, tem um turbilhão de emoções à nossa volta. É esse clima Copa que nos deixa agitados e empolgados... – Respirei fundo. – Além de que duas semanas ou menos é um tempo muito curto para definir nosso futuro. – Ela assentiu com a cabeça.
— Deus sempre mostra o caminho. – Natália segurou minha mão e eu assenti com a cabeça.
— Vou deixar nas mãos Dele mesmo. – Brinquei e ela sorriu.
Olhei para o campo rapidamente, vendo os filhos de Neymar e Fagner invadirem o campo junto dos pais. Dei uma rápida olhada pelo campo e franzi a testa ao ver Alisson falando com alguém da imprensa.
— Natália, você me dá uma licencinha? – Perguntei. – Eu preciso trabalhar um pouco.
— Claro! – Ela falou e eu praticamente saí correndo de onde eu estava para me aproximar de Alisson, relaxando o corpo quando notei que era só Vinícius fazendo algum vídeo falado para colocar na CBF TV.
— ...Acredito que com o México não vá ser diferente, a gente trabalhou muito bem agora, nos últimos dias. Estamos preparados, com a cabeça muito boa, mentalmente forte, que é aquilo que o Tite sempre pede para gente. E melhorar o desempenho a respeito à última partida, ser efetivo na frente, e consistente defensivamente. – Ele finalizou e Vinícius fez um positivo.
— Obrigado! – Vinícius falou, abaixando a câmera e eu cruzei os braços.
— Já ia perguntar o que a imprensa estava fazendo aqui dentro e entrevistando meu jogador. – Vinícius e Alisson riram.
— Eu pedi para colocar no cronograma de hoje.
— Não olhei o cronograma hoje.
— Estava ocupada demais para olhar, é?! – Vinícius me zoou e eu ri fraco.
— Cai fora daqui! – Falei e ele riu. – E você! – Virei para Alisson. – Não quero ninguém só mentalmente forte, quero fisicamente também. – Ele riu.
— Pode deixar! – Ele piscou e eu revirei os olhos, saindo de perto deles.

As portas do elevador se abriram novamente, ajeitei a mochila nas costas e a mala de rodinha e vi que todos os jogadores já estavam aguardando o ônibus no lobby do hotel. Entreguei minha chave na recepção, esperando que eu pudesse pegá—la novamente depois do jogo de segunda—feira. Agora era mata—mata e minhas mãos até tremiam só de pensar nisso.
— Ah lá! – Ouvi Thiago falar e me afastei da recepção, olhando para a mesma televisão que todos encaravam, onde passava a coletiva de imprensa do técnico do México.
— “Esperamos um jogo decente, onde a arbitragem não seja fraca e parcial, como quando pegamos nas últimas quartas na Copa de 2014”. – Ele falava. – “Além disso, queremos que os jogadores joguem limpo, que não fiquem fingindo quedas desnecessárias e que joguem futebol. É o que viemos fazer, certo?”
— Oi? – Falei, me aproximando da mesma.
— “O técnico não citou nomes durante a coletiva, mas o meia Andrés Guardado, de 31 anos, simpatizou com a resposta do técnico e falou de Neymar”. – Mudou a imagem, mostrando o jogador. – “O Neymar, todos nós conhecemos, acho que não cabe a mim, nem a nós, julgarmos, mas aos árbitros, a FIFA e, agora com o VAR, eles precisam ver. Eles devem ver seu estilo de jogo e o árbitro deve saber administrar isso, sabemos que ele gosta de exagerar quando sofre faltas. Ele gosta muito de se jogar”. – Arregalei os olhos, cruzando os braços.
— Vamos ver em campo, ô engomadinho! – Neymar falou e os jogadores riram.
— Sabe o que eu vou fazer com esse mexicano? – Virei para Neymar. – Eu vou pegar ele pelo pescoço e vou...
— Êpa! – Eles falaram e eu fechei a mão em punho.
— Eu resolvo isso em Samara. – Falei, abanando as mãos. – Vamos! – Acenei, vendo o ônibus parar ao nosso lado.
Entramos no ônibus e seguimos até o aeroporto de Sochi, mostramos nossos crachás e documentos e entramos na aeronave da empresa russa que estava nos levando para todos os lugares. Ajeitei minha mochila no bagageiro e me sentei na janela, vendo Alisson se acomodar ao meu lado rapidamente, me fazendo abrir um sorriso.
— Vamos lá. – Ele falou, segurando minha mão e eu sorri, apoiando minha cabeça em seu ombro.
A viagem até Samara durou pouco mais de duas horas e um fuso para frente, fazendo com que eu arrumasse meu relógio. Eu e Alisson acabamos assistindo Pantera Negra que tinha no próprio sistema multimídia do avião. Eu até tentava ver o filme, mas ele me roubava alguns beijos em toda oportunidade que tinha, tirando totalmente minha concentração.
Chegamos ao Lotte Hotel com festa da torcida brasileira novamente, mas dessa vez mais calma. Apesar das grades separando os torcedores, dos seguranças em excesso e da cantoria, não tinha pessoas amontoadas e nem sinalizadores das cores do Brasil dessa vez.
Entramos no hotel e eu continuava abismada com esses hotéis que estávamos ficando, era um mais bonito e mais luxuoso que o outro. E eu achando que meu quartinho cinco por quatro no Brasil era superconfortável e fazia questão de deixá—lo apresentável. Tentei abanar a cabeça, pensando nas diárias que eu receberia por esse trabalho e no belo bônus que Michelle tinha falado. Claro que só pela viagem com tudo pago, eu não precisaria ganhar mais nada, mas ainda viria uma graninha extra, além do salário e benefícios. Era bem reconfortante.
Ouvi meu celular tocar, além de alguns outros na sala, e puxei o mesmo da lateral a mochila, vendo um e—mail da CBF, me fazendo franzir a testa. O assunto só dizia “Convocação” o que me deixou bem confusa e nervosa. Abri o mesmo rapidamente e olhei as primeiras linhas do e—mail: “Senhorita Lima, devido ao seu excelente e contínuo trabalho durante a Copa do Mundo da Rússia 2018, te convocamos para continuar conosco durante os próximos quatro importantes compromissos internacionais da CBF, caso a Seleção venha a participar de todos: Copa América 2019, no Brasil. Olimpíadas 2020, no Japão. Copa das Confederações 2021, lugar a ser definido. E Copa do Mundo 2022, no Catar. Após o retorno da sua jornada, mais informações serão dadas a você, mas saiba que também serão providenciados alguns cursos de línguas, caso tenha o interesse em participar. Esperamos que esteja bem e aguardamos seu retorno. Antônio Nunes, presidente da CBF”.
— Caramba! – Falei, colocando a mão na testa e puxando alguns fios de cabelo, totalmente impactada com a notícia.
— ? – Ouvi a voz de Alisson abafada e distante.
— Ah, de novo não. – Tite falou e eu senti alguém me sacudir levemente. – ! – Ele falou e eu saí do transe.
— Não é só ela não, chefe! – Alguém falou e virei o rosto para Bianca, Lucas e Vinícius que também tinham os celulares nas mãos e as mesmas feições no rosto.
— Você também? – Lucas perguntou e eu acenei com a cabeça.
— O e—mail da CBF? – Bianca perguntou e eu assenti com a cabeça.
— Porra! – Vinícius gritou e nós quatro demos gritos estridentes, correndo nos abraçar, gargalhando igual loucos.
— Alguém pode explicar o que está acontecendo? – Tite perguntou e eu ri fraco, virando para os meninos.
— A gente... – Balancei a cabeça.
— Eu não sei nem como isso é possível. – Lucas falou e eu ri.
— Nós quatro já fomos convocados para os próximos quatro compromissos da Seleção. – Falei, rindo sozinha. – Incluindo a Copa no Catar.
— Se participarmos... – Bianca frisou.
— Já mandei parar de falar ‘se’, vamos participar. – Eles riram.
— Isso é possível? – Willian perguntou e eu dei de ombros.
— Pelo jeito é! – Lucas falou rindo e eu abanei a cabeça.
— Mas... – Virei para Angelica que tinha um largo sorriso no rosto. – Você...
— Essa é a minha última Copa, queridos. – Ela sorriu. – Já estou na minha terceira, daqui quatro anos vocês terão outra pessoa para aloprar. – Ela suspirou. – Mas fico imensamente feliz por vocês. Eu fiz a indicação para Michelle por esses dias e parece que ela gostou da ideia.
— Obrigada! – Cochichamos juntos e ela suspirou.
— Ah, sem chorar. Vamos focar! – Ela falou e os jogadores nos aplaudiram, me fazendo rir cada vez mais.
— Agora eu quero ver todos vocês ou boa parte de vocês na Copa América, e em todos os outros compromissos, ok?! – Falei e eles riram.
— Vamos esperar por isso. – Thiago sorriu e eu assenti com a cabeça.
— Bom, vamos lá. – Passei as mãos embaixo dos olhos, olhando para a lista que Angelica me mostrava. — Olha que felicidade, gente. Quanto mais jogos vocês vão ganhando, melhores ficam os quartos. – Falei rindo. – Quartos de dois. – Eles comemoraram com gritos e eu ri. – Façam seu par e venham pegar suas chaves.
Eles viram dois a dois, fazendo gracinhas e brincadeiras, alguns nos parabenizando pela ‘convocação’ e seguiam para o corredor. Angelica fazia questão de anotar as duplas que estavam em cada quarto para futuras necessidades, por assim dizer. Alisson passou com Ederson, fazendo questão de dar uma piscadela e um rápido abraço antes de subir.
Sobrei com Vinícius naquele dia. Eu fui tomar um banho, me troquei e fui direto para a cama, pegando o celular e ficando de papo com Alisson enquanto o sono não batesse. Vinícius saiu do banho e também se deitou em sua cama. Desligamos as luzes e logo ouvi Vinícius roncando ao meu lado, me fazendo rir baixinho.
“Vinícius morreu ao meu lado”. – Enviei para Alisson que mandou uma carinha risonha.
“Acho que estou ouvindo seus roncos daqui”. – Ri, ajeitando a cabeça no travesseiro.
“Se cair uma bomba aqui, ele nem vai ouvir”. – Enviei de volta, suspirando e ergui o corpo na cama um pouco, checando se ele realmente estava dormindo e tirei uma foto, enviando para Alisson.
“Clássico!” – Ele falou. “Esperando o Ederson dormir para fazer o mesmo”. – Sorri, suspirando.
“Talvez nós devêssemos dormir, amanhã o dia é aquela correria e tensão novamente”. – Respondi.
“Só mais um pouco”. – Ele respondeu e eu suspirei.
Ouvi um toque na porta e franzi a testa, deixando o celular na cama e joguei as cobertas para o lado, calcei os chinelos e me aproximei da mesma, abrindo uma frestinha, impedindo que a luz do corredor cegasse Vinícius.
— Ederson? – Franzi o rosto quando o vi na porta.
— Cai fora daqui. – Ele falou, abrindo a porta e entrando em meu quarto.
— Quê? – Perguntei.
— Eu estou sendo o amigo legal que deixa o casalzinho namorar. Agora vai! – Ele me empurrou e eu ri. – Só esteja aqui antes das seis para trocarmos ou eu vou encontrar vocês dois pelados lá no quarto. – Soltei uma risada fraca e ele fechou a porta do meu quarto.
Segui pelo corredor, encontrando a porta do quarto deles aberta e entrei no quarto com a luz a meia fase, encostando a porta devagar. Alisson estava sentado na cama, somente de bermudas, também balançando a cabeça para os lados.
— Isso vai dar merda! – Falei baixo e ele riu, me chamando com a mão.
— Foi ideia dele e eu não poderia negar! – Ri fraco e ele me puxou para sentar em seu colo.
— Ele é louco. Você é louco. Não deveríamos estar fazendo isso, se os jogadores não podem ficar com namoradas e esposas nos hotéis, aposto que você também não pode. – Ele riu fraco, apertando as mãos em minha cintura e coxa.
— Eu sei, mas...
— Se isso detonar minha convocação, eu te mato. – Passei a mão em seu pescoço, acariciando seus cabelos levemente.
— Vai nada. Angelica que te indicou e ela sabe da gente. – Ele deu um curto beijo em meus lábios.
— Só não sabe do que estamos fazendo agora. – Falei, erguendo a outra mão para seu pescoço e ele riu contra meus lábios.
— E o que estamos fazendo? – Ele cochichou, subindo a mão para minha cintura e eu senti meu corpo arrepiar.
— Eu... – Suspirei contra seus lábios e acabei com a pouca distância, esquecendo—me do que eu precisava responder.

O dia que antecedeu o jogo correu como sempre, os jogadores tentando se ocupar de alguma forma, até tentando treinar na quadra de futebol society que tinha no hotel, mas Tite não queria que eles abusassem, eram outras características, eles poderiam se machucar.
Eu e Bianca ficamos ouvindo as especulações da imprensa e tentando dar alguma resposta plausível ou alguma que os fizessem largar da gente por um tempo. Dessa vez, pelo menos, eu comi, me dei todas as refeições, para não acontecer o que tinha acontecido em Moscou.
Pouco antes do treino, Alisson e Thiago Silva fizeram uma visita à fisioterapia, me deixando nervosa, mas não era nada, só algumas massagens para relaxar os músculos, nada que fosse afetar o jogo de amanhã.
Logo após isso, jogadores saíram para o treino oficial na Arena Samara, como Vinícius acordou com uma virose horrível, além de se assustar com Ederson em minha cama, o deixamos no hotel e nada de sair com Canarinho nas ruas, ele precisava ficar bom para o jogo. Eu segui com Bianca para o treino do estádio, só para acompanhar a coletiva. Claro que eu acabei olhando Alisson treinar. Eu adorava vê—lo saltar para defender as bolas e como seu corpo arqueava, deixando aparecer um pouco de seu abdome.
Voltamos para o hotel quando já era noite. Paramos direto no restaurante do hotel e já jantamos. O clima estava pesado para variar, mas dessa vez até eu estava quieta, tinha ouvido muitas besteiras de jornais mexicanos e dos próprios jogadores e técnicos do México sobre o jogo de amanhã, além dos boatos que o técnico do México tinha alguns métodos não ortodoxos. Eles estavam procurando e eu queria realmente pegar o pescoço de cada um e quebrar ao meio, mas, se Deus quisesse, isso seria resolvido facilmente em campo.
Ah lá, até eu estava começando a falar “se”.
Eu deveria estar lá para Alisson, para todos, na verdade, mas eu estava travada e não conseguia parar de mexer em meu prato, levando a comida de um lado para outro. Eventualmente, Tite acabou expulsando todos os jogadores para dormir.
— Você não vai subir? – Alisson perguntou e eu saí de um transe, olhando para ele.
— Eu tenho algumas coisas para combinar com Bianca sobre amanhã. – Ele assentiu com a cabeça. – Dorme bem, ok?! E sem gracinhas. – Cochichei a última parte, fazendo—o rir.
— Pode deixar! Boa noite! – Ele falou e me deu um rápido beijo na cabeça e eu acenei para o mesmo, vendo—o sair.
Aquilo era mentira, eu não tinha nada para resolver com Bianca, ela nem estava mais lá, para falar a verdade, mas eu precisava relaxar um pouco. Eu estava segurando o nervosismo o dia inteiro.
Olhei para a televisão e vi que a prorrogação do jogo entre Croácia e Dinamarca tinha finalizado em um a um e que iria para pênaltis. Eu não me lembrava de uma Copa ser tão sofrida assim, espero que consigamos resolver em 90 minutos e que não chegasse à prorrogação ou pênaltis.
— Ei! – Desviei o olhar da televisão e vi Thiago se sentar ao meu lado. – Jogo sofrido, hein?!
— Que o nosso não seja assim. – Ele riu fraco.
— Tenho traumas com pênaltis. – Ele falou e eu suspirei.
— Você não deveria subir, não? – Perguntei.
— Estava conversando com Tite sobre o jogo de amanhã.
— Verdade! Você é o capitão de novo! – Ele riu fraco. – Eu te disse, você acaba sempre sendo nosso capitão.
— Não vai subir?
— Deveria, mas eu estou bem nervosa sobre amanhã. Eu nem ouvia o que o Alisson dizia no jantar. – Ele riu fraco.
— Não se preocupe com isso, posso te garantir que todos estão muito nervosos, principalmente ele que tem uma posição muito importante e muito julgadora. – Assenti com a cabeça. – Faz parte. – Ele sorriu e eu assenti.
— Sim, você está certo. – Falei e ele me deu um rápido beijo em minha testa.
— Não demore, ok?!
— Pode deixar, capitão! – Falei rindo e olhei para a TV, aguardando o início dos pênaltis.

— Acho que eu vou aceitar um pouco. – Falei quando Alisson me ofereceu sua cuia e eu segurei a bomba e dei um longo gole na mesma, sentindo aquilo ferver e arrepiar meu corpo ao mesmo tempo, me fazendo tremer.
— Tentando se acalmar? – Ele perguntou e eu ri.
— É para isso que você toma isso, não é?! – Ele ponderou e deu uma risada fraca.
— Vamos lá, Brasil! – Tite falou batendo as mãos fortemente, chamando a atenção de todos e eu dei um rápido abraço em Alisson.
— Bom jogo! Pense que a bola sou e agarre—a, ok?! – Cochichei próximo ao seu ouvido e ele gargalhou.
— Pode deixar! – Ele me deu um rápido beijo na testa e observei os jogadores saírem do vestiário e ouvi os torcedores gritarem acima de mim.
Fui para minha posição, dessa vez com Vinícius de companhia. Ele ainda estava vomitando e evacuando bastante, não tinha como fazer as filmagens lá fora, pelo menos tínhamos Bóris. Estralei todos os dedos possíveis de meu corpo, além de pescoço e costas e encarei a TV, aguardando os protocolos a serem seguidos para finalmente dar início a partida.
— Vamos, Brasil! – Vinícius cochichou ao meu lado e respirei fundo, fechando os olhos durante o hino, ouvindo—o ser reproduzido à capela novamente.
Os jogadores se concentraram no centro do campo, a bola começando com o time mexicano e eu fiz aquele rápido sinal da cruz e aquela reza silenciosa, para que pudéssemos passar e continuar esse sonho. O apito foi soado e eu comecei a sentir meu coração bater forte novamente.
A primeira chance de gol veio do time mexicano, antes dos dois minutos. O mexicano fez o chute, Alisson deu um soco na bola e ela seguiu para a área, tendo o rebote de outro jogador, mas que foi parada pelo lombo de Miranda.
Fagner levou uma falta de um mexicano logo no começo, mas tudo estava bem, tirando minha raiva deles. Paulinho tentou atravessar a bola para o gol, mas também não deu, só serviu para darem uma entrada violenta em Neymar. Vai começar!
Neymar recebeu a bola de Paulinho e fez a finalização, batendo nas mãos de Ochoa, o goleiro mexicano. A bola chegou novamente para o lado de Alisson, me fazendo pressionar as mãos na mesa, mas ela se afastou, me fazendo relaxar. O ataque do México estava forte, parecia que todos os 10 jogadores estavam lá.
Escanteio para a seleção do México, até Vinícius ergueu o rosto da toalha que ele segurava com tanta força. A bola foi para a área, cabeceada por um mexicano e Alisson deu um soco na bola, tropeçando em um mexicano e caindo em cima dele, me fazendo gargalhar, mas estaria impedido.
— Que lance fantástico! – Vinícius falou e eu sorri.
— Esse é meu homem! – Falei e ele esticou a mão, batendo na minha, me fazendo rir.
Esses primeiros 15 minutos estavam me matando, o nervosismo tinha valido a pena. O jogo estava inteiro no campo do Brasil, os mexicanos estavam todos atacando forte e a gente não conseguia avançar para o campo deles. Vamos, Brasil. Mudança de tática, vai.
— Vai, Brasil. É a sua chance! – Falei, ao ver uma chance de escanteio para o Brasil. – E... Saiu! – Sentei novamente, apoiando os cotovelos na bancada.
A bola atravessou novamente, mas a bola explodiu nas pernas de Filipe Luís antes de chegar em Alisson. Enquanto os mexicanos pressionavam os brasileiros, Fagner pressionava os mexicanos, causando diversas faltas e eu já podia pensar que isso poderia dar merda lá para frente, no próprio jogo ou com a imprensa amanhã.
Jesus se aproximou do campo adversário e tentou fazer a finalização, mas o México fechou para ele. Ele enviou a bola para Neymar, mas foi retirada pelo México. A bola voltou para o campo brasileiro, mas na hora de finalização Casemiro recebeu uma nas pernas.
— Meu Deus! – Falei, sentindo minhas mãos tremerem. – Vamos, Brasil. Acorda! Muda de tática! Qualquer coisa! – Gritei, vendo Vinícius se levantar novamente para o banheiro.
A bola alta foi cabeceada pelo Filipe Luís que enviou para Neymar, ele se aproximou da área, dando vários olés nos mexicanos e tentou o chute que rebateu em Ochoa. Ela caiu nos pés de Coutinho, que passou para Jesus, que passou para Willian que enviou para Jesus e... Foi cabeceada por um mexicano.
Falta no Coutinho. Neymar fez a cobrança, a bola voou para a área, Ochoa socou, Paulinho tentou cabecear, mas ela foi para trás. Jesus tentou finalizar, mas rebateu nas pernas do mexicano. Willian devolveu a bola para Jesus de cabeça que tentou cruzar, chegando nos pés de Neymar, que passou para Coutinho e chutou para o gol...
— Fora! – Vinícius falou e eu suspirei.
Neymar atravessou a bola, fazendo o passe para Coutinho, mas foi pego por um mexicano, voltando a atravessar. O mexicano tentou fazer uma finalização de meio de campo, mas passou muito longe, Alisson nem precisou se mexer. Fagner cruzou a bola para Neymar, mas foi tirado novamente.
Paulinho trouxe a bola para o campo do México novamente e passou para Willian, ele tentou o chute, mas rebateu nas pernas dos adversários. Ele tentou novamente, mas escorregou, saindo correndo para dividir a bola com mais dois mexicanos e perdeu.
Casemiro pegou a bola, passou—a para Thiago Silva, devolveu—a para Filipe Luís, que devolveu para Casemiro e Thiago Silva. A bola passou por Phillipe Coutinho, chegou em Jesus que driblou de alguns mexicanos e fez o chute, sendo espalmado por Ochoa. Coutinho insistiu, mas a bola foi jogada para trás novamente.
— Tá parecendo o jogo da Costa Rica e eu não vou aguentar outro jogo igual aquele.
— Calma! – Vinícius falou. – Eles aquecem no segundo tempo.
— Ah meu Deus! – Suspirei, balançando a cabeça.
Coutinho tentou trazer a bola para o campo mexicano novamente, mas, ao finalizar, chutou para muito longe. A bola chegou em Fagner de novo, em seguida, fazendo—o causar outra falta no jogador mexicano.
— Fagner vai acabar matando os mexicanos. – Falei. – Não que eu esteja reclamando, mas...
— ! – Vinícius me repreendeu rindo.
— O quê? – Dei de ombros e ele riu.
Coutinho tentou se aproximar, fazendo uma finalização longa e rebateu nas pernas de Jesus. A bola voltou e fizeram uma falta em Neymar.
— Tite tá falando muito palavrão também. – Falei ao ver os lábios de Tite falando “puta que pariu”.
— Nunca vou me esquecer da sua cara depois do jogo da Costa Rica.
Neymar cobrou a falta e... Fora! Bufei, coçando a cabeça e olhei para o tempo no relógio, 40 minutos. Brasil tentou mais algumas vezes, uma com Coutinho que fez um cruzamento muito longo, quase que Willian não conseguisse pegar do outro lado. Uma de Neymar, que rebateu nas pernas dos mexicanos.
Filipe Luís deu uma entrada violenta no jogador mexicano, levantando outro cartão amarelo. Ótimo, agora eram quatro na berlinda. A falta foi feita, mas Alisson somente esticou as mãos e a bola encaixou em sua mão, me fazendo dar um pequeno sorriso, me lembrando do que eu havia falado para ele antes do jogo. A bola cruzou, mas Ochoa estava para fora da área, dando um forte chute.
Fim do primeiro tempo.
— Eita! Sem acréscimo? – Eu e Vinícius nos entreolhamos e suspirei.
— Vem! – Chamei Vinícius que franziu a testa e o puxei para o banheiro. – Foi um péssimo primeiro tempo, vem bomba aí! – Falei, entrando em uma cabine e ele fez o mesmo, entrando em outra.
Abaixei minha cabeça, apoiando—a nos braços e ouvi os jogadores entrando aos poucos no vestiário e algumas portas sendo batidas. Senti minha respiração acelerada, mas só soltava o ar pela boca devagar.
— Assim não dá! – Ouvi Tite, me fazendo fechar os olhos. – Eles comandaram esse primeiro tempo, os primeiros 30 minutos foram só do México. As bolas sempre aqui atrás, sempre aqui com o Alisson, elas precisam ficar no campo deles. – Ouvia sua voz abafada. – Espero que eles tenham se cansado, que agora é a nossa hora de aproveitar isso e avançar em cima deles. Paulinho se aproxime mais de Casemiro. Gabriel se desloque um pouco mais para direita, as finalizações de Coutinho estão batendo em você. Fagner desvie da marcação, mas tente fazer menos faltas, ok?! Não precisamos de mais um jogador com cartão. – Eu sentia meu corpo suar e nem era de nervoso, estava muito quente aqui em Samara. – Vamos resolver isso nos próximos 45 minutos, sem prorrogação, sem pênaltis. Combinado?
— Sim! – Os jogadores gritaram e logo ouvi a movimentação novamente. Ouvi algumas descargas e logo tudo se fez silêncio novamente.
Abri a cabine devagar, olhando em volta e bati na de Vinícius, saímos da mesma e voltamos para o vestiário, tudo estava quieto novamente. Respirei fundo, balançando a cabeça e peguei uma das garrafas de isotônico, virando—a em minha boca e voltei a me sentar.

E começa o segundo tempo.
A tentativa do primeiro gol veio logo no começo, mas Neymar teve dificuldades em cruzar a bola, fazendo—a recuar. Neymar tentou novamente, rebatendo nas costas do mexicano. Escanteio brasileiro, Neymar cobra, Coutinho chuta e Ochoa defende. Neymar cobra escanteio novamente, mas vai muito longe. Fagner tentou se aproximar, mas a defesa estava bem montada e foi muito rente à linha, fazendo o mexicano ter facilidade em tirar.
O México tentou cruzar a bola, e eu vi a defesa vazia do Brasil. Ele fez o chute, mas jogou muito alta, Alisson somente olhou a bola passar por cima de sua cabeça. Senti meu corpo tremer e me levantei, respirando fundo.
A bola cruzou novamente e os brasileiros voltaram para o ataque. Paulinho passou para Casemiro que passou para Coutinho, que passou para Neymar, que chutou de calcanhar para Willian que adentrou a área e fez o cruzamento. A bola passou por entre as mãos de Ochoa, as pernas de Jesus, mas Neymar alcançou a bola, dando aquele carrinho com o pé e...
— GOL! – Gritei, pulando em meu lugar, vendo Vinícius voltar correndo do banheiro. – Gol, porra! – Gritei, socando o ar em comemoração.
O mexicano aproveitou a bola no centro de campo e cruzou—a, se aproximando do gol, mas Paulinho tirou com o pé. Escanteio para o México, Brasil tirou de cabeça, mas ela ricocheteia, Filipe Luís tenta, mas não consegue impedir que a bola cruze, o jogador chega por baixo, mas cai pelo fundo, fazendo os jogadores brasileiros se exaltarem.
— Pelo amor, não façam nada! – Falei e vi Thiago reclamar e que eles gostariam de ser tiro de meta ou escanteio.
O escanteio foi dado, a bola rebate novamente, mas Alisson estende as mãos, pegando a bola firmemente. Cartão amarelo em seguida para o México, após ter puxado Willian pela camisa. Neymar fez a cobrança, mas os mexicanos tiram de cabeça. A bola voltou novamente e Neymar chutou, seguindo para fora. A bola cruzou e os mexicanos tentaram, ela chegou aos pés de Willian que recuou para Alisson que...
— Mandou para fora, Alisson? – Revirei os olhos.
— Até parece que não é bom com os pés.
— Não só com os pés. – Respondi e Vinícius.
— Vocês parecem que estão bem, não é?! – Dei de ombros.
— Estamos nos descobrindo aos poucos. – Suspirei. – Sem pressa, sem decisões precipitadas, só aproveitando. – Dei de ombros.
Filipe Luis passou a bola para Neymar que não conseguiu cruzar e repassou para Jesus que estava na área. A bola voltou para Neymar, ele tentou um chute, mas rebateu. Ele passou para Willian que rebateu para Fagner que chegou pela parte superior do campo e passou para Jesus que...
— Porra! Como foi para fora? – Gritei, respirando fundo.
O lance foi dado novamente e me distraí por alguns segundos, somente ouvindo um apito e vi um mexicano no chão. O juiz ergueu o cartão e eu bati a mão na mesa quando vi que era Casemiro que tinha levado.
— Porra! Casemiro tá fora do próximo jogo. – Falei, suspirando.
— Caramba! – Vinícius comentou e eu bati as pontas das unhas na mesa, encarando a tela.
O México cruzou e tentou finalizar, a primeira rebateu na defesa brasileira e depois foi para cima, fazendo Alisson dar aquele toquinho na bola por cima. O escanteio foi cobrado, mas Casemiro tirou a bola de cabeça. A bola cruzou novamente, indo direto para o gol e Alisson ergueu as mãos, segurando a bola.
Falta no Neymar, fazendo—o cair para fora do campo, de boa. Até o mexicano segurá—lo pela cintura e levantá—lo, me fazendo arregalar os olhos. Pelo menos o quarto juiz estava ao lado para ver.
— Tá folgado, hein, Layún? – Falei do jogador, revirando os olhos. – Toca no Ney de novo que eu arranco esse seu cabelo tingido na mão. – Vinícius arregalou os olhos e não falou de novo. – Aí, agora tá perseguindo. – Vi Neymar ser empurrado por trás novamente, dessa vez sem bola nos pés.
O jogo seguiu e Willian faz a tentativa de gol e Ochoa meteu as mãos na bola, desviando—a para trás. A bola tentou se aproximar do campo brasileiro, mas passou rente ao gol, Alisson nem precisou se mexer com a mesma. Alisson fez tiro de meta e...
— Fora! – Vinícius gritou e eu ri.
— Não é seu dia, Alisson. – Suspirei.
A bola cruzou novamente e falta no Neymar. Dessa vez ele ficou no chão, passando a mão no tornozelo direito, fazendo—o franzi o rosto algumas vezes, mas ele logo se levantou. Segue o jogo.
A bola voltou para o campo mexicano, Willian chegou pela direita, passou para Neymar que tentou fazer a finalização, mas foi para fora. Tirando o gol pouco antes dos cinco minutos, o segundo tempo estava morno. O coração até estava mais calmo, mas queria mais um para dar uma garantida.
Um dos mexicanos de cabelos descoloridos chegou pela esquerda, fazendo o cruzamento, a bola foi desviada por Thiago Silva, mas outro mexicano chegou pelo meio e meteu uma bomba, acertando—a em Paulinho. A bola atravessou e Willian ficou no chão. O Willian não.
Tiro de meta para a seleção brasileira, Alisson chutou e Neymar a recebeu no peito rente ao lado esquerdo, ele tentou controlar e saiu ele, mexicano e bola para fora, fazendo Neymar cair no chão. O mexicano pegou a bola e o juiz apitou várias vezes. A câmera focou em Neymar caído que estava quase em uma convulsão.
— Que porra aconteceu? – O juiz já evitou que Fred, Ederson e Cássio se aproximassem de Neymar e Coutinho apareceu do outro lado.
— Alguma coisa com o tornozelo. – Vinícius falou e eu respirei fundo.
O replay passou e o mexicano, ao pegar a bola, pisou no tornozelo de Neymar que ele já tinha pisado antes. Não foi sem querer, foi intencional. É claro que foi! Ele meteu as travas de propósito no tornozelo dele.
— Ele merece um vermelho na hora. Ele tá provocando faz tempo. – Vinícius falou e eu tentei respirar fundo.
— Me segura depois desse jogo, que eu vou lá do outro lado acabar com a raça desse mexicano.
— Você está exaltada, .
— Você acha? – Perguntei, colocando as mãos na cintura e ele se calou. – Eu vou pegar esse cara e esfregar a cara dele no asfalto.
Voltei a prestar atenção ao jogo, onde a bola era recuada para Alisson que enganava o jogador mexicano e chutava para outro lado. Falta do Casemiro. Nada! Jesus atravessou, passou para Paulinho, devolveu para Casemiro que chutou para Willian que se aproximou do meio e Ochoa pegou facilmente. A bola foi muito rasteira.
Falta no Neymar novamente. Tite começa a se revoltar. Aquilo está totalmente perseguido, eles vão só no tornozelo direito, onde foi a cirurgia no dedinho. Dessa vez pelo menos tivemos cartão no mexicano de cabelo descolorido.
Queda de Coutinho, sem marcar falta. Eles tentaram fazer o contra—ataque, mas Fagner tira a bola para linha de fundo. Alisson tocou para Thiago e a bola voltou para o jogo. A bola atravessou e Coutinho tentou fazer a finalização, mas foi derrubado e a falta não foi marcada. Os mexicanos cruzaram e tentaram fazer a finalização, mas Alisson pegou a mesma.
Substituição. Sai Paulinho, entra Fernandinho.
Falta no Thiago Silva ao lado do gol brasileiro, cotovelada nele. Alison e Miranda se aproximam e eu só conseguia pensar em “não arranja encrenca, Alisson”. Foi assim que Buffon foi expulso de um jogo na UEFA, por reclamar com um juiz. Thiago se recompôs e o jogo retornou.
Olhei para o relógio e estava em 40 minutos. Pelo amor de Deus, acaba com essa coisa logo! Eram quase oito horas da noite, eu já estava ficando com fome. A bola voltou para o campo do Brasil, mas a defesa estava posicionada e a tirou antes de entrar na área e depois de cabeça por Fagner.
Substituição. Sai Coutinho, entra Firmino.
Escanteio para o México, os brasileiros cabeceiam para o chão. Ela volta e direção ao gol e Alisson vai longe para bater a mão na bola, caindo de ombros, me fazendo franzir a testa. Essa deve ter doído.
O segundo gol veio quando eu menos esperava. A bola foi recuada para o Ochoa, que tentou atravessar, mas Fernandinho roubou a bola, ele a chutou para Neymar que correu sozinho para a área. Ele enxergou Firmino do outro lado, da mesma forma que o outro gol. Ele enganou o goleiro quando esse foi em cima da bola e jogou para Firmino que deu um toquinho no gol, entrando junto com a bola.
— GOL! – Vinícius gritou, comemorando e eu até sentei aliviada, suspirando.
— Gol! – Falei rindo e Vinícius bateu na minha mão novamente. – Agora vamos acabar isso.
Acréscimo de 6 minutos.
— Ê, caramba! – Suspirei, balançando a cabeça, batucando a ponta dos dedos na mesa.
Falta novamente no Neymar. A bola até tentou cruzar, mas foi muito longa e Alisson só fez um tiro de meta. Brasil tentou cruzar novamente, fazendo Firmino brigar com um mexicano com a bola e Neymar chegou, mandando a bola para fora. O México tenta de novo, mas Thiago Silva meteu o pé na bola, tirando—a da área brasileira. A bola volta, Thiago Silva cabeceia e Alisson pega. Eles tentaram de novo e Thiago tirou pela terceira vez seguida.
Um mexicano cai no chão, querendo falta, mas o juiz deu tiro de meta para o Brasil e Filipe o ajuda a se levantar, da mesma forma que fizeram com o Neymar mais cedo. A bola cruzou e chegou nos pés de Ochoa, ele fez um lançamento, dando oportunidade de o México tentar um último lance, mas perdeu a chance e o juiz apitou.
— ACABOU! – Gritei, me levantando novamente e Vinícius me abraçou, me tirando do chão alguns segundos, fazendo os saltos saírem dos pés.
— Vamos para as quartas! – Ele gritou abafado e eu suspirei.
Peguei uma toalha em uma das caixas e passei meu rosto e colo, sentindo o suor deslizar pelo meu rosto. Me sentei novamente, bebendo mais um pouco do isotônico e girei o corpo, encostando na mesa e vi a porta ser aberta, trazendo os jogadores de volta.
— Estamos nas quartas! – Neymar foi o primeiro a me abraçar e eu sorri, apertando—o fortemente.
— Você foi demais! – Falei, segurando—o pelo rosto. – Você não fez firula, não provocou, foi ótimo! – Ele sorriu. – Tá tudo bem? – Perguntei e ele ponderou com a cabeça.
— Tá sim! – Ele falou rindo e eu revirei os olhos, dando um tapa em sua cabeça, empurrando para ver o próximo jogador.
— Você não fez gol, mas eu considero que sim. – Segurei Gabriel pelos ombros. – Foi a bola, você e o Neymar, então considero três gols só daquela vez. – Ele me abraçou rapidamente e eu ri, deixando—o sair.
— Obrigado!
— Você também. – Apontei para Firmino que se aproximou sorridente. – Gol de bola e seu junto, dois gols! – Ele riu, me abraçando fortemente e eu sorri. – Demais!
— Vamos para as quartas! – Ele comemorou e eu ri, deixando—o passar.
— Meu capitão! – Vi Thiago entrando no vestiário e ele se aproximou de mim com os braços abertos e me tirou do chão, me girando. – Eu vi sua queda, está tudo bem?
— Tá sim! – Ele sorriu e eu baguncei seus cabelos.
— Você, senhor Fagner, precisa tomar cuidado para não matar ninguém. – O mais baixo riu. – Eles estavam merecendo, mas você não pode levar cartão.
— Eu achei que ela fosse entrar no campo para matar alguns mexicanos! – Vinícius falou e eu dei meu sorriso medonho que fez os jogadores rirem.
— Ninguém mexe com a minha galera. – Falei, sorrindo.
Cumprimentei os jogadores que foram chegando com abraços e beijos e olhando sempre por cima para ver se meu goleiro não chegava. Tite entrou com um largo sorriso no rosto e me abraçou também.
— Eu li todos os seus palavrões. – Falei e ele riu. – Não passou na hora, mas pelo jeito você já virou meme por correr para comemorar o gol.
— Mas de novo? – Ele brincou e eu ri.
— Esteja vivo e seja uma figura pública, você sempre vai virar meme. – Bati em seus ombros e vi Alisson entrando no vestiário.
Tite se afastou e Alisson seguiu em minha direção. Ele jogou suas luvas no chão e me abraçou pela cintura, me pegando no colo em um abraço desajeitado. Apoiei minhas mãos em seus ombros e o senti me deslizar pelos seus braços e abriu um largo sorriso para mim. Eu ia falar alguma coisa, mas ele ignorou tudo e todos no vestiário e colou os lábios nos meus, me pegando de surpresa.
Os jogadores e equipe começaram a gritar, mas eu ignorei, segurei—o pela nuca e deixei com que ele liderasse o beijo, fazendo com que o local ficasse mais quente e abafado. Senti um gelado escorrer pelas costas, me separando dele, sentindo os jogadores virarem os isotônicos na gente.
— Ah, vocês estão com inveja! – Alisson gritou e eu ri, abraçando—o e encostando minha cabeça em seu peito.

Fechei minha mala novamente e me levantei. Ainda bem que a mala estava no ônibus ou eu teria que voar de volta para Sochi com um uniforme dos jogadores ou ter que esperar a roupa secar ao relento. Apesar de que com esse tempo em Samara, até dava, estava abafado, parecendo o Rio de Janeiro.
Saí do banheiro, puxando a mala e ouvindo os papos dos jogadores no vestiário enquanto terminavam de ajeitar tudo para irmos jantar no estádio e depois pegarmos o voo de volta para Sochi. Coloquei a mala no canto, junto das caixas, utensílios e algumas mochilas e coloquei a minha novamente em cima da mala.
Voltei para a sala e franzi a testa ao ver os jogadores tentando se arrumar para tirar uma foto. Todos eles já estavam vestidos novamente com aquela calça de moletom azul escura, a blusa polo do mesmo tom da minha e tênis, na maioria pretos.
— Junta mais! – Lucas falou apontando para o lado direito. – Não vai cair, Casemiro. – Soltei uma risada, vendo todos os jogadores sorridentes e me senti feliz também. – Sorriam! – Ele falou e eu ouvi o barulho do obturador algumas vezes e suspirei. – Agora vai, todo mundo mostrando o quatro. – Ele gritou.
— Faltam três! – Eles gritaram e eu sorri, encostando a cabeça no ombro de Vinícius que me abraçou de lado. Alisson deu uma piscadela em minha direção e eu sorri.
— Pronto! – Lucas falou. – Vamos comer! – Ele falou e os jogadores foram saindo do vestiário, descendo da mesa em que eu mantinha as coisas e, por último, os jogadores que estavam em pé na mesma, incluindo Alisson.
— Menos um! – Ele falou, me abraçando pelos ombros e eu o abracei de lado, entrelaçando os dedos nos dele.
— O que deu em você para me beijar na frente de todo mundo? – Perguntei, olhando para ele.
— Eu estou muito feliz. – Ele falou rindo. – Além de que... Porque esconder? – Ele olhou para mim, encostando o nariz no meu. – Todo mundo já sabe.
— Todo mundo, menos...
— Ah, os dirigentes, mas eles só sabem assistir aos jogos da tribuna, não convivem com a gente, não acompanham treinos, reuniões, nem nada... – Ele deu de ombros. – O resto aqui sabe e apoia a gente. – Sorri, assentindo com a cabeça.
— Com certeza! – Marcelo falou em nossa frente e eu ri. – Quer que eu leve sua mala?
— Se você faz questão. – Brinquei e ele puxou minha mala, saindo do vestiário. Me afastei um pouco de Alisson, pendurando minha mochila nos ombros e fomos em direção ao restaurante do estádio, com Alisson me abraçando pelos ombros.

Capítulo 9 – Brasil x Bélgica, o fim do sonho!

— , quer dar aquele recado básico? – Tite perguntou e eu me distraí do meu celular, percebendo que eu ainda estava no palquinho da sala de reuniões em Sochi, ouvindo Tite e a equipe falar do desempenho do jogo há uns 30 minutos.
— Desculpa, entrei em alfa aqui! – Eles riram e eu me levantei, bloqueando o celular e apoiando as mãos na mesa. – Esse jogo contra o México foi muito bom, para falar a verdade. Tem alguns pontos que eu vou comentar com vocês, mas são coisas que eu vi na imprensa, principalmente na brasileira, que pode acabar sendo comentado nas próximas coletivas. – Eles assentiram com a cabeça. – Vocês já sabem minha opinião, eu deixei bem clara logo depois do jogo, cumprimentei cada um dos pontos fortes, mas eu gostaria de parabenizar o Neymar dessa vez. – Ele ergueu a cabeça confuso. – Depois do jogo da Costa Rica eu nem tive chance de te parabenizar pela correção da sua postura em jogo, mas depois desse jogo do México, você merece. – Os jogadores e equipe técnica aplaudiram.
— Obrigado. – Ele sorriu.
— Sei que tem a pressão de você já ter um cartão amarelo, a pressão de talvez não participar do próximo jogo, mas baseada em toda provocação daquele descolorido filho de uma...
— ! – Tite me segurou e eu dei um sorriso delicado em sua direção.
— Depois de toda aquela provocação, você se manteve calmo e ainda saiu por cima depois daquele pisão. Merecia cartão vermelho, mas ele também nem poderia usar, né?! – Eles riram, aplaudindo animadamente. – Meus parabéns, sua assessora agradece e continue assim, ok?!
— Obrigado! – Ele agradeceu, sorrindo.
— Bem, vamos lá. – Dei uma rápida olhada no arquivo aberto do meu notebook. – Estamos vendo que o VAR não vai funcionar nunca para gente, não é?! – A maioria revirou os olhos e cruzou os braços.
— Ainda não me conformo com o pisão – Tite falou, negando com a cabeça.
— Não contem com o VAR, não esperem que o VAR veja qualquer falta feita contra vocês. Não existe VAR em jogos do Brasil. Nem de bandeirinha, para falar a verdade. – Cruzei os braços. – Eu que estava vendo de uma televisão sabia que era impedimento antes deles. – Os jogadores riram. – Só se acalmem nesses lances, não queremos ninguém levando cartões ou sendo expulsos por besteiras, beleza? – Eles assentiram com a cabeça e eu suspirei. – Para o próximo jogo teremos Marcelo de volta como titular. – O pessoal aplaudiu. – Douglas está disponível para a escolha de Tite e Miranda vai ser o capitão. – Eles comemoraram, aplaudindo e batendo nas cadeiras vazias. – Mas, infelizmente, Casemiro está fora. – Falei e ele assentiu com a cabeça triste. — Tem uma mudança sobre lugares de jogos e afins, ok?! Depois eu converso contigo em particular.
— Obrigado! – Ele ergueu o polegar.
— Gabriel, já conversamos sobre isso, mas a imprensa está te chamando de “trator” – falei e ele deu um sorriso tímido. – Não é só de gol que se faz um jogador do seu calibre, seus passes estão sendo muito mais executados, causando finalizações incríveis.
— Obrigada, . – Ele sorriu e eu assenti com a cabeça.
— Sobre a comemoração de vocês – falei, coçando a cabeça. – Coutinho me disse que é sobre um jogo? Sério? – Cruzei os braços, me fingindo de brava.
— É do Counter—Strike, é um jogo de...
— Eu conheço CS, Coutinho – falei para ele. – Preferia GTA, na verdade. Joguei muito quando era nova, por sinal. Morria sempre, mas... – Eles riram. – Eu fiz maior meme sobre debochar os mexicanos com o choro do Quico de Chaves e vocês me falam que é de Counter Strike? – Revirei os olhos. – Deplorável. – Eles riram. – Tá, agora um alerta para vocês. Se lembram de que os mexicanos estavam pisando em todos os nossos calos? – Virei para Neymar. – Dentro e fora de campo?
— Sim – Tite confirmou, se aproximando.
— A Bélgica está fazendo ao contrário. – Fiquei em frente à mesa, apoiando a cintura na mesma. – Eles estão falando que somos os mais fortes, o melhor time da competição. Os jogadores que jogam com vocês estão falando muito bem de vocês, das suas características... – Ponderei com a cabeça. – Ignorem tudo isso, ok?! – Falei firme. – Não deem bola, não deixem que isso erga o ego de vocês ou algo do tipo. Vocês viram o que houve com o México quando decidiu falar mal da gente, fomos em cima e pisamos neles como baratas... – Eles arregalaram os olhos e Tite riu ao meu lado. – Não gosto quando chegam muito manso não. – Eles riram. – Só façam o trabalho de vocês.
— Sim, chefe! – eles falaram e franzi o rosto em direção a Alisson que riu.
— Agora algumas avaliações individuais. – Abri outro arquivo. – Alisson, trabalhou bem com as mãos, mas tivemos algumas falhas com os pés. – Os jogadores gritaram, zoando—o e eu revirei os olhos.
— Sabe o que é, ? Ele está trabalhando bem com as mãos. – Quis bater em Fagner, mas somente revirei os olhos, ouvindo os jogadores rirem.
— Fagner, você foi um bom destaque nos desarmes, mas eu achei que você fosse sinceramente matar alguém ou levar algum cartão – falei e ele deu um sorriso de lado, me fazendo rir. – Thiago e Miranda, muito bom no jogo aéreo, lidaram muito bem com as defesas e impediram que a bola chegasse no gol. – Rolei a página. – Filipe Luís, igual Fagner, demorou para pegar no tranco, mas lidou bem tanto na defesa, quanto no ataque. – Ele ponderou com a cabeça. – Casemiro, apesar do seu segundo cartão, você roubou muita bola e foi demais. – Ele sorriu.
— Valeu! – Suspirei.
— Achei que outros jogadores, tipo o Fagner, mereciam mais cartão do que você, mas é a vida. – Dei de ombros.
— Ei! – Fagner reclamou.
— O que foi? Posso ser zoada e não posso zoar, é isso? – Revirei os olhos e ele riu. — Paulinho, você ficou meio apagado durante o jogo, não senti a mesma garra dos últimos dois jogos. – Ele assentiu com a cabeça. – Fernandinho nem tem o que falar, mal participou. – Ele riu.
— Não foi um bom dia. – Assenti com a cabeça.
— Coutinho também ficou sumido. Até fez algumas finalizações, mas também não vi a mesma garra dos últimos jogos. – Ele ponderou com a cabeça, fazendo uma careta. – Willian você foi com muita raça, o gol só não saiu porque não era para sair. – Ele sorriu. – E o povo ainda está te chamando de “foguetinho”, realmente, você faz jus ao apelido.
— Obrigado! – Ele sorriu e os jogadores o aplaudiram.
— Marquinhos não tenho o que comentar, participou pouco. – Rolei a página. – E Neymar... Seu desempenho foi muito bom, como está sendo em toda Copa, mas você é caçado, isso não tem nem o que falar. É difícil com que você receba, passe e mantenha o jogo em movimento, mas você ainda fez ótimas finalizações, aproveitou as oportunidades e deve ter deixado aquele mexicano muito bravo por não ter respondido as provocações dele.
— Você está com muita raiva dos mexicanos, não é? – Tite falou e eu ri.
— É involuntário. – Suspirei, rindo fraco. – Eu sou mãezona, sabe? Mexem com as minhas crianças, eu já quero... – Eles riram, alguns até jogaram bolinhas de papel em mim. – Olha que não protejo mais vocês, hein?! – Falei rindo.
— É isso? – Tite perguntou.
— É isso! – Fechei meu notebook, ouvindo o baque que os faziam tremer.
— Bom, agora vamos falar sobre nosso próximo adversário nas quartas de final, a Bélgica...
— Essa é a minha deixa! – Peguei minhas coisas e descendo do palquinho, atravessando o corredor pelo centro, sem antes dar aquele aceno rápido para Alisson, fazendo os jogadores rirem.

— Não, não. – Balancei a cabeça. – Agora só em Kazan. – Falei para Sylvinho que ponderou com a cabeça.
— Tem certeza? – ele perguntou.
— Por quê? – Cruzei os braços.
— Eu pensei que teria outra coletiva hoje.
— Não. – Ri fraco. – A gente já está com treinamento aberto para a imprensa desde cedo, além de que eu não quero dar chance para os jogadores serem irritados e poderem falar besteira na coletiva.
— Você está certa. – Assenti com a cabeça.
— Relaxa, hoje é nosso último dia aqui em Sochi, deixe que eles aproveitem. Os jogadores, a imprensa, eu e você. – Ele suspirou, fazendo uma careta e eu ri.
— Parece que a gente vai deixar um pedaço de nós para trás, não é? – ele perguntou e eu suspirei, virando para trás, vendo Alisson com Helena no gramado.
— Uns mais que outros. – Dei um pequeno sorriso. – Sochi foi muito bom para mim.
— Para todos nós, sem desmerecer o que vocês criaram, é claro. – Ri fraco.
— Ah, vamos parar! – Passei as mãos nos olhos. – Emoções só amanhã. – Ele riu. – Mas não, amanhã vamos para Kazan, treinaremos em outro campo e, quinta—feira, no dia do treino oficial, vai ter mais uma coletiva. Ainda não sabemos com quem.
— Combinado! – Ele sorriu, dando um leve tapinha em meus ombros e se afastou, seguindo em direção à equipe técnica.
Dei uma volta ao redor do corpo e suspirei, observando os jogadores mais descontraídos no campo. Algumas crianças estavam no mesmo brincando com os pais, entre si, e até com a equipe técnica. Apoiei os braços na grade, tendo poucos momentos de paz, sentindo o vento na Rússia bater contra meu corpo. Estava começando a ficar mais frio, hoje até estava com o moletom amarelo da Seleção cobrindo a conhecida camisa polo.
— Vai ficar só olhando? – Alisson perguntou, se levantando de frente do gol e seguindo em minha direção, enquanto Helena brincava com algumas bolas, me fazendo sorrir.
— Estou pensando, na verdade – falei e ele se virou de costas para mim, apoiando os cotovelos na grade e arqueando as costas.
— No que?
— Estamos faz quase um mês aqui em Sochi e amanhã acabou. – Suspirei. – Independente do resultado de sexta, nós não voltaremos para cá.
— Passou tão rápido, não? – Assenti com a cabeça, observando Helena que mostrava as outras crianças correndo para nós, para Alisson, na verdade.
— Eu vou sentir saudades. – Franzi os lábios. – De tudo.
— Você está pensando no depois, não está? – ele perguntou.
— Depois do quê? – Virei o rosto para ele.
— Da Copa. Eu e você... – Bufei, vendo—o rir.
— Tento não, mas é inevitável. – Olhei para a imprensa rapidamente. – Temos algo tão bom aqui e eu sei que quando isso acabar, não vai ser igual.
— Podemos tentar. – Ele deu um pequeno sorriso e eu ri fraco.
— Conexão Rio Roma? – Suspirei. – Não vamos nos esquecer de que eu folgo só de fim de semana, um voo para Roma dura 11 horas, e de fins de semana você joga. – Ele riu fraco.
— Se eu consigo ver Helena com frequência, e eu dependo de meus pais, de Muri ou de Natália, nós daremos um jeito. – Ele se virou novamente, ficando na minha lateral. – Confie em mim. – Ele afastou o corpo e eu sorri, assentindo com a cabeça. – Agora venha! – Ele me segurou pelo pulso e andou comigo até a abertura do campo e eu tirei meus saltos antes de entrar no mesmo. – Você e Helena precisam passar mais tempo juntas.
— Eu não acho que ela gosta de mim – falei honestamente e ele riu, se sentando no gramado novamente, próximo de sua filha e eu me sentei ao seu lado.
— Ela te dá oi, nem vem. – Ele riu. – Acredite, já é um grande passo.
— Sim, aí quando eu me aproximo, ela vira o rosto.
— Ela é envergonhada. – Ele fez carinho na barriga de Helena que riu.
Talvez a idade jovem de Alisson não fizesse diferença na hora de cuidar de Helena. Ele era um pai babão, fazia caras e bocas enquanto passava a bola para ela que tentava erguer acima de sua cabeça e caía. Por mais que eu sonhasse em ser mãe, eu não conseguia pensar nisso agora. Talvez como madrasta eu pudesse treinar um pouco. Mesmo que no fundo eu não acreditasse nas palavras de Alisson de que “daríamos um jeito”.
— Oh! – Me distraí, sentindo uma bola de Helena bater em meu pé, fazendo—a rir. – Gosta disso? – Brinquei com ela que pegou a bola e fez novamente, fazendo—a rir e eu sorri para acompanhá—la.
— Sabe do que mais ela gosta? – Alisson falou brincando, pegando—a no colo e balançando—a para todos os lados e deitou com ela no chão, erguendo—a para o alto, fazendo Helena gargalhar.
— Você precisa parar de bancar o pai bobo – falei quando ele se sentou novamente e sentou Helena em seu colo.
— Por quê? – Ele perguntou, ainda rindo.
— Porque me dá vontade de te beijar toda hora. E não seria legal em frente à imprensa, certo? – Ele riu, abrindo um largo sorriso e observei Helena se levantar de seu colo e andar em minha direção, levemente abaixada.
— Podemos fazer isso depois. – Assenti com a cabeça. Helena se virou de costas para mim e se sentou entre minhas pernas dobradas como de índio.
— ‘Boa’? – Ela falou olhando para mim e apontando para a mesma.
— É, bola! Você gosta? – perguntei, puxando uma para perto de nós.
— ‘Boa’! – Ela repetiu e eu passei uma mão em seu corpo, para que ela não tombasse para frente.
— Brinca com a bola – falei sorrindo e dei um beijo em sua cabeça, sentindo o cheirinho do perfume.
— ! – Virei para o lado, vendo Lucas se aproximar e eu revirei os olhos.
— O que você quer? – perguntei seca.
— Vamos deixar algumas camisetas autografadas para serem leiloadas para ajudar algumas organizações daqui, você pode conseguir isso para mim? – Ele estendeu algumas camisetas e eu suspirei.
— O quê você está fazendo agora? – perguntei.
— Acabei de chegar, na verdade. Estava no hotel. Vou tirar algumas fotos. – Ri fraco.
— Não, você vai conseguir essas assinaturas para mim e me deixar aproveitar esse momento único na vida. – Abaixei minha cabeça, encostando—a na de Helena, fazendo um biquinho e piscando os olhos diversas vezes para Lucas. – Olha! Você não quer me tirar daqui, não é?! – Ele revirou os olhos e Alisson riu.
— Tá! – ele falou revirando os olhos e dando meia volta. – Mas esse é o seu trabalho, ok?!
— Meu trabalho é de social media, na verdade – respondi e ele gargalhou, saindo do campo.
— Acúmulo de funções – Alisson falou e eu dei de ombros.
— Com o que eu ganho, eu nem posso reclamar – falei e ele sorriu.

— Se afasta! – pedi a Marcelo que segurou meu braço e deu um peteleco. – Ah! – Reclamei, passando a mão no braço dolorido.
— Só não deixar a bola sair – Filipe falou e eu revirei os olhos.
— “Só”, como se fosse fácil com 11 brutamontes subindo em mim para pegar a bola – falei e eles riram. – Pega leve comigo, eu estou descalça! – Eles riram.
Puxei a bola com o pé tocando—a para o lado e passei para outro jogador do campo, enquanto Fred era feito de bobinho no centro da roda. Ouvi um assovio mais ardido que o meu e virei o rosto, vendo Tite chamando todos para fora do gramado. Oficialmente tinha acabado o último treino de Sochi. Estávamos brincando de bobinho há uma hora, mais ou menos, desde que a imprensa e as famílias tinham se retirado, mas ainda no campo.
Olhei o sol se pondo atrás das arquibancadas e começamos a sair do mesmo. Apoiei a mão na grade e passei a mão nos pés rapidamente, tirando algumas folhinhas coladas no mesmo e calcei os sapatos novamente. Agora eu estava com o corpo quente, mas já coloquei o moletom amarelo novamente, não queria ficar resfriada justo agora.
— Que tal um passeio na praia? – Alisson se aproximou, me abraçando por trás e apoiando a cabeça em meu ombro.
— Agora? – perguntei e ele deu de ombros.
— Não é como se fôssemos ter outra oportunidade. – Assenti com a cabeça e ele segurou minha mão, entrelaçando os dedos e seguimos para a parte interna do complexo, ouvindo meus saltos ecoar pelo local.
Alguns jogadores seguiram direto para o hotel nos carrinhos colocados ali, o resto de nós, além de Lucas, Vinícius e Bianca, seguimos em direção à praia. Até Bianca tinha feito parte da brincadeira de bobinho.
Tirei o salto e o deixei em uma das espreguiçadeiras em cima do deque e segui para a mesma com Alisson. Alguns jogadores até colocavam as canelas na água, mas dava para notar, pela careta deles, que estava muito gelada. Já outros faziam questão de esparramar água para os lados, só para badernar.
Eu e Alisson demos alguns passos para o lado, sentindo a areia branca passar por entre os dedos dos meus pés e paramos. O suficiente para que pudéssemos conversar sem ter alguns papagaios de pirata em nossos ombros. Eles faziam questão de participar de todos os momentos.
— Eu estou muito sentimental – ele comentou, passando os braços pela minha cintura e eu ri, erguendo as mãos para sua nuca.
— Apesar de termos começado na Granja, foi aqui que começou a andar. – Ele sorriu, me apertando em um abraço e eu suspirei. – Nunca pensei que viria à Rússia, quiçá que iria me apaixonar na Rússia.
— Surreal, não é? – ele falou, voltando olhar em meus olhos. – Eu lembro que eu sempre quis ser jogador de futebol, principalmente por causa de Muri, mas eu não tinha noção aonde a vida me levaria. – Acariciei sua nuca, fazendo um carinho gostoso na mesma. – Não sabia nem que daria certo, para falar a verdade. Agora estou na Rússia, representando meu país em uma Copa do Mundo, com residência fixa na Itália... Isso é loucura. – Assenti com a cabeça.
— Muito! – falei rindo. – Pelo menos sua profissão permite isso, eu achei que estagnaria em empregos patéticos como jornalista em jornais pequenos, e que só conseguiria um emprego bom se fizesse concurso... – Balancei a cabeça. – Agora estou aqui. Deus! – Ri fraco, negando com a cabeça. – Isso é um sonho.
— O pior é que eu nem posso falar que não é um sonho, porque é. – Ele me apertou pela cintura. – E está acabando. – Suspirei.
— Eu nem sei o que eu vou fazer quando voltar para o Brasil e voltar para aquele cubículo que é meu quarto. – Ri fraco. – Pelo menos terei meu colega de quarto de novo.
— Vocês se dão bem, não é? – Dei de ombros.
— Depois que minha avó faleceu, eu precisei arranjar um lugar para morar. Ela morava longe de tudo lá no Rio e eu tinha um empreguinho na Barra, compensava me mudar. Aí eu encontrei Bernardo... – Dei de ombros. – No começo achei estranho, mas ele sempre foi muito animado, muito feliz, muito reconfortante, muito amigo, sabe? Acabou dando certo. – Ele riu.
— Eu não consigo imaginar alguém tão para cima.
— Quando você for para o Rio, terá que conhecê—lo, afinal, já conheço sua família inteira, o que é conhecer meu melhor amigo? – Ele riu, dando um rápido beijo em meus lábios.
— Estamos fazendo tudo muito rápido, não é? – Ele perguntou e eu dei de ombros.
— É o clima Copa. – Suspirei. – Vamos ver quando acabar, vai voltar àquela depressão novamente, voltar a falar de crimes, políticos corruptos e por aí vai. – Revirei os olhos. – Nem ligo mais a TV. – Ele assentiu com a cabeça.
— Na Itália não é muito diferente, sorte que eu fico o dia inteiro no CT e, na volta, só quero beber um mate, tocar meu violão... – Assenti com a cabeça.
— Relaxar! Eu fiquei uma semana só alocada na CBF, então nem sei como é o trabalho de verdade, vou descobrir quando voltar. – Suspirei. – Espero que ninguém tenha encomendado minha morte por que ter furado a fila de assessores para vir para a Copa. – Ele riu.
— Acho que não, já te garantiram para a próxima. – Sorri, ponderando com a cabeça.
— Espero te ver nela daqui quatro anos também. – Acariciei seu rosto.
— Quatro anos é muito tempo. – Ele colocou a mão em cima da minha. – Vamos finalizar essa antes e pensar em nós dois, pode ser?
— Por favor! – Eu ri e ele colou os lábios nos meus delicadamente, me fazendo arrepiar pelo beijo e pelo vento em Sochi.
Obviamente não ficamos muito tempo lá embaixo. Logo os jogadores vieram encher nosso saco, fazer piadinhas com Alisson e, cada dia mais, eu tinha certeza de que era uma excursão escolar. Subimos com a galera restante e cada um foi para seu lado. Tínhamos combinado de todos jantarmos juntos por ser o último dia aqui em Sochi.
Não era nada chique ou diferente do que estávamos acostumados, só tínhamos combinado de todos chegarem às sete e meia da noite e aproveitarmos juntos a ótima refeição que o chef tinha preparado para gente.
Eu acabei sentando com a galera de comunicação, apesar de que todos voltaríamos a trabalhar juntos depois da Copa, tínhamos criado um laço especial aqui na Rússia, tanto que tínhamos sido convocados juntos também. Além de que os chatos dos dirigentes também participaram desse jantar, o que até me deixou feliz, porque os meninos poderiam me dar um pouco de folga nas zoações. Pelo menos isso eles respeitavam.
Jantamos de boa, igual aquele primeiro jantar lá na Granja, mas logo os sapatos ficaram pelo chão, os instrumentos subiram e o pagodinho voltou a rolar solto. Até Tite tentou alguns movimentos, nos fazendo gargalhar demais. Afinal, Tite tinha sido motivo de gargalhada desde o começo da Copa.
— Ei! – chamei a atenção de todos, fazendo um leve tilintar em meu copo com uma faca perdida nas mesas. – Vamos prestar atenção aqui um pouco para eu passar as informações de amanhã. – Falei e o batuque ficou mais fraco, até alguém cutucar Marcelo e cessar de vez.
— Opa! – ele falou, nos fazendo rir.
— Vamos lá, gente. O voo amanhã é às 11h da manhã, durmam o quanto quiserem, mas eu preciso de todos às 10h no ônibus para irmos para Kazan. – Eles assentiram com a cabeça. – Como sabem, hoje é nosso último dia em Sochi, a partir de hoje não voltaremos para cá, seguiremos pelas cidades conforme os jogos forem passando.
— Se passarmos... – Thiago falou e eu franzi a testa.
— Eu vou puxar sua orelha, hein?! – Brinquei e ele riu. – Eu não quero ouvir “se”, ok? – Respirei fundo. – Sei que estamos chegando cada vez mais perto e o nervosismo fala cada vez mais alto, mas não pode bater o desânimo agora, estamos tão perto... – Suspirei. – Está sendo uma jornada tão incrível para mim, que eu imagino que para vocês também. Nós estamos unidos, nós estamos entrosados, comunicação, jogadores, equipe técnica... Isso está sendo fantástico e eu estou adorando cada minuto disso e querendo muito que cheguemos à final, porque aí eu sei que vai demorar mais para eu voltar para casa. – Alguns sorriram e eu suspirei. – As amizades que criamos aqui, os laços, a diversão... Isso não vai mudar. Vou encontrar vocês nos amistosos em setembro, outubro e novembro e vou querer receber um abraço bem apertado de todos, porque vai parecer que passou só alguns dias. – Eles sorriram. – A Copa não acabou e ainda teremos um longo caminho pela frente, mas será fora desse QG que aproveitamos com todo carinho. – Suspirei. – Não quero ser mais melosa, mas obrigada. – Sorri, apoiando a mão no peito. – Eu estou aqui por causa de vocês e estou tendo a melhor experiência da vida.
Alguns tinham lágrimas nos outros, limpando com a ponta dos dedos, outros puxavam o ar fortemente tentando esconder, mas todos tinham sorrisos tristes nos lábios, mas os olhos brilhando.
— Ah, vamos animar, pelo amor! – falei, abanando a mão. – Volta o batuque, Marcelo.
— Uhul! – Ele gritou, voltando a bater a mão no pandeiro, me fazendo rir.
Me aproximei da roda, apoiando os braços no encosto do sofá que Alisson estava, acompanhando tudo com seu violão e ele deu um sorriso para mim e uma piscadela, me fazendo sorrir e me afastei um pouco, voltando a sambar com Bianca e Angelica.

Dei aquela rápida olhada nos armários e prateleiras do banheiro e do quarto e voltei para o mesmo. Guardei na mala a lembrancinha do hotel que estava em cima da cama quando voltei do café hoje de manhã e peguei meu tênis, encaixando ali no meio e fechei a mala. Fui para a escrivaninha e abri a mochila que estava na cadeira. Coloquei todos os eletrônicos lá dentro, conferindo cabos, cartões de memória, conexões externas e extras, antes de também fechar a mesma.
Me sentei na cama, passando a mão rapidamente nos pés, destacando e colando os band—aid em todos os lugares que já tinham feito e refeito bolhas e calcei os sapatos, franzindo o rosto ao calçá—los. Daqui a pouco eles relaxariam. Me levantei, me aproximando da janela em meu quarto e suspirei ao ver o sol queimando em Sochi. Tirei uma foto com o mesmo e postei no stories do Instagram “blagodaryu vas, Sochi”, que queria dizer obrigado, em russo.
Guardei o aparelho no bolso, recoloquei o crachá e dei uma rápida olhada no quarto, conferindo que tudo estava ali. Abaixei a mala da cama, pendurei a mochila nas costas, a bolsa no braço esquerdo e usei o direito para abrir a porta.
Vários jogadores estavam saindo ou já tinham saído de seus quartos, deixando a porta aberta, assim como eu faria agora. Acenei para alguns e peguei o elevador aberto com Geromel, Firmino e Douglas. Sorrimos uns para os outros e ele desceu os andares do prédio.
Andamos por entre a parte reservada para nós até a parte central do hotel. O ônibus já estava lá. Entreguei minha chave para o gerente, dando um rápido sorriso em agradecimento para o mesmo e saí do hotel, os próprios empregados do hotel seguravam bandeiras, tinham balões das cores da seleção para se despedir de nós e nos aplaudiam quando passávamos, incluindo a mim.
Entreguei minha mala para o motorista do ônibus e ele conferiu rapidamente meu crachá. Subi no ônibus pela parte da frente, vendo alguns jogadores e equipe técnica no mesmo. Acenei rapidamente para Alisson e me sentei ao lado da mochila de Lucas. Ele estava em pé tirando fotos de todos nós. Um dos pensamentos em minha cabeça foi: como viver sem Lucas tirando fotos minhas a cada oportunidade? Como não viver sem um fotógrafo particular? Espero que ele fizesse isso na CBF, precisaria manter meu Instagram cheio e mandar várias para Alisson.
Fizemos aquela viagem tão conhecida como uma excursão escolar mesmo. Pessoas no corredor, pessoas (incluindo eu) ajoelhadas nas poltronas olhando para trás, jogos de cartas e nos tablets e o batuque, sempre tinha que ter o batuque. Chegamos ao aeroporto, passando por uma área reservada, entramos no avião direto pela pista e nos acomodamos.
O voo até Kazan não foi muito diferente, só o barulho que eles cessaram, mas cada um tinha seus fones verdes e amarelos da CBF na orelha e entravam em seu mundo, onde tínhamos o poder de escolha do que queríamos ouvir.
Alisson se sentou ao meu lado, mas ele estava cansado. Depois do jantar, ele acabou aparecendo em meu quarto novamente e você sabe muito bem o que fizemos. Eu capotei logo em seguida com seus carinhos em minha cabeça, mas ele disse que teve dificuldades para dormir. Pensei que poderia ter sido o fato de eu ter dormido em cima dele, mas ele disse que eu virei de costas para ele minutos depois.
Ele ainda teve que acordar antes para ninguém pegá—lo saindo de fininho do meu quarto. Não para se esconder, só para evitar gritaria de Neymar e companhia logo pela manhã. Ou pior, de Ederson e Cássio. Enquanto eu tinha amores por um goleiro, eu queria matar os outros dois.
Ele dormiu com a cabeça encostada em meu ombro durante as quase 2h15 de voo até Kazan. Chegamos, pegamos nossas malas e entramos no ônibus, nada de novo até aí. O que teve de novo foi minha cara de idiota quando chegamos ao hotel de Kazan. Meu Deus, que paraíso era aquele. O hotel parecia ser meio futurístico, perfeito, quase como uma maquete. Além de ter um globo gigante no jardim que eu gostaria muito de saber o que era.
Os torcedores estavam em peso nas grades da entrada lateral do hotel. Em peso mesmo! Eu nunca tinha visto tanta gente assim na minha vida. Eles estavam nas ruas e em algumas partes altas dos prédios vizinhos. Para ajudar, Vinícius veio no carro de trás de canarinho, só para esquentar mais minha cabeça.
Entramos pela lateral do hotel, subindo as escadas por fora e entrando em um lobby. Provavelmente não o lobby principal, mas um lobby reservado para nós. Lá era parecido com o restaurante de Sochi, era uma sala de espera e tinha vários jogos, pebolim, sinuca, mesas de xadrez e damas, além de muitos sofás e tapetes para ficarmos lá, e uma porta para um grande restaurante.
Um novo gerente animado nos deu as boas—vindas, eu e Angelica nos encarregamos de distribuir as chaves, dois por quarto, e logo subimos, encontrando a gangue inteira no mesmo andar, com malas pelos corredores, gritarias e correrias e a mesma provocação de Firmino quanto eu e Alisson.
Eu e Bianca entramos em um dos quartos, separamos nossas roupas, eletrônicos e informações necessárias e fomos descansar por alguns minutos, antes do dia começar a ferver novamente.

— Willian, aqui à sua direita, João Paulo, do grupo Bandeirantes de Rádio, esse jogo diante da Bélgica, dá para falar que vai ser o jogo mais fácil para vocês do meio—campo atuarem? Uma vez que eles têm praticamente um volante que é o Witsel, um buraco no meio campo pelo que vimos nos últimos jogos da Seleção Belga? – Willian pensou um pouco, soltando um longe suspiro antes de responder.
— Não, não. Acho que... Como eu falei no começo, não tem jogo fácil em Copa do Mundo, é sempre complicado e, com certeza, vai ser mais um adversário difícil, nós já temos ciência disso, vamos encontrar dificuldades. Da mesma forma que vamos estudar a equipe deles, como eles também estão estudando nosso time, nossa maneira de jogar, então, com certeza vai ser mais um jogo difícil para nós – ele respondeu. Fechei os olhos por alguns segundos, arrepiando com isso. Eu estava uma pilha de nervos e dessa vez não tinha tomado nada que me deixasse assim.
— Aqui, Willian! – Ele se virou para outro lado. – Notamos que alguns jogadores fizeram treinos regenerativos, outros só corridas ao redor do campo. É verdade que a equipe está desgastada fisicamente? Você sente que o time está um pouco mais cansado do que deveria estar?
— Não, acho que é um cansaço normal, por causa dos jogos... Acho que, como todas as equipes também, a gente sempre precisa de um ou dois dias para estar se recuperando melhor, então, por isso algum jogador prefere fazer um trote ao redor do campo ou até ficar por fora, para recuperar bem e estar 100 por cento no próximo jogo. Então, esse é o pensamento de dentro da seleção. – Ponderei com a cabeça, acho que nunca pensaria nessa resposta.
— Obrigada, gente, nos vemos no jogo amanhã – Bianca falou e Willian se levantou, seguindo em minha direção e eu o coloquei para dentro da antessala novamente, enquanto Bianca se livrara da imprensa.
— Pronto? – ele perguntou.
— Pronto – falei aliviada, passando a mão em minha testa.
— Você está bem? – Ele levou à mão em minha testa. – Você está quente. Tá com febre? – Ri fraco.
— É o nervosismo batendo de novo. Vocês falando que o jogo vai ser difícil, que os belgas são isso, os belgas são aquilo. – Ele riu e eu suspirei.
— Por que você não tira o resto do dia para você? Quem sabe dá uma relaxada? – Ponderei com a cabeça.
— Será que eu consigo? – pensei. – Seria muito bom relaxar. – Ele riu. – Bem, vamos, preciso te devolver para o Tite.
— Eu sou um brinquedo que preciso ser devolvido? – Eu o guiei para fora da sala da coletiva, seguindo para os gramados do estádio Tsentralnyi, antigo estádio do time local Rubin Kazan. Eles queriam poupar o gramado da Arena Kazan, onde seria o jogo de sexta—feira.
— Precisa! – respondi rindo e saímos para o gramado.
Demorou somente dois passos para notar a chuva que caía no gramado, fazendo com que eu desamarrasse o moletom azul escuro com verde da cintura e o vestisse, fechando—o até o pescoço e me esquecendo de que ele não tinha capuz. Malditas roupas estilosas da CBF.
Senti meu cabelo bem escovado escorrer na lateral de meu rosto e já o prendi em um rabo de cavalo. Corri pelo campo, atravessando—o até o outro lado, vendo Alisson defendendo um gol e fiquei embaixo do toldo que cobria o banco de reservas. Coloquei as mãos no bolso e o que eu vi em seguinte aconteceu em câmera lenta.
Os jogadores faziam o treino de sempre no centro do campo, enquanto os goleiros treinavam nas laterais. Danilo roubou a bola de Willian e seguiu para os pequenos gols dispostos no campo reduzido e não sei se foi a chuva ou se foi só mal jeito, mas ele escorregou pelo gramado, caindo com dor no campo.
— Parem! Parem! – gritei, vendo os jogadores já pararem a bola e a equipe médica entrar no campo.
Saí da cobertura e me aproximei do ocorrido, vendo Danilo visivelmente com dor, virando a cabeça para trás, enquanto um dos fisioterapeutas olhava seu tornozelo esquerdo. Alisson e os goleiros se aproximaram e Bianca apareceu ao meu lado, perdida sobre o acontecimento.
Esperamos enquanto os fisioterapeutas e Rodrigo tiravam a chuteira e a meia de Danilo e checavam o local da pancada. Eu não entendia muito, mas o local inchou na hora, parecia uma batata.
— E aí? – Tite perguntou e eu até virei de costas, franzindo o rosto.
— Torção no tornozelo esquerdo – Ricardo falou e eu suspirei. – Pelo menos 10 dias de recuperação. – Franzi a testa. – Ele está fora!
Levei as mãos à cabeça e apertei os cabelos molhados, sentindo vontade de chorar. Alisson olhou preocupado para mim e eu só abanei a mão, me afastando dali e me sentando em um dos bancos da reserva.
Danilo está cortado... Danilo tá fora da Copa do Mundo! Respirei fundo, passando as mãos nos olhos e afundando—as nos mesmos fechados. Isso era tudo que a gente menos precisava às vésperas de um jogo decisivo. Tentei colocar minha cabeça para funcionar, pensando no que eu deveria fazer nessa situação, mas eu só conseguia pensar como ele estava se sentindo agora.
Observei sobre as grossas gotas Bianca andar em minha direção e a equipe técnica ajudar a trazer Danilo para o coberto, acho que o levariam para o hotel, para cuidar disso lá, mas precisavam imobilizar aquilo ou ficaria pior.
— O que faremos? – Bianca perguntou e eu me levantei, puxando—a para longe, saindo do coberto.
— O que podemos fazer? – Dei de ombros. – Preparar o release, fugir da imprensa e tentar mantê—lo com os espíritos animados, o que acho difícil.
— Ele precisa ir embora, . – Franzi a testa, puxando—a para mais longe.
— Como assim?
— Eu vejo isso com Angelica, normalmente quando um jogador se machuca e não têm chances de voltar a jogar, ele é cortado. Ele vai embora.
— Não vou mandar o Danilo embora – falei, cruzando os braços. – Não. Faltam poucos jogos. Ele fica. Além de que ninguém melhor do que Rodrigo para cuidar disso. Ele fica. – Ela ponderou com a cabeça.
— Será que ele pode? – Dei de ombros.
— Espero que nem cogitem isso, se não vão ter que se virar comigo. – Ela riu.
— Eu vou preparar o release – ela falou e eu a segurei pelo moletom que ela usava.
— Espera o Rodrigo estar sozinho para saber exatamente que tipo de lesão que é. – Ela assentiu com a cabeça. – Danilo já deve estar se sentindo mal o suficiente para ter ouvindo pessoas falando que ele foi cortado. – Soltei um longo suspiro ao falar essa palavra e balancei a cabeça.
— Que merda, hein?! – Alisson se aproximou com Ederson e Cássio e eu fiquei entre demonstrar minha frustração ou observar sua blusa molhada colada no corpo.
— Isso cortou meu coração. – Cocei a nuca, bufando novamente. – Acabou com meu dia e não são nem duas da tarde. – Suspirei alto.
— Ele vai ficar bem? – Cássio perguntou e eu dei de ombros.
— Sei menos que vocês, mas 10 dias de recuperação não é algo muito confortável. – Balancei a cabeça. – Pelo menos 10 dias, na verdade.
— , vamos levá—lo para o hotel, você vem? – Bianca se aproximou rapidamente e eu assenti com a cabeça.
— Claro! – falei, me virando para os goleiros. – A gente se vê depois? – Disse para Alisson que assentiu com a cabeça. Estalei um beijo em sua bochecha molhada e dei meia—volta, correndo em direção à Bianca, sentindo o All—Star espalhar a água acumulada do gramado.

— Ei, Angelica! – Me aproximei dela, vendo—a se virar rapidamente abaixando seu celular.
— Diga! – Ela sorriu.
— Será que eu posso tirar o resto do dia? – perguntei. – Eu estou parecendo uma pilha de nervos e sinto que se eu ficar aqui, só vai me deixar mais nervosa e até acabar passando isso para os jogadores.
— Creio que não tem problema, . – Ela deu de ombros. – Você e Bianca já cuidaram do problema do Danilo, já foi à coletiva pré—jogo e sei que vocês vão ignorar os telefonemas da imprensa aqui ou fora. – Ela deu de ombros. – Pode ir sim e fala para Bianca que se ela quiser espairecer também, que ela pode. – Assenti com a cabeça.
— Obrigada! – falei e voltei a subir os andares do hotel, entrando no quarto que eu dividia com Bianca, encontrando—a com os olhos fixos no computador. — Tá ocupada? – Perguntei e ela ergueu o rosto.
— Não, na verdade. Só lendo algumas reportagens, nada demais. – Ela deu de ombros.
— Eu pedi o resto do dia para Angelica e ela nos liberou, nós duas.
— Sério? – ela falou animada, batendo o notebook. – Eu vou tomar banho e dormir o resto do dia. – Rimos juntas.
— Eu tenho outra ideia, se preferir. – Ela franziu a testa.
— Manicure de novo? – Ela deu um largo sorriso.
— Eu pensei em shopping, na verdade, mas se for igual ao Brasil, aposto que tem algum salão.
— Nossa, sim! – ela falou animada. – Eu vou só tirar essa roupa. – Ela se referiu ao uniforme e eu ri.
Acabei me trocando também, mas não coloquei nada fora do que eu estava acostumada a usar aqui na Rússia, o tempo estava começando a esfriar e um casaco estava sendo bem—vindo. Aproveitei para dar aquela ajeitada no cabelo, que tinha armado depois de eu lavá—lo por causa da chuva e descemos animadas com nossas bolsas.
— ! – Franzi a testa ao ouvir alguém me chamar quando chegamos ao lobby e virei o rosto, vendo a mãe de Alisson e vários outros familiares espalhados pelo local.
— Oi, dona Magali. Tudo bem? – Me aproximei dela, dando um rápido beijo em sua bochecha.
— Tudo bem, querida. – Ela sorriu. – Vocês sabem nos dizer quando os meninos voltam? Falaram que eles estão treinando... – Conferi o relógio rapidamente.
— Sim, eles vão ficar até umas nove horas lá. Tanto que estamos sem o que fazer e vamos dar uma volta.
— Aonde vocês vão? – Uma mulher se aproximou. – Eu sou Ane, mãe do Fernandinho. – Rimos juntos e trocamos beijos e abraços rápidos.
— Queremos ir ao shopping, na verdade. – Elas riram.
— A gente pode ir com vocês? – Rafaella, irmã de Neymar, se aproximou. – Eu não aguento mais esperar, sério.
— Acho que não tem problema. – Eu e Bianca nos entreolhamos e demos de ombros. – Como minha mãe dizia: para fazer compras, quanto mais mulher, melhor.
Acabamos seguindo eu, Bianca, a mãe de Alisson, a mãe de Fernandinho, a irmã de Neymar, as esposas de Thiago Silva, Cássio e Marcelo. Pedimos dois Uber e seguimos para o shopping mais próximo. Claro que com diferenças de arquitetura, organização e logística, todos os shoppings no mundo acabavam sendo iguais. Uma loja ao lado da outra, com diversas opções para comprar, comer e fazer.
Esse shopping em especial seguia o nível um pouco mais de grife, mas os preços acabavam compensando, se fizesse a cotação para real. O rublo era superdesvalorizado. Eu acabei fazendo algumas comprinhas, lembrancinhas para levar para o Brasil, doces diferentes para degustar e para levar, além de pequenas coisas. Eu também acabei comprando um vestido maravilhoso na Michael Kors. Eu não deveria fazer aquilo, mas eu fiz, afinal, o salário já estava na conta e eu estava muito feliz em poder me dar esse presente.
A companhia era ótima. Algumas mais quietas que outras, algumas mais extravagantes, mas éramos brasileiras, então acabamos nos entendendo. Quando se aproximava da hora de ir embora, ou seja, da hora dos jogadores voltarem para o hotel e eu e Bianca voltarmos a sermos babás, sentamos para tomar café. Um café muito ruim, segundo a mãe de Fernandinho, mas o papo estava gostoso e eu poderia ficar lá por várias e várias horas.
— Então, vamos falar do que realmente importa – disse Belle, a esposa de Thiago.
— Lá vem! – brincamos.
— Você e Alisson. – Bufei, revirando os olhos. – Nem vem, sabemos que vocês estão juntos e sabemos que está rolando algo muito maior do que vocês mostram. Não se esqueça de que eu estava naquele churrasco antes do jogo do México. – Ri com ela.
— A mãe dele está aqui gente, não...
— Eu não me importo, querida. Até tenho um interesse em saber, para falar a verdade. – Ela riu. – Vocês parecem se gostar muito. – Suspirei. – Só tenho curiosidade em saber como começou.
— Exatamente! – disse a mãe de Fernandinho e todas elas me encararam, incluindo Bianca, que já sabia a história. – Pode falar.
— Tudo começou lá no Rio, quando eu fiquei de vigília com eles para os treinos depois da convocação. – Suspirei.
— Nossa! Tudo isso? – Rafaella, irmã de Neymar, perguntou.
— Que estamos ficando faz poucos dias, foi depois daquele churrasco mesmo, mas estamos nos olhando e nos provocando desde o Brasil. – Elas sorriram, querendo que eu continuasse. – Ah, eram só provocações faladas, na verdade. Isso foi levado para Inglaterra, para Áustria e chegou aqui na Rússia. – Dei de ombros. – Só que quando chegou aqui na Rússia, todo mundo já tinha notado que tinha algo entre nós, fizeram até uma aposta para saber se ficaríamos juntos durante a Copa ou se teríamos caráter e ética e ficaríamos só depois de Copa. – Elas gargalharam.
— Vemos que não deu para segurar. – Ri fraco, balançando com a cabeça.
— Os jogadores e a equipe técnica acabaram dando carta branca, na verdade. – Dei de ombros. – Aí estamos ficando, tentando manter totalmente separado de nossas responsabilidades aqui. – Elas sorriram. – Afinal, os dirigentes não sabem... Bem, agora devem saber, ele me beijou no vestiário depois do último jogo, alguém deve ter repassado a informação.
— Ah, que lindo! – Rafaella falou sonhadora.
— Eu só me surpreendo da forma que isso aconteceu. – Suspirei. – Ele me provocou um dia, depois eu, depois ele... Virou uma competição de quem deixava o outro sem palavras. – Brinquei e elas riram. – Até que deu certo. – Ri fraco.
— E depois da Copa? – Jana, esposa de Cássio, perguntou, enquanto amamentava sua pequena Maria Luiza. E eu soltei um longo suspiro.
— Eu não sei. – Franzi os lábios. – Eu não gosto de pensar nisso, afinal, ele mora em Roma, eu moro no Rio. E eu não vou largar meu trabalho excelente para ir para lá e ele está no ponto mais alto da carreira dele, não vai querer jogar em um time brasileiro. – Dei de ombros. – Só o tempo vai dizer.
— Ele gosta muito de você, querida. – Sua mãe sorriu. – Vocês dois darão um jeito. Feriados prolongados, férias, recesso de fim de ano. Além das competições da seleção, aposto que você vai acompanhar, depois de vir para Rússia. – Ponderei com a cabeça.
— Algumas competições, como as principais, eu já fui até “convocada”, digamos assim, mas amistosos, competições menores, eu realmente não sei. – Suspirei.
— Vocês darão um jeito. – Ela sorriu, segurando minha mão em cima da mesa e eu assenti com a cabeça. – Além de que você pode ir para Nova Hamburgo me visitar. Não é porque não tem Alisson que não podemos nos conhecer melhor, certo? – Elas riram.
— Eu vou adorar, dona Magali. – Sorrimos juntas. – E você pode me visitar no Rio.
Fomos embora pouco tempo depois, já passava, e muito, das nove da noite e eu e Bianca precisávamos voltar. Separamos as diversas sacolas quando saímos do Uber e seguimos todas para dentro do hotel novamente, agora estava liberada para a família entrar e jantar com eles também.
— ? – Ouvi uma voz meio surtada demais gritar e logo Marcelo já me abraçava pela cintura, ajoelhado no chão, me fazendo franzir a testa. – Você está aqui!
— O que você faz aqui? – Alisson veio logo atrás, me abraçado pelo pescoço.
— Gente...? – perguntei meio assustada, com o nariz e a boca pressionados contra o peito de Alisson. Soltei as sacolas no chão e afastei Alisson e tirei os braços de Marcelo ao redor de mim. – O que está acontecendo?
— Você não foi embora? – Thiago se aproximou também. – Por pressão e tudo mais?
— Eu perdi alguma coisa? Os dias passaram e eu não percebi?
Franzi a testa e ponderei com a cabeça se eu tinha perdido alguma informação, mas uma risada escandalosa vinda de atrás de um notebook deu a resposta. Tite gargalhava em uma das poltronas, deixando seu rosto até vermelho.
— Você mentiu para gente? – Os jogadores no lobby gritaram quase em coro e Alisson revirou os olhos, batendo a mão na testa.
— Ignore as mil mensagens que eu deixei no seu celular, ok?! – ele pediu e eu franzi a testa.
— Eu não menti, foi só uma brincadeirinha – Tite falou, ainda gargalhando.
— O que aconteceu? – Virei para Alisson que agora me ajudava a pegar as sacolas novamente.
— Chegamos aqui, fomos atrás de você porque queríamos saber informações do Danilo e tudo mais, aí Tite disse que você tinha ido embora, que estava em direção ao aeroporto para voltar para o Brasil, por causa da pressão do trabalho, que está afetando você, etc...
— E vocês acreditaram e surtaram? – perguntei, revirando os olhos.
— Você não respondeu nenhuma mensagem, não via o WhatsApp há sei lá quantas horas...
— Eu fui para o shopping com algumas mães e esposas. – Revirei os olhos.
— Pareceu verdade. – Ele deu de ombros e eu balancei a cabeça.
— Ah, vocês! – Ri fraco, me seguindo até uma poltrona e colocando as sacolas na mesma. – Vocês sabem que vão ter que viver depois da Copa sem mim, não é? – Cruzei os braços e eles riram, negando com a cabeça.
— Não dá para você vir trabalhar na Europa ou algo assim? – Marcelo perguntou e eu ri fraco, abraçando—o rapidamente.
— Não dá. – Ri fraco. – Cássio, Fagner e Geromel precisam de mim.
— Obrigado! – Geromel falou rindo. – Por pensar em nós.
— Eu não acredito que você fez isso, Tite. – Ele se aproximou, me abraçando rapidamente e eu ri.
— Eu não podia perder a oportunidade. – Ele ainda ria. – Até Bianca entrou na roda.
— Meu Deus! Deixa eu me afastar um pouco, porque eu já vi que ficar muito tempo com vocês causa dependência. – Rimos juntos e ela escondeu o rosto com as mãos.
— De ambos os lados, o que é pior – comentei e Alisson me abraçou por trás, estalando um beijo em minha bochecha, me fazendo rir.

— Aonde vamos? – Vinícius perguntou enquanto andávamos por Kazan, ele vestido de Canarinho, é óbvio.
— Nós vamos fazer um encontro épico – comentei, vendo—o acenar para as crianças que passavam e eu tentava acompanhá—lo. As passadas do Canarinho eram mais largas que a minha, então, parecia que eu estava correndo atrás dele de salto alto e Bóris mais ainda com o tripé e a câmera.
— Que encontro, ? – Ele perguntou e eu abri um largo sorriso.
— Você se lembra daquele garoto loiro que tinha cara de louco que apareceu na exibição do jogo do México? – Virei para ele.
— Aquele que virou meme? Que parecia meio demoníaco? – Ele perguntou e eu assenti com a cabeça.
— Exatamente! – Falei. – Enfim, ele acabou virando símbolo da torcida brasileira. Os dirigentes gostaram da ideia e é nosso convidado para assistir ao jogo contra a Bélgica hoje e, como ele parece muito o canarinho irritado, decidimos um encontro de mascotes.
— Não acredito! – ele falou animado e eu ri. – Como vocês conseguiram isso?
— Não foi fácil, tenho que admitir, mas pegamos a sessão dele no estádio, fomos atrás da organização, já que todos estão cadastrados, pegamos o telefone e...
— Tudo isso? – Ri fraco.
— Não, achamos o Instagram dele e mandamos mensagem, foi fácil. – Se ele não estivesse com essa cabeça do mascote, ele provavelmente teria revirado os olhos.
Entramos no restaurante onde marcamos o encontro e tinha alguns torcedores brasileiros lá. Yuri realmente tinha virado tanta sensação quanto o Canarinho. Era realmente interessante. Além de nós, um jornalista da Fox Sports também estava lá entrevistando Yuri.
— Yuri? – Me coloquei à frente, voltando para o inglês. — , da Seleção Brasileira.
— Oi! Conversamos no Instagram, certo? – Ele se aproximou de nós e eu estendi minha mão para ele apertar. Ele tinha um forte sotaque russo, mas dava para entender.
— Sim! – Sorri. — Eu trouxe alguém para te conhecer! – Apontei para o Canarinho e Yuri sorriu ao ver nosso mascote bravo.
Deixei com que Vinícius se virasse agora e me afastei um pouco, cumprimentando o jornalista da Fox Sports que eu o reconhecia de algumas coletivas e acenei rapidamente para os torcedores que estavam em volta. Vinícius o abraçou e ele começou a interagir com Yuri, principalmente sambar, o que Yuri realmente não tinha molejo, mas que estava ótimo para as filmagens que Bóris fazia.
— Então, Yuri… –chamei. — Eles te chamam de o Mago do Hexa. – Ele riu.
— Não sei porque, mas espero trazer sorte para o Brasil hoje.
— Eu também – falei rindo. — Porque não fazemos uma foto igual você no jogo? Com a bandeira? – sugeri e Vinícius confirmou com a cabeça de prontidão, o Canarinho não tinha voz com outras pessoas em volta, nunca perguntei para Vinícius, mas deveria ser sufocante.
— Claro! – Yuri falou animado e os torcedores que estavam com Yuri logo arranjaram uma bandeira e eles ergueram a mesma. Eu ergui a câmera, tentando colocar minhas poucas habilidades em jogo e tirei algumas fotos. Lucas estava se preparando para o jogo, não pode ir conosco.
Abaixei a bandeira e os deixei brincando um pouco. Me afastei lentamente, acompanhando as interações de Vinícius com Yuri, brincando de fazer algumas embaixadinhas e cabeceadas enquanto Bóris filmava. Isso levou pouco mais de 10 minutos, não é como se tinha muita coisa para fazer, era só uma formalidade, quase como um meet & greet com famosos.
— É a nossa hora! – falei para Vinícius que se fingiu triste, abraçando Yuri e eu tirei um envelope da bolsa, me aproximando de Yuri.
— Aqui estão os ingressos e pulseiras para entrar na tribuna da CBF. Só apresentar isso que eles te liberam.
— Muito obrigado! – ele disse, abrindo os braços e eu o abracei rapidamente, rindo.
— Obrigada! Espero que nos dê sorte.
— Torcendo! – Ele cruzou os dedos e eu sorri, acenando com a mão, segurando no braço de Canarinho para sair dali.
— Nós temos meia hora para chegar ao hotel ou perderemos o ônibus – falei e ele começou a andar mais rápido, me fazendo rir e tentar seguí—lo.

O ônibus parou na entrada do estádio e eu respirei fundo, esfregando as mãos uma na outra, tentando normalizar minha respiração enquanto os jogadores saíam da mesma. Tite parou ao lado do meu assento, fazendo um sinal com a cabeça e eu confirmei, sentindo—o tocar em meu ombro rapidamente e sair do ônibus.
Aguardei que todos saíssem do mesmo, sobrando eu e alguns assistentes da equipe técnica e eu me levantei, puxando minha mochila comigo e vi Casemiro já em pé no ônibus. Fiz o mesmo movimento da cabeça de Tite e ele assentiu com a cabeça, respirando fundo.
— Vou sentir falta de te xingar durante o jogo – falei e ele sorriu, me abraçando de lado. – Nos dê sorte, ok?!
— Eu vou tentar – ele falou, soltando a respiração pelo nariz.
— Vamos lá! – falei, descendo o ônibus, vendo o assistente lá embaixo e Casemiro veio atrás de nós.
— Com licença, senhor. – Revirei os olhos ao ver uma das mulheres organização se aproximar e quase barrar nossa passagem. — Você não pode entrar, está expulso do jogo.
— Eu sei disso – eu disse, me aproximando. – Eu sou a assessora. – Mostrei o crachá. — O que nos foi dito é que ele precisa se apresentar aqui, depois ele vai para a nossa tribuna reservada para assistir o jogo. – Tentei falar com calma, já não bastava minha cabeça estar quente por causa do jogo.
— Espere um segundo, por favor – ela disse, apertando o fone em seu ouvido e falando com algum superior.
— Algum problema? – Casemiro virou para mim.
— Eu já suspeitava que não deixariam você entrar por aqui, mas não tínhamos como separar você dos outros jogadores e todos precisamos passar por aqui, mas nem no vestiário você pode entrar – falei, cruzando os braços. – Eu acho uma regra muito estúpida, para falar a verdade, mas não sou eu quem as faço. – Ele assentiu com a cabeça e me virei para a mulher, esperando alguma posição.
— Ele pode entrar por aqui, mas vou pedir para um dos seguranças acompanhá—lo, está ok para você? – ela disse e eu ponderei com a cabeça, virando para Casemiro que também tinha o mesmo movimento de cabeça.
— Está tudo bem. Leo vai acompanhá—lo também – falei e Casemiro assentiu com a cabeça, com um sorriso no rosto e acenei para ambos, vendo—os entrar e seguir para a esquerda.
— Não vai com ele?
— Eu vou para os vestiários. – Mostrei meu crachá e ela escaneou o mesmo, acenando com a cabeça e ajeitei minha mochila nos ombros, seguindo em direção ao vestiário, ouvindo meus saltos baterem contra o piso e ecoando pelos corredores.
Entrei no vestiário, passando pelas antessalas e o vestiário se abriu para mim, fazendo com que eu pegasse vários jogadores sem roupa, o que já era comum e apoiei minha mochila na bancada principal, notando que Tite acenou para mim quando eu entrei.
— Deu certo? – Tite perguntou e eu assenti com a cabeça.
— Ele vai assistir da tribuna reservada para CBF, Leo foi com ele e um segurança da FIFA. – Dei de ombros. – Não me conformo com ele não ficar aqui com a gente.
— Nem toda regra é justa – Tite comentou e eu assenti com a cabeça.
— O que aconteceu? – Alisson perguntou para mim, enquanto vestia uma camisa de treino e eu me aproximei dele.
— Casemiro não pode nem ficar conosco por causa da expulsão. – Revirei os olhos. – Por isso demorei a entrar.
— Que merda! – ele falou e eu assenti com a cabeça. – Mas como, gente? Pensei que não mudasse nada.
— Vamos dizer que ontem à noite eu fiquei lendo as regras da Copa do Mundo. — Me apoiei na bancada e ele riu.
— A noite teria sido melhor se Firmino não tivesse dormido logo. – Ri fraco, me aproximando dele.
— Tudo bem. – Sorri, me colocando entre suas pernas. – Você tinha que se acalmar. – Ele abaixou a cuia e segurou em minhas coxas.
— Teria me acalmado bem mais se... – Ele cochichou e Firmino nos cortou.
— Firmino isso, Firmino aquilo... – Ele fez uma careta. – Se a gente não pode transar antes do jogo, ele também não pode. – Ele falou baixo, nos fazendo rir.
— O que é justo, é justo! – Dei de ombros, dando um rápido beijo na testa de Alisson. – Vamos trabalhar um pouco? – Falei e eles assentiram com a cabeça. – Até já.
Os jogadores saíram para o treino e eu comecei a arrumar a bancada de sempre. Dessa vez eu estava sozinha de novo, o que preferia, para falar a verdade. Achei que Vinícius só me deixou mais nervosa no jogo contra o México e Marcelo também no jogo contra a Sérvia. Sozinha eu podia extravasar sem parecer louca e sem precisar descontar em ninguém.
Os jogadores entraram logo em seguida, se arrumando para o jogo e vi Alisson no uniforme verde limão, como eu odiava aquele uniforme, preferia muito mais o preto do último jogo, ele ficava mais... Sério, por assim dizer.
— Eu me sinto mal por você assistir ao jogo daqui, é a Copa do Mundo e você está assistindo do vestiário – Tite comentou, parando ao meu lado e eu ri.
— Faz parte. – Dei de ombros. – Mas acredite, não é só de jogos que se faz a Copa do Mundo. – Ele assentiu com a cabeça.
— Tem certeza que não pode assistir do banco? – Ri fraco.
— Tenho sim. É melhor eu ficar aqui. – Sorri. – Além de que não daria muito certo eu e meu nervosismo. – Ele assentiu com a cabeça, me dando um rápido sorriso.
— Jogadores! – Ele os chamou e eu virei de costas para meus pertences, vendo Tite se posicionar em um dos cantos do vestiário. – Chegou o momento. Mais um jogo, mais um desafio para passarmos para a semifinal. Sabemos que o caminho não vai ser fácil, que não foi fácil até aqui, mas se perseverarmos, temos grandes conquistas lá na frente. – Ele falou. Atacantes, o goleiro deles é muito bom, procurem os pontos fracos. Alisson, cuidado com as bolas altas, eles são bons isso. Marcadores, estejam sempre atentos, a maioria deles são mais altos que vocês e talvez pegarão pesado na marcação. – Senti meu coração começar a bater forte. – Temos mais uma oportunidade de mostrar ao mundo do que a Seleção Brasileira é capaz. Força! E vamos lá. – Ele falou e todos aplaudimos.
— Bom jogo! – desejei para Alisson, tentando não tremer a voz para falar e ele assentiu com a cabeça, me abraçando fortemente. – Vai lá. – Dei um rápido beijo em sua bochecha e acenei para os jogadores, vendo—os saírem do vestiário.
Me sentei novamente em uma das caixas e aumentei o volume da televisão. Fiz uma reza silenciosa, fazendo o mesmo pedido de todos os jogos e comecei a estralar meus braços, pescoço e dedos, me preparando para mais uma batalha, mais uma série de nervosismos que, se Deus quiser, viriam com um alívio daqui uma hora e 45.
Os jogadores logo entraram: Neymar, Paulinho, Willian, Thiago Silva, Gabriel Jesus, Fernandinho, Phillipe Coutinho, Marcelo, Fagner, Alisson e Miranda, e o hino foi tocado. Mais uma vez a FIFA não conseguiu fazer com que o hino fosse interrompido no minuto que eles queriam, os torcedores cantaram firmes e fortes, fazendo com que meus pelos arrepiassem.
Ali eu já sentia que o jogo seria diferente.

A moeda foi jogada para cima, Brasil ficou com a bola e o apito foi soado. Seja o que Deus quiser!
Logo nos primeiros dois minutos, a Bélgica tentou fazer uma finalização. A defesa estava aberta e o jogador belga empurrou Fernandinho, fazendo uma finalização, mas foi para fora sem que Alisson precisasse se mexer. Em seguida o Brasil tentou fazer uma finalização, mas a bola foi direto nas mãos do goleiro belga.
Várias faltas estavam sendo dadas tanto pelos brasileiros quanto pelos belgas. Esse jogo seria quente e eu estava vendo que 90 minutos demorariam a passar. Seria quase uma eternidade. A Bélgica tentou fazer outra finalização, mas Thiago Silva cabeceou, impedindo que ela se aproximasse. O jogo voltou para o campo da Bélgica, mas Neymar errou um cruzamento.
Escanteio para o Brasil, Neymar cobrou. Thiago Silva estava a poucos centímetros da linha do gol. A bola veio direto em sua cabeça e ele fez o movimento, mas foi direto na trave. Era a primeira chance real do Brasil de abrir o placar.
— Caramba! – falei brava.
A bola cruzou novamente, se aproximando de Alisson, onde um jogador belga tentou finalizar, mas bateu na perna da defesa. E tentou logo em seguida, indo para fora. Marcelo tentou chegar pela lateral esquerda, mas foi tirada de cabeça pelo belga. Paulinho insistiu, tentando passar pela barreira belga, mas eles defenderam por baixo. Em outro escanteio, tentaram novamente, mas nada.
— Vai ser igual a Costa Rica. – Suspirei.
Os belgas chegaram novamente, tentando fazer uma finalização, mas foi direto para fora, me fazendo respirar fundo e bater as unhas já longas na escrivaninha. Escanteio novamente da Bélgica e...
— Gol? – Franzi a testa, vendo Alisson se levantar tentando relevar e manter os jogadores animados e apareceu o replay. – Ah, Fernandinho, não acredito! – Passei a mão na testa, sentindo as lágrimas nos olhos e respirei fundo, imaginando como ele deveria estar se sentindo. – Vamos que ainda dá tempo para corrigir isso.
A bola voltou para o meio do campo, Willian tentou fazer uma finalização, mas foi retirado pelo goleiro. Marcelo e Neymar tentaram novamente, mas Jesus se enrolou com a defesa, não conseguindo finalizar. Marcelo tentou logo em seguida, mas foi tirado pela defesa.
Também não estava gostando do juiz, várias faltas tinham sido dadas e nada de cobrar. Não só contra brasileiros, mas contra a Bélgica também. Acho que o juiz decidiu que nenhuma falta seria dada hoje.
Coutinho fez uma finalização no centro do gol, mas Courtois fez a defesa sem muitas dificuldades. Parecia que Navas estava no jogo novamente. A Bélgica tentou chegar em cima do Brasil novamente, mas Marcelo defendeu. Depois tentaram em seguida, mas Thiago defendeu em seguida.
Brasil parecia ter fechado mais a defesa, e a Bélgica também mudou sua defesa depois do jogo contra o Japão, onde sua defesa estava tão vazada que até uma criança de cinco anos faria gol neles. Eles mudaram, com certeza mudaram, era como se o time inteiro da Bélgica estava na defesa.
Marcelo tentou novamente, tentando fazer a finalização de fora da área, mas foi espalmada pelo goleiro. Eles tentaram retornar à bola para o campo brasileiro, mas Thiago tirou e depois foi feita uma falta em Marcelo.
— Vamos, gente! – falei, vendo que passavam de 25 minutos do primeiro tempo.
Falta no Neymar, falta no Willian. Os belgas iriam matar meus meninos antes do fim do primeiro tempo. Escanteio do Brasil, bola desviada pela Bélgica em todas as tentativas de gol. Escanteio do Brasil de novo e... Fora!
A bola cruzou novamente, um dos jogadores belgas se aproximou pelo meio e fez o passe para outro, a defesa brasileira não estava montava, mas quando eu menos esperava, ele chutou em direção ao gol, fazendo com que Alisson fosse exatamente na mesma direção à bola, mas...
— Gol... – Passei a mão em meu rosto, pressionando meus lábios uns nos outros.
Puxei e soltei a respiração mil vezes, sentindo as esperanças começarem a se esvair aos poucos. Ainda tínhamos uma hora de jogo, mas minhas esperanças estavam indo embora e eu sabia que seria difícil, mas tínhamos tempo para empatar, só precisava achar algum ponto de erro do goleiro belga.
Tudo bem que empatando seguiríamos para a prorrogação e possível pênalti, e eu não sabia o que era pior: ser eliminado direto, sem chance de prorrogação, ou seguir para os pênaltis e rezar para não morrer de ataque cardíaco.
Balancei a cabeça com essas ideias e tentei esquecer também todos os “ses” e voltei a prestar atenção no jogo, eu bateria em mim mesma. Perdi vários lances do Brasil com finalizações ao gol, percebendo que tinha ficado quase dez minutos em surto e olhei o tempo no relógio, 39 minutos.
Falta de Fagner, empurrando o jogador 10 da Bélgica. A falta foi cobrada e respirei fundo, observando Alisson com aquele uniforme verde limão horrível. Ele bate, mas Alisson espalma a bola, jogando para fora.
— Ufa! – Coloquei a mão no peito e vi o escanteio se formar novamente.
A bola foi chutada, o belga tenta com o pé, mas Alisson pega com as duas mãos. Abaixei a cabeça, batendo a cabeça na mesa algumas vezes e senti o gosto amargo na boca. Tinha um tempo inteiro ainda e eu já estava triste por eles, por nós... Pelo Fernandinho, meu Deus. Marcelo tinha feito um gol contra na Copa de 2014, o primeiro gol da Copa do Brasil, mas era o primeiro jogo, não era uma decisão.
— Ah, , cala boca! – Falei sozinha, balançando a cabeça.
Voltei a focar no jogo, contando os minutos para que o primeiro tempo acabasse e eu pudesse ir vomitar. Acho que só isso tiraria aquelas bolhas em meu estômago.
Acréscimo de um minuto.
Tivemos uma chance de Neymar e até ergui o corpo, mas ele perdeu a bola e o lance estava impedido. Não teria chance mesmo.
Fim do primeiro tempo.
Bati a mão na minha cabeça e me levantei correndo, seguindo para o banheiro e me tranquei em uma das cabines. Abri a tampa do vaso sanitário, abaixando minha cabeça dentro do mesmo e nem vomitar eu conseguia.
Ouvi os jogadores entrarem no mesmo aos poucos e fechei a tampa, me sentando na mesma, colocando as mãos no rosto, sentindo os olhos molhados. Isso não podia estar acontecendo, estava cedo. A gente não podia ir embora agora, não com tantas coisas para acontecer, tantos sonhos para realizar e tanta incerteza sobre o futuro.
Ouvi os gritos de Tite no vestiário, mas tentei relevar e me levar para um lugar feliz. Talvez para quando eu vi Alisson cantar, antes de tudo isso. Sua voz me acalmava. Seus braços mais, mas ele já deveria estar muito decepcionado consigo mesmo, acho que nem eu mesma seria capaz de acalmá—lo.

Voltei para o vestiário quando todos já tinham voltado para o jogo e começou o segundo tempo.
Substituição. Saiu Willian, entrou Firmino.
Brasil e Bélgica tentaram fazer finalizações logo no começo. A Bélgica tentou se aproximar de Alisson, mas ele já pegou a bola com as mãos antes que ela chegasse com mais velocidade. E faltas foram feitas contra brasileiros quando tentaram se aproximar da área belga.
— Pênalti! – gritei ao ver Neymar ser derrubado na área, mas ele mesmo levantou correndo querendo que Marcelo continuasse o jogo, mesmo o juiz demonstrando que consultaria o VAR.
Eu não prestei atenção no lance para saber se valia ou não pênalti, eu estava só de corpo presente naquele vestiário agora. Não parecia que eu estava aqui a trabalho ou que eu estava no subsolo de um grande estádio, com um jogo rolando acima da minha cabeça. Parecia que eu estava em casa e poderia sair da sala a qualquer momento para beber água ou pegar a pipoca que estourava no micro—ondas.
Paulinho fez uma tentativa, mas foi defendida pelo goleiro belga e mandava para o meio de campo novamente. Neymar se aproximou com raça novamente, tropeçando nos pés dos belgas novamente. Jesus tentou novamente, tentando passar pelas pernas dos jogadores e pode ter sido considerado pênalti novamente, mas não.
Eu estava em outro lugar já, em outras situações eu podia dizer se era ou não pênalti, mas o VAR não nos ajudou em nenhum momento, eu sabia que não nos ajudaria agora, principalmente agora, onde um pênalti nos ajudaria bastante.
Substituição. Saiu Gabriel Jesus, entrou Douglas Costa.
— Vamos, Douglas, quem sabe é para você fazer? – falei baixo, movimentando minhas mãos, apertando as unhas longas nas mãos.
Marcelo tentou, Firmino tentou, Neymar tentou diversas vezes. A Bélgica não dava passagem, a bola não passava pelo goleiro da Bélgica, mas parecia que agora no segundo tempo, as bolas estavam demorando mais para chegar em Alisson. Foi só eu falar que a Bélgica se aproximou novamente, fazendo um chute forte em direção a Alisson e tivemos sorte do gol não entrar, ela passou rente em frente ao gol e Alisson não conseguiu espalmar a mesma.
Na minha visão, caso perdêssemos esse jogo, caso fôssemos para fora, não era culpa de Alisson, que seria culpado só pelo fato de ser o goleiro. Não culparia Fernandinho, muito menos Tite e a equipe técnica. Da mesma forma que eu não achava que eles eram responsáveis pelas vitórias.
Era um jogo! São 50 por cento de chances de cada lado. Era sorte! Claro que as habilidades, técnicas, movimentações e posições do time afetam isso. Obviamente! Mas não é isso que define o placar antes mesmo do jogo começar. Como eu disse há alguns dias, o Brasil sempre é favorito, mas infelizmente os outros países também aprenderam a jogar futebol e nem sempre dava.
Respirei fundo, tentando voltar a pensar sobre a possibilidade de vencer. Voltar a pensar no hexa! Era esse o foco. O hexa vem!
Foi dada uma falta em Fernandinho, tendo sido acertado no nariz e respirei fundo, vendo a equipe médica entrar no campo e Firmino querer que eles fossem embora. Ele estava certo, não podíamos perder tempo, o relógio já estava em 20 minutos de jogo. Faltava só mais 25. Mais 25 minutos de tortura. Douglas Costa tentou algumas finalizações, mas todas paravam no goleiro.
Substituição. Sai Paulinho, entra Renato Augusto.
Para não perder o costume, Fagner começou a distribuir faltas à vontade. Não que eu quisesse ter que lidar com a imprensa amanhã sobre isso, eu já lidaria com um assunto pior se não conseguíssemos virar o jogo. 30 minutos.
A bola voltou para o campo da Bélgica e tive esperança com o chute que Douglas deu, mas a bola bateu na barreira belga. Eles brincaram de bobinho dentro da área, mas um belga se irritou e chutou a bola para o meio de campo.
Fagner quase fez outra falta, mas Thiago trouxe a bola de volta para o campo belga, ele passou para Coutinho que tentou o chute, pegando na defesa belga. Neymar tentou novamente, repassando por Fernandinho que devolveu para Coutinho. Ele tentou uma bola alta e eu me levantei ao ver Renato Augusto dentro da área, quase sozinho. Ele pulou, cabeceou e...
— GOL! – Respirei aliviada ao ver a bola entrar e ele correr para pegar a mesma e comemorar.
Existia esperança! Faltava somente 14 minutos de jogo, mas se tínhamos feito dois gols nos acréscimos da Costa Rica, talvez mais um seja possível para a prorrogação. Por mais tortuosa que parecia.
Coutinho passou para Neymar novamente que passou a bola para Firmino que estava na área. Ele escorou a bola, girou e fez o chute, mas passou por cima da trave, raspando da mesma. Isso tinha animado eles, agora as ideias voltaram para o lugar e eles atacavam mais forte.
Coutinho tentou novamente para Renato Augusto, fazendo com que ele desse o chute no centro do gol, mas a bola desviou, passando raspando pelo gol. Essa fez até meu coração bater mais rápido e minha cabeça pensar que Renato deveria ter entrado antes no jogo.
Perdemos uns cinco minutos quando um belga caiu sozinho e demorou mil anos para sair do campo. Claro que eles iriam devagar, mais um gol e iríamos para a prorrogação e para quem fez dois gols, ou melhor, um gol e uma ajuda nossa, desde os 30 minutos de jogo, não queriam perder agora.
Neymar se aproximou do gol com a bola sozinho e passou a bola para Coutinho que chegou forte, batendo com força no gol, mandando a bola para a fora. Fernandinho tentou o contra—ataque, passando as pernas entre as do belga e levou um cartão amarelo. Marcelo também não queria enrolar e o puxou pela camisa, fazendo com que ele se levantasse rapidamente. 40 minutos de jogo.
A bola ficou indo e voltando várias vezes, mas sem nenhuma finalização. Os passes estavam longos, na maioria das vezes sendo mandado para fora ou sendo defendido por ambos os goleiros que faziam o tiro de meta com força para impedir que a bola se aproximasse dos gols novamente. Falta do Fagner.
— Agora você leva cartão amarelo, né?! – Vi o juiz esticar o cartão e respirei fundo, até rindo da ironia. Agora ele não precisaria desse cartão.
Acréscimo de cinco minutos.
Fagner fez o lance, Neymar estava na área e caiu, alegando pênalti. O juiz foi ver se foi pênalti, mas também não deu, mesmo o replay dando que Neymar levou na cara. Cinco jogos, cinco pendências do VAR e nada! É, bem que eu falei com Alisson logo no primeiro jogo, e ele todo esperançoso na primeira coletiva para falar sobre isso.
Brasil não queria desistir. Neymar, Douglas e Coutinho tentavam de todas as formas fazer mais um gol. O tal do gol de ouro. O gol que nos levaria para mais 30 minutos de prorrogação. Escanteio para o Brasil. Neymar cobra e...
— O que o Alisson está fazendo aí? – Vi a figura verde limão se aproximar para tentar no ataque, mas a bola foi para fora, fazendo—o voltar rapidamente para o gol.
Tudo estava perdido mesmo, faltavam poucos segundos para o fim mesmo. Perder de dois, três ou quatro não mudaria o resultado final, mas um jogador a mais na linha poderia ajudar o empate.
Ouvi o apito triplo do juiz e me sentei novamente no banco, sentindo o choro chegar aos olhos para valer agora.
Era isso. A Copa do Mundo acabou para o Brasil.

Eu tentei me acalmar pelos minutos que se passaram. Os jogadores ficaram no campo um pouco, alguns desolados, outros seguindo para entrevistas e a maioria cumprimentando a seleção belga, mas eu sempre sentia uma lágrima solitária escorrendo em meu rosto.
Me levantei, tentando espairecer e abaixei meu notebook, observando minha mão que tremia. Ouvi um barulho na porta e virei o rosto, vendo que Fernandinho era o primeiro da turma e vi que seu semblante estava quieto, triste. Abri meus braços para ele, tentando dar um meio sorriso e ele me abraçou fortemente, apoiando a cabeça em meu ombro e eu o apertei em meus braços.
— Está tudo bem – cochichei para ele, sentindo—o soltar alguns suspiros em meu ombro e acariciei sua cabeça, tentando consolá—lo.
— Eu estou bem – ele falou, se afastando um pouco e ele passou a mão no rosto, limpando algumas lágrimas e eu só consegui acenar com a cabeça.
Thiago entrou no vestiário com outros jogadores e passou os braços entre nós, nos trazendo para perto e senti outros jogadores começarem a nos abraçar, me dando conta que todos que voltavam para o vestiário, pararam para nos abraçar.
Eles foram saindo aos poucos e eu fui abraçando um a um, não importando se tinham ou não jogado. Eu não tinha jogado e estava visivelmente chateada. Eu tentava dar pequenos sorrisos, franzia os lábios para impedir que as lágrimas rolassem pelas bochechas, mas todos estávamos iguais.
— Obrigada! – cochichei para Renato, fazendo um carinho em sua cabeça. – Você nos deu esperança. – Ele assentiu com a cabeça e eu suspirei.
Ouvi a porta novamente e vi os jogadores restantes voltarem da entrevista pós—jogo. Alisson deu um pequeno sorriso em minha direção e eu desviei de algumas pessoas, ignorando toda tentativa de me controlar e passei os braços pelo seu pescoço, ficando de ponta dos pés e afundando meu rosto em seus ombros, finalmente deixando que o choro saísse.
Eu fiquei lá por o que pareceu ser uma eternidade, minhas lágrimas já escorriam sem vergonha e alguns soluços até ecoaram pelo vestiário silencioso. Em compensação, ele permaneceu sério, sóbrio, frio, somente me apertando pela cintura e fazendo carinho em meus cabelos. Ele estava me consolando, quando na verdade deveria ser o contrário.
— Vai ficar tudo bem – ele falou e eu afastei meu rosto do seu um pouco, voltando a fincar meus dois pés no chão e deixando meus braços deslizar e apoiar em seu peito suado.
— Como vai ficar bem? – perguntei baixo, sentindo minha voz falhar. – É o fim. – Dei de ombros, suspirando. – É o nosso fim também? – Senti os olhos lacrimejarem novamente e ele me apertou novamente, colando os lábios em minha testa.
— Não. – Ele suspirou. – A gente vai dar um jeito de fazer isso dar certo, ok?! Eu te prometo.
— Ok. – Foi o que eu consegui falar e me afastei um pouco, passando as mãos em meus olhos, respirando fundo. – Você está bem? – Perguntei e ele deu de ombros, seu rosto estava vermelho, mas nada diferente do normal.
— O possível. – Ele suspirou. – Fizemos o melhor que podíamos. – Assenti com a cabeça, suspirando.
— Ainda temos alguns protocolos a seguir. – Falei e ele sorriu de lado.
Nos separamos e cada um voltou a se arrumar em silêncio. O clima tinha morrido, as cores ficaram opacas e nem mais o batuque era ouvido pelo local. Fui ao banheiro lavar o rosto, tentando tirar aquela melação do olho, e encontrei alguns jogadores com a mesma feição e os cumprimentei. Voltei para o vestiário e terminei de arrumar todas as minhas coisas, me sentando em uma das caixas, esperando que os jogadores terminassem de se arrumar.
Como não seguiríamos para a próxima viagem, não precisávamos jantar aqui. Então, voltaríamos para o hotel para preparar o protocolo de despedida. Um arquivo que estava escondido muito bem escondido em meu e—mail, caso isso acontecesse. A eliminação era imediata, precisávamos dar destino a todos da equipe o mais rápido possível e nos apresentar para a CBF novamente.
Isso me deixava cada vez mais triste, porque queria dizer que há essa hora amanhã, eu já estaria a caminho do Rio e sentia que Alisson não estaria nesse voo comigo. Ele terminou de se arrumar, voltando a sua blusa polo igual a minha e me chamou. Me coloquei entre suas pernas e sentei em seu colo, deixando com que ele me abraçasse pela cintura e encostasse a cabeça em meu braço, permitindo que eu fizesse um carinho em sua cabeça. Ele não chorava como alguns jogadores e não tinha os olhos vermelhos como outros, mas ele estava triste.
— Acho que podemos ir – Tite falou e eu assenti com a cabeça, nos levantando.
— Nós... – Bianca falou, parando por algum momento e eu entendi o que ela queria.
— O quê? – Tite perguntou e eu suspirei.
— Alguém precisa falar com eles. – Os jogadores se entreolharam, em dúvidas do que aconteceria e as sugestões começaram a aparecer.
— Eu vou! – Miranda, capitão do jogo, foi o primeiro a se dispor.
— Eu vou! – Alisson falou, levantando em seguida.
— Eu também – Paulinho disse em seguida.
— Eu posso falar também – Marcelo falou e eu assenti.
— Renato, vá também – falei e ele assentiu com a cabeça.
— Depois faremos uma coletiva para você, Tite – Bianca falou e assenti com a cabeça.
— Eu prefiro agora, se não for problema. – Bianca olhou para mim e olhei para Angelica que somente arqueou os ombros.
— Dá para fazer – Angelica falou e confirmamos com a cabeça.
— Depois que os jornalistas falarem com os jogadores na saída, vamos reuni-los para uma rápida coletiva com você e alguém da equipe.
— Eu vou! – Edu falou e confirmamos com a cabeça.
— Perfeito! – falei fracamente e eles afirmaram com a cabeça, soltando suspiros desanimados.
Continua…
Nota da autora
Oi, gente! Copa do Mundo chegando e que tal relembrar esse clássico da Copa de 2018? Para os antigos leitores, sejam bem-vindos novamente! Aos novos, que o espírito da Copa do Mundo te anime e te vicie em mais uma fanfic! <3 Beijos, beijos.
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