Revisada por: Hydra
Finalizada Em: 20.07.2025Grande Prêmio da Austrália, outono de 2017
Aquele era o grande momento da minha vida…
Não por ser a última corrida da minha carreira, pelo contrário, era minha temporada de estreia na F1. Eu sempre observava meu pai levantando de madrugada aos domingos para assistir as corridas, não entendia nada do motivo daqueles carros estranhos estarem dando inúmeras voltas sem algum propósito. Entretanto, era o momento em que eu tinha para desfrutar da companhia dele, pois seu trabalho na construtora da família sempre lhe tomava bastante tempo.
Minha paixão por carros de corrida chegou em 2001.
Me lembro perfeitamente desse dia, 13 de março de 2001, o dia em que tive o primeiro contato com uma corrida de kart. Eu tinha sete anos na época, e meu pai, aproveitando a oportunidade de uma sociedade com um amigo da família, montou a Academia de Kart Curitiba. Não demorou meses para que eu me tornasse um aluno dando início a minha intrigante história com o automobilismo.
— Vira pra direita… Troca a marcha… Acelera… — mantendo os olhos fechados, seguia visualizando todo o circuito em minha mente, prevendo todas as manobras que deveria fazer para ficar entre os cinco melhores no final.
Mesmo que eu não tenha assinado com uma equipe de tradição e glamour como Mercedes e Ferrari, a Force India mesmo não estando no topo, tinha alcançado bons resultados na última temporada. Muito significativo para alguém como eu me juntar a uma equipe também em ascensão, a se comparar com meu histórico de corridas. Motores mais potentes e um design redesenhado para este ano, todos estavam ansiosos para me ver em ação com o novo carro projetado especialmente para minha estreia nas pistas.
E não posso desapontá-los.
— Vira pra direita… Troca a marcha… Acelera… — continuei sussurrando, com os braços apoiados nos joelhos e a cabeça baixa, mantendo meu corpo meio curvado.
Concentração era tudo antes de uma corrida.
Confesso que eu tinha um jeito peculiar de fazer as coisas, e correr estava na lista. Minha carreira profissional se iniciou quando me despedi do kart e entrei na F4, meu dezesseis anos nunca seriam tão cheios de adrenalina se eu tivesse seguido a profissão da família e ser um engenheiro. Aos dezoito anos fui louco o bastante para me aventurar nas pistas do Stock Car, onde aprimorei meu estilo de corrida e obtive muita experiência enfrentando corredores de diversas idades e localidades do Brasil.
Até que mais uma oportunidade apareceu.
Após vencer três temporadas consecutivas, um olheiro da MP Motorsport, bateu em minha porta com a oferta de um contrato para a próxima temporada no F3. Confesso que já estava me habituando com o fluxo do Stock Car, não somente pela forma da corrida, mas principalmente pelo design dos carros, seria uma mudança radical voltar ao circuito de carros monopostos. Porém, já fazia parte de mim o sonho de chegar ao F1, e diante de uma proposta tão calorosa…
Não recusei.
— ?! — a voz de me despertou de minha concentração.
Não tinha nem dois meses de equipe e já tinha me familiarizado com ele. Talvez por seu sotaque forte que me fazia lembrar parcialmente de casa, pois todos os outros membros da equipe eram ou ingleses, ou americanos. Herrera era um jovem espanhol de caráter libertino e galanteador, que após o expediente sempre me convidava para curtir a noite nas mais badaladas casas noturnas de Northamptonshire na Inglaterra.
Não entendia como tinha tanta energia para isso.
— Hum?! — ergui meu corpo e o olhei.
— Uau, então é verdade o que dizem. — comentou ele, me olhando impressionado.
— O que dizem? — indaguei confuso, por sua reação.
— Que você se concentra ao máximo antes da partida. — explicou ele, ao me entregar meu capacete.
— Sim… — assenti ao pegar o acessório de sua mão e me levantar — Gosto de visualizar o que possivelmente vai acontecer.
— Me impressiona tamanha dedicação. — ele riu de leve, pareceu pensativo — Prefiro não me preocupar tanto e não ter a pressão em minhas costas.
— Mas gosta do que a F1 te proporciona. — comentei, seguindo para a área dos carros.
Já estava próximo a hora da corrida.
— Mas é claro que vou me beneficiar da minha posição de corredor teste. — ele deu uma risada boba, seguindo atrás de mim — Basta apenas falar que sou um piloto de F1 que…
Consegui notar seus olhares maliciosos para uma convidada vip do outro corredor, que passou por nós.
— Nossa… — disse ele, tentando disfarçar.
— Fique longe dela, é sobrinha do Pérez. — o alertei, ao para diante do meu carro.
Meu dia de testes na manhã anterior havia sido frustrado por uma falha na caixa de câmbio devido a um problema hidráulico, que precisou ser completamente trocado. Não seria a minha primeira frustração, mas resultou em um longo período de mau-humor de minha parte, que precisei esforçar ao máximo uma recusa cavalheira para os convites de para uma resenha juntamente com outros dois corredores testes, uma da Haas e um da Sauber.
— Não se preocupe amigo, eu sei em que terreno eu piso. — brincou ele, parando ao meu lado.
— Digo isso, porque sabemos que ele não gosta de você. — o alertei para a realidade — Pérez é a estrela da equipe, com vitórias no currículo e tempo de casa, sabe quem seria o demitido, né?
— Claro que sei. — ele deu uma piscada com ar de malícia e se afastou de mim.
Sua postura como homem era totalmente contrário dos princípios que eu tinha aprendido com meus pais. Para ele, seus vinte anos deveriam ser aproveitados da melhor forma, e não se limitava em usar a posição na F1 para ganhar vantagens seduzindo as mulheres que lhe interessavam. Aquilo me fazia refletir sobre como eu me via no futuro, se em algum momento da minha vida, conseguiria encontrar uma garota legal que gostasse de mim, pelo que eu sou…
E não pelo que eu tinha.
— Pronto, Montenegro? — perguntou Han, meu engenheiro de corrida oficial, me chamando pelo sobrenome.
Cada corredor tinha o seu para lhe auxiliar na corrida, meu contato era direto com ele, que repassava para os engenheiros de performance e os estrategistas. Toda uma equipe bem estruturada estava pronta para nos ajudar a vencer aquela corrida, ou pelo menos tentar chegar no top5. Eu não sabia como estava meu carro, seria nossa primeira vez juntos e um frio na barriga tomou conta de mim. Isso me lembrou minha primeira corrida no Stock Car, com direito a vice-liderança em todo o percurso.
— Nunca estive tão pronto. — demonstrei segurança, mesmo diante da adversidade da minha estreia — Hora de levar a Sakura para a pista.
E sim. Havia batizado meu carro com o nome que significava flor de cerejeira, não apenas pela cultura japonesa que admirava, mas não era apenas a F1 que tinha lugar no meu coração, os animes e games também disputavam espaço. Respirei fundo e subi no carro, me acomodando e checando se tudo estava em perfeito estado juntamente com a equipe.
— Sakura… — disse ao ronco do motor — Sei que não tivemos tempo de nos conhecermos, mas estou me apresentando oficialmente e prometo ser o piloto mais dedicado dessa temporada. Você aceita o desafio?
Acelerei um pouco para extrair um som ainda mais estimulante dela.
— Era isso que eu queria ouvir. — sorri de canto, preparado para iniciar o Q1.
O estreante #72 pronto para buscar a pole position.
Final da tarde, ao pôr do sol, foram os 18 minutos mais intensos da minha vida, e mais desafiadores também. Sem os testes no dia anterior, tudo seria novidade para mim, principalmente a dureza do volante nas curvas. As duas primeiras voltas pareceram um filme de terror a cada curva, e mediante ao desempenho dos demais, me forçou a investir todas as minhas habilidades em uma terceira e última volta.
Era tudo ou nada.
— Estes são os nossos corredores. — disse Fox, o diretor de equipe que estava temporariamente substituindo Vijay Mallya, indo cumprimentar Pérez que conseguiu a oitava colocação.
Eu tirei meu capacete e acenei com o rosto as felicitações da equipe. Seus dois pilotos ainda estavam dentro e cavando possibilidades de uma classificação satisfatória. Eu sabia que teria mais desafios nos próximos quinze minutos do Q2, e a Sakura não estava cem por cento como deveria. Foi mesmo muito esforço e uma singela ajudinha de Deus, que me fez conseguir ter um tempo aceitável.
Finalizei o Q1 em décimo segundo lugar.
— Como foi? — indagou Han, ao me perguntar sobre a eficiência do veículo.
— Senti muita falta de aderência, especialmente nas curvas de alta velocidade, ela estava escorregando muito e não consegui confiar totalmente na Sakura para atacar as curvas. — respondi a ele, com precisão.
Aquela era a minha marca registrada que tinha desenvolvido no Stock Car, minha ultrapassagens eram sempre nas curvas, mesmo sendo perigosas.
— Vamos corrigir isso para a corrida de amanhã, mas se ajustarmos às pressões dos pneus, acha que consegue continuar com o que temos hoje? — indagou ele, com um olhar preocupado.
— Eu estaria na F1 se não gostasse de desafios? — sorri de canto, mantendo minha confiança.
— Esse é o meu garoto, volta lá e arrepia. — brincou ele, ao se afastar do carro e orientar a equipe para fazer o ajuste parcial em tempo recorde.
Assenti com um sorriso e coloquei o capacete novamente.
O Q2 já iria se iniciar na sequência e eu teria que ser ainda mais rápido, meu problema não estava totalmente resolvido, e tinha a possibilidade de encontrar outros novos. Sakura não estava preparada para uma corrida oficial, era um fato, entretanto, desistir não era uma opção.
Mas estava ali para viver um sonho e inúmeras aventuras na F1.
— Montenegro, como está a aderência agora? — indagou Han, pelo rádio.
— Parece ter estabilizado, mas ainda sinto os freios estranhos antes da troca de marchas. — respondi a ele, com precisão.
— Mesmo com dificuldades, seu tempo está bom, está quatro segundos atrás do Pérez, e dois à frente do Nico Hülkenberg, parece que a Renault está tendo um dia péssimo com seus motores. Aguente mais um pouco, que faremos um balanceamento dos freios na transição para o Q3. — assegurou ele, me deixando um pouco mais tranquilo e motivado.
— Prepare a equipe então. — avisei.
Em meus dois meses de contratação, eu já tinha observado bem a forma de Han trabalhar, e nem seu lado perfeccionista me deixava estressado como os demais. Profissionalismo impecável parecia seu sobrenome, e era algo que me transmitia confiança desde o início. Aquela me pareceu a volta mais longa que já havia dado em um monoposto, tanto que cheguei a achar que tinha chegado em vigésimo lugar.
Contudo, cheguei em novo, quase na risca.
— Que todos empenhados nesses freios, vocês possuem menos de um minuto. — a voz alterada de ordem de Han, fez a equipe agilizar os ajustes para que eu pudesse prosseguir.
O Q3 se iniciou comigo pedindo a Deus uma ajudinha.
O coração acelerado, as pernas trêmulas e uma batalha interna contra o medo de não conseguir. Era a minha estreia, sem o dia de testes e enfrentando inúmeros obstáculos. Em uma fração de segundos, aproveitando o carro no trecho reto, fechei meus olhos e resgatei a concentração que estava guardando no Paddock, eu precisava dela, precisava aflorar minha habilidade de piloto destemido que não tinha medo de uma curva e nem se intimidava por uma falha técnica.
Assim que abri os olhos, minha posição já estava traçada.
Por mais que eu não ficasse entre os três melhores, devido às imperfeições em Sakura, não aceitava nada menos que o top 5 para a largada do dia seguinte. E foi o que de fato se concretizou após uma manobra arriscada, na curva três, em que alcancei a marca de Pérez e ultrapassei sua posição, chegando ao sétimo. Se mantivesse aquele ritmo e aumentasse a velocidade no reto…
A próxima curva me levaria ao quinto lugar.
— Me impressionou meu jovem. — disse Pérez, ao se aproximar de mim, para me parabenizar pela colocação.
— Meu jovem?! — eu ri de leve, achando engraçado sua forma de me tratar — Tenho 23 anos, não é como se fosse tão mais velho que eu.
Ele soltou uma gargalhada.
— Verdade, são o que? Quatro anos de diferença? — ele coçou a cabeça, parecendo fazer as contas — Às vezes pareço ser aquele senhorzinho de cabelos grisalhos preso num corpo de um homem de quase 30.
Brincou me fazendo rir.
Em segundos seu olhar se desviou para , que se aproximava de nós. E sua face nitidamente fechou, permanecendo série e rígida.
— Preciso ir conferir uns ajustes com meu engenheiro para amanhã. — disse ele, dando impulso para se afastar — Não posso perder para o estreante.
— Boa sorte amanhã. — disse a ele, assentindo com humildade.
Meu resultado em quinto foi inesperado para todos, porém o oitavo lugar de Pérez foi sólido e consistente desde o início.
— Olha só quem foi o estreante que recuperou o controle e vai largar em quinto. — comentou , demonstrando estar feliz com meu desempenho.
— Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. — brinquei, me lembrando de uma fala brasileira.
— Foi impressionante o que fez lá, todos acharam que iria ficar em décimo, quando disse que o freio tinha dado problema. — contou ele, os comentários que rolaram nos bastidores durante a corrida.
— Se dependesse do estado inicial, eu teria largado em último, mas a Sakura fez um bom trabalho. — disse a ele, orgulhoso da conquista.
E grato a Deus pelo resultado final.
— Sakura? — ele riu.
Eu apontei para meu carro.
— Mas foi você quem fez todo o trabalho sujo? — questionou ele.
— Foi um trabalho em equipe. — o corrigi.
— Que merece uma comemoração. — iniciou ele, suas ideias erradas.
— Como sempre, vou recusar seu convite, e seguir para o hotel. — disse ao colocar o capacete em cima do banco de Sakura e me afastar do carro.
Estava cansado demais para uma noite perdida em alguma Casa Noturna. Além do mais, precisava me concentrar para a manhã seguinte, e pensar nas diversas estratégias se caso Sakura apresentasse um problema novo após a equipe passar a noite ajustando todos os fios soltos.
— É você quem está perdendo a parte da diversão. — ele piscou de leve e saiu primeiro.
Soltei um suspiro cansado.
Aquela não era a vida que desejava para mim. Durante todo o momento em que passei com minha família, pude acompanhar de perto como era o casamento dos meus pais. A cumplicidade e afeto que tinham, a forma em que se conectam apenas pelo olhar, como se soubesse do pensamento um do outro, o amor deles transmitia uma certa magia que causava vontade de amar também.
Era um relacionamento assim que eu buscava.
Entretanto, nem tudo são flores, e como vivi todo esse tempo da minha vida concentrado no meu sonho da F1, não me permiti conhecer garotas legais no Brasil, menos ainda na Europa, quando migrei para o F3. Agora, com toda esta exposição da mídia com minha contratação e estreia, meu rosto está sendo reconhecido nos lugares. O que mais seria difícil, era encontrar uma garota que gostasse realmente de mim.
E não do que eu poderia lhe proporcionar com meu status social.
— Um banho… Só preciso de um banho. — sussurrei ao entrar na suíte premium, reservada para mim.
O hotel escolhido?
The Langham, Melbourne. Um dos melhores da cidade, que nos proporcionava comodidade, conforto, privacidade e mais conforto. Um banho quente, com direito a dez minutos na banheira cheia de espumas, meu corpo relaxado e a única vontade de dormir. Apoiei minhas mãos na bancada da pia por um momento e fiquei me encarando no espelho, nesses dois meses de preparação para a temporada, havia emagrecido bem com a nova dieta proposta pelos nutricionistas da Force India.
E só de pensar no treinamento físico que tive.
Eu precisava emagrecer cinco quilos para chegar ao peso ideal que não afetaria o desempenho da Sakura nas pistas. Até criei o hábito de beber água com mais frequência. Afinal, meu corpo também era uma máquina que precisava ser bem cuidada para um bom desempenho nas corridas. Minha irmã Paolla iria se orgulhar de mim, quando visse esse abdômen bem definido.
Ri de leve, do meu pensamento.
— Que horas será no Brasil? — me perguntei ao retornar ao quarto, ainda com a toalha enrolada em minha cintura.
O outono na Austrália estava refrescante naquela noite.
— Certamente é madrugada, mesmo que estejam acompanhando… — pensei por um instante — Não vou incomodá-los.
Eu sempre ligava para meus pais após cada corrida longe de casa.
Além de mandar algumas fotos para minha irmã orgulhosa, para que pudesse se gabar do seu irmão mais novo, piloto de F1. Me espreguicei um pouco e peguei o celular, apenas enviando uma mensagem dizendo como estava me sentindo após minha corrida de classificação bem sucedida. Então, deixei o aparelho na mesa de canto ao lado da cama e liguei para recepção pedindo serviço de quarto. Meu jantar seria recluso e sossegado, sem olhares curiosos dos outros hóspedes, e nem funcionários pedindo discretamente fotos ou autógrafos.
— Um momento de paz e descanso. — disse assim que o camareiro se retirou deixando a bandeja com o jantar em cima da mesa, situada na área de estar.
Tinha que admitir que o tamanho daquela suíte me lembrava uma das kitnets, em que morei nos meus tempos de F4 em São Paulo. Um espaço amplo e muito bem decorado ao estilo moderno e tradicional australiano, com móveis assinados de designers conceituados. Como eu sabia sobre isso? Paolla era expert no assunto e adorava falar disso comigo. Por mais que minha irmã fosse obcecada pelo trabalho, uma característica básica das pessoas da nossa família, nossos momentos de comunhão e descontração, eram sempre memoráveis.
— O que mais posso fazer para esperar o sono chegar… — meu corpo ainda respirava a adrenalina da corrida.
Mesmo relaxado com o banho, uma pontinha de eletricidade se mantinha correndo por meus músculos. Vestindo apenas a calça do pijama, me aconcheguei na cama, liguei a TV, e selecionei o quarto episódio de Boku no Hero para assistir, precisava terminar minha maratona de preparação para a segunda temporada. Não demorou minutos até que peguei no sono, acordei assustado com a televisão pausada e uma mensagem em sua tela, perguntando se eu ainda estava assistindo.
Apenas ri e a desliguei.
Fechei os olhos novamente e tentei me concentrar e retornar ao sono, porém, meus pensamentos se direcionaram para a minha primeira corrida oficial, dando gatilho para a ansiedade. Após rolar várias vezes nos lençóis, decidi levantar e caminhar um pouco para espantar os pensamentos desnecessários. Vesti um moletom com o desenho de uma rosa atrás, calcei um tênis esportivo e saí do quarto.
— Nada melhor que uma corrida noturna para organizar a mente. — disse a mim mesmo, o conselho que meu pai sempre me dava.
Atividades físicas eram boas mesmo.
Assim que abriu as portas do elevador, me peguei estático com a cena de aos amassos intensos com a sobrinha de Perez.
Justo a garota proibida.
— Ops… Andar errado. — comentou ele, num tom esquisito de embriaguez, ao perceber que era eu.
— O que faz.. — iniciei minha indagação, porém, voltei à razão — Eu vou de escada.
Não era problema meu e não iria me intrometer.
Minha parte eu tinha feito, aconselhei. Agora, deveria cuidar da minha vida, e tinha prioridades que necessitavam da minha atenção: a corrida. Como dito, desci de escada até o hall de entrada e segui para rua.
Certamente duas voltas no quarteirão resolveriam.
O que de fato aconteceu quando fechei o ciclo e me coloquei novamente em frente a fachada do hotel. Respirando mais profundamente, retomando o fôlego, sentia meu corpo pedindo por outro banho e cama, não negaria. Assim que me aconcheguei novamente aos lençois, as pálpebras vencidas pelo cansaço se fecharam.
Adormeci.
Dia 26 de março de 2017, o dia da minha estreia oficial na grandiosa F1. Às 17 horas da tarde, horário da Austrália, e 2 horas da madrugada horário de Brasília, iniciava a largada das 57 voltas mais intensas que já participei. Estava tão concentrado, que nem mesmo a voz de Han no rádio me distraía, os ajustes em Sakura pareceram funcionar bem por um momento, porém, o problema da aderência não tinha sido sanado completamente e após a décima volta e senti a necessidade urgente de uma troca de pneus.
E aproveitando, utilizar a Estratégia de "Undercut".
Fazer a troca antes dos meus adversários poderia me dar uma vantagem lá na frente e ganhar posições, enquanto os outros faziam suas trocas. Arriscado. Mas como dizia meu avô: Quem não arrisca, não petisca.
A situação era delicada.
— Vamos Sakura… A senhorita consegue! — sussurrei para o carro, confiante em nossa estratégia.
Com minha parada pit stop, perdi duas posições ficando em sétimo. Precisava acionar meu modo gladiator e contra-atacar com um ritmo de corrida forte e ultrapassagens bem sucedidas. Contando com as brechas deixadas pelos adversários. Foi o que prossegui, assim que chegamos a vigésima quinta volta e Pérez fez sua primeira parada. Segundo Han, ele sentia algo estranho no carro, que apresentava muita Sobreviragem, alegando que a traseira estava muito solta, especialmente na saída das curvas e nas acelerações.
— Como estamos Han?! — indaguei a ele, assim que confirmou minha passagem para a trigésima oitava volta.
— Muito bem, continue assim que vamos alcançar o Massa, ele está dois segundos à frente e parece que fará seu pit stop agora. — informou ele.
— É a oportunidade que estávamos cavando. — informei a ele, ao trocar de marcha e acelerar no trecho reto — E Verstappen?! Como está?
— Estamos buscando informações. — respondeu ele — Mantenha-se concentrado, a equipe está com você.
Respirei fundo e mantive o foco.
Vettel foi o vitorioso da noite com o tempo de 1:24:11.672. E eu, com muito sufoco, coragem e orações, consegui chegar a marca de +27.227s, garantindo o cobiçado quinto lugar. Confesso que foi violenta minha disputa com Verstappen, era divertido e motivador encontrar alguém tão ousado quanto eu e persistente. Estar entre o top 5, foi a melhor coisa que poderia acontecer na minha estreia, era um recado para todos que não estava de brincadeira e uma confirmação do meu potencial.
Force India, Han e eu…
Este seria o ano da nossa ascensão na F1.
— Foi uma corrida impressionante, com resultados impressionantes. — comentou Pérez, ao me cumprimentar pela boa corrida que tivemos.
— E você conseguiu superar o oitavo e roubar o sétimo do Massa. — brinquei, admirado com sua frieza em tomada de decisões.
— Tinha pela obrigação, superar pelo menos um brasileiro hoje. — brincou ele, de volta, rindo junto — Estamos em uma boa equipe, que nos apoia a todo momento, espero que saiba aproveitar a oportunidade.
— Claro que sei. — assenti, não entendendo a profundidade de suas palavras.
Ele me olhou mais sério e respirou fundo.
Parecia chateado com algo.
— Sei que sua vida privada não é da minha conta… Mas se quiser mesmo levar a F1 à sério, deveria escolher bem suas amizades. — aconselhou ele, à sua maneira.
Será que Pérez sabia da escapada de sua sobrinha com ?
— Não se preocupe, amizade nenhuma vai influenciar meu caráter. — assegurei a ele, que meus princípios eram diferentes do piloto de testes — Já tenho ele forjado desde pequeno.
Tinha três pessoas no Brasil que desejava orgulhar a cada conquista minha, e minha postura na vida privada também contava muito. Pérez sorriu de canto, parecendo gostar da minha resposta, então assentiu com a cabeça e de impulso para se afastar.
— Te vejo na Amber Lounge! — finalizou ele, já se afastando.
Amber Lounge?!
Conhecida por ser uma das festas mais exclusivas e glamourosas que acompanham diversos Grandes Prêmios de Fórmula 1 ao redor do mundo, era de se esperar uma no GP da Austrália em Melbourne. E mesmo não gostando da ideia de comparecer a uma festa logo depois da corrida, eu tinha entrado para o top 5, era minha estreia e claro que a equipe não aceitaria minha ausência. A primeira Amber Lounge da temporada teria minha presença moderada e discreta, apenas para fazer o social, mostrar meu lado carismático e deixar o senhor Fox feliz.
Confesso, sou mais caseiro do que baladeiro.
— Novo piloto da Force India, foi uma corrida e tanto. — comentou Max, ao se aproximar de mim.
Tínhamos trocado apresentações formais nos boxes antes da premiação oficial. Ambos frustrados ao ver Vettel subindo ao pódio, sentindo a sede de vitória se acumular internamente para a próxima corrida. A primeiro momento, o achei muito educado e comunicativo, além de curioso, principalmente sobre eu ser brasileiro, me enchendo de perguntas sobre a referência do país no automobilismo:
Ayrton Senna.
— Piloto da Red Bull, você poderia ter se esforçado mais. — brinquei de leve, o chamando da mesma forma.
— Me lembro da minha estreia como se fosse ontem, o frio na barriga. — ele riu, e voltou o olhar para os membros de sua equipe que estavam próximos — Nunca imaginei que assinaria com a Red Bull tão rápido.
— Sempre quis ir para lá? — indaguei curioso.
— A princípio? Não, mas me encontrei como corredor lá. — admitiu ele.
— Cada um com sua história… — eu ri de leve, imaginando como teria sido se eu não tivesse migrado três anos na Stock Car.
— Soube que foi da Stock Car, como é lá?! — indagou ele, também curioso.
— Menos eletrizante que aqui. — brinquei, dizendo a realidade — E confesso que tive problema de adaptação com o carro.
— Contando seu ponto fraco para o adversário? — ele riu.
— Ah não, isso já foi superado. — garanti, confiante.
— Me deve uma revanche. — notificou ele, dando passos para se retirar.
— Garanto que vai perder novamente. — assegurei, fazendo-o rir.
Permaneci mais algum tempo observando os variados grupos de pessoas conversando pelo lugar. Tinha que admitir, a Amber Lounge era o melhor lugar para se fazer network e adquirir influências em nosso meio.
— Montenegro. — uma voz sinuosa me despertou e minha apreciação a vista que o lugar me proporcionava.
No terraço do hotel mais luxuoso de Melbourne, a celebração acontecia e parecia não querer encerrar tão cedo.
— Boa noite. — a cumprimentei, voltando meu olhar para ela.
A ruiva diante de mim, tinha curvas bem sinuosas sendo precisamente reveladas por seu vestido decotado. Uau! Não poderia negar que era atraente, de causar fantasias na mente de qualquer homem, como de fato já estava acontecendo na minha. Desviei discretamente o olhar para o garçom que se aproximava com uma bandeja vazia, era errado continuar encarando aquele decote que parecia sussurrar meu nome, convidando-me para uma noite de pecados e luxúrias.
— Parabéns por sua estreia. — continuou ela, se aproximando mais.
— Agradeço, não foi um final de semana fácil. — me esforcei para manter a compostura, direcionando meu olhar a todo momento para objetos aleatórios que estavam próximos — A primeira corrida nunca é fácil.
— Imagino. — mais um passo dela, que me fez engolir seco, ao sentir uma pulsação mais forte — Sabe o que mais gosto nas corridas de F1?
— Hum… — demonstrei estar pensativo, sem estar pensando em nada, apenas em como seu corpo ficaria encaixado ao meu — Não consigo imaginar…
, respira devagar.
Pensei comigo.
— A celebração da vitória. — ela tocou de leve em meu tórax.
— Interessante… — eu respirei fundo, tomando coragem para não ceder à tentação.
Uma noite de prazer e adeus a uma vida de calmaria.
Eu não estava na F1 para diversão, era um sonho, era minha carreira. Além do mais, conseguia ver nitidamente em seus gestos que a ruiva estava ali para terminar a noite na cama de alguém. E definitivamente, este alguém não seria eu. Não seria assim que desejava iniciar um relacionamento. E perguntas como: “Se eu não fosse o piloto, mas um simples garçom, ela me olharia da mesma forma?” Começaram a pipocar em minha mente, trazendo-me a realidade da vida no mundo automobilístico.
Tudo é uma questão de influência e interesses.
— Mas eu não fui o vencedor. — disse ao tocar em sua mão, tirando-a da minha camisa — Eu fiquei em quinto lugar. Prazer em conhecê-la, mas… A noite já encerrou para mim.
Juntei a última gota de força que tinha e me afastei dela, seguindo em direção ao elevador. Sair daquele lugar seria mais seguro para mim, do que simplesmente ir ao banheiro para me recompor. Eu tinha uma irmã em casa, que sempre me jogava inúmeros exemplos que colegas de escola que conseguiram dar golpes em homens aparentemente expertos, para arrancar seu dinheiro e fama. Isso me lembrava até uma frase que meu pai sempre usava quando minha mãe ficava irritada ou nervosa com ele:
Fugi da aparência do mal.
Se eu fosse para o banheiro, ela poderia vir atrás de mim, e uma força de resistência sairia comprometida. Com sorte, o elevador abriu e finalmente pude retornar ao hotel, voltar ao foco inicial daquele final de semana e me preparar para a próxima corrida.
Os dias que seguiram foram tão intensos e acelerados que nem consegui acompanhar a estreia da segunda temporada de Boku no Hero, e para ser honesto, não tinha nem finalizado minha maratona da primeira. Enfim, o Circuito de Barcelona-Catalunha havia chegado, e eu tinha uma missão especial naquele domingo. Em 14 de maio de 2017, o Brasil estava celebrando o dia das mães e nada mais justo que conquistar o pódio de presente para a minha.
Pelo menos eu tentaria.
Passando pelo sufoco do GP da Austrália, o GP da China e de Bahrein foram cruciais para ajustar todas as falhas de Sakura, que me levaram a não progredir, permanecendo sempre em quinto. Um lado positivo? Não tinha saído do top5, mas estava concorrendo com Max nos pontos gerais, pois ele tinha conseguido o terceiro lugar na China e curiosamente não concluído no de Bahrein. Problemas técnicos, segundo ele. Na Rússia foi uma loucura, Pérez conseguiu o sexto, Max tomou meu quinto lugar, e Hamilton após uma derrapagem na pista, desceu para o sétimo lugar.
Foi a minha deixa.
No final, o quinto lugar já não importava para mim, que fiquei em quarto. Agora, era a hora de mostrar que eu não estava mesmo brincando de ser piloto, se Han exigia qualidade e precisão da nossa equipe para que Sakura cumprisse seu propósito na temporada. Eu iria retribuir todo aquele esforço, com mais dedicação, foco e abusando das minhas habilidades de improviso que conquistei no Stock Car.
— A corrida da temporada… É pra senhora, mãe! — fechei meus olhos ao som dos motores.
Respirei fundo, silenciando o mundo ao meu redor.
Eletrizante é a palavra que descreveria aquela corrida. Meu coração pareceu ir na boca uma dez mil vezes e voltar ao lugar. Largando em terceiro, definido pela corrida de classificação da noite anterior, o topo do pódio parecia um pouco mais real para mim, e iria correr o mais rápido que pudesse para alcançá-lo. Com disputa acirrada entre o estreante, eu, e o veterano, Hamilton, a estilo Davi contra Golias, por muito pouco o inacreditável aconteceu.
Uma vitória de milésimos, fazendo 1:35:52.457.
Eu havia superado meu terceiro piloto favorito. Hamilton só perdia para Senna e Michael Shumacher.
— Meus parabéns novato. — disse Hamilton, ao vir me cumprimentar, em meio a festa que a equipe fazia ao meu redor — Mostrou muita coragem na última volta.
Eu apenas acenei em agradecimento com a cabeça, voltando minha atenção para a Han, que me olhava com um brilho de orgulho nos olhos. Todos me cumprimentaram e parabenizaram, eufóricos com a conquista, era também uma demonstração da Force India, que sua equipe estava em pleno progresso.
— , de hoje você não me escapa. — disse , ao me dar um abraço de felicitações.
— Do que está falando? — perguntei a ele, confuso.
— Você está na minha Espanha, e hoje, nada de negar nossa resenha, é dia de comemoração e quero te apresentar uma pessoa. — anunciou ele, nossa programação da noite.
— Você sabe que como vencedor, tenho que comparecer a Amber Lounge. — o lembrei, do compromisso social após cada corrida.
— Mas é claro que não me esqueci. — disse ele, não importando com meus argumentos — Te darei seus quinze minutos de fama na Amber Lounge, e depois vamos a um lugar maravilhoso.
O olhei desconfiado.
— Fique tranquilo,não vou te levar para o mal caminho, o lugar é um ambiente familiar que vai gostar de conhecer. — ele deu uma piscadela de quem brincava.
— Só quero ver. — ri de leve me afastando.
Era o momento de subir ao pódio e estourar aquela garrafa enorme. O momento mais emocionante, foi finalmente ouvir o hino nacional sendo tocado. A última vez tinha sido em 2009, com uma vitória do Rubinho Barrichello, e agora, oito anos depois, um brasileiro estava subindo no lugar mais alto do pódio novamente.
Bem no GP da Espanha.
Algo me dizia que aquilo seria uma virada de chave na minha vida, e que muita coisa iria mudar depois daquela corrida. O que se confirmou após minha saída estratégica da Amber Lounge, sendo quase arrastado por , para finalmente conhecer o tão falado Bodega Antigua. O nome era estranho para um restaurante tradicional, situado em uma região mais afastada do centro comercial e mais humilde, se comparado aos lugares que frequentamos nos últimos dias.
— Chegamos ao melhor lugar da Espanha! — exclamou ele, empolgado pelo som que já soava de dentro do lugar.
— Tem certeza que é um restaurante? — indaguei desconfiado.
— Claro que sim, não se impressione pelo barulho, é que os donos foram dançarinos profissionais no passado e trouxeram essa temática ao negócio deles. — explicou ele — Vem comigo, você vai gostar.
Entramos na construção, e confesso que me impressionou mesmo. O choque cultural iniciou na decoração exagerada, misturada a arquitetura clássica, que demonstrava que a edificação era bem antiga e tradicional como a maioria que existia naquela parte da região.
— , quero te apresentar ao casal mais carismático daqui. — disse ele, me parando na frente dos donos — Meus pais!
— Oh! — eu estiquei a mão em cumprimento, e sem envergonhado pela apresentação — Muito prazer, eu sou Montenegro.
— Ah, que surpresa, o corredor brasileiro! — a mulher me abraçou com gentileza.
— Não é corredor, querida, o termo correto é piloto. — corrigiu o senhor, ao apertar a minha mão.
— Não importa o termo, tudo dirigi um carro veloz mesmo. — reclamou ela, se emburrando.
O que nos fez rir.
— ! — uma voz feminina vinda de trás do casal, chamou nossa atenção.
Encantador.
O adjetivo perfeito para classificar aquele sorriso que vinha em nossa direção. Um olhar doce, aquela perfeição que mais parecia um anjo de tão meiga e fofa. Será a irmã mais nova do meu amigo, ou prima talvez, pois ambos não se pareciam.
— Quero que conheça minha pedra preciosa, e a garota mais fascinante que existe no mundo todo. — iniciou , sua apresentação — Esta é , minha namorada!
O que?!
Namorada?!
Como assim aquele libertino tinha um anjo daqueles como namorada, com a vida que levava nos bastidores da F1? Aquela informação, além de me pegar desprevenido, me deixou estático por alguns segundos, sem conseguir assimilar a gravidade da situação atrelada à informação.
— ? — o chamado de me despertou de meu devaneio.
— Me desculpe. — disse tentando disfarçar minha reação — Acho que a adrenalina da corrida passou e minha mente ficou meio lenta.
— Imagino, meu jovem. — disse o senhor — Nós acompanhamos a corrida, e foi muito emocionante.
— Eu tinha o dever de ganhar, hoje se comemora o dia das mães no Brasil, e foi um presente pra mim. — revelei a eles.
— Oh que amor. — comentou a senhora — Aqui na Espanha comemoramos no primeiro domingo do mês, foi na semana passada.
— Interessante. — admiti.
— Sua mãe deve estar orgulhosa. — disse , ao finalmente se pronunciar.
A voz tão doce e suave, linda como a dona.
— Espero que sim. — disse, forçando um sorriso.
Externamente tinha que fingir normalidade, mas internamente eu estava em colapso.
Nos sentamos em uma mesa, com ao meu lado e sua namorada na cadeira de frente para nós. Quanto mais eu tentava desviar meu olhar, mais eu focava nas mãos dos dois entrelaçadas em cima da mesa, com ele fazendo o olhar de rapaz apaixonado, matando a saudade de sua amada.
— Nossa é impressionante a história de vocês. — comentei, após com riqueza de detalhes, me contar sobre como ambos se conheceram no ensino fundamental e se tornaram amigos, quando sua família ainda morava em Sevilla — Imaginar que namoram desde o ensino médio, e continuam mesmo com a distância.
— Quando eu disse que a Gabi era minha pedra preciosa,não estava brincando. — explicou ele, seus termos — É difícil encontrar uma mulher que te ame de verdade, sem interesses no que você tem ou no seu status, e ela me apoia com a F1 desde que nos conhecemos.
— Confesso que meu coração fica apertado pela distância, e mesmo nos falamos por videochamada, não é a mesma coisa. — desabafou ela, ao lançar um sorriso apaixonado para ele — Mas meu coração se aquece, sempre que ele volta à Espanha!
— Você é um cara de sorte. — minhas palavras soaram, com um toque sutil de frustração.
Senti o gosto amargo da inveja.
Ele não a merecia. Nem se envergonhada da vida dupla que levava, algo que me deixou enojado, e em segundos o conselho de Pérez surgiu em minha mente.
Escolher melhor meus amigos.
O restante do pouco tempo que passei ali, mantive silêncio na maior parte do tempo, usando a corrida como desculpa. Forcei um sorriso gentil para , quando me despedi dela, contudo, irritado internamente por ela namorar alguém de caráter tão contraditório como . Despejei toda a minha revolta na academia privativa do hotel que estava instalado, somente eu, o saco de areia e Deus, sabiam o quanto eu gritei naquele lugar.
Nos dias que seguiram…
Eu foquei ainda mais nas corridas, evitando muito contato com ele. Não queria demonstrar minha irritação por ele enganar alguém tão especial quanto . Menos ainda desviar minha atenção do que realmente importava: a corrida. Com minha vitória na Espanha, a pressão aumentou significativamente, pois tanto eu quanto a equipe, tínhamos que provar que não tinha sido apenas sorte de principiante.
Foi numa segunda-feira chuvosa, que o inesperado aconteceu.
Eu já tinha superado o terceiro lugar do GP de Mônaco. Faltava uma semana para o GP do Canadá, e tinha pedido o dia de folga para finalmente me instalar de maneira oficial no meu loft recém adquirido, próximo do Tottenham Hotspur Stadium. Uma ligação do porteiro dizendo que havia uma garota no hall me procurando, que permiti subir para atendê-la. Inicialmente achei que fosse minha irmã, entretanto, meu corpo gelou assim que abri.
estava diante de mim, tremendo de frio e encharcada pela chuva.
Mesmo que seu rosto estivesse molhado pelas gotas de chuva, dava para perceber pelos olhos vermelhos que lágrimas também tinham estado ali.
— Gabi!? — no impulso da minha primeira reação, abri o zíper da blusa de moletom em meu corpo e o retirei cobrindo-a de leve — Entra.
— Me desculpe, mas você foi a única pessoa que me veio à mente. — sua voz mais baixa do que o normal, pareceu querer falhar.
— O que aconteceu? — indaguei a ela, preocupado.
Se ela estava aqui. E ?
— Nós terminamos. — pude ver nitidamente a primeira lágrima sair de seus olhos e rolar por seu rosto.
— Como assim?! — perguntei, ainda absorvendo a informação.
— … — ela não conseguiu terminar a frase.
Eu apenas a abracei não me importando em me molhar. Minutos lhe transmitindo conforto e segurança em um único abraço, me afastei dela e analisei a situação.
— Não pode continuar molhada assim, vai pegar um resfriado. — a notifiquei — Tome um banho, tem toalhas limpas no armário em frente a porta do banheiro, você precisa se aquecer.
Ela apenas assentiu com a cabeça.
Parecia tão desamparada e sem forças, que tudo o que eu lhe dissesse para fazer, não iria contestar. A observei subindo as escadas para o mezanino, o banheiro completo ficava nesta parte do loft, enquanto no andar tinha apenas um lavabo ao lado da porta, para as visitas. Fiquei sentado no sofá, na área da sala, esperando-a finalizar o banho, assim que aparece no meu campo de visão. Não consegui conter meu coração acelerado, ao vê-la descer os degraus lentamente, vestindo uma blusa de moletom minha.
Suas pernas à mostra, fizeram minha mente paralisar por segundos.
— Vou fazer um chá pra gente. — disse me levantando do sofá, e forçando desviar meu olhar para a parte da cozinha.
Seu jeito meigo e sutil me cativou de uma forma.
Atraído eu estava, mesmo não sendo permitido. E foram longos minutos de silêncio, com ela sentava na banqueta alta que dava para a bancada de refeições, me olhando preparar tudo. Se meu coração pulsasse mais forte, garanto que ela ouviria seu ritmo Firework.
— Aqui está. — disse, lhe entregando a xícara com o líquido — Cuidado, está quente.
Ela assentiu e agradeceu com um sorriso.
se manteve em silêncio, até que finalmente sentiu-se confortável para falar. Quando iniciou sua história, não quis acreditar em suas palavras, mas se tratando de , não duvidaria de sua capacidade de agir de forma tão baixa. O que me deixava ainda mais perplexo com a situação, sem saber como reagir a tudo.
Resumindo…
estava grávida dele, que ao receber a notícia, não agiu de forma positiva como ela esperava. exigiu que ela abortasse a criança, ou então, terminasse com ele, pois não desejava aquela responsabilidade no seu atual momento da carreira.
Sei muito bem o real motivo.
A resposta de Gabi havia sido bem óbvia para mim, pois ela estava em minha casa naquele momento, mergulhada nas lágrimas, desnorteada e com apenas uma certeza:
Ela teria aquela criança, e a protegeria.
Como? Não sabia, pois a reação dos pais em Sevilla, também não tinha sido das melhores. No impulso da compaixão e empatia, eu a abracei mais forte ainda, desejando poder tirar aquele peso de suas costas e eu mesma protegê-la, não somente a ela, como também aquele pequeno ser que crescia dentro dela.
— Sei que não somos próximos… — sussurrei para ela — Mas pode me ver como um ponto de apoio, se assim desejar.
Ela caiu em lágrimas, após ouvir minhas palavras.
Não importava o que aconteceria com minha imagem na F1, e tinha certeza de que minha decisão não afetaria meu desempenho.
Eu não voltaria atrás.
Eu preciso de você, garota
Por que eu me apaixono e
digo adeus sozinho?
Eu preciso de você, garota
Por que eu preciso de você mesmo sabendo que vou me machucar?
- I Need U / BangTan Boys (BTS)
Por que eu me apaixono e
digo adeus sozinho?
Eu preciso de você, garota
Por que eu preciso de você mesmo sabendo que vou me machucar?
- I Need U / BangTan Boys (BTS)
“Relacionamento: Estar solteiro não significa que você não sabe nada sobre o amor, e sim que você sabe o bastante para não perder tempo com qualquer um.” - Pâms
