Revisada por: Lightyear 💫
Finalizada: 06/09/2025— Para quando é mesmo a viagem? — se fez de desentendida e desinteressada, achando que assim ganharia tempo.
Ela e faziam parte do mesmo grupo de amigos na faculdade, o que fazia com que os dois fossem “quase próximos”, “quase íntimos”, mas, na verdade, eram dois conhecidos que tinham uma infinidade de amigos em comum, então acabavam ficando na mesma rodinha nos intervalos e nas festas.
E provavelmente todas as garotas do grupinho — que já haviam rodado nas mãos dele, não toparam o favor. Então havia sobrado ela, e ele estava tentando desesperadamente.
precisava de uma namorada falsa por sete dias. Em uma viagem com a família quase toda para um acampamento espiritual. Ele precisava provar para a família conservadora e recém convertida ao cristianismo que ele havia mudado, ou seria deserdado do testamento dos pais.
Ou seja, era um caso de vida ou morte, de extrema urgência — e quase de extrema unção.
— Amanhã, ! Eu preciso da sua resposta agora.
— E o que te faz pensar que eu vou aceitar? Eu não tenho nada a ganhar com isso, e nem tão próximos assim nós somos. , são sete dias fingindo uma coisa muito séria! E se seus pais descobrem?
bufou alto, passando as mãos pelo rosto e cabelos, bagunçando-os e então começou a andar de um lado para o outro.
— Eles não vão descobrir , não tem jeito. É só nós fingirmos, toques, beijos, uma história bem elaborada e pronto! Você já deixou escapar que não tem nenhum compromisso durante o recesso, então o que te impede de ajudar um amigo? Sem sentimentos, sem envolvimento real. Você tem o coração bom, sei que vai aceitar. Foi por isso que pensei em você.
não resistiu. Soltou uma risada alta, jogando rapidamente a cabeça para trás.
— Me escolheu porque não sobrou mais ninguém para você propor esse absurdo! Isso, sim, .
— Que seja . Você é a minha única esperança, por favor! — Ele juntou as mãos, implorando.
olhou para o gesto, depois passeou os olhos pelo rosto dele, travado em desespero e ansiedade, e ela nunca havia o visto daquele jeito. Umedeceu os lábios com a língua, tentando afastar o súbito nervosismo que começava a tomar conta de seus músculos.
O que ela tinha a ganhar? Nada. O que tinha a perder? Nada, também. Eram só sete dias, em um lugar calmo, cheio de paz, com comida gostosa, gente cristã rezando e enchendo o saco, talvez, mas ela realmente não faria nada de produtivo ou demais naquele recesso de outono.
Ah, não ser ver filmes com as amigas e ir para diferentes festas todos os dias. Beijaria algumas bocas, faria um sexo meia-boca em um dos quartos das casas das festas, e pronto.
quebrou a distância entre os dois, e num ato desesperado, numa cartada final, ele segurou o rosto dela entre as mãos, colando as testas.
— Por favor, ! Só você pode me salvar! Eu preciso da sua ajuda. É você ou eu estou perdido pelo resto da minha vida. Sete dias sem envolvimento, nem sentimento nenhum, além da minha total lealdade e gratidão. — Ele umedeceu os lábios. — Eu prometo que fico 1 ano sem falar com você depois disso.
A respiração de travou no instante em que ele segurou seu rosto entre as mãos. O toque era quente, firme e inesperadamente… gentil. A aproximação fez com que o ar entre eles ficasse denso, carregado de algo que ela não conseguia nomear, mas sentia com força no centro do peito.
As testas coladas. Os olhos dele eram tão próximos que ela podia ver cada fio escuro dos cílios, o brilho sincero do desespero, e... o contorno dos lábios.
Ela nunca havia reparado tanto assim neles. Mas agora estavam ali, a poucos centímetros dos seus. Cheios, bem desenhados e úmidos — provavelmente pela língua que ele havia passado segundos antes. Ela piscou, tentando afastar o foco daquele detalhe ridículo. Mas era difícil. estava perto demais. A ponto de ela sentir o perfume amadeirado e limpo que vinha da pele dele. Não era o tipo de perfume que ela associaria a alguém como ele — um conquistador, um convencido. Era mais... humano. Quase suave. Quase bom demais.
— Você tá... exagerando, — murmurou, sem conseguir afastar o rosto. Sua voz soou mais baixa, mais rouca do que o normal.
Ele sorriu de leve, um sorriso torto, fraco, do tipo que sabia que estava jogando sujo e mesmo assim não conseguia parar.
— Eu tô desesperado. Desespero faz a gente ser sincero... e meio ridículo também.
As mãos dele ainda estavam no rosto dela, e por mais que seu cérebro gritasse que era hora de recuar, o corpo dela não se movia. Os olhos fixos nos dele, e os pensamentos começando a vacilar.
E se…?
Não. Claro que não. Eles estavam apenas negociando um acordo. Frio. Racional. Sem sentimentos. Mas por que então o coração dela estava batendo tão rápido?
Ela pigarreou, tentando recuperar o controle da situação, e dessa vez, sim, deu um passo para trás, fazendo com que ele finalmente soltasse seu rosto. Mas o estrago estava feito.
Porque naquele breve instante, algo se acendeu. Um calor inesperado. Um pensamento bobo. Um "e se" perigoso.
E ela odiava quando as regras começavam a ruir antes mesmo do jogo começar.
— Tudo bem. Mas os toques vão ser todos combinados, eu vou estabelecer limites bem rígidos, nada de abusar das mãos ou da língua. — Ele umedeceu os lábios que ficaram secos de novo. — Nada de dormir de conchinha ou colado comigo. Ok?
A expressão de suavizou como se ela tivesse acabado de jogar uma boia no mar revolto onde ele se afogava. Os ombros caíram em alívio, e um sorriso cresceu no canto dos lábios dele, apesar das regras quase militares que ela havia acabado de ditar.
— Fechado. Sem mãos abusadas. Sem línguas fora de lugar. E nada de conchinha. — Ele repetiu com ares solenes, levantando uma das mãos como se estivesse jurando diante de um tribunal. — Eu juro solenemente que não farei nada que não esteja no contrato verbal da senhorita .
Ela cruzou os braços, tentando manter o olhar sério, mas o canto da boca quase traiu a tentativa com um sorriso.
— Pode rir, mas eu vou escrever isso. Literalmente. Um contrato. Com cláusulas. E multas por descumprimento.
— Multas? — Ele ergueu uma sobrancelha, divertido. — Você tá mesmo levando isso a sério.
— Sete dias, . Sete dias fingindo que eu sou a mulher da sua vida. Eu preciso de regras. Preciso de controle.
— Então... você topa?
Ela respirou fundo, pesando todas as decisões erradas que já havia tomado na vida. Provavelmente estava prestes a adicionar mais uma à lista.
— Topo — respondeu, por fim. — Mas se você quebrar alguma regra, eu conto para os seus pais que a gente se conheceu numa boate, você me agarrou no banheiro e me chamou de demônio tentador.
arregalou os olhos.
— Você inventou isso agora?
— Sim. Mas é exatamente o tipo de história que sua mãe provavelmente acreditaria.
Ele engoliu seco.
— Você é assustadora. — disse, sorrindo.
Ela sorriu de volta, já arrependida. Mas era tarde demais. O acordo estava selado. E, no fundo, bem no fundo... alguma parte dela já sabia que sete dias não seriam suficientes para fingir sem sentir.
1. Nada de beijos fora de público.
Se não tiver ninguém olhando, não encoste. Isso inclui lábios, pescoço, e qualquer região “suspeita”. Beijos são exclusivamente para efeito dramático diante dos seus pais.
2. Toques limitados e previamente combinados.
Nada de improvisos. Nada de “escorregar a mão”. O ombro é seguro. A cintura, só com permissão verbal. Coxa, nem pensar.
3. Nada de dormir juntos.
Mesmo que só exista uma cama no lugar. Mesmo que a fogueira apague e a barraca voe. Mesmo que chova granizo. Cada um no seu espaço — ou eu durmo no carro.
4. Sem apelidos carinhosos no privado.
“Amor”, “vida”, “princesa” ou qualquer outra palavra que eu nunca deixei ninguém me chamar: proibidos. Fora do alcance dos ouvidos alheios, me chame de . E apenas .
5. Proibido se apaixonar.
Regra número um de toda comédia romântica. A gente já viu o que acontece com quem quebra essa.
6. Nada de treinar cenas íntimas.
Eu sei que você vai propor. E a resposta será sempre não.
7. Multa por descumprimento:
Uma semana inteira de exposição pública no grupo de amigos com apelidos constrangedores + a famosa história do “banheiro da festa da Marina” contada com riqueza de detalhes.
assinou o contrato com um floreio dramático, empurrando o papel para ele com uma sobrancelha arqueada e um olhar de desafio.
o leu com atenção, rindo em silêncio em alguns trechos, e depois pegou a caneta, escrevendo em letras garrafais:
— Não. Eu sou precavida.
— E se eu quiser adicionar uma cláusula?
— Pode tentar. Mas eu vetarei.
Ele ficou em silêncio por um segundo, e depois disse com a voz mais tranquila — e insinuante — que ela já tinha ouvido sair da boca dele:
— Cláusula 8: Se em algum momento você quiser quebrar qualquer regra... tem minha permissão.
riu. Mas o riso foi curto. Porque parte dela odiou o fato de ter achado a ideia... quase tentadora.
— Tá então, nada muito novo? Nos conhecemos na faculdade, estamos namorando há pouco tempo, mas tempo suficiente para você já querer me apresentar aos seus pais, pois eu sou bela, recatada e do lar, bem o estilo que pais cristãos e de bem como os seus aprovariam. Tá certo, né? No máximo dois meses de namoro.
— Isso! E nesses dois meses que estamos juntos, nada de álcool, nada de farra, nada de sexo. Nós dois só vamos transar depois do casamento.
soltou uma gargalhada alta, daquelas que faziam seu corpo inclinar levemente para frente. Ela levou a mão à barriga enquanto balançava a cabeça, ainda rindo.
— Ai, ... você é mesmo um comediante frustrado, né?
— Eu tô falando sério! — ele rebateu, tentando manter o semblante firme, mas os cantos da boca já ameaçavam ceder. — Você não imagina o quanto minha mãe vai amar ouvir isso.
— Claro, e depois ela vai tentar me convencer a fazer um voto de castidade. — revirou os olhos, ainda com o sorriso debochado no rosto. — Acorda, . Você me chamou pra ser sua namorada falsa, não sua santa padroeira.
— Padroeira ... até que soa bem — ele provocou, encostando-se na cadeira com os braços cruzados e um brilho sapeca nos olhos. — Tem uma certa autoridade angelical no nome.
Ela riu de novo, mas dessa vez o riso foi mais contido, enquanto o encarava.
— Me admira você achar que consegue fingir tudo isso sem rir na frente deles. E mais ainda: me admira achando que eu vou conseguir olhar na cara dos seus pais e dizer que estamos “guardando nosso corpo pro casamento” sem vomitar de tanto rir.
sorriu, mas havia um pequeno traço de preocupação em sua testa.
— É por isso que a gente vai ensaiar. Ensaiar tudo. Beijos, toques, como nos olhamos. Vamos ter que ser convincentes, . Muito convincentes.
— Lá vem você com essa ideia de ensaiar de novo...
— Não estou propondo nada de mais. Só... alguns momentos bem cronometrados de afeto. Você me beija na testa, eu seguro sua mão, encosto a cabeça no seu ombro. Coisas assim. — Ele falou com naturalidade, como se aquilo não fosse a receita perfeita para acabar com o tal “sem envolvimento”.
— Hum. E os tais “momentos bem cronometrados” vão acontecer em quais horários mesmo? Só para eu programar meu desespero.
— Pela manhã, após o devocional. À tarde, durante as caminhadas. E à noite, depois das orações em grupo, quando estivermos a sós na cabana.
— … — ela o interrompeu com um olhar sério — isso tudo tá parecendo menos uma viagem e mais uma armadilha.
Ele deu de ombros, sorrindo.
— Bem-vinda ao meu inferno particular. Agora dividido por dois.
suspirou, fechando os olhos por um instante. E quando os abriu, estava decidida:
— Ok. Mas uma palavra, um toque, um olhar fora do script e eu me demito, me despeço dos seus pais e saio desse acampamento com meu salto cravado na lama, mas com minha dignidade intacta. Estamos entendidos?
— Claríssimo — ele disse, levantando as mãos como quem se rende. — Sem beijos fora do combinado. Sem mãos fora do lugar. Sem sentimentos.
Eles encararam por um segundo longo demais.
Até que ele disse, quase num sussurro:
— Vai ser moleza, né?
fingiu que não ouviu o modo como ele disse aquilo. E fingiu mais ainda o arrepio que correu pela sua espinha.
Ela teria mais um respiro antes de mergulhar de vez naquela farsa mal feita.
Quando desceram do carro, deu a volta e parou ao lado dela, estendendo a mão.
— Agora, baby, vamos precisar começar. Tem que me dar a mão.
— Baby, é a sua avó! Cláusula número 4.
revirou discretamente os olhos enquanto a mãe se aproximava dos dois.
— Já estamos em público, bebê, então eu não descumpri nada. Aceita. Minha mãe tá vindo, relaxa esses ombros.
assim o fez, mesmo que algo dentro dela gritasse: perigo! Os ombros relaxaram e ela colocou o melhor sorriso que conseguiu no rosto. O sorriso de namorada feliz e ansiosa para conhecer os “sogros”.
A senhora se aproximou deles com um sorriso gentil nos lábios e seus olhos desceram para as mãos dos dois, entrelaçada uma na outra.
Meu filho! Que bênção receber você aqui hoje. — Ela abriu os braços e então soltou a mão de apenas para abraçar a mãe, que, pequena, batia no peito dele.
se permitiu observar aquele momento sem nenhum julgamento dentro do peito. O abraço de com a mãe pareceu cheio de afeto genuíno, não só da parte da senhora .
Olhando para ele ali agora, ele realmente parecia “o garoto da mamãe”, bem diferente do garanhão arrogante e cheio de piadinhas que estava acostumada a enxergar nele nas festas, ou nos corredores da faculdade.
parecia nutrir um carinho verdadeiro pela mãe. Quem diria que um brutamontes como ele seria realmente capaz de amar alguma figura feminina? Mesmo sendo a mãe, sentiu que ele só estava lá pelo testamento, pela grana dos pais empresários. Mas agora parecia que não.
Aquilo a desconcertou brevemente. Mas ela logo se recompôs quando o olhar da senhora voltou a cair sobre ela.
— Então essa é a famosa ? — O sorriso da senhora se alargou e sentiu o estômago revirar.
Ela ergueu a mão na direção da mulher de estatura baixa e rosto rechonchudinho. era a cara dela e isso fez o sorriso de aumentar, quase virando uma risada.
— Isso mesmo, senhora . É um prazer conhecê-la. Confesso que estava ansiosa por esse momento!
A senhora segurou a mão de com as duas mãos, apertando com carinho, os olhos brilhando como se estivesse diante de um milagre — ou, no caso, da mulher perfeita que orava há anos para que o filho encontrasse.
— Me chame de Eun-ha, querida. Nada de formalidades aqui no acampamento. Aqui, somos todos irmãos e irmãs em Cristo.
sorriu, quase sentindo a alma sair pela boca.
— Claro, Eun-ha.
— Você é ainda mais bonita do que nas fotos que ele me mostrou. E seu vestido é tão… comportado! Uma moça recatada, como eu gosto. — A senhora deu um tapinha leve no braço de . — Achei que você nunca fosse se aquietar, meu filho.
— Pois é, mãe. O impossível aconteceu. — Ele deu um risinho e puxou com delicadeza pela cintura. — Essa aqui me laçou.
travou por um microssegundo com a mão dele em sua cintura, mas rapidamente lembrou que estavam em território hostil. O olhar da mãe dele ainda estava cravado em cada gesto, então ela apoiou a mão no peito de com naturalidade ensaiada, como se aquele toque fosse comum e rotineiro. Como se o conhecesse mesmo.
— E não foi tão difícil assim, viu? Ele só precisava de alguém com pulso firme.
A senhora gargalhou, encantada.
— Essa menina é uma bênção! Já gostei dela. — Depois, voltou o olhar para , mais séria. — Só espero que estejam andando no caminho do Senhor. Nada de se entregar aos pecados da carne, . Vocês estão se respeitando, certo?
teve que virar o rosto por um segundo para não rir. , por outro lado, respondeu com uma seriedade impecável:
— Estamos, sim, mãe. Nossa relação é baseada em respeito, oração… e propósito.
tossiu para disfarçar a risada que subia. “Propósito”? Ele tinha mesmo decorado a cartilha inteira.
— Muito bem. — A senhora assentiu, satisfeita. — Agora vamos! A oração vai começar. Depois, quero que vocês conheçam todos os seus tios e primos. Já espalhei para a família inteira que trouxe a namorada pela primeira vez! Todos estão ansiosos.
— Todos? — murmurou, sorrindo, mesmo que por dentro só conseguisse pensar em uma coisa: isso vai ser um inferno.
segurou a mão dela de novo, sussurrando baixinho no ouvido dela, conforme seguiam atrás da mãe:
— Coragem, baby. Ainda faltam só seis dias e meio.
— Eu vou te matar antes disso. — ela respondeu, sem soltar a mão dele.
Mas quando os dedos se entrelaçaram com mais firmeza do que o necessário, se deu conta de que... estava começando a se acostumar.
E isso era perigoso.
O céu já começava a mudar de cor quando e se acomodaram em um dos bancos de madeira ao ar livre, dispostos em semicírculo ao redor de uma fogueira recém-acesa. A grama ainda estava úmida do sereno da tarde, e uma leve brisa atravessava os galhos das árvores com um sussurro que misturava paz e desconforto.
— Isso aqui tá me dando flashback de acampamento de infância — sussurrou no ouvido de , com um leve sorriso debochado nos lábios.
— Pelo menos você não tá vestindo camiseta personalizada com versículo bíblico — ele rebateu, apontando discretamente para os primos, todos padronizados com camisetas “JESUS SALVA – João 3:16”.
Ela teve que se conter para não rir alto. Mas seu humor evaporou no instante seguinte, quando passou um dos braços pelas costas dela e pousou suavemente a mão em sua cintura, puxando-a levemente para mais perto. O movimento foi sutil, discreto… e completamente fora do combinado.
endureceu por instinto.
— Mão fora do lugar — sibilou pelos dentes, sem virar o rosto.
— Estamos em público. Relaxa. Eles estão olhando — ele sussurrou de volta, o que só piorou a situação.
Ela fingiu ajustar o cabelo curto e, com o cotovelo, cutucou suavemente a costela dele. engoliu um riso.
— Que casal bonito! — uma voz feminina comentou à esquerda. Era uma das tias, provavelmente. — Vocês têm uma energia tão… pura.
sorriu falsamente e encostou a cabeça no ombro de , desejando internamente que uma força divina a levasse dali.
A oração começou com uma canção suave sendo tocada por violão. Todos fecharam os olhos e alguns ergueram as mãos aos céus. , mesmo alheia àquela rotina, fechou os olhos também — mais para evitar as expressões dos outros do que por fé. Mas então ela sentiu.
O polegar de roçando devagar nas costas da sua mão.
Era um gesto pequeno. Inofensivo. Mas íntimo. Íntimo demais.
Ela abriu um olho devagar e olhou para ele. ainda tinha os olhos fechados, mas havia um pequeno sorriso em seu rosto. Como se aquilo tudo não fosse apenas uma farsa. Como se ele estivesse confortável ali, ao lado dela. Como se... gostasse.
O estômago de revirou de novo, mas por um motivo diferente agora. E aquilo a irritou.
Quando a música terminou, um silêncio profundo pairou por alguns segundos, até que um dos pastores começou a falar sobre “pureza no amor” e “a importância dos relacionamentos abençoados”. quase gargalhou quando ouviu as palavras:
— O amor verdadeiro se mostra nos gestos simples. Num carinho no meio do silêncio. Num olhar de respeito. Num toque casto.
Ela olhou de canto para e sussurrou:
— Se ele soubesse o que você já fez numa escada de incêndio, ele engoliria esse discurso rapidinho.
riu baixinho e virou o rosto até colar os lábios no topo da cabeça dela.
— Você prometeu que nunca contaria sobre aquilo.
— Então se comporte — ela respondeu, mesmo ficando ligeiramente sem ar com aquele beijo no cabelo.
A oração terminou com um “amém” coletivo e algumas palmas discretas. Todos começaram a se levantar, prontos para o jantar comunitário.
Mas antes que pudessem sair, Eun-ha se aproximou outra vez, as mãos unidas em frente ao peito.
— Vocês parecem tão conectados… O Senhor realmente sabe o que faz. Estou tão feliz por você, filho.
sorriu e agradeceu. também. Mas por dentro, a única coisa que passava pela cabeça dela era: essa história tá indo longe demais. E estamos só no primeiro dia.
Depois do devocional da manhã, voltou a segurar as mãos de enquanto caminhava com ela em direção ao pai.
— Agora se prepara, porque meu pai, mesmo convertido, é mais direto e bruto do que minha mãe umas doze vezes.
fitou a figura alta pela qual eles caminhavam em direção e percebeu que havia herdado a altura do pai. Ele parecia ter quase dois metros de altura e aquilo fez suspirar profundamente, sabendo que não estava nem um pouco preparada para encarar o patriarca.
— Pai! — chamou e depois pigarreou. — Ainda não tive tempo de te apresentar a .
Os olhos do homem deixaram a madeira que ele cortava por alguns segundos e passearam por . Milimetricamente. Como se estivesse procurando alguma rachadura, algum defeito que pudesse ser visto a olho nu para comentar.
A boca de amargou e ela engoliu o fel garganta abaixo enquanto tentava sorrir para o pai de .
O senhor limpou as mãos com um pano encardido e largou o machado ao lado da tora de madeira, os olhos ainda nela. Não sorria. Nem disfarçava.
— Então essa é a tal moça? — disse, com uma voz grossa e grave, que parecia reverberar até na espinha.
se adiantou um pouco, estendendo a mão.
— Isso mesmo, senhor . . É um prazer conhecê-lo.
Ele apertou a mão dela com firmeza, por tempo demais. O suficiente para deixar claro quem estava no comando da situação. Depois soltou.
— E você trabalha com o quê, senhorita ?
— Estudante de Comunicação. Último ano — respondeu com um sorriso gentil. — Também faço estágios em produção de conteúdo digital e pesquisa.
O senhor apenas assentiu lentamente, como se ainda analisasse cada palavra, cada vírgula, cada célula do corpo dela.
— Hum… Comunicação — murmurou, quase como se o nome do curso tivesse gosto ruim. — Hoje em dia, ninguém quer mais trabalhar com coisas de verdade, só ficar atrás de tela, falando com câmera, escrevendo bobagem.
travou o maxilar por um instante, sentindo a resposta afiada coçar a língua. Mas se conteve. Não era o momento de ser ela mesma. Era o momento de ser a doce e respeitável “namorada cristã do ”.
— Na verdade, senhor , é um campo bem exigente. Especialmente quando lidamos com grandes empresas e com o público em geral. Comunicação é uma ponte. — respondeu com doçura, mas com firmeza suficiente para não parecer submissa.
apertou um pouco a mão dela, em apoio — ou talvez em alerta para ela segurar a língua, o que fosse mais urgente.
O pai ergueu uma sobrancelha.
— Fala bem. Tem lábia. Isso pode ser bom… ou pode ser perigoso. — Virou-se para o filho. — E você? Ainda firme naquela promessa?
— Sim, senhor. — respondeu rapidamente, o corpo rígido como o de um recruta. — A também compartilha da mesma visão. Estamos guardando nosso relacionamento para o momento certo, com respeito e propósito.
teve que respirar fundo para não tossir de riso.
O senhor a encarou mais uma vez, dessa vez com os olhos semicerrados.
— Então, você é dessas que acredita em compromisso? Em família?
— Sim. Acredito, sim — respondeu, surpresa consigo mesma por não soar irônica. — E acredito que respeito é a base de tudo.
Um silêncio breve se formou, até que o senhor assentiu com a cabeça.
— Hum... Pelo menos não é uma daquelas meninas de Instagram.
sorriu. Falsa, mas graciosa.
— Ainda bem que meu perfil é fechado.
tossiu para disfarçar o riso. O pai não percebeu. Ou ignorou.
— Certo — murmurou por fim. — Vamos ver se aguenta o resto da semana.
E sem dizer mais nada, voltou a cortar madeira, como se tivesse acabado de carimbar o passaporte dela para o acampamento.
soltou o ar com força e inclinou-se para sussurrar:
— Parabéns, você sobreviveu ao chefe do clã. Acho que ele não te odeia.
— Ganhei ou perdi pontos quando quase respondi que “lábia boa é só no quarto”?
arregalou os olhos e soltou uma gargalhada abafada, puxando-a para longe do machado do pai.
— Mulher doida. Vai me matar ainda antes da fogueira de sábado.
Ela estava distraída, refletindo sobre como o patriarca havia sido... tolerável, até certo ponto, quando uma voz doce — doce demais — a chamou:
— , não é?
Ela se virou devagar e encontrou uma garota alguns anos mais nova, mas com um rosto perfeitamente maquiado, mesmo no meio do mato. Vestia uma saia longa até os pés e uma camiseta personalizada com um versículo que nem conseguiu ler direito, porque a garota já estava sorrindo grande demais para parecer sincera.
— Sou a Soyun, prima do . — disse, se aproximando como quem oferece um abraço, mas recuando antes do toque real. — Ou ex-prima, já que agora ele tem uma namorada nova. — piscou, irônica.
manteve o sorriso no rosto.
— Ex-prima? Isso existe?
— É que a gente era muito próximo antes. Muito mesmo. — Soyun riu com uma voz melosa e claramente treinada. — Mas aí ele começou a... mudar. Se afastar. Crescer.
entendeu imediatamente o que aquilo significava. Soyun era uma daquelas. Uma daquelas que o provavelmente beijou — ou mais — antes da conversão, e que agora olhava para ela como um tropeço em forma de mulher.
— E você tá com ele há quanto tempo mesmo? Dois meses? — Soyun perguntou, com a cabeça levemente inclinada, como se realmente se importasse com a resposta.
— É. Pouco tempo. Mas tempo suficiente pra ele ter me escolhido pra estar aqui, né? — respondeu com um tom doce e venenoso, na mesma moeda.
Soyun riu de novo, mas o sorriso falhou nos cantos.
— Verdade. Bom, espero que aguente. Ele é meio... difícil. Sabe? Intenso. Quente demais pra quem não tem experiência.
piscou lentamente, mantendo o tom de voz sereno:
— Ah, eu me viro muito bem com homens quentes.
Soyun arqueou uma sobrancelha, surpresa com a resposta, mas antes que pudesse dizer mais alguma coisa, apareceu vindo pela trilha, os olhos imediatamente se fixando nas duas.
— Tá tudo bem aqui? — perguntou, com um tom casual, mas o maxilar tenso demais para alguém “relaxado”.
Soyun se virou para ele com um sorriso que poderia ser moldado em açúcar queimado.
— Claro, oppa. Só estava dando as boas-vindas à sua nova companheira.
sentiu os olhos dele a encontrarem de novo, como se perguntassem “o que ela disse? Tá tudo certo mesmo?”.
— Que bom. — ele respondeu com firmeza, colocando o braço ao redor da cintura de e puxando-a com naturalidade, como se fosse posse. — Vamos, amor. O pessoal tá esperando pra começar a trilha.
Soyun observou os dois se afastarem, ainda sorrindo.
E foi só quando estavam longe o suficiente que disse, num sussurro:
— A sua prima quer queimar incenso comigo. Ou me empurrar numa fogueira. — Ela sempre foi assim. Não dava um passo sem tentar me pegar de volta. Mas você se saiu bem.
— Eu sempre me saio bem. — respondeu, embora sua garganta ainda estivesse seca.
parou subitamente, segurou o rosto dela entre as mãos — do jeito que fizera no primeiro dia — e disse, com um sorriso que deixava tudo mais confuso:
— Você tá me dando orgulho, sabia?
O problema foi a maneira como ele a olhou depois disso. Um segundo a mais. Um segundo demais.
E foi naquele instante que percebeu… talvez não fosse só Soyun que estivesse incomodada com o que estava acontecendo.
A trilha era leve, com o sol já baixando e tingindo o céu de tons alaranjados. Alguns primos e tios mais animados caminhavam na frente, e os mais velhos iam atrás, em um ritmo mais calmo. e ficaram no meio, cercados por árvores altas, e por uma brisa que carregava o cheiro de mato e terra molhada.
Mas o que pesava no ar era o silêncio entre eles.
Depois do encontro com Soyun, estava inquieta. E parecia... observador demais. Cada vez que ela tropeçava em uma pedra, ele estendia a mão. Quando ela tentava puxar conversa com alguém da família, ele permanecia em silêncio, como se estivesse a analisando. Como se estivesse pensando demais.
— O que foi? — ela perguntou, quando já estavam um pouco mais afastados do grupo.
demorou dois segundos para responder. Dois segundos longos o suficiente para que ela soubesse que vinha bomba.
— A gente não tá convincente o bastante.
arqueou uma sobrancelha, rindo de leve.
— O quê?
— Eu tô falando sério. — ele parou de andar, fazendo com que ela parasse também. — Hoje de manhã meu pai me puxou de canto e perguntou se você tava forçando o sorriso. Disse que parecia tudo muito... ensaiado.
— E não é? — ela retrucou, cruzando os braços. — Estamos fingindo, . Não somos um casal de verdade. É natural que nem tudo soe espontâneo.
— Mas precisa parecer. — ele deu um passo em direção a ela, mais próximo do que o necessário. — É isso que tô tentando dizer. A gente não tá... entrosado. E isso pode pôr tudo a perder. Se um único parente duvidar, minha mãe vai perceber. E ela tem um faro melhor que o FBI.
— Tá. — bufou, desviando os olhos. — E o que você propõe? Que a gente passe a noite vendo doramas de romance e lendo o Kama Sutra?
Ele riu com a provocação, mas não desviou o foco.
— Eu proponho que a gente ensaie. Algumas cenas. Alguns toques. Beijos. Nada fora do que já precisamos fazer aqui. Mas com intimidade suficiente pra parecer real quando tiver plateia.
o encarou com descrença.
— Você quer que a gente... treine beijos? Tipo peça de teatro?
— Se pensar assim, fica menos esquisito.
— Nada disso é menos esquisito! — ela respondeu, se afastando um passo e passando a mão nos cabelos, inquieta. — Você quer que a gente fique se tocando nos bastidores pra parecer natural no palco?
suspirou, frustrado, mas manteve o tom calmo.
— Eu tô falando sério. Já percebeu como você ainda trava quando eu pego na sua cintura? Ou quando você encosta em mim, parece que tá segurando uma panela quente. A gente precisa fazer isso parecer nosso. E pra isso, a gente precisa se acostumar. Com o toque, com o cheiro, com a proximidade.
odiava quando ele falava assim. Racional, objetivo, convincente. O tipo de argumento que fazia sentido — mesmo que tudo nela gritasse que era cilada.
Ela desviou o olhar e cruzou os braços com força.
— E você? Tá tão tranquilo assim com essa ideia?
a olhou por um momento. Depois sorriu. Devagar.
— Eu acho que você me subestima.
E foi aí que ela percebeu. O problema não era ele estar confortável demais. O problema era que ela estava começando a não estar mais. Havia algo nos olhos dele, no tom da voz, na forma como se aproximava sem medo... que mexia com os limites que ela mesma tinha traçado.
E pela primeira vez, os tais ensaios pareciam um caminho perigoso. Não pelo que mostrariam… mas pelo que poderiam despertar.
— Isso quebra uma das cláusulas, lembra? Ah, mas é claro que você não lembra de nenhuma cláusula. A cláusula 6. Vou precisar negar, docinho de coco.
fechou os olhos, bufou alto, começando a demonstrar uma certa impaciência.
— Não bote tudo a perder, esqueceu de que posso contar aos seus pais sobre eu ser um demônio tentador? Nada de bufadas quando eu falar sobre as cláusulas.
— Isso não está nas cláusulas, ! — Ele falou entre os dentes.
— Ah, então você sabe o que está nas cláusulas? — Ela colocou uma das mãos na cintura, como se o desafiasse.
— Pelo amor de Deus, ! Eu estou propondo uma quebra de regras pelo bem do projeto como um todo, e você prometeu me ajudar. Tem que cumprir, ou não é uma mulher de palavra?
Foi a vez dela bufar alto o suficiente para atrair atenção de alguns tios e tias. Disfarçou, dando um beijo rápido e casto na bochecha dele.
— Tem razão, meu amor! Vamos quebrar as regras. Mas só essa, me ouviu? — Ela ergueu o dedo na direção dele, quando os tios e tias desviaram os olhos.
sorriu, aquele sorriso presunçoso que ela conhecia bem demais. O tipo que ele dava quando conseguia exatamente o que queria — mesmo que isso significasse passar por cima de um pequeno tratado de guerra assinado por ambas as partes.
— Só essa. Prometo. — disse, levantando as mãos em rendição, mas com os olhos brilhando de malícia contida. — Vamos chamar de… ensaio técnico.
— Vamos chamar de última vez que você me convence a fazer alguma coisa com essa sua carinha de golden retriever arrependido — ela rebateu, já se arrependendo pela metade, mas com o orgulho sustentando a pose.
A noite caiu rápida no acampamento. Depois de mais uma rodada de louvores à beira da fogueira, todos começaram a recolher-se para as cabanas. já estava se preparando psicologicamente para dormir num beliche apertado ao lado de uma tia fanática, quando Eun-ha se aproximou com o olhar sereno e um tapinha no ombro dela.
— Querida, tivemos um pequeno erro na logística. O número de hóspedes ultrapassou o previsto, então vamos precisar juntar alguns casais nas cabanas de casal mesmo. Já coloquei suas coisas junto com as do , tudo bem?
congelou por dentro.
— Claro! Tudo ótimo! — ela respondeu com um sorriso que parecia colado com fita dupla face.
apareceu logo em seguida, os olhos um pouco arregalados.
— Cabana de casal? Sério?
— A vontade de rir é grande, mas a de chorar é maior. — murmurou entre os dentes, já entrando no quarto com passos firmes.
A cabana era simples, com uma cama de casal no centro, duas janelas pequenas com cortinas floridas e um armário de madeira que já rangia mesmo fechado. No criado-mudo, uma Bíblia aberta no Salmo 91 e um aromatizador de lavanda.
— Pelo menos é cheiroso — ele comentou, largando a mochila no canto.
cruzou os braços, encarando a cama como se fosse uma armadilha.
— Se você encostar em mim enquanto eu durmo, eu enfio esse abajur na sua testa.
deu de ombros, tirando a camisa para trocar por uma camiseta de dormir, sem cerimônia. O movimento fez virar de costas no mesmo instante.
— Avisa quando for seguro olhar de novo, seu exibido.
Ele riu.
— Se a gente vai treinar, você vai ter que se acostumar com minha beleza natural.
— Ou eu posso treinar minha paciência pra não te sufocar com um travesseiro.
Quando finalmente estavam prontos para “ensaiar”, sentou na beira da cama, pernas cruzadas, braços também. sentou-se ao lado dela.
— Ok — ele começou, com um tom mais leve agora. — A gente pode simular alguns momentos que poderiam acontecer durante o dia. Um carinho no rosto. Um beijo na testa. Um abraço meio longo.
Ela assentiu lentamente.
— Sem beijos na boca. Sem mãos nas coxas. Sem aproximação corporal indecente.
— Tinha mesmo que dizer “indecente”?
— Sim. Porque eu sei exatamente como sua mente funciona.
deu um risinho baixo e então, devagar, levou a mão até o rosto dela, passando a ponta dos dedos pela lateral da bochecha.
Foi suave. Inofensivo. Mas o coração de falhou um batimento.
Ela manteve os olhos nos dele, sentindo aquele toque simples como um terremoto interno.
Ele, por sua vez, pareceu notar o efeito.
— Tá vendo? Nem foi nada de mais. Mas já pareceu… nosso.
Ela engoliu em seco, tentando disfarçar o leve tremor nos dedos quando segurou a mão dele.
— Vamos continuar. Quero terminar isso antes que eu cometa um pecado de verdade.
— Tipo, se apaixonar por mim?
Ela o olhou de lado, séria.
— Tipo te dar um soco na boca.
riu. Mas seu sorriso era diferente agora. Mais silencioso. Mais atento.
E conforme os toques seguiam — um carinho na mão, um abraço breve, um beijo na testa que durou um pouco demais — percebeu que não era só o ensaio que estava funcionando.
Era o problema dele funcionar.
Porque, se aquilo era só o começo… ela temia o que viria quando eles parassem de fingir.
Depois dos toques, dos sorrisos disfarçados e de uma tensão tão densa que parecia ter preenchido o ar da cabana, um silêncio se instaurou entre os dois. deitou primeiro, de costas para ele, com a coberta puxada até a altura do peito, tentando manter o corpo imóvel, como se isso a impedisse de sentir qualquer coisa. Mas cada célula parecia em estado de alerta.
demorou mais um tempo organizando coisas desnecessárias — a mochila, o celular desligado, a camiseta que ele tirou e dobrou mesmo sem precisar — como se estivesse criando tempo.
Quando finalmente se deitou, o colchão afundou um pouco, fazendo o corpo de se mover em direção ao dele. Ela prendeu a respiração e depois soltou com um suspiro impaciente.
— Se você atravessar essa linha imaginária no meio do colchão, eu grito "fogo" só pra causar pânico moral. — murmurou, ainda de costas.
riu baixinho, a voz abafada pelo travesseiro.
— Eu tô no meu canto, . Nem respirei pro seu lado ainda.
— Só estou avisando — rebateu, mas sua voz estava mais baixa agora. Menos convicta. Mais... distraída.
Um silêncio caiu entre eles de novo. Mas não era desconfortável — era carregado. Um silêncio que dizia tudo que eles não podiam dizer em voz alta. fechou os olhos e tentou dormir. Mas o corpo ainda sentia os toques dele. O polegar roçando no dorso da sua mão. O beijo na testa. O cheiro dele tão perto.
E então, como se o universo conspirasse para o caos, ele falou:
— Você é quente.
virou o rosto no travesseiro, confusa.
— O quê?
— Sua pele. É quente. Sabe quando você encosta em alguém e sente aquele calor? A sua é assim. É... reconfortante.
Ela demorou a responder.
— Isso não é uma cantada, né?
— Não — ele respondeu rápido demais. — É só uma constatação biológica. Como quando dizemos que a água ferve a 100 graus.
— A água não treme quando você encosta nela.
— Você tremeu?
Ela odiou que ele tivesse percebido. E, mais ainda, odiou que não fosse mentira.
se virou devagar para encará-lo. Ele estava de lado, o rosto parcialmente coberto pela sombra, mas os olhos estavam fixos nos dela. Havia algo ali. Algo que não fazia parte do acordo. Nem do ensaio. Nem das cláusulas.
— … — ela começou, mas a voz saiu baixa demais.
— Eu sei — ele respondeu antes mesmo que ela dissesse qualquer coisa. — Eu também tô tentando fingir melhor do que consigo.
Ela engoliu em seco. E pela primeira vez, o que a assustou não foi a ideia de fingir.
Foi o medo de não conseguir parar de sentir.
Um silêncio pesado caiu entre os dois, e quando voltou a se virar, desta vez não ficou de costas. Ficou de lado, olhando para o teto, com os olhos abertos e os pensamentos em turbilhão.
Minutos depois, ela sentiu a ponta dos dedos dele tocarem os dela por baixo da coberta. Foi um toque simples. Silencioso. Como se dissesse: tô aqui, mesmo quando não devia.
E ela não puxou a mão.
Porque naquele momento, as regras pareciam tão frágeis quanto o autocontrole deles.
A mão dele ainda segurava a dela. Por baixo da coberta, entrelaçadas. E o corpo dele — morno, firme e... ali — tocava o seu. As pernas, a curva da barriga, o peito.
Ele dormia.
E ela... não queria se mover.
Mas precisava.
Com cuidado, soltou os dedos dos dele. Sentiu um leve movimento — talvez ele estivesse acordando. Fingiu que não notou. Fingiu que não sentiu aquele breve aperto antes que ele soltasse por completo.
Foi ao banheiro. Lavou o rosto. Ficou encarando o espelho por alguns segundos. Aquilo não era real. Mas estava parecendo. E isso, justamente isso, era o perigo.
Quando voltou, já estava sentado na cama, o cabelo bagunçado e os olhos semicerrados. Ele a encarou por um instante e depois murmurou:
— Dormiu bem?
Ela deu de ombros.
— Como alguém que fingiu o dia inteiro e dormiu ao lado de um problema.
Ele sorriu, sonolento, mas havia uma sombra no fundo do olhar. Um desconforto leve. Ele sentia. Ela sabia. Só não falavam sobre isso.
Não falar virou a nova regra.
No café da manhã, sentaram-se juntos, como deveriam. As mãos não se tocaram. Os olhares, sim. Discretamente, de vez em quando. Uma vez, ela pegou ele observando o canto da boca dela, enquanto ela mordia uma fatia de pão.
Outra, ela se pegou encarando a clavícula dele, visível sob a camiseta fina.
Ninguém comentou nada. Mas tudo acontecia em silêncio.
— O que acharam da oração de ontem? — perguntou um dos tios.
— Tocante — respondeu , sem olhar para .
— É — ela completou. — Mexeu com algumas coisas.
A resposta poderia significar qualquer coisa. Mas quando ela olhou para , ele já estava olhando para ela.
Mais tarde, um dos primos mais jovens puxou conversa com perto do lago.
— Você é bem diferente do que eu esperava. O costumava andar com umas garotas... bem diferentes de você. — o primo disse com um sorriso interessado.
riu, mas antes que pudesse responder, surgiu ao lado dela, como se tivesse sido invocado por alguma força invisível.
— Tudo certo por aqui? — perguntou, colocando a mão na cintura dela com naturalidade, como se aquele espaço fosse seu.
— Tudo — respondeu, sentindo o calor da palma dele. — Estávamos só conversando sobre seu passado glorioso.
— Hum — ele disse, com um meio sorriso. — Tem coisa melhor pra conversar.
O primo se despediu pouco depois, e soltou um suspiro.
— Era ciúme isso? Ou atuação avançada?
não respondeu. Só a olhou.
E de novo, o silêncio falou mais alto do que qualquer resposta.
Naquela noite, quando se deitaram, dessa vez mais distantes, ele apagou a luz sem dizer boa noite. E no escuro, depois de minutos longos, ela sussurrou:
— Ainda é só ensaio, certo?
A resposta demorou.
Longos segundos.
— Claro. — ele disse, baixo.
Mas o problema era que nenhum dos dois acreditava nisso.
O silêncio reinava na cabana. Só o som das folhas batendo contra a janela e o zumbido baixo dos grilos preenchiam o espaço. havia demorado para dormir. Revirou-se por um tempo, brigando com os pensamentos, com o corpo, com tudo que ele fazia com ela sem nem perceber.
Mas em algum momento, o cansaço venceu.
E então… o sonho veio.
Era confuso. Quente. Carregado. Ela estava encostada em , como no ensaio. Mas os toques não eram ensaiados. Eram urgentes. As mãos dele em seu rosto, na sua cintura, depois subindo pelas costas por baixo da blusa que ela usava. Beijos — profundos, intensos. O gosto dele era doce, quente, vívido demais para ser apenas um sonho.
Ele a olhava como se fosse dela. Como se não fingisse. Como se quisesse.
E quando ela disse “isso não faz parte do combinado”, ele respondeu:
— Eu sei. Por isso tá sendo tão bom.
Ela acordou com um sobressalto, a respiração descompassada e a pele quente. Estava coberta de suor, como se tivesse corrido. Ou como se tivesse sido tocada de verdade.
E então percebeu: estava sentado na cama, virado para ela, o olhar preocupado.
— … você tá bem?
Ela piscou algumas vezes, tentando voltar. Ele estava perto. Perto demais. E ela ainda sentia o calor do sonho grudado na pele.
— Foi só… um sonho — murmurou, a voz rouca. — Um pouco real demais, talvez.
não respondeu. Os olhos dele desceram até o pescoço dela, onde gotas de suor brilhavam sob a luz fraca da lua.
— Você tava se debatendo. E chamando meu nome.
A frase caiu no quarto como um raio silencioso.
prendeu a respiração.
Ele disse aquilo sem tom de brincadeira. Sem sorriso. Só fato.
Ela sentou-se na cama, virando o rosto, sem saber o que dizer. Mas ele já estava ao lado dela, a mão roçando devagar suas costas, como se tentasse acalmar uma fera assustada.
— Não foi nada — ela insistiu, mas sua voz tremeu. — Vai passar.
tocou seu ombro, a pele arrepiando imediatamente.
— Quer que eu fique um pouco mais perto?
Ela deveria dizer “não”. Gritar “cláusula 3”. Jogar um travesseiro nele.
Mas o sonho ainda estava nela. O calor, o toque, o olhar.
— Fica.
Ele deitou ao lado, virado para ela. E dessa vez não havia espaço entre os dois. O braço dele envolveu sua cintura devagar, e a testa dele encostou na dela.
Silêncio.
Calor.
Corações acelerados.
E quando ele passou os dedos pela lateral de seu rosto, fechou os olhos. Não por ensaio. Mas por desejo.
— Isso ainda faz parte do nosso teatro, certo? — ela sussurrou.
— Não. — ele respondeu. — Mas eu não vou parar… se você não quiser.
Ela hesitou. Só por um segundo.
E então, com um suspiro, encostou os lábios devagar na bochecha dele. Só um toque. Só um gesto. Mas que dizia tudo.
Eles haviam saído do script.
E já não estavam nem um pouco preocupados com isso.
Ainda estavam deitados. Um na frente do outro. Perto demais. Silenciosos demais para não estarem dizendo nada.
A respiração de já tinha voltado ao normal, mas o coração ainda batia alto. O toque dos dedos dele na lateral de seu rosto continuava. Lento. Intencional. Como se cada centímetro importasse.
Ela abriu os olhos e encontrou os dele. Escuros, firmes, mas... vulneráveis. Havia algo ali que não era mais só carência, nem charme, nem desespero por aprovação familiar.
Era ele. Nu em expressão. De verdade.
E pela primeira vez desde que aquilo tudo começou, teve medo de se perder dentro daquele olhar.
— Você sempre olha assim pras garotas que beija? — ela perguntou, a voz baixa, rouca do sono… e de outra coisa.
— Eu não olho assim pra ninguém — ele respondeu, sem pensar.
E então, se aproximou.
Foi devagar. Como se ainda houvesse espaço para recuo, para desistência, para fingir que estavam apenas sendo levados pelo papel. Mas quando os lábios se tocaram — um leve roçar, uma linha tênue entre provocação e entrega — nenhum dos dois recuou.
O beijo veio como um suspiro contido por noites.
Os lábios se encaixaram com uma facilidade absurda, como se estivessem esperando por isso o tempo todo. aprofundou devagar, segurando o rosto dela com uma das mãos, os dedos firmes, a boca quente e controlada — por enquanto. sentiu o corpo todo vibrar em resposta, como se o sonho tivesse voltado, só que dessa vez em carne viva.
Ela segurou o braço dele, buscando apoio, porque o mundo girava de um jeito diferente quando a beijava. Não havia mais acampamento. Nem cláusulas. Nem contrato. Só calor.
Só desejo.
Só eles.
E foi quando ela soltou, entre beijos curtos e ofegantes:
— ...
Que a porta bateu uma, duas vezes — e abriu.
— Filh- AI MEU DEUS! Desculpa! — A voz da senhora surgiu em meio a um estrondo de passos para trás e a porta sendo fechada com pressa. — Eu ouvi ela te chamando alto e achei que... que... Ai Senhor!
Os dois congelaram.
ainda tinha a mão no rosto dela. estava sem ar, com os lábios levemente entreabertos e o corpo todo em alerta.
— Merda — ele sussurrou, se afastando com cuidado. — Ela ouviu você me chamando durante o sonho...
— E agora acha que a nora tava tendo um surto místico no meio da noite.
cobriu o rosto com as mãos, rindo nervosa. O gosto do beijo ainda estava nos lábios. E a urgência que ele carregava... ainda fervia na pele.
— Isso foi uma péssima ideia — ela murmurou.
— Foi a melhor ideia que eu já tive — respondeu.
E ela odiou o quanto queria beijá-lo de novo.
Mesmo com a mãe dele ali, do lado de fora, murmurando algo como “vou orar por esses jovens” e se afastando no escuro da madrugada.
A sensação do beijo ainda estava ali. Nos lábios, na pele, na memória. E também nos olhos dele — que não paravam de fitá-la como se soubessem de um segredo. E sabiam. Porque o beijo tinha mudado tudo.
Mas o pior mesmo foi quando Eun-ha se aproximou logo cedo, com um sorriso largo demais e um prato de panquecas nas mãos.
— Dormiram bem, meus queridos?
arregalou os olhos por um segundo antes de sorrir falsamente.
— Muito. Muito bem. Uma noite… abençoada.
tossiu para não rir.
— Que bom! Porque eu estava orando ali de madrugada quando senti que devia visitar vocês. Deus toca o coração da gente assim, de repente. — Eun-ha olhou diretamente para , com os olhos brilhando. — E ouvir você chamando o nome do meu filho daquele jeito... foi muito emocionante. Senti mesmo a conexão espiritual entre vocês.
se engasgou com o café.
— Ahn... claro. A conexão. — ela pigarreou. — Espiritual. Intensa, né?
olhou para o outro lado, lutando com todas as forças para não explodir de riso. O rosto dele estava levemente corado, e os lábios… ainda vermelhos demais.
— E sabe, querida — Eun-ha continuou, puxando uma cadeira para se sentar com eles. — Eu conversei com meu marido hoje cedo. E nós dois sentimos algo forte no coração. Vocês têm uma aura tão... cúmplice. Tão pura. E mesmo que o namoro seja recente, eu sinto que Deus uniu vocês por um propósito maior.
paralisou com o garfo no ar.
— Propósito... maior?
— Sim! — Eun-ha sorriu, tocando a mão dela por cima da mesa. — Eu vejo em você a futura esposa do meu filho.
engasgou com o suco.
— Mãe! A senhora tá indo rápido demais…
— Que nada! — ela rebateu com um brilho nos olhos. — Quando é de Deus, tudo flui. E olha, se vocês pensarem em noivado, vamos organizar uma cerimônia simples, só pra família, aqui mesmo no acampamento. A gente tem véu, altar, violão... E a pastora Eunice ama fazer casamentos!
soltou uma gargalhada nervosa, colocando a mão no peito.
— A senhora é um amor, de verdade. Mas vamos com calma, né? Ainda estamos nos conhecendo. Tipo... muito. Mesmo. Todo dia tem uma coisa nova. Às vezes ótima, às vezes... preocupante. — ela lançou um olhar para , que fingiu não ver.
— Claro, claro, minha filha. — Eun-ha sorriu de novo, como se já tivesse gravado o nome de em todas as toalhas da família. — Só quero que você saiba: se quiser voltar a se hospedar na nossa casa um dia... não vai nem precisar dormir no quarto de hóspede, viu?
deixou o garfo cair no prato.
— Mãe, por favor!
enterrou o rosto nas mãos.
Quando a senhora se afastou para buscar mais café, olhou para ele, os olhos semicerrados:
— Isso é sua culpa.
— Aparentemente, a minha boca tem efeitos colaterais. — ele sussurrou, provocativo.
Ela tentou parecer irritada. Tentou mesmo.
Mas parte dela ainda sentia o gosto dele.
E o problema... era querer mais.
Depois do devocional da manhã, todos estavam com o tempo livre para fazer o que quisessem. Nada de .
procurou por ele com os olhos até onde sua vista alcançava e não o encontrou. Resolveu procurar por ele nos arredores do acampamento, afinal de contas ela não queria ficar sozinha naquele covil, correndo o risco de ter sua paciência testada e acabar colocando tudo a perder. Especial com Soyun.
As vozes não vinham de muito longe e então ela parou quando enxergou ele ajudando o pai com a lenha. Os músculos estavam de fora, a regata estava amarrada na cintura por cima da calça de moletom que ele usava, e quis, quis muito desviar os olhos do corpo dele de novo, mas não conseguiu.
Os músculos dele se contraíam a cada movimento, os braços expostos e ligeiramente suados sob o sol da manhã. Ele riu de algo que o pai dizia enquanto segurava um pedaço de tronco largo demais para ser carregado por um ser humano comum. A regata amarrada na cintura deixava o tronco à mostra — definido, sem exagero, mas forte o suficiente para fazer esquecer temporariamente como se respirava.
Ela ficou parada ali por alguns segundos, escondida atrás de uma árvore, tentando decidir se aquilo era uma cilada, um castigo divino, ou apenas testes severos para o autocontrole humano.
— Tá admirando a criação divina? — A voz doce e venenosa de Soyun surgiu ao lado, e teve vontade de morder o próprio braço.
— Só observando um homem suando com lenha, nada de mais — respondeu sem tirar os olhos dele. — Relaxa, não pretendo montar um altar nem sacrificar uma ovelha.
— É que parece que você tá mais apaixonada do que diz. — Soyun comentou, com um sorrisinho enviesado. — Ou talvez esteja mesmo fingindo e esse olhar aí seja parte do teatro. Nunca se sabe, né?
a olhou de lado, com um sorriso gentil e uma leve inclinação de cabeça.
— Você fala demais pra quem perdeu a vaga.
Soyun ia responder, mas o barulho de lenha caindo atraiu a atenção das duas. , agora sozinho, havia deixado cair algumas toras e xingava baixinho. O pai já havia se afastado para conversar com outros parentes.
não hesitou. Desceu a pequena trilha de grama e caminhou até ele, que enxugava o suor da testa com o antebraço. Quando a viu, abriu um sorriso genuíno — o tipo de sorriso que fazia os joelhos dela falharem por dentro, ainda que se recusasse a demonstrar.
— Fiquei com medo de você ter fugido — ela disse, se aproximando, ainda olhando o peito dele, mas tentando se manter focada no rosto.
— Fugir? Com uma sogra tão amorosa? Nunca.
Ela riu, mas havia algo nos olhos dele. Um brilho. Um desafio. Como se ainda se lembrasse da noite anterior com cada detalhe.
— Precisa de ajuda com isso aí?
— Quer fingir que é minha noiva e também me ajudar a carregar lenha? — ele provocou. — Você tá se superando.
— Só estou me certificando de que a senhora não nos separe com base em pecado da preguiça.
Ele largou a lenha de novo e limpou as mãos na calça, aproximando-se. Estavam sozinhos agora. Ninguém por perto.
— Você tá diferente hoje. — ele disse, os olhos buscando os dela. — Mais inquieta.
— E você tá diferente também. Mais… convencido.
— É que você me beijou ontem. Isso muda qualquer homem.
deu um passo pra trás, só por segurança emocional. Mas ele a acompanhou, devagar.
— O que a gente fez... não devia ter feito. — ela disse, ainda que a voz não saísse tão firme quanto gostaria.
— Eu discordo. Acho que foi o primeiro momento verdadeiro desde que chegamos aqui.
— Foi impulso. Isolado. Acabou. — mentiu.
sorriu, se aproximando o suficiente para ela sentir o calor do corpo dele, mesmo com a manhã ainda fria.
— Então por que você não consegue parar de olhar pra mim como se quisesse de novo?
sentiu o estômago revirar. O corpo se acender. Mas antes que pudesse dar qualquer resposta — um passo pra frente, uma provocação, ou mesmo uma fuga — a voz da senhora ecoou do alto da trilha:
— , QUERIDA! O PASTOR VAI FAZER UMA ORAÇÃO ESPECIAL PELOS CASAIS JOVENS, VOCÊS PRECISAM VIR!
fechou os olhos por um segundo e bufou.
— Salva pelo sino... — ela murmurou, antes de virar de costas.
ainda a segurou pelo pulso, devagar.
— Isso ainda não acabou.
Ela não respondeu. Mas ele sabia. E ela sabia também.
E isso era o pior de tudo.
Ela sentia que estava entrando em uma espécie de seita.
apareceu logo atrás, o cabelo úmido — provavelmente havia jogado água no rosto para parecer mais... devoto. Ou talvez para esfriar a própria pele, o que parecia justo, considerando o que acabara de acontecer entre eles nos fundos do acampamento.
O pastor Eunice — uma mulher baixa, de voz doce e mãos sempre erguidas — pediu que todos se aproximassem.
— Juntem-se, queridos. e , aqui na frente. O amor jovem precisa ser celebrado e protegido.
sentiu as pernas fraquejarem quando passou o braço pela cintura dela, conduzindo-a com carinho até o centro do círculo. Estavam todos olhando. Os tios, as tias, a mãe. Até Soyun — com os braços cruzados e a expressão cínica de sempre — observava cada movimento como uma juíza implacável.
— Vamos começar com uma oração para fortalecer os laços — a pastora disse. — E depois, quero que cada casal declare em voz alta uma promessa de cuidado, entrega e fidelidade. Algo simples. Mas verdadeiro.
lançou um olhar apavorado para .
— Isso não estava no script. — sussurrou.
— Improviso faz parte da atuação — ele respondeu, com um sorrisinho de canto. — Confia em mim.
Ela não confiava.
Mas confiava.
Maldito .
A pastora começou a orar. Palavras como paciência, propósito, construção e entrega ao Senhor ecoavam entre os presentes. tentava manter os olhos fechados, mas o toque de era uma distração constante — ele segurava a mão dela com firmeza, mas os dedos acariciavam os dela por baixo. Com lentidão. Intimidade. Familiaridade.
Como se estivesse jurando algo sem dizer palavra alguma.
E então, chegou o momento das promessas.
O primeiro casal prometeu apoio. O segundo, respeito. O terceiro falou sobre “guardar o coração um do outro como se fosse templo”.
já estava suando frio.
A pastora olhou para eles com um sorriso acolhedor.
— e ?
Ele foi o primeiro a falar.
— Eu prometo ser abrigo quando ela se sentir perdida. E ser chão quando ela precisar de firmeza. — disse com tanta naturalidade que até a fogueira pareceu silenciar. — Prometo ouvir mesmo quando ela não quiser falar, e respeitar mesmo quando discordarmos. E mesmo que não saibamos o que o futuro nos reserva… eu prometo tentar.
não conseguiu esconder a surpresa. Era bonito. Sincero demais. Quente demais.
Agora todos a olhavam, esperando sua promessa. Ela limpou a garganta, tentando organizar os pensamentos. Mas só conseguiu dizer:
— Eu prometo... não bater nele em público. — ouviu algumas risadas. — E também... prometo ser gentil. Mesmo quando estiver impaciente. E lembrar que a gente tá aprendendo. Juntos. Mesmo que tudo seja meio bagunçado às vezes. — olhou diretamente pra ele. — Eu prometo não fugir... enquanto ainda tiver algo que valha a pena ficar.
Um silêncio respeitoso caiu. A pastora sorriu com ternura.
— Amém.
— Amém. — todos repetiram.
Mas o único som que conseguia ouvir era o da própria respiração.
E o único toque que ainda sentia era o dos dedos de acariciando os seus, como se a promessa dele ainda estivesse acontecendo ali. Em segredo. Dentro dela.
O quarto estava silencioso, mas os passos dele logo quebraram o momento e subiu os olhos da Bíblia para encontrá-lo.
— Você está lendo a bíblia? Isso tava no script?
soltou uma risada falsa.
— Muito engraçado você, né? Cada dia que passa, tenho mais certeza de que você é sim um comediante frustrado que só tá fazendo faculdade de engenharia civil porque seu pai te obrigou.
— É quase isso, digamos.
Ele se sentou ao lado dela na cama. O cheiro de banho recém tomado invadiu as narinas dela, e fechou a bíblia e os olhos.
— Tá perto demais, , podem chegar os ombrinhos para lá.
— Eu sou seu namorado, , podemos encostar os ombros. — Ele virou o rosto na direção dela.
— Não tem ninguém aqui, . Só nós dois.
— Só nós dois — ele repetiu, sussurrando.
Aquela frase, dita daquele jeito, parecia carregar um mundo inteiro. Um lembrete de que ali, entre as quatro paredes da cabana, não existia público. Não existiam cláusulas. Não existiam “ensaios”.
Só existia verdade.
manteve os olhos fechados por mais um segundo, tentando conter o arrepio que o tom da voz dele causou. O cheiro do sabonete ainda fresco misturado com o calor do corpo dele era uma armadilha traiçoeira. E ele ainda nem havia encostado de verdade.
— , não complica — ela murmurou, abrindo os olhos lentamente.
— Não tô complicando. Você é quem complica toda vez que eu me aproximo — ele disse, os olhos fixos nela. — Mas aí, quando eu recuo... você parece decepcionada.
— Isso é coisa da sua cabeça — respondeu rápido demais.
— É? — ele se inclinou um pouco, os ombros agora de propósito encostados nos dela. — Então, por que você não se afasta?
engoliu seco.
Ela poderia. Poderia empurrá-lo, levantar, reclamar. Mas o corpo não se moveu. O rosto dela virado para frente, mas os olhos sabiam exatamente onde ele estava.
— Porque se eu me mexer, posso te dar um tapa — ela disse, tentando manter o sarcasmo, mas a voz saiu mais fraca do que queria.
sorriu de leve. Mas o olhar não era zombeteiro.
Era... intenso.
Ele estendeu a mão e tocou de leve o queixo dela, virando o rosto dela para ele com delicadeza.
— A gente pode continuar fingindo. Mais um dia. Dois. O resto da semana. — Sua voz era baixa, quase rouca. — Mas você precisa parar de fingir que não sente. Porque eu não vou conseguir continuar mentindo pra mim mesmo.
O coração dela martelava dentro do peito.
Ele estava tão perto. Tão honesto.
Tão real.
E, por mais que ela tivesse tentado controlar tudo — os gestos, as palavras, até a própria respiração — nada disso servia agora.
Porque quando se aproximou devagar e encostou os lábios nos dela pela segunda vez… ela não teve forças pra recuar.
O beijo foi diferente do primeiro.
Mais firme. Mais seguro. Menos proibido.
Não havia plateia. Nem mãe. Nem primo. Nem Soyun.
Só a vontade represada. A confusão silenciosa. O medo de sentir e o desejo de se render.
As mãos dele seguraram seu rosto com cuidado, como se ela fosse feita de vidro. Mas a boca... a boca era fome.
suspirou contra os lábios dele, sentindo o mundo sumir. Sentindo ele.
Os dedos dela subiram até a nuca dele. E quando ele aprofundou o beijo, ela correspondeu. Sem hesitar.
Sem contrato. Sem regras.
E então, do nada — como sempre — veio o toque na porta.
Toque. Toque. Toque.
— Filhos? — A voz de Eun-ha soou do outro lado da porta. — Estão orando antes de dormir? Posso entrar rapidinho?
arregalou os olhos, afastando-se como se tivesse levado um choque.
— Essa mulher vai me matar de infarto! — ela sussurrou, já arrumando a blusa, os cabelos e pegando a bíblia caída no chão.
pegou a bíblia e entregou a ela com um sorrisinho debochado.
— Ora com carinho… e depois a gente termina de meditar.
Ela bufou, mas não conseguiu esconder o sorriso que escapou nos lábios ainda quentes.
E naquele momento, com o coração disparado e os lábios trêmulos, soube: não tinha mais volta.
Ela não conseguia dormir. Estava com o corpo em chamas e o coração não desacelerava por nada. Tudo culpa de . Ela abriu os olhos e então virou na cama, dando de cara com o rosto dele, já próximo ao dela.
As pontas dos narizes se tocaram, roçaram com gosto uma na outra e logo as mãos grandes de já estavam pousadas sobre sua cintura, puxando-a para si com certa força.
— … — ela pediu, fechando os olhos. — Sem mais ensaios, né? Acho que já estamos bem convincentes.
— Eu discordo, baby. — Os lábios dele roçaram nos dela com delicadeza, mas cheios de intenção. — Acho que ainda precisamos de mais. De mais conexão… de mais toque.
O beijo veio a seguir. Um beijo sem pressa, mas carregado de promessas. Os lábios dele exploraram os dela com firmeza, aprofundando aos poucos, como quem saboreia. As mãos deslizaram por suas costas, pela curva da cintura até alcançar a parte de trás da coxa, puxando-a ainda mais para perto, colando os corpos.
arfou quando sentiu o quadril dele contra o seu, a dureza já evidente do desejo dele pressionando seu ventre.
— A gente vai ser peg — ela disse entre um beijo e outro, a voz baixa, rouca.
— Só se você não conseguir ficar quieta — ele respondeu, os lábios descendo para o pescoço dela. — E eu sei que você consegue, . Fica quietinha... deixa eu cuidar de você.
Ela sentiu os dentes dele arranharem levemente sua pele sensível logo abaixo da orelha. Um gemido escapou involuntário, e ele mordeu o lábio dela com um aviso.
— Shh... você vai acordar a senhora , e ela vai achar que você tá tendo outra visão espiritual.
riu baixinho, perdida no meio da provocação e do fogo que se espalhava por dentro. As mãos dela buscaram o corpo dele, tocando o peitoral quente e firme sob a camiseta. Subiram pelas costelas, pela garganta, até segurarem o rosto dele com as duas mãos. Ela puxou para mais um beijo — mais faminto dessa vez. Sem delicadeza.
correspondeu na mesma medida, enquanto suas mãos trabalhavam com facilidade para subir a blusa dela. Quando os dedos tocaram sua pele nua, a reação foi imediata — um arrepio, um suspiro preso na garganta.
Ele a ajudou a se livrar da peça de roupa, sem nunca parar de beijá-la. Os lábios agora exploravam o colo, a curva dos seios por cima do sutiã, até os dedos abrirem o fecho com agilidade. sentiu o ar sumir quando ele sugou um dos mamilos, enquanto a outra mão dele deslizava por sua barriga, com uma calma que a deixava enlouquecida.
— Eu preciso sentir você inteira — ele sussurrou contra sua pele. — Posso?
Ela apenas assentiu, com o corpo arqueado em resposta.
Os dedos dele desceram lentamente por dentro da calcinha. Primeiro um toque leve, como se mapeasse o caminho. Depois, um dedo firme passou entre seus lábios úmidos, encontrando-a quente, aberta, pronta.
— Você tá tremendo — ele murmurou, com um sorriso satisfeito. — E ainda nem comecei de verdade.
Os dedos começaram a se mover, deslizando com facilidade entre os lábios, massageando o centro do prazer dela com precisão e lentidão, enquanto os beijos subiam de volta até seus lábios.
Ela agarrou os ombros dele, tentando conter os sons, mas os quadris se moviam por vontade própria, seguindo o ritmo dos dedos dele.
— Quietinha pra mim, baby... — ele provocou, os olhos fixos nos dela.
Ela mordeu o lábio inferior com força, tentando obedecer. Mas quando ele introduziu um dedo — depois dois — e começou a mover em um ritmo lento e torturante, não teve controle. O corpo dela se arqueou, trêmulo, os músculos se contraindo ao redor dele.
Ele não parou até sentir ela perder completamente o ar.
E então a despiu por completo.
Os olhos de desceram pelo corpo dela com uma reverência silenciosa. Ele parecia absorver cada detalhe — as curvas, a pele arrepiada, os mamilos sensíveis que ele já havia tocado com a boca. Mas agora, sem nenhuma barreira entre eles, havia algo diferente. Mais cru. Mais real.
já arfava antes mesmo dele se mover.
Ele desceu devagar, os lábios tocando novamente seu pescoço, mas agora com mais intensidade. Os beijos passaram pela clavícula, pelo vale entre os seios, descendo até o ventre com um carinho lento que a fazia tremer. A língua traçou um caminho pela lateral de sua barriga, enquanto as mãos seguravam suas coxas, abrindo-as com delicadeza, como quem abre um presente precioso.
— Fica aberta pra mim, ... — ele murmurou entre beijos. — Deixa eu te provar.
Ela não teve tempo de responder. A boca dele encontrou o centro do corpo dela, quente, sensível, pulsante. A língua deslizou com firmeza entre seus lábios, lenta no início, provocando, saboreando. Depois, ele sugou com precisão o ponto mais sensível, alternando entre pressão e ritmo, enquanto os dedos mantinham as coxas afastadas.
levou a mão à boca, tentando conter os sons. Mas o prazer era intenso demais.
— ... — gemeu baixinho, os quadris se movendo sob ele, desesperados por mais.
Ele respondeu com um gemido satisfeito contra sua pele, a vibração da voz dele aumentando ainda mais as sensações. A língua explorava cada parte dela, mergulhada entre os gemidos e os suspiros abafados. Quando ela se aproximou do clímax, ele recuou, subindo com os beijos até o pescoço, os seios e finalmente os lábios dela — deixando que ela sentisse o gosto de si mesma em sua boca.
— Eu precisava sentir você assim — ele disse, a respiração pesada. — Toda minha.
, ainda ofegante, retribuiu com um beijo urgente. Agora era sua vez.
Virou-o na cama, ficando por cima. Ele a observava com os olhos escuros, famintos. Ela passou os dedos pelo peito suado dele, descendo devagar, sentindo os músculos se contraírem sob o toque. A mão traçou o caminho do abdômen até a linha da calça de moletom que ele ainda vestia.
Com um sorriso no canto dos lábios, ela puxou devagar, desnudando-o por completo.
O corpo dele era tão bonito quanto parecia — forte, definido, mas sem exageros. E agora totalmente vulnerável sob as mãos dela.
Ela inclinou-se para beijar o pescoço dele, depois desceu com a boca pelo peito, até os mamilos, brincando com a língua e os dentes. arfou, os dedos cravando levemente o lençol. Quando ela desceu ainda mais e o envolveu com a mão, ele gemeu baixo, os quadris se movendo involuntariamente.
— Você disse pra eu ficar quietinha... — ela sussurrou contra a pele dele, a voz rouca de desejo. — Agora é sua vez de tentar não fazer barulho.
riu baixinho, os olhos fechados, os lábios entreabertos.
— Isso não é justo...
Ela envolveu o membro dele com a mão, lenta e firme, e começou a estimular, acompanhando o movimento com beijos molhados pelo baixo ventre, provocando cada vez que se aproximava demais e recuava.
Ele estava completamente entregue. O corpo dele reagia a cada toque, a cada provocação, como se ela tivesse o controle total — e por um momento, ela realmente teve.
Mas então ele a puxou de volta para cima, com as mãos em sua cintura e a boca colando nos lábios dela com uma fome crua.
— Agora — ele sussurrou, encostando a testa na dela. — Preciso estar dentro de você agora.
E quando ele a posicionou sob si novamente, com o corpo já trêmulo de antecipação, a penetração veio intensa, profunda e desesperadamente íntima — como se aquele momento fosse uma fusão de tudo o que reprimiram até ali.
Ele entrou devagar, os olhos presos nos dela, como se quisesse registrar cada reação. O corpo de o recebeu quente, pulsante, apertado — e o gemido contido que escapou dos dois ao mesmo tempo, quase encheu o quarto.
manteve-se parado por um instante, os corpos colados, o coração batendo contra o dela.
— Você me sente? — ele sussurrou, com a voz baixa e rouca. — Assim... inteiro em você?
Ela assentiu com os olhos úmidos, as mãos subindo pelas costas dele, puxando-o ainda mais.
— Me move, ... me mostra que isso não é mentira.
E ele mostrou.
Começou devagar, os quadris se movendo com precisão, mergulhando fundo a cada investida. Os corpos se chocavam com ritmo, pele contra pele, os sons abafados pelos lençóis e pelos suspiros roucos entre beijos e toques.
Os braços dele a envolviam com força, como se quisesse proteger e, ao mesmo tempo, perder o controle. A mão dele segurava sua coxa, puxando-a para cima, facilitando a profundidade. Os lábios percorriam sua mandíbula, a curva do pescoço, os seios, alternando entre mordidas leves e beijos molhados.
— Você é tão linda assim... — ele sussurrou, ofegante, colando a testa na dela. — Tão quente... tão minha.
Aquela última palavra fez se contorcer embaixo dele, os quadris se movendo para encontrar os dele com mais força, mais urgência.
Ela subiu as mãos até o cabelo dele, puxando com intensidade enquanto a boca buscava desesperadamente a dele. O beijo foi faminto, molhado, desajeitado de tanta entrega.
aumentou o ritmo, os quadris agora chocando-ses com mais intensidade. O som dos corpos se unindo ecoava abafado no quarto. mordeu o ombro dele para não gritar. O prazer crescia de forma contínua, latejante, tomando cada nervo.
— Você vai gozar pra mim, baby? — ele murmurou no ouvido dela, a respiração quente, o tom grave. — Quero sentir... quero ver você se perder inteira comigo.
Ela já estava perto. O corpo trêmulo, o ventre se contraindo. Bastou ele mudar levemente o ângulo, aprofundar mais uma vez, e a mão dele descer entre eles para tocar seu ponto de prazer com os dedos ágeis.
se arqueou contra ele, os lábios se abrindo em um gemido silencioso, os olhos fechando com força. O clímax veio em ondas, intenso, absoluto, arrancando o ar dos pulmões e qualquer pensamento que ainda restava.
continuou se movendo, agora mais descontrolado, os músculos tensos, o corpo inteiro tomado pelo calor dela. Os gemidos dele ficaram mais baixos, mais brutos, até que enterrou o rosto no pescoço dela e também chegou ao ápice, com um gemido abafado que soou como o nome dela.
Eles ficaram assim por longos segundos, suados, ofegantes, os corpos entrelaçados e os corações batendo no mesmo ritmo.
saiu devagar de dentro dela, beijando sua boca com delicadeza.
— Foi real — ele disse, apenas.
não respondeu de imediato. Apenas acariciou o rosto dele com os dedos, os olhos ainda turvos de emoção e exaustão.
— Eu sei.
E quando ele a puxou para mais perto, abraçando-a contra o peito nu, ela finalmente entendeu:
Aquilo nunca foi só um acordo.
Eles estavam perdidos um no outro.
E pela primeira vez... ela não queria ser salva.
O lençol cobria apenas até a cintura. A pele ainda sentia o toque dele. As pernas entrelaçadas, o cheiro de grudado no travesseiro, na cama, em cada parte dela.
Ela piscou algumas vezes, tentando lembrar se havia sido mesmo real.
E então virou o rosto.
estava acordado, deitado de lado, observando-a com aquele olhar calmo e intenso que parecia atravessar qualquer armadura que ela tentasse usar.
— Bom dia — ele disse, com a voz baixa e rouca de sono. Ou talvez ainda de desejo.
Ela demorou dois segundos para responder.
— A gente... — começou, mas a frase morreu no ar.
Ele se aproximou e passou os dedos com delicadeza pela bochecha dela.
— A gente aconteceu. E foi bom— completou por ela. — Foi o que você queria saber, né?
respirou fundo e desviou o olhar, apoiando o braço no travesseiro.
— Foi bom demais... pra continuar sendo mentira.
permaneceu em silêncio por alguns instantes, como se estivesse escolhendo as palavras com cuidado. Depois, se sentou na cama, os cabelos bagunçados, o lençol caindo da cintura para baixo, revelando parte do corpo ainda nu.
— Então deixa de ser — ele disse simplesmente. — A gente pode parar de fingir, se você quiser. Não pra eles. Pra gente.
Ela se sentou devagar, puxando o lençol para cobrir o corpo.
— Isso aqui... foi uma exceção. Uma fuga.
— E se tiver sido o começo?
O quarto ficou em silêncio.
Ela não soube o que responder. Não ainda.
E como se o universo conspirasse com sua dúvida, a batida na porta veio firme.
Toque. Toque. Toque.
— Filhos, hora do café! — A voz de Eun-ha ecoou pelo corredor. — Se atrasarem, vão perder os versículos da manhã!
fechou os olhos e suspirou. Era o lembrete de que estavam no meio de um cenário montado. Um teatro. Uma mentira com script e plateia.
Mas o que ela viveu naquela cama... não tinha sido atuação.
levantou-se, pegou a camiseta e vestiu-se sem pressa. Depois olhou para ela, que ainda permanecia sentada, pensativa.
— Eu vou esperar você lá fora — disse. — Mas não com os outros. Com você. Quando você estiver pronta... pra parar de fugir.
E então saiu.
Ela ficou ali por um tempo, abraçada ao lençol, o corpo ainda quente, os pensamentos em turbilhão.
Porque o problema não era mais fingir.
Era o medo de admitir que o que mais parecia mentira… podia ser exatamente o que ela sempre quis.
desceu para o café da manhã com os cabelos presos em um coque bagunçado e a pele ainda sensível sob a roupa. A blusa larga e o short confortável não escondiam o calor que insistia em permanecer no corpo, muito menos a bagunça que era a sua mente.
já estava sentado à mesa, cercado de primos e tias. E quando os olhos dele encontraram os dela, o mundo pareceu silenciar por um segundo.
Ele não sorriu. Só olhou.
Como se dissesse: ainda estou aqui. Ainda sinto tudo.
Ela fingiu não ver.
Sentou-se um pouco distante, cumprimentou educadamente quem estava por perto, sorriu quando alguém comentou sobre como o casal parecia cada vez mais apaixonado. E fingiu. O tempo todo.
Mas ele não facilitava.
Durante o almoço, sentou-se ao lado dela e, mesmo entre todos, manteve a mão repousada na parte de trás da cadeira — um toque quase acidental na cintura dela, mas que parecia incendiá-la.
Em determinado momento, durante a sobremesa, pegou um pedaço de bolo e ofereceu diretamente à boca dela, diante da mesa inteira.
— Amor, você precisa experimentar isso — ele disse, a voz mansa, o olhar provocativo.
semicerrou os olhos, mas abriu a boca com relutância, tentando manter o sorriso no rosto. Ele colocou o pedaço entre os lábios dela, e o polegar roçou suavemente o canto da boca. Depois limpou, devagar.
— Pronto. Não podia deixar nada escapar — murmurou, tão baixo que só ela ouviu.
Ela tossiu. Literalmente.
— Tá tudo bem, querida? — uma tia perguntou.
— Tudo. Só engasguei… um pouco com a doçura exagerada.
disfarçou a risada, mas ela o chutou por baixo da mesa. E ele respondeu com um olhar que dizia: você vai me pagar.
Mas o pior era que parte dela queria mesmo pagar. Com juros.
Mais tarde, quando o sol já tocava a linha das árvores, saiu sozinha em direção ao lago. Precisava respirar. Pensar. Ou talvez... fugir mais uma vez.
A brisa era leve, e a água refletia o céu em tons de dourado e laranja. Ela se sentou perto da borda, abraçando os joelhos. Ficou ali em silêncio por alguns minutos, até ouvir passos atrás de si.
Ela não precisou olhar.
— Achei que fosse só eu que gostava de fugir. — A voz dele soou suave atrás dela.
— Não estou fugindo — respondeu, sem virar. — Estou... tentando não me perder.
Ele se sentou ao lado. Não tocou. Apenas ficou ali.
— Eu sei o que você está sentindo — ele disse. — Porque eu também estou. E isso me assusta. Mas… ao mesmo tempo, me faz querer ficar.
Ela suspirou.
— Isso nunca foi pra ser real, . Você precisava de ajuda, e eu... eu não tinha nada melhor pra fazer.
— E agora?
— Agora... penso em você quando deveria estar pensando em como sair disso. Eu me lembro do seu toque quando estou tentando manter distância. Eu me pego sorrindo com suas provocações, mesmo quando eu quero te socar.
Ele riu, baixo.
— Isso parece amor.
— Isso parece loucura.
— Amor costuma parecer loucura mesmo.
Ela virou o rosto para ele, os olhos finalmente encontrando os dele.
— Você quer mesmo isso, ? Quer continuar comigo... quando tudo isso acabar?
Ele não hesitou.
— Quero você mesmo quando não tiver mais acampamento, nem fingimento. Mesmo quando você estiver irritada, bagunçada e me odiando um pouco. Porque, no fundo... nunca estive tão certo de alguém quanto estou de você.
sentiu o coração apertar. Não era uma declaração dramática. Nem exagerada. Mas foi sincera o suficiente pra desmontar todas as defesas.
Ela se aproximou, devagar, e encostou a testa na dele.
— E se eu ainda estiver com medo?
— Então eu espero — ele disse. — Mas vou continuar te lembrando, todos os dias, que vale a pena tentar.
O silêncio após a conversa à beira do lago ficou mais confortável do que esperava. Eles não disseram mais nada, mas andaram de volta de mãos dadas, sem esconder, sem disfarçar. E pela primeira vez desde o início daquilo tudo... eles não estavam interpretando.
O jantar foi simples, como sempre — sopa quente, pão fresco e chá. Mas havia um peso no ar quando os dois chegaram juntos, com os dedos entrelaçados à mostra. Os olhares se voltaram para eles. E não havia mais nada nos rostos além de verdade.
Soyun percebeu primeiro. Cruzou os braços, a boca curvada em um sorriso forçado. Eun-ha, no entanto, soltou um gritinho de alegria.
— Eu sabia! Eu sabia! — ela levantou, batendo palmas discretamente. — O brilho nos olhos não mente. Vocês... estão mesmo juntos, não é?
sorriu, sem hesitar.
— Estamos, mãe. Agora de verdade.
olhou para ele e depois para Eun-ha, assentindo com um sorriso tímido, mas cheio de significado.
— Sem contratos. Sem teatro. Só... nós dois.
A mãe correu até ela e a envolveu em um abraço apertado. Vários primos aplaudiram, algumas tias suspiraram alto, e Soyun revirou os olhos com tanta força que quase caiu da cadeira.
Mas quem não reagiu... foi o pai.
O senhor apenas os observava do fundo da mesa, com o copo de chá entre as mãos e o maxilar rígido.
viu. também.
E mais tarde naquela noite, ele chamou o filho para uma conversa.
ficou do lado de fora da cabana, o peito apertado, escutando apenas murmúrios abafados. Até que saiu, o semblante sério, os passos lentos. Ela se aproximou.
— O que ele disse?
— Que eu deveria ter vergonha de transformar uma farsa em sentimento. Que, se comecei mentindo, então nada disso pode ser verdadeiro.
baixou o olhar, o coração afundando.
— E você... acredita nisso?
puxou a mão dela, apertando com firmeza.
— Acredito no que vivi com você. No que você me fez sentir. No que quero construir com você fora daqui. — Fez uma pausa. — Mas ele vai precisar de tempo. E tudo bem. Eu não estou mais fazendo nada pra convencê-lo.
— Está fazendo por você — ela completou.
— Por nós — ele disse.
E então, mesmo ali no escuro, mesmo com o pai deles observando da varanda, a beijou.
Um beijo sem culpa, sem segredo, sem farsa.
O tipo de beijo que termina um teatro.
E começa uma história real.
