Codificada por: Cleópatra
Última Atualização: 10/06/2025Aeroporto de Reykjavík, Islândia — 23h47
O portão 27 está quase vazio. Passageiros irritados e sonolentos dispersam. A luz metálica do alto-falante anuncia mais atrasos. Clara, enrolada em um cachecol, segura um copo de café. Miguel folheia uma revista qualquer, alheio ao que acontece ao seu redor. A mulher para próxima ao guichê de embarque e olha para todos os lados pensando quanto tempo demoraria para embarcar.
Impacientemente se aproxima de uma das cadeiras vagas, duas de distância de Miguel. Que tira seus olhos da revista de esportes a respeito do próximo craque do seu time Arsenal. Um murmúrio sai dos seus lábios ao perceber como o perfume da mulher é doce e lhe agrada, mas a atenção volta ao painel, vendo mais um voo sendo cancelado.
— Segundo voo cancelado hoje. — Comenta mais pra si, ao sentir o olhar da mulher, nota que havia falado alto demais.
— Ou é apenas uma má administração. — Dá de ombros ao soltar um suspiro baixo dos seus lábios.
— Começo a achar que é um sinal. — Miguel vira sua cabeça e coloca seus olhos na mulher ao seu lado, imediatamente o coração foi a boca.
— Acredito que sinais são mais toleráveis às 2h da manhã. Nesse momento, não tanto. — Bebe um pouco do café que começava a esfriar.
Miguel permite que um riso baixo saísse dos seus lábios.
— Ou talvez a Islândia não quer que a gente vá embora.
Clara arqueia a sobrancelha e o fita por longos segundos. A barba por fazer, o cheiro de colônia e como ele parecia ter ombros largos fazem com que ela suspire discretamente.
— Você sempre costuma conversar assim com desconhecidos em aeroportos?
— Não. Nunca. — Ligeiramente responde — Miguel. — Estica uma das mãos.
— Clara. — Aperta a mão dele firmemente e solta uma risadinha.
Se encaram por longos segundos, e Clara pode jurar que Miguel consegue ler o que ela estava pensando com facilidade. Desvia os olhos e por um tempo, fita o copo com café em suas mãos que estava apoiado em seu colo.
— Terminei um relacionamento de seis anos há dois meses. Ele me pediu em casamento. Eu disse que precisava respirar. Ele disse que eu nunca mais ia amar alguém.
Depois de falar tudo de uma vez percebe o que havia falado e por breves segundos se arrepende, todavia nos segundos que se sucedem, tira aquilo da mente.
— Talvez ele não conheça todos os amores possíveis.
Houve um silencio confortável. As luzes do portão os envolvem num tom amarelo suado e Miguel olha o relógio em seu pulso.
— Se você estiver solteira no próximo Dia dos Namorados... — Miguel a olha e observa a sobrancelha de Clara se levantar. — Que tal a gente se encontrar aqui de novo? Portão 27. Mesmo horário.
— Isso é uma aposta? — usa seu tom de voz baixo.
— Um pacto. Daqueles que só fazem sentido de madrugada.
Novamente sustentam o olhar. Clara tem o coração na boca, como se as coisas estivessem voltando a fazer sentido depois do que ela passou. Morde o lábio inferior, tentada a aceitar. Miguel a fita, querendo guardar aquele rosto e desejando que ela aceitasse.
— Tá. Mas você precisa me trazer seu livro favorito e me contar o final da história.
— Certo.
Novamente tocam as mãos, selando a promessa. Não iriam trocar números de celular, e isso deixa Clara levemente nervosa, e no fundo, Miguel também. Mas acredita que em um ano fossem se reencontrar e teriam um encontro.
