Revisada por: Saturno 🪐
Finalizada em: 20/07/2025Menos ainda para uma doença.
Um dia ele estava sorrindo para mim, dizendo que no futuro eu seria uma mulher de negócios a qual ele com certeza se orgulharia. No outro, acordamos assustadas com ele cuspindo sangue e com as horas contadas. Foram dois anos lutando contra a doença em silêncio, apenas aproveitando cada pequeno momento com a família e nosso time.
Agora era meu dever cuidar do “filho mais novo” do meu pai, seu amado time Unión Sevilla. Mesmo Juan Pérez estando na presidência interina, minha participação na administração e tomada de decisões seria bem mais ativa. Felizmente, neste momento de perda e dor, eu tinha ao meu lado. O homem que sempre foi o braço direito do meu pai desde o momento em que começou a trabalhar em nossa construtora. Me lembro do dia que o vi pela primeira vez, era o estagiário mais charmoso e atrapalhado que tinha visto. E mesmo sendo cinco anos mais velho que eu, isso não me impediu de me apaixonar por ele.
— Conseguiu dormir? — perguntou , ao perceber que eu já estava acordada.
— Não muito — sussurrei, erguendo meu corpo e olhando em direção à janela.
— Está tudo bem? — Ele ergueu seu corpo também e apoiou seu queixo em meu ombro. — Precisa de alguma coisa?
— Coragem, preciso de coragem para me levantar. — Eu me deitei novamente e puxei os lençóis.
— Você não vai ao enterro? — perguntou ele.
— Não tenho forças para isso. — Eu o olhei. — Poderia ir me representando?
— Claro. — Ele assentiu, dando um sorriso fraco, jogando seu corpo em minha direção, me deu um selinho rápido e se levantou da cama.
Eu não queria ter essa última imagem do meu pai.
Me encolhi um pouco na cama, o observando trocar de roupa. O mundo parecia estar desabando sobre mim, mas, com o carinho de , me senti segura e protegida. Porém, especificamente naquele dia, eu só queria ficar sozinha e trancada em meu quarto.
Fiquei inerte durante duas semanas.
Não tinha disposição para nada e ninguém. estava ao meu lado me apoiando, mas ainda não queria enfrentar minha nova realidade. Contudo, as coisas não melhoraram, pelo contrário, tudo parecia descer ralo abaixo. E isso começou dois meses após o falecimento do meu pai, quando o oficial declarado presidente, Juan Pérez, foi colocado sob investigação policial após denúncias de desvio e lavagem de dinheiro do clube. Eu não conseguia acreditar no que acontecia, menos ainda nas consequências dessa traição de Pérez.
— Lorenzo, eu não… — Segurei as lágrimas, sendo abraçada por minha mãe.
Lorenzo Lacerda era nosso fiel advogado, que me auxiliava tanto com as demandas do time, como com a construtora. Fiel ao legado da minha família, honesto e super competente, já havia demonstrado sua lealdade inúmeras vezes.
— Querida, se acalme — disse minha mãe, num tom baixo e compreensivo. — Deve haver uma explicação.
— Não há explicação, mãe. Nós fomos roubadas. — Eu a olhei. — Não ouviu o que o Lorenzo disse? Pérez deixou o clube cheio de dívidas, salários atrasados, nossa honra em ruínas. Só não estamos falidas graças à construtora.
Felizmente, a base do nosso patrimônio não era o pequeno time que o patriarca da família Garcia havia fundado, mesmo o vovô fazendo com que fosse a menina dos olhos de nossa família. Nosso real sustento estava na García y Tradición Constructora, que carregava o ofício de uma família de engenheiros e arquitetos. E eu, como uma boa Garcia, havia me formado pela Universidade de Sevilha, no curso de Arquitetura.
— , vamos pensar com calma, podemos resolver isso. — Minha mãe continuava serena e confiante.
— Não podemos. Justo agora que é época de renovação de contrato, mesmo com os lucros da construtora e os patrocínios atuais, não temos como arcar com as propostas. — Eu me sentei novamente no sofá e passei a mão no cabelo, com os olhos cheios de lágrimas. — O que faremos? Quando a mídia souber da nossa situação, os diretores vão cair em cima de nós como urubus em carne morta, querendo dissolver o clube, ou pior… vendê-lo.
— Eles podem fazer isso, Lorenzo? — Minha mãe o olhou preocupada. — Podem vender nosso precioso clube?
— Isso depende do tamanho da dívida, se o clube irá manter sua credibilidade diante dos patrocinadores e também da torcida — Lorenzo respondeu. — Podemos marcar uma reunião extraordinária para avaliar o estrago e traçar nossa estratégia.
— E quem seria a melhor pessoa para o novo cargo de presidente? — perguntou minha mãe.
— Quem mais seria? — Eu lancei-lhe um olhar óbvio. — , claro. Era o braço direito do papai, conhece o clube mais do que todos.
— Então marque a reunião extraordinária, Lorenzo — pediu minha mãe.
— Farei agora mesmo. — Ele se retirou para fazer as ligações necessárias.
— Onde está ? — perguntou ela, ao voltar sua atenção para mim.
— Em Barcelona. Ele viajou para visitar sua avó, que está doente, mas disse que voltaria até amanhã — expliquei.
— Você confia muito nesse jovem — comentou minha mãe, dando alguns passos até a sacada do meu apartamento.
— Claro que confio, ele sempre foi leal ao papai e ao Unisevi. — A olhei meio chateada por seu comentário repentino, como se desacreditasse de .
— Espero que ele continue assim. — Ela se virou para mim e sorriu. — Filha, só não quero passar por mais sofrimentos que já passamos.
— Não vamos. vai nos ajudar a resolver isso, vamos conseguir salvar o clube e vai ficar tudo bem. — Sorri de volta.
Eu estava confiante.
E essa confiança me fez dormir bem e tranquila à noite, apesar de sentir a falta de . Na manhã seguinte, me preparei para a reunião e fui tomar café da manhã com minha mãe no Starbucks. Fomos juntas, na companhia de Lorenzo para o nosso centro de treinamento do time, o Cuidad La Unión, que ficava bem ao centro do bairro San Pablo. A reunião estava marcada para às duas da tarde, logo após o almoço no escritório das instalações. Fui a primeira a chegar e me colocar sentada na cadeira do presidente. Como herdeira, aquele era teoricamente meu lugar, mas somente até retornar e ser eleito oficialmente. Aos poucos, as outras pessoas que compunham a diretoria foram chegando e se acomodando. Todos se mostraram surpresos ao me verem sentada onde estava.
Principalmente meu primo, que sempre almejou aquele lugar.
— O meu tio mal se foi e já está se sentando aí? — Seu tom sarcástico me embrulhou o estômago.
— Se tivesse consciência do que está acontecendo, não falaria assim — retruquei, mantendo minha voz firme.
— Não vamos começar uma discussão agora, e Murillo — mamãe nos repreendeu.
Ele segurou o riso e se sentou na cadeira que dava em frente à minha mãe, que, pelo olhar, mostrava o descontentamento com o comentário dele. Assim que Lorenzo deu início à reunião, os diretores começaram a falar juntos, e o caos se instaurou naquela sala, até que eu soltei um grito, atraindo a atenção de todos para mim.
— Senhoras e senhores, não estamos aqui para promover brigas e desconfianças entre nós, estamos aqui para resolver um problema. — Iniciei, ponderadamente. — Fomos roubados, estamos com dívidas e precisamos de uma solução.
— Vender o clube, essa é a solução — disse Torres, nosso diretor de patrimônio, com convicção.
— Não, meu pai deu a vida por esse clube, assim como meu avô, que o fundou. É o legado da minha família. Vender não é uma possibilidade — retruquei com clareza para que entendessem.
— E como acha que vamos superar a crise, senhorita Garcia? Logo os bancos e a FIFA vão querer nos engolir no café da manhã — argumentou Francesca, nossa diretora financeira.
— Sem contar os jogadores. Hoje seria a reunião para a renovação dos contratos com eles, fechamos dois contratos que não teremos dinheiro para pagar — completou Sanches, o diretor de comunicação. — Não temos dinheiro para nada, o pouco que resta em caixa foi congelado pelo governo até terminarem a investigação do Pérez.
— Seria mais fácil se tivessem jogado uma bomba aqui. — Murillo deu um sorriso irônico. Mesmo não o suportando, tinha que admitir que ele fazia um excelente trabalho na diretoria de futebol, tinha o dom para descobrir talentos. — Mas… Não acredito que vou dizer isso… Estou do lado da minha prima, vender não é uma opção. Teremos que encontrar outro meio para solucionar tudo sem comprometer ainda mais a imagem do clube.
Eu estava surpresa com o apoio dele.
— Primeiro, a lista dos jogadores presentes, quem vai sair e quem vai ficar. Vamos conversar com um por um, individualmente, depois com os dois contratados recentemente, e então resolvemos como vamos pagar — disse, apontando as prioridades.
— Temos a imagem do clube que sempre foi íntegra desde a fundação, nossa influência em Sevilla cresceu nos últimos anos, depois que conseguimos disputar nosso primeiro La Liga, e a torcida a nosso favor, então, com certeza um homem mau carácter não vai manchar a história do Unisevi — garantiu Murillo, completando minha frase de forma impecável. — Mesmo com a dívida, será possível conseguir empréstimos e nos preparar para a nova temporada. Nossos patrocinadores são leais ao clube, e aos poucos vamos obter lucros com as partidas e o marketing, que ajudarão a pagar tudo.
— Murillo tem razão — concordei.
Não acredito que disse isso.
Era inesperado, mas eu tinha mais um aliado naquela batalha, um o qual eu menos esperava. O som de batidas na porta atraiu nossa atenção. Lorenzo, nosso diretor jurídico, se afastou de mim e foi abrir. Eu esperava que fosse , mas em vez disso, era uma integrante do setor de assessoria de imprensa.
Com um olhar preocupado e assustado.
— O que aconteceu? — perguntou minha mãe.
— Bom dia, senhores e senhoras. — Ela adentrou a sala com um tablet nas mãos, um tanto acanhada por atrapalhar a reunião. — Odeio ser portadora de novas más notícias, mas temos um novo problema.
— Diga logo, Celeste — disse Marlova, a diretora de marketing, recém contratada, demonstrando impaciência.
— Acabaram de noticiar nas mídias sociais que todos os contratos do Unión Sevilla foram transferidos para outros times espanhóis — anunciou ela. — Em nosso cronograma, hoje seria a renovação dos contratos, mas os jogadores assinaram com outros times.
— O quê?! — dissemos todos ali em coral.
— Como isso pôde acontecer? — perguntou Torres.
— Parece que a real situação do clube foi compartilhada com a imprensa, e todos estão comentando sobre o Unión Sevilla estar falido e sem dinheiro para pagar os funcionários — explicou ela.
— Quero que pegue os contratos agora e traga aqui — pedi a ela, tentando manter minha estrutura mental intacta.
— Não posso, senhorita Garcia. Os contratos sumiram — respondeu ela.
— Como assim sumiram? — Murillo se levantou de sua cadeira. — Eu sou o responsável por cada contrato desse time. Eles sempre ficam no cofre da diretoria, na sala de troféus.
Se tinha uma coisa que eu admirava em meu primo, era sua dedicação ao seu trabalho no clube. Seu olhar crítico para cada jogador foi o que nos proporcionou a montagem de grandes times ao longo dos últimos cinco anos, em que ele estava à frente deste setor. Tudo era feito de forma tão impecável, para que ninguém conseguisse colocar defeito em seu trabalho.
— Não está lá, senhor — afirmou Celeste. — Eu procurei hoje cedo quando cheguei. O cofre estava vazio.
— Quantas pessoas têm acesso a esse cofre? — indagou Francesca.
— Mudamos a senha após a última contratação. Somente quatro pessoas sabiam — respondeu Murillo, pensativo. — Eu, Pérez, meu falecido tio e .
— Então foi o Pérez — constatei.
— Ah, claro, seu namorado é um santo. — Murillo riu com ironia. — Acontece que Pérez está em prisão preventiva, e até anteontem à tarde eu conferi e os contratos estavam lá, meu tio está no cemitério e eu estou aqui apoiando o Unisevi. Quem é que sobra mesmo?
— Não. — Sorri de nervoso, sentindo as lágrimas se juntarem no canto dos olhos. — jamais faria isso com o clube.
— Pérez é meu padrasto e nos roubou — argumentou Murillo. — Só porque ele dorme com você, não é garantia de lealdade.
Eu me enchi de fúria.
No impulso da raiva, me levantei da cadeira e dei um tapa no rosto de Murillo. Suas palavras e insinuações formavam um nó em minha garganta que a fazia arder. Logo minha mãe começou a sentir um mal-estar e desmaiou. Foi a gota que faltava para que eu quase despencasse por completo. Por sorte, Lorenzo e, inusitadamente, Murillo me ajudaram a socorrê-la e a levar ao hospital.
Sua pressão estava tão baixa que ficaria em observação.
— Eu não vou sair do seu lado — garanti a ela, após a saída do médico.
— Vai, sim. Unisevi precisa mais de você do que eu agora — disse ela. — Eu vou ficar bem. Tem muitos médicos aqui, então ligue para a Nana e peça que fique aqui comigo.
— Mas, mãe… — Tentei questionar.
— Mas nada, Garcia. — Ela engrossou a voz. — Você é filha do seu pai e não vai se deixar abalar. Levante a cabeça e tome a frente do problema.
Assenti, segurando as lágrimas.
Eu precisava ser forte, não mais por mim, mas pela minha mãe, que via meu pai em mim. Retirei o celular do bolso e liguei para Nana. Ela era o braço direito da minha mãe, trabalhava para nossa família há anos e ajudou meus pais a me criarem. Tinha ela como uma segunda mãe. Assim que ela chegou, eu voltei para o centro de treinamento junto a Murillo e Lorenzo. Os diretores já tinham ido embora. Para eles, não havia mais nada a ser feito além da venda do clube.
Mas não era o fim.
— E agora, o que fazemos? — perguntou Murillo, ao se colocar ao lado da janela e me olhar preocupado. — Eu não estou recuando, não quero a venda do Unisevi, mas precisamos de um bom plano para calar a boca dos diretores.
— Precisamos de tempo — disse Lorenzo, ao se sentar em uma das cadeiras.
— Não temos tempo. O La Liga vai começar em três meses — retrucou Murillo. — Finalmente superamos a segunda divisão mais uma vez e teremos nossa terceira participação entre os grandes.
Aquela temporada tinha um peso de importância para nós.
— Não está ajudando, Murillo — sussurrei frustrada com os fatos.
— Estou sendo realista. — Devolveu ele, ponderando a voz. — Não temos dinheiro, não temos jogadores e, nessa altura das informações vazadas, não temos nem a credibilidade e a imagem mais.
— Ficar em desespero não vai ajudar — Lorenzo interviu. — Sejamos racionais e vamos pensar com calma.
— Chame os diretores novamente aqui. — Iniciei, com firmeza. — Murillo, agora é a sua vez de mostrar que realmente é competente. Convença os diretores a nos darem uma temporada para reerguer o clube.
— Uma temporada? Não temos jogadores nem recursos para enfrentar o primeiro jogo. — Murillo me olhou confuso. — Como vamos sustentar uma temporada?
— Nossos antepassados fundaram esse clube sem jogadores e com poucos recursos que tinham da construtora, faremos o mesmo, somos os Garcia — disse com segurança, arrancando um sorriso discreto do seu rosto.
— Muito bem, vamos trocar de função então. Você cuida dos jogadores, eu cuido dos diretores. Juntos cuidaremos da administração. — Ele olhou para nosso conselheiro. — Lorenzo, junte toda a equipe técnica junto ao treinador e esclareça todas as questões, dando liberdade para todos que quiserem ficar ou se demitirem. Mas avisem que, se ficarem, novos contratos de trabalho serão feitos e haverá um pequeno atraso nos salários.
— Sim, senhor. — Assentiu Lorenzo, se levantando.
Ele também não se dava bem com Murillo, mas no fundo sabia que, diante de uma situação dessa, meu primo daria sangue, suor e lágrimas para nos ajudar a reerguer o clube.
— E peça à equipe de marketing para lançar uma nota de imprensa falando oficialmente sobre nossa situação e que logo daremos novas informações. — Completei a iniciativa do meu primo. — Nossos torcedores merecem saber a verdade e ver que estamos de pé para lutar.
— Bem colocado — concordou Murillo.
— Então, Murillo, mãos à obra. — Olhei para meu primo e sorri confiante.
— Boa sorte. Precisamos montar uma nova equipe em uma semana no máximo — relatou ele quão delicada era essa parte. — Assim teremos tempo para prepará-los para a temporada.
— Então, senta aí, porque temos uma lista do time perfeito para montar — disse, num tom de ordem, mas descontraído.
Ele assentiu.
Lorenzo se retirou para cumprir sua missão. Eu retirei meu celular do bolso e liguei para minha amiga, ela conhecia muito mais de futebol do que eu, era uma perfeita surtada pelo esporte, e seu pai um dos melhores olheiros que já trabalhou para nosso clube. Eu a apelidava de Maria Chuteira com toda razão. Ela estava procurando emprego após ser demitida da cafeteria onde trabalhava.
— Buenos dias… Vim o mais rápido que pude — disse ela, ao entrar. Mesmo afobada por certamente ter corrido em algum momento do trajeto, sua empolgação estava a mil.
Se aproximando de mim, nos abraçamos rapidamente, e ela se sentou na cadeira de frente para Murillo.
— Você a chamou? — Ele me olhou indignado.
— Eu preciso de uma assistente, e ela é a melhor para o cargo. Se for apostar, sabe mais de futebol que nós dois juntos — defendi minha amiga.
— Isso é verdade — concordou Mercedes, dando um sorriso malicioso. — Acompanho todos os campeonatos europeus e até mesmo do outro lado do oceano lá no Brasil, e detalhe… Sei mais ainda de jogadores.
Ela deu uma piscadela boba.
Sabia que minha amiga e Murillo não se davam bem, mas tinham atração um pelo outro, o que me proporcionava momentos hilários e divertidos de presenciar. Mesmo contra, ele teve que aceitar a presença dela e seguimos com nossa micro reunião. Passamos o resto do final da tarde/noite concentrados em montar uma lista de possíveis jogadores.
Denominado por Mercedes de Equipo de los Sueños.
— Terminamos — disse minha amiga, animada. — Foi emocionante.
— Você se empolga por qualquer coisa. — Murillo bufou um pouco.
— Eu vou para casa — anunciei me levantando da cadeira. — Tudo isso que aconteceu hoje, preciso tirar satisfação com .
— Ainda está com o pensamento de defender ele? — Murillo me olhou desapontado.
— Eu preciso saber a verdade dele. — Peguei minha bolsa e ajeitei no ombro. — Mercedes, amanhã de manhã seguimos para Itália.
— Sim, senhora. — Ela bateu continência, brincando.
Eu saí da sala com o celular na mão, chamando o uber.
Não tinha psicológico para dirigir naquele dia. Assim que cheguei ao apartamento, abri a porta, já gritando o nome dele, porém tudo permaneceu em silêncio. Olhei para a mesa de centro, onde ele costumava deixar suas chaves e estava vazia, somente com um bilhete e um pedaço de linha da cor púrpura. Era uma brincadeira nossa, a linha púrpura simboliza nossos sentimentos um pelo outro, cada um ficava em uma ponta e cada nó que fazíamos na linha representava uma dificuldade superada e nosso amor fortalecido.
— Me desculpe, mas não posso ficar mais aqui — sussurrei, ao ler.
Não pode ficar mais aqui?! O quê?
Eu amassei o bilhete e, o mantendo na mão, corri até o quarto. Abri o guarda-roupas no impulso e vi que suas roupas não estavam lá. Aos poucos, os sentimentos de tristeza e traição foram tomando conta de mim. Não queria acreditar que tinha feito isso comigo, com minha família e com o Unisevi. As lágrimas começaram a sair de repente. Meu coração em pedaços. Sem forças, toda a minha sensação de segurança tinha ido embora. Eu precisava ser forte, mas não conseguia. Não encontrava forças.
Eu apenas chorei.
— Eu agradeço por nos ter recebido, Javier Cruz — disse, assim que nos sentamos em uma das mesas do restaurante do hotel Palazzo Naiadi Roma, onde ele permanecia hospedado.
Estava de manhã e podia se ver o sol brilhando do lado de fora pelos vidros da janela.
— Fiquei curioso para saber o que a nova CEO do Unión Sevilla queria comigo, mas, diante dos acontecimentos, já imagino o que seja. — Iniciou ele, demonstrando estar a par do assunto.
— Se já imagina, então não perderei meu tempo e vou direto ao ponto. — Reagi às suas insinuações. — Estou com um contrato aqui. Você foi abandonado pelo Juventus por questões de saúde, eles não acreditaram na sua recuperação e não renovaram seu contrato. Nenhum clube o quer por medo de não conseguir estar cem por cento para a próxima temporada.
— Fizeram a lição de casa. — Ele riu baixo. — Então, está me dizendo que vocês são minha única escolha?
— Não, estou colocando diante de você uma proposta de trabalho, assim como farei com outros jogadores — argumentei. — Estamos dizendo que acreditamos em você e na sua recuperação. A escolha é sua.
— Preciso pensar — disse ele.
Eu voltei meu olhar para minha amiga. Ela se manteve em silêncio, mas conhecia aquele olhar de: é tudo ou nada.
— Não disponho de muito tempo, por isso, terá que me dizer agora. — O confrontei, demonstrando segurança. — É sim ou não, sairei daqui com uma resposta.
Ele puxou o contrato que estava em cima da mesa para mais perto e olhou.
— Fique à vontade, posso esperar o tempo que precisar para ler — assegurei.
Ele manteve silêncio e voltou o olhar para os documentos.
Era um contrato muito bem planejado e construído por Murillo e Lorenzo. Não tinha como recusar, mesmo com alguns adendos sobre os salários, ele teria o apoio total do clube para sua recuperação. Após alguns minutos lendo, ele retornou o olhar para mim.
— Vocês realmente terão como me pagar esse valor?! Como pagar pela minha recuperação? — perguntou ele curioso. — Os boatos dizem o contrário.
— Os boatos também dizem que sua carreira está acabada, e nem por isso acreditamos — retruquei com confiança. — O que confirma o motivo deste contrato estar em suas mãos.
Mais alguns instantes de reflexão de sua parte.
— Vou acreditar em sua palavra em memória do seu pai, que foi um grande homem para o futebol espanhol. — Ele deu um sorriso de canto e, pegando a caneta, assinou o contrato.
Senti uma chama de esperança acender em meu coração. Era possível. Poderíamos, sim, acreditar que tudo ficaria bem e que eu veria o Unisevi se reerguer das cinzas como uma fênix.
— Só tenho uma coisa a pedir — prossegui ponderadamente, ao reconhecer o contrato assinado e colocar na pasta.
— Diga. — Ele me olhou curioso.
— Que mantenha sigilo até lançarmos uma nota oficial — pedi.
— E será quando? — perguntou ele.
— Em uma semana — assegurei.
Ele concordou sem contestações.
Parecia curioso para ver o que viria a seguir. Assim que saímos do restaurante, Mercedes me olhou com um brilho no olhar. Ela parecia mais feliz por ter ficado frente a frente com seu jogador favorito do que termos assinado o contrato. Nossa próxima parada, ao final da tarde, era em Lisboa. Murillo já tinha feito sua pesquisa de campo, e o contrato com o James Rodrigues ainda poderia estar de pé. Ao que tudo indicava, alguns dos jogadores do Unión Sevilla não aceitaram trocar de time ou cancelar o contrato conosco. Uma boa notícia em meio às tragédias.
Ainda tinha pessoas leais ao Unisevi.
Não foi difícil para minha experiente amiga achar a localização de James. Ele tinha se hospedado com a namorada no Hotel Real Palácio. Um olhar de surpresa dele, assim que me viu no saguão do hotel à sua espera. Olhei para minha amiga, que continha seu euforismo incubado. Nos sentamos no jardim do lugar para conversar.
— Primeiramente, agradeço por ter nos recebido ainda hoje — disse, me sentando na chaise. — Mais ainda por ter esperado nosso contato.
— Eu queria um posicionamento oficial do clube — respondeu ele, ao se sentar na poltrona ao lado. — Quando passei pelo Real Madrid, tive uma boa experiência morando aqui na Espanha, então jogar pelo Unión Sevilla será uma boa oportunidade para viver as emoções que só o La Liga pode me proporcionar. E, vendo que vocês conseguiram ter acesso sendo vitoriosos na segunda divisão, foi o fator crucial para minha decisão.
— Fico feliz em ouvir essas palavras — assegurei a ele. — Seu contrato atual foi vencido ontem, e estou aqui com um novo contrato e uma nova proposta para você. As expectativas do clube em relação ao La Liga são as mesmas que as suas, por isso estamos aqui.
— Não deve estar sendo um momento fácil. Pelo contrário, é bastante delicado para vocês. — Ele pegou o contrato das mãos de Mercedes e começou a ler.
Nos mantemos em silêncio, esperando sua decisão final.
Assim como Javier, James Rodriguez nos deu um voto de confiança e assinou o contrato, sem questionar nenhuma das cláusulas. Ainda se colocou à disposição para convencer outros jogadores que também não se pronunciaram a continuar conosco ou não. Foi bom ter o apoio de um jogador de renome como ele.
Mercedes queria passar a noite em Lisboa.
Entretanto, eu estava pilhada por ter somente uma semana para contactar os outros jogadores e preocupada com minha mãe. Desembarcamos já de noite no aeroporto de Sevilla. Ao entrar no uber, o cansaço tomou meu corpo, juntamente às dores musculares. Deixamos Mercedes em sua casa e seguimos para meu prédio. Desci do carro e o observei se afastando. Dei um passo, me afastando da rua e virei para a entrada do prédio.
— — sussurrei seu nome, ao vê-lo parado, com as mãos nos bolsos da calça, aparentemente me esperando.
— Boa noite, — disse ele.
Eu não tive nem tempo para planejar minha reação.
Meu corpo se moveu automaticamente e, quando dei por mim, já havia lhe dado um tapa em sua cara. Ele respirou fundo, mantendo o olhar no chão por segundos.
Senti as lágrimas escorrerem em meu rosto.
— Confesso que mereci. — Ele sorriu de canto e me olhou. — Como está?
— E isso te importa? — Limpei meu rosto. — Como ainda tem coragem de estar aqui depois do que fez?
— Não vou me dar ao trabalho de explicar que tive meus motivos… — Iniciou ele.
— Que motivos você teria para trair minha família e nos roubar? — o confrontei. — Ainda fugir assim, agindo como um covarde.
— Eu estou aqui, não estou? Isso faz de mim um covarde? — retrucou ele. — Sei que está zangada, então vou relevar suas palavras.
Seu olhar sereno para mim me deixava ainda mais revoltada com ele.
— Zangada? Eu estou furiosa, ardendo em raiva de você. — Comecei a bater nele, o empurrando enquanto as lágrimas continuavam a descer. — Eu te odeio, . Você destruiu meu coração, minha confiança.
— Calma, ! — Ele segurou de leve em meu pulso para que eu parasse. — Você pode se machucar.
— Não toque em mim. — Eu meu soltei dele com facilidade e, pisando em falso, me desequilibrei.
me segurou pela cintura e me olhou com intensidade.
Aquele olhar que fazia meu coração acelerar sempre. O mesmo olhar que há dois dias me transmitia força e segurança. Meu corpo se estremeceu com seu toque. Entre razão e emoção. Claro que ainda mexia com meu psicológico. Não se deixava de amar uma pessoa do dia para noite, pior ainda perder a atração por ela.
E ele sabia todos os meus pontos fracos.
— Eu disse. — Ele suavizou a voz, mantendo o tom de preocupação. — Se acontecer algo com você…
Ele desviou o olhar, parecia reprimir seus sentimentos. Eu me afastei dele e respirei fundo.
— Fique longe de mim e da minha família — o adverti, me virando para entrar no prédio.
Abalada era a palavra que me definia.
Foi ao fechar a porta que tudo desabou e, sentada, fiquei encostada na porta, chorando mais um pouco. Se eu tinha reunido coragem para lutar com a ajuda da minha mãe, havia perdido metade agora. Passei alguns minutos ali, até que me levantei. Deixei a bolsa no sofá e segui para o banheiro. Enchi a banheira com água quente e entrei. Mantive o celular no silencioso, somente tocando algumas músicas.
Essa era eu me forçando a superar o peso do primeiro dia.
Os dias seguintes se passaram com boas e más notícias. As negociações com os jogadores foram intensas e obtivemos duas respostas negativas que nos fizeram buscar novas opções. Outra preocupação que surgiu foi a redução da equipe técnica pela metade, assim como o pedido de demissão do técnico atual. Mais uma coisa a nos preocuparmos. Foi então que nossa assessoria de imprensa recebeu uma ligação curiosa e inesperada. O senhor Luiz Felipe Scolari queria uma reunião comigo e Murillo. Era inacreditável saber que um técnico brasileiro de renome estava interessado em nosso time. Aceitamos de imediato e no domingo pela manhã a sala de reuniões do centro de treinamento já se encontrava à nossa espera.
— Ficamos surpresos e curiosos com sua ligação — comentou Murillo.
— Imagino. — Ele manteve a seriedade no rosto. — As notícias da demissão do Chekhov e da situação do Unión Sevilla chegaram ao Brasil.
— Ele pediu a demissão — corrigiu Murillo.
— Eu pedi por essa reunião para me oferecer a ficar no lugar dele — revelou o brasileiro.
— O quê? — Fiquei impressionada com sua posição. — Você quer ser o técnico do Unión Sevilla? Você levou a seleção brasileira a vencer uma copa do mundo. Somos um time que acabou de sair da segunda divisão, pela terceira vez.
— Sim. Mesmo que os tempos sejam incertos e delicados, quero ajudar — justificou ele, seu olhar transmitia sinceridade. — Gosto de desafios, pôde ver isso em 2002, e o Unisevi, mesmo não parecendo, se demonstrou um time promissor na última temporada. Eu acompanho os campeonatos espanhóis, não somente os italianos.
— Bem, estamos surpresos, mas não nos vemos despreparados. — Murillo se inclinou na cadeira, pegando a maleta, e retirou o contrato de dentro.
Aquele documento já tinha sido preparado por Murillo antes de recebermos a ligação dele.
Como diz minha mãe: Um prevenido vale por dois.
Continuamos a conversa após a assinatura do contrato, já marcando a data oficial do início dos treinos. Com tudo pronto, novos contratos assinados, equipe técnica, técnico, novo time e os demais funcionários confirmados, a equipe de comunicação lançou a nota de imprensa. Nossa fase dois estava iniciando e com todos sendo surpreendidos com as notícias. Principalmente .
Que não se conteve em me mandar uma mensagem pelo whatsapp.
Sabia que conseguiria. Parabéns!
Fiquei olhando aquelas palavras por um tempo. Não sabia se ficava impressionada por ele aparentemente acreditar em mim, ou furiosa por me dirigir a palavra.
Isso foi um deboche?
Deixei o celular em cima da cama e fui até o banheiro. Quando retornei, já tinha outra mensagem dele.Acredite ou não, estou torcendo por você.
Não preciso de sua torcida
sou filha do meu pai
não desisto fácil
te vejo na reunião de clubes do La Liga.
Sim. A reunião de clubes para o início do campeonato espanhol.
Não tinha me lembrado disso e não queria ter que lidar com esse evento. Deixaria a cargo do Murillo, já que tínhamos dividido as responsabilidades igualmente. Mas é claro que minha mãe não me deixaria ficar escondida. Sua chantagem emocional disfarçada de motivação foi o gatilho para eu comparecer ao lado do meu primo, na tarde em que os presidentes dos times se reuniram com a FIFA para acertar os últimos detalhes.
— Não vai nem me dar um oi? — perguntou , ao se aproximar de mim no coffee break oferecido após a reunião.
— Não quero perder meu tempo com você — respondi, dando de ombros e voltando meu olhar para o lado.
— Se faz de difícil, mas manteve seu olhar em mim a reunião toda — observou ele, precisamente. — Saudades ou ciúmes?
— O quê? — O olhei chocada com a insinuação. — Nenhum dos dois, principalmente os ciúmes.
Será que não estava?!
Internamente, tinha que confessar que fiquei incomodada ao ter visto uma foto dele com a filha do dirigente do Barcelona, em seu jantar de comemoração por ter assinado contrato com eles para a diretoria. Mas chegar a classificar como ciúmes era um ultraje.
— Até quando não sabe que está mentindo eu consigo perceber que está. — Ele sorriu de canto e manteve o olhar intenso.
Respirei fundo, não me deixando levar pelo charme tentador dele.
— Está enganado, a única coisa que sinto por você é desprezo — afirmei.
— Tem certeza? — Ele se aproximou mais de mim e tocou de leve em minha cintura, dava para sentir seu perfume. — Diga isso novamente, mas faça seu coração parar de acelerar por mim antes.
Errado ele não estava.
Fechei os olhos de forma espontânea. Não sabia se esperava por um beijo dele, ou se controlava a raiva que lutava contra os sentimentos dentro de mim. Um misto de amor e ódio, razão e emoção que me deixava louca para agarrá-lo e ao mesmo tempo matá-lo. Em segundos, coloquei a mão no coração, acalmando meu interior, então abri os olhos. já havia se afastado de mim e estava falando com o presidente do Barcelona.
— Filho da mãe — disse, em sussurro. — Ele me paga.
— Está tudo bem? — perguntou Murillo, se colocando ao meu lado. — O que ele falou com você?
— Nada de importante. Podemos ir embora?
— Se você quiser.
— Eu quero — afirmei.
Me movi para sair de lá, mas, ao olhar para com seu sorriso sarcástico no rosto, não me contive em me aproximar dele novamente.
— Sorria enquanto pode, porque em breve você vai cair — o alertei segura, então voltei meu olhar para o presidente do Barcelona. — E você verá o Unión Sevilla renascer das cinzas para continuar mostrando que somos fortes e não desistimos.
Não deixei que eles tivessem a oportunidade de contra argumentar. Saí, sendo acompanhada por meu primo.
Experiência pode ser ganhada todos os dias
Até agora, tenho superado a mim mesmo.
— Purple Line / Dong Bang Shin Ki
Três meses passam rápido.
Principalmente quando se está lutando contra o tempo para chegar à harmonia de um time. Nesse tempo, tive alguns encontros não planejados com . E em todos tivemos nosso atrito de um desafiando o outro a mostrar quem desistiria primeiro. Era estranho ver que, a cada encontro, eu e desenvolvemos um espírito competitivo e de rivalidade. Não conseguia entender quando foi que ele virou para o lado negro da força e se deixou seduzir pelo Barcelona. Contudo, não me importava com isso, estava concentrada em minha Equipo de los Sueños.
A fase 3 deu início no jogo de estreia do La Liga.
O novo Unión Sevilla contava com onze jogadores em campo e mais cinco reservas, algo que me deixou surpresa por termos conseguido devido às condições. Todos estavam preocupados com a parte financeira, mas eu tinha a segurança de que todo o dinheiro que havia sido roubado e congelado pela justiça em breve retornaria para nós, os verdadeiros donos.
— Eu não vou assistir — disse pela vídeo chamada do whatsapp, ao me levantar do sofá, minutos antes de começar a primeira partida.
Era curioso ser exatamente contra o Barcelona.
— Como assim, não vai assistir? — Mercedes fez uma cara confusa. — Amiga, é o primeiro jogo.
— Estou tão nervosa que prefiro nem ver, por isso não quis ir ao estádio — expliquei a ela, pegando o controle da televisão e desligando o aparelho. — Mas vou acompanhando suas reações.
— Tem certeza? Seu primo sempre me chamou de escandalosa quando assisto jogos de futebol perto dele.
— Por isso mesmo. Mesmo não vendo, quero sentir a vibração. — Senti meus olhos brilharem. — É como ver o estádio La Unión lotado de torcedores do Unisevi em dia de El Clásico.
— Que fofo, amiga. — Ela pareceu se sentar no chão. — Ah, vai começar.
Meu coração pulsou mais forte ao ouvir pelo celular o apito inicial.
Foram os 90 minutos mais agonizantes e longos da minha vida. Eu chorei, sorri, vibrei, xinguei junto a Mercedes, desfrutei de diversas sensações ao mesmo tempo, principalmente insegurança. Contudo, ao apito final, a única coisa que eu sentia era alívio. Encerrei a ligação com minha amiga festejando do outro lado. Não havia sido uma vitória, mas também não havia sido uma derrota. E então entrei na página do google para pesquisar. Precisava ver com meus olhos a notícia de que meu time sobreviveu ao primeiro jogo.
Senti orgulho ao encarar a tela mostrando o placar final:
Não me contive de felicidade. Tanto que, quando me dei conta do que tinha feito, a mensagem que tinha enviado ao já tinha sido visualizada.
Meu corpo gelou.
— , sua boba, por que fez isso? — disse, jogando o celular no assento do sofá e suspirando fraco. — O que ele vai pensar? Que está tudo bem entre nós?
Não podia me dar ao luxo disso. Afinal, ele tinha me traído. Me enganado esse tempo todo. O celular vibrou de repente. Uma mensagem dele.
Senti sua provocação daqui.
como se estivesse na minha frente
qual o insulto do dia?
que eu sou o homem mais intenso que já beijou?
não é insulto, é elogio
Eu fiquei em choque com sua resposta.
Bastardo.
Você realmente se acha mesmo?
Além de velho é convencido
você sempre beijou mal
Ele odiava quando o chamava de velho só por nossas diferenças de idade. Ele beijar mal era uma mentira, mas quem ligava mesmo?
Admite que sente falta do meu beijo
Admitir algo que não sinto?
Por que mandou a mensagem então?kkkkkkkkkkk?
Eu rolei a barra para ver de novo a mensagem louca que tinha enviado.
— Esse placar foi de empate, mas com gosto de beijo da vitória — sussurrei, ao ler.
, o que você foi escrever?!
Eu ri de nervoso, querendo me bater.
Logo tocaram a campainha. Me levantei e fui atender. Quando abri a porta, não tive tempo de uma reação imediata. se aproximou e me beijou de surpresa e com intensidade. Meu corpo se lembrava daquele beijo, tanto que reagiu na mesma proporção.
— Também acho que vale o beijo da vitória — disse ele, dando um sorriso malicioso.
— Seu abusado. — Eu bati em seu ombro, o empurrando para longe. — O quê? Quem deixou você fazer isso?
— Você, quando me mandou a mensagem. — Ele mantinha aquele olhar tentador.
— Cínico, foi uma mensagem sarcástica, provocação entre rivais, não entendeu? — retruquei, com ele me ignorando e entrando no meu apartamento.
— Vai me dizer que não gostou? Não sentia falta? — insistiu ele naquele absurdo.
— Claro que não. — Desviei discretamente meu olhar para o pulso dele e vi uma linha púrpura amarrada nele.
Aquilo mexeu um pouco comigo, mas manteria a postura firme.
— Você não sabe mentir.
— Não estou mentindo. — Eu me voltei para porta e a abri. — Agora saia.
— É sério?
— Achou mesmo que está tudo bem? — O olhei com firmeza, tentando não focar muito em seus lábios. — Sai.
respirou fundo e, mesmo contrariado, saiu do meu apartamento.
Assim que chegou do lado de fora, fechei a porta na cara dele. Suspirei um pouco. O que tinha acontecido? De onde ele saiu? E aquele beijo? sabia me deixar maluca, não só com nossa rivalidade, mas também com o que ainda sentia por ele.
Quanto mais eu queria esquecê-lo, mais eu o amava.
As semanas seguiram com o La Liga fazendo recordes de público e sendo o campeonato mais falado em toda a Europa. É claro que o Unión Sevilla estava no topo dos comentários por nosso bom desempenho, mesmo diante de tantas turbulências. A cada jogo que ganhava ou empatava, mais raiva em eu fazia. Na sexta rodada de jogos, bem no sábado após eu acompanhar a derrota do Barcelona para o Sevilla por 1 x 0, começou a chover. Estranhei um pouco por não ter respondido minha mensagem debochando do time dele.
Eu não deveria ficar preocupada, mas fiquei.
Comecei a ligar para ele diversas vezes, todas caindo na caixa postal. Fui dormir preocupada com seu breve desaparecimento. Foi no cair da madrugada, com o barulho de trovões e uma tempestade do lado de fora, que a campainha tocou. Acordei no susto e, imaginando que pudesse ser , corri para atender. Como eu previ, era ele ali, diante de mim, encharcado pela chuva e aparentemente chorando.
— Ela morreu — sussurrou ele.
Parecia um cachorro sem dono.
— Quem?! — perguntei preocupada.
— Minha avó. — Sua voz fraca saiu em sussurro.
Ele entrou, já me abraçando.
Pelo pouco que eu conhecia, jamais brincaria com uma notícia dessa. Mama Ava, como ele a chamava desde criança, tinha mesmo problemas respiratórios de saúde que se arrastavam desde que se aposentou do longo período trabalhando em fábricas de tecido. Ele havia sido criado por ela, pois seus pais faleceram alguns dias após seu aniversário de 7 anos.
— Nem sei o que dizer — sussurrei, retribuindo o abraço, sem me importar com suas roupas molhadas.
— O que eu faço agora? Ela era minha única família. — Ele chorou mais em meu ombro, se aninhando a mim. — Isso é algum tipo de castigo?
Eu poderia aproveitar o momento e jogar em sua cara o que fez com minha família, que também era dele. Mas meu coração estava tão apertado de ver sua realidade. Mama Ava era uma senhora simpática, que sempre me tratou bem e me pedia para cuidar do seu neto travesso.
— Baker, pare de dizer bobagens. Você vai seguir em frente. — Eu me afastei dele e o olhei com compaixão. — Vai seguir em frente e ser o homem do qual sua avó sempre se orgulhou.
Vi uma lágrima escorrer do rosto dele.
— Me desculpe… — Ele se aproximou novamente de mim. — Yo te amo.
Eu não deveria ter permitido um beijo naquele momento.
Mas acabei permitindo, pois partiu de mim. Ouvir aquelas três palavras estremeceu meu corpo e aqueceu meu coração. Que boba eu era, mas também o amava muito. Será que eu poderia deixar a traição e rivalidade somente no horário comercial do clube, das 7 da manhã às 7 da noite?
— . — Eu me afastei dele, voltando à minha razão. — Temos que impor limites.
— . — Ele tentou me beijar novamente, porém sendo barrado por minha mão direita.
— Não fala nada. — Me afastei mais. — Você está molhado, eu estou molhada, e podemos pegar um resfriado.
— Juntos podemos nos aquecer mais rápido. — Ele sorriu de canto, meio fraco.
— Vou relevar isso, porque perdeu sua avó — o repreendi. — Tem toalhas limpas no banheiro. Vou te arrumar alguma roupa.
Segui em direção à porta de saída.
— — me chamou.
— O quê? — O olhei, tentando não me irritar.
— Obrigado. — O olhar sincero que me conquistou estava ali.
Foi complicado conseguir dormir.
Sabendo que ele estava deitado no sofá da sala, sem camisa e em total carência. Em alguns momentos da madrugada, o peguei chorando. Em outros, de pé, perto da sacada, olhando para a rua. Na manhã seguinte, o acompanhei junto a Lorenzo até Bilbao, onde sua avó seria sepultada.
Não conseguia dizer se foi por tudo que tinha acontecido de ruim…
Ou se foi pelo fato de eu me divertir com a rivalidade criada entre mim e , mas aquela temporada seria um divisor de águas não somente para o Unión Sevilla. Apesar das notícias ruins, como o nosso dinheiro roubado não ter sido encontrado e o que estava congelado ter sido a conta para pagar as dívidas com a FIFA. O lado positivo era que o planejamento administrativo que Murillo havia construído juntamente à diretoria financeira e Lorenzo tinha dado certo, e nossa estratégia de marketing, mesmo barata e simples, tinha causado efeito não somente nos torcedores, mas se espalhado pela Europa e outros países ao redor do mundo. E eu seguia me dividindo em dois, supervisionando os projetos da construtora e me empenhando em ser uma CEO adequada para o clube.
Tivemos uma quantidade significativa de lucros ao longo da temporada do La Liga.
Quanto ao início da Champions League, tínhamos que enfrentar as rodadas de classificação, pois ficamos em uma boa posição do ranking final. Significava mais treinos pesados para os jogadores, mais foco para a equipe técnica, mais atenção do técnico e esforços de todos os outros demais funcionários do clube. Unión Sevilla estava a salvo e novamente próspero. Era tempo de comemorar a boa fase e estabilidade do meu time, permanecendo no La Liga na temporada de 2018/19.
Porém, quando achamos que está tudo bem, descobrimos que a vida é imprevisível.
Logo após assistirmos juntas ao jogo do Unisevi contra o Slavia Praha, da República Tcheca, na terceira rodada do Playoff, em sua casa, minha mãe me entregou um livro que papai tinha deixado para mim em segredo. Ela pediu que eu lesse ao chegar em casa. Assenti e guardei na bolsa. Continuei a me divertir com os outros que tinham ido também. Murillo e Mercedes, como sempre, brigando e se agarrando pelos cantos. Minha mãe sorridente e animada com o filhote de cachorro que adotou, uma das crias da cadela da filha de Nana. E Lorenzo todo babão com sua esposa após saber que estavam grávidos.
Ver todos ali me deixava feliz e animada.
Apesar de sentir falta de uma certa pessoa. À noite, ao chegar em casa, depois de um banho relaxante e motivador, peguei o livro e comecei a folheá-lo. Era uma edição especial de O conde de monte Cristo, meu favorito, tinha até dedicatória dele. Ao passar em uma das páginas finais, uma carta caiu de dentro. Minha sanidade saiu de órbita e voltou quando eu li, o que me deixou estática, em choque, perplexa e desnorteada.
Foi neste momento que me mandou uma mensagem.
— — sussurrei, ao ler.
Eu não sabia como, mas algo lá dentro me dizia que ele estava na porta da minha casa, esperando eu abrir. E eu estava certa, assim que corri para sala e abri a porta, o vendo.
— Sua mãe me ligou — ele se explicou de imediato. — Falou sobre o livro.
— E você resolveu vir aqui. — Segurei minhas emoções.
— Precisava te ver — explicou ele, certamente já imaginando que eu tinha lido a carta.
— Me diz que não é verdade — pedi a ele.
— Não posso.
Senti meus olhos lacrimejarem.
— , meu pai pediu para você fazer tudo isso comigo? — Despejei o conteúdo da carta em sua cara. — Ele sabia sobre o roubo do Pérez, e, sabendo que passaríamos dificuldades, ainda te pediu para nos trair?
— A única coisa que posso dizer é me desculpe. — Havia sinceridade ali, assim como arrependimento. — Eu fiz uma promessa ao seu pai e fui leal a ele até o fim.
Eu não queria acreditar. Mas era real.
— Meu pai me odiava. — As lágrimas começaram a surgir no canto dos olhos.
— Não, jamais diga isso. — Ele segurou em minha mão e me olhou com carinho. — Seu pai te amava muito.
— Belo jeito de mostrar.
— Ele queria que se tornasse uma mulher forte e independente — explicou ele. — Estaria orgulhoso de você agora.
— Por que ele pediu a você e não ao Lorenzo ou ao Murillo? — perguntei.
— Porque você precisava ser forte por si mesma e não através de mim — respondeu.
— Eu te odeio.
— Eu te amo — declarou ele.
Foram segundos nos olhando, até que tomamos impulso e nos beijamos.
Eu estava chateada com meu pai, com raiva do e chocada por minha mãe ter encoberto tudo isso, mas aliviada por finalmente estar nos braços do homem que eu amava, sentindo seu corpo se aninhar ao meu.
No gramado, seríamos rivais eternos agora, mas, dentro daquele apartamento, o nosso amor reinaria.
Passando por cima do tempo, eu estou olhando para você
Embora possa ser diferente agora, o princípio é o mesmo
Acredito que ainda podemos voltar
Agora, um, dois, nós contamos os segundos,
como medimos a distância.
— Thunder / EXO
