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Codificada por: Sol ☀️

Finalizada: 24/05/2026.

“A mutilação do selvagem sobrevive tragicamente na autonegação que arruína as nossas vidas. Somos punidos pelas nossas recusas. Todo impulso que lutamos para asfixiar persiste na mente e nos envenena. O corpo peca uma vez, e dá conta do pecado, pois a ação é uma forma de purificação. Nada perdura a não ser a lembrança do prazer, ou a luxúria do arrependimento. A única maneira de nos livrarmos da tentação é ceder a ela. Resista e a alma adoecerá de saudades de coisas que ela se proibiu, pelo desejo que suas leis monstruosas tornaram monstruoso e ilegal.”


WILDE, O. O Retrato de Dorian Gray..

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1976.


SE FOSSE NECESSÁRIO FAZER UMA LISTA, assumindo por tudo o que já me chamaram, tenha certeza de que haveriam consideráveis alcunhas ali: idiota, patético, desesperado, depravado desgraçado, maldito, anticristo, ah, claro, minha favorita, um grande filho da puta nojento, teve também uma freira que me chamou de verme quando tinha nove anos, ah, sim, duas mães furiosas na entrada da escola também me chamaram de sem futuro, palhaço, vira-lata, várias vezes me chamaram de cachorro — embora se eu fosse um seria da melhor raça e tratado com um pouco mais de dignidade do que sou de fato —, metralhadora de bosta, saco de vacilo, calhorda energumeno, pulha, o “maior erro da minha vida” — essa agradeço totalmente ao meu pai —, fodido, desperdicio de oxigênio, um grande patife. A lista é grande, mas algo que ninguém nunca havia me chamado era justamente: suficiente.

Como poderiam dizer? Olhe para mim, estou na porra do topo do mundo, há pessoas gritando por meu nome como verdadeiras malucas, devo ter visto pelo menos uns quatro pares de peitos voluntários de garotas mais do que animadas da plateia — implorando para serem fodidas — sei que se acenar para uma do jeito certo, ela vai desmaiar. Isso, sem sombra de dúvidas serve apenas para inflar meu ego — que nunca foi pequeno, diga-se de passagem. Sou a porra de um deus, amado, desejado, intocável. Posso quebrar a cara de qualquer idiota sem razão alguma que, amanhã, quando os jornais saírem, não serei visto como um problema, mas como a porra de um herói por muitos. Uma lenda; nada disso é o suficiente para mim. Nenhum grito desesperado por meu nome, nenhum aviso de que o set já estava acabado, para focar em apenas manter os riffs nos lugares certos, sem foder com a música toda — outra vez. Nenhuma groupie tentando esgueirar pela minha cama parece sequer ser suficiente de consideração — e céus sabiam que tudo o que precisava era uma razão para perder-me outra vez, para distanciar-me de qualquer coisa que não fosse a minha realidade atual. Porque a única coisa que mais desejo, é justamente a única que não posso ter. A única que não consigo desviar meus olhos, por mais que tente, por mais que obrigue-me a lembrar-me porque é uma péssima ideia encará-la, especialmente com tão perto de mim. Falho miseravelmente — e tampouco importo-me.

.

Deslumbrante como a porra de uma musa caminhando pela passarela do palco, embalada ao som dos gritos dessincronizados. Comandando a atenção como uma deusa; o vestido de renda que gruda ao redor de seu tronco acentua os seios, o sutiã branco abaixo, exposto a única coisa que ocultava-a da visão de fãs tão esfomeados quanto eu. O tecido tinha agora um rasgo considerável na lateral da cintura, expondo a pele cálida e macia, e toda vez que movia sua cintura, apenas acentua o rasgo do tecido. Os cabelos desalinhados e outrora longos, encaracolam com a umidade da noite e de seu suor, a maquiagem é uma completa bagunça, o delineado continua no lugar, realçando seus olhos intensos e mordazes, mas o rímel escorreu por suas bochechas, o lápis de olho se tornou uma bagunça, borrado, e ela nunca pareceu mais sexy do que naquele momento. A saia de seu vestido é curta, perigosamente curta, desliza pelos quadris dela, subindo a cada movimento que faz, e descendo a cada pequeno puxão que ela dá, de onde estou, o tecido está tentadoramente quase revelando a polpa de sua bunda. E puta merda, que bela bunda ela tem. As coxas torneadas separadas, os joelhos flexionados enquanto ela se inclina para frente; está de quatro, cantando como a merda de um succubus enquanto a plateia vai completamente à loucura.

Fizemos isso tantas vezes que já deveria ter se tornado algo natural, quase tedioso a essa altura. É apenas mais um show; um show de é claro. Todos nós sabíamos com perfeita compreensão que, em maioria, as pessoas estavam aqui para nos ver, mas era para ouvir que vinham. Mas essa noite há algo diferente no ar.

Ou talvez apenas decidi aceitar o impulso suicida de finalmente parar de fingir que não quero algo que definitivamente quero. também havia retornado para a porra da banda, então temos a formação original dela após três anos. Mas estou pouco me fodendo para no momento. Tudo o que consigo ver, tudo o que quero ver é . Sinto minha garganta se contrair, seca de repente, meu corpo se aquece ao som de sua voz; um ronronado maldito e nem um pouco inocente, rouco e sensual que percorre pelas caixas de som perigosamente semelhante ao que era no estúdio, quando os sons eram isolados e ela podia realmente cantar como bem entendia.

tem esse efeito. É uma sereia; intensa, deslumbrante e vivida como a porra de um sol. Exalo entre dentes com um sibilo baixo, tentando ignorar como meu corpo reage ao mero som de sua voz; ignorando o retorno de palco¹, caminho na direção oposta da passarela. O ar é espesso, flutua permeado por gritos e energia como se estivesse pairando ao nosso redor, elétrico, eriça os pelos de meu corpo, faz meu coração pulsar com o ritmo da bateria de Viggo, a vibração se projeta dos amplificadores parece amortecer tudo ao redor — embora eu tenha quase certeza de que estou começando a perder minha audição na orelha esquerda. Lanço um olhar na direção de Kai, tentando gesticular silenciosamente para que ele cortasse o som dos instrumentos. Kai me encara por um momento como se tivesse acabado de pedir para que ele me desmembrasse em público, ou talvez, fosse a presença de a minha direita que o tenha feito hesitar. Reviro os olhos, arrancando o cabo do instrumento. Empurro o baixo para trás, ignorando a expressão confusa de Viggo, marchando até onde está.

Tenciono a mandíbula com um estalo. Um estalido alto, seguido imediatamente por um zumbido insuportável amortece minha orelha esquerda. Em uma crescente frustrante, mal consigo concentrar-me em algo que não seja a sensação perturbadora de que o som está se esvaindo como água. Obrigo-me a ignorar a sensação, erguendo o queixo, desafiadoramente, quando meus olhos se encontram com os de .

algo de errado com ele hoje. Ou talvez, sempre tenha existido, somente agora eu tenha me dado ao luxo de enxergá-lo por quem de fato é. Seja o que for, a hostilidade é familiar como minha respiração entrecortada — porra, e a familiaridade é tamanha que igualmente lembro-me de quem um dia ele foi. Lembra-me do buraco quebrado, e do que havia ali; o gosto agridoce do afeto corrompido pela cólera é amargo. Ele estreita o olhar quando vê-me aproximando, os cabelos desalinhados estão empapados de suor, não muito melhor que os meus, mas nele, o faz parecer como se tivesse acabado de sair de um ensaio molhado de alguma revista de moda — em mim, bom, quem mais posso parecer —, a regata foi descartada na segunda metade do show, deveria estar na mão de alguma fã, mas a atitude não me faz sorrir menos. Está aparecendo ou tentando competir? Não posso dizer ao certo, mas posso ver a tensão correndo por seu corpo como elásticos tensionados ao limite, tudo o que preciso é apenas acertar da forma certa e ele irá explodir. Porra, eu quero que ele exploda; a parte inconsequente de minha mente está sedenta por uma reação de . Depois de quase três anos, o filho da puta se sente no direito de voltar? De mais uma vez roubar tudo o que era meu, e agir como se estivesse fazendo a porra de um favor para mim? Eu havia começado essa merda. A banda, a carreira, se ele possuía a porra de nome, então era a mim que ele deveria no mínimo agradecer. Mas não, é claro que não, precisa lembrar-me exatamente onde nós dois nos encontramos…

Arranco o fio de sua guitarra abruptamente, vendo-o arregalar os olhos com a mistura gritante de impaciência e fúria genuína. Sei que devia abrir a boca e dizer algo, que o que estou fazendo pode em potencial acabar com o último ato desta merda, sem dúvidas vai me render não apenas uma reprimenda, mas colocar-me na lista dos malcriados de Hugo — como se já não estivesse nessa porra, o cara acha que realmente possui uma corda em meu pescoço, que a coleira colocou em mim funciona para puxar-me de volta sempre que deseja; equivocou-se com o temperamento, está no meu sangue escolher pular da porra da cadeira —, tampouco posso dizer que realmente importo-me. Prefiro mais a expressão de fúria de . Um riso baixo quase escapa de minha garganta, quando sinto empurrar-me abruptamente para trás. O impacto é mais doloroso do que deveria ser, os músculos de meu corpo ainda estão doloridos pelas duas noites em claro, mas não é menos satisfatório. Por um momento, tudo desaparece.

Não é apenas minha orelha esquerda, emudecida que me faz perder a percepção de espaço, o equilíbrio e apaga os gritos, a memória vívida de que estamos em cima do palco, não em casa outra vez, é o disparo de adrenalina corroendo minhas veias que envia uma onda de satisfação que torna-me refém da situação. Mal contenho o sorriso, os olhos arregalados de estão fixos em mim, mais ninguém. Tenho a porra de sua atenção agora, e que se foda.

— Que porra você… — Ele começa a dizer, mas desta vez, sou mais rápido.

— ‘Cê não achou mesmo que ia voltar como o grandão, não é? — Não oculto o veneno em minhas palavras, tampouco a satisfação por vê-lo piscar, por vê-lo perceber exatamente onde está. Quero que ele tenha bem claro em mente quem comanda a porra do show desta vez. Mesmo que seja a última. Foda-se o resto; foda-se as consequências, pelo menos desta vez, serei eu no controle, não ele. nega com a cabeça passando a mão pelo rosto, antes de empurrar-me mais uma vez, com mais força. Cambaleio para trás, apertando com a mão trêmula minha orelha, por um segundo o zumbido intenso torna espaço central, o tremor que se espalha por meus dedos, faz-me sentir como se tivesse amortecido, como se aquele pedaço de carne não mais me pertencesse; talvez não, mas igualmente quem se importava? Os olhos de queimam meu rosto, a fúria mal contida é familiar.

Algo acontece que torna seus olhos escuros, como se uma parte dentro de si mesmo tivesse acabado de ser morta; como a porra de um tubarão a espreita, pronto para o ataque. É como deparar-se com um monstro, quando a máscara de carisma e charme desabava e restava apenas as partes nojentas que céus sabiam o quanto odiava. Meu sorriso se torna afiado; estou o provocando, e desta vez, quero que ele ceda. Quero que ele surte e grite, quero vê-lo enlouquecer. Talvez tenha perdido a cabeça, finalmente, mas bem, ninguém nunca acreditou de fato que eu passaria dos 27.

— Quer mesmo fazer isso aqui, ? — cospe as palavras, dando mais um passo em minha direção, agarrando o colarinho de minha camisa. Empurro-o com toda a força que consigo reunir em meu corpo, observando-o piscar, sobressaltado e cambalear para trás. Os pés enroscando-se na porra dos cabos conectados aos autofalantes. Ele quase cai, mas ainda é , e ainda possuía aquela enfurecedora graça sobre si. Porra quero tanto quebrar a cara dele, que meu corpo inteiro está queimando, vibrando, não apenas com o som alto, mas com o desespero de alcançá-lo. Chacoalho a cabeça brevemente, tentando livrar-me da sensação de torpor crescente, um ruído sufocado, meio rouco escapa pela minha garganta, assemelha-se perturbadoramente com um riso nasalado, mas não há nada de humor nisso. A fúria de apenas aumenta. — Eu vou… — começa a dizer, avançando em minha direção outra vez, mas já estou me movendo.

Dou passos vagarosos para trás; a cada passo que ele marcha em minha direção, é um que dou para trás, em direção ao cabo da porra da bateria de Viggo.

— Ou então você vai fazer o que, ? — a provocativa silenciosa, não é pronunciada, apenas movo meus lábios para que ele capture pela leitura labial minhas palavras; antes que possa impedir-me, mas quero que se dane. Se quer briga, então farei questão de oferecer-lhe um show que não irá esquecer, não importava se estávamos na frente de milhares de pessoas na porra de um festival, deixe que vejam. Deixe que veja finalmente quem é a porra de .

grita meu nome alto o suficiente para fazer com que Kai pause no mesmo segundo, arregalando os olhos e encarando a nós dois como quem está prestes a presenciar uma batida de carro iminente. Tenho um sorriso como um maníaco, e dessa vez, não preciso do auxílio das drogas para conseguir encontrar meu próprio humor na situação. Avanço na direção dos últimos cabos, e então arrebento-os com a força de minhas mãos amortecidas, abrindo-as e fechando-as impacientes, incapaz de senti-las mais. Os holofotes se apagam bruscamente, sobre nossas cabeças. A bateria se silencia, e há apenas uma pequena estática que acompanha o microfone de . Sinto quanto meu sorriso deixa de ser afiado e torna-se… o que quer que seja quando a olho.

Desta vez, não faço questão de desviar o olhar, não faço questão de baixá-lo ou fingir que não estou a enxergando. Não faço questão de respeitar , e tampouco fingir que não estou ali, que ela não é exatamente o que sempre quis, que não é a maldita criatura que me atormenta meus pensamentos por quase uma década. Desta vez, eu a encaro, e meu peito dói com algo que nunca fiz questão de reconhecer.

Ela é deslumbrante; para além de sua aparência. Ela é de outro mundo. A porra de uma deusa caminhando entre meros mortais, e puta merda, me sinto sortudo demais apenas por estar aqui, por respirar o mesmo ar que ela. Talvez estivesse exagerando, talvez isso não passasse apenas da minha própria obsessão pelo o que sei que não posso ter. Mas não me importo; porque o mundo se silencia ao meu redor, há apenas os gritos dessincronizados de fãs desesperados, e a voz dela. não percebe a alteração do palco, a maneira com que os instrumentos se silenciaram, ela está perdida demais na música. O sotaque pesado dela — algo que havia se tornado mais e mais distante conforme os anos se passaram e realmente fizemos sucesso —, torna a música um pouco mais arrastada, com uma vibração suave que quase parece com um ronronar. A letra que escrevi pulsa por minhas veias, um lembrete vívido de que havia apenas ela para mim. Meu coração se aquece perigosamente com aquele sentimento familiar, que me faz querer chorar e gritar. Inspiro fundo, piscando, obrigando-me a desviar meu olhar para a plateia.

São tantos rostos que chega a ser desnorteador; de uma maneira boa. De uma maneira que te faz ter certeza de que você está em outra altura. Que faz com que você perceba o quão foda você é; são olhares de admiração, de adoração, é como ser canonizado como um deus diante de rostos desesperados, chorosos e sorridentes. Mas há mais que isso; é prender-se a uma bolha surrealista inebriante de validação. Uma das piores drogas que já havia usado em toda minha vida, e uma que quero oferecer a ela. Salto sobre um dos amplificadores, tentando não cair na plateia outra vez, meu corpo está começando a ficar letárgico, a exaustão de três horas pulando e harmonizando as músicas é o suficiente para começar a atingir-me, mas a cocaína no sistema ainda me deixa elétrico. Então marco o ritmo da música com palmas, incentivando nossos fãs a imitarem o gesto.

Viggo finalmente percebe o que quero fazer, e imediatamente imita-me, subindo na lateral da estrutura esquerda do palco para incentivar a ala leste do show. Câmeras que deveriam estar registrando a nós, voltam-se imediatamente apenas para , flashes que deveriam nos cegar estão disparando nela, quando apenas sua voz ecoa pelo espaço; potente, intensa, envolta de tantas emoções que sufocam-me, e faz-me arder com o desejo de simplesmente avançar em sua direção e beijá-la. Os fãs acompanham. Um coral de vozes desafinadas que surpreendentemente se unem bem, mesclando-se ao acompanhar a voz dela, ao lembrá-la da deusa que ela é. Salto do amplificador, voltando meu rosto na direção de .

Seus olhos queimam com uma mistura de compreensão e fúria crescente; quero assisti-lo de perto. Quero ver quando ele irá perceber que nunca precisou dele. Quero ver seus olhos quando ele entender que acabei de dar a ela a única coisa que ele não poderia tomar ou destruir; liberdade. Quero ver quando ele perceber que foi eu quem fez. E puta merda nada havia me satisfeito tanto em toda minha vida do que neste mísero insuportável momento de pura energia causada pelo coro de vozes que enaltecem , ao ver meu ex-melhor amigo perceber que, desta vez, sou eu quem está destruindo ele.

alcança o ápice da música. Sua voz sobe três notas a mais, e fica ali. Os pelos de meu corpo se arrepiam, intoxicados pela potência natural que ela sempre teve; afinados, as notas que desfazem-se por seus lábios, repercute pela plateia de fãs enlouquecidos, o silêncio que se segue é de pura estupefação maravilhada. Então os gritos que retornam são tão altos que é impossível não sorrir. pisca, parecendo finalmente voltar a si, e dá um passo para trás, como se a adoração que estava recebendo tivesse a acertado no plexo solar, roubado seu fôlego. Ela está exausta, suada e os cabelos desalinhados grudam ao redor de suas têmporas e pescoço, o peito sobe e desce em afetos pesados, descoordenados, mas então vejo algo que me paralisa no lugar. Ela sorri; um sorriso verdadeiro, quase maníaco que distorce sua face bonita como um feitiço de pura satisfação. Meu sorriso se alarga um pouco mais, o riso borbulhando por meu peito.

Então seus olhos se voltam em minha direção, e apenas ofereço-lhe uma piscadela travessa, silenciosamente tentando enfatizar o “eu avisei” indireto. Tudo parece desaparecer ao nosso redor. Os gritos, os pedidos para tocar de novo, a voz de Kai praguejando alto, a voz de Viggo gritando para que se acalmasse. gritando meu nome outra vez. Nada disso importa; Hugo se aproximando para encerrar nossa participação no festival, o calor de milhares de corpos pressionados uns contra os outros emana, a maneira com que o suor escorre por minha pele, e pinga de meus cabelos desalinhados e encharcados, como meus músculos latejam por baixo da pele, e como provavelmente vou ter, mais uma vez, câimbras em meu pulso por passar três horas tocando como um maluco.

Somente importa naquele momento, e seu olhar preso a mim.

Os cabelos desalinhados, os lábios convidativos, envoltos pela camada fina de gloss labial avermelhado que tinha sabor de morango, entreabertos, capturando erroneamente alguns fios de seus cabelos. Ela passa os dedos pelas mechas desalinhadas, tentando ordená-los de volta ao lugar, dedos longos e elegantes de pianistas, com unhas vermelhas escuras afiadas. Os olhos vividos como nunca havia visto antes permanecem fixos em mim; estão incandescentes, são a coisa mais bela que já vi em toda minha vida. É tão bonita que meu peito dói, minha cabeça fica desnorteada e meu corpo clama por ela. Por qualquer mísera migalha que ela possa me oferecer — como sempre. Minha garganta está seca, minhas veias parecem ser feitas de fogo puro, e a raiva que sinto por se mistura com o desejo insuportável que sinto por ela. Não a quero apenas porque não posso tê-la; a quero porque ela é exatamente a única naquele mundo que parecia ter sido feita para mim. A quero porque não há ninguém mais que possa preencher o vazio que carrego dentro de mim, porque tem exatamente o formato dela ali.

Meus olhos queimam com a intensidade das emoções que acumulam-se por meu peito por mais de uma década, e então forço meu melhor sorriso, inclinando minha cabeça para frente em uma mesura exagerada, mas não menos sincera. Em minha mente, tudo acabava ali. Era isso que havia planejado; era este o momento que queria ter gravado em minha mente antes de finalmente ceder ao desespero e puxar o gatilho. Minha história poderia acabar ali, mas queria vê-la conquistar aquele respiro. Porque de todos nós naquela merda de desculpa patética egocêntrica, era a única que merecia, realmente ser adorada pelas pessoas. Ser admirada por seu talento e seu magnetismo. Estarei feliz com a compreensão de que fiz tudo o que pude e que assistiu a tudo sem poder fazer nada.

Minha vingança pessoal nunca pareceu tão doce.

Mas então ela caminha em minha direção, como uma sereia saída diretamente de meus sonhos mais pervertidos, e para a minha frente. Minha voz parece áspera e vacilante como se não a tivesse usado em anos, embora tenha gritado a plenos pulmões meros minutos atrás. O pulsar que se restringe em meus ouvidos revela o martelar acelerado de meu coração, esmagando minha caixa torácica como a porra de um pássaro preso em uma gaiola pequena demais. Engoli em seco, seu conseguir piscar, apenas encarando-a com atenção. Inclino, por instinto, minha cabeça em sua direção, sentindo o familiar aroma de seu perfume misturado com o suor que sempre havia sido o elixir que mantinha-me preso ao presente. Que funcionava como minha âncora pessoal ao ser arrastado mais uma vez para um passado que não tinha intenção alguma de lembrar-me. Um riso ofegante escapa dos lábios dela e não contenho o tremor que percorre meu corpo.

Sinto que estou no paraíso, e a sensação não poderia ser mais inebriante.

Seus dedos longos enroscam-se no colarinho de minha regata, agarrando-a com mais força do que jamais poderia dar-lhe crédito por ter — embora soubesse perfeitamente bem que ela a possuía em cerne. Ela puxa-me em sua direção, obrigando-me a inclinar-me em sua direção e então, ela dá um beijo estalado no canto de minha boca. Sei que não irá me beijar, sei a onde estamos e o que significaria; posso sentir os olhos de fixos em nós dois, queimando meu rosto como a porra de soda caustica. Se ele pudesse me matar com apenas um olhar já o teria feito — era uma surpresa que não o tenha feito ainda. Meus ouvidos estão abafados demais para ouvir de fato o que ela sussurra para mim, mas cedi ao impulso. Envolvo-a em um abraço apertado, puxando-a contra mim até que não exista espaço algum para nos separar. Sinto suas unhas deslizarem por meus cabelos, os dedos elegantes enroscando-se nas mechas desalinhadas, puxando-os com força enquanto as unhas arrastam-se por meu couro cabeludo. A outra mão agarra-se ao meu ombro. Posso sentir sua respiração, cálida e irregular contra meu pescoço, úmida pela própria emoção quando ela finalmente desaba contra mim — como fizera tantas vezes antes. Mas o riso de felicidade, essa e a droga que não tinha ideia que estava desesperado para deleitar-me, mas que envolvia-me agora. Sinto a textura gosmenta de seu gloss contra a lateral do meu pescoço, e enterro meu rosto na lateral do dela. Inspiro como um desesperado, memorizando seu cheiro — o suor, a mistura do perfume, tudo —, e por um momento fecho meus olhos apenas concentrando-me em como ela se encaixa perfeitamente contra mim. Como tudo em meu corpo grita por ela. Em como ela é exatamente tudo o que sempre havia precisado. Meus dedos enroscam-se na renda delicada de seu vestido, e contenho o desespero ao sentir sua pele cálida, macia contra meus dígitos.

Por um longo momento, ficamos assim.

Quando abro meus olhos outra vez, meu olhar não se encontra com a mulher da minha vida, agarrada a mim, mas em . Ele apenas nos encara em silêncio; da mesma forma que um dia o encarei. Mandíbula tensionada com tanta força que o músculo que se projeta na lateral de seu rosto só falta saltar, olhos queimando-me vivo, marejado, a fúria misturando-se com uma emoção profunda e difícil de ocultar de tão familiar quanto minha própria respiração irregular. Traição.

Para isso, não contenho um sorriso satisfeito, lhe lançando uma piscadela.

¹ Retorno de palco, surgiu nos anos 60, com os Beatles, que por causa da gritaria da plateia não conseguia ouvir a música tocada; eram caixas de som presas ao chão do palco voltada para os músicos. Nos anos 90, Van Halen pediu para que fosse criado o In-ear, que é como um fone de ouvido, preso na orelha.


Continua...


Nota da autora: - conotações homossexuais traições, dois melhores amigos em pé de guerra, uma garota quebrada, messy drama. Obrigada por ter lido e a gente se vê em breve!


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