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Revisada por: Calisto

Finalizada em: 12/01/2026
— Senhorita, , por favor! — parou o passo quando a professora de literatura a chamou.
— Sim...? — Ela se aproximou, ajeitando os óculos no rosto.
— Você está sem alunos para sua tutoria, certo? — Ela foi para perto da mesa.
— Sim, ainda não apareceu ninguém esse ano!
— Bom, agora você tem! — ela disse. — Você conhece , certo?
— Hum... dã?! — disse, rindo. — Ele é capitão do time de basquete.
— Bem, o capitão do time de basquete precisa de nota, senão vai ser expulso do time... — suspirou.
— E, claro, que ele foi atrás de ajuda só agora... — A professora riu. — Eu faço um milagre!
— Ele disse que ia te esperar na quadra. — A professora lhe esticou um papel e revirou os olhos.
— Ah, vamos lá... — murmurou, pegando o papel da tutoria e saiu da sala de literatura.
caminhou pelos corredores da escola, seguindo até a quadra de basquete. Ela tentava se manter forte, mas não estava preparada para encarar , o capitão do time de basquete! Tinha uma paixonite por ele desde que entrou na escola no oitavo ano, mas nunca teve coragem de dar nenhum oi para ele.
— VOCÊ PRECISA MANTER A CABEÇA NOS JOGOS! NÃO FICAR DANÇANDO POR AÍ! — ouviu alguns gritos quando entrou na quadra.
— Eu não estou dançando por aí, eu só estou... — Ela ouviu a voz de .
— NÃO QUERO SABER! ESTAMOS NO FIM DO ANO! VOCÊ PRECISA FOCAR NOS ESTUDOS E NO JOGO! TEMOS SÓ MEIO ANO! VOCÊ VAI ACABAR REPETINDO DE ANO, SENDO EXPULSO DO TIME E PERDER O CAMPEONATO!
— Eu não vou perder nada, eu só quero saber minhas opções...
— SUAS OPÇÕES? — Seu pai gritou mais alto. — Você tem uma bolsa na faculdade Western University desde seus nove anos, você não vai botar tudo a perder agora que estamos tão perto de realizar nosso sonho.
— NÃO É O MEU SONHO, PAI! É SEU! — estourou, fazendo se esconder na fresta da porta.
— O quê? Falamos sobre isso desde a sua infância e... — suspirou. — Você está dizendo que não quer mais jogar basquete? — O mais novo esfregou o rosto com as mãos.
— Eu não sei mais, pai. — Ele jogou os cabelos para trás. — Eu só... quero ter outros interesses...
— Não é a hora de ter outros interesses — seu pai falou em um suspiro. — Você sabe quanto custa uma faculdade?
— Pai! — o repreendeu.
— Não! Você precisa saber o valor das coisas! E o time precisa de você. — Ele sacudiu a cabeça.
— Eu tenho noção das minhas responsabilidades, pai — falou firme. — Eu vou continuar no time até o fim do ano letivo e vamos vencer o campeonato... eu só não sei se eu quero isso fazer pro resto da minha vida.
— Eu não acredito... — Seu pai lhe deu as costas e se escondeu mais próximo à parede quando o técnico passou passos pesados perto dela.
se jogou em uma das arquibancadas mais baixas e finalmente soltou o ar que segurava.
Ela nunca diria que o capitão do time de basquete estava passando por uma barra dessas. Estar dividido entre duas vontades da vida.
Mas com o próprio treinador como seu pai, nem era muito surpreendente.
avaliou se era o momento ideal para falar com o jogador, mas achou melhor não. Ela falaria com ele após a aula amanhã.
Ela saiu devagar da porta e seu pé acabou ficando preso na trava de porta. Ela tropeçou, deixando seus cadernos caírem no chão e isso não passou despercebido por .
— Ei, você está bem? — Ele correu para ajudá-la, se abaixando para pegar os materiais dela.
— Me desculpe... obrigada! — ela disse, confusa, se sentando no chão.
— Por que está pedindo desculpas? Foi você quem caiu! — Ela riu fracamente.
— Eu estava... — ela pensou rapidamente — passando... E eu... ouvi.
— Ah! — ele disse, suspirando, se sentando no chão. — Não é nada! Ele só está irritado com o campeonato.
— Você não precisa mentir... Eu acho que ouvi quase tudo. — abaixou a cabeça. — Você gosta de dançar? — Ela sorriu.
— Não ria! — Ele apontou para ela, fazendo-a soltar um riso frouxo. — E é teatro... e às vezes dançar.
— Eu não estou rindo de você, eu estou sorrindo com a ideia...
— Péssima, certo? — Ele ergueu os olhos para menina.
— Por que seria? — Ela deu de ombros. — Eu não conheço você... além de saber que precisa de ajuda em literatura.
— Então é por isso que você está aqui! — Ele sacudiu a cabeça. — Pensei que fosse menos fofoqueira, .
! — ela disse, e ele assentiu com a cabeça.
, certo? — ele perguntou, e ela assentiu com a cabeça, feliz por ele saber o nome dela.
— Sim. — Ela deu um sorriso de lado. — Eu não conheço você, , mas acho que você deve fazer o que achar melhor para sua vida. — Ela deu de ombros. — Quem vai viver ela é você mesmo.
— Você tem um bom ponto — ele afirmou. — Mas eu tenho uma bolsa para faculdade para jogar basquete.
— Quão bom ator você é? — Ela fez uma careta, e ele riu.
— Iniciante! — Ele sorriu torto.
— Bem, nós temos seis meses até o fim do ano letivo, você pode tentar melhorar as suas habilidades artísticas e quem sabe conseguir uma bolsa para teatro? — Ela deu de ombros. — Milagre acontecem, não?
— A ideia não é ruim, mas eu teria que estudar para isso, estudar pra escola, focar no basquete para ganhar o campeonato... Eu sou só um. — Ele bufou.
— Mas você pode ter ajuda. — Ela deu um pequeno sorriso. — E eu não sei jogar basquete, mas posso te ajudar com os outros itens da lista.
— Você atua? — ele perguntou.
— Não... — Ela riu. — Mas minha tia é diretora do teatro comunitário de Hickory. É gratuito, você pode participar de umas aulas e melhorar suas habilidades...
— Por que não somos amigos mesmo? — ele disse, e ela riu.
— Porque você prefere as líderes de torcida que são, em sua maioria, burras iguais uma porta. — Ela deu um sorriso.
— Me desculpe se elas já te ofenderam uma vez...
— Não, elas gostam de colar de mim! — Ele riu, se levantando e estendeu a mão para ela fazer o mesmo.
— E você me ajuda a passar em literatura? — ele perguntou, abrindo um largo sorriso.
— Sim, ajudo! — Ela abriu o fichário, tirando um livro de lá. — Comece com Moby Dick. — Ela o entregou. — O começo é chato, mas depois fica melhor. — Ele fez uma careta. — Eu não disse que ia ser fácil.
— Não, mas eu vou fazer isso por mim! — Ele pressionou os lábios. — E pelo meu futuro.
— Bom! — ela disse, firme. — Me fale seus horários disponíveis e a gente marca umas tutorias.
— Claro! Me dá seu telefone, eu vou ver meus horários e te aviso. — Ele lhe esticou o telefone e ela anotou o número rapidamente.
— Eu aguardo sua mensagem, mas eu não vou atrás de você...
— Eu vou! — ele disse, firme. — Você me ajudou bastante hoje. — Ela deu um sorriso tímido. — Obrigado.
— Não há de que. — Ela deu de ombros.
— Você é demais, ! — ele disse.
— Obrigada, ! — Ela deu um sorrisinho. — A gente se vê.
— Sim! — Ele assentiu, ajeitando a jaqueta. — Até a próxima.
— Até! — Ela deu uma acenada antes de seguir de volta para o corredor.
Enquanto seguia pelo corredor, ainda ouvia o eco dos passos dele e pensava que, talvez, o capitão do time de basquete tivesse mais coragem do que aparentava — só ainda não sabia disso.




2011
A biblioteca de Hickory High estava quase vazia naquela tarde. Poucas mesas estavam ocupadas, e, as que não estavam, recebiam a luz do Sol que vinha direto da longa janela.
ajeitou os óculos no rosto e abriu o livro, ajeitando a cadeira para perto de , para que ambos pudessem acompanhar o material cheio de marcações.
— Ok, vamos lá! Por onde você quer começar?
se jogou na cadeira como se estivesse prestes a sofrer uma tortura.
— Eu quero começar pulando pro final — ele sussurrou, sacudindo os cabelos mais longos.
— Não — rebateu, seca. — Você só pula pro final quando o livro é ruim, e Moby Dick não é.
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Eu não passei do começo, ! Você disse que o começo era chato! E eu não passei dele. — Ele aumentou seu tom de voz.
— Xi! — ela pediu, olhando em volta.
— Desculpe. — Ele suspirou. — Não estou acostumado. — Ela assentiu com a cabeça. — Até agora, só descobri que o protagonista é deprimido e o autor gosta muito de falar de baleias. — soltou um riso abafado, escondendo a boca atrás do livro.
, Moby Dick não é sobre uma baleia.
— Desculpe? — Ele franziu o rosto. — Moby Dick não é... a baleia?
— É, mas o livro não é sobre isso. Você tem que ler nas entrelinhas. — Ela suspirou. — O livro é sobre obsessão. Sobre se agarrar a algo tão forte que você perde tudo em volta — ela dizia com paixão. — O capitão, por exemplo, ele esconde a própria mágoa na caça. Então ele foca nisso como se a vida dependesse disso.
parou, olhando fixo no longe. Sua mão se mexeu algumas vezes como se estivesse calculando no alto antes de praticamente se debruçar na mesa.
— Isso fez mais sentido do que as primeiras 50 páginas juntas — ele admitiu, apoiando o queixo na mão. — Como você... entende essas coisas? — deu de ombros.
— Quando você gosta de histórias, fica fácil fazer interpretação textual. — Ela deu um leve sorriso. — Eu cresci cercada de livros. Minha tia sempre me inspirou a isso... Inclusive, se quer ser ator, seria bom começar a gostar de histórias. — Ele riu fracamente.
— Você é boa, ! — ele disse apoiando a mão na dela, fazendo o corpo dela arrepiar. — Desculpe!
— Concentre-se no livro, .
‘Tô tentando. — se aproximou dela novamente. — Então o capitão é... um cara que tem medo de admitir o que sente?
— Ele tem medo de perder o controle. — respirou fundo.
— Acho que entendi.
— Entendeu mesmo? — ela provocou.
— Ok, , vamos lá... — Ele pegou o livro da frente de e colocou na sua frente. — Me mostra onde o capitão deixa de reclamar e começa a viver alguma coisa.
— Isso não acontece — ela disse, rindo fracamente.
— Super! — Ele jogou a cabeça pra trás.
— Por que isso não me surpreende? — cruzou os braços. — Agora lê daqui.
Ela se inclinou sobre o livro, guiando um dedo pela margem do texto. não estava olhando o livro, estava olhando para ela. E por um segundo o mundo ficou mais quieto.
— Alô?! Terra chamando ! — o despertou.
— Só queria agradecer. Por me explicar. Parece até legal quando você conta. — Ela deu um sorriso.
— Faz parte do meu trabalho — ela respondeu, quase sussurrando.
— Não... — corrigiu, sincero. — Eu sei que você não precisava ter paciência comigo. Mas você tem.
— É fácil ter paciência com você quando você tenta de verdade. — sorriu, aquele sorriso torto, bonito, de capitão do time de basquete, que sempre mexia com ela.
— Então continua tentando comigo. Até julho? — ela confirmou.
— Até julho — ela repetiu.

2024
— Muito bom, gente! Encerramos por hoje! — o diretor falou, e saiu rapidamente de sua posição, batendo a areia do corpo.
— Obrigado, gente! Obrigado! Voltamos amanhã em estúdio! — o contrarregra anunciou.
— Obrigado, Fiona! Até a próxima! — falou com a atriz que contracenava com ele.
— Até amanhã! — Eles trocaram um high-five, e outro contrarregra lhe entregou uma toalha.
Ele a colocou nas costas, esfregando o corpo para tirar o excesso de água e areia depois de rolar no chão durante a cena. Seguiu direto para a área onde ficavam os poucos trailers montados na parte reservada da praia de Charleston. Ao se aproximar, viu seu agente parado em frente ao trailer, segurando um smoothie.
— Zac? — franziu a testa.
— Ei, >! Boa cena! — Eles se cumprimentaram.
— Obrigado! Mas a gente não ia se ver só no fim de semana? — se sentou nos degraus do trailer para limpar os pés.
— Íamos, mas... — Ele suspirou. — Eu vou te acompanhar até Hickory neste fim de semana.
— Por quê? O que aconteceu? — se sobressaltou, levantando-se de imediato. — Como está minha mãe?
— Sua mãe está bem... — Ele suspirou de novo. — Mas a senhora Gertrude faleceu...
— O quê? — o olhou, em choque. — A Gert? — Zac confirmou com a cabeça.
— Aconteceu esta noite, acham que foi um ataque cardíaco... ela simplesmente não acordou esta manhã. — Ele balançou a cabeça e se sentou novamente nos degraus. — Eu sei o quanto ela foi importante para você, então preparei um voo para amanhã cedo, para Charlotte, e depois seguimos de carro até Hickory.
ouviu as palavras, mas não as absorveu. Sua cabeça estava longe. Gertrude foi responsável por guiá-lo em sua carreira de ator. Ela o recebeu de braços abertos nos cursos de teatro, escondeu dele o pai sempre que pôde, indicou-o para alguns testes na região e até o apresentou a Joana, uma olheira da Western Carolina University, ajudando-o a reverter a bolsa de basquete para uma bolsa de teatro, junto à formação em inglês — área pela qual ele só descobriu gostar no último ano, por causa de .
Meu Deus, ! Gertrude era madrinha de sua antiga tutora de literatura. Como será que ela estava se sentindo agora?
Zac notou as lágrimas deslizando dos olhos de e parou de falar, pressionando os lábios. Sabia que chorava com facilidade diante das câmeras, mas, fora delas, era sempre mais quieto e contido. Ele se apoiou no trailer, ao lado dos degraus, e pousou uma mão sobre o ombro de , dando leves batidas, permitindo que ele exalasse todas as lembranças e emoções trazidas por aquela notícia.

se permitiu ficar quieto durante todo o trajeto até Hickory. Tentou atender um grupo de fãs de Outer Banks enquanto andava pelo aeroporto de Charleston e até recebeu um sorriso surpreso ou outro de alguns comissários, mas ficou grato pelas horas de carro com Zac até sua antiga cidade. Ele era natural de Asheville, mas vivia em Hickory desde que se entende por gente.
precisou de alguns minutos quando o carro parou na entrada da garagem de seus pais. Parecia que o cansaço das viagens finalmente recaía sobre seus ombros. Olhou para os carros parados em frente à casa e pensou que seus irmãos já deveriam ter chegado também. Gertrude acabou se envolvendo com sua família quando a carreira de começou a deslanchar.
— Você quer entrar? — sugeriu ao agente.
— Não se preocupe comigo. Eu vou ficar no hotel — Zac respondeu.
— Quando nós...
— Leve o tempo que precisar. Eu estarei por aqui.
— Obrigado! — disse.
Zac deu um tapinha em suas costas, e saiu do carro. Pegou a mochila no banco de trás e seguiu pela entrada da casa, observando as flores de sua mãe no jardim. Subiu os poucos degraus da varanda e empurrou a maçaneta. Logan foi o primeiro a vê-lo.
Bro! — Ele se levantou apressado do sofá.
— Ei, bro! — A mochila de foi ao chão, e eles se abraçaram apertado.
— Sinto muito pela tia Gert — Logan disse.
— Obrigado... eu ainda não processei isso. — suspirou.
! — Brooke apareceu, abraçando-o com força. — Sinto muito, irmão.
— Está tudo bem. — Ele suspirou, e Mackayla veio logo em seguida abraçá-lo.
— Onde está meu irmão famoso? — Eles riram, e ela beijou sua bochecha. — Como você está lidando com tudo isso?
— Não sei se estou lidando ainda, mas... eu preciso ver o senhor Dominic. — sacudiu a cabeça.
— Eu posso te acompanhar até a casa deles mais tarde. — ouviu a voz da mãe e suspirou.
— Mãe! — ele falou, como uma criança de cinco anos, animado por vê-la após a escola.
— Ah, meu amor! — A mais baixa o abraçou, e ele se encolheu como um casulo no ombro dela. Dona Jodi o apertou forte, e ele respirou fundo. — Está tudo bem, está tudo bem. — Ela acariciou os cabelos do filho.
— Ela foi tão... tão incrível comigo. — Algumas lágrimas escaparam de seus olhos, e ele precisou puxar o ar com força.
— Eu sei, meu amor. — Ela segurou o rosto dele com as duas mãos, olhando em seus olhos claros. — Tudo vai ficar bem... ela se foi pacificamente. — assentiu.
— Do mesmo jeito que ela sempre me fazia sentir. — Sua mãe sorriu, concordando com a cabeça.
— Por que não almoçamos? Seu irmão sugeriu colocar alguns bifes na churrasqueira, umas batatas... — deu um curto sorriso e assentiu. — Mais tarde vamos lá...
— Obrigado por terem vindo... — ele disse, e as irmãs o abraçaram de lado.
— Agora vamos, entre, tire esses sapatos e relaxe um pouco. — Brooke o empurrou levemente.

ajeitou o paletó preto ao sair do carro e viu sua mãe descer pelo outro lado. Trancou o veículo e ofereceu o braço a ela, que o segurou enquanto caminhavam pela calçada. Jodi ajeitou a gola do filho, e juntos seguiram até a entrada da casa de Gertrude e Dominic .
— Você está pronto? — a mãe perguntou. respirou fundo.
— Não sei se estarei...
Jodi assentiu e tocou a campainha.
— Um minuto! — Ouviram de dentro da casa. Pouco depois, uma ruiva abriu a porta. — !
— Morgan! — Ele sorriu ao ver a filha de Gertrude, cerca de dez anos mais velha. — Que bom te ver!
— Eu que fico feliz em te ver... famoso! — Ela o abraçou. — Fico muito feliz pelo seu sucesso.
— Obrigado... — disse, tímido. — Sinto muito pela sua mãe...
As lágrimas voltaram, e Morgan também se emocionou, tentando manter um sorriso carinhoso.
— Entra... — disse, sem conseguir falar mais.
— Sinto muito — Jodi murmurou ao abraçá-la.
entrou devagar na sala e viu o senhor Dominic sentado à mesa, com o olhar perdido.
— Senhor ? — chamou, sem resposta. Aproximou-se. — Dom?
O homem pareceu despertar.
— Ah, olha quem está aqui! — Abriu um sorriso largo. — Meu garoto famoso.
se desfez novamente em lágrimas quando as lembranças o atingiram.
— Meu homem favorito! — Dom riu, também emocionado, e o abraçou com força. — Que saudade eu estava de você.
— Eu também... sinto muito por voltar nessas circunstâncias...
— Não, não... ela ficaria feliz do mesmo jeito.
— Sinto muito, Dom. Eu a amava tanto...
— E ela te amava também. Vibrava a cada conquista sua.
— Ela foi muito importante para mim... o senhor sabe. — Dom assentiu. — Se precisarem de qualquer coisa, estou aqui. Pelo tempo que for necessário.
— O funeral é depois de amanhã — Dominic explicou. — Estão organizando uma homenagem no teatro. Se quiser passar por lá...
— Claro, com certeza!
— Quer um chá? Você está com cara de quem precisa de um.
— Com você? Com toda certeza!
— Aceita também, senhora Jodi?
— Sim, obrigada. Sinto muito pela sua perda...
— Obrigado... — Dom assentiu. — , querida, poderia nos preparar um chá?
virou-se rapidamente em direção à cozinha quando viu surgir do corredor.
!
! — Ela sorriu. — Quanto tempo!
— Você está linda.
— Obrigada. – Ela sorriu, envergonhada.
Um pigarro discreto veio de Dom.
— Camomila? — perguntou.
— Sim, querida.
e trocaram um sorriso contido.



2011

se sobressaltou quando o sinal do recreio tocou. Ainda assim, terminou o parágrafo antes de fechar o pesado exemplar de Anjos e Demônios. Estava completamente envolvida pela leitura. Fechou também o livro de apoio sobre história romana — o baque alto a fez franzir o rosto em uma careta — e só então percebeu que a biblioteca já estava vazia.
Bocejou, guardou os materiais na mochila e seguiu o fluxo de alunos rumo ao refeitório, que estava cheio e caótico como sempre. Respirou fundo e se colocou na fila. Observou as bandejas dos outros estudantes, pensando no que escolheria, mas acabou pegando o de sempre: macarrão, salada de beterraba e água. Foi para o canto do refeitório, encontrando um espaço vago na mesa dos deslocados. Como sempre.
Comeu devagar. Não tinha aula depois do almoço e sua primeira tutoria só começaria dali a uma hora. Quando o sinal tocou novamente, o ambiente virou outro caos — gente correndo para todos os lados. já estava terminando de comer quando sentiu um empurrão de algum aluno atrasado. Virou-se irritada para ver o idiota que esbarrou nela — e, ao ver a capitã das líderes de torcida, confirmou a parte do “idiota”.
— Ah, olha quem está aqui! — Ashley zombou. — A tutora do nosso querido capitão.
— Hu-um... — soltou um som entre cansaço e impaciência.
— Tá tentando o quê tão perto dele, hein? Acha que ele vai te dar moral?
respirou fundo. Outras líderes de torcida se aproximaram, formando um semicírculo ao redor. Ela continuou olhando para Ashley com tédio, piscando lentamente.
— Vai, responde! — Ashley disse, rindo de nervoso e colocando as mãos na cintura.
— Já acabou? — perguntou. — Eu vou voltar pra minha comida.
Tentou girar as pernas para dentro da mesa, mas outro puxão quase a derrubou do banco. A paciência evaporou.
— Sua filha da...
— Vai, ! Conta pra gente! — Ashley a empurrou. — Acha mesmo que o vai olhar pra você?
revidou o empurrão sem hesitar. A surpresa na expressão de Ashley quase valeu a confusão.
— Você encostou em mim? — Ashley arfou.
— Encostei. E, se continuar me enchendo, da próxima vai ser na cara. — O fogo nos olhos de fez as outras líderes recuarem um centímetro. — Vai, tenta.
— Chega, Ashley! — surgiu atrás de , colocando-se entre elas. — O que eu faço com a ou não, não é problema seu. — A voz dele estava firme. — Desiste. Eu não ‘tô a fim de você. Não quero ficar contigo. E não vou deixar você falar assim com ela.
— Mas, ... — Ashley olhou em volta e percebeu os alunos rindo. — O que a gente teve...?
— A gente não teve nada! — rebateu de imediato. — Somos só capitães, e só isso. Não é culpa minha se precisamos decidir coisas da escola juntos. Se toca.
Ashley saiu correndo do refeitório, sob risadas abafadas. bufou e se virou para .
— Me desculpa, . Elas não vão te incomodar ma-
Ele parou. A cadeira estava vazia. A bandeja ainda ali. Um livro caído no chão.
se abaixou, pegou o livro e sorriu ao reconhecer Anjos e Demônios. Ela havia falado dele na última tutoria, tão apaixonada que ele próprio ficou animado para ler.
— Quem diria... — murmurou.
Guardou o livro e saiu quase correndo do refeitório. Andou pelos corredores até chegar ao único lugar que sabia que era o porto seguro dela: a biblioteca. Estava vazia após o almoço. Quem não tinha aula certamente não estaria ali.
Ele procurou entre as estantes até encontrá-la encostada na última prateleira, as mãos escondendo o rosto.
? — chamou, fazendo-a se sobressaltar.
— Ah... é você. — Ela suspirou.
— Me desculpa pelo que aconteceu. Você tá bem? — Ele se aproximou, ficando mais perto do que o necessário.
— Eu ‘tô bem. — Ela se afastou, indo para outra prateleira. — Você não tem culpa de nada.
— Eu sei, mas a Ashley...
— É uma vadia! — disparou, deixando boquiaberto. Ela não era de falar palavrões.
— Não posso negar. — Ele riu, e depois de alguns segundos ela acabou rindo também. — Viu? Assim é melhor. Você tem um sorriso bonito.
— Ok, ok, capitão. Para de graça. — Ela o empurrou levemente e seguiu pelo corredor.
— Ei! A gente ainda tem tempo até nossa aula. Por que eu não te pago um sorvete? — Ele a acompanhou. — Pela insalubridade de ter que me aturar nas tutorias.
soltou um riso breve.
— Com certeza eu aceito. — Ela sorriu. — Com uma condição.
— Qual?
— Terminou Turandot?
— Terminei! — ele disse, animado demais. — Não conseguia largar. Mas o final... puxa, é depressivo.
— É muito corrido. Muita gente acha corrido e totalmente inadequado. — Ela deu de ombros. — Mas falamos disso na aula. Agora... quero meu sorvete.
— Sim, capitã! — fez continência, arrancando outra risada dela.

2024

— Acho que está na hora de ir, certo? — Judi chamou, tirando do transe enquanto ele ainda observava com um sorriso discreto. Era impossível negar o alívio que sentia ao vê-la bem. Ela estava bonita, mesmo com os óculos tortos, o cabelo bagunçado de um lado e o rosto abatido pela situação. Ainda assim, mantinha aquele mesmo olhar surpreso de sempre.
— Claro! Vamos deixá-los descansar. — se levantou, ajeitando a calça nos joelhos. — No que precisarem, contem conosco.
— Vai ficar na cidade? — A pergunta de saiu mais empolgada do que ela gostaria.
— Sim, por um tempo... — Ele assentiu, e ela acompanhou o gesto. — Participar do funeral, claro.
— Claro... — murmurou, desviando o olhar quando ele voltou a atenção para o viúvo.
— Dom, eu sinto muito. O que precisar, pode contar comigo. — apoiou a mão no ombro do senhor, que o puxou para um abraço breve.
— Obrigado, ! Ela estava muito feliz por você. Assistia a todos os seus filmes e não perdia um episódio de Outer Banks. — Ele riu, e riu junto.
— Obrigado, Dom. — Deu dois tapinhas gentis no ombro do mais velho.
— E você é sempre bem-vindo! — Morgan acrescentou.
— Obrigado. — sorriu. — Nos vemos em breve.
— Claro! — Morgan retribuiu o sorriso.
, poderia acompanhá-los? — Dom falou em um tom que denunciava a intenção.
— Claro! — Ela se levantou e os guiou até a porta.
— Obrigada pelo chá! — Judi disse quando a garota abriu a porta para ambos.
— Obrigado pela visita! — Dom acenou da sala.
A mãe dele desceu os degraus primeiro. veio atrás, e foi a última, deixando a porta apenas encostada.
— Eu espero no carro. — Judi tocou o braço do filho. — Obrigada, . Bom te ver!
— Obrigada, senhora . — sorriu.
esperou alguns segundos antes de finalmente olhar para ela.
— Eu... — começaram os dois ao mesmo tempo.
— Por favor! — disse primeiro, cedendo espaço.
— Hum... eu sei que não é o momento ideal, mas... eu gostaria de conversar contigo. Colocar o papo em dia. — Ele coçou a nuca, um pouco inseguro.
deu um sorriso pequeno.
— Claro. Podemos tomar um café, que tal? — sugeriu.
— Claro — ele concordou rapidamente. — Perto do teatro comunitário?
— Aquele lugar agora é um bar...
— Mentira! — riu, incrédulo. confirmou com a cabeça.
— Mas tem um café ótimo na esquina, o Le Pain.
— Então está combinado. — Ele manteve o sorriso discreto.
— Nove horas é muito cedo para um famoso? — provocou, e riu. — Diria oito, mas talvez seja exagero.
— Pode ser às oito. Estou acostumado a acordar cedo para as gravações. — Ela assentiu. — Roqueiros dormem até tarde, mas atores não têm essa sorte.
Ambos riram.
— Combinado, . Até amanhã.
— Até. — Ele começou a descer os degraus.
— Bom te ver! — disse quando ele já dava alguns passos.
> se virou.
— Você também. — Ele deu um último aceno antes de seguir para o carro.
Quando se aproximou, sua mãe ergueu uma sobrancelha.
— Devo perguntar algo?
— Não — ele respondeu, sério, e ela riu antes de entrar no carro.

Quando desceu do seu carro, já pôde ver sentado em uma das mesas internas, próximo à janela — seu lugar favorito. Ela respirou fundo, ajeitou o vestido florido que usava e seguiu para a entrada.
Tentou não transparecer, mas estava muito nervosa. No dia anterior, — ator de Hollywood — aparecera na casa de seu tio. Ela não via havia mais de dez anos, desde que se formaram. Ele seguiu para a Western Carolina; ela seguiu para São Francisco, onde estava até hoje lecionando na universidade estadual.
No último ano da escola, ela o ajudara em tutoria, e eles acabaram desenvolvendo um clima, mas a sanidade de — e a proximidade da formatura — a forçaram a negar e ignorar qualquer contato a mais. Mudar-se para a Califórnia foi perfeito. Ele continuou na Carolina do Norte, e ela se afastou de tudo.
entrou devagar na cafeteria, fazendo o sininho da porta denunciar sua presença. virou-se para ela, assim como os outros dois clientes. Ele abriu um largo sorriso — o mesmo do capitão do time de basquete que fazia as pernas das meninas tremerem — e sentiu a mesma tremedeira mais uma vez.
— Ei! — se aproximou, e se levantou para cumprimentá-la.
, que bom que veio! — Ele a abraçou quase como fazia nos tempos de tutoria. Ela ficou nervosa com o contato, mas o apertou forte também.
— Ah, é bom te ver! — Ela sorriu. — Não poderíamos colocar o papo em dia na casa do meu tio. — Apoiou a bolsa na mesa antes de se sentar à frente dele, e ele fez o mesmo.
— Não era o caso. Falando nisso, sinto muito mais uma vez. Você sabe o quão importante Gertrude era para mim — disse com pesar.
— Eu sei...
— E você que nos apresentou, então te ver aqui é incrível!
— Eu vim correndo quando soube. — suspirou. — Foi tão repentino que... — Ela fungou, olhando para a luz para ver se as lágrimas dissipavam.
— São Francisco, certo? — perguntou.
— Sim. Eu me formei em literatura, emendei uma especialização e um mestrado, e hoje leciono. — Ele sorriu.
— Isso é incrível, ! — riu. — Bem, nenhuma surpresa, você sempre foi incrível. — Ela sentiu o rosto esquentar.
— Obrigada! — ela disse. — E você? O que aconteceu depois da faculdade?
— Bem, eu fiquei por aqui. Fiz inglês com bolsa de teatro e performance teatral... — sorriu.
— Eu sei... Fiquei feliz quando soube. — Eles riram juntos.
— Depois sua tia acabou me ajudando, me indicou uma agente, fiz alguns curtas, depois algumas aparições em séries, até que fiz Com Amor, Simon, e meu nome começou a aparecer mais. Em 2020, fui chamado para entrar em Outer Banks e a carreira deu uma decolada. Estou em produção para um filme com o Daniel Craig. — suspirou.
— Ah, , isso é demais! De verdade! Fico muito feliz por você! — Ele assentiu.
— Obrigado. Sou muito grato a você e à sua tia por me dar uma opção... — negou com a cabeça. — Eu falo sério, . Antes de te conhecer, eu só via uma opção ou outra... não parecia que eu tinha saída. — Ele segurou suas mãos sobre a mesa. as observou por alguns segundos antes de olhar de volta para ele. — Além das pessoas incríveis que conheci por causa disso.
— Quem diria que uma tutoria daria tão certo... — brincou.
— Bem, não de tudo... nós podíamos ter...
— Com licença, senhores, gostariam de pedir? — parou de falar imediatamente, recolhendo as mãos.
— Cl-claro! — travou por alguns segundos, sabendo exatamente aonde ele iria, mas sem saber o que responder. — Um bagel com ovos, por favor.
— Bacon e ovos para mim, por favor — disse.
— E para beber?
— Um suco de laranja.
— O mesmo — repetiu, e a mulher assentiu.
— Já trago. — Ela se retirou.
— Então... — pigarreou, tentando criar coragem novamente para voltar ao assunto.
— Esse novo filme com o Daniel Craig... sobre o que é? Pode contar? — puxou outro assunto rapidamente.
— Ah, você vai rir... — Ele riu sozinho.
— O quê? Por quê? — Ela riu com ele.
— É um romance gay, que se passa nos anos 50. Tem cenas eróticas e tudo mais. — riu. — Viu? Eu te disse que ia rir.
— Não estou rindo do tema. Trabalho é trabalho. Mas até eu gostaria de dar uns beijos no Daniel Craig. — Ambos gargalharam, como na escola.
— A premissa é um pouco confusa, mas... Daniel Craig no elenco e Luca Guadagnino na direção, ele dirigiu Me Chame Pelo Seu Nome e Rivais.
— Ah, certo! — realmente conhecia. — Então é realmente uma boa oportunidade.
— Sim. Quem sabe a carreira deslanche para filmes e projetos mais relevantes?
— Vou torcer por isso! — riu.
— Com licença... — A garçonete voltou com os sucos e os pratos. — Bom apetite!
— Obrigado! — eles disseram juntos.
deu uma risada final, voltando a atenção para o prato. respirou fundo: achou melhor não tocar no assunto do beijo anos atrás. Parecia como quando eles fizeram tutoria juntos, de novembro a junho: tinham criado uma amizade especial, e ele não queria atrapalhar aquele momento agora.

saiu de um carro com Logan e Brooke, e sua mãe saiu de outro com Mackayla. O ator ajeitou o paletó preto e bagunçou os cabelos antes de seguir ao lado de sua mãe pelo gramado do cemitério municipal.
O local estava bastante cheio, mas era esperado; Gertrude era querida por todos os seus alunos e até por quem só a conhecia como pessoa. Ele viu Dom, Morgan, e os pais de próximos ao caixão, mas preferiu não se aproximar — era um momento de família.
Ele passou por alguns antigos colegas da escola, que só conseguiram abrir a boca, surpresos de ver de volta a Hickory. Ele apenas assentiu com a cabeça para alguns ex-colegas de basquete e algumas líderes de torcida. Ashley estava lá, mas ele se afastou o mais rápido possível; não queria contato agora.
O dia nublado parecia acompanhar o clima triste que pesava entre eles. Enquanto observava Morgan apertando um lenço com força entre os olhos e o choro quase silencioso, ele sentiu algumas lágrimas escaparem dos próprios olhos.
— Quer que eu fique por perto? — sua mãe ofereceu, e o garoto só conseguiu assentir, sentindo-a abraçá-lo pelas costas.
— Sim... — sua voz mal saiu.
— Queridos, presentes, estamos aqui para lembrar de Gertrude , uma mulher incrível, lutadora e importante em nossa comunidade...
A voz do padre foi sumindo enquanto se perdia no horizonte; as lembranças de Gertrude o atingiram.
“— Você pode ser o que quiser, >! Não faça escolha baseada no que os outros querem de você; quem vai precisar viver é você...
— Mas é tão difícil... — as lágrimas do jogador de basquete vieram com força.
— Eu sei... — Gertrude passou as mãos nos cabelos dele. — Mas uma hora simplesmente para de doer.
— Co-como...? — ele perguntou, trêmulo, passando as mãos no nariz entupido.
— Tempo — ela disse com sua voz acolhedora.”
Lembrou-se do dia em que chegou para conversar com ela após a indicação de . Havia acabado de brigar com seu pai e simplesmente correu fugido para o teatro. Não sabia para onde ir, mas tropeçou na frente do local que viria a ser tão importante para ele, e foi a oportunidade de entrar e ver o que aconteceria.
“— Vamos voltar da fala “eu nunca pedi para ser um herói” — Gertrude indicou, ajeitando os óculos de leitura.
— “Eu nunca pedi para ser um herói!” — falou forte, dando alguns passos em cima do palco antigo que rangia.
— Para — Gertrude falou, tirando os óculos do rosto. — Tenta suavizar um pouco. Não tente parecer maior do que é. Não tente ser o “herói”. — Ela falava calmamente, mas com certa força na voz. — Qual a teoria dessa cena?
— Ele está frustrado, pois todos estão contando com ele e ele não acha que é capaz... — Gertrude assentiu com a cabeça.
— E você já viu essa história antes? — Ela lhe deu um sorriso de lado.
— Sim, eu...
— Então seja você, ! — Ele assentiu com a cabeça, respirando fundo e se afastou alguns passos para trás. — Comece da fala anterior.
— “Eu não queria nada disso...” — deu alguns passos para a frente com as mãos no bolso dos jeans. — “Eu nunca pedi para ser um herói”. — Seu olhar foi para cima, suspirando. — “Eu não sei como lutar com isso, como encarar isso sem que...”
A atriz que o acompanhava segurou sua mão.
— “Então não!” — ela disse, firme, olhando para ele. — “Você não precisa encarar esse fardo sozinho, estamos contigo.”
assentiu com a cabeça, abraçando-a apertado, e Gertrude sorriu.
— Parabéns! — Ela começou a aplaudir e Anna, fazendo o restante do grupo em volta e na arquibancada acompanhá-la. — É isso, meu querido!
soltou Anna, agradecendo-a com o olhar, e se virou para Gertrude.
— Viu? Às vezes é mais sentir do que atuar...
— Acho que entendi agora... — Ele suspirou.
— Vem cá, meu querido. — Ela o chamou com a mão, e ele desceu as poucas escadas, ajoelhando na cadeira à frente de onde a mesa da diretora estava sentada. — Você precisa usar essa dor que está sentindo; ela será seu fio condutor...
assentiu, e Gertrude lhe acariciou o rosto.
— A boa atuação não vem quando você controla isso... Ela vem quando você a deixa transparecer... Vamos mais uma vez?
Ele deu um sorriso, assentindo com a cabeça.
— Vamos! — ele se sentiu empolgado.
— Do começo! Vamos tentar seguir essa cena inteira. Anna, linda, querida!
A mulher de uns 30 anos sorriu envergonhada, voltando à sua posição.”
sentiu as lágrimas caírem com força de seus olhos, abaixando a cabeça enquanto apertava os olhos. Sua mãe apenas manteve o abraço, esperando que aquilo o acalmasse de verdade, mas o olhar de Dom em sua direção chamava sua atenção.
— Querido... — Jodi falou baixo, e ergueu o rosto. — Dom... — ela indicou.
O menino viu Dom esticar uma rosa em sua direção.
— Vai se despedir dela...
O garoto se sentiu acuado com os olhares perto dele, mas não poderia negar um pedido de Dom. Quantas vezes tinha dormido no sofá da casa deles após uma briga com seu pai? Quantas vezes o senhor o acordava com um chocolate quente só para que ele se sentisse melhor?
— Aqui, meu menino — Dom disse baixo, estendendo-lhe uma rosa.
pegou a flor e notou sua mão trêmula. Suspirou, encarando o caixão de madeira escura já baixado no buraco e algumas rosas jogadas lá dentro. Respirou fundo, tentando pensar em alguma palavra bonita ou algo que os representasse, mas só conseguiu pensar em uma coisa:
— Obrigado — ele disse baixo e suspirou.
Sentiu outra mão sobre a sua e viu ao seu lado.
— Eu te ajudo... — Ela lhe deu um pequeno sorriso, e ele assentiu, jogando a rosa para Gertrude.
Outros fizeram o mesmo, inclusive Anna, uma de suas primeiras parceiras de teatro. Ela teve tanta paciência com ele que ele só conseguia ser grato. Ambos trocaram um rápido olhar, e ele sorriu, feliz por vê-la.
— Vem... — tocou-o nas costas, indicando para que ele se afastasse da multidão.
Parecia que ela estava conseguindo controlar bem as emoções; já ...
— Anna, Max e Valley sugeriram uma homenagem no teatro comunitário. Você gostaria de ajudar?
— Sim! — Ele mal esperou que ela terminasse. — Com certeza.
— Estamos planejando para domingo, assim todos podem comparecer... — Ele assentiu com a cabeça.
— Eu vou. Precisam de ajuda para organizar também?
— Uma mão nunca é demais! — Anna apareceu ao seu lado, e ele só conseguiu suspirar.
— Anna! — Eles se abraçaram, e a mais velha o apertou firme.
— Ah, ! Como estou feliz por você. — As lágrimas cegaram mais uma vez. — Estamos muito orgulhosos de você.
suspirou, passando as mãos nos olhos.
— Voe cada vez mais alto...
— Por causa dela... — Ele suspirou.
— Não, por causa de você! — Anna afirmou. — Te vejo amanhã?
— Sim, com certeza. — Ele suspirou novamente.
— Eu te pego às oito, que tal? — sugeriu, e riu fracamente.
— Sim... Eu vou gostar disso. — ele suspirou.
— Até amanhã... — disse, acariciando as costas de mais uma vez, e ele confirmou com a cabeça.
olhou em volta, vendo Dom cercado por várias pessoas, mas se aproximou dele, acariciando suas costas, e Dom se virou. lhe beijou a cabeça e foi retribuído.
— Você sempre foi o favorito dela... — Ambos riram.
— E ela a minha. — Eles sorriram.
— Ainda te vejo?
— Com toda certeza. — falou firme.
— Até mais... — Dom disse baixo.
— Até... — suspirou, afastando-se devagar de volta para sua mãe.
— Tudo bem? — ela lhe perguntou.
— Sim, agora está... — Sua mãe lhe deu um beijo, e ele foi acolhido por Brooke.
— Vamos para casa... — Jodi disse. — Fazer um chocolate quente com marshmallows.
riu fracamente, agradecendo à mãe com o olhar.



2011

— É isso por hoje, ! — fechou o livro, soltando um suspiro. — Vai dar certo.
O mais novo jogou a cabeça para trás de forma dramática, esfregando os olhos.
— Você só precisa de uma boa noite de sono para dar certo.
— Me desculpa... está tudo se acumulando. As provas, os jogos finais, a apresentação de teatro... — suspirou e virou seu copo, percebendo que estava vazio. empurrou o dela para ele.
— Bem, se depender de mim, você vai arrasar em tudo — ela disse com um sorriso carinhoso. a encarou por alguns segundos. — Ou me assustar — ela completou.
— Você tem uns minutos? — ele perguntou.
— É... eu só preciso estar em casa até as cinco — ela respondeu.
— Não vai durar mais do que dez minutos, prometo. — Ele sorriu abertamente.
— Ok, ok... o quê?
— Gertrude me deu um texto para apresentar amanhã e eu não tenho a mínima seriedade pra isso. — Ele afundou os ombros. — Todo mundo ri de mim.
— E por que você acha que comigo vai ser diferente? — cruzou os braços.
— Porque você é minha tutora e nunca ri dos meus erros. — Ele abriu um sorriso grande, fazendo suspirar.
— Justo. — Ela revirou os olhos.
— Mas eu vou precisar que você leia sua parte, ok? — Ele abriu o caderno, puxando um papel amassado das últimas páginas e estendendo para ela.
— Romeu e Julieta? — ela perguntou, surpresa.
— É. E você é a única que não fica entediada com esse tipo de leitura.
— Ah, o que eu não faço pelos meus fãs... — Ela se levantou e pegou o papel. — Você tem outro?
— Não, eu já decorei. Pode acompanhar. — Ele também ficou de pé.
desamassou o papel na mesa, ajeitando-o.
— Ok... você começa?
— Sim. — respirou fundo, fechando os olhos por alguns segundos, tentando entrar no personagem.
Ela passou os olhos pela cena e soltou uma pequena risada nervosa. Era o momento em que Romeu segura a mão de Julieta e a compara a um santuário — uma passagem linda e intensa.
— Pronta? — ele perguntou.
— Pronta. — Ela pressionou os lábios.
deu dois passos em direção a ela.
“Se eu profanar com minha mão indigna este sagrado templo... é só uma devoção rude que tenta se mostrar melhor.” — Ele segurou a mão de com delicadeza, e ela se arrepiou imediatamente ao toque. — “Minha mão junta com a sua e este encontro é como a prece de dois peregrinos, ansiosos para purificar o toque.”
Ele entrelaçou os dedos aos dela. engoliu em seco.
“Meu lábio é como o de um peregrino também, pronto para suavizar aquilo que minha mão profanou com um beijo suave.”
se aproximou mais. Os olhos azuis tão perto que ela podia contar cada detalhe. O corpo dela ficou quente, embora suas mãos continuassem frias dentro das dele. não conseguia romper o contato. Nem respirar direito.
— Sua fala... — murmurou, num tom baixo, tão natural que parecia mesmo estar num palco.
— Ah... sim! — piscou rápido, sacudindo a cabeça e olhando o papel trêmulo na outra mão. — “Os santos não se movem; ainda assim, ouvem as preces.” — Ela dramatizou. sorriu de verdade.
“Então não se mova... enquanto eu realizo minha oração.”
Ele deu mais um passo. Olhou diretamente nos olhos escuros dela — e, pela primeira vez, viu além dos óculos.
Os lábios dela estavam entreabertos. O hálito doce de canela — do chiclete que ele tinha dado — chegou até ele. A mão dela estava quente agora; talvez por nervosismo, talvez por algo mais. se perguntou, por um segundo apenas, se deveria avançar para o beijo da cena.
Mas não era mais apenas teatro.
As barrigas se tocaram. Ambos fecharam os olhos quase ao mesmo tempo. A proximidade parecia inevitável, natural. Surpreendente — e ainda assim inevitável.
nunca imaginou que algo assim pudesse acontecer com o capitão do time de basquete.
E nunca tinha considerado essa possibilidade... até agora.
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Ambos se afastaram num pulo quando Logan entrou apressado na biblioteca.
— Logan? O que você ‘tá fazendo aqui? — perguntou, surpreso. deu dois passos para trás, abraçando o próprio corpo.
— Pai ‘tá te procurando faz tempo. ‘Tá bravo. Ele est-
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A voz do técnico ecoou pela biblioteca inteira, fazendo todos olharem.
— QUIETO, TÉCNICO! — a bibliotecária reclamou, mas ele ignorou completamente.
Em poucos passos estava diante dos três.
— Venha comigo. Agora. — Ele agarrou a jaqueta de e o puxou como se ele fosse leve.
— Pai, me solta! — tentou se livrar, mas o técnico estava realmente furioso. E ele sabia por quê: tinha descoberto sobre o teatro comunitário.
— Pai, não faz nenhuma besteira! — Logan tentava acompanhar.
— Me descul-, ! Eu te encon-! — tentou falar enquanto era arrastado. — AMANHÃ! — gritou antes de desaparecer.
ficou parada, o coração martelando. Sem saber se era pelo quase beijo... ou preocupação. Algo claramente estava errado. E, apesar de cobrar boas notas fosse uma das exigências do técnico, nada daquilo era culpa dela.
— Ei, ... você ‘tá bem? — Ela virou e encontrou Derek, da aula de laboratório.
— Eu... eu não sei. Sim. Quer dizer...
— Foi assustador — ele comentou.
— Foi. Espero que ele fique bem. — soltou o ar, ainda tremendo.
— O técnico surtou. Você sabe por quê? Você e o são... — Ele gesticulou em direção ao quase beijo. As bochechas dela queimaram.
— Talvez... Se for isso, não é nada bom. — Ela olhou para o papel de Romeu e Julieta ainda em sua mão; suas coisas e as de espalhadas na mesa.
— Quer ajuda para carregar? — Derek ofereceu.
— Quero, por favor. Eu guardo tudo no meu armário e devolvo pra ele amanhã — ela sussurrou, ainda nervosa com a reação do técnico.

2024

— Bom dia! — Foi assim que despertou naquele dia, com chamando pela fresta do carro, com o vidro abaixado.
— Bom dia, ! — Ele bocejou, saindo pelo caminho de casa até o carro e entrando no banco do carona.
— Parece que alguém não dormiu bem... — ela comentou, já guiando o carro pela rua novamente.
— Quase... — ele suspirou. — Eu chorei muito à noite. Era choro ou dor de cabeça. — pressionou os lábios.
— Parece que está sendo bem difícil para você, não? — ela comentou.
— Para todo mundo, creio eu... — negou com a cabeça.
— Para você, em especial... — Ele suspirou.
— Ela foi a pessoa que me abriu portas, sabe? Foi ela quem permitiu que eu vivesse minha carreira hoje. Só sinto que nosso último contato tenha sido um postal no Natal passado... — ele suspirou.
— Pense nos bons momentos. É só o que vale. — lhe deu um sorriso discreto, e ele assentiu com a cabeça.
— E ela tem muitos...
Hickory era pequena, então chegaram em menos de 15 minutos, apesar do trânsito matinal. estacionou bem na porta, ao lado do tradicional parquímetro que não funcionava havia mais de 13 anos.
— Ainda não funciona? — comentou, e riu.
— Ainda não!
Eles subiram juntos alguns degraus até a entrada do teatro, e sorriu com as pequenas lembranças: o local de guardar bicicletas, a pintura desgastada nas esculturas à frente, a porta principal que rangia, chamando a atenção de toda a cidade. Fazia 13 anos que ele havia se mudado, e nada parecia ter mudado.
Assim que entraram, não pensou duas vezes e seguiu para uma das duas portas laterais, empurrando as cortinas e vendo o palco ali. Um teatro grande o suficiente para cerca de 400 pessoas; as mesmas cadeiras pretas, algumas descascadas, e o tradicional cheiro de lugar fechado.
acendeu as luzes no painel, e suspirou ao ver o cenário padrão, que sempre ficava montado: árvores e pássaros. No palco, várias caixas estavam espalhadas, cobertas por uma grossa camada de poeira.
— Há quanto tempo isso está assim? — ele perguntou.
— Algumas semanas. Ela já estava querendo se aposentar, então começou a delegar algumas coisas. Aí ela se foi, e ficou assim... — suspirou. — Além da homenagem, eu pretendo organizar algumas coisas, ver se você e o pessoal querem guardar algo... não sei.
— Ela trabalhou aqui por mais de 40 anos. Deve ter coisa do arco da velha. — observou uma caixa escrita “figurinos 90–2000” e riu sozinho.
— Aposto que sim! — eles riram juntos.
— Ela era minha rainha, . — Ele suspirou, passando as mãos pelos cabelos. — Ela me deu tudo e um pouco mais! — se aproximou, colocando a mão nas costas dele.
— Ela sempre vai ser sua rainha... — Ela lhe deu um de seus sorrisos discretos, como se nada tivesse mudado. — Minha também...
fechou os olhos, deixando algumas lágrimas caírem, e passou as mãos rapidamente pelo rosto.
— Me desculpa, eu...
— Você não tem que se desculpar. Tudo acontece por uma razão, certo? — apoiou as mãos em seus ombros. — Vai doer por um tempo, mas depois ficam só as lembranças...
— Um grande mar de lembranças... — Ele pressionou os lábios, tentando evitar que elas voltassem, mas o abraçou. A diferença de altura fez com que ele a fechasse em um casulo, cerrando os olhos com força, deixando que as lágrimas se misturassem aos cabelos de .
— Ela te amava! — tentou reconfortá-lo. — Ela sempre se achava só uma professorinha de escola, mas foi você quem mostrou que, com um pouco de esforço, tudo podia acontecer... — Ele suspirou. — Você foi a única cobaia que deu certo... — Ambos riram, lembrando das ideias mirabolantes de Gertrude, chamando-os de “cobaia”.
— Ah, eu adorava ser a cobaia dela. — Eles sorriram, e acariciou o rosto de >.
— Vai ficar tudo bem. — Ele confirmou com a cabeça, esfregando os olhos mais uma vez.
— E agora? — ele perguntou. — Vão fechar ou alguém vai tomar conta disso?
— Depende da cidade agora, mas os alunos querem que a Anna assuma. Ela está disposta, mas depende dos chatos do conselho...
— Aqueles que não fazem nada por esse teatro?! — ele perguntou.
— Eles mesmos! Vamos aproveitar a homenagem para fazer um abaixo-assinado. Com alunos, ex-alunos e frequentadores, indicando a Anna para o cargo. — sorriu.
— É a opção perfeita. — Eles se encararam, assentindo com a cabeça.
— Achamos também. Vamos ver o que vai acontecer... — Eles se encararam, tensos, suspirando em seguida. — Bom, chega de drama. Vamos trabalhar? Porque vai ter muito mais pelo que chorar aqui! — riu.
— Ah, vamos fazer uma viagem à terra da amargura! — Ele suspirou. — Por onde eu começo? E cadê o resto do pessoal? — Ele riu.
— Dormindo demais, aposto! — riu, prendendo o cabelo em um coque enquanto tirava o casaco. — Eles já chegam!

— Olha isso! — Malcon falou, rindo, enquanto levantava uma fantasia simplificada de astronauta.
— Meu Deus! O que é isso? — O grupo inteiro caiu na gargalhada.
— Apollo 13. 1996.
— Nossa... é o filme com o Tom Hanks, certo? — disse, pegando a cabeça redonda da roupa. — Isso aqui é pesado!
— Você é o ator aqui, senhor — Anna provocou, arrancando novas risadas.
— Minha gama de filmes e histórias é mais antiga, graças à senhorita . — Ele virou para com o capacete apertado na cabeça e fez uma careta.
— Eu não me importo nenhum pouco de ser culpada disso — respondeu, divertida. Os dois riram, e tirou o capacete com alívio.
— Nossa... quem fez isso deve ter quase morrido sufocado no palco. Isso é um aquário de verdade — comentou.
— Bem, era 1996. — Malcon riu.
— Como é que a minha tia fez uma peça sobre Apollo 13? — franziu o cenho, pensativa.
— Bem... era sua tia. — deu um meio sorriso. — A pessoa mais criativa que eu já conheci.
— Nem começa! Já paramos pra chorar duas vezes, já completamos a cota de hoje! — Valley avisou, e todos riram.
— Chega de chorar — disse, reaparecendo detrás de um cenário e puxando uma estrutura com fotos. — Ela não ia querer vocês assim.
— Deixa eu te ajudar. — foi até ela e puxou a estrutura para o centro do palco.
— Faltam fotos, mas já é um começo. Se puderem trazer algumas amanhã... — pediu.
— Claro! — todos responderam ao mesmo tempo.
— Tem mais um... — ela avisou a . Os dois foram atrás das cortinas, puxar outra estrutura. , distraída, pisou no pé dele. — Ai, me desculpe...
— Não se preocupe — ele garantiu, a voz baixa pela proximidade na penumbra.
o encarou por um segundo a mais que o habitual.
— Sabe... ela ficaria tão orgulhosa de você.
inspirou, tenso.
... não vamos começar com isso. — Ele sustentou o olhar dela.
— Eu sei, eu só... — Ela suspirou, os olhos brilhando. — São muitas memórias.
— E elas não param de vir — concordou, sentindo a respiração dela tão perto que o ar pareceu mais quente.
Mas o momento se quebrou quando Max gritou:
— Olha! High School Musical, turma de 2008! Isso é pouco antes da gente! A roupinha de Bop to the Top!
— Ah, não! — saiu correndo. — Não mexe aí!
— Por quê? — O grupo riu.
— Porque... — Ela respirou fundo.
— O quê? — perguntou, curioso.
o encarou como quem confessa um crime gravíssimo:
— Eu fui uma das líderes de torcida para completar o grupo...
— NÃ-A-A-AO! — Todos explodiram em gargalhada.
— TEM FOTOS?! — correu até a caixa nas mãos de Max.
— NÃO TOCA! — se jogou na caixa, sentando-se em cima. — AH! — Ela despencou para trás quando a caixa afundou.
O grupo gargalhou ainda mais. imediatamente a ajudou a levantar.
— Viu?! Se você não tivesse feito esse escarcéu, ninguém ia notar! — ele provocou.
Ela revirou os olhos.
— Agora a gente vai olhar essa caixa bem minuciosamente pra te achar — completou, sarcástico.
— E você nem me contou que tinha uma carreira secreta na atuação.
— Eu fiz aulas de jazz quando era mais nova, ok?! Mas não, eu não sou da atuação! Nunca! — Ela riu. — No máximo encenei Hamlet no primeiro ano. Fora isso? Nada!
Todos riram juntos.
— Viu? Ainda falta muito pra eu te conhecer, disse, e sentiu as bochechas queimarem.
Ele apontou para a caixa.
— Vamos abrir? — perguntou com um sorriso contido.
— Não tenho escolha, né? — Ela suspirou, rendida.
O grupo riu junto, já animado com a descoberta.

O dia ia passando, e o cansaço começava a pesar nos ombros de todo mundo. O teatro estava com aquele cheiro de poeira levantada, caixas abertas pelos cantos, fotos espalhadas pelo palco... e ainda assim parecia que nada tinha andado. passou a mão pelos cabelos, exausto, enquanto ajeitava algumas pastas em cima de uma cadeira.
— Vamos testar o som? — ela sugeriu, tentando dar vida a alguma coisa ali. — Precisamos ver se está tudo certo.
— Por favor. Qualquer coisa que não envolva poeira... — respondeu dramático, rindo fraco depois.
subiu no pequeno degrau ao lado da cabine técnica e começou a mexer no painel. ficou parado no meio do palco, olhando para cima como se esperasse que o teto desabasse — ou as luzes acendessem por milagre.
A caixa de som estalou, arrancando pequenos sustos, e então uma música antiga — daquelas que só Gertrude escolheria — começou a tocar.
— Meu Deus... — Anna levou a mão à boca. — Isso aqui era do aquecimento vocal.
nem pensou. Seu corpo apenas lembrou. Ele inspirou fundo, lentamente, enchendo o peito como Gertrude mandava, e soltou o ar num “ssssss” longo.
Anna observou por dois segundos... e se juntou. Os dois riram no meio do exercício, como se tivessem voltado às aulas.
— A gente era ridículo. — riu, balançando a cabeça.
— E feliz — Anna retrucou, e gargalhou dos dois tontos no palco.
— Ai, vocês são ridículos. — Ela riu, e lhe mostrou a língua.
— Vem cá! — ele chamou.
trocou a música antes de descer para o palco. O resto do pessoal estava jogado nas poltronas, só observando a bagunça reviver. A nova música era ainda mais boba, e se aproximou dela, esticando a mão.
— Fala “três pratos de trigo para três tigres tristes” — ele brincou, imitando o tom exagerado de Gertrude.
— Não vai rolar! — riu.
— Vai, tenta! — ele insistiu.
— Três pratos de tligo pala tlês... gargalhou alto. — Ai, que desastre!
— Concordo! — Ele ainda ria quando ela cruzou os braços, indignada.
— Faz você, então, se é o todo poderoso.
respirou fundo, postura de ator clássico.
— Três pratos de trigo para três tigres tristes! — disse rápido, surpreendendo-a. — Memória boa, né? — Sorriu convencido.
— De novo!
— Três pratos de trigo para três tigres tristes! — repetiu com naturalidade.
— De novo! — estava chocada.
— Três pratos de trigo para três tigres tristes! Três pratos de trigo para três tigres tristes! Três pratos de trigo para três tigres tristes! — Ele acelerou a cada rodada.
— Como?! — Ela riu, segurando-o pelos ombros, sacudindo leve.
— Gertrude — ele respondeu, a voz mais baixa, olhando direto nos olhos dela.
engoliu seco.
percebeu.
A música continuava tocando, abafada, enquanto o silêncio entre eles ficava cada vez mais alto. Até o resto do grupo parou para observar a tensão — clara, palpável, quase visível no ar.
> desviou o olhar devagar, tentando manter a naturalidade. Não queria cruzar essa linha ali, agora... não com todos olhando. Não naquele momento que ainda era sobre Gertrude.
Mas eles sabiam.
Ambos sabiam.
Eles tinham atravessado uma linha que seria difícil — talvez impossível — de voltar atrás.

— Tchau, gente! Até amanhã! — disse para os outros quatro ajudantes.
— Não se esqueçam de vir mais cedo para colocar as outras fotos! — Malcon lembrou.
— Dia de mexer nos álbuns antigos — Anna brincou, acenando.
— Até! — riu, voltando para o corredor central do teatro. Ao chegar, observou > parado próximo ao palco.
Ele o encarava limpo, sem caixas, e com algumas decorações montadas para a homenagem de amanhã. Uma arara de figurinos de um lado, livros e roteiros antigos espalhados em uma mesa e um painel de fotos com lembranças desde 1984, ano em que ela começou.
olhava, mas não via; sua cabeça estava longe. Não sabia que Gertrude havia sido tão importante na sua vida até agora.
Na verdade, adolescentes não costumam valorizar certas coisas até crescer — e era exatamente essa a sensação que ele tinha agora.
Ela havia sido sua maior apoiadora... Ela e , na verdade. Sem , nada disso teria acontecido.
— Terra chamando ... — falou baixo, colocando-se à frente dele, agradecida por ele não estar com os olhos molhados.
— Ei... — Ele suspirou.
— Pensando? — Ela deu um sorriso amigável.
— Ela ia gostar disso... — Ele suspirou novamente.
— Sim, ela ia... Ela vai! — garantiu, e entendeu. — Ela sempre vai estar aqui — confirmou, suspirando.
— Nunca achei que ela fosse tão importante para mim... nunca imaginei que esse palco, essas pessoas, fossem me moldar para ser quem sou hoje...
— Muita coisa aconteceu no seu último ano aqui... tudo isso, junto da perda repentina dela, do luto... é muita coisa para lidar ao mesmo tempo.
— Nem fala! Achei que eu era forte, agora sou um belo de um chorão! — Eles riram.
— Não! — ergueu a mão até o rosto dele. — Ela não ia querer que você chorasse. Ela quer ver você sorrir, rir de gargalhar e viver seu sonho. — > fechou os olhos, suspirando, colocando sua mão sobre a dela.
— Eu estou vivendo, graças a ela... e a você! — Ele apoiou as mãos nos ombros de . — Você me apresentou a isso... — Ela deu um sorriso envergonhado.
— E valeu a pena cada segundo. — Ela sorriu, e ele a abraçou.
sentiu seu corpo tremer de novo; aqueles sentimentos de anos atrás ainda estavam ali, mas tentou se manter firme ao abraçá-lo pelas costas. Era estranho sentir o mesmo que sentia quando tinha 17 anos.
— Eu tenho algo para você... — comentou, fazendo-os se soltarem do abraço. Ela tirou uma caixinha do bolso. — Achei esse terço no camarim, entre as coisas dela... — Ela o estendeu para ele. — Eu ia entregar para o meu tio, mas acho que eles iam gostar que ficasse com você...
— Não, eu não posso... — murmurou.
— Sim, você pode! — disse, firme. — Ela ia gostar disso, e Dom também não se oporia. — Ele suspirou.
— Mas ela fez parte da vida de tantas pessoas...
— E ainda assim você é quem mais está sofrendo... — segurou a mão de , colocando a pequena caixa entre elas.
— Obrigado... — Ele suspirou, e deu um pequeno sorriso.
— Vamos para casa. Amanhã temos mais um dia de emoções por aqui. — expirou pesadamente.
— Sim, vamos fazer por ela... — Ele deu um beijo na caixinha antes de guardá-la no bolso da calça.
— Por ela... — sorriu, passando o braço pelos ombros dele enquanto seguiam pelo centro do teatro.



2011

encarava o céu azul enquanto respirava fundo.
Era finalmente o dia da formatura. Já havia encerrado o semestre três meses antes, mas só agora sentia o peso — e o alívio — de ter chegado até ali. Uma pilha de cartas repousava sobre sua mesa em casa: ao menos 12 universidades; seis da Ivy League. Todas para literatura. O sonho que carregava desde criança.
Ainda não tinha decidido. A parte financeira pesava, sempre pesava. Reduziu as opções para quatro: todas com bolsa integral. Poderia trabalhar para o resto, sem problemas. Pelo menos a mensalidade — a parte mais cruel — já não seria um fantasma pairando sobre ela e sua mãe.
Talvez San Francisco. O clima lembrava Hickory e, bom... tinha praia. Um lugar perfeito para ler até se perder na própria sombra.
O barulho repentino de pneus freando a tirou da cabeça. Uma bicicleta parou em frente ao jardim, e > praticamente pulou dela, ofegante.
! ! .toUpperCase())! — Ele correu até ela tão rápido que a fez se levantar num pulo.
— O quê? O que aconteceu? É seu pai? — Ela o olhou de cima a baixo, apavorada. — , você está bem?
— NÃO! Quer dizer... sim! ‘Tá tudo be-e-e-em! — Ele riu nervoso, agarrando-a num abraço apertado e segurando seu rosto com as duas mãos.
— Fala logo! — ela insistiu, com o coração disparado.
— EU PASSEI! — explodiu num riso incrédulo. — Eu PASSEI, !
— Onde? Na faculdade? — ela perguntou, a boca se abrindo aos poucos.
— SIM! — Ele gargalhou alto. — Aqui mesmo no estado, mas eu passei!
riu com ele, contagiada, e a ergueu pela cintura, girando-a no ar como se a alegria precisasse de movimento para caber no corpo dele.
— E sabe o melhor? — Ele mal conseguia respirar. — Bolsa integral pra teatro!
— Ah, ... — Ela suspirou, emocionada. — Eu falei que você conseguiria.
— Eu sei que você disse! — Ele apoiou a testa na dela. — Meu Deus, , você tem noção do que isso significa? — Ela riu. — Você me ajudou. Você me ensinou. Você fez eu gostar de inglês, fala sério!
riu junto, abrindo a boca para responder, mas não houve tempo.
— Ah, meu Deus, eu te amo! — ele disse de uma vez só e colou os lábios nos dela num beijo leve, rápido, impulsivo.
Os olhos de se arregalaram. congelou.
— Me desculpa, eu... — ele começou.
‘Tá tudo bem... — Ela riu, corando.
Tá... — Ele respirou fundo, buscou coragem, apoiou a mão no rosto dela... e a beijou de novo. Dessa vez devagar, mais longo, quase um pedido.
Ficaram assim por dez segundos que pareceram silenciosos demais, íntimos demais. Quando se afastaram, evitaram se olhar por apenas um instante — mas o calor no peito não deixava mentir.
— Um pouco fora de hora, não acha? — murmurou, tentando brincar, encarando-o enfim.
— Talvez... — ele admitiu. — Me desculpa por não ter feito antes.
— Tudo bem... — Ela deu de ombros, mesmo que seu coração dissesse o contrário. — Nunca ia dar certo mesmo.
— Por que você acha isso? — franziu o cenho.
— Esportista e nerd? — Ela riu sem humor. — Quantas vezes isso funcionou?
— No cinema funciona sempre — ele rebateu.
— Então é. — Ela deu um sorriso pequeno. — Você devia ter feito antes.
— Pelo menos vai comigo na formatura? — ele perguntou, esperançoso.
Ela assentiu.
a abraçou forte, prendendo-a contra o peito.
fechou os olhos, respirando aquele momento como quem tenta guardar no corpo inteiro o que poderia ter sido — e talvez nunca mais fosse.

2024

já havia chegado à cerimônia há bastante tempo, mas permanecia sentado ao lado da escultura à frente do teatro comunitário. Muitas pessoas chegavam acompanhadas de seus familiares, esperançosas pela homenagem. Crianças, alunos mais recentes, surgiam fantasiadas com seus últimos figurinos; adultos que fizeram parte do teatro em algum momento se misturavam a parentes e conhecidos.
Ele, porém, estava um pouco perdido.
Hoje era praticamente um encerramento para ele. Um closure, como muitos dizem. E queria realmente que fosse — só não sabia como voltar a viver depois disso, como voltar ao set de Outer Banks e simplesmente... continuar.
Em 2011, ele jamais imaginou que Gertrude teria esse impacto em sua vida. Mas é aquilo que falam: só valorizamos quando perdemos.
— Oi, filho! — Ouviu a voz da mãe. Ela se aproximava com seus irmãos, junto do marido de Brooke e da filha dela.
— Tio >! — A menina correu até ele e o abraçou.
— Oi, meu amor! — Ele a abraçou de volta, erguendo-a no ar.
— Pronto? — Brooke perguntou, com um sorriso tenso. Ele assentiu.
— Eu tenho que estar. — Ele suspirou, e a mãe lhe deu um beijo na testa.
— Já vai entrar? — Jodi perguntou.
— Só mais uns minutos... — A família assentiu. Logan deu um tapinha em seu ombro.
— Te esperamos lá! — disse o irmão. Eles trocaram sorrisos.
A sobrinha voltou para o colo da mãe, e ele a observou entrar com os outros. Depois, ergueu o rosto para o céu — um dia lindo, ainda que marcado por uma brisa insistente — e suspirou.
— Vamos lá, Gert... somos só eu e você agora, ok?! — murmurou.
— Filho?
virou rapidamente, arrepiado pela surpresa. Diante dele, estava a única pessoa que esperava não ver ali.
As calças surradas e o boné puído não negavam: era quase como encarar um clone mais velho. Todd retirou o boné da cabeça, segurando-o contra o peito, e apertou os olhos como quem ainda tenta decifrar o próprio filho.
— Pai? — sussurrou, atônito.
— Oi... — Todd respondeu, calmo.
— O que está fazendo aqui? — A rispidez veio automática, um velho reflexo.
— Eu não quero brigar. — O pai ergueu as mãos em sinal de paz. — Eu só vim para a homenagem.
— Da Gertrude? — franziu o cenho.
— Ela foi importante pra você... então eu vim. — Todd deu de ombros, simples assim.
— Você não precisava... — murmurou.
— Não, mas eu vim. — Todd engoliu em seco. — Eu sei quando erro. E sei o que devo fazer pra começar a corrigir. Então... estou começando. — Ele estendeu a mão ao filho.
— Um começo? — perguntou, num tom que ainda carregava proteção... mas já sem a dureza de antes.
Todd apenas assentiu.
apertou a mão do pai. Um aperto curto, mas firme. Suficiente. Eles trocaram sorrisos breves. Não era perdão — ainda não. Mas era uma abertura.
— Te vejo lá dentro — disse.
Todd deu um sorriso maior, quase aliviado, e se afastou devagar antes de finalmente virar as costas.
Um começo.
?
Ele virou o rosto. estava à porta lateral, o sorriso suave, mas os olhos brilhando de nervoso e expectativa.
— Vai começar! — avisou ela.
sentiu o peito aquecer, o sorriso se abrindo como se algo nele se realinhasse ao mundo.
Ele caminhou rapidamente até ela.
— Vamos fazer um ótimo show! — ela disse, encaixando-se ao lado dele em um abraço lateral.
Os dois seguiram juntos pelos bastidores do teatro.

A cerimônia já havia começado havia pouco mais de uma hora. Diversas homenagens, monólogos e apresentações tinham sido feitas — pequenas cenas encenadas, clipes antigos, apresentações de dança ou apenas pessoas colocando em palavras o que o coração sentia diante da falta que Gertrude faria. Ainda assim, permanecia escondido na coxia, lendo e relendo o papel em sua mão.
, cinco minutos — disse, e ele suspirou.
— Eu estou nervoso... parece que nunca subi num palco na minha vida — falou, rindo nervosamente.
— Vai dar tudo certo, você é incrível! — se aproximou dele. — E você começou aqui. É a sua casa! — Ela segurou as mãos dele. — Não tem como não se sentir à vontade.
respirou fundo.
— E você estar aqui comigo torna tudo mais especial... — sentiu as bochechas avermelharem. — Você também é muito importante pra mim, . Você me ajudou a passar aquele ano, a continuar no time, a ajudar o time de basquete a vencer... e me trouxe até a Gertrude.
— Eu fiz isso de coração, nunca quis nada em troca... — respondeu, e apoiou uma mão em seu ombro.
— Eu sei... — Ele sorriu. — Mas seria mentira se eu dissesse que as lembranças não voltaram quando te encontrei de novo...
— É normal... faz tempo... — disse, envergonhada, abaixando o olhar enquanto sentia o estômago revirar.
— Eu nunca parei de pensar no que poderia ter sido... — Ele suspirou. — E hoje moramos tão perto e nem sabíamos...
— É a vida, . Nem sempre dá certo... — murmurou.
— Não... mas a gente sempre pode tentar de novo... — Ele ergueu o rosto dela com cuidado.
... — falou, quase sem voz.
— Eu sou apaixonado por você, ... — Os olhos dela se arregalaram. — E queria saber se você sente o mesmo...
, eu... — começou, mas foi interrompida quando Anna saiu do palco.
— Boa sorte! — Anna disse, animada.
respirou fundo, olhou para mais uma vez.
— Sim! — respondeu, rindo baixinho. — Mas a gente fala disso depois, vai. — riu também, sentindo o corpo mais leve, e seguiu até a beira da coxia, respirando fundo antes de entrar no palco.
— “Sim” o quê? — Anna perguntou, curiosa.
— Shiu... eu quero ouvir! — riu.

entrou devagar no palco, deixando que o silêncio o envolvesse antes de caminhar até o holofote central. O livro estava firme entre seus dedos; quando a luz o atingiu, seus ombros relaxaram quase imperceptivelmente. Assim que surgiu, alguns colegas — e até fãs perdidos — o saudaram com aplausos empolgados.
— Boa tarde! Meu nome é , turma de 2011 do teatro comunitário, e muitos dizem que eu fui o único ator da Gertrude que deu certo... — Risadas se espalharam — Eu não sei ao certo a veracidade disso. E, honestamente, não importa. — Seu sorriso se suavizou. — Gertrude e o teatro comunitário não formaram apenas atores ou dançarinos. Eles formaram pessoas.
“Pessoas talentosas, boas de coração, que aprenderam a ser felizes mesmo quando nada colaborava. Pessoas capazes de mudar o mundo — às vezes o mundo inteiro, às vezes só o de alguém sentado ao nosso lado. Pessoas lúdicas, que enxergavam magia em qualquer brecha da vida. Pessoas reais, que sentiam, que choravam, riam... e descobriam que podiam fazer tudo isso aqui dentro, porque esse espaço sempre foi seguro.”
“Entrar no teatro comunitário era uma chance de se encontrar. De extravasar. De descobrir que existe um ‘eu’ abafado pela vida lá fora. Aqui, a gente entendia que podia falar alto, errar, tropeçar na marcação, esquecer a fala, desafinar ou rir no meio da cena... e que tudo isso fazia parte de ser humano. De alguma forma, Gertrude sempre dava um jeito de transformar qualquer tropeço em aprendizado.”
Ele fez uma pequena pausa, deixando que a lembrança o atravessasse.
“Sei que muitos aqui seguiram caminhos diferentes. Talvez vocês tenham virado médicos, advogados, professores, pais, mães, vizinhos que fazem um ótimo churrasco no domingo... mas tenho plena certeza de uma coisa: Gertrude deixou um pedacinho dela em cada um de nós.”
Ele pousou a mão sobre o peito.
— E isso nunca vai embora. Esse teatro nunca foi só madeira, poltronas e refletores antigos. Esse lugar... era — é — um lar. Ela dizia que arte não é só palco; arte é jeito de ver o mundo. E hoje, aqui, eu finalmente entendo o que ela queria dizer.
Seu olhar brilhou quando continuou:
— Então, se eu “dei certo” — se alguém aqui deu — é porque ela plantou algo na gente. Algo que continua crescendo. Então... obrigado, Gertrude.
Os aplausos estouraram fortes. sentiu a emoção subir como uma onda quente, queimando atrás dos olhos até algumas lágrimas escaparem. Mas dentro dele... havia paz. Um silêncio bom, um fecho necessário.
Ele virou para a coxia e viu e Anna aplaudindo com entusiasmo. assentiu levemente para elas.
— Antes de terminarmos — disse, pedindo com um gesto gentil que os aplausos diminuíssem —, eu gostaria de ler um trecho do livro que me trouxe até aqui. Que me moldou. — Ele ergueu o livro, e reconheceu a capa de Moby Dick, o que a fez prender o ar por um instante.
— O livro... — murmurou, lembrando da primeira tutoria dos dois.
— É do primeiro capítulo — disse ele, a voz mais baixa, como se confessasse algo íntimo. — “Sempre que me pego ficando carrancudo; e sempre que é tão forte em mim a tristeza que me obriga a um poderoso princípio moral para impedir que eu saia para a rua, então considero que está na hora de ir para o mar o mais depressa possível.”
A voz de > tremeu quase imperceptivelmente.
“Esse é o meu modo de afastar a melancolia e regular a circulação. O mar sempre foi o meu substituto para o suicídio. Ele me salva. Quase sempre, quando começo a sentir tal impulso; então, percebo que justamente esse é o momento de lançar-me ao mar.”
“Não que eu tenha interesse especial em navios, nem desejo ardente de ver baleias, nem ambição de acumular riquezas. Não. É uma necessidade profunda, tão antiga quanto a própria humanidade.”
“Há milhões que vivem longe da água; porém, conduzam-nos a qualquer colina e verão seus olhos voltarem-se ao horizonte, onde céu e oceano se encontram. É como um ímã invisível. A maior razão pela qual a massa das pessoas permanece na terra firme é porque não têm navios. Mas, se tivessem... muitos se lançariam ao mar.”
“O mar é liberdade. É esquecimento. É cura. E, para mim... sempre foi o grande agente restaurador da alma.”
Ele fechou o livro — o som seco ecoou no teatro — e novos aplausos preencheram o ar. O holofote se apagou, e ele saiu discretamente para a lateral do palco, com o peito ainda aquecido.
Max entrou para encerrar a homenagem. se aproximou de com um sorriso que parecia segurá-lo inteiro.
— Eu não sei o que me surpreende mais: as suas palavras ou Moby Dick... — ela brincou.
Ele riu.
— Sabe... Moby Dick não é uma baleia, .
— É, ouvi dizer...
— Minha vida antiga era meu Moby Dick. — Ele a olhou com uma clareza nova. — Mas você... você é meu mar.
piscou, tocada pela verdade simples da frase. Ele continuou:
— Você aceita ficar comigo? Namorar... e ver em que mares a vida vai nos levar?
O riso dela veio leve, emocionado.
— Sim.
Ele ergueu o queixo dela com a ponta dos dedos e a beijou.
Dessa vez, sem pressa alguma.
O beijo começou macio, quase cuidadoso, mas ganhou profundidade conforme os corpos se aproximaram. sentiu o calor da mão dele na base de suas costas, guiando-a com firmeza suave. O mundo ao redor pareceu encolher — só o palco vazio, o cheiro da madeira antiga e o toque dele existiam.
Quando se separaram, ainda próximos, ela sentiu o ar quente da respiração de roçar sua boca. O coração dela batia tão forte que ela podia jurar que ele sentiria através do peito encostado ao dela. Seu lábio inferior ainda formigava.
Eles se abraçaram devagar, como quem finalmente encaixa uma peça que estava solta há anos.
Eles ficaram ali, abraçados, como se soubessem que aquele momento era o início de algo — o mar abrindo logo diante deles.
— Sim! – ela disse, rindo, e ergueu-lhe o queixo, colando os lábios nos dela.
As mãos de foram para os braços de , sentindo uma grande calmaria em seu corpo, como se aquela profecia “do que poderia acontecer” em 2011, finalmente se completasse agora.
Ambos se separaram lentamente, encarando seus olhos e se abraçaram logo em seguida.
— Ah, finalmente, hein?! – Anna comentou, fazendo ambos rirem, mas eles se mantiveram no abraço, despreocupados com o que aconteceria depois.
— Talvez a gente tenha demorado demais, mas ainda é tempo de começar de novo. – disse e confirmou, mantendo-se firme no abraço.



2025

entrou no campus da universidade com a tranquilidade de quem já conhecia cada curva daquele caminho. Os estudantes cruzavam a rua em ondas apressadas, e ele manobrou devagar até o estacionamento ao lado do prédio de Literatura — o maior do campus, o da biblioteca, o que ele sempre brincava ser “território oficial da ”.
Parou sob a mesma árvore de sombra generosa de sempre, desligou o carro e enviou a mensagem que mais gostava de escrever: “estou aqui”. A resposta veio em segundos — apenas um emoji, mas suficiente para fazê-lo sorrir como um adolescente.
Dentro do prédio, fechou o laptop, empilhou livros marcados com post-its coloridos e empurrou alguns papéis amarrotados para a gaveta. Deu tchau para dois alunos que ainda conversavam no corredor e caminhou para a porta principal, ajeitando a alça da mochila enquanto respirava fundo o ar do final de tarde.
Quando ela surgiu na saída, saiu imediatamente do carro. Encostou as mãos no teto, esperando. O sorriso que nasceu nos lábios dos dois quando se encontraram parecia sempre o mesmo — aquele que atravessava semanas e saudades.
Eles se abraçaram com força, os corpos se encaixando com uma familiaridade gostosa, e o beijo veio rápido, urgente, quente o suficiente para denunciar que sim... duas semanas era tempo demais.
— Eu senti saudades! — disse no tom que sempre usava, meio riso, meio confissão.
passou o braço pela cintura dela, aproximando-a mais uma vez.
— Eu também. Como você está?
levantou o dedo na direção da testa dele.
— Eu ‘tô bem... mas você? Isso é sangue? — Ela esfregou levinho a pele dele, o dedo saindo manchado de vermelho.
— Do filme — ele explicou, rindo enquanto limpava com o antebraço —, saí tão rápido que tirei a maquiagem igual o nariz de palhaço.
Ela riu, balançando a cabeça.
— É um nariz bonitinho, de qualquer forma.
levantou as sobrancelhas, fingindo orgulho.
— Então... o que quer fazer hoje?
— Depende do quão cansado você está.
— Só o cansaço normal de adulto funcional — ele disse, dando de ombros —, um banho resolve. Por quê?
— Pensei em irmos à praia. Nadar um pouco... relaxar.
Ele inclinou a cabeça, avaliando.
— Hum... Spring Break acabou de começar. A praia vai estar um caos versão documentário do National Geographic.
Ela fez uma careta de quem sabe que é verdade.
— Ok... solução alternativa. — ergueu o dedo. — Maratona de SOS Malibu, pés na banheira, zero vergonha alheia?
O riso de ecoou no estacionamento.
— Qualquer coisa contigo, professora.
— Ótimo, mas eu quero um Super Duper Burger antes — ela decretou, apontando para ele.
— Seu desejo é uma ordem, madame. — Ele fez uma reverência exagerada que rendeu outro beijo, mais lento desta vez.
Eles caminharam até o porta-malas, onde guardou a mochila de ao lado da mala de bordo que ele sempre trazia quando vinha para São Francisco — quase um símbolo de que nunca chegava de mãos vazias.
Já dentro do carro, ambos colocaram os cintos. Antes de dar partida, estendeu a mão até a dela e a beijou, como fazia desde o início, um gesto simples que sempre a aquecia sem esforço.
sorriu.
Ele sorriu de volta.
E, assim, arrancou o carro e seguiram juntos pela estrada — como se o mundo lá fora fosse só continuação natural do caminho que os dois construíam dia após dia.


Fim


Nota da autora: Oi, gente! Escrevi essa história de presente para o Amigo Fic 2025, e minha amiga secreta era a Let Fernandes.
Não tinha a mínima ideia de quem era, mas foi um prazer escrever essa história e poder entrar um pouco no mundo dele.
Espero que gostem e não se esqueçam de comentar! <3

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