Codificada por Lua ☾
Finalizada em: 28/12/2025
Perdia horas de seus dias deitada sobre a folhagem, observando os topos das árvores que aos poucos se tornavam mais vazios.
Em breve novas folhas surgiriam e a natureza recomeçaria o seu ciclo.
Anne achava isso belo. Às vezes desejava ser como a natureza, sempre pronta para recomeçar, independente dos desafios de cada estação.
Era quase fim de tarde quando Anne chegou à entrada do Festival da Colheita, com sua pequena cesta de palha pendurada em um dos braços e um sorriso empolgado delineando suas feições. Tudo parecia maravilhoso aos olhos da garota, sua cabeça se virava em várias direções, ansiosa para admirar cada detalhe. Desde as lanternas que mesclavam tons dourados e alaranjados, espalhadas ao redor para iluminar o campo, até a aura quase mágica que parecia envolver o lugar.
Anne podia jurar que, se piscasse, veria a chegada das fadas, voando entre os vizinhos, derramando pós brilhantes enquanto alçavam voos em piruetas graciosas, completamente ignoradas por todos ao redor.
- Anne! - Diana chamou-a ao longe, o braço esticado para o alto acenando freneticamente pela mais genuína empolgação e com a outra mão, tentava equilibrar sua cesta repleta de maçãs.
- Diana! Oh, Diana! Esse lugar está tão mágico! - Anne soou dramática ao colocar ambas as mãos unidas sob o peito e soltar o fôlego de forma sonhadora.
Diana deu uma risadinha numa mistura de encanto e diversão pelas reações da amiga, logo começou a olhar ao redor com mais atenção e apreciação, tentando enxergar o que a outra via.
- É lindo mesmo, Anne.
No mesmo instante, a amiga agarrou uma das suas mãos e começou a puxá-la em direção aos vizinhos que caminhavam ao redor, colhiam maçãs, comiam e conversavam sobre suas vidas.
- Temos que garantir uma fatia da torta de maçã da senhora Bennett, prometi a Marilla que levaria. - Contou empolgada enquanto seguia em direção a mesa repleta de gostosuras preparadas pela senhora Bennet. - E também preciso levar o xarope de bordo do senhor Whitaker . - Listava rapidamente, focada em cumprir suas promessas.
Cumprir promessas era algo muito importante para ela.
Assim que pararam em frente a mesa da mulher, Anne encarou os tabuleiros que abrigavam algumas tortas e sorriu animadamente.
- Olá, senhora Bennett. Como tem passado? Espero que esteja bem!
- Olá, Anne querida. Estou muito bem, às vezes sinto uma dor ou outra nas costas, mas nada que não vá melhorar. Como está a Marilla? Espero que melhor da gripe.
- Está se recuperando e nada melhor do que uma fatia da sua maravilhosa torta para ajudar na melhora do bem-estar da minha querida Marilla. - Anne disse com um ar dramático.
Diana deu uma risadinha.
- Oh, minha querida, não precisa ser tão lisonjeira! - A mulher corou e deu uma risadinha. - Qual sabor gostaria de levar? Temos ameixas com mel, morangos assados…
Anne observou todas as opções em busca do sabor que havia prometido e não conseguiu identificar, a testa franzida em concentração.
- Gostaria de uma fatia da torta de maçã. - Solicitou educadamente encarando a mulher com expectativas, mas assim que a expressão da mais velha pareceu desapontada, um alerta soou na cabeça da jovem.
- Oh querida, acabei de vender a última fatia da torta para o jovem Blythe. Minhas mais sinceras desculpas, mas infelizmente, não conseguirei ajudá-la. Posso te fornecer outros sabores, caso…
- Ah, não! Não, não, não. - Anne choramingou para si mesma, as mãos descansaram no topo da sua cabeça, apertando a palha do seu chapéu favorito enquanto seus olhos embaçaram pelas lágrimas não derramadas.
Imaginou o cenário onde voltava para casa, encontrava Marilla, sua querida Marilla, descansando em seu leito de convalescença, desgastada pela forte gripe que relutava em ceder. Como poderia alegrar o coração da mulher, se não tivesse ao menos a torta favorita para trazer um pouco de alento.
- Calma, Anne. Podemos comprar em outro lugar. - Sugeriu Diana tentando tranquilizar a amiga.
- Não, não, não. - Anne continuou a choramingar. - Eu prometi a torta de maçã da senhora Bennett. Não posso voltar de mãos vazias. Não posso, Diana.
- Oh, querida. - Falou a senhora comovida com a reação da jovem.
- Calma, a senhora disse que vendeu para o Gilbert Blythe? - Perguntou Diana para a senhora em confirmação.
- Sim, querida.
- Tive uma ideia, Anne! - Diana soltou como se tivesse trazido a solução para o fim de todos os seus problemas e naquele momento, Anne confiou de olhos fechados na melhor amiga enquanto era arrastada pela mão para longe da senhora Bennett e suas tortas maravilhosas.
- Oh minha querida, Diana. Minha cavaleira da armadura prateada, salve a minha vida, minha querida.
- Vamos achar o Gilbert, Anne! Podemos explicar e tenho certeza que ele vai querer nos ajudar e…
- O quê? - Diana reagiu surpresa, sentindo a sua ideia para ajudar a amiga, escorrer por entre os seus dedos.
Anne observou Gilbert com atenção, a forma como ele segurava com cuidado o embrulho em suas mãos e de alguma forma, sabia o que deveria ser dito. Promessas poderiam ser cumpridas, não importava o período em que aconteceria. Faria o seu melhor para em algum momento, levar a torta de maçã para Marilla e isso sem precisar tirar algo precioso do Gilbert.
Ela respirou fundo, criou coragem para pôr sua decisão em prática.
- Não, Gilbert. - A voz saiu mais baixa do que o habitual - Não precisa se preocupar, foi apenas um imprevisto. - Forçou um sorriso sem mostrar os dentes.
Diana franziu a testa e abriu a boca para protestar, entretanto, Anne impediu-a com um aperto discreto em sua mão num pedido silencioso para que não protestasse.
Gilberto percebeu o gesto da jovem, depois olhou-a diretamente e algo pinicou em seu peito. O sentimento do reconhecimento daquele tipo de expressão que dominava o rosto de Anne, o desejo de querer muito algo, mas ter a força para abrir mão. De alguma forma, esse reconhecimento por parte de Gilbert, trouxe à tona a certeza do que deveria fazer.
- A torta é para a Marilla? - Perguntou com suavidade.
Anne encarou-o, surpresa e confirmou com um gesto lento de cabeça.
- Ela não tem estado bem, e eu prometi…
Gilbert encarou o embrulho em suas mãos, mais uma vez, soltou um suspiro quase imperceptível e estendeu a torta em direção a Anne.
- Pegue, pode levar. - Olhou-a diretamente, aguardando que retirasse de suas mãos.
Anne piscou várias vezes, surpresa.
Diana levou a mão à boca, emocionada demais para disfarçar.
- A senhora Bennett fará outra no próximo ano. E acho que a Marilla apreciará mais do que eu apreciaria sozinho. - ele deu de ombros, com um meio sorriso e deu uma leve sacudida num gesto de incentivo, os braços ainda esticados.
Enquanto Anne parecia ponderar sobre aceitar o gesto do rapaz, o festival seguia ao redor deles, com risos, música e o aroma doce das sobremesas no ar.
Diana percebendo a demora da amiga em tomar uma decisão, deu uma leve cotovelada de incentivo nas costelas de Anne, o que pareceu fazê-la acordar do transe.
- Gilbert… - soltou num suspiro. - Eu não posso aceitar, é a sua torta. É o seu tesouro anual. - agarrou discretamente as barras do seu vestido, apertando com força para segurar a vontade de pegar o pacote e sair correndo.
Gilbert deu mais uma leve sacudida de incentivo, os braços começando a doer por ficar muito tempo esticados. Abriu um meio sorriso e olhando diretamente nos olhos da garota, disse: - Alguns tesouros se tornam mais preciosos, quando são compartilhados.
Anne sentiu o peito aquecer de uma forma inesperada, diferente de tudo que havia sentido na vida. Não foi apenas pelo gesto, mas pela gentileza tranquila. A forma como Gilbert sempre parecia compreender aquilo que ela não dizia em voz alta.
- Obrigada - disse, finalmente, com sinceridade transbordando em cada sílaba. — Prometo… prometo que nunca esquecerei isso.
Gilbert sorriu.
- Olhem, um labirinto. Acho que deveríamos tentar. - comentou, com um brilho desafiador nos olhos.
Anne apertou a torta contra o peito, ainda sentindo o calor do gesto de Gilbert, e sorriu.
Entraram os três, os corredores de palha fecharam-se ao redor deles, abafando os sons do festival. Diana seguia à frente, escolhendo direções, até virar uma curva com rapidez demais.
- Tenho certeza de que é por aqui - falou, a voz já distante ao virar o corredor a direita.
Anne riu, mas a resposta se perdeu quando percebeu que a amiga não estava mais ali.
- Diana? - chamou, girando lentamente o corpo para olhar o caminho vazio que se abria à sua direita.
Recebeu o silêncio como resposta.
Gilbert parou ao seu lado.
- Acho que ficamos para trás - disse despreocupado.
Anne observou ao redor, surpreendida pela calma que a envolvia. Parecia que o labirinto tinha se fechado para oferecer abrigo, um instante de paz e calmaria. Ergueu o olhar para Gilbert que estava parado ao seu lado, as mãos escondidas nos bolsos de sua calça, a expressão pensativa.
De alguma forma, o momento pareceu incentivá-la a falar.
- Eu disse que talvez fôssemos bons amigos e isso continua verdadeiro. - falou suavemente.
Anne baixou os olhos para a torta em seus braços, lembrando-se do gesto do garoto, e então ergueu o olhar para ele, sentindo algo se encaixar dentro de si, como se as peças que faltavam no quebra-cabeça tivessem nos lugares corretos.
Respirou fundo e deixou os pensamentos escaparem por seus lábios.
- Mas há algo mais, Gilbert. Algo que está crescendo aqui dentro. - Colocou a palma da mão sob o coração e observou-o com expectativa.
Gilbert a encarou com atenção, o sorriso surgindo devagar.
- Então, deixe crescer, Anne. Eu gosto da ideia de descobrir no tempo certo. - Sorriu sincero.
Anne sentiu o coração aquecer ao ouvir aquelas palavras, abraçou mais firmemente o pacote em suas mãos e seguiram pelo caminho onde a amiga desapareceu.
Pouco depois, Diana reapareceu entre os fardos, aliviada e sorridente.
- Sabia que encontraria vocês. Vamos que o festival ainda não acabou. - disse, agarrando um braço de cada um e guiando-os novamente até o final do labirinto, um sorrisinho discreto estampava o seu rosto, mas os amigos não perceberam.
Enquanto caminhavam de volta às luzes douradas, Anne e Gilbert sorriram cúmplices, como se aquela noite tivesse revelado algo novo, ainda delicado demais para ser nomeado.
FIM!
Nota da autora: Espero que tenha gostado da fic e que seu coração esteja quentinho como o meu <3 Escolhi o Gilbert, porque amo a série “Elena with an E” e mereciam mais temporadas <3 Que o seu 2026 seja muito abençoado e repleto de muitas fics!! E que você possa nos agraciar ainda mais com suas histórias. Fiquei muito feliz em ter você como minha amiga oculta <3
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