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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 12/02/2026

Estava tudo pronto para sua viagem. estava verificando a casa temporária que iria ficar, era pequena e aconchegante pela foto, e, como já era maior de idade perante os dois continentes, sua ansiedade estava mais atacada do que nos outros dias, mais do que no dia de seu Trabalho de Conclusão de Curso. Com tudo arrumado e suas blusas de rock dentro da pequena mochila vinho, tudo para apenas um ano na Itália, ela e sua família foram para o aeroporto de São Paulo.
Andava de um lado para o outro na sala de espera, olhando seu celular de cinco em cinco minutos. Quando seu voo foi anunciado por uma das mulheres que trabalhava no aeroporto, se encaminhou para o portão nove de embarque e se despediu de seus pais.
— Vai com Deus, filha. — Sua mãe a benzeu. — Tome cuidado por lá, viu? E me envia uma mensagem quando chegar.
— Pode deixar. — A abraçou com os olhos marejados.
— Qualquer coisa você liga para a gente. — Seu pai começou a falar. — Esse é seu cartão reserva se precisar de algo, está bem? — A menina concordou com a cabeça. — Nosso banco também atende no exterior, não esqueça.
— Não me esquecerei, pai, muito obrigada. Eu vou sentir muitas saudades de vocês, mas prometo trazer muita coisa de Milão.
— Nós também, minha pequena. Até daqui um ano.
— Até.
A senhora deu um beijo no topo da testa de sua filha, e o homem acompanhou o gesto. seguiu feliz, nervosa e ansiosa. Sentou em sua cadeira ao lado da janela e colocou seus fones de ouvido. A viagem foi tranquila para o seu primeiro voo de avião, poucas turbulências, e conseguiu se distrair com o filme que havia escolhido.

Milão estava tão linda de cima que seu fôlego se perdeu por um instante. As luzes dos prédios a deixaram admirada, não via a hora de passear por cada pedacinho de Milão.
Já com o cartão carimbado para intercâmbio de um ano, ela seguiu rumo ao seu pequeno lar temporário. Uma conversa breve com sua mãe no celular, e logo foi ajeitar sua casa. Ficou em sua casa com a sua colega de quarto, apenas apreciando e descansando depois do voo cansativo.

O ar da liberdade era inexplicável. Ela fazia as despesas sozinha, comprava mais guloseimas do que alimentos naturais, trabalhava e ainda passava semanalmente na central da sua escola de italiano, a mesma que forneceu o intercâmbio.
Seria um ano longo para ela, tudo com a sua primeira vez. sempre foi uma garota caseira, que gostava de sair com suas amigas e ir a lugares mais calmos e tranquilos. As noites mesmo eram regadas pelos shows de rock, tanto das bandas locais, quanto das mais famosas, e isso não passou a ser diferente para ela em Milão.
Na verdade, tudo estava sendo novo e ao mesmo tempo difícil, sozinha, alugando um lugar para seu período de estadia e trabalhando. Não que no Brasil fosse mais fácil, entretanto, lá as contas eram divididas em três pessoas, e hoje sua realidade era diferente.
Nesse tempo, passou a trabalhar em uma livraria local, era pequena, aconchegante, com grandes poltronas para poder ler e com uma cafeteria quase que no centro dela. Não era um trabalho muito puxado. Trabalhava meio período, e o resto do seu dia dedicava aos cursinhos, séries e ir aos barzinhos de rock com sua amiga gaúcha.



Uns meses depois daquela correria toda e já se sentindo mais tranquila, ela e sua amiga decidiram ir a um pequeno show que teria em Milão. Naquela noite, não tinha planos para séries e filmes, pretendia ir ao show de uma banda não tão famosa em um bar local.
Com seu moletom surrado e sua boa e velha calça jeans, ela esperou sua amiga do lado de fora de casa.
— Demorei? — A menina abriu a porta do táxi.
— Não — a cumprimentou com um abraço. — Eu acabei de chegar aqui fora.
— Menos mal. — Abriu o sorriso. — Vamos. Nós dividimos daqui até o bar. — A amiga se referiu à conta.
— Certo, certo. — Riu.
Os olhos cor de mel decoravam cada cantinho que o motorista passava até chegar ao bar. Estava apaixonada pela cidade, por todos os detalhes, era tudo como ela imaginou que seria. Não em nível de filme, mas no nível da fanfic mental dela.



O bar estava cheio, praticamente não havia nenhum lugar para sentar. O local estava bem iluminado, com o palco centralizado. Quase que de frente para a porta de entrada, estava o bar bem cuidado e com alguns barmen. As meninas procuraram por uma mesa, ou até mesmo duas banquetinhas vazias perto do bar para aproveitar o show.
Naquela noite, a banda Side iria se apresentar.
— Ali, amiga — falou. — Tem dois lugares ali.
— Reserva eles que eu já vou. Você quer cerveja?
— Não, aceito só uma água com gás se tiver. — Ela riu. Andou rapidamente para os lugares vazios e sentou, já segurando a outra cadeira.
— Aqui sua água. — Entregou uma garrafinha. — Eu ouvi que a banda vai cantar músicas mais conhecidas, então você não vai ficar sem cantar nada.
— Isso é maravilhoso. E você não contou como conheceu a banda, Mika.
— Ah, é! Foi andando por perto desse bar de rock que conheci. Vi um papel colado na parede e procurei por eles na internet, gostei do som e com isso passei a curtir a banda.
— Hm, bom, você devia ter me apresentado, né?
— Perdão, amiga, eu juro que, ao sair daqui, eu passo tudo para você. Esse show não vai começar logo? Sei que chegamos tarde, mas já era para ter começado.
— Tenha calma, logo vai começar.
E foi apenas ela dizer que alguns segundos depois a banda já estava no palco, acompanhada do solo do guitarrista. As meninas curtiam o som da banda, que chegava contagiar a ponto de batucarem as unhas na mesa, balançarem a cabeça sutilmente e cantarolarem junto.
— Mi scusi, podemos sentar aqui? — dois homens perguntaram, na verdade, apenas um questionou. — O bar está todo cheio, e meu amigo aqui precisa relaxar um pouco. — Sorriu.
— Claro. — Mika deu a permissão. Ao olhar para sua amiga, viu a expressão confusa e indignada da garota.
— Sou , e esse é o Donatello. — O rapaz meio abatido apenas cumprimentou com um aceno.
se aproximou mais de sua amiga e tentou curtir o show da banda como se não estivesse preocupada com os dois estranhos junto a elas. Com o passar do tempo, já havia mais bebidas não alcoólicas na mesa — dos rapazes, o garoto que não estava muito bem havia se recuperado da pressão baixa, mas permaneceu na mesa junto delas.
Sentada ao lado de , Mikaella percebeu os olhares que deixava escapar por . De uma forma discreta, a amiga pegou seu celular e enviou uma mensagem, queria ser discreta e que não deixasse explícito que estava falando dele para a amiga.
trocou o olhar entre a mensagem e na direção que estava sentado. Instantaneamente, suas bochechas começaram a ruborizar ao perceber os olhares de . Segurou o riso e tomou o fôlego para conversar com Mikaella.
— É sério isso? — questionou e só viu a amiga concordar. — Eu mereço. — Revirou os olhos.
A garota começou a prestar mais atenção no rapaz. Ele não era o homem mais lindo do mundo, como seu ator favorito. Os fios loiros bagunçados, os olhos azuis e a roupa de banda mostrando-se a mais usada por ele. estava bem errada sobre ele, era muito lindo, a ponto de perceber que não parava de olhá-lo.
A troca de olhares permaneceu até o final do show. Uns minutos depois que estava no balcão, esperando seu pedido de fritas, se aproximou, pedindo uma cerveja. O frio na barriga apareceu, suas mãos começaram a suar. Torcia que ele não puxasse assunto com ela enquanto esperavam seus pedidos chegarem, já que ela se sentia um pouco estranha ao falar com pessoas bonitas no geral.
— Me desculpa mesmo sentar na mesa com você e sua amiga. Donatello esqueceu de tomar o remédio de pressão dele, então tive que agir rápido.
— Sem problemas. Ele está melhor?
— Está, vou tomar mais uma cerveja e o levar para casa, é sem álcool — falou, ao saber que criaria dúvidas.
— Ah, sim. — Pegou a porção de fritas e esperou ele pegar a cerveja.
A garota pensava em formas de poder continuar o assunto, mas era como se aqueles olhos azuis apagassem tudo que estivesse em seus devaneios. Voltaram para a mesa em silêncio e só conversaram entre si — os quatro — até a uma da madrugada.
— Tá brincando — Mika comentou. — Chuva bem agora.
— Se desse, eu levava vocês, mas preciso entregar esse mala são e salvo. — Eles riram, menos Donatello.
— Não tem problema, a gente chama um carro.
— Eu vou fazer isso lá dentro, o sinal não está tão bom aqui — Mika avisou. — Usarei o telefone de lá, pode ser que eu demore, amiga.
esperou Donatello se afastar um pouco para poder conversar a sós com a garota, ou melhor, tentar flertar com ela.
— Espero vê-la novamente.
— Eu também, em uma condição mais tranquila.
— Com café, quem sabe? — Sorriu de lado.
— Aceitaria. Quem sabe nos encontramos por aí. — Retribuiu o sorriso.
— Até qualquer dia então.
Ela concordou com a cabeça e o abraçou. Por ser alto, precisou ficar nas pontas do pé. Pôde jurar que estava ficando louca, ou era a única gota de álcool que colocou na boca ao experimentar o drink da amiga, mas era o abraço mais reconfortante que ela já havia recebido em Milão. Ele deu um beijo suave na bochecha da garota e foi para seu carro, colocando a touca.
Mika, que viu tudo de longe, chegou quase explodindo pela amiga.
— Eu não acredito que você finalmente vai viver um amor de intercâmbio.
— Para. — Tentou esconder os olhos brilhando pelo garoto. — Eu só o abracei em forma de despedida.
— Ah, claro, um “espero vê-la novamente, com café, em um lugar tranquilo” é de despedida, sim.
— Você anda escutando a minha conversa agora, é?
— Claro que não, mas eu já estava saindo do bar e não pude deixar de ouvir.
— E quantos minutos para o carro chegar? — Mudou de assunto, ao olhar para a chuva intensa.
— Daqui dez minutos. Eu espero que vocês se encontrem.
não respondeu nada, mas também esperava poder encontrá-lo daqui algum tempo, quem sabe amanhã, ou na semana que vem, mas depois parou para pensar que não poderia acontecer nada, ela iria embora daqui três meses praticamente. Não queria se apaixonar, não queria sentir aquele amor verdadeiro com ele e no fim ter que ir embora e o deixar para trás.
Elas entraram no carro e não conversaram mais, apenas ficaram olhando a chuva cair e o motorista curtir a rádio dele em um tom baixinho.



já tinha deixado seu amigo na casa dele e agora dirigia cuidadosamente pelas ruas de Milão, afinal, ainda chovia. Nunca tinha visto tanta beleza em uma única mulher, e havia feito ele perder todo o foco que existia dentro de si.
Tomou um bom banho e preparou algo para comer enquanto preparava sua mesa de trabalho. era dono de uma loja de instrumentos e acessórios musicais. Mesmo não sendo exatamente o que ele desejava para o seu futuro, era o que ele fazia no momento. Sempre pensava em deixar o emprego e tentar seguir o rumo de seus sonhos. Gastronomia.



O dia amanheceu um pouco frio. Colocou sua jaqueta de couro sintético e a touca da banda que gostava, enviou a lista de pedido que havia feito ontem à noite para os fornecedores enquanto ia em direção ao trabalho.
— Ehi, cara. — Donatello entrou na loja.
— Donatello, como você está? — Deu um abraço no amigo.
— Bem, minha mãe ajudou também e só faltou me deixar de castigo em casa por não tomar o remédio. — Eles riram.
Dom era o típico filho único, sua mãe mais protegia do que outra coisa, e ele não via o momento para poder sair de casa, afinal, ele tinha idade para isso.
— E aquela garota do bar? Vi vocês conversando.
— Foi apenas uma conversa. Tentei jogar uma, mas vejo que não deu certo, ela não marcou um local para nos encontrarmos nem passou o número dela.
— Está se fazendo de difícil.
— Eu não acho que seja isso, ela meio que tentou evitar. — Voltou a arrumar as prateleiras. — Mas não vou forçar nada também, ela tem o espaço dela.
— Cara, então sinto te informar, ela não sentiu nada por você, acho que não gostou que invadimos a mesa dela.
— A culpa foi sua, você ficou todo “Estou morrendo, , me ajuda, minha pressão”. — Tirou sarro do amigo. — Parecia uma criança quando vê sangue pela primeira vez.
— Se não fosse por mim, você nunca teria conhecido ela, será que a amiga dela está solteira? — Olhava as novas guitarras.
— Boa pergunta. O dia que você encontrar com ela, você a questiona. Vamos, é meu horário de almoço.
Donatello concordou e acompanhou o amigo até um restaurante que tinha ali perto. Já em suas respectivas mesas e com os pedidos feitos, Donatello viu Mika entrar junto de , que carregava alguns livros debaixo do braço. Ficou observando de longe.
— Elas estão aqui.
— Elas quem, Don? — Mexia no celular.
— As garotas do bar. Quais são os nomes delas mesmo?
pensou e logo percebeu que não havia questionado os nomes delas, muito menos da garota de olhos cor de mel. Como pôde ser tão burro a ponto de esquecer de perguntar o nome dela.
— Não sei, não. A gente não perguntou, e elas não comentaram, só eu que passei nossos nomes.
— Eu vou até elas e as convidar para almoçar conosco.
— Donatello, não... — o amigo dele já havia levantado — é uma boa ideia. — Esfregou a mão no cabelo, tentando ajustá-lo. Olhou-se no reflexo do celular e viu que estava até que apresentável.
Buon pomeriggio, meninas.
— Buon pomeriggio, Donatello. — sorriu ao cumprimentar. — Não esperava vê-lo aqui.
— Olá, está só você aqui? — Mika disse, com um sorriso amigável.
— Não, está aqui também. — Apontou em direção da mesa. Ele sorriu para as meninas.
— Vocês não querem se juntar a nós, dessa vez invadir a nossa mesa? — Elas riram.
— Não seria uma má ideia, né, ? — Olhou para a amiga com aquele olhar de cachorro pidão.
— Claro que não — disse serena. — Vamos, só não podemos nos atrasar. — Colocou os livros na bolsa e pendurou na cadeira.
— Podem ir, eu vou avisar o garçom.
— Espero que não se incomode, Donatello falou que podíamos. — Mika, como era a mais desinibida, foi direta no assunto.
— Claro que não, podem se sentar.
— Obrigada — agradeceu.
— Eu já avisei o garçom. , o garçom vai mudar a nossa entrada.
— Sem problemas, amigo. Vocês vêm sempre aqui?
— É nossa primeira vez nesse restaurante, viemos comemorar a promoção de Mika.
— Agora a probabilidade de não voltar para o Brasil é noventa por cento.
— Então vocês não são daqui? — Don questionou.
— Não, eu — Mika se auto referiu — sou do sul do Brasil. Já a , é do sudeste, quase minha vizinha. — Ela sorriu.
— Jurava que vocês eram daqui — comentou. — E você? Vai ficar por aqui também?
— Eu quero tanto. Espero que eu consiga algo até o fim do meu intercâmbio.
Era a pior resposta que já tinha escutado naquele ano. Precisou esconder com todas as forças sua decepção. Estava em seus planos mais profundos criar coragem e sair com , ir a lugares que ambos gostassem e até mesmo tomar aquele café em um lugar calmo para conversarem. O almoço deles havia chegado, e não queria tocar mais no assunto. Na verdade, participava bem pouco das conversas. As meninas falavam de como era o Brasil para Donatello, que simplesmente ficava maravilhado e curioso.
— Agradecemos por ter deixado invadir a mesa de vocês. — já estava mais descontraída e agora ria do ocorrido.
— Por nada. — sorriu. — Espero vê-la novamente, só que sem invasão da mesa. — Tirou um riso dela.
— Também, eu sempre estou por aqui, então quem sabe em uma dessas não nos encontramos.
— Vamos, , já pagamos. — Mika apareceu, e perdeu a oportunidade de marcar um momento ali novamente.
As amigas se levantaram e foram acompanhadas até a porta pelos italianos. Se despediram casualmente, entrelaçou seu braço como de costume com o da sua amiga e andaram conversando sobre os garotos. Porém, já no meio do caminho, enquanto via as duas se afastarem, , por impulso, correu até , e disse seu nome alto — ou o que tinha certeza de qual era, atraindo o olhar dela para ele.
— Espera, eu esqueci de confirmar. Seu nome é , certo?
Ela negou com a cabeça com um sublime sorriso nos lábios.
— É — pronunciou devagar. — Mas pode me chamar sempre de .
— Não vou esquecer.
— Certo, vou indo então. — Sentiu suas bochechas esquentarem.
deu um beijo rápido na bochecha do rapaz, que sentiu a barba fazer cócegas em seus lábios. O garoto ficou olhando ela se afastar, até o momento que percebeu que estava parado no meio da calçada. Escutou seu amigo falar algumas coisas que não se incomodou muito. Sempre escutou que sua maravilhosa Itália era o país do amor, mas nunca havia provado algo tão surreal como aqueles dias.
— Você está gostando dela — dizia, enquanto atravessava na faixa. — E pode, por favor, parar com essa cara de idiota? Precisa focar no seu emprego.
— Don, não é tão fácil assim, ela é única.
— Mas você a ouviu, ela não tem emprego efetivo aqui.
— Até lá, pode ser que tenha, Donatello. E você já pensou em chamar a amiga dela para sair?
A pergunta foi muito lógica. Antes de Donatello dizer a verdade para , ele já havia falado que tinha trocado contato com Mika, e não conseguia negar que estava trocando mensagens com ela desde o momento que foram embora.
— Planejamos sair amanhã. Quer que eu consiga uma informação da ?
— Não precisa. — Já estava em frente à loja. — Vai entrar?
— Estou indo para casa. Cuidado com a chuva, falaram que ia chover muito.
— Tranquilo, até mais.
— Até, cara.



A chuva estava intensa. Milão não via tanta chuva assim fazia anos. estava sentada na cadeira de frente para a janela, a esperando cessar. Com o guarda-chuva no colo, ela viu um garoto correndo todo desengonçado pela calçada de água, e a pior parte foi vê-lo cair de bumbum no chão. precisou se conter para não rir.
— Vamos? — Seu chefe parou ao seu lado.
— Aonde?
— Embora. — Ele sorriu. — Eu levo você para casa. — Estendeu a mão para ela.
— Ah, sim, eu aceito, já que a chuva não quer passar.
— Existe uma história que minha mãe contava que chuvas assim só acabam com um amor. — Caminhavam rapidamente para o carro.
— Espero então que alguém se apaixone logo. — Sorriu em agradecimento. Ele deu a volta, entrou e logo deu partida no automóvel.
— Não sei se acontece muito rápido, às vezes demora.
— E a chuva continua? — Ela sabia que não.
— Não. — Riu. — Mas é com mais frequência. A história diz que a cada cinco anos um amor verdadeiro nasce no país do amor, só depende de o destino fazê-los — se referiu ao casal — se encontrarem.
— Cinco anos atrás? Aconteceu algo assim? — Estava interessada.
— Um casal, dois garotos. Eles se encontraram inúmeras vezes pelas ruas de Veneza. Em um jogo de futebol eles se encontraram, esbarraram e perceberam que não era apenas coincidência. Com isso, eles começaram a sair juntos e alguns dias engataram um namoro.
— Ai, que lindo.
— Sim, isso há cinco anos, ou foram seis? — Estavam parados no semáforo. — Não, faz seis anos, mas a história é de cinco em cinco.
— Milão e suas maravilhas. É logo ali. — Apontou.
Dirigiu mais um pouco e logo a deixou em casa, parando em cima da calçada para ela não se molhar muito.
— Está entregue, e espero que não se sinta acanhada com a história.
— Não, eu amei saber, amo essas histórias. Obrigada por contá-la.
— Não há de quê. E, caso esteja chovendo muito amanhã, eu não abrirei a livraria.
— Certo, até mais.
— Até.
colocou o guarda-chuva pendurado no porta guarda-chuva e colocou ao lado seu all-star.
— Chegou com o chefe, foi? — disse, saindo da janela.
— Boa noite para você também! Como foi o seu dia no trabalho? Tomou muita chuva? Parece que não tem mais educação. — Segurava o riso.
— Ai, meu Deus, já vi que não vai contar o que aconteceu, né? Boa noite. Foi bom, não tomei chuva. Agora conta, era seu chefe, né?
— Sim, era ele, mas não tem nada entre mim e ele.
— Mas ele quer.
— Não quer. Ele tem alguém já, ele só fez um favor.
— Sei, sei.
— Vou pro banho.
— Ok, o jantar está no micro-ondas.
Ela se banhou, almoçou e resolveu apenas descansar, não queria estudar nem ver uma série, apenas dormir depois de um dia exaustivo.



Os dias foram passando, e no dia — sábado — de folga de , ele resolveu andar pelas ruas de Milão. Queria apenas pensar nas coisas, no seu futuro. Quando saiu da casa de seus pais, ele só pensava em diversão e bebida. Fez um curso banal e deixou o seu desejo de lado, tudo pelas más influências que convivia. Agora, tudo estava diferente. Com seus vinte e cinco anos, sentia a grande falta de tudo que deixou para trás e pretendia correr atrás disso, principalmente com o apoio de Donatello.
parou em frente a uma livraria e procurou um tema bom que estava na vitrine. Quando ele olhou para dentro da livraria, precisou piscar mais de uma vez. Lá estava ela, toda amável, ajudando uma criancinha a pegar os livros que ela mais gostava e levar até a pequena área para leituras. O jeito amável e sorridente acendeu um calorzinho em seu coração.
— Ela é bem mais do que perfeita — disse em voz alta.
Por impulso, entrou na livraria e esperou ela terminar de ajudar a pequena criança, andou pelos corredores de grandes estantes com seus livros coloridos, até ficar entre um pequeno vão onde podia vê-la. Ficou ali a observando, não queria atrapalhar a garota que estava atendendo um cliente, até o momento que ela parou de costas para verificar algo no livro que estava em suas mãos. se aproximou dela, torcendo para não a assustar.
— Ciao — disse baixinho e com um sorriso no rosto.
— Ciao. — Seguiu o mesmo tom. — Está procurando algum livro?
— Na verdade, eu vi você através da vitrine, então resolvi entrar.
— Estou achando que você está me seguindo — disse em tom brincalhão.
— Eu já acho que é o destino. — Soou romântico, e ela sorriu tímida. — Você quer sair para tomar um café? Ou ir a algum lugar que você goste.
— Queria muito ir, mas estou no meu expediente.
— Eu espero você.
, não quero atrapalhar, você deve ter outras coisas para fazer.
— Está tranquilo, eu realmente espero você, sei lá, sentado naqueles puffs. — A seguia.
— Só pode ficar se ler um livro. — Entregou um livro qualquer na mão dele. — Ou fingir que está lendo, é uma regrinha daqui — ela sussurrou.
— Faça um sinal para mim, aí te espero lá fora cinco minutos antes de você sair.
Ela concordou com o gesto e recebeu um beijo no topo da testa da moça. sentou-se no puff e ficou a esperar por ela. Fingiu que leu o livro que havia lhe entregado, mexeu no celular para conversar com a irmã e seu melhor amigo, até mesmo andou pela livraria pra ver se encontrava algum tema que lhe agradava, o que não teve dúvidas que seria algo que abordava estrelas e constelações.
Quando estava perto das cinco horas, passou por ele, falou o horário, e logo ela o viu se retirar e agradecer a indicação do livro. Fingiu ser um cliente normal.
— Fiz você esperar muito, né? — Ela fechou a porta do estabelecimento.
— Não se preocupe comigo, estava confortável lá dentro.
— Se você está dizendo. Aonde vamos? — Estava bem curiosa.
— Deixo você escolher dessa vez. — Mostrou que queria sair mais uma vez com a moça.
— Aqui perto tem uma confeitaria. São maravilhosos todos os bolos e doces que ela faz, especialmente o de cenoura com chocolate.
— Cenoura com chocolate? — Arqueou a sobrancelha.
— É. — Riu. — Você precisa experimentar, é a oitava maravilha do mundo.
— Certo.
Caminharam conversando sobre Milão, a beleza da cidade, os gostos musicais. Tinham muitos gostos em comum, até mesmo o famoso amor pelas uvas. Em frente à confeitaria que ela o levou, os dois entraram e se sentaram perto da janela.
A loja era de tamanho médio, mas muito bem distribuída e com lindas decorações. As cores da Itália bem distribuídas e sutis pelo estabelecimento combinavam com os bancos fofinhos e confortáveis, dando um ar mais romântico.
— A dona daqui vem às vezes com o namorado dela, a mãe também. Queria apresentá-la, mas acho que não vou conseguir.
— Ela é famosa?
— Por Milão, não muito.
— Buona notte. — Uma mulher parou ao lado dela. — , como é bom revê-la.
— Clarisse! Eu achei que você não estaria aqui.
— Aproveitei que meu namorado precisou vir até a cidade e eu vim junto.
— Compreendo. É bom revê-la sempre. É bom estar perto de uma brasileira. — Riram. — , essa é a dona da confeitaria, Clarisse Sartori. Eu a conheço de São Paulo, ela também tem uma confeitaria lá.
— Prazer — Clarisse cumprimentou. — Seja bem-vindo. Qual bolo vocês desejam?
— Cenoura com chocolate para nós dois.
— Vou trazer um pedaço generoso para vocês. — Se retirou.
— Você vai amar, . Clari faz os melhores bolos e doces.
— Ela parece ser nova, nem parece ser dona disso tudo.
— Ela tem, sim, carinha de menininha, mas a Clari é uma inspiração para mim.
— Aqui está, e o guardanapo de vocês. — Entregou. — Buon appetito.
— Grazie.
experimentou o bolo, deixando ansiosa. Deu algumas garfadas a mais e não conseguiu mais esconder o suspense sobre o bolo. Era diferente e maravilhoso, o sabor dos dois juntos era mágico.
— Eu agradeço por essa experiência. — Ainda comia seu pedaço de bolo. — Nunca comi nada tão bom como esse bolo.
— Uma dádiva dos deuses, não é?
— Com certeza. Queria poder dizer para minha mãe.
— Diga. — Tomou o suco. — E passa o endereço.
— Não nos entendemos desde que saí da casa dos meus pais. — Parou para lembrar-se de tudo que aconteceu. — Podemos falar disso depois?
— Claro. Você quer mais um pedaço?
— Para a viagem só. Posso te fazer uma pergunta? — A viu concordar, enquanto comia seu bolo. — Aquele cara que saiu com você da livraria era seu namorado?
se engasgou com o suco que tomava no momento. Era lógico que estava falando do dia da chuva, e só pela pergunta percebeu que ele era o garoto que caiu de bumbum no chão. Mundo pequeno.
— Não, ele é meu chefe. Só me deu uma carona por causa da chuva.
— Hm, ele parecia que estava gostando da sua companhia.
— Não somos bem funcionária e chefe, mas não gosto dele. Ele não faz meu tipo, sabe? — Viu ele concordar. — Tenho um gosto diferente, é difícil um homem conseguir ter uma boa conversa comigo.
— Seletiva.
— Sempre fui. — Riu. — Minha mãe fala que eu sou chata para isso, mas a verdade é que eu quero alguém que entenda que um dia eu vou escutar Avenged Sevenfold e no outro Lana Del Rey. Num momento estarei admirando as pinturas do Van Gogh, no outro quero ver hipismo. — Se jogou no encosto. — Entende?
— Perfeitamente. — Admirava.
Era perfeita em tudo. No sorriso, no brilho dos olhos, até mesmo nos cabelinhos que teimavam em cair nos olhos dela, além do gosto musical! Ela era uma obra de arte feita por Michelangelo. Como conseguiu encantá-lo em três dias praticamente seguidos?
Com também era a mesma coisa, estava amando conhecê-lo, ainda mais ao saber que suas bandas favoritas eram as mesmas. E não havia como mentir para si mesma que aqueles olhos azuis não estavam a deixando hipnotizada. Queria sair mais uma vez com ele, quem sabe dessa vez ir a outro lugar, um que ele gostasse tanto.
Os dois ficaram se olhando por um tempo e sorrindo logo depois, ambos com suas bochechas coradas. foi o único que falou depois daquela troca de olhares.
— Vamos dividir? — ele questionou antes de levantarem.
— Vamos, sim. — Pegou a carteira.
— Buona notte, quero levar uma fatia de cenoura com chocolate para viagem, pre favore.
— Solo un momento — disse a atendente.
— Você quer levar um para casa?
— Precisa, não. Eu tenho um em casa ainda. — Sorriu.
Quando a moça voltou com o pedido, passou o valor total para os dois e entregou a parte dela do dinheiro. Já estava escuro lá fora, e os dois andavam tranquilamente pela Paizza Irnerio, a rua onde morava.
— Em qual prédio você mora?
— Aquele ali, o amarelinho com flores na varanda.
— Posso dizer uma coisa?
— Pode.
— Está vendo aquela porta fechada ali? — Apontou para o prédio cinza. — Ali embaixo é minha loja de música.
— Você tem uma loja de música?
— Tenho. — Sorriu acanhado. — Quer conhecer?
— Se não foi atrapalhar você.
— Não vai. — Caminharam até a loja. — Faz um pouco de barulho nesses portões. Entre.
Ele acendeu a luz e fechou a porta de vidro. Sentou-se em uma banquetinha e ficou apenas olhando ela admirando os violões.
— Sabe tocar?
— O quê? — Ela arregalou os olhos.
— O violão. — Sorriu de lado. — Sabe tocar?
— Ah, não. Queria saber tocar alguma coisa, porém, sei bem pouco, quase nada.
— Posso ensinar você se quiser.
— Aceito.
— Qual música você sabe tocar?
— Vermilion.
— Muito bem, pode pegar um banquinho. Você é destra?
Ela concordou, e pegou o violão para destro e entregou para ela. Como sempre aprendeu a respeitar todas as mulheres, colocou seu banquinho ao lado dela. Aos poucos, ele ensinava as notas para a garota que a cada parte tocava. Ele mostrava a cifra pelo o celular; conseguia pegar algumas notas até que rápido, mas, na maioria das vezes, se perdia no perfume floral da garota.
Estavam bem próximos um do outro, suas mãos se tocavam quando ele ia demonstrar a forma correta. Mais um pouco e ele podia jurar que a beijaria a qualquer momento, mas se lembrou que ela não ficaria ali para sempre.
— Está ficando tarde. — Ele se levantou.
— Não vi a hora passar, obrigada. — Deixou o violão em cima do banquinho e foi abraçá-lo, mas ele estendeu apenas a mão. Claro que ela estranhou. Nesses meses todos, teve a maior certeza sobre os italianos, eles são mulherengos.
— Não precisa agradecer, podemos sair de novo no seu dia de folga. — Se arrependeu de convidá-la quase que na mesma hora.
— Hm, pode ser, eu vejo quando estou de folga e passo aqui.
— Combinado, vou acompanhá-la.
fechou a loja e foi até o prédio com a garota e a deixou na casa dela.



Em sua casa, que ficava a três quadras da loja, ele abriu uma cerveja e ficou olhando Milão de sua janela. Podia passar horas ali lembrando dela e do dia todo com ela. Iria aproveitar os dias ao lado dela, era isso que chegou à conclusão ao lado da cerveja. E se fosse necessário, eles terminariam o relacionamento mesmo se fosse apenas uma amizade colorida.
Após o amanhecer, foi para a loja. Com ela aberta e todos os instrumentos limpos, ele esperou seus clientes chegarem aos poucos; ajudou alguns que queriam ter o primeiro instrumento, trocou as cordas do baixo da cliente. Don também havia chegado para poder ajudar seu amigo com a movimentação da loja, que subitamente cresceu logo após o anúncio do festival de rock mais esperado.
— Está cheio — Don comentou na hora do almoço. — Ou melhor, estava cheio, você acha que é só por causa do festival?
— Deve ser. Vão vir grandes bandas, e muitos vão querer arrumar todos os instrumentos para pegar autógrafos. — Deu uma garfada na comida. — Eu vou sair de novo com a .
— Quando? — Estava interessado.
— Depende da folga dela.
— Sabe onde levá-la?
— Não.
— Mostra para ela os pontos turísticos de Milão, acho que você se encantou por ela, não é, amico?
— Lei è affascinante.
— Leve ela para conhecer. Não precisa ser um passeio cansativo, e se for no dia do seu trabalho, eu tomo conta, você sabe que conheço bem o negócio.
— Combinado. Eu pago você por hoje no mesmo dia que ela tiver folga.
— Vai ser feliz, , encontre sua Julieta e viva feliz para sempre, só não se mate.
— Engraçado você, Don. — Bebeu o vinho.


Continua...


Nota da autora: Agradeço por ler mais um capítulo e peço desculpas pela demora da atualização.
Beijo!

🪐



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