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Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 20/07/2025


Tinham se passado vários anos desde a aposentadoria de Kaká; 2014 fora o último ano em que o jogador disputara uma partida oficial. Aquilo era, no mínimo, bastante frustrante para os fãs que o acompanhavam, mas especialmente para uma das pessoas que mais o admirava.
era uma fisioterapeuta renomada e amplamente respeitada no meio esportivo. Trabalhara com Kaká por alguns anos, cuidando de suas lesões e ajudando-o a se recuperar em diversas ocasiões, até que, de repente, nunca mais fora solicitada. Esse afastamento era algo que ela jamais conseguira compreender. Não sabia ao certo onde havia errado — e essa dúvida sempre pairava em sua mente, como uma sombra persistente.
Atualmente, integrava a equipe médica da seleção brasileira, atuando como fisioterapeuta na Copa do Catar. Eram dimensões que jamais imaginara alcançar em sua carreira, mas estava imensamente feliz por essa conquista.
Kaká, por sua vez, mantinha sua parceria com a Adidas, além de se envolver em outros projetos relacionados ao seu legado como jogador — inclusive arriscava-se na função de comentarista esportivo.

's pov

O jogo entre Brasil e Sérvia tinha sido melhor do que eu esperava. A seleção havia conseguido uma vantagem em relação às outras do grupo, o que dava uma certa tranquilidade. Claro que eu confiava totalmente no time pelo qual torcia, mas, ao mesmo tempo, sentia aquele medo inevitável de uma surpresa desagradável.
Estava trabalhando com o Neymar, fazendo o necessário para que o camisa 10 melhorasse logo — afinal, ele era uma peça-chave no time.
, desse jeito fica muito dolorido — ele comentou, e eu afrouxei minhas mãos, que estavam nos seus pés. Logo as soltei e me levantei do banco onde estava sentada.
— Olha, Ney… eu sei que é doloroso, mas, se você quer estar pronto e melhor para as oitavas, precisa se empenhar — comentei, retirando as luvas e as jogando no lixo. — Você está liberado por enquanto, pode ir almoçar, mas não força o pé, certo?
Ele concordou com a cabeça e eu sorri. Sentia pena dele e também do Danilo. Assim que Neymar saiu da sala, comecei a organizar tudo para receber o outro jogador que necessitava de cuidados. O horário dele era às 14h e, agora, era um pouco menos de 13h… eu poderia aproveitar para comer alguma coisa e pegar um pouco de sol.
Foi exatamente o que fiz. Não levei mais de dez minutos para ajeitar a sala e, então, saí em direção ao CT, podendo ver os outros jogadores treinando pesado para o próximo jogo. Estavam apenas as pessoas essenciais ali, visto que aquele treino era fechado para quem fosse de fora.
Caminhei até a ponta do gramado, onde estavam algumas pessoas da comissão técnica, e os cumprimentei. Em seguida, ouvi um falatório distante… e aquela voz… eu a conhecia. Relutava em acreditar que era realmente ele ali, tão perto. Não era possível que, depois de tanto tempo, tantos desencontros, eu o veria justo ali.

Kaká.

Durante o período em que trabalhei com ele, eu passei a gostar mais do que deveria. Sempre me contive, obviamente, por ele ser meu paciente e, na época, casado. Nunca faltei com respeito, mas, às vezes, minha cabeça pregava peças e eu achava que ele sentia o mesmo — embora nunca tivéssemos falado sobre isso.
Já fazia mais de dez anos que eu não o via. Só de ouvir sua voz ecoando por ali, meu coração batia forte, mas eu não tinha coragem de olhar naquela direção. Meus olhos ficaram fixos nos jogadores que, naquele momento, brincavam de bobinho.
— Kaká, Ronaldo… Mas que prazer vê-los por aqui. — A voz do Tite ecoou atrás de mim. Eu nem tinha percebido que ele não estava mais no campo.
— Obrigado, Tite. É bom te ver e bom estar aqui também. Agradeço o convite — Kaká respondeu e, pela altura da voz, percebi que ele estava praticamente atrás de mim.
— Obrigado, Tite — dessa vez, Ronaldo se pronunciou.
— Conhecem nossa comissão técnica? Bom, creio que algumas pessoas vocês conhecem… — Tite começou a apresentar um por um, mesmo que eles já conhecessem. — E essa é nossa fisioterapeuta, .
Assim que ele falou meu nome, me vi praticamente obrigada a me virar. Era a hora de encarar o meu pesadelo… ou o meu maior sonho, depende do ponto de vista.
— Oi, rapazes, sejam bem-vindos — me pronunciei, olhando para ambos. Senti o olhar de Kaká sobre mim… ele tinha um sorriso nos lábios e eu não sabia o que pensar sobre aquela reação.
? Nossa, que coincidência te encontrar aqui — ele disse. — Não tinha ligado o nome ao rosto.
Não sei se entendi bem aquela frase, mas apenas sorri e acenei, meio sem graça.
— Acontece — respondi, brevemente. — Bem, creio que o Tite já deve ter falado, mas fiquem à vontade. Aqui é um lugar bem amplo, a sala de fisioterapia fica naquela direção. — Apontei o braço e ambos concordaram, enquanto Tite apenas observava.
— Ela faz um trabalho magnífico, atualmente está tratando Neymar e Danilo, que se lesionaram no último jogo — Tite voltou a se pronunciar e senti meu rosto queimar… certeza que tinha corado.
— Realmente… ela tratou meu joelho quando me lesionei, e melhorou muito — Kaká comentou, e eu o olhei.
— Teria ficado melhor se tivesse terminado o tratamento — respondi com um sorriso carregado de ironia, esperando que só ele percebesse. Logo desviei o olhar, dividindo-o entre Ronaldo e Tite. — Se me permitem, vou almoçar bem rápido, porque o horário do Danilo está chegando.
Balancei a cabeça em um aceno e saí andando dali em passos rápidos. Não podia negar que aquilo tinha me deixado bastante balançada. Parecia que eu tinha voltado no tempo… e todas aquelas borboletas no meu estômago tinham voltado, junto com aquele sentimento diferente.
Como a simples presença de uma pessoa podia me afetar dessa forma? Que tipo de efeito era esse que ele tinha sobre mim, mesmo depois de anos?
Entretanto, antes que eu pudesse caminhar de volta para a sala de fisioterapia, senti uma mão morna segurando meu antebraço, me impedindo de continuar.
… — Era ele novamente. Não podia simplesmente me deixar afogar naquela sensação que sentia ao vê-lo, ao invés de nutrir o mínimo de racionalidade naquela situação?
Me virei para ele e, em silêncio, fitei seu rosto, esperando que ele continuasse.
— A última vez que nos vimos foi… diferente — ele começou, e eu queria entender exatamente o que ele queria dizer. — Eu deveria ter sido sincero desde o começo. Você sabe, naquela época eu estava casado com a Carol, mas… mesmo contra a minha vontade, eu gostava de você. Eu lutei contra isso mais do que contra qualquer outro sentimento.
Naquele momento, eu paralisei. Nunca imaginei ouvir aquelas palavras saindo dos lábios de Kaká.
— Ela percebeu a situação e eu sentia que não tinha mais controle… foi por isso que decidi encerrar o tratamento. Nós acabamos nos aproximando mais do que deveríamos naquela época e… eu tive medo. — Ele olhou para os lados. Não havia ninguém próximo a nós, mas era possível ouvir os jogadores gritando ao longe. — Mas agora, estando aqui… foi realmente por Deus. Você toparia sair comigo em algum momento? Pode ser aqui ou quando voltarmos ao Brasil… eu só não quero mais perder o contato com você e passar anos me perguntando como teria sido, se eu tivesse feito o que se passava na minha mente.
— Olha, Kaká… pra ser sincera, eu nunca imaginei que ouviria algo parecido vindo de você, mas… eu estou surpresa. Muito surpresa, na verdade. Acho que se saíssemos seria bastante interessante. — Peguei meu celular do bolso, desbloqueei e estendi para ele, que rapidamente se prontificou e colocou seu número. — Eu vou te chamar para conversarmos e combinarmos melhor sobre isso.
Ele fez uma careta e, em seguida, sorriu.
— Você não vai me dar um perdido, né? — ele perguntou, me fazendo rir.
— Prometo que não… afinal, até o final da Copa você sabe onde me encontrar. — Me arrisquei a lançar uma piscadela para ele, que abriu um enorme sorriso, me fazendo derreter.
— Certo, então… espero o seu contato — ele disse, e eu concordei com a cabeça. Em seguida, Kaká se aproximou e me puxou para um abraço e aquele gesto me deixou imóvel.
Seu perfume amadeirado adentrou minhas narinas… e eu torcia, pedia a todos os santos, todos os deuses, que aquele perfume nunca mais saísse do meu nariz.
Puta merda, eu estou agindo como uma mulher dez anos mais nova.
— Até logo, Kaká — eu disse, após nosso abraço ser desfeito, mesmo com muita relutância minha… porque, sinceramente, eu queria muito continuar naqueles braços.
Então, me despedi mais uma vez e caminhei em direção à sala de fisioterapia, a fim de esperar que Danilo chegasse para a próxima sessão… esquecendo até de ir almoçar.



O resto do dia anterior havia passado leve, certamente uma sensação boa pairava sobre meu corpo. Uma sensação de dever cumprido com os jogadores que estavam sendo tratados, principalmente ao conseguir ver a melhora significativa de ambos.
Mas também, por conta da minha situação com Kaká. Seria difícil conseguir me encontrar com ele nesses dias, afinal, eu tinha bastante trabalho e era algo incessante para que os jogadores lesionados voltassem ao time o mais rápido possível.
Ainda naquela noite, eu tinha decidido mandar uma mensagem para ele, queria que ele percebesse que tudo o que tinha falado, era de certa forma... Recíproca. Pouco conversamos naquela noite, porque eu fui dormir logo em seguida, já que no outro dia cedo teria que levantar.
E assim o fiz, era em torno de seis horas da manhã quando o celular despertou. Relutei bastante para levantar, mas tinha compromisso. Hoje era o jogo do Brasil com a Suíça e eu trabalharia com os jogadores pela manhã apenas para garantir que estava tudo bem, depois ficaria livre até o horário do jogo.
A parte da manhã passou bem rapidamente, o que me deixou aliviada. Já que poderia descansar até o horário do jogo. Eu vi que ambos os jogadores tiveram uma melhora significativa, tinha certeza que eles poderiam voltar em breve.
Aproveitei o tempo livre para conhecer a cidade que não era muito bonita, só nos dava a ilusão por conta dos estádios. Falando em estádios, aquele tal 974 me dá arrepios, como assim fazer um estádio em cima de containers? Tem tudo para dar muito errado.
Meu celular acabou apitando e eu o peguei rapidamente do bolso, enquanto caminhava até um restaurante.

Kaká: Está ocupada?

Eu: Poderia mentir e dizer que sim, mas não. Na verdade, estou indo almoçar.

Kaká: Onde está? Será que posso te ver?

Eu: Al Nahhan. Aqui não tem nenhuma carne de ouro, só para te avisar.

Kaká: Ha ha, engraçadinha.

Eu não respondi, apenas guardei o celular no bolso e entrei no restaurante. A decoração era extremamente fina, haviam lustres arredondados enfeitando todo o espaço e mesas no lado de fora. Pedi para a recepcionista uma mesa ao lado de fora, era muito bonito.
Era possível ver o mar naquela mesa em que eu havia sentado e por alguns instantes, eu pude relaxar, pensar em todas as coisas que se passaram na minha vida desde que decidi me tornar fisioterapeuta.
Eu tentava entender o que estava escrito no cardápio, mesmo que estivesse em inglês na parte de baixo, eu queria saber quais palavras eram aqueles símbolos esquisitos. Acabei desistindo quando notei alguém vindo em minha direção, tinha esquecido como minha visão periférica era boa. Kaká estava se aproximando de mim, eu virei para encará-lo e sorri, vendo-o se sentar próximo a mim.
ㅡ É bom te ver de novo, ㅡ ele prontamente começou a falar, eu fiquei em silêncio, porém sorri. ㅡ Agora podemos realmente conversar, sobre tudo...
ㅡ Isso é verdade ㅡ concordei, balançando a cabeça em afirmação. ㅡ Mas acho que deveríamos pedir comida primeiro, não é querendo acabar com a sua graça, mas eu estou faminta.
Ele balançou a cabeça em negação, rindo baixo. Fala sério, que sorriso bonito que ele tem. Eu nunca consegui superar. Acabei abaixando a cabeça por pura timidez, mas logo voltei a olhá-lo.
Kaká me encarava fixamente, conforme seu sorriso ia diminuindo gradativamente. Eu peguei o cardápio e desviei meu olhar, a fim de ver o que poderia ser pedido.
ㅡ Estou pensando em uma simples e objetiva pizza. E você? ㅡ questionei, após passar os olhos sobre o cardápio.
A culinária era um tanto diferente, mas hoje não era o dia adequado para experimentar especiarias daquele local.
ㅡ Vou de pizza também. ㅡ Ele deixou o cardápio de lado e chamou o garçom, que rapidamente apareceu. ㅡ I would like two mozzarella pizzas, please.
O homem assentiu e começou a anotar.
And we would like two glasses of orange juice too, please ㅡ falei logo em seguida, dando um sorriso enquanto observava o rapaz anotando.
Do you want anything else? ㅡ o rapaz com sotaque carregado proferiu e nós balançamos a cabeça em negação, fazendo com que o homem saísse logo em seguida.
ㅡ Vi que anda trabalhando com a Adidas. ㅡ Tinha sido mais uma afirmação do que uma pergunta, que ele respondeu no mesmo instante.
ㅡ Na verdade, sim. Você sabe que a Adidas sempre me patrocinou, ainda continua ㅡ ele respondeu, olhando para os lados, porém, voltou sua atenção para mim. Seu semblante mudou e eu sabia que viria algo a seguir. ㅡ Me desculpe, .
Eu o olhei com certa confusão no olhar, ele tinha percebido.
ㅡ Eu estive tanto tempo preso em um casamento fracassado que não percebi que o que eu mais almejava estava bem na minha frente... Literalmente. ㅡ Ele foi direto, eu gostava disso nele, mas ao mesmo tempo aquilo dificultava as coisas para mim.
O que eu deveria dizer? O que eu deveria fazer? Não era nada fácil.
ㅡ Eu me senti péssima por abalar seu casamento, jamais quis algo parecido. ㅡ Apoiei um dos braços na mesa.
ㅡ Você não abalou, ele já estava dessa forma quando chegou... E mesmo assim, eu ainda demorei para realmente perceber.
Deixei minha mão sobre a mesa e ele esticou seu braço, tocando meus dedos com a ponta dos dedos dele, me causando um certo arrepio e um friozinho na barriga.
ㅡ Você não tem culpa, na verdade, acho que ninguém tem. Eu entendo seus princípios sobre o casamento, também tem seus filhos... Era muita coisa envolvida.
Eu respondi, minha voz demonstrava o quanto aquele assunto me incomodava. Eu odiava falar sobre isso, pensar sobre isso.
ㅡ Você aceitaria tentar mais uma vez? ㅡ ele questionou e eu arqueei uma das sobrancelhas. ㅡ Dessa vez sem nada e nem ninguém para nos impedir. Vamos aproveitar esse tempo que estamos no Catar para realmente passarmos um tempo juntos, sem aquela história de profissional e paciente.
Eu fiquei em silêncio por alguns instantes, mas percebia que ele me observava animado, esperançoso.
ㅡ Acho que podemos tentar… nos conhecer melhor ㅡ eu respondi sorrindo e ele sorriu ainda mais.
Não demorou muito para que o garçom trouxesse nossas comidas, não podia negar que a pizza era realmente boa. Até mais do que eu imaginava. Eu e Kaká falávamos sobre muitas coisas, ele me falava sobre os filhos e a vida após ter se aposentado e o que fazia desde então.
Eu falava sobre meu emprego na seleção e como era divertido lidar com os garotos.
ㅡ O Richarlison é o que traz a maioria das resenhas para o grupo, você acredita que ele chamou o presidente da FIFA de careca? Eu não aguento uma coisa dessas. ㅡ Estávamos rindo, como se fossemos amigos de longa data.
De fato, até poderíamos ser, mas com algo a mais no meio disso.
ㅡ Ele é uma comédia ㅡ Kaká falou e respirou fundo, olhando para o relógio. ㅡ Você vai se atrasar para o jogo.
Eu tinha me esquecido completamente que hoje havia um jogo da seleção, arregalei os olhos e limpei a boca com um papel toalha. Em seguida, ele chamou novamente o garçom, que já veio com a conta. Antes que eu pudesse falar alguma coisa, Kaká me impediu fazendo um sinal com a mão e fez o pagamento.
Então, levantamos da mesa e começamos a caminhar em silêncio até a saída do restaurante. Estávamos em uma distância considerável um do outro, onde nossos ombros quase se encostavam. Eu me sentia uma adolescente novamente.
Ao pararmos na frente do restaurante, Kaká aproximou seu corpo, deixando seu rosto bem próximo ao meu. Era possível sentir sua respiração pesada sobre meu rosto, tenho certeza que ele sentia a minha. Meu coração estava descompassado, eu conseguia senti-lo bater forte em meu peito. O homem, que era mais alto, deslizou uma de suas mãos sobre a minha bochecha, fazendo com que seu polegar alisasse aquela área.
ㅡ Eu esperei tantos anos para finalmente conseguir fazer isso... ㅡ Sua voz era baixa, meus olhos fecharam automaticamente e em questão de instantes, pude sentir seus lábios mornos encostando no meu, dando início a um beijo calmo, embora tivesse muito desejo.
A mão livre dele havia deslizado até minha cintura, local onde ele apertava e fazia questão de aproximar mais de si. Nossas línguas estavam em perfeita sincronia, como se tivessem sido feitas uma para a outra.
Aquele momento era como se nada ao nosso redor existisse. Seu beijo dizia tanta coisa, a expressão, a forma em que ele se movia contra minha língua, como me segurava em seus braços... Eu sabia que ele queria aquilo tanto quanto eu, por anos a fio.
Porém, precisávamos respirar e infelizmente nos distanciamos devagar, após finalizar o beijo com alguns selinhos e sorrisos.
ㅡ Acho que eu acabei de ficar viciado no seu beijo ㅡ ele comentou, me fazendo rir.
ㅡ Acho que vou ser obrigada a te ajudar com esse vício. ㅡ Minha mão, que estava no braço dele, deslizava de cima para baixo. ㅡ Eu realmente preciso ir.
ㅡ Te vejo outra hora? ㅡ ele perguntou e eu respondi balançando a cabeça.
ㅡ Vou pensar no seu caso. ㅡ Dei um sorriso e uma piscadela, me aproximei dele novamente e roubei um selinho, mas logo voltei a caminhar e me distanciar dele.



Um dia havia se passado após o jogo de Brasil e Suíça, estávamos todos muito felizes e animados por conta da vitória. Tínhamos muita esperança do hexa vir dessa vez, além de ter um time extremamente capacitado para isso.
Sobre meu relacionamento, se é que posso chamar assim... Eu e Kaká estivemos conversando nesses dias, só pude encontrá-lo uma vez no período noturno porque o resto dos dias acabou sendo bastante estressante para mim. Outros jogadores acabaram se machucando, ou seja, aumentaram o meu trabalho. Eu me empenhava para vê-los bem e melhores logo, esperava conseguir ajudá-los.
Aproveitava o pouco tempo livre que tinha para poder planejar os próximos tratamentos para os meninos que estavam machucados. Tinha bastante trabalho a fazer, afinal, a equipe precisava chegar nas oitavas de final com um time de qualidade. O próximo jogo do Brasil seria daqui a três dias, por sorte, teríamos tempo para trabalhar.
. ㅡ Era a voz do Tite ecoando pelo meu consultório improvisado.
ㅡ Sim? ㅡ Deixei a caneta de lado e fechei o caderno que escrevia, prestando atenção no senhor à minha frente.
ㅡ Como não teremos jogo hoje e amanhã, decidimos dar o dia de folga ao pessoal. Você está inclusa nisso. ㅡ Levantei a sobrancelha, um pouco desconfiada.
ㅡ Evitando cansaço? Não vai correr o risco de perderem o entrosamento? ㅡ questionei, me levantando da cadeira.
ㅡ Não, um dia não faz diferença. Você sabe como é ㅡ ele respondeu e eu concordei.
ㅡ Então, já que estou livre... Vou para o hotel e depois conhecer um pouco a cidade, já que não tive oportunidade. ㅡ Sorri, pegando minha bolsa que estava no canto da mesa.
ㅡ Faça isso ㅡ Tite concordou. ㅡ À noite iremos numa churrascaria, eu ficaria feliz se quisesse nos acompanhar.
ㅡ Claro, eu adoraria. Depois me mande o endereço por mensagem. ㅡ Fechei as janelas do local e juntamente com o homem, caminhei até a saída do consultório.
ㅡ Pode deixar. ㅡ Ele sorriu, parando na porta.
ㅡ Até mais tarde. ㅡ Acenei e sai.
O local onde ficava era próximo do campo, tanto que tinha um pequeno caminho de gramado para passar e ir até a saída do local. Estava mais quieto do que eu estava acostumada, já que em mais de 99% das vezes é a maior gritaria dos rapazes.
Lidar com esses rapazes, é quase como lidar com crianças de onze, doze anos. Eles saem da quinta série, mas a quinta série nunca mais saiu deles.
Ao chegar no meu carro, fiquei me questionando se deveria mandar mensagem ao Kaká e tentar aproveitar o tempo livre para passarmos juntos ou se deveria simplesmente mofar na cama do hotel até a noite.
Eu e Kaká havíamos nos falado na noite anterior, quando disse que ia dormir. Hoje, como ainda era de manhã, nenhum de nós havia mandado mensagem. Depois de ponderar por alguns instantes, decidi mandar a mensagem e aproveitar o tempo livre.

Eu: Bom dia. Adivinha quem está com o dia livre?

Kaká: Bom dia. Creio que seja uma fisioterapeuta incrivelmente linda e competente.

Eu: Exatamente.

Kaká: Modesta rs

Eu: Sempre.

Kaká: Tem planos pra hoje?

Eu: Só à noite. Mas durante o dia estou livre.

Kaká: Tenho ideias e elas envolvem eu e você, é claro.

Eu: Ufa. Quais ideias, afinal?

Kaká: Vou te levar pra conhecer a cidade. Tem uns lugares bem chiques aqui... Mas vai ser segredo.

Eu: Hmm. Tudo bem. Me encontra lá no meu hotel.

Kaká: Ok, até daqui a pouco.

Depois dessa rápida conversa com o ex-jogador, eu liguei o carro e segui em direção ao hotel onde estava hospedada. Ele não era tão longe, mas eu fazia questão de ir de carro, simplesmente por não ter segurança para andar sozinha pela rua.
Uns três minutos foram o que bastou para que eu chegasse no hotel e mais três minutos para que eu estivesse na porta do meu quarto.
Quando consegui destravá-la para abrir, a maior felicidade na face da terra naquele momento foi ver a cama. Nem mesmo fechei a porta direito e corri até a cama, me jogando sobre ela sem pensar duas vezes.
ㅡ Não é a minha casa, mas dá pro gasto.
Falei sozinha, esticando meu corpo sobre a mesma. Era como se todo o cansaço e tensão saísse no mesmo instante. Fiquei encarando o teto, pensando em quanto minha vida havia mudado desde quando era mais jovem. Era engraçado porque nunca tinha me imaginado trabalhando com a seleção, tampouco que iria conseguir terminar a faculdade, mas aqui estou. No Catar, cuidando dos jogadores da seleção brasileira e de quebra, aproveitando a companhia de uma das pessoas que mais gostei.
ㅡ Que vida boa... ㅡ pude ouvir uma voz conhecida, mas acabei tomando um susto mesmo assim, me levantando da cama de supetão.
Ao levantar, tive a visão de Kaká em pé na frente da cama, ele usava uma camisa social três quartos azul marido, uma calça jeans também escura e um tênis. Seu sorriso era grande, como sempre, e seus cabelos penteados para a esquerda da mesma forma.
Certas coisas nunca mudam.
ㅡ Meu Deus! Você está querendo me matar? ㅡ Coloquei a mão no peito, rindo junto com ele da situação.
ㅡ Desculpa! Para a minha defesa, a porta estava aberta, fiquei preocupado com você e decidi entrar. Nunca se sabe ㅡ ele prontamente respondeu, colocando as duas mãos nos bolsos da calça que vestia.
ㅡ Eu agradeço pela preocupação. ㅡ Sorri, me levantando.
Me aproximei dele e o abracei em forma de cumprimento. Eu tinha certeza que esse abraço falava mais que mil palavras tanto para mim, como para ele. Era como se o mundo parasse toda vez que eu estava com ele.
ㅡ É bom te ver. ㅡ Foi possível ouvir a sua voz mais baixa, juntamente com o som do coração dele batendo.
ㅡ Também é bom te ver. ㅡ Fui sincera. ㅡ Para onde iremos, Sr. Ricardo?
Perguntei, usando o nome dele, o que fez com que o rapaz desse risada, afastando um pouco para poder olhar em meu rosto.
ㅡ É surpresa, . Eu disse que seria surpresa e não vou quebrar essa promessa. ㅡ Eu revirei os olhos, mas no fundo entendi.
A curiosidade era grande, afinal.
ㅡ Tudo bem, você venceu. ㅡ Me afastei dele e voltei a sentar na cama. ㅡ Pela sua roupa, me parece um lugar não tão sofisticado, mas também não tão simples, então já sei o que colocar.
ㅡ É basicamente isso ㅡ ele concordou sorrindo e se sentou ao meu lado.
ㅡ Você não se importa se eu tomar um banho rápido antes de sairmos, né? ㅡ questionei e ele logo respondeu, balançando a cabeça em negação.
ㅡ Não, jamais. Vai lá. ㅡ Ele deu um beijo na minha testa e, flutuando, fui até o banheiro.
Levei em torno de uns quinze minutos para tomar um banho, me vestir, maquiar e arrumar os cabelos. Indo por partes, havia colocado um vestido longo azul tiffany, um salto branco, já a maquiagem quase não aparecia, pois havia apenas passado algo para esconder as olheiras e um batom rosa. Os cabelos estavam soltos, tinha decidido deixá-los assim, já que estava num comprimento bonito abaixo do ombro e os fios bastante definidos.
Kaká me esperava no sofá quando finalmente surgi do quarto já arrumada. Ele tinha sua atenção no celular, mas quando olhou para mim, foi como um filme. Ele olhou uma vez e olhou novamente, abrindo um sorriso. Também se levantou, vindo em minha direção.
ㅡ Uau. Você está muito linda, . ㅡ Ele segurou minha mão direita, fazendo dar uma volta.
ㅡ Gostou? O vestido é novo ㅡ comentei, dando uma risadinha após ter falado isso. ㅡ Espero que faça jus ao lugar que nós vamos.
ㅡ Acho que o lugar que terá que se adaptar a você. ㅡ Ele deu um beijo no dorso da minha mão e sorriu novamente.
ㅡ Terá que se adaptar a nós ㅡ concluí, pegando apenas o celular para levar. ㅡ Vamos?
Ele concordou e segurando minha mão, fomos caminhando até a saída do meu quarto. O caminho até o carro que estava no estacionamento subterrânea não foi tão longo, mas eu podia perceber o olhar dele sobre mim, queria realmente saber o que ele estava pensando naquele momento.



FLASHBACK - 'S POV

Eu ajustei a faixa elástica ao redor do joelho dele com cuidado, como fazia em todas as sessões. O movimento era automático, técnico, mas, ao mesmo tempo... não conseguia ignorar como ele me olhava, como confiava em cada orientação que eu dava. Havia algo ali, silencioso, que não cabia no protocolo clínico.
ㅡ Assim tá confortável? ㅡ perguntei, tentando manter minha voz neutra, profissional.
Ele assentiu, com aquele sorriso discreto e tranquilo, tão característico.
Eu me afastei um pouco, peguei a bola de propriocepção e a entreguei para ele, guiando com a mão como deveria apoiar o pé. O toque foi breve, mas o suficiente pra despertar aquela familiaridade estranha, aquela leveza entre nós que eu não sabia bem nomear, mas sentia.
Enquanto ele fazia os movimentos, ouvi passos se aproximando. Olhei de relance e lá estava ela ㅡ Carol, a esposa dele. Encostada na porta, braços cruzados, observando em silêncio.
Fingi não me afetar, como sempre fazia. Mantive o foco na evolução do exercício, corrigindo a postura dele com um leve toque na coxa, explicando a importância de manter o alinhamento.
ㅡ Tá indo bem ㅡ elogiei, sincera.
Ele ergueu o olhar para mim, os olhos castanhos firmes nos meus, e sorriu de novo, daquele jeito que parecia dizer tanta coisa sem falar nada.
Carol continuava ali, parada, como quem não queria interromper... ou talvez como quem fazia questão de lembrar que estava por perto.
Respirei fundo, mantendo a postura profissional, mas, no fundo, sentindo aquele nó estranho entre o que era e o que nunca poderia ser.
ㅡMais uma série? - perguntei, me forçando a sorrir.
Ele riu baixinho e assentiu, pronto para continuar, e eu... só continuei sendo a fisioterapeuta.
Só isso.
Ou talvez não só isso.
Ele começou a fazer a nova série de exercícios, concentrado, mas vez ou outra desviava o olhar pra mim, como se buscasse alguma confirmação silenciosa de que estava fazendo certo.
ㅡ Lembra de ativar bem o quadríceps - orientei, agachando ao lado dele para mostrar. Passei a mão levemente pela lateral do joelho, indicando a região. ㅡ Aqui, sente?
Ele soltou um riso fraco.
ㅡ Com você orientando, não tem como errar.
Meu coração apertou no peito, mas segui firme, como sempre fazia. Só que, naquele dia, estava mais difícil. Talvez porque Carol ainda estivesse ali, com aquele olhar que eu não sabia interpretar ㅡ nem hostil, nem exatamente amistoso... só presente.
Levantei, peguei a prancheta ao lado e anotei a evolução da amplitude de movimento dele. Estava recuperando bem, era visível. Ele sempre foi muito disciplinado.
ㅡ Tá quase liberado pra voltar, hein? ㅡ comentei, sorrindo de canto, enquanto anotava.
Ele esticou a perna devagar, testando o movimento, e soltou um suspiro.
ㅡ Não vejo a hora... mas confesso que vou sentir falta dessas sessões.
A frase ficou solta no ar, pendurada entre nós, como se não fosse exatamente sobre fisioterapia.
Olhei pra ele, surpresa, mas antes que pudesse dizer qualquer coisa, Carol deu um passo à frente.
ㅡ Amor, você quer que eu espere no carro? ㅡ perguntou, com aquela voz doce, aparentemente despretensiosa.
Ele virou a cabeça em direção à ela, ainda sentado na maca, e deu um sorriso rápido.
ㅡ Não, pode ficar tranquila. Já tô terminando.
Carol assentiu, mas ficou parada, os olhos passando de mim pra ele, como quem acompanha um jogo silencioso, mas não entra nele.
Eu respirei fundo, virei a página da prancheta e me obriguei a voltar pro foco.
ㅡ Vamos fazer agora o exercício de equilíbrio ㅡ anunciei, indo até o canto da sala buscar a plataforma instável. Quando voltei, ele já estava de pé, ajeitando o short, o joelho um pouco mais firme do que na semana passada.
Estendi a mão, oferecendo apoio, e ele segurou. A palma dele quente contra a minha. Foi um segundo, talvez menos, mas suficiente para que eu me lembrasse, mais uma vez, de como era estranho esse espaço entre o que éramos e o que nunca admitiríamos ser.
ㅡ Pronto? ㅡ perguntei, mantendo o olhar no joelho dele, fugindo do rosto.
ㅡ Sempre ㅡ respondeu, e tive certeza de que não falava só do exercício.
Ele se posicionou sobre a plataforma e eu fiquei ao lado, atenta a qualquer desequilíbrio, guiando com pequenas correções, toques rápidos, evitando qualquer coisa que pudesse parecer mais do que técnico.
Mas, mesmo assim... mesmo assim, tinha algo. Sempre teve.
No canto da sala, Carol mexia no celular, sem sair.
E eu ali, segurando a prancha, segurando o profissionalismo, segurando tudo o que não devia escapar.
ㅡ Tá ótimo, Kaká ㅡ elogiei, com um sorriso que eu não soube se era só meu ou também dele.
Ele desceu da plataforma, pegou a toalha e limpou o rosto, enquanto eu guardava os equipamentos, tentando parecer indiferente.
ㅡ Acho que por hoje é só ㅡ anunciei, fechando a ficha.
ㅡ Obrigado, . De verdade ㅡ disse ele, com aquela voz tranquila que sempre me desmontava um pouco por dentro.
Eu só sorri e assenti.
Enquanto ele saía, passou ao lado de Carol, que o acompanhou sem dizer mais nada.
Fiquei ali, sozinha na sala, olhando para o espaço vazio onde ele tinha acabado de estar.
E, por um segundo, pensei se ele também sentia... ou se era só eu, presa nesse espaço invisível entre o que poderia e o que jamais seria.
Mais tarde, naquela mesma noite, eu estava em casa, sentada no sofá, com a televisão ligada em algum programa qualquer, mas sem prestar muita atenção. Minha cabeça ainda estava na sala de fisioterapia, no jeito como ele me olhou antes de sair, na sensação estranha de despedida que ficou no ar, mesmo sem ter sido dita.
O celular vibrou sobre a mesinha de centro, me arrancando do torpor.
Quando peguei, o nome dele apareceu iluminado na tela: Kaká.
Meu coração disparou, como sempre fazia, mesmo que eu já soubesse que não deveria mais. Atendi, tentando manter a voz tranquila.
ㅡ Oi...
Do outro lado, ele soltou aquele suspiro que eu conhecia bem, meio abafado, como se estivesse escolhendo as palavras.
... desculpa te ligar a essa hora.
ㅡ Imagina... tá tudo bem? ㅡ perguntei, já desconfiando que não estava.
Ele demorou um segundo. O silêncio dele doía mais do que qualquer palavra.
ㅡ Eu... eu liguei pra dizer que... não vai dar mais pra continuar as sessões com você.
Fiquei quieta por um instante, tentando absorver. Sabia que esse dia podia chegar, mas não achei que fosse assim, de repente, sem aviso.
ㅡ Ah... entendi. ㅡ Minha voz saiu mais baixa do que eu queria. ㅡ Quer que eu encaminhe pra outro profissional?
Ele soltou um riso fraco, sem humor.
ㅡ Não, não precisa. Eu... ㅡ E então parou de novo, como se estivesse avaliando se devia ou não me contar o motivo.
ㅡ O clube indicou outro fisioterapeuta... mais próximo de casa e ele também é mais específico ㅡ ele disse, enfim, num tom que soava quase como um pedido de desculpas.
Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Sabia que, profissionalmente, isso fazia sentido. Menos deslocamento, mais comodidade e especialização... mas também sabia que não era só isso.
ㅡ Entendi... ㅡ respondi, tentando não deixar transparecer a pontada que senti. ㅡ Claro... faz sentido.
Do outro lado da linha, ele ficou em silêncio por alguns segundos. Parecia querer dizer mais alguma coisa, mas não tinha coragem.
ㅡ Só queria te agradecer... de verdade. Por tudo.
Mordi o lábio, apertando ainda mais o celular contra a orelha, como se isso pudesse me aproximar dele, só um pouco mais.
ㅡ Eu que agradeço, Kaká... foi um prazer enorme trabalhar com você.
Mais um silêncio. Dessa vez, mais longo.
ㅡ Boa noite, .
ㅡ Boa noite...
Quando desliguei, fiquei ali parada, olhando para o telefone, sentindo que, de alguma forma, aquele não era só o fim das sessões. Era o fim de alguma coisa que nem tinha começado de verdade... mas que, dentro de mim, já ocupava espaço demais.



FLASHBACK — DIAS ANTES

O barulho das chuteiras se arrastando no chão de borracha ecoava pelo consultório vazio quando ele entrou, com aquele sorriso tranquilo, mas um pouco cansado. O joelho ainda levemente inchado, a camiseta simples e o olhar que sempre buscava o meu antes mesmo de eu falar qualquer coisa.
— Oi, … — ele disse, a voz baixa, mas familiar, quase íntima.
— Oi… — Sorri, levantando da poltrona e pegando a prancheta. — Como tá se sentindo hoje?
Ele deu de ombros, sentando na maca e erguendo a barra da bermuda, expondo o joelho que, mesmo machucado, não parecia tão grave quanto ele temia no começo. Passei os olhos rapidamente pelos pontos de tensão, pelas marcas que os dias de recuperação deixavam ali.
— Tá melhor — ele disse, sem me encarar de imediato, olhando para as mãos entrelaçadas no colo. — Acho que mais pela sua paciência do que por outra coisa.
Dei uma risada fraca, ajoelhando ao lado da maca para começar o exame. A palma da minha mão repousou sobre o joelho dele, os dedos deslizando devagar, atentos, profissionais. Mas mesmo assim, cada mínimo contato parecia ter um peso estranho, como se a pele dele reconhecesse a minha.
Ele respirou fundo, desviando o olhar para o teto, e eu aproveitei o silêncio para me concentrar. Só que não conseguia ignorar o modo como ele soltava o ar, como as sobrancelhas se franziram quando apertei um pouco mais, ou como ele relaxava quando eu dizia:
— Tá indo bem…
De repente, ele riu, um riso sincero, um pouco surpreso.
— O que foi? — perguntei, sem conter o sorriso que sempre aparecia quando ele ria assim.
— Nada… é que… você fala isso como se fosse uma torcida.
Olhei para ele, e nossos olhares se cruzaram de um jeito que sempre parecia demorar mais do que deveria.

— Talvez seja… — respondi, meio brincando, meio séria demais.
Ele sorriu, mas logo desviou o olhar, passando a mão pelos cabelos, aquele gesto distraído que eu já tinha decorado.
Passei a guiá-lo pelos exercícios de fortalecimento, indicando como posicionar o pé, onde apoiar a mão, corrigindo pequenas falhas. Às vezes, nossas mãos se encontravam, sem querer — ou querendo — e nenhum de nós parecia ter muita pressa em afastá-las.
— Você confia em mim? — perguntei, ao propor um exercício novo, um pouco mais desafiador.
Ele soltou um riso, dessa vez mais rouco, mais contido.
— Claro…
E, por um segundo, eu quis acreditar que ele estava falando de mais coisas além daquele movimento.
No meio de uma pausa, ele ficou sentado na maca, observando a rua pela janela, enquanto eu organizava alguns materiais.
— Sabe, às vezes acho que você gosta mais do consultório do que do campo — brinquei, tentando quebrar aquele silêncio confortável demais.
Ele virou o rosto na minha direção, sorrindo de canto.
— Ultimamente… tem sido mais fácil vir aqui.
E depois baixou o olhar, como se tivesse percebido que falou demais.
Fingi que não notei, mas o coração apertou no peito.
Antes de terminar, fizemos alongamentos, e ele confiou o peso do corpo nas minhas mãos, fechando os olhos por segundos longos demais, como se aquele fosse o lugar mais seguro que ele conhecia naquele momento.
Ele ficou parado ali, ao lado da maca, mexendo no cadarço do tênis, e eu já tinha começado a guardar os materiais quando ouvi a voz dele, de repente, quebrando o silêncio:
… você… sempre quis ser fisioterapeuta?
Virei o rosto para ele, meio surpresa pela pergunta fora de contexto, mas logo sorri.
— Sempre gostei… acho que desde a época da escola. Eu gostava da ideia de ajudar as pessoas a se recuperarem, sabe? De fazer parte desse processo.

Ele assentiu, passando a mão pelo joelho, como se lembrasse do quanto aquilo era mesmo importante.
— É… faz toda a diferença.
Apoiei-me na bancada, cruzando os braços, deixando os papéis de lado. Ele parecia querer continuar ali, e eu não tinha nenhuma vontade de apressar sua saída.
— E você? — arrisquei, mesmo já sabendo a resposta. — Sempre quis jogar?
Ele sorriu, olhando para o chão, como quem revive uma memória muito antiga.
— Desde que me entendo por gente. Mas… tem dias que eu penso… se eu não jogasse, o que eu faria?
— E o que você acha?
Ele ergueu os olhos para mim, e por um instante, pareceu que o mundo inteiro se calava só para aquela resposta.
— Acho que… não faço ideia.
Soltei uma risada leve e ele me acompanhou, relaxando os ombros.
— Você fala como se estivesse cansado — comentei, meio sem querer.
Ele respirou fundo, encostando as costas na parede.
— Acho que… às vezes, tô mesmo.
Ficamos em silêncio e o relógio na parede marcava que já devíamos ter encerrado a sessão há pelo menos vinte minutos. Eu deveria lembrá-lo, ser profissional… mas não conseguia.
— Você parece ser o tipo de pessoa que não gosta de parar — falei, meio em tom de brincadeira, tentando aliviar a seriedade que pairava.
Ele deu de ombros, sorrindo de canto.
— Nem sempre. Tem coisas… que eu gostaria que não passassem tão rápido.
O jeito como ele falou me fez desviar o olhar. Mexi nos papéis sobre a mesa, fingindo procurar alguma coisa.
… — ele chamou de novo, e quando voltei a encará-lo, ele estava mais perto, apoiado na bancada ao meu lado. — Você já se machucou feio alguma vez?
Sorri, achando graça da pergunta, mas logo entendi que ele só queria um pretexto para continuar ali.
— Já… uma vez, torci o tornozelo numa corrida. Fiquei semanas mancando.
Ele riu.
— Conseguiu ser paciente com você mesma?
— Nem um pouco — confessei, e nós dois rimos juntos.
De repente, o celular dele vibrou em cima da maca. Ele olhou, a expressão mudando sutilmente, ficando mais fechada.
— É a Carol…
Assenti, tentando não deixar transparecer nada, mas ele nem se apressou para atender. Apenas silenciou o aparelho e ficou ali, parado.
— Acho que… eu devia ir — disse, mas não se moveu.
Eu sorri, meio sem graça, meio querendo que ele ficasse.
— Acho que sim…
Mas ele ficou. Olhou ao redor do consultório como quem decora cada detalhe e depois voltou a me encarar.
— Gosto daqui — confessou, a voz mais baixa.
— Eu também… — respondi, sentindo que estava dizendo mais do que parecia. — É o meu cantinho preferido.
Ele sorriu.
Pegou o celular, guardou no bolso, e por fim se afastou, indo em direção à porta.
Mas, antes de sair, virou-se para mim, com aquele olhar que, mesmo sem intenção, parecia sempre atravessar as minhas defesas.
— Até amanhã, .
E eu apenas assenti, sem conseguir responder, porque tinha medo de que, se falasse, minha voz denunciasse tudo o que eu mesma ainda não tinha coragem de admitir.
E, quando ele finalmente saiu, o cheiro do perfume dele ficou no ar, misturado com o silêncio daquele consultório que, naquela noite, pareceu grande e vazio demais.




Continua...


Nota da autora: Sem nota!

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