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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 27/12/2025

— Olha, ainda dá tempo de cancelar tudo e passar o Natal juntinhas. É só você dizer que quer e eu dou a volta com o carro.

A quem eu estava tentando enganar? Não havia disputa possível contra uma árvore de Natal gigante, carregada de embrulhos coloridos aos pés e que só aguardavam o momento certo para serem abertos. Aos olhos de uma criança de sete anos, aquilo era infinitamente mais tentador do que uma maratona de filmes natalinos na noite do dia vinte e quatro.

Bondosa como era, Cristine jamais diria que preferia passar o feriado junto da família do pai, abastada de crianças, a estar na cama à meia-noite e meia, após comer o meu manjar de coco com ameixa. Ainda assim, eu sabia. E aceitava que nossos natais eram assim, para mim já bastava — desde que fosse sempre nós duas, cercadas pelos pratos que fizeram parte da minha infância, e que eu teimosamente insistia em repetir ano após ano.

— Tá tudo bem, mamãe. Você vem me buscar no dia vinte e seis, certo? — o brilho nos olhinhos castanhos traíam sua tentativa de guardar a animação para si.

— Estarei aqui antes da hora do almoço — tirei o cinto de segurança, para alcançar o topo da sua cabeça com meus lábios mais facilmente.

Ajeitei seu pequeno gorro e saímos do carro quando Viktor apareceu no portão. Ele sorria como se o vento não estivesse frio o suficiente nem para provocar cócegas, e eu sabia que aquele sorriso bonito, de orelha a orelha, era para receber a nossa princesa.

— Cadê a garotinha mais linda desse mundo?!

Cristine correu em direção aos braços abertos de Krum e a forma como ele a ergueu no ar, arrancou de mim o maior sorriso de uma verdadeira mãe babona. Era impossível negar a ternura daquela cena, ainda que uma pontada fina atravessasse meu peito sempre que os via juntos. Me fazia pensar demais no que poderia ter, se tivesse aceitado a “proposta” de união para que nossa filha crescesse com pai e mãe lado a lado.

— E aí, . Estrada tranquila? — os olhos do homem encontraram os meus num aceno rápido por cima do ombro.

— Tranquila — forcei um sorriso e enfiei as mãos nos bolsos do casaco, mais pelo desconforto emocional do que pelo frio. — Ela já tomou café da tarde, mas se quiser, deixei uns biscoitos de gengibre na mochila. Estavam frescos quando saímos de casa.

— Ah, então foram assados por você? — o sorriso de Viktor dobrou de tamanho. — Melhor ainda.

Cristine deitou a cabeça no ombro do pai, deixando que seus olhinhos passeassem entre nós.

— Vai com calma na estrada de volta, tá? Começou a nevar mais forte nas últimas horas.

Assenti sentindo um nó se formar na minha garganta, o famigerado que surge quando estamos nos despedindo de quem mais amamos no mundo.

— Se cuida, meu amor — toquei o cabelo dela uma última vez. — Eu te amo.

— Também te amo, mamãe. — Cris apertou os bracinhos no pescoço de Krum, mas olhou diretamente para mim. Aquele olhar era inteirinho meu, com árvore de Natal ou sem.

Afastei-me antes que a emoção me denunciasse, e já dentro do carro, o som do motor preencheu o espaço que o silêncio nunca conseguia, tendo uma criança na minha vida.

Pelo retrovisor, o vi levar nossa menininha para dentro, protegendo-a da neve com o próprio corpo, e com aquela imagem, eu decidi que não haveria mais “um Natal com seu pai” e “um Natal comigo”. Nos próximos, estaria com ela onde a mesma quisesse, mas antes, eu teria de encarar o reencontro de ex-alunos da Mongenstern University.

❄️❄️❄️


Toda aquela neve havia lentificado o meu percurso de volta para casa, engolindo o caminho dos pneus e tornando cada curva mais estreita do que normalmente era. A estrada estava se tornando um verdadeiro corredor branco e silencioso, dos que nos fazem pensar demais em coisas ruins — o que nunca é ideal depois de deixar uma filha para trás na quase véspera de Natal.

— Graças às entidades natalinas você conseguiu voltar de Montreux inteira — resmungou Lizzy, levantando a taça de vinho como se brindasse à minha sobrevivência.

Quando empurrei a porta de casa, encontrei Elizabeth totalmente espalhada no meu sofá, como se morasse ali. Casaco jogado por cima da poltrona, pernas enfiadas na manta que a avó de Cristine tricotara e uma garrafa já aberta na mesa de centro. Esse seu costume de simplesmente aparecer — com bebidas, muitas fofocas e zero acanhamento — era o que transformava meu lar maternal, em algo um pouco mais descontraído.

Lizzy alegava que fazia isso para garantir que eu não me tornasse uma “ermitã charmosa e deprimente”. E no fundo, eu gostava muito, mesmo que nem sempre admitisse em voz alta.

— Nem tão inteira assim, né — sorri com um pequeno bico de chateação. — Ela tava se segurando pra não parecer tão animada na minha frente, Elizabeth. Ela só tem sete anos! Que preocupações guarda pra si mesma?!

Primeiro, Lizzy ergueu uma das sobrancelhas, e depois, apoiou a taça no joelho. Com isso eu soube que ela estava prestes a anunciar mais um de seus vereditos importantes.

, minha amiga. A mãe dela é cheia de preocupações em relação a preferência da filha, já parou pra pensar que Cristine percebe isso tão bem quanto qualquer adulto?

Meu primeiro impulso foi negar, é claro, mas não seria o dia em que Elizabeth passaria frio, pois mais uma vez, estava coberta de razão. Cristine notava quando eu temia perdê-la para o outro lado da família, quando me sentia menor do que deveria, e principalmente, quando tentava parecer forte.

— Eu só… não queria que ela sentisse culpa por estar feliz. — murmurei, mexendo no cabelo, tentando reorganizar meus pensamentos bagunçados. — Não queria que pensasse que precisa escolher entre nós dois.

— Ela não pensa assim. — Elizabeth garantiu, dando um tapinha de leve na minha perna. — Criança não funciona nesse preto e branco, . Quem complica tudo somos nós.

Foi preciso um instante em silêncio para absorver a verdade desconfortável.

— Olha, eu tô com você desde antes da princesa nascer. Tem sido uma ótima mãe durante todos esses sete anos e não podemos negar que o Viktor é um ótimo pai também, mas não existe uma disputa entre vocês. Tenta relaxar um pouco, gata.

— Você é cheia de lucidez, não é mesmo? — tratei de encher uma taça de vinho para mim.

— É parte do pacote — Lizzy deu uma piscadela. — Podemos falar de Zermatt agora?! Alpes suíços, baby!

— Previsão de muita neve e fofoca pra esse fim de semana — respondi já com a borda da taça entre os lábios.

Passados oito meses desde a minha decisão de ir para o tal reencontro de ex-alunos da Mongenstern, minha empolgação se encontrava morna. Eu sabia que Zermatt era um vilarejo lindo e que rever velhos amigos podia ser divertido, no entanto, não seria mentira se eu dissesse que a curiosidade em saber como cada um tinha envelhecido, sobressaía qualquer entusiasmo genuíno.

Uma parte grande de mim só queria cumprir presença — uma vez que tudo já estava pago — e voltar para o meu silêncio confortável.

— E sobre o elefante na sala? — Lizzy me encarava com os olhos azuis levemente saltados.

— Que elefante? — perguntei, já sabendo que não ia gostar da resposta.

Ela abriu um sorriso travesso.

— Começa com W… e termina com easley.

Perfeito. Não tinha mais como evitar de chegar nesse assunto.

— E por que você considera isso um “elefante na sala”? — eu precisaria de mais vinho se fossemos continuar nesse tema.

— Porque vocês vão se reencontrar depois de sete anos! Eu quero saber como você tá se sentindo, no que tá pensando.

— Eu tenho trinta anos agora, Lizzy. Não fico pensando nos erros da época de faculdade — rolei os olhos.

— Você nunca fechou essa história com o Fred.

Meu peito travou por um segundo, ao ouvir tão explicitamente o nome dele.

— Eu fechei sim — rebati no automático. — Ele decidiu… do jeito que achou melhor. E eu aceitei!

Elizabeth soltou uma risada curta, descrente.

— Aceitou nada, você engoliu, . E tem uma diferença enorme entre as duas coisas.

Fiquei quieta, porque discutir com Elizabeth em matéria de verdade emocional, era como tentar discutir meteorologia com a própria tempestade.

— E, cá entre nós…talvez você nem esteja pensando no Fred.

Ergui o olhar, desconfiada. Preocupada com sua próxima afirmação absurda.

— O que tá te deixando muda em relação a Zermatt é o fato de que vai reencontrar o George.

— Você tá criando um drama que não existe em cima das minhas relações antigas, Lizzy.

— Eu? Criando drama? — ela ergueu as mãos, teatral. — Minha filha, você é que desativa a respiração automática só de ouvir o nome dele.

Suspirei, mais para ganhar tempo do que por exasperação real.

— É só uma questão profissional! George tem um talento irritante pra resolver coisas que parecem impossíveis. É um engenheiro e tanto, você não acha?

— Um ruivo e tanto, você quis dizer.

A repreendi com o olhar. Cobra traidora…

— Então vamos falar com maturidade — Ela se endireitou no sofá. Estava vindo a versão meio psicóloga amadora, meio irmã mais velha atrevida. — Você não deve nada para os dois, mas concorda comigo que também existe uma diferença entre não dever nada e não sentir nada?

Revirei os olhos, mas não consegui formular um protesto rápido o bastante.

— E não vem com o discurso de questão profissional, vocês já foram mais do que isso.

Minha boca se abriu para responder, mas novamente nada saiu, e Elizabeth percebeu, obviamente. Ela percebeu que as palavras se esgotavam quando os gêmeos entravam em pauta.

— Elizabeth…— suspirei. — Fred era meu namorado, George era meu cunhado e melhor amigo. A forma como destruíram essas relações não me permite nutrir nada por eles além de indiferença.

— Olha, eu te entendo. Entendo de verdade, , mas você não ouviu a versão deles sobre o que aconteceu.

— E eu precisava?! Eu tinha uma mãe morta de quinze dias e um pai recém enterrado. Acha que eu precisava de algo mais para me estressar? — minha voz subiu dois tons.

Elizabeth apertou a taça com os dedos mais rígidos do que antes, mas não desviou o olhar ao receber o meu desconforto. A conversa havia atingido o nível em que o vinho deixava de ser saboroso e começava a se apresentar ácido demais para nossos paladares. Até a porcaria da minha sala gigante parecia ter ficado pequena, tudo porque aqueles dois nomes insistiam em ocupar mais espaço do que precisavam, seja onde quer que fosse.

Meu peito estava em chamas, era a raiva imatura, mas não raiva dela, e sim das lembranças que tinha puxado de mim pela raiz. O silêncio então se sentou junto a nós, e ali ficou por longos segundos, até que nossas respirações devolveram a gravidade ao chão.

— Eu…só acho que nesse fim de semana isso vai vir à tona, e que é melhor pensar sobre. Não chega lá despreparada, você sempre se machuca mais quando as merdas do seu passado te pegam de surpresa.

Merdas mal enterradas, por isso elas acabavam voltando. Droga…e pensar que fui eu mesma a me meter nessa.

— Obrigada por se preocupar, Lizzy…— suspirei outra vez. — E me desculpa…

— Imagina, amiga — mesmo fragmentada pela tensão, Elizabeth foi gentil e me deu um sorriso inteiro, quente, sem ironia alguma.

— É melhor pararmos com o vinho por hoje, do contrário, a enxaqueca não vai vir leve.

❄️❄️❄️

Dia seguinte, 08:00h da manhã, 7° graus celsius


Anos morando na Suíça e a beleza do país nunca se esgotava aos meus olhos. Não era exagero nenhum dizer que lugares surgiam como num passe de mágica, para o deleite daqueles que, assim como eu, buscavam nesta peculiar característica uma trégua gentil às durezas e urgências da vida. Os lagos, as montanhas, os vales e as florestas densas, compunham um cenário cuidadosamente pensado para ser contemplado, jamais com pressa ou sem se deixar tocar na alma. E mesmo congelados ou cobertos de neve, o inverno não lhes roubava a poesia, apenas mudava o tom da paisagem.

Elizabeth cochilava serena no assento em minha frente, enquanto eu dividia minha atenção entre as aquarelas naturais lá de fora e as páginas de um livro aleatório que pegara na minha biblioteca pessoal. Aleatório e muito inoportuno. Logo nas primeiras linhas, o autor dizia que certos encontros não acontecem por acaso, mas por insistência do que foi mal resolvido, que a vida tem um talento quase cruel para nos colocar frente a frente com versões antigas de nós mesmos, não para nos punir, mas para testar o que ainda dói e o que finalmente cicatrizou.

Ele falava sobre como amadurecer não é esquecer, e sim aprender a atravessar a memória sem sangrar no processo. Isso me fez fechar o livro por um instante e observar o meu próprio reflexo no vidro, com a incômoda sensação de arrependimento por ter escolhido passar o Natal daquele jeito.

Como se meus sentimentos evadissem a minha matéria, Lizzy se mexeu, parecendo desconfortável antes de soltar um suspiro preguiçoso e abrir os olhos. O trem diminuía levemente a velocidade e seu balanço suave anunciava que estávamos nos aproximando de algum ponto importante do trajeto. Ela passou a mão pelo rosto, ainda meio perdida, e me lançou um sorriso sonolento, cheio de familiaridade, como se eu fosse a melhor pessoa que ela poderia ver ao acordar.

Lá fora, as construções começavam a surgir com mais frequência, as montanhas imponentes estavam mais próximas e era impossível ignorar o destino. Zermatt já não era apenas uma ideia ou um nome elegante no roteiro da viagem, a vila estava lá com toda a sua concretude e tudo que eu teria de encarar. Desembarcamos na plataforma juntamente com alguns outros pequenos grupos, em que as vozes eram animadas demais e o vapor quente escapava das bocas sorridentes — aquela euforia do reencontro parecia contagiosa.

Reconheci rostos antes mesmo de lembrar dos nomes completos, o tempo tinha feito seus ajustes aqui e ali, mas sem apagar totalmente quem cada um tinha sido na Universidade de Mongenstern. De um dos homens eu me lembrei bem, obviamente. Cedrico foi meu primeiro namorado nos tempos de universitária, coisa de poucos meses. O capitão do time de hóquei masculino e a melhor jogadora do time feminino combinavam bem no papel, mas gostávamos demais um do outro como amigos para ter que sustentar o roteiro de fanfic por muito tempo.

Von Platen Danobello… — ele abriu um sorriso largo ao me reconhecer. — Ainda patinando pela vida com a mesma elegância?

— Só fora do gelo, Diggory — respondi, entrando no abraço fácil que veio em seguida.

Lizzy já havia se engajado em outra conversa do meu lado, com a facilidade inata dos extrovertidos. Falava com Cho Chang e Angelina Johnson, ambas jogaram hóquei comigo por anos, mas nunca nos aproximamos.

— Como é bom te ver, . Sempre soube que você ia longe.

Já tínhamos encerrado o abraço, mas nossas mãos se mantiveram unidas. Velhos hábitos eram difíceis de matar, mesmo com ajuda do tempo.

— Você não deveria ter sumido, Cedrico! Por causa disso eu precisei fundar uma associação com Lizzy Lovegood — respondi, lançando um olhar rápido para a minha amiga.

— Eu fui pra fora da Suíça com uma namorada por uns tempos — ele explicou, dando um meio sorriso. Uma decisão que fez sentido na época, me parecia. — Acabei ficando mais do que planejava, a vida foi acontecendo.

— Ela sempre faz isso — murmurei. — Quando a gente percebe, já foram uns bons anos no meio do caminho.

Cedrico apertou meus dedos de leve antes de finalmente soltá-los.

— Mas eu voltei. E parece que cheguei bem a tempo do reencontro dos Mongensternianos.

— Parece que sim! — concordei com um sorriso aberto.

Diggory continuava…bem, estonteante. Havia traços de maturidade ali em seu rosto — o maxilar mais marcado, o olhar menos impulsivo —, mas o sorriso permanecia o mesmo, fácil e acolhedor, as pessoas gostavam porque se sentiam à vontade ao lado dele. Por todos os anos que sucederam a formatura, eu pensei, não sem certa melancolia, que teria sido ótimo mantê-lo por perto — e isso não tinha a ver com nosso breve namoro, mas com o laço sincero de amizade que criamos no primeiro dia de aula.

— Bom, vamos indo? — ele apontou para um dos carros que nos levaria até o chalé. — Logo o outro trem vai chegar e aí todos estarão aqui, definitivamente.

— Claro, claro! Vamos lá — Peguei minha única mala sem transtornos, estava leve. — Lizzy, vamos? — fiz sinal com a cabeça para que ela nos acompanhasse.

O trajeto até o chalé estava repleto de luzes natalinas, que refletiam na neve compactada e transformavam cada esquina em um ponto de espetáculo à parte. Pelas calçadas, pessoas sustentavam taças de vinho com suas luvas elegantes, trajando também casacos caros e cachecóis de grife.

A estrada do chalé serpenteava pela montanha, afastando pouco a pouco o burburinho das ruas iluminadas, até que restou apenas o silêncio espesso da neve e o som contido do motor vencendo a inclinação. Zermatt era ainda mais fascinante dali de cima, e minha pequena Cristine com certeza iria adorar o mar de luzes delicadas lá embaixo, ela diria que era uma família imensa de vagalumes.

— Acho que estávamos todos de queixo caído com a beleza desse lugar, considerando que ninguém falou muita coisa durante o caminho todo — comentou Cedrico, quebrando o silêncio com sua voz amigável.

Reparei em um papel adornado com arabesco, preso a um suporte discreto no imenso arco de madeira da entrada. Eram nossos nomes escritos pelo punho de alguém, com tinta dourada — um luxo pequeno, mas que eu tinha certeza que alguns ali se importavam. Meus olhos passaram rapidamente por cada um deles, traindo-me, até travarem por um segundo a mais do que deveriam naquele sobrenome. Weasley. Engoli em seco, fingindo interesse no zíper do meu casaco enquanto o carro era descarregado.

O interior do chalé era exatamente o que se esperava de algo descrito como “sofisticado” naquele contexto. Madeira escura, linhas limpas, vidro em abundância para se ver a neve caindo lá fora e uma lareira central que servia como ponto focal desde o primeiro traço do projeto. Não consegui evitar, meu olhar já analisava ângulos, proporções, a forma como a luz natural entrava mesmo em pleno inverno.

— Esse pé-direito é ousado…— comentei, quase sem perceber que falava em voz alta. — Especialmente considerando a carga térmica necessária.

— Concordo — Lizzy respondeu de imediato, largando a mala para se aproximar da estrutura. — Aposto que compensaram com isolamento triplo e aquecimento embutido no piso.

— E reforço metálico oculto nas vigas. — completou Cedrico, entrando na conversa com naturalidade. — Do contrário, isso aqui não aguentaria duas temporadas de neve pesada.

— Finalmente alguém falando a minha língua — disse Cho Chang, surgindo ao nosso lado com uma taça de vinho branco já servida. — Embora eu ache que exageraram na simetria. Faltou coragem.

Troquei um olhar rápido com Lizzy antes de sorrir de leve. As únicas vezes em que Cho e eu estivemos do mesmo lado, foi dentro de uma quadra. Do contrário, se a opinião dela apontava para uma direção, a minha seguia para a outra.

— Bem, eu reparei que tem café da manhã servido. Acho que vou guardar a minha mala, comer alguma coisa e ir para o quarto descansar — falei para Elizabeth e Cedrico.

Lizzy entendeu, pelo meu olhar, que eu não queria estar na recepção quando o restante de nós chegasse. Eu precisava de tempo, precisava porque não me dei conta de como sete anos não haviam me preparado para um possível reencontro com o homem que mais amei na vida — e que não era mais meu, não por culpa minha.

Sorri gentilmente mais uma vez para os que estavam perto, e saí me guiando pelos corredores que levariam até a ala dos quartos. Atravessei uma espécie de ponte de madeira, iluminada por arandelas de ferro forjado e decorada com flores que não eram daquela estação, mas que se encaixavam perfeitamente com os outros elementos. Do outro lado do chalé, cada porta era numerada com plaquinhas em latão polido, e o piso de tábuas largas rangia levemente sob meus passos.

Os quartos à direita eram para os solteiros ou casais sem filhos, suítes maiores à esquerda para grupos familiares, e no fundo, uma escada em espiral que levava a um sótão convertido em lounge, provavelmente com vistas panorâmicas para o Matterhorn.
No meio do corredor, empurrei a porta de número sete com o ombro e o ar quente me envolveu em forma de boas vindas, o espaço era compacto, mas eficiente.

Uma cama king-size com edredom branco e fofo, ladeada por mesinhas de cabeceira com lâmpadas de leitura em forma de cristais. Uma janela ampla dominava a parede oposta, emoldurando a montanha nevada lá fora, com cortinas pesadas de veludo para bloquear o frio noturno. No canto, uma poltrona de couro desgastado convidava para leitura, e um banheiro adjacente prometia luxos como piso aquecido e roupões felpudos.

— Acho que valeu a grana — murmurei sozinha, largando a mala no chão.

Com receio de que o outro trem não demorasse a chegar, resisti a vontade de me jogar naquela cama gostosa e fiz todo o caminho de volta até a parte principal do chalé, onde uma mesa farta de café da manhã estava servida. Fiz um prato com croissants frescos e crocantes, uma fatia generosa de queijo gruyère e algumas frutas, voltando para o quarto logo em seguida.

Agora era eu, o silêncio e uma boa fatia de melão, enquanto a incerteza do que poderia acontecer na véspera de Natal me consumia. Ao mastigar devagar, o suco doce escorria pelos meus dedos e a minha mente escorria para longe dali, para os corredores iluminados da Mongenstern, onde um dia a vida foi mais simples. Eram tempos em que eu não pensava em perder pessoas importantes, em que eu pensava viver um amor puro e verdadeiro, e tempos em que a única preocupação no mês de dezembro, era vencer a final do campeonato de inverno no hóquei.

Flashback on

23 de dezembro de 2016


O ar gelado da pista de hóquei cortava mais em finais de campeonato, mas eu mal sentia, meu corpo estava em chamas com a adrenalina do jogo. Mongenstern contra as rivais de Durmstrang, a torcida tinha motivos para estar enlouquecida naquele dia. O som seco dos tacos batendo no gelo e o chiado dos patins rasgando a superfície polida, tudo era música para os meus ouvidos. Eu dominava o centro, desviando de checks brutais e passando o puck com precisão cirúrgica para minhas companheiras.

Cho estava na defesa, bloqueando como uma muralha, e Angelina flutuava na ala direita, pronta para o contra-ataque, mas era eu quem estava carregando o time nas costas. Dois gols no primeiro período, uma assistência no segundo, e no terceiro, quando o placar empatava em 3 a 3, eu roubei o puck de uma defensora desatenta, driblando a goleira com um movimento que treinei por meses. O disco deslizou para o fundo da rede e o buzzer soou. A vitória era nossa. O rinque explodiu em aplausos e minhas colegas me engoliram em um abraço coletivo, enquanto eu ria alto, com o coração ainda martelando no peito.

, olha lá! — uma das garotas do time apontou para a arquibancada.

Eu deveria estar preparada para aquilo, mas não estava. Na verdade, foi bem melhor do que qualquer coisa que eu tivesse imaginado, é claro! Fred estava com as calças abaixadas, com a bunda virada para a pista, exibindo a cueca branca onde meu rosto estava estampado junto da frase “ é campeã!”.

Outra jogadora talvez tivesse morrido de vergonha, mas eu precisei cruzar as pernas para não fazer xixi no uniforme do time. Meu riso era solto e namorar Fred Weasley não ajudava. Por Deus! A sensação era de estar no topo do mundo — feliz como nunca, título de campeã e apaixonada por aquele idiota charmoso que transformava cada vinte e quatro horas minhas, em uma aventura imprevisível.

Eu vivia a melhor fase da minha vida.

A festa de comemoração veio logo depois, no salão de eventos da Mongenstern, decorado com luzes piscantes e uma árvore de Natal improvisada feita de tacos de hóquei, com enfeites roubados do dormitório. Eu usava o suéter do time por cima do vestido azul simples que coloquei às pressas, e deixei os cachos — ainda úmidos do banho — soltos, porque Fred gostava daquele jeito.

Quando desci para a festa, mais gritos ecoaram no salão, mas eu só queria correr para os braços do ruivo que me esperava.

— Minha estrela do gelo! — ele gritou por cima da música, me girando no ar como se fosse fácil.

Seus braços eram firmes, quentes, e eu ri contra seu peito, inalando o cheiro familiar de sabonete de alecrim.

— Obrigada por estar lá hoje, foi muito importante!

Sem esperar que ele respondesse, juntei seu rosto entre minhas mãos e o puxei até que conseguisse alcançar os seus lábios. Eu era louca naqueles lábios. Era louca pela forma como Fred me tratava diferente de todos os outros caras que já tinham passado pela minha vida, os que me viam como um troféu bonito e intocável, uma conquista para exibir. Weasley era quem me olhava nos olhos como se eu fosse a pessoa mais fascinante do planeta, quem ria das minhas manias, me provocava até eu perder a paciência e depois me abraçava até eu me derreter.

Com ele, eu me sentia desejada até nos meus farrapos de pijama. Com ele, eu era simplesmente a — forte, sim, mas também bagunçada, uma mulher real. Nosso beijo se aprofundou por um segundo, enquanto esquecíamos o mundo ao redor, até que um coro de assobios, palmas e gritos explodiu no salão. Nossos amigos ovacionavam e batiam o taco de hóquei contra o chão para fazer barulho, a horda de selvagens Mongensternianos estava à solta.

Me afastei rindo com o rosto pelando de quente, mas Fred só piscou, sem uma gota de vergonha.

— Coloca em mim? — tirei um laço laranja do bolso do vestido e lhe entreguei. Representava ele, e George também.

Mais tarde no mesmo dia, eu já havia bebido mais do que em todo ano letivo. Foram inúmeras doses de tequila nos jogos que eu fingia perder, só pela graça de virar o shot, mas a coisa chegou em um ponto que já não era mais tão divertido. As luzes da festa giravam devagar e borradas, e meu estômago decidiu que era hora de devolver tudo.

Eu mal consegui chegar ao banheiro do dormitório antes de me curvar sobre a privada.

— Quer que eu vá buscar alguma coisa pra você? Um remédio, água, qualquer coisa — Fred segurava meu cabelo para o alto com uma mão firme, e esfregava minhas costas com a outra.

Ele não ria ou reclamava, só aguardava pacientemente, murmurando coisas baixinho para me distrair da náusea. Levantei a cabeça por um segundo, muito provavelmente com o rosto pálido e suado, e soltei uma risada fraca, tonta, meio chorosa.

— Freddie… — minha voz saiu arrastada. — Amanhã…amanhã a gente vai viajar pra Devon, pra casa dos seus pais, né? A véspera de Natal com a família Weasley toda… Você acha que eles vão gostar de mim? Tipo… de verdade? Eu quero que eles gostem, quero ser boa o suficiente pra você.

Ele se agachou ao meu lado, ainda segurando meu cabelo, e virou meu rosto para ele com cuidado. Ver aqueles olhos claros cheios de carinho, me desarmou completamente.

, amor… — ele sorriu suave. — Meus pais já te adoram só de ouvirem eu e George falando de você o tempo todo. Minha mãe tá louca pra te abraçar e te encher de comida, e meu pai já disse que qualquer garota que aguente minhas palhaçadas, merece uma medalha bem brilhante de trouxa.

Meu estômago deu uma cambalhota forte antes que eu pudesse rir, levando meu rosto de volta a privada.

— Você é perfeita pra mim, tá ouvindo? Mesmo desse jeito aí. E eles vão te amar porque eu te amo.

Consegui sorrir de volta quando finalmente parei de vomitar, e os olhos marejados, em parte, eram por conta do álcool. Mas era inegável que eu estava emocionada. Emocionada e com a porra de um dos seios escapando pelo decote do vestido, Deus do céu! Quando ele tinha saído dali?

— Meu peito, Fred! — cobri o rosto com as mãos.

— Até parece que eu nunca vi os dois — tinha uma pitadinha de malícia no canto da boca dele, mas todo respeito do mundo no ato de ajeitar o tecido de volta no lugar.

— Você é um idiota… — murmurei, mas minha voz saiu mole, carinhosa. — Mas é o meu idiota.

— Sempre vou ser — ele se inclinou e depositou um beijo leve na minha testa, depois outro na ponta do nariz. — Agora vem cá, deixa eu te dar um banho e te levar pra cama. Vai precisar de boas horas de sono antes de encarar um voo antes pra interagir com o pessoal lá de casa amanhã.

Me apoiei nele com as pernas ainda bambas, e deixei que me erguesse com cuidado, envolvendo minha cintura como se eu não pesasse nada.

— Promete que dorme comigo hoje? — perguntei baixinho.

— Prometo.

Flashback off


Continua...


Nota da autora: Mais alguém amando a Von Platen? Me conta nos comentários!

🪐

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