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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 30/01/2026.

1300 d.C.
Bevurin, Irlanda.


Mais um dia de outono havia chegado. A lua cheia brilhava para comemorar o dia das bruxas, um dia comum para outros em outras linhas do tempo, mas, para eles em Bevurin, era um dia muito importante.
Eram tempos de renovar suas magias, restaurar as energias e agradecer por ela todos os anos por serem As Bruxas de Bevurin. Por seus conhecimentos, os moradores do vilarejo em volta da floresta sempre iam até elas, pediam ajuda, conversavam — até algumas mulheres tinham uma boa amizade com elas. Poucas pessoas se atreviam a enfrentá-las, e aquelas que faziam isso tinham seus devidos destinos traçados amargamente.
Com os antigos moradores de O'Reilly não foi diferente. O'Reilly ficava a uns bons quilômetros de Bevurin — especificamente na Islândia. Foi um vilarejo onde as moiras tomaram conta. Os rumores que voaram até Bevurin não foram os melhores, o que deixou as bruxas confusas. Com isso, a provação que poderia ser real foi com a família de O’Reilly ter se abrigado em um dos vilarejos perto da floresta.

Finnur morava com seus pais e sua irmã. O senhor era artesão, então onde ele ficasse com sua família conseguiria uma boa renda para manter o alimento. Já a mãe, ela ajudava como podia, consertava roupa, amparava uma família com familiar doente, fazia a colheita da época; um doce de mulher e espetáculo de mãe.
Freyja era a caçula da família, tinha seus cabelos longos sempre bem cuidados e trançados, pele macia, o olhar mais doce e preto a ponto de ser hipnotizante. Todos que a viam perguntavam quando iria se casar, quanto seus pais aceitavam para entregar a jovem Freyja para o casório, mas a resposta era sempre um não ou quando ela se apaixonasse.
A verdade era que todas as noites antes de dormir ele a olhava e desejava que nenhum homem pudesse tê-la como ele desejava. Seu amor por ela nasceu de longos anos admirando. Passava horas e horas desejando que estivesse em sua cama.

Naquela noite de lua cheia, Finnur estava sentado do lado de fora, observando seu pai cortar lenha. Estava cansado de ajudá-lo no trabalho e apenas esperava o jantar ficar pronto. Mais ao longe, olhava sua irmã conversar com algumas garotas do vilarejo, e também um homem alto e bonito se aproximando. Através do olhar dela, percebeu que havia paixão entre os dois.
— Finnur, sua irmã está por perto? — A senhora apareceu na porta. — Ah, ali está ela. Hmm, é o príncipe.
O príncipe sempre ia ao vilarejo, jogava cartas e saía para caçar com os moradores. Nunca se mostrou interessado nas mulheres e muito menos naquele momento de sua vida procurava uma futura princesa. Entretanto, com a chegada da família do outro vilarejo, Freyja despertou o amor nele.
— Isso é muito bom.
— Ela fica se mostrando para esse babaca?
Olhava em direção da família algumas vezes.
— Não fale assim de sua irmã, muito menos do príncipe. Avise-a que o jantar ficará pronto logo e convide o príncipe.
Fez um movimento com a cabeça, concordando com a matriarca, e esperou ela entrar. Não iria convidar o príncipe e também tinha um bom conhecimento que era uma estratégia para causar ciúmes.
— Frey, a mãe pediu para ajudarmos — mentiu descaradamente.
— Até mais, vossa majestade. — Correu até o irmão, ele já estava mais à frente. — O que ela quer?
— Nada.
— Finn.
— Vamos até a floresta, o jantar vai demorar e sei que você gosta de passar o anoitecer comigo.
Negar aquela afirmação lhe tornaria uma mentirosa.
O caminho estava levemente coberto por folhas secas e bem iluminado pela lua, que não havia chegado ao centro do céu. Segurava a mão com todo seu amor e paixão, seu corpo se excitava com o seu pequeno desejo daquela noite.
— Chegamos.
— Você acha isso seguro? Nós nunca entramos sem a permissão delas.
— Por isso mesmo, Frey, será mais legal, e elas já se conhecem a nós dois.
Suspirou e olhou para seu irmão. Estava certo, eles sempre estavam pela floresta e passavam pelas cabanas, não haveria nenhum erro que eles cometeriam. Mesmo com receio do que poderia acontecer, confiou em Finn. Entraram nas cabanas, olharam todos os pertences, mexeram em livros mágicos, pedras mágicas, ingredientes. Tudo estava acontecendo como planejou. Tudo que ali tinha foi revirado, principalmente a cabana de Brice. Lá foi onde o plano passou a ser realizado.
A leitura minuciosa era feita discretamente, até achar um que tivesse a certeza de que sua vontade aconteceria. Entregou o copo com o líquido vermelho cintilante, o outro que também beberia tinha o mesmo líquido, porém apenas omitiu que tomara.
— Estou meio zonza.
— Se deite ali. — Apontou para a cama de Brice.
— Não sei se vou melhorar.
Estava no começo de um delírio.
— Talvez morrer.
— Não diga uma coisa dessas, tolinha. — Riu. — Eu nunca deixaria algo acontecer contigo, eu te amo. — Suavemente, passou a mão no rosto dela.
— Eu também te amo.
As palavras que mais desejou ouvir em todos aqueles anos. Se era correspondido, então não precisaria ter entregue o líquido alguns minutos atrás.
Aos vinte e cinco anos, com seu coração ardendo por amor a ela, uma garota de apenas dezoito anos.
Deitaram sobre o lençol verde. A despiu do vestido preto que usava e admirou o corpo dela. Era lindo de longe e de perto era a perfeição.
Os beijos nada calmos, ferozes com seus desejos. A pressa de poder saber que estaria nela tomava conta de si incansavelmente.
A cabeça girava, a deixando pior. Os movimentos bruscos em cima de seu corpo desnudo a embrulhavam o estômago e a deixavam desesperada. Aos poucos compreendeu que Funnir só a levou ali para transar com ela. O repúdio tomou conta dela por confiar tanto em seu irmão.
O cheiro da terra seca apareceu com os passos vindo na direção da casa. Tentou avisar, falar que elas estavam voltando, mas só conseguia ouvir seu nome sendo falando em frases que nunca imaginou ouvir.
— Brice — falou tão assustada quanto a própria bruxa.
— Havia confiança, havia esperança.
— Brice, por favor. Podemos conversar. — Vestiu a calça.
— Não.
Ela realmente criou um afeto às crianças, modo carinhoso de se referir aos irmãos. Não ouviu o que umas de suas irmãs tinha visto na bola de cristal.
— A lua de sangue cairá sobre vocês! As gotas escorrerão por cada um de seus descendentes, amaldiçoando todos aqueles que tiverem seus filhos gêmeos, matando um por um! Concebido por amores diferentes! Não terá um que poderá salvar vocês.
— Brice, você não pode. — Mahle queria impedi-la.
Tarde demais. A lua estava vermelha, sua luz aterrorizava todos que viviam no vilarejo. Os irmãos se encolheram por medo. Brice estava com sua aparência irreconhecível.
— Aquele que nascer cujo haverá um amor real envolvido e com seu sangue ancestral evoluído tirará a lua de sangue dos O’Reilly!
Um estrondo mais forte que um raio foi escutado pelos quatro cantos do mundo. Todos largaram seus afazeres e se abrigaram, os irmãos estavam agora correndo desesperadamente para sua casa. A cabana, que ficava a milhares de distância deles, foi envolta por uma magia, assim ninguém mais entraria em contato com elas sem a permissão.

Ofegantes, pararam do lado de dentro, o vestido folgado no corpo dela, a roupa desorganizada nele. Por sorte, o susto era tão grande com o tempo que os pais não perceberam de imediato.



Passaram-se semanas e Freyja já apresentava sinais de que sua menstruação não aparecia. A matriarca estranhou saber o que isso significava, já que passou duas vezes pela mesma situação. Foi questionada inúmeras vezes, mas se recusou a falar o que havia acontecido naquela noite. Por fim, a única solução seria pedir ajuda às bruxas.
O lugar exato onde tinha o conhecimento que elas ficavam parecia um deserto. Apenas folhas estavam no lugar daquele grande espaço. Com mais alguns passos, ficou no centro e chamou por elas, principalmente por Brice, já que era com quem sempre conversava.
Apareceu com uma fumaça vermelha em volta de si e com um sorriso cínico para a família.
— Oi.
— Precisamos da sua ajuda. — O olhar desesperado percorria pelo o rosto de Brice. — Minha filha, Freyja.
— Sim, eu sei.
— Você sabe?
— Claro que ela vai saber, ela é uma bruxa.
Ignorou a fala do homem.
— Porém vejo que vocês não sabem. Quase há um mês, eu, Mahle e as outras irmãs vimos seu querido filho transando com a sua filha.
— Não, não, você está mentindo! FREYJA! — gritou o nome da filha. — Fale a verdade.
— Ela não precisa dizer a verdade. Nós nos amamos, é... fruto do nosso amor.
— Isso é errado! Não existe esse tipo de amor.
— Finnur, mas eu nunca amei você! Meu coração sempre pertenceu ao príncipe.
— Sua vadia. — Cuspiu as palavras. — Frey, você falou pra mim naquela noite, quando bebeu aquela poção.
— Era bebida alcoólica misturada com outras, ela apenas ficou bêbada.
Isso explicou todas as sensações que ela teve após terminar a bebida, mas, por fim, compreendeu mais ainda que ele não havia bebido igual ela. Explicou tudo o que aconteceu na noite da lua vermelha. O silêncio tomou conta de todos. Não tinha uma palavra apenas para justificar, nem mesmo Finnur disse algo negando.
— Vá para casa, Finnur. — A voz do homem estava neutra. — Não desvie o caminho, ficarei sabendo.
Passou por eles, apenas olhando para Freyja.
— Brice, você sabe como... matar? — falou friamente.
— Sei, mas apenas se ela quiser.
— O quê? Não mesmo. Já tenho sentimentos por ele ou ela. — Tocou em sua barriga.
— Então arrume um pretendente. Aquele príncipe, ele queria casar com você, ofereceu bastante coisa. Você casará com ele.
— Mas...
Enganá-lo seria a última escolha, mas se entregar a ele como sua esposa era seu maior desejo.
— Não tem escolha, querida. — A voz da matriarca apareceu depois de um curto prazo. — Ou você deixa a Brice fazer o que seu pai pediu, ou apenas case mentindo a ele.
Aceitou o casamento com todo desânimo de um enterro e a felicidade de uma nova vida.
Sentimentos distintos e mistos.
Brice havia ficado com pena de Freyja, tanto que apenas para ela fazia companhia. Desde aquele dia, Brice a perdoou. Sabia que a fúria que tinha colocado em cima da garota era grande demais e o único responsável era Funnir.



Passou a ser uma das pessoas que mais visitava Frey no castelo.
— Brice.
— Oi, minha querida.
— Como vocês estão?
— Minha pequena está bem, junto de seu irmãozinho. — Ela teve gêmeos, e, por sorte eles, puxaram sua mãe. — O rei — seu marido — está neste momento voltando de um acordo. Ficou a mãe dele apenas e eu com os filhos dele. — Pousou a mão em sua barriga.
— Frey.
Sua felicidade brilhava em seus olhos.
— Você é a única até o momento que sabe.
— Não contarei e pelo menos não ficará sozinha.
Andavam pelos jardins do castelo. Freyja no momento estava apenas sendo ela e não a rainha. A sua sogra estava com os netos, dando um ar de tranquilidade para a rainha. Era bom ter aquela pequena rede de apoio, já que seus pais esqueceram da existência dela depois do casamento. Chegando à frente da fonte que ali tinha, se sentaram para se refrescar daquele calor.
— Vossa alteza — um dos mensageiros falou e esperou a permissão. — Uma carta para vossa alteza. — Entregou.
— Obrigada.
Abriu sem muitos alarmes. Raramente recebia cartas, e quando recebia era de métodos diferentes. Brice que enviava. O que estava escrito em letras borradas com água foi a maior dor que sentiu.

“Minha querida Freyja,

Não queria falar por carta, muito menos pessoalmente, pois não tenho a cor...ge. Nesta man...a seu pai saiu junto de Funnir, foram ao outro lado da ...sta. Lá, seu pai disse que faria o que devia ter feito dois anos atrás, mas n… conseguiu.
Frey, seu ...ai matou Funnir.
Desculpe sua mãe, ela não soube explicar e ajudar você quando você mais precisou.

Com amor, mamãe.”


— Brice.
Estava pálida.
— O quê? O que foi?
Pegou a carta que lhe foi entregue e leu. Nem ela acreditou. Mahle não tinha comentado nada quando elas decidiram ajudar Frey com a gravidez e não levantar tantas suspeitas.
— Ah, Frey.
— Tudo bem. Eu vou me recolher, te vejo outro dia?
— Claro, você sabe.
— Sim, qualquer coisa chamo você.
Brice não voltou ao castelo por longos oito meses. Foi difícil para Freyja, não aceitava nada que aconteceu com ela, mas também não desejava a morte dele, principalmente um ato vindo de seu pai. Além disso, durante esses oito meses, a filha da rainha e do rei havia nascido. Em um ano e meio, teve o prazer de realizar o quadro da família, tendo todos eles reunidos.
Infelizmente, em outra viagem que tanto fazia com anseio para voltar à casa, o rei morreu ao contrair uma doença. Sua mãe também, já por não aguentar a tristeza em seu peito.
Freyja se viu diante de um grande reino sozinha, com seu filho sendo nomeado rei e as duas pequenas aos cuidados dela. Evitaria que a mesma história se repetisse.

Anos se passaram, e seu filho, agora com idade para governar, mudou algumas coisas, dentre elas o nome do reino, o deixando conhecido como O’Reilly. O fardo da maldição começou com ele. Sua mãe contou sobre a lua de sangue, quando ele se casou — sem ser por amor —, e estava para ter um filho.
As princesas nasceram infelizmente inférteis, não evitando essa tamanha dor.
Tempo depois, o vilarejo compreendeu a maldição. Mesmo tendo os melhores reis e rainhas, eles odiavam que eles permanecessem em O’Reilly, e principalmente que o nome deveria ser aquele. Com inúmeras tentativas de evitar a lua de sangue e o banho dela, recorreram a Brice.
O sentimento de piedade envolveu seu coração, e, com o grimório em mãos, conseguiu manter a maldição com alguns requisitos: apenas na primeira semana de nascimento a lua sangraria; aos dezoito anos, seria mais que necessário com casamento e um filho até os vinte e cinco.
— Caso ao contrário, só haverá duas formas de conseguir mudar tudo. — Olhou para Frey.
— Qual seria?
Escreveu em um pedaço de pergaminho e mostrou a ela.
A maldição não seria desfeita, esse foi seu único sentimento ao ler as palavras.



2020.

Regé estava sentado no parapeito do prédio, duas garrafas de cerveja ao seu lado, e uma decisão que queria tomar, mas no momento estava sem coragem. Estava com sua vida estagnada, as escolhas que teve ao decorrer de sua carreira trouxeram um momento de arrependimento.
Não que atuar numa série baseada em livros fosse a pior coisa, mas, sim, toda a verdade por trás das lentes. Contar exatamente como foi quando seus pais ligaram foi mais complicado do que tinha em mente. No final, omitiu e falou que conseguiria dar conta sozinho. Entretanto, sua preocupação era outra, era se reger depois de ter ficado um tempo fora dos holofotes e criar uma pequena coragem para aceitar novos papéis.
O ataque que teve ao terminar sua série e ir ao ar só lhe deu um leve desânimo. Ou melhor, desânimo por completo. Tentou de todas as formas evitar que seu psicológico fosse afetado, entretanto não foi o suficiente.
Ele deixou todas as suas redes sociais privadas de comentários, evitando mais ainda ser afetado. Também passou um tempo sem aparecer em nenhuma entrevista ou algo relacionado à sua figura pública, tudo isso no período que estava fazendo as sessões com o psicólogo.
Olhando para o horizonte, segurando uma garrafa perto do gargalo e balançando os pés, sentiu seu celular vibrar e tocar ao mesmo tempo. Pelo tempo de duração, pôde ter a certeza de que era uma ligação. Inclinou-se para pegar o celular no bolso e quando estava prestes a pegar, ele caiu para dentro do prédio, derrubando toda a cerveja em sua roupa amarrotada.
— Alô.
Atendeu, com a voz um pouco arrastada.
— Regé-Jean?
— Sim.
— Estou ligando há dias para seu assessor, e ele diz que você está ocupado e não está recebendo nada. Tento diretamente para você e também não atende.
— Hm, o que seria?
— Temos um papel que queremos que você faça o teste.
— Pode ser. Mande para o meu assessor, ele cuidará de tudo.
— Você vai comparecer?
— No dia que você passar para ele.

Nitidamente, o homem percebeu que Regé estava sem muita vontade de comparecer na data.
— Passarei para ele. Espero que você compareça mesmo.
— Claro, como quiser.

Deixou o celular cair do lado dele e se levantou. Escutou o homem falar algumas coisas ainda na ligação e chamar por ele. Regé batia na calça para tirar as pequenas poças de cerveja que acabou criando no tecido, depois se levantou, amaldiçoando até a décima geração do diretor.
Subiu um ódio indescritível dentro de si que podia jurar que conseguiria cometer alguma loucura.
— Era a última. — Levantou-se com um pouco de dificuldade. — Pelo menos a sacola está aqui ainda.
Colocou todas as quatro garrafas de cervejas dentro e voltou para o seu apartamento. Pós banho, pediu um jantar e voltou novamente para o terraço — depois que a comida chegou, outra vez. Era uma tentação aquela vista.
Não tinha pensamentos suicidas, a vista era convidativa e havia uma área de proteção após o parapeito.



O e-mail estava aberto no celular e lia todo o informativo para o teste. O filme contava com inúmeros atores maravilhosos, além de sair na Netflix. Decorava as falas durante o almoço e se preparava para trazer um pouco do personagem para si. Por um breve momento, pensou que sua imagem poderia levar um novo rumo.
Seu foco passou a ser aquele papel e avisou seu assessor para tentar deixar tudo como estava sem ir para as redes sociais, que ele estava prestes a fazer o teste e com isso o seu provável comeback.



O dia do teste começou com um bonito sol. Antes de sair, ele passou novamente no terraço para admirar a paisagem antes de sair. Percebeu que o céu estava estranho, coçou os olhos mais de uma vez. Estava ficando louco?
— Só posso estar vendo coisas. Lua vermelha? — Olhou no seu relógio de pulso. — É quase dez horas da manhã, não. — Forçou os olhos. — Eu vou passar no oftalmologista.
Ele não estava vendo coisas, era uma lua vermelha atrás do sol, mas foi sumindo quando o ponteiro chegou a onze horas e um minuto. Ninguém chegou a perceber, nem mesmo os meteorologistas. A verdade é que apenas ele viu a lua vermelha, e isso poderia atrapalhar futuramente.

Regé Jean tinha esquecido aquele fato e estava dirigindo para o escritório. Esperou a recepção avisar que ele já estava lá para fazer o teste. Não era necessário falar que ele se saiu muito bem. Após o teste, o diretor o chamou para ir até a sala dele. Podia se imaginar o assunto, já que Regé Jean ainda era alvo da polêmica toda, e com isso resolveu tomar a decisão.
— Quando a Netflix falou de você, eu achei que seria mais fácil entrar em contato.
— Depois do ocorrido, fiquei um pouco sem paciência. Com isso, eu larguei umas coisas e quis ficar na minha sem estresse.
— Consigo imaginar. Não chamei você aqui apenas para saber sua atitude, mas para saber se toda essa falação pode atrapalhar seu desempenho para o papel.
Por poucos segundos, Regé pensou. Bebeu um pouco da água que estava ao seu lado e inclinou seu corpo para frente, apoiando seu braço na perna.
— Não vai.
Disse convicto. Se as coisas tivessem que mudar, seria naquele momento, e não ia deixar de agarrar a oportunidade.
— Era o que eu precisava ouvir. As gravações começam daqui três meses. Enquanto isso, irei passar todas as informações do personagem para você.
— Vou pedir para passar direto para mim, mas as outras informações podem passar pro meu assessor. Uma caneta e papel, por favor — pediu e brevemente recebeu. Anotou e já entregou. — Esse é o meu e-mail, pode mandar por aqui.
— Combinado.
Sendo assim, Regé voltaria para os estúdios com o filme que até então não tinha o nome. A volta para sua casa foi agradável. Enquanto estava, no semáforo se recordou de olhar o sol novamente e não tinha visto a lua ali, entretanto realmente marcou uma consulta com o oftalmologista, mas não contaria que viu uma lua vermelha em plenas onze horas da manhã.

O decorrer dos dias foi bom. Voltou com as agendas cheias, publicidades feitas, entrevistas, photoshoot, e claro que todos o questionaram sobre a relação após término com Phoebe. Claro que perguntariam isso. Agora se sentia melhor, a sensação de voltar ao que amava fazer supriu muita coisa, entretanto o que o deixava intrigado todas as noites era aquela lua vermelha atrás do sol aparecer em todos os seus sonhos.



Sabia-se que a família O'Reilly tinha uma maldição ligada a ela. Vinda de geração a geração, todas as mulheres donas do trono apenas deram à luz a gêmeos. Nunca houve casos onde a rainha tivesse dado à luz apenas a um filho. Da mesma forma que todo o futuro cônjuge deveria ser bem escolhido para evitar mais interrupções junto a maldição.
A família real tentou de todas as formas evitar que a maldição progredisse até as próximas gerações, mesmo sempre percebendo que nada funcionaria.



1998.

O vento soprava através das árvores. O ranger dos galhos arrepiava a rainha, que em seus braços carregava a única que sempre amou. Seu marido, por outro lado, carregava a outra filha do casal. Fazia apenas nove meses depois do nascimento, e a maldição já brilhava sobre o anoitecer.
A lua vermelha derramava seu sangue em cima de todo o reino Bevurin. Para acabar com toda aquela maldição, era necessário sempre sacrificar seu filho primogênito, entretanto, o rei estava certo em um certo ponto — que apenas guardou isso para ele. Como chegaram a esta conclusão, sendo que todos os herdeiros do trono só tiveram filhos gêmeos?
Por tentativa de não seguir o que todos fizeram, o rei optou por achar mil e uma formas para manter as duas filhas vivas. Desde a igreja, até mesmo a bruxa que ficava aos redores do reino, e naquele momento era o lugar onde eles estavam indo.
— Acho que é ali.
O rei falou, vendo uma cabana toda destruída. A vegetação morta ao redor, sem uma luz para iluminar, apenas com o vermelho da lua e o som aquoso ao andar por conta do sangue que ela derramava.
— Parece que não tem ninguém em casa.
Ciara olhava pra dentro da casa, tentando ver se encontrava a bruxa.
— Vamos embora.
A rainha virou com um alívio de saber que não teria como ajudar a filha e teria que matá-la, e isso lhe fez dar um sutil sorriso de felicidade.
— Podemos esperar um pouco, não tem problema. — O rei segurava mais perto de si sua filha.
— Não há interesse nenhum em tentar.
Uma voz suave, doce e melodicamente agradável saía entre as árvores. Os olhares passavam por cada lugar, procurando a mulher dona da voz, mas não a achavam.
— Declan, você é tão bobo.
— Como sabe o seu nome? Você já esteve com essa mulher antes?
— Não.
A gargalhada ecoou e a figura da mulher apareceu na sua frente. Dona da silhueta mais linda, seus fios vermelhos como fogo, os olhos púrpuras e um sorriso tão doce escondia todos os males que ela já causou. O sangue escorria sobre seu corpo como as gotas da chuva de verão, sem incomodar.
— Você é ela? Niamh?
Ciara perguntou receosa, tinha a total certeza de que poderia ficar só com Anne.
— Sim, minha querida rainha. — Soou ironicamente. — Vocês estão aqui por sua pequena e linda filha, que Ciara se recusa a nomear.
— Sem nomear? Ciara, você me falou que havia batizado ela também.
— Ela foi batizada.
— Sua rainha mentiu. — Se aproximou do casal. As vestes pretas não se mexiam ao andar de Niamh, era como se estivesse voando até eles. — Anne foi a única que levou nome, já esta — passou seus dedos pela cabeça da criancinha — não tem nome e apenas um amor.
— Ciara!
— Pra que nomeá-la?! Ela deve morrer, é a que nasceu primeiro! Não sei porque você se apegou tanto a ela. Anne ela será a única que irá tirar a maldição da minha família.
Se apegar a alguém que seu destino é morrer era a pior decisão que poderia se tomar.
— Niamh, você tem algum conhecimento?
O pai perguntou, com seus olhos transbordando desespero, a capa que lhe cobria do banho de sangue havia caído. Seu rosto estava regado com o sangue da lua.
— Apenas uma coisa pode ser feita, mesmo matando sua filha. Amor.
— Amor? Eu não vim aqui para escutar uma coisa dessa de uma mulher que se diz bruxa.
A rainha Ciara virou as costas e caminhou com sua filha amada em seus braços, entretanto, a risada fria e amargurada de Niamh a estremeceu dos pés à cabeça. Parou de caminhar e sentiu o vento arrastar sua capa para longe. Agora a bruxa estava atrás de si, a poucos centímetros.
— Você é a última geração que veio conversar comigo, procurar uma forma de matar sua filha. Entrou no meu território, zombou dos meus conhecimentos. Vossa majestade, aquele que mantém o sangue ancestral no trono deve permanecer em proteção e quebra da maldição. — A lua cessava seu sangramento depois de uma semana inteira. — Aquele que teve o destino selado em seu nascimento carregará consigo até o fim da eternidade a maldição da lua de sangue, não haverá amor ou morte que poderá salvá-la.
As palavras arderam em chamas junto ao fogo, que começou se alastrar por toda a floresta. Eles começaram a correr com tentativas fúteis de não escorregar nas poças de sangue e folhas secas. A guarda real estava para adentrar a floresta, quando viu apenas o rei e a rainha carregando Anne.
— Vamos, andem, nos tirem daqui depressa.
A rainha ordenou.
— Você a matou? Você a deixou para morrer no fogo? Olhe para mim, Declan!
— Ela caiu dos meus braços. — Estava em choque, seu olhar estava perdido. — Eu caí. — Suas roupas estavam todas sujas de terra e sangue. — Os guardas me ajudaram, mas ela não estava mais comigo.
— Graças a Deus!
Disse, em um suspiro, abraçando mais sua filha.
— Os guardas ao menos fizeram o que ordenei.
Incrédulo, ele a olhou. Sentiu repúdio de sua esposa e nunca a perdoaria por não tentar manter as duas salvas.
Nunca mais foi visto o rei Declan caminhar ao lado de sua rainha, não dividiam o mesmo quarto e apenas em momentos que a princesa Anne estava presente os dois podiam ser vistos juntos.
Declan lamentou a morte de sua filha por longos anos. Mesmo não sendo o assassino, ele se culpava por não ter conseguido salvar a pequena bebe, que carinhosamente batizou de Sun.



2016.

Bevurin sempre pertenceu aos O'Reilly — família da rainha Ciara, ela foi a última nascida mulher dos O’Reilly. Com isso, sabia que sua querida Anne teria um pretendente digno para ser o rei e lhe daria bons filhos. A rainha estava mais do que certa que a maldição havia sido desfeita.
Por longos dezoito anos, a lua não apareceu depois da morte da filha dos reis. E com esse desaparecimento da lua de sangue, a rainha abriu as portas do castelo para festejar mais um aniversário da princesa de Bevurin.
Flores, orquestra, luzes para o anoitecer, cantores favoritos de Anne estariam presentes também. Conseguiu fazer o aniversário de sua filha chamar a atenção de todos, até mesmo da mídia. Naquela noite, Anne iria conhecer seu futuro pretendente, o primeiro que sua mãe escolheu sem o apoio de seu pai. Ele se recusou a fazer parte de um casamento arranjado tanto por status, quanto por cuidado dela não trazer novamente a maldição.

Ciara teve as portas abertas para ela entrar no quarto de sua filha. Anne estava se olhando na frente do espelho, verificando se as criadas fizeram exatamente o que ela pediu.
— Filha.
— Mamãe.
Abriu um sorriso ao ver a matriarca.
— Está tudo pronto para a festa?
— Sim, não há com o que se preocupar. Hoje é seu grande dia.
— Mal posso esperar.
— Venha, você vai entrar comigo. Depois o rei irá dançar com você.
Ao lado de sua mãe, ela caminhou até a entrada principal do salão, agradeceu os convidados e o cantor da noite — The Weeknd —, e dançou com seu pai.
— Filha. — Anne olhou para trás. — Por favor.
— Eu já volto, com licença.
Distanciou-se dos amigos da universidade, entregou a taça de champanhe para o garçom que passava e se aproximou de sua mãe.
— Sim, mãe.
— Quero apresentar a você Liam.
Liam era lindo, de tirar o fôlego. Alto, forte e uma tatuagem aparecia no pescoço do homem. Seu sotaque americano era explícito, não tão explícito quanto os pensamentos que a princesa teve com Liam.
— Prazer em conhecê-lo.
— O prazer é todo meu. A rainha falou muito bem de você.
— Amorosa como sempre.
Estava acanhada.
— Deixarei vocês a sós para conversarem.
— Obrigada.
— Tem um jardim aqui perto, vamos até lá.
Anne o chamou para o jardim. Era lindo, com todas as espécies de flores que poderia ver na sua frente. Liam estava admirando Anne, mas havia algo que o deixava desconfortável. Podia ser coisa da sua imaginação, não quis acreditar e permaneceu ali ao lado dela.
— Está em alguma universidade? — Anne encostou na sacadinha. Entregou uma taça de champanhe.
— Finalizei ano passado, contabilidade.
— Estou estudando relações internacionais. Estava cansada de ficar viajando por um tempo.
— Hm, eu já cheguei a fazer isso muito. — Sorriu, se recordando dos países. — Já a chegou ir à Grécia?
— Um lugar deslumbrante. Pensei em comprar uma casa por lá, mas desisti.
— Falta de tempo? — ela o questionou, curiosa.
— Também, mas minha mãe começou a falar de casamento, que preciso casar logo.
— Acho então que não tenho chance.
— Como assim? Ah, não acredito. — Revirou os olhos. — Você é meu pretendente.
— Sim. — Liam a olhou, respirou fundo e, por um grande impulso, tomou uma decisão. — Eu preciso voltar, vossa alteza. Te vejo em breve.
— Obrigada — agradeceu, por estar no automático.
Liam sumiu. Ele não voltou mais para Bevurin. Na verdade, nenhum outro homem voltava para ver Anne. Desde o aniversário de Anne, todos os planos dela, e principalmente da rainha, para casar a princesa, passaram a desandar.

2022.

Seis anos se passaram desde o aniversário de dezoito anos.
Aos vinte e quatro anos, Anne precisaria estar casada. Com inúmeras brigas para evitar isso, Ciara deixou bem claro que ela só tocaria numa parte da herança dela caso ela casasse, e não poderia se separar sob nenhuma circunstância, ou em outro país, nada iria anular o casório dela. Por vontade de ter uma parte do seu dinheiro, ela apenas aceitou.

O desespero tomava conta do castelo todo. Os pais de Anne estavam devastados, procurando um príncipe a altura de sua filha, mas todas as vezes que apresentavam a princesa, algo desmanchava o casamento. Na verdade, o maior problema estava a surgir no céu, era a lua cheia e ela permanecia ali desde o primeiro dia de janeiro.
A maldição não tinha sido desfeita.



2024.

Janeiro estava começando a ser regado por toda aquela lua. As bordas ficavam mais intensas com o seu vermelho. O desespero se alastrava por toda Bevurin.
A rainha gritava de um lado pro outro, tudo que foi falado a ela sobre a maldição era mentira e agora, novamente, seu reino, a sua cidade estaria mergulhada em sangue ancestral. Ciara ainda culpou sua filha pela decisão de não casar antes dos vinte anos.
Aquela falação estava cansando-o, deixando o rei exausto de tanta lamentação e pouca ação. Desde que segurou suas duas filhas no colo, ele estava disposto a dar um fim na maldição, mas ela, Ciara, só queria usar o mesmo método que foi seguindo até perder sua filha.
— Vamos àquela bruxa. — Levantou-se e ajeitou o terno. — Coloque um casaco, Anne.
— Não, você não vai levar ela até lá, Declan.
— Eu vou levá-la, sim. — Se aproximou delas. — Você conseguiu fazer com que sua outra filha morresse, e dessa vez eu vou dar um jeito para acabar com essa lua.
Suas palavras soaram tão baixas que todos os criados que ali estavam se inclinaram para escutar o que ele havia falado, até mesmo Anne fez o mesmo movimento.
— Te espero no carro, Anne.
— Sim, pai.

Com o casaco em mãos e a bolsa pendurada em seu ombro, Anne caminhava ao lado de seu pai e segurando a mão de sua mãe. Faziam o mesmo caminho de vinte e cinco anos atrás.
O local onde encontraram Niamh estava coberto de grama seca, árvores mortas e algumas carcaças de animais. O cheiro de folha e terra seca era tão presente que daria para distinguir a quilômetros. Anne segurou a mão de sua mãe mais forte, o medo alastrou por seu coração.
— Niamh — ele a chamou, esperando que sua risada ou voz viesse através das árvores. — Niamh, eu preciso da sua ajuda.
Alguns minutos e nada.
— Ela não deve estar aqui. — Ciara estava com medo. — Vamos voltar para o palácio.
Quando Declan iria negar, o vento acompanhado da brisa gélida passou por eles, levantando as folhas secas com pequenos grãos de terra. A família real cobriu seus rostos para enviar toda aquela sujeira e folha os açoitassem. E da mesma forma que a ventania apareceu, ela se foi, deixando à mostra uma cabana tão bem cuidada que poderia enganar qualquer um.
Declan se aproximou lentamente e a porta se abriu. Uma luz fraca podia ser vista da fresta.
— Niamh.
— Entre.
A voz suave e doce convidou. Sem desdém, ele entrou. Na frente de grandes cristas, a mulher repousava em sua cadeira ao ler um livro. Anne sentiu o maior repulso quando o vento balançou suavemente os cabelos pretos, a pele iluminada e seus olhos púrpuras; era como se estivesse vendo a musa das poesias.
— Niamh, eu preciso da sua ajuda novamente. Desta vez, iremos seguir o que você falar.
— Niamh — a mulher falou, em um doce sorriso. — Esse nome eu não escuto há um bom tempo. Sou .
— Você é filha de Niamh então.
O rei concluiu.
— Sim, minha mãe morreu há um bom tempo, vocês não viram?
— Vimos o quê? — Anne perguntou.
— Ali fora, minha mãe.
levou suas novas visitas para o lado de fora da cabana. No lado direito, os galhos faziam a silhueta de Niamh. As folhas e flores vermelhas balançavam como se fossem realmente os cabelos dela.
— Depois que vocês forem embora, podem passar aqui e agradecê-la. — Viu a cara de incompreensão de Anne. — Se vocês estão vendo a cabana, foi porque ela permitiu. Mas o que foi que ela disse para vocês?
— Vinte e cinco anos atrás, nós precisávamos de ajuda para quebrar a maldição dos O'Reilly, ela disse que...
— Para a lua de sangue sumir, é necessário o amor. Dá para imaginar o porquê.
Olhou diretamente para Anne e caminhou para dentro da cabana. Suas vestes arrastavam pelo chão, mas não sujaram, era como se a natureza desse licença a ela. Eles a seguiram.
— Estava lendo sobre a lua de sangue, não tive a oportunidade de experimentar.
— Você. Inacreditável como você se atreve a falar de “experimentar” algo sendo que é o sofrimento da minha filha?
— Ciara, minha doce majestade, você poderia se acalmar? Eu me lembro — mexia na prateleira, em busca de um livro específico — que quando houve a última lua de sangue, Niamh guardou um pouco para mim. — Se referiu ao sangue. — Falou que seria fundamental quando você se cansasse de carregar a culpa de um ato e achar que a glória reinava em seu palácio. Estou errada?
Ciara ficou em um silêncio assustador, sua filha nunca tinha visto sua mãe tão assustada. Os olhos púrpuros passaram pela família real com um sorriso cínico.
— Vão precisar de ajuda?
— Sim, por favor.
— Rei Declan. — Pausou. — Niamh falou muito de você.
“Não me surpreende ele ter voltado aqui e se encontrado com ela.”
Ciara pensou sem desdém, e ainda a julgou como vadia sem nenhum pudor.
— Niamh não podia ter filhos. Sim, eu sei que era sobre isso que você estava pensando. — Deu uma piscadela.
— Você a nomeou?
— Sim. Um pequeno túmulo foi criado para ela.
— Então ela se foi dignamente, não houve resquícios que perturbasse a paz. Vamos começar.
O livro que ela havia procurado era exatamente o da lua de sangue.
A maldição vinha de um casal de irmãos, que, em plena lua cheia, adentraram a floresta proibida, onde a bruxas celebravam mais um luar cheio. O casal de irmãos O'Reilly andou até acharem a cabana das bruxas. Naquela época, elas tinham uma pequena sociedade, não se incomodavam com quem andasse nos arredores da floresta, muito menos com o que falavam delas, entretanto, os O'Reilly conseguiram deixá-las mais furiosas.
O'Reilly entraram, mexeram em todos os pertences das bruxas, tomaram poções, leram os livros de feitiços antigos e se deitaram na cama de Bryce. Entre falsas e verdadeiras palavras de amor, o irmão mais velho engravidou a jovem O'Reilly, e naquela noite, quando as bruxas de Bevurin retornaram para suas casas, Bryce amaldiçoou todas as gerações até que a verdade para a desfazer seja revelada.
— Ainda é sobre o amor, não é?
— Sim você se lembra, mas, como é nítido com esse olhar seco e frio, ela não conseguiu ninguém, não é? — Deu uma risadinha. — Era de se esperar.
— Quanto você cobra?
— Cobrar? Não, eu só quero que esqueçam que aqui existe. Sentem-se. — As cadeiras chegaram até eles. — Como a maldição foi concebida sobre falsas e verdadeiras palavras de amor, é necessário um amor verdadeiro para ser desfeito.
— Então poderia ter sido desfeito no primeiro casamento dos O'Reilly — disse Declan.
— Exatamente.
— Mas o que tem a ver isso? Por que tem que ter essa historinha toda de amor?
— Anne, princesa de Bevurin, o casal que concebeu uma criança cuja foi tirada às forças do ventre de sua mãe, era fruto dos irmãos O'Reilly. Consegue compreender?
A garota concordou à seco, indignada com o acontecimento de sua família.
— Você imagina um homem que queria ser seu marido? Um que você se apaixonaria sem muito esforço?
— Não, nenhum, só quero um que me deixe usar meu dinheiro.
— Nada?
— Nada.
— Bom. — Deu de ombros.
Levantou-se, caminhou até a mesa de madeira carvalho e colocou o livro no centro dos cristais. Pequenas gotículas cintilantes saíram do livro quando a bruxa abriu o frasquinho com sangue e derrubou ao redor do livro. As velas apagaram, o dia estava dando lugar à noite com uma tempestade de deixar todos amedrontados. entregou uma tesoura para o rei e o ordenou que retirasse uma pequena mecha do cabelo dela. Agora dentro do pote, ao misturar com as últimas gotas do sangue da lua, proferiu as palavras do livro, abrindo um portal atrás de si e revelando o homem que seria o príncipe.



Passou pelo portal, trazendo toda a confusão em seu olhar. Ele olhou para as pessoas em sua volta, parando por último em Anne. Ela não escondeu a felicidade de ser um homem lindo, educado, forte e encantador como ela sempre quis.
— Desculpa, mas… onde estou? — A voz dele ecoou, trêmula.
— Eu sou Ais… — Começou a falar alguém, mas Anne se apressou, interrompendo.
— Anne, prazer em conhecer você. — Aproximou-se dele com um sorriso cheio de certeza. — Vou te mostrar tudo, desde o castelo, a cidade e, claro, vamos fazer os preparativos do casamento. — Segurou firme no braço dele.
Regé se engasgou com a última palavra.
— Casamento?!
Anne o encarou como se fosse óbvio.
— Você não veio para isso? Para quebrar a maldição?
Ele olhou em volta, tentando entender. O castelo ao fundo parecia respirar, como se o próprio lugar estivesse vivo. Os olhares da corte eram de expectativa, mas também de medo. Não havia espaço para questionar, não havia liberdade.
— Eu… — Começou a dizer, mas a voz falhou.
Sua mente tentava processar tudo: o ano diferente, os detalhes da cabana da bruxa, o jeito de vestir e falar de Anne, a majestade no sorriso satisfeito dela, e o rei com seu olhar vago, quase desanimado. Anne continuava a falar, sem medir esforços, enquanto ele apenas escutava. Uma sensação maior chamou sua atenção: ali, talvez, pudesse se sentir completo. O peso que sempre o acompanhara desapareceu no instante em que atravessou o portal.
— Não há escolhas. Se você não quebrar esta maldição, será descartado — Ciara falou, em tom soberano. — Sua única opção é aparecer elegante, mas mantendo a classe, O’Reilly.
— Maldição?
— A família O’Reilly carrega uma maldição de sangue desde mil e trezentos. Até hoje, a Lua de Sangue visita a cidade, lavando tudo em vermelho — falou, com calma, se sentando e bebendo algo que acabara de servir. — Acho que este é o ano em que será ativada.
— Não dê ouvidos a ela. Nós nos amaremos, seremos felizes para sempre e teremos filhos…, mas não gêmeos. — Anne segurou o rosto dele, sorrindo, tentando o convencer de algo que parecia banal.
— Então o motivo da minha vinda é… quebrar uma maldição?
— A Maldição da Lua de Sangue só pode ser desfeita pelo amor verdadeiro: puro, leal, nascido de um sentimento inocente. — olhou para eles, firme. — Você precisa entender isso para que tudo dê certo. Caso não haja amor… toda a cidade de Bevurin será banhada em sangue vivo e desaparecerá de todas as linhas temporais, restando apenas o cheiro da morte.
Regé respirou fundo. Naquele instante inúmeras perguntas estavam em seus devaneios. Mesmo tendo o conhecimento de que todo seu sonho e planos pudessem ficar lá trás na outra dimensão, ali, naquele lugar em Bevurin, ele se sentia completo, nada dava a sensação de que algo estava faltando.
— Vamos, preciso mostrar para você o nosso quarto. — Anne entrelaçou o braço no dele, a voz leve, quase doce, mas com uma pressa que o fez desconfiar.
Saíram da cabana e, por um segundo, ele parou. O ar mudou. O céu acima já estava tomado por uma lua vermelha, viva, pulsante — tão próxima que parecia sangrar sobre as árvores. A floresta exalava um cheiro úmido e terroso, e o vento carregava um som abafado, como se sussurrasse antigos feitiços.

No castelo, ele foi guiado por sua futura esposa e futura rainha de Bevurin. Tentou interagir com ela de várias formas, querendo compreender mais sobre a cidade, sobre o casamento e, principalmente, sobre ela. Regé escondeu quem ele realmente era na outra dimensão; queria começar do zero, deixar o passado para trás. Contou apenas o básico, respondendo o que ela perguntava.
Andou por todo o local, sendo apresentado a cada canto, especialmente onde aconteceria a cerimônia. O jardim era lindo — digno de cenário de filme —, perfeito para qualquer tipo de celebração. Ela já imaginava cada detalhe, descrevendo tudo com entusiasmo.
— Mas eu ainda tô bem na dúvida, sabe? — ela comentou, parando no centro de um belo círculo de flores. — Ainda não decidi se mantenho os detalhes com diamantes, mas agora, com você aqui, pode me ajudar a escolher? O que você acha?
Regé observou o círculo de flores, os cristais pendurados refletindo a luz suave da lua vermelha que começava a se esconder atrás das montanhas. Por um instante, ficou em silêncio, apenas sentindo o vento frio tocar o rosto e o cheiro das pétalas misturado ao ar úmido de Bevurin.
— Acho que o que importa não são os diamantes — respondeu, com um sorriso leve. — É o que esse lugar representa pra você... e pra nós.
Anne o olhou, encantada com a serenidade que havia na voz dele. Aquele homem, vindo de outra dimensão, carregava algo diferente — um mistério doce, quase como se já tivesse vivido mil vidas.
— Você fala como se já conhecesse esse tipo de sentimento — ela comentou, ajeitando uma mecha solta do cabelo.
Regé desviou o olhar por um momento, se fixando nas flores ao chão.
— Talvez eu conheça. Ou talvez esteja tentando entender agora.
O silêncio que se seguiu foi leve, quase confortável. Anne apenas sorriu, entrelaçando novamente o braço no dele.
— Então vai entender comigo. E prometo que vai gostar daqui.
Eles caminharam pelos jardins, passando pelos arcos de pedra cobertos de musgo e luzes mágicas que dançavam no ar como pequenas chamas. Cada passo parecia o início de algo que ele não sabia nomear — uma mistura de curiosidade e destino.
Quando chegaram ao grande portão dourado do castelo, Anne virou-se para ele.
— Amanhã o conselho vai te conhecer oficialmente. Quero que esteja descansado. — Ela fez uma pausa, a voz ganhando um tom mais suave. — E quero que saiba... estou feliz por você ter vindo, Regé.
Ele a observou por um instante.
— Eu também estou — respondeu, sincero, mas com algo preso na garganta, uma lembrança distante, um eco do que deixou para trás.
Quando entrou no castelo, o som das portas se fechando atrás dele parecia selar não apenas o ambiente, mas uma vida inteira que agora pertencia ao passado.
Um dia perturbado. Depois de tanta informação, Regé deitou-se na cama — por sorte, em quartos separados, como o rei havia decretado. Virava-se de um lado para o outro, o corpo ainda fresco do banho, mas a mente longe dali.
Aceitara algo que jamais imaginou viver. Já havia feito filmes e séries diferentes, mas nunca acreditou que ela pudesse existir. E aquele dia onde viu a lua vermelha teve a certeza de que, de alguma forma, já estava ligado com aquela linha temporal.
O tédio o consumia, e a insônia pesava sobre seus olhos. Levantou-se, decidido a caminhar.
Os corredores estavam mergulhados em penumbra. A luz do luar, que deveria ser doce e serena, estava tomada de vermelho, um vermelho sangue, que distorcia toda a beleza do castelo e dos jardins.
Bevurin dormia sob medo. As janelas estavam cobertas por cortinas negras, não havia um cidadão nas ruas, nem sequer o bater de asas de aves noturnas.
Caminhou sem rumo por um caminho desconhecido, até ouvir novamente os sussurros — os mesmos que o chamaram no dia em que chegou, seguindo adentro da floresta.
Ali, o silêncio era quase sagrado. As árvores antigas formavam uma grande sombra, e o chão estava coberto por folhas secas que estalavam sob seus pés.
Quando girou sobre o próprio eixo, a viu.
A cabana.
Uma luz cintilava lá dentro, fraca, como uma luz de vela.
Entrou sem bater.
estava sentada à mesa, penteando os fios longos e escuros que dançavam com a corrente de ar trazida pela porta aberta. As vestes roxas e leves flutuavam com ela, como se o tecido tivesse vontade própria.
— Não te ensinaram que é errado entrar na casa de uma bruxa sem antes pedir permissão? — perguntou, sem olhá-lo, a voz doce e cortante ao mesmo tempo.
Regé hesitou.
— Me desculpe, eu...
— Não vou amaldiçoar você. — Ela pousou o pente e o encarou por fim, os olhos como duas luas dentro da noite. — Infelizmente, você já está preso a uma maldição.
Ele franziu o cenho, sem compreender.
— De Anne. — Completou , com um meio sorriso.
Regé deu um passo à frente.
— Talvez não seja uma maldição. Talvez seja minha salvação.
A bruxa arqueou uma sobrancelha, curiosa.
— Que bom que pensa assim. — Apoiou o queixo sobre a mão. — Pelo que eu sei, você já tentou começar a amá-la. — Fez uma pausa, estudando o rosto dele. — Mas me diga, Regé... qual o motivo disso?
— Não sei ao certo, minha primeira noite aqui ou apenas curiosidade para saber como é Bevurin.
— Ou você apenas quis saber se as bruxas existem.
— Talvez, pois aqui eu possa estar me encontrando.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Você se sente perdido, e pelo que eu compreendi, você acha que em um amor você se encontrará.
— Eu acho que… — ele respirou fundo, olhando para o chão de madeira irregular — pode me dar uma razão para ficar.
Um pequeno sorriso curvou os lábios dela, mas sem ironia.
— Cuidado com o que deseja, Regé. Amar alguém em Bevurin sempre custa caro.
— Espero que esteja errada, ela é será a mulher da minha vida.
— Olha… Além de desejar amor, desejo sorte porque ali. — Respirou fundo. — Mas caso queira mudar de opinião, acredite, pode voltar aqui e levarei você para o seu antigo mundo.
As noites que antecederam o casamento pareciam se repetir em um ciclo eterno.
Regé deitava-se, fechava os olhos e fingia dormir, mas o sono nunca vinha. Assim que o castelo mergulhava no silêncio, ele se levantava e atravessava os corredores frios, deixando para trás o som abafado das portas e o perfume de velas apagando.
A floresta o chamava como um sussurro familiar.
Lá, a bruxa o esperava. Sempre.
sentava-se na soleira da cabana, o cabelo solto dançando no vento, a lua refletida nos olhos dela. Ele nunca perguntava como ela sabia que ele viria, e ela também nunca dizia.
No começo, falavam sobre banalidades. Sobre o frio das madrugadas, as flores que teimavam em nascer mesmo sob o sangue do céu, ou sobre o quanto o castelo era sufocante.
Com o passar dos dias, as conversas se tornaram mais longas e silenciosas. Às vezes, ela apenas o observava, estudando a forma como ele falava, como se tentasse entender o que o prendia ali.
— Você está com tudo certo? — perguntou ela certa noite, sem olhá-lo.
— Sim — respondeu baixo. — Estranhamente, tudo pronto.
— Ainda dá tempo de largar tudo e sumir por aí — disse, com um sorriso discreto, quase irônico.
Ele riu, mas sem humor, chutando algumas folhas secas.
— A diferença é pouca.
— É enorme — retrucou ela, erguendo o olhar. — Uma é escolha. A outra é prisão.
Regé não respondeu.
Mas, naquela noite, ao voltar para o castelo, percebeu que algo nele havia mudado.
A lua, que antes parecia apenas uma ameaça, agora era testemunha de algo que ele não ousava nomear.

Os dias seguintes foram de ensaios, flores e promessas ao vento. Anne falava sem parar, sonhando com o vestido, o salão, os convidados.
Regé sorria, mas os pensamentos estavam longe. A cada gesto, a cada palavra dela, se lembrava da calma na voz, da sensação de que o mundo parava quando ela o olhava.
Na véspera do casamento, ele foi à floresta uma última vez.
o esperava de costas, olhando para o céu.
— Amanhã tudo acaba — disse ele, com a voz baixa. — De um jeito ou de outro.
apenas assentiu, sem desviar o olhar da lua.
— Toda maldição tem um fim — respondeu com calma. — Mas nem sempre o fim é o que o coração deseja.
Regé respirou fundo. Quis dizer algo — qualquer coisa — mas as palavras se perderam entre eles, misturadas ao som distante do vento.
— Eu descobri que a amo — confessou, quase num sussurro. — E espero que isso possa ser recíproco.
Ela ficou em silêncio, apenas o ouvindo.
— Queria ter as palavras certas… e a coragem de dizer isso olhando nos olhos dela — Continuou. — Sem toda essa pressão, sem esse peso do destino.
Naquela noite, o sono não veio. E, pela primeira vez, Regé percebeu que o medo da maldição não era nada comparado ao medo de amá-la de verdade. permaneceu imóvel, mas havia algo em seu olhar que o desarmava, uma melancolia antiga, quase humana. Por um instante, o tempo pareceu parar. O vento cessou, e o som da floresta se dissolveu em um silêncio pesado, como se até a lua esperasse o que viria a seguir. Regé desviou o olhar primeiro. Não por falta de coragem, mas porque encarar era como encarar a própria verdade — e ele ainda não estava pronto para isso. Virou-se devagar, caminhando de volta pela trilha que o levaria ao castelo.



O dia mais desejado por Anne havia finalmente chegado.
Bevurin estava adornada de flores brancas e véus prateados, mas o ar tinha gosto de ferro. A lua subia lentamente no céu, o vermelho tomando conta do dia.
Anne sorria no altar, radiante, enquanto os sinos tocavam ao longe. Não se incomodava com a lua trazendo a luz vermelha, ela sabia que tudo acabaria com eles com o seu amor e a felicidade dos dois juntos.
Regé tentou focar nela, tentou acreditar que era certo, mas os olhos da noiva refletiam uma lua morrendo, sangrando. Ele olhou para os lados e sabia que não teria como, ele não estava lá mais satisfeito
O sangue começou a cair. Primeiro, uma gota. Depois outra.
Dos vitrais escorria o vermelho espesso, manchando o chão, os vestidos, os rostos apavorados. Gritos ecoaram pelo salão, e o som dos sinos cessou. Regé sentiu o coração disparar, tudo à sua volta foi como um grande despertar; a lua estava no auge, e ele sabia o que precisava fazer.
Deixou o altar.
O vestido de Anne se manchava de sangue enquanto ela gritava seu nome, mas ele não olhou para trás. Correu pelas ruas encharcadas, o sangue descendo pelas paredes, o chão vermelho refletindo o céu em ruína.
Correu até a floresta.
estava ali.
De pé, imóvel, o cabelo colado à pele, seu vestido manchado de vermelho.
Regé parou diante dela, ofegante, coberto pelo sangue da lua.
— Eu tentei — disse, num fio de voz. — Tentei amá-la, tentei fingir, tentei me encaixar nesse mundo. Mas foi você. Desde o primeiro dia, foi você.
Ela não respondeu. Apenas o olhou, e o silêncio entre eles era quase uma promessa. Regé deu um passo à frente, depois outro, até que o espaço entre eles desapareceu.
A lua parecia pulsar, viva, observando.
Ele a beijou.
O sangue parou.
O vento cessou.
O mundo ficou suspenso.
Por um instante, tudo estava em paz.
E na quietude da floresta, o rei — que havia seguido o chamado — observou de longe, compreendendo enfim a verdade que o destino escondeu por gerações.



ficou parada, ainda em volta dos braços de Regé. Não precisava compreender o que aconteceu, ela compreendia muito bem, apenas tudo aconteceu tão rápido quanto na bola de cristal.
— Parou — o rei disse, sem ao menos evitar ser ouvido. — O sangue parou.
Olhava para cima, vendo todo o céu voltar com seu belíssimo azul, enquanto a lua cheia se afastava, iluminando tudo com um luar encantador. Então, aos poucos, sua memória foi puxando acontecimentos, momentos e sentimentos. Naqueles tempos ele se considerava louco, mas agora, principalmente agora, tudo estava tomando forma.
era a sua pequena, então Niamh tinha achado a bebê, cuidado e criado como sua filha. Seu pequeno raio de sol estava à sua frente.
Saiu de trás das árvores e caminhou desesperadamente até ; tirou ela dos braços de Regé e abraçou como nunca tinha abraçado ninguém. Era ela, sua filha, em seus braços novamente.
— Minha pequena Aoife. — Se afastou um pouco e acariciou o rosto dela. — Achei que havia perdido você para sempre.
reconheceu o rei e sentiu o estômago se fechar. Se fosse ali, seria ali.
— Você… veio?
— Não, não. — Ele limpou a garganta. — Você é irmã de Anne. Legítima herdeira do trono. Seu pai sou eu… e vossa majestade.
não demonstrou surpresa. Apenas respirou fundo, como quem finalmente ouvia em voz alta algo que sempre soube.
— Niamh nunca precisou me dizer diretamente — murmurou. — Algumas verdades a gente aprende no silêncio. Ela apenas confirmou o que eu já sentia.
— Então você sabia…
— Sempre soube. — Levantou os olhos para ele. — Só nunca tive certeza de que alguém teria coragem de assumir.
— Você quebrou a maldição.
— Sim, o amor verdadeiro era o único que poderia quebrar. Nós lhe avisamos.
— Como você…
— Como eu faço minhas magias? Eu sou a herdeira da maldição. Niamh me ensinou tudo e, por conta do passado, quando os O’Reilley foram amaldiçoados, esse traço de magia já estava predestinado. — Viu o rei tentar argumentar. — Todos os gêmeos foram mortos antes que a magia pudesse se manifestar.
— Vamos ficar aqui fora? — Regé puxou o foco para si. — Podemos entrar?
— Claro — respondeu o rei, caminhando à frente. — Entrem e se sintam à vontade.
— Precisamos voltar ao castelo, anunciar a todos, até sua mãe, que você está viva.
— A rainha pouco se importa se eu estou aqui.
— Você precisa avisar, mesmo não sendo exatamente isso que ela quer... e você também — Regé falou.
— Não mesmo. Pode falar a verdade, o motivo da maldição ter terminado. A lua está calma. — Gesticulava enquanto falava. — Para aquele castelo eu não vou.
— Não adianta discutir com ela — Regé falou, próximo ao rei. — Além disso, ela tem seu direito.
— Tudo bem, . Eu só quero saber se ao menos você quer uma casa sua.
— Eu já tenho. — Movimentou sua mão, mostrando o lugar. — Eu pertenço aqui.
— Certo. — Respirou fundo. — Vou voltar ao castelo. ?
— Eu.
— Você sabe... de tudo?
— Niamh me contou. Contou que, por ordem de vossa majestade, os guardas reais foram ordenados que apenas ajudassem você. Eu fiquei para morrer no fogo.
Regé engoliu a seco, escutando contar tão natural.
— Eu não a deixei por querer, eu… — A culpa transbordava na voz embargada.
— Eu sei que não. — Ela se levantou, sua voz saía serena. — Sempre soube que não foi um acidente. Você caiu comigo nos braços, eles apenas levaram você para o carro e me deixaram. Você nunca teve culpa. — Segurava a mão do rei em forma de conforto.
— Nunca foi minha intenção.
— Regé, ele precisa voltar para o castelo, se acalmar por lá. Sei que sua vontade era ficar, mas ele não pode voltar nesse estado sozinho.
— Eu o levo e depois volto.
— Claro, como quiser.
finalmente voltou à sua pequena e adorável solidão. Colocou suas coisas ao lado da banheira; queria tirar aquele sangue do corpo e trazer um pouco de tranquilidade para a alma.
A história sempre foi revelada para ela, Niamh nunca a escondeu dela.
Da mesma forma que nunca foi o sangue dos O’Reilley que havia se manifestado para a magia, Bryce já havia deixado avisado desde o primeiro incidente. sempre soube de seu destino, principalmente do destino daqueles que se denominavam como sua família de sangue.



Anne permanecia em seu quarto, o vestido intacto, enquanto todos a abanavam para que não sofresse com o abandono no altar. A rainha andava de um lado para o outro no grande salão, os guardas em prontidão. A ordem de encontrar o futuro rei de Bevurin e o trazer de volta, independente da forma que fosse, havia sido um fracasso. Ninguém tinha o encontrado.
Prestes a ordenar algo, as portas se abriram, e o rei surgiu desorientado ao lado de Regé. Ciara o olhou fervendo de raiva; seu ódio podia ser sentido sem que fosse preciso estar perto. Ela andou até ele, deixando o vestido se embaralhar no próprio tecido.
— Onde vocês estavam? Você precisa casar sua filha. E você? — Seus olhos estavam em Regé. — Você acha que está em uma historinha? Você é o noivo da minha filha, não deve sair por aí.
— Não. — Regé respirou fundo. — Vossa majestade irá me desculpar, mas eu não sou mais o noivo da sua filha.
— Como? — Anne perguntou, sem sair do lugar. — Você deve ter passado muito tempo com meu pai. — Havia chegado ao grande salão após uma das funcionárias avisar que ele havia chegado.
— Não, Anne.
Ele deixou o rei junto dos guardas. Passou por Ciara e se aproximou da princesa.
— Eu não posso casar com alguém que eu sei que nunca haverá amor, uma mulher que eu sei que não é a dona do meu coração.
— Por qual das empregadas você se apaixonou? — retrucou Anne. — Me diga, eu mando todas embora. Na verdade, eu as deporto daqui.
— Anne, pare com essa loucura. Não foi ninguém do castelo.
Ela parou. Pensou por um instante e logo associou a frase. Não era ninguém do castelo, mas alguém que ela compreendeu muito bem que sempre esteve por perto.
— É ela, não é? — Sua voz saiu baixa, carregada. — Aquela falsa bruxa.
— Você se envolveu com a bruxa? — Ciara interveio, indignada. — Inacreditável. Igual a Niamh. Ela fez a mesma coisa com seu pai, mas ele não estava interessado. No seu caso, ela deve ter te enfeitiçado.
não me enfeitiçou, eu me apaixonei por ela!
— Guardas! Procurem pela bruxa. — Ciara passou a ordenar. — Ao achá-la, eu ordeno que tragam a cabeça dela para mim.
— Não! — Regé protestou. — Eu caso com Anne.
A movimentação dos guardas se intensificou. Os que ainda estavam no salão saíram apressados, deixando a rainha Ciara satisfeita ao perceber que, ao menos, suas ordens ainda eram obedecidas. Caminhou firme para o lado de sua filha para ampará-la, como se ela fosse a mais inocente daquela sala.
— Fiquem — o rei ordenou. — Vocês não vão se aproximar dela. Ciara, você não acha que já deu esse seu drama? — Não estava bem ainda da revelação, mas não iria deixar que ela sofresse mais uma vez.
— Não estou entendendo aonde você quer chegar.
— Fingir que Anne é intocável quando você sabe muito bem como nossa filha é. Regé não precisa passar pelo o mesmo que eu passei.
— Declan, não, aqui não.
— Você tentou muita coisa, Ciara, mas hoje eu vou dar um basta nisso. Você não vai chegar perto da , não vai dar continuidade a esse casamento. Como você pôde ordenar que os guardas deixassem sua filha na floresta enquanto ela era incendiada?
Um alvoroço total se instaurou pelo salão. Os empregados se entreolhavam, falando em baixo tom; outros saíam, deixando a informação atravessar as paredes. Em questão de segundos, o castelo inteiro sabia que era filha do rei e da rainha.
é… minha irmã? — Anne sussurrou, atônita.
— Ela não morreu? Eu fiz tud…
— Você pode até ter feito tudo, mas Niamh a salvou. — Ele a interrompeu de imediato. — Achou que a maldição havia terminado, anunciou que só teve uma filha e ainda viv... — Engoliu a seco. — Viveu entre as paredes deste castelo com seus amantes.
— Declan…
— A maldição foi quebrada, por e Regé.
— Eu não acredito, meu noivo me traiu com uma puta.
— Saiam todos! — esbravejou. — Não tem mais noivado Anne! — o rei alarmou. — E você a partir de hoje terá que tratá-la com respeito.
— Essa garota nem pensa em morar aqui.
, o nome dela é — corrigiu a esposa. — E ela não quer morar aqui.
— Ao menos uma notícia boa. — Anne deixou explícita sua felicidade.
— E, a partir de hoje, não somos mais casados. Eu renuncio meu trono.
— Mas… papai, onde você vai ficar?
— Seu pai sempre teve uma casa — respondeu com calma. — Nunca me desfiz dela. Fique tranquila, ao menos isso eu tenho. Pode ir me visitar quando quiser.
— Eu irei. — Segurou a mão do senhor. — Não queria que você fosse. — O abraçou.
— Vai ser melhor assim, eu não pretendo mais ficar em um casamento complicado. Regé vai comigo, vai passar o tempo lá até ele se decidir.
— Se decidir o quê? — Anne rebateu. — Se ele não casar comigo, ele volta. Era exatamente isso que foi dito.
— Apenas ele irá decidir.
A frase caiu por fim. O noivado foi encerrado enquanto desmontavam a decoração, e, pouco depois, teve início a separação oficial do rei e da rainha.
Nos dias que se seguiram, o castelo lentamente retomou sua rotina, mas nada seria como antes. encontrava pequenos momentos de paz entre conversas com Regé, enquanto cada decisão sobre o futuro tomava forma, silenciosa e inevitável.
Seu pai também a visitava com frequência, deixando claro o quanto estava feliz com todas as escolhas da filha.
Parecia que tudo estava em seu devido lugar. A calmaria podia ser sentida até mesmo pelos moradores da cidade de Bevurin. Tudo, exceto por um pequeno detalhe: Regé havia se apaixonado por , mas ainda havia prometido cumprir seu tempo fora dali — e isso era de extrema importância.

Em uma manhã tranquila, aproveitava os raios solares sentada em frente à sua humilde cabana. Ao longe, avistou Regé Jean se aproximando, um sorriso nos lábios e uma pequena cesta de comida nas mãos. Ela sabia que iriam comer juntos enquanto conversavam sobre o assunto que já estava marcado.
Seu coração ficou pequeno.
— Oi.
— Oi. Trouxe algumas coisas para a gente.
— Obrigada.
— Você está bem?
— Sim estou. — Olhava para ele. — Claro que estou ansiosa para saber o que você decidiu.
— Eu lembro que em uma das nossas conversas, quando você ia até o castelo, foi dito que, caso não houvesse casamento, eu precisaria voltar. Você não podia mexer na linha temporal sem ao menos eu confirmar para você.
— É… — Ela pegou a fruta e observou por alguns instantes antes de levá-la à boca. — Fizemos um acordo. Mexer com a linha do tempo é complicado. Eu preciso cumprir o que foi prometido… e não posso mudar isso.
— Então, meu amor… — Segurou a mão dela. — Infelizmente, eu já tenho a minha decisão.
Para ao menos aproveitarem aquele tempo, Regé Jean caminhou com ela pela floresta. Visitaram Declan e, por fim, passaram algumas horas exatamente onde tudo havia começado para eles.



Três anos depois.
Há três anos aquela lua vermelha não atormentava nenhum morador de Bevurin.
Desde então, nenhuma criança acordava assustada no meio da noite, nenhuma janela fora fechada às pressas por medo do céu. A lua permanecia inteira, serena, cumprindo apenas o papel de iluminar caminhos e guardar silêncios. Para muitos, aquilo parecia pouco. Para quem havia vivido o terror, era tudo.
Agora, aos olhos de quem chegava à cidade, era possível sentir o toque sutil da lua sobre a pele, como se, de alguma maneira, estivesse sendo abraçado por ela. Não havia mais peso no ar, nem pressa nos passos. A floresta, ao fundo, se abrigava em vida: animais circulando sem receio, pássaros cantando como se jamais tivessem silenciado, a primavera irradiando toda a sua beleza e perfume através das flores. Bevurin estava quieta.
Mas não era uma quietude vazia.
Não se tratava de reformas, grandes celebrações, ou novos acordos políticos. Era uma quietude diferente — uma que não vinha da contenção, e, sim, da aceitação. As pessoas haviam aprendido a viver sem esperar pelo pior, e isso mudava tudo.

Naquela manhã de domingo, o rei Declan estava em seu jardim.
Não usava coroa, nem vestes cerimoniais. Admirava o espaço simples diante de si, longe daquela grande muralha de pedra que por tantos anos o separava do mundo e, de certa forma, de si mesmo. O jardim não era grandioso, mas era real. Era ali que ele passava a maior parte de seus dias, cuidando da terra com as próprias mãos, como se cada raiz fosse também uma tentativa silenciosa de reconstrução.
Era naquele mesmo jardim que, anos atrás, imaginou que, ao lado de Ciara, poderia construir o amor deles. Um pensamento que agora não doía mais, apenas existia, como uma memória que já cumpriu seu papel.
Sentado sob a sombra de uma grande árvore, escutou passos se aproximando. Não se virou de imediato. Reconhecia aquele caminhar sem precisar olhar.
Quando finalmente voltou o rosto, sorriu de leve, permitindo que ela se aproximasse e se sentasse ao seu lado.
— Você sempre escolhe esse lugar — comentou a mulher, se acomodando próxima a ele, com a voz baixa, quase respeitosa ao silêncio que os cercava.
Declan respondeu com um sorriso contido.
— Aqui passou a ser o único lugar onde consigo recordar a minha nova família — disse, olhando para frente, como se falasse tanto com ela quanto consigo mesmo.
Ela assentiu em silêncio. Usava um vestido simples, de tecidos leves, que não lembrava em nada as vestes tradicionais da corte. Ainda assim, não parecia deslocada. Havia nela uma naturalidade que o castelo jamais conseguira impor, como se aquele espaço sempre tivesse sido seu verdadeiro lar.
— Anne está melhor agora. — Ele continuou, depois de alguns instantes. — Está se saindo muito bem. Aprendeu a ouvir, respeitar, ter compaixão. Isso levou tempo.
— Ela sempre teve força — respondeu, com um pequeno sorriso. — Só bastava querer ser assim. Afinal, ela tem um bom pai.
Aquilo arrancou de Declan um sorriso sincero, daqueles raros, que não precisavam ser contidos.
— E você? — ele perguntou, enfim, se virando para ela. — Ainda sente falta?
A pergunta ficou suspensa no ar por alguns segundos.
Antes que pudesse responder, a voz de uma pequena garota correndo em direção a eles ecoou pelo jardim, quebrando o silêncio com uma alegria impossível de conter.
— Vovô!
A criança surgiu entre os canteiros, os cabelos escuros presos de maneira improvisada, o vestido manchado de terra e os pés descalços, ignorando completamente qualquer noção de etiqueta. Corria como quem não tem medo de cair, nem de errar.
— Sunny, cuidado! — advertiu uma voz masculina logo atrás.
Sunny não diminuiu o ritmo. Atirou-se nos braços do avô, que a ergueu com um riso baixo, sentindo o peso que antes não existia, mas fingindo não notar.
— Você prometeu — disse ela, assim que voltou ao chão. — Nós não vamos fazer a minha casinha lá? — Apontou para um canto mais afastado do jardim.
— Sunny, por favor, deixe seu avô — pediu a voz mais velha. — Ele precisa pensar em outras coisas.
— Mas, pai…
— Deixa ela. — Interrompeu Declan, com um sorriso tranquilo. — Vamos decidir isso agora.
Regé observava a cena com os braços cruzados, um sorriso leve no rosto. Ao seu lado, acabava de se levantar, parando próxima a ele, acompanhando a conversa entre pai, filha e avô com um olhar sereno. Havia algo de profundamente simbólico naquela imagem.
Passos ecoaram pelo caminho de pedra que levava ao jardim.
— E eu aqui achando que estava sendo discreta — anunciou Anne, surgindo entre as flores. — Vocês sempre escolhem esse lugar quando querem fugir de mim.
Anne parecia diferente. O rosto mais sereno, os gestos menos rígidos. Já não carregava a necessidade de provar algo a cada palavra. Aproximou-se com naturalidade, observando Sunny brincar entre as plantas.
— Ela cresceu rápido — comentou.
— Cresceu… e eu nem percebi como isso aconteceu tão depressa — respondeu , com a voz baixa.
Anne respirou fundo, cruzando as mãos à frente do corpo.
— Eu vim anunciar algo oficialmente…, mas acho que aqui funciona melhor. — Fez uma breve pausa. — Vou ser mãe!
O silêncio que se seguiu não foi pesado. Pelo contrário. Declan foi o primeiro a se mover, abraçando a filha com cuidado. Regé sorriu, sincero, e a parabenizou logo depois do pai, com os olhos marejados.
Sunny observou a cena com curiosidade antes de perguntar:
— Ela também vai chamar você de vovô?
Anne riu. Um riso leve, livre de qualquer resquício do passado.
— Vai, sim.
Com a ajuda de , o que antes precisava ser mantido à distância foi, enfim, reconciliado. As linhas que separavam mundos haviam sido ajustadas com cuidado, sem rupturas, sem perdas. Regé pôde permanecer em Bevurin não como exceção, mas como parte legítima daquele tempo. Seus pais seguiam bem, sua origem intacta, e nada havia saído do curso que deveria seguir.
Se alguém observasse de fora, jamais imaginaria que aquela terra fora marcada por uma maldição, que a lua um dia sangrou e tingiu a cidade inteira de vermelho.
Agora, a rainha havia renunciado para viver longe dali. O rei seguia ao lado de suas filhas — e agora, de suas netas. E o país, assim como a cidade de Bevurin, finalmente podia viver dias mais harmônicos.


FIM


Nota da autora: Oi! Eu agradeço imensamente por ter lido e comentado. Eu peço desculpas pela demora que foi, não sei se superou todas as expectativas de vocês, mas eu precisava finalizar logo.
Estamos começando o ano e fechando a fanfic desse jeitinho.
Obrigada, beth, por estar comigo esse tempo todo e te dar esse trabalhão kkkk.
Beijinhos!

🪐

Nota de Saturno: Imagina, foi um prazer acompanhar essa história todinha. Você arrasou nessa tema, Ninna. Quero mais histórias assim! ♥


Se você encontrou algum erro de revisão ou codificação, entre em contato por aqui.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.



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