Revisada por: Júpiter
Última Atualização: 15/10/2025Aquela tarde não parecia condizente com a estação atual.
O som da chuva contra o vidro parecia combinar perfeitamente com tudo o que sentia naquele momento: incerteza e medo. O silêncio desconfortável que surge no seu interior quando se está prestes a começar do zero. Da janela do carro, observava uma Londres cinza e nublada, porém ainda pulsante e viva. Uma cidade que parecia nunca dormir — e, ainda assim, carregava no vento aquele tipo de solidão que só quem já se sentiu deslocado consegue reconhecer.
— Seu olhar está distante — comentou a mãe, ao notar o silêncio além do normal da filha.
— É tudo muito novo para mim, seu divórcio com o papai e a mudança, sabe que não sou muito sociável, então o recomeço em uma cidade grande me assusta — confessou parte de seus pensamentos.
— Pandinha… — A mãe voltou o olhar para filha, brevemente, pelo retrovisor, retornando, então, para a rodovia. — Recomeços são necessários, e, se tem algo que eu e o seu pai concordamos, é que você precisa de um pouco de agitação em sua vida, conhecer pessoas, fazer amigos e desfrutar de sua juventude.
— Eu tinha amigos em Derbyshire — reclamou a garota, sentindo um leve sufocamento ao se imaginar iniciando sua vida acadêmica em uma universidade londrina.
— Quem? Se está falando da bibliotecária de sua antiga escola... — Um suspiro cansado, pois também possuía suas inquietações relacionadas ao futuro de ambas. — Não é apenas nós, seu pai também estará na capital. Mesmo com o divórcio, não estaremos sozinhas.
— A senhorita Kim não é apenas uma bibliotecária — resmungou novamente. — Montamos um clube do livro.
O soar de uma risada veio do banco do motorista, com deixando o ar mais leve entre o assunto.
— E eu não sou apenas a dona de uma galeria de arte — brincou com uma risada boba e descontraída. — Precisa conhecer jovens da sua idade, você sempre estudou em casa, agora terá a oportunidade de vivenciar experiências na universidade e criar boas memórias.
— Há uma linha tênue entre memórias boas e ruins — retrucou.
— Está sendo muito pessimista antes da hora — disse em avaliação à relutância da filha e sugerindo: — Vamos nos instalar primeiro, seu pai nos convidou para o jantar da primeira noite em Londres… Voltaremos a este assunto após iniciar seus estudos acadêmicos.
— Hum — murmurou ela.
— Concentre-se apenas em aproveitar o final do verão. — A palavra final soou com sutileza de uma mãe que entendia os sentimentos da filha.
A determinada Carter, de olhar dócil e uma profunda empatia pelas pessoas à sua volta, sempre se preocupava com o bem-estar dos que amava, assim como de seu círculo de amizades. Apesar de pertencer a uma das mais tradicionais famílias de Derbyshire, seu carácter humilde a fazia ser vista com bons olhos por todos os moradores da cidade.
Uma característica da qual a filha herdou.
O carro preto deslizou pelas ruas elegantes de Mayfair.
Permitiu-se contemplar a arquitetura local, com seus prédios que pareciam saídos de um filme antigo, cheios de detalhes dourados, portas envernizadas e vitrines de cafés que exalavam cheiro de pão recém-saído do forno. Tudo parecia tão distante da vida que ela conhecia, a ponto de fazê-la sentir falta dos campos de lavanda pelos quais corria quando criança.
“Então, chegamos…” — pensou , encarando a própria imagem refletida no vidro da janela.
Sua mãe continuava em seu discurso animado enquanto estacionava o carro na garagem de seu novo lar. Um edifício de luxo a leste de um dos bairros mais nobres da cidade, com uma bela vista para o Hyde Park a se desfrutar em meio à arquitetura clássica de sua estrutura. Os olhos de seguiam brilhando enquanto descrevia, com riqueza de detalhes, como a galeria estava ficando perfeita, como os colecionadores estavam empolgados e como aquele recomeço seria bom para ambas.
Entretanto…
As palavras da mãe pareciam ecoar longe demais, como se o cérebro de não conseguisse absorver nenhuma de suas palavras. Quando desceram do carro, , mesmo no estacionamento, sentiu aquele cheiro típico de Londres: mistura de terra molhada, café e fumaça dos ônibus passando. No fundo, um friozinho na barriga que dizia que aquela cidade tinha algo especial preparado para ela.
“Por favor, só não deixa tudo dar errado...” — pensou, apertando a alça da mochila.
O coração parecia pesado, como se carregasse segredos que nem existiam ainda.
Mas existiriam.
Porque, o que ela não sabia, era que aquele era o começo de algo que mudaria sua visão do mundo para sempre. Mãe e filha se dirigiram para o elevador, apertaram o botão para o décimo segundo andar privilegiado pela cobertura, com o coração controlando as expectativas para o futuro. A construção desfrutava de um amplo terreno, que, em meio à selva de concreto, permitia até mesmo um jardim aos fundos da edificação. Um apartamento por andar garantia a máxima privacidade dos moradores, conforto e comodidade.
— Lar, doce lar — expressou , com empolgação.
voltou seu olhar para ela, rindo de leve por seus rodopios ao centro da sala. Em instantes, as memórias de sua infância tomaram-na por completo. As noites de Natal dançando com o pai em meio à neve, os passeios pelo lago de bicicleta sentindo o frescor do outono, as muitas receitas que testava com a mãe aos finais de semana. Além, claro, do feriado de ação de graças na casa dos avós, que sempre resultaram em noites em claro assistindo filmes em família.
Algo que alimentava ainda mais seu sentimento de nostalgia.
Em contrapartida…
, com seu esforço para mostrar entusiasmo com a nova realidade, também passava por suas lutas internas. Uma mulher aos seus trinta e seis anos, que largou metade dos sonhos de adolescente para construir uma família precoce com seu ex-marido. Uma gravidez na adolescência que a fez amadurecer rapidamente, e lhe rendeu muitas felicidades ao longo dos dezoito anos de sua filha única.
Seu recomeço conseguia ser ainda mais complexo.
Com a filha adentrando a universidade, uma casa nova e a galeria lhe ocupavam o pensamento, trazendo novas preocupações. O status social de uma quase recém-divorciada deixava tudo ainda mais incerto, principalmente no âmbito sentimental.
— Por onde começamos? — sibilou ela, ao olhar a filha lhe observando.
— Eu não sei. — fez uma careta estranha, enrugando a testa sem saber a resposta.
As caixas no canto esquerdo da porta de entrada, empilhadas devidamente com precisão, davam espaço ao som abafado da cidade lá fora. O cheiro de tinta fresca das paredes recém pintadas era perceptível e se misturava com o aroma lançado pelo difusor de lavanda. Aquele era o cenário da primeira noite de ambas. A jovem deu alguns passos pelo apartamento, como quem caminha dentro de um quadro ainda sem moldura, e não era pela falta de mobiliário.
O lugar muito bem decorado e organizado não lhe impressionou a primeiro momento, pois sabia do bom gosto de sua mãe. O minimalismo alinhado ao industrial com toques escandinavos, estilos muito apreciados por , lhe influenciaram na escolha da decoração. As janelas enormes exibiam a cidade iluminada e, ao longe, além do arborizado verde musgo do Hyde Park, o horizonte de prédios e luzes tremeluzia na névoa noturna de Londres.
— Ainda temos uma semana para colocar nossa vida em ordem — disse , ao olhar para as caixas de mudança. — Que tal um banho quente e nos arrumarmos para o jantar com seu pai?!
— Uma boa ideia — assentiu.
O tempo foi passando…
Às sete em ponto, elas pareciam relativamente prontas. , ainda no banheiro do seu quarto, ficou encarando-se no espelho, perguntando-se se tinha forças o suficiente para manter o sorriso no rosto até o final da noite. Ela não guardava nenhuma mágoa ou ressentimento, porém estava abalada o suficiente para sentir que não estava pronta para encará-lo. Não depois da última vez que se encontrou com o ex-marido, para falar dos papeis do divórcio.
Ela ainda o amava.
— Você consegue, Carter. — Era estranho usar o nome de solteira.
Um suspiro profundo, um retoque do batom vermelho nos lábios e a coragem de uma mãe que precisava transmitir força e segurança à filha. pegou a bolsa em cima da cama, conferindo os documentos na carteira e jogando o celular dentro. Saiu do quarto seguindo para a sala, passando pela porta da filha:
— Pandinha, já está pronta? — indagou, continuando os passos.
Em um instante, seu celular tocou em uma mensagem intrigante, pedindo para que abrisse a porta. Uma risada boba, de recordações inesperadas e inoportunas para a ocasião, pois poderia tornar a boa convivência com o homem com quem dividia intimidades mais dolorosa.
— — sussurrou ela, ao abrir a porta e encará-lo com um olhar suave e sereno.
Blackwood poderia ser classificado como a personificação do poder silencioso, dono de uma presença imponente apresentada através de seu terno sob medida e acompanhada pelo olhar frio que transmitia autoridade e controle. Controle este que exercia no comando de um dos escritórios de advocacia mais prestigiados de Londres, o Blackwood & Partners. Com sua firmeza nas palavras e uma mente afiada, a postura agressiva como conduzia o trabalho lhe garantiu muitas vitórias em alguns dos casos mais delicados da alta sociedade.
— . — Seu habitual tom firme.
Um breve arrepio por parte dela, ao ouvir seu apelido.
Era grave, pausada e ligeiramente precisa — cada palavra sempre escolhida como cuidado, carregada de intenção. Uma voz que parecia feita para não ser questionada. Mesmo sendo um homem meticuloso, estratégico e, por vezes, implacável, valorizava o conforto da família acima de tudo, por mais que não parecesse.
— Já estamos prontas. — Respirou fundo, com discrição. — Seremos apenas nós?
A força que vinha reunindo ao longo do dia lhe deixara sem fazer cerimônias diante daqueles olhos amendoados em sua frente.
— Claro — assentiu. — Quem mais nos acompanharia?
— Não sei. — Seu tom abaixou, não planejava retornar às muitas perguntas em sua mente, menos ainda seguir com abertas demonstrações de ciúmes.
Afinal, estavam a um passo do divórcio definitivo.
— Sei que há muitos boatos em nosso círculo de amizades, por acaso está sabendo de algo sobre mim que claramente eu mesmo não sei? — Sempre afiado nas palavras e demasiadas suposições.
O silêncio como resposta.
— Estamos separados há um ano, em processo de divórcio há sete meses — continuou ele, tentando cavar uma reação mais clara dela, do que apenas o olhar imutável que se esforçava para manter. — Não deseja mesmo esclarecer a sua dúvida?
— E que dúvida seria? — indagou, sentindo-se levemente acuada.
— Se estou saindo com alguém — esclareceu.
Não conseguindo mais suportar a intensidade que exalava do olhar do homem, desviou o olhar para a filha que se aproximava deles, deixando a discussão sem uma resposta conclusiva.
— Papai! — abriu um largo sorriso, indo abraçá-lo de forma espontânea.
— Minha pandinha! — Ele retribuiu o abraço, deixando um sorriso escapar no canto dos lábios. — Como tem sido a mudança?
— Apesar de necessária… — afastando-se dele, manteve um sorriso no rosto — mamãe tem deixado tudo mais descontraído do que pensei que seria.
— Sua mãe sempre teve o dom de tornar tudo mais fácil para todos em sua volta. — Seu olhar ficou um pouco mais familiar para a mulher.
Como o toque de sutileza que a fez se apaixonar por ele no primeiro dia do ensino médio.
— Vamos jantar?! — perguntou, voltando ao propósito inicial de sua presença ali.
A jovem assentiu com a cabeça, sendo acompanhada pela mãe.
Saber que o recomeço, mesmo em realidade familiar diferente do que estava acostumada, teria o apoio e a presença de ambos ao seu lado, lhe instigava a ter pensamento otimistas sobre a vida adulta acadêmica.
O restaurante Claridge’s Mayfair era localizado mais ao centro do bairro. Com seus traços tradicionais no prédio, apresentava um salão impecável. Tecidos aveludados, talheres de prata, taças tão finas que pareciam cantar quando se tocavam. O som do piano de cauda preenchia o fundo, discreto, como se até a música tivesse aprendido a ser educada naquele ambiente. Mesmo sendo domingo à noite, o lugar não se encontrava tão movimentado quanto imaginou estar.
Margaret, ainda desconfortável pelo olhar constante do ex-marido em sua direção, ajeitou o guardanapo sobre o colo, mantendo a postura irretocável, mas seus dedos denunciavam o caos interno que enfrentava. , sentada entre os dois, movia o olhar de um para outro, como se assistisse a uma peça cujos desfechos já conhecia.
Ambos ainda se amavam, porém eram orgulhosos demais para admitir.
Se o lema da família era recomeçar…
Por que ambos não o faziam até mesmo com o casamento? — se indagou em pensamento.
repousou as mãos sobre a mesa com a elegância de quem controla tudo ao seu redor. Seus olhos, frios e cinzentos, estavam fixos em Margaret, imaginando como haviam sido os últimos meses para ela, após aceitar a proposta da irmã e voltar a dirigir a galeria de arte da família. Uma empresa sólida e influente no meio, construída pelos avós e desenvolvida pela mãe ao longo dos anos. Suas noções de arte e talento natural para fotografia lhe permitiriam ser bem-sucedida nessa empreitada.
Considerada por ela como a válvula de escape, levantada por Deus.
Minutos após serem servidos, ao balançar de sua taça na mão direita, demonstrando estar em profunda reflexão, quebrou o silêncio, com a voz mais baixa do que costumava usar, rouca e quase hesitante.
— Espero que estejam confortáveis no apartamento novo — iniciou, ainda construindo seu diálogo na mente.
Margaret ergueu o olhar, encontrando o dele notoriamente em sua direção. Talvez, se houvesse traição envolvida naquele término de uma história, não doeria tanto, pois saberia que o amor não existia mais entre eles. Mas a cada minuto que se encaravam, com apenas uma mesa de distância, as memórias da mulher mergulhavam mais profundamente nas muitas discussões que tiveram sobre sua obsessão pelo trabalho, as madrugadas do marido trancado no escritório revisando os casos, seu perfeccionismo desenfreado em querer tudo do seu jeito e na sua hora.
Doloroso ver que o homem por quem se apaixonou parecia desaparecer a cada dia.
— Sim… — respondeu, ajeitando o colar no pescoço, buscando qualquer distração para desviar o olhar. — A vista é realmente incrível, como falou.
respirou fundo, desviando o olhar para o vazio, como se aquilo tornasse tudo menos real.
— Isso é bom, estar perto do Hyde Park pode tornar tudo um pouco mais familiar, já que não estamos mais no campo. — Sua voz quebrou levemente na última palavra, mas ele disfarçou. — Apesar de não se comparar com os campos de lavanda de Derbyshire.
Ele tentou soar um pouco mais relaxado, porém Margaret conseguia notar que também estava tenso, o que a fez apertar os lábios, segurando a pontinha da taça como quem segurava uma âncora.
— Mudanças são necessárias — comentou ela em um sussurro.
O silêncio que se seguiu não foi desconfortável. Foi... devastador.
olhou de um para outro, sentindo um nó apertar seu peito. Pela primeira vez, ela via além dos embates e das acusações. Diante dela, estavam dois corações partidos, fingindo força, porque era só isso que lhes restava. ajeitou o paletó, como quem precisa se recompor, apesar de não soar nenhuma palavra.
— Onde está morando, papai? — quebrou o gelo que se formou, esperando suavizar o ambiente.
— Achei mais prático me hospedar no Mandarim Oriental — respondeu ele, voltando a avaliar as expressões da ex-esposa.
— Um hotel?! — O tom surpreso surgiu de .
— Por que a surpresa? — indagou o homem, dando uma risada oculta. — Apenas sou prático o bastante para não querer me preocupar com as administrações domésticas de uma casa.
— E estar em um hotel é mais prático? — questionou, desacreditada na escolha por parte dele.
— Sim, sua localização está próxima do escritório e, também, de vocês — explicou ele, de maneira lógica, ao tomar um gole do vinho em sua taça. — Nós dois sabemos que sou metódico o suficiente para ser rejeitado por todas as empregadas que poderia contratar.
A verdade sobre si arrancou uma gargalhada ponderada de .
Algo que não acontecia há um bom tempo quando estavam juntos no mesmo ambiente. Era como replicar os raros momentos felizes que tiveram juntos, após o crescimento da filha, o que o levou a se indagar:
Quando foi que nos tornamos tão distantes um do outro, como completos desconhecidos morando sob o mesmo teto?
— Eu me lembro da nossa última empregada — comentou , em um tom baixo, arrancando mais risos dos pais.
Foram necessários mais três assuntos aleatórios sobre a reforma da galeria, onde passariam o dia de ação de graças naquele ano, e algumas novidades da rotina de seus amigos em comum para que finalmente o desconforto retornasse com a questão que os levou ao recomeço.
— Sobre o divórcio… — ele ponderou a princípio, se perguntando como colocaria as palavras que formulava na mente, quando percebeu o quanto sua voz soou vazia. — Os termos lhe parecem justos?
Margaret voltou a atenção para a taça em sua frente, não respondeu.
Seus olhos estavam levemente marejados, e ela fingia que era apenas reflexo da luz nas taças. apertou as mãos no colo, até os dedos ficarem brancos, tinha receio que os pais iniciassem mais uma daquelas discussões acaloradas que os feriam tanto.
— Vocês não se amam mais? — escapou da filha. — Por isso a decisão pelo divórcio?
Ambos olharam para ela, em choque.
Não esperavam uma indagação tão aberta em voz alta, referindo-se àquilo que ambos se recusavam a admitir até para si mesmos. Ainda se amavam e aquela decisão não era o que realmente queriam, contudo, eram orgulhosos demais para que cedessem e buscassem cicatrizar as feridas.
Desta vez, foi a desviar o olhar, sentindo um gosto amargo na boca, mesmo com o toque doce do vinho.
— Na maioria das vezes, amor não é o bastante — respondeu em um tom áspero que saiu ao natural, não que quisesse.
— Principalmente quando tudo que resta... — completou tomando coragem e voltando a encará-lo — é o que nos machuca.
apertou os olhos, como se aquilo o atingisse fisicamente, e se recostou, cruzando os braços. O garçom se aproximou, sem graça, percebendo o peso no ar e se esforçando para transmitir leveza ao entorno da mesa.
— Senhor, senhoritas… Desejam a sobremesa agora?
Margaret enxugou discretamente o canto do olho, recompondo-se.
— Para mim, apenas um café, obrigado — respondeu-lhe o homem, ainda digerindo as palavras da ex-esposa.
assentiu com um sorriso, permanecendo em silêncio.
, no meio, percebeu que aquele jantar não era apenas o encerramento de uma história. Era, na verdade, a maneira mais triste que dois corações podiam dizer "eu te amo" — sem nunca pronunciar essas palavras.
¿Cómo poder recuperar tu amor?
¿Cómo sacar la tristeza de mi corazón?
Mi mundo solo gira por ti.
- Este Corazón / RBD
A porta da cobertura se abriu com um leve clique magnético.
Estar instalado no grandioso Mandarin Oriental Hyde Park era sinônimo de comodidade e privacidade, além de conforto e luxo. O primeiro impacto da suíte master platinum não vinha do excesso, mas da precisão — tudo ali transmitia uma elegância silenciosa, calculada. Cada linha reta, cada ângulo, cada textura foi escolhida para dizer, sem palavras: “Aqui mora alguém que não falha.” O hall de entrada era agraciado com piso de mármore italiano negro, brilhante como um espelho. Nas paredes, painéis de nogueira polida, discretamente iluminados por spots de luz indireta, criando uma atmosfera que era, ao mesmo tempo, acolhedora e fria — como o próprio hóspede.
À direita, havia a sala principal, janelas do chão ao teto da fachada principal revelavam uma vista panorâmica do Hyde Park. No inverno passado, as copas desnudas das árvores se tornaram quase uma extensão da própria solidão de . O sofá de couro italiano, em tom grafite, contrastava com uma mesa de centro de mármore branco rajado de cinza. Nenhum objeto pessoal. Nada fora do lugar. Apenas uma única peça de arte: uma escultura abstrata de aço retorcido — perfeitamente posicionada, perfeitamente vazia.
O escritório era o verdadeiro coração da suíte.
Seu lugar de silêncio e reflexão, que utilizava para trabalhar quando tirava o dia para home-office. A mesa de carvalho escuro, minimalista, devidamente posicionada em frente à janela, com visão direta do parque. Uma tela dupla de computador e pastas organizadas geometricamente ao lado do teclado, uma bandeja de cristal com garrafa de whisky escocês e dois copos — os quais nunca foram utilizados.
— Como posso dizer, lar doce lar?! — sussurrou para si, enquanto a última frase de impacto de martelava em sua mente.
Principalmente quanto tudo o que resta é o que nos machuca.
Seus olhos percorreram pelo quarto.
E, em meio a todo o glamour do ambiente requintado digno dos palacetes reais, um pequeno e singelo objeto lhe atraiu. Sobre a mesa de cabeceira, o discreto porta-retrato continha uma foto antiga que sempre carregava consigo em suas viagens de negócios. Margaret, jovem, sorrindo enquanto segurava ainda criança nos braços. A moldura de prata e gasta nas bordas demonstrava ser o único objeto em todo aquele império de perfeição que carregava sinais do tempo.
Ele a tinha como seu tesouro escondido.
O silêncio havia tomado conta do ambiente, porém era diferente.
Não era o silêncio confortável do lar, nem o elegante das reuniões com a elite londrina que costumava frequentar.
Era o tipo de silêncio que grita.
largou as chaves do carro e o cartão de acesso da suíte sobre o aparador ao lado da porta, o som metálico ecoando mais alto do que deveria. A Londres noturna pulsava abaixo — viva, brilhante e indiferente. Ajeitando as abotoaduras, tirou o paletó e jogou sobre a poltrona de couro, sem a menor cerimônia. O relógio de pulso foi o próximo, depositado com um descuido raro, quase como se o tempo, naquele momento, não tivesse mais importância. Talvez pelo fato de desejar ter congelado a cena de rindo com naturalidade em uma fração de instantes no jantar.
Caminhou até a prateleira de bebidas.
Serviu-se de mais vinho, um Chateau Duvalier 1947 que tinha ganhado de presente de um cliente investidor de imóveis. Observou o líquido âmbar por alguns segundos enquanto rodava a taça com delicadeza, como se dentro daquele copo houvesse alguma resposta.
Mas não havia.
Após alguns goles, apoiou-se na bancada de mármore que compunha a parte da adega privativa da suíte, cabeça baixa, os ombros rígidos e um nó na garganta. Respirou fundo — aquele tipo de respiração que vinha antes de um colapso ou de um disfarce. Minutos de reflexão que mais pareciam um choro silencioso, com a resistente ausência das lágrimas, porém a mesma ardência de como se tivessem presentes. Então elevou subitamente o rosto, voltando a atenção para a cidade ao lado de fora e, pela primeira vez em muito tempo, percebeu o quanto tudo parecia...
Vazio.
— Brilhante, não é, ? — murmurou para si mesmo, amargo. — Tão brilhante quanto inútil, seu pedido de divórcio.
Levou a taça aos lábios, mas parou no meio do caminho. A mão tremeu. Não de fraqueza — de raiva.
De frustração.
De impotência.
Raiva de si.
Por não ter conseguido deixar seu orgulho de lado, reconhecendo os muitos erros que cometeu em mais de dezoito anos de relacionamento. Por ter sido engolido pela própria obsessão em construir algo e, no processo, destruir o que realmente importava.
Sua família.
Apoiou o copo na bancada com força, o som seco preenchendo o vazio da sala. Passando a mão pelo rosto, fechou os olhos, e, por trás das pálpebras apertadas, flashes do que um dia foram momentos felizes surgiam sem controle: o sorriso de quando ainda era só amor; o cheiro do café nas manhãs de sábado em que era raro a sua presença; o som da risada de quando era pequena — risada que agora se tornava cada vez mais escassa. Não havia rota de fuga para ele, nenhuma reunião com clientes em potencial, não havia contrato, não havia um julgamento lhe esperando para ser vencido.
Só ele.
Ele e o eco das escolhas que fez.
Abriu os olhos, encarando seu próprio reflexo no vidro da janela. Por um segundo, não reconheceu aquele homem que havia escolhido a solidão proporcionada pelo vício ao trabalho, ao invés do aconchego nos braços de sua família.
— Agradeça ao seu orgulho — sussurrou, com um sorriso quebrado, quase um deboche amargo para si próprio.
As lágrimas não caíram, mas persistiam em continuar no canto dos olhos, ardendo juntamente com a culpa por magoar a mulher que tanto amava.
Seu recomeço era exatamente assim.
Silencioso. Frio. Amargo.
Na manhã seguinte.
acordou cedo e, após preparar o café da manhã, dirigiu-se para o escritório improvisado que montou no terraço da cobertura, uma xícara de cappuccino na mão e o olhar atento nos papeis à sua frente. Seguia reorganizando e conferindo um a um, os contratos com os fornecedores da reforma da galeria, um investimento de alto risco iniciado pela irmã, que acabou por ter seu toque de realidade e prudência para finalmente se concretizar. Trabalhar era o jeito dela de não encarar as próprias dores e afastar seus medos.
— Bom dia, mãe! — disse , ao se aproximar da mesa e bisbilhotar o que ela fazia.
— Bom dia, Pandinha! — elevou o olhar para a filha. — Dormiu bem em nossa primeira noite?
— Relativamente, sim. — Suspirou fraco. — Meu corpo sentiu a diferença do colchão.
— Compreensível. — Uma risada rápida. — Quer que eu te leve no primeiro dia de aula em sociedade?
Um tom descontraído de brincadeira.
— Não precisa, já estudei todas as rotas para chegar lá. — Um sorriso grato, enquanto ajeitava a mochila nas costas. — Vou sair mais cedo, pois quero passar em uma livraria antes.
— Tenha um bom dia — desejou .
se permitiu animar um pouco e deixar de lado o pessimismo que tentou lhe consumir durante a mudança. Ela sabia que não seria fácil adaptar-se a um novo ambiente, uma nova realidade de convivência, e teria que vencer seu lado introspectivo para finalmente ter amigos de sua faixa etária, e não apenas as senhoras bibliotecárias.
— É tão difícil para mamãe entender que este é o meu mundo? — sussurrou ela, ao parar em frente à discreta, porém acolhedora, fachada da livraria Casa del Libro.
O sino antigo na porta tilintou assim que abriu.
Espalhando seu som metálico e delicado pela manhã cinzenta. Assim que cruzou a soleira da livraria, sentiu que havia atravessado um portal mágico para um universo do qual não queria sair. A livraria parecia suspensa no tempo — um relicário de séculos guardado entre paredes de pedra desgastada e vigas de carvalho escurecidas, onde o cheiro de madeira antiga se misturava ao perfume agridoce de páginas amareladas.
— Acho que devo um agradecimento à senhora Smith, por sua indicação. — Mantendo o tom baixo, sentiu os olhos brilharem.
A luz morna das lanternas de ferro forjado penduradas na parede desenhava sombras macias sobre os livros, que se empilhavam como torres desordenadas de sonhos. A lareira no fundo crepitava discretamente, aquecendo não só o ambiente, mas também a alma de quem se aventurava ali. Em frente, poltronas individuais que permitiam os singelos clientes desfrutarem de leituras serenas que os transportavam para as páginas dos livros, ao som do fundo sonoro, uma sinfonia clássica medieval que rescindia pelo espaço. Ao chão, os tapetes persas envelhecidos que amorteciam os passos.
Nos mínimos detalhes…
Cada canto parecia guardar um sussurro, um segredo, uma história esperando por olhos curiosos. deslizou os dedos por uma lombada de couro gasto, sentindo sob a ponta a textura viva do tempo. Sorriu, pequena, para si mesma.
Ali, ela se sentia segura.
Invisível, no melhor dos sentidos.
Instantes de contemplação e seus olhos alcançaram um livro de capa dourada de veludo com bordas pretas nas laterais, se tratava da estante de edições raras. Seu corpo se locomoveu inconscientemente até o local. Com uma ponta de curiosidade para saber qual aventura continha em suas páginas, ela esticou a mão para alcançá-lo. Contudo, sua estatura a traiu sutilmente, mostrando que o objeto que brilhava aos seus olhos poderia ser inacessível.
— Eu pego para você! — Uma voz grossa e rouca surgiu atrás dela, assustando-a de leve.
Tudo aconteceu de forma tão rápida quanto inevitável.
Em sua reação ao inesperado, o corpo de se desequilibrou, sendo amparado pela mão quente e firme do rapaz, que a puxou para perto a ponto de aproximar o suficiente seus corpos para sentirem a respiração um do outro. Os olhos assustados da garota eram rebatidos pelo olhar gentil dele, que deixou um discreto sorriso surgir no canto do rosto, a fim de tranquilizá-la.
— Te peguei — disse ele.
— Me desculpe. — Sua voz quase falhou, ao sentir seu corpo arrepiar pelo calor da mão dele.
— Tudo bem, acidentes acontecem, mas felizmente conseguimos impedir um. — Ele se afastou um pouco, porém, inconscientemente, manteve a mão nas costas dela. — Você está bem?
— Sim, eu acho. — Agora soou como um sussurro.
O livro desejado por ela escapou das mãos dele e tombou no tapete, abrindo-se como se também, de algum modo, participasse daquele acidente. Sua distração devia-se ao sorriso singelo e angelical da jovem, que o hipnotizou por um curto espaço de tempo.
— Parece que também estou desastrado hoje... — brincou ele, um olhar tão sereno que transmitia uma calma desconcertante.
tentou não se maravilhar com seus olhos azul-cinza, frios na superfície, mas com alguma coisa… Uma profundidade não nomeável pulsando ali no fundo que, por um segundo, a deixou sem reação. Como se o mundo inteiro — a lareira, os livros, as vozes distantes dos outros clientes — tivesse ficado suspenso no mesmo silêncio que cabia entre um suspiro e uma palavra não dita.
— Acho que meu lado desastrado está contagioso hoje — comentou em um tom baixo, soando de forma espontânea, algo que jamais imaginou fazer diante de um estranho.
O que a fez arrancar risadas descontraídas por parte dele.
Sendo devolvido por um sorriso tímido por parte dela.
— Bennett! — a voz do dono da livraria roubou-lhes a atenção, quebrando a atmosfera de curiosidade e profundidade criada em torno deles. — Ainda faltam caixas no depósito!
— Já estou indo! — gritou ele de volta, em um tom ponderado para não a assustar e manter a cordialidade, então, apenas naquele momento, percebeu que sua mão ainda se mantinha tocando o corpo da jovem.
Em um movimento rápido, porém não deixando a suavidade de lado, deslizou-a até que finalmente completou o distanciamento. Abaixando, pegou o livro e, ao se levantar, esticou para ela.
— Era este que queria, estou certo? — indagou.
— Sim. — Seu suspiro foi discreto, tentava controlar as batidas aceleradas que lhe mergulhavam em um caos interno. — Obrigada.
— Tenha uma boa leitura — desejou. — E, se precisar de outro livro…
— Pedirei sua ajuda — assentiu, deixando reluzir um brilho incomum no olhar.
O canto da boca dele ameaçou um sorriso, mas não se entregou por completo.
E então, como se aquele instante tivesse durado tempo demais, ele desviou o olhar sem dizer mais nada, seguindo em direção à porta de acesso dos fundos, restrita apenas aos funcionários. Deixando no ar aquele rastro invisível e inquietante de quando dois mundos se colidem, e não sabem ainda o que fazer com isso. permaneceu por mais alguns minutos em modo estático, respirando fundo, tentando entender o porquê, de repente, o som da própria respiração parecia tão alto, competindo com as batidas do seu coração no volume.
Nunca imaginou que seu jeito meio desajeitada pudesse lhe proporcionar um momento como aquele.
Uma memória a se guardar.
— Me daria licença, por favor? — A voz de uma cliente lhe despertou de seus devaneios.
— Oh, sim. — afastou-se rapidamente, então caminhou até o caixa.
Não se permitiria sair daquele lugar deixando o livro para trás. Não apenas por sua capa chamativa e a possibilidade de uma leitura fascinante, mas também por ter sido parte de algo do qual ainda não sabia classificar. Mas que sentia o coração aquecido por tê-lo vivenciado.
Voltamos ao primeiro dia na King’s College London.
O campus parecia saído de um filme.
Era a terceira universidade mais antiga da Inglaterra, conhecida por sua arquitetura clássica, corredores de pedra clara e janelas imensas. Seus estudantes iam e vinham como se fizessem parte de uma coreografia secreta que só eles conheciam. O notório sotaque britânico era o destaque das conversas que se misturavam aos passos apressados, às risadas e ao som distante de um violinista de rua tocando na entrada. A jovem inexperiente cruzou os portões com o coração disparando.
A primeira aula seria no ateliê de Expressão Gráfica.
O cheiro de papel, tinta e madeira invadiu os sentidos de assim que ela cruzou a porta de entrada. Um espaço que parecia mais um refúgio criativo do que uma sala convencional de aula, como de fato era a intenção dos professores responsáveis. Para eles, um lugar inspirador era a chave de sucesso para motivar os alunos a se arriscarem em seus talentos. Os olhos da jovem percorreram os painéis lotados de croquis, as mesas gastas de carvalho, as prateleiras abarrotadas de materiais.
E tudo ao seu redor parecia pulsar vida, criatividade e história.
O espaço exalava poesia, fazendo-a se sentir parte de uma ilustração em movimento. A professora, senhora Heiden, uma mulher alta, magra, de cabelos brancos sempre presos em um coque e óculos pendendo na ponta do nariz escreveu algo no quadro e então virou-se para os alunos que iam se acomodando pelas banquetas ao redor.
— Bem-vindos, alunos, à disciplina de Expressão Gráfica I. Aqui, vão aprender que desenhar não é apenas sobre um pingo de tinta derramado em um papel, mas sobre comunicar através dos seus traços. Onde os pensamentos se tornam um ponto, um ponto se torna uma linha. Ideia vira traço. E falhas se tornam parte do processo. — Uma leve gargalhada para descontrair e repelir a tensão deles, então ajeitou os óculos. — E, para inspirar o lado competitivo de vocês, os alunos que obtiverem o melhor progresso em minha aula, receberão o destaque no final do ciclo e a oportunidade de expor seus trabalhos em uma galeria de arte profissional.
O som de murmúrios tomou o espaço.
Alguns de motivação e outros de reclamação. Para , expor seus desenhos em uma galeria não seria algo tão atraente ao ponto de entrar no jogo da professora. Sua família era dona de uma. Contudo, assim como a mãe, ela era adepta da meritocracia, e daria seu melhor para ser uma boa aluna e desenvolver suas habilidades com dedicação, sem ambicionar algo em troca como ser o destaque do curso.
Era o início de sua vida acadêmica.
Primeira vez que o amor bateu de frente comigo
Antes era só um amigo
Agora mudou tudo de vez.
- Olha o Que o Amor Me Faz / Sandy & Junior
Assim como para a filha, também enfrentava seu primeiro dia na nova cidade. Ainda no apartamento, manteve parte da manhã concentrada em entender a relevância de todos os documentos fornecidos pela irmã. Alguém que por um tempo dedicou seus dias a administrar sua casa e cuidar da família, e agora precisava passar por grandes transformações internas com o propósito de adaptação à realidade.
E poderia se considerar jovem o bastante para não se frustrar com os tropeços pelo caminho.
Contudo, aquelas horas de trabalho não a mantiveram com cem por cento do foco, pois a cada informação nova sobre a galeria, sua mente se transportava para o jantar da noite anterior e a afirmação de sobre manter-se longe de relacionamentos terceiros. Seu respirar ficou mais pesado, quando uma sensação de angústia adentrou seu interior com agressividade a ponto de formar lágrimas no canto dos olhos.
— Por que ainda sinto a necessidade de chorar por sua causa? — indagou para si, ao apoiar o corpo no beiral da mesa, mantendo o olhar na janela.
A luta contra as lembranças naquele dia estava a um passo de ser perdida. Até que seu celular tocou, uma ligação inusitada da irmã, que já havia enviado inúmeras mensagens com ideias para a disposição do layout. Algo que havia mudado diversas vezes por achar não estar bom o suficiente em âmbito de circulação e exposição das peças.
Um respiro profundo.
— Sim, Meredith — disse ao atender.
— Irmãzinha. — O tom amável saiu com descontração. — Achei que viesse para a galeria acompanhar as obras.
— Tirei a manhã para me atualizar sobre os gastos, orçamentos e das peças que estão em nosso acervo particular — respondeu, prontamente.
— Hum… Ficou com alguma dúvida sobre minha administração? — instigou o assunto.
— Não, você é impecável quando se trata de planejamento financeiro — confessou a caçula. — Apesar de extrapolar em alguns casos específicos.
— Ninguém é perfeito — soltou uma gargalhada boba após o comentário. — Que tal almoçarmos juntos e visitar o ateliê de um amigo?
— E qual seria o propósito da visita ao artista? — perguntou.
— Conhecer seu trabalho — respondeu, já imaginando as teorias da conspiração formando-se na mente da irmã.
— Apenas isso? — continuou a indagação, franzindo a testa.
— E o que mais teria além disso? — retrucou.
— Tudo bem! — assentiu, não iria relutar.
Talvez uma tarde em ambientes inspiracionais poderia também lhe motivar a iniciar novas atividades que pudessem preencher ainda mais sua mente, ou apenas resgatar aquelas em que havia guardado tão bem no passado, que mal se lembrava da satisfação que lhe proporcionava.
E seu amor pela fotografia era uma delas.
— Muito bem! — exclamou Meredith. — Chego aí em vinte minutos, esteja pronta.
— Onde está? — perguntou, curiosa pelo tempo demarcado.
— Próximo ao Hyde Park, em uma confeitaria — respondeu. — Vim comprar uma torta de amoras.
— Hum — murmurando de leve, encerrou a ligação.
olhou a roupa em seu corpo, não parecia um traje adequado para uma visita a um artista que poderia ter influências no meio das artes. Estava há tanto tempo longe daquele mundo, que não conhecia mais os nomes promissores e respeitados entre pintores, escultores e fotógrafos, tanto locais quanto internacionais. Era hora de mergulhar de vez no trabalho e voltar à ativa em grande estilo, o passado precisava ficar no passado.
Pelo menos durante o horário comercial.
— ! — A voz entonada de Meredith lhe despertou a atenção.
A irmã manteve-se na porta de seu novo Porsche preto, em que dirigia com tamanha empolgação, algo surpreendente para a caçula, que sempre temeu andar com ela, devido às suas imprudências ao volante. Uma onda de receio passou por seu corpo a cada passo que dava para mais perto do veículo.
— De onde saiu esse carro? — indagou.
— Do meu trabalho?! — Sua resposta soou mais como uma pergunta. — Acha mesmo que a mamãe iria me dar um carro desses?
Ela soltou outra de suas gargalhadas exageradas.
— Meritocracia, lembra? É o lema da família — explicou ela, com mais clareza, voltando aos ensinamentos que ficaram gravados em seu caráter. — Levei sete anos para juntar o dinheiro necessário, mas o Shoto agora é o bebê que ocupa o espaço da minha vaga no estacionamento.
— Shoto? — O olhar ficou mais impressionado. — Você deu o nome de um personagem de Boku no Hero para o seu carro?
— Você conhece de anime? — Agora foi Meredith quem demonstrou surpresa.
— Eu tenho uma filha que gosta da cultura asiática — respondeu com serenidade, como se fosse a coisa mais normal do mundo. — Então, sim, entendo de animes.
Por essa, a primogênita não esperava.
— Bem, entre aí que vou te apresentar um restaurante maravilhoso que descobri na semana passada — revelou ela, já entrando no carro.
balançou a cabeça negativamente, soltando um suspiro cansado.
— E como encontrou esse tal restaurante? — indagou, adentrando logo atrás, no banco ao lado.
— Digamos que tive um date perfeito lá. — Um olhar malicioso e o sorriso no canto do rosto deixava soar o mistério de uma noite de diversão.
— Certamente não vou querer saber sobre isso com riqueza de detalhes — informou.
— Sem graça. — Meredith fez uma careta, fazendo-a rir. — Deveria relaxar um pouco mais e abrir-se para novas experiências.
Ela deu a partida. Nem precisava de GPS, pois já sabia o trajeto até o local de cabeça, pela sua boa memória fotográfica e senso de localização.
— Novas experiências? — uma risada sem graça.
— Sim… Afinal, seu ex-marido foi seu primeiro namorado, se casou cedo demais pela gravidez precoce e nunca conheceu outro homem além do — esclareceu de forma argumentativa. — Não pode continuar alimentando essa fase depressiva de mulher abandonada.
— Não estou alimentando nada — retrucou, indignada pela suposição da irmã.
— Tem certeza? — Meredith olhou seu reflexo no retrovisor por um momento, para conferir suas expressões faciais.
manteve-se inexpressiva quanto ao assunto.
Já havia chorado pela manhã e não queria repetir na frente dela.
— , já tem quanto tempo que estão separados? — questionou.
— Ainda não assinamos oficialmente o divórcio, e eu não quero pensar em um novo relacionamento agora, quero focar em minha carreira, já que estive parada há tanto tempo. — Seu argumento era válido e tinha fundamento sólido para ser expressado. — O fato de optar pela solitude não quer dizer que estou alimentando um estado depressivo.
O silêncio de reflexão veio do banco do motorista.
— Tudo bem, não está mais aqui quem falou — desculpou-se ao seu modo. — Mas saiba que está convocada para o encontrinho da Cindy na sexta à noite.
— Encontrinho da Cindy? Não estava sabendo disso. — Seu olhar voltou-se para a irmã.
— Estava sim — a repreendeu. — Não acredito que se esqueceu do aniversário da nossa amiga.
— Ah… — Sim, ela tinha se esquecido. — Ando com tantas coisas na cabeça… A mudança, a universidade da , a galeria… Tudo isso além do divórcio.
— Te entendo! — Um toque de apoio. — E por falar em … Como está minha sobrinha com a experiência de estudar fora de casa?
— A princípio, visivelmente insegura, mas com o tempo ela se acostuma — respondeu. — precisa ter suas próprias experiências com o mundo para criar maturidade, ela não me terá eternamente, nem ao pai.
— E certamente também não vai ter amigos ou uma paixonite, se escondendo dentro de casa — completou a irmã.
— Exatamente — concordou.
As horas se passaram.
O cheiro de tinta spray, verniz e metal oxidado era a primeira coisa que atingia quem atravessava a porta de aço enferrujado. O ateliê do artista ficava escondido em um galpão industrial revitalizado em Shoreditch, onde paredes de tijolos expostos contrastavam com obras que gritavam crítica social em cada camada de cor, sendo contemplados por uma aura industrial e rústica, que se apresentava na arquitetura da edificação.
ajustou os óculos escuros no topo da cabeça, caminhando lado a lado com Meredith, que olhava tudo com aquele ar cético, típico de quem vive da análise minuciosa de tudo que tinha relação com a arte. Entretanto, internamente, a primogênita sentia uma explosão de euforia a cada detalhe apresentado a ela, sem a necessidade de um guia formal.
— Esse lugar é incrível — sussurrou enquanto se admirava com tudo ao seu redor, na medida que seus passos seguiam os da aprendiz que as conduzia.
— Sim… Impressionante mesmo — assentiu .
As paredes estavam tomadas por telas enormes, algumas ainda inacabadas, outras cobertas com plásticos translúcidos, exibindo fragmentos de rostos pixelados, mensagens subversivas e ícones distorcidos da cultura pop. Figuras de políticos, magnatas, influenciadores — todos transformados em caricaturas mordazes. No centro, mesas caóticas com latas de spray abertas, estiletes, moldes de stencil empilhados, rolos de fita adesiva, laptops com as telas piscando entre softwares de edição e marketplaces de NFT.
— Bem-vindas ao caos. — A voz rouca e arrastada veio de trás de uma tela de dois metros, onde uma silhueta encapuzada surgia, limpando as mãos manchadas de azul petróleo em um pano velho.
Era Kai Novak, nome que estourava nas manchetes culturais e nas capas da conceituada revista Art Rw. Mais de 3 milhões de seguidores no Instagram, uma identidade semioculta, que precedia uma fila de espera de dois anos para quem quisesse uma obra sua fora dos leilões da Sotheby’s ou da Christie’s. Puxando o capuz, revelou os cabelos descoloridos, com seus cachos impecavelmente modelados como se eles fossem a verdadeira pintura.
Um olhar desconfiado, porém curioso.
— Devem ser as representantes da galeria de Mayfair — supôs ele, ao observá-las com atenção, após acenar à aprendiz para se retirar.
Tentou disfarçar a preferência, contudo, seu olhar manteve-se a maior parte do tempo em , deixando-a levemente constrangida por tal profundidade, e que não demonstrava nenhuma cerimônia da parte dele. Um respiro profundo, forçando uma ação com naturalidade, caminhou até uma das telas encostadas no chão, deslizando os dedos sobre a superfície onde a imagem de uma criança segurando um iPhone, enquanto bombas explodiam ao fundo, parecia pulsar.
— Não somos apenas representantes, somos as donas — corrigiu Meredith, não deixando-se intimidar por ele, e ao mesmo tempo notando o interesse por sua irmã, pois a acompanhava pelo olhar.
— Nos sentimos honradas por aceitar nos receber em seu habitat natural — continuou a primogênita, mantendo o profissionalismo.
Suas palavras arrancaram uma risada rápida e descontraída dele.
Kai girou lentamente uma lata de spray entre os dedos, com aquele meio sorriso que era quase um desafio não o apreciar.
— Certamente não foi apenas para analisar minhas telas que pediram por essa visita — continuou ele, curioso. — E ao lembrar que a galeria de vocês está em reforma…
Ele já presumia o teor daquela conversa.
— Queremos seus quadros para a reinauguração de nossa galeria — Meredith foi direto ao ponto.
— E por que eu deveria dar créditos a vocês? — indagou.
— Porque nossa galeria é conhecida por sua tradição em dar voz aos artistas locais e influentes do país, e estamos entrando em uma nova fase de modernidade e autenticidade, que vejo se encaixar bem em sua arte. — Um tom firme, com argumento sólido e bem polido, sem rodeios, contudo, detalhado. — Também possuímos nossas influências, e temos uma história.
Mesmo fascinado pela beleza e sutileza da Carter caçula, Kai era um jovem artista que sabia o valor de sua obra, assim como o peso social que ela carregava. Conhecido por ser um artista local bem influente no Instagram, utilizava de técnicas com stencil e spray para criar suas obras. Em sua maioria, frequentemente consideradas críticas sociais e políticas, suas obras já haviam sido expostas em galerias famosas da Europa, e também foram vendidas por milhões de dólares em leilões.
Além de ser colecionada por celebridades.
— Interessante… Sabem qual é a essência filosófica de minhas pinturas? — indagou ele, com a intenção de comprovar se fizeram o dever de casa.
— O mundo gosta de fingir que é feito de classe, elegância e méritos… Mas, no fim, tudo se resume a quem compra, quem vende e quem finge não ver o sangue na etiqueta. — Com um tom sereno, toque sutil e carregado de sentimentos, proferiu as palavras que ele sempre utilizava em suas entrevistas, sem dever nenhuma vírgula.
O que muito lhe impressionou.
Meredith manteve a postura firme, enquanto a irmã mantinha atenção voltada ao quadro da criança que tanto contemplava.
— Vossa reputação o precede, senhor Novak — comentou, a primogênita, de olhar atento e tão analítico quanto o do artista. — É brutal, provocativo... e absurdamente verdadeiro em suas obras.
— Me impressionaram — assegurou ele, com um discreto sorriso de canto.
— Isso é um bom sinal? — indagou Meredith.
— Bem… Podemos dizer que é uma abertura para as negociações — concluiu ele.
Uma conclusão que significava o início de uma parceria consistente entre eles.
— Já adianto que, se quiserem algo seguro e bonito, procurem outro. — Não foi ríspido, nem rude, apenas sincero em proteger sua identidade artística. — Mas se querem que eu incomode, irrite e faça as pessoas saírem desconfortáveis... Então podemos prosseguir com a conversa.
Meredith soltou um suspiro empolgado.
— Contanto que esse desconforto seja avaliado em pelo menos sete dígitos, não vejo problema — consentiu.
O artista sorriu, abriu uma geladeira industrial no canto — cheia de cervejas artesanais e latas de energético — e ofereceu às duas, tendo uma recusa dupla.
— Se aguentarem a feiura do mundo, eu lhes entrego a beleza no desconforto — completou, ao dar o primeiro gole da lata de energético.
finalmente voltou a atenção para ele.
— É exatamente o que viemos buscar.
O retorno de Carter Fine Arts seria em grande estilo.
— Nunca imaginei que uma reunião de negócios pudesse ser tão inspiradora assim — confessou Meredith, ao estacionar seu carro em frente ao prédio da irmã.
— Sim, ele me parece bem confiante com suas obras — disse com sua interpretação do momento.
— Não apenas com as obras — continuou a mais velha, deixando um pouco de malícia escapar. — Notei muito bem os olhares dele para você.
— Meri, não comece com suas insinuações — pediu.
— Só disse o que presenciei — ela riu.
— Nos vemos amanhã na galeria? — mudou de assunto rapidamente para evitar mais constrangimento.
— Sim, mas não prometo chegar cedo — assentiu. — Tenho um encontro hoje.
desceu do carro, evitando comentar o assunto.
— Cuidado e juízo — aconselhou a caçula.
— Eu sempre tenho, por isso não me casei até hoje — brincou ela, ligando o motor do carro.
O balançar negativo de sua cabeça era sinal de que ainda se preocupava com as peripécias da irmã.
— ?! — Adentrou o apartamento, chamando pela filha. — ?! Já chegou?
O silêncio foi a sua resposta.
Seguindo para o quarto, começou a se despir pelo caminho, jogando as peças de roupas na cama quando passou por ela. Tomou um banho quente e relaxante, minutos sentindo as gotículas de águas caindo em suas costas como se fossem massageadores com o propósito apenas de levar-lhe ao bem-estar momentâneo.
Um sentimento de vitória preencheu-a por completo.
Uma felicidade instantânea por trabalhar em um projeto apenas dela com a irmã, em algo que lhe brilhava os olhos, lhe fazia sentir-se viva novamente, após tantos meses de lágrimas e frustrações que lhe tiravam o sono. Entretanto, todo momento de paz revela-se passageiro quando se tem uma alma ferida, sem previsão de cicatrizar. E entre o vidro do box embaçado pelo vapor quente que se formou em todo o ambiente, as recordações dolorosas retornaram…
Como uma avalanche de sentimentos.
Do lado de fora, a filha adentrava sua nova moradia, com inúmeros planejamentos de estudo e leitura sendo formulados em sua mente. Para um primeiro dia, havia recebido uma carga enorme de informações, que foram distribuídas ao longo das aulas que teve no dia. Sua parte favorita da Universidade?
A enorme biblioteca em que poderia se perder dentro, caso desejasse.
— Mãe?! — chamou-a enquanto adentrava o corredor, então ouviu o barulho vindo do quarto de sua mãe.
por sua vez, constatou que deveria ficar mais um pouco ali embaixo, para que as gotas de água do chuveiro pudessem se misturar com as lágrimas que desciam por seu rosto.
Sua terapia não estava em dia.
— Ela deve estar no banho — supôs. — Acho que farei o mesmo.
Ao adentrar seu quarto, o som abafado da porta se fechando atrás de si ecoou mais alto do que deveria no silêncio do cômodo. deixou a bolsa deslizar dos ombros, caindo sobre a poltrona perto da janela, enquanto caminhava até a cama, se jogando em seguida. Fora mesmo um turbilhão de emoções e sensações em menos de vinte e quatro horas. O teto branco parecia mais interessante do que nunca — ou talvez fosse apenas o único lugar onde seus olhos podiam repousar sem que sua mente a traísse.
E, claro, a traiu.
As imagens vieram sem pedir licença. O cheiro amadeirado da livraria, a textura das prateleiras antigas, o sussurro do livro de capa dourada que a puxou como um ímã.
E então, ele.
Seu inesperado amparo, que a salvou do breve deslize dos próprios pés no chão polido da sessão reservada. A lembrança do breve desequilíbrio, aquele segundo suspenso no tempo — e, de repente, as mãos dele. Firmes e quentes. Segurando-a pela cintura, como se o mundo inteiro pudesse desabar e, ainda assim, ela não cairia se ele estivesse ali.
Um pulsar mais forte.
Seu coração acelerou como se revivesse novamente a cena, com ainda mais entonação e precisão. A riqueza de detalhes em que sua mente emanava as informações vividas, fazendo-a sentir uma breve falta de ar, por prender a respiração quando a imagem do sorriso dele lhe preencheu por completo. Aqueles lábios destacados por um carisma enigmático e sutil.
Bennett! — era a única coisa que sabia sobre ele.
O sobrenome do qual foi chamado pelo dono da livraria.
Cuidado... — A voz dele ecoou na memória, rouca, baixa, quase cúmplice.
O toque, mesmo se prolongando, não foi invasivo. Era como se, por um instante absurdo, o universo inteiro tivesse apertado o pause — apenas para que ela sentisse o calor da pele dele contra a sua. E agora, deitada no próprio quarto, ela não sabia o que fazer com isso, era uma nova informação, um novo sentimento que precisava encarar. A ponta dos dedos roçava, distraída, o tecido do próprio moletom, como se buscasse ali a lembrança daquele contato, algo que nunca tinha sentido antes.
Nunca havia realmente se interessado por alguém dessa forma.
Principalmente devido à sua timidez e escolha pela educação em casa.
O peito parecia pequeno demais para comportar aquela mistura desconfortável de ansiedade, curiosidade e um entusiasmo quase infantil. Era ridículo. Patético, até. Mas inegavelmente real. Mordeu o lábio inferior, franzindo as sobrancelhas, como se pudesse conter o sorriso bobo que ameaçava escapar.
— Isso não pode estar acontecendo... — sussurrou para si mesma, apertando um travesseiro contra o rosto, na tentativa falha de sufocar o próprio coração, que parecia bater alto demais.
Pela primeira vez na vida, estava tropeçando — não em livros, nem em escadas — mas em algo muito mais complexo: o desconhecido território de se apaixonar.
Mãe e filha apenas se encontraram horas mais tarde.
O céu de Londres estava encoberto, mas a vista da varanda continuava deslumbrante, devido à presença do parque. O silêncio as rodeava enquanto Margaret servia chá em uma porcelana antiga, pintada à mão, uma herança que vinha da avó dela. Ambas sentadas nas cadeiras suspensas que penduraram no teto, um cantinho preparado com todo o zelo para lhes proporcionar momentos de comunhão e conforto.
— Lembra de quando você achava que chá de verdade era só aquele de saquinho? — comentou, enquanto sorria, ao entregar uma xícara à filha.
riu, levando a xícara aos lábios.
— Derbyshire não era exatamente o centro da sofisticação, mãe — comentou a realidade de uma cidade do interior.
ajeitou os cabelos com aquele gesto elegante e delicado, que parecia automático.
— Não, mas era nossa zona de conforto — respondeu, voltando o olhar para o horizonte enquanto se acomodava na sua cadeira. — Sabe, às vezes me pergunto se fiz certo em aceitar a proposta de sua tia, combinada à insistência do seu pai… E nos mudarmos para Londres.
abaixou a xícara, apoiando-a no joelho.
— Como disse em nossa vinda de carro para cá, precisávamos de um recomeço. Respirar o ar poluído de uma cidade como esta... Viver algo a mais — completou.
Margaret assentiu, apertando a mão da filha.
Um olhar de ternura e cumplicidade.
— Você tem razão. — Respirou fundo, o ar pareceu fazer seus pulmões exalarem uma sensação dolorida, decorrência do choro no banheiro. — Às vezes, a vida exige que a gente se jogue no desconhecido, sem saber qual alvo vai acertar… Mas o que importa é que estamos juntas.
sorriu, e por um instante, não eram mãe e filha — eram duas mulheres, duas almas se protegendo do mundo.
— Sim… Estamos juntas!
Os sentimentos que eu tenho escondido
Ainda permanecem como uma memória dolorosa
E nosso relacionamento se transformou
Apenas em uma história triste.”
- Goodbye Summer / F(x) (feat. D.O)
O anfiteatro era amplo.
As janelas altas deixavam a luz cinza de Londres adentrar em feixes suaves, quebrados pelos vitrais coloridos. O cheiro de café recém-feito, misturado ao de papel novo e ao leve aroma de chuva que sempre parecia pairar no ar da cidade, dava ao ambiente um tom confortável, quase íntimo. acomodou-se na terceira fileira, próxima à janela, ajeitando o caderno de anotações sobre o colo. Como ainda faltavam vinte minutos para iniciarem, ela retirou o livro da leitura atual da bolsa. Um breve momento em que continuaria sofrendo a prisão injusta e cruel de Edmond Dantès, em O Conde de Monte Cristo.
— Para aqueles que ainda não se acomodaram, a hora é agora. — Uma voz feminina e entonada despertou-a de sua concentração.
Logo o olhar da jovem direcionou para a frente, com o levantar da cabeça. O título da disciplina brilhava no quadro digital que se transmitia pelo datashow, seria a primeira aula de História da Arte e do Design da semana, em plena quinta-feira pela manhã.
Soltou um suspiro.
Não de cansaço ou tédio, pois amava a disciplina em questão e sentia lá no fundo o otimismo que cultivava internamente que aquela aula seria como um refúgio para todas as suas intempéries acadêmicas.
Um lugar seguro.
O som de passos firmes ecoou pelo chão de madeira polida, e a voz da professora — uma senhora elegante, de cabelos curtos e olhos de quem já viu o mundo — voltou a soar com propriedade.
— Bom dia, turma, sou a senhora Brown. Antes de começarmos, quero apresentar a vocês nosso ponto de apoio dessa disciplina, a pessoa que irá auxiliar nas atividades práticas ao longo do ciclo letivo — informou ela, com entusiasmo de quem sabe que os alunos novos irão se perder logo na primeira semana de aula, por sua muita experiência acadêmica. — Nosso monitor, que está nos semestres finais do curso de Design de Produto, é um dos melhores da sua turma e da universidade...
direcionou seu olhar para o caderno em cima da mesa, ambicionava já fazer as primeiras anotações com as informações que poderia precisar posteriormente. Desligou-se por um segundo do discurso da professora, já que sua mente, involuntariamente, voltou ao ocorrido de segunda na livraria. Uma sensação agridoce com uma pitada de nostalgia, que lhe fez desejar voltar no tempo para reviver o pequeno instante de sua vida, que poderia ser equiparado com os fascinantes romances vitorianos que pulsam forte o coração. A imagem fixa do olhar do garoto da livraria paralisou-a em uma recordação envolvente que deu passagem a uma leve brisa pelo corpo.
— Classe, este é Bennett! — finalizou a professora.
O mundo parou assim que o sobrenome Bennett chegou aos seus ouvidos.
Sua cabeça deu um nó instantâneo.
A caneta escorregou dos dedos.
Não.
Não poderia ser, Bennet era um sobrenome comum.
Mas, claro, era.
Ao erguer os olhos, encontrou aquela mesma silhueta descontraída, aquele mesmo andar seguro, aquele mesmo olhar que parecia sempre carregar alguma coisa não dita — algo que estava entre o mistério e a curiosidade genuína. subiu os poucos degraus até o centro do anfiteatro, apoiou-se casualmente na borda da mesa da professora cruzando os braços, e deixou que o olhar varresse a turma para gravar os rostos.
Ele possuía uma boa memória fotográfica.
Por um segundo, seus olhos passaram por ela sem se fixar, voltando com frequência, a ponto de deixá-lo intrigado consigo mesmo. Lembrava tanto do rosto quanto do sorriso da garota desastrada da livraria, garota esta que despertou certa curiosidade inesperada de sua parte. Um meio sorriso apareceu no canto da boca dele.
Discreto.
Quase imperceptível, mas estava lá.
— Bom dia, calouros — disse, com aquela voz grave e ponderada que ela lembrava bem demais. — Podem me chamar de Bennett, é assim que todos me chamam, auxiliarei as atividades, workshops, e, provavelmente, também respondendo às dúvidas que não vão ter coragem de perguntar em voz alta. Apesar da senhora Brown ser a professora mais gentil do campus.
Uma risada suave percorreu a sala.
A professora sentiu-se mais uma vez lisonjeada pelos elogios de seu pupilo, que sempre se tornava o destaque de sua aula mesmo sem o desejar. Era um fato que a popularidade de Bennett em toda a universidade arrancava tantos suspiros quanto inveja. O mais curioso, é que ele não havia se esforçado para tal acontecimento, apenas por sua postura prestativa, o sorriso singelo que encantava as garotas e a forma descontraída como conduzia um assunto em conversas, já demonstrava por si só. Além da aura misteriosa que o rodeava sobre o fato de pertencer a uma família da elite e, ainda assim, trabalhar em uma livraria pequena, ser voluntário na biblioteca e fazer trabalhos acadêmicos por dinheiro.
Uma rotina em que apenas bolsistas se matavam para sobreviver.
mantinha o queixo erguido, tentando parecer absolutamente inabalável, alheia à sua presença como se não o conhecesse, ou se lembrasse do ocorrido que trouxe inúmeras inquietações ao longo da semana, ainda que seu coração pulsasse tão alto que parecia capaz de ecoar no anfiteatro inteiro. percorreu o olhar pela quarta vez em todo o ambiente como se fingisse não ter acabado seu reconhecimento inicial.
— Estou à disposição — finalizou com um sorriso de canto. — Espero que possamos trabalhar bem juntos.
Os olhos dele encontraram os dela no final da frase.
A pausa era sutil, soando uma profundidade que impulsionou uma sensação gostosa de aconchego, arrepiando-lhes os pelos da nuca. Algo nunca sucedido com o rapaz, deixando-lhe ainda mais intrigado com a jovem que detinha seu olhar, e confuso com o evento em questão. A professora retomou a palavra, começando a aula, falando sobre o impacto dos movimentos artísticos no desenvolvimento do design moderno.
Contudo, ainda que fosse sua matéria favorita, mal conseguia se concentrar.
O nome dele expandiu-se em sua mente como tinta derramada sobre a água, se misturando e formando sua própria tonalidade uniforme e única.
Bennett.
Por que Bennett? — pensou consigo mesma.
Por que um sobrenome que referenciava um de seus romances favoritos de Jane Austen? Por que logo Orgulho e Preconceito? Por que fazê-la lembrar-se de Mr Darcy em toda sua aura de mistério e charme, que carregava um toque aveludado de veemência e uma arrogância involuntária, envolta em silêncios que diziam mais do que palavras poderiam? Logo o som em sussurro chegou ao seu ouvido: “Cuidado”, em uma mesma entonação que vivenciou na livraria, fazendo-a se perder ainda mais em seus devaneios, esquecendo-se de onde estava.
Será que as próximas aulas seriam assim também?
não estava pronta para tal sentimento, não estava pronta para apaixonar-se por um desconhecido que apenas lhe amparou em um de seus momentos desastrosos. Reconheceu, sem querer, aquele tipo exato de fascínio que tanto lia em muitos personagens, de característica semelhante ao protagonista da autora que tanto admirava, e que jamais se imaginou viver. Um magnetismo que nasce no desconforto, no olhar que se desvia tarde demais, no toque que dura milésimos de segundo e, mesmo assim, deixa marcas na memória. Por que ele tinha que ser, aparentemente, o tipo de homem que seus livros lhe deslumbravam, e também secretamente a receava?
Pois viver a intensidade de um sentimento era perigoso.
Ao final da aula, sentiu a iminente aproximação de . Será que ele intencionava puxar assunto e revelar ser o garoto da livraria? — pensou consigo mesma, ainda atordoada com a tempestade de pensamentos e reflexões que a imobilizou durante a aula. Em um movimento rápido e preciso, juntou suas coisas dentro da bolsa e saiu do auditório apressadamente enquanto colocava os fones no ouvido, fingindo estar escolhendo uma música no aplicativo.
Alguns minutos em passos aleatórios pelo corredor, sem direção e em total processo de busca pela razão, a paralisia mental de foi quebrada por um som ao longe. Som este que aos poucos foi se transformando na voz de sua nova amiga, a quem uma energia agradável para se estar perto.
— ! ! — A voz era inconfundivelmente de Sophie.
Uma tagarela e também caloura do curso de design de moda, que tinha muitas matérias em comum com a jovem em sua grade curricular. De estilo hipster e alguns dreads no cabelo, suas inspirações sempre vinham dos movimentos urbanos do streetwear, um dos motivos para querer se especializar na área de editorial e produção de moda, com o intuito de proclamar ao mundo todas as vozes anônimas que as ruas oferecem para aquele universo tão elitista que era a moda.
— Sophie?! — Retirando os fones do ouvido, olhou-a, confusa. — O que faz no prédio de Humanas? Não tinha aula de desenho de moda agora?
— Tinha sim, mas, como sou tão boa, resolvi sair mais cedo. — Sua falsa modéstia era admirável.
— Hum… — um murmúrio inocente, desviando o olhar para frente, vendo com um grupo de amigos.
Virando-se de costas, ela desejou ficar invisível de imediato.
— Não vai acreditar no que aconteceu — disse com os olhos orgulhosos de quem conquistou o Nobel da Paz.
— Surpreenda-me — pediu, sem a mínima vontade de saber, mas dando o primeiro passo para seguir o caminho contrário do que deveria ir.
Em apenas quatro dias, ambas ficaram tão próximas em um curto espaço de tempo, que pareciam se conhecer desde a infância. E muito da interação de ambas se dava pela necessidade fatídica que Sophie tinha de falar, em muitas das vezes, sobre todos os assuntos ao mesmo tempo. Algo que dificultava acompanhar seu raciocínio com frequência.
— Tenho dois convites dourados para a festa proibida do Secret Circle — anunciou como se a conquista fosse quase um convite para um baile com a realeza britânica.
— E isso é bom?! — A inocência soou na voz de .
— Amiga, isso é maravilhoso, é a nossa chance de entrar para a elite do King’s College — explicou ela, enfatizando a importância da oportunidade. — O Secret Circle é a sociedade mais influente e popular daqui, considerada uma perfeita Elite Society, a realeza.
— E por que deseja tanto entrar para essa sociedade? — indagou.
— Bons contatos no mundo de hoje abrem portas para pessoas de classe social mais humilde, como eu — esclareceu ela, abertamente, não tendo vergonha de suas origens.
— Entendi. — voltou ao lema de sua família.
Mesmo sua avó materna sendo um membro da alta sociedade londrina, influente no ramo das artes, com inúmeros contatos importantes em sua agenda, as filhas tiveram que trabalhar duro e se desdobrarem para mostrar serem capazes de vencer na vida sem utilizar do status da mãe.
E o mesmo aconteceria com a neta.
— Tem certeza de que quer que eu vá?! — indagou . — Certamente a Loren iria querer.
Mencionou a colega de quarto da amiga.
— A pessoa que me deu deixou explícito que o convite só será válido para mim, se você for também — contou sem rodeios.
O que deixava uma ponta de desconfiança por parte da jovem.
— Por que eu? — indagou.
— Não sei, mas… — Sophie abaixou o olhar, enquanto continuavam a caminhar, sentia-se culpada por aparentemente usar a nova amiga como degrau para o topo. — Me desculpe por te usar para ir à festa.
— Não tem problema, pelo menos foi sincera ao dizer o propósito de tudo. — Um sorriso gentil, e muita empatia acumulada. — Agora até eu estou curiosa para saber quem é essa pessoa que quer minha presença.
Será Bennett? — deslumbrou um pouco, sentindo um frio na barriga.
— Depois vou querer saber a fofoca toda — pediu a amiga.
— E quando será essa festa? — perguntou curiosa, já relembrando todos os compromissos familiares que tinha nos próximos dias.
— Na última sexta do ano letivo, para fechar com chave de ouro — respondeu. — Você vai poder ir, não é?
— Vou sim… — sibilou, reflexiva. — Acho que não terei nada de importante para fazer no final do terceiro trimestre.
No relógio marcava quatro da tarde.
O olhar de voltou para o relógio de luxo em seu pulso, contava-se a quinta vez que o pontual cavalheiro conferia as horas. Por dentro, o nervosismo lhe consumia a sanidade, mais uma reunião privada e informal com a quase ex-esposa para discutir os termos do divórcio. Sua inquietação a respeito do assunto vinha da forma em que as circunstâncias seguiam em perfeita calma e ordem. Algo inesperado e metaforicamente ensurdecedor para ele, que imaginava certa resistência de às suas diretrizes.
E sentia-se frustrado por isso.
— Não estou atrasada. — A voz da mulher atrás dele assustou-o.
Sua reação discreta foi complementada por um suspiro fraco.
— . — Levantando-se com rapidez, puxou a cadeira da frente para que ela sentasse.
Sempre cavalheiro, não importava a situação.
— Obrigada — disse ao se acomodar na cadeira.
— Como está indo a semana? — perguntou ele, interessado em saber as atividades que vinha desenvolvendo.
Agora com a distância, a crescente curiosidade para saber como eram seus dias reverberava dentro dele, em uma proporção desconhecida e perigosa. Estavam sentados em uma cafeteria de prestígio na região de Hyde Park, chamada Coffee House, um dos muitos locais de Londres que tinham em comum. Este, em especial, havia sido o palco para o pedido de namoro em sua adolescência.
— Produtiva e agitada — respondeu prontamente enquanto deslizava a mão direita no rosto, ajeitando o cabelo atrás da orelha. — Não achei que aconteceria, pensei que seria monótona, mas focar no trabalho tem suas vantagens em alguns casos… Acho que estou começando a te entender agora.
Soou leve, porém ele sentiu como uma alfinetada.
Ou melhor, como milhões de alfinetes perfurando seu orgulho grotesco.
— Que bom que a mudança tem surtido um efeito positivo. — Manteve a seriedade no olhar e firmeza na voz, como sempre, sem dar o braço a torcer. — Falei com nossa filha ao telefone, ontem.
— Ela comentou comigo — informou. — Faz toda a diferença para que continue presente em sua vida.
Ainda que seja doloroso para mim vê-lo com frequência — pensou , em seu íntimo.
— Jamais me distanciaria de nossa filha… — A clareza em sua declaração trouxe segurança para ela. — Apenas me preocupo se…
Ponderou no falar, interrompendo sua sequência de palavras.
— Se? — insistiu a mulher.
— Se lhe causará algum tipo de desconforto — completou a fala, forçando sua saída.
— Somos adultos, , e você jamais vai deixar de ser o pai da minha filha — esclareceu ela, demonstrando a maturidade adquirida ao longo do casamento.
— Apenas deixarei de ser o amor da sua vida. — Sua pretensão era soar como um simples resmungo de baixo volume, para que ela não ouvisse, entretanto, a entonação o traiu, fazendo ressoar como um desabafo sufocado.
— Vamos mesmo voltar a este assunto?! — indagou, sentindo o coração apertar, ao reconhecer o olhar do homem à sua frente, aquele olhar que lhe pedia colo quando as coisas saíam do seu controle. — Devo colocar em evidência, novamente, quem foi o precursor de toda essa mudança? Quem pediu o divórcio?
manteve um silêncio estarrecedor para si, pois não havia argumentos para rebater. Ele, que era o senhor dos argumentos afiados e fundamentados, apenas engoliu a seco a verdade, sentindo a garganta arder no processo.
Mas por que ela aceitou com tanta facilidade? — indagou mentalmente.
Ambicionava externar aquela pergunta, mas não sentia que deveria, pelo fato de evitar mais brigas desnecessárias entre eles. Uma promessa de bandeira branca havia sido feita, pelo bem da filha que compartilhavam.
— Aqui está o pedido, senhor Blackwood. — disse o garçom, ao quebrar o ambiente de gelo imposto aos dois, ao servi-los.
Um expresso sem açúcar para ele, juntamente com um copo de água com gás, algo que costumava pedir todas as vezes naquela cafeteria, tanto que até o funcionário sabia de cor suas preferências. Para ela, um cappuccino caramelo, seu favorito, combinado a uma fatia de torta de limão, com gosto de passado.
— Quando fez o pedido?! — indagou a mulher, surpresa.
— Minutos antes de chegar — respondeu, seco e áspero dessa vez.
Ainda digeria as palavras dela, afinadas como a lâmina de uma adaga.
— E como sabia que eu pediria o que pediu? — Sua curiosidade continuou.
— Certas coisas nunca mudam. — Uma resposta enigmática, mas com profundidade de alguém que a conhecia com precisão.
E ela sabia disso.
— Hum. — Não queria, mas a ponta de um discreto sorriso surgiu no canto do rosto.
Percebido por ele.
— Trouxe os documentos para ler e fazer suas considerações — disse após um suspiro profundo, seus dedos tocaram a pasta que estava pousada em cima da mesa, empurrando com suavidade para ela.
— Achei que a última fosse a versão final — comentou ela, não muito surpresa com aquilo.
Parecia que, a cada revisão, ele encontrava um erro que não existia, apenas em sua mente. E prolongar a assinatura dos papeis havia se transformado em um gatilho regado a angústias, que causava ansiedade desnecessária. A ambos.
— Sabe como sou perfeccionista em tudo o que faço — alegou ele, em sua defesa, achando ter encontrado a desculpa mais lógica para a sua demora. — Além do mais, você é a mãe da minha filha, a tenho como uma grande amiga e não quero…
— Já disse que apenas vou aceitar a metade do que criamos juntos, o que não tiver o meu suor, pertence apenas a você e a nossa filha, que é sua herdeira legítima — cortou ela, com objetividade. — Sabe muito bem dos meus princípios e de como eu fui criada.
— Jamais me esqueceria do lema de sua família — assegurou .
Meritocracia acima de qualquer interesse pessoal!
— Então por qual motivo vamos revisar esses documentos novamente? — questionou, deixando exalar sua impaciência.
— Já disse, sou perfeccionista — reforçou.
respirou fundo, tentando juntar o máximo de força que conseguia.
Primeiro, para se autocontrolar e não socar a cara dele de raiva por toda a situação criada, e segundo, para não desfalecer em sua frente pelo coração que se mantinhaacelerado enquanto estavam perto um do outro. As pernas balançando constantemente não era por hiperatividade, e sim, por seu corpo estar trêmulo pelo olhar intenso que reverberava dele.
— Tudo bem. — Suavizou o olhar. — Eu lerei novamente e farei minhas considerações.
— Faça isso com calma, não precisa ter pressa — aconselhou ele, porém quase soando como uma ordem.
— Não estou com pressa — retrucou, e com serenidade. — Não fui eu quem pediu o divórcio.
Agora sim.
Seu tom irônico fez o trabalho que deveria fazer, trazendo novamente um gosto amargo na boca de , que fora disfarçado pelo café em sua xícara.
¿Cómo calmar esta profunda obsesión?
¿Cómo le explico a mi alma que se terminó?
Me estoy volviendo loco por ti
- Este Corazón / RBD
Londres - Mayfair, outono de 2022
A luz suave do fim da tarde entrava pelas janelas altas do estúdio, iluminando as caixas espalhadas pelo ambiente. Mesmo com a reforma em sua fase final, ainda tinha muita coisa para colocar no lugar até a noite de reinauguração. Após a partida da irmã, que tinha mais um de seus compromissos noturnos com encontros casuais nos pubs que frequentava, estava analisando a planta baixa atualizada da galeria. Um olhar concentrado e calmo, mas a atmosfera parecia carregada, como se palavras não ditas flutuassem no ar, lutando constantemente contra as lembranças do encontro com naquela tarde.
O divórcio.
Não tinha tido a coragem de abrir a pasta para ler a nova versão daquele documento que simbolizava seu choro pelas madrugadas. E protelar parecia a melhor forma de resguardar seu coração de mais angústias e frustrações.
— Acho que aqui… Podemos situar o espaço de convivência. — Observou bem as dimensões dos ambientes.
Insatisfeita com a proposta final da decoradora contratada e por suas pequenas noções de design de interiores, resolveu tomar a frente, puxando aquela responsabilidade para si. A estrutura do prédio contava com dois pavimentos, no qual o térreo de pé direito duplo era agraciado com o amplo mezanino. Toda a sua extensão serviria para o espaço da galeria, deixando o andar acima para a parte administrativa. A sala de curadoria seria a única a se localizar no térreo, juntamente com os espaços expositivos e o jardim a estilo provençal, que resultaria no espaço de convivência — assim como também o ponto estratégico para realizar os eventos mais promissores e lançamentos das exposições.
— Mudar o salão secundário expositivo para o mezanino, no qual ficará as peças fixas de acervo pessoal… Acho que os banheiros poderiam continuar onde estão para não mexer na estrutura existente, mas terei que pensar em um hall de espera em frente… — continuou ela, passando os olhos entre as pranchas, montando um desenho em 3D na cabeça enquanto anotava as mudanças na agenda. — Uma escultura aqui e um quadro aqui, ficaria legal.
Era empolgante aquela parte do planejamento.
E já que faltavam exatas três semanas para a reinauguração, o segredo para o sucesso do evento estava exatamente nos detalhes.
— Três semanas é muito pouco… Quase impossível — sussurrou ao perceber que havia muito a ser feito. — Meredith foi imprudente em colocar uma data oficial sem analisar a situação real do processo.
Na empolgação de suas ideias, ela começou a cantarolar um pouco enquanto rascunhava de lapiseira por cima das plantas contidas nas pranchas técnicas. Seu momento de solitude no trabalho durou poucos minutos, até que a presença de sua filha invadiu o espaço.
— Mãe? — sua voz soou quase tímida.
Margaret parou de imediato, erguendo seu corpo lentamente, procurando-a com o olhar. A mãe estava no mezanino, diante de uma mesa com estrutura em madeira maciça, de nogueira nobre envelhecida e envernizada com base de vidro temperado, um dos poucos móveis de relíquia que restou da reforma.
— Estou no mezanino! — elevou a voz para que a ouvisse.
Logo os passos da jovem foram ouvidos ao subir os degraus da grande escadaria, uma bela estrutura que ficava bem ao centro, diante da porta de entrada, com o propósito de dar ao lugar mais charme e imponência, além de despertar a curiosidade dos visitantes para acessar o acervo pessoal da galeria. sorriu com leveza, um olhar aconchegante de ternura para a filha.
— O que faz na galeria? — perguntou, em um tom suave, mas carregado de curiosidade.
retribuiu o sorriso com outro.
— Fiquei até mais tarde estudando na biblioteca da universidade — contou ela, em sua explicação. — Quando dei por mim, já era tarde, então vi sua mensagem e, como estava na rua, pensei em passar aqui para voltarmos juntas pra casa.
— Será um prazer ir para casa com você, mas terá que me esperar mais um pouco, preciso finalizar meu raciocínio aqui para mostrar para sua tia — pediu a mãe, esperando compreensão. — Amanhã bem cedo tenho uma reunião com alguns fornecedores e sábado vamos às compras da nova mobília da galeria.
— Sábado? — indagou a jovem, surpresa.
— Sim, o tempo não espera por ninguém e só temos três semanas para o grande dia — respondeu, enfatizando a urgência. — Acho que se eu não tivesse aceitado a proposta de sua tia e vindo para Londres, ela não iria conseguir concluir esse projeto.
— Tia Meredith é um tanto empolgada e nada organizada — comentou.
— Sim, de fato ela é mesmo… Algo do qual me irrita às vezes — confessou, soltando uma risada, por lembrar-se das muitas vezes que passou nervoso com a irmã.
— Hum — riu junto.
— E a senhorita está mais do que convocada a participar — advertiu ela, não dando margens para recusa.
— Posso me encontrar com vocês lá? — retrucou.
— Onde pretende ir antes? — O olhar curioso se manteve na filha, imaginando que pudesse ter algum compromisso marcado com as novas amizades que conquistou na primeira semana de aula.
— Papai me convidou para um brunch, estilo pai e filha — respondeu com naturalidade.
deu mais alguns passos até a mãe, a fim de bisbilhotar um pouco as pranchas arquitetônicas. Ficou impressionada com tantos rabiscos e anotações que ela fizera. Sabia que tinha um fascínio pela área, mas não imaginava que seria a ponto de se aprofundar tanto.
— Uau! — disse a filha.
— Acredite, estava pior no início da semana. — soltou uma gargalhada boba e mudou de assunto. — Alguma ocasião especial para seu pai te convidar para um brunch?
— Quer saber se seremos apenas nós dois? — retrucou ela, já imaginando a intenção da mãe naquela pergunta.
— Não é da minha conta. — Desviou o olhar, disfarçando o ciúme em forma de curiosidade.
— Segundo o papai, vamos ter um momento ao ar livre no London Golf Club, com direito a um brunch — explicou ela, não respondendo com clareza. — Se terá mais alguém envolvido, não conseguiria te dizer.
— Nem quero que me conte amanhã — pediu.
Contudo, internamente a filha sabia que ela queria sim.
Ambas retornaram ao apartamento, com altas expectativas para o dia seguinte. Na manhã seguinte, enquanto a filha iria desfrutar de mais aulas interessantes e inspiradoras, da qual lhe transmitiam a certeza de seu acerto pelo curso de design gráfico, teria mais um longo dia com a irmã, regado a trabalho, preocupações e cálculos para assegurar que o orçamento não fosse ultrapassado pelas loucuras da irmã.
— Não se esqueça do encontrinho da Cindy — disse Meredith, assim que estacionou o carro, em frente ao prédio da irmã.
Ela sabia que acharia qualquer desculpa para não comparecer ao evento, com a desculpa dos preparativos da galeria. Contudo, no fundo, a caçula não queria cruzar com seu ex-marido, seu coração nem mesmo havia se recuperado do dia anterior. E, para ela, era surreal pensar que estava vendo seu marido com mais frequência, agora que estavam em processo de divórcio, do que antes, quando seu casamento ainda se mantinha na rotina.
E seu coração seguia em aperto e agonia.
— Preciso mesmo ir? — Uma pergunta inocente, com gosto de: já sei a resposta.
— Nem vou me dar ao trabalho de te responder. — Meri a acompanhou com o olhar enquanto saía do carro. — Passo aqui para te pegar às oito e meia.
— Precisa ser tão tarde assim? — indagou.
— É sexta à noite, baby! — Uma gargalhada maldosa veio da primogênita.
— Nós temos um compromisso amanhã, baby — retrucou ela, em um tom singelo de repreensão, lembrando-a que a vida não era apenas diversão.
Principalmente tratando-se de suas responsabilidades profissionais.
— Até mais tarde. — Meredith deu de ombros, apenas ansiando pela diversão de logo mais, então deu partida no motor.
Um suspiro cansado.
Ela teria algumas horas para preparar seu coração para um possível encontro. Certamente, não deixaria de prestigiar o aniversário da esposa de seu amigo de infância. Cindy havia se juntado ao grupo de amigos logo após mudar para o London Elite Constance High School, e, logo na primeira semana, seu jeito extrovertido lhe proporcionou fazer amizades com as irmãs Carter.
Ao adentrar seu apartamento, seguiu diretamente para o banheiro, talvez um banho relaxante, além de limpar seu corpo cansado pela tarde exaustiva de reuniões e trabalho, limpasse também os inúmeros pensamentos que se formaram com o propósito de deixá-la ainda mais desnorteada. Após sair do banho, retornou ao quarto enrolada na toalha, pensativa em qual look usaria para a ocasião.
— Passei na biblioteca antes de voltar para casa, chego em alguns minutos — sussurrou ela, ao ler a mensagem da filha.
Ao passar pela porta do pequeno closet, passou os olhos pelas roupas penduradas pelos cabides, devidamente separadas por cores. Seu coração ardia de ansiedade para algo que ela racionalmente não queria: vê-lo pela quinta vez em menos de uma semana. Minutos de indecisão, até que optou por um vestido plissado verde musgo de tamanho mídi e manga curta, sua frente contemplada com um decote V que a valorizava com uma certa elegância. Suas noções de moda arrancavam inveja até mesmo da irmã, que havia aprendido com ela os muitos truques para ser sexy sem ser vulgar, utilizando das vestimentas corretas para cada ocasião.
E para uma noite refrescante de verão, sua escolha era perfeita.
O som abafado de risadas, taças tilintando e música ambiente preenchia cada canto do Mystic Moon, um dos pubs mais icônicos e modernos de Notting Hill. Muito procurado pelos adultos cansados dos dias corridos e badalado entre os universitários em busca de aventuras passageiras. Entre as paredes de tijolinho tomadas por esculturas de aço corten, havia pendentes de estilo industrial, luzes âmbar e madeiras envelhecidas misturadas à arquitetura que predominava o cimento queimado. As irmãs Carter, após chegarem pontualmente às nove da noite, no ápice do happy hour, estavam sentadas em uma mesa generosamente ocupada, cercadas pelos velhos amigos da época da universidade, brindando à vida.
Mais especificamente, ao aniversário de Cindy, uma amiga em comum.
, em sua elegância, segurava uma taça de vinho branco, deixando transparecer um sorriso genuíno, do qual não sabia de onde havia retirado. Meredith, ao seu lado, com seu exuberante decote combinado ao vestido vermelho godê, exibia aquela segurança impecável de quem sabia exatamente quem era e o efeito que causava ao entrar em qualquer lugar. As conversas corriam leves, misturadas às gargalhadas descontraídas, até que algo no ambiente pareceu deslocar-se.
Um silêncio sutil, quase imperceptível, tomou conta dos segundos seguintes. Meredith percebeu antes da irmã e tentou disfarçar, sem sucesso. Seus olhos percorreram, discretos, até a entrada do pub, sendo seguidos pelos dela.
E lá estava ele.
Blackwood.
Vestindo seu habitual terno risca giz preto de alfaiataria, impecável, gravata afrouxada no pescoço, a mão pousando com naturalidade nas costas da mulher que o acompanhava — jovem, loira, de um tipo clássico e previsível, trajando um vestido preto que gritava “sobriedade elegante com pretensões discretas”. O sangue de pareceu esfriar por um segundo, assim como seu coração pareceu esquecer que tinha que continuar batendo. Seus dedos apertando de leve a haste da taça, o sorriso anterior que tanto se esforçava para manter diante da conversa fluida dos amigos, morreu na garganta.
Substituído por um silêncio que só ela parecia ouvir.
— Quanta ousadia. — Meredith murmurou, levando o copo aos lábios com uma elegância cruel. — Não acredito que ele foi corajoso o bastante para vir acompanhado.
— Não me importo com isso — em sussurro, ela deu de ombros, voltando o olhar para a taça em sua mão.
Mas não se conteve em mordiscar o lábio inferior.
Inconscientemente, seus olhos retornaram para a direção proibida, permanecendo cravados naquela cena que, de alguma forma, parecia pertencer à outra vida — uma que ela achava que já tinha deixado para trás, mas que agora estava à porta, batendo com força. O olhar de , inevitavelmente, encontrou o dela. Por um breve, desconfortável e elétrico segundo, o mundo pareceu inexistente ao redor de ambos.
Olhares que diziam tudo o que a boca não teria coragem de pronunciar.
Saudade. Mágoa. Orgulho.
E algo ainda mais profundo, enraizado em tudo aquilo que nunca foi dito. Ele piscou, quase imperceptível, desviando o olhar com a elegância contida de quem sabe que está sendo observado. Meredith, afiada em acompanhar toda a cena com discrição para que nenhum dos amigos percebessem, arqueou uma sobrancelha, soltando um sorriso que beirava a ironia.
— E pensar que ele ainda sabe escolher bem... ou, ao menos, escolher algo... substituível — disparou, olhando diretamente para a nova companhia de .
respirou fundo, endireitando-se na cadeira, cruzando as pernas como se, naquele gesto, pudesse alinhar também o próprio coração. Não era o homem que dizia não ter ninguém, agora na sua frente com uma mulher aparentemente de alta classe.
— Confesso que agora me vejo confusa — respondeu, com um meio sorriso que não alcançava os olhos, muito forçado. — Estou surpresa.
Cindy, a aniversariante, ao olhar a amiga, logo percebeu a presença que faltava se aproximando da mesa, então, para aliviar as possíveis tensões, puxou um brinde improvisado. Contudo, mesmo que todos, exceto os envolvidos, mantivessem a naturalidade da comemoração alheios dos bastidores, havia ali agora, uma camada invisível de passado, orgulho ferido e sentimentos que, por mais que tentassem disfarçar, jamais seriam totalmente esquecidos.
— Tem certeza de que não deseja participar? — indagou , ao parar com a mulher na área do bar.
— Não quero atrapalhar a comemoração dos seus amigos, ainda mais com meus problemas. — Ela forçou um sorriso de: está tudo bem. — Além do mais, sua esposa está sentada com eles.
— Sim, ela está. — engoliu em seco a realidade, pois em breve o vínculo que tinham iria se desfazer por completo.
— Certamente já estou causando um enorme desconforto a ela por minha presença aqui. Vejo isso no seu olhar para nós, então... — continuou a mulher, sabendo de toda a situação que ele enfrentava. — Não quero piorar as coisas.
— Sempre muito gentil — sorriu de canto, em uma sutil gratidão a ela, por todas as vezes em que demonstrou amizade sincera. — Vou cumprimentá-los, então, e ficarei aqui com você.
— Não faça isso — pediu, se sentindo um estorvo para ele naquela noite.
— Não adianta recusar. — Uma piscada de leve e ele se afastou dela, seguindo em direção à mesa dos amigos.
A cada passo de aproximação, um pulsar mais forte no coração da…
Esposa, ou ex-esposa?
— Boa noite a todos. — Mesmo expandindo para geral, seu olhar foi diretamente para quem importava.
— Finalmente o bonito apareceu — comentou Taylor, em risos.
A princesinha publicitária sempre teve um encanto por ele, o que nunca a deixou demonstrar plena felicidade pelo casamento dos amigos, afinal, ela era a namorada de , antes de ele conhecer a mãe de sua filha.
— Só faltava você, amigo — disse Gregory, ao se levantar para cumprimentá-lo à sua moda. — Não vai nos apresentar a sua amiga?
O olhar de nem se moveu com aquilo, permanecia fixo em , que internamente se sentia ainda mais vulnerável pela situação. Um ardor em sua garganta a deixava com a sensação de um grito preso e sufocante.
— É uma amiga do trabalho que precisa de um momento de solitude — explicou ele, tentando deixar claro a parte do “amiga”. — Vim apenas cumprimentá-los e dar um abraço na Cindy.
retirou uma pequena caixa do bolso do terno e entregou a ela. Cindy, em seu jeito extrovertido, pegou a caixinha e, ao abrir, encantou-se com o par de brincos agraciados com uma pequena pedra de esmeralda. Um abraço genuíno e alguns comentários dos amigos.
— Vejo vocês em uma próxima oportunidade. — Sua voz manteve o habitual tom sério e frio, porém, com traços de serenidade.
— Achei que sua amiga precisasse de um momento de solitude. — A voz de soou com tanta naturalidade, que ela só se deu conta do que tinha dito segundos depois de terminar.
Sentiu um frio na barriga de imediato, seu rosto queimou de vergonhosa pelos olhares lançados em sua direção. O coração disparado sem saber como reagir aos ciúmes que tinha externado com tanta facilidade, apesar das muitas vezes que lhe faltam palavras para expressar a dor sentida desde a noite que resultou no pedido de divórcio.
— Deseja conhecê-la? — instigante, estendeu a mão para ela.
Todos os presentes arregalaram os olhos, impressionados com o que presenciaram.
O senhor e a senhora Blackwood eram tidos como o casal perfeito. A química entre eles era visível e em algumas oportunidades, palpável. De uma amizade regada a competições internas por parte dele, nasceu um amor singelo e puro, que os levou ao casamento precoce por suas noites e finais de semana, de travessuras sem proteção.
— Será um prazer — disse , ao se levantar da cadeira.
Causando espanto em sua irmã.
Ela já havia tomado alguns goles do seu drink, algo que lhe deu coragem para encarar seus temores momentâneos. Sendo conduzida pelo ex-marido, ambos seguiram até o bar, no qual a mulher em seu momento de autorreflexão, tomava o primeiro gole do drink que pediu.
— Josephine, quero que conheça a minha… Esta é a . — Não fora proposital que tivesse engolido aquelas palavras, mas por não saber em qual nível a situação se encontrava. — , esta é Josephine Partners, minha sócia do escritório.
— É um prazer conhecer a famosa . — Um sorriso gentil surgiu de seus lábios. — Charlie passa o dia no escritório falando de você.
— Ah… — pega de surpresa, encontrou-se sem reação ao voltar o olhar para ele, que mantinha o rosto sereno de quem não devia nada no cartório.
Seu rosto, que já queimava de vergonha por ter ido até o bar, pareceu derreter diante das palavras da mulher. A ansiedade, misturada à frustração, deixou-lhe com falta de ar por segundos, fazendo seu corpo afastar-se involuntariamente para longe deles, seguindo a passos rápidos e precisos em direção à saída.
O que ela estava fazendo? A quem desejava enganar? A si mesma?
Suas emoções internas pareciam debater com seu lado racional. O que estava fazendo saindo do pub com tanta pressa assim? Deixando os amigos e a irmã em meio à uma comemoração. Era como se assinasse uma sentença que a declarava culpada por ainda amar o, até então, marido, e sentir ciúmes ao vê-lo ao lado de uma mulher, agora não mais misteriosa. Do pouco que sabia sobre a família Partners, apesar de nunca os ter visto pessoalmente, o relacionamento do casal parecia bem sólido e estável.
Chegando à rua.
— ! — a voz de chegou, seguida de sua mão direita que a parou no meio do caminho, virando-a para ele. — Quem achou que ela era?
Direto e preciso como sempre.
Não gostava de rodeios em suas palavras.
— Me deixe, . — Mantendo seu olhar abaixado, evitava olhá-lo para não sucumbir aos sentimentos que reprimia, tanto quanto as lágrimas no canto dos olhos.
— Não vai me olhar nos olhos?! — insistiu ele. — Perguntar o motivo dela estar aqui?!
Continuou instigando-a nas perguntas que se mantinham instaladas em sua garganta. E ele a conhecia bem demais para deduzir cada uma delas.
— … — elevando seu olhar em meio ao sussurro, seu coração doeu ainda mais pelo arrepio em seu corpo com a profundidade que emanava do olhar dele. — Por favor.
— Minha sócia não teve um bom dia, recebeu um péssimo diagnóstico da médica de sua mãe e… — iniciou ele, ao relatar os reais fatos.
— Não precisa dizer nada — o interrompeu, sentindo a primeira lágrima escorrer pelo seu rosto.
A mão de tocou-a com suavidade, limpando a lágrima.
O silêncio entre eles daquela vez não se mostrou um desconforto. Entretanto, o sentiam como uma matéria viva. Uma ponte invisível sustentada por tudo o que foram, pelo que tentaram não ser e pelo que, apesar de tudo, ainda eram. não disse mais nada e nem precisava, seu olhar intenso a queimava por dentro. soube, no instante em que o homem se inclinou sobre ela, que qualquer tentativa de fugir seria inútil, e quando seus lábios se encontraram, não foi um gesto suave.
Foi uma colisão inevitável.
Um reencontro de saudades nostálgicas, de um orgulho ferido e um desejo reprimido de ambas as partes. Não houve permissão, assim como também não houve recusa. E parecia como uma urgência. Fome. Fúria disfarçada de amor. As mãos dele puxaram-na pela cintura, apertando-a como se precisasse ter certeza de que ela era real. Das muitas vezes que recordava seus momentos íntimos com a esposa, ansiando por repeti-los, o gosto sentido no momento era o mesmo de outrora, o gosto da doçura dos lábios dela.
respondeu na mesma proporção, cravando os dedos na nuca dele, sentindo a textura familiar dos fios, o cheiro inconfundível que nenhum tempo ou distância apagou. Mais uma vez o mundo ao seu redor dissolveu, o barulho dos carros, desconhecidos que passavam próximo, tudo virou ruído distante. A única realidade agora era aquele beijo, com o gosto agridoce da mágoa misturado com o sabor do que jamais deixou de ser amor.
Ao final, manteve seus rostos próximos o suficiente para um sentir a respiração ofegante do outro, internamente desejavam continuar com ainda mais intensidade. Tão próximos. Tão desejosos. Despidos de qualquer máscara.
— Por favor... — sussurrou ela, mais uma vez, não como pedido.
Havia um singelo tom de rendição.
O trajeto até o Mandarin Oriental Hyde Park foi um borrão de mãos entrelaçadas, silêncios densos e respirações presas. A suíte, no último andar, parecia ainda mais opulenta naquela noite. Seus vidros amplos refletiam as luzes de Londres, como se a cidade inteira fosse uma testemunha muda daquele retorno não planejado — mas absolutamente inevitável.
O som da porta se fechando foi a senha.
a puxou de volta para si, colando seus corpos, enquanto o paletó de seu terno era retirado com maestria por ela, seguidos pelos saltos de seus pés e a gravata no pescoço dele. Cada peça caindo ao chão, formando uma trilha precisa, como se fossem apenas obstáculos inúteis entre eles e a necessidade urgente de mergulhar naquele amor que jamais havia desaparecido. O quarto inteiro se tornou um cenário de memórias reacendidas — a cama, as paredes, o reflexo deles no espelho. Cada toque era uma confissão muda. Cada beijo, um pedido de desculpas nunca verbalizado. Cada suspiro, uma lembrança vívida de seus sentimentos.
Era amor, sim.
Mas não aquele amor sereno dos romances previsíveis. Era amor bruto, imperfeito, cheio de rachaduras e cicatrizes. Um amor que arde, que dói, que cura — e que, naquela noite, encontrou abrigo em dois corpos que, apesar de tudo, ainda reconheciam cada detalhe do outro. O toque sutil de que arrepiava-lhe por completo, os gemidos de que o deixava ainda mais ofegante, as carícias trocadas, regadas a malícia, que os aquecia em proporções inimagináveis.
O silêncio que os envolvia, permitia ouvir as respirações sincronizadas. Seus corpos se entrelaçaram no lençol desalinhado, os olhares encontrados enquanto retomavam o fôlego mais uma vez. Como havia chegado ali? não precisou perguntar mais nada. Nem ele precisou responder. Porque, ali, na entrega mais pura e contraditória, eles já haviam dito tudo.
Tudo.
Sem dizer uma única palavra.
Mas será que esta afirmação silenciosa sobreviveria ao dia seguinte?
Someone call the doctor.
- Overdose / EXO
Londres - Mayfair, outono de 2022
A luz invadia suavemente a suíte, filtrada pelas cortinas de linho claro. Um feixe de linhas douradas tocava o lençol desalinhado, aquecendo as memórias criadas da noite que, de tão intensa, parecia não caber mais na cronologia da vida real. despertou lentamente, notando rapidamente a diferença daquele colchão. Por um curto espaço de tempo, sua mente ficou em paralisia por não saber onde estava, até que o cheiro de seu marido impregnado nos lençóis, denunciou suas aventuras da madrugada.
— Pode continuar com os olhos fechados — a voz grossa e firme rescindiu o quarto, cortando todo aquele silêncio estabelecido pelo amanhecer. — Fingirei que ainda não acordou, e está envergonhada o bastante para me encarar.
Aquele tom que apenas seu corpo reconhecia em todas as entonações.
.
Ela respirou fundo, sentindo o rosto queimar de vergonha pelo que tinha acontecido entre eles. Como deixou-se chegar àquela situação de vulnerabilidade de uma forma tão boba e irracional? Bastava apenas dizer um não. Porém não havia forças nem mesmo para afastá-lo de perto. Mantendo-se com os olhos fechados, seu corpo apenas se encolheu entre os lençóis, e o coração acelerou assim que sentiu o impacto do corpo dele sobre o colchão, enquanto engatinhava até ela. O que mais ele queria? O que mais ele faria? Ela não sabia nem mesmo classificar as variadas emoções que lhe sufocavam internamente.
— Vou tomar um banho… — sussurrou ele, com mais malícia. — Aproveite esse tempo para vestir-se com rapidez e deixar minha suíte como uma adolescente que desaparece do quarto do namorado no dia seguinte, sem deixar nenhum bilhete… Prometo não atrapalhar sua fuga.
Envolvente como o esperado.
Foi notório para ele o arrepio pelo corpo que ela sentiu, o que lhe arrancou um sorriso de canto maldoso e terno. endireitou seu corpo e, descendo da cama, seguiu para o banheiro, a fim de cumprir com a sua palavra. Com o barulho do chuveiro ligando, os olhos de abriram-se de imediato e ela puxou o ar com tanta força para seus pulmões, que pareceu que estivesse prendendo a respiração todo aquele tempo.
— O que nós fizemos?! — sussurrou para si, ao voltar seu olhar para a porta do banheiro, constatando que ele cumpria com sua palavra.
Embaraçada e com as bochechas coradas, levantou-se da cama com cautela, mesmo sabendo que ele não sairia do banheiro enquanto estivesse ali, queria manter o personagem da adolescente que relatou. Um breve riso de nervoso soou baixo, ao lembrar da primeira vez que algo parecido lhe ocorreu no dia em que perdeu a virgindade com o pai de sua filha. Uma aventura precoce e imatura que lhe rendeu nove meses de gestação, uma discussão aterrorizante com a mãe e um casamento logo em seguida.
— Onde está… — seus olhos passaram pelo chão da suíte, tentando reconhecer suas roupas entre as dele.
O nervosismo falou mais alto no calor do momento e, vestindo-se apressadamente, apenas colocou a sandália nos pés e se retirou da suíte sem levar em conta os detalhes do seu look da noite anterior. Apenas quando chegou à calçada do lado de fora, se deu conta de que a bolsa de mão com os documentos, chave do apartamento e o celular…
Ficaram para trás.
— Droga! — gritou, irritada, consigo mesma.
Seus olhos voltaram para o monumental prédio atrás dela.
— Não posso voltar lá — sussurrou a realidade.
Seria um perigo para ela e mais ainda para sua sanidade mental em recuperação.
Respirando fundo, percebeu que a única opção era voltar para casa a pé e, com sorte, encontrar a filha em casa, já que teria seu brunch com o pai mais próximo do horário do almoço. Ao chegar, deu de cara com a porta fechada e não teve escolhas a não ser recorrer a quem não queria.
— Olha só, a Cinderela apareceu, exatamente com um sapatinho faltando. — O sarcasmo escorria como cobertura de bolo, entre as palavras de Meredith.
— Não me olhe assim e nem me recrimine — pediu , com o rosto fumegando pela situação — Sei o que está pensando e…
Ela se calou.
— Que bom que não vai tentar negar, pois acabo de ligar para seu celular e um certo advogado atendeu. — Os braços da mais velha se cruzaram, seguidos de um olhar embasbacado.
— Guarde seus comentários de repreensão para você, por favor. — Em um tom quase implorando. — Estou no ápice do constrangimento para falar do assunto, e com o emocional abalado ao extremo.
— já tinha saído de casa, não é? — constatou.
— Sim… Não posso ir às compras assim. — Uma indireta muito direta.
— Venha, vamos ao meu apartamento antes, te empresto algo para se vestir — sugeriu o óbvio.
1 horas antes
A jovem Carter espreguiçou-se da cama enquanto ouvia o turbulento som dos carros na rua adentrando a janela entreaberta, afinal, uma noite de frescor pedia pela brisa de Londres. Erguendo o corpo com a mente ainda sonolenta, percebeu o silêncio vindo do lado de fora do quarto, causando-lhe mais curiosidade pela localização exata da mãe.
— Quando cheguei ela não estava… — levantou da cama e seguiu para o quarto de , vendo-o exatamente como na noite anterior. — Onde será que passou a noite? Com a tia Meri?
A jovem não dispunha de muito tempo para se questionar sobre o ocorrido com a mãe, pois tinha alguns compromissos para o dia e talvez se deliciar com uma fruta da estação antes de sair fazia-se necessário, já que faltavam horas até o brunch com o pai. No meio do vislumbre de refeição, uma ligação da tia interrompeu seu momento de contemplação na varanda.
— Tia Meredith — disse ao atender. — Bom dia?!
— Bom dia, querida, que bom que atendeu, sua mãe está em casa? — indagou ela, em um tom preocupado.
Afinal, mesmo em suas aventuras noturnas, Meri sempre cumpriu com suas responsabilidades e horários. Agora, estava na galeria à espera da irmã que nunca se atrasava.
— Achei que estivesse com a senhora — respondeu a garota, achando estranho sua indagação.
— A última vez que a vi foi… — A mente de Meri se transportou para o pub, exatamente no momento em que seguiu para a saída, sendo seguida por . — Se ela chegar aí antes de você sair, diga que estou na galeria.
— Tudo bem — assentiu.
encerrou a ligação e, após se trocar, seguiu diretamente para o seu primeiro compromisso: a universidade. Por mais que fosse sábado, sua empolgação pela enorme biblioteca levou-a à necessidade de passar pelo menos algumas horas da manhã naquele espaço, sempre em uma leitura concentrada de algum livro raro que encontrou na parte de literatura fantástica. E, atualmente, se concentrava em um romance de fantasia medieval. A parte triste é que não poderia levar o livro físico emprestado para casa, o que limitava a sua leitura para apenas as horas naquele lugar pomposo.
Em um breve momento, o olhar de se desviou das páginas do livro regadas a romance, drama e aventura, para a direção da bibliotecária. Não sabia o motivo, mas sentiu como se um ímã a atraísse, e ao elevar seu olhar…
Lá estava ele.
Bennett.
O aluno mais popular entre os universitários e requisitado entre os professores.
Agora, ela teria que lidar com sua presença não apenas nas aulas de história, como também nas aulas de desenho técnico. Mas o que ele fazia ali, na biblioteca? sentia que algum tipo de ímã havia se criado entre eles, fazendo-os se esbarrarem a todo momento no campus. Ela, contudo, sempre se esforçava ao máximo para não se aproximar e desviar seu caminho, sempre com a ajuda inconsciente de Sophie.
— Carter… — A voz de a parou no meio do corredor.
O que deveria ser um frio na barriga, gélido por ouvir seu nome em um tom forte e autêntico, transformou-se em uma brisa leve e suave que lhe arrepiou os pelos da nuca ao se deparar com um olhar gentil e profundo.
— Sim, monitor. — Sua voz quase falhou.
— Vai mesmo agir como se não me conhecesse? — ele riu de canto, disfarçando a frustração. — Por isso tem fugido todo esse tempo?!
— Hum?! — Sua mente fundiu. — Eu não estou fugindo… E, realmente, não o conheço de fato.
No seguimento, seu coração já acelerava pela aproximação dele.
— Não se lembra de mim na livraria? — indagou ele.
— Vagamente — mentindo, por mais que sentisse fascinação por estar próximo a ele, não tinha tanta experiência em conversas com jovens da sua idade, menos ainda nas circunstâncias de um relativo interesse amoroso.
Não sabia o que responder ou como respondeu. Mal conseguiu expulsar de sua boca aquela pequena e falsa palavra.
— Tudo bem… Então vamos agir apenas como eu sendo o seu monitor e, você, a minha caloura — sugeriu ele, ao senti-la um pouco desconfortável e tímida para aquele assunto. — Me deve um resumo do livro que indiquei na aula da senhora Brown. Todos os alunos entregaram, exceto você. Preciso lembrá-la que as atividades do monitor também são avaliadas e pontuadas pelo professor?
O tom de repreensão lhe estremeceu por dentro.
— Me desculpe, eu… — forçou novamente as palavras, sentindo-se estática pela forma séria e nada gentil que soou. — Ainda não terminei de ler.
— Lhe darei até segunda para me entregar. — sentiu o celular vibrar no bolso da calça, sabia a quem pertencia a ligação, então deu o primeiro passo para se retirar.
apenas silenciou-se, com aceleração em massa, absorvendo o que tinha acontecido.
Os dias passaram…
Era quase meia-noite e as luzes da galeria estavam acesas. , em seu momento de inspiração, se encontrava sentada ao chão, rodeada por molduras, catálogos e pincéis, cantarolando algumas canções clássicas dos filmes da Disney. Seu momento de solitude foi cortado pela presença do inesperado, que, utilizando sua chave, adentrou o lugar silenciosamente para lhe fazer uma surpresa.
Sendo esta considerada boa ou não.
— Parece que não sou o único perfeccionista que deixa a refeição para se concentrar no trabalho. — A voz de despertou-a de sua concentração.
Seu olhar se levantou um pouco temeroso, não pelo fato de sua presença, mas em como ela reagiria ao encontro. Após a fuga da suíte proibida, não o tinha visto depois. O rosto sereno, um sorriso de canto prepotente, combinado à duas caixas de comida japonesa nas mãos.
Intrigante.
— Está com fome?! — indagou ele, agindo com a mais singela naturalidade.
Foram segundos até ela conseguir gerar uma reação na cena em sua frente.
— O que faz aqui? — indagou, ao continuar sentada no chão.
Nem mesmo sentia que tinha forças nas pernas para aquilo.
— Se Maomé não vai a montanha? Nossa filha disse que estava saindo tarde esses dias. — ergueu um pouco mais o braço direito, evidenciando uma sacola de papel kraft. — Trouxe sua bolsa, já que não quis voltar para buscá-la…
— Ah. — Sentiu a voz falhar.
— Fiquei me perguntando como alguém que está há dias de uma reinauguração conseguiu passar dias sem os documentos e o celular — comentou ele, em um tom curioso e descontraído.
— Sei trabalhar com o que tenho — explicou inutilmente, ao finalmente se levantar do chão para pegar a sacola. — Poderia ter deixado na portaria do prédio, ou entregado à .
— Não confio em terceiros para isso, principalmente quando os documentos não são meus — relatou o ponto central de suas ações. — E, se eu tivesse entregado à nossa filha, daria abertura para perguntas das quais acho que está fugindo da resposta.
— Hum… — Ao se aproximar dele, sem argumentos, pegou a caixa que continha yakisoba dentro, e a sacola com suas coisas. — Obrigado pelo zelo.
O sorriso de canto estava lá, disfarçado no rosto de .
— Podemos comer no jardim — propôs ela, seguindo na frente.
— A reforma tem deixado esse lugar mais vivo — comentou, ao observar os detalhes pelo caminho que passavam. — Me lembro vagamente de como era quando sua mãe gerenciava.
— Segundo Meri, esse lugar precisava conhecer o reluzir da modernidade — comentou, rindo baixo, das loucuras da irmã. — Principalmente o piso, que era de carpete.
— Nunca achei aquele carpete bonito. — Sincero quanto à realidade de outrora. — Mas o piso em cimento queimado me deixou impressionado, achei que seguiram a linha do clássico.
— Tanto eu, quanto a Meredith, achamos mais viável seguir o estilo industrial. Se é para ser moderna, que seja de uma forma versátil que dá abertura para qualquer tipo de exposição — explicou ela, ao adentrar o jardim.
— Seu bom gosto nunca me surpreende — comentou, deixando-a desconcertada.
— Vou levar como um elogio — retrucou.
— Fique à vontade — um riso baixo soou.
puxou duas cadeiras para que se sentassem próximos à parede de plantas suspensas por suportes de macramê. O silêncio os acompanhou durante o momento de degustação do alimento, até que o interrompeu.
— Não vamos mesmo falar sobre o ocorrido? — iniciou ele, instigando o assunto.
— O que teríamos para falar? — indagou, fazendo-se inocente e alheia.
— Vai me dizer que nada mudou? — retrucou, levantando-se pela irritação.
— E por que mudaria? — continuou, sustentando seu posicionamento.
— , está se ouvindo? — ele bufou, controlando sua inquietação interna, para manter suas ações em âmbito racional. — Acaso lembra-se dos detalhes de nossa noite, de como sussurrou o meu nome pedindo por mais?!
Por instantes, ela viu-se sem argumentos.
Então o lembrou o causador de todas as suas dores nas noites frias do último ano.
— Não fui eu a pedir o divórcio — jogou a realidade nua e crua.
Direta e objetiva o bastante para perfurá-lo como uma adaga prateada.
— Mas o aceitou facilmente. — O gosto amargo da realidade invadiu sua boca, anulando o gostinho da refeição que acabara de fazer.
Ambos passaram alguns minutos se encarando.
Havia muito a ser dito, porém a ardência em suas gargantas os impedia de pronunciar uma única palavra para prosseguir com aquilo que deveria ser uma conversa definitiva sobre o futuro deles.
Ainda havia um documento a ser lido…
Um divórcio a ser assinado.
Terça-feira à tarde…
O som da porta se fechando atrás fez se virar instintivamente. Mesmo com os fones no ouvido, o barulho havia sido nítido e alto o bastante para ser ouvido. Seus olhos encontraram os dele antes que qualquer outro som preenchesse o espaço. E até mesmo a canção tocada no aplicativo pareceu desaparecer naquele curto espaço de tempo.
Bennett.
Ele atravessou a sala com uma prancheta debaixo do braço, fones pendurados no pescoço, mangas da camisa de algodão puxadas até os antebraços, revelando tatuagens delicadas — linhas finas, desenhos geométricos e fragmentos de palavras em latim que ela não conseguia decifrar do local onde estava.
Os passos dele eram seguros, firmes, como quem já dominava aquele espaço há muito tempo. Como de fato era.
— Para os calouros que faltaram nas últimas semanas, sou Bennett, o monitor de vocês nessa disciplina, sou aluno do último ano de Design de Produto — disse ele, em um tom curto e rude. — A professor Leather teve uma emergência hospitalar e irei conduzir a aula de hoje em seu lugar. Se tiverem dúvidas sobre a última aula, por favor, sinalizem, caso contrário, sei que possuem uma prova na próxima semana, então tirem esta aula para revisarem seus desenhos.
Ele parou bem no centro, olhando rapidamente para todos em geral — então, seus olhos pousaram diretamente em . Por uma fração de segundo, seu rosto enrijeceu, como se uma tensão elétrica atravessasse o ar entre eles. Ela engoliu em seco, desviando o olhar para a folha com os traços do que deveria ser o desenho de uma planta baixa arquitetônica.
Ótimo. Como se já não fosse complicado o suficiente tê-lo por perto quase todos os dias. Agora estou me sentindo intimidada — pensou ela, em um suspiro baixo.
pigarreou, voltando a encarar o grupo.
— A única coisa que vocês precisam memorizar é… Desenho técnico significa precisão ao extremo, até mesmo nas curvas. E, sim, consigo ser tão chato quanto o senhor Leather — sorriu, um sorriso leve e misterioso, mas que não tocou os olhos, porém causou suspiros entre as alunas. — A segunda coisa é, tenha seu jogo de esquadro, o escalímetro e o compasso como velhos amigos de infância, pois eles são os instrumentos mais necessários nesta disciplina.
Continuou em seu discurso, voltando a encará-la, como se suas palavras fossem apenas para ela. Ele se moveu entre as mesas, analisando com atenção cada um dos desenhos ainda em construção, até que, inevitavelmente, parou diante de . Passou longos e torturantes minutos sem dizer uma só palavra, o que a deixava ainda mais agoniada. Os dedos dele roçaram nos dela quando ela, pelo ápice do nervosismo, deixou sua lapiseira cair de sua mão — um toque breve, quase imperceptível, mas que pareceu acionar alguma coisa.
arqueou uma sobrancelha, com aquele tom meio desafiador, meio provocativo, que ela começava a entender como marca registrada dele.
— Você possui um traço firme, o que mostra que sabe dominar o instrumento em sua mão, porém… — a voz saiu mais baixa, a crítica pertencia apenas a ela. — As linhas estão pesadas e mais grossas do que deveriam, precisa suavizar sua mão quando for reforçar a linha final.
Ela ergueu os olhos, mantendo a coluna ereta, tentando não transparecer sua ansiedade interna.
— Obrigado pelo apontamento — respondeu, seca, quase mordendo as palavras.
— Aconselho que rasgue essa prancha e comece tudo de novo — completou ele, sem nenhuma empatia pelo esforço dela. — Como disse, o professor Leather é bem exigente, mais do que possa imaginar.
Os olhos dele deslizaram pelo rosto dela, um segundo a mais do que seria educado, e então soltou um meio sorriso, quase irônico, e seguiu em sua jornada pelas mesas para avaliar o restante dos alunos. tentou se concentrar. Mesmo não querendo, seguiu seu conselho e rasgou a folha A3, em sua mesa. Em um suspiro cansado, iniciou, pela quinta vez, o mesmo desenho. Com a declaração final dele…
Aquela disciplina seria tudo, menos tranquila.
Ao final da tarde, para relaxar da tensão das aulas, a jovem seguiu para seu melhor local de refúgio da universidade: a biblioteca. O cheiro de livros antigos a envolveu assim que empurrou as portas de madeira, um sentimento de acolhimento e pertencimento que não sentia desde que chegou em Londres… Ou melhor, desde o dia em que descobriu a Casa del Libro. O silêncio acolhedor e as janelas que deixavam a luz fria de Londres pintar manchas douradas nas estantes.
Aqui, pelo menos, eu entendo o que fazer... — pensou, passando os dedos pelas lombadas dos livros. Foi então que, ao dobrar uma das prateleiras, deu de cara com alguém.
Ombros bateram, cadernos quase caíram.
— Ops... — disse uma voz feminina, carregada de um humor fácil. — Acho que preciso parar de digitar enquanto caminho.
Ela soltou uma gargalhada boba e modesta, de alguém que não sabe o que deve fazer, mas não pratica. piscou, surpresa, sua mente demorou para raciocinar as palavras dela. Porém manteve a atenção na garota de cabelos castanhos ondulados e olhos castanho-mel diante dela, intrigada pelo fato de ela exalar uma energia caótica, mas estranhamente acolhedora.
— Me desculpe, estava tão distraída quanto — respondeu, meio sem jeito.
— Isabella — continuou se apresentando, mesmo sem saber se era do interesse alheio. — Mas todo mundo me chama de Izzy.
Estendeu a mão, como quem já sabia que seriam amigas.
— Evelyn, mas pode me chamar de — devolveu o cumprimento, um pouco acanhada pela aura da garota.
Mal havia se acostumado com o jeito extrovertido de Sophie, e agora estava conhecendo alguém ainda mais intensa que a amiga. se lembrava vagamente do seu rosto, junto à elite de membros do grupo denominado Secret Circle.
— Prazer em conhecer a garota da biblioteca — brincou ela, lhe dando um apelido bem característico.
— Igualmente. — Com timidez e acanhada.
— Eu estava indo à cafeteria encontrar uns amigos… Como um pedido de desculpas por derrubar suas coisas. — Ela apontou para o chão. — Aceita vir junto?
— Hum?! — se pegou sem resposta por seu jeito espontâneo.
— Vou levar isso como uma aceitação — rindo novamente, se abaixou rapidamente e pegou os cadernos caídos, entregando-os em seguida. — Vamos lá?
Para Evelyn, faltou-lhe um pouco mais de determinação para reagir ao convite e fugir de uma programação totalmente fora do seu planejado para aquele dia. Entretanto, quando se deu conta, já estava em frente à cafeteria chamada Café Tropicália. A construção transmitia a sutileza do estilo escandinavo, visivelmente sofisticada, mas com uma pegada jovial e contemporânea, desde a fachada principal, até o último tijolo que compunha a adega privativa.
Um lugar bastante frequentado pelos estudantes universitários da elite londrina.
Discreto, porém magnético, o lugar se escondia entre as fachadas históricas de uma rua charmosa próxima à King’s College. Ao cruzar a porta de vidro emoldurada por madeira clara, um perfume inconfundível de café recém-moído se misturava ao leve aroma de frutas tropicais — discreto, mas presente, como uma memória do verão caloroso do hemisfério sul. O espaço abraçava uma estética minimalista, com paredes em um bege claro perolado, concreto polido e móveis de linhas simples em carvalho claro e vime natural. Mas era nos detalhes que a brasilidade ganhava vida, as folhas de costela-de-adão e palmeiras espalhadas estrategicamente ao longo do espaço, quadros abstratos com paleta quente, as cores terracota, verde oliva e amarelo solar em pontos estratégicos do ambiente, e peças de cerâmica artesanal que quebravam, com elegância, a frieza nórdica.
No fundo…
Uma estante aberta exibia uma curadoria de livros sobre arte, design, fotografia e cultura brasileira. À esquerda, a bancada de mármore travertino abrigava uma imponente máquina de expresso La Marzocco, ladeada por baristas jovens, despojados, todos com aventais de linho cru e sorrisos gentis. As luminárias pendentes em palha trançada projetavam sombras geométricas sobre as mesas, criando uma atmosfera aconchegante, quase cinematográfica, especialmente nos fins de tarde. O som ambiente misturava indie britânico com discretas batidas de bossa nova eletrônica, jazz experimental e, às vezes, um Tom Jobim suave preenchendo os silêncios. Era o tipo de lugar onde conversas se alongavam, onde olhares se cruzavam de forma ensaiada, e onde cada mesa parecia contar sua própria história.
O Café Tropicália não era apenas um ponto de encontro — era parte ativa do cenário social e emocional daqueles jovens. Refúgio, palco e, às vezes, testemunha silenciosa de paixões, segredos e promessas não ditas.
— Boa noite a todos… — cumprimentou Izzy, em seu bom humor de sempre.
— Como sempre, atrasada — reclamou uma garota de traços latinos, ao revirar os olhos impacientes.
— Não estou atrasada, apenas faço o meu próprio horário — explicou Isabella, em uma jogada de cabelo, demonstrando desinteresse pela alfinetada.
— Não liga pra ela, Izzy — disse a outra garota, de cabelos ruivos e sardas pelo rosto, em defesa da amiga.
— Os comentários de Judy, não me afetam mais — declarou com confiança.
— E não vai nos apresentar sua amiga? — uma voz sinuosa soou de trás delas, que fez estremecer de leve.
Não por reconhecê-la, e sim, pela entonação.
— Claro que vou… Aidan, esta é minha nova amiga . — E olhando para ela: — , este é Aidan Partners.
— Prazer — disse ele, ao pegar na mão da garota, e como um cavalheiro do século passado, beijar-lhe as costas. — Não é todos os dias que temos uma caloura interessante tendo acesso ao nosso grupo.
A mente da jovem parou por um tempo naquele sobrenome que lhe parecia familiar de alguma forma. Contudo, apenas conseguiu ter reação para um sorriso curto, antes que seu olhar se voltasse para o monitor que lhe tirava o sono. Bennet permaneceu distante por um tempo, parecia em um assunto sério em meio à uma ligação. Ao acomodar-se na mesa do grupo, as risadas e conversas cruzadas foram preenchendo o espaço, deixando as xícaras de café meio vazias e migalhas de croissant aparentes nos pratos.
Tudo perfeitamente caótico. Tudo perfeitamente normal.
Eve fingia prestar atenção na conversa. Ou tentava. Se esforçando para ignorar os olhares interessados de Aidan em sua direção. Izzy estava falando — algo sobre uma apresentação de ballet contemporâneo que tinham na sexta, e de sua rotina cansativa de universitária e bailarina ao mesmo tempo. Mas as palavras dela pareciam vir de muito longe, abafadas, como se houvesse um vidro invisível entre ela e o mundo.
A discreta atenção de estava mesmo no rapaz que se aproximava da mesa deles.
Bennett.
Suas mãos suando frio a cada passo mais de perto.
— Querido! — Em um piscar de olhos, Izzy levantou-se da cadeira e o abraçou, envolvendo seus braços no pescoço dele, roubando-lhe um beijo modesto.
Foi neste momento que o coração de esqueceu-se de bater, assim como a respiração que se prendeu no ímpeto da ação alheia. Ele tinha uma namorada… Era a garota extrovertida, gentil e simpática que havia compartilhado seus amigos com ela. A garota que tinha passado todo o caminho até a cafeteria dizendo o quão seria legal ter uma amiga caloura, vinda do interior.
— Quero te apresentar minha nova amiga… — um sorriso largo surgiu no rosto de Izzy, com os olhos brilhando. — Esta é , caloura de Derbyshire.
— Eu já a conheço — disse, rasgando a empolgação da namorada. — Sou monitor em sua turma.
Seu olhar estava tão frio que nem pareceu ser o rapaz gentil que havia lhe ajudado na livraria, segurado-a com firmeza e lhe transmitindo conforto através de um sorriso acolhedor. A atenção de permaneceu na caloura, não com um olhar casual, socialmente educado, pelo contrário, foi um olhar que durou um segundo a mais do que deveria.
E ela percebeu…
Não somente ela.
— Sim — assentiu a garota, desviando seu olhar, sem graça pela situação. — História da arte e desenho técnico.
Como ela havia deixado passar este detalhe? Talvez pela empolgação de Isabella, contando os inúmeros casos de seus amigos, que a fez esquecer que já tinha visto Bennett interagindo com eles.
— Já que tocou no assunto… — a entrada de Aidan na conversa quebrou a leve tensão oculta no ar. — Como é viver a vida em uma cidade como Derbyshire e depois se mudar para a loucura de Londres?
A pergunta era simples.
A resposta também deveria ser, contudo, nunca tinha vivido uma situação como aquela, menos ainda a chuva de sentimentos que enfrentava internamente. Havia uma pausa entre a pergunta e o iniciar de sua reação. Uma leve inclinação da cabeça de Aidan e um meio sorriso que não era só simpatia para descontrair o momento — era estudo.
Observação.
Eve se ajeitou na cadeira, tentando parecer natural.
— Como bem colocou, tem sido uma loucura — respondeu, mantendo o olhar no resto de líquido em sua xícara, mas não por muito tempo.
Havia algo em Bennet, que alheio ao assunto, obrigava-a a olhá-lo com o máximo de discrição.
— Imagino — ele assentiu, e mordeu de leve o lábio inferior, como quem segura um diagnóstico de informação que não deve ser dito. — Londres pode ser intensa e perturbadora, às vezes.
Intensa.
Por que aquela palavra soou diferente?
Tanto que parecia martelar em sua mente. O nervosismo interno de levou-a a perceber tarde demais que estava segurando com certa violência a alça da própria bolsa, a ponto de os nós dos dedos embranquecem.
— Tenho certeza que, sendo amiga da Izzy agora, ficará ainda mais agitado. — Finalmente uma fala vinda de , um comentário descontraído do qual não teve nenhum controle por fazê-lo.
O que atraiu o olhar da jovem. Uma onda de risos e gargalhadas soou entre os integrantes da mesa, com novos comentários concordando com ele. desviou seu olhar do dela por um tempo, porém, quando voltou a encará-la, havia algo nos olhos dele. Algo mais quieto, mais escuro.
Quase como se dissesse: “Eu também penso em você.”
E o peito dela apertou. Não de forma doce, mas desconfortável, e forçando um sorriso, desviou os olhos para qualquer outro lugar distante dele.
Mas, mesmo sem olhar, ela sentiu que não havia apenas um a lhe observar como quem analisa seu objeto de estudo. Eram dois cavalheiros emanando uma sutil intensidade apenas percebida por ela, algo que prensava sua respiração, deixando-a em agonia interna.
Silenciosos.
Eu reconheci você assim que lhe vi
Como se estivéssemos chamando um ao outro
O DNA no meu sangue me diz
Que é você quem eu venho procurando.
- DNA / BTS
A porta se fechou com um estalo seco.
Mais alto do que deveria. Mais alto do que nunca pareceu antes. colocou as chaves no aparador de mármore, mas desta vez elas não pousaram com aquele toque elegante e calculado. Foi brusco, carregado de irritação, fazendo-as ricochetear, escorregando até o chão. Ele não se abaixou para pegá-las, ignorando. O terno parecia sufocá-lo com aquela gravata bem alinhada, o que fez seus dedos a puxarem como se ela fosse uma corda no pescoço. O paletó voou sobre o sofá — dessa vez, sem a elegância habitual, sem aquele cuidado meticuloso que sempre o definiu. E seus passos pesados até o bar pareceram trilhar um caminho de espinhos. Seu corpo parou por um momento, o fechar de seus olhos levou os punhos a se fecharem também. Tenso, como se apertasse o próprio peito.
Como se pudesse esmagar aquele nó na garganta que surgiu sem permissão.
A imagem perturbadora não lhe saía da cabeça. Sua sorrindo, com leveza e verdade, de uma forma tão descontraída que parecia ter voltado aos tempos de adolescente, quando tudo em seu namoro era novidade. Daquele jeito que não sorria para ele havia anos, mas agora sorria para outro homem.
As mãos tremeram.
E ele odiava aquilo. Odiava cada segundo daquilo. Por que ele pediu o divórcio? Por que ela aceitou com tanta facilidade? — era a pergunta que não lhe saía da mente. A dor interna seria compensada com o álcool, um copo de Bourbon que levou aos lábios sem a preocupação se estaria bem ou não para enfrentar o tribunal no dia seguinte. O primeiro gole desceu queimando-o por dentro, não pelo gosto, mas por seus sentimentos sufocados e abafados por seu orgulho. E o que deveria ser apenas uma bebida virou uma âncora.
Uma necessidade. Uma fuga da realidade.
Poucos passos até a janela, atento às luzes de Londres que vibravam do lado de fora. As árvores do Hyde Park balançavam com o vento úmido de uma noite que não prometia nada além de solidão. Era doloroso admitir que estava sozinho. Verdadeiramente sozinho. Não o tipo de solidão que escolheu, aquela de quem prioriza trabalho, contratos, sucesso, ou de alguém que apenas deseja evitar discussões sem propósito que ferem os envolvidos em questão. Não. Agora era outra, era a solidão de quem percebe, tarde demais, que aquilo que julgava eterno cansou de esperar assim que aceitou a palavra divórcio entre eles.
O reflexo no vidro o encarava. E ele não gostava do que via.
— Parabéns, ... — murmurou, com uma risada rouca, quebrada. — Você ganhou. Perdeu tudo, mas ganhou.
Ele virou o corpo, cambaleou, não de álcool, mas do peso de suas ações impensadas e tomadas no calor do momento. O único momento em que o senhor racional não agiu pela razão e sim pelo cansaço. Ele se moveu em passos lentos até a cama e se jogou nela, fixando os olhos no teto que lhe apresentava a frieza de sua realidade.
Uma vida inteira que agora parecia uma lembrança emprestada.
Por alguns segundos, só respirou, enquanto sentia seus olhos marejarem aos poucos. Mas não. Ele não ia chorar. Seu orgulho não permitiria tal ato, afinal, nem tudo estava perdido e, se fosse para vencer verdadeiramente, seria com a esposa ao lado no final de tudo aquilo, com a extinção da palavra divórcio. Em minutos de silêncio...
A dor não grita, ela sussurra.
Como se quisesse tocar em sua ferida e fazê-lo contorcer.
Sussurra o que ele mais teme ouvir: “ela está seguindo em frente, e talvez… Não o ame mais.”
Os últimos dias de preparação para a reinauguração da galeria foram os mais corridos e caóticos possíveis, com as irmãs Carter passando noites em claro sob a luz artificial dos pendentes e arandelas da edificação, que necessitavam daqueles toques finais, que somente as donas poderiam dar. Os olhos de brilharam ao contemplar tudo em seu devido lugar enquanto a irmã, assentada na cadeira ao lado, confirmava a presença de mais um contato de sua lista de convidados.
— Terra chamando — brincou ela, despertando a irmã de seus devaneios profissionais.
— Desculpa, estava sonhando com hoje à noite — se explicou ao voltar a atenção para ela. — Como estamos?
— Promissoras — respondeu, abrindo um largo sorriso de satisfação. — Todos os convidados me parecem bem animados ao anúncio da primeira exposição ser do excêntrico e rebelde Novak.
— Espero que isso seja positivo para as vendas — retrucou.
— E por falar em pintor promissor… — Meredith iniciou suas insinuações. — Como tem sido para a senhorita quase divorciada os encontros à tarde com ele?
— Como assim? — enrugou a testa. — São apenas encontros profissionais.
— Ah, sim, encontros profissionais que te fizeram passar as tardes com um sorriso bobo no rosto — comentou apenas o que seus olhos presenciaram. — Deste um ano de lamúria e agonia pelo divórcio, a única vez que te vi com um sorriso assim e suspirando a cada dez minutos foi no dia seguinte à noite do pecado.
Completou ela, referindo-se à entrega involuntária da irmã, após uma crise de ciúmes infundada.
— Por favor, não me recorde dos meus pecados — pediu, disfarçando o desconforto.
Lutou brevemente com as lembranças do doce calor que emanava de ao longo da noite. Com uma derrota esmagadora, que lhe deu de brinde um frio na barriga.
— Além do mais… — continuou, voltando à sanidade e se fazendo de forte e determinada — já lhe disse que não estou com cabeça para relacionamentos novos agora, menos ainda com alguém mais novo que eu.
— Olhe pelo lado positivo — argumentou a irmã —, pelo menos ele não tem idade para ser seu filho, safra 1995… São 27 anos de puro charme e atração.
Uma piscadela maliciosa de Meredith que a levou a revirar os olhos, tentando não a agredir por seus comentários tendenciosos.
— Podemos nos concentrar em algo que seja mais importante? — pediu.
— , deixe de ser chata e recatada pelo menos uma vez na vida — reclamou a mais velha, fazendo careta. — Ao menos, uma vez na vida, permita-se ver o mundo além da sua família não mais perfeita… não é o único homem do mundo.
— Eu nunca disse que ele era — retrucou, controlando seu tom de chateação. — Mas não é fácil desapegar de alguém com quem conviveu mais de dezoito anos… Você nunca amou ninguém de verdade, com profundidade de lhe doer a alma? Porque suas rápidas paixonites de uma noite, no máximo uma semana, não contam.
A pergunta soou como repreensão, misturada a uma lição de moral, deixando Meredith sem argumentos, pois nunca tinha vivido tal sentimento descrito pela irmã. E, curiosamente, aquilo lhe angustiava também, não conseguir viver a experiência de um amor arrebatador que lhe causasse falta de ar.
— Desculpa… Não consigo imaginar o quão caótico devem estar seus sentimentos aí dentro — falou em um tom baixo e arrependido, dos muitos julgamentos e falta de empatia.
— Tudo bem, já tive dias piores — confessou, desculpando-a.
Literalmente — pensou .
— Estou feliz por ter a galeria para manter-me ocupada dos pensamentos inapropriados — continuou a caçula.
— Você o convidou? — indagou, curiosa. — Porque não vi o sobrenome Blackwood na minha lista.
— Como poderia não convidar o pai da minha filha? — respondeu com outra pergunta. — Ainda mais depois de todo o apoio que ele nos deu com o lance jurídico da reforma e licença da prefeitura.
— Advogado de graça — brincou Mere, ao se lembrar do detalhe. — Está aí, duas profissões maravilhosas para o futuro pai dos meus filhos, advogado ou médico… E como já temos um jurídico na família, falta apenas o médico, imagina… — sibilando. — Eu teria consulta de graça… Melhor…
riu das caras e bocas dela.
— Eu poderia viver uma breve experiência de Grey’s Anatomy… — jogou sua série favorita na roda como referência. — Minutos de luxúria na sala de descanso dos enfermeiros.
Sua gargalhada louca e maldosa contagiou a irmã, a fazendo rir junto.
— Você é muito boba, sabia? — disse , deixando o rosto um pouco mais sério. — Vamos voltar ao trabalho.
— Sou boba, mas pelo menos sei me divertir — retrucou, voltando às suas ligações.
Pontualmente às sete da noite…
A Carter Fine Art recebia calorosamente seus convidados na exposição de reinauguração da galeria. Com ambas as irmãs deslumbrantes em seus vestidos de gala e muitos sorrisos para cada cumprimento que davam na porta de entrada. No interior do lugar, o artista urbano Kai Novak, acompanhado de sua aprendiz, Hana, era agraciado com muitos elogios por seus quadros expostos — peças que mesclavam o caos urbano à poesia visual, com cores vibrantes e mensagens afiadas, quase desconfortáveis.
O ambiente exalava sofisticação e irreverência.
Os convidados — curadores, colecionadores, críticos e investidores — se deslocavam com taças de champanhe nas mãos, deslizando os olhares atentos pelos quadros de Kai, que agora dominavam boa parte das paredes do salão principal da galeria. A música ambiente era um jazz moderno, elegante, que preenchia os espaços vazios entre os diálogos contidos, risos abafados e comentários técnicos. Após uma hora e meia de evento, uma presença cortou o tecido invisível da sala. O imponente advogado Blackwood cruzou a porta principal, acompanhado do casal de amigos e também sócios: os Partners. era o tipo de homem que atraía atenção com facilidade em qualquer lugar que estivesse, o clássico terno de alfaiataria italiana em grafite, tão impecável quanto sua expressão — sóbria, elegante, levemente cerrada. Seus olhos varreram o salão, em uma busca precisa, até congelarem.
O mundo pareceu desacelerar.
Ao centro do jardim de convivência, em meio a um pequeno grupo de curadores, estava — impecável em um vestido preto de seda, com decote sutil nas costas fazendo o efeito transpasse, tão imponente quanto vulnerável aos olhos de quem sabia decifrá-la.
E, ao lado dela… Ele.
Kai Novak.
O mesmo homem que, dias atrás, vira com ela, adentrando uma cafeteria modesta de um bairro da periferia. As tatuagens nos braços, agora visíveis graças à camisa de linho parcialmente dobrada, o olhar cortante, aquela postura meio displicente, consciente de que atraía os olhares femininos. O rosto jovial de quem poderia facilmente se passar por um estudante de artes de King’s College. Era ele o mesmo, não tinha nenhuma sombra de dúvida. Por um segundo, o maxilar de enrijeceu. Seus dedos apertaram discretamente o cristal da taça que acabava de receber de um dos garçons.
O champanhe pareceu amargo na boca.
Ele observou quando Kai, em meio a uma risada breve, se inclinou discretamente, sussurrando algo no ouvido de . O que lhe ferveu o sangue internamente. Ela, por sua vez, sorriu com discrição — aquele sorriso que conhecia bem. Raro e sereno, que ela guardava para quando algo realmente a desconcertava… ou a constrangia de uma forma positiva.
A poucos passos deles, em risos com um parlamentar britânico, Meredith, sempre perspicaz, notou o exato instante em que os viu. Seu olhar cruzou o dele, e por um segundo ela viu-se inexpressiva, apenas avaliando-o como se pudesse ler nas entrelinhas de seu rosto rígido. Sabia que, embora o cunhado sustentasse a máscara do cavalheiro inabalável, por dentro, o homem certamente se quebrava em rachaduras invisíveis.
— Blackwood — anunciou educadamente um dos curadores, interceptando-o para cumprimentá-lo. — Que honra tê-lo conosco.
— Não deixaria de prestigiar o evento — respondeu, mecânico, sem desviar os olhos de seu ponto de desejo.
Kai, virando o rosto para identificar a quem o homem se referia, pareceu sentir o peso do olhar do advogado para a bela mulher ao seu lado. Sentiu de imediato uma sutil camada de tensão que pairava ocultamente entre os envolvidos. O silêncio entre eles não era sonoro, mas se demonstrava denso. Kai disfarçou com a taça de vinho em sua mão, levando-a até os lábios e sorriu — um sorriso que era tudo, menos cordial.
Era um sorriso que dizia: "Eu sei quem você é. A pergunta é: você sabe quem eu posso ser para ela?"
, quando finalmente se deu conta da presença do ainda marido, notou a mudança no ar. Mesmo sendo discreta, seu olhar fitou como um ímã forte. Incapaz de desviá-los, sentiu-se vacilar internamente. Aquele mesmo olhar silencioso e voraz, como de um predador, que a fez se apaixonar no passado. Sua mão apertou automaticamente a clutch dourada, como se aquilo pudesse ancorá-la.
— Boa noite, — disse , deixando soar um tom sereno de quem demonstrava certa intimidade ao chamá-la pelo apelido.
— Boa noite, — cumprimentou ela, sentindo um leve tremor interno pela intensidade do olhar dele. — Quero que conheça nosso artista em exposição, Kai Novak.
— Prazer — disse Kai, estendendo a mão.
— Igualmente. — O advogado manteve seu tom firme como o habitual, retribuindo o cumprimento com cordialidade.
Ao respirar fundo com sutileza, ambos os envolvidos pareciam sentir a mesma coisa. Havia-se formado um campo de batalha invisível naquele modesto jardim.
E ninguém sabia quem sairia vitorioso.
Manhã de sábado, permitiu-se acordar mais tarde. Após a impressionante abertura da exposição na galeria, sabia que sua mãe também se daria ao luxo de não sair da cama antes das dez. Uma risada boba ao lembrar-se do comentário do pai sobre o artista urbano acendeu uma chama de esperança pela continuação do casamento deles. Afinal, nada como um ciúme genuíno para bagunçar as coisas e colocá-las em seu devido lugar.
— Acho que é hora de levantar — sussurrou, ao olhar o sol atravessando o vidro da janela, tocando sua cama. — Preciso ir a um lugar agora pela manhã.
Não que ela quisesse mesmo ir, pois se tratava da Casa del Libro, contudo, não tinha escolha. Após uma rápida pesquisa na internet, descobriu que o livro indicado pelo monitor, aparentemente, tinha um único exemplar à venda justamente naquele lugar. Um suspiro fraco, uma ducha rápida e um look despojado regado a moletom e all star. Em certas ocasiões, o conforto lhe era mais necessário que seguir a moda estipulada pelas grifes de Paris.
Nem mesmo despediu-se da mãe.
Se era para encarar a fera, que fosse rápido e indolor. Assim que chegou à livraria, estranhou a ausência daquele a quem não sabia se queria ou não ver. Seus sentimentos, que inicialmente estavam embaraçosos por se encantar à primeira vista por um desconhecido, agora seguiam piores pela convivência com ele e a crescente amizade com sua namorada. Quanto mais tentava fugir dos encontros no intervalo com Izzy e seus amigos, mais a garota, que parecia ser a líder do grupo, estreitava a amizade.
A gentileza e carisma de Isabella havia conquistado sua afeição e confiança com a mesma rapidez que Sophie. Mas, ao contrário de sua amiga hipster, a princesinha de classe média de Shoreditch tinha algo do qual se querer distanciar. Com nome e sobrenome:
Bennett.
— Que bom que não esteja aqui — sussurrou ela, em um suspiro de alívio.
Com seu emocional caótico, sentia-se culpada por seu coração inexperiente no amor manter-se atraído por alguém comprometido. Em seus princípios, ela sabia que era errado gostar de , contudo, seu lado racional não estava em vantagem naquela disputa territorial.
Preciso aproveitar a oportunidade. Entrar e sair sem chamar a atenção — pensou ela.
Todavia, nem tudo o que queremos é o que temos. Em um passo em falso, a jovem tropeçou em um dos objetos de decoração, desequilibrando-se em seguida, com a máxima chance de uma queda certeira. Porém uma mão suave e protetora segurou-a pela cintura, devolvendo-lhe o equilíbrio e acelerando o coração. Não pelo susto do tropeço, mas sim pela aproximação do momento e o dono do ato heroico.
Ele mesmo… Bennett.
— Te peguei — disse ele, com a mesma leveza da primeira vez, nem parecia o monitor carrasco das aulas de desenho técnico. — Parece que estamos fadados a reviver algumas cenas da nossa vida.
— Obrigada. — Um sussurro forçado, pois a voz não queria sair. — Me desculpe.
— Tudo bem… — ele sorriu de canto, mantendo o olhar fixo nela. — Contanto que não fuja de mim, ou finja que não me conhece.
O rosto dela corou de vergonha.
— Desculpa — disse novamente, com mais clareza na voz, porém deixando o olhar baixo.
Sentia suas costas em chamas pelo calor da mão dele, que ainda a amparava.
— Está aqui pelo livro que indiquei? — indagou ele.
O sino na porta soou baixinho, como uma nota tímida em meio ao silêncio confortável do espaço, lhes atraindo a atenção. Era mais um cliente adentrando o refúgio dos leitores. Os vitrais coloridos deixavam que a luz da manhã dançasse sobre as estantes, tingindo os livros de azul, âmbar e rubi. Só apenas, naquele momento, se atentou às vestes casuais dele, uma camisa preta dobrada nos antebraços e jeans escuros, combinados ao all star amarelo, cortando o ar sério e social que transmitia.
— Também — assentiu, ao se afastar um pouco dele e olhar em volta. — Aqui é tão aconchegante que… dá vontade de morar.
Ela deslizou os dedos sobre os títulos de uma prateleira referente aos livros de design.
— Poder me perder entre as páginas dos livros — confessou.
O olhar do rapaz carregava um brilho tranquilo, quase contemplativo, que ele reservava às coisas que realmente lhe interessavam. Era como se entendesse as palavras ditas por ela, sentindo o mesmo.
— Acho que é por isso que trabalho aqui. — Em um desabafo momentâneo e inesperado. — As páginas destes livros me encontraram e me adotaram.
Ela riu, meio sem jeito, deslizando uma mecha de cabelo atrás da orelha.
— Bom saber que não estou sozinha no mundo, quando penso em coisas desse tipo — continuou ela, desviando o olhar para o livro à sua frente. — Tipografia da Bauhaus.
Disse o nome em voz alta e continuou.
— Uma História Visual — refletiu brevemente no subtítulo. — Sempre achei fascinante como uma simples escolha de fonte pode mudar completamente a percepção de um projeto gráfico.
Ele deu um passo para mais perto, inclinando-se ligeiramente para ver a capa junto dela, tão perto que ela sentiu o cheiro amadeirado e fresco do perfume dele.
— Totalmente, principalmente quando se trata da famosa Bauhaus — concordou, passando o polegar pelo queixo, pensativo. — Tipografia não é só estética, é narrativa, até mesmo para quem é do curso de Produto. Uma fonte nos proporciona um tom de voz, uma intenção, uma emoção… Sem dizer uma palavra, apenas por seu traço.
o olhou, impressionada.
— Nunca tinha pensado assim — refletiu. — Tom de voz sem voz.
puxou o livro da prateleira ao lado, folheando até uma página marcada com uma dobra sutil. Era o seu preferido da sessão em questão, e sempre o usava nos trabalhos práticos de seu curso.
— Olha isso — apontou para uma página com uma composição de posters dos anos 60. — Percebe a diferença? Helvética te passa ordem, precisão, neutralidade. Já uma Garamond carrega história, tradição, algo mais humano. E aí você pega uma Futura... moderna, assertiva, quase impositiva. Tudo isso antes mesmo de ler o texto.
— Nossa… — ela passou o olhar pelas fontes ditas, não imaginando a profundidade do assunto.
— É como quando temos a incógnita entre a escolha da fonte correta. A Serif com sua sutileza em demonstrar a tradição, sofisticação, estabilidade e confiança em uma determinada marca como a Vogue, por exemplo — continuou ele, abrindo em outra página, também demarcada. — Ou Sans Serif, que nos entrega algo mais claro e limpo, com sua modernidade, simplicidade e inovação, como o caso da própria Bauhaus, pioneira nesta característica de fonte.
— Isso é... — ela franziu o cenho, buscando a analogia. — Basicamente escolher a roupa certa para a informação que quer transmitir com ela.
— Exatamente — concordou.
Ele sorriu, genuíno.
— Você entende mais rápido do que imaginei — comentou em um bom sentido.
— Gosto do assunto — declarou.
Por um segundo, o silêncio entre eles se encheu de algo que nenhum livro conseguia nomear. Era estranho estar ali, tendo uma conversa casual sobre tipografia com ele, mas um estranho legal para ela. Um intervalo suave, confortável, onde os olhos falavam mais do que qualquer manual de design gráfico poderia explicar.
abaixou o olhar, mordendo de leve o lábio inferior.
Se reprimia por dentro, por querer ter mais momentos como aquele com ele, conhecê-lo mais profundamente e… Não! Ela não podia vislumbrar coisas das quais não poderia viver no futuro. Era o namorado de sua nova melhor amiga à sua frente. Uma garota que transmitia a sensação de ter crescido ao seu lado em meios às campinas de Derbyshire.
— Acho que... você deveria me indicar mais alguns livros, se não for incômodo. — Ela finalmente afastou os maus pensamentos.
fechou o livro nas mãos e o esticou para ela.
— Acredite, este é o único que vale a pena ler — disse, com aquela voz mais baixa, quase confidencial. — Não precisará de outro.
— Mas… Este é seu! Pude ver suas anotações em algumas das páginas — disse em recusa.
— Eu insisto. — Manteve-se na mesma postura.
Ela sorriu, sentindo, pela primeira vez em muito tempo, que talvez alguns encontros — assim como algumas fontes — não aconteciam por acaso. Assentiu com a cabeça e pegou o livro, grata pela pequena aula que teve em um curto espaço de tempo.
O assunto inesperado, porém, descontraído, deu espaço para mais conversas que arrancavam sorrisos fáceis, por parte dela, e olhares contemplativos, por parte dele.
O tempo foi passando…
De um convite para o brunch em um modesto restaurante mexicano, próximo à livraria, a percepção de tempo e espaço de ambos fora congelada pelo aconchego da companhia mútua. O sol se punha por trás dos prédios antigos que ocupavam toda a extensão da rua, tingindo o céu de tons dourados e rosados. Ambos seguiam caminhando juntos por uma rua tranquila, a qual não faziam ideia de como haviam chegado. Porém, contemplavam as muitas artes em grafite, desenhadas em suas fachadas, longe do barulho dos carros que movimentavam o centro da cidade londrina.
parou por um momento e voltou seu olhar para .
Curioso, como se quisesse entender algo que estava ali, mas invisível.
— Todas as vezes que estivemos juntos em grupo, você nunca contou muito sobre onde cresceu — comentou ele, a voz baixa, quase um convite para ela se abrir. — Nem o motivo de ter se mudado.
respirou fundo, olhando para o chão, depois para o céu.
— Derbyshire é... Aquele tipo de lugar onde o céu parece mais perto e o silêncio às vezes chega a ser ensurdecedor — iniciou ela, sua visão objetiva do lugar. — Bonito, sim. Perfeito, talvez. Ideal pra quem quer se perder um pouco, entende?
Ela parou, buscando as palavras certas, tentando traduzir em voz o que sentia.
— Com clareza — assentiu ele.
— Quando você vive num lugar assim, o silêncio vira um som constante. Tem dias que ele pesa tanto que você sente falta do barulho — continuou. — Até do barulho ruim.
sorriu, compreendendo a profundidade.
— E Londres é o oposto disso — complementou.
assentiu, com um sorriso meio triste.
— Sim. Aqui tudo pulsa mais forte, grita — enfatizou ela. — Parece uma correnteza que te arrasta e você nem sabe pra onde vai... Mas, às vezes, é isso que você precisa… Ser arrastada para saber recomeçar com mais otimismo.
o olhou e, por um momento, o mundo pareceu mais quieto.
Apenas os dois.
— Se mudou para cá para ser arrastada? — supôs ele.
— Também — assentiu. — Meus pais estão em processo de divórcio.
Era a primeira vez que falava abertamente sobre o assunto com alguém, além de sua tia. segurou sua mão, sem pressa, como se respeitasse aquela confissão tão íntima e familiar.
— Entendo pelo que está passando… — um tom acolhedor, que a estremeceu por dentro.
Foi subjetivo, mas ele deixou soar uma vivência em seu passado enigmático e desconhecido por todos. Um momento de silêncio. Um abraço de amigo, carregado de amparo. Então continuaram caminhando. As sombras da noite começaram a surgir e a se estender pela rua estreita. olhou para o rosto dela, tentando decifrar algo que parecia invisível.
— Como tem lidado com a condição dos seus pais? — indagou ele, quebrando o silêncio.
Sentia que ela precisava externalizar o assunto para passar por ele com mais leveza.
— É estranho vê-los agindo como se nada estivesse acontecendo… Como se não tivessem compartilhado anos de vivência — desabafou com mais sucesso. — Às vezes, sinto que estou me afogando num mar de aparências, e eles não percebem isso.
segurou em sua mão, mantendo seus passos no mesmo ritmo que os dela. Uma sensação de apoio que lhe transmitia segurança.
— Me deixe ser o seu bote salva-vidas — soou com serenidade e confiança, então completou: — Amigos são para isso.
Por um instante, a noite inteira pareceu conter a sua respiração.
percebeu que ali, naquele momento, havia mais do que palavras — havia uma promessa não dita, uma âncora em um mar revolto. Exceto pela palavra “amigos”, ela parecia estar vivendo um sonho, do qual não desejava acordar.
Um livro do qual não queria que terminasse.
Será que você sente
Tudo o que eu sinto por você?
Será que é amor?
Tá tão difícil de esconder
- Olha o Que o Amor Me Faz / Sandy & Junior
Mais cedo, naquele mesmo dia…
Ao mesmo tempo que sentia o gosto da superação…
Sentia seu corpo dolorido pela longa rotina de trabalho duro e muito esforço. A galeria estava ativa e operante, com alguns pedidos significativos fechados e algumas encomendas feitas. O sol atravessava a fina camada de vidro blindex que compunha toda a fachada da Carter Fine Art, preenchendo o ambiente com uma luz dourada que refletia nos quadros recém-instalados e nas esculturas minimalistas expostas pelo salão principal. O som dos saltos de Meredith ecoava suavemente sobre o piso de cimento queimado enquanto ela se aproximava de uma tela que ainda aguardava a curadoria.
Sentada atrás do balcão de madeira rústica, deslizava distraidamente o dedo pela borda da xícara de porcelana, o olhar perdido na tela do celular, que vibrava intermitentemente.
— Deixe-me adivinhar… — disse Meredith, em seu tom malicioso, com aquele meio sorriso perspicaz. — É um certo artista urbano?
suspirou, inclinando-se para trás na cadeira, sem negar, mas também sem confirmar.
— Quarta mensagem desde a manhã — respondeu, deslizando a tela para ler mais uma notificação. — Confesso que sua energia é difícil de ignorar… E sua insistência também.
Meredith arqueou uma sobrancelha, segurando a risada.
— Achou mesmo que ficaria apenas no lançamento da exposição? — Então, girou nos calcanhares, se aproximando dela. — E ele não iria tentar algo mais sério e concreto? Como é inocente essa minha irmã caçula.
apertou o celular, tentando ignorá-lo.
— É só... Provocação — constatou . — Certamente é parte do charme rebelde de artista.
— Charme é uma palavra bem gentil pra descrever aquilo. — Meredith lançou aquele seu olhar, divertida. — Mas o que eu achei mais interessante não foi o artista, e sim as reações do advogado.
Sua menção foi como uma lâmina delicada e pontual.
parou, rígida, antes de soltar lentamente o ar pelos lábios.
— Ele não disfarçou em nada, pelo menos não para mim — murmurou a caçula. — Os olhares eram praticamente flechas atravessando a sala inteira.
Meredith, ao puxar uma cadeira, sentiu-se ajeitando o corpo em seguida.
— Ele parecia prestes a incendiar a galeria inteira só com o maxilar tensionado — concordou a mais velha, de imediato. — Isso é um fato, estava com um notável ciúme.
tentou manter a compostura, mas o sorriso puxou discretamente um dos cantos de sua boca.
— Ele não tem esse direito. Foi ele quem pediu o divórcio, lembra? — rebateu, fingindo indiferença, embora a voz denunciasse um tremor sutil. — Ele escolheu o trabalho, os processos, as reuniões. Não fui eu.
Meredith se inclinou um pouco mais, agora com o olhar mais suave, menos sarcástico.
— Sabia que amor e orgulho nunca se equilibraram bem na equação de vocês dois? — Fez uma pausa, antes de acrescentar: — Você viu o jeito como ele segurava a taça? Se apertasse mais um pouco… E cada vez que o artista se aproximava de você, parecia que uma guerra mundial iria se iniciar em meio ao salão principal.
desviou o olhar para os quadros.
— As mudanças de humor de me irritam… E machucam — confessou, em um tom mais baixo, quase uma rendição.
O celular vibrou novamente. Outra mensagem do artista urbano, que a fez ler em pensamento desta vez.
"Então... você vai continuar fingindo que não temos uma química e me ignorando?"
— Não quero mais problemas para o meu coração em recuperação — sussurrou, ao desligar a tela do celular e colocá-lo em cima do balcão.
Meredith, em solidariedade, estendeu a mão, segurando a dela com firmeza.
— Querida, o problema jamais será dar chances para outro homem… O problema sempre foi que, no fundo, você não quer outro, e sim o mesmo de sempre.
Silêncio.
O tipo de silêncio que só as irmãs conseguiam compartilhar — carregado de verdades, lembranças, dores e cumplicidade. Logo, o som do tilintar delicado de uma escultura de vidro suspensa, balançando com a brisa que atravessava discretamente o salão, lhes atraiu a atenção. Uns minutos e outra mensagem apitou no celular de , porém, desta vez, não era o artista, e sim, o advogado que lhe causava pesadelos e sonhos perturbadores. Antes mesmo de pensar o que faria, a mensagem apareceu aberta diante dela, em um movimento automático. Ficou olhando por alguns segundos, imóvel. Os olhos varreram, indecisos, o teclado virtual, enquanto sua mente travava uma batalha interna cruel.
— Não vai responder? — Meredith, curiosa, espichou o pescoço para tentar ler.
— É o … Se eu responder, ele vai achar que me importo — rebateu , apertando os olhos, o polegar pairando sobre a tela. — Se eu não responder, ele vai interpretar como um desafio e vir pessoalmente.
— E ambas sabemos o quanto ele adora um desafio — Meredith completou, sorrindo de lado, mordaz.
soltou um suspiro curto, como se o ar lhe ardesse dentro do peito, e finalmente levantou-se da banqueta a qual se mantinha sentada. Ela precisava tomar um ar no jardim para espairecer sua mente e esquecer aquela parte indefinida de sua vida. Pelo menos teria o trabalho para se concentrar e não agir por impulso com o risco de se arrepender.
O frescor do outono estava com os dias contados.
Aos poucos, a brisa gélida do inverno começou a dar seus sinais. A última quinta-feira do mês de novembro havia sido agraciada com uma repentina mudança no clima. O Dia de Ação de Graças seria celebrado com uma fina camada de chuva, que caía do lado de fora, riscando os vidros do apartamento em Mayfair com sons quase perceptíveis. O relógio já marcava pouco mais de uma da tarde, e se mantinha de pé em frente à bancada da pia sem saber o que faria para o almoço de celebração.
Seria o segundo ano consecutivo sem a presença dele.
Um suspiro cansado da mulher, que logo notou a presença da filha, vindo do corredor dos quartos. entrou na sala em silêncio, enrolada no cobertor, que lhe acompanhou toda a manhã de feriado, em sua maratona de doramas na Netflix. O olhar da filha encontrou-a apática e parcialmente reflexiva, com expressões de quem não sabia o que estava fazendo da vida.
— Acho que nosso almoço sairá atrasado — anunciou a mãe, com a voz baixa, quase um sussurro.
deu um sorriso fechado, ao voltar sua atenção para a filha.
— Está tudo bem, não estou com fome — assegurou a filha, entendendo os sentimentos da mãe relacionados àquele dia. — Já passaram três meses desde a nossa vinda para cá e ainda não me acostumei com o colchão.
Resolveu mudar o assunto.
— Tem certeza de que é apenas o colchão? — indagou a mãe, conhecendo-a bem.
— Não é… — afirmou, engolindo em seco, sentindo um aperto no peito. — Não tenho tido bons sonhos.
— Sua mente tem estado mais barulhenta que o habitual? — indagou.
assentiu com a cabeça, ao se aproximar da área da cozinha e puxar uma banqueta para se sentar.
— Não apenas a mente tem estado barulhenta... — continuou a filha. — Mas meu coração também.
olhou-a com ternura, de alguém que sabia quando a filha precisava desabafar.
— É pessoal? Ou está relacionado ao divórcio? — indagou, criando uma abertura para uma conversa mais profunda.
— Pessoal — respondeu.
— O que tem lhe perturbado? — indagou, recebendo o silêncio como resposta.
respirou fundo, havia muitas inquietações internas que a deixava sem forças para lutar.
— Está relacionado ao monitor da livraria? — continuou a mãe, traçando uma estratégia para perguntas pontuais.
Ambas já tinham conversado sobre o assunto algumas vezes ao longo daquele tempo.
— Sim. — Mais um suspiro fraco. — Eu não sei o que fazer.
— O que a incomoda? — insistiu.
— Eu o conheci antes de toda a chuva de impedimentos… E acho que fiquei tão assustada por estar interessada por alguém que é relativamente carismático e popular, era um sentimento novo para mim… — Seu tom tinha traços de saudosismo, por um breve momento que viveu, inspirado nos seus livros de romances vitorianos. — No início, pensava ser apenas fascinação pela forma como ele foi cavalheiro comigo na primeira vez que o vi… Mas acabei me descuidando e me… Apaixonando de verdade.
— E qual o problema de estar apaixonada por ele? — questionou, estranhando a história, notando que tinha mais linhas do que ela havia relatado da última vez.
— Foi isso que eu não contei… — Em um respiro profundo, abaixou o olhar, envergonhada por seus sentimentos. — A garota que te contei, que se tornou minha amiga depois que trombamos na biblioteca… É a namorada dele.
— Isabella? Ou a Sophie? — indagou, tentando lembrar-se de qual das duas.
— Isabella — respondeu. — Izzy.
Uma breve pausa.
— Eu juro que tentei… tentei ficar longe dele e não levar adiante minha amizade com ela, mas não consegui — continuou em seu desabafo. — Quanto mais eu invento desculpas para não participar de encontros com o grupo, mais ela me envia convites para estar com eles, sem direito à recusa.
Houve uma pausa pesada. inclinou-se um pouco na bancada da ilha e segurou com gentileza as mãos da filha, transmitindo apoio a ela.
— Às vezes... — sua voz saiu rouca, sincera — nosso coração faz escolhas por vontade própria, esquecendo-se de perguntar à razão se ele pode seguir tal caminho.
— É errado eu gostar dele?! — indagou , com os olhos marejados. — Porque a cada conversa que temos na livraria, meu coração acelera ainda mais.
Sentia uma dor interna.
, em sua empatia infinita, deu a volta na bancada e abraçou a filha. Um abraço acolhedor e reconfortante, que fez a jovem derramar mais lágrimas em seu ombro. Aquele era o momento mãe e filha, em que compartilhariam suas tristezas e encontrariam forças uma na outra. Por mais que a mãe se mostrasse sempre forte e inabalada, diante dela, o interior de também tinha suas trincas e rachaduras. Ambas ficaram em silêncio. Só a chuva, lá fora, parecia capaz de traduzir tudo o que não cabia em palavras.
E então, em um gesto automático, beijou a testa da filha.
— Não se culpe por gostar dele — disse a mãe com segurança no olhar. — Mas só te peço uma coisa, ... Nunca, nunca se diminua pra caber no mundo de ninguém.
fechou os olhos, gravando cada palavra como quem grava um juramento secreto. Contudo, o conselho de também valia para ela mesma. Alguns minutos com ambas indecisas sobre o que iriam preparar para o almoço, o som do interfone cortou-as de imediato. Era uma visita tão inesperada quanto a chuva no final do outono. Alguns passos até a porta e os olhos da mulher ficaram parcialmente estáticos.
.
Com sua alfaiataria impecável, agora sendo esbanjada em um terno azul marinho, gravata escura, devidamente alinhado — a personificação do autocontrole. Ou, pelo menos, da tentativa de parecer que o tinha. Seus olhos claros se mantiveram fixos nela, até que desviou brevemente para a filha mais atrás.
— Feliz Dia de Ação de Graças — disse, quase como uma explicação de sua presença ali, enquanto levantava a mão direita, mostrando ter levado uma caixa requintada contendo uma torta de maçã dentro e outras sacolas suspeitas na mão esquerda.
— O que faz aqui, em pleno feriado? — indagou ela, embasbacada com a situação.
— Pelo que sei, hoje é um feriado para se passar em família — explicou com seu tom de advogado. — E ainda somos uma família.
— Papai! — A voz de cortou a tensão criada entre os dois, e logo a filha passou pela mãe e o abraçou. — Que bom que está aqui!
— Boa tarde, querida! — disse, retribuindo o abraço.
Ao se afastar, analisou discretamente os olhos inchados dela.
— Andou chorando, ?! — indagou, com precisão.
— Ah… — A jovem se acanhou pelo pai sempre observador aos detalhes. — Estava vendo um dorama na Netflix… Era triste.
— Hum. — voltou o olhar para a esposa. — Poderia guardar nossa sobremesa?
— Ah… Claro. — ainda estava absorvendo toda aquela informação repentina.
Há minutos era apenas ela e a filha, agora, seu feriado estava um pouco mais movimentado.
— Achei que encontraria sua irmã aqui — comentou ele, ao passar pela porta e fechá-la no lugar da filha.
— Segundo ela, vai passar aqui mais tarde, pois já tinha um compromisso inadiável — explicou . — Achei que iria para casa dos seus pais como no ano passado.
— Meus pais estão viajando — contou ele, com naturalidade, seguindo-a até a cozinha. — Mas ainda se estivessem aqui… Não seria lá a minha localização atual.
— Hum?! — A mulher virou-se bruscamente para olhá-lo, precisava ver se seu olhar continha a verdade.
Contudo, acabou trombando nele, que estava a centímetros de distância.
— Ops… — sussurrou no impacto.
— Te peguei — disse ele, ao equilibrá-la com um leve toque ao centro de suas costas.
— Obrigada. — Afastando-se rapidamente, se virou para guardar o pacote de torta no micro-ondas.
— Eu deveria perguntar o que temos para o almoço? — indagou ele, ao notar que não havia nenhum sinal de preparação da refeição.
Mãe e filha se entreolharam, sem saber o que responder.
— Imaginei — ele riu de canto, ao deixar as sacolas misteriosas em cima da bancada e retirar o paletó, apoiando-o no assento da banqueta. Então arregaçou as mangas da camisa de linho egípcio, seguindo até a geladeira. — Deixe-me adivinhar, ambas iriam comer macarrão instantâneo ou torradas com pasta de amendoim?
— Não exagere — reclamou a mãe, fazendo uma careta.
— Ainda estávamos escolhendo o menu — completou a filha, segurando o riso.
— Ok… Vou ser bonzinho com as duas e preparar nosso almoço — deu um sorriso de canto.
Aquele sorriso.
Foi tudo o que ele precisava para cravar a mais letal lâmina no coração de . Ambas as senhoritas se sentaram nas respectivas banquetas e apenas observaram aquele homem cheio de destreza manuseando os instrumentos da cozinha com maestria. Se não fosse um bem-sucedido advogado, poderia ter seguido muito bem a carreira de chef célebre, por sua invejável habilidade com a área da gastronomia. Filho de peixe… Sua mãe era famosa no meio por sua linha de restaurantes de elite.
Por um instante em que a filha se afastou para atender uma ligação…
— Gosta do que vê? — perguntou ele, em um tom instigante.
— Que mulher não acha atraente um homem de avental cozinhando para ela? — retrucou a pergunta, sendo enigmática. — Se eu dissesse que não… estaria mentindo.
Uma risada baixa veio dele, que manteve a concentração no que fazia. Contudo, percebeu o suspiro ávido vindo dela.
— O que está aprontando aí? — indagou ela, curiosa com sua preparação refinada.
— Não confia em mim? — brincou ele.
— Já tem um tempo que não o vejo cozinhar. — As palavras de realidade a cortavam por dentro, com certa leveza.
A ele também.
— Salmão assado ao molho de manteiga, limão e alcaparras, acompanhado de batatas gratinadas e salada, um mix de folhas verdes com pera, nozes e vinagrete de mostarda e mel — respondeu ele, encerrando o mistério. — Acho que se lembra dessa combinação.
— Filé de salmão fresco, assado rapidamente, servido com molho cítrico de manteiga dourada, alcaparras e ervas, acompanhado de batatas meia lua gratinadas ao forno e regadas ao vinho branco com alecrim… combinados a uma salada fresca, elegante e aromática, que traz contraste entre o doce da pera, a crocância das nozes e o ácido suave do vinagrete — descreveu ela, poeticamente e com exatidão. — Como poderia me esquecer… Foi isso que cozinhou no nosso jantar de noivado.
— Sim… — assentiu, mantendo o sorriso de canto no rosto, aliviado e grato por ela se lembrar. — Minha mãe me fez passar o dia escolhendo os ingredientes frescos na feira.
— E fez o mesmo hoje? — perguntou, curiosa, deixando soar como saudosismo pelo momento recordado.
— Antes do sol nascer, eu estava lá escolhendo as peras — contou ele, em uma entonação de zelo e preocupação.
Enfatizando subjetivamente que não havia se esquecido de sua preferência pela fruta. Era a favorita de .
— Hum… — Havia lhe deixado sem palavras.
— Como tem sido na galeria, após a reinauguração? — continuou ele, mantendo o clima suave e descontraído, de dois amigos conversando sobre assuntos rotineiros.
— Muito trabalho e novos projetos — contou ela, em um tom de satisfação. — Voltei à fotografia.
— Sério?! — ele parou por um momento e a olhou com felicidade. — Que legal, fico feliz por isso, você sempre teve o dom para enxergar além das lentes.
Ela notou que vinha com sinceridade.
— Sim, já estava mesmo pensando sobre isso em Derbyshire, e quando viemos para cá, vi a oportunidade de voltar — continuou ela, em um tom empolgado. — Mas precisei de alguns workshops para relembrar o básico.
Uma gargalhada suave e gostosa, que o levou a rir junto.
— Tenho certeza de que nunca desaprendeu por completo — comentou ele, em sua forma de apoio subjetivo. — Há certas coisas que são como andar de bicicleta, você nunca desaprende.
— Isso é verdade. — E, levantando-se da banqueta, correu até a parte que havia feito o escritório para pegar sua câmera profissional. — Por isso… Vou praticar um pouco com você!
— O quê?! — ele riu meio sem jeito. Por mais que tivesse sua pose elegante e rígida de sempre, não estava acostumado com algo tão singelo assim. — Ah, não, não sou o modelo ideal.
— Acredite… — Ela se posicionou no ângulo certo, ajustando o zoom da câmera para capturar a cena. — Você é perfeito.
Um clique… Um pulsar mais forte.
Por mais que tivesse soado com naturalidade de uma profissional, para ambos, aquela pequena e significativa palavra era margem para tantos outros sentidos e significados.
— Abrirei uma exceção, apenas para você. — Olhando-a com seriedade e singela sutileza.
jamais imaginaria que seu feriado seria assim.
Primeira semana de dezembro…
E o inverno já dava seus primeiros sinais de proximidade. Após semanas relutando o inevitável, tirou alguns minutos da sua manhã para finalmente ler a atualização dos documentos do divórcio. Com o coração apertado, seus olhos foram passando linha por linha, sem pular nenhuma palavra.
— Finalmente resolveu encarar? — comentou Meredith, ao se aproximar e perceber o que ela fazia.
— Não posso protelar mais — relatou sua decisão. — Daqui a pouco fazemos dois anos nessa indecisão.
— Só acho que, se quisessem mesmo o divórcio, já teriam assinado isso — tentou ser sutil, mas saiu como um tapa que acordava para vida.
Apenas o som de um suspiro cansado veio de que, ao finalizar, levantou-se da cadeira, ajeitando a bolsa no ombro. Fechou a pasta de documentos, seguindo para a saída. Nem mesmo os questionamentos da irmã, indagando aonde ia com tanta pressa, fez-lhe retrair os passos apressados. As duras palavras de Meredith tinham surtido efeito. Se era para ter um divórcio, não poderia mais protelar.
Afinal…
A ideia partiu dele.
E, ao chegar em frente ao monumental edifício em que se localizavam os andares pertencentes ao escritório de advocacia do marido, fez uma pausa para manter o foco ao olhar para a fachada de espelho de vidro, sabendo que uma simples assinatura mudaria tudo em sua vida. Respirou fundo. E entrou confiante de que, naquele dia, não seria vulnerável à dor interna que sentia pelo rompimento de uma história construída com lutas, conquistas e muita cumplicidade.
— Senhora Blackwood… O senhor Blackwood está em reunião — anunciou a secretária, que no impulso do desespero, saiu correndo atrás da mulher.
estava tão determinada, que nem se importou com o desespero da funcionária e seguiu até a porta que se mantinha fechada. Um giro na maçaneta e passos inesperados adentrando a sala do sócio majoritário. Seu corpo gelou de imediato ao ver a não tão amiga, Taylor, próxima o suficiente para alisar a gravata do homem, com um sorriso de segundas intenções.
— Senhor Blackwood, eu disse que o senhor estava em reunião. — A voz afobada da secretária soou atrás dela.
Mas não foi o suficiente para encerrar sua pequena paralisia pela cena.
— . — O tom surpreso de , sim, foi o que a despertou.
— Continue com a sua reunião — disse ela, em um tom seco e amargo, já dando meia volta para sair o mais rápido possível dali.
Em seu breve momento de desorientação, nem mesmo se deu o trabalho de chamar o elevador, internamente estava em um misto de frustração e raiva, que preferiu descer as escadas. Assim, se chorasse pelo caminho, apenas o segurança das câmeras a veria. E foi assim ao passar pela porta de acesso e descer correndo o primeiro lance.
Seriam muitos, já que o escritório ficava no décimo sétimo andar.
Logo, a sensação de estar sendo seguida lhe atingiu, e de fato estava. No quinto lance de degraus, a mão de a parou na metade do trajeto, puxando-a para perto.
— . — Seu tom firme, com traços de desespero, não foi capaz de desestabilizar o olhar sereno e controlado dele.
— Me solta — pediu ela, se debatendo.
— Não. — Foi firme em sua recusa. — Não quero dar margem para que pense algo que não está acontecendo.
— Não estou pensando nada — retrucou ela, demonstrando a raiva no olhar.
— Não é o que estou vendo — argumentou, em uma serenidade fora do comum, que a irritava ainda mais. — Por favor, me deixe explicar.
— Já disse que não quero saber. — Elevando o tom da voz, ela conseguiu soltar-se de forma brusca, tanto que até a pasta em sua mão fora lançada para longe.
O que não foi notado pelo nervosismo do momento, e sem dar espaço para o contra-ataque, ela se afastou dele, retornando para o interior do edifício, partindo para o plano B: o elevador. Assim que as portas se abriram e ela entrou, a expectativa foi desfeita pela interrupção de , que, ao entrar logo atrás, apertou o botão para fechar a porta e em seguida o de trava de segurança.
— O que está fazendo?! — indagou ela, perplexa pela ousadia dele.
— Você vai me ouvir, querendo ou não — disse, confiante de sua inocência.
— O que eu vou ouvir? — indagou ela, não disfarçando o ciúme que vinha reprimindo sempre que estavam próximos. — Sei muito bem da sua história com a Taylor antes de nos conhecermos.
— Então sabe que não existe mais nenhuma linha a ser escrita — retrucou ele, reunindo toda a paciência que se escondeu em seu interior.
Foram precisos três passos para chegar bem próximo a ela, fazendo-a recuar até restar apenas a parede fria do elevador para lhe sustentar de pé. apoiou a mão direita na parede, na altura de seu rosto, com o olhar fixo e arrebatador.
— O que veio fazer aqui? — indagou ele.
— Está mudando de assunto — retrucou ela, não respondendo.
— Blackwood… — prosseguiu, inclinando um pouco seu corpo.
— É Carter, para você — corrigiu, segurando seu interior trêmulo pela aproximação, lutando contra a rendição fácil. — Foi você quem procurou por isso.
— E você aceitou de bom grado. — O único argumento que usava para a fatídica frase repetida por ela.
Inclinando-se mais.
— Diga que não me ama — sussurrou em seu ouvido, com aquele toque de malícia que ela conhecia.
— … — sussurrou de volta, ao sentir a intensidade que emanava dele, em um misto de desejo e atração. — Por favor…
Ela não iria mentir… Não em relação ao que ainda sentia por ele.
Diante do silêncio que pousou sobre ambos, com os rostos próximos o suficiente para sentirem a respiração um do outro. Em sua sutileza, os lábios de tocaram os dela, em um beijo que possuía a mistura de doçura e amargor, que os ardiam por dentro. Por mais que quisesse resistir — por mais que seu orgulho urrasse em seu peito —, se viu incapaz de sustentar a batalha que ela mesma declarara.
Seu corpo cedeu antes que sua mente pudesse formular qualquer defesa plausível, rendida estava às investidas do homem, sem nem mesmo se importar com o lugar em que estavam. O advogado, por sua vez, bastou um gesto discreto e preciso com a mão esquerda, para que o responsável pelas câmeras entendesse o recado. O elevador exclusivo dos executivos estava temporariamente interditado, e a câmera devidamente desligada para “reajustes” do sistema.
— … — um gemido vindo dela.
Suas mãos, que antes empurravam o peito dele em negação, agora seguravam sua camisa, puxando-o com uma fome que vinha sendo sufocada desde o feriado de Ação de Graças. O beijo, antes contido, se desfez em urgência — uma confissão muda de tudo o que haviam tentado negar. deslizou os dedos por sua nuca, enlaçando-a pela cintura, apertando-a contra si, como quem tentava, de algum modo, costurar os pedaços que a vida teimava em arrancar deles.
— … — Uma pausa de sua parte para puxar o ar com mais força, quase se esquecendo de respirar. Então, retomou do ponto em que havia pausado.
Ela apertou os olhos fechados, agarrando ainda mais o tecido entre os dedos, como uma entrega nunca tida antes, inesperada até por ele. Nenhuma palavra a mais foi necessária. Em um breve momento de intimidade, apenas o toque, as carícias e os suspiros preenchiam aquele espaço apertado, onde o tempo parecia, enfim…
Ter parado só para eles dois.
Creo en ti y en este amor
Que me ha vuelto indestructible
Que detuvo mi caída libre.
- Creo en Ti / Lunafly
O soar das portas se abrindo…
Este foi o som que quebrou o silêncio que havia se mantido dentro do elevador.
— . — O tom de voltara à sua irreverência e rigidez de sempre.
— Isso não muda nada — declarou ela, ao respirar fundo e dar o primeiro passo para se retirar.
sentiu um ardor em sua garganta a cada passo de para longe. Ela, por sua vez, manteve a pose obstinada, com a intenção de fazê-lo amargar por tê-los levado àquela situação, mesmo que também sentisse as dores do processo.
Uma breve pausa nas atividades para contemplar a neve…
O Natal em família havia sido silencioso e solitário para . Mesmo com a comemoração sendo orquestrada por sua mãe, que convidou toda a família e amigos para a celebração, principalmente sua filha e esposa. O advogado em seus dias de amargura e reflexão escolheu por se afogar no trabalho como uma forma de esquecer a realidade. Com o olhar no horizonte, que mais encarava seu fino reflexo sobre o vidro da fachada, mantinha-se encostado à mesa de trabalho com as mãos nos bolsos da calça e uma garrafa de Bourbon aberta ao lado.
Todavia…
As semanas seguiram com a mesma rapidez e sutileza com a qual se apresentaram. , mesmo em sua luta interna, mantinha os encontros aos sábados pela manhã na livraria, com a ilusão de apenas estar recebendo indicações literárias de um amigo, e pequenas aulas particulares sobre os Princípios do Design de seu monitor.
Ambos sendo a mesma pessoa.
O som suave do sino na porta anunciou a chegada de mais um cliente à Casa del Libro. Manhã de sábado e aquele cheiro de papel antigo, café recém passado e madeira encerada mantinha sempre a sensação de um abraço silencioso para a jovem. , como de costume, caminhou até a seção de arte e design, seus dedos foram logo deslizando pelas lombadas, como um hábito já criado pelas frequentes visitas ao seu refúgio de Londres. Então, o encontro de um exemplar de capa vermelha a fez perceber uma presença de terceiros.
— Bauhaus: Art as Life — a voz de Bennet soou atrás dela, com leveza e curiosidade.
Grave, macia e ligeiramente rouca às margens do charme.
— Você tem bom gosto — continuou ele, surgindo ao seu lado, com aquele meio sorriso que parecia moldado sob medida para desconcertá-la.
E pegando o livro da prateleira, em seu lugar, esticou para ela.
— Certamente terá uma boa leitura — completou, mantendo o discreto sorriso de canto.
— Bem, digamos que devo o meu bom gosto ao meu monitor — disse, com certa timidez pelo olhar dele. — Já que foi ele quem me recomendou.
— Hum… — assentiu com uma piscadela boba.
— Confesso que tem sido desafiador entender como os princípios do design podem fazer mais sentido na prática que na teoria — finalizou.
Ele arqueou uma sobrancelha, reflexivo em suas palavras.
— E já percebeu que tudo começa na Bauhaus? — Cruzou os braços, se apoiando na estante, os olhos presos nela. — Simplicidade, funcionalidade, estética limpa... Eles romperam com os excessos do maximalismo e o robusto do barroco, e entenderam que design é mais do que beleza e estética. É apresentar soluções das quais nem as perguntas ainda foram feitas.
— Me fascina a forma como menciona a Bauhaus. — Sua coragem permitiu-lhe a declaração mais aberta de sua admiração por aquele pequeno detalhe dele.
— Digamos que o senhor Gropius conquistou muito o meu respeito — explicou com objetividade. — E o senhor Rohe me agraciou com o melhor lema que nossa profissão poderia ter.
— Menos é mais — completou ela, entendendo a referência e brincando. — Viva o minimalismo.
pegou o livro de sua mão e o folheou, observando os cartazes, as tipografias geométricas, as linhas retas.
— “A forma segue a função” — sussurrou a frase de efeito da melhor escola de design que o mundo teve o prazer de conhecer. — De certa forma, parece também uma filosofia sobre a vida, não apenas sobre design.
sorriu genuinamente.
— De fato, a Bauhaus não queria só criar cadeiras bonitas ou prédios chamativos. Seu objetivo era redefinir o modo como as pessoas se relacionavam com os objetos, os espaços e, talvez, até consigo mesmas.
Ela o olhou, controlando-se internamente.
Suas conversas eram sempre inspiracionais e motivadoras.
A melhor parte de sua semana.
— Engraçado... — comentou, com um sorriso tímido. — Nunca achei que conversar sobre fontes serifadas, proporções áureas e mobiliário de design assinado pudesse ser tão interessante.
— Admita que agora está louca para ter uma cadeira Ghost — instigou ele, com uma risada boba.
— Ela não — ela riu junto. — Mas aceitaria uma Poltrona Mole de presente.
— Interessante… — observou ele. — Vejo que estudou sobre Sérgio Rodrigues.
— Sim, tenho me interessado muito pelo mobiliário de design brasileiro — assentiu, recordando de suas experiências nas pesquisas extras. — Influência sua.
— Bem, não é só de Oscar Niemeyer que se vive a arquitetura moderna brasileira — brincou. — E voltado ao nosso mundo do design, te convido a conhecer os Irmãos Campana, são bem excêntricos no que produzem. — Mais uma indicação vinda do seu lado monitor. — Porém são mais voltados para mobiliário, acho que de gráfico, posso te indicar Romero Britto, apesar de não ser minimalista.
Ele riu baixo, inclinando-se um pouco mais na direção dela.
— Espero que entenda que esse é um caminho sem volta. — Piscou mais uma vez, com ar de menino travesso.
Uma gargalhada tímida dela. E o silêncio que pairou depois dizia muito mais do que qualquer definição acadêmica. Ambos sabiam — naquele instante — que aquela conversa não era só sobre design.
— Bem. — voltou à sua postura rígida, distanciando um pouco.
Percebera que estava próximo demais do que deveria. O que representava um perigo para ambos.
— Vou te ver na Bush House, sexta? — indagou ele, curioso pela programação dela.
— Se eu não for, será duplo homicídio, tanto da Izzy, quanto da Sophie — explicou sua situação.
— Parece que não tem para onde fugir — analisou.
— Não tenho.
Ela não estava tão empolgada pelo evento, contudo, sua amiga Sophie contava com ela para seu networking social. E não podia dizer abertamente para Izzy que estar no mesmo ambiente que ela e a fazia mal. Ver a amiga agarrada ao namorado deixava deslocada, em estado de abalo emocional quase irreversível.
Bush House…
O melhor lugar para se dar uma elitizada Rooftop Party, proporcionando uma surreal vista panorâmica para o skyline vibrante de Londres, que parecia ter sido cuidadosamente moldado para uma noite que flertava com o inesquecível. O céu carregava aquele tom azul profundo das noites londrinas, cortado aqui e ali por luzes douradas e o contorno de prédios históricos misturados aos arranha-céus modernos.
A música reverberava em ondas pelo concreto e pelas paredes de vidro — uma sequência de indie eletrônico, house elegante e remixes alternativos que embalavam o corpo sem pedir permissão. Seu mobiliário mesclava sofás baixos em veludo preto, pufes de couro, mesas de centro espelhadas e poltronas de palhinha moderna, dispostas em lounges descontraídos, estrategicamente separados por vasos enormes de folhagens tropicais e oliveiras. Cada detalhe programado por Izzy, que planejou tudo. Era o mais aguardado evento da elite universitária londrina, a noite do Secret Circle, em seus muitos segredos e pecados disfarçados de diversão, onde limites se desfaziam entre olhares, desafios e tentações proibidas.
O tipo de festa que começava com promessas de descontração, mas ninguém sabia exatamente onde terminaria. As portas do elevador abriram, uma brisa fresca — carregada do perfume de flores, álcool, nicotina e algo indefinível que parecia pura eletricidade — envolveu a princípio. Uma experiência inédita que viveria naquela noite. A cena à sua frente parecia ter saído de um filme: a cidade inteira se estendia em 360 graus, com suas luzes tremeluzindo como constelações terrenas.
— ! Finalmente chegou — exclamou, agarrando sua mão. — Bem-vinda oficialmente ao círculo que você não sabia que precisava fazer parte.
— Oh… — Ficou estática, a princípio.
— Confesso que comecei a ficar preocupada, achando que não viria mais — disse a garota, com os olhos brilhando.
— Tinha um compromisso com a minha mãe antes — explicou.
Desviando de cadeiras, copos, pessoas sentadas no chão rindo de piadas internas, Izzy a guiou até a mesa vip, reservada aos membros da sua pequena a seleta sociedade.
— Olha só quem apareceu… — a voz de Noah reluziu em meio ao som da música que tocava. — A garota de Derbyshire.
— Achamos que não viria mais — comentou Lise, ao verificar seu bipe, pois aquele dia estava de plantão de sua residência.
— O Secret Circle… — anunciou Izzy, com propriedade de quem era a anfitriã da noite. — Nossa delicada caloura é, oficialmente, uma de nós.
É claro que sua entrada não havia sido por acaso, assim como a amizade repentina com Izzy. Mesmo utilizando o sobrenome de solteira da mãe, bastaram algumas pesquisas mais avançadas na secretaria para que Isabella descobrisse de quem ela era filha. Um dos casais mais influentes na elite britânica, a mãe herdeira de uma conceituada galeria, o pai, o advogado mais voraz e bem-sucedido do país. Não fora sem propósito o interesse de Aidan pela caloura do interior, menos ainda o pedido do amigo para que a carismática popular se aproximasse dela.
Partners tinha uma ligação forte e promissora com os Blackwood.
No lounge, quatro pessoas estavam distribuídas em posturas relaxadas, não deixando de exalar a autoconfiança. Uma variação de estilos, mesmo ambos sendo da alta classe social: o cara do curso de arquitetura, com camisa social meio aberta e cabelo bagunçado; a patricinha do curso de moda com suas roupas de grife e o olhar analítico; a aspirante a neurocirurgiã com suas roupas formais além do necessário, e um estetoscópio escondido no fundo da bolsa; e, por fim, o atleta do curso de administração, que jogava basquete como armador pelo time da universidade.
— Boa noite — cumprimentou , ainda acanhada.
Fez-se atenta ao cumprimento de todos, contudo, seu olhar estava mesmo procurando por alguém, que parecia não estar ali. A figura de Bennet apenas mostrou-se presente quando ela se sentou ao lado de Judy, desviando o olhar para a área do bar. Precisava controlar suas emoções, ainda mais, naquela noite. Próximo ao grupo, de pé, na beira do parapeito, observando a cidade como quem decifra códigos invisíveis, mais um membro, de traços afiados, roupa preta impecável e mãos nos bolsos. Seu olhar se desviou da paisagem e pousou nela, direto, firme, como se tivesse esperado por aquele momento a noite inteira.
Aidan.
— Espero que possa se divertir essa noite, Blackwood — disse ele, chamando-a pelo sobrenome do pai.
O sorriso que curvou seus lábios não era de boas-vindas. Era um convite. Ou um alerta. , em um frio na barriga, naquele instante, percebeu que a noite seria tudo — menos previsível.
— Já que estamos todos aqui, que tal um jogo para descontrair? — sugeriu Judy, lançando um olhar tendencioso para Izzy.
— O que nos sugere?! — indagou Aidan, se interessando.
— Como anfitriã… Eu escolho. — Izzy notou a aproximação do namorado, então, se inclinando um pouco, pegou uma garrafa, deixando um pequeno sorriso malicioso se desenhar no canto do rosto. — Verdade ou desafio!
Murmúrios de aceitação soou entre eles.
Izzy, puxando um puff para se sentar, posicionou a garrafa vazia em sua mão, deixada ao centro da mesa de vidro, girando-a devagar, como se o universo estivesse segurando a respiração. Queria criar uma atmosfera de tensão e curiosidade em todos os envolvidos. As luzes de neon se refletiam no vidro e no rosto de cada um, tornando cada expressão ainda mais intensa.
O primeiro a ser contemplado: Noah.
— Verdade ou Desafio? — perguntou Izzy, com um sorriso divertido, já antecipando a confusão, entretanto frustrada por não ser quem ela queria.
Noah ergueu uma sobrancelha, e os cachos caíram ainda mais sobre a testa.
— Desafio. — Sua voz tinha aquele tom tranquilo de quem gosta e sabe jogar.
Judy, com olhar malicioso, sabia que viria bomba.
— Então, Noah, beije a pessoa à sua direita. Sem mais — completou Izzy, gerando os cochichos atravessados.
Noah engoliu em seco e se voltou para Judy, que cruzou as pernas, exibindo confiança. Ele se aproximou devagar, segurou o queixo dela com delicadeza e a beijou em um rápido estalo, causando espanto em . Não esperava que o rapaz fosse mesmo cumprir o desafio.
A garrafa girou novamente e parou em Judy.
— Verdade ou Desafio? — perguntou Izzy, inclinando-se para frente.
Judy cruzou os braços, a garganta apertada por alguns segundos.
— Verdade.
A anfitriã deu um sorriso cúmplice, apoiando o cotovelo no braço do sofá ao lado.
— Quem, neste círculo, você considera o maior perigo? — perguntou.
Todos viraram o olhar para Judy, curiosos. Ela hesitou, depois suspirou e, em um tom sóbrio, respondeu.
— Aidan. — Um soar com convicção. — Ele parece que sabe como derrubar as defesas de qualquer um, e ninguém sabe exatamente se é só charme ou ameaça.
Aidan ergueu o queixo, mas não soltou a bebida. Seus olhos encontraram os de , e, por um instante, o ar entre eles tremeu. Algo percebido por Bennett.
A garrafa girou novamente e parou em .
— Verdade ou Desafio? — Aidan tomou o controle do jogo e perguntou, a voz baixa, mas carregada de curiosidade.
O consenso de Izzy foi oculto, porém percebido por ele. sentiu o peito apertar, sabendo que qualquer escolha implicaria revelar algo profundo. E não podia se expor em um simples jogo entre amigos.
— Verdade — reunindo coragem, respondeu.
Aidan sorriu, saltitando aquele ímã de tensão.
— Qual foi a última vez que você se sentiu verdadeiramente vulnerável? — Parecia uma pergunta simples para quem estava de fora.
Um silêncio coletivo tomou conta do grupo.
Entretanto, não era para ela, que lutava diariamente para não perder sua sanidade mental, por estar próxima demais de alguém que considerava intocável. fechou os olhos um instante, recordando todas as lágrimas que escorreram em suas noites de maior agonia. Quando reabriu o olhar, encarou cada rosto ali, mas principalmente Aidan, que a observava, atento.
— Não saberia dizer… — iniciou ela, com um ardor inesperado em sua garganta. — Acho que no momento em que soube do divórcio dos meus pais.
Havia sido, sim, um momento de vulnerabilidade, porém, lá no fundo, ela sabia que aquela não era a resposta verdadeira.
A garrafa girou mais uma vez e parou em .
— Verdade ou Desafio? — Judy atropelou a amiga, inclinando-se para a frente, animada.
Queria ter o gostinho do controle também. soltou o ar devagar, olhos sobre por um instante, antes de responder:
— Desafio.
A tensão aumentou.
— Seja criativo: conte à , em público, por que ela é perigosa para você. — Uma brincadeira inocente para ela, que queria provocar a anfitriã ao seu nível.
se ergueu, encarando , que sentiu o pulso acelerar. Não estava confortável desde o início com aquele jogo, mas não iria estragar a noite dos amigos. Menos ainda dar abertura para questionamentos cansativos vindos da namorada.
— … — a voz surpreendentemente firme. — Você é perigosa, porque… É uma aluna dedicada e aplicada, suas notas são as melhores entre os calouros, tem um dom incrível para lettering, conquistou a admiração e confiança dos professores…
sentiu as bochechas queimarem de vergonha.
— E isso é perigoso, porque não aceito perder como aluno — completou ele. — Sou muito competitivo.
Um sorriso bobo e discreto escapou no canto do seu rosto. Perceptível a ela e curiosamente à namorada também.
A garrafa girou pela última vez e caiu em Aidan.
— Verdade ou Desafio? — perguntou Izzy, retomando o controle do jogo, consciente de que, naquele momento, ele poderia escolher algo que estremecesse ainda mais aquele grupo.
Aidan sorriu de lado, ergueu o ombro, deixando escapar o tom enigmático.
— Desafio. — Um sorriso presunçoso, uma piscada enigmática, de quem já tinha um plano traçado para o desfecho daquela noite.
— Te desafio a tirar nossa caloura para dançar. — Izzy foi suave, contudo, no limite certo que ele desejava.
assentiu ao convite cavalheiro de Aidan.
É apenas uma dança — pensou ela.
— Está nervosa — comentou ele, ao apoiar sua mão esquerda nas costas dela.
Propositalmente, uma baladinha havia iniciado naquele momento.
— É a minha primeira vez com alguém além do meu pai e dos meus avôs — deixou sair descontraído.
Internamente, o caos se instaurava, ao perceber o olhar de Bennett fixo na direção deles.
— Acho que já percebeu meu interesse em você — continuou ele, sinuosamente.
— Acho que sim — assentiu, se retraindo um pouco, pela intensidade de ambos os olhares e lados.
Era demais para ela conseguir lidar com aquilo.
— Foi uma surpresa saber que é filho dos sócios do meu pai — comentou ela, sobre sua descoberta ocorrida na ceia de Natal.
— Para mim, foi um prazer poder me aproximar mais de você naquela noite — confessou, com certa sinceridade. — Apesar do meu esforço em competir com o seu celular… ou melhor, com a outra pessoa que lhe arrancou sorrisos bobos.
Ele não sabia ao fundo quem era, mas falava de Bennet.
— Me desculpe — pediu ela, sem graça. — Acho que fui uma péssima anfitriã naquela noite… mas prometo compensá-lo.
— Tudo bem… Pode me compensar com um beijo. — Ele se inclinou com leveza, deixando seus lábios próximos o suficiente para sentir o calor do suspiro que soava dela.
No susto da timidez, sem saber como reagir à situação, se afastou dele e saiu correndo em direção ao elevador. Sair dali era a melhor decisão a se tomar, assim não iria se arrepender depois do que poderia ter acontecido entre ela e Aidan. A passos sem uma direção certa, a jovem prosseguiu caminhando pelas ruas da cidade.
Em Mayfair…
No seu apartamento, se deleitava com a vista privilegiada para o Hyde Park, sentada em sua confortável cadeira suspensa na varanda, saboreando uma taça de vinho. Seus pensamentos estavam concentrados na ausência de nas festividades de final do ano, e em sua repentina viagem de negócios para a América.
O som dos carros sendo seu fundo sonoro, e uma quebra de silêncio pelo tocar do interfone. Uma visita inesperada, que pensou inicialmente ser da sua irmã.
— Meredith, resolveu enfim se juntar a mim… — riu ela, ao abrir a porta com descontração.
Uma paralisia repentina.
Seus olhos encontrando os de .
— Boa noite — disse ele, esperando o convite para entrar.
O homem forçou o controle do olhar, pois as sinuosas pernas de estavam à mostra.
— Boa noite — sussurrou ela, abrindo mais a porta para que ele entrasse. — Posso entender a sua presença?
— Claro. — Em seu olhar observador, ele caminhou até o centro do apartamento, então virou-se para ela. — Você deixou isso cair.
Erguendo a mão, revelou a pasta lançada na fúria do ciúme.
— Eu havia me esquecido dela, mas não precisava vir me devolver — alegou, não dando a devida importância. — Eu já li tudo, e estou de acordo, sem considerações.
— Leu, mas não assinou — argumentou ele, enfatizando sua presença.
Por mais que mantivesse sua posição, o fato de não ter assinado lhe fez entender que ela não queria o divórcio de fato.
— Posso fazê-lo agora — sugeriu.
Internamente se arrependendo de imediato.
— É o que você quer? — Ele jogou a pasta em cima da mesa de centro e se aproximou dela. — Quer mesmo o divórcio?
— Não me olhe assim, foi você quem começou tudo isso. — As palavras em um tom frio o rasgaram por dentro.
— Você quer que eu diga que estou arrependido? — Suavizando mais a voz, ele parou diante dela, centímetros o suficiente para sentir a respiração profunda vinda da mulher.
— Não mudaria em nada agora — continuou, relutante.
Uma batalha não entre razão e emoção, mas sim de seu orgulho de esposa ferida e do veemente sentimento que tinha por ele, doce e puro. Meio passo de , que ao tocar em sua cintura, fez seu corpo arrepiar em reação ao calor concentrado na região que sentia seu toque.
— Diga que não me ama, e me mande embora — em um tom mais envolvente e sinuoso, sussurrou em seu ouvido.
Como conseguir sustentação diante daquilo?!
conhecia cada variação daquela voz que a deixava trêmula com facilidade. Era nítido que, assim como ela ainda o amava, o sentimento dele era recíproco e provavelmente mais profundo ainda. Logo seus pensamentos a transportaram para o feriado em que passaram juntos, a forma como ele preparou o almoço com todo zelo e cuidado para as mulheres da sua vida, de como se empolgou com a notícia de que voltara à fotografia, de como compartilhou de um sutil momento de comunhão, enquanto assistiam uma maratona extensa de O Senhor dos Anéis. Aquele memorável dia pareceu aos muitos, que viveram nos tempos em que ainda era uma criança, e exigia ver os clássicos da Disney.
— Diga que deseja o divórcio — continuou ele, ao encostar seus lábios no pescoço dela.
segurou com firmeza nos braços dele, sentindo a leve ondulação de suas veias, o calor que pulsava debaixo da pele dele, e o quanto seu próprio corpo traía qualquer tentativa de resistência. Seu peito arfava, apertado entre a razão que implorava por espaço e o desejo que a consumia inteira.
— ... — Seu nome escapou dos lábios dela em um sussurro quebrado, quase como uma súplica, uma perfeita rendição.
Ele segurou seu rosto com ambas as mãos, com aquela delicadeza que só ele sabia dosar entre força e ternura. Os olhos dele buscavam os dela, insistentes, quase feridos, como se quisessem arrancar uma verdade que ambos conheciam, mas se recusaram a vestir em palavras.
— Diga que não me ama e eu paro neste exato momento — sua voz soou mais rouca, carregada de vulnerabilidade, e seu polegar traçou lentamente a linha do queixo dela, antes de deslizar para a curva dos lábios.
O silêncio virou cúmplice.
A tensão elétrica entre eles vibrava, as mãos dele deslizaram para a cintura dela, apertando-a contra si, como se desejasse mergulhar nas ondas de seu corpo com todo o desejo que reprimia há dias, enquanto ela se entregava, perdida, rendida, desejando que aquele momento suspendesse o tempo, a lógica e os abismos que eles próprios cavaram. Não havia mais espaço para mentiras, orgulho ou fingimentos. Os braços de foram deslizando por seu tórax, até entrelaçarem no pescoço dele, puxando-o com força, e o beijo veio como uma explosão — voraz, urgente, uma mistura amarga de saudade e necessidade. Entre passos desajeitados e tropeços nas próprias vontades, a guiou até o sofá, onde ela caiu sentada, mas ele não lhe deu tempo nem para respirar. Suas mãos deslizavam pelas curvas dela como se explorasse novamente cada detalhe da geografia já gravada em sua mente.
Os sussurros tornaram-se gemidos abafados.
Suas mãos seguraram os botões da camisa dele, arrancando-os com uma mistura de pressa e fúria, enquanto ele a deitava no sofá, espalhando beijos pela linha de sua mandíbula, pelo pescoço, pela clavícula que tanto adorava.
— Me diga… — instigou ele, com a voz rouca, trêmula, enquanto segurava o rosto dela entre as mãos. — Que depois disso nada terá mudado…
respirou fundo, apertando-o contra si, os olhos brilhando com tudo o que ela jamais conseguiria verbalizar.
Tudo estava mudando…
E, naquele instante, tudo que existia era aquilo. Só eles dois, afogados nas próprias rendições, no amor que nunca morreu, e na certeza de que, mesmo quando o mundo parecia frio pela proximidade do inverno lá fora, ainda eram abrigo um no outro.
E o amor que nunca tinha partido, o calor que os aqueceria na estação mais gélida do ano.
— ! — A voz de Bennett despertou a garota de seus devaneios involuntários.
Ela ainda não tinha tido a coragem de voltar para casa, principalmente por não querer dar explicações à mãe. Seu corpo em deslocamento parou por completo e voltou-se para ele. Confusa por estar ali, já que havia se distanciado o bastante do local da festa.
— O que faz aqui? — indagou.
— Não podia deixar minha caloura voltar para casa sozinha — explicou ele, como se fosse o suficiente para a situação.
— Mas… E a Izzy? — continuou, não entendendo a decisão dele. — Vai ficar louca pela ausência do namorado.
— Ela sabe se virar muito bem sozinha em eventos assim — respondeu ele, com serenidade no olhar. — Além do mais, nunca gostei de festas universitárias… Prefiro passar a noite entre os livros da Casa del Libro.
Ela deixou um sorriso meigo e singelo surgir no canto do rosto. Sentia-se aconchegada por ele estar ali.
— Mas acho que já entendeu isso — completou.
— Fico feliz em saber que meu monitor é tão estranho quanto eu — brincou ela, ao voltar a caminhar.
deu uma risada baixa e descontraída, acompanhando-a ao lado, em seu ritmo.
— O que ele fez para te fazer sair correndo? — Poderia ter mantido aquela indagação para si, mas resolveu externar.
O vínculo de amizade e cumplicidade que haviam construído em seus encontros na livraria e nas aulas lhe permitia algumas perguntas mais íntimas.
— Nada de tão grave ou importante — respondeu ela, não querendo mencionar o fato. — Foi apenas algo desnecessário de se acontecer.
— Aposto que ele queria ficar com você. — Direto e preciso.
Conhecia Aidan o bastante para saber suas reais intenções com .
— Como sabe? — ela o olhou, impressionada.
— Não vale a pena continuarmos o assunto — desviou a conversa. — Preparada para a semana de provas?
— Não — respondeu, com uma risada de nervoso. — Mas acho que conseguirei surpreender o professor Leather. Tenho treinado desenho técnico em casa.
— Comprou uma mesa com prancheta? — ele mesmo havia lhe aconselhado a isso.
— Não — respondeu. — Mas tem uma na galeria da minha mãe, que uso lá.
— Hum… — um murmúrio sutil. — Passei lá há três dias, ficou muito bonita a reforma.
— Então… Foi o Bennett que fez uma grande reserva de uma fotografia da minha mãe? — Surpresa e perplexa por constatar que poderia ser ele.
— Não eu, mas meu pai — explicou. — Um presente de casamento para minha irmã, apenas ajudei a escolher.
— Não me lembro de falarmos da sua família — comentou ela, curiosa pelo assunto.
— É complicado… Mas prometo falar sobre isso algum dia. — Parecia dar sua palavra.
— A Izzy conhece eles pessoalmente?! — não conseguia conter suas perguntas.
— Meu pai me fez prometer que… apenas apresentaria a nossa família, a mulher que seria minha futura esposa — relatou ele, como se fosse uma condição. — Atualmente, tem sido complexo conseguir imaginá-la nesta posição… Por diversas divergências de ideias e opiniões.
— Então, ela não os conhece — constatou .
— Não — assentiu ele.
Um respiro de alívio, involuntário por parte dela. Que logo sentiu-se culpada por fazê-lo. Era errado desejar a ruína do namoro alheio. Contudo, não se privou de sentir o coração aquecido pela revelação e peso das palavras dele.
— Terminei o livro que me indicou. — Em uma manobra de disfarçar seu caos interno, ela continuou retomando o assunto da universidade.
— Qual deles? — indagou.
Foram tantos, que não conseguia adivinhar qual.
— Color Planning for Interiors de Margaret Portillo — respondeu.
— Está se bandeando para outros cursos? — brincou.
— Não — ela riu. — Mas, mesmo sendo para arquitetura e interiores, o conteúdo é muito rico, sua visão sobre psicologia das cores consegue ser mais profunda que em gráfico.
— Às vezes se faz necessário ver o mundo do ponto de vista do outro — concordou ele, que já tinha lido mais de duas vezes a publicação. — A forma como a arquitetura enxerga o espaço é diferente do design de interiores, que é totalmente o contrário do produto, que em alguns casos quase se esbarram no gráfico.
— O que te levou para o curso de produto? — indagou ela, curiosa. — Sei que sua família é totalmente distante das áreas criativas.
— Ah, sim… Não existe criatividade em administração e logística — ele riu com leveza e espontaneidade.
— Sim — concordou, rindo também.
— Digamos que… Uma cadeira me fez mudar toda a minha percepção da vida — confessou.
— Uma cadeira?! — Era impressionante para ela.
— Sim… E acho que conhece a cadeira Panton — continuou ele, detalhando mais sua resposta. — Foi em uma exposição de mobiliário de design assinado, que acompanhei minha avó… Quando me dei conta, estava reflexivo sobre como uma curvatura feita em fibra de vidro, tão delicada e sutil, podia transmitir tanta força e resistência.
— Impressionante que um símbolo do Pop Art tenha lhe atraído para este universo — comentou ela.
— Para alguém totalmente industrial e minimalista, é realmente contraditório — concordou ele.
A caminhada perdurou mais algum tempo, até que notou estar diante do prédio onde morava. Como chegaram ali?
— Como sabe onde eu moro? — indagou ela.
— Fiz uma entrega de livros aqui na semana passada — respondeu, com naturalidade. — Vi você saindo do elevador.
— Hum… — sibilou ela. — Quer subir? Minha mãe tem um livro sobre fotografia de mobiliário que acho que vai gostar.
— Sua mãe é fotógrafa também? — Seu olhar era impressionado.
— Sim, está voltando à ativa aos poucos — contou ela, ao se direcionar para a entrada.
— Sempre achei interessante fotografia especializada em interiores — comentou, gostando da ideia.
Os jovens adentraram o prédio, continuando o assunto sobre câmeras profissionais e suas lentes que custavam quase o valor de um carro popular. Até que o elevador se abriu no andar desejado e com naturalidade de quem achava que a mãe estaria sozinha em casa, abriu a porta.
— Mãe?! — A voz dela reverberou pela sala, enquanto entrava acompanhada.
Um silêncio intrigante foi a sua resposta, seguido de respirações afobadas, como de dois ladrões de joias que foram pegos em flagrante pela polícia.
— ?! — finalmente conseguiu expulsar a voz para fora, erguendo o corpo, aparecendo no sofá.
Em um misto de vergonha e timidez pela filha estar acompanhada e presenciar tal situação, sentiu o rosto corar e queimar, assim que ergueu seu corpo logo depois para cumprimentar a filha.
— Uau — disse , sentindo o constrangimento mútuo preencher o ambiente.
— Oi, pai… — sussurrou a jovem, entendendo tudo o que estava acontecendo entre eles.
Não sendo necessária nenhuma palavra de explicação.
— Eu acho melhor te esperar lá na recepção — disse , desviando seu olhar do casal, ao notar o desconforto da mulher, que se cobriu com a camisa do marido.
— É melhor… Eu descer com você — disse , ao pegar em sua mão e o puxar para fora, antes mesmo que os pais pudessem reagir ao ocorrido.
No fundo…
Mesmo diante da cena desconcertante…
Ela estava feliz diante de uma possível reconciliação dos pais.
¿Cómo poder recuperar tu amor?
¿Cómo sacar la tristeza de mi corazón?
Mi mundo solo gira por ti
¿Cómo sanar este profundo dolor?
Siento correr por mis venas tu respiración
Estoy tan conectada a ti
- Este Corazón / RBD
O silêncio foi profundo e pesado.
Tão pesado quanto a culpa que estava sentindo por mais uma vez ceder ao coração e às investidas do homem, que permanecia com o olhar de que não se importava com o que acabara de acontecer. Para ele, ambos não estavam fazendo nada de errado, apenas verbalizando em ações, no lugar das palavras que não conseguiam pronunciar.
— Não podemos continuar assim. — Finalmente conseguiu fazer o som sair mais uma vez. O coração, que pareceu paralisar por segundos, estava batendo normalmente.
— Como deseja continuar? — indagou ele, ao se ajustar ao sofá, ficando de frente para ela.
— … — Um olhar choroso, de quem sentia êxtase e dor ao mesmo tempo. — O que estamos fazendo com nossas vidas?
— Eu não sei… mas, se quiser, posso ir embora — sugeriu.
Não era apenas ela que vivia em plena agonia por não saber o que aconteceria a seguir. Para ele, era como ser cortado em várias partes da forma mais dolorosa possível, uma angustiante tortura com a finalidade de puni-lo por ter tido as palavras erradas em um momento de irritação e nervosismo pelas muitas discussões dos últimos anos entre o casal.
— Não se trata de ir embora. — Seu olhar sério e amedrontado foi nítido o bastante para ele entender as entrelinhas. — Mas do conteúdo daquela pasta.
— Por que não assinou? Como das outras vezes? — indagou ele, ambicionando extrair a resposta que esperava dela.
Um silêncio ensurdecedor entre eles.
se remexeu no sofá, então passando por ele, se levantando, enquanto vestia de forma inconsciente a sua camisa. Um hábito construído pelos anos de matrimônio.
— Porque sei que não haveria mais revisões depois disso. — Finalmente jogou as cartas na mesa, mesmo sabendo que sua mão era fraca demais para vencer aquela rodada.
— Você quer que eu assine? — indagou ele, ao se levantar, observando-a caminhar até a porta para a varanda.
As cortinas estavam entreabertas, mas com espaço suficiente para a passagem da brisa da primavera.
— Você quer assinar? — retrucou ela, ao se voltar para ele.
Mais silêncio de ambos os lados, com olhares analíticos de um forense que deseja com afinco desvendar os mistérios de uma cena de crime. No caso do casal em questão, a ambição por ler a mente um do outro, à procura das respostas pretendidas.
— Por que sempre foge das minhas perguntas?! — um sorriso de canto, entendendo o recado.
A escolha final não dependia dela e, sim, dele e do seu orgulho em optar pelo caminho errado, regado a dor e angústias. já tinha feito sua escolha ao deixar os documentos em branco. Ele deu passos firmes e pretensiosos até ela.
— … — o tom baixo e malicioso.
— Não me olhe assim — pediu ela, já imaginando o que viria a seguir.
— Mais uma vez, darei a você a chance de ditar as regras… — continuou ele, com segurança do que fazia. — Vou conduzi-la em meu colo até o quarto e pousar seu corpo sobre os lençóis, tem todo esse percurso para recusar minhas ações e me mandar embora…
Os olhos dela permaneceram expressivos, porém fixos a ele.
Inicialmente, não acreditava que faria aquilo. Contudo, como anunciado, a pegou pelo colo, fazendo o tempo parecer congelar ao redor de ambos. Aquele olhar desejoso que escorria malícia.
— Serei um cavalheiro e deixarei meus passos o mais lentos possível — disse em um tom reconfortante, de quem sabia que ela não iria intervir em sua jogada.
Sentir o calor do corpo dele fez suas pernas adormecerem por instantes. O impacto dos passos de conseguiu transmitir mais sons que os carros que passavam na rua, ou seu coração, que permanecia silencioso apenas esperando pelo momento certo de gritar ou se render mais uma vez. Ao passarem pela porta do quarto dela, por um breve gesto de provocação, ele parou diante da cama, mantendo-a erguida em seus braços.
E mais uma onda de silêncio da parte dela.
— A escolha foi sua — sussurrou ele, ao deitar o corpo da esposa sobre os lençóis, como pretendido.
Erguendo o corpo, o advogado retornou à porta para fechá-la devidamente, não se limitando a trancar em seguida. A chave? Fora arrancada da fechadura com precisão e jogada ao chão, causando um breve arrepio no corpo de pela enxurrada de pensamentos que lhe invadiu no instante. O som do objeto quicando no chão ecoou mais alto do que qualquer palavra não dita entre eles. Aquele gesto simples, porém cheio de intenção, ressoava como um selo — não havia mais espaço para idas e vindas, apenas para o presente sufocante dos dois.
— Seremos apenas nós dois… — assegurou ele, com um sorriso de canto discreto, enquanto retornava para a cama. — Sem prazo determinado.
Um respiro profundo vindo dela, enquanto o observava se inclinar para prosseguir com as intenções iniciadas no sofá da sala. Sem a filha para interromper, sem o mundo lá fora para os distanciar, seria apenas ambos e o amor que persistia em manter-se firme e relutante, quanto ao final de uma linda história de dois corações cúmplices. E ali, no entrelaçar de olhares e silêncios, ela compreendeu que certos amores não aceitam ponto final. Foram-se as resistências, diluídas no toque quente da pele dele, no deslizar das mãos que conheciam seus mapas secretos. E quando seus lábios se encontraram mais uma vez, não restou espaço para dúvidas — apenas a certeza de que, por mais que tentassem fugir, eles sempre seriam a casa um do outro.
Na recepção do prédio.
parou diante da porta giratória e só então percebeu que ainda segurava as mãos de Bennet. Em um impulso de vergonha e timidez, soltou de imediato.
— Me desculpe por… — Manteve o olhar baixo.
Não sabia se o pedido era pelos pais ou por sua ousadia em segurar a mão dele.
— Está tudo bem. — Um sorriso gentil e singelo se desenhou no rosto dele. — Pelo menos, parece que eles vão se acertar.
Para ele, a menção foi dos pais dela.
— Sim. — Um suspiro de alívio. — Obrigada por me acompanhar.
Assentindo com um sorriso, se despediu e saiu do prédio. , com receio de voltar para o apartamento, também passou pela porta de saída e se sentou nos degraus da pequena escadaria da fachada. Foi uma questão de instantes até que seu monitor se sentou ao seu lado, deixando-a surpresa.
— Por que voltou? — indagou ela.
— Percebi que uma amiga precisa da minha companhia até ter coragem o bastante para entrar em casa — brincou ele com a situação.
Ela não se conteve em rir.
Errado ele não estava. E, no mais, estava feliz por sua companhia, mesmo que lá no fundo lhe causasse certas dores silenciosas.
Na manhã seguinte…
Deitado de lado, ainda adormecido, a expressão suavizada — tão diferente da rigidez habitual, sem o peso do paletó, sem as defesas delimitadas por seu orgulho, sem as bordas afiadas que sempre usava como escudo. Ali, ele era apenas o , o marido amoroso e intenso. O homem que conheceu na adolescência, por quem se apaixonou com facilidade. E que, de alguma forma, nunca deixou de amar. Ela, já acordada, ficou alguns segundos apenas observando-o. Memorizando cada traço que conhecia de cor, mas que, na distância dos últimos meses, parecia ter se tornado quase abstrato. A linha forte do maxilar, as pálpebras pesadas, o leve franzir das sobrancelhas — mesmo dormindo, ele parecia carregar o peso do mundo.
Ou o peso de um pedido errôneo de divórcio.
Um suspiro escapou involuntário.
E, talvez, ele tenha sentido. Porque seus olhos se abriram, devagar, como se buscassem uma confirmação de que ela estava mesmo ali, de que a noite não havia sido uma miragem em seu deserto de ilusões e delírios. , fechou os olhos no mesmo momento, fingindo ainda dormir. Algo que arrancou um leve sorriso de satisfação nele, por conhecê-la a ponto de saber que ela estava, sim, acordada. Não havia mudado seus hábitos meigos e inocentes, após os momentos de intimidade profunda. Ele se remexeu na cama, erguendo o corpo o suficiente para encostar seus lábios no pescoço dela.
— Vou preparar o nosso café enquanto finge que ainda está dormindo. — Seu jeito direto e objetivo de falar era a marca registrada que a fazia arrepiar involuntariamente. — Me dê vinte minutos e venha para a sala.
Esquecendo-se de sua encenação, , ainda de olhos fechados, balançou a cabeça positivamente, assentindo as palavras dele. Fora tão espontâneo que arrancou uma risada boba e genuína do marido. Ao passar pela porta, fechando-a com cautela, logo ouviu o barulho da televisão ligada vindo da sala. A filha já estava de pé, se deliciando com desenhos que foram sucessos nos anos 90 e 2000. Uma pausa para contemplar a cena da jovem dando gargalhadas no sofá, então se dirigiu para a área da cozinha.
— Bom dia, Pandinha — cumprimentou-a com leveza, enquanto abria a geladeira.
— Bom dia, papai — respondeu ela, mantendo a atenção na televisão.
Sentia-se constrangida demais para mencionar o ocorrido na noite anterior.
Principalmente relatar que havia ouvido alguns gemidos vindos da mãe ao passar pela porta de seu quarto. Entretanto… Era nítido sua felicidade pela presença dele naquele apartamento. Um detalhe que tornou o lugar estranho em familiar em apenas poucas horas.
— O que está vendo? — indagou.
— Looney Tunes — respondeu. — Não me canso de assistir… Por mais que o Pernalonga seja o favorito, a graça de tudo está no Patolino.
— Sim — concordou o pai ao abrir a lixeira e perceber a pasta dos fatídicos documentos dentro.
Certamente uma ação da filha.
— Deseja algo em especial para o café?! — perguntou, com um sorriso de satisfação no rosto.
— Posso escolher mesmo? — Ela se virou no sofá e o olhou, surpresa. — Achei que a preferência fosse da mamãe hoje.
Soou em um tom divertido.
— Abrirei uma exceção para a minha princesa — argumentou ele, pisando de leve.
— Quero panquecas com geleia de morango — pediu.
, ao bater continência de leve para ela, arrancou algumas risadas da filha. Após dias turbulentos, pesados e incertos, aquela manhã tinha o gosto de suavidade e leveza que ele tanto ambicionava.
Não apenas para si, mas para sua família.
A qual, por uma decisão impensada, correu o risco de quase perdê-la.
Mais dias se passaram…
O cheiro de café recém-passado misturado ao perfume de páginas antigas preenchia todo o ambiente da Casa del Libro, uma marca registrada daquele refúgio que, de alguma forma, parecia conspirar sempre a favor dos encontros mais improváveis — ou dos mais inevitáveis. Na seção de design e artes visuais, entre estantes altas de madeira escura e luzes âmbar que aqueciam cada detalhe rústico, percorria os olhos pelos títulos dos livros recém-chegados, apesar de seus pensamentos não conseguirem se prender em mais nada além dele.
Bennett.
Ali, abaixado, ajeitando com precisão os novos livros na prateleira disponibilizada, ele parecia completamente alheio ao turbilhão que ela segurava no peito. E era exatamente aquilo que a fazia perder o ar — como alguém podia ser tão interessante até nas pequenas distrações? Respirou fundo, sentindo as pernas trêmulas, enquanto reunia forças para fazer o que havia decidido fazer, assim que levantou da cama naquela manhã. E, antes que sua coragem escorresse pelo chão, deu dois passos à frente, fazendo sua presença ser notada.
— … — chamou, em tom suave, quase um sussurro.
Ele ergueu os olhos, aquele olhar acinzentado e intenso encontrando o dela com uma facilidade desconcertante.
— Oi… — sorriu, ao terminar de encaixar o livro, levantando, endireitando o corpo para lhe dar atenção. — Bom dia… Não a vi chegar.
Ela engoliu em seco.
Ainda controlando sua insegurança.
— Está tudo bem? — indagou ele, notando sua estranheza.
— Na verdade… não. Quer dizer, sim. — Se viu atrapalhada nas palavras. — Mas não exatamente.
O sorriso dele curvou de lado, intrigado. Ela não estava estranha assim no dia anterior, em que se viram na aula de desenho técnico. Pelo contrário, seus comentários sobre a possível volta dos pais foi o assunto do dia entre eles.
— Está acontecendo alguma coisa? — insistiu o rapaz.
apertou os dedos na alça da bolsa transversal de crochê pendurada pelo ombro, sentindo o coração vibrar nas pontas. Uma parte de si dizia que ela precisava externar seus sentimentos, e a outra a acusava de querer arruinar o relacionamento de uma amiga estimada.
— Eu não sei exatamente como dizer isso sem parecer meio… boba ou maléfica. Mas eu não aguento mais guardar isso dentro de mim. — Inspirou fundo, reunindo cada pedaço da coragem que tinha se espalhado diante do olhar singelo dele. — Eu… Gosto de você... Não como amigo, nem como colega de faculdade, menos ainda como o monitor que me enche de revisões para fazer… — um riso nervoso — eu estou… completamente apaixonada por você. Desde o primeiro dia, em que segurou minha queda aqui nessa livraria, eu não consegui mais parar de pensar em você.
Por alguns segundos…
O silêncio pesou tanto que parecia que até as prateleiras escutavam. O mundo ficou suspenso no espaço entre eles. paralisou de imediato, processando cada frase dita, afinal, não esperava tão confissão de forma tão clara em uma manhã de sábado comum. Diante da expressão inexpressiva vinda do rapaz, o rosto de queimou de vergonha por ter feito tal coisa. Ao tentar se retirar para o mais longe possível, pisou em falso em um dos livros que estava caído ao chão, desequilibrando o corpo e já sentindo a queda certeira.
— … — A voz aveludada de foi parte do seu amparo, pois a mão do rapaz apoiou-se em suas costas, mantendo-a em equilíbrio.
Assim como na primeira vez e talvez até mais intenso do que se imaginou. Seus corpos a centímetros de distância, capazes de sentir a respiração um do outro, e perceber um arrepio involuntário vindo da parte dela. Olhares encontrados e fixos, uma tensão criada que os envolvia com veemência. No impulso do momento, o rapaz, esquecendo de qualquer informação externa e alheia a ambos, apenas inclinou de leve seu corpo até que os lábios encontraram os dela. Um beijo doce, inesperado e cheio de sutilezas, surpresa e de tudo aquilo que nem um, nem o outro, tinham conseguido colocar em palavras até então. As mãos dele apertaram suavemente a cintura dela e sentiu seu corpo inteiro se acender, como se tudo fizesse sentido — absolutamente tudo.
Para ela, aquele era oficialmente seu primeiro beijo.
O que tornava o momento ainda mais especial.
Exatamente como nos livros de Jane Austen, que tanto lia.
— Não deveríamos… — ele sussurrou contra os lábios dela, entre um beijo e outro, com a máxima consciência de suas ações erradas. — Sentir isso.
O que deveria ser colocado no singular, fora posto no plural.
Ele também estava apaixonado por ela?
O momento, que poderia ser digno de qualquer romance perfeito, foi quebrado subitamente por uma voz familiar:
— ?! — exclamou Izzy, parada na ponta do corredor, segurando dois cafés e uma expressão de choque misturado à indignação. — ?!
Com o olhar de namorada traída, Izzy conteve suas emoções de raiva e irritação, dando meia volta para se retirar do lugar. A garota nunca tinha gostado daquela livraria e não entendia o motivo do namorado trabalhar ali, pertencendo a uma família rica, importante e influente entre a elite londrina. E mesmo que inicialmente seu envolvimento com Bennett tenha sido pelo sobrenome dele, Isabella tinha criado sentimentos genuínos por ele. E agora estava ela vivendo praticamente uma cena de filme, correndo pelas ruas, sentindo-se traída pela amiga e namorado.
— Isabella. — A voz de soou enquanto tentou ir atrás dela.
, com os olhos marejados diante do que havia causado na amiga, apenas se prestou a limpar a primeira lágrima que escorreu por seu rosto. Ajeitou a bolsa no ombro e, tomada pela coragem certa, passou por na porta com a única vontade de desaparecer.
— — disse ele, sem reação pela passagem dela.
Internamente, o rapaz também estava em um misto de emoções, principalmente as referidas à caloura, que não sabia que existiam internamente. Seus sentimentos por estavam escondidos de uma forma tão complexa, que apenas foram percebidos quando o beijo aconteceu.
— Vim assim que ouvi o recado — disse Meredith, assim que a irmã abriu a porta do apartamento em Mayfair. — Onde está nossa Pandinha?
— Na varanda. — abriu mais a porta para lhe dar passagem, então fechou-a a seguir.
Meredith, com duas sacolas nas mãos, seguiu na direção indicada.
Um respiro profundo, como se já tivesse visto aquela cena antes, com a irmã mais nova sendo a protagonista. Um breve momento de observação, com os olhos atentos na jovem que se mantinha sentada na cadeira suspensa, com as pernas para cima e os braços envoltos, abraçando-as. Um olhar vago e distante, direcionado para os carros que passavam na rua.
— Pandinha?! — A voz da tia cortou o silêncio.
Nenhum esboço de reação.
— Depois que me contou o que fez, não quis falar mais nada — em sussurro, a mãe relatou à irmã. — Está há três dias assim.
— Me traga uma colher — pediu Meredith.
— Para que quer uma colher? — indagou.
— Não pergunte, apenas traga — retrucou, em repreensão.
Relutante e curiosa, o fez. Quando voltou, a irmã lhe entregou uma das sacolas que continha algumas barras de chocolate. E, pegando a colher, se colocou diante da sobrinha, agachando de leve.
— Me desculpe por não estar de bom humor hoje, tia. — O tom baixo, quase forçado.
— Não se obrigue a estar de bom humor por ninguém. — Meredith sorriu de leve e retirou um pequeno pote de sorvete da outra sacola. — Nada melhor que a comida para afogar as mágoas.
Erguendo a colher para a sobrinha, piscou de leve, arrancando-lhe uma risada baixa e espontânea.
— Obrigada, tia Meri — disse a jovem, aceitando de bom grado o sorvete e a colher.
— As mulheres dessa família são assim. — Erguendo o corpo, a mais velha apoiou-se no guarda-corpo, mantendo o olhar atento na sobrinha.
— Uma sempre apoia a outra — completou , ao se sentar na outra cadeira suspensa, sorrindo em gratidão à irmã.
— Posso entender melhor a história? — indagou a tia.
— Me apaixonei pelo namorado da minha amiga. — Direta e precisa como o pai. — Me sinto horrível por ter me declarado para ele.
— A amiga presenciou um beijo entre os dois — completou , sabendo a história de cor.
— Um pouco mais delicado do que eu imaginei — observou Meredith, arqueando a sobrancelha direita.
permaneceu em silêncio, empurrando a colher com um pouco do sorvete na boca. Mesmo sendo doce, ainda sentia o gosto amargo de sua traição descendo pela garganta, rasgando seu coração no processo.
— Sabe de uma coisa que aprendi com a vida?! — continuou a tia. — É que não devemos anular a nossa felicidade pela do outro, principalmente quando o outro não carrega o mesmo sangue.
— Meredith? — O tom de repreensão soou de , desaprovando as palavras da irmã.
— O que eu disse demais? — indagou. — Ela está gostando do rapaz e se há algum sinal de reciprocidade, por menor que seja, deve, sim, se declarar. Ela é jovem, precisa passar por essas experiências.
Tinha traços de fundamento ali.
— A senhora me deixa ainda mais em conflito — sussurrou a jovem, enquanto encarava o pote de sorvete no colo. — Izzy é uma boa amiga, tem sido gentil comigo desde o momento em que nos conhecemos.
— Eles apenas namoram, não é como se fossem casados e você a um passo de destruir uma família — insistiu a empresária em seus argumentos plausíveis. — Por acaso sabe se ele a ama de verdade ou esse namoro é apenas um hábito que lhe proporciona uma zona de conforto?
O silêncio veio.
Assim como as palavras de sobre nunca a ter apresentado à sua família.
— , se ele realmente fosse perdido de paixão pela namorada — continuou Meredith —, eu lhe daria razão por estar assim.
— Mas por que estou me sentindo como uma vilã? — sussurrou ela, com os olhos marejados, primeiro para a tia, e depois para mãe. — Como se tivesse roubado os sonhos de alguém.
estava tão envolvida em sua conturbada vida sentimental com o caótico relacionamento com , que não notou a necessidade de atenção e orientação que a filha inexperiente com o mundo ao seu redor precisava. E isso lhe cortava por dentro.
— Porque você a tem como uma amiga de verdade, está sentindo a dor dela, mesmo com a sua sendo ainda maior — explicou . — Se quiser, podemos encontrar outra universidade e...
— A senhora sempre disse que fugir é a pior decisão — a interrompeu.
— Sim. — Um sorriso de orgulho no canto do rosto, por ver o quanto a filha havia amadurecido com suas experiências externas.
— Vou enfrentar as consequências. — A jovem voltou o olhar para o pote de sorvete, batendo com suavidade a colher nele. — Mas apenas na próxima semana, porque não posso faltar na semana de provas.
— Bem… Tem um conselho da nossa mãe que guardo até hoje — comentou Meredith, para fechar o assunto em grande estilo.
— Qual?! — indagou . — Foram tantos.
— É melhor se arrepender por aquilo que fez… — e virando o olhar para a irmã caçula, como uma dura indireta — e não por aquilo que deixou de fazer.
havia entendido o recado.
E precisava tomar sua decisão final. No impulso do conselho, levantou-se da cadeira e, pegando a bolsa que deixou na mesa de trabalho, seguiu para sair do apartamento. Não se importando se estava com aquele simples e confortável conjunto de moletom, menos ainda das horas no relógio, apenas ajeitou o all star nos pés e se certificou que o celular estava dentro da bolsa — para emergência.
— Aonde vai? — questionou Meredith, indo atrás dela.
— Estou indo seguir o seu conselho — respondeu ao girar a maçaneta e abrir a porta. — Ou melhor, o conselho da mamãe.
Com um sorriso esperançoso e os olhos brilhando, saiu pela porta, decidida a não ter arrependimentos. Sua direção? O edifício em que se localizava o escritório de advocacia Blackwood & Partners. O deslocamento facilitado pelo Uber, as luzes do andar desejado acesas, denunciando a presença dos funcionários, e uma certeza de que ele estava ali. Um respiro profundo, juntando o ar nos pulmões e a coragem de continuar com os passos, que começaram a demonstrar o peso da quebra do orgulho ferido.
— Senhora Blackwood?! — O olhar surpreso da secretária paralisou por segundos.
— ainda está na sala dele? — perguntou.
— Sim. — A secretária pegou o telefone. — Deseja que eu anuncie?!
— Não precisa — disse em recusa. — Ele está sozinho?
— Sim — confirmou.
— Pode ir para casa… — disse em um tom firme de quem demonstrava que também tinha poder naquele espaço, o que a deixou intrigada consigo mesma. — E amanhã, quando chegar, transfira todos os compromissos do restante dessa semana para a próxima.
— Sim, senhora — assentiu ao observá-la seguir para a porta da sala dele. — O senhor Backwood irá viajar?
— Não. — voltou-se para ela, por um momento. — Mas ele estará indisponível para todos até a próxima semana.
Um gostinho de malícia escorreu em suas palavras.
Então ela continuou seus passos até passar pela porta. Desde a sua sutil entrada, até o fechamento da porta, ele se manteve com a cabeça abaixada, concentrado nos documentos que lia, referentes a um caso importante de negociação empresarial. permaneceu em silêncio, com as costas apoiadas na porta, esperando alguma movimentação dele.
— Senhorita Frizz, se for me passar algum recado, fala de uma vez — pediu, mantendo sua atenção onde estava.
— Não é a senhorita Frizz. — Sua voz o despertou, fazendo com que parasse de imediato para olhá-la. Com destreza e as mãos para trás, ela trancou a porta, deixando o barulho da trinca soar. — Meu único recado é este.
, que sempre se manteve imponente, engoliu em seco, diante da ousadia dela.
O que o fez pensar que não estava mais no controle do jogo.
— O que faz aqui? — Ele levantou-se da sua cadeira presidencial, porém permaneceu onde estava.
— Eu não assino, se você não assinar — soou enigmático.
Porém ambos sabiam de qual assunto se tratava.
Antes mesmo que pudesse traçar uma reação, diante dos passos firmes da mulher em sua direção, os lábios de tocaram os dele em um beijo intenso, carregado de tudo aquilo que palavras jamais dariam conta. Ele, por um segundo, permaneceu imóvel — surpreso, tomado, vencido. Mas bastou que seus sentidos absorvessem o gosto conhecido e inconfundível dela para que suas mãos largassem qualquer resquício de resistência. Seu orgulho havia sido completamente derrotado.
O de ambos, na verdade.
Puxou-a pela cintura, apertando-a contra si, como se aquilo fosse a âncora que o mantinha de pé. Seus corpos se encontraram em uma precisão quase ensaiada, dias sem se ver e a memória física que um tinha do outro estava ali, intacta. O beijo, que começou urgente, logo se transformou em algo mais profundo, mais prolongado — com gosto de nostalgia pelos primeiros anos de casamento.
— ... — ele tentou falar, mas ela não deixou.
Puxou-o novamente, desta vez o controle seria dela. Segurou sua nuca, como se temesse que qualquer palavra pudesse estragar aquele instante. As mãos dele já percorriam suas costas, desenhando caminhos conhecidos, descendo pela curva da cintura, até encontrá-la pela parte de trás das coxas. Sem qualquer aviso, ergueu-a no colo, fazendo-a soltar um suspiro entre o beijo, e levou-a até o sofá de couro no centro da sala. As reuniões, os processos, as pastas, os papeis — tudo perdeu o sentido, devido ao fato de tê-la em seus braços por definitivo. Quando seus corpos se deitaram no estofado macio, tocou sutilmente o rosto dela, afastando alguns fios que haviam se soltado da trança impecável que ela usava. O olhar dele, antes carregado de controle…
Agora oscilava entre desejo e ternura.
— É o que você quer? Definitivamente? — perguntou, com a voz rouca, enquanto seus lábios percorriam a linha do maxilar dela, descendo para o pescoço.
— Sim… — sussurrou ela.
— Depois disso, não existe mais volta — alertou ele, ao erguer de leve o corpo para olhá-la.
fechou os olhos, arfando, enquanto apertava a camisa dele entre os dedos.
— Quem disse que quero voltar? — respondeu, puxando-o de volta para si. — Será apenas nós dois… sem prazo determinado.
Finalizou em uso das mesmas palavras que ele utilizou da última vez.
Uma referência que não passou despercebida por ele.
Ele sorriu, um sorriso rarefeito, daqueles que carregam dor, alívio e amor ao mesmo tempo. Então, sem mais palavras, a puxou para um novo beijo, mais lento, mais entregue, enquanto suas mãos deslizavam, desabotoando, descobrindo, sentindo.
Ali, naquele escritório que tantas vezes foi palco de discussões, embates e silenciosas despedidas, agora era cenário da reconciliação que ambos sempre desejaram, mas fingiam não precisar.
Aquele escritório.
O mesmo lugar onde o divórcio entrou era o mesmo que o expulsava de uma vez por todas. E entre sussurros, risos abafados, toques maliciosos e confissões sem palavras, eles se lembraram, uma vez mais, que nenhum contrato, nenhuma cláusula e nenhum orgulho poderiam ser mais fortes do que o amor que, teimosamente, insistia em sobreviver entre eles. Sentimento este que não poupou a energia deles ao longo das horas passadas, uma intensidade constante que seguia enquanto a madrugada adentrava.
E quem ligava para o tempo?
— O que a fez vir aqui? — perguntou ele, em um tom suave, ao se remexer no sofá, puxando-a para mais perto.
Ela, que estava na beirada, sentia a mistura do calor do corpo dele tocando suas costas com a brisa que adentrava a janela diante deles. Algo que lhe fez arrepiar de leve, mesmo com o casaco dele cobrindo parte do seu corpo.
— Não quero me arrepender de ter deixado nosso casamento acabar — respondeu, puxando firmemente o ar para dentro dos pulmões. — Mas, se não der certo, seria menos doloroso lidar com o arrependimento de ter tentado mais uma vez.
— Vai dar certo — sussurrou ele, ao se inclinar para falar ao seu ouvido. — É uma promessa.
Seus olhos se encontraram mais uma vez.
E ela pôde sentir a verdade, sinceridade e lealdade emanando dele.
Horas antes…
Meredith sabia, no fundo para onde a irmã tinha ido e como uma tia empática e carinhosa, desmarcou sua noite de aventuras para ficar ao lado da sobrinha, lhe fazendo companhia. Mesmo que o silêncio estivesse fazendo aquele papel melhor que ela.
— Não precisa estragar sua noite por minha causa, tia — disse , ao depositar o pote de sorvete pela metade na mesa de canto próxima. — Eu ficarei bem, sozinha.
— Jamais, já disse que as mulheres dessa família se apoiam — retrucou ela, certa de sua decisão. — Além do mais, a família vem em primeiro lugar e você é a minha sobrinha preferida.
— Sou a única — comentou, fazendo-a soltar uma gargalhada boba.
— Acho que, depois de hoje, teremos grandes riscos de um novo Blackwood nascer — rindo mais um pouco. — Será que sua mãe está no período fértil? Ela já entrou na menopausa? Por que eu ainda não.
— Tia Meredith?! — a olhou, assustada, pelas indagações e exposições de um assunto constrangedor.
— Ah, desculpa. — Lançou um olhar inocente. — Melhor não falarmos sobre isso… Mas o que acha de ter um irmãozinho?
não conseguiu formular uma resposta, menos ainda uma reação à probabilidade, o que fez Meri rir ainda mais. Antes que o silêncio retornasse a ela, o interfone tocou, fazendo-as estranhar, pois obviamente não seria .
— Eu abro — disse, se levantando da cadeira suspensa e seguindo até a porta. — Deve ser algum vizinho pedindo açúcar.
Brincou, rindo de leve.
— Sim?! — disse ao abrir a porta e se deparar com um rapaz desconhecido a seus olhos.
— Boa noite… A está?! — perguntou, meio sem jeito.
Tentando entender como tinha parado ali.
A jovem deu um pulo da cadeira, assim que reconheceu a voz dele.
— ?! — disse ao surgir atrás da tia.
Diante da cena e dos olhares confusos e envergonhados de ambos os jovens, Meredith entendeu o ponto da situação.
— Eu acho que estou com fome… então vou procurar alguma barraquinha aqui perto — anunciou ela, ao pegar a chave que estava na porta e piscar discretamente para a sobrinha. — Darei trinta minutos a vocês.
Na concepção de Meredith, aquele era o tempo necessário para se resolver todas as pendências entre eles. Ambos se entreolharam, após a saída da tia. Por um longo tempo, o único som que reverberou no apartamento fora o dos carros na rua. Até que adentrou mais o lugar, a passos cautelosos e reflexivos.
— O que faz aqui?! — perguntou ela, com seu interior em caos instantâneo.
— Acredite… Eu também não sei — disse, dando um riso nervoso.
— Hum. — Ela desviou o olhar para o chão.
Era doloroso encará-lo.
— Eu… — continuou ele, como se escolhesse com cuidado as palavras, como de fato estava. — Não consegui parar de pensar no que me disse…
— Eu não deveria ter dito. — Quase um sussurro.
— Pelo contrário — retrucou ele, fazendo-a se sentir menos culpada. — Estou grato que tenha falado.
— Eu machuquei os sentimentos de uma amiga — argumentou, lembrando-se do olhar desapontado de Izzy.
— Nós terminamos — anunciou ele.
— O quê?! — Seu olhar confuso e surpreso o deixou impressionado.
— Não se preocupe, não foi por sua causa, apesar de ter sido — ele riu de sua forma de falar. — Mas… estar com você me fez perceber que não podia continuar com alguém que não estava na mesma página que eu.
continuou em silêncio, absorvendo cada palavra que vinha de sua explicação.
— Havia muitas lacunas não preenchidas entre mim e ela — completou seu raciocínio. — E a Isabella entendeu isso.
— Não sei o que dizer. — Ela forçou a voz sair.
— Não precisa. — Mais três passos para se aproximar de fato dela. — Já disse tudo quando confessou que está apaixonada por mim.
Um sorriso de canto carismático.
E uma cena que imitava seus romances vitorianos.
segurou com leveza a mão dela e, se aproximando mais, tocou em seu rosto com a outra mão, em um olhar de ternura que acelerou o coração da jovem. Com precisão nos movimentos seguintes, o beijo se iniciou com delicadeza e suavidade, seguido das mãos do rapaz envolvendo as costas dela, trazendo-a para mais perto.
Uma troca doce e sutil de sentimentos, que os aquecia por dentro.
Esse turu, turu, turu, aqui dentro
Que faz turu, turu, quando você passa
Meu olhar decora cada movimento
Até seu sorriso me deixa sem graça.
[...]
Eu desisto de entender
É um sinal que estamos vivos
Pra esse amor que vai crescer
Não há lógica nos livros
E quem poderá prever?
Um romance imprevisível
Com um turu, turu, turu.
- Quando Você Passa (Turu Turu) / Sandy & Junior
“Amor: Tudo sofre, tudo crê, tudo espera, tudo suporta.” [ I Coríntios 13:7 ] - by: Pâms

