Revisada por: Sagitário♐
Última Atualização: 27/12/25Ela queria algo diferente. Sofisticado. Algo que quebrasse o padrão sem perder a elegância. Mas, ainda assim, nada do que encontrava parecia despertar aquela vontade real de comprar.
Fazia duas semanas que a temporada havia acabado e, pela primeira vez, se permitia respirar. Não havia atendimento, planilhas de logística, reuniões com a FIA ou cronogramas gigantescos para entregar muito menos a voz de Wolff lhe passando novas instruções. Agora, toda organização que ela precisava fazer era… a dela mesma.
Mas aquela busca já estava a cansando. Nenhum vestido vermelho padrão natal chamava sua atenção. Nenhum dourado, nenhum preto, nenhum azul congelado. Nada.
Então, no topo da tela, uma notificação surgiu. O Clovy abriu com aquele rosinha sutil característico, revelando a mensagem da mais nova campeã da F1 Academy.
“Parece que estou no céu.
Faz tanto tempo que estou nessa que nem lembro a última vez que descansei um pouquinho. Na verdade, eu não descanso nada quando o assunto é Mercedes e FIA.
E você, grande campeã?”
“Estou humildemente deitada na minha cama, aproveitando meu merecido descanso enquanto olho pro meu prêmio.”
“Aproveita, você merece.”
“Já escolheu o vestido para o MCCG?”
“Nada ainda.”
“Olha esse site. Vê se algo te agrada.”
O Clovy piscou em rosinha na tela do celular, exibindo as mensagens recentes e o tal site misterioso. abriu o link que Doriane enviou no chat, o link abriu revelando o nome da loja, Bellini Luxe. O fundo branco transparecendo o B em linhas finas e suaves, realçando o ouro pálido; o catálogo elegante, vestidos pensados minimalistas em modelos deslumbrantes e únicos, trazendo a moda francesa e brasileira em cada detalhe pensando.
— Hm, talvez aqui tenha algum vestido. — murmurou, puxando o cobertor para longe e apoiando o chocolate quente na mesa. — Ai… e esses zerinhos aqui. — comprimiu os lábios.
Os primeiros vestidos que apareciam ao deslizar a tela, eram lindos, não poderia negar, mas nenhum ela sentia que a representasse; muito brilho ou pouco brilho, decote de mais ou decote de menos. Suspirou cansada, até que ela apertou para ir na próxima página, quando seus olhos pararam sobre o vestido e a cada clique sentia seu coração disparar de tanta emoção. Aquele vestido transmitia a elegância a silhueta perfeita, clássica e marcante, o natal e também a empresa que ela também amava trabalhar. E a cor, era simplesmente perfeita, o vestido por completo era perfeito.
— Ai meu Deus… — ela levou a mão à boca, rindo baixinho. — Espero que tenha meu número. — desceu um pouco mais a tela. — Vou reservar e ir agora mesmo.
No mesmo segundo, um aviso apareceu por mensagem em seu celular, um email de resposta automática piscou como um alerta:
"Peça reservada por 24h — Bellini Boutique, London Center."
arregalou os olhos.
— London Center? Espera… isso é aquela loja que parece que vende roupa pra princesa? — ela riu, nervosa. — Misericórdia, eu vou entrar lá de moletom.
Bloqueou o celular e se levantou deixando o cobertor ajeitadinho no sofá creme. Um banho aconchegante, colocou a meia calça por baixo do seu jeans e o moletom mais quentinho e se olhou no espelho, o cabelo estava seco e aparado por um arquinho preto. Com a bolsa pendurada em seu ombro, pegou a chave do carro e seguiu rumo a prova do vestido.
O arzinho quente do carro misturando com o gelo do inverno a fez arrepiar ao sair do carro. Estacionou em duas lojas antes da Bellini Luxe, mas ao longe podia se ver o lindo logo reluzir com os leds, os enfeites suítes e elegantes — de natal, na vitrine traziam o clima que ela tanto amava.
Entrou na loja tímida como de costume principalmente em uma loja elegante como aquela, segurava a alça de sua bolsa um pouco mais forte como de costume, olhou alguns vestidos e tempo exato para uma atendente se aproximar dela.
— Bem vinda a Bellini Luxe, boa tarde. Como posso ajudá-la?
— Eu fiz uma reserva… — pegou o celular e mostrou o email. — Pelo site, falava que eu poderia vir a qualquer momento aqui para fazer a prova.
— Ah sim. — fez um sinal para segui-la. — Poderia me dizer qual foi o código que a senhorita recebeu?
— Código? Claro, sem problemas.
Mexeu rapidamente no celular e mostrou o código para a atendente.
— Muito bem, ele já está na sala privativa.
— Sa-sala privativa? — sussurrou enquanto a seguia.
Uma sala deslumbrante, iluminada por uma luz suave e com a temperatura perfeitamente agradável. Uma música tranquila preenchia o espaço, as taças estavam cobertas por um tecido fino, esperando o champanhe que seria servido mais tarde.
No centro, sobre um manequim impecavelmente montado, estava o vestido que ela havia reservado.
A atendente a ajudou a vesti-lo com cuidado; e, assim que o tecido deslizou pelo seu corpo, sentiu o ar escapar dos pulmões. Caía como se tivesse sido feito sob medida exclusivamente para ela, abraçando suas curvas na medida exata, realçando tudo que havia de mais delicado e forte ao mesmo tempo.
Deu um gole em seu champanhe tentando controlar sua pequena crise de felicidade dentro de si e aparentar o mais tranquila e com todas suas classes.
— A senhora gostou do nosso modelo Silver Lights?
Ela suspirou antes de responder, já deixando mais nítido sua aprovação.
— Com todas as certezas, eu não poderia deixar de levá-lo. — deslizou a mão sobre sua cintura, parando em cima dela.
Com um sorriso discreto, treinado para aquelas ocasiões onde apenas o cliente era o centro de tudo, sem tirar a atenção do cliente, ela voltou a conversar com .
— Fico muito feliz em ouvir isso, senhora. — agradeceu em nome de Bellini Luxe, sua voz suave contracenou com o ambiente. — Este modelo foi pensado para mulheres que sabem entrar em uma sala sem precisar anunciar presença. Ele faz o trabalho por elas.
quase riu. Era exatamente esse o problema.
O vestido realmente anunciaria sua presença, e ela mal conseguia acreditar que estava usando aquele vestido.
A atendente deu um passo para trás, avaliando o caimento com olhos profissionais — sem invadir, sem constranger, apenas garantindo a perfeição.
— O caimento está impecável. — observou. — Não recomendo ajustes. Seria um desperdício alterar o que já está harmonioso.
ficou se olhando admirando cada brilho que reluzia do vestido na frente do espelho, apenas concordou um leve balançar de cabeça.
— Podemos preparar o vestido para levá-lo, senhora. — e continuou a falar com . — E caso precise de acessórios temos uma curadoria ao seu dispor para compor todo o seu evento.
— Agradeço, mas existe um conjunto que para mim é especial nesta época.
Se recordou do presente que seus pais lhe deram. — mordeu levemente seus lábios ao imaginar o conjunto inteiro.
— Tudo bem eu ficar aqui mais alguns minutos?
— O tempo que desejar, senhora. — a atendente inclinou a cabeça com elegância. — Vestidos como este não são apenas escolhidos. Eles são vividos.
E saiu silenciosamente, deixando sozinha com o espelho, seu vestido perfeito e o coração batendo rápido demais.
Terminou de se trocar, sentindo o macio e aconchego do moletom abraçar seu corpo. De imediato se lembrou da roupa que foi para fazer a prova e soltou um suspiro de alívio sabendo que não foi julgada pela sua aparência.
Ao lado da porta de saída, estava a atendente, atenciosa e com um sorriso lindo nos lábios agradecia pela compra, pela simbólica gorjeta que havia recebido; a caixa com seu vestido já estava em seus braços sendo carregado como seu maior bem precioso e junto, segurava a pequena sacola com uma bela peça estola, de uma maneira mais graciosa era a fora que Sofa Bellini encontrou para agradecer as suas clientes ao comprar uma peça de uma coleção única Prime Lumière, como era chamada pela estilista.
No conforto caloroso de sua casa em Digbeth, Birmingham, entrou tirando o tênis ainda na porta, substituindo-os pelas pantufas do Obi-Wan que ela tanto amava. Se direcionou para o quarto, colocou a caixa em cima da cadeira da penteadeira junto da sacolinha — firme, com textura levemente acetinada e um brilho discreto que refletia a luz do quarto. O tom pérola fosco combinava com as alças finas de cetim, e o “B” da Bellini vinha impresso em hot stamp dourado pálido, delicado como uma joia.
Só quando ela virou a sacola, viu no canto inferior um pequeno símbolo de responsabilidade ambiental, quase imperceptível — tão elegante quanto todo o restante.
Deitou na cama, pegou o celular e jogou o cobertor por cima da cabeça, o Clovy abriu deixando a claridade rosinha e logo viu a resposta de Doriane aparecer.
“Então você foi até lá e comprou, quem diria hein.
Gostou da loja?”
“Amiga, você não tem ideia… eu tô deslumbrada. No site ele já era lindo, mas pessoalmente? Meu Deus, ele tirou todo meu fôlego.”
“Aaaaaah, eu sabia! Tirou foto pra eu ver?”
“Nem pensar. Zero fotos.
Você só vai presenciar a beleza completa no dia vinte e cinco.
Você vai, né?”
“Olha ela querendo me enrolar.
Tudo indica que sim, vou sim.
E fica tranquila, tá? Eu ainda vou te mandar seu presentinho, senhorita Mercedola.
Boa noite, .”
“Mercedola… só você mesmo.
Boa noite, campeã.”
O aroma quente do peru recém-assado preenchia o apartamento enquanto finalizava os últimos detalhes. Tirou a assadeira do forno com cuidado, ajeitou a travessa no centro da mesa e acendeu as velas, que iluminaram o ambiente com um brilho suave e dourado.
Antes que pudesse respirar, a campainha tocou seguida das risadas familiares atravessando a porta. deu uma corridinha até o espelho, puxou delicadamente o cabelo para trás, alisou o macacão vermelho que tanto amava e abriu a porta.
Seu sorriso se iluminou no mesmo instante.
Ver seus pais ali, abraçados e sorrindo, e sua irmãzinha correndo para seus braços, era o tipo de cena que fazia qualquer cansaço desaparecer.
Ela os deixou entrar, sentindo o coração se aquecer com a sensação de lar preenchendo cada canto do apartamento. Era início da época mais aconchegante do ano e, apesar do trabalho, ela não trocaria aquele momento por nada.
Uma corridinha rápida, a neve caía quase que intensamente sobre as ruas tranquilas de King’s Lynn, Norfolk, deixando tudo coberto por um branco silencioso. O frio tomou conta de seu corpo naquele pequeno percurso até a porta. Em suas mãos, George carregava uma garrafa de vinho e o presente para seus pais. Tocou a campainha e, mesmo através da porta, podia ouvir as vozes familiares ecoando dentro da casa. Logo a silhueta de uma mulher — bonita, mais baixa que George e elegantemente arrumada — apareceu diante dele.
— Meu menino está em casa! — sua mãe o abraçou forte, chamando-o de menino como se os quase dois metros de altura e o fato de ele ser um dos pilotos mais rápidos do mundo não significassem nada ali. — Feliz Natal, meu filho. Estava com muitas saudades.
— Feliz Natal, mãe. Eu também estava com saudades da senhora.
— Venha, entre, se aqueça. Coloque os presentes no quarto meu e do seu pai.
George entrou tirando as luvas, entregou o vinho às mãos calorosas da mãe e subiu direto para o aposento dos pais. Lá deixou os presentes dos familiares mais próximos — os dos pais e dos irmãos.
Desceu rapidamente para não deixar ninguém esperando. Pelo caminho, cumprimentou seus parentes e a irmã, até encontrar seu pai na porta da cozinha. O cheiro do jantar de Natal tomava o ar inteiro, e o patriarca veio recebê-lo com aquele abraço firme e discreto.
O sorriso orgulhoso, de orelha a orelha, dizia tudo sobre a temporada que ele acompanha rigorosamente — inclusive a home race.
— Filho! Vem cá. — o puxou para um abraço apertado. — Como você está? As viagens foram boas? Feliz Natal, filhão.
— Feliz Natal, pai. Estou bem, agora melhor. Todas as viagens foram tranquilas.
— Bom, bom. Venha, sua mãe já colocou a ceia na mesa.
O irmão apareceu logo atrás, comentando algo:
— O senhor celebridade finalmente chegou.
George riu, tirando o cachecol.
— Celebridade nada. Só vim comer.
— Você só se lembra da gente quando o assunto é esse. — riram juntos. — Venha, sente ao meu lado. Vamos conversar enquanto dá tempo.
A sala tinha luzes simples, uma árvore decorada com carinho e a lareira crepitava com um calor que não vinha só das chamas. Era exatamente o tipo de Natal que ele sempre amou: tranquilo, elegante na simplicidade, acolhedor como só King’s Lynn sabia ser para ele.
George passou a mão pelo cabelo, ajeitou a gola e olhou pela janela por alguns segundos, observando os flocos de neve caindo devagar. Respirou fundo.
Antes que todos pudessem se deliciar com aqueles pratos perfumados, o pai iniciou um agradecimento pelo ano, pela saúde e pelas conquistas de cada pessoa sob aquele teto. Quando o relógio tocou, marcando a chegada da meia-noite, todos desejaram em voz alta um Feliz Natal, e então se permitiram saborear a ceia maravilhosa.
As horas foram passando, cada um ia se despedindo e voltando para casa, todos menos George e seus irmãos. Os cincos ficaram na sala, reunidos com uma taça de vinho em suas mãos, a lareira estalando baixo e espalhando um calor confortável pelo ambiente.
Aquela era a parte favorita da noite: quando tudo ficava silencioso lá fora, e só restava a família, as histórias e o carinho.
Clara olhou para os irmãos e soltou um riso leve.
— Engraçado… sempre que chega essa hora, vocês dois começam a parecer exatamente como quando eram pequenos. Até o jeito de sentar.
Benjy apontou para George com a taça.
— Ele continua ocupando metade do sofá, isso não mudou.
— Culpa minha por ter crescido demais? — George ergueu as mãos, fingindo inocência.
O pai sorriu, observando os três.
— Lembram do ano em que a gente tentou fazer vocês dois dormirem antes da meia-noite? — perguntou. — E vocês ficaram conspirando no corredor, achando que estavam sussurrando baixo.
A mãe riu antes mesmo de ele terminar.
— Eu ainda escuto o “shhhh, George, você tá respirando muito alto!”
Clara gargalhou, cobrindo o rosto.
— Meu Deus, eu lembro disso! Vocês juravam que iam “flagrar o Papai Noel”. — sua mãe comentou junto de seu pai.
— A gente quase conseguiu — George retrucou, rindo.
— Quase, claro — Benjy reforçou, ironizando. — Até você derrubar a tigela de biscoitos no chão.
— Eu tinha seis anos! — George protestou, mas com um sorriso que entregava que ele adorava aquela lembrança.
O ambiente ficou ainda mais aconchegante. A lareira iluminava os rostos deles em tons alaranjados, e as memórias fluíam como se o tempo não tivesse passado.
O pai apoiou o braço no encosto do sofá, olhando para os três filhos com uma ternura silenciosa.
— É bom ver vocês assim… juntos. É disso que eu mais gosto no Natal.
A senhora Russell se ajeitou no ombro do marido e ficou admirando aquele momento com os filhos, todo natal ela tinha eles consigo e para si esse era o melhor presente que poderia ter.
Como de costume, seu quarto continuava exatamente ali — o mesmo espaço acolhedor de sempre, com a cama macia e os cobertores que guardavam o cheiro familiar de casa. George se trocou com calma e se deitou, sentindo aquela paz que só o lar poderia oferecer.
Pegou o celular por alguns instantes, rolou a tela sem muita atenção e logo o deixou na mesinha de cabeceira. Precisava descansar. O dia seguinte seria longo, e o Mercedes Christmas Charity Gala prometia ser um dos maiores destaques da noite do dia vinte e cinco.
Raios do sol entravam pelas frestas da janela de George. Ele se espreguiçou, conferiu o horário e caminhou até o banheiro. Um banho rápido cairia bem antes do café da manhã — mesmo sabendo que tomaria outro antes do Mercedes Christmas Charity Gala.
— Bom dia, mãe. — ele beijou a bochecha da matriarca.
— Bom dia, meu filho.
— Bom dia! — responderam Benjy e Clara.
— O pai saiu? — George perguntou, puxando uma cadeira.
— Foi comprar umas coisas para preparar um doce — ela explicou, já arrumando a chaleira. — Você vai almoçar conosco?
— Vou sim.
Benjy ergueu a sobrancelha, rindo.
— Mãe, desde quando George fica sem comer? Não sei como a Mercedes ainda aguenta ele. — riu.
— Eu só não te respondo por respeito à mamãe.
— Aí, esqueci como é conviver com vocês debaixo do mesmo teto. — Clara revirou os olhos. — Vão tomar café ou vão ficar se provocando?
A mãe colocou canecas à mesa, e por alguns minutos eles só aproveitaram o cheiro de pão quente e o barulho familiar da casa. Era raro estarem juntos assim.
— Então… — Clara começou, com um sorriso malicioso. — Vai sozinho nesse Gala ou tem companhia?
George tossiu, fingindo engasgar.
— Clara, pelo amor de Deus.
— Só perguntei! — ela ergueu as mãos. — Vai que a gente recebe uma cunhada surpresa.
— Só se for surpresa pra mim também. — ele riu, balançando a cabeça.
Benjy apoiou os braços na mesa.
— E o carro novo? Trouxe? — Benjy mudou de assunto.
— Claro que trouxe — George respondeu com aquele brilho orgulhoso de quem ama o que dirige. — Depois do almoço eu pego a estrada com ele.
O almoço foi simples, mas cheio daquele aconchego que só família oferece. Risadas, histórias antigas, brincadeiras sobre o quão alto George ficou e como ainda era “o bebê da casa”. E quando o pai retornou, trazendo ingredientes para o doce, ele abraçou o filho como se o tempo não tivesse passado.
No meio da tarde, já alimentado e aquecido pelo clima familiar, George colocou o casaco, pegou suas coisas e se despediu um a um, poderia ser que voltasse para o ano novo ou apenas mandaria mensagem não disse o certo, mas ao entrar no carro ligar o mesmo e ver sua família se despedindo dele, foi especial.
Acelerou antes de sair, fazendo sua mãe ficar um pouco brava com o que acabava de ver, ele saindo rápido só para provocar o irmão. Seu rumo agora era Londres.
Para sua sorte, os cento e sessenta quilômetros até Londres prometiam ser gentis naquele dia. Sem neve, só o vento forte cruzando a pista e o ar quente da sua Mercedes criando aquele contraste perfeito entre inverno inglês e conforto absoluto. Estacionou o carro, verificou se o portão fechou e entrou em sua residência.
O evento seria por volta das nove da noite, e George ainda tinha tempo de sobra. Podia jogar alguma coisa ou simplesmente colocar um filme qualquer no streaming para passar o tempo. Acabou optando pelo filme — algo leve, perfeito para tentar esvaziar a cabeça. Mas não adiantou. Quinze minutos depois, percebeu que não absorvera uma única cena; o ambiente inteiro servia apenas como distração barata. Sua mente continuava presa naquele assunto “irritante”, como ele mesmo insistia em definir.
O campeonato havia terminado de forma impecável: Piastri campeão, sólido como sempre; ele, George, vice — algo que a Mercedes tratava como se fosse o campeão; Bortoleto em terceiro e, para a alegria de Toto, Kimi garantindo o quarto lugar depois de uma temporada surpreendentemente consistente. Era um encerramento digno. Era para ele estar tranquilo.
Mas não estava, porque o problema nunca foi subir no palco ou falar em público — ele fazia isso desde que se conhecia por gente. O problema era quem estaria no público. Há algum tempo, George admitia para si uma verdade silenciosa: havia se apaixonado. Não de forma dramática, mas de maneira gradual, constante, inevitável. E guardou tudo para si, porque tinha um noivo. Todos sabiam. Até Toto fazia brincadeiras dizendo que ela precisava de alguém que entendesse as viagens, e ela ria, concordava, sem imaginar o quanto isso incomodava George.
Ele passou a mão na nuca, sentindo a garganta secar ao lembrar que sempre fazia o breve discurso de abertura do Mercedes Christmas Charity Gala. Nos anos anteriores, subiu ao palco ao lado de Lewis. Este ano, pelas circunstâncias, provavelmente seria ao lado dele. Só de imaginar isso, as mãos de George suaram e um frio subiu pelo peito. Era ridículo — ele era George Russell, confiante, centrado, capaz de enfrentar trezentos quilômetros por hora sem piscar. Mas tinha aquele poder estranho de desmontá-lo por dentro enquanto, por fora, ele tentava manter a compostura de sempre. E o filme continuava passando, completamente ignorado.
Já que o filme não causava distração, levantou-se e decidiu se arrumar. Um banho quente e lento o ajudou a aliviar um pouco da tensão que se acumulava nos ombros; a água escorria pelas costas, tornando o chuveiro o único lugar capaz de silenciar seus pensamentos. Quando saiu, ainda com o vapor preenchendo o banheiro, enrolou a toalha na cintura. Passou a mão pelos cabelos ainda úmidos, empurrando-os para trás enquanto deixava que secassem sozinhos. Caminhou até o closet e tocou no interruptor, acendendo as luzes gradualmente.
Parou em frente às araras, percorrendo cada terno com o olhar até que o italiano o prendeu. Um smoking preto de corte preciso — tecido espesso e leve na medida exata — feito praticamente sob medida. A camisa branca, com discretas texturas elegantes, pendia ao lado, aguardando o momento exato em que ele a vestiria. Ajeitou o relógio, passou a mão pelo cabelo para domá-lo em seu formato habitual e soltou um suspiro curto — daquele tipo que entrega mais do que a gente gostaria de admitir. Depois pegou o celular, a carteira e as chaves da Mercedes.
O valet recebeu as chaves da Mercedes com um cumprimento discreto junto de um “boas festas”. George posou para algumas fotos, distribuiu autógrafos e ainda trocou algumas palavras com Mary. Assim que entrou no salão, a música natalina da orquestra embalou o ambiente — conversas, risadas, o tilintar de taças e aquele brilho característico das festas de fim de ano.
Kimi estava logo à frente. Acenou e caminhou até ele.
— Boa noite, George.
— Boa noite, Kimi. Como foi a volta pra casa?
— Na verdade, meus pais vieram para cá. — respondeu com seu sotaque italiano suave. — Passamos o Natal em Londres e só volto para Bolonha amanhã à tarde.
George assentiu, ajeitando a lapela do smoking.
— Imagino que gostaram da cidade nessa época do ano.
— Minha mãe amou. Meu pai reclamou do frio, mas isso não é novidade. — Kimi deu um sorriso pequeno. — E você? O clima em King’s Lynn estava bom?
— Tranquilo até demais. — George riu. — Acho que eu precisava disso antes do caos do gala.
Kimi ergueu uma sobrancelha.
— Caos? Ainda nem começou.
— Justamente por isso.
O italiano inclinou a cabeça, observando George com aquela sinceridade incômoda típica dele.
— Você está… tenso.
— Eu? — George ajeitou os punhos da camisa de forma automática. — Só tentando entrar no clima.
Kimi não comprou nem metade da desculpa.
— Certo. Entrar no clima. Nada a ver com… — ele olhou ao redor, como quem procura alguém no salão — Uma certa pessoa que talvez esteja aqui hoje?
George respirou fundo, mantendo o sorriso diplomático que usava com jornalistas — só que Kimi não era jornalista.
— Kimi, pelo amor de Deus, não começa.
Kimi apenas deu um tapinha no ombro dele.
— Eu só disse ‘talvez’.
— Espero que você mantenha esse ‘talvez’.
— Ah, George… — Kimi riu baixo. — Você está mais nervoso do que em Interlagos naquele sábado, quando parecia que ia cair uma tempestade.
Ele pegou duas taças da bandeja do garçom e passou uma para Russell.
— Ainda nada. — Kimi murmurou, observando o salão. — Não vi nem o Wolff falar com ela ou com a Doriane.
George girou a taça entre os dedos, bebendo um gole mecânico enquanto seu olhar percorria cada canto do gala.
— Será que ela não veio…?
— Não pensa isso. — Kimi o advertiu, suave. — A festa vai até tarde. E o Toto ainda vai te caçar para te parabenizar.
— E você também. — George rebateu. — Mandou muito bem.
— Mas não fui eu que terminei em segundo. — ele deu de ombros, sorrindo. — Você que...
A frase morreu ali.
Kimi parou de falar subitamente. Os últimos acordes cessaram e, no mesmo instante, os violinos iniciaram “Twinkling Lights”, notas suaves, cintilantes, acompanhadas pelo eco delicado dos sinos. Uma melodia que parecia aberta para algo mágico acontecer. George olhou para trás e lá estava ela.
surgiu no topo da escada — e George simplesmente perdeu o eixo.
Seu coração atropelou o ritmo, suas mãos gelaram, e ela estava perfeita, deslumbrante, não havia palavras que Russell poderia descrever o quão linda ela estava. No alto da escada, ela segurou delicadamente seu vestido e apoiando no corrimão decorado ela desceu as escadas, e um sublime feixe de luz iluminava seu vestido.
O vestido Silver Lights parecia feito sob medida para aquele momento. Verde Arctis profundo, sofisticado, quase silencioso. Sob a luz mais baixa do salão, a cor parecia sólida, misteriosa. Mas bastou o primeiro feixe branco de Natal tocar o tecido para ele ganhar vida.
Os microfios metálicos criaram um brilho prateado suave, etéreo, que se movia com ela como se o vestido respondesse junto aos seus passos. O decote coração valorizava seu colo com elegância; a cintura marcada desenhava a silhueta com precisão de alta costura; e o modelo sereia caía em uma fluidez impecável, a cauda deslizando atrás dela como se o chão fosse feito para aquilo.
George ficou imóvel.
O coração errou o ritmo, o ar travou no peito, e as mãos ficaram frias dentro dos bolsos do terno. Ele abriu a boca sem perceber, incapaz de reconstruir um pensamento inteiro. Era ridículo. Era inglesíssimo. Era inevitável.
Kimi Antonelli se aproximou lentamente, como quem testemunha um crime emocional prestes a acontecer. Parou ao lado dele, olhou por meio segundo para — o suficiente para entender o estrago — e murmurou, baixinho, sem mexer o rosto:
— Fecha a boca, George… vai ficar muito óbvio.
George piscou, recuperando só metade da dignidade. Soltou o ar, mas isso não ajudou em nada — porque agora havia perfume, brilho e descendo degrau por degrau como se tivesse sido coreografada pela própria Mercedes-AMG.
Quando ela chegou ao último degrau, iluminada pelo reflexo prateado que acompanhava os movimentos do vestido, George teve certeza de que nenhuma corrida, podium ou volta rápida tinha preparado ele pra aquilo.
Atravessou o salão cumprimentando todos, até mesmo aqueles que ela via poucas vezes. Numa mesa alta e redonda, avistou Doriane acompanhada de algumas pessoas — duas chefes de equipe, um engenheiro com quem trabalharia no último projeto do ano, e uma funcionária nova que ela abraçou com carinho. Todos da Academy.
— Esse vestido é daquele site? — Doriane perguntou, mais curiosa do que discreta. Ela conhecia bem o conceito de Bellini Luxe.
— Sim, ele é lindo, não é?
— Qual a loja? — uma das chefes quis saber.
— Já ouviu falar da Bellini Luxe? — viu todas concordarem. — É de lá. Uma estilista maravilhosa. E é uma edição única… o nome dele é Silver Lights.
— É um verde quase Petronas, não? — o engenheiro comentou, analisando o brilho iridescente.
— Foi exatamente o que eu pensei quando vi. — riu, ajeitando o tecido na lateral. — Queria algo diferente, fugir um pouco do vermelho tradicional do Natal, e esse aqui entregou tudo o que prometia.
— Sei splendida stasera, . — Kimi a elogiou.
sabia que aquele italiano tão bem pronunciado era do mais novo queridinho da Mercedes. Kimi Antonelli. Sorriu de imediato, aquele seu sorriso que iluminava mesmo sem responder Kimi.
— Grazie, Kimi, feliz natal. — respondeu automático se virando para trás e segurando com sua mão livre o vestido para ter mais movimentação.
O rubor nas maçãs de seu rosto foi perceptível, baixou o olhar procurando um ponto de foco disfarçando aquela sublime vergonha e tirar aquele brilho no olhar ao ver que ele não estava sozinho.
George respirou fundo — uma, duas vezes — tentando trazer o equilíbrio para dentro de si, a postura e as batidas de seu coração. Porque a visão dela naquele Silver Lights iridescente roubou algo do eixo dele.
Aqueles que estavam na mesa se retiraram na breve conversa, ficando apenas os três pilotos — Doriane, que ainda estava lá, e .
Falaram sobre a temporada, planos de inverno, pequenos dramas familiares. O tipo de conversa leve que deveria ser fácil — mas George só conseguia concordar com um balançar tímido da cabeça, os olhos inevitavelmente retornando para ela.
Kimi percebeu. Todos perceberiam, se olhassem por mais de três segundos.
Ele se inclinou para trás, fingindo pedir outra bebida, e murmurou para George, baixo o suficiente para parecer confidência, mas claro o bastante para acertar o alvo.
— Tá muito na cara.— alertou novamente.
George piscou, ajeitou a postura, quase tossiu como se tivesse engasgado no próprio ar — , vendo a reação, corou ainda mais — imaginando que ele estivesse desconfortável por encontrá-la ali, tão perto.
— Eu só preciso fazer um comentário bem específico. — Doriane interrompeu, com aquele timing impecável. — Todos estão muito elegantes hoje. Sério, nunca vi uma festa tão bem vestida. Kimi, você está incrível nesse terno verde-escuro.
— Obrigado. — ele sorriu. — Dessa vez foi minha mãe que escolheu.
riu, relaxando só um pouco.
— George, você está… muito elegante hoje. — ela disse, tentando manter a naturalidade, respirando fundo antes de terminar a frase.
E foi ali que percebeu: ele ainda não tinha dito absolutamente nada desde que chegou. Nada que não fosse um aceno tímido ou um olhar rápido.
só conseguiu dizer algo de novo porque Doriane havia quebrado o silêncio antes.
Kimi observava tudo, lutando para não deixar o riso escapar. Era óbvio que ele entendia mais do que mostrava. Era óbvio que estava se divertindo. E, acima de tudo, era óbvio que estava ajudando — mesmo sem dizer nada.
Kimi riu por trás da taça, aprovando e ao mesmo tempo julgando tudo.
Antes que George encontrasse qualquer coragem para articular uma frase completa, Toto apareceu atrás deles, pousando a mão no ombro de com um sorriso carregado de orgulho.
— , você está impecável. A Mercedes tem muita sorte de ter você.
— Obrigada, Toto. — ela respondeu com um toque de timidez sincera. — Um ano longo, mas especial.
— Você está pronta para o discurso? — ele perguntou.
— Se eu falar que sim, estarei mentindo. — ela riu.
George murmurou:
— Vai arrasar. Como sempre.
Ela olhou para ele, suave, agradecida — e por um segundo longo, parecia que o resto do salão tinha sumido.
Acompanhada de Toto Wolff, eles subiram no palco. Logo atrás estava George que também tinha um discurso pronto e decorado. As luzes do salão se ajustaram, e quando todos se acomodaram.
Não teve como não se emocionar com as palavras de Toto — ele falou com orgulho sobre todos, sem exceção; elogiou a consistência de George, destacou a evolução impressionante de Antonelli e, claro, a brilhante vitória de Doriane naquela temporada.
Toto então deu um passo à direita, abraçando George com um carinho sincero, do tipo que ultrapassa a hierarquia. Chamou Kimi em seguida, abraçando-o como um pai abraça o caçula cheio de potencial. Então ele aproximou o microfone, olhou para todos e depois parou seu olhar em .
— Antes de passarmos a palavra para e o nosso piloto. — olhou brevemente para Russell. — Eu quero começar reconhecendo alguém sem que este ano simplesmente não teria acontecido da mesma forma. — Toto disse, sua voz grave ecoando com serenidade. — , você foi o coração silencioso de muitos dos nossos projetos. Coordenou equipes, acalmou tempestades, trouxe soluções quando ninguém mais enxergava saídas. E fez tudo isso com uma dedicação que… confesso, às vezes até me assustou.
Algumas risadas suaves surgiram na plateia.
— Você fez mais do que seu trabalho como nossa Motorsport Operations Assistant. Você cuidou da gente. E isso não entra em contrato algum. — ele acrescentou, olhando para ela com genuína admiração. — Então, em nome da Mercedes, eu quero te agradecer. Por todas as horas que você ficou quando eu mandei você ir pra casa. Por todas as vezes que você disse “deixa que eu resolvo”. E por todas as xícaras de café que você me impediu de tomar depois das dez da noite.
O salão inteiro riu.
Toto então suspirou, teatralmente, fingindo um ar de quem se desculpa:
— Eu não sou exatamente bom com presentes de Natal… — ele começou, arrancando um sorriso discreto de — Mas, infelizmente, esse foi o único que consegui preparar em cima da hora.
Ele ergueu a pasta preta que segurava.
— Se você aceitar… aqui está sua renovação de contrato. Mais alguns anos para continuar brilhando com a gente. Considera isso um presente — atrasado, apressado, mas de coração.
O público reagiu com murmúrios emocionados.
piscou rápido, surpresa demais para responder no mesmo instante. um homem de terno subiu no palco com uma mesa e uma caneta nas cores da Mercedes, combinando com seu vestido. A pasta foi colocada em cima da mesinha e aberta para então eles assinarem o contrato — com muito gosto.
George, atrás dela, respirou fundo — orgulhoso, mas também completamente rendido por vê-la daquele jeito.
Contrato assinado, microfone passado para George. O discurso que ele tinha decorado saiu perfeitamente, como se ele estivesse tomando as curvas de Silverstone.
Os olhos castanhos de percorriam cada detalhe do rosto dele — admirando-o, encantada com ele e com cada palavra que escapava da boca dele.
Quando George passou o microfone para ela, seus olhares se encontraram, e o toque sutil de mãos a deixou perdida por um segundo antes que conseguisse começar.
Ao fundo, seu nome e sua função surgiram no telão ao lado de uma foto sua com a camisa da F1:
“ — Motorsport Operations Assistant.
Thanks for everything.”
Seu discurso era emocional, profissional e amoroso, tudo que ela ela sempre foi com todos ali.
— …e, acima de tudo, agradeço às pessoas que estiveram ao meu lado nos dias bons e nos dias difíceis. Trabalhar na Mercedes é mais do que liderar projetos: é construir algo maior do que nós mesmos. É acreditar, sempre — mesmo quando o ano é duro, mesmo quando erramos, mesmo quando o inesperado acontece.
O público murmurou em aprovação.
continuou:
— Estou extremamente orgulhosa da equipe. De quem corre… — seu olhar passou por Russell e rapidamente por Antonelli e Doriane. — De quem conserta, de quem pensa, de quem sonha. Este ano, pude ver de perto o quanto talento e dedicação transformam uma temporada.
Ela fez uma pausa sutil, o olhar procurando alguém na plateia.
— Muito obrigada a todos que fizeram parte disso.
Aplausos ecoaram forte.
George aplaudia junto — as mãos mais quentes do que deveriam, os olhos brilhando por ela.
e George desceram do palco, ele segurou a mão dela para ajudá-la em cada degrau. Aquele perfume floral, suave e cítrico se tornou um caminho até ela. Ele tinha tomado todas as iniciativas para conversar com , entretanto os colaboradores pararam na frente dele, para parabenizá-lo Russell mais uma vez, desejar feliz natal e até mesmo feliz ano novo.
Como era frustrante falar com pessoas quando você só queria está perto da mulher que tirava todo seu foco, depois de desvencilhar de todos ele seguiu a caminho do corredor, olhou para os lado procurando um caminho, a seguir para encontrá-la; parado ali entre a escada e o corredor lateral ele sentiu seu celular vibrar dentro do bolso do Smoking, pegou desbloqueou o mesmo e abriu o Clovy, o nome salvo ANT piscou na tela ao mostrar que foi ele que havia mandando mensagem.
“Obrigado, dude.”
Colocou o celular no bolso, olhou novamente para os lados para ter a certeza que ninguém estava observando os movimentos dele e pudesse deixar isso entrelinhas. Apenas Kimi que acenou discretamente com a cabeça para George. Em passos rápidos ele foi até a sala, sem chamar o nome dela pois não queria levantar alardes.
estava de costas, o reflexo das luzes que refletia os troféus tocava sobre sua pele, assim como as luzes da árvore de natal — grande e bem decorada — ao lado. A janela estava semi aberta, deixando entrar um vento gelado que balançava levemente uma mecha do cabelo dela. A expressão no rosto dela era suave, quase nostálgica, enquanto observava cada taça que ele conquistou.
Os olhos dela pararam em uma foto: uma foto de equipe, os dois lado a lado, sem saber que aquele registro um dia significaria tanto; trazia memórias que queria esquecer, aquela noite em Las Vegas e como se diz o ditado “O que acontece em Vegas, fica em Vegas”, ela sorriu, o sorriso mais triste que George tinha visto dela.
A estola de seda prata-gelo deslizou pelos ombros como ar; o tecido acetinado pegou as luzes da árvore, ganhando um brilho frio enquanto inclinava a cabeça para ver os troféus. O rastro da estola parecia sussurrar que aquele vestido tinha sido apenas o começo da surpresa.
George ficou alguns segundos parado ali, apenas admirando. Como alguém podia ser tão… Linda?
— Você sumiu — disse ele por fim, com a voz baixa.
Ela se virou devagar.
— Achei que precisava de um minuto. Toda aquela energia…
— E eu — ele se aproximou — Precisava te achar.
virou para ele, seu vestido reluzava os pequenos brilhos e ela segurou com delicadeza estola.
— Desculpe, não ouvi você.
George caminhou até ela. O ar gelado atravessou os dois quando a porta fechou um pouco atrás dele. Ele parou à frente dela, a menos de um passo.
— Não precisa se desculpar, está tudo bem? — se preocupava.
— Só… lembrando. — suspirou ao retornar o olhar para a foto. — Foi uma corrida e tanto.
— Foi. — deixou um meio sorriso aparecer. — As vezes queria que voltasse.
— O que acontece em Vegas, fica em Vegas.
Tirou uma risada dele.
— Quer dizer que você não queria que acontecesse outra vez?
— Não pode, não é o ideal.
Ele engoliu a seco, se recordando do noivo dela, foi um deslize total aquela noite pos-podium, eles juntos, a bebida e o beijo no fim do corredor do hotel.
— Você… é… — buscava palavras. — Você reatou?
— Hã? — arqueou a sobrancelha, estava espantada com a pergunta.
— Com o seu noivo.
— Não pelo amor de Deus! Eu não quero vê-lo nem vestido com a estrela de três pontas, quem dirá sendo meu noivo.
George Russell não evitou e o sorriso apareceu em seus lábios, ele passou a mão no cabelo alinhando ele e ajeitou o smoking.
— Caminho livre. — sussurrou.
— Mas mesmo assim não podemos, você sabe.
Agora se virou para ele. Nos olhos azuis de Russell, enxergou uma galáxia inteira, cintilando como o sabre de luz de Obi-Wan. Sentiu que seu coração se rendeu ao tipo de amor que só via nas histórias proibidas de Anakin e Padmé. E, ali, envolvida por aquela intensidade, o frio deixou de existir.
— Nós sabemos o que é a mídia. — continuou ela, a voz baixa, quase um pedido.
respirou fundo. O ar gelado que entrava pela janela arrepiou seus braços, entretanto George estava tão perto que a temperatura parecia oscilar entre eles.
Ela olhou para a foto deles, comprimiu os lábios — se recordando do toque dos lábios dele, e retornou ao olhá-lo ajeitando a estola entre os dedos.
— E sabe o que seria se… se acontecesse de novo. Estamos no nosso melhor momento e...
George ergueu a mão, tocando de leve o braço dela.
Não para interromper, para a ampará-la.
— … — sua voz saiu firme, mais firme do que ele se lembrava de usar com alguém fora da pista. — Eu estou cansado disso.
Ela franziu as sobrancelhas.
— Disso o quê?
Geroge respirou fundo, como se estivesse prestes a abrir uma porta que manteve fechada por anos.
— De viver preocupado com o que vão falar. — Seus olhos encontraram os dela. — De ser medido por manchete. De achar que qualquer passo errado vai te machucar ou te expor. De ter medo de… querer você.
Ela piscou, surpreendida, mas não afastou o olhar.
— George…
— Eu passei dois anos me segurando por causa disso — continuou ele, a voz baixa, quente, sincera. — Desde que entrei na Mercedes. Eu me apaixonei por você ali, naqueles primeiros meses. E você sabe disso. Você sentiu isso também.
O coração dela bateu mais rápido. Ela não respondeu. Ele sabia que era verdade.
— E aí veio Vegas. — Ele deu uma meia risada triste. — P2, champanhe, aquela energia… e a gente. Você me beijando naquele corredor, dizendo que me amava, que sempre me amou… mesmo bêbada demais para lembrar de metade do que disse depois.
passou a língua pelos lábios, tensa, como se aquela memória a queimasse.
Porque queimava.
— Eu lembro… — ela admitiu. — E foi exatamente por isso que eu fugi.
— Eu sei. — Ele deu um passo ainda mais perto, quase colando nela. — Mas você não precisa fugir mais. Não de mim.
desviou o olhar por um segundo.
— George, se a imprensa pega isso, se alguém fotografia, se… eu não posso perder meu trabalho, você sabe que...
Ele a interrompeu com doçura e com determinação.
— Nada vai acontecer com você. — Sua voz ficou mais grave, mais protetora. — Eu te protejo. Eu enfrento quem tiver que enfrentar. Eu bato de frente com quem for. A Mercedes não vai te tocar. Ninguém vai.
manteve seu olhar por alguns segundos naquela pequena galáxia que a deixa imaginando tudo que sempre sonhou ao lado dele.
E ali estava à sua frente o George Russell que por alguns momentos ela ia conhecendo aos poucos nos dois anos trabalhando pela Mercedes. Aquele que independente da situação ele escolheria ela milhões de vezes,
— Eu estou aqui por você agora. — continuou ele. — Não pela equipe, não para manter boa aparência, não para evitar polêmica. Por você. Porque eu te amo. E porque não quero te perder mais uma vez.
O silêncio caiu entre eles, pesado e perfeito.
Então George tocou o bolso interno do smoking, devagar, como se escolhesse a hora exata.
— E… — ele puxou a pequena caixa. Azul-marinho, discreto, elegante. — Eu queria te dar isso hoje.
piscou duas vezes querendo acreditar que não era nenhum pedido muito formal.
— George…
George abriu a caixa devagar, como quem revela um segredo ao universo. Dentro, um colar de ouro repousava como um pequeno sistema solar: corrente fina, pingente da Ordem Jedi esculpido especialmente para ela, e no centro, uma estrela segurando um topázio azul — o mesmo brilho que reverberava nos sabres de luz que ela admirava desde criança. reconheceu de imediato; lembrava-se perfeitamente de ter desejado aquele colar anos atrás, sem nunca encontrá-lo novamente.
— Star Wars? — ela murmurou, com os olhos marejados. — George… como você sabe?
Ele sorriu pequeno, daquele jeito que parecia envolver calor, segurança… e uma leve ironia carinhosa.
— Você acha mesmo que eu não perceberia? — riu baixo. vive carregando um pedacinho de Star Wars no uniforme, e você sempre foi transparente quando falava sobre aquela galáxia distante.
Ele ajeitou o colar entre os dedos, antes de olhar para ela como se estivesse entregando toda a verdade que guardou por tempo demais.
— Eu trouxe isso porque eu sei o que Star Wars significa pra você. Não é só uma história. É onde você encontra força quando o resto te cansa. — Ele tocou o topázio azul com o polegar. — E eu queria que esse azul te lembrasse disso… e de mim também. — os olhos dele eram firmes, sinceros. — De que eu estou aqui. Não pra te salvar. Não pra ser símbolo nenhum. Só… pra ser alguém em quem você possa apoiar de verdade.
Ela colocou a mão sobre a boca, emocionada demais para responder de imediato.
George se aproximou, fechando a caixa para tirar o colar.
— Posso? — sussurrou.
Ela assentiu.
Russell afastou devagar a estola dos ombros dela, o tecido escorrendo como neve derretida. O pescoço dela ficou exposto, convidando para deixar um beijo sutil no local, prendeu o colar atrás da nuca dela e deslizou seus dedos sob a corrente apenas para sentir a pele dela mais uma vez. Quando terminou, voltou o rosto para ele — perto, tão perto que o ar gelado não conseguia entrar entre os dois.
— É tão lindo.
Ele inclinou a testa contra a dela.
— Diz só uma coisa. — pediu. — Você quer ir embora dessa sala como se nada tivesse acontecido… ou você quer ir comigo?
Ela respirou fundo, o colar frio tremendo contra o peito com a respiração dela.
— Eu quero você. — saiu num sussurro. — Eu sempre quis.
George deixou aquele sorriso aparecer com toda a sua felicidade.
mal teve tempo de respirar e George a puxou para si com uma urgência que ela sentia desde Vegas.
Quando seus lábios se encontraram, foi como se tudo finalmente fizesse sentido: um beijo quente, profundo, cheio de um desejo que eles tentaram enterrar por anos.
As mãos dela deslizaram pela nuca dele; ele gemeu baixo, contra a boca dela, uma vibração quente que percorreu o corpo de inteira. O beijo ficou mais lento por um segundo — depois voltou mais intenso, como se ambos tivessem medo que fosse a última vez.
Do lado de fora, as luzes de Natal refletiam na neve fina que começava a cair. Do lado de dentro, e George ficaram ali, abraçados, como se o mundo finalmente tivesse parado para eles.
Na verdade, ela sabia o que viria depois daquele Natal — e talvez até depois do Ano Novo. Sabia que o plano dele era estender aquele tempo juntos, e por ora, isso bastava. Entretanto, no fundo, sentia que 2026 não carregaria a mesma paz daquele instante nos braços dele.


