Revisada por: Lightyear 💫
Última Atualização: 12/12/202525 de abril de 2018 — Melbourne, Live On Tour
22 shows feitos, 37 até o final da turnê.
Eu havia acabado de sair do palco, ainda suado. Tudo que queria naquele momento era arrancar o terno florido que usava e me jogar dentro de uma banheira, até que meu corpo relaxasse completamente. Saí andando e cumprimentando a todos no backstage. Quando um show acaba, existem duas opções: ficar no camarim por um tempo e, depois, ir dar atenção para alguns fãs, ou sair correndo direto para o ônibus — antes que alguém saísse do local do show. Naquele dia, eu iria direto para o ônibus; nem mesmo meu celular busquei no camarim. Precisava de um banho, de uma banheira com bolhas, de preferência.
O meu apart hotel ficava bem próximo ao local em que estava. Teria apenas a manhã seguinte para descansar antes de pegar o avião para Sydney, onde faria a apresentação do dia 27. Cheguei ao meu quarto e todas as minhas coisas já estavam lá. O pessoal deve ter percebido o quanto eu estava cansado no palco, deduzindo que viria direto para cá. Notei o celular piscando em cima da cama. Tinha 4 mensagens novas. Tirei quase toda a roupa e comecei a responder:
Minha mãe estava sempre ligada nos shows, mesmo com fusos malucos.
Minha irmã sempre fazia comentários brincando sobre minhas novas roupas durante a turnê. Havia, pelo menos, três meses que eu não via a cara daquela besta pessoalmente, e por isso estava ficando com muitas saudades de casa. Já fazia alguns anos que eu não morava mais em casa, mas nunca ficara tanto tempo sem ver minha irmã. Ela, vira e mexe, aparecia de surpresa, o que me ajudava a superar um pouco da saudade. Com minha mãe era mais difícil: em geral, só conseguia vê-la a cada três ou quatro meses.
A terceira mensagem era da fotógrafa da turnê, enviando algumas fotos do show de hoje. A última mensagem me pegou de surpresa. Realmente de surpresa.
Fazia oito anos que eu não via . Oito anos. Meu coração apertou, como pude ficar tanto tempo sem a ver? A última vez que nos falamos, foi uma semana antes da minha audição no X Factor. Lembro-me de ter a visto quando voltei para visitar meus pais e minha irmã, antes de sair em turnê, mas não conversamos. E foi isso. Sumi pelo mundo e nunca mais falei com ela. e Gemma eram melhores amigas desde que consigo lembrar. Sempre tive uma queda enorme por ela, e nunca havia sido correspondido, até a semana anterior à minha audição.
Eu estava calado, mas um sorriso bobo se mantinha firme e forte. Ela gostava de mim. Na minha cabeça, eu dava pulinhos e gritava “yay” sem parar.
— Para de rir! — Ela estava desesperada, o que era meio fofo. — Você tem 16 anos, Harry. Isso é meio ilegal, sei lá.
Eu dei uma risada boba, alta.
— Eu tenho 16 anos e você tem 18, grande coisa. — Levantei os ombros — quando eu tiver 19 e você 21, nem vai fazer tanta diferença assim.
— Mas faz toda a diferença do mundo, principalmente quando você é o irmãozinho da minha melhor amiga, Harry. Sempre te vi como um pirralho que fica no nosso pé o tempo todo. — Ela continuava com cara de dor.
Dei mais um sorriso e resolvi, naquela hora, que precisava beijá-la. Ou não teria outra oportunidade.
— O que você sente quando faço isso? — Dei um passo para frente e juntei nossos lábios em um beijo. De forma lenta, fui aprofundando. Ela aceitou e abriu espaço para que eu pudesse explorar toda sua boca. Afastei-me e olhei no fundo de seus olhos.
— Eu esqueço que você é o pirralho irmão da minha melhor amiga. — E deu um suspiro. — Vamos mudar de assunto, pare de me beijar de surpresa.
Dei um sorriso torto e continuei encarando-a. Meu Deus, como eu gostava daquela menina.
— E a audição? Preparado? — Ela mudou completamente de assunto e voltei para minha ansiedade.
— Já quase desisti umas cinco vezes hoje. — Dei um sorriso fraco. — Não sei se tenho coragem.
— Harry, você é muito talentoso, se eles não te aceitarem, são uns idiotas. Além disso, é uma gracinha, talvez passe pela beleza. — Ela fez piada e eu resolvi abraçá-la no meio das risadas.
— Fica comigo para sempre? — perguntei, igual a uma criança apaixonada idiota.
— Harry, você tem 16 anos e vai entrar para um programa de TV famoso agora. Não posso ficar com você. — falou como minha mãe. — Você vai aproveitar isso do jeito que tem que ser. Isso. — Apontou para nós dois. — Acaba hoje. Foi uma ótima semana, mas eu não posso ficar te iludindo.
— E se eu não entrar? Vou ficar sem você e sem o programa? — Olhei como uma criança triste novamente.
— Você vai entrar, meu bem. Te garanto! — Dessa vez ela me puxou para um beijo — Estarei sempre aqui para o que você precisar. Não desista do seu sonho. Você vai se arrepender se desistir por conta de um “crush” na amiga da sua irmã.
Uns dois dias depois, fui para a audição e tudo deu certo. E o que ela falou era verdade: eu teria me arrependido se não tivesse ido. Minha vida estaria totalmente diferente. Mas não pude deixar de pensar como seria minha vida se o “crush” tivesse dado certo. Nos primeiros dias, sentia vontade de ligar para ela a todo momento, principalmente quando estava sem confiança. Aos poucos, fui superando o sentimento. Minha irmã e ela acabaram se afastando depois que toda a onda One Direction começou; Gemma começou a viajar conosco e, com isso, foi parando de ter contato com boa parte de seus amigos também. Sei que elas mantiveram contato por mensagens e coisas do tipo por um bom tempo, mesmo afastadas.
Encarei o celular por alguns segundos, tentando entender o que estava sentindo naquele momento e resolvi entrar no banho, para pensar no que responder. Aparentemente, eu tinha superado os meus sentimentos adolescentes, mas fiquei nervoso apenas com a possibilidade de mandar uma mensagem para ela. Como sou idiota! Ela provavelmente estava namorando alguém, e mesmo se estiver, não me importo, né? Já namorei algumas pessoas pelo caminho, não posso achar que ficaria solteira esse tempo todo. Meu Deus! Que diabos está acontecendo? Não é possível que eu ainda tenha algum sentimento por ela. Deve ser só saudade. Jesus, sou patético. 24 anos, famoso, meninas aos meus pés. E eu aqui, na banheira, morto de cansaço e ansioso para responder à mensagem da minha primeira paixão adolescente. Pa-té-ti-co.
Saí do banho e deitei na cama. Nessas horas, gostaria de ter WhatsApp para saber se a pessoa está online ou não, antes de mandar uma mensagem. Ou, ao menos, para poder ver uma foto dela. Como será que está? Será que continua tão linda quanto me lembro? Caralho, que diabo. Vou responder qualquer coisa. Que porra! Não posso enviar qualquer coisa. O que escrevo?
Comecei a surtar, escrever milhões de mensagens e apagar. Sentia-me com 16 anos novamente. Resolvi ligar para Gemma. Tomara que ela me atenda.
— Fala, bocó! — ela atendeu com voz de sono. Devo tê-la acordado com os toques.
— Te acordei? — perguntei, fingindo estar preocupado, e olhei para o relógio. — 8 horas da manhã, sua preguiçosa, você não devia estar trabalhando?
— Sim, foda-se, estou de férias. O que você quer a essa hora? Não deveria estar pensando em dormir ou algo assim?
— Primeiro de tudo, não me julgue.
— Já estou julgando. O que diabos você fez?
— Não fiz nada. — defendi-me. — Eu só estou num surto adolescente.
— Caralho, Harry, você tem 24 anos, chega de surto adolescente! Qual o nome da biscate?
— Não é uma biscate.
— Opa, do biscate? — ela deu uma risada.
— Caralho, Gemma, você sabe que é a , porra! — soltei, sem paciência. — Estou tendo um surto adolescente porque sua melhor amiga da infância me mandou uma mensagem de texto e eu não sei o que responder.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos e depois ouvi uma sonora risada. Continuou rindo por alguns segundos. Mantive-me calado.
— Eu não creio! — Gemma continuava rindo. — Harry, você namorou Swift, Jenners e sei lá quem mais, e está surtando por conta da ? É isso mesmo?
— Uma coisa não tem nada a ver com outra.
— Cara, você é famoso, rico, belo e tem uma irmã maravilhosa e linda. Por que diabos você tá nervoso?
— Gemma, é a ! — repeti, dando ênfase no nome dela. — Ela me conhece antes de tudo isso. E você sabe bem o que eu penso sobre fama.
— Estou tentando descontrair. O que foi que ela falou na mensagem para você ficar tão maluco?
— Nada, só falou "quanto tempo" e perguntou se era “ok” me mandar mensagens. — suspirei.
— Caralho, Harry. Só responde "quanto tempo mesmo" e fala que é “ok, sim”. Ou você não quer falar com ela?
— Claro que eu quero falar com ela! Porra, você não está ajudando em nada.
— Meu amor, se você está surtando só com essa mensagem, imagine só quando souber da minha novidade.
— Qual novidade?
— Ela vai morar comigo em Londres.
— O quê?!
— É isso mesmo, responda essa mensagem logo. Porque em breve ela será minha colega de quarto e você vai ter que encará-la pessoalmente. — ela enfatizou o “pessoalmente”, e comecei a sentir minhas pernas bambas. Ainda bem que estava deitado.
— Puta merda, Gemma! Por que você não falou isso antes?
— Porque eu queria ver você surtar — ouvi novamente sua risada.
— Idiota. Ok. Vou responder. Obrigada por nada.
— De nada. Boa noite para você, bobão.
— Bom dia para você, vê se levanta essa bunda da cama. Te amo.
— Te amo também, maninho. Não surta.
Terminei a ligação e resolvi que não tinha muito para onde correr. Respondi à mensagem. Seja o que Deus quiser.
Encarei a mensagem por alguns minutos e apertei “enviar.”
Encarei o teto por alguns minutos, pensando no que ela poderia estar fazendo. Até que meu celular brilhou novamente.
Hoje
Resolvi ignorar a alfinetada e mudei o foco da conversa.
Hoje
Pensei duas vezes antes de enviar a mensagem, mas não tinha nada a perder. Enviei e fiz jus à minha fama de pegador, pelo menos dessa vez. Ela não respondeu, e já tinha perdido meu sono aguardando a resposta. Quem diria? Uma hora atrás, eu só queria dormir; agora estou aqui, ansioso pela resposta de uma menina que tive uma paixonite há oito anos. Sou um perdedor mesmo.
Quando eu estava prestes a desistir de tudo, o meu celular vibrou novamente.
Hoje
Isso não era uma mentira, acontecia mesmo. Só que, dessa vez, o que me mantinha acordado era apenas a ideia de conversar com .
Hoje
Mandei isso porque não tive coragem de perguntar: “você está namorando?”, apesar de que é, basicamente, a mesma coisa. Só o que muda é que, aparentemente, estou controlando a resposta. Mas, na verdade, não. Meu Deus, como eu estou confuso.
Hoje
Ela tinha um namorado. Isso era esperado, mas me afetou. Puta merda, por que é que estou querendo beijar essa menina se eu nem sei como está o rosto dela atualmente? Amores não resolvidos são foda. Jamais pensei que estaria nessa situação. Ainda tinham 37 shows pela frente, não posso me desconcentrar. Quando a turnê acabar, lidarei com isso.
Oito fucking anos. E eu estou sentindo como se fosse ontem, quando ela me beijou e me mandou para o X factor. Merda.
Desci do trem e olhei ao redor. King's Cross. Sim, eu realmente estava em Londres. Nos últimos cinco anos, tinha morado em Manchester, trabalhando como freelancer para várias revistas. Mas tinha sido, finalmente, contratada. Nem acreditei. Coloquei meus fones de ouvido e liguei o rádio; estava a fim de saber das notícias da cidade enquanto andava até o local onde dormiria naquela noite. Ainda não tinha arrumado um lugar permanente, preferi ficar num lugar provisório enquanto procurava um bom apartamento e, quem sabe, alguém para dividir as despesas. Já era noite e, na manhã seguinte, já iria iniciar no meu novo emprego. Não poderia estar mais empolgada!
Cheguei ao apart-hotel que havia reservado ao sair de Manchester e não era nada de mais: uma cama de casal, um banheiro e um protótipo de cozinha no canto direito. Havia apenas uma pequena janela, pela qual eu podia ver o prédio da revista onde iria trabalhar.
Ainda estava ouvindo a rádio quando começou a tocar uma música diferente com uma voz familiar:
Era a música nova de Harry. Fazia oito anos que ele tinha iniciado a carreira, e eu não poderia estar mais orgulhosa. Mesmo tendo perdido o contato com toda a família dele, sempre guardei de forma carinhosa os momentos que passamos juntos.
Terminei de arrumar as poucas coisas que trouxe enquanto a música ainda tocava, peguei meu celular e desliguei após a música acabar. Dormi logo depois.
Dormi mal a noite toda. Acordei várias vezes, ansiosa pela manhã que estava por vir. Quando deu a hora de realmente levantar, estava morta de preguiça. Fiz uma lista de prós e contras e pensei se realmente queria trabalhar. Parei de bobagem e me forcei a levantar alguns minutos depois, jogando-me debaixo do chuveiro para, só então, começar a me arrumar. Já havia preparado minha roupa na noite anterior. Ao sair do meu apart-hotel, meu estômago reclamou da falta de comida.
Na esquina do prédio, havia um Costa. Entrei, pedi um café grande e peguei um dos sanduíches prontos. Pedi para o atendente esquentar o sanduíche e saí para o vento gelado com meu café e sanduíche em mãos. Não queria me atrasar, então fui andando e comendo até o prédio da revista.
Quando cheguei lá, já havia terminado meu café. Apresentei-me na recepção e fui encaminhada para uma sala de espera. Minha cara de surpresa não poderia ser maior quando vi quem apareceu para me receber.
— Cala a boca! — Gemma gritou ao me ver. — Quando vi o nome de quem eu deveria receber hoje, achei que fosse alguém com o mesmo nome que o seu. Não acredito! — E se aproximou para me abraçar. — Como você está, ?
Eu arregalei os olhos e corri para abraçá-la.
— Meu Deus, Gemma! — Ainda estávamos nos abraçando. — Eu estou ótima! E você? Nossa! Quanto tempo! Que saudade! Você trabalha aqui? — Soltei nosso abraço, mas parecíamos duas crianças pulando na sala. A recepcionista ouviu a nossa barulheira e resolveu checar se estava tudo bem.
— Está tudo bem, senhorita Styles? — perguntou, levantando uma das sobrancelhas para a cena que viu.
— Margareth! — Ela olhou para trás. — Esta aqui é , minha melhor amiga da infância! Faz uns mil anos que a gente não se vê e agora ela vai trabalhar aqui comigo! — E deu um gritinho empolgado.
Margareth deu apenas um sorriso e balançou a cabeça.
— Muito bem, leve a moça para a sala dela e a apresente para todos, então. Não fiquem apenas aqui pulando. Pelo que sei, vocês têm prazos apertados, e devo avisar que o Mark não está de bom humor hoje.
Gemma fez uma careta.
— Obrigada, Maggie. Vou levar essa moça para conhecer todo mundo e corro para finalizar minhas matérias.
— Nossa, eu não estou acreditando nisso! — falei enquanto ela puxava minha mão, me guiando pelos corredores da empresa. — Ontem mesmo estava pensando em vocês, ouvi uma música do Harry na rádio!
— Temos muito o que conversar! Amanhã vou sair de férias, mas agora que você reapareceu na minha vida não vou deixar fugir novamente!
— Eu não fugi, foi tudo muito rápido depois que o Harry entrou no X Factor. Entendo que não haveria mais como vocês continuarem em Holmes.
— Sim, foi tudo muito surreal, mas me conta sobre você! Quero saber tudo, onde anda, com quem mora, como chegou aqui! — Gemma falava rápido enquanto me puxava, era como se nunca tivéssemos nos separado. Sentia-me em casa novamente.
Ela me levou até a copa, puxou uma cadeira e me fez sentar. Depois, andou até o balcão, pegou duas xícaras de chá e voltou para mesa, colocando uma na minha frente e pegando a outra para si.
— Bem, por onde começar? — peguei meu chá e tomei um gole. — Eu não deveria estar sendo apresentada para as pessoas, para trabalhar?
— Menina, você vai trabalhar no meu departamento. Se alguém perguntar algo, estou no meio do seu treinamento, ok? — Ela deu um gole no chá. — Começa pelo começo.
— Hum, depois que você saiu para acompanhar o Harry na turnê, entrei na universidade de Manchester para estudar inglês. E, bem, fiquei lá até antes de ontem. — Dei uma risada pequena. — Trabalhei como freelancer para alguns sites e revistas de todo o país a partir de lá e recebi a proposta para vir para cá no mês passado.
Gemma me olhava atentamente, enquanto eu contava minha história.
— Aceitei a proposta e comecei a planejar minha mudança, mas, você me conhece, deixei tudo para a última hora e estou num apart-hotel até encontrar algum lugar que caiba no meu bolso.
— Que legal, ! Sempre sonhamos com isso. Que bom que conseguimos! — Gemma comemorou, levantando as mãos para cima e balançando. — O melhor de tudo é que agora podemos trabalhar juntas!
— Isso vai ser demais!
— Mas espera, você ainda não tem lugar para morar?
— Não procurei nada, você sabe como sou procrastinadora. Olhei alguns lugares, mas tudo muito fora do meu orçamento. Talvez eu possa colocar um anúncio em algum lugar por aqui? — Perguntei.
— Anúncio para quê?
— Colegas de quarto, ué. Para dividir as despesas. — Assim que fechei a boca, percebi os olhos de Gemma brilhando.
— Vamos morar juntas! — Ela deu um gritinho. — Sério, vai ser ótimo! Estou mesmo precisando de uma colega de quarto. Se você quiser, podemos ir lá em casa no final do expediente e você me diz se topa!
— Gemma, não precisa fazer isso, sei bem que você deve gostar de morar sozinha. Você sempre quis isso.
— Deixe de bobagem! Você só não vai morar comigo se não quiser. — Ela levantou da mesa e pegou as xícaras para lavar na pia. — Eu não sou milionária igual ao meu irmãozinho não, vai ser bom ter alguém para dividir as dívidas.
Fiquei calada por uns segundos e soltei uma risada, Gemma continuava a mesma.
— Tá certo, no final do dia irei com você até lá e decido.
— Já está decidido, você vai apenas conhecer seu novo lar! — Ela sorriu, confiante.
Aquele sorriso me lembrou muito o de Harry. Estava me segurando para não fazer mil perguntas sobre ele. Não queria parecer uma fã maluca, mas realmente queria saber como ele estava e como iam às coisas com ele. Se ele tinha mudado. Afinal, eu só sabia o que a mídia dizia.
Não perguntei nada, apenas segui Gemma pelos corredores novamente para ela me mostrar tudo no nosso departamento. No final das contas, estaria trabalhando na coluna social. Eu queria estar escrevendo reportagens investigativas, ou fazendo tudo aquilo que vemos repórteres incríveis fazerem: cobertura de desastres, guerras, e tudo mais. Só que a gente tem que começar de baixo, não é mesmo? Aguentaria uns meses, ou anos, falando de fofoca, desde que soubesse que estaria trilhando meu caminho para reportagens e investigações.
Gemma fazia matérias sobre música e moda, tudo que ela gostava. Nosso editor chefe se chamava Mark. Era um cara ranzinza, mas muito gente boa.
No fim do dia, já estava bem organizada, e meio triste que Gemma não estaria lá por quinze dias. Ela iniciaria suas férias no dia seguinte, e tinha muitos planos de dormir e não responder e-mails.
— Ah! — Gemma suspirou alto, espreguiçando-se em sua cadeira, que ficava no cubículo ao lado do meu. — Férias! Doce som do descanso remunerado.
Dei um pequeno sorriso. Gemma realmente ainda era a mesma menina de oito anos atrás. Estava um pouco mais estilosa e bem menos tímida, mas, de resto, tudo igual.
— Então, senhorita , está pronta para conhecer seu novo lar? — Cutucou-me após levantar de sua cadeira, colocando seu computador na bolsa.
— Você realmente tem certeza de que não vou te atrapalhar? — Fiquei preocupada de estar apenas com pena de mim.
— Me diz em qual planeta morar com a sua melhor amiga de todas atrapalha? — Gemma soava ofendida com esses meus questionamentos. — Se você continuar falando isso, vou achar que você é que não está confortável em ir morar comigo.
— Sei lá, Gems, você já deve estar acostumada com suas coisas, não vai ser chato eu estar lá?
— Deixe de bobeira, o meu apartamento é grande demais para se morar sozinha, e Deus sabe que eu não estou pronta para morar com o Michal. — Gemma falava como se tudo fosse muito óbvio e apenas eu não entendia.
Apenas dei uma risada. Uma coisa era certa: com os Styles não se pode argumentar por muito tempo, eles sempre vão dar um jeito de te convencer. Descemos até o térreo, onde Gemma já tinha um Uber nos aguardando — nem sequer vi quando ela solicitou a corrida. Ela deu as instruções para o motorista passar em outro endereço antes, e fomos conversando bobagens sobre o trabalho até chegarmos lá. Estávamos entrando em Hampstead, um bairro muito bonito, e bem conhecido por ser o local onde gente rica e famosa mora. É um lugar que parece uma cidade pequena do interior. Eu sabia que esse não era nosso destino final porque estava acompanhando o trajeto no celular do motorista. Fiquei curiosa depois de uns minutos andando pelo bairro e finalmente perguntei:
— Onde estamos indo?
— Ah, vou passar rapidinho na casa do Harry para pegar umas chaves extras. Da última vez que foi lá em casa, pegou minhas chaves reservas porque havia esquecido as dele, e eu pretendo te entregar essas chaves. Afinal, vai morar comigo e precisa conseguir entrar na sua casa, não é mesmo?
Quando ela terminou de falar, o motorista parou o carro em frente a um portão preto. Gemma pediu que o motorista entrasse na garagem e aguardasse por alguns minutos. Ela tirou da bolsa um controle e abriu o portão. O motorista entrou com o carro e estacionou. Ela perguntou se ele desejava um copo de água ou qualquer outra coisa, sendo prontamente respondida que não precisava se preocupar. Ele aguardaria no carro o tempo que fosse necessário.
— Vem, , me ajuda a achar a chave. — E me puxou para fora do carro.
— Te ajudar como? Eu não conheço a casa!
— Só procura em qualquer superfície plana. Harry tem mania de jogar as chaves em qualquer lugar! As que estamos atrás tem um chaveiro de pomo de ouro, do Harry Potter, sabe?
— Sei, vou tentar de ajudar.
Gemma abriu a porta e entrou na minha frente, saiu reclamando que tinha roupa jogada no sofá. “Vou ter que pedir para mamãe mandar a Sra. Knowles aqui”, ela murmurava enquanto revirava as coisas atrás das chaves.
Deixei Gemma para lá e sai procurando pelas chaves, mas perdi muito tempo olhando para fotos que via em porta-retratos pela casa: tinham muitas fotos de família, e algumas de quando eles eram crianças. Andei pelo andar inferior quase todo, quando ouvi um “estou no segundo andar” da Gemma, avisou que revistaria o quarto dele. Cheguei na cozinha da casa e notei um pequeno mural num canto, era o mural que ficava no quarto dele em Holmes. Aproximei-me e consegui ver algumas coisas familiares, entre elas uma foto minha com Gemma de quando tínhamos uns 15 ou 16 anos. Fiquei encarando-a, sorrindo, e nem percebi que ela havia chegado atrás de mim.
— Nossa, não sabia que ele tinha essa foto nossa! — Ela tirou a foto do mural para olhar com mais clareza. — Olha a gente! Que bebês!
— Sim, nem me lembro de quando foi isso! — continuei, olhando a foto que estava na mão dela.
— Não faço ideia também! — Ela colocou a foto de volta no mural. — Como diabos o Harry tem essa foto?
— Não faço ideia!
— Ele deve ter roubado da mamãe. — Gemma virou os olhos. — Isso me lembra: conta essa história aí de vocês terem trocado uns beijos! É sério? Ou aquele imbecil sonhou com isso?
Dei uma risada.
— Não me mata!
— Eu não acredito que você beijou o meu irmão, quando ele era um bebê. — Ela se fingia de ofendida. — Me explica como, quando, onde e por quê.
— Eu não me lembro ao certo — tentei enrolar. — Sei que ele um dia me pegou de surpresa, sabe? Veio falando um monte de coisas e disse que queria só um beijo meu para poder superar.
— E você caiu nessa? — Gemma rolava os olhos.
— Eu me deixei levar, quando vi, estava dando mais do que um beijo nele. — Levantei os ombros. — Ele beijava melhor que Christopher.
— Meu Deus, eu não estou ouvindo isso. — Gemma começou a rir. — Meu irmãozinho de 16 anos beijava melhor que seu ex-namorado saradão?
— Durma com essa. — Entrei na brincadeira.
— Então vocês trocaram uns beijos e foi isso?
— Foi isso, eu não queria admitir na época, mas estava começando a ficar interessada demais no Harry. Consegui tirar algum juízo da minha cabeça e o convenci ele a acabar com qualquer coisa que nós tivéssemos, para ele poder seguir com o sonho dele no X Factor.
Gemma apenas me encarou.
— Você sabia que quebrou o coração dele?
— Como assim?
— Na semana seguinte, fui com ele para Londres, com nossa mãe, para o teste. E, no trem, ele estava à beira de um colapso. Eu achei que fosse nervosismo por conta do teste, sabe?
Continuei calada enquanto ela contava a história.
— Mas aí, percebi que estava, na verdade, segurando um choro. Chamei ele para comprar algo na lanchonete do trem e saímos de perto da nossa mãe. Quando eu perguntei o que estava acontecendo, ele me abraçou, e contou que estava “apaixonado” por você. E que você tinha dado um pé na bunda dele.
— É, eu realmente dei um pé na bunda dele. Mas juro que não queria magoá-lo.
— Eu sei, . — Gemma me deu um tapinha no braço. — Ele realmente ficou sentido. Teve algumas vezes que me ligou, para não ligar para você. Até que as coisas começaram a engrenar no programa, e ele, finalmente, começou a se concentrar mais no futuro dele.
— Ainda bem que tudo deu certo. E por que você não me falou na época que sabia de tudo? A gente ainda se falava bastante.
— Ah, porque o Harry me fez fazer uma “promessa de mindinho” que eu nunca, jamais, sob hipótese nenhuma, falaria sobre isso com você.
Dei uma risada dela imitando a voz de Harry, fazendo a dela ficar um pouco mais grossa e meio afeminada.
— Você acabou de quebrar essa promessa — lembrei.
— Já se passaram oito anos, ninguém se importa mais. Vamos nessa? Eu achei as chaves.
Acenei que sim com a cabeça e segui Gemma pelos corredores até a garagem, onde o motorista do Uber ainda nos aguardava, tranquilamente.
— Muito bonita sua casa, senhorita — falou quando retornamos para o carro. — Minha esposa com certeza adoraria esse jardim.
— É a casa do meu irmão, também gosto bastante do jardim. Ele tem uma boa jardineira, é uma senhorinha que mora logo ali em Camden. Posso te passar o contato dela.
— Agradeço. — falou, ligando o carro e seguindo para o endereço da casa de Gemma.
O local não ficava muito distante da casa de Harry, ficava em Camden Town, cerca de 15 minutos de distância. O motorista estacionou na frente de um pequeno prédio, onde ficava o apartamento de Gemma, e nos desejou boa noite.
— Seja bem-vinda! — Gemma abriu os braços na calçada. — Este será o seu novo lar! — Subiu pela soleira, procurou as chaves na bolsa enquanto caminhava até a entrada.
— Nossa, Camden Town? — Olhei surpresa; essa era uma localização tão nobre quanto a anterior.
— Harry insistiu que eu deveria morar próximo dele. — Levantou os ombros, andando pela sala de entrada do prédio, cumprimentando o porteiro com um aceno de mão. — Quando reclamei que não teria condições de arcar com nada próximo da casa de milionário dele, me deu esse apartamento de presente. — Ela segurava as chaves na frente da porta.
— Uau!
— No começo, até fiz um charme, disse que não ia aceitar, que ele não tinha que sair comprando casas para mim. Mas, no final das contas, comprou de qualquer jeito. — Ela abriu a porta. — Seja bem-vinda.
O apartamento era térreo, com três quartos, uma sala aberta com cozinha integrada — o bom e velho “conceito aberto”. Tinha um jardim privado nos fundos, com portas francesas. A decoração era moderna, bem a cara de Gemma. Tinha um piano-armário num dos cantos da sala, um sofá em L e uma televisão grande. A cozinha seria bem apertada se não fosse aberta.
Havia um pequeno lavabo na sala e, logo ao lado, um corredor estreito que levava aos quartos.
— Vem — Gemma me puxou pelo corredor. — Esse é o meu quarto. — Ela me mostrou, abrindo a primeira porta. O quarto dela era muito bonito, dava para ver que havia algum tipo de decoração planejada ali. — O seu quarto fica do outro lado.
Ela continuou me levando pelo pequeno corredor. O apartamento não era gigante; era bem simples, levando em consideração o valor que provavelmente foi pago. Tudo é localização.
— Esse é o quarto de visitas, ou o quarto da minha mãe. — Ela abriu a porta novamente para que eu pudesse olhar. — E aquele ali é o “quarto do Harry” — Gemma fez aspas com as mãos no ar. —, que agora vai ser o seu quarto.
— Quarto do Harry? Como assim? — Arregalei os olhos. — Eu não posso roubar o quarto do Harry!
— Ele gosta de falar que esse quarto é dele, porque o de visitas é da minha mãe. Ah, e porque ele comprou a cama deste quarto também.
Entrei no quarto e percebi que realmente era o quarto do Harry. Tinha alguns livros, papéis rabiscados numa escrivaninha, fotos da família. Uma das portas do armário estava aberta e pude ver algumas roupas dele penduradas.
— Gems, eu não vou roubar o quarto do seu irmão, posso ficar no de visitas! — falei, percebendo que talvez incomodaria Harry. — Imagina se ele quer vir aqui e eu estou no quarto dele.
— , ele tem uma casa inteira só para ele. E no quarto de visitas não tem banheiro. Se ele quiser dormir aqui, vai ter que ficar no quarto de visitas, ora essa! — Ela falou como se fosse óbvio, novamente.
— Eu posso pelo menos esperar ele pegar as coisas dele, sei lá. Você não acharia ruim uma pessoa estranha mexendo nas suas coisas?
Gemma rolou os olhos e foi até a escrivaninha do quarto.
— Ele está em turnê, por uns cinco ou seis meses. Eu resolvo isso. Veja só.
Ela puxou uma caixa que estava sendo usada como lixeira de debaixo da mesa. Jogou tudo o que tinha dentro, que eram apenas alguns papéis amassados, no chão. E, depois disso, passou o braço na mesa arrastando tudo que havia lá para dentro da caixa. Separou apenas um óculos e um relógio que estavam na mesa de dentro da caixa. Puxou uma caneta do meio da bagunça e escreveu na caixa “merdas do Harry”.
— Pronto, tudo guardado.
Dei uma risada. Gemma não ia mudar de ideia.
— Ok, me dou por vencida. Vou morar com você.
Ela deu um pulinho no ar e veio me abraçar.
— Você não vai se arrepender! — disse, ainda me abraçando. — Amanhã, depois do trabalho, vem para cá e para de pagar esse apart-hotel, por favor.
— Gems, esse apartamento é seu, certo?
— Sim, por quê?
— Você não paga aluguel, como vou dividir com você? Dividir só as despesas da casa não parece justo.
— Eu ganhei essa casa do irmãozinho que você costumava beijar. Isso não parece justo também. Me ajudar com as despesas vai ser mais que o suficiente; agora, finalmente, vou poder aumentar a velocidade da internet. — Ela fez piada — Se você quiser, já pode dormir aqui hoje.
— Não, tenho que ir para casa, não tenho nem uma muda de roupa aqui. Sem falar que preciso arrumar minhas coisas para mudar para cá.
Gemma entendeu, foi comigo até a sala e me entregou as chaves com o chaveiro de pomo de ouro. Depois disso, levou-me até o porteiro para me apresentar e me colocar na lista de moradores.
— Muito bem! Até amanhã então, Gemma. Aproveite seu primeiro dia de férias!
— Muito obrigada, dormirei até a cama me expulsar! — Ela deu um sorriso torto. — Ah! Antes que eu me esqueça, anote o telefone do Harry!
Olhei para ela com cara de interrogação, e meio assustada.
— Ah, não me faça essa cara, ele vai gostar de saber que você voltou. — Pegou o meu celular de dentro da minha bolsa e salvou o número do irmão. — Ele está em algum lugar do planeta, sei que o fuso horário é de, mais ou menos, umas 9 ou 10 horas. Então o ideal é mandar mensagem para ele por agora.
— São oito e meia agora — comecei a contar nos dedos as horas de diferença. — lá deve ser umas cinco ou seis da tarde?
— Isso mesmo, mas ele tem show hoje, então é capaz que só te responda amanhã de manhã, que é mais ou menos quando acaba o show.
— Ok, prometo que antes de dormir mando uma mensagem para ele. Quem sabe não peço autorização para ficar com o quarto dele, não é?
Gemma apenas deu outra risada e se despediu. Fui até o metrô para poder voltar para o meu apart-hotel.
Demorei uns bons 40 minutos para chegar, porque me perdi nas linhas do metrô. A gente sai do interior, mas o interior não sai da gente. Quando cheguei, organizei rapidamente o pouco do que havia tirado das malas no dia anterior, tomei um banho e, antes de dormir, encarei o celular. Resolvi abrir o WhatsApp para ver qual tipo de foto Harry Styles usa nele. Não apareceu nada. Então, resolvi mandar uma mensagem para Gemma.
“Ah, foi mal, ele não tem WhatsApp. Mande iMessage ou sms. Ele vai receber.”
Harry Styles não tem WhatsApp. Excêntrico. Abri as mensagens e fiquei encarando a tela. Eu não tinha ideia do que escrever. Resolvi parar de pensar demais e mandei a primeira coisa que veio na minha cabeça.
Esperei alguns minutos e nenhuma resposta. Fiz as contas e percebi que ele provavelmente estaria no meio do show. Resolvi ir dormir. Lidaria com a resposta dele pela manhã.
Acordei com o telefone do hotel tocando. Era o meu "despertador" particular — Mike, meu assistente, sabia que eu tinha dificuldade para levantar cedo e não confiava no alarme do meu celular. Depois do dia em que fiquei duas horas apertando a soneca e quase perdi uma sessão de fotos, ele decidiu resolver as coisas do seu jeito.
— Bom dia, senhor Styles. Esta é sua chamada-despertador. — A voz do atendente ecoou no ouvido enquanto eu ainda estava deitado, os olhos fechados. — Em alguns minutos, seu café da manhã será entregue e o Sr. Morin chegará.
— Obrigado. Bom dia pra você também — respondi, a voz ainda rouca de sono.
Precisava me levantar, mas o corpo pesava como se tivessem passado um trator por cima de mim. Ainda martelava na minha cabeça a troca de mensagens da noite anterior. Depois de enrolar mais alguns minutos, finalmente arrastei-me para o banheiro e lavei o rosto. Pelo menos tinha uma manhã livre antes do voo para Sydney.
A campainha do quarto tocou. Pendurei a toalha no pescoço e fui abrir.
— Bom dia, Harry! — Mike entrou segurando um café, seguido por um carrinho repleto de frutas e pães.
— Bom dia, Mike... — cumprimentei, bocejando. — Nem na minha folga você me deixa dormir?
— Você mesmo pediu para eu te acordar às nove. Queria conhecer a cidade antes do voo, lembra? — ele respondeu, sentando na cama e pegando uma maçã. — Além disso, você dormiu às nove da noite. Não é possível que ainda esteja cansado.
— Demorei pra pegar no sono... — menti, evitando encará-lo, se soubesse que fiquei a noite toda surtando por um amor adolescente ia rir de mim.
— Bem, aqui está sua passagem. — Ele estendeu o envelope com os documentos. — Arrume suas coisas que, mais tarde, venho buscar. Vai direto pro aeroporto?
Chequei o horário do voo e percebi que, se não voltasse ao hotel, daria pra aproveitar mais.
— Vou sim. Alguém mais vai junto? — perguntei, referindo-me ao resto da banda.
— Sarah e Mitch também queriam dar uma volta. Quer que eu os coloque no mesmo carro?
— Se eles toparem, ótimo. Vai ser mais divertido com companhia.
Mike pegou o telefone e saiu na varanda para fazer a ligação. Enquanto isso, comecei a comer uma banana e tomar suco. Quando ele voltou, ainda no telefone, fez um sinal de positivo com o polegar. Sorri com a boca cheia e levantei os dois polegares em resposta. Sarah e Mitch estavam dentro!
Terminei o café rápido, vesti uma blusa branca, coloquei meus óculos escuros e segui Mike até o carro que nos esperava.
Sarah e Mitch já estavam no hall do hotel. Ela usava um coque, blusa azul de manga comprida, com uma das mangas vermelha, detalhe que adorei, leggings pretas e botas. Ele estava de jeans preto, blusa cinza e óculos escuros, clássico Mitch.
Me enfiei entre os dois, puxando-os para um abraço lateral, assim que me aproximei.
— Bom dia, meus amores.
— Bom dia, Harry! — responderam em uníssono, rindo em seguida.
— Adorei a blusa, Sarah — comentei, apontando para a manga vermelha.
— Te empresto quando quiser. — ela riu, indicando o carro que agora esperava na porta.
Era uma van preta pequena. Entramos e nos acomodamos no banco de trás, começando a debater para onde iríamos primeiro. Acabamos decidindo pelo píer do Yarra River. O lugar era bonito e, por ser uma manhã de semana, estava bem tranquilo. Descemos do carro e ficamos caminhando pela orla.
O tempo todo, checava o celular, esperando — sem motivo — uma mensagem da . Não fazia sentido: eu não havia mandado nada, então por que ela me enviaria qualquer coisa? Mesmo assim, não conseguia parar.
Mitch foi o primeiro a notar.
— Que diabos você fica olhando nesse celular, Styles? — perguntou, inclinando-se para tentar espiar minha tela.
— Nada — menti, conferindo a tela mais uma vez. — Só vendo as horas.
— Ah, tá, claro. — Sarah entrou na conversa, sarcástica. — Você olhou a hora umas vinte vezes nos últimos cinco minutos. Desculpa esfarrapada, hein?
Soltei uma risada e guardei o aparelho, mas já era tarde.
— Isso tem cara de caso amoroso. — Mitch fez aquela pose dramática, com aspas imaginárias. — Tá de papinho com alguém e ficou no vácuo, foi? — Aproximou-se de mim, voz fina e dedos prontos para cócegas.
Fiquei calado, mas meu rosto me traiu, senti o calor subindo pelas bochechas, enquanto tentava me esquivar.
— Olha só, Mitch, ele já tá todo vermelho! — Sarah riu, entrando na brincadeira. — Tentou puxar assunto com alguma kiwi e levou ghosting, é?
Os dois caíram na gargalhada. Acabei rindo também e revirei os olhos, empurrando os óculos para cima da cabeça como uma tiara ridícula.
— Não é da sua conta — disse, mas naquele exato momento o celular apitou. Eles trocaram um olhar cúmplice e, antes que eu reagisse, já estavam tentando arrancar o aparelho das minhas mãos.
Saí correndo como um desesperado pelo píer, tentando puxar o telefone do bolso para ver a mensagem. Mas eles foram mais rápidos, Mitch conseguiu pegar o celular assim que destravei a tela.
— Vou ter que trocar de banda, vocês são insuportavelmente insubordinados — protestei, enquanto eles bisbilhotavam o meu telefone entre risadas.
— É só sua irmã — Mitch entregou o celular de volta, fazendo cara de paisagem. — Nada de kiwis. Ela só quer saber como você tá depois do seu 'surto' ontem.
Eles não tinham visto as conversas anteriores, só presumiram que fosse outra pessoa. E, pra ser sincero, eu também tinha esperado que fosse.
— Surto? — Sarah franziu a testa. — Se não quiser falar, tudo bem, mas a gente tá aqui se precisar.
Fiquei comovido. Ela imaginou algo sério. Sarah e Mitch eram os mais próximos de mim na banda. Mitch era praticamente um irmão. Resolvi contar a verdade antes que confabulassem histórias ainda piores sobre minha sanidade mental.
Respirei fundo, preparando-me para a explicação.
— Gemma é uma idiota mesmo — dei uma risada meio sem jeito, passando a mão pelo cabelo. — Mas está tudo bem, esse "surto". — Levantei ambos os indicadores, fazendo aspas no ar. — Foi só porque recebi uma mensagem de uma garota por quem era louco aos dezesseis anos. Pronto, podem começar a zoação.
— Como é que é? — Sarah franziu a testa e se inclinou para frente, como se não tivesse ouvido direito. — Você está me dizendo que recebeu mensagem da sua paixão de adolescência?
— Exatamente — confirmei, mordendo o lábio inferior. — Ontem à noite, assim que terminamos o show.
Mitch cobriu a boca com a mão para conter uma gargalhada, enquanto Sarah continuava me observando com uma expressão entre choque e diversão.
— E como diabos ela conseguiu seu número? — Sarah cruzou os braços, exigindo explicações.
— Ah, bem... — Suspirei, esfregando a nuca. — Ela sempre foi a melhor amiga da Gemma, ou pelo menos era naquela época. Ontem, elas se encontraram por acaso no trabalho e minha querida irmã achou que seria uma ótima ideia passar meu contato.
Sarah ficou em silêncio por alguns segundos, processando a informação. Foi Mitch quem quebrou o momento:
— E qual foi exatamente o motivo desse "surto"? — ele fez aspas com os dedos, imitando meu gesto anterior. — Ainda tem sentimentos por ela?
— Honestamente? Não faço ideia de por que reagi daquele jeito.
Foi então que os olhos de Sarah brilharam com compreensão súbita.
— Você estava esperando uma mensagem dela! — ela gritou tão alto que várias pessoas no píer viraram para olhar. — Meu Deus do céu, Harry! Você ainda gosta dela!
Enfiei as mãos no rosto e respirei fundo, sentindo o calor subir pelas bochechas mais uma vez.
— Vou... vou tomar um sorvete — murmurei, virando rapidamente e caminhando em direção a uma sorveteria próxima.
Paul, meu segurança pessoal, que nos observava de uma distância discreta, percebeu minha retirada abrupta e imediatamente se aproximou. Algumas fãs mais atentas me reconheceram e pediram selfies, mas como o local estava relativamente vazio, consegui comprar meu sorvete de baunilha sem maiores problemas. Atrás de mim, Sarah e Mitch não paravam de cochichar e trocar olhares significativos. Eles pediram sorvetes também, mas mal tiveram tempo de saboreá-los. Em questão de minutos, percebemos que a notícia sobre minha presença no Yarra River começava a se espalhar, e fomos obrigados a retornar apressadamente ao carro.
— Agora, conta direito essa história — Sarah insistiu assim que fechei a porta do carro. — Você está apaixonado por essa garota desde os dezesseis anos?
— Não é "desde os dezesseis" — corrigi, puxando o cinto de segurança com mais força que o necessário. — Eu gostava dela quando tinha dezesseis anos — enfatizei cada palavra. — Há uma diferença enorme.
— Então me explica o motivo do surto. — Mitch se virou no banco para me encarar.
— Eu não sei — admiti, e pela primeira vez minha voz soou verdadeiramente confusa. — Sinceramente, não sei o que sinto. Não fazia ideia do que responder... São oito anos sem qualquer contato e, de repente, ela aparece no meu celular com uma mensagem despretensiosa.
Mitch e Sarah trocaram aquele olhar de cumplicidade que sempre me deixava nervoso, como se tivessem decifrado todos os mistérios do universo.
— Na verdade... — Soltei um suspiro profundo. — acho que nosso "término" — fiz aspas com os dedos outra vez — foi meio estranho. Talvez eu nunca tenha superado direito. Não sei. Meu Deus…
— É, meu chapa! — Mitch envolveu meu pescoço com o braço. — você claramente tem uns sentimentos mal resolvidos aí.
— Vocês vão se encontrar? — Sarah perguntou, inclinando-se para frente. — Ou ficou só nessa troca de mensagens?
— Ela vai morar com a Gemma. Quando a turnê acabar, ou nessa pausa antes da América do Sul... — Engoli seco. — Vou ter que encará-la pessoalmente. E não faço ideia do que vou fazer.
Mitch apertou meus ombros num abraço meio sufocante.
— Definitivamente não superou.
— Como foi exatamente esse término de vocês? — Sarah não largava o osso, queria todos os detalhes.
— Eu tinha dezesseis, ficamos uma semana e levei um fora.
— E ainda sente algo por ela? — ela insistiu. — Conta a história direito dessa vez.
Respirei fundo e forcei um sorriso cansado.
— Tá bem, vou contar tudo.
Enquanto o carro percorria as ruas da cidade, contei minha história desde o começo: a paixão repentina, a diferença de 2 anos na idade, o X Factor, tudo.
— Está aí sua resposta. É óbvio — Sarah adotou aquele tom de psicóloga amadora que tanto me irritava. — Você nunca deixou de gostar dela, Harry. Apenas enterrou esses sentimentos. E tudo que aconteceu depois serviu como distração.
Franzi a testa e empurrei os óculos para o alto do nariz.
— Chega de análise, por favor. Vou dormir um pouco — declarei, deixando minha cabeça pesar no ombro de Mitch.
Fingi dormir, mas minha mente não parava de revirar as palavras da Sarah. Será que era mesmo isso? Ainda gostava dela? Tínhamos algumas horas antes do voo quando Sarah me cutucou, sugerindo algum passeio especial. Respondi que topava qualquer programa, mas continuei encostado, tentando entender meus próprios sentimentos. Precisava ligar para minha mãe.
Ao pararmos numa área comercial, decidi ficar no carro. Dei a desculpa de precisar fazer umas ligações e que deveriam aproveitar as lojas. Desconfio que não acreditaram, mas aceitaram sem protestar. Até achei que pudesse estar rolando algo entre eles, mas estava tão consumido pelos meus pensamentos sobre a que mal prestei atenção. Fiquei no carro por uns cinco minutos, mergulhado nos meus pensamentos, até que resolvi pegar o telefone.
— Olá, querido! — A voz acolhedora da minha mãe sempre me animava. — Tudo bem por aí?
— Oi, mãe! Tudo ótimo, logo embarco para Sydney.
— Nossa, cada vez mais longe de casa, hein? — Ela riu. — Quando vem me visitar na sua folga?
— Depois do Japão, antes da América do Sul — calculei mentalmente. — Daqui a uma semana e uns dias, acho. Vou pedir pro Mike te mandar minha agenda.
— Ótimo! Já soube da novidade? Gemma e vão morar juntas em Londres! — Sua voz transbordava entusiasmo. — Estou tentando convencê-las a virem aqui quando você estiver de folga. Que tal um reencontro em família?
— É justamente sobre isso que queria falar... — comecei, hesitante.
— Então fala logo! – Ela tentou soar jovial, me fazendo rir. — Está namorando alguém?
— Não estou namorando, mãe — protestei.
— Ah, meu amor, eu leio as fofocas, sabia? — brincou.
— Mãe, não leia fofocas! Se eu começar a namorar, você será a primeira a saber.
— Tá bom, tá bom — ela suspirou. — Mas manda mais fotos, pelo menos. Parece que esqueceu que tem mãe.
— Prometo mandar — cedi. — Mas preciso da sua opinião sobre uma coisa. Lembra que eu estava tentando contar uma história?
— Lembro sim. Continua, vou ficar quietinha.
Respirei fundo, rindo.
— No começo de 2009, antes do X-Factor, eu gostava da . Ficamos algumas semanas antes da minha audição, mas ela terminou porque eu tinha só 16 anos e ela não queria atrapalhar meu sonho. Ontem, ela me mandou uma mensagem e... bem, eu surtei. Acha que ainda gosto dela?
Ela soltou uma gargalhada.
— Querido, você começou a gostar da com uns 11 anos!
— Que isso, mãe! — tentei protestar.
— Era só o que você falava! Só percebeu que era paixão mesmo, depois. Mas essa história vem de longe. Era muito fácil de perceber.
— Tá, mas e agora? — insisti. — Uma mensagem simples e fico 24 horas igual a um louco. Isso é normal?
— Harry, pode ser só a emoção do reencontro — ela ponderou. — Você está na turnê, sozinho... Talvez esteja confundindo as coisas. Quer saber a verdade? Só vai descobrir quando se encontrarem pessoalmente.
— Só de pensar nisso já fico nervoso.
— E se ainda gostar, qual o problema? — ela continuou, animada. — Eu adoraria tê-la como nora! Lembra daquela torta de morango que ela fazia? Uma delícia.
Revirei os olhos, rindo.
— Mãe, ela tem namorado! Mesmo se não tivesse, não acho que teríamos nada...
— Você é muito mais bonito que ele, tenho certeza! — interrompeu. — Mais inteligente e cheiroso também.
— Você nem conhece o cara! — ri mais alto.
— Mas conheço você, meu lindo. Aposto que ela consideraria, sim! Ela sempre teve bom gosto.
Nesse momento, vi Mitch e Sarah voltando de mãos dadas.
— Mãe, o pessoal está chegando. Acho que vamos pro aeroporto.
— Tudo bem, querido. Boa viagem! E não esquece das fotos!
— Não esqueço. Obrigado pela conversa, te amo!
— Te amo, meu bebê.
Desliguei mais tranquilo. Minha mãe era mesmo engraçada, como se eu tivesse alguma chance com a ! Decidi não pensar muito nisso e voltei minha atenção para o novo casal que se aproximava.
— Então agora vocês estão juntos? — apontei para as mãos entrelaçadas.
Eles riram. Mitch deu de ombros e Sarah respondeu:
— Sei lá, estamos nos divertindo.
— E os tabloides, Mitch? — brinquei, fingindo indignação. — Vão dizer que você me trocou pela Sarah! Eu, Harry Styles! — exagerei na pose dramática.
As risadas continuaram durante todo o trajeto até o aeroporto. Teríamos uns 45 minutos de espera, mas já não dava tempo de visitar mais nada sem nos atrasarmos.
Fiquei encarando o celular por alguns minutos. Tinha acabado de trocar mensagens com Harry Styles. Já o conhecia antes, é claro, até já o beijei algumas vezes. Mas isso fazia tanto tempo... E ele havia mudado tanto. Agora era famoso, importante. E, sem dúvida, muito mais lindo. Não dava para negar. Harry sempre foi bonito, mas antes tinha aquele rostinho de menino arteiro. Agora, era um homem com um ar de safadeza. Meu Deus, estou mesmo chamando ele de safado na minha cabeça?
— Você me ouviu, ? — Mark me chamou, aparentemente pela segunda vez.
— Ah, desculpe, me distraí. — Abandonei a divagação e voltei a atenção para o meu editor-chefe.
— Quem diabos estava falando com você pelo celular? Nunca vi alguém tão concentrado numa conversa. — Ele nem levantou os olhos da coluna que lia.
— Ninguém importante, só um velho amigo perguntando sobre a mudança.
— Hum. Bom, trate de conversar com os amigos fora do horário de trabalho. Essa coluna está boa. Fale com o pessoal da fotografia para anexar as imagens e me envie assim que finalizar. Vai sair na edição desta semana.
— Tá certo. — Peguei o papel das mãos dele e segui para o elevador. O setor de fotografia ficava no sexto andar.
Enquanto esperava, reli nossa conversa. Ele perguntou se eu estava namorando. O que aquilo significava? Será que achou que entrei em contato porque queria algo com ele? Ainda tentava entender por que Harry se importaria com isso quando o celular vibrou. Um frio na barriga, será que era outra mensagem dele? Mas era do Chad, meu namorado, que, aparentemente, eu havia ignorado nos últimos dois dias:
Em outras circunstâncias, teria achado a mensagem fofa, até mesmo engraçada, leria num tom brincalhão. Mas, depois da nossa briga antes da mudança, tudo o que vinha dele parecia carregado de cobrança.
Tentei manter a compostura. Afinal, gostava dele, apesar de tudo. Talvez, depois de conversarmos, as coisas voltassem ao normal.
Hoje
Não respondi. O elevador chegou e eu entrei direto na sala dos fotógrafos. Fui até a mesa da Samantha, uma das poucas que ainda me tratava com alguma simpatia. Afinal, era só meu segundo dia de trabalho, e a maioria nem olhava na minha direção.
— Oi, ! — Samantha cumprimentou, erguendo os olhos da tela do computador. — Tudo certo?
— Já falei mil vezes para me chamar de ! — revirei os olhos, mas sem mágoa.
Ela riu, inclinando a cadeira para trás.
— Quando você começar a me chamar de Sam, eu paro. Prometo. — Fez uma pausa dramática. — Então, como posso ajudar?
— Preciso das fotos para essa coluna. — Estendi o papel. — O Mark só está esperando isso pra fechar a edição.
Samantha pegou o texto, escaneando o conteúdo com um olhar profissional.
— Deixa comigo.
Anotou algo num post-it e colou na folha, depois a empilhou em uma pasta marcada "Para formatação".
— Pronto. Daqui a pouco vai direto pra mesa dele. Missão cumprida.
De repente, seu tom ficou mais leve.
— E aí, a Gems tá aproveitando as férias?
— Quando saí de casa, ela estava roncando no sofá.
Encostei na mesa, cruzando os braços.
— Acho que, no universo dela, isso conta como "curtição extrema".
Ela soltou uma risada antes de virar para o computador.
— Tá certo. Ah, e você vai almoçar por aqui hoje?
— Vou, mas ainda não explorei os arredores — hesitei. — Tem algum lugar bom e barato? Ou é melhor pedir algo?
— Tem sim! — Seus olhos brilharam. — Hoje a gente vai pro Joey’s. Vem com a gente! Ela abriu um sorriso convidativo.
— Assim já conhece o pessoal fora do ambiente de trabalho.
— Adoraria. Dei um passo para trás, me preparando para sair. — Que horas vocês saem?
— Por volta das 12h15.
Ela já estava olhando alguma coisa no computador, mas acrescentou:
— Te aviso quando for hora, pode ser?
— Fechado.
Voltei para o meu cubículo e resolvi mandar uma mensagem para a Gemma:
A resposta veio rápido:
Hoje
A pergunta me pegou de surpresa.
Hoje
O celular demorou alguns segundos a mais para vibrar dessa vez:
Um frio correu minha espinha. Talvez não fosse tão aleatório assim. Ou seria? Meu Deus.
Hoje
Mais uma pausa. Dava pra quase ouvir a Gemma pensando através da tela:
Hoje
Gemma demorou para responder. Vi que digitava e apagava várias vezes antes de finalmente mandar:
Hoje
Ignorei a mensagem. Em outra vida, talvez tivesse considerado. Mas eu me orgulho de ser racional — não sou do tipo que age por impulso. Tenho um namorado, afinal. Mas... e se não tivesse? Mesmo assim, duvido que cairia de cabeça.
Primeiro, tem o fato óbvio: ele é irmão da minha melhor amiga — não que isso tenha me impedido antes. Naquela época, Harry me via com aquela admiração meio boba — eu era a amiga "adulta" da irmã mais velha, deve ter tido seu charme para um adolescente. Eu era claramente fora da liga dele. Mas agora? Depois de tudo? O cara pode — e provavelmente já pegou — qualquer supermodelo ou estrela de Hollywood. A ironia não me escapou: agora era eu quem estava completamente fora da liga dele.
Perdi uns bons vinte minutos encarando a tela em branco do computador, os dedos pairando sobre o teclado. Por mais que minha razão insistisse que aquilo era loucura, uma parte teimosa de mim precisava entender: por que ele se importaria com meu status? Decidi que mais tarde, com a Gemma ao meu lado, perguntaria o que ela sugeriu.
O telefone vibrou, me salvando da espiral mental. Era a Sam avisando que o pessoal já estava saindo para o almoço. Fechei tudo às pressas, joguei minhas coisas na bolsa e corri para o elevador, pronta para uma pausa bem-vinda daqueles pensamentos complicados.
Saí do trabalho às 17h em ponto e resolvi dar uma volta pela cidade, talvez comprar algumas coisinhas para decorar o novo quarto. Acabei me perdendo no labirinto da Primark e, quando dei por mim, eram dez da noite. Merda. Perdi completamente o horário de ligar para o Chad.
Quando enfim cheguei em casa, encontrei a Gemma enrolada num cobertor na sala, toalha na cabeça, devorando um pacote de chips e assistindo àquele clássico duvidoso.
— Meu Deus, Sexta-Feira Muito Louca? — soltei, pendurando o casaco. — Estamos revivendo a era pré-colapso da Lindsay Lohan?
— É nosso dever cultural — ela retrucou, sem tirar os olhos da tela. — Quer assistir? Tem pipoca.
— Adoraria, mas tenho uma ligação desagradável para fazer. Para o meu namorado.
Ela finalmente me olhou, mastigando lentamente.
— Por que "desagradável"?
— Ok, vou resumir — suspirei, me jogando no sofá. Gemma baixou o volume. — Quando recebi a proposta da revista, corri contar pra ele toda animada…
Ela virou o corpo inteiro para mim, abandonando os chips, com a expressão de quem assiste a um reality show polêmico.
— No começo, ele até pareceu feliz, até entender que o trabalho era aqui em Londres. Aí o clima mudou na hora.
Gemma arqueou uma sobrancelha de forma tão dramática que precisei morder o lábio para não rir.
— Para com essa cara de julgamento! Estou falando sério!
— Que cara? Isso é meu rosto normal — ela disse, inocente, antes de atirar uma almofada em mim.
Depois do breve duelo de almofadas, continuei:
— Enfim... Ele surtou. Disse que eu não podia vir, que era pra ficarmos juntos, que o trabalho era inferior ao que eu tinha... E que, se eu fosse, nosso relacionamento acabaria, por minha culpa, claro.
— Nossa. Que viagem! — Gemma cravou o olho em mim, séria agora. — Tipo... ele sabe que é 2018, né? Mulheres podem trabalhar onde quiserem?
— Eu gosto dele, Gem. Vou tentar conversar de novo. Quem sabe ele não entende melhor meu lado agora?
— Boa sorte — ela murmurou, já com a atenção dividida entre mim e a cena em que Lindsay Lohan finge ser sua mãe no filme.
Levantei com um suspiro, ouvindo o som de salgadinhos sendo mastigados enquanto fechava a porta do quarto.
Minha mala ainda estava intacta no canto do quarto. Resolvi abri-la pelo menos para tirar os vestidos — já estavam ficando com marcas de vinco depois de tanto tempo amontoado. Quando abri o armário, três camisas do Harry me encararam, penduradas com cuidado. Senti um frio na espinha, como se estivesse invadindo o espaço dele. Arrumei meus vestidos ao lado, mas não tive coragem de tirar as roupas dele dali. Decidi que pediria à Gemma para resolver isso depois.
Sentei na beira da cama, o telefone pesando na minha mão. Respirei fundo três vezes antes de encontrar o contato do Chad na lista de favoritos. Meu dedo pairou sobre a tela por um segundo que pareceu uma eternidade antes de tocar no ícone verde.
— Ah, então lembrou que tem namorado? — A voz dele veio carregada de ironia, cortando qualquer possibilidade de conversa civilizada desde o primeiro segundo.
Dispensei as formalidades.
— Estava trabalhando. E depois precisei comprar coisas básicas pra casa. Não precisa vir com esse tom.
— Eu te avisei que seria assim — ele cravou, ressuscitando nossa briga como se não tivessem se passado semanas. — Aos poucos, eu viraria só uma lembrança pra você.
— Meu Deus, Chad! — minha voz saiu mais alta do que pretendia. — Não aguento mais ter essa mesma discussão. Já cansei!
O silêncio pesado que se seguiu foi cortado apenas pelo som da minha respiração ofegante. Meus olhos ardiam, mas me recusava a chorar. Meus dedos apertavam o telefone com tanta força que doía.
— Desculpa — ele finalmente disse, a voz mais suave. — É que... tá difícil, . Não consigo me acostumar com essa distância.
— Como quer que eu sinta sua falta se toda conversa vira briga? — Minha voz saiu trêmula, traindo a fúria que tentava conter.
— Não sei o que dizer — ele respondeu, e consegui imaginar o jeito teimoso com que ele franzia a testa. — Só sei que não concordo com essa mudança. Devíamos estar juntos.
— Isso é puro egoísmo! — explodi, levantando-me da cama. — Te ofereci para vir comigo, lembra? Qual foi sua resposta exata? "Manchester tem mais oportunidades pra minha carreira"?
— Isso não vem ao caso, .
— Vem sim! — Quase gritei. — Seu trabalho é sagrado, mas o meu pode ser sacrificado, é isso?
A próxima frase dele veio como uma facada:
— Você largou tudo pra escrever fofoca num tabloide. Me desculpe, mas chamar isso de carreira é forçar a barra.
Senti um gosto metálico na boca, tinha mordido a língua com tanta força que sangrou. Aquele emprego, naquela empresa específica, sempre fizera parte do meu plano, eu queria trabalhar na BBC, e a revista fazia parte do conglomerado, era uma ótima oportunidade. Ele sabia disso. Cada palavra dele doía como se estivesse cuspindo em todos os meus esforços.
— Quer saber, Chad? Precisamos de um tempo. — Minha voz falhou no final, as lágrimas já escorrendo livremente. — Isso não está funcionando.
— Que porra é essa agora? — Ele soou genuinamente surpreso.
— Não aguento mais! — Meu corpo tremia. — Toda conversa nossa vira um campo de batalha.
— Não vou terminar com você no meio de uma briga, ! Eu te amo, caralho! Você sabe disso!
— Eu também te amo, mas isso tá me consumindo. — Enxuguei a lágrima que escorria no rosto com a manga. — Só de ver seu nome no celular já fico tensa, esperando o próximo ataque.
— Isso é loucura. Precisamos nos ver pessoalmente, quando estivermos mais calmos. Metade do que falei foi só... saudade.
— Quinze dias. — Firmei a voz. — Depois nos vemos e decidimos o que fazer.
— Não quero esse tempo! — A voz dele subiu de tom. — Você aí, cercada de gente interessante... Como vou ficar tranquilo?
— MEU DEUS, CHAD! — Gritei, com as lágrimas queimando pelo meu rosto. — Sou o quê? Sua posse? Acha que em duas semanas vou sair pulando na cama de qualquer homem em Londres?
— Não foi isso que eu... Ah, vai à merda! Para de distorcer minhas palavras!
— Quinze. Dias. — Articulei cada sílaba. — Preciso focar na minha vida aqui sem essa guerra constante.
O silêncio do outro lado durou uma eternidade. Quando ele finalmente falou, a voz vinha embotada:
— Você já decidiu, né?
— Já.
— Então tá. — O tom dele era gelado agora. — Em duas semanas vou a Londres. Te mando mensagem. Até lá.
A ligação caiu antes que eu pudesse responder.
Desabei na cama, soluçando como uma criança. Gemma deve ter ouvido tudo, no final, eu praticamente gritava entre lágrimas. A batida suave na porta veio seguida por sua voz cautelosa:
— Posso entrar?
Mal consegui acenar quando a porta abriu. Em dois passos, ela estava ao meu lado, envolvendo-me num abraço apertado.
— Nenhum homem vale essas lágrimas todas — murmurou, afastando meus cabelos do rosto molhado.
— Vamos dar um tempo... — Engoli em seco. — Pra ver se vale a pena continuar.
Gemma pegou um lenço da mesa de cabeceira e me entregou com um sorriso triste.
— Seja qual for a decisão, estou aqui. Mas promete uma coisa? — Sua voz ficou muito séria. — Não jogue sua carreira fora por ninguém.
— Prometo. — Assoei o nariz com força.
— Então ouve essa ideia... — Ela deu um tapinha no meu ombro. — Que tal passar minha última semana de férias na casa da minha mãe comigo? Ar puro, comida caseira... e zero estresse.
— Não quero ser um peso morto...
— Bobagem. — Gemma me puxou pelo braço. — Agora vem, vamos assistir a compilações de gatos caindo e esquecer esse babaca por uma hora.
Deixei-a me guiar até a sala, ainda com o rosto inchado. Naquele momento, percebi o quanto precisava daquela amizade. Sem Gemma, talvez eu tivesse cedido ao Chad e traído a mim mesma no processo.
Após o show em Sydney, o tempo parecia voar. Foram sete apresentações em apenas 15 dias. Eu tinha acabado de sair do show em Osaka, no Japão. Restava apenas Tóquio, e então viria uma semana de folga antes de embarcar para a América do Sul.
Logo após o show em Bangkok, conversei com minha mãe sobre a possibilidade de visitá-la durante esse intervalo. Estava com saudade. Ela sugeriu chamar a Gemma para que todos ficássemos juntos na casa dela durante a semana. Assim, poderíamos nos ver com calma.
Chegando ao hotel, deitei na cama e fiquei olhando para o teto. Pensei em convidar a para passar esse tempo com a gente, mas não sabia se ela aceitaria. Talvez estivesse ocupada com o trabalho... ou quem sabe visitando o namorado?
Resolvi ligar para minha mãe.
— Alô?
— Oi, querido! Como estão as coisas? Você chega amanhã?
— Oi, mãe. Amanhã ainda tenho show em Tóquio, mas logo depois embarco direto para Londres.
— Que ótimo, meu bem! Estou morrendo de saudades.
— Uma dúvida: vamos ficar na minha casa, na da Gemma ou vamos para Holmes?
— Pensei em irmos para o interior. Você fica mais à vontade, não acha?
— O que você achar melhor, mãezinha. Só quero te ver e descansar um pouco.
— Vamos para Holmes então. Eu já estava combinando com as meninas de irmos para lá essa semana, é a última semana de férias da sua irmã.
— A vai estar lá?
— Então... se você não quiser, não. Mas ela e a Gemma estavam planejando essa viagem para termos um momento só nosso. Aparentemente, ela e o namorado brigaram, e ela anda meio mal.
— Mãe, deixe de ser fofoqueira — falei rindo, embora feliz com a informação. — Convide-a para ir mesmo assim, só não diga que estarei lá.
— Por que não?
— Para que ela não desista. Se ela se incomodar com a minha presença, posso ir embora ou pedir para alguém levá-la de volta. Mas gostaria de vê-la.
— Entendi. Vou ver o que consigo fazer, meu amor. Vou falar com a Gemma para que ela não comente nada, porque ontem mesmo conversamos sobre isso. Vou ligar agora, antes que seja tarde.
— Tá certo, mãe. Até depois de amanhã. Te amo!
Desliguei o telefone e voltei a me deitar. Em dois dias, eu veria . E aí... resolvo se surto de vez ou volto ao normal.
O show em Tóquio tinha sido incrível. O Japão como um todo era sensacional, se eu não estivesse tão ansioso pela minha folga, com certeza ficaria mais um ou dois dias por aqui. Cheguei ao hotel apenas para tomar banho e trocar de roupa, já que embarcaria para Londres em duas horas. Tomei uma ducha rápida e vesti algo confortável para o voo. Desci para a entrada, onde o carro já me aguardava.
Resolvi ligar para Gemma. Era uma da manhã aqui, então ainda estava cedo em Londres, não iria atrapalhar.
— E aí, rapaz? Tá vindo?
— Olá. Estou a caminho do aeroporto. Mamãe falou com você?
— Falou sim. Achei ótima a ideia de irmos todos para Holmes.
— E a ?
Gemma deu uma risada.
— Eu sabia que você não tinha ligado só pra saber como eu estava.
— Ela sabe que eu vou? — ignorei a alfinetada.
— Não, Harry. Ela ainda não sabe de nada. E, sinceramente, é melhor assim. Ela tá meio chateada com o namorado e, se souber que você vai estar lá, pode inventar frescura, dizer que vai atrapalhar sua folga com a “nuvem depressiva” dela.
— Nuvem depressiva?
— É como ela mesma se descreveu. Estamos precisando animar ela de verdade.
— O que aconteceu pra ela brigar com esse cara?
— Ah, o cara é um imbecil. Egoísta. Não merece a namorada que tem. Ele arrumou confusão porque ela quer seguir a carreira dela.
— Isso não faz o menor sentido. Me explica melhor, Gems.
— Ele quer que ela foque no que ele acha importante, e, claro, isso tem que acontecer onde ele estiver. Basicamente, o cara é um otário.
— Mas eles terminaram? — um pequeno sorriso surgiu no meu rosto, sem motivo aparente.
— Estão dando um tempo. Devem conversar no final da semana que vem.
— Certo... E se a gente fizesse uma pequena festa amanhã? Só com os nossos amigos. Quem sabe ela não se anima um pouco?
— Boa ideia. Vou falar com a mamãe. Que horas você chega?
— São 12 horas de voo. Que horas são aí agora?
— Cinco e meia da tarde.
— Então devo chegar por volta das cinco e meia da manhã. Passo em casa, pego umas roupas, passo na casa da mamãe e seguimos para Holmes. Devemos chegar lá por volta das oito ou nove da manhã.
— Perfeito. Nós saímos daqui às cinco da tarde e encontramos vocês umas sete da noite, direto na festa. Fechado?
— Fechado!
— Boa viagem, maninho.
— Até amanhã, Gems.
A viagem foi exaustiva. Dormi pouco durante todo o trajeto, duas horas de sono e dez horas pensando em como seria reencontrar . E o pior: numa situação péssima, já que ela estava triste por ter brigado com o namorado. Passei o voo inteiro me perguntando se eu poderia ser uma distração para ela… e se queria ser essa distração. Que inferno. Odeio surtar por essas coisas. Tomara que, ao vê-la, essa sensação passe. Não estou mais aguentando. Assim que pisei em solo britânico, conferi o celular e vi algumas mensagens de “contatinhos” interessados em me ver nessa folga. Surtei tanto nos últimos dias que até tinha esquecido as promessas bêbadas que fiz por aí. Resolvi dispensar todos por mensagem. Não tinha cabeça para ver ou falar com ninguém. Precisava entender o que, afinal, ainda sentia pela minha paixão adolescente antes de voltar à vida de turnê e envolvimentos passageiros. Graças ao Mike, um carro já me esperava na porta do aeroporto, com instruções para me levar até minha casa. Eram seis da manhã e eu estava um caco, não tinha a menor condição de dirigir. Assim que entrei, perguntei ao motorista se ele poderia nos levar até Holmes mais tarde. Caso contrário, chamaria outro carro. O senhor Hill, muito simpático, respondeu que não haveria problema e perguntou se o valor deveria ser incluído na mesma corrida ou como um novo serviço. Como não fazia ideia, pedi que cobrasse em separado, só para garantir. Vai que o Mike decide não pagar o pobre senhor por conta de um trajeto alterado sem aviso? Chegamos à minha casa, e pedi para que ele entrasse e me esperasse na sala. — Aceita um café? Ou qualquer outra coisa? Acabei de chegar de viagem, provavelmente não tem nada na geladeira, mas fique à vontade para procurar — falei enquanto subia para o quarto. — Não vou demorar. — Muito obrigado, já tomei café. Vou aguardar aqui mesmo — respondeu, sentando-se no sofá, rígido como uma estátua. Soltei uma risada. Ele me lembrava o Robin. Não sei se era o jeito de falar ou algo na aparência, mas tive vontade imediata de ser amigo dele. Voltei em cerca de dez minutos e o encontrei no mesmo lugar. — Desculpe a demora. Agora vamos passar na casa da minha mãe e, depois, seguimos viagem. Tem certeza de que não quer nada? Ele me olhou de relance, hesitante. — Não me leve a mal, senhor Styles... Mas o senhor não era cantor de uma banda que as meninas adoram? Ri com naturalidade. — Sim, sou cantor. Fiz parte de uma banda chamada One Direction. Hoje sigo carreira solo. — Isso mesmo! Será que seria muito abuso pedir um autógrafo para minha filha? Não sei quem era o favorito dela, mas ela gostava muito da banda. Ele continuava estático no sofá, sem conseguir me encarar. Achei graça da situação. Fui até o bloco de notas ao lado do telefone e peguei papel e caneta. — Nenhum abuso. Qual o nome dela? — Caroline. Muito obrigado. Ela vai ficar louca de felicidade quando souber que o senhor andou no nosso carro. Assinei o papel e entreguei com um sorriso. — Se quiser impressionar ainda mais, podemos tirar uma foto. — Apontei para o celular dele. — E pode me chamar só de Harry. Ainda não tenho idade, nem sabedoria, para ser “senhor”. Ele me entregou o celular, e tiramos uma selfie. Saímos conversando sobre música. Descobri que o Sr. Hill — ou Rick, como passei a chamá-lo — era fã de Pink Floyd e várias bandas da chamada “época de ouro do rock britânico”, como ele dizia. No caminho até a casa da minha mãe, pediu para ouvir alguma música minha, para ver se aprovava. Coloquei Sign of the Times, e ele curtiu. — Olha, Harry — disse ele, agora bem mais à vontade —, aquelas músicas da sua banda que minha filha gostava nunca foram muito a minha praia. Mas essas novas... eu ouviria o dia todo. Você é talentoso, de verdade. — Rick, você é muito gentil... Mas como posso saber que não está falando isso só porque está preso comigo no carro? — Eu não sou de fazer média, Harry. Se não tivesse gostado, teria pedido para desligar já na primeira música. Talvez nem estivesse mais puxando papo. — Riu com gosto. E foi nesse momento que percebi: ele realmente parecia com o Robin no sorriso, na energia. Talvez por isso eu estivesse tão confortável. — Chegamos. — anunciou, estacionando em frente à casa da minha mãe. A vi abrir o portão com uma pequena mala de mão. Desci para ajudá-la e claro, para abraçá-la. Ela me apertou com força, como se achasse que eu fosse fugir. — Que saudade. — disse, ainda me abraçando. Peguei suas bagagens e as levei até o porta-malas. Quando entrei no carro novamente, ela já tinha virado melhor amiga do Rick. Em menos de um minuto. Essa é minha mãe. E claro, já o havia convencido a colocar um CD do ABBA. Seguimos viagem com ela cantando Dancing Queen alto nos meus ouvidos. Durante o caminho, fiz algumas ligações e convidei o pessoal da banda para um jantar em Holmes. Seria a desculpa perfeita para organizar algo que pudesse animar a . Minha mãe prepararia nossas comidas favoritas da infância, e eu já tinha até providenciado um karaokê, como nos velhos tempos quando éramos só um bando de adolescentes remelentos tentando cantar. Seria uma noite de nostalgia, “não pense no seu ex” e “olha para mim”. Eu estava absurdamente ansioso para reencontrá-la e, quem sabe, finalmente entender o que estava sentindo.
Eu estava de férias. De-ver-da-de. Daquelas com roupão, skincare e três episódios seguidos de reality show sem um pingo de culpa. Mas, ainda assim, lá estava eu, enfiada num jeans desconfortável, andando pelos corredores da revista como se não estivesse quebrando todas as regras do meu próprio descanso.
Mas havia um bom motivo: .
Minha melhor amiga estava à beira de um colapso emocional, tentando fingir que estava tudo bem, como sempre. Ela e o Chad tinham brigado feio. "Dar um tempo", foi o que ela disse. Mas quem conhece a sabe: “tempo” para ela vira silêncio. E silêncio vira drama mal resolvido. Para piorar, era o primeiro mês dela oficialmente na redação.
Então, sim, fui pessoalmente até o Mark, o editor mais cético do Reino Unido. Bati na porta dele como quem está prestes a pedir dinheiro emprestado.
Ele levantou os olhos, devagar.
— Gemma. Você está de férias.
— E você devia estar me agradecendo por usar esse momento de paz pra salvar sua próxima capa.
— Meu Deus. É sobre a , né? Tô sentindo... se eu soubesse que vocês se conheciam...
— Você é bom. Ela precisa de uns dias. Dois, no máximo. Somando com o fim de semana, dá uns quatro dias de paz. Mas o ideal seria uma semaninha, sabe?
— Gemma... Ela começou tem o quê? Três cafés atrás?
— Sim, mas está passando por um momento pessoal delicado. E eu sei que você não acredita em energia, mas juro que ela tá com uma aura cinza. Tipo um Wi-Fi fraco de alma.
— E você acha que eu posso simplesmente... liberá-la? O que eu vou falar pro resto da redação?
— Não simplesmente. Mas, em troca... — Fiz uma pausa dramática. — te dou uma entrevista exclusiva com o Harry. Você pode dizer que ela está em locação para a entrevista. Que tal?
Silêncio. Aquele silêncio que só um editor que acabou de farejar um furo editorial sabe fazer.
— Harry Styles.
— Ele mesmo. O homem. O mito. O ícone capilar.
— Seu irmão.
— Infelizmente, sim.
Ele me encarou.
— E ele vai topar?
— Ele tá desesperado pra ter uma pausa com a família. Consigo convencê-lo a fazer isso. Ele não vai me negar. Isso aqui é quase um favor duplo: você ganha conteúdo, eu ganho paz doméstica e a ganha um pouco de ar. Todo mundo sai ganhando.
Mark passou a mão no rosto, resmungou algo sobre "relações-públicas emocionais", mas então levantou a caneta e apontou para mim.
— Uma semana. Mas, se essa entrevista não rolar, você vai cobrir o simpósio sobre o impacto dos escargots na culinária moderna. Três dias. Em Lyon. Sozinha.
— Feito. Já tô treinando meu francês caso tudo dê errado: “Merci beaucoup.”
— Fora daqui, Gemma.
— Você vai me agradecer quando tiver o preview da capa mais vendida do semestre.
Saí da sala com a sensação de que devia estar usando uma capa e óculos escuros. Porque sim: eu era uma heroína. Uma heroína que vendeu o próprio irmão em troca de uma folga estratégica e faria de novo se fosse necessário.
POV
Minha noite foi péssima. Tive muita dificuldade para dormir pensando na conversa com o Chad. Ele partiu meu coração já na primeira briga. Nunca imaginei que ele, entre todas as pessoas do mundo, não apoiaria meu desejo profissional. Até entendo que tenha ficado mal com a possibilidade da minha mudança, acho que eu também ficaria, se fosse o contrário. Mas gosto de pensar que não jogaria fora dois anos de namoro e parceria por causa de uma distância tão curta. Uma viagem de três horas. Só isso. Não é algo inviável. Desde que mencionei a possibilidade de me mudar, ele se mostrou completamente intransigente. Nem sequer cogitou procurar uma vaga em Londres.
Suspirei fundo, resignada, e decidi que era hora de encarar o mundo novamente. Levantei da cama e fui até o banheiro escovar os dentes, quando ouvi uma batida na porta.
— Posso entrar? — Gemma perguntou, já entrando e se jogando na cama.
Abri a porta do banheiro com a escova de dentes na boca, cheia de espuma, e levantei o polegar.
— Então, tudo preparado para nossa semana em Holmes? Falei com o Mark ontem e disse que, se ele te liberasse, poderíamos fazer uma entrevista exclusiva com o Harry sobre a turnê.
Cuspi a pasta na pia e voltei para o quarto, ainda com cara de sono.
— E como você pretende entrevistar o Harry e ter fotos do Japão?
Gemma deu um sorrisinho presunçoso.
— Você já ouviu falar nas maravilhas do mundo moderno? Internet? Telefone? Skype?
Revirei os olhos.
— E as fotos exclusivas, como vamos conseguir?
— , pelo amor de Deus, ele tem uma fotógrafa maravilhosa na turnê. Ela com certeza toparia enviar algumas imagens e liberar os direitos de uso. Pagamos e publicamos sem problema.
— Mas por que diabos ele deixaria eu ir até Holmes se vamos entrevistá-lo por Skype?
— Olha, , se você não quiser ir, avisa logo. Já resolvi tudo com o Mark. Disse que o Harry estaria lá.
— Você está mentindo para o seu chefe... — Fiz uma cara cínica, com ar de falsa moralista.
Gemma pegou uma toalha limpa dobrada na escrivaninha, fez uma bola com ela e jogou na minha cara.
— Arrume suas coisas. Passo na editora às 17h em ponto. Então não enrola. Bata o ponto e fuja antes que alguém te peça alguma coisa.
Dei uma risadinha.
— Tem certeza de que não vou atrapalhar? Não tô no meu melhor momento... e talvez até chore.
— Tudo bem. Estamos acostumadas com chororô nas noites das meninas. Quase sempre acabamos lembrando do Robin quando estamos juntas.
Até aquele momento, eu nem tinha me lembrado disso. Uma onda forte de emoção me atingiu. Senti vontade de chorar. Fui até ela e a abracei apertado.
— E eu aqui, idiota, sofrendo por uma bobagem... E vocês perderam o Robin há tão pouco tempo e continuam firmes. Meu Deus, Gems, acho que vou desabar quando encontrar sua mãe sem ele.
— No começo foi muito difícil mesmo. Mas eu acredito que seria egoísmo da nossa parte querer que ele continuasse sofrendo e com dor só para continuar por perto.
Gemma se emocionou. Percebi que tentava segurar o choro. De repente, soltou um grito meio teatral, para abafar o clima.
— Mas que coisa! Não vamos chorar agora! Esteja pronta. Hoje. Às 17h. Quero você na porta do prédio, entendeu? — Apontou o dedo no meu nariz com a pose de uma maluca autoritária.
— Tá, tá... mas que coisa! — Falei, jogando a toalha de volta nela.
O dia foi bastante estressante. Mark mal conseguia conter a empolgação com a entrevista exclusiva.
— , eu quero tudo o que você conseguir arrancar deles. A Gemma nunca falaria nada pessoal porque é irmã dele — ele gesticulava demais enquanto falava —, mas você não é da família. Lembre-se: você é uma repórter infiltrada. Descubra se ele está mesmo de rolo com aquela modelo loira!
— Mark, por que isso te importa tanto? Não seria mais interessante uma reportagem sobre a turnê?
— Todo mundo fala da turnê, mas uma confirmação de namoro é outra história.
Suspirei fundo. Não pretendia confirmar namoro algum do Harry para revista nenhuma. Mas fingi concordar com Mark. Estava há pouco tempo na equipe, e não seria inteligente contrariar o chefe que estava me liberando por uma semana inteira, após só 30 dias de trabalho, certo?
— Mas e se ele realmente não estiver namorando? O que eu faço?
— Descubra alguma coisa interessante. Pode ser o dia a dia dele, uma curiosidade pessoal, qualquer coisa. Ou então consiga pelo menos uma foto boa o suficiente. Faça algo acontecer. Se você não entregar uma matéria decente no final da semana, esses dias vão ser descontados das suas férias!
Mark continuava falando sobre as perguntas que eu deveria fazer ao Harry, mas minha mente já tinha escapado. Comecei a lembrar de como era nossa rotina nos tempos de adolescência...
— Ah, o Harry ganhou um karaokê portátil — respondeu, revirando os olhos. — Foi divertido nos primeiros dias, mas ele não para de cantar. Então colocamos no quarto dele. Pelo menos agora fica abafado.
— Nossa, coitado.
— Coitada de mim! Não consigo nem ouvir meus próprios pensamentos! — disse ela, visivelmente irritada, no exato momento em que outra música começou a tocar. — Mas não é possível... — e saiu correndo em direção ao quarto do irmão. Fui atrás para não ficar sozinha.
— Harry! — Ela gritou, escancarando a porta. — Chega! Eu quero um minuto de paz!
Entrei logo atrás. Harry estava em cima da cama, cantando como se fosse o vocalista do Stereophonics, imitando até o sotaque e a postura. Estava hilário. E, claro, não saiu do personagem com a nossa chegada; continuou cantando com uma voz ridícula, só para deixar Gemma ainda mais nervosa.
— Por que você faz isso comigo?
— Gemma, relaxa. Deixa o menino ter infância.
— Harry, por que você não vai para a casa de alguém e deixa a gente em paz só por uma tarde?
Ele terminou a música, desligou o karaokê e se jogou na cama.
— Cansei de cantar. Pode seguir com sua vida, Gems.
Ela bufou, exausta.
— Deixa esse chato aí, . Vamos escolher logo o filme, agora que temos silêncio.
Eu ria da situação. Gemma e Harry sempre foram muito unidos, mas brigavam por motivos absolutamente idiotas às vezes.
— Se vocês me convidarem, eu faço pipoca!
— Não, obrigada — cortou Gemma, sem pensar.
— Ei! Eu quero pipoca. Pode vir, Harry.
— ! Ele vai atrapalhar.
— Ah, vai nada. Deixa de frescura. Você escolhe o filme, que tal?
Ela pensou por um instante.
— Tá. Faz bastante pipoca. Eu escolho o filme. , busca os travesseiros.
— Pego no seu quarto, Gems?
— Pode pegar no meu também. No quarto da Gemma só tem um. Eu tenho três.
— Por que você precisa de três travesseiros?
— Porque ele dorme abraçadinho com eles, igual a um bebê.
Harry revirou os olhos, mas não disse nada. Apenas foi até a cozinha, silencioso.
Nem tinha dado metade do filme e o Harry já estava dormindo no meu colo. Sempre era assim. Ele se deitava, dizendo que precisava esticar as pernas, e eu acabava fazendo cafuné. Acho que era isso que fazia ele dormir. Mas eu não resistia, o cabelo dele sempre foi ótimo de passar a mão. Como esse remelento consegue ter um cabelo tão macio? Até tentei usar os xampus dele uma vez... não funcionou.
Gemma ainda estava concentrada no enredo do filme, e eu acabei adormecendo logo depois. Acordei com a Anne nos chamando para o jantar. Nem mesmo Gemma aguentou o filme: estava jogada para o outro lado do sofá, nos espremendo no canto oposto.
— Não sei por que eu ainda vejo filme com vocês. Sempre dormem e eu acabo pegando no sono por ficar sozinha — reclamou Gemma, divertida.
Soltei uma risada e cutuquei o Harry, que continuava meio enroscado em mim.
— Acorda, vamos jantar!
— Você é sempre tão cheirosa... Melhor de abraçar que meus travesseiros.
— Harry, deixe de ser saidinho.
— Só estou relatando um fato.
Rolei os olhos, rindo, e me levantei.
Ao chegarmos à mesa, vi que Anne havia passado em um restaurante mexicano no caminho de casa e comprado vários tacos. Sentamos e Harry começou a fazer piadas sobre o quanto eu era cheirosa, incluindo Anne e Gemma na brincadeira que, claro, entraram na onda só para me deixar com vergonha.
— ? — Mark chamou minha atenção, aparentemente pela segunda vez. — Você está prestando atenção?
— Sim... estava pensando em como fazer ele contar tudo isso para a gente.
— Ótimo. Conto com você! A matéria será para a revista Another Man. Me avise se precisar que eu envie fotógrafos.
— Ok.
Respirei fundo quando ele finalmente saiu da minha frente. Faltavam apenas quinze minutos para eu sair e fugir para o interior com a Gemma. Pensei no que poderia escrever sobre o Harry na matéria e, sem perceber, me peguei perguntando: "Será que ele realmente está ficando com alguma modelo?" Passei os quinze minutos seguintes lendo todas as fofocas possíveis sobre os relacionamentos do Styles. Só parei quando percebi que Gemma estava me ligando. Já eram 17h05!
Desci correndo para encontrá-la, mas minha cabeça ainda estava cheia de imagens de modelos loiras e capas de revistas. Harry provavelmente já havia saído com todas elas. Eu jamais teria chance. Não que eu quisesse uma chance..., mas, definitivamente, não teria. Ele não era mais aquele garoto que inventava desculpas para deitar no meu colo e dizer que eu era cheirosa. Agora, se quisesse aquilo de novo, seria eu quem teria que inventar desculpas. Mas eu não queria inventar desculpas... certo?
Minha cabeça começou a doer.
Cheguei ao carro e vi Gemma, impaciente, batendo o dedo com força no próprio relógio.
Dei uma risada e abri a porta.
— Você está muito atrasada, !
— Me desculpa. Mark ficou me enchendo o saco. Quer que eu descubra se o Harry tá namorando alguma modelo loira, sei lá.
Gemma riu.
— Harry não está namorando loira nenhuma. Pelo menos, não até o momento.
— Essa parece ser uma fofoca recorrente — brinquei, colocando o cinto.
— Que tal aproveitar e perguntar para ele? Afinal, ele te perguntou se você estava namorando, não foi? Você tem esse álibi. Vai que ele te conta algo que não contou para a gente...
Olhei para ela e balancei a cabeça, negando. Enquanto eu guardava os óculos escuros na case, Gemma pegou meu celular na bolsa. De repente, soltou uma risadinha e me devolveu o aparelho, com a tela já nas mensagens enviadas:
Hoje
— Eu não acredito que você mandou isso! — continuei encarando o celular. — Isso aqui não é WhatsApp, não tem como apagar!
Enquanto eu surtava, ela olhava para o próprio celular com a maior tranquilidade do mundo.
— Deixa de drama. Nós duas queremos saber dessa loira aí.
Guardou o celular, ligou o carro e começamos a viagem.
Continuei olhando para a mensagem, atônita, até que meu celular vibrou. Harry tinha respondido:
Hoje
— Eu não sei o que responder!
— Responde a cor do seu cabelo, ora bolas.
— Por quê?
— Quero saber aonde ele quer chegar. Vai, responde.
Revirei os olhos, mas resolvi colaborar com minha motorista.
Hoje
— Meu Deus, ele não vale nada! Responde que ele não vale nada. Pega meu celular, quero mandar um áudio gritando isso para ele!
— Cala a boca — respondi, rindo. Estava gostando desse pequeno momento com o Harry. Tinha até esquecido do Chad.
Hoje
— Por que você está tão empolgada, Gemma?
— Ah, por nada. Tô feliz de ir pra casa... e você ir comigo. Como nos velhos tempos.
— Só que dessa vez sem o Harry cantando Stereophonics imitando o Kelly Jones.
Gemma riu alto.
— Meu Deus! Ele fazia isso mesmo naquela maldita maquininha de karaokê.
Seguimos rindo e relembrando histórias da infância. As três horas de viagem passaram voando. Quando percebi, já estávamos em Holmes.
Passamos em frente à minha antiga casa. Meus pais agora moravam em Portsmouth, uma cidade mais ao sul, ótima, por sinal, tem um outlet maravilhoso. Eles se mudaram para lá logo depois que fui pra Manchester. Dizem que não foi por causa disso, mas sei que foi porque minha irmã passou na universidade de lá. Eles não conseguem ficar longe dela.
Mais alguns minutos e Gemma parou em frente à casa. As luzes estavam acesas e havia dois carros estacionados do lado de fora.
— Minha mãe preparou um jantar para a gente, com alguns amigos. Relaxa, é só gente de casa, ok?
— Eu não estava nervosa... até você falar isso — brinquei, pegando minha mala enquanto nos dirigíamos à porta.
Gemma tocou a campainha, tinha esquecido as chaves.
Acho que todo o sangue do meu corpo evaporou no instante em que vi quem abriu a porta.
Eu estava deitado na cama, completamente vestido para uma festa que só começaria dentro de três horas. Tudo isso era ansiedade. A todo minuto pegava meu celular e olhava a hora. Até que, do nada, recebi um SMS esquisito da . Ela queria saber quem era a mulher loira que estava comigo. Ainda estava meio confuso quando, menos de um minuto depois, Gemma me mandou um SMS.
Dei uma risada. Gemma me conhece tão bem.
Fiquei alguns minutos compenetrado conversando com ela por SMS até que minha mãe apareceu no quarto.
— Que sorriso é esse? Tá falando com quem, hein?
Olhei para o lado, ainda com meu sorriso bobo no rosto. Mandei uma última mensagem para e levantei da cama.
— . — Puxei minha mãe para um abraço. — Estou me sentindo com 15 anos — dei uma risada, ainda no abraço. — Eu vou estragar tudo hoje à noite, mãe.
— Por que você estragaria tudo? Você está muito obcecado, meu bem. Se acalme, ela nem sequer sabe que você vai estar aqui.
— Sim, e isso me deixa nervoso. E se ela não quiser ficar aqui por minha causa? Será que não deveríamos avisar?
— Pare de drama. Você é sempre muito dramático. Vamos descer, o Mitch acabou de chegar com aquela mocinha simpática que toca na sua banda também.
— Sarah.
— Isso mesmo. Vá lá conversar com seus amigos enquanto eu termino o jantar. Teremos macarronada hoje!
Desci até a sala. Sarah e Mitch estavam sentados no sofá.
— Sejam bem-vindos à Holmes! O que acharam?
— Adorável — respondeu, olhando-me da cabeça aos pés. — Você está muito arrumado.
— Não estou, não — olhei pra baixo. — Eu uso essas roupas no dia a dia.
— Usa coisa nenhuma. Você usa camisetas, bermudas, fica nu, fica descalço. Por que você está tão arrumado?
— Eu não estou arrumado. Só estou com roupas pretas.
— Você está usando roupas de entrevista. Era para estarmos arrumados assim? Achei que esse jantar era só para a família. Sem imprensa.
Mitch levantou do sofá e começou a analisar minhas roupas. Eu usava uma blusa de botão preta, uma calça, também preta, e minhas botas.
— Vou testar uma coisa — Mitch falou, tirando uma jaqueta de couro preta que estava por cima da sua camiseta do Pink Floyd e colocando sobre meus ombros. — É, você está a um terno de distância de um tapete vermelho. Quem vem para essa festa? Você está tentando impressionar alguém.
Eu ainda olhava abismado para eles quando minha mãe entrou na sala e na conversa:
— Ah, vocês não estão sabendo? — Ela deu uma risadinha. — Ele se arrumou todo pra . Ela está vindo com a Gemma.
— Mãe! — Olhei para ela fazendo uma careta.
— O quê? É óbvio que você está querendo impressionar a , meu bem. Não precisa disso. Ela não tem como escapar do seu charme. — E deu uma piscada para os dois.
Dei um tapa na testa e me joguei no sofá. Minha mãe sempre consegue me envergonhar na frente dos outros.
— Ah, a está vindo para cá? — Sarah fez uma cara de animação. — Estou louca para conhecer essa menina. O Harry não calou a boca sobre ela nos últimos dias.
— Nossa, ele falou tanto dela que todo mundo está criando expectativas — Mitch respondeu, pegando a jaqueta dele de volta.
— Não mais do que ele, eu garanto! — Minha mãe voltou a atenção para mim. — Quero só ver quando ela chegar aqui. Ou ele vai surtar de vez... ou pensar: “Por que fiquei tão obcecado? Não era nada de mais.”
Mitch, Sarah e minha mãe continuaram conversando por mais um tempo, pegando no meu pé. Finalmente mudaram de assunto e começamos a falar sobre o Japão e sobre a Clare falando japonês no último show. Não percebi o tempo passar até ouvir o barulho de um carro estacionando. Me levantei com o coração batendo mais rápido do que eu esperava. Ouvi a campainha e fui até a porta. Era agora ou nunca.
Quando abri a porta, vi Gemma cheia de malas nas mãos. E vi ela. continuava a mesma — talvez um pouco menor do que eu me lembrava. Ou talvez eu tenha crescido. O cabelo dela estava com um corte diferente, mas ainda tinha a mesma aparência. O suficiente para me fazer voltar a ter 15 anos em questão de segundos. Para controlar minha baderna emocional, resolvi agarrar a Gemma.
— Surpresa! — falei, puxando Gemma para um abraço. — Que saudade de você!
— Você é um idiota. Não era para ter vindo abrir a porta. Você era a surpresa! Pega minhas malas, por favor?
Ignorei a fala da Gemma e suas malas, respirei fundo e me dirigi à , que continuava parada no mesmo lugar. Ela estava congelada, da mesma forma que alguns fãs ficam ao me ver pela primeira vez. Dei um meio sorriso. Será que ela também estava sentindo o que eu senti? Ou foi apenas o baque de me ver depois da fama?
— Oi, tudo bem? Posso te dar um abraço? — falei, me aproximando aos poucos.
— Vocês são uns idiotas, Styles! — Ela despertou do transe. — Como você não me avisa que ele estaria aqui, Gemma? — Gemma apenas ria da situação, e foi a única que percebeu o quanto eu estava nervoso. — E você, falando comigo por SMS… — ela apontou o dedo para mim. — É claro que você pode me abraçar. Seu idiota!
Dei um abraço apertado nela. O cheiro do perfume não era o mesmo. Mas ainda era bom.
— Você sempre muito cheirosa, não é mesmo? — Ela me olhou, balançando a cabeça negativamente, mas sorrindo.
— Olha quem fala! Você vai sair daqui para uma sessão de fotos? Quem usa blusa de botão em casa?
Ela entrou na casa com a Gemma, que apenas apontou as malas no chão e pediu para que eu as pegasse. Mitch ouviu o comentário e logo se aproximou para conhecê-la, enquanto eu carregava tudo para dentro.
— Estávamos justamente conversando sobre isso mais cedo. Ele está ridiculamente bem vestido para uma ocasião familiar — disse Mitch, estendendo a mão para ela. — Meu nome é Mitch.
— Muito prazer, . Mas todo mundo me chama de — ela respondeu, apertando a mão dele. — Mas era de se esperar, né? O Harry sempre foi assim. Lembra quando ele juntou quatro meses de salário da padaria para comprar aquela jaqueta ridícula, Gems?
— Sim! Caríssima! E ele parecia um palhaço. Usava ela todo santo dia.
Soltei as malas perto da escada e fui me defender.
— Aquela jaqueta que vocês chamam de "ridícula", por acaso era uma Tom Ford original, ok? Comprei numa promoção incrível. Ela me deixava ótimo. E eu não usava diariamente. Só em ocasiões especiais.
— Claro, maninho. Andar pelas ruas de Holmes e seguir a gente era sempre uma ocasião especial.
deu risada, concordando, e continuou conversando com Gemma e Mitch. Peguei as malas delas e avisei que deixaria tudo no quarto da Gemma. Subi as escadas, e Sarah veio atrás de mim trazendo uma pequena bolsa que eu havia deixado para trás. Percebi que era só uma desculpa para falar comigo.
— E então? — Ela me encarou assim que entramos no quarto da Gemma.
— E então o quê?
— Você gosta dela ou não? O que você sentiu?
— Nostalgia. Borboletas no estômago. Sei lá, ainda não sei ao certo. Mas eu estou gostando de vê-la novamente. Eu tinha me esquecido do quanto ela me conhece.
— Ela cresceu com vocês?
— Cresceu com a Gemma. Eu me metia no meio, na maioria das vezes. — Dei uma risada. — Vamos descer. Agora é hora de karaokê!
Cheguei na sala e vi a abraçada, chorando, com a minha mãe. Resolvi não me aproximar; estavam falando do Robin, com toda a certeza. Sentei ao lado do Mitch e, logo depois, ouvi a campainha tocar. Clare estava chegando. Ela foi a última convidada. O restante não pôde vir. Mike, meu assistente, estava de folga, e achei melhor deixá-lo em paz, para variar um pouco.
Depois que todos chegaram e a “festa” começou, acabei não conversando mais com . Ela estava muito compenetrada, falando com Gemma e minha mãe, aparentemente sobre o namorado — ou ex. Resolvi deixá-la à vontade. Mas me peguei encarando-a várias vezes durante a noite. Ela me olhou bem menos vezes. Pelo menos, que eu tenha notado. E, geralmente, sou bom em perceber quem me olha.
Sarah e Mitch passaram a noite ao lado dela, em conversinha. Eu fiquei revezando entre Gemma, minha mãe e Clare. Até a hora em que começamos a brincar com o karaokê. Não me senti confiante para fazer piadas com ela como fazia com os outros. E percebi que ela também estava mais contida. Talvez no dia seguinte pudéssemos conversar com mais tranquilidade. Mas o plano de fazê-la não pensar no namorado, até ali, parecia estar funcionando.
Mais tarde, eu estava na mesa com minha mãe e notei conversando com Clare e Sarah, animada e sorridente. Elas estavam escolhendo o que cantar no karaokê.
— Estou muito feliz com todos vocês aqui hoje — minha mãe disse, enquanto eu ainda encarava as quatro escolhendo “Spice Up Your Life”, das Spice Girls, em meio a pulinhos empolgados. — Ela continua a mesma menina doce de sempre.
— Que bom. Ainda não tive oportunidade de conversar com ela — Voltei minha atenção para minha mãe por um momento. As meninas estavam procurando a música na internet para cantar.
— Sabe, filho… esse namorado dela é meio maluco. Não vejo como pode dar certo. Mas ela gosta muito dele.
— Ah, é? E por que você está me falando isso, mamãezinha? — Dei uma risadinha. — Você quer me desencalhar a qualquer custo, não é?
— Não estou dizendo isso por esse motivo. Apesar de achar que ela seria uma ótima nora, nem precisaria pensar em como conversar com ela… diferente das outras.
Apenas rolei os olhos e aproximei minha cadeira da dela, abraçando-a de lado, enquanto víamos as meninas iniciando a música. , como sempre, animada e agitada — o oposto da Gemma, que sempre foi mais tímida. sempre roubava a cena. Gemma sofria quando íamos ao karaokê. Eu e sempre tínhamos duetos e coreografias bobas, porém elaboradas.
Elas começaram a música e fizeram a coreografia da canção. Eu acompanhava a dança das quatro e ria com a animação excessiva de todas. , que era a mais triste da casa, era também a mais animada. Meu plano estava realmente dando certo. Ela estava se divertindo, ao invés de pensar no namorado tosco.
— Mas você acha que a gente daria certo, mãe? — perguntei, sincero. — Ou seria igual a esse namoro dela?
— Eu acho que sim. Mas vocês teriam que se gostar muito. Você não deve fazer nada se não tiver certeza do que quer. é a melhor amiga da Gemma e acabou de voltar para nossas vidas. Pode dar muito errado se você quiser só brincar — ela me olhou séria.
— Entendi. Você sabe que eu não faria nada assim, né?
Ela apenas concordou com um aceno de cabeça. As meninas dançavam e faziam graça com Mitch e Jeff, que estavam sentados por perto. O que me deixou levemente com inveja.
— Gemma me falou que o problema do namorado é com a mudança para Londres. É isso? — Voltei ao assunto, percebendo o quanto minha mãe estava protetora com a . Imagino que ela tenha contado mais coisas na conversa entre as duas.
— Sim. O rapaz até disse que ela estava dando passos para trás na carreira. Nenhum pouco animador.
— Mas ela mudou mesmo assim. Isso mostra que ela é bem decidida. — Dei um sorriso e pisquei quando ela olhou para mim durante a música. Era a primeira interação direta desde que nos falamos na chegada.
— Sim. Mas ela está bem triste com tudo isso. Acho que, quando vocês forem conversar, você pode colocar um pouco mais de perspectiva para ela.
— Perspectiva de quê?
— Vida. Amor. Essas coisas. Você fala bem. Explica com seu jeitinho que ela pode, sim, largar desse rapaz e continuar feliz — Ela apertou nosso abraço. — Você sempre foi bom com seus amigos para essas coisas. Talvez consiga ajudá-la.
Fiquei calado e aproveitei mais um pouco o colo e o abraço da minha mãe. Até que Gemma a puxou para dançar com elas, como a quinta integrante do grupo. Sentei no sofá com os rapazes e ficamos rindo da performance.
Quando a música terminou, Gemma sugeriu que elas cantassem outra. Clare sugeriu uma música do One Direction. Eu apenas ri e fiquei observando a situação de longe.
— Vamos cantar No Control. É uma música que a gente pode inventar coreografia facilmente — Clare falou rindo, tomando mais um gole da sua taça de vinho.
olhou diretamente para mim nesse momento.
— Me desculpa, Harry. — Olhei para ela, confuso, e ela continuou: — Eu não conheço as músicas do One Direction — disse, dando uma risadinha. — Mas eu sei cantar umas partes de Drag Me Down e de What Makes You Beautiful — Fez dois joinhas, que respondi com uma risada alta.
— Não fico ofendido, tá tudo bem! Você não é obrigada a saber as músicas.
— Mas se te deixa melhor, eu sei todas as músicas do seu CD solo — ela falou confiante. — Bem mais meu estilo. — Levantou o ombro e me deu um sorriso de lado. Acho que devo ter ficado até vermelho, porque Mitch me cutucou e me fez olhar para o lado, assustado.
já tinha voltado para as meninas e elas explicavam para ela quais seriam as partes da música que ela deveria cantar. No final das contas, elas cantaram What Makes You Beautiful, e ficou com as minhas partes, cantando surpreendentemente bem. Ela tinha uma voz ótima, que inclusive foi elogiada por Clare, professora de canto. Mitch me cutucava constantemente, me fazendo parar de encarar . Eu devia estar parecendo um idiota.
Quando ela começou a cantar Medicine com Sarah e Clare, Gemma já estava comendo e decidiu apenas assistir. Graças a Deus ela evitou me olhar durante a música. Quando chegou em “I had a few, got drunk on you and now I’m wasted”, quase caí para trás no sofá. E piorou quando ela cantou a segunda parte — aquela que meus fãs completam nos shows: “And when I sleep I’m gonna dream of how you… Tasted”. Parecia algum tipo de tortura.
Eu sequer conseguia fazer contato visual. Mitch ria do meu lado. Gemma quase cuspiu o macarrão de tanto rir da minha cara. , por outro lado, sequer notou minha loucura mental. Cantava e dançava de olhos fechados com Clare, completamente entregue.
Mitch então resolveu que eu deveria cantar em seguida e que ele escolheria a música. Quando elas terminaram, levantei do sofá e anunciei que era minha vez. Elas sentaram, e Mitch escolheu Baby Boy, da Beyoncé.
Dei um sorriso para ele e comecei a cantar. Fiz a performance toda brincando com Mitch e Sarah. Mas não tive coragem de sequer olhar para . Eu estava incrivelmente tímido. Ou covarde. Gemma continuava rindo da minha cara de idiota.
A noite passou rápido. Quando percebi, já era 1h da manhã, e os convidados estavam se despedindo. Todas as minhas tentativas de me aproximar dela para uma conversa falharam miseravelmente, não por falta de oportunidade, mas por pura falta de coragem.
Gemma e me deram abraços de boa noite e subiram as escadas. Minha mãe subiu em seguida. Eu não estava com sono. Resolvi ir para o quintal.
Tínhamos feito uma piscina no último verão. Peguei uma das cadeiras de sol e virei de costas para a água. Sempre tivemos essas cadeiras, mesmo quando não tínhamos piscina. Era familiar deitar nelas. Aconchegante. Olhei o céu e deixei os pensamentos virem. Comecei a elaborar o que tinha sentido ao ver novamente.
Não acho que eu esteja apaixonado. Mas definitivamente estou sentindo alguma coisa. E sei que não é só nostalgia. O que estou sentindo hoje não parece com nada que consiga comparar. Era oficial: perdi de vez a cabeça. Obrigado por isso, . Meu psicólogo vai ouvir sobre você semana que vem.
Não sei quanto tempo se passou, mas acabei adormecendo ali, deitado na cadeira. Acordei com o barulho suave de um violão. Olhei com cuidado e percebi sentada perto da piscina, mexendo no meu violão e anotando algo em um caderno surrado. Dei um pequeno sorriso. Ela estava escrevendo alguma música, pelo visto.
Sempre soube que ela escrevia poemas muito bons; inclusive, me ajudou a escrever uma música na época da escola, para uma peça de teatro. A música ficou ótima… minha performance, por outro lado, foi terrível.
Fiquei alguns minutos ali, só observando de longe e admirando sua existência. Meu Deus do céu. O que diabos eu estou fazendo com a minha vida?
Resolvi levantar da cadeira e falar com ela. Ela não notou minha aproximação até que eu já estava realmente perto.
Eu estava sem sono nenhum. Deitada na cama ao lado da Gemma, que já estava a um passo de começar a roncar. Fiquei pensando em tudo o que aconteceu essa noite. Passei o tempo inteiro me divertindo com todo mundo… mas evitei o Harry a todo custo. E, ironicamente, o que mais queria era ter falado com ele.
Notei que ele me olhou algumas vezes durante a noite. Talvez estivesse receoso de se aproximar para conversar, achando que eu surtaria de novo como fiz quando ele abriu a porta.
Resolvi levantar da cama.
Desci até a sala. Ao chegar, deparei-me com a máquina de karaokê e lembrei das nossas brincadeiras de quando éramos mais novos. Essa noite toda foi uma montanha-russa de nostalgia. Mas me sentia em casa.
Harry estava… completamente maravilhoso. Não havia como negar. Ele parecia mais confiante, menos vulnerável e bem mais esperto. Era fácil entender o motivo de tanta gente se apaixonar por ele.
Eu gostaria de ter conversado melhor com ele. Será que ainda era o mesmo de antes?
Comecei a ficar confusa. E sempre que fico assim, coloco tudo no papel. Escrevo poemas, pequenas canções... faço isso desde os 14 anos. Inclusive, uma vez ajudei Harry com uma música que ele precisava compor para a escola. Dei um sorriso ao lembrar disso. Estar nessa casa ativava memórias que por muito tempo não passavam pela minha mente.
Lembro também que, quando ele devia ter uns 15 anos, me deu um poema de aniversário. Escondido. Foi quando se declarou para mim. Era um poema muito bonito. Não me lembro mais das palavras… mas lembro que ele conseguiu ganhar um beijo meu naquele dia. E foi aí que comecei a me deixar levar por aquele menino de 15 anos. Balancei a cabeça, tentando afastar as memórias. Peguei meu caderno na bolsa pendurada no cabideiro perto da porta. Sentei no sofá e comecei a rabiscar algumas ideias. Olhei para o lado e vi um violão. Dedilhei algumas notas, mas logo pensei que seria melhor ir para o quintal, alguém poderia acordar se eu ficasse tocando ali.
No quintal, encontrei duas espreguiçadeiras. Uma do outro lado da piscina, virada de costas para a água, e outra próxima à porta. Sentei na que estava mais perto e continuei escrevendo e dedilhando suavemente.
“Todo mundo ama as coisas que você faz
Desde o jeito que você fala
Até o jeito que você se move
Todo mundo aqui está te observando
Porque você dá sensação de lar
Você é como um sonho que virou realidade”
— Você sempre pega as coisas dos outros sem pedir? — Harry apareceu ao meu lado com uma calça de pijama xadrez verde, uma blusa branca e o cabelo extremamente bagunçado.
— Meu Deus, que susto! — falei e fechei o caderno rapidamente no meu colo.
— O que você está fazendo?
— Nada. — Tirei o violão do colo e dei espaço para ele sentar na espreguiçadeira. — Você estava escrevendo uma música? — Ele pegou o violão do chão e começou a dedilhar as mesmas notas que eu havia tocado há pouco. — Posso ajudar?
Senti meu rosto esquentar na hora. Provavelmente estava completamente vermelha. Não, você não pode me ajudar. Meio que estou escrevendo uma música sobre você. Ou sobre a gente? Fiquei calada, pensando essas mil coisas enquanto ele me encarava. Os olhos brilhavam com o reflexo da lua na piscina. Meu Deus, quando foi que ele ficou tão bonito assim?
— Não é bem uma música. É mais um poema… que talvez vire música. Não sei. — Comecei a falar rápido. Ele continuou me encarando em silêncio, prestando atenção no que eu dizia enquanto dedilhava ritmos diferentes no violão. — Mas não consigo mostrar para ninguém nada do que escrevo. Principalmente se ainda está pela metade.
— Eu entendo — ele falou calmamente, colocando o violão de lado e deitando ao meu lado. — Mas posso ouvir quando estiver pronta? Prometo não contar para ninguém. Você sempre fez poemas muito bons. Às vezes pode me inspirar também.
Eu estava sentada no canto da espreguiçadeira, e ele deitado ao lado, olhando para cima. Continuei imóvel, como uma estátua.
— Se eu gostar, te mostro.
— Quero ouvir mesmo se você não gostar.
— Não sei se consigo.
— Essa pode ser minha condição para te dar a entrevista — Ele deu um sorriso esperto. O encarei com cara de derrotada.
— Tá bem. Quando terminar eu te mostro. Mas ninguém pode saber, combinado?
— Será o nosso segredo! — Ele se afastou um pouco para o lado. — Você não quer deitar?
— Não, estou bem sentada. — Não tinha coragem de deitar ao lado dele.
— Tá certo. — Ele levantou um pouco o apoio da cadeira e ficou mais reclinado, agora podendo me olhar com mais atenção. — E então... não conseguimos conversar direito hoje. Como você está?
— Bem — respondi automaticamente.
— Você não parece bem. Gemma me contou por alto sobre seu namorado. Quer falar sobre isso?
Desde que cheguei, falei sobre o Chad apenas com a Anne. Depois disso, não pensei mais nele a noite inteira. Até agora.
— Não quero te aborrecer com isso.
— Me aborreça. Estou sem sono mesmo. E já sei que minha mãe não gostou muito dele — disse com um sorriso. — Isso já mancha 50% da imagem dele comigo. E como sei que você está mal com tudo isso, soma mais uns 20% de problema para ele.
— Então você já não gosta dele 70%?
— Isso mesmo. Estou só aguardando seu veredito para chegar nos 100% ou voltar ao zero.
Dei um meio sorriso. Não tinha escapatória.
— Bem… é meio idiota. Mas nossa briga agora é por causa da minha mudança. Ele não aceitou bem.
— Você conversou com ele sobre essa vaga e a mudança antes?
— Sim. Desde o ano passado que falo para ele que gostaria de me candidatar. Mas ele sempre foi contra. Acho que ele queria que eu continuasse na mesma empresa que ele.
Harry ficou calado, ouvindo. Continuei.
— É uma briga boba. A gente tinha planos de morar juntos até o fim do ano, mas ele não quer largar Manchester. Acho que o maior problema é que ele traçou vários planos para nossa vida… e esqueceu de me consultar.
Harry continuava sério, ouvindo. Fiquei em silêncio por alguns segundos, até que ele falou:
— Ele deve gostar muito de você, não?
— Não sei. Quando a gente gosta de alguém, ficamos felizes com as conquistas da pessoa. Não acha?
— Sim. Isso é primordial — ele começou. — Mas eu entendo o lado dele. Não apoio, mas entendo.
— Me explica, porque não entendi até agora.
— Talvez ele achasse que você estava feliz onde estava. Que seus planos para Londres não incluíam mudança definitiva. E que os planos de vocês ainda estavam de pé. Talvez ele tenha se enganado sobre o que você queria... por não te ouvir direito?
— Talvez eu não tenha sido tão enfática desde o início. Mas, quando a oportunidade surgiu, sentei e falei com ele com meses de antecedência. Para que ele pudesse tentar algo por lá também.
— Mas será que ele está satisfeito com o que tem em Manchester?
— Ele nunca disse.
— Então aí está o problema. Vocês têm visões diferentes do futuro. E ninguém conversou de verdade. Às vezes, a gente precisa fazer escolhas difíceis.
— Você acha que tenho que escolher entre ele ou a minha carreira?
— Não acho nada. Acho que vocês precisam conversar. Pode ser que ainda queiram tentar. Mas alguém vai ter que abrir mão de algo.
— Você já passou por isso, Harry?
— Sim. — Ele deu um pequeno sorriso. — Com você.
— Comigo? — Olhei confusa. — Como assim?
— Eu estava completamente apaixonado por você quando fui para o X-Factor. E, apesar de você achar que não, precisei decidir. Se ia desistir de tudo e ficar com você, ou se devia te ouvir e seguir em frente.
— Você fez a escolha certa — falei sorrindo. — Olha para você agora!
— É… mas só consegui fazer essa escolha porque você me apoiou. Se tivesse me pedido para ficar, talvez não tivesse me entregado à oportunidade. — Ele sentou e me olhou no fundo dos olhos.
Fiquei paralisada. Até que consegui responder.
— Eu também gostava de você. E tudo o que eu queria era que você fosse feliz. Mesmo que isso significasse te perder.
Nunca tinha dito isso em voz alta. E assim que as palavras saíram, senti meu rosto corar.
— Eu entendo o sentimento dele. Mas acredito que, se ele gostasse de você do jeito que você gostava de mim, ele te apoiaria.
Senti minha garganta fechar. Não consegui conter o choro. Harry me puxou para um abraço apertado.
— Vai ficar tudo bem. Você gosta dele, não é? Talvez, se vocês conversarem com sinceridade, ainda consigam contornar isso.
— Harry... você acha que eu deveria terminar com ele?
— Eu acho que você tem que fazer o que for melhor para você. — Ele ainda me abraçava. — A única coisa que eu posso te garantir é que estarei aqui por você. Para o que precisar.
Afastei o abraço, ainda com lágrimas escorrendo pelo rosto. Harry puxou a manga da blusa e secou meu rosto com cuidado. Depois, me deu um beijo na testa e segurou meu rosto entre as mãos, olhando bem nos meus olhos.
— Pode parecer meio maluco dizer isso… mas eu me importo demais com você, . Estou muito feliz por você ter voltado para nossas vidas. E te garanto: agora você não escapa mais. Vai ter que me aturar para sempre.
Continuei calada, mas com um pequeno sorriso. Ele soltou meu rosto e segurou minhas mãos ao perceber que eu estava começando a ficar com frio.
— Eu também estou feliz de ter reencontrado vocês.
— Presta atenção — ele falou, apertando firme minha mão. — Se você precisar de mim, estarei aqui. Ok? Estarei sempre a um SMS de distância. — E me deu um sorriso.
— Se você precisar de mim, também estarei aqui para você.
Harry me abraçou mais uma vez, dessa vez mais para me aquecer.
— Eu sei que sim — ele falou, ainda no abraço. — Vamos entrar. Você vai congelar aqui e eu não tenho nenhum casaco para te emprestar.
Soltei o abraço.
— Peraí. — Levantei correndo da espreguiçadeira, fui até a sala e peguei o cobertor que havia trazido. — Pronto, podemos ficar mais um pouco aqui fora agora! — disse sorrindo. — Quero aproveitar mais essa noite. Ainda estou sem sono.
Harry deu um sorriso, pegou o cobertor da minha mão e jogou por cima de nós dois. Me encaixou no colo dele e ficou fazendo carinho na minha cabeça. Passamos o resto da noite relembrando momentos da nossa infância. Até que chegamos ao nosso pequeno romance.
— Sabia que foi aqui, nesse mesmo quintal, que eu escrevi aquele poema para você?
— Não sabia.
— Nesse mesmo dia eu escrevi uma meia música, que só terminei já na banda. Ela está, inclusive, em um dos nossos CDs.
— Sério? — Olhei para ele de lado. — Eu conheço, será?
— Pouco provável, já que você não ouvia One Direction. — Ele deu uma risada gostosa. — Me diga quais músicas você conhece.
— Hum… conheço What Makes You Beautiful.
— Não é essa. Próxima tentativa.
— Conheço… — Parei um tempo para pensar — No Control, porque vocês cantaram no Carpool Karaoke.
— Não é essa.
— Conheço Perfect. Mas essa é da Taylor, né? — falei rindo.
— Também não é essa — Ele sorria com a boca fechada.
— Eu conheço aquela que o James produziu também. Que você tá fantasiado de nerd. E dançam. Não sei o nome.
— Também não. Acho que você não conhece mesmo. Você só conhece alguns singles.
— É o que tocava na rádio, né? — falei, brincando.
— É uma música mais lenta. Não sei se tocava nas rádios, mas os fãs sempre gostaram.
— Lenta? Não sei mesmo.
— O nome da música é If I Could Fly. Conhece?
— Não conheço.
— Imaginei. Eu escrevi algumas partes dela no mesmo dia em que escrevi o poema para você.
— Então é para mim a música? Posso me sentir importante?
— Você é importante! — Ele apertou um pouco mais nosso abraço. — Quer ouvir?
— Sim! — Quando fui pegar meu celular para procurar a música, percebi que ele havia se levantado e pegado o violão do chão. — Você vai tocar para mim?
— Claro. Era para ser um presente para você. Depois que eu terminar a música, eu te falo quais partes escrevi para você e o que foi escrito depois, ok?
Apenas acenei com a cabeça. Harry começou a tocar violão e a cantar a música.
Eu nunca tinha ouvido Harry cantar ao vivo e nunca tinha ouvido aquela música antes. Como assim ele escreveu aquilo para mim? Eu estava em outro planeta ouvindo-o cantar. Ele fechava os olhos durante a música e os abria apenas para olhar o violão de vez em quando, parecia nervoso, talvez até tenha pensado em desistir no meio da música, mas cantou até o fim.
— Que coisa mais linda, Harry.
Ele colocou o violão de lado.
— As partes que escrevi para você foram essas… me empresta seu caderno? Prometo não olhar suas anotações.
Entreguei o caderno. Ele escreveu em silêncio, por alguns minutos, e depois me devolveu.
Para:
Presente de aniversário 2010, nunca entregue porque eu resolvi entrar numa boyband. Desculpe.
"Preste atenção, espero que você ouça porque eu baixei minha guarda
Agora estou completamente indefeso
Apenas para seus olhos, eu mostrarei meu coração
Para quando você está sozinha e esquece quem você é
Eu sinto falta de metade de mim quando estamos separados
Agora você me conhece, apenas para seus olhos
Apenas para os seus olhos
Eu posso sentir seu coração dentro do meu, eu sinto isso, eu sinto isso
Eu tenho saído da minha cabeça, eu sinto isso, eu sinto isso
Saiba que estou apenas perdendo tempo e eu espero que você não fuja de mim."
Todo o resto da canção foi escrito depois de eu ficar muito tempo sem te ver e com outras pessoas me ajudando. Então ela não é toda sua, mas essa parte específica sempre será somente e totalmente sua.
Felizes aniversários e Natais atrasados.
Olhei para o caderno e quase comecei a chorar de novo.
— Por que você faz isso comigo?
Ele apenas deu um sorrisão e me abraçou de lado.
— Porque gosto de você, ué. Vamos dormir. Já está tarde. — Ele me ajudou a levantar e me acompanhou até a porta do quarto da Gemma. — Até amanhã, .
— Até amanhã. Obrigada… pela conversa e pela música. — Dei um beijo na bochecha dele e entrei no quarto.
Mas a última coisa em que eu pensava era em dormir. Maldito Styles. Me faz entender o meu namorado… e termina a noite fazendo isso comigo. Gemma estava certa. Ele não vale nada mesmo.
Entrei com cuidado no quarto para não acordar Gemma. Estava fechando a porta vagarosamente, com muita cautela para não fazer barulho. Assim que soltei a fechadura, a luz do quarto acendeu.
— Muito bem. — Gemma estava sentada na cama, me encarando, ainda com a mão no interruptor. — Abra o bico.
Olhei para ela assustada… e comecei a rir.
— Abrir o bico sobre o quê?
— Não se faça desentendida, senhorita. Eu acordei, não te encontrei na cama e, como sou uma ótima amiga, me preocupei achando que você estava sofrendo sozinha na sala.
Fiquei calada. Gemma continuou com a voz carregada de sarcasmo.
— Cheguei na sala já me preparando para te consolar… e vejo você e o meu irmãozinho abraçados numa espreguiçadeira. — Ela começou a sorrir. — Abra o bico!
Continuei rindo.
— Bem… estava sozinha na espreguiçadeira, pensando na vida, até que o seu irmãozinho veio puxar papo comigo.
— Chegue logo na parte do abraço, por favor.
— Te acalma, a gente não estava fazendo nada de mais. Ele só conversou comigo sobre o Chad. Me ajudou a entender um pouco melhor o que meu namorado pode estar sentindo com essa mudança. Acabei chorando e ele me abraçou. Foi isso.
— Nossa, você mente que nem sente, . Pelo amor de Deus, todo mundo da casa ouviu ele tocando If I Could Fly para você. Vocês se beijaram? Estão de rolo secreto de novo? Não me deixa de fora disso! — Gemma estava agitada.
— Não nos beijamos. Mas eu até poderia, se quisesse — Fiz piada, e Gemma deixou o queixo cair com a minha audácia. — Estou dando um tempo com o Chad, então não seria exatamente uma traição.
— Fala sério!
— Tá, vou explicar.
Ela ficou em silêncio e apenas balançou a cabeça, mandando eu continuar.
— Em 2009, no meu aniversário, o Harry me deu um poema de presente. Meio que se declarava para mim. Aquele foi o dia em que dei o primeiro beijo nele.
— Ele te fez um poema de amor? Ele é ridículo. Adorável, mas ridículo.
— Pois é. Estávamos falando disso, e ele me contou que, nesse mesmo dia, começou a escrever uma música — que seria meu presente no ano seguinte. Mas ele não terminou e acabou indo para o X-Factor.
Peguei meu caderno e mostrei a anotação que Harry tinha feito. Gemma pegou e leu tudo com atenção.
— Meu Deus! — Ela deu um tapa na própria testa e largou o caderno. — Eu acabei de entender o “você devia saber”! Como eu sou uma idiota!
Fiquei em silêncio, apenas encarando Gemma.
— O Harry não é de fazer essas coisas… não dá nome aos bois, sabe? Mas eu sei de uma coisa sobre essa música em específico.
— O quê?
— Ele nunca me disse para quem escreveu nenhuma música. Sempre fala que foi só um sentimento ou ideia do além. Mas essa música… no dia em que me mostrou pronta, ele disse que era para alguém que ele realmente havia amado. — Ela fez uma pausa. — Quando perguntei quem era, ele só disse: “Você devia saber. ”
— Você acha que ele falou sério? Que não estava só se aproveitando do momento?
— Olha, conheço bem o meu irmão. Ele com certeza se aproveitou do momento, mas garanto que essa música é para você. Se não fosse, ele não falaria isso. Ele é esperto, mas não é mentiroso.
Peguei meu caderno de volta e olhei novamente a página escrita.
— E outra — Gemma continuou. — você tem um papel assinado de próprio punho dele dizendo que a música é sua. Você pode até comprovar isso num tribunal! — Ela começou a rir. — Você ainda sente algo pelo Harry, ?
— Não sei o que eu sinto pelo Harry… — falei sincera. — É uma mistura de nostalgia e surpresa. Ele mudou muito. Mas só para melhor.
— Sim.
— Mas eu tenho o Chad… que eu sei que amo. Ou acho que amo. — Já estava começando a duvidar. — Eu costumava adorar falar dele, estar com ele. Mas ultimamente tem sido difícil. E te garanto que ter um popstar cantando para você de madrugada não ajuda a manter a cabeça no lugar.
Gemma riu e começou a arrumar o travesseiro.
— Sabe, , eu não queria estar no seu lugar. Mas uma coisa é certa: se você conseguir melhorar as coisas com o Chad, eu vou te apoiar 100%. Você precisa pensar em você. E não neles.
— Ah, a sabedoria plena de Gemma Styles.
— Estarei aqui a noite toda! — Ela deu um sorriso.
— Vamos dormir. Quem sabe eu não recebo algum sinal divino durante o sono? Ou quem sabe algum ser superior não faz o Chad voltar a ser a pessoa por quem eu me apaixonei?
— Vamos torcer! — Gemma disse, apagando a luz do quarto. — Boa noite, .
— Boa noite, Gems.
Depois que a deixei na porta do quarto da Gemma, voltei para a piscina com meu celular e meus fones de ouvido. Eu não conseguia dormir de jeito nenhum. Talvez ainda fosse o jet lag do Japão, mas, além disso, também tinha .
Depois da nossa conversa, percebi que estava me deixando levar por um sentimento que há tempos não sentia. Conversar com ela era natural. Parecia que eu sabia dizer exatamente o que ela precisava ouvir. Meu plano original era simples: reencontrá-la, conversar e perceber que estava exagerando nas expectativas. Mas desde que a vi de novo… não consigo. A cada segundo, crio novas expectativas em cima das expectativas anteriores.
Respirei fundo, coloquei os fones e fui para minhas músicas. Coloquei no aleatório, como se o universo pudesse me ajudar a resolver essa confusão mental através de canções. Dei uma risada ao perceber o quanto estava soando idiota desde que soube que estava de volta à vida da Gemma e, consequentemente, à minha.
O primeiro acorde da música começou e eu comecei a rir. O universo só podia estar de brincadeira comigo.
“Eu poderia ficar acordado
Só pra te ouvir respirar
Te ver sorrir enquanto dorme
Enquanto está longe e sonhando
Eu poderia passar a minha vida
Nesta doce rendição...”
“Eu não quero fechar meus olhos Eu não quero adormecer Porque eu estaria te deixando, amor E eu não quero perder nada...”
Quando a música terminou, resolvi ir para o meu quarto. O dia logo iria amanhecer, e eu sabia que minha mãe ficaria brava se descobrisse que passei a noite no frio.Consegui dormir por algumas horas. Acordei com o barulho da minha mãe preparando o café da manhã e cantando ‘Day Tripper’ de forma completamente desordenada na cozinha. Levantei-me e fui até lá.
— Dormiu bem, mãezinha? — Dei um abraço por trás e um beijo estalado na bochecha dela.
— Dormi sim, meu bem. E você?
— Ah, dormi pouco. Acho que ainda tô no horário do Japão. Provavelmente vou ter sono de tarde. — Peguei alguns copos e comecei a colocar a mesa.
— Se continuar dormindo à tarde, nunca vai regular esse sono. A América do Sul tem fuso diferente também. Se continuar dormindo assim, não vai conseguir acordar lá.
— É, mas lá eu estarei trabalhando. Vai ter um monte de gente para me colocar na linha. Mas essa semaninha aqui… vou dormir o quanto quiser.
Continuei montando a mesa e conversando sobre a turnê, até que Gemma apareceu.
— Bom dia! — Ela estava com aquele sorrisinho no rosto de quem sabe demais.
— Bom dia, flor do dia. — Puxei-a para um abraço. Sentia falta das duas no meu dia a dia.
— Tá feliz demais pra quem não dormiu nada essa noite, não?
— Claro que tô feliz! Tô com vocês, não é?
Minha mãe soltou um “óun”, veio me dar um beijo na bochecha e fez carinho no meu cabelo.
— Deixa de besteira. Tá com saudades da gente, blá blá blá. Agora me conta: o que foi que o senhor fez com a naquela espreguiçadeira ali fora, hein? Conta para a mamãe, seu safado!
— Eu não fiz nada! — Olhei pra ela, surpreso. Levantei minhas mãos para o ar como se estivesse sendo assaltado — Não fiz nada, mãe! A gente só conversou!
— Você tocou até música para ela, seu canalha. — Gemma ria enquanto colocava a mesa.
— Eu só conversei com ela, como a mamãe pediu. — Dei de ombros.
— Pedi mesmo, mas que história é essa de música?
— Como você sabe da música, Gemma? Ela te contou?
— Eu ouvi com minhas próprias orelhinhas. A janela do meu quarto fica exatamente em cima de onde você estava… dando em cima da minha melhor amiga comprometida, descaradamente.
— Eu não estava dando em cima dela. Só toquei uma música que escrevi para ela quando tinha 15 anos. A gente estava relembrando.
Minha mãe, claro, entrou na onda:
— Meu amor, você precisa esperar ela pelo menos terminar com o namorado antes de fazer essas coisas. Mas vou confessar: eu apoio. é um ótimo partido.
— Isso sem dúvida — Gemma completou. — Mas não invente de enrolar minha amiga, que te mato.
De repente começaram a fazer planos para o meu casamento com alguém e minha mãe deixou claro que eu não poderia usar terno estampado na cerimônia.
— Mas eu fico tão bem com as estampas, mãe!
Nesse momento, entrou na cozinha e nos cumprimentou com um “bom dia”.
— Diz para elas, , eu fico bem com ternos estampados, não fico? — Passei por ela com minhas torradas e me sentei à mesa.
Ela, sem entender nada, respondeu mesmo assim:
— Fica. Aonde você quer ir estampado?
— No meu casamento. Imagina um Gucci florido?
Minha mãe fez uma cara ofendida.
— Você não pode chamar mais atenção que a noiva, Harry — Gemma comentou.
— Vocês estão planejando o casamento do Harry?
— Elas fazem esse tipo de coisa — falei, puxando uma cadeira para ela e dando um tapinha no assento.
— E você vai casar com quem?
— Essa posição continua vaga, mas se você quiser se candidatar, tô com inscrições abertas — Dei um sorriso de lado e pisquei. Ela ficou vermelha e desviou o olhar.
— Você é muito bobo — respondeu, pegando um pedaço de pão e fingindo concentração. — Mas vou concordar com elas. Você não pode usar estampa no seu casamento.
— Vou tirar pontos da sua classificação como minha noiva por isso.
— E quem disse que quero essas pontuações?v — Olha só! Me desdenhando? Isso te rende mais pontos.
rolou os olhos, mas resolveu entrar na brincadeira.
— Então, vamos combinar: você pode usar terno estampado no nosso casamento… desde que eu não precise te mostrar a música.
— Você é esperta. Ganhou mais pontos. Acho que até o fim da semana vou ter que procurar um anel para você.
— Se eu não for madrinha desse casamento, mato vocês dois — Gemma interrompeu, provavelmente para me fazer parar de encarar .
Continuamos rindo e fazendo piadas durante o café. Quando terminamos, Michal, namorado da Gemma, chegou. Ele não pôde vir na noite anterior por causa de uma reunião.
Gemma foi apresentá-lo à . Eles só tinham conversado por FaceTime. Michal se sentou para comer, e eu percebi olhando para o celular e ficando pálida. Ela pediu licença e saiu da cozinha.
Gemma notou meu olhar.
— Eu vi a tela. É o Chad — sussurrou, só para mim. Michal e minha mãe estavam discutindo sobre torradas com abacates quando inventei uma desculpa para sair da mesa.
— Com licença. Vou tomar um banho para ver se o sono do Japão passa.
Subi correndo. Quando passei pelo quarto da Gemma, ouvi:
— Você não deveria ter me ligado para falar isso…
A voz dela estava trêmula.
— A gente está separado essa semana, não tá? Aproveita sua vida, então. Não quero saber de nada. Vamos conversar na semana que vem. Tchau.
Ela desligou e começou a chorar. Não aguentei. Bati na porta entreaberta.
— Posso entrar?
Ela sentou-se na cama, limpando as lágrimas, e assentiu.
— O que aconteceu? Quer falar sobre isso?
Ela tentou respirar fundo. Negou com a cabeça. Eu peguei um copo de água que estava na moringa que estava na penteadeira de Gemma e enchi com água fresca.
— Toma. Vai te fazer bem.
Ela bebeu e se acalmou um pouco.
— O que foi? Posso te ajudar de alguma forma?
— Chad... — Ela respirou fundo. — ele me ligou.
— Certo. Isso é ruim por quê?
— Porque ele me ligou para pedir desculpas.
— Mas isso é bom... não?
— Me pediu desculpas por ter dormido com a Madison.
Fiquei em silêncio, completamente sem reação.
— Ele me ligou dizendo que me ama, que foi um erro, e que a culpa foi minha por ter inventado essa semana separados.
— Ele disse que a culpa foi sua?!
— Sim. Mandei ele se foder. E depois lembrei que ele pode fazer o que quiser essa semana. Mas eu não precisava saber disso.
— Deixa eu adivinhar… ele disse que queria ser honesto para você não descobrir por outra pessoa?
— Bingo.
— Caralho. Homens são tão previsíveis.
Ela só deu de ombros. Me ajoelhei à frente dela e a puxei para um abraço apertado.
— Eu sinto muito. Você merece muito mais do que isso, .
— Ele estava tão preocupado comigo morando sozinha em Londres e com todos os homens com quem eu poderia transar... que esqueceu de cuidar dele mesmo. — Deu uma risada amarga. — Pediu desculpas por ter sido “seduzido”.v — Ele é um merda. Espero que esteja perdendo pontos agora.
— Pontos?
— Para ele não virar seu noivo.
Ela riu quando entendeu a piada do café.
— Você é muito bobo!
— Pelo menos agora você sorriu. Já é um avanço.
— Me desculpa.
— Não tem nada para se desculpar. Mas se eu encontrar esse Chad… eu juro que dou um murro na cara dele.
— E você lá tem jeito para dar murro, Styles?
— Eu treino boxe! — Levantei e mostrei meus movimentos.
— Nossa, que elegância.
— Não se deixe enganar pela minha beleza. Posso nocautear um jornalista, fácil.
Ela riu de novo.
— Obrigada por ser um idiota, Styles.
— Vamos sair. Jantar em algum lugar legal. Te animo mais um pouco, que tal?
— Tá bem. Mas por favor… pare de pular e dar murros no ar. Não quero ter uma crise de choro e de riso!
Fiz cara de ofendido e ajudei-a a levantar. Se não dava para apagar o que o Chad fez, eu podia ao menos garantir que ela não ficaria pensando nele.
Eu ainda estava sem entender por que o Chad dormiria com alguém assim… sem mais nem menos. E por que diabos ele me ligaria logo na manhã seguinte? Ele percebeu o erro e me ligou, isso é nobre ou manipulador? Tinha apenas oito dias desde que demos um tempo e ele já estava transando com outra mulher.
Eu jogava minhas coisas na mala com raiva. Gemma olhou de lado. Estávamos arrumando minhas coisas para me mudar para o quarto de hóspedes. Michal tinha chegado e eu não seria a empata foda do casal.
— Você está bem? — Gemma perguntou. Eu ainda não havia contado a ela sobre a ligação do Chad.
— Não estou. — Sentei no chão. Que saco. Estava parecendo uma louca, querendo chorar toda hora. Gemma se sentou ao meu lado e passou o braço pelos meus ombros.
— Tudo bem você chorar, sabe? Não é como se tudo estivesse bem com você. Eu notei que o Chad te ligou hoje cedo. E sei que o Harry conseguiu te animar de alguma forma. Mas se quiser me contar, posso tentar te ajudar.
Respirei fundo. E revivi tudo de novo, mentalmente, enquanto contava.
— É tão bom ouvir a sua voz, . Estou sentindo muito a sua falta. — Meu coração apertou. Eu também sentia falta dele. — Mas acho que o que vou te dizer agora vai fazer você me odiar.
— Do que você está falando, Chad?
— Primeiro de tudo… quero que saiba que eu te amo.
Continuei calada, mas meu corpo começou a perder o controle. Minhas mãos formigavam, o estômago ficou gelado e comecei a sentir um princípio de dor de barriga. Sempre que fico nervosa, perco o controle de todas as minhas funções vitais.
— O que aconteceu, Chad? Me fala logo. — Meu coração batia tão forte que parecia um tambor no peito. Estava à beira de um colapso.
— Ontem à noite, eu estava muito mal, sentindo sua falta… — Ele pausava a fala como se estivesse esperando que eu surtasse. — Saí com o pessoal da faculdade e acabamos enchendo a cara.
Continuei em silêncio.
— Quando resolvemos voltar para casa, a Madison apareceu na nossa mesa e ficou conversando com a gente. Todos foram embora e fiquei sozinho com ela.
Fechei os olhos. Queria que ele falasse que ela escorregou e caiu, ou que alguém invadiu o bar com um cavalo. Qualquer coisa, menos o que já sabia que viria a seguir.
— Eu não sei como chegamos a isso… mas acabei dormindo com ela.
Senti meu coração se quebrar. O peito aqueceu, as pernas falharam. Sentei na cama, em silêncio, com as lágrimas descendo.
— Por que você está me falando isso? Eu não precisava saber disso agora. Nem assim. Está querendo me machucar?
— Eu não quero te machucar. Só queria que soubesse por mim… e não por outras pessoas. Estou muito arrependido. Isso não teria acontecido se você estivesse aqui.
— Você está colocando a culpa do seu impulso sexual de merda em mim? Você não consegue ficar duas semanas sem transar e a culpa é minha? Vai se foder, Chad.
— Me desculpa, eu me expressei mal. Você tem todo direito de estar com raiva, eu entendo. Mas, por favor… me entenda. Eu te amo.
— O caralho, Chad. Se me amasse, não teria iniciado essa briga de merda que causou tudo isso. Isso é culpa sua.
— Não… se você nunca tivesse se mudado...
— Você não precisava ter me ligado para falar isso! — quase gritei, só não fiz isso porque não queria preocupar quem estava lá embaixo. — Eu não precisava saber. A gente está separado essa semana, não tá? Aproveita sua vida então. Não quero saber de mais nada. A gente conversa depois. Tchau.
Desliguei. Nem esperei ele responder. E comecei a chorar, sozinha, sentada na cama. Eu estava chorando de novo só por lembrar aquilo. Gemma me abraçou de lado.
— Ele não sabe te dar valor, .
— Mas será que ele não está certo, Gems? — falei, limpando as lágrimas com as costas das mãos.
— Certo em quê?
— Se eu não tivesse me mudado… não acha que as coisas estariam bem?
— Eu acho que, se você não tivesse mudado, talvez descobrisse tarde demais quem é o verdadeiro Chad.
— Eu não sei mais o que pensar. — Respirei fundo. — Eu quero terminar com ele. Mas não sei se devo. Será que estou sendo precipitada? A gente nem está junto essa semana. Estamos dando um tempo. Então, tecnicamente, ele pode fazer o que quiser, não?
— Olha… isso depende de uma coisa primordial: você está do lado da Rachel ou do Ross?
— Hã? — franzi a testa.
— Friends, . Acorda para a vida! Ross fala que eles estavam dando um tempo, então era ‘ok’ transar com outra pessoa. Rachel não concorda.
— Mas em Friends foi diferente… ele fez isso em menos de 24 horas. Aqui já estamos indo para a segunda semana.
— Mas estavam ou não estavam dando um tempo?
— Eu não consigo ficar do lado do Ross nessa.
— Então por que ficaria do lado do Chad? Ele é o Ross da situação.
Dei um meio sorriso. Styles e suas artimanhas para me fazer mudar de ideia.
— Seu irmão aprende com você essas coisas, né?
— Acho que fui eu que aprendi com ele. Harry sempre foi bom em animar os outros com comparações idiotas.
— Ele me chamou para jantar hoje à noite. Eu disse que iria, mas já não sei se devo...
— Ué, por que não? Meu irmão geralmente leva a gente para lugares legais e paga tudo. Se aproveita disso para se animar. — Ela levantou e me estendeu as mãos. — Vem, vamos levar suas coisas para o seu quarto privativo agora. Infelizmente, a cama de lá não é tão boa quanto a minha. Mas você vai sobreviver.
Levantei com um sorriso, pegando minhas malas e um travesseiro. Fui com ela até o quarto de hóspedes rindo.
Harry sumiu pelo resto do dia.
Tivemos um dia bem de meninas. Anne estava sendo minha mãe naquele momento, cuidando de mim em cada detalhe. Até falar mal do Chad ela fez, só para me animar. Tudo isso enquanto tomávamos champanhe.
Quando notei a hora, já eram sete da noite. E nada de Harry. Será que ele havia esquecido do nosso jantar? Estava prestes a mandar uma mensagem para saber se ainda estava de pé ou se deveria começar a me arrumar, quando o celular vibrou na minha mão. Era um SMS dele. Respondi imediatamente:
Hoje
Subi e tomei um banho rápido. Depois, comecei a pensar: o que será que devo vestir? Estava realmente nervosa. Não vi o Harry o dia inteiro, não sabia o que ele estava planejando, muito menos como estaria vestido. Parecia um encontro de verdade. Comecei a ficar ainda mais ansiosa.
Respirei fundo e olhei minha mala. Não tinha nada de grandioso ali. Então, não havia muito por onde correr. Vesti minha calça jeans, com dois furos enormes nos joelhos. Se ele tivesse planejado algo chique, estaria ferrada. Embora... aqui em Holmes não tenha nada muito sofisticado mesmo.
Coloquei uma blusa de seda branca, de alças finas, e sequei meu cabelo. Estava terminando de me maquiar quando Gemma bateu à porta e entrou no quarto.
— E aí, o que você acha? — Levantei e dei uma volta. — Não trouxe nenhum salto, então vou de Vans preto mesmo. A outra opção é um chinelo — ri.
— Você está ótima. Mas trouxe algum casaco? Está meio frio lá fora — Gemma fuçava minha mala como se fosse minha mãe.
— Só o da Gap, que não combina com essa roupa.
— Espera aí, acho que tenho um perfeito.
Ela saiu do quarto enquanto eu finalizava a maquiagem e calçava os sapatos. Assim que terminei de amarrar o cadarço, ela voltou segurando uma jaqueta preta de couro com forro floral super intenso. Era linda. Quando me entregou, notei o emblema da Gucci.
— Isso é uma jaqueta da Gucci?! — Segurei como se fosse um bebê. — Não posso usar isso! Se estragar, são dois meses do meu salário para te devolver.
— Deixa de ser idiota! — Ela tomou a jaqueta da minha mão e colocou sobre meus ombros. — Olha como completou o look!
Me olhei no espelho e sim, estava muito boa.
— Qualquer jaqueta preta faz esse efeito... Você não tem nenhuma da Primark por aí, não? — fiz piada.
— Só tenho essa. E se você falar uma coisa dessas na frente do Harry, se prepare para uma hora de sermão sobre caimento e curvas corretas.
— Tá bem. Vou usar. Mas se estragar, a culpa é sua!
— Se você conseguir estragar essa jaqueta num jantar, a gente aciona o garoto-propaganda da marca e pede o reembolso.
Comecei a rir. Estava pronta. Agora era só encontrar o Harry.
— Ele já está pronto?
— Acho que sim. Vamos descer?
Anne estava na sala conversando com Harry quando descemos.
— Como você está linda, meu bem! — Anne se levantou e me deu um abraço. — Aproveitem bastante a noite. Qualquer coisa, me liguem!
Harry se levantou do sofá e me lançou um sorriso matador. Ele estava vestindo roupas que, em qualquer outra pessoa, pareceriam normais. Mas nele... realçavam ainda mais a beleza. Ou talvez o champanhe da tarde ainda estivesse fazendo efeito.
Ele usava uma calça branca, tão bem ajustada que parecia ter sido costurada diretamente no corpo dele. A mesma camisa preta de botões do dia da minha chegada — mas, dessa vez, com alguns botões abertos, revelando parte das tatuagens e um colar prateado com uma cruz. Por cima, um casaco que ia até a metade das coxas. Estava lindo. Sem esforço. Maldito.
Deu um beijo estalado na bochecha da mãe.
— Não nos esperem acordadas — disse, estendendo o braço para mim. — Vamos?
Dei uma risada, de nervoso mesmo. Olhei para trás e vi Anne e Gemma nos observando como se fôssemos filhotes de cachorro saindo para o primeiro passeio. Dei um tchauzinho e saímos pela porta.
Do lado de fora, tinha um Audi R8 parado na garagem, ao lado da Range Rover que Gemma havia dirigido até aqui. Eu não sabia que o carro era do Harry até ele abrir a porta para mim. Entrei confusa, pensando: como esse carro veio parar aqui? Harry não veio com motorista…
— O que foi? — ele perguntou, sorrindo ao perceber minha expressão.
— Esse carro estava aqui antes? Achei que a gente ia no da Gemma.
— Não. Pedi para o meu assistente trazer. Gemma vai levar de volta para Londres com você na volta. Minha mãe vai ficar com a Range.
Fiquei calada. Nos últimos dois dias eu tinha esquecido que Harry era milionário. Comentei que tinha achado que a Range era alugada.
— Ah, não. A Range Rover foi um dos primeiros carros que comprei. Era do Robin. Minha mãe gosta, então mantive. É especial para gente... — Ele pausou. — Gemma veio com ele porque sabia que minha mãe não ia querer voltar para Londres no Audi.
— Entendi — murmurei, ainda meio deslocada. Aquele carro me tirava do meu ambiente.
— Está tudo bem? — ele perguntou depois que fiquei em silêncio de novo.
— Sim, só não estou acostumada com você dirigindo... e nem com carros esportivos.
— Quando estiver de férias, te levo para Los Angeles. Você pode andar nos meus carros antigos.
— Quantos carros você tem, Harry?
— Três aqui na Inglaterra. Dois em LA. Mas os de lá são clássicos, modelos antigos. Gosto de carros com história. Às vezes alugo uns só para passear.
— Você é muito esquisito, Styles.
Ele apenas deu de ombros.
— Chegamos! — disse ao estacionar. — Espera aí, vou abrir a porta para você.
Dei uma risada e esperei.
— Pronto, senhorita. Pode descer. — Estendeu o braço novamente.
— Você é um palhaço mesmo!
Tínhamos chegado ao The George & Dragon, e imediatamente reconheci o lugar. Harry percebeu meu olhar de familiaridade e deu um sorriso discreto.
— Lembra daqui? — Ele segurou minha mão, me guiando até a entrada.
— Sim! Foi aqui que tivemos nosso encontro secreto — respondi, rindo. — tomamos chá e dividimos um café da manhã.
Ele sorriu novamente, e dessa vez vi a covinha que tanto gostava aparecer. Assim que chegamos à porta, uma senhora simpática nos recebeu.
— Boa noite, Harry! — ela disse, então ele deu um abraço com apenas uma das mãos na senhora, enquanto a outra permanecia entrelaçada na minha. — Essa é a ?
— Sim, senhora — respondeu, sorrindo. — conseguiu separar a nossa mesa?
— Certamente, querido. Venham comigo — disse ela, dando passinhos curtos. Nos levou vagarosamente até uma pequena mesa isolada num jardim interno. — Aqui vocês estarão seguros. Logo mando alguém com o cardápio. Aproveitem a noite.
Era exatamente a mesma mesa onde estivemos da outra vez. Mas dessa vez parecia mais íntimo do que antes, talvez com mais plantas que escondiam o local. Harry realmente pensou em tudo. Eu só não me lembrava da senhora, mas fazia sentido, desde que me mudei para Manchester nunca mais voltei a Holmes.
Poucos minutos depois, o garçom chegou. Fizemos nossos pedidos e Harry pediu um vinho. Estávamos estranhamente silenciosos. Ele me encarava, mas não dizia nada. Ainda assim, não era desconfortável. Eu observava os detalhes do restaurante, charmoso como sempre, com uma carta de chás imensa. Nunca tinha jantado ali, só conhecia o café da manhã.
— Você lembrava o nome daqui? — perguntei, quebrando o silêncio.
— Sim. Sempre venho tomar chá aqui pelo menos uma vez quando estou em Holmes — ele respondeu, tomando um gole do vinho que acabara de chegar.
— Eu não lembrava... — comentei, notando que ele ainda me encarava. — Por que você está me olhando assim?
— Porque você está muito bonita — disse, num tom despretensioso. — Não consigo evitar. Me desculpe.
Eu tentava pensar em algo para responder quando nosso jantar chegou. Começamos a comer.
— Isso está muito bom — ele disse, apontando para o próprio prato. — Você devia ter escolhido o mesmo que eu.
— O meu também está ótimo.
— Ah, é? Deixa eu ver — ele disse, enfiando o garfo no meu prato e roubando um camarão inteiro do meu risoto! Justamente aquele que eu tinha separado para o final.
— Você roubou meu camarão! — reclamei, indignada. Ele apenas riu, de boca cheia.
— Quer de volta? — provocou, abrindo a boca.
— Não, seu nojento! — retruquei, pegando meu garfo e roubando um pouco do macarrão dele. — Nossa, que saco... meu camarão era bem melhor — resmunguei, ainda balançando a cabeça. Ele riu e chamou o garçom, apontando algo no cardápio antes de voltar a me encarar.
— Deixa de drama — ele disse, sorrindo. — Me conta, como está sendo trabalhar na editora? Sei que a Gemma adora, mas quero saber de você. Está cumprindo suas expectativas?
— Por enquanto, estou me adaptando, mas estou gostando, sim.
— Sei que você não quer seguir carreira na parte de músicas e celebridades. Você quer fazer o quê, exatamente?
— Quero trabalhar com reportagens investigativas. Política, esse tipo de coisa.
Harry apenas assentia com a cabeça enquanto comia. Ri quando ele enfiou mais macarrão do que deveria na boca.
— Você está parecendo um esquilo com tanta comida na boca — comentei.
Ele apenas balançou a cabeça, ainda mastigando, quando o garçom voltou com uma porção extra de camarões.
— Muito obrigado! — Harry agradeceu. Pegou um camarão e colocou no meu prato. — Pronto, seja feliz.
Caí na risada de novo.
— Você não pediu uma porção inteira só por causa daquele camarão, né?
— O objetivo desta noite é te animar. Se o preço for um camarão, está barato — Ele deu uma risadinha e pegou mais um da porção. — Opa, posso comer da sua porção de camarões ou preciso pedir uma só para mim? — Revirei os olhos, rindo.
A noite seguiu entre risos. Harry pediu uma sobremesa enorme para dividirmos e comeu mais da metade sozinho. No final do jantar, nem lembrava mais do Chad. Harry sabe como envolver alguém numa conversa. Ele passou a noite inteira me perguntando sobre tudo da minha vida. Me senti num daqueles perfis de revista adolescente. Acho que ele me fez responder absolutamente tudo o que já perguntaram a ele.
— Qual a sua cor favorita?
— Roxo.
— O que costuma chamar sua atenção em encontros? — Ele deu uma piscada, rindo. — Ok, acabaram minhas perguntas.
— Percebi que você estava fazendo um perfil de revista comigo.
— Você não respondeu à última.
— Na pessoa ou no encontro em si?
— Pode ser os dois.
— Hum... — Comecei a pensar. — Geralmente, a primeira coisa em que reparo em alguém é o sorriso. E se os olhos sorriem junto.
— Como assim “os olhos sorriem junto”?
— Por exemplo, tem gente que quando sorri não demonstra felicidade.
— Meus olhos sorriem junto? — Ele falou e deu um sorrisão. — E aí?
— Sim, seus olhos sorriem junto. — Dei uma risada. — Você sempre sorriu com os olhos. Acho que é por isso que sempre reparei isso em outras pessoas. Gemma também sorri assim.
— Entendi. Então, o que você repara é o sorriso?
— Sim, e os olhos. — Falei encarando os dele, e percebi, pela primeira vez na noite, ele corar.
— E em encontros? — Ele estava vermelho, mas não se deixou abalar.
— Bem, eu nunca pensei em nada específico... Mas eu gosto de coisas pessoais.
— Entendi. — Ele chamou o garçom e pediu a conta. — Você quer mais alguma coisa ou posso fechar?
— Ah, não, obrigada. — Achei esquisito ele de repente ficar apressado. — Nós já vamos embora?
— Sim. Vou te levar a um lugar ainda. — Ele pagou a conta e agradeceu ao garçom.
Nos levantamos e Harry foi novamente até a senhora que nos recebeu. Deu um abraço nela e agradeceu pela mesa. Saímos e fomos direto até o carro.
— Eu adoro Holmes — Harry falou assim que sentamos. Fiquei calada e olhei para ele. — Nenhuma câmera saindo do restaurante. Posso andar normalmente.
— Ninguém mexe com você aqui?
— Às vezes, no centro. Se eu estiver a pé, sempre aparece alguém. Mas, em geral, aqui as pessoas estão acostumadas a me ver.
— É engraçado... Eu não consigo te ver como o cara famoso que você é. Você é tão normal.
— Bem, se prepare psicologicamente, porque se você for a algum lugar comigo em outra cidade, sempre vai ter alguém tentando me fotografar. — Ele deu partida no carro. — E eu sou normal. Te falei isso desde que a gente começou a conversar por SMS, lembra?
Apenas revirei os olhos. Harry começou a dirigir por uma estrada estranha.
— Aonde estamos indo?
— No meu esconderijo.
— Esconderijo? Você tem um esconderijo?
— Sim. Desde criança, esse é o meu lugar.
Chegamos no meio do nada. Continuei sem entender.
Harry saiu do carro, abriu o porta-malas e tirou um cobertor imenso e grosso. Pegou minha mão e me puxou para uma clareira rodeada de flores coloridas. Esticou o cobertor no chão e disse para eu ficar à vontade. Me sentei, e ele tirou o casaco, enrolou como um travesseiro e deitou com a cabeça voltada para o céu.
— Olha — ele apontou para cima — aqui dá para ver as estrelas como em nenhum outro lugar.
Olhei para o céu. E estava realmente muito bonito de se ver. Deitei ao lado dele e fiquei observando as estrelas.
— Vou te mostrar a experiência completa! — Ele puxou seus fones de ouvido do bolso, me entregou um e me deu o celular. — Coloca sua música favorita.
— Eu não sei qual é a minha música favorita.
— Vou colocar uma enquanto você pensa. — Ele colocou Breathe, do Pink Floyd, para tocar.
— Essa música é muito boa. Faz tempo que não escuto. — Harry deu um sorriso e pegou meu celular. Puxou meu dedo e destravou a tela.
— O que você vai fazer?
— Vou te fazer uma mix tape em forma de playlist. — E começou a selecionar músicas. Depois de alguns minutos, devolveu o celular. — Pronto. Essas são algumas das minhas músicas favoritas. Acho que você vai gostar.
Ele salvou a playlist como Harry’s Mix Tape. Pausei a música que estava tocando e pedi para ele colocar a playlist que havia feito para mim.
— A primeira a gente já ouviu, então vou passar. — Ele deu play na segunda da lista: Can’t Help Falling in Love, do Elvis.
Ele colocou o fone que tinha na orelha e começou a olhar para as estrelas.
Fiquei olhando para o céu, ouvindo a música. Eu estava tão perdida em pensamentos que só voltei ao momento quando Harry segurou a minha mão enquanto ouvíamos Elvis cantar:
“Eu deveria ficar?
Seria um pecado?
Se eu não consigo evitar me apaixonar por você?
Como um rio que corre, certamente para o mar
Querida, é assim...
Algumas coisas estão destinadas a acontecer
Pegue minha mão, tome minha vida inteira também
Porque eu não consigo evitar me apaixonar por você.”
“Porque eu não consigo evitar me apaixonar por você.”
A música terminou, e em seguida começou Heart of the Country, do Paul McCartney. Harry abriu os olhos, mas continuou olhando para cima enquanto cantava. Eu já não conseguia olhar para mais nada além dele e admirar aquele ritual íntimo com o lugar. As músicas que ele havia escolhido eram todas muito boas. Ficamos ali por cerca de uma hora, em silêncio, ouvindo a playlist. Quando terminou, ele virou o rosto para mim e sorriu.— Sua vez. — Ele me entregou novamente o celular. — Coloca alguma coisa para a gente ouvir. Não precisa ser uma playlist inteira... Só algo que você goste e ache que eu vá gostar.
Peguei o celular e encarei a tela por alguns minutos. Até que escolhi uma música: Something , dos Beatles.
Harry fechou os olhos e começou a cantar junto, mais uma vez. Coloquei essa música porque realmente gostava dela. E ela parecia se encaixar perfeitamente com aquele momento.
Ele cantou toda a primeira parte de olhos fechados. Depois do primeiro solo, virou-se de frente para mim.
“Em algum lugar em seu sorriso, ela sabe
Que não preciso de nenhum outro amor
Algo em seu estilo me mostra
Eu não quero deixá-la agora
Você sabe o quanto eu acredito.
Você me pergunta se meu amor vai crescer
Eu não sei, eu não sei
Acompanhe de perto e você verá
Eu não sei, eu não sei.”
“Alguma coisa em seu jeito de saber
E tudo o que tenho que fazer é pensar nela
Algo naquilo que ela me mostra
Eu não quero deixá-la agora
Você sabe o quanto eu acredito.”
Harry me puxou para mais perto, eliminando qualquer distância. Parecia que estávamos colocando para fora todos os anos de sentimentos acumulados. Ele me abraçava com tanta força, como se não acreditasse que eu realmente estivesse ali.
E, por alguns minutos, não existia nada além de nós. Só eu e ele.
Passei a noite em claro pensando no beijo. Foi muito melhor do que eu podia imaginar; senti o corpo todo formigar só de lembrar. O cheiro dela ainda estava na minha roupa e não tive forças para tirar a blusa — queria continuar revivendo aquele momento. O que essa menina está fazendo comigo? Ri como um idiota. Será que eu estava me apaixonando de novo? Ou seria só coisa do momento?
Fechei os olhos e tentei uma autoanálise rápida. Faz pouco mais de um mês que voltou para a minha vida. Desde a primeira mensagem, não consigo passar um dia sem pensar nela. Antes tinha dúvidas, mas quando a vi na porta de casa o coração bateu mais forte. Caralho. Ela ainda está confusa com o namorado de merda. Será que ficaria comigo se eles terminassem? Só de pensar na possibilidade de ela não terminar eu já fico nervoso. Pelo amor de Deus: tenho apenas mais alguns dias com ela antes de voltar à turnê. Deveria me preocupar com a viagem, mas só penso na .
Rolei os olhos, coloquei os fones e apertei o play no aleatório. O Harry de amanhã cedo que se vire com esses sentimentos. Enfiei o rosto no travesseiro e deixei “Us and Them” , do Pink Floyd, embalar o sono.
De manhã, levantei um pouco mais tarde. Cheguei à cozinha e já tinha saído, segundo Gemma, para resolver coisas da entrevista que eu deveria dar e alguns pepinos que o seu editor havia encaminhado.
— Como foi ontem? — Gemma puxou conversa depois de um tempo calada.
— Foi bom. — Tentei segurar um sorriso, que só me denunciou ainda mais.
— Que cara é essa? — Ela ficou animada. — Desembucha!
Minha mãe e minha irmã me encaravam enquanto eu passava a mão no rosto e puxava o cabelo para trás.
— Desembucha! — ela repetiu.
— Bem, a gente foi jantar — comecei a contar. As duas ficaram caladas e continuaram me olhando. Rolei os olhos e continuei a história.
— Comi macarrão, ela comeu risoto de camarão. Depois andamos de carro e fomos ao campo ouvir música.
— Só isso? — Minha mãe desconfiou. — Para de enrolar, pula para o que aconteceu.
Levei um tempo, levantei a sobrancelha. Gemma sabia. Ou não? Era difícil decifrar a expressão dela — ela sempre faz cara de quem sabe de tudo, mesmo quando não sabe nada.
— O que aconteceu? Você sabe de algo mais? — Tentei mudar de assunto como um mestre. Não funcionou.
Minha mãe perdeu a paciência:
— Me conte logo o que aconteceu antes que eu grite!
Ri alto. Elas pareciam querer ouvir que eu tinha pedido em casamento na noite anterior.
— Não aconteceu nada de mais — falei, evitando me comprometer. Não sei se gostaria que minha mãe soubesse de algo. — Jantamos, passeamos pela cidade, fomos ao campo e ouvimos música. — Mordi um pedaço grande de torrada. — Foi lá que eu pedi a ela em casamento — disse de boca cheia.
As duas reviraram os olhos ao mesmo tempo, sem paciência para minhas piadas.
— Vocês conversaram sobre o Chad? — minha mãe perguntou. — Ela estava bem triste pelo acontecido. Queremos saber se contou algo mais ou se terminou com o imbecil.
— Mãe! — Fingi surpresa. — Você chamando alguém que não conhece de imbecil? O que aconteceu com “se não tiver nada de bom para falar de alguém, fique calado”?
— Harry, querido, não seja bobo. — Ela sorriu. — Ele é um imbecil; quem faz aquilo com a ? — Olhou ameaçadora. — Não se atreva a brincar com a , que te coloco de castigo!
Dei risada e tomei um gole de chá.
— Não, falamos sobre tudo, menos sobre ele.
— Ela estava mais animada hoje, mas ainda não cem por cento. — Minha mãe se levantou. — Acho que ela gosta do rapaz e tenta não mostrar que está sofrendo.
Olhei para ela e me calei. É verdade: estava em um relacionamento longo com alguém que, sem dúvida, ela devia amar. Só porque brigaram feio não significa que o amor acabou. Não é porque consegui envolvê-la por uma noite que ela superou tudo e quer ficar comigo. Uma pontada de dor de cabeça me avisou: talvez eu tenha de abrir o jogo com a Gemma. Ou falar com alguém de fora.
Lavei a louça para ajudar as duas e subi para o quarto dizendo que a cabeça doía. Ela me mandou beber água e descansar.
No quarto não me contive. Peguei o celular e mandei um SMS para :
“Olá, dormiu bem?”
Sem resposta. Deve estar ocupada. Ou estaria me ignorando? Não há motivo — ela quem me beijou. Fechei os olhos, com vontade de gritar. Ficar sozinho no quarto olhando para o teto e inventando teorias bizarras só alimentaria uma crise de ansiedade. Fui até o quarto da Gemma e bati na porta. Michal abriu.
— Oi, Harry! — Ele estava com o computador ligado; talvez eu tivesse atrapalhado o trabalho.
— Desculpa, estou procurando a Gemma.
— Ela está na sala. Disse que me ver trabalhar atrapalha as férias dela. — Riu.
— Gemma é maluca mesmo. Vou lá, bom trabalho!
Desci e a encontrei assistindo O Diabo Veste Prada. Sentei ao lado e fiquei em silêncio. No meio do filme, minha concentração sumiu. Por que ela não me respondeu? Pode ser presunção minha, mas nunca era ignorado, principalmente por garotas. Tudo bem que ainda me via como o menininho do interior. Por Deus, que egocêntrico.
Peguei uma almofada e deitei no colo de Gemma. Ela não fez cafuné como sempre fazia. CARALHO, PARA DE PENSAR NELA. Suspirei.
— Está tudo bem? — Gemma perguntou.
— Sei lá — respondi sincero.
— Aconteceu alguma coisa ontem, não aconteceu? — falou sem pausar o filme. — Geralmente esse filme prende sua atenção...
Respirei fundo.
— Eu… — pausei. Ela me olhava. Minhas pausas não eram dramáticas, eu falo devagar. — Vamos conversar em outro lugar? Não quero que a mamãe me mate.
Gemma arregalou os olhos; milhões de teorias passaram pela cabeça dela.
— Você não pediu ela em casamento de verdade, né? — Parecia genuinamente preocupada.
Ri e me sentei no sofá.
— Você acha que eu sou maluco?
— Acho. — Riu comigo. — Você faz piadas doidas o tempo todo, quem sabe resolveu brincar mesmo? — Não pedi ela em casamento. — Levantei. — Vamos tomar um sorvete?
— Vamos andando?
— Pode ser.
Subi para colocar uma touca e achar meus óculos; quis esconder o cabelo e o máximo do meu rosto, não queria ser reconhecido. Coloquei um moletom preto e meus Vans.
Descemos e Gemma estava parecida comigo: moletom, jeans e Vans. Rimos da coincidência. Caminhando, ela puxou assunto.
— Tá, o que aconteceu ontem? estava esquisita hoje de manhã. Depois que Mark ligou pedindo umas coisas, ela ficou aliviada por ter uma desculpa para sumir por horas.
Respirei fundo.
— Ontem a gente acabou se beijando. — Encolhi um pouco, esperando que Gemma me desse um tapa com a cara que fez.
— Como assim? Harry! Por que vocês se beijaram?
— Não sei. Simplesmente aconteceu. Estávamos deitados ouvindo música e ela ficou me olhando. Não resisti. Mas não tomei a iniciativa.
— Ah, mas você ficou olhando para ela com esses seus olhos enormes, meu Deus, até imagino você a encarando de volta.
— Ela estava me encarando também — defendi-me. — A noite inteira foi diferente. Ela me envolveu como eu a envolvi. Sei lá. Só sei que nos beijamos.
— Tá, e como foi?
Olhei sem entender.
— O que você sentiu? Foi igual a outro beijo qualquer?
— Não sei o que senti. Não foi igual a nada. Foi melhor. Não sei me expressar. — Dei um suspiro nervoso e sentei no balanço do parque.
— Você acha que estou ficando maluco?
— Você não está. Vamos por partes. O que você sente por ela, agora?
— Acho que é um tipo de obsessão. — Ri. — Não consigo parar de pensar nela. Tudo o que faço me lembra dela.
— Ok, talvez você esteja um pouco obcecado. — Ela sentou no balanço ao lado — Talvez esteja começando a gostar dela também.
Suspirei e balancei levemente.
— Mas acho que você não pode ficar com ela agora. — Gemma continuou. — Tem muita coisa acontecendo. Ela pode até voltar com o Chad.
— O cara traiu ela! — Falei, nervoso. — Por que voltaria com ele?
— Harry, — Gemma falou com uma paciência rara. — Ela está com esse rapaz há uns dois ou três anos. E essa “traição” foi durante uma pausa no relacionamento. — Falei para argumentar, mas ela não me deu espaço. — Também não concordo com isso. Mas te beijou; ela também errou. Como ela mesma disse, os dois estão dando um tempo.
Tudo que Gemma falava fazia sentido racionalmente; eu não queria admitir. Meu cérebro guardou a palavra “dando um tempo”. Eu poderia tentar alguma coisa. Deus do céu, não tenho limites.
— Ela não pode voltar com ele.
— Você é muito mimado. — Gemma levantou do balanço. — Se realmente gosta dela vai querer que ela seja feliz, mesmo que não seja com você.
— Eu não quero que ela fique com esse babaca.
— Quem não devia querer é ela. Nosso trabalho, como amigos, é ajudá-la e apoiá-la.
Revirei os olhos pela ênfase na palavra amigos.
— Deixa ela ter o momento dela. Se ela resolver não ficar com ele, você pode ter alguma chance. Mas agora acho que não vale a pena.
Balancei a cabeça. Nesse instante, o celular vibrou: era a resposta dela.
“Dormi muito bem, obrigada pela noite de ontem.”
Sorri. Metade do peso saiu das minhas costas. Não estava sendo ignorado.
— Gems, — levantei o olhar para minha irmã — você acha que ela gosta de mim?
— Olha, não sei. Mas acho que ela está muito nostálgica. Talvez vocês dois estejam. Você devia estar se preparando para a entrevista de amanhã ao invés de pensar nela.
— Ok, vou me preparar. — Sorri de lado.
— Eu conheço essa cara. Se comporte, Harry.
— Vou me comportar. — Puxei Gemma pela mão até a sorveteria.
chegou em casa tarde; minha mãe já estava dormindo. Eu estava sentado na sala, assistindo à Gemma e ao Michal jogando videogame, quando ela se acomodou ao meu lado e pegou um pouco da pipoca que eu comia. Olhei de lado, dando um meio sorriso. Ela ignorou minha cara e continuou roubando pipoca.
— Você quer meu balde inteiro? — falei sarcasticamente, finalmente encarando-a desde o beijo.
— Oh, muito obrigada. — Ela pegou o balde e colocou no colo, dando um sorriso bobo. — Eu não vou te dar meu balde! — Peguei de volta. — Mas deixo você continuar comendo comigo.
apenas sorriu e continuou pegando minha pipoca.
— O que estamos assistindo? — perguntou, se aproximando levemente da minha orelha. Meu corpo inteiro se arrepiou.
— O Michal perder miseravelmente para a Gemma em todas as pistas possíveis.
Gemma havia ganhado mais uma vez. Eles estavam jogando Mario Kart. Michal ria junto conosco, enquanto Gemma fazia sua dança da vitória. Depois da comemoração, os dois disseram que iriam dormir. Todos nós levantamos, e seguiu comigo até a cozinha. Levei meu balde vazio e ela trouxe os copos.
— Como foi seu dia? — falei, colocando as coisas na pia. — Conseguiu resolver tudo?
— Consegui sim. — Ela sorriu, entregando os copos. — Já até preparei minhas perguntas para você.
— Que bom! — Estava louco para falar sobre o beijo, mas não sabia como puxar o assunto. Gemma disse para deixar para lá, mas eu precisava saber o que ela estava pensando.
— Sim, foi bom trabalhar hoje. Consegui parar de pensar na loucura que está minha vida. — Ela deu uma risadinha fraca e sentou-se em uma das cadeiras da cozinha.
Percebi que aquela poderia ser minha deixa.
— Eu queria me desculpar por ontem.
— Desculpar por quê?
— Pelo beijo. Não deveria ter te beijado, . — Sentei de frente para ela. — Você está em um momento vulnerável. Eu meio que me aproveitei disso, me desculpe.
— A culpa não foi inteiramente sua. — Ela desviou o olhar. — Fui eu quem tomei a iniciativa.
— Você ainda sente alguma coisa por mim? — Sabia que não podia perguntar isso, mas não consegui me segurar.
— Eu estou muito confusa, Harry. — Ela me olhou no fundo dos olhos. — Não acho justo te puxar para o meio dessa confusão louca. Você já tem muita coisa com que se preocupar. Afinal, você tem uma turnê para continuar. Não posso te envolver em um drama que remete ao ensino médio, de tão dramático e infantil.
— Você sempre faz isso, não é? — Aproximei minha cadeira da dela.
— Isso o quê? — Ela me olhou confusa.
— Tenta me proteger de alguma forma. A primeira vez foi no X Factor. Agora, isso. Por que você faz isso?
— Eu não quero te arrastar para o drama.
— Não parece ser só isso. Você gosta de mim? Vamos fingir que não existe Chuck nenhum.
— O nome dele é Chad...
— Que seja. — Rolei os olhos. — Se não existisse Chad, o que você sentiria?
— Eu não sei, Harry. Chad existe e é uma grande parte da minha vida. — Ela suspirou fundo. — Mas ter você de volta na minha vida com certeza me deixou bem mais confusa.
Dei um sorriso. Era exatamente o que queria ouvir. Eu tinha alguma chance. Pequena, mas existia.
— Sabe, eu sou um cara bem dramático — falei, ainda olhando nos olhos dela. — Não me importaria se você quisesse me puxar para o seu drama. Talvez eu até gostasse.
riu, mas percebi que estava nervosa. Me aproximei dela novamente, como na noite anterior. Ela ainda me encarava, sem saber o que fazer.
— Eu gosto de você, Harry, e não quero que você sofra — falou bem próxima de mim.
— Agora eu já sou um rapaz grandinho. Você não precisa me proteger. Eu até pareço mais velho do que você. — Aproximei-me o máximo que podia, sem encostar os lábios nos dela. Mas podia sentir o calor deles tão perto. — E vocês estão dando um tempo, não é? Eu posso fazer isso, certo?
Ela apenas acenou positivamente com a cabeça; parecia hipnotizada pela minha voz. Não quebramos o contato visual em nenhum segundo. Acho até que esquecemos de piscar por alguns instantes.
— Harry... — ela fechou os olhos. — Eu acho que...
Antes que completasse a frase, acabei com o milímetro de espaço que nos separava e a beijei. Como na noite anterior, senti meu corpo inteiro relaxar. Beijar era como uma droga. O perfume dela me consumia. Aprofundei o beijo; colocou a mão na minha nuca e puxou levemente meus cabelos. Então quebrou nosso beijo abruptamente.
— Harry! — Ela respirou fundo. Eu apenas a encarei.
— Eu tenho que ir dormir. Boa noite. — Afastou-se completamente de mim e saiu rápido em direção às escadas.
Apoiei as mãos na pia. Precisava de mais beijos dela. Em algum momento eu iria me satisfazer e começar a pensar em como superar isso. Certo?
Na manhã seguinte, acordei com batendo na porta do meu quarto.
— Bom dia, senhor Styles! — Ela entrou no quarto sem pedir licença. Eu ainda estava enrolado no cobertor. — Vamos levantando, o fotógrafo deve estar chegando de Londres em alguns instantes. Temos algumas horas contadas com ele. Lá embaixo têm algumas roupas separadas, mas você pode levar coisas suas também. Vamos logo tomar café. — Ela falava tudo isso andando pelo quarto, abrindo minhas cortinas e puxando meu cobertor.
— Ei! — protestei ao ter meu cobertor quentinho arrancado. — Eu podia estar nu aqui.
Ela me ignorou solenemente, repetiu que eu devia descer para tomar café e que, se demorasse, ia contar como eu era preguiçoso na matéria. Da mesma forma que entrou, sumiu do meu quarto. Fiquei acordado, olhando para o teto. Resolvi levantar de uma vez, tomei um banho e desci, ainda com os cabelos molhados, para tomar café.
Ao chegar na cozinha, Michal estava preparando panquecas. Eu podia ver Gemma e decidindo as possíveis locações das minhas fotos.
— Posso ajudar? Ou eu sou um mero coadjuvante nessa história?
— Você é o personagem principal. — Gemma falou sem olhar para mim. — Deixa de drama, come e vem pra cá ajudar a gente.
— Cadê a mamãe?
— Ela foi à casa da Sra. Harris.
— Achei que ela ia participar dessa bagunça.
— Na verdade, ninguém vai. — falou. — Nós já já vamos sair. Vai ser só você. Gemma vai escrever uma pequena crônica para a matéria, mas o restante é só você.
Olhei para ela e apenas assenti.
— Sou todo seu hoje. — Pisquei. Michal deu uma risada discreta, e Gemma jogou a tampa do suco na minha cara.
— Ei! — gritou com Gemma. — Não estraga a cara dele antes das fotos.
— Tá bem. Quando ele voltar, eu vou dar um jeito nessa cara dele.
— Eu ainda tenho uma turnê pela frente. Não me deixe de olho roxo.
Gemma jogou um papel amassado em mim.
— Chega, vocês dois! — ria e me puxou pelo braço. — Vem, vamos logo antes que o fotógrafo chegue e você não esteja pronto.
Chegamos à sala e ela pediu que eu separasse algumas roupas de que tivesse gostado. Tinham várias muito legais.
— Gostei de tudo — falei rindo, ainda mexendo nas peças. — Você que escolheu?
— Sim — respondeu, segurando uma prancheta e anotando algumas coisas enquanto eu ainda olhava. — Mas tive ajuda de duas estilistas da editora que pré-selecionaram tudo. Eu só escolhi algumas que achei que você gostaria entre as opções.
— Já começou a entrevista? — falei, segurando uma jaqueta vermelha que me lembrava os Beatles.
— Ainda não. — Ela riu e continuou escrevendo. — Mas já estou anotando coisas para a matéria em si.
— Entendi — falei, experimentando a jaqueta. — O que você acha?
Ela fez apenas um sinal de joia. Dei um sorriso. Nesse instante, a campainha tocou. Era a equipe fotográfica: maquiadora, cabeleireira e tudo mais.
A equipe me ajudou a terminar de escolher as roupas e então fomos todos para os locais que e Gemma tinham programado. O fotógrafo era um cara não muito velho, Ryan. Ele era americano e era a primeira vez dele em uma cidade do interior da Inglaterra. Conversamos um pouco e então começamos as fotos.
Depois de algumas horas, finalmente apareceu e me chamou para sentar em uma mesa afastada enquanto o pessoal modificava algumas coisas para as próximas fotos. Ryan queria tirar algumas no fim da tarde, então tínhamos que esperar.
Ela tinha separado algumas frutas para mim e bebia um suco de laranja. Não tínhamos comido nada desde o almoço rápido. Sessões de fotografia sempre consomem muito tempo.
— E então, como está indo? — perguntei, descascando uma banana.
— Está indo tudo muito bem. Você está cansado?
— Estou acostumado — falei de boca cheia. — Quando você vai me entrevistar?
— Agora! — Ela ligou o celular e mostrou um gravador. — Pode ser?
Assenti enquanto engolia a banana. ligou o gravador e começou:
— O que você costuma fazer para tentar escapar do seu dia a dia de fama?
— Na maior parte do tempo, eu realmente só vou para casa. Tenho sorte da minha mãe ainda morar no lugar onde cresci, então este é um dos lugares onde mais consigo desaparecer, se é disso que estou precisando. Volto muitas vezes a Holmes, ando pelos mesmos campos, e isso é uma daquelas coisas que não vão mudar nunca, não importa o que aconteça. É bom ter coisas assim, iguais às de quando eu tinha dez anos. Tenho muita sorte de ainda ter essa base.
— Você costuma estar rodeado de fãs. Você acha que essa loucura pode te afastar da realidade?
— Se você conseguir dar um passo para fora disso e apreciar que é extraordinário, está ótimo. Mas se começar a pensar que a vida é assim, é aí que perde a sensibilidade. É bom ter pessoas que possam te dizer quando você está errado. Acho que isso é tão importante quanto quem te encoraja. Ir para casa é provavelmente sempre a melhor solução.
— Quando você saiu da banda e foi seguir carreira solo, como ficou o seu lado criativo? Obviamente, havia um grande reconhecimento sobre quem você era no grupo, mas você achou muito difícil pensar: “Será certo se eu fizer algo diferente?”. Como lidou com essa primeira experiência criativa?
Encarei-a por alguns segundos. Aquela tinha sido uma boa pergunta. Pensei mais um pouco até formular a resposta. fazia perguntas diferentes das que eu estava acostumado. A entrevista parecia apenas uma conversa entre amigos.
— Então, você acabou de fazer um filme. Ouvi dizer que passou o dia inteiro filmando em água gelada.
— Sim! Mas foi divertido, apesar disso.
— Como você decidiu fazer o filme?
— Eu atuei na escola, lembra? Sempre quis explorar isso, mas estava ocupado com a banda, então nunca tive tempo para fazer do jeito certo. Quando decidimos dar um tempo, pensei em tentar. Foi um desafio, mas é bom sair da zona de conforto.
Continuamos conversando e até esqueci que estava sendo gravado.
— Eu sei que você é muito reservado. Como você se adaptou à falta de anonimato depois da fama?
— Acho que há duas formas de lidar. Algumas pessoas não deixam que isso incomode. As pessoas dirão que a falta de privacidade é parte disso e que você tem que aceitar. Eu simplesmente gosto de sair tranquilamente com amigos e família. Não acho que seja estranho; é o que é normal para mim. Talvez por isso me vejam como reservado.
— Você sente que vai se casar?
— Esse assunto veio do nada. — Dei uma risada.
— Bom, essa é a nossa conversa. É como qualquer uma das nossas. — Ela sorriu. — Foi sua mãe que pediu que eu perguntasse isso.
— Na verdade, foi bem sutil, vindo de você. Estou até decepcionado. Nunca pensei que você aceitaria perguntas da minha mãe.
— Bem, não se preocupe. Eu não me importo se você está decepcionado comigo. — Ela pegou uma maçã. — Responda à pergunta da sua mãe, por favor.
— Bom, eu acho que sim. Provavelmente.
— Você pensa em ter uma família ou não é algo que passa pela sua cabeça?
— Mal posso esperar por um dia em que isso seja realidade para mim. Espero ter isso na minha vida. Por enquanto, sinto que você aproveita mais quando está com pessoas de quem realmente gosta.
— Você parece uma pessoa bem espiritual para mim, tipo, um espiritual hippie. Como se vê nessa questão religiosa?
— Estou feliz que tenha dito isso. Parece meio bobo dizer “sou espiritual”, mas sim, me considero mais espiritual do que religioso. Não sigo regras rígidas, mas também não acho que nada exista acima de nós. Acho estreito pensar assim.
— Você é uma dessas pessoas que acham que tudo acontece por um motivo?
— Acredito em Karma. Mas dizer que tudo tem um motivo é complicado quando há tanta coisa injusta no mundo. É difícil olhar para isso e pensar “tudo acontece por um motivo”. Mas acredito que exista algo. Não somos só nós. É louco pensar que somos só nós. Não estou dizendo que acredito em alienígenas, mas você entende.
— Eu entendo. — Ela riu.
— Veja a gente, por exemplo. Nos reencontramos depois de tanto tempo. Isso só pode ser algum arranjo cósmico. — Ri.
— Eu não vou publicar isso. — Ela começou a rir, e eu também.
— A melhor parte de ser entrevistado por você é não precisar me policiar.
— Como assim?
— Sei que, mesmo se eu falar bobagem ou brincar, você não vai distorcer para ganhar manchete.
Ela apenas sorriu.
— Pronto. Acabaram minhas perguntas.
— Já? — Olhei para o relógio e vi que tínhamos passado uma hora e meia conversando. Estava quase na hora de voltar para as fotos com Ryan. — Mas você nem perguntou sobre a loira que tem saído comigo.
— Ah é? — Ela desligou o gravador, mas continuou me olhando. — Então me fale da loira, por favor. Isso daria uma boa chamada na capa da revista.
— Não tem nenhuma loira. — Peguei mais uma banana. — Estou de olho em outra menina agora. Ela tem cabelos bem parecidos com os seus, na verdade.
— Ainda bem que eu não gravei isso, seu louco! — Ela deu um tapa de leve no meu braço.
— A escolha é sua. — Mordi outra banana. — Lembre-se: hoje eu sou todo seu. Você pode fazer o que quiser comigo. — Pisquei.
levantou meio corada e foi até Ryan, sem olhar para trás. Eu fiquei apenas sorrindo, terminando de comer.
Fui até os dois, me aproximei de Ryan segurando meu celular.
— Já está na hora? — perguntei. ainda olhava as fotos tiradas mais cedo.
— Quase. Mais uns 15 minutos — Ryan respondeu.
— Posso pedir para você tirar uma foto minha com ela aqui no meu celular, por favor?
ouviu e me encarou.
— Sem problemas. — Ryan se aproximou para pegar o celular.
— Nem pensar. — entrou na frente. — Eu não vou tirar fotos com você.
Ignorei e entreguei o celular para Ryan.
— Faça seu trabalho, Ryan! — virei para , que saiu correndo.
Corri atrás e a alcancei. Ryan conseguiu tirar várias fotos com meu celular. No meio da bagunça, ele perguntou se poderia tirar algumas com a câmera dele. , totalmente derrotada, acabou aceitando posar para quatro fotos. Quatro. Nenhuma a mais.
Quando terminamos, era a hora que Ryan queria. finalmente conseguiu fugir dos meus braços e ficou olhando de longe, enquanto eu caminhava pelo campo aberto e ele fotografava.
No fim da sessão, ela estava do outro lado, finalizando algo com a equipe. Enquanto isso, Ryan me chamou ao computador. Devolveu meu celular, pegou um pendrive da mochila e baixou as fotos em que eu aparecia com . Colocou todos os arquivos na pasta, apagou do computador e da câmera.
— Seu segredo está a salvo comigo — disse, piscando, e me entregou o pendrive.
— Obrigado. — falei, abracei-o em agradecimento pelo trabalho e guardei o pendrive no bolso.
Voltamos para casa no carro da empresa. Harry estava visivelmente cansado. A distância do campo até a casa dele não levou mais do que uns dez minutos, mas ele dormiu o caminho inteiro.
— Harry? — chamei com calma. — Nós chegamos na sua casa.
Ele apenas acenou, ainda de óculos escuros, apesar de já estar escuro lá fora. Agradeceu a todos no carro e entrou. Fiquei mais alguns minutos lá fora assinando recibos e liberando o restante da equipe.
Quando finalmente entrei, Anne segurava o telefone entre o ombro e a orelha e me deu um sorriso.
— Estamos pedindo pizzas. Vamos assistir a um filme na Netflix?
Respondi com outro sorriso, enquanto ela continuava falando com o restaurante.
— Vá tomar um banho e desça. Harry já subiu para fazer o mesmo.
Anne continuava a mesma mãezona de sempre. Imaginei o Harry entrando cansado e ela repetindo exatamente as mesmas palavras para ele.
Subi as escadas e segui para o quarto de hóspedes, logo depois do dele. A porta estava semiaberta, e só percebi que havia olhado quando já estava espiando lá dentro. Ouvi o som do chuveiro ligado ao fundo. O pouco que vi do quarto continuava igual a oito anos atrás. Afastei-me antes que alguém notasse a minha curiosidade.
Tranquei minha porta e entrei no banho. Assim que a água quente bateu nas minhas costas, a mente começou a correr. Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo.
Primeiro, a oportunidade na Comag — uma das melhores editoras do Reino Unido. Foram meses trabalhando como freelancer, construindo portfólio, tentando abrir qualquer porta que me levasse a uma entrevista. Conseguir a vaga tinha sido sensacional. Mas, desde o início do processo, percebi algo diferente no Chad.
Ele nunca aceitou o meu desejo de trabalhar em uma grande editora. Sempre foi mais “revolucionário”, apaixonado por edições independentes e projetos autorais. E, embora eu sempre tenha deixado claro que meu objetivo era chegar à BBC algum dia, ele insistia que isso era besteira — talvez não acreditasse no meu potencial?
Enxaguei o shampoo dos cabelos, respirando fundo para aliviar o aperto no peito. No dia em que aceitei a vaga, preparei um jantar especial e o convidei para se mudar comigo para Londres. O trabalho dele sempre foi remoto, então não seria algo tão complexo. Mas a reação dele foi completamente ao contrário do que eu esperava.
— Não — ri, ainda nos braços dele. — Hoje eu recebi a resposta, Chad.
— Resposta do quê?
— Do RH da Comag.
Ele ficou sério, apenas me encarando.
— Eu consegui! — Abri um sorriso enorme. — Consegui a vaga!
— Parabéns! — Ele me abraçou novamente. — O que você vai fazer?
— Consegui uma vaga no cargo flutuante. Vou escrever matérias sobre o cenário musical e artistas para algumas das revistas da editora.
Chad franziu o cenho, confuso, e continuou em silêncio.
— Eu sei que meu foco sempre foram notícias mundiais, mas acredito que isso será um bom começo.
Nada. Nem uma reação.
— Bem… tem uma coisa — falei, já tensa com o silêncio dele. — A vaga é de residente. Vou precisar me mudar para Londres, porque trabalharei na sede. — Ele continuava apenas me olhando. — Eu queria saber se você gostaria de mudar comigo.
Ele ficou me encarando por longos segundos até, finalmente, abrir a boca:
— Londres? Você não disse que estava se candidatando para uma vaga regional?
— Sim, mas surgiu essa oportunidade…
— E você já aceitou? — Ele cortou a minha fala.
— Aceitei.
— Nem sequer pensou em conversar comigo antes?
— Acreditei que você ficaria feliz. — Eu não posso mudar para Londres, . — Ele se sentou na cadeira. — Você sabe que tenho meus vínculos aqui. Estou perto de conseguir a vaga na universidade. Não posso me mudar. E você também não deveria.
— Mas essa é uma ótima oportunidade, Chad. É o caminho para o meu sonho. A Comag faz parte da rede BBC.
— Eu achava que fazia parte dos seus planos. Mas, pelo visto, não faço.
— Não é assim. Você faz parte, claro que faz. Por que eu te convidaria para morar comigo, se não fosse?
— Se eu realmente fizesse parte dos seus sonhos, você teria conversado comigo antes. E eu teria feito você entender que isso não vai levar a nada.
— Como assim?
— Essa vaga é para um trabalho muito inferior ao que você já faz aqui.
Fiquei paralisada. Não acreditava no que estava ouvindo.
— Você vai mudar para Londres, destruir nosso relacionamento, só para escrever fofoca de revista?
— Não estou te entendendo, Chad. Você me apoiou o tempo todo.
— Eu não sabia que você iria se submeter a isso.
O ar pareceu sumir. Senti meu peito fechar.
— Eu não vou ficar aqui, Chad. E, se você quiser um relacionamento comigo, vai ter que aceitar que não vou fazer o que você quer.
— Eu não quero que você faça o que eu quero. Quero que entenda que está jogando fora tudo que construímos… por fofocas.
Não consegui responder. Simplesmente levantei, tirei meu prato da mesa e o levei para a pia.
— Aonde você vai? — ele perguntou, ainda sentado, ao me ver pegar o casaco. — Essa é a sua casa.
— Para qualquer lugar. Só não quero olhar para você agora.
Desde aquele dia, nada mais foi igual. Ele pediu desculpas, disse que deveríamos tentar de novo, mas havia um ressentimento silencioso ali. Sempre insinuando que a culpa pela separação era minha. Até no telefonema em que sugeri darmos um tempo, percebi isso. Será que reclamava de mim para a Madison? Será que minha mudança foi a desculpa que ele precisava para transar com ela?
Desliguei o chuveiro, enrolei a toalha na cabeça e saí do banheiro. E agora, além de tudo isso, tinha Harry. Ainda parecia surreal.
Reencontrar a Gemma no primeiro dia de trabalho tinha soado como um sinal divino de que eu estava no caminho certo. Voltar para a vida dos Styles era como recuperar uma parte que achei que estava perdida para sempre. Mas jamais teria imaginado que Harry ainda pudesse sentir qualquer coisa por mim. Ou será que não sente? Eu não sei exatamente o que sinto por ele e muito menos entendo o que se passa na cabeça dele. O cara tem modelos aos pés dele… por que estaria perdendo tempo flertando comigo?
Talvez fosse apenas a situação. Nós dois, de novo em Holmes Chapel… praticamente inevitável. Logo ele volta para a vida real: fãs, paparazzi, compromissos.
E eu retorno para a minha insignificância — provavelmente deprimida porque vou ter que lidar com Chad. Mas, convenhamos, estava ótimo para o meu ego ter um popstar dando em cima de mim. Especialmente no meio de uma briga e de uma “traição”.
Por que diabos Chad dormiria com a Madison? Ninguém faz isso do nada. Devem ter flertado antes. Talvez até tivessem algum envolvimento. Será que era questão de tempo até ele me largar para ficar com ela? Respirei fundo. A única certeza que eu tinha era a de que, no fim das contas, acabaria sozinha. Sem Chad — porque, obviamente, ele vai querer ficar com a Madison, que mora em Manchester e transa com ele com facilidade. E sem Harry — porque, sejamos sinceros, ele é um artista famoso.
Balancei a cabeça, me vesti e decidi descer antes que começassem o filme sem mim. Minha mente estava um caos. Cheguei à sala e Harry ainda não tinha descido. Anne estava com o controle na mão, procurando algum filme.
Sentei no sofá ainda com a cabeça nas nuvens. Como teria sido a minha vida se eu não tivesse reencontrado os Styles? Provavelmente estaria num apart-hotel chorando porque Chad estava transando com Madison. É, eu realmente não sei se vou superar isso tão cedo. Fechei os olhos e tentei me concentrar em qualquer coisa que não fosse aquele assunto. Já estava à beira do choro, até que senti mãos quentes pegarem meu pé.
— Tira o pé do meu pedaço. — Harry puxou minhas pernas pelo tornozelo. Eu estava sentada, então não caí, mas levei um susto. Minha cabeça estava em outro planeta.
— Se acalma! Não precisa me puxar assim. — Falei rindo. Tirei os pés do sofá e sentei-me mais composta.
— Ótimo! — ele disse, pegou uma almofada e colocou os pés dele no meu colo.
— Folgado! — reclamei. Ele fingiu se ofender, mas manteve os pés onde estavam.
Antes que ele respondesse, a campainha tocou. Era o entregador. Harry levantou-se para atender. Enquanto isso, Anne se aproximou e pediu ajuda com uma configuração do celular. Eu estava focada nisso quando ele voltou segurando duas caixas de pizza e uma garrafa de vinho.
— Mãe, esse é o meu lugar! — anunciou como uma criança mimada, colocando tudo na mesa de centro. Gemma e Michal foram até a cozinha buscar taças.
— Eu já estou saindo, se acalme. — Anne levantou rindo e voltou para o próprio sofá.
— Agora sim. — Harry se jogou ao meu lado novamente, desta vez sem apoiar os pés em mim.
Gemma voltou com as taças e serviu todos. Harry, ainda sentado ao meu lado, ergueu a dele na minha direção, me obrigando a brindar antes de tomar o primeiro gole. Anne escolheu o filme e o silêncio tomou conta da sala depois que Michal apagou a luz. Lá pela metade do filme, Harry pegou a almofada e colocou no meu colo — exatamente como sempre fazia. No instante em que deitou, a minha mão foi automaticamente para o cabelo dele. Quando percebi, já estava com os dedos completamente afundados nos fios. Ele continuava deitado na mesma posição há um bom tempo. Passei os dedos pelos cabelos curtos, que ainda formavam pequenos cachos. Segui explorando o corte com a ponta dos dedos até chegar perto da nuca, quando ouvi um suspiro longo escapar dele. Logo depois, senti a mão direita dele deslizar por baixo da almofada sobre meu colo.
Harry apertou ligeiramente minha coxa. Perdi instantaneamente qualquer memória sobre o enredo do filme. A mão dele desceu devagar até meu joelho e um arrepio percorreu meu corpo inteiro. Já estava a um passo de puxar o cabelo dele, quando ele se levantou de uma vez. Gemma tinha pausado o filme para ir ao banheiro. Ele levantou junto, dizendo que ia buscar uma cerveja. Minhas pernas simplesmente sumiram. Não conseguia sentir se elas sequer existiram um dia. Deitei no sofá, tentando recuperar alguma dignidade. Por que ele fazia isso comigo?
Estava de olhos fechados quando ouvi Gemma e Harry voltarem; ele apagou a luz de novo, ela deu o play. Ainda estava deitada, então o espaço ao meu lado era mínimo. Mas isso, obviamente, não o impediu de nada.
Harry deitou em cima de mim devagar, tentando não chamar atenção, e me encarou de perto.
— Me dá um espacinho? — ele pediu, olhando diretamente nos meus olhos. — Pode ficar deitada. Só preciso de um pedacinho de nada.
Harry estava com uma cara de safado que detonaria a sanidade de qualquer pessoa. Eu evitava encarar a boca dele também. Afastei-me só o suficiente para que ele se encaixasse atrás de mim. Harry ocupou o espaço como se tivesse sido moldado para aquilo e me abraçou, selando qualquer chance de eu manter um pensamento coerente. Eu já tinha esquecido até o título do filme. As outras pessoas da sala pareciam nem existir. Ele respirava devagar. A cada exalação, meu pescoço formigava. A boca dele estava perigosamente próxima da minha pele. Tudo que eu conseguia pensar era o quanto queria que ele mordesse meu pescoço. Ali. Na frente de todo mundo. Fechei os olhos e tentei controlar minha respiração. Harry percebeu cada detalhe da minha batalha interna e, como se quisesse me destruir de vez, sussurrou no meu ouvido:
— Se você quiser, meu quarto vai estar aberto hoje. Você é bem-vinda lá.
E mordeu meu pescoço. De leve. Abri os olhos na mesma hora.
Graças a Deus, todos estavam concentrados demais no filme para notar qualquer coisa. Levantei abruptamente. O salto chamou a atenção imediata da Gemma.
— Vou na cozinha pegar um copo de água. Não precisa parar o filme. — Saí praticamente correndo da sala.
Olhei de canto antes de virar o corredor. Harry já estava sentado, como se absolutamente nada tivesse acontecido, me encarando com o sorriso mais sacana possível. Quando voltei, ele comia uma fatia de pizza e segurava a cerveja. Sentei ao lado dele. Assim que terminou, voltou a deitar no meu colo — mas agora parecia concentrado no filme. Permanecemos assim até o final.
Quando acabou, anunciei que estava exausta e desejei boa noite. Harry aproveitou a desculpa e disse que também iria dormir, afinal, o dia tinha sido longo. Subimos as escadas juntos. Ele parou na porta do próprio quarto, apoiou o ombro no batente e me observou enquanto eu seguia para o de hóspedes.
— Minha porta está aberta — repetiu, rindo da minha reação. — Boa noite, . — Piscou e entrou no quarto.
Entrei no quarto, me joguei na cama e fiquei encarando o teto. Harry era um safado. Sabia exatamente o quanto eu estava confusa — e mesmo assim continuava me provocando. E o pior é que aquele idiota era um gostoso de merda. Caralho. Eu estava realmente considerando ir até lá. Fechei os olhos e dei uma risada curta. Não era melhor do que o Chad. Se eu estava cogitando continuar beijando o Harry, quem eu era para julgar uma transa bêbada com a Madison? Talvez até devesse ir. Imagina a resposta perfeita: “Você transou com a Madison e eu com o Harry Styles. Estamos quites — mas eu definitivamente saí ganhando. ”
Deus do céu. Será que eu sequer pensaria em qualquer coisa com o Harry se o Chad não tivesse sido um idiota? Minha cabeça virou um labirinto de possibilidades. Coloquei meu pijama, apaguei a luz e voltei para a cama. Tentei resgatar lembranças boas do meu relacionamento, mas minha mente sempre voltava para Madison. Ela deve ter tentado algo com o Chad antes. Não foi aleatório. Não se transa “do nada”. Eles deviam flertar com alguma constância. Senti um frio na barriga. Lá estava ela: minha doce ansiedade. O coração acelerou. Respirei fundo. Não adiantava nada ficar criando teorias. Não importava como aconteceu — aconteceu. E talvez ele só tenha contado para me machucar. E como será que ele reagiria quando eu contasse que beijei o Harry? Duas vezes. E que queria beijar mais? Socorro. Não podia julgar o Chad. Ou talvez pudesse. Harry tinha história comigo; era fácil me envolver. Madison não tinha nada com ele — só soube exatamente como falar com o imbecil que era meu namorado. Se ele me amava tanto, por que diabos se deixou seduzir? E será que eu também amava? Eu estava claramente me deixando seduzir pelo Styles… mas isso não era difícil — existiam milhões de pessoas que se deixariam. Será que eu deveria aproveitar a oportunidade? Comecei a rir igual a uma idiota.
Levantei para tomar água ou leite, qualquer coisa que me devolvesse sanidade e me afastasse da porta ao lado. Quase duas da manhã. O tempo voa quando a gente surta — infelizmente. Ao sair, notei a porta de Harry encostada, a luz apagada.
Ri sozinha. Não vou entrar.
Desci as escadas ainda rindo das minhas próprias loucuras.
Se a luz estivesse acesa, ele perceberia que eu saí do quarto e viria mexer comigo?
Talvez meu inconsciente estivesse esperando exatamente isso. Talvez eu quisesse um sinal divino.
Entrei na cozinha sem acender a luz, ainda imersa em pensamentos obscenos envolvendo Harry.
— Também está sem sono? — A voz dele cortou o silêncio.
Harry estava só de boxer, tomando chá.
Por um segundo, esqueci como respirar.
Desde que cheguei ali, não o tinha visto sem camisa. Meu Deus. Quando ele ficou com aquele corpo? Fiquei encarando as tatuagens como uma completa idiota. Ele levantou, pegou uma xícara e a colocou na minha frente.
— Ajuda a dormir.
Sentei no banco e apenas assenti, tentando evitar contato visual. Caralho. Se aquilo não fosse um sinal dos anjos, eu não sabia mais o que seria. Harry ficou do outro lado da ilha, de frente para mim, encarando-me. Tomei o chá, mas mal conseguia tirar os olhos dele. Como ele faz isso só olhando? A cozinha estava escura, mas eu conseguia ver os olhos dele refletindo a luz da rua. Meu Deus. Por que ele é tão bonito?
Parei de beber sem perceber. Ele sorriu de leve.
Sorri de volta por reflexo.
Consegui enxergar um microssegundo de hesitação antes de ele simplesmente se debruçar sobre a ilha e me puxar para um beijo. Fui pega de surpresa, mas me entreguei na hora.
O beijo dele tinha urgência. Era delicioso. E tudo que eu conseguia pensar era no quanto queria continuar. Ele cheirava a baunilha com couro. Eu estava ficando completamente louca. Harry sentou no balcão e me puxou para mais perto. De repente, interrompeu o beijo.
— Você quer que eu pare?
Que pergunta idiota.
— Você vai derrubar isso no chão — respondi, olhando para a xícara abandonada perto dele.
Ele riu.
— Não seja por isso. — Desceu da ilha, colocou-me sentada e se encaixou no meu corpo. Encostou os lábios no meu pescoço, depois na minha orelha, e sussurrou:
— Se você quiser, eu volto para o meu quarto e te deixo em paz. Mas, enquanto você estiver na minha frente, não vou conseguir me controlar.
Fechei os olhos. Respirei fundo. Foda-se. Chad me traiu.
E eu tinha um homem lindo me querendo. A do futuro que lide com isso.
Puxei Harry para outro beijo. Enlacei minhas pernas na cintura dele, forçando seu corpo contra o meu. Harry riu baixinho, me encarando com intensidade.
— Como você faz isso comigo? — murmurou, balançando a cabeça, mordendo meu lábio. — Vamos sair daqui antes que alguém apareça.
Ele me deu um selinho. Desci da ilha.
Subimos até o quarto dele.
Harry trancou a porta com duas voltas.
Ri na mesma hora.
Ele se virou, me pegou no colo e voltou a colar nossas bocas enquanto me levava até a cama.
Entrei no meu quarto, deixando a porta apenas encostada. Eu sabia que ela não viria, mas a porta meio aberta me deixava sorrindo. Vai que ela realmente aparecesse?
Deitei na cama, ainda divertido com a possibilidade, e peguei o celular. Desde o início da semana, eu ignorava o número crescente no contador de mensagens. Resolvi finalmente encarar tudo.
“Oi Harry, encaminhei no seu e-mail sua passagem para a Argentina. Consegue checar se recebeu? De qualquer forma, amanhã, no fim do dia, um motorista vai te encontrar. Você tem compromisso na Gucci na manhã seguinte para ajustar algumas peças do próximo ensaio. Seu voo será no final da tarde. Esteja pronto. x Mike”
Respondi com um emoticon de joia.
Tinha outras mensagens do Mike, meu assistente, perguntando sobre algumas fotos que poderiam ou não ir para o meu Instagram. Respondi dizendo que confiava nas escolhas dele. Geralmente, decido tudo que vai para minhas redes, mas hoje não tinha paciência.
Essa pequena semana de folga me tirou totalmente do ritmo — principalmente pela presença da . Continuei respondendo e-mails e mensagens relacionadas ao trabalho até que vi uma notificação de Emily Spencer. Eu tinha esquecido dela. Quando cheguei a Londres, dispensei todo mundo que lembrei… mas esqueci a Emily.
“Oi, babe, é uma pena não conseguirmos nos ver em Londres. Mas entendo que você tenha preferido passar um tempo com a família. De qualquer forma, acho que vou ao show de NYC como combinado! Te vejo lá.
Quem sabe eu não uso aquela lingerie azul que você adorou? haha
x Em.”
Como eu consegui esquecer da Emily? Ri sozinho. Nosso “relacionamento” sempre foi puramente sexual, mas ainda assim… deixei a coitada no vácuo por quase um mês. Eu estava ocupado sendo um adolescente. Um barulho lá fora chamou minha atenção. Será que era a ? Esperei. Nada. Provavelmente alguém indo beber água.
Respondi Emily dizendo que estaria ansioso para vê-la em Nova York. Não tinha motivo para dispensá-la. Afinal, ainda tinha um namorado. Não seria eu o idiota de achar que ela largaria tudo para ficar comigo. E mesmo que largasse… isso não significaria que correria para os meus braços para exigir um relacionamento. Emily era discreta, ótima de cama e zero ciumenta. Nós dois sempre soubemos separar sexo de amor. O que mais eu precisava?
Depois de resolver o resto das mensagens, abri a galeria para salvar algumas fotos que a Helen tinha me enviado. Sem querer, cheguei às fotos que o Ryan tirou. Comecei a sorrir como um idiota. correndo de mim. Eu agarrando-a pela cintura. Lembrei das fotos do pen drive e fui até o computador.
Enquanto ele ligava, peguei o pendrive. Assim que o sistema abriu, visualizei tudo. Ryan era ótimo. As fotos estavam inacreditáveis. Não tinham sido só aquelas poses básicas. Havia uns vinte registros: ela me entrevistando, nossa troca de olhares, eu comendo banana e falando de boca cheia — aquela tarde inteira capturada.
Uma das fotos era do ensaio final. Eu estava deitado na grama, mas ele focou nela. sorria para mim com uma doçura… senti meu corpo aquecer. Respirei fundo.
Essa garota tinha poderes sobrenaturais sobre mim. Não era possível que eu estivesse realmente considerando me apaixonar por ela de novo. Mas não parecia que eu tinha opção. Encaminhei-me aquela foto por e-mail, fechei o computador e voltei para a cama. Salvei no álbum do celular, coloquei os fones e dei play em Dark Side of the Moon.
Passei os 42 minutos inteiros deitado de olhos fechados, cantando junto e pensando se eu seria capaz de ter alguma coisa com a .
Quando a última música acabou, a resposta era óbvia:
Eu estava alimentando uma obsessão maluca. Mas não conseguia evitar. Toda vez que ficava perto dela, o garoto de 15 anos apaixonado gritava mais alto. Tentei dormir, mas continuava pensando nela. Será que, se os planetas se alinhassem, se ela ficasse solteira e superasse o namorado, nós conseguiríamos alguma coisa? Será que ela encararia essa vida louca comigo? Estaria disposta?
Meu Deus. Eu estava mesmo considerando namorar a . Assumi-la para a imprensa. Assumir alguém de novo. Ok. Chega. Preciso de chá. Muita dor de cabeça para hoje. Desci exatamente como estava — só de boxer — e fui fazer meu chá. Com certeza ia me ajudar a dormir.
Eu estava na cozinha há alguns minutos, tomando meu chá e observando a luz do poste entrar pela janela. Sentado no banco alto, em frente à ilha, deixei meus pensamentos viajarem. Tinha feito mais chá do que precisava — hábito de quem não sabe o que fazer com as próprias mãos. Levantei ainda segurando a xícara quando ouvi um barulho nas escadas. Dei a volta no balcão e, quando ergui os olhos, vi descendo lentamente, balançando a cabeça e suspirando como quem tenta expulsar um pensamento teimoso. Ela não acendeu a luz e só percebeu minha presença quando falei.
O choque no rosto dela quase me fez rir.
E, logo em seguida, percebi o olhar: ela estava examinando cada tatuagem, cada centímetro do meu corpo exposto. Ela me achou bonito? Sorri de leve. Ofereci o chá e coloquei a xícara na minha frente para ela. Se tivesse chegado dez segundos depois, eu provavelmente já teria jogado tudo fora. O universo parecia conspirar — e, pela primeira vez na vida, eu não queria discutir com ele. Ela me encarava. Eu encarava de volta. E tudo que eu queria era subir naquela ilha e beijá-la até perder o ar. Caralho. Dei outro sorriso, mais lento, mais direto. Ela sorriu também. Para mim, aquilo foi um convite. Dei um passo à frente. A ilha atrapalhava, mas não o suficiente para me fazer pensar duas vezes. Pensei em dar a volta… e desisti no mesmo instante. Subi no balcão e a puxei para um beijo. Eu esperava resistência. Um empurrão. Qualquer coisa.
Mas ela continuou. Continuou como se estivesse esperando por aquilo tanto quanto eu. Será que ela tinha ido até o meu quarto antes? Só imaginar isso fez um calor subir pelo meu corpo como um choque elétrico. Quando percebi, já estava sentado na ilha, puxando-a para mais perto, afundando os dedos na cintura dela. Só parei porque minha consciência gritou: Harry, você não pode transar com ela na cozinha. Alguém pode descer. Mas eu queria. Queria demais. Deus sabe o quanto eu estava pronto para arrancar o pijama ridículo — e inexplicavelmente sexy — de gatinhos de bigode dela. Perguntei se devia parar. Ela não respondeu — fez uma piada sobre eu quebrar a ilha. Desci no mesmo segundo, agarrei sua cintura, a coloquei sentada no balcão e me encaixei entre as pernas dela. Levei a boca ao seu pescoço, mordendo de leve enquanto respirava seu cheiro. Meu coração estava desgovernado. Era surreal. Quase parecia um sonho recorrente demais para ser coincidência. Subi com os lábios até sua orelha e sussurrei, sem filtro algum:
— Se você quiser, eu volto para o meu quarto e te deixo em paz. Mas eu não consigo resistir. Enquanto você estiver na minha frente, eu não vou conseguir me controlar.
Ela hesitou por uma fração de segundo — só o suficiente para me torturar — e então me puxou de volta para o beijo. As pernas pressionaram minha cintura. Perdi a linha imediatamente.
— Como você faz isso comigo? — sussurrei contra sua boca, completamente entregue. Apenas esse pouco era o suficiente para me deixar louco. Se ela tivesse pedido para fugirmos naquele instante, eu teria ido só pela adrenalina que ela me fazia sentir. Mordi seu lábio e a chamei para o meu quarto. Dessa vez, ela não hesitou.
Eram cinco da manhã quando acordei com sede. estava abraçada ao meu travesseiro, dormindo profundamente. O perfume dela ainda pairava pelo quarto, suave e quente. Levantei devagar, peguei o copo de água que tinha deixado no aparador e tomei um gole. Quando virei para olhar de novo… ri sozinho. Ela, dormindo daquele jeito, me desmontava. Era oficial: eu estava apaixonado. Apaixonado de um jeito quase irritante. Como ela conseguiu fazer isso comigo em uma semana ainda era um mistério absoluto.
Deitei novamente, tirando o travesseiro do abraço dela com cuidado. Me aproximei e, assim que toquei seu braço, ela se mexeu levemente. Abriu um micro espaço de consciência, o suficiente para me puxar para mais perto e respirar fundo, voltando a adormecer no mesmo instante.
Beijei a testa dela. Me senti em casa — mais do que em qualquer lugar do mundo. Queria que a noite nunca acabasse. No fundo, eu sabia que não teria outra dessas tão cedo. No dia seguinte, eu precisaria ir embora — voltar para a turnê, para a agenda lotada, para encontros casuais, para pessoas como a Emily.
A Emily não era uma pessoa ruim. Nenhuma delas era. Mas nada do que eu vivia com outras mulheres chegava perto do que eu estava sentindo ali, com a dormindo no meu peito.
Abriguei-a nos meus braços com mais força, desejando ter alguns dias a mais antes de voltar para a realidade. Naquele instante, eu queria poder ficar assim para sempre. Acabei adormecendo com ela aninhada em mim.
Acordei ainda abraçado nela, meu braço esquerdo completamente dormente. Mas não me importei. Não queria que ela acordasse; queria só ficar ali mais um pouco, como se nada no mundo pudesse me tirar daquele instante.
Caralho… quando foi que virei esse tipo de pessoa?
Eu achava que era mentira quando falavam sobre esse tipo de sentimento. Talvez minha obsessão deixasse tudo ainda mais intenso. Enfim — eu estava idiota outra vez, como quando tinha 14 anos.
se mexeu e começou a despertar.
— Bom dia — falei baixinho, beijando sua testa. — Dormiu bem? — Sorri de lado.
— Bom dia! — Ela se afastou do meu abraço e se espreguiçou… até que me encarou, arregalando os olhos de um jeito hilário.
Ri alto. A ficha dela só caiu naquela hora: ela tinha dormido comigo. No mesmo instante, um ciúme idiota me atravessou. Será que ela pensou, nem que por um segundo, que estava com o namorado? Aquele imbecil sortudo. Quantas vezes ela já acordou assim nos braços dele? E, em vez de susto, deu um beijo apaixonado?
— Tá tudo bem? — Sentei-me, encostando na cabeceira. Ela ainda me encarava.
— Ai, meu Deus… — Ela bateu a mão na testa. — A gente não devia! Meu Deus, que horas são? Vão ver a gente no mesmo quarto. Como eu vou olhar para a sua mãe?!
— Se acalma, menina. — Continuei rindo. — Ainda está cedo. Eu posso sair primeiro e ver se tem alguém por perto.
— Harry, por que você não me impediu?!
— Te impedir? Eu queria mais do que você. — Ri mais. — Inclusive, posso até adiar a turnê se você quiser repetir a dose.
— Para de brincadeira! — Ela levantou só de calcinha, procurando o pijama. Usava minha camisa branca de botões — que pegou ontem porque “estava com frio”. O pijama estava “muito longe”. Ela estava incrivelmente sexy.
— Cadê meu pijama, Harry?
— Não sei. Ontem você jogou em qualquer lugar. Eu estava ocupado olhando para você. — Provoquei. O pijama estava numa cadeira bem ao lado dela.
— Harry, para e me ajuda!
— Ajudo se você vier aqui me dar mais um beijo.
Ela me encarou, riu e voltou a procurar.
Quando finalmente achou, começou a se vestir. Eu olhava como um animal. Quando ela tirou minha camisa, precisei de toda a minha força moral para não agarrá-la de novo. Levantei e fui até ela.
— Para de me provocar, — falei com a boca no pescoço dela.
Senti sua pele arrepiar.
— Harry… é você que está me provocando — disse, tentando manter a postura.
Continuei beijando seu pescoço, sua nuca.
— Estou. Me desculpe. Vou deitar. — Afastei-me.
Ela ficou desapontada — ou pelo menos pareceu.
Sorri, adorando isso. Colocou o pijama e voltou para a cama, sentando ao meu lado.
— Por que você faz isso comigo? — perguntou com a voz embargada.
Percebi que estava prestes a chorar. Meu peito apertou. Puxei-a para um abraço.
— Me desculpe. Eu não consigo evitar. Você desperta em mim um adolescente apaixonado…, mas agora já sei como usar minhas armas a meu favor.
Ela riu de leve e limpou uma lágrima.
— Eu queria não estar tão louca e confusa. Queria aproveitar isso. Mas só penso que acabei de trair meu namorado. Mesmo dando um tempo.
— Você gosta muito dele, né? — Afrouxei o abraço e a encarei. Limpei a última lágrima com o polegar.
— Eu amo… ou amava. Antes de me mudar para Londres, estávamos muito bem. Íamos morar juntos no fim do ano.
Respirou fundo.
— Entendo — respondi tentando esconder o ciúme que subiu direto para a garganta.
— Chad sempre foi bom comigo. Me amava, me apoiava. Não entendo por que surtou com a mudança.
— Acho que consigo entender o lado dele.
— Consegue?
— Sim. Agora, mais do que nunca. — Apertei a mão dela. — Se fosse eu… se você fosse minha namorada e dissesse que ia me deixar para trás… eu surtaria também.
— Mas eu convidei-o para vir comigo, Harry.
— E ele foi um idiota por não aceitar. Se você me pedir agora para ficar com você o dia todo, eu fico.
— Deixa de ser bobo, Styles. — Finalmente, ela riu de verdade. — Logo você volta para suas modelos e esquece de mim.
Levantei uma sobrancelha.
— Eu não saio só com modelos.
— Ah é, você gosta de cantores também, né? — ela riu.
Revirei os olhos.
— … — falei sério. — Você sente alguma coisa por mim?
Ela respirou fundo.
— Sendo sincera… sim. Mas não sei o que é, nem como lidar.
— Estamos na mesma. — Ergui as sobrancelhas. — Quer manter isso em segredo?
— Você diz o que aconteceu ontem ou nossos sentimentos confusos?
— Os dois.
— Acho que é o mais sensato. Me desculpe por te arrastar para um drama adolescente.
— Acho que eu sou culpado pela piora desse drama. Te devo desculpas também.
— Culpa de quê?
— De continuar te provocando mesmo sabendo o quanto você está sofrendo. Às vezes sou um egoísta babaca.
— Tudo bem… vou adorar jogar na cara do Chad que transei com um cara mundialmente famoso. — Ela riu da minha expressão ofendida.
— Tá certo. Será nosso segredo. — Segurei a mão dela. — E estou aqui para o que você precisar. Sempre.
— Ok. — Ela sorriu.
— Estou falando sério. Se você precisar de qualquer coisa, estarei sempre a um voo de distância.
— Eu também posso te ajudar… só não posso estar a um voo de distância — brincou. — Você pode me ligar como uma pessoa normal que não tem dinheiro para viajar do nada.
— Se eu precisar de você, posso mandar um avião te buscar? — pisquei.
Ela riu. — Você vai embora hoje, né?
— Vou. Final da tarde.
— Então vê logo se tem alguém no corredor. Preciso te entregar uma coisa…, mas está no meu quarto.
Levantei da cama, abri a porta do quarto e confirmei que todos ainda estavam dormindo. Avisei para a , que saiu correndo em pânico até o quarto ao lado. Fiquei parado na porta, rindo sozinho da pressa dela.
Ela entrou no quarto e demorou alguns minutos. Minha curiosidade não aguentou. Fui até a porta, que estava apenas encostada. estava sentada na cama, escrevendo no caderno. Arrancou uma folha, dobrou e me entregou.
— Pronto. Eu prometi que você poderia ler a poesia/música. Mas não lê na minha frente.
— Posso ficar com ela ou tenho que devolver?
— Pode ficar.
— Vou ler no avião. — Falei com um sorriso torto. Ela retribuiu com um sorriso tímido.
— Tá bem. Mas não reclame se for uma merda. A ideia foi sua.
Peguei o papel dobrado e me aproximei. Roubei um selinho. Não consegui evitar. Ela era adorável. Talvez esse fosse o problema. Ou a solução.
Todas as pessoas que interagiam comigo hoje em dia tentavam me ganhar com imagem, status ou dinheiro. E eu já estava cansado disso.
era exatamente o contrário — era o que eu sempre desejei em silêncio.
— Último beijo. Prometo que não roubo mais nenhum.
Ela riu, me puxou pelo pescoço e me deu um beijo de verdade — lento, quente, daqueles que fazem o coração perder o passo.
Depois, simplesmente se virou e entrou no quarto, me deixando sozinho no corredor.
Voltei para o meu quarto, ainda meio atordoado, e guardei o papel dobrado na minha carteira, como se fosse um objeto precioso. Eu ia precisar de muito tempo, cerveja e loucuras para tentar superar essa menina. E o problema é que eu realmente não sabia se estava disposto a tentar superá-la.
Acordei cedo para levar o Michal até Manchester. Ele precisava viajar para Paris. Foram quase duas horas no total — uma para ir e outra para voltar — mas valeu a pena: peguei as chaves do Audi do Harry e pude fingir que era milionária por duas horas.
Quando cheguei em casa, minha mãe estava na sala com a , as duas assistindo uma reprise do Graham Norton Show e rindo alto. Passei por elas, acenei e fui direto para a cozinha.
Harry estava sentado, lendo um livro e tomando chá. Tinha uma torrada com abacate na mesa.
— Você está cada dia mais americano.
— O quê? — Ele ergueu os olhos, confuso.
— Essa mania de enfiar abacate em tudo. Coisa de americano. Você está ficando tempo demais em LA.
— Fique sabendo que, além de deliciosas, são muito nutritivas. — Deu uma mordida e fez questão de mastigar, mostrando-me a boca aberta.
Revirei os olhos, peguei uma xícara, coloquei chá e um pouco de leite. Harry fechou o livro e continuou comendo.
— Tudo certo até o aeroporto? Respeitou os limites de velocidade?
— Óbvio que não. Que tipo de pessoa você acha que eu sou? Andar devagar num carro esportivo? — Fiz uma careta.
— Ótimo. Se chegar alguma multa, vou transferir para o seu nome.
— Ah, claro. Como se você soubesse fazer isso.
Ele riu e jogou um guardanapo amassado em mim.
— Vocês vão voltar no meu carro, certo?
— Posso fazer esse sacrifício. E você vai para Londres como?
— O Mike vai mandar um carro. Preciso resolver umas coisas na Gucci. Tenho outro ensaio depois do último show.
— Entendi. Vai levar ternos para a América do Sul? Lá é bem quente.
— Separei uns ternos e umas blusas diferentes. Dependendo do calor, eu improviso.
— E o almoço? — Roubei um pedaço da torrada dele com abacate.
— Não sei… a gente podia comer fora. — Ele riu da minha cara de surpresa quando experimentei. — Eu te falei que era bom.
— Vamos almoçar em Manchester? — Continuei pegando outro pedaço. — Passei por um restaurante na volta. Parece legal.
— Estou dentro. Convença as outras duas. — Ele puxou o prato de volta e salvou o que restava da torrada.
— Se precisar de reservas, liga para o Mike. Ele resolve. — Esticou o celular desbloqueado na minha direção.
— Eu posso ligar. Ao contrário de você, minha orelha não cai quando falo com estranhos no telefone. — Peguei o celular. — Preciso pesquisar o nome do restaurante; vou usar sua internet.
— Fique à vontade. — Ele nem tirou os olhos do livro.
Fui para a sala.
e minha mãe continuavam rindo muito. Sentei e entendi o motivo: o Graham lia traduções absurdas de menus estrangeiros.
— Ei, meninas… — puxei papo quando o programa entrou no intervalo. — Pensei em almoçarmos em Manchester. Tem um restaurante novo que parece interessante. Tem um leme gigante na porta. Estou procurando o nome aqui para ver se conseguimos reserva.
— Um leme? — franziu a testa. — Não seria o Tattu?
Olhei para ela, confusa. — Eu morava em Manchester, lembra?
— Caralho, sou muito idiota! — Busquei o nome no Google. — Esse mesmo! Toquei no número e coloquei o telefone no ouvido.
— Você não vai conseguir reserva tão em cima da hora… — ela começou. Fiz sinal para ela calar a boca e saí da sala.
Dois minutos depois, voltei emburrada. O atendente não foi grosso, mas explicou que só faziam reservas com 24 horas de antecedência. Disse que o dia não estava cheio, mas não podia garantir mesa.
Harry finalmente largou o livro e veio para a sala. Sentou-se ao lado da . Eles trocaram um olhar… diferente.
— Nada feito. Estão lotados. — Devolvi o celular para ele.
— Você ligou para o Mike? — ele perguntou.
— Não, liguei direto.
Ele me olhou, fez uma cara de “Gemma, pelo amor de Deus”, revirou os olhos e ligou para o Mike. Saiu da sala também.
Voltou minutos depois:
— Temos reserva às 13h — falou com um sorriso idiota e desafiador. — O que eu não consigo, maninha?
— Se formar. — Mostrei a língua.
— O que tem nesse restaurante, ? — Ele se virou para .
— Você acha que eu já entrei no Tattu? — Ela gargalhou. — Eu não sou você, querido.
— Você não precisa entrar para saber o que tem, bobinha. — Ele cutucou o ombro dela.
— Ah… lá é comida japonesa, chinesa e frutos do mar.
Ela ficou vermelha. Harry não parava de provocar. E os dois… que dois idiotas lindos.
Por que não se beijavam logo?
— Ok, então saímos às 11h30? — perguntei.
Minha mãe estava quieta até demais. Quando olhei, ela estava observando Harry e sentados lado a lado — com um sorriso tão bobo no rosto que até me assustou.
— Fechado. — Harry levantou. — Vou arrumar minhas coisas. Quando voltarmos, já vai ser quase hora de ir, e meu quarto está uma zona.
Fiquei mais alguns minutos vendo TV com minha mãe, até que resolveu subir para tomar banho e se arrumar. Assim que ela saiu da sala, olhei para minha mãe, que continuava quieta demais, mexendo nas mãos.
— Você está calada hoje — comentei.
Ela deu um sorriso leve, mas não muito convincente.
— Ah… já estou ficando triste porque essa semana acabou.
Me aproximei e me sentei ao lado dela.
— Mãe…
— É verdade. Eu fico com saudade disso. De vocês dois aqui. Da gente reunido assim. Já fico imaginando o silêncio quando vocês forem embora.
— Você pode passar um tempo lá em casa, se quiser. Sabe que aquele quarto é seu sempre que quiser usar.
Ela assentiu, ainda com aquele sorriso discreto.
— Eu sei. E tenho meu quarto lá com o Harry também. Mas ele já vai voltar para a estrada, né?
— Vai.
Ela fez um gesto breve com a cabeça, como quem tenta aceitar, mas não gosta muito da ideia.
— Quando ele está aqui, parece tudo mais leve.
— Isso é verdade. Mas você ainda tem a mim. — Soltei um riso baixo.
— Eu sei. E agradeço todos os dias por isso.
Ficamos em silêncio por alguns instantes. Ela recostou a cabeça na poltrona e eu permaneci ao seu lado.
— Mudando de assunto… — falei, olhando para ela. — Você acha que está rolando alguma coisa entre a e o Harry?
Ela me olhou com calma, como se já tivesse pensado nisso antes.
— Eu acho que ele está muito encantado por ela. Isso dá para ver de longe. Mas não sei se ela está na mesma sintonia. Talvez esteja tentando entender o que sente.
— Acho que ela ainda está ligada no Chad.
— São muitos anos de relação. Mesmo que tenha terminado, essas coisas não se apagam tão rápido.
— Ela vai conversar com ele esse fim de semana.
— E você acha que ela vai continuar?
— Não sei. Vai depender do que ele disser. E de como ela estiver se sentindo de verdade.
Ela se levantou devagar, colocando os óculos de leitura no braço da poltrona.
— Você devia conversar com o Harry.
— Sobre isso?
— Sobre não pressionar. Ele precisa dar espaço para ela. Deixar as coisas acontecerem no tempo dela. Se ele começar a agir com expectativa agora, pode acabar afastando.
— Ele é um idiota.
— Mas é o seu irmão. E você o entende melhor do que ninguém.
— Vou tentar conversar, sim.
Ela assentiu e olhou para a escada.
— Vamos nos arrumar também. Daqui a pouco, ele desce igual a um furacão e vai reclamar que não estamos prontas. — E riu.
Resolvi subir direto para o quarto do Harry. Não ia adiar essa conversa; talvez na volta não tivéssemos outra chance de ficarmos sozinhos antes dele ir embora. Bati na porta e ouvi um “pode entrar”.
O quarto estava até arrumado. Uma das malas já estava fechada, ele já vestido para o almoço e — espanto — com a cama feita.
— E aí? — Ele abotoava uma camisa estampada.
— Tente fechar até o último botão para variar — falei, me jogando na cama dele.
Ele só rolou os olhos.
— A que devo a honra da sua visita? — perguntou, escolhendo um óculos de sol no espelho, de costas para mim.
— Quero saber da .
Mesmo sem ver o rosto dele, percebi a tensão instantânea.
— O que você quer saber dela? — Continuou de costas.
— Notei que vocês estavam trocando muitos olhares hoje. Vocês conversaram sobre o beijo?
— Não conversamos. — Ele se virou, agora com os óculos na mão, e sentou na cadeira da escrivaninha.
— Harry… tem alguma coisa estranha. Vocês dois não estão normais.
Ele sorriu de lado. Ficou calado. Fiquei encarando. Até que ele começou a rir.
— Abre o jogo, anda. Aconteceu alguma coisa durante a entrevista?
— Não aconteceu nada durante a entrevista. Foi ótima, inclusive. — Pegou o celular. — Tem uma foto aqui.
Me entregou o celular com a foto aberta: ele comendo uma banana enquanto respondia alguma coisa para a . Passei para a próxima. E para a outra. E mais outra. Muitas fotos dos dois interagindo. Até algumas com ele segurando-a pela cintura.
Levantei o olhar devagar.
— O que significam essas fotos, Harry? — Mostrei uma aleatória, justamente a mais comprometedora.
— Ei! Eu te dei para ver UMA foto, não para bisbilhotar.
— Não deveria ter me entregado o celular desbloqueado, então. — Falei enquanto ele arrancava o celular da minha mão e guardava no bolso.
— Você está começando a gostar dela. De novo?
Ele passou a mão pelos cabelos, empurrando os óculos para cima como uma tiara.
— Eu não sei. — Fez um gesto vago com as mãos. — Ela me deixa tão… sei lá. E fez outro gesto que não significava absolutamente nada.
— E tem toda a história do tal do… Chuck.
— Chad.
— Ah, que seja. Quem tem um nome desses? Chad?
Tinha ciúme ali. Claríssimo.
— Várias pessoas, querido. — Sentei-me mais ereta. — Você está com ciúmes dele?
— Não estou. A está com raiva dele e pensando em terminar. Por que eu teria ciúmes? Por mim, ela podia terminar com ele por telefone hoje mesmo.
— Querido irmãozinho, no mundo real não é assim que funciona. — Cruzei os braços. — Você nunca teve um relacionamento que durasse mais de seis meses. Talvez por isso não entenda o que é pensar em terminar com alguém que você achou que seria para sempre.
— Você acha que ela queria ficar com ele para sempre?
— Bem… eles tinham planos de morar juntos no fim do ano.
Ele soltou um suspiro pesado.
— Ele é um idiota.
— Disso já sabemos. Mas eu acho que você devia dar espaço para ela. Não faça bobagem agora. Você pode se arrepender depois.
Ele riu, balançou a cabeça.
— Gemma… bobagem nós fizemos até ontem. Pode deixar. Não vou fazer mais nada. Mesmo que ela queira.
Levantei uma sobrancelha, mas me calei. Eu sabia que dali ele não soltaria mais nada. Provavelmente teria mais sucesso falando com a no carro — a viagem seria longa.
— Tá certo. Vou me arrumar. Saímos em 30 minutos?
Ele fez sinal de “joia” com a mão, já de costas, mexendo em alguma coisa na mesa.
Fui a última a descer pronta. Todos já me esperavam na sala. Minha mãe tirava fotos com a e o Harry, e é claro que me puxou para a última foto. Harry quebrou o círculo de flashes dizendo que nos atrasaríamos e perderíamos a reserva. Pegou as chaves da Range Rover e seguimos para a garagem.
Minha mãe abriu a porta de trás e se sentou imediatamente. Corri para o outro lado.
— Mãe, você não vai na frente?
— Deixa os dois ficarem juntos na frente só mais esse tempinho, Gems. Não custa nada.
— Mas mãe, eles não — Antes que eu terminasse, a abriu a porta de trás também. Harry já estava no volante.
— Ei, eu não sou Uber, não. Pode vir alguém para a frente.
— Sente lá na frente, . — Minha mãe disse antes que eu pudesse me mover. — Eu tenho umas coisinhas para conversar com a Gems aqui atrás.
saiu do carro e deu a volta para o banco do passageiro.
O caminho todo até Manchester foi estranhamente calmo. Nada de gracinhas do Harry. Ele só pediu para a ir escolhendo as músicas. Já perto do restaurante, ela começou a indicar o caminho certo. Paramos na porta, entregamos as chaves ao manobrista. Desci junto com a ; minha mãe e Harry demoraram alguns segundos no carro pegando alguma coisa.
— Gems, eu vou ali no café rapidinho e te encontro no restaurante, tá?
— Pode. Mas por que você quer ir lá?
— Uma amiga minha trabalha lá. Só quero dar um oi. Eu sempre tomava chá com ela quando trabalhava aqui perto.
— Justo. Mas não enrola.
Ri e a vi atravessar a rua.
Minha mãe e Harry finalmente saíram do carro.
— Onde está a ? — Minha mãe perguntou.
— Foi dar um oi para uma amiga ali no café. Disse que já volta. Coisa rápida.
Entramos no restaurante e fomos levados até a mesa reservada. A decoração era surreal. Mandei mensagem para a assim que me sentei:
“, quando estiver chegando me avisa para eu te buscar na porta. Se você disser que está com a gente, vão achar que é fã e não vão deixar subir. ”
Ela respondeu quase na hora:
“ok, em 5 minutos eu tô aí. x”
Nossa mesa tinha vista para a janela. De lá, vi a saindo do café. Resolvi ir encontrá-la antes que algum fã notasse algo. Desci até a porta e ela me viu sorrindo. Olhou para o lado para atravessar… e congelou.
O olhar dela ficou fixo. Segui sua linha de visão.
Um cara — bonito — caminhava com uma menina ao lado.
E aí reconheci. O cara elegante, altão, com cara de quem paga imposto antes da data… Chad. Corri até ela, puxei sua mão e a levei para o outro lado da rua antes que os dois percebessem. Olhei para cima, tentando ver se Harry ou nossa mãe tinham notado, mas o vidro da janela era fumê demais.
Entrei com ela direto no restaurante e a levei ao banheiro.
— Aquele era o Chad? — perguntei, tentando trazê-la de volta ao planeta Terra.
— Com a Madison — ela respondeu com raiva. — Os dois idiotas devem estar indo tomar um chá.
Respirou fundo.
— Tudo bem. Não vou estragar nosso almoço por causa disso. Vamos comer.
— Tem certeza de que está bem?
— Não estou. — Ela deu uma pausa. — Mas prefiro ficar com vocês agora. Aproveitar bem o último dia com o Harry. Amanhã eu lido com o Chad. Não quero falar mais disso, pode ser?
— Tudo bem. Vamos subir.
Mandei mensagem no grupo com minha mãe e o Harry contando o que tinha acontecido e pedindo que não tocassem no assunto durante o almoço. Quando chegamos à mesa, pude ver o Harry nervoso tentando disfarçar — mas ele estava sério, de cara fechada. Assim que nos sentamos, ele forçou um sorriso, tentou melhorar a expressão e pediu para a sentar ao lado dele.
A mesa era estilo cabine, com sofás ao invés de cadeiras. Assim que ela sentou, ele puxou a para mais perto, passou o braço em volta dela e deu um beijo na cabeça sem dizer nada — mas dava para ver que ele sabia de tudo. E acho que ela percebeu também.
Pedimos nossos pratos e ficamos conversando até o almoço chegar. já estava bem mais sorridente; Harry não desgrudava dela. Ele só soltou quando a comida chegou, mas assim que ela terminou, ele puxou a mão dela discretamente por baixo da mesa. Minha mãe, claro, nem percebeu.
Terminamos o almoço e começamos a levantar. Desci ao lado da minha mãe, enquanto e Harry ficaram alguns segundos para trás. Olhei rapidamente por cima do ombro enquanto minha mãe agradecia o garçom… e vi Harry falar algo no ouvido dela antes de dar um abraço apertado.
Eles nos alcançaram logo depois, com o braço dele novamente ao redor dela.
O manobrista entrou no restaurante avisando que havia algumas pessoas do lado de fora e que, se preferíssemos, ele poderia trazer o carro pelos fundos para evitar tumulto.
— Não precisa — Harry respondeu. — Vamos, meninas?
Fiquei sem entender.
— A gente vai antes? — perguntei.
— Vamos todos juntos. É mais rápido.
Ele nunca fazia isso. Geralmente, nós saíamos antes e ele vinha depois sozinho. Quando olhei para fora, por um segundo, entendi tudo.
Chad e Madison estavam na esquina, olhando para a movimentação, tentando entender o motivo do tumulto na porta do restaurante.
Harry queria dar a a chance de uma vingança perfeita.
Saímos. Eu e minha mãe na frente; e Harry logo atrás, ainda abraçados.
Lá fora, alguns fãs começaram a gritar. Harry soltou o abraço por um instante apenas para assinar alguns papéis, mas não largou a mão dela. Deu a volta no carro, abriu a porta para a entrar e só então foi para o lado do motorista. Conversou com mais alguns fãs antes de entrar. Enquanto tudo isso acontecia, consegui contar para minha mãe os detalhes — e nós duas testemunhamos a expressão do Chad no exato momento em que ele reconheceu a . Abraçada com Harry Styles. Meu irmão é um idiota. Um idiota genial.
Agora era só aguardar a repercussão dessa vingança na internet. Suspirei profundamente.
No caminho de volta, resolvi postar algumas fotos que tirei com a , para deixar claro para todo mundo que ela era minha melhor amiga — e talvez amenizar um pouco para o lado dela com as fãs malucas. Marquei o perfil dela, que ainda tinha um monte de fotos com o namorado. Talvez achassem que ela realmente era só uma amiga do meu irmão.
Não falamos mais nada sobre o acontecido até chegarmos em casa. Faltavam apenas duas horas para o carro que buscaria o Harry. Minha mãe estava grudada nele enquanto assistíamos TV.
Deixei os dois na sala e subi ao quarto da . Ela já tinha arrumado tudo e encarava o celular como se estivesse diante de uma bomba prestes a explodir.
— Oi, … como você está?
— Gemma… eu tenho duzentos novos seguidores no Instagram. — Ela me mostrou o celular, assustada.
— Isso acontece quando você aparece abraçada com meu irmão. — Sentei ao lado dela. — Eu te marquei numa foto também, para as curiosas verem que você tem namorado e te deixarem em paz. Elas não precisam saber da briga de vocês.
Ela continuava encarando a tela como se fosse uma ameaça.
— O Harry acabou de me seguir.
— Ele não é muito das redes sociais, mas deve estar tentando controlar a bagunça… ou te bisbilhotar. — Dei um sorrisinho. — O que foi que ele te falou no restaurante?
— No restaurante?
— Sim, quando vocês ficaram sozinhos. Eu o vi falar algo antes de te abraçar.
— Ah… ele disse que o Chad não me merecia. E que, se pudesse, ia lá brigar com ele.
— Aconteceu alguma coisa entre vocês dois? Vocês estão… diferentes.
— Diferentes como?
— Não sei… os olhares. Eu conheço vocês dois. Você pode ter sumido da minha vida por oito anos, mas eu ainda te conheço muito bem.
Ela respirou fundo, fechou os olhos. Ficou em silêncio por alguns segundos.
E então disse:
— Nós dormimos juntos essa última noite.
Arregalei os olhos. Meu queixo caiu. Sentei na cama, chocada, tentando formular palavras.
— Como diabos isso aconteceu?
— Bem… depois que a gente se beijou, ele continuou me provocando de todos os jeitos. No dia da entrevista, durante as fotos, ontem à noite assistindo filme…
— E você caiu na provocação dele?
— Eu me deixei levar. Talvez seja feio de dizer, mas poxa… o Harry é lindo, famoso e estava ali me querendo. Massageou meu ego.
Ri alto.
— Ok, eu te entendo. Mas como foi que aconteceu? Depois do filme? Você foi para o quarto dele?
— Não. Eu tinha decidido que nada ia acontecer. Fiquei no meu quarto tentando dormir e nada. Resolvi descer para tomar leite quente. — Continuei quieta, ouvindo. — Cheguei na cozinha e ele estava lá tomando chá. Trocamos duas frases e ele me beijou. A partir daí… não consegui mais pensar.
— Vocês dois são muito inconsequentes. — Balancei a cabeça. — Lindos juntos, podem inclusive casar e me dar sobrinhos maravilhosos, mas inconsequentes. Você já não está confusa o suficiente, ? Para acrescentar o doido do meu irmão?
— Sim. Eu não pensei em nada. Hoje cedo a gente decidiu não contar para ninguém.
— Por isso ele não me disse nada quando conversamos.
— Vocês conversaram sobre isso?
— Não sobre isso, mas sobre vocês. Ele não me contou que dormiram juntos.
— Entendi. — O celular dela vibrava sem parar com novas notificações.
— Vem cá. Deixa eu te ensinar algumas coisas agora que você tem novos seguidores. — Ela me entregou o celular. — Primeiro: desative as notificações. Logo logo você não vai conseguir respirar. Você pode colocar o perfil no privado, mas eu te aconselho a manter público. Se fechar, podem achar que você está escondendo alguma coisa.
— Você acha que vai aumentar? — Ela me olhou apavorada.
— Vai. Muita gente viu vocês juntos. Embreve você vai ser a nova namorada dele na internet.
— Ai, meu Deus.
— É bom que você já conquista os fãs até oficializarem esse namoro.
Ela rolou os olhos, rindo.
— Até parece.
— Ué, pode acontecer.
ficou calada, talvez considerando a ideia.
— Não sei se teria condições psicológicas de namorar o Harry. O Chad nem é famoso e olha a minha situação.
— Ah, mas o Chad é um babaca. O Harry é só idiota. É diferente.
Ficamos conversando mais um tempo, eu cutucando, dizendo que seria madrinha do casamento e que já tinha até ideias para o vestido. Ela ia responder, mas minha mãe nos chamou lá embaixo — o motorista do Harry havia chegado.
Minha mãe tentava segurar o choro, mas as lágrimas escorriam enquanto ela sorria abraçando o Harry.
— Por favor, me manda mensagem quando embarcar e quando pousar. Não se esqueça de mim.
— Pode deixar, mãezinha. — Ele beijou as duas bochechas dela e a abraçou mais uma vez.
Ele olhou para a com tanta intensidade que até eu senti o impacto. Depois veio até mim e me abraçou.
— Cuida dela para mim? Não deixe aquele idiota convencê-la de nada. — Sussurrou no meu ouvido.
— Vou fazer o possível. Te mando notícias. — Respondi baixinho.
— Você vem para o show em LA, né?
— Vou tentar.
— Tá bem.
Ele beijou minha testa e se afastou para ir até a .
— Me desculpe por hoje. Eu nem perguntei se você se importava de sair de mãos dadas comigo. Só pensei em fazer o Chuck sentir um pouco do que você sentiu.
Ela deu uma risada.
— O nome dele é Chad. Mas você não vai aprender mesmo, né?
— Eu realmente não me importo.
— Gostei da cara dele, então tudo bem.
Os dois sorriram.
E eu, claro, dei um passo discreto para perto — ouvindo cada palavra, como uma boa fofoqueira curiosa.
Harry abraçou a forte, como fez conosco, mas com algo a mais. Sussurrou:
— “Lembre que vai ficar tudo bem. ”
Ela sorriu e respondeu:
— “Nós podemos nos ver novamente em algum lugar. ”
Ele abriu um sorriso enorme.
— “Em algum lugar bem longe daqui. ”
Idiotas maravilhosos.
Ele ficou de frente para ela. Por um segundo, achei que fosse beijá-la na frente da nossa mãe. Mas fechou os olhos e depositou um beijo demorado em sua testa, com um suspiro no final. Nesse momento, o Harry parecia anos mais velho — maduro, calmo, quase… adulto. Que loucura.
— Qualquer coisa, me ligue. Minha promessa continua de pé, ok?
Ela assentiu, sem conseguir falar nada.
Harry abriu a porta e o motorista entrou para pegar a bagagem. Ele pegou a mala que faltava.
— Eu amo vocês. Prometo mandar notícias! — E então entrou no carro.


