Prólogo
Manhattan • Um Ano Antes.
Refletindo contra o piso de porcelanato recentemente encerado, as solas dos sapatos italianos estalavam ritmadamente. O ruído alto e urgente, ecoando vago pelos corredores vazios, acompanhava os movimentos bruscos do homem em direção à sua sala.
Os olhos escuros desviaram-se momentaneamente dos papéis que ele possuía em suas mãos. As pastas, escuras e protocoladas como acesso restrito, estavam parcialmente abertas, revelando um conteúdo espesso e detalhado de experimentos não autorizados ocorrendo no subsolo daquela empresa. O gosto amargo e pungente em sua língua não o incomodava mais, mesmo que sua própria humanidade o perturbasse. Questionava-se internamente até onde ele estaria disposto a ir para conseguir o que desejava, e a resposta, bem… a resposta era bem mais sombria do que ele desejava que fosse. O conflito tornava-se quase físico, a sensação de que seu corpo estava lentamente se dividindo em duas metades distintas, se contorcendo e lutando contra si mesmo para livrar-se daquela maldita casca vazia. Folhas e mais folhas organizadas com cuidado, apresentando pequenos carimbos avermelhados de confidencialidade, e dois de comprometido, evidenciavam o progresso que estavam tendo, não apenas nos últimos dias, como, igualmente, durante aqueles meses que se seguiram. As anotações vinham do Doutor Octavius, análises detalhadas das estimativas de progressões para os próximos experimentos.
Nenhuma era animadora, e Norman Osborn sentiu a frieza e tensão que acompanhava o desespero.
Alçando o pequeno pedaço de plástico revestido por segurança do bolso de seu terno, Osborn pressionou o cartão de liberação para sua sala contra a tranca lisa e tecnológica. Os dedos do homem instintivamente tocaram o pequeno relevo da marca que acompanhava a tranca. Indústrias Stark. Era surpreendente que a empresa na verdade fornecesse os melhores aparelhos de segurança, embora não fosse capaz de oferecer um herói útil. Tony Stark sempre havia sido um grande parceiro da Oscorp, até, bem, até retornar do Iraque com uma nova alma, uma bomba-relógio em seu peito, e a mentalidade de herói patético.
A raiva inflamou-se em seu peito enquanto Norman empurrava a porta de vidro de seu escritório. Os passos tornaram-se abafados ao tocarem no elegante carpete felpudo que envolvia a entrada de seu escritório. Era uma visão deslumbrante de Manhattan que Norman possuía. Não melhor do que sua cobertura no centro residencial de Upper East Side, mas certamente bela o suficiente para fazer com que seu sangue percorresse suas veias quentes e pulsantes, a sensação de ter a cidade inteira na palma de suas mãos, o poder de controlá-los como desejasse. Era intoxicante. E não menos verdadeiro. Ele umedeceu seus lábios secos, engolindo de maneira abrupta ao jogar as pastas sobre sua mesa, unindo-as junto com as outras inúmeras que já estavam dispostas em seu escritório para análise, além dos produtos normais que os Laboratórios Oscorp ofereciam para o mundo inteiro. Seu império não era composto pelos experimentos perigosos de Octavius, não, longe disso. Seu império, antes de qualquer coisa, era uma inovação na área de biotecnologia e farmácia. Norman Osborn havia primeiro se tornado quem era, para depois deixar-se desvirtuar em busca de algo que pudesse o fazer ter certeza de que não perderia mais ninguém…
Não era o poder que Norman queria. Era algo mais importante do que ele poderia comparar, algo que ele não havia podido oferecer para Emily Lyman, sua falecida esposa, mas que não hesitaria em ter certeza de que seu filho o teria. Proteção. A cura para a doença que os afligia, ou, ao menos, que o pai de Norman havia feito afligir.
Norman moveu sua mandíbula com um estalo baixo, levando sua mão direita trêmula em direção ao seu pescoço, os dedos calejados pela caneta que usava todos os dias, enroscaram-se em sua gravata, um gesto quase desesperado, ao puxar sem muita delicadeza o nó para baixo, tentando libertar-se do aperto do objeto contra sua garganta. Teria engolido em seco, se seus olhos não tivessem repousado, quase instintivamente, no espelho que emoldurava a pequena faixa de drywall que se dividia entre a entrada do escritório e as janelas panorâmicas que ofereciam a visão de tirar o fôlego de Manhattan.
Norman engoliu em seco, tencionando sua mandíbula; seus dedos ásperos se desvirtuaram da gola de sua camisa social branca para encontrar-se com a pele cálida de seu pescoço, as unhas fincando-se contra a pele, sentindo seus próprios batimentos cardíacos contra as pontas de seus dedos e unhas ao percorrer sua carótida, até repousarem sobre a pequena marca de pele em relevo abaixo de sua orelha. Não era como uma cicatriz, embora Norman tivesse certamente dito a todos que não passava de um acidente que ele tivera quando era pequeno. Havia tentado andar de bicicleta, mas, como sempre, Amberson Osborn, seu pai, estava ocupado demais com seus fracassos empresariais para sequer notar o que diabos seu filho estava fazendo na rua. A queda da bicicleta havia aberto um corte, que posteriormente havia se tornado aquela cicatriz. Esta era a história que Norman Osborn contava a todos. Era a história que, por vezes, ele mesmo havia quase conseguido se convencer de que era verdade; se fechasse os olhos por tempo o suficiente e dissesse que nada mais havia acontecido, Norman teria acreditado como quaisquer outras pessoas ao ouvir seu conto. Mas, diferente de todos, Norman jamais poderia apagar a significância daquela marca, e muito menos o que ela atrelava para sua vida; para sua alma.
Norman deixou suas próprias unhas percorrerem a pele em relevo, traçando, distraidamente, as formas que adquiriram; o símbolo arredondado terminava com cinco cortes afiados, formando quase o que poderia vir a ser a letra do alfabeto ocidental M. Tensionou com mais força sua mandíbula, empurrando as pontas de suas unhas contra a marca, tentado a cortá-la, tentado a, mais uma vez, arrancá-la de seu pescoço, embora soubesse perfeitamente que não importava o quanto ele tentasse raspar, rasgar e arrancar aquela parte de si, ela sempre iria retornar, no mesmo lugar, intacta.
Uma pequena picada aguda percorreu a pele fina de seu pescoço, quando as unhas se cravaram mais fundo em sua pele, apenas para ser interrompido pelos toques rápidos e hesitantes de sua assistente contra a porta de vidro. Norman não se surpreendeu, embora o gesto abrupto tenha-o feito congelar no lugar. Tomou cuidado para manter sua expressão o mais vaga possível, indiferente, fingindo que estava ajeitando a gola de sua camisa social, ao ordenar que sua assistente entrasse em sua sala.
Qual era o nome dela mesmo? Norman tentou buscar ao fundo de sua mente por algum indicativo, alguma conversa ou até mesmo comentário feito recentemente que o lembrasse de quem era aquela mulher, mas, verdade seja dita, ela era apenas mais um rosto qualquer na infinidade de outros rostos que ele precisava lidar diariamente. Sabia que era algo rude, mas tampouco parecia conseguir encontrar dentro de si algo que o convencesse de que se importava. Desde que ela fizesse seu trabalho corretamente, Norman estaria satisfeito. Na maior parte do tempo, Osborn desejava apenas estar sozinho, ruminando as novas informações que Octavius havia lhe enviado, do que lidar com qualquer pessoa externa de fato.
— Senhor? Senhor Osborn? — O chamado o irritou um pouco, mas não o suficiente para que isso ficasse exposto no rosto de Norman.
O tremor na voz de sua assistente evidenciava um nível de medo que ele causava naturalmente nas outras pessoas. Norman sabia que sua posição e seu prestígio o tornavam perigoso, e seu silêncio poderia ser compreendido por muitos como um mistério, embora convidativo, perigoso e imprevisível, mas era a maneira com que ela havia engolido em seco, a maneira com que hesitou como se estivesse andando sobre ovos, que o incomodou de fato. Norman Osborn estava começando a odiar aquele sentimento: o de ser observado como um animal selvagem enjaulado. Como se estivesse a um passo de uma iminente explosão, Norman exalou por entre seus lábios, o ar deixando seus pulmões cálidos e com um leve aroma da bala de hortelã que havia sido seu café da manhã. Alçou da bandeja de prata repousada à sua direita, um pouco mais abaixo do espelho, a garrafa de cristal elaborada e cara que havia ganhado de um de seus sócios empresariais, e colocou uma boa dose de whisky em seu copo, levando-o primeiro ao seu nariz, inspirando fundo a fim de sentir o aroma da bebida e certificar-se de que era a que gostava, antes de levá-lo aos lábios, saboreando-a.
— Senhor, desculpe o incomodo, mas o Sr. Scratch está aqui e exige por uma audiência com o senhor. Já tentamos dissuadi-lo, mas… o Sr. Scratch é insistente.
Norman pausou por um momento, estreitando os olhos, absorvendo as palavras de sua assistente antes de virar-se na direção dela. Por um momento, buscou em seu rosto alguma coisa que deixasse exposta a mentira de suas palavras. Buscou por quaisquer traços que pudessem expor alguma agenda oculta ou até mesmo uma tentativa de distraí-lo de seus reais deveres naquela manhã, mas tudo o que encontrou foi o olhar patético e frágil de uma mulher que estava aterrorizada com sua presença ao mesmo tempo que se encantava.
— Muito bem, peça que ele entre então — Osborn disse calmamente, sua voz quase monótona, caminhando em direção a sua mesa, repousando o copo de cristal entre as pastas pretas e as folhas dos projetos de Octavius.
Fez um trabalho rápido em organizá-las, unindo suas sobrancelhas, hesitando por uma fração de segundos, se questionando internamente se deveria perguntar à sua assistente sobre ou apenas deixar o assunto em silêncio. A parte de autopreservação de sua mente estava gritando para que ele simplesmente deixasse o assunto quieto, Harry viria até si em seu tempo, como sempre havia feito. Norman não precisava se preocupar com seu filho, tinha assuntos mais importantes para focar, mas então, havia aquela outra parte de si: a parte que havia pertencido à Emily e que havia morrido com ela.
— Senhorita…
— Hollister, senhor — Sua assistente apressou-se em concluir a frase para ele, e Norman assentiu em um gesto discreto de gratidão. Senhorita Hollister, este era o nome dela, Norman fez uma anotação mental para não se esquecer disso futuramente.
— Senhorita Hollister, teve notícias de Harry? — Norman ergueu a linha de seu olhar dos papéis que tinha espalhados sobre sua mesa, e então encarou sua assistente em um silêncio desconfortável crescente.
Hollister pareceu surpresa com a pergunta, muito provavelmente estranhando o tópico que quase nunca surgia em suas conversas profissionais. Norman estreitou os olhos, observando-a parecer calcular e escolher suas melhores palavras para usar com ele, e algo quente e volátil espiralou por trás de sua mente, garras pequenas, mas que começavam a ganhar pequenas proporções maiores ao fundo de sua mente, se deixassem escapar, fincando-se ao fundo de sua mente, arrastando-se, bem devagar, de volta para a superfície de sua consciência.
— Ele está bem, Senhor Osborn. Disse que já se instalou no dormitório da universidade, e que até mesmo já fez alguns amigos por lá. Disse que virá visitá-lo este fim de semana — Hollister respondeu educadamente, mas não conseguiu fazer com que seu tom tenso passasse despercebido pelos ouvidos atentos de Osborn. Norman tensionou a mandíbula, inspirando fundo, concentrando-se na tarefa em suas mãos, mesmo que seu impulso fosse simplesmente agarrá-la pelos ombros e a chacoalhar até que lhe desse uma resposta direta. O que ela estava escondendo de Norman? Por que todos ao seu redor sempre escondiam alguma coisa de si?
— Cancele. Diga a Harry que este fim de semana não poderei encontrá-lo. Diga que o compensarei durante a próxima semana, com um jantar, como nos velhos tempos — É tudo o que Norman disse para sua assistente antes de acenar com a cabeça, indicando que não desejava mais a sua presença ali.
Norman deixou-se sentar em sua cadeira de couro escura e estofada com um grunhido baixo. Fechou os olhos com força, levando sua mão esquerda em direção aos seus olhos, massageando suas têmporas. Era estranho, era um homem mais velho do que imaginara um dia tornar-se, mas estava em boa forma, tinha hábitos saudáveis e, talvez, seu único vício fosse o trabalho. Ele não deveria estar sentindo dor àquela hora da manhã, mas, ainda assim, sentia-se como se um contêiner de sua empresa tivesse sido disposto bem em cima de seu peito, como se amarras que o envolvessem desde sua infância tivessem se estreitado novamente ao redor de seu pescoço e corpo, restringindo-o mais e mais. E uma dor letárgica, espinhosa, enroscava-se contra seu peito, fincando-se profundamente ao crescer e espalhar-se como uma praga. Não tinha controle sobre, apenas podia senti-la, e isso era sufocante.
Estava perdendo Harry, ele sabia disso. Sabia que estava perdendo a única coisa que ainda lhe oferecia uma razão de vida, que lhe oferecia uma redenção para sua própria alma; todavia, não tinha ideia de como impedir isso. Sentia-se derrotado, aprisionado dentro de sua própria mente, vendo o garotinho que ele havia sempre amado com toda a sua alma, e que estava determinado a proteger, esvair-se por entre seus dedos, como areia. Não importava o quanto Norman tentasse encontrar uma maneira de justificar-se, de tentar acertar-se com seu filho, parecia que tudo, simplesmente tudo, era em completo vão. Questionou-se, pelo que pareceu ser a milésima vez, onde ele estava errado? Onde ele estava cometendo aquele maldito erro que não conseguia ver?! Onde estava perdendo seu filho…?
Só poderia esperar que Harry entendesse. Só podia esperar que, ao fim de tudo, Harry soubesse que Norman só estava fazendo o que estava fazendo porque desejava protegê-lo, porque precisava protegê-lo…
— Não consigo entender como é possível, mas de todos os lugares, o seu escritório sempre teve um cheiro muito mais agradável, Osborn. Me conta, qual é o seu segredo? — Norman se tencionou, prendendo sua respiração, enquanto seus olhos se abriam para deparar-se com a expressão sombria e divertida de Nicholas Scratch.
Norman trincou os dentes, sentindo o cheiro do outro homem atingir seu rosto como uma parede de tijolos desabando sobre si. Era discreto, quase disfarçado, por baixo do perfume parisiense caro, e das notas de bourbon que impregnavam a pele do outro homem, havia o cheiro impossível de não se perceber: agressivo e ácido de enxofre. Carne putrefata. Morte.Os olhos de Scratch pareceram cintilar conforme a luz límpida e pálida do escritório de Norman tocou sua íris; o brilho, por uma fração de segundos, quase passou a impressão de ser, na verdade, completamente amarelo e não humano. O momento havia sido rápido o suficiente para que Norman não se apegasse àquele detalhe; os olhos de Norman, todavia, repousaram nas roupas do outro homem. Observou o terno que Scratch usava, cuidadosamente feito sob medida, a alfaiataria claramente italiana, sob um tecido vermelho escuro que chegava a ser preto dependendo de como a iluminação tocava o material. A gravata, em um tom avermelhado mais claro, parecia reluzir como sangue sobre a camisa social branca e limpa que usava por baixo. Os sapatos italianos possuíam suas solas de um vermelho profundo, evidenciando sua originalidade, mas eram os anéis que ele possuía ao redor de seus dedos pálidos que mais chamavam atenção: dentre inúmeros anéis, um destacava-se, o que possuía a letra M.
Parecia ter sido feito sob medida, e o artesão tivera o cuidado para manter a assinatura de Scratch. Um selo, talvez inspirado na época medieval onde lordes possuíam carimbos para timbrar papéis e selos de cera. Instintivamente, quase de forma inconsciente, Norman levou a ponta de seus dedos esquerdos em direção à marca que possuía atrás de sua orelha. As unhas encontraram novamente aquele amontoado de pele em relevo que formava o círculo com a letra M gravada em sua pele.
— Minha assistente disse que você queria uma conferência — Norman retorquiu, ignorando completamente a provocação de Scratch, indicando com um gesto seco e econômico para que seu sócio se sentasse à sua frente. — Pois bem, diga-me, o que era assim tão urgente que desejava conversar comigo, Scratch?
Nicholas por um momento apenas encarou Norman Osborn.
Os olhos do outro homem fizeram aquela coisa estranha outra vez, como um réptil piscando, por uma fração de momentos parecendo ficar completamente amarelos antes de voltarem ao normal. Norman exalou entre dentes, maldizendo-se por não ter se obrigado ao menos a tomar café aquela manhã; estava começando a alucinar, e não eram dez horas ainda.
Nicholas ajustou seu terno deliberadamente, seus olhos percorrendo o escritório de Norman com uma ponta de desdém aparente, embora houvesse curiosidade na maneira com que havia demorado-se nas fotografias sobre a mesa de Osborn. Uma de Emily, linda e apaixonante, com aquele sorriso doce preso em seus lábios, ao aconchegar-se no braço esquerdo de Norman que havia sabiamente se recortado do frame para não roubar a presença brilhante que Emily havia possuído, e outra era de Norman com Harry, bem pequeno, talvez com não mais do que apenas 4 anos, posando de maneira imponente diante da cobertura luxuosa que viria a tornar-se sua casa. O sorriso de Scratch tornou-se mais afiado, perigoso, ao voltar seus olhos para o rosto de seu sócio. Norman inspirou fundo, tentando controlar o impulso de agarrar Scratch pelo colarinho e comandar que ele fosse atirado para fora de seu prédio, ao invés de, em vez disso, oferecer um balançar de sua cabeça, tentando parecer respeitoso com o outro.
— O que Octavius está tramando agora? — Scratch questionou, direto e sem hesitações, e por um segundo Norman sentiu o ar ser roubado de seus pulmões ao encarar o outro com surpresa e irritação.
Nicholas Scratch, todavia, apenas devolveu o gesto com um sorriso preguiçoso, afiado. A iluminação pálida do espaço recaiu novamente sobre o rosto de ângulos finos e elegantes de Nicholas, acentuando os caninos dele. Pareciam mais afiados do que de fato eram, e isso incomodou Norman. O quanto ele não havia observado com mais cuidado em Nicholas para deixar que pequenos detalhes como aqueles escapassem tão facilmente?
— A sessão subterrânea dos laboratórios é proibida para acesso de pessoas não autorizadas, Scratch, por um motivo, você melhor do que ninguém deveria saber disso — Norman rosnou, baixo, impaciente. Seus olhos queimam o rosto elegante de Scratch, trincando os dentes com um pouco mais de força. — Não queremos que outro incidente ocorra, queremos? Já não tivemos o suficiente?
Scratch pareceu tirar um momento para analisar a escolha de palavras de Norman, mas seu sorriso permaneceu firme em seus lábios. O homem inclinou sua cabeça para o lado, estreitando os olhos, ao deixar seu queixo repousar na palma de sua mão, o dedo médio arranhando, distraído, o queixo coberto pela barba rala e bem-feita.
— Talvez eu tenha cometido um erro, e por isso, devo pedir perdão a você — Scratch disse lentamente, suas palavras sendo enunciadas com cuidado, como se Nicholas estivesse tentando dar a entender que estava falando com uma criança pequena, e não Norman. E se o ato possuía o único propósito de tirar Osborn do sério, então, Nicholas Scratch estava fazendo um excelente trabalho. — Mas, porventura, diga-me, velho amigo, não fui eu quem lhe deu tudo isso aqui?
Norman engoliu em seco. Retirou suas mãos de cima da mesa e repousou-as sobre seu colo, a fim de afastá-las da visão de Scratch. Suas mãos se fecharam em punhos firmes, os nós de seus dedos ficaram esbranquiçados com a forma que imprimia no gesto; o tremor, ainda que pequeno e discreto, estava presente nos músculos tensionados. Ainda assim, teve o cuidado, todavia, de manter sua expressão neutra, distante, imperturbável.
— Não me lembro de ter oferecido minhas pesquisas e projetos como parte de sua barganha, Scratch — Norman observou o outro deixar-se recostar contra a cadeira à sua frente, o polegar girando o anel com a marca M sem perceber. A luz tocou o objeto por uma fração de segundos, chamando a atenção de Osborn para o anel do outro homem. Sua garganta pareceu ficar ainda mais seca.
— A barganha que fizemos é clara. Posso não ter uma boa reputação, velho amigo, mas ainda assim tenho honra em minha palavra — Scratch disse lentamente, por fim, ao dar de ombros com aquele desinteresse e tédio estranho que sempre parecia acompanhá-lo como uma sombra. Poucas coisas pareciam entreter o magnata; Norman Osborn não era uma delas. — Eu prometi que daria o que você quisesse, se você me desse o que desejo. Já faz quase seis anos, Norman Osborn, e a minha parte do acordo está cumprida, e, no entanto, a sua…
Norman moveu sua mandíbula, sem conseguir conter sua própria impaciência.
— Já lhe disse, preciso de mais tempo! Octavius sequer tem… — Norman tentou argumentar, mas um gesto da mão de Scratch o silenciou. Osborn engoliu em seco, sentindo a tensão aumentar em seus ombros, observando o outro homem atentamente, buscando, quase desesperado, por alguma vulnerabilidade que ele pudesse usar contra Scratch.
Mas não havia nenhuma.
— Eu dei a você o tempo que precisava, Norman Osborn — Nicholas retorquiu devagar, mas firme. Sua voz soou mais autoritária do que de fato era, e um arrepio percorreu o corpo de Osborn, o medo instalando-se em seu abdômen, notas gélidas de medo percorrendo seu peito como correntes pesadas, arrastando-se por sua pele, prendendo-o, imóvel, em seu lugar.
Nicholas Scratch estreitou os olhos, suas narinas inflando ao inclinar sua cabeça suavemente para a esquerda. Então, lá estava, aquele sorriso perturbador se espalhando outra vez pelos lábios de Scratch, os olhos mortos, desprovidos de quaisquer traços de humanidade. Eram naqueles pequenos momentos que o Vale da Estranheza despertava a desconfiança na mente de Norman, e o homem temia ver a resposta que ocultava no fundo, de sua mente.
— Ora, Norman, meu velho amigo! Não me olhe assim! Desde quando eu deixaria você sem auxílio?! Você sabe que não sou um monstro. — Norman forçou-se a sustentar o olhar de Nicholas, erguendo o queixo de forma desafiadora, embora o medo o tivesse deixado imóvel. O sibilo, quase imperceptível nas palavras de Scratch, enviou uma nota de arrepios pelo corpo de Osborn, como sempre acontecia quando Scratch agia daquela forma. Um piscar, e os olhos de Scratch se tornam amarelados de novo, apenas para desaparecer no segundo seguinte. — De fato, eu tenho exatamente o que você precisa para finalizar a sua parte da barganha.
Norman uniu as sobrancelhas, mas nada disse.
Scratch levou a mão esquerda em direção à lapela de seu terno italiano, retirando do bolso interno o que parecia ser um pequeno objeto. Tão diminuto, que os olhos de Norman sequer pareceram registrar o que Scratch estava estendendo em sua palma da mão, até que estivesse a alguns centímetros de distância. Inicialmente, Norman acreditou tratar-se de apenas mais um dos truques de Scratch. Ainda que fosse um magnata sócio da Oscorp, Scratch ainda tinha um lado propenso ao ocultismo e ilusionismo que aborrecia Norman, mais do que o divertia. Tencionando sua mandíbula, ele estreitou os olhos analisando a criatura, agora morta, na palma da mão de Scratch. As pernas estavam quebradas, apontando para ângulos opostos, mas sua coloração permanecia intacta: azul-escuro, com manchas e marcas vermelhas vibrantes. Norman exalou baixo, surpreso, voltando seu olhar para Scratch com uma pergunta silenciosa pairando por seu rosto austero e controlado. Scratch, todavia, ofereceu apenas um sorriso sarcástico para Osborn.
— A mesma que escapou do seu laboratório, meu velho amigo, a mesma… — Scratch provocou vagarosamente, os dentes afiados expostos em seu sorriso, enquanto Norman tentava digerir suas palavras. Por uma fração de segundos, ele teve uma epifania, conectando os pontos e encontrando as peças necessárias para encontrar as respostas que tanto buscava naqueles últimos anos.
— A mesma que criou o Homem-Aranha — Norman cuspiu as palavras, uma ponta de desprezo permeando sua voz sempre contida, mas havia, igualmente, em sua intensidade, um vislumbre de esperança. Um vislumbre de um sucesso há muito apenas empírico.
Scratch fechou a palma de sua mão abruptamente, puxando-a de volta, antes de confirmar a afirmação de Osborn com um balançar de sua cabeça. Deixou-se recostar novamente na cadeira, apoiando seus braços sobre os encostos da cadeira, como se estivesse sentado em um trono. Os olhos, cintilando perigosamente como os de um gato, incandescentes, sombrios.
— Ele virá até você. — Norman uniu as sobrancelhas em desconfiança das palavras de Scratch. Não era sábio confiar em Scratch, havia tempo suficiente de convivência entre os dois para que ele soubesse que nada era entregue gratuitamente. Tudo era uma troca, e Nicholas Scratch nunca saía de uma barganha perdendo. — Tudo o que precisa fazer é pedir para que seu rato de laboratório pegue um pouco do sangue dela, e crie um soro. Você terá o Homem-Aranha na palma de sua mão, e eu… terei o que você me prometeu. Com uma condição — Scratch ergueu o indicador com um olhar em forma de aviso para Osborn. — A garota, nada acontece com ela.
Norman ergueu uma sobrancelha, surpreso e descrente com as palavras de Scratch. Deixou-se até mesmo rir um pouco, de incredulidade, com a exigência do outro. Nicholas Scratch? Importar-se com algo? Seria o mesmo que apontar para a lua e dizer que era aquilo o maior planeta do sistema solar, não apenas pura estupidez, mas tão incabível que sequer chegava a ser considerado. Não… não, não, deveria haver algo a mais ali, algo nas entrelinhas que Norman não estava conseguindo enxergar corretamente ainda. Algo que ele havia deixado escapar. Nicholas Scratch nunca fazia algo sem ter um planejamento prévio, se sua exigência era deixar ela viva — fosse lá quem fosse a garota a que Scratch se referia —, então era porque havia muito mais naquela história do que Norman sabia.
— E eu devo acatar essa exigência por quê…? — Norman pausou, sugestivamente, sua voz baixa e controlada, evidenciando seu estado estupefato.
— Além do óbvio, com ela sendo sua melhor ferramenta para capturar o Homem-Aranha? — Scratch ecoou com um sorriso discreto, mas menos afiado ou sádico. Os dentes expostos parecendo mais afiados do que de fato eram. — Porque ela é minha filha, velho amigo.
Limbo • Agora
Voltar à vida foi como quebrar a superfície de um rio congelado.
Ela tremeu. Inspirou profundamente, o ruído engasgado escapou, rouco e desesperado, por entre os lábios abertos, em uma tentativa de inspirar o máximo de oxigênio que conseguia, desesperada para aliviar a pressão dolorosa que se espalhava por seus pulmões. Dor esta que se parecia com ondas, chocando-se, devastadora, em seu peito, acompanhando-a como espectros a cada movimento que fazia, ao arrastar-se para fora do casulo.
O choque da queda reverberou pelo corpo inteiro, como eletricidade, e por um longo momento, tudo o que conseguiu sentir era dor. O chão abaixo de si era plano, gélido e uniforme; a sensação estranha por baixo da pele nua, escorregadia com algum tipo de coisa que se lembrava a um muco, viscoso e estranhamente cálido contra o corpo, criava uma pequena sensação momentânea de alívio. Ela arfou uma, duas, três, quatro vezes.
Havia uma sensação sufocante de amortecimento por seu corpo inteiro, como se de repente este não mais lhe pertencesse. Tentou rolar para a esquerda, pressionando com força a barriga contra o chão de cimento queimado, o baque suave de seu ombro e mesmo bochecha contra o concreto ecoou com um ruído molhado, nojento, mas desta vez, não a alcançou. Seus ouvidos estavam zunindo; um barulho que se iniciava langoroso, crescendo, bem devagar, até se tornar a única coisa que era capaz de ouvir. Pulsando, em ritmo com os batimentos cardíacos, arrítmicos, quase dolorosos em seu peito. Ela soltou um engasgo baixo, tentando tatear o chão, os olhos se moveram ansiosamente ao redor, tentando desesperadamente registrar alguma coisa, qualquer coisa que seja, mas não há nada. Ela estava no vazio.
Ela fechou os olhos com força.
Havia algo errado. Algo faltando dentro de si, mas ela não poderia saber dizer ao certo o que havia perdido. Podia sentir que algo havia desaparecido dentro de si, podia perceber as lacunas que se formavam por sua mente, embaralhando-se e revirando-se em um turbilhão de emoções desconhecidas que não possuíam lugares fixos. Tentou lembrar o que poderia ter acontecido com ela. Tentou recordar-se o que diabos poderia ter feito para acordar em um lugar completamente escuro como aquele, envolta por um pungente e atordoante aroma, quase terroso como ferrugem, que fazia com que sua língua adquirisse um gosto metálico, misturando-se com o amargor da bile que subia de seu estômago. Sentiu a contração familiar dos músculos de sua barriga, engasgando-se com o ar, mas nada saiu de sua garganta. Ofegante, ela franziu o cenho, congelando no lugar por um momento.
Ela era LaFay, a….
Quem era ela?
Percebeu, com um tremor gélido e elétrico percorrendo seu corpo inteiro, inflamando e deslocando-se como lascas afiadas de gelo por suas veias, pulsando. Ela não tinha ideia de quem ela era. Não tinha ideia de como havia acabado naquele lugar, sequer sabia que lugar era aquele. Não se lembrava de sua vida predecessora, sequer poderia ter certeza de que aquele nome: LaFay, realmente lhe pertencia. Não havia nada. Apenas vazio. Branco. Completo. E então, as dores a alcançaram.
Um grito rasgou-se por sua garganta, arranhando-a como garras afiadas e profundas, fincando-se na pele sensível de sua garganta e raspando-a até que nada restasse senão sangue e pedaços de carne. O grito, alto o suficiente para silenciá-la, deixou o gosto amargo de ferrugem em sua boca, mais profuso. Um espasmo percorreu seu corpo, fazendo-a chocar-se contra o chão com uma força que reverberava por seus ossos e crânio, sentindo algo romper com um sonoro crack e, então, começar a queimar.
Sentiu quando algo denso e pegajoso escorreu por seus braços, travados nas costas agora em ângulos antinaturais. Projetavam-se para fora do local em que ela sentia a queimação, deslizando pelas costas e acumulando-se na nuca, escorrendo lentamente, pingando, gota por gota, no centro abaixo de si. Escorreu devagar, porém persistente, por sua mandíbula antes de atingir os lábios dela. engasgou, cuspindo desesperada.
Sangue.
Outro espasmo a atingiu, fazendo-a contorcer-se no chão, e impulsionando-se para a direita com brutalidade. Sentiu o momento em que sua cabeça fez contato com o concreto. Suas costas arquearam, involuntariamente, e, antes que pudesse impedir-se, foi posta sentada, como uma boneca de pano sendo manuseada por mãos invisíveis e descuidadas. O impulso abrupto havia a levantado do chão, e, por uma fração de segundos, sentiu-se ser arrastada. Não havia nada que pudesse fazer, mesmo debater-se parecia impossível. Suas pernas se contorceram, uma é puxada para trás, com um sonoro crack, que fez estrelas explodirem por trás de seus olhos; seu corpo ficou amortecido e mole por uma fração de segundos. Tudo desapareceu ao seu redor.
Quando retornou à consciência, percebeu que estava pendurada. Os olhos tremeram, incertos e carregados pela tensão que agora reverbera por cada centímetro de seu corpo. Ela tentou se mover, tentou debater-se, mas estava presa, suspensa no ar, cingida. Ela ofegou, sentindo a pressão em seus pulmões aos poucos retornar com maior intensidade; seus lábios estavam secos, o gosto de bile e sangue misturava-se agora com a sensação sufocante de não conseguir respirar. Sua cabeça estava começando a ficar mais leve, girando pelo rarefeito falta de ar, enquanto ela tentava obrigar-se a respirar, mas quanto mais tentava sugar ar por entre suas narinas e sua boca entreaberta, mais parecia que ela não conseguia. Sua visão, outrora obscurecida, agora tornou-se um borrado incompreensível de formas, como um manto esbranquiçado de névoa, ou um vidro embaçado pela condensação. Ela conseguia discernir poucas coisas naquele breu desconcertante, os olhos ajustavam-se ao pouco de claridade que parecia escapar de cantos improváveis, como o teto alto, como o de um galpão — mas como ela poderia saber o que era um galpão?
Suspensos no ar, havia uma fileira extensa de casulos feitos de teias. Tão densos e apertados que tudo o que ela conseguia identificar eram meras silhuetas de corpos. Surpreendentemente, todavia, permaneciam todos estáticos, nem mesmo um mínimo movimento, e ela se questionou, para além do próprio horror, o que poderia ser capaz de manter algo suspenso assim. A pressão no peito dela aumentou, e ela passou a hiperventilar. Seu corpo inteiro estava dolorido, preso em ângulos antinaturais e agonizantes, mas agora começava a se amortecer. Seu coração estava martelando com intensidade, chocando-se tão rápido contra sua caixa torácica que parecia que iria explodir. Por um breve momento, ela teve a completa certeza de que iria morrer ali. Não havia como escapar. E ela sentiu um profundo, gélido, e agonizante medo espalhar-se e dominar todos os seus pensamentos.
De repente tudo pareceu perder o sentido.
Por que faria? Iria morrer! Estava presa entre teias de aranha, estás de aparência tão frágil, a sustentavam no ar, longe o suficiente do chão para que ela soubesse que, se porventura conseguisse livrar algum de seus membros, a queda inevitável terminaria o trabalho. Ela tentou gritar, uma última vez, quando a teia se rompeu.
A queda foi imediata, e ela esperou pelo impacto.
Mas nunca aconteceu.
Ao invés disso, quando ela abriu seus olhos, com um ofego assustado, percebeu-se esparramada sobre um chão de porcelanato branco e encerado, refletindo seu rosto machucado, o sangue pingando por entre os cantos de seus lábios e seus olhos, formando uma pequena poça abaixo de si. Tentou se levantar, ou ao menos, se colocar sentada, embora seus membros estivessem pesados e amortecidos, mas congelou no mesmo segundo quando sapatos italianos pararam à sua frente.
tremeu, arregalando os olhos ao observar aranhas deslizarem por dentro de seus sapatos, subindo pelas pernas do homem. Pavor espalhou-se por seu peito, os músculos de seu corpo se tencionaram ao observar os aracnídeos se aproximarem de si. Ela poderia não ter ideia de quem realmente era, mas podia sentir nos seus ossos, cravado fundo em sua alma, o medo por aquelas criaturas. Algo estava errado dentro de si, algo havia mudado, e ela tinha certeza de que tinha conexão com aqueles malditos aracnídeos. Seus pensamentos se dissiparam completamente quando as mãos gélidas e, estranhamente, ossudas, pressionaram contra sua pele, unhas afiadas cortando suas bochechas.
— Diga-me, querida, você quer continuar a viver? — Um sorriso felino surgiu pelos lábios do homem, expondo dentes afiados, e olhos amarelados. Ela tremeu, em pânico, mas seu instinto de sobrevivência gritou mais alto. Assentiu, sufocando suas próprias lágrimas. O sorriso do homem se expandiu, a luz ao redor deles tremeluziu e, por uma fração de segundos, ela conseguiu ver como ele realmente era: pele vermelha profunda, olhos amarelos inumanos e chifres retorcidos. Mas então, quando ela piscou, o rosto do homem se parecia com o seu. — Então prometa-me sua alma, querida. Diga meu nome.
Ela hesitou, mas antes que pudesse sequer pensar em responder, as palavras escaparam de seus lábios, como se possuíssem vida própria, desejo próprio:
— Lorde Mephisto.