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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 01/10/2025

PARTE UM • THE BITE.


Manhattan • Um Ano Antes.


Refletindo contra o piso de porcelanato recentemente encerado, as solas dos sapatos italianos estalavam ritmadamente. O ruído alto e urgente, ecoando vago pelos corredores vazios, acompanhava os movimentos bruscos do homem em direção à sua sala.
Os olhos escuros desviaram-se momentaneamente dos papéis que ele possuía em suas mãos. As pastas, escuras e protocoladas como acesso restrito, estavam parcialmente abertas, revelando um conteúdo espesso e detalhado de experimentos não autorizados ocorrendo no subsolo daquela empresa. O gosto amargo e pungente em sua língua não o incomodava mais, mesmo que sua própria humanidade o perturbasse. Questionava-se internamente até onde ele estaria disposto a ir para conseguir o que desejava, e a resposta, bem… a resposta era bem mais sombria do que ele desejava que fosse. O conflito tornava-se quase físico, a sensação de que seu corpo estava lentamente se dividindo em duas metades distintas, se contorcendo e lutando contra si mesmo para livrar-se daquela maldita casca vazia. Folhas e mais folhas organizadas com cuidado, apresentando pequenos carimbos avermelhados de confidencialidade, e dois de comprometido, evidenciavam o progresso que estavam tendo, não apenas nos últimos dias, como, igualmente, durante aqueles meses que se seguiram. As anotações vinham do Doutor Octavius, análises detalhadas das estimativas de progressões para os próximos experimentos.
Nenhuma era animadora, e Norman Osborn sentiu a frieza e tensão que acompanhava o desespero.
Alçando o pequeno pedaço de plástico revestido por segurança do bolso de seu terno, Osborn pressionou o cartão de liberação para sua sala contra a tranca lisa e tecnológica. Os dedos do homem instintivamente tocaram o pequeno relevo da marca que acompanhava a tranca. Indústrias Stark. Era surpreendente que a empresa na verdade fornecesse os melhores aparelhos de segurança, embora não fosse capaz de oferecer um herói útil. Tony Stark sempre havia sido um grande parceiro da Oscorp, até, bem, até retornar do Iraque com uma nova alma, uma bomba-relógio em seu peito, e a mentalidade de herói patético.
A raiva inflamou-se em seu peito enquanto Norman empurrava a porta de vidro de seu escritório. Os passos tornaram-se abafados ao tocarem no elegante carpete felpudo que envolvia a entrada de seu escritório. Era uma visão deslumbrante de Manhattan que Norman possuía. Não melhor do que sua cobertura no centro residencial de Upper East Side, mas certamente bela o suficiente para fazer com que seu sangue percorresse suas veias quentes e pulsantes, a sensação de ter a cidade inteira na palma de suas mãos, o poder de controlá-los como desejasse. Era intoxicante. E não menos verdadeiro. Ele umedeceu seus lábios secos, engolindo de maneira abrupta ao jogar as pastas sobre sua mesa, unindo-as junto com as outras inúmeras que já estavam dispostas em seu escritório para análise, além dos produtos normais que os Laboratórios Oscorp ofereciam para o mundo inteiro. Seu império não era composto pelos experimentos perigosos de Octavius, não, longe disso. Seu império, antes de qualquer coisa, era uma inovação na área de biotecnologia e farmácia. Norman Osborn havia primeiro se tornado quem era, para depois deixar-se desvirtuar em busca de algo que pudesse o fazer ter certeza de que não perderia mais ninguém…
Não era o poder que Norman queria. Era algo mais importante do que ele poderia comparar, algo que ele não havia podido oferecer para Emily Lyman, sua falecida esposa, mas que não hesitaria em ter certeza de que seu filho o teria. Proteção. A cura para a doença que os afligia, ou, ao menos, que o pai de Norman havia feito afligir.
Norman moveu sua mandíbula com um estalo baixo, levando sua mão direita trêmula em direção ao seu pescoço, os dedos calejados pela caneta que usava todos os dias, enroscaram-se em sua gravata, um gesto quase desesperado, ao puxar sem muita delicadeza o nó para baixo, tentando libertar-se do aperto do objeto contra sua garganta. Teria engolido em seco, se seus olhos não tivessem repousado, quase instintivamente, no espelho que emoldurava a pequena faixa de drywall que se dividia entre a entrada do escritório e as janelas panorâmicas que ofereciam a visão de tirar o fôlego de Manhattan.
Norman engoliu em seco, tencionando sua mandíbula; seus dedos ásperos se desvirtuaram da gola de sua camisa social branca para encontrar-se com a pele cálida de seu pescoço, as unhas fincando-se contra a pele, sentindo seus próprios batimentos cardíacos contra as pontas de seus dedos e unhas ao percorrer sua carótida, até repousarem sobre a pequena marca de pele em relevo abaixo de sua orelha. Não era como uma cicatriz, embora Norman tivesse certamente dito a todos que não passava de um acidente que ele tivera quando era pequeno. Havia tentado andar de bicicleta, mas, como sempre, Amberson Osborn, seu pai, estava ocupado demais com seus fracassos empresariais para sequer notar o que diabos seu filho estava fazendo na rua. A queda da bicicleta havia aberto um corte, que posteriormente havia se tornado aquela cicatriz. Esta era a história que Norman Osborn contava a todos. Era a história que, por vezes, ele mesmo havia quase conseguido se convencer de que era verdade; se fechasse os olhos por tempo o suficiente e dissesse que nada mais havia acontecido, Norman teria acreditado como quaisquer outras pessoas ao ouvir seu conto. Mas, diferente de todos, Norman jamais poderia apagar a significância daquela marca, e muito menos o que ela atrelava para sua vida; para sua alma.
Norman deixou suas próprias unhas percorrerem a pele em relevo, traçando, distraidamente, as formas que adquiriram; o símbolo arredondado terminava com cinco cortes afiados, formando quase o que poderia vir a ser a letra do alfabeto ocidental M. Tensionou com mais força sua mandíbula, empurrando as pontas de suas unhas contra a marca, tentado a cortá-la, tentado a, mais uma vez, arrancá-la de seu pescoço, embora soubesse perfeitamente que não importava o quanto ele tentasse raspar, rasgar e arrancar aquela parte de si, ela sempre iria retornar, no mesmo lugar, intacta.
Uma pequena picada aguda percorreu a pele fina de seu pescoço, quando as unhas se cravaram mais fundo em sua pele, apenas para ser interrompido pelos toques rápidos e hesitantes de sua assistente contra a porta de vidro. Norman não se surpreendeu, embora o gesto abrupto tenha-o feito congelar no lugar. Tomou cuidado para manter sua expressão o mais vaga possível, indiferente, fingindo que estava ajeitando a gola de sua camisa social, ao ordenar que sua assistente entrasse em sua sala.
Qual era o nome dela mesmo? Norman tentou buscar ao fundo de sua mente por algum indicativo, alguma conversa ou até mesmo comentário feito recentemente que o lembrasse de quem era aquela mulher, mas, verdade seja dita, ela era apenas mais um rosto qualquer na infinidade de outros rostos que ele precisava lidar diariamente. Sabia que era algo rude, mas tampouco parecia conseguir encontrar dentro de si algo que o convencesse de que se importava. Desde que ela fizesse seu trabalho corretamente, Norman estaria satisfeito. Na maior parte do tempo, Osborn desejava apenas estar sozinho, ruminando as novas informações que Octavius havia lhe enviado, do que lidar com qualquer pessoa externa de fato.

— Senhor? Senhor Osborn? — O chamado o irritou um pouco, mas não o suficiente para que isso ficasse exposto no rosto de Norman.

O tremor na voz de sua assistente evidenciava um nível de medo que ele causava naturalmente nas outras pessoas. Norman sabia que sua posição e seu prestígio o tornavam perigoso, e seu silêncio poderia ser compreendido por muitos como um mistério, embora convidativo, perigoso e imprevisível, mas era a maneira com que ela havia engolido em seco, a maneira com que hesitou como se estivesse andando sobre ovos, que o incomodou de fato. Norman Osborn estava começando a odiar aquele sentimento: o de ser observado como um animal selvagem enjaulado. Como se estivesse a um passo de uma iminente explosão, Norman exalou por entre seus lábios, o ar deixando seus pulmões cálidos e com um leve aroma da bala de hortelã que havia sido seu café da manhã. Alçou da bandeja de prata repousada à sua direita, um pouco mais abaixo do espelho, a garrafa de cristal elaborada e cara que havia ganhado de um de seus sócios empresariais, e colocou uma boa dose de whisky em seu copo, levando-o primeiro ao seu nariz, inspirando fundo a fim de sentir o aroma da bebida e certificar-se de que era a que gostava, antes de levá-lo aos lábios, saboreando-a.

— Senhor, desculpe o incomodo, mas o Sr. Scratch está aqui e exige por uma audiência com o senhor. Já tentamos dissuadi-lo, mas… o Sr. Scratch é insistente.

Norman pausou por um momento, estreitando os olhos, absorvendo as palavras de sua assistente antes de virar-se na direção dela. Por um momento, buscou em seu rosto alguma coisa que deixasse exposta a mentira de suas palavras. Buscou por quaisquer traços que pudessem expor alguma agenda oculta ou até mesmo uma tentativa de distraí-lo de seus reais deveres naquela manhã, mas tudo o que encontrou foi o olhar patético e frágil de uma mulher que estava aterrorizada com sua presença ao mesmo tempo que se encantava.

— Muito bem, peça que ele entre então — Osborn disse calmamente, sua voz quase monótona, caminhando em direção a sua mesa, repousando o copo de cristal entre as pastas pretas e as folhas dos projetos de Octavius.

Fez um trabalho rápido em organizá-las, unindo suas sobrancelhas, hesitando por uma fração de segundos, se questionando internamente se deveria perguntar à sua assistente sobre ou apenas deixar o assunto em silêncio. A parte de autopreservação de sua mente estava gritando para que ele simplesmente deixasse o assunto quieto, Harry viria até si em seu tempo, como sempre havia feito. Norman não precisava se preocupar com seu filho, tinha assuntos mais importantes para focar, mas então, havia aquela outra parte de si: a parte que havia pertencido à Emily e que havia morrido com ela.

— Senhorita…
— Hollister, senhor — Sua assistente apressou-se em concluir a frase para ele, e Norman assentiu em um gesto discreto de gratidão. Senhorita Hollister, este era o nome dela, Norman fez uma anotação mental para não se esquecer disso futuramente.
— Senhorita Hollister, teve notícias de Harry? — Norman ergueu a linha de seu olhar dos papéis que tinha espalhados sobre sua mesa, e então encarou sua assistente em um silêncio desconfortável crescente.

Hollister pareceu surpresa com a pergunta, muito provavelmente estranhando o tópico que quase nunca surgia em suas conversas profissionais. Norman estreitou os olhos, observando-a parecer calcular e escolher suas melhores palavras para usar com ele, e algo quente e volátil espiralou por trás de sua mente, garras pequenas, mas que começavam a ganhar pequenas proporções maiores ao fundo de sua mente, se deixassem escapar, fincando-se ao fundo de sua mente, arrastando-se, bem devagar, de volta para a superfície de sua consciência.

— Ele está bem, Senhor Osborn. Disse que já se instalou no dormitório da universidade, e que até mesmo já fez alguns amigos por lá. Disse que virá visitá-lo este fim de semana — Hollister respondeu educadamente, mas não conseguiu fazer com que seu tom tenso passasse despercebido pelos ouvidos atentos de Osborn. Norman tensionou a mandíbula, inspirando fundo, concentrando-se na tarefa em suas mãos, mesmo que seu impulso fosse simplesmente agarrá-la pelos ombros e a chacoalhar até que lhe desse uma resposta direta. O que ela estava escondendo de Norman? Por que todos ao seu redor sempre escondiam alguma coisa de si?
— Cancele. Diga a Harry que este fim de semana não poderei encontrá-lo. Diga que o compensarei durante a próxima semana, com um jantar, como nos velhos tempos — É tudo o que Norman disse para sua assistente antes de acenar com a cabeça, indicando que não desejava mais a sua presença ali.

Norman deixou-se sentar em sua cadeira de couro escura e estofada com um grunhido baixo. Fechou os olhos com força, levando sua mão esquerda em direção aos seus olhos, massageando suas têmporas. Era estranho, era um homem mais velho do que imaginara um dia tornar-se, mas estava em boa forma, tinha hábitos saudáveis e, talvez, seu único vício fosse o trabalho. Ele não deveria estar sentindo dor àquela hora da manhã, mas, ainda assim, sentia-se como se um contêiner de sua empresa tivesse sido disposto bem em cima de seu peito, como se amarras que o envolvessem desde sua infância tivessem se estreitado novamente ao redor de seu pescoço e corpo, restringindo-o mais e mais. E uma dor letárgica, espinhosa, enroscava-se contra seu peito, fincando-se profundamente ao crescer e espalhar-se como uma praga. Não tinha controle sobre, apenas podia senti-la, e isso era sufocante.
Estava perdendo Harry, ele sabia disso. Sabia que estava perdendo a única coisa que ainda lhe oferecia uma razão de vida, que lhe oferecia uma redenção para sua própria alma; todavia, não tinha ideia de como impedir isso. Sentia-se derrotado, aprisionado dentro de sua própria mente, vendo o garotinho que ele havia sempre amado com toda a sua alma, e que estava determinado a proteger, esvair-se por entre seus dedos, como areia. Não importava o quanto Norman tentasse encontrar uma maneira de justificar-se, de tentar acertar-se com seu filho, parecia que tudo, simplesmente tudo, era em completo vão. Questionou-se, pelo que pareceu ser a milésima vez, onde ele estava errado? Onde ele estava cometendo aquele maldito erro que não conseguia ver?! Onde estava perdendo seu filho…?
Só poderia esperar que Harry entendesse. Só podia esperar que, ao fim de tudo, Harry soubesse que Norman só estava fazendo o que estava fazendo porque desejava protegê-lo, porque precisava protegê-lo…

— Não consigo entender como é possível, mas de todos os lugares, o seu escritório sempre teve um cheiro muito mais agradável, Osborn. Me conta, qual é o seu segredo? — Norman se tencionou, prendendo sua respiração, enquanto seus olhos se abriam para deparar-se com a expressão sombria e divertida de Nicholas Scratch.

Norman trincou os dentes, sentindo o cheiro do outro homem atingir seu rosto como uma parede de tijolos desabando sobre si. Era discreto, quase disfarçado, por baixo do perfume parisiense caro, e das notas de bourbon que impregnavam a pele do outro homem, havia o cheiro impossível de não se perceber: agressivo e ácido de enxofre. Carne putrefata. Morte.Os olhos de Scratch pareceram cintilar conforme a luz límpida e pálida do escritório de Norman tocou sua íris; o brilho, por uma fração de segundos, quase passou a impressão de ser, na verdade, completamente amarelo e não humano. O momento havia sido rápido o suficiente para que Norman não se apegasse àquele detalhe; os olhos de Norman, todavia, repousaram nas roupas do outro homem. Observou o terno que Scratch usava, cuidadosamente feito sob medida, a alfaiataria claramente italiana, sob um tecido vermelho escuro que chegava a ser preto dependendo de como a iluminação tocava o material. A gravata, em um tom avermelhado mais claro, parecia reluzir como sangue sobre a camisa social branca e limpa que usava por baixo. Os sapatos italianos possuíam suas solas de um vermelho profundo, evidenciando sua originalidade, mas eram os anéis que ele possuía ao redor de seus dedos pálidos que mais chamavam atenção: dentre inúmeros anéis, um destacava-se, o que possuía a letra M.

Parecia ter sido feito sob medida, e o artesão tivera o cuidado para manter a assinatura de Scratch. Um selo, talvez inspirado na época medieval onde lordes possuíam carimbos para timbrar papéis e selos de cera. Instintivamente, quase de forma inconsciente, Norman levou a ponta de seus dedos esquerdos em direção à marca que possuía atrás de sua orelha. As unhas encontraram novamente aquele amontoado de pele em relevo que formava o círculo com a letra M gravada em sua pele.

— Minha assistente disse que você queria uma conferência — Norman retorquiu, ignorando completamente a provocação de Scratch, indicando com um gesto seco e econômico para que seu sócio se sentasse à sua frente. — Pois bem, diga-me, o que era assim tão urgente que desejava conversar comigo, Scratch?

Nicholas por um momento apenas encarou Norman Osborn.
Os olhos do outro homem fizeram aquela coisa estranha outra vez, como um réptil piscando, por uma fração de momentos parecendo ficar completamente amarelos antes de voltarem ao normal. Norman exalou entre dentes, maldizendo-se por não ter se obrigado ao menos a tomar café aquela manhã; estava começando a alucinar, e não eram dez horas ainda.
Nicholas ajustou seu terno deliberadamente, seus olhos percorrendo o escritório de Norman com uma ponta de desdém aparente, embora houvesse curiosidade na maneira com que havia demorado-se nas fotografias sobre a mesa de Osborn. Uma de Emily, linda e apaixonante, com aquele sorriso doce preso em seus lábios, ao aconchegar-se no braço esquerdo de Norman que havia sabiamente se recortado do frame para não roubar a presença brilhante que Emily havia possuído, e outra era de Norman com Harry, bem pequeno, talvez com não mais do que apenas 4 anos, posando de maneira imponente diante da cobertura luxuosa que viria a tornar-se sua casa. O sorriso de Scratch tornou-se mais afiado, perigoso, ao voltar seus olhos para o rosto de seu sócio. Norman inspirou fundo, tentando controlar o impulso de agarrar Scratch pelo colarinho e comandar que ele fosse atirado para fora de seu prédio, ao invés de, em vez disso, oferecer um balançar de sua cabeça, tentando parecer respeitoso com o outro.

— O que Octavius está tramando agora? — Scratch questionou, direto e sem hesitações, e por um segundo Norman sentiu o ar ser roubado de seus pulmões ao encarar o outro com surpresa e irritação.

Nicholas Scratch, todavia, apenas devolveu o gesto com um sorriso preguiçoso, afiado. A iluminação pálida do espaço recaiu novamente sobre o rosto de ângulos finos e elegantes de Nicholas, acentuando os caninos dele. Pareciam mais afiados do que de fato eram, e isso incomodou Norman. O quanto ele não havia observado com mais cuidado em Nicholas para deixar que pequenos detalhes como aqueles escapassem tão facilmente?

— A sessão subterrânea dos laboratórios é proibida para acesso de pessoas não autorizadas, Scratch, por um motivo, você melhor do que ninguém deveria saber disso — Norman rosnou, baixo, impaciente. Seus olhos queimam o rosto elegante de Scratch, trincando os dentes com um pouco mais de força. — Não queremos que outro incidente ocorra, queremos? Já não tivemos o suficiente?

Scratch pareceu tirar um momento para analisar a escolha de palavras de Norman, mas seu sorriso permaneceu firme em seus lábios. O homem inclinou sua cabeça para o lado, estreitando os olhos, ao deixar seu queixo repousar na palma de sua mão, o dedo médio arranhando, distraído, o queixo coberto pela barba rala e bem-feita.

— Talvez eu tenha cometido um erro, e por isso, devo pedir perdão a você — Scratch disse lentamente, suas palavras sendo enunciadas com cuidado, como se Nicholas estivesse tentando dar a entender que estava falando com uma criança pequena, e não Norman. E se o ato possuía o único propósito de tirar Osborn do sério, então, Nicholas Scratch estava fazendo um excelente trabalho. — Mas, porventura, diga-me, velho amigo, não fui eu quem lhe deu tudo isso aqui?

Norman engoliu em seco. Retirou suas mãos de cima da mesa e repousou-as sobre seu colo, a fim de afastá-las da visão de Scratch. Suas mãos se fecharam em punhos firmes, os nós de seus dedos ficaram esbranquiçados com a forma que imprimia no gesto; o tremor, ainda que pequeno e discreto, estava presente nos músculos tensionados. Ainda assim, teve o cuidado, todavia, de manter sua expressão neutra, distante, imperturbável.

— Não me lembro de ter oferecido minhas pesquisas e projetos como parte de sua barganha, Scratch — Norman observou o outro deixar-se recostar contra a cadeira à sua frente, o polegar girando o anel com a marca M sem perceber. A luz tocou o objeto por uma fração de segundos, chamando a atenção de Osborn para o anel do outro homem. Sua garganta pareceu ficar ainda mais seca.
— A barganha que fizemos é clara. Posso não ter uma boa reputação, velho amigo, mas ainda assim tenho honra em minha palavra — Scratch disse lentamente, por fim, ao dar de ombros com aquele desinteresse e tédio estranho que sempre parecia acompanhá-lo como uma sombra. Poucas coisas pareciam entreter o magnata; Norman Osborn não era uma delas. — Eu prometi que daria o que você quisesse, se você me desse o que desejo. Já faz quase seis anos, Norman Osborn, e a minha parte do acordo está cumprida, e, no entanto, a sua…

Norman moveu sua mandíbula, sem conseguir conter sua própria impaciência.

— Já lhe disse, preciso de mais tempo! Octavius sequer tem… — Norman tentou argumentar, mas um gesto da mão de Scratch o silenciou. Osborn engoliu em seco, sentindo a tensão aumentar em seus ombros, observando o outro homem atentamente, buscando, quase desesperado, por alguma vulnerabilidade que ele pudesse usar contra Scratch.

Mas não havia nenhuma.

— Eu dei a você o tempo que precisava, Norman Osborn — Nicholas retorquiu devagar, mas firme. Sua voz soou mais autoritária do que de fato era, e um arrepio percorreu o corpo de Osborn, o medo instalando-se em seu abdômen, notas gélidas de medo percorrendo seu peito como correntes pesadas, arrastando-se por sua pele, prendendo-o, imóvel, em seu lugar.

Nicholas Scratch estreitou os olhos, suas narinas inflando ao inclinar sua cabeça suavemente para a esquerda. Então, lá estava, aquele sorriso perturbador se espalhando outra vez pelos lábios de Scratch, os olhos mortos, desprovidos de quaisquer traços de humanidade. Eram naqueles pequenos momentos que o Vale da Estranheza despertava a desconfiança na mente de Norman, e o homem temia ver a resposta que ocultava no fundo, de sua mente.

— Ora, Norman, meu velho amigo! Não me olhe assim! Desde quando eu deixaria você sem auxílio?! Você sabe que não sou um monstro. — Norman forçou-se a sustentar o olhar de Nicholas, erguendo o queixo de forma desafiadora, embora o medo o tivesse deixado imóvel. O sibilo, quase imperceptível nas palavras de Scratch, enviou uma nota de arrepios pelo corpo de Osborn, como sempre acontecia quando Scratch agia daquela forma. Um piscar, e os olhos de Scratch se tornam amarelados de novo, apenas para desaparecer no segundo seguinte. — De fato, eu tenho exatamente o que você precisa para finalizar a sua parte da barganha.

Norman uniu as sobrancelhas, mas nada disse.

Scratch levou a mão esquerda em direção à lapela de seu terno italiano, retirando do bolso interno o que parecia ser um pequeno objeto. Tão diminuto, que os olhos de Norman sequer pareceram registrar o que Scratch estava estendendo em sua palma da mão, até que estivesse a alguns centímetros de distância. Inicialmente, Norman acreditou tratar-se de apenas mais um dos truques de Scratch. Ainda que fosse um magnata sócio da Oscorp, Scratch ainda tinha um lado propenso ao ocultismo e ilusionismo que aborrecia Norman, mais do que o divertia. Tencionando sua mandíbula, ele estreitou os olhos analisando a criatura, agora morta, na palma da mão de Scratch. As pernas estavam quebradas, apontando para ângulos opostos, mas sua coloração permanecia intacta: azul-escuro, com manchas e marcas vermelhas vibrantes. Norman exalou baixo, surpreso, voltando seu olhar para Scratch com uma pergunta silenciosa pairando por seu rosto austero e controlado. Scratch, todavia, ofereceu apenas um sorriso sarcástico para Osborn.

— A mesma que escapou do seu laboratório, meu velho amigo, a mesma… — Scratch provocou vagarosamente, os dentes afiados expostos em seu sorriso, enquanto Norman tentava digerir suas palavras. Por uma fração de segundos, ele teve uma epifania, conectando os pontos e encontrando as peças necessárias para encontrar as respostas que tanto buscava naqueles últimos anos.
— A mesma que criou o Homem-Aranha — Norman cuspiu as palavras, uma ponta de desprezo permeando sua voz sempre contida, mas havia, igualmente, em sua intensidade, um vislumbre de esperança. Um vislumbre de um sucesso há muito apenas empírico.

Scratch fechou a palma de sua mão abruptamente, puxando-a de volta, antes de confirmar a afirmação de Osborn com um balançar de sua cabeça. Deixou-se recostar novamente na cadeira, apoiando seus braços sobre os encostos da cadeira, como se estivesse sentado em um trono. Os olhos, cintilando perigosamente como os de um gato, incandescentes, sombrios.

— Ele virá até você. — Norman uniu as sobrancelhas em desconfiança das palavras de Scratch. Não era sábio confiar em Scratch, havia tempo suficiente de convivência entre os dois para que ele soubesse que nada era entregue gratuitamente. Tudo era uma troca, e Nicholas Scratch nunca saía de uma barganha perdendo. — Tudo o que precisa fazer é pedir para que seu rato de laboratório pegue um pouco do sangue dela, e crie um soro. Você terá o Homem-Aranha na palma de sua mão, e eu… terei o que você me prometeu. Com uma condição — Scratch ergueu o indicador com um olhar em forma de aviso para Osborn. — A garota, nada acontece com ela.

Norman ergueu uma sobrancelha, surpreso e descrente com as palavras de Scratch. Deixou-se até mesmo rir um pouco, de incredulidade, com a exigência do outro. Nicholas Scratch? Importar-se com algo? Seria o mesmo que apontar para a lua e dizer que era aquilo o maior planeta do sistema solar, não apenas pura estupidez, mas tão incabível que sequer chegava a ser considerado. Não… não, não, deveria haver algo a mais ali, algo nas entrelinhas que Norman não estava conseguindo enxergar corretamente ainda. Algo que ele havia deixado escapar. Nicholas Scratch nunca fazia algo sem ter um planejamento prévio, se sua exigência era deixar ela viva — fosse lá quem fosse a garota a que Scratch se referia —, então era porque havia muito mais naquela história do que Norman sabia.

— E eu devo acatar essa exigência por quê…? — Norman pausou, sugestivamente, sua voz baixa e controlada, evidenciando seu estado estupefato.
— Além do óbvio, com ela sendo sua melhor ferramenta para capturar o Homem-Aranha? — Scratch ecoou com um sorriso discreto, mas menos afiado ou sádico. Os dentes expostos parecendo mais afiados do que de fato eram. — Porque ela é minha filha, velho amigo.

•••

Limbo • Agora


Voltar à vida foi como quebrar a superfície de um rio congelado.
Ela tremeu. Inspirou profundamente, o ruído engasgado escapou, rouco e desesperado, por entre os lábios abertos, em uma tentativa de inspirar o máximo de oxigênio que conseguia, desesperada para aliviar a pressão dolorosa que se espalhava por seus pulmões. Dor esta que se parecia com ondas, chocando-se, devastadora, em seu peito, acompanhando-a como espectros a cada movimento que fazia, ao arrastar-se para fora do casulo.
O choque da queda reverberou pelo corpo inteiro, como eletricidade, e por um longo momento, tudo o que conseguiu sentir era dor. O chão abaixo de si era plano, gélido e uniforme; a sensação estranha por baixo da pele nua, escorregadia com algum tipo de coisa que se lembrava a um muco, viscoso e estranhamente cálido contra o corpo, criava uma pequena sensação momentânea de alívio. Ela arfou uma, duas, três, quatro vezes.
Havia uma sensação sufocante de amortecimento por seu corpo inteiro, como se de repente este não mais lhe pertencesse. Tentou rolar para a esquerda, pressionando com força a barriga contra o chão de cimento queimado, o baque suave de seu ombro e mesmo bochecha contra o concreto ecoou com um ruído molhado, nojento, mas desta vez, não a alcançou. Seus ouvidos estavam zunindo; um barulho que se iniciava langoroso, crescendo, bem devagar, até se tornar a única coisa que era capaz de ouvir. Pulsando, em ritmo com os batimentos cardíacos, arrítmicos, quase dolorosos em seu peito. Ela soltou um engasgo baixo, tentando tatear o chão, os olhos se moveram ansiosamente ao redor, tentando desesperadamente registrar alguma coisa, qualquer coisa que seja, mas não há nada. Ela estava no vazio.
Ela fechou os olhos com força.
Havia algo errado. Algo faltando dentro de si, mas ela não poderia saber dizer ao certo o que havia perdido. Podia sentir que algo havia desaparecido dentro de si, podia perceber as lacunas que se formavam por sua mente, embaralhando-se e revirando-se em um turbilhão de emoções desconhecidas que não possuíam lugares fixos. Tentou lembrar o que poderia ter acontecido com ela. Tentou recordar-se o que diabos poderia ter feito para acordar em um lugar completamente escuro como aquele, envolta por um pungente e atordoante aroma, quase terroso como ferrugem, que fazia com que sua língua adquirisse um gosto metálico, misturando-se com o amargor da bile que subia de seu estômago. Sentiu a contração familiar dos músculos de sua barriga, engasgando-se com o ar, mas nada saiu de sua garganta. Ofegante, ela franziu o cenho, congelando no lugar por um momento.
Ela era LaFay, a….
Quem era ela?
Percebeu, com um tremor gélido e elétrico percorrendo seu corpo inteiro, inflamando e deslocando-se como lascas afiadas de gelo por suas veias, pulsando. Ela não tinha ideia de quem ela era. Não tinha ideia de como havia acabado naquele lugar, sequer sabia que lugar era aquele. Não se lembrava de sua vida predecessora, sequer poderia ter certeza de que aquele nome: LaFay, realmente lhe pertencia. Não havia nada. Apenas vazio. Branco. Completo. E então, as dores a alcançaram.
Um grito rasgou-se por sua garganta, arranhando-a como garras afiadas e profundas, fincando-se na pele sensível de sua garganta e raspando-a até que nada restasse senão sangue e pedaços de carne. O grito, alto o suficiente para silenciá-la, deixou o gosto amargo de ferrugem em sua boca, mais profuso. Um espasmo percorreu seu corpo, fazendo-a chocar-se contra o chão com uma força que reverberava por seus ossos e crânio, sentindo algo romper com um sonoro crack e, então, começar a queimar.
Sentiu quando algo denso e pegajoso escorreu por seus braços, travados nas costas agora em ângulos antinaturais. Projetavam-se para fora do local em que ela sentia a queimação, deslizando pelas costas e acumulando-se na nuca, escorrendo lentamente, pingando, gota por gota, no centro abaixo de si. Escorreu devagar, porém persistente, por sua mandíbula antes de atingir os lábios dela. engasgou, cuspindo desesperada.
Sangue.
Outro espasmo a atingiu, fazendo-a contorcer-se no chão, e impulsionando-se para a direita com brutalidade. Sentiu o momento em que sua cabeça fez contato com o concreto. Suas costas arquearam, involuntariamente, e, antes que pudesse impedir-se, foi posta sentada, como uma boneca de pano sendo manuseada por mãos invisíveis e descuidadas. O impulso abrupto havia a levantado do chão, e, por uma fração de segundos, sentiu-se ser arrastada. Não havia nada que pudesse fazer, mesmo debater-se parecia impossível. Suas pernas se contorceram, uma é puxada para trás, com um sonoro crack, que fez estrelas explodirem por trás de seus olhos; seu corpo ficou amortecido e mole por uma fração de segundos. Tudo desapareceu ao seu redor.
Quando retornou à consciência, percebeu que estava pendurada. Os olhos tremeram, incertos e carregados pela tensão que agora reverbera por cada centímetro de seu corpo. Ela tentou se mover, tentou debater-se, mas estava presa, suspensa no ar, cingida. Ela ofegou, sentindo a pressão em seus pulmões aos poucos retornar com maior intensidade; seus lábios estavam secos, o gosto de bile e sangue misturava-se agora com a sensação sufocante de não conseguir respirar. Sua cabeça estava começando a ficar mais leve, girando pelo rarefeito falta de ar, enquanto ela tentava obrigar-se a respirar, mas quanto mais tentava sugar ar por entre suas narinas e sua boca entreaberta, mais parecia que ela não conseguia. Sua visão, outrora obscurecida, agora tornou-se um borrado incompreensível de formas, como um manto esbranquiçado de névoa, ou um vidro embaçado pela condensação. Ela conseguia discernir poucas coisas naquele breu desconcertante, os olhos ajustavam-se ao pouco de claridade que parecia escapar de cantos improváveis, como o teto alto, como o de um galpão — mas como ela poderia saber o que era um galpão?
Suspensos no ar, havia uma fileira extensa de casulos feitos de teias. Tão densos e apertados que tudo o que ela conseguia identificar eram meras silhuetas de corpos. Surpreendentemente, todavia, permaneciam todos estáticos, nem mesmo um mínimo movimento, e ela se questionou, para além do próprio horror, o que poderia ser capaz de manter algo suspenso assim. A pressão no peito dela aumentou, e ela passou a hiperventilar. Seu corpo inteiro estava dolorido, preso em ângulos antinaturais e agonizantes, mas agora começava a se amortecer. Seu coração estava martelando com intensidade, chocando-se tão rápido contra sua caixa torácica que parecia que iria explodir. Por um breve momento, ela teve a completa certeza de que iria morrer ali. Não havia como escapar. E ela sentiu um profundo, gélido, e agonizante medo espalhar-se e dominar todos os seus pensamentos.
De repente tudo pareceu perder o sentido.
Por que faria? Iria morrer! Estava presa entre teias de aranha, estás de aparência tão frágil, a sustentavam no ar, longe o suficiente do chão para que ela soubesse que, se porventura conseguisse livrar algum de seus membros, a queda inevitável terminaria o trabalho. Ela tentou gritar, uma última vez, quando a teia se rompeu.
A queda foi imediata, e ela esperou pelo impacto.
Mas nunca aconteceu.
Ao invés disso, quando ela abriu seus olhos, com um ofego assustado, percebeu-se esparramada sobre um chão de porcelanato branco e encerado, refletindo seu rosto machucado, o sangue pingando por entre os cantos de seus lábios e seus olhos, formando uma pequena poça abaixo de si. Tentou se levantar, ou ao menos, se colocar sentada, embora seus membros estivessem pesados e amortecidos, mas congelou no mesmo segundo quando sapatos italianos pararam à sua frente.
tremeu, arregalando os olhos ao observar aranhas deslizarem por dentro de seus sapatos, subindo pelas pernas do homem. Pavor espalhou-se por seu peito, os músculos de seu corpo se tencionaram ao observar os aracnídeos se aproximarem de si. Ela poderia não ter ideia de quem realmente era, mas podia sentir nos seus ossos, cravado fundo em sua alma, o medo por aquelas criaturas. Algo estava errado dentro de si, algo havia mudado, e ela tinha certeza de que tinha conexão com aqueles malditos aracnídeos. Seus pensamentos se dissiparam completamente quando as mãos gélidas e, estranhamente, ossudas, pressionaram contra sua pele, unhas afiadas cortando suas bochechas.

— Diga-me, querida, você quer continuar a viver? — Um sorriso felino surgiu pelos lábios do homem, expondo dentes afiados, e olhos amarelados. Ela tremeu, em pânico, mas seu instinto de sobrevivência gritou mais alto. Assentiu, sufocando suas próprias lágrimas. O sorriso do homem se expandiu, a luz ao redor deles tremeluziu e, por uma fração de segundos, ela conseguiu ver como ele realmente era: pele vermelha profunda, olhos amarelos inumanos e chifres retorcidos. Mas então, quando ela piscou, o rosto do homem se parecia com o seu. — Então prometa-me sua alma, querida. Diga meu nome.

Ela hesitou, mas antes que pudesse sequer pensar em responder, as palavras escaparam de seus lábios, como se possuíssem vida própria, desejo próprio:

Lorde Mephisto.



Queens • 1 Semana Depois.


Por uma fração de segundos, Peter se permitiu fechar os olhos com força, deixando o vento gélido do outono que se aproximava de Nova York tocar os novos buracos que haviam se formado por sua máscara, permitindo-se inspirar fundo, antes de apertar o play na mensagem no aparelho antigo.

Peter — A mensagem gravada havia tido uma longa pausa, escapando pelos fones de ouvido presos abaixo de sua máscara, falhados e irregulares, o aparelho quebrado estava falhando, a memória estava nas últimas, e ele tinha a sensação de que a qualquer momento explodiria em suas mãos. Ainda assim, não poderia desfazer-se do aparelho, ainda não. Exalou entre seus dentes, tentando conter o tremor que percorreu por sua pele, ouvindo como Tio Ben parecia estar escolhendo as palavras corretas para continuar aquela mensagem. Peter sentiu seu coração se partir, mais uma vez. A pressão das lágrimas projetou-se por trás de seus olhos, e ele sabia que se começasse a chorar não seria capaz de impedir-se, então ele lutou contra as lágrimas com todas as forças que possuía. Seu coração se contraiu, sua respiração se perdeu ao fundo de sua garganta, o pesar misturado com a culpa avassaladora roubava seu ar ao mesmo tempo que o abraçava apertado. Ele não conseguiria escapar, mesmo que tentasse. Quando ele havia se esquecido como a voz de seu tio soava? Quando havia se esquecido de como sentia falta dele?... — Eu sei que as coisas estão complicadas ultimamente. Eu sinto muito por isso. Eu entendo como se sente… desde que era um garotinho, você passou por tantas coisas mal resolvidas… — Tio Ben pausou outra vez, e Peter engoliu em seco, obrigando-se a abrir os olhos, encarando uma Nova York viva e vibrante. Os cantos dos lábios dele se curvaram um pouco para baixo, desejando poder voltar no tempo, ter feito uma escolha diferente na noite em que tio Ben havia morrido. Tio Ben suspirou pesado, suas palavras seguintes, mais gentis do que Peter assumia que merecia: — Bom, tá aqui o conselho de um velho: essas coisas direcionam a nossa vida, elas fazem de nós quem somos, e se alguém está destinado à grandeza, é você filho. Você deve ao mundo os seus dons, só precisa descobrir como usá-los e saiba, onde quer que eles o levem, estaremos sempre aqui. Então volta para casa, Peter, você é meu herói, e eu te amo.

A bateria do celular acabou antes que ele pudesse apertar o botão de replay de sua caixa de mensagens, tentando ouvir mais uma última vez a voz de tio Ben, como se isso fosse lhe trazer algum consolo — não trazia. Encarou, perdido em seu próprio silêncio e pensamentos depreciativos, seu reflexo, voltado para si mesmo, estilhaçado e deturpado pelo vidro quebrado do aparelho. Já fazia um tempo que ele vinha correndo dos espelhos; se fosse pela própria culpa ou simplesmente pela falta de tempo ao ter que conviver com o Homem-Aranha, Parker não saberia ao certo dizer. Seu reflexo, todavia, o incomodava. Deparava-se com uma sensação crescente e desconfortável que se apoderava de seus demais pensamentos, a ansiedade tomava um espaço reservado ao fundo de sua mente, o cansaço desaparecia e o aperto crescente em seu peito parecia sequer estar ali, quando ele não sentia que era ele mesmo.
Quando ele olhava no espelho, e o rosto que via, não reconhecia como o seu.
Se perguntava internamente se algum deles ainda lembrava dele. Se havia alguma possibilidade, mesmo que mísera, do feitiço que apagava sua existência da mente de todos que sabiam quem era Peter Parker, haveria alguma esperança; se pensavam nele na calada da noite, se questionavam quem diabos era a pessoa que ocupava aquele espaço faltante nas fotografias. Sabia que estava apenas se torturando em troca de nada, sabia que o feitiço havia sido poderoso o suficiente para não poder ser alterado. Peter perdera tudo que amava, tudo o que era. Peter Parker não existia mais. E ainda assim, como um mero tolo, não podia deixar de sonhar que, talvez, apenas talvez, algo pudesse ser feito, algo pudesse ser salvo.
Exalou, alto e exausto. Estava há quase quatro dias inteiros sem dormir, e o trabalho como Homem-Aranha nunca acabava. Às vezes, sentia-se preso em uma tarefa sísifica da qual o final tornava-se previsível com o passar do tempo — não importava o quanto Peter tentasse fazer a diferença, nunca parecia realmente funcionar. Havia sempre alguém pior, havia sempre alguém ruim que o fazia retornar ao zero. Havia sempre mais e mais pessoas ruins para serem impedidas, pessoas desesperadas a serem salvas, e ele começava a se questionar por que diabos ele deveria continuar. Por que continuar a fazer um trabalho ingrato que lhe roubava tudo o que ainda lhe restava? Que lhe havia roubado tudo o que tinha e amava?
Com grande poderes vinha grandes responsabilidades, mas o peso que Parker carregava agora em seus ombros, começava a tornar-se demais. Não iria desistir, é claro, não era o tipo de pessoa que se deixava abater por pouca coisa, mas a contínua perda, o contínuo arrastar para baixo do oceano onde ele se afogava vez ou outra, estava começando a cansá-lo. Talvez o mundo estivesse perdido mesmo. Talvez não houvesse mais nada que valesse a pena salvar. Talvez ele simplesmente devesse se deixar… aceitar que não tinha como ganhar.
Peter retirou os fones de ouvidos de suas orelhas, balançando a cabeça ao sentir, mais uma vez, o pequeno incômodo espalhar-se por seu corpo, deixando-o desorientado. Havia algo estranho dentro de si, ele podia perceber, algo que estava entorpecendo-o e o deixando mais e mais desorientado conforme o tempo passava. Seu Sentido Aranha parecia estar danificado; sentia como uma vibração em sua nuca, envolvia seus ouvidos e os abafava, como se ele estivesse embaixo d’água, e percorria suas veias como eletricidade, deixando-o em alerta e sensível a tudo ao seu redor; costumava puxá-lo para um polo central, onde provavelmente o perigo estava, ou então repeli-lo como duas mesmas metades de um ímã. Tivera sua adolescência inteira para aprender a decodificar aquele sexto sentido, tivera tempo suficiente para se acostumar e até mesmo tornar-se um especialista nisso — se conhecer em profundidade seria o melhor ato que Peter faria para si mesmo, segundo tia May —, mas algo estava estranho na última semana.
Não havia mais pequenos pontos de atração ou repúdio que o guiavam durante as batalhas. Não só havia aquele aviso silencioso e instintivo de seu corpo diante do perigo iminente ou a mudança de intenções, havia, igualmente, aquele ponto central agora, uma polaridade oposta a ele que parecia torná-lo em uma bússola. Atraindo-o para algo invisível, puxando-o sempre para uma mesma direção. Sobrecarregava, desalinhava e o tentava a apenas seguir em direção de onde quer que estivesse o atraído. Sabia que era impossível, seu Sentido Aranha não funcionava como uma porcaria de uma bússola, era um aviso de perigo iminente, mais nada, então assumiu que deveria ter sido apenas algum tipo de gripe super evoluída, algo que deveria ter protelado em tratar e que agora retornava para assombrá-lo e tirar seu sono. Por conta disso, havia inventado mais e mais desculpas sobre ter que correr atrás das matérias que havia perdido durante os últimos meses na Universidade Comunitária que havia conseguido se inscrever, a fim de usar os laboratórios precários para analisar o que quer que estivesse errado consigo.
Encontrou algumas coisas curiosas: indicativos de que estava sofrendo pequenas mutações em seu DNA devido ao estresse emocional acumulado, o que significava que seu corpo deveria estar tentando mantê-lo em modo de sobrevivência e explicava por que ele não conseguia dormir, por mais exausto que estivesse. Descobriu algo incômodo também, e que, até o momento, ele não havia parado para pensar muito. Sendo o único com as habilidades que tinha, Parker havia ouvido bastante dos tais mutantes — embora tudo relacionado a essas pessoas fosse difícil de ser investigado —, da tendência evolutiva natural que ocorria com o tempo, mas assumiu que não havia muita diferença entre o que ele poderia ser e o que um “mutante” poderia ser. Havia tido seu DNA alterado com a picada de uma aranha, era uma mutação de certa forma, mas singular, o que significava que, muito provavelmente, as reações físicas e necessidades que poderiam aparecer eram experienciadas unicamente por ele mesmo. Seu corpo entendia a singularidade, e nunca havia evidenciado nenhuma necessidade por acasalamento que não fosse de interesse único de Peter. Nunca havia tido um período em sua vida que Peter Parker tivesse sentido algo guiado por seu corpo físico e não por sua mente. Havia, sim, atração e os momentos que havia vivido com Gwen eram únicos e que ele não conseguia esquecer, atormentavam-no à noite e o fazia acordar com um belo exemplar de uma ereção matinal, nada que ele já não tivesse que lidar quando era adolescente. Mas Peter nunca havia sentido nada além do que era humano. Até agora…
O estudo que havia feito no laboratório da Universidade revelara o aumento de seus hormônios em demasia: LH e FSH, noradrenalina, testosterona, dopamina,e talvez fosse por isso que ele estivesse se sentindo tão no limite nos dois últimos meses. Suas células estavam igualmente se regenerando mais rápido, e Parker deveria ter suspeitado disso também, o que significava que seu processo de cura estava mais rápido e que sua histamina estava mais forte — perigosamente forte. De repente teve a explicação que buscava por meses. A justificativa, de certa forma, ele só ainda não havia decidido se isso era algo bom ou algo ruim, quer dizer, a quem mais ele poderia confidenciar que seu próprio corpo parecia ter compreendido sua idade e estava em algum tipo de “necessidade fisiológica de procriação” exacerbada como se ele fosse uma cadela no cio? A experiência era muito única para que ele se arriscasse a dizer alguma coisa.
Mas era aquele maldito distúrbio em seu sentido aranha que estava sempre colocando-o em alerta. A ideia de que estava sendo atraído para algo, que seus sentidos e até mesmo instintos pareciam estar envolvendo seus músculos como vinhas afiadas, cravavam-se em sua pele e o arrastando-o para um lugar desconhecido e sufocante; era quente, eletrizava sua pele como se estivesse com estática, tornava sua respiração superficial, por mais que ele tentasse se concentrar em outra coisa. Essa necessidade de encontrar o que estava lhe faltando estava começando a dar curto-circuito na cabeça dele. Insuportável, imprevisível e anestésica.

...agora faço o questionamento: por que diabos permitimos que um ex-assassino soviético tomasse posse de uma posição dentro do Congresso? Estamos malucos? Perdemos o senso comum de perigo? — A voz de J. Jonah Jameson ecoou do telão de LED que projetava sua imagem no topo de um dos prédios que outrora foram mansões vitorianas, agora divididos em pequenos apartamentos de tijolos avermelhados e janelas retangulares esbranquiçadas, ao lado de uma caixa d’água tradicional metálica, com um tom marrom claro, com a cobertura em formato de um triângulo meio cilíndrico, e com escadas enferrujadas. Peter ergueu uma sobrancelha, apoiando suas duas mãos nos quadris, encarando o telão com a visão nojenta de J. Jonah Jameson. Ele ainda não sabia o que o repelia no mais velho, tinha quase certeza de que era aquele bigodão esquisito. Quase certeza que era o bigode tingido para combinar com a cor escura de seus cabelos que destoava do tom original. — Pois eu digo, este homem aqui — Peter desconfiou, mas essa desconfiança logo deu lugar a genuína surpresa com as palavras que se seguiram no rosto, agora compreensivo do velho âncora de jornal ao lado da foto de Sargento Bucky Barnes, vestido de terno e ao lado de outros membros do Congresso parlamentar americano. — Antes de tudo, é um veterano. Se temos o direito à nossa liberdade, se temos a segurança de podermos abraçar nossas pessoas amadas e a certeza de que nada irá interferir em nossas vidas, que monstros não irão nos oprimir, é por causa, senhoras e senhores, deste homem. Sargento James Buchanan Barnes. Um exemplo para todos de um verdadeiro herói. Um exemplo verdadeiro do que uma segunda chance pode ser bem usada. Um herói, no cerne da palavra. — Peter sentiu-se impressionado. Era raro observar J. Jonah Jameson sequer considerar fazer um elogio para qualquer pessoa viva, quiçá um discurso emocional repleto de respeito e reverência. E para o Soldado Invernal? É, Peter precisava admitir que talvez, somente talvez, Jameson tivesse mudado. Talvez ele estivesse finalmente sendo capaz de reconhecer os esforços deles para salvar aquela cidade. Talvez, finalmente, Jameson parasse de acusá-lo de ser… — Completamente diferente desta ameaça humanitária que vocês todos conhecem como Homem-Aranha! Até quando iremos ser obrigados a aguentar esta ameaça à sociedade andando livremente pelas ruas de Nova York…

Peter soltou um ofego indignado.

— Ah, qual é?! — Peter praguejou, frustrado, jogando as mãos para o alto, como se o telão fosse respondê-lo. — Por que todo mundo ganha elogios, menos eu? É algo contra mim, não é? É porque eu uso vermelho e azul, Jameson?! Olha só, se você tivesse uma ideia de quão caro é minha roupa, você… você seria um pouco mais legal. Poxa, cara, eu sou sensível!— Peter apontou o dedo para o rosto pixelizado de Jameson antes de deixar sua cabeça pender para trás, ajustando a máscara em seu rosto e chutando um cascalho para fora do seu caminho. — Todo mundo sabe que eu funciono melhor na base de incentivo e palavras de apoio! O dia que eu sumir, vai tá toooodo mundo dizendo “ain, onde está o homem-aranha?”, “ain homem-aranha, me salva! Me salva!” e eu… — Peter pausou por um segundo. Estava tentado a dizer que iria simplesmente abandonar Nova York, talvez fosse morar em São Francisco; seria divertido ao menos ter uma mudança de cenário, especialmente levando em consideração que ele não estava podendo sair muito como Peter Parker ultimamente. Mas então, ele sabia qual era a resposta antes mesmo que sua petulância ganhasse a melhor sobre si. Ele exalou, exasperado, seus ombros pesados com sua responsabilidade. — Eu ainda vou salvar todo mundo, mas vou fazer isso de bico!

Suspirou pesado, passando a mão direita por sua cabeça, apenas para lembrar-se de que estava com a máscara e seus cabelos, ainda que mais compridos do que ele costumava deixar, não estavam entrando em seus olhos com o toque fantasmagórico do vento gélido outonal. Seu cabelo estava entrando em seus olhos porque ele havia colocado a máscara, na pressa, de forma torta em seu rosto, não por causa do vento. Frustrado, ajustou novamente a máscara até que conseguisse aliviar a pressão das mechas revoltas adentrando no órgão sensível e então saltou sobre o parapeito. Os pés atingiram silenciosamente o concreto queimado, sentindo a superfície, mais fina do que deveria ser para sustentar um corpo como o dele, pressionar-se contra a sola de seus pés. Ao menos seu equilíbrio ainda estava intacto, mesmo que seu sentido aranha estivesse espiralando.
Seus olhos percorreram os rostos compenetrados das pessoas que circulavam abaixo de si, observou amigos se encontrarem em meio a risadas e tapinhas brincalhões, observou crianças correrem e brincarem entre si, saltando amarelinhas desenhadas com giz na calçada, ou jogar uma bola entre si, testando a força e o quão longe conseguiriam lançar. Observou homens engravatados com expressões sérias e a presença de pessoas importantes marcharem rapidamente em direção ao metrô. Observou alguns idosos sentarem-se em bancos, próximos de uma barbearia, suas risadas, baixas e roucas, acompanhando a presença de alguns adolescentes enquanto faziam piadas entre si. Viu pais correndo atrás de seus pequenos risonhos, viu grupos de amigas se reunirem abaixo da sombra de uma árvore com seus livros em mãos e gesticulando agitadamente sobre suas partes preferidas. Viu estudantes correndo para conseguir alcançar os ônibus ou chegar a tempo na linha do metrô. E assistiu com um aperto em seu coração à vida seguir.
E ela não estava ali. Seus olhos ainda buscavam por ela, mesmo que Parker soubesse que não a encontraria mais. Mesmo que soubesse que a culpa era sua pela morte de Gwen. Ele havia prometido uma vez ao Sr. Stacy que tomaria conta de Gwen, ele havia prometido que a manteria a salvo e que ficaria longe, e céus sabiam o quanto ele havia tentado, mas… mas Peter Parker não conseguia existir sem sua Gwen Stacy. Não havia conseguido resistir, ele precisava dela como precisava de ar, e fora isso que o havia condenado.
Céus sabiam como ele desejava voltar ao passado. Céus sabiam que, como ele desejava ter mantido sua promessa, como desejava ter certeza de que ela estaria ali, seguindo com sua vida. Mas seu próprio egoísmo, seu desejo de ter os dois mundos, o havia condenado. Agora os assistia com uma sensação agridoce: eram nesses pequenos momentos que Parker lembrava-se do porquê vestia aquela fantasia e arriscava sua vida todos os dias. Era nesses momentos insignificantes do dia que a vida parecia viva que ele o fazia. Pelos risos, pelos sorrisos, pelos choros engasgados e olhares longínquos. Não apagava, todavia, o vazio que o seguia como uma sombra.
Lançando-se para frente, Peter esticou sua mão esquerda, disparando uma teia no ar e então enroscou-a em seu pulso, puxando-se para cima, a fim de ganhar impulso, direcionando-se para onde os meninos estavam jogando a bola de futebol americano, girando no ar antes de pousar agachado sobre uma caçamba de lixo. O impacto é um pouco mais alto do que ele queria que fosse, o metal da caçamba estala sob o peso do Homem-Aranha que se mantém de cócoras, repousando os dois cotovelos sobre seus joelhos flexionados, ouvindo os garotos gritarem com o susto.
A briga que ocorria se silenciou enquanto os meninos de não mais do que 12 ou 13 anos se voltaram para encará-lo. Olhos grandes revelavam algumas expressões surpresas e impressionadas, outras animadas, com sorrisos incandescentes e alguns até mesmo desconfiados, mandíbula tensa e olhos estreitados. Peter bufou, divertindo-se com a nostalgia que havia tocado em seu peito; ele nunca havia sido o tipo de garoto que jogava esportes, céus, não era sequer bom de mira, e não havia sido por falta das tentativas do Tio Ben de ensiná-lo. Peter simplesmente não era bom em muitas coisas que exigiam esforço físico, e havia aceitado isso até se tornar o Homem-Aranha. A sensação de brincar na rua com seus amigos? Não era uma memória que ele tinha vividamente em sua mente.

— Ok, ok, por que ao invés de tentar se engalfinhar, vocês não me explicam o que está acontecendo aqui? Por que estavam brigando? — O Homem-Aranha inclinou a cabeça para o lado, os olhos brancos de sua máscara se estreitando enquanto ele esperava pacientemente pela resposta dos meninos.
— Ihh! Ala o Kevin tá encrencado! — Um sussurrou com um risinho para o amigo com a blusa dos Lakers.
— O quê?! Eu não fiz nada! Fala pra eles, Luke! — O menorzinho, talvez o mais novo, retrucou, defensivo, quase no mesmo segundo, franzindo o rosto irritado e então empurrou o ruivo à sua direita. Luke, assumiu Peter, segurando um riso baixo. — Eu juro que eu não fiz nada! Sou inocente, mesmo, bem mesmo!
— Se ele não tivesse chutado com mais força, a bola não teria estourado! — outro menino retrucou, e Kevin pareceu estar muito perto de chorar. Peter saltou da caçamba de lixo, cruzando os braços sobre o peito, imponente, enquanto tentava compreender o que diabos havia acontecido ali.
— Mentira Caleb! Para de mentir! Eu não estourei nada! — Kevin insistiu mais agitado.
— Vai prender ele, Homem-Aranha? — Caleb perguntou, esperançoso demais, e Peter precisou inspirar bem fundo para não gargalhar alto. Agora conseguia entender por que o pobre menino parecia estar aterrorizado com sua presença ali.

Por um breve momento, deixou que o silêncio percorresse pelo beco largo que as crianças estavam usando como quadra improvisada. Fez uma anotação mental de verificar sua conta bancária, ver se ainda tinha alguns trocados lá e, caso tivesse, passaria em alguma loja para comprar tintas spray e delinear o campinho improvisado das crianças melhor; queria se certificar de que eles estariam seguros, apesar da precariedade. Kevin estava prestes a chorar quando Parker repousou uma mão na cabeça do menino, bagunçando os cabelos do mesmo com um bufar abafado, tentando manter-se sério.

— Não. Sem chance — Parker resmungou, divertido, ouvindo alguns resmungos desapontados, e lançando um olhar em forma de aviso para Caleb e os outros quatro pentelhos que atormentavam Kevin. Peter apontou com o indicador e o dedo médio na direção de seus olhos, e então, apontou para eles, em um silencioso “estou de olho”, antes de voltar-se para Luke com uma expressão concentrada. — Tá legal, campeão, onde está o furo?

Algo se aqueceu no peito fragmentado e vazio de Parker quando seus olhos observaram aqueles rostos se iluminarem com a oferta de ajuda. Tentou ignorar aquela sensação de culpa que começava a esgueirar-se outra vez por sua mente, focando apenas no trabalho em mãos, consertar a bola dos meninos e certificar-se de que Kevin não seria maltratado pelo pequeno erro que havia cometido. Disparou um pouco de sua teia quando achou o pequeno furo da bola, e então passou alguns segundos tentando encontrar uma forma de encher a bola murcha. Conseguiu uma pequena bomba de ar com os idosos sentados na frente da barbearia, os risos e as piadas sobre por que diabos eles teriam isso em uma barbearia, Peter jogou a bola novinha em folha para as crianças, rindo baixinho com os “obrigados” apressados que havia recebido.
Jogou a bomba de ar na direção dos idosos, acenando para eles e agradecendo pela ajuda, antes de aproximar-se de Kevin, ainda cabisbaixo e emburrado pela forma como foi tratado pelos amigos, repousando sua mão nos cabelos do menino, tentando oferecer um pouco de conforto e compreensão.

— Você tá bem, campeão? — perguntou o Homem-Aranha, repousando uma mão no ombro ossudo do garoto, acompanhando-o quando ele começou a andar em direção a onde ele supôs que deveria ser sua casa. — Seus amigos não estão bravos de verdade com você, sabe disso, né? — Kevin o encarou com uma ponta de incerteza, e Peter suspirou pesado. — Olha, todo mundo comete erros, ok? Furar a bola enquanto joga é chato, mas acontece, não significa que não possa ser consertado depois. Você não precisa ficar chateado por ter furado ela. Todo mundo comete erros.
— Até você? — Kevin ecoou, desconfiado.

Peter teria sorrido, se seu peito não tivesse apertado com a própria culpa.

— Tá brincando? O tempo todo — Peter confessou para o menino com sinceridade. Algo, todavia, no rosto de Kevin, pareceu se iluminar. Foi um gesto pequeno, mas que não ocultou o alívio que ele deveria estar sentindo. — Na verdade, acho que é o que eu mais faço na maior parte do tempo. Mas não importa, sabia? Porque a gente aprende com todos eles. É o que faz da gente a gente, entendeu? A gente aprende e segue em frente. — Peter pausou, apoiou as duas mãos em seus quadris, encarando o garoto por um momento por baixo de sua máscara. — Vai jogar amanhã, não vai?
— Vai jogar com a gente? — Kevin pareceu animado com a ideia de jogar bola com o Homem-Aranha. Peter hesitou. Queria responder que sim, que voltaria amanhã e iria jogar um pouco de bola com eles, mesmo que fosse só para se distrair por alguns segundos. Mas Peter não podia fazer aquela promessa; sabia que assim que saísse dali e se lançasse pelos ares outra vez, não voltaria. Ser o Homem-Aranha significava que não havia outra escolha senão continuar seguindo em frente, continuar salvando as pessoas e resolvendo os problemas. Ele não poderia parar ali, por mais que desejasse.
— Vou tentar, mas tem que me prometer que vai continuar jogando, a gente tem um acordo?

Erguendo sua mão no ar, um pouco mais alto do que Kevin provavelmente conseguia alcançar, sorriu quando observou o menino pular algumas vezes até conseguir acertar o toque aqui. Comemorou com o garoto, e então, com um aviso a mais de “juízo” para o menino, bagunçando os cabelos dele, Peter já havia lançado mais uma teia no ar. Mirou em um prédio próximo, usando como impulso para se alçar um pouco mais alto no ar até que conseguisse seguir para o centro da cidade, mas acabou acertando por acidente a traseira de um caminhão, que o alçou bruscamente e o fez acertar, por acidente, uma placa. A dor do empuxo, brusco e forte devido à velocidade do caminhão, com a barreira estática de metal que ele inadvertidamente havia entortado por acidente reverberou por seus dentes e ele perdeu seu fôlego.
Deixou-se desabar contra o topo do caminhão, grunhindo baixo com a provável marca roxa que acabaria adquirindo após seu erro de cálculo. Esfregou o local atingido com um praguejar baixo, balançando a cabeça para tentar livrar-se da sensação de torpor causada pelo golpe, quando seu Sentido Aranha voltou a pulsar alto em seus ouvidos, amortecendo-o de todo o resto que o cercava, seu corpo encolheu e o instinto o colocou de pé bruscamente, buscando com os olhos o perigo eminente. Peter lançou-se outra vez no ar, girando o suficiente para alçar-se um pouco mais alto com a teia que soltou, antes de soltá-la a tempo o suficiente pairar pelo ar. Os olhos dele se encontraram com um par de olhos verdes, intensos, vivos e atraentes, fixos nos dele como se tivessem sido atraídos por ímãs em sua direção. Tudo desapareceu ao seu redor, uma vez que, após meses de desorientação, ele finalmente havia encontrado a outra metade do ímã que o atraía. O ponto central que estava desconcertando seu Sentido Aranha e criando toda aquela confusão sensorial que o sobrecarregava:
Era ela.
A garota de olhos grandes e expressivos, com rosto confuso, encarando-o com os lábios entreabertos em surpresa, como se tivesse percebido algo também. O coração de Peter disparou de maneira inesperada, martelando com violência contra sua caixa torácica enquanto tudo em seu corpo parecia o atrair para ela. Como se tivesse se deparado com uma bússola inesperada à qual estava atrelado, puxando-o em sua direção. Peter não teve tempo para reagir, sequer lançar-se em direção à garota; mal havia pousado na parede de um prédio próximo, com o olhar ainda fixo nela, quando algo o atingiu.
Não percebeu de imediato quando as teias escuras se enroscaram em seu antebraço esquerdo, perdido na maneira com que seu corpo havia reagido à jovem do outro lado da calçada, só percebeu o ataque quando a criatura o puxou com brutalidade para trás, arremessando-o em direção contra o chão e então projetando-se sobre si. O rugido escapou da bocarra da criatura monstruosa que se projetava com dentes afiados a poucos centímetros de seu rosto. Peter arregalou os olhos, agarrando as garras da criatura, usando parte de sua força para empurrá-la para longe de seu rosto, enquanto se debatia no chão, a fim de encontrar uma forma de se soltar da criatura.
Era monstruoso de uma forma que Parker ainda não havia visto antes. Dentes afiados projetavam-se pela bocarra da qual uma língua consideravelmente longa se projetava para fora, avermelhada e com saliva escorrendo, pingando em seu uniforme de forma nojenta. Os olhos, esbranquiçados, lembraram-se dos de sua própria máscara, mas naturais, sem íris começando no centro de seu rosto e enredando-se até metade de sua cabeça. Veias esbranquiçadas envolviam o corpo de músculos pesados e definidos, criando um contraste esquisito sob a pele que mais se assemelhava a gosma preta. O hálito fedia a carne putrefata, e havia sangue entre seus dentes, o que não era uma boa coisa a ser percebida. Peter tentou arrancar a garra da criatura presa em sua garganta, tentando entender o que era aquela coisa, quando o ouviu murmurar algo.

Venom… quer… pedaço… — sibilou a criatura, pouco coerente, parecendo estar tendo um debate interno antes de sua bocarra se abrir, a mandíbula larga o suficiente para que coubesse sua cabeça inteira sem maiores problemas. Peter acertou com força uma joelhada no abdômen da criatura, usando de toda sua força para conseguir acertar o golpe, mas o que lhe surpreendeu não foi o grunhido de frustração e raiva vindo de Venom, e sim o que o atingiu em seguida: a criatura. Um golpe rápido e certeiro, uma rajada esbranquiçada de teia que se enrosca na mandíbula aberta da criatura, e então, com um puxão abrupto, a fecha, puxando a cabeça de Venom para trás. Mas a teia não partira de Peter, para seu completo choque.
Partiu da garota.


Continua...


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: obrigada por ter lido (era para ter enviado antes, mas me atrapalhei nos especiais, pra variar ksksksks)

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