Codificada por Lua ☾
Finalizada em: 27/02/26
— Onde você queria que fosse, princesinha? Em uma mansão de luxo? — Callum resmungou, do banco do carona, e recebeu um tapa nos ombros como resposta.
— Ah, cala a boca! — revirou os olhos. Já estava irritada o suficiente por saber que precisariam entrar naquele lugar.
— Sabe que isso fugiria totalmente dos clichês dos lugares abandonados? — Elias entrou na onda, porém havia uma certa sinceridade em sua observação.
— É claro, porque nós temos cachê de sobra para alugar um set chique. — Morgan Davis, ao lado de , imitou o gesto dela de revirar os olhos.
— Nunca se sabe, ué? Nenhuma das grandes franquias começou com alto orçamento. Até parece que nunca estudaram sobre isso. — , por fim, estacionou próximo à porta.
A van parou em um tranco seco e, por alguns segundos, ninguém moveu um músculo, estavam imersos demais observando o galpão, que se erguia diante deles como se fosse um gigante de ferro adormecido, com as paredes cobertas de ferrugem e janelas estilhaçadas.
O vento atravessou as frestas e as portas de metal rangeram num som grave, o que causou arrepios nas espinhas de alguns ali presentes.
— Credo. Esse lugar tá fedendo a ferrugem e mofo. — Juniper fez uma careta e foi a primeira a descer devagar. Ela apertou a bolsa contra o peito, como se esperasse que alguém fosse sair correndo de dentro do local para levá-la dela.
— Ah, qual é, Juni? Vai ser divertido! — Griffin pulou para fora logo em seguida, tropeçou no degrau e quase foi ao chão, o que arrancou uma gargalhada de Callum.
— Porra, Griffin! Você é um perigo até fora de cena. — Jasper também riu, enquanto o ajudava a se equilibrar.
deu uma boa olhada em volta e tentou não pensar no quão isolado aquele local parecia, então foi ajudar os outros a descarregar as caixas de equipamentos. Como parte do elenco e estrela principal do filme, não era bem sua obrigação, porém todos ali eram amigos e faziam questão de se ajudarem.
Seraphine, a maquiadora, examinou o entorno com um olhar curioso quando adentraram o galpão.
— Nossa, a iluminação natural vai ser um lixo, mas nada que algumas lâmpadas não resolvam. — Encolheu os ombros e se sobressaltou com um barulho súbito, vindo de um dos cantos do local.
— Tá vendo? — Callum abriu os braços de forma teatral. — Eu disse que esse lugar é perfeito. Já tem até o som ambiente: vento, janelas trincadas, portas rangendo e, provavelmente, uns ratinhos.
se encolheu.
— Se eu ver um rato, juro que vou embora e vocês nunca mais vão me ver!
— Fica tranquila, . Não acho que algum rato vai aguentar essa sua cara de nojo — Elias retrucou, só para provocar, e recebeu um tapa no ombro.
— Você é ridículo. Já te falaram isso?
— Calma, crianças. Vou ter que colocar os dois de castigo, um em cada ponta do galpão? — Morgan alfinetou. — Temos muito trabalho pela frente para os dois ficarem nessa implicância.
segurou a resposta porque, instantes depois, também adentrou o ambiente e observou em volta com uma expressão satisfeita.
— Esse cenário é incrível e vai dar muita credibilidade ao curta. A plateia vai engolir cada segundo.
Acompanhando suas palavras, a equipe deu mais uma olhada em volta e, mesmo que a maioria concordasse, nem todos estavam felizes.
As portas se abriram com dificuldade, e o metal rangeu alto demais para o gosto de cada um ali presente.
O interior do galpão conseguia ser mais sombrio e sinistro do que o lado de fora. Havia poeira acumulada no chão, marcas de ferrugem escorriam pelas paredes como se fossem cicatrizes, e o cheiro de umidade estava impregnado no ar, sem falar em uns respingos estranhos em alguns pontos, e eles evitaram pensar que era sangue, ou algo do gênero.
— Sério, gente… Quem em sã consciência realmente acha que esse é o cenário ideal para passar horas e horas? — olhou para dentro com relutância.
— Estus desesperados para ganhar um festival — respondeu, como se fosse óbvio, e ela mordeu a língua porque detestava aquele ar presunçoso.
Callum e Elias soltaram risadas nervosas e foram ajudar Jasper com as câmeras.
Juniper organizava a mesa de maquiagem, quando um frio que não vinha só das correntes de vento cruzou o espaço, era como se alcançasse seus ossos, e a mulher parou por alguns segundos para abraçar os braços e os acariciar rapidamente para tentar esquentá-los.
O silêncio entre uma risada ou outra de repente parecia pesado demais, e algo formigava em sua nuca, como se não estivessem sozinhos.
De repente, a maquiadora entrou em estado de alerta.
— Vocês ouviram isso?
Todos pararam para encará-la e tentar identificar do que falava.
Então o soou ecoou mais uma vez.
Metálico.
Profundo.
Algo havia se movido no corredor escuro ao fundo, ela tinha certeza.
— Deve… deve ter sido o vento. — Morgan tentou, incerta.
— E desde quando o vento faz som de passos? — Juniper sussurrou, quase chorosa.
De repente, as lâmpadas penduradas no teto começaram a balançar e emitiram um rangido suave. Uma delas se apagou, num estalo, e metade do galpão foi lançado na penumbra.
franziu o cenho.
— Essa porra de instação elétrica.
forçou um sorriso e engoliu o suspiro que queria soltar, numa tentativa de disfarçar o incômodo.
— Relaxa, gente. Não tem nada mais clichê do que luz piscando, não é? Aposto que tem algum pássaro preso aqui dentro.
E, como num roteiro ensaiado, de repente a ave saiu dos fundos do galpão e cruzou toda a extensão do local, então pousou em uma das janelas quebradas.
Era um corvo.
Todos se entreolharam por alguns segundos, então caíram na risada. A tensão ainda estava presente ali, e, enquanto voltavam ao trabalho, ninguém quis comentar a sensação constante de que alguém parecia observá-los.
Enquanto descarregavam as caixas para começar a arrumar o cenário, uma corrente de ar gelado passou entre eles, o que fez as páginas do roteiro escrito por se agitarem no chão. Uma folha se desprendeu, deslizou até o corredor escuro, parou ali, bem na entrada, e ficou presa sob um dos fios estendidos das câmeras.
Griffin, que se afastou até o local para ajudar a instalar o equipamento, se abaixou para pegá-la, e quando se ergueu novamente, jurou ver algo: uma silhueta imóvel, meio perdida nas sombras.
Sacudiu os ombros.
Piscou.
E nada.
Sumiu.
Balançou a cabeça em negação e pigarreou baixo.
— Tudo bem, Griff? — se aproximou e o olhou curiosa.
— Aham. De boa! Vou ajudar o pessoal com a montagem. — Usou um tom mais firme do que sentia.
— Tá, mas não esquece que você tem que passar pela Juni também. Quando menos tempo a gente passar nesse lugar, melhor.
Griffin assentiu e, curioso, trouxe a folha para mais perto.
Era a capa do roteiro.
Letras garrafais estampavam nela o título do curta:
STABBED.
E logo abaixo, como se fosse uma assinatura do roteirista, havia uma impressão digital vermelha.
Por um instante, ele achou que fosse tinta, talvez algum teste de efeito de sangue, mas a cor…
A cor era densa demais.
Griffin limpou o polegar na calça, e o som das vozes ecoou ao longe, de repente abafado pelo vazio do galpão. O vento uivava pelas frestas e soprava as cortinas rasgadas como véus negros.
A capa se moveu sozinha, deslizou alguns centímetros dos dedos dele, como se alguém tivesse a tocado. O movimento foi lento, deliberado, quase cuidadoso.
O jovem riu de si mesmo.
— E eu nem tô chapado ainda. Deve ser o vento. — Sacudiu a cabeça em negação.
Então ouviu um estalo.
Baixo. Metálico. Como uma lâmina arranhando a parede.
Griffin virou o rosto em direção ao corredor escuro, mas não viu nada além dela. A penumbra se movia, dançava no ritmo da luz que tremeluzia sobre os cabos.
— ? — ele chamou, incerto.
Nenhuma resposta.
O eco devolveu seu nome, prolongado, distorcido.
… …
Griffin deu um passo para trás, com o coração acelerado. No silêncio que se seguiu, ele jurou ouvir uma respiração.
Lenta.
Pesada.
Atrás dele.
Virou-se num sobressalto… Nada.
Só a capa, novamente caída, repousava no chão.
Mas agora a impressão digital havia se espalhado em uma linha torta e atravessava o título como um corte fresco.
STABBED.
E, nas sombras ao fundo, algo respirou de volta.
Ele tentou afastar aquilo e se concentrar, porque logo iniciariam as filmagens, e repetiu mais algumas vezes para si mesmo que era só paranoia por conta do ambiente esquisito.
Ao cruzar novamente o galpão e ver o grupo entretido entre rir, brigar com cabos e caixas de equipamento e repassar falas do roteiro, tudo quase pareceu ridículo.
Quase.
— Finalmente, cara! Onde você tava? — Elias resmungou, sem olhar para ele, agachado enquanto tentava desembaraçar um emaranhado de cabos. — Se sumir de novo, a Morgan vai comer o seu fígado.
— Ah, foi mal. Eu fui pegar… — Griffin olhou para as mãos vazias e percebeu tarde demais que nem sabia o que dizia. Estava tão atordoado que mal conseguiu formular uma desculpa. — Um negócio.
Elias negou com a cabeça.
— Que seja. Só não some de novo, ela já quer começar.
estava sentada no chão e dobrava figurinos com cuidado, como se fossem delicados demais para aquele lugar, porém a maioria ali sabia que era uma forma de enrolar um pouco e repassar suas falas mentalmente.
Ao notar a aproximação do colega, ergueu seu olhar e franziu o cenho ao reparar de fato nele.
— Você tá branco, Griff. Aconteceu algo?
Ele engoliu seco e assentiu.
— Tô sim, é só… poeira. — Tentou desconversar e desviou o olhar, mas continuou a observá-lo, seus olhos curiosos e atentos demais a qualquer detalhe.
Droga, por que ela fazia aquilo?
— Se estiver passando mal, é só falar. Não precisa bancar o durão. Eu confesso que o cheiro desse lugar tá me deixando enjoada desde que entramos aqui.
— Vai ver é amaldiçoado, uh? — brincou e soltou uma risada sem graça, que acompanhou.
— É sério, Griff. Quer que eu te ajude em algo? Já terminei aqui, posso fazer a marcação da cena com você.
Griffin negou com a cabeça e precisou se conter.
Quase contou tudo a ela. A capa do roteiro, a sensação de ser observado e a impressão de ter visto algo no fundo do corredor antes de se afastar de lá.
No entanto, alguma coisa o deteve, por mais que não soubesse dizer o quê.
— Precisa não, . É sério, eu tô só tentando entrar no meu personagem e, poxa, ele é tão legal. Pena que já vai morrer.
soltou um risinho.
— Só você mesmo. Mas, se te servir como consolo, depois a gente pode fazer um altar pra ele e você se despede.
Griffin fez uma careta emocionada.
— Mesmo? O Ottis gosta de girassóis. Podemos arrumar uma coroa deles?
Naquele momento, Jasper passou por eles carregando uma caixa de lâmpadas.
— Pelo menos a morte do Ottis é maneira. Pare de choramingar e veja as coisas pelo lado bom.
Griff estreitou os olhos para ele.
— Respeite a nossa homenagem, cara.
A movimentação ao redor aumentou. Caixas eram abertas, cabos se desenrolaram, cenários eram montados, e Seraphine limpava um espelho com expressão de nojo.
— As coisas que eu não faço pela arte — resmungou, ao esfregar uma mancha particularmente difícil. Havia uma rachadura na borda direita que também incomodou a maquiadora, porém não era como se tivesse outra opção. Infelizmente, ainda não possuíam o suficiente para investir em equipamentos (e lugares) melhores.
A diretora Morgan circulava com uma prancheta nas mãos e tentava coordenar a bagunça improvisada que chamavam de set. Por mais que todo aquele trabalho a deixasse exausta no fim do dia, ela amava e não se via fazendo outra coisa.
Sem mencionar o quanto Morgan sonhava com o prêmio daquele festival, e só pensar naquilo lhe deu um gás para manter tudo no estado mais perfeito possível.
Ela lançou um olhar afiado para , que mexia em um controle conectado a um mecanismo suspenso no alto, e fez menção de se aproximar.
— A lâmina cenográfica está travada, não é?
não tirou os olhos do dispositivo.
— Claro que está. Confia, Davis.
, que passava por ali com seu figurino em mãos, escutou e parou bem próxima da diretora.
— Desde quando “confia” é um termo técnico de segurança? — sussurrou para Morgan.
Davis soltou um suspiro e abriu a boca para dizer algo, mas nem ouviu, ou fingiu não ouvir.
— O negócio é que precisa parecer real. Se não for visceral, não tem impacto. Logo, não é gore. — O comentário de veio acompanhado por um brilho quase obsessivo no olhar, como se o próprio filme o consumisse por dentro.
fechou a expressão, desconfortável, e ouviu um muxoxo baixo ecoar dos lábios da diretora. Pelo jeito, as duas compartilhavam do mesmo pensamento.
Quando o set ficou pronto, Morgan chamou toda a equipe quase sem acreditar no ótimo trabalho feito ali mesmo com pouco orçamento.
No centro do galpão, sob as lâmpadas penduradas por fios expostos, uma mesa velha servia como cenário improvisado. Era de metal, enferrujada nas bordas, com uma perna instável que rangia toda vez que alguém encostava nela. Caixas empilhadas simulavam um canto de depósito, e cabos serpenteavam pelo chão como raízes obscuras.
Acima deles, pendurada em um trilho precário preso às vigas de ferro, estava a lâmina cenográfica. Era longa e reluzente, e um tanto inadequada para um projeto como aqueles, havia sido o pensamento de uma parte do elenco, porém precisavam trabalhar com o que tinham. Sem mencionar que havia reforçado milhares de vezes como era segura.
A ideia dele era bem simples: com aquele mecanismo improvisado, poderiam simular várias facadas rápidas e poupar o dinheiro que gastariam coreografando uma luta real
Quando ativada, a lâmina desceria e subiria em sequência, o que imitaria o movimento frenético de um assassino ajoelhado sobre a vítima. Em teoria, era aquilo, e no teste prático que fez funcionou bem. Ele mesmo tinha montado a estrutura, com um auxílio rápido de Elias, então não havia como nada dar errado.
— Griffin, depois de rolar por cima da mesa, você cai deitado aqui — Morgan orientou, enquanto apontava para o X feito de fita no chão ao lado. — Nesse take, o Ottis foge do assassino, mas acaba não conseguindo escapar. Ele vai estar fora de quadro, então o mecanismo vai simular os golpes, depois adicionamos um outro take dele te puxando pelos pés.
O ator respirou fundo e tentou não demonstrar como de repente ficou tenso. O frio na barriga era perfeitamente normal, porém naquele dia ele não conseguia relaxar totalmente, não depois de ter encontrado aquela capa de roteiro.
— Ótimo, essa é a minha especialidade: ficar morto e imóvel. Uma verdadeira obra de arte atemporal — ironizou, e arrancou algumas risadinhas dos colegas, enquanto e Morgan reviraram os olhos, impacientes.
Ele se posicionou, ainda um tanto hesitante, e deu alguns pulinhos, sacudindo os braços para relaxar.
se aproximou dele e fingiu que ajeitava a gola do casaco de cena. O rosto da jovem ficou tão perto que Griffin percebeu um detalhe inquietante: as mãos dela tremiam, como se estivesse tão nervosa quanto ele.
— Se você estiver desconfortável, a gente pode ensaiar mais devagar, ou sei lá, tentar outro take mais leve primeiro. Eles gostam de começar pelas mortes porque são mais trabalhosas, mas aposto que a Morgan aceita — ela sussurrou, com seu olhar atento a cada traço do rosto dele.
Griff sabia o que ela estava fazendo, procurava ali qualquer sinal de vacilo.
Ele piscou, quase surpreso com a preocupação. não era exatamente uma pedra de gelo, porém também não costumava cogitar parar tudo, ou fazer mudanças nos takes por um colega. Ela era ambiciosa e gostava de brilhar, mesmo se fosse através de alguma morte espalhafatosa.
— Você tá sendo legal demais comigo hoje. Devo suspeitar de algo? — brincou e ergueu uma sobrancelha, esperto.
— Ah, cala a boca! E vê se vão acostuma — ela rebateu, mas o canto de sua boca cedeu em um sorriso.
ergueu o braço com a confiança cega de um produtor genial, mas estava mais para alguém que não sabia o que estava fazendo e se recusava a admitir.
— Preparados?
Ninguém teve muito tempo para responder.
Morgan respirou fundo, em uma tentativa de manter o controle da situação, embora já soubesse, pela atitude de , que na verdade ela não tinha o controle de nada. No entanto, mesmo sendo um tremendo pé no saco, Davis sempre acabava trabalhando com ele.
assentiu prontamente e se posicionou fora do enquadramento.
Griffin respirou fundo, determinado a ser o mais profissional possível e ajustou o corpo do outro lado da mesa, preparado para saltar por cima dela e cair no X marcado no chão.
Acima deles, a lâmina balançou levemente e refletiu a luz piscante do galpão. O ator engoliu em seco uma última vez.
— Cena um — Morgan chamou. — Take um.
A batida da claquete ecoou, então veio o silêncio.
entrou na cena.
Caminhou sorrateira entre as caixas, ombros tensos, respiração presa na garganta. Não precisava fingir medo, porque ele já se fazia presente desde o instante em que havia posto os pés naquele galpão. A atmosfera daquele ambiente era capaz de arrepiar até seu último fio de cabelo.
— Eu falei que não devíamos ter entrado nesse lugar, Ottis. Esquece essa aposta idiota e vamos dar o fora daqui. — Sua voz ecoou sussurrada e aflita, exatamente como o roteiro pedia.
Griffin entrou no quadro.
— Shh, Nora! Eu ouvi alguma coisa. — Seu personagem fez sinal para ela e olhou em volta, a tensão aumentava a cada segundo.
se virou rápido demais. Uma mecha de cabelo caiu sobre o rosto dela, e os olhos verdes encontraram os de Griffin.
Por um instante, ele quase esqueceu das câmeras, da atuação, de tudo. Então se forçou a voltar ao foco, e o grito da garota preencheu o ambiente.
Ela olhava com desespero em direção a um dos cantos, e Ottis imediatamente se pôs em sua frente.
— Nora, corre!
— Não vou sem você!
— Corre!
A personagem de hesitou e foi o suficiente para assistir o confronto de Ottis, que se jogou por cima da mesa e caiu exatamente no X marcado.
Uma lâmpada acima deles piscou com violência e lançou sombras irregulares no chão, o que tornou tudo ainda mais sinistro.
Um rangido metálico cortou o ar, e então o mecanismo disparou.
A lâmina despencou, rápida demais, forte demais.
CHUNK.
O impacto foi seco, brutal.
O corpo de Griffin arquejou e um jato de sangue quente atingiu o rosto de , respingando em seu pescoço e peito.
Um segundo golpe veio, então um terceiro, e um quarto.
O som do personagem de Griff se afogando e agonizando era real demais, e seu sangue quente demais.
congelou, o corpo inteiro tremeu, enquanto uma onda de pavor se espalhava.
Era real demais, e ela sabia que Griffin Rowe não era tão bom ator assim.
Callum gargalhou.
— Que porra de efeito prático é esse?
Elias bateu palmas, empolgado, também sem se dar conta de nada.
— Seraphine, eu preciso falar, você conseguiu superar qualquer maquiagem que já fez! Tá grotesco demais! Muito foda!
O olhar de brilhava com uma empolgação febril.
— Caramba, é disso que eu tô falando! Olha essa entrega! Essa autenticidade! Nós vamos ganhar, eu tenho certeza.
não conseguia respirar.
Seus olhos estavam arregalados e fixos na imagem de seu colega de cena, que continuava a se debater e se afogar.
— Morgan… — ela murmurou, a voz fina, frágil, quase num fio. — Corta, Morgan! Esse sangue… Esse sangue não é o nosso sangue falso!
A diretora correu imediatamente na direção do mecanismo, mas se colocou na frente com uma expressão indignada.
— Quê? Não interrompa isso! Não tá vendo o quanto essa cena tá perfeita? Isso é ouro puro!
sentiu o mundo girar ao seu redor e caiu de joelhos. Suas mãos tremiam tanto que ela precisou apoiar uma no chão antes de tocar no peito de Griffin assim que o mecanismo foi desativado. O sangue entrou pelos dedos dela como se tentasse prendê-la ali.
Ainda quente demais para ser apenas algo cenográfico.
— Griffin? — ela sussurrou. — Griff, ei… olha pra mim… — Lágrimas se formaram nos olhos dela, porém a garota tentou se manter firme para não o assustar.
Os olhos dele se moveram na direção dela, desfocados, desesperados. A boca abriu como se quisesse formar uma palavra, mas tudo que saiu foi um gorgolejo fraco. A dor era tanta que nada mais ao seu redor parecia fazer sentido.
— Para. Por favor… — implorou e a voz subiu uma oitava quando olhou em volta e ainda notou os colegas de elenco empolgados. — Por que vocês estão rindo? Alguém faz alguma coisa!
E então, finalmente, a ficha caiu e um silêncio mortal tomou conta do ambiente.
Não era atuação.
— ! — Morgan gritou e o puxou pelo colarinho da camisa. — A lâmina não deveria estar afiada, porra!
O celular que o roteirista segurava escorregou de seus dedos e bateu no chão com um estalo surdo.
Elias empalideceu ao ver o sangue se espalhar num círculo perfeito.
Seraphine deixou uma das paletas de sombras que segurava se espatifar, e Callum sufocou uma exclamação de choque.
segurou os dedos de Griffin, os lábios tremendo, enquanto as lágrimas caíam. Então sentiu quando o peso mudou.
Os olhos de Griffin vidraram.
A mão dele escorregou da dela.
E começou a tremer.
— ALGUÉM CHAMA AJUDA! — Sua voz esganiçada rasgou o espaço vazio. — POR FAVOR! ALGUÉM FAZ ALGUMA COISA!
O grito ecoou nas paredes metálicas e depois morreu, engolido pelo silêncio absoluto.
Morgan levou a mão à boca, seus olhos também estavam cheios de lágrimas e um murmúrio perturbado escapou de seus lábios:
— Corta.
Mas já não havia cena alguma para cortar.
Não era o silêncio típico de um set, era carregado de dor, desespero e tragédia. Um luto enfiado goela abaixo sem a menor explicação.
O corpo de Griffin permanecia no chão, cercado por uma poça de sangue que aumentava e brilhava sob a iluminação fraca, como um aviso de que algo terrível havia sido desencadeado ali dentro.
ainda estava ajoelhada ao lado dele. Os respingos de sangue manchavam sua roupa, um vestido rosa claro, de alças, que ia até pouco acima de seus joelhos.
Era o traje perfeito para Nora testemunhar o assassinato de Ottis, mas não para e Griff.
Os olhos da garota vidraram no corpo do colega de cela. Ela não chorava, não piscava, não falava.
Estava presa naquele segundo e permaneceu daquela forma quando todos ao seu redor de repente despertaram para a realidade, por mais cruel que fosse.
Morgan precisou de toda a determinação que tinha para tentar coordenar a situação e suas mãos tremiam tanto que ela mal conseguia mexer em sua prancheta.
caminhava de um lado para o outro, como um animal enjaulado, com as duas mãos atrás da cabeça, enquanto repetia as mesmas palavras, talvez numa tentativa de convencer a si mesmo.
— Foi um acidente… Foi um acidente… Ninguém vai acreditar que não foi.
Elias estava pálido e parado num canto, seu olhar fixo no sangue como se ali ele visse um fantasma.
Callum e Jasper não diziam nada. Apenas encaravam o chão, com as mandíbulas travadas e o horror estampado em suas feições.
Juniper e Seraphine choravam silenciosas, sem conseguir acreditar que aquilo havia mesmo acontecido.
Por mais real que tudo fosse, simplesmente não podia ser. Griffin abriria os olhos e se levantaria a qualquer momento, riria e diria que tudo não passava de uma pegadinha muito bem feita, então elas o xingariam e prometeriam odiá-lo pelo resto da vida, por mais que não fosse verdade.
Não havia como odiar Griffin Rowe. Ele era o ser mais gentil e brincalhão que conheciam.
E agora estava morto de um jeito tão… imbecil.
Depois do que pareceu ser uma eternidade, finalmente se ergueu e engoliu em seco.
— Nós precisamos ligar para a polícia. — Sua voz ainda estava trêmula, o choque deixando suas ações quase mecânicas.
Davis piscou, confusa, como se tivesse ouvido aquela frase em outro idioma.
— Quê?
— Polícia, ambulância, qualquer coisa. — colocou mais firmeza na voz. — Precisamos fazer o que é certo. Não podemos deixar ele aí assim.
deixou escapar uma risada nervosa.
— O certo agora é mantermos a calma e pensarmos direito. Se chamarmos a polícia agora, acabou tudo. O festival, o filme, as nossas carreiras… O que acham que vão pensar? Eles… Eles vão pensar que foi negligência nossa, ou pior… — ergueu encarou um a um. — Vão achar que foi de propósito.
— Você está se ouvindo, ? Esse filme vale mesmo mais que a vida de alguém? — A indignação fez quase gritar.
— Não estou dizendo isso. Só que ninguém aqui quer ser preso por assassinato culposo — o roteirista debateu. — Ou querem?
Morgan fechou os olhos com força. Elias passou a mão pelos cabelos em desespero, e Callum soltou um “merda, Griff” sussurrado.
os encarou, incrédula.
— Vocês não estão mesmo considerando isso, né? Não estão falando sério!
O silêncio gélido e constrangedor foi a resposta.
Seraphine Cross de repente se levantou e saiu correndo, enquanto cobria a boca com uma das mãos, certamente prestes a vomitar.
— Que tipo de monstros são vocês? — olhou cada um dos colegas como se aberrações tivessem se formado em sua frente.
— , se acalma. Não estamos dizendo que o tem razão em tudo, mas precisamos mesmo pensar nas coisas com clareza antes de agir. — Elias tentou argumentar e recebeu um olhar fulminante.
— É claro que você diria isso.
Então, sem conseguir permanecer ali e presenciar a forma nojenta como lidavam com aquilo, enquanto algo dentro dela se partia. se afastou.
— Droga… , espera! — Juniper trocou um olhar com Callum e Jasper, e os três assentiram antes de seguirem atrás dela.
— O que você sugere que a gente faça então, ? Porque, chamando a polícia ou não, ainda temos o corpo do nosso colega aqui no meio do set. — Morgan tentava se manter controlada, embora seu corpo inteiro tremesse, principalmente com a ideia que passava por sua mente.
— Que alternativa temos? Precisamos terminar o filme, Davis!
— Então nós vamos… e-esconder o corpo? É isso? — Elias se pronunciou e engoliu em seco. Nunca se imaginou em um cenário como aquele. Quem se imaginava?
— Droga, ! Se é o que se passa nessa sua mente doente, então vocês dois vão fazer. Eu não vou atuar nisso. — Morgan precisou conter uma onda de náuseas.
— São as nossas carreiras em jogo — frisou, com seu tom de voz frio de uma maneira que a diretora não havia visto antes.
— Que seja, cara. Só… Só vamos acabar logo com isso. — Elias mal podia acreditar que estava mesmo concordando com aquilo. No entanto, diante da expressão determinada do roteirista, era como se realmente não houvesse como discordar dele.
Para Seraphine Cross, era como se o chão tivesse desabado abaixo de seus pés. Griffin era jovem demais e alegre demais para ter um fim trágico como aquele.
Não conseguiu evitar lembrar da última conversa que tiveram antes daquela maldita gravação. Griff pediu, do seu jeito descontraído de sempre, para deixá-lo um “morto bonito”, afinal, a morte de abertura de um slasher de respeito é capaz de marcar gerações e o maior sonho dele era se tornar a nova Drew Barrymore.
— Droga, Griffin… — Cross sufocou um soluço e se apoiou na penteadeira improvisada em um canto mais afastado do galpão. O espelho com a pequena rachadura estava lá, apoiado contra a parede de tijolos úmidos, e ela passou a mão no vidro, numa tentativa de limpá-lo mais uma vez.
O choro veio baixinho, engasgado, e Seraphine deixou todo o pesar escorrer junto às lágrimas.
— Eu devia ter ido pra moda. Na moda ninguém morre, não é? — Encarou o próprio reflexo no espelho. — Só passa fome. — Riu desgostosa da piada infeliz, então negou com a cabeça e chorou mais.
Ao fundo, bem distante, ela conseguia ouvir a discussão entre seus colegas, porém, por alguma razão, era como se tudo estivesse abafado, e a maquiadora não conseguia entender com clareza o que era dito, porém nem queria.
Sendo sincera, seu maior desejo naquele momento era acordar e descobrir que tudo não havia passado de um pesadelo. Afinal, havia lido o roteiro daquele filme por vezes demais, a fim de encontrar a inspiração certa para suas produções.
Ergueu o olhar para o vidro do espelho mais uma vez e, para além daquela sujeira que não queria sair, encarou seu próprio reflexo. Seraphine estava um completo caos. Os olhos inchados, as maçãs do rosto vermelhas, uma coriza transparente ameaçava escorrer de seu nariz e os lábios tremiam enquanto mais lágrimas desciam.
Então a maquiadora respirou fundo e tomou uma decisão.
Não importava quantas reclamações e protestos fosse ouvir, Cross não ficaria mais nenhum minuto além do necessário naquele lugar. Juntaria todas as suas coisas e daria o fora daquele set.
Deveria ter escutado desde o início os seus instintos gritando que aquele galpão não guardava boas coisas.
Rapidamente, ela desviou o olhar para pegar um lenço da caixinha que guardava dentro da maleta de maquiagem, então tornou a encarar seu reflexo, respirou fundo e começou a limpar as lágrimas do rosto.
O espelho ainda estava sujo demais para que Seraphine enxergasse com clareza, porém a mulher tentava evitar pensar naquilo, ou pensar em qualquer outra coisa.
De repente, no reflexo, algo se moveu atrás dela.
Seraphine parou, o coração disparado, e a mão parada a poucos centímetros de seus olhos ainda segurava o lenço sujo de maquiagem.
Não ousou se virar e engoliu em seco.
— E-Elias? — chamou, sem muita convicção.
Nenhuma resposta veio.
Cross respirou fundo mais uma vez e voltou a limpar o rosto, enquanto tentava controlar o tremor em suas mãos.
Não devia ser nada, aquele espelho só estava muito sujo, e sua mente atormentada pela morte de Griffin.
Isso. Era tudo coisa de sua cabeça… certo?
Certo.
Seraphine pegou mais um lenço da caixa e, quando ergueu a cabeça novamente, o reflexo ali presente era bem nítido, mesmo para um espelho sujo.
Havia uma silhueta parada bem atrás dela, tão perto que, de repente, a maquiadora tomou consciência de sua respiração.
Seu corpo inteiro congelou, e a mulher não conseguiu ver mais nada além daquela figura.
Usava um moletom preto, um capuz cobria sua cabeça e o rosto estava coberto por uma máscara de teatro branca. Não havia como ver seus olhos, porque estavam preenchidos por um vazio horripilante.
No entanto, nada era mais assustador do que o sorriso macabro daquela máscara, como se tudo aquilo não passasse de uma cena cômica.
Seraphine tentou se mover, ou ao menos abrir a boca para dizer alguma coisa. No entanto, não conseguia. Era como se cada célula de seu corpo estivesse congelada pelo pavor.
Quando a figura ergueu as mãos e revelou luvas pretas, como num clique, Cross se deu conta do que aquilo se tratava. Ela quis gritar, porém, mais uma vez, não encontrou a própria voz.
Como num piscar de olhos, a figura se aproximou.
Agarrou seus cabelos e os puxou com violência.
O primeiro impacto da cabeça de Seraphine contra o espelho lhe trouxe uma onda excruciante de dor, mas não parou por ali.
Houve mais um puxão e sua cabeça se chocou uma segunda vez, uma terceira, uma quarta.
Era como se os cacos de vidros entrassem por todos os centímetros de seu rosto e se alojassem em seu cérebro.
O gosto do sangue tomou os lábios da maquiadora. Ela se afogou, tudo girava.
Cinco… Seis.
Era como se aquilo nunca fosse parar.
Seraphine tentou gritar uma última vez, porém só emitiu um som de engasgo.
A luz do galpão oscilou.
Sete.
Então a escuridão a engoliu.
O assassino soltou a cabeça da mulher, que desabou para frente, como se ela tivesse adormecido em cima da penteadeira improvisada, se não fosse pelo belo rosto completamente desfigurado.
Por alguns segundos, a figura mascarada parou para observar a cena. O sorriso demarcado combinava perfeitamente com seu estado de espírito.
A forma como as gotas vermelhas escorriam pela moldura do espelho estilhaçado tornavam tudo aquilo tão teatral.
Exatamente como deveria ser.
Tão rápido quanto havia surgido, o assassino se afastou e foi engolido pelas sombras.
O silêncio tornou a reinar no ambiente.
Morgan respirou fundo e tomou coragem para finalmente se aproximar do mecanismo. Ela não fazia ideia de quantos minutos permaneceu parada diante do objeto, porém logo descobriu ser tempo o suficiente para que e Elias retornassem depois de terem feito o que era preciso.
— E então? — Sua voz ecoou mecânica, sem nenhuma emoção.
Aquela sua maneira de lidar com as coisas a assustava às vezes, não podia negar.
— Tudo certo. Está feito. — Foi quem respondeu, a voz rouca, como se tivesse permanecido em silêncio por um longo tempo.
— Ótimo.
O olhar da diretora se voltou mais uma vez para o mecanismo e ela passou a examiná-lo. Alguns passos denunciaram a presença do restante da equipe se reunindo mais uma vez, todos atentos ao que acontecia no ambiente, porém nada mais pareceu importar porque, de repente, algo chamou sua atenção no trilho onde a lâmina tinha deslizado.
— Isso… Isso aqui não era para ser assim, não é? Isso não estava aqui antes. — Desviou o olhar meio atordoado para .
— Assim como? — Elias perguntou com a voz trêmula.
Davis aprontou para um parafuso.
— Isso aqui foi trocado de lugar. Acho que nessa posição aqui não ajuda em nada, pelo que o me explicou. A fita de segurança foi cortada. E… alguém mexeu na trava do mecanismo. Isso aqui não foi acidente.
Juniper e Callum se entreolharam. Jasper permaneceu em silêncio. sentiu o estômago virar, e e Elias fizeram menção de dizer algo, mas foi quem resolveu fazê-lo.
— Então você está dizendo que…?
Ninguém queria admitir o que aquilo significava, e quando Morgan respondeu, foi como se uma sentença pesasse sobre eles.
— Quer dizer que isso foi sabotado. Há um assassino entre nós.
Ninguém ousava olhar para o X marcado no chão e manchado pelo sangue de Griffin.
Ninguém moveu um músculo pelo que pareceu uma eternidade de minutos.
Ninguém sequer respirava.
parou a poucos metros da mesa enferrujada e ali permaneceu, os ombros tensos e o corpo imóvel. Seus olhos estavam vermelhos e o rosto inchado pelas lágrimas.
O sangue seco já começava a escurecer em seu vestido rosa claro, e cada respingo contava uma história que ela se recusava a lembrar.
A revolta ainda estampava seu olhar, no entanto, começava a dar lugar para uma outra emoção:
O medo.
— Tem… — pigarreou para tentar ajustar a voz, que havia soado fraca. — Tem certeza, Morgan?
Lentamente, a diretora tornou seu olhar para ela. Estava atordoado de um jeito que ninguém ali havia visto antes.
Davis assentiu e engoliu em seco.
Elias se aproximou do mecanismo, a fim de avaliá-lo também, e suas feições foram de surpresa para medo instantaneamente.
— Não estava assim mesmo. Nós conferimos. — Sua boca tremeu com a constatação.
— Mas… — Foi Callum quem se pronunciou. — Como isso é possível? Quem faria uma coisas dessas? E como ninguém viu?
Por alguns segundos, aquelas perguntas apenas ecoaram no ar. Ninguém ali tinha resposta para elas.
Ou, se tinha, não iria dizer.
— O que a gente faz agora? — Juniper murmurou, apavorada e confusa.
Morgan respirou fundo e tentou pela milésima vez retomar o controle.
Maldita hora em que havia topado ser a diretora daquele filme.
— Acho que a primeira coisa é permanecermos juntos. Ninguém se afasta, ninguém vai sozinho a lugar nenhum. Nem ao banheiro, nem ao carro, e muito menos lá fora. — abriu a boca para contestar, e Davis o cortou no mesmo instante. — Se temos um assassino entre a gente, eu quero ver ele ser audacioso o suficiente para atacar todos nós de uma só vez.
Jasper deixou escapar uma risada nervosa, e todos os olhares se voltaram para ele.
— Qual é, gente? Há quanto tempo nos conhecemos? — Ele deu de ombros. — Isso simplesmente não entra na minha cabeça.
— O que você sugere então? Que tem alguém infiltrado aqui? — Callum de repente estava mais atento às palavras do amigo.
— Vamos lá. Você, por exemplo, junto ao Griff, sempre foi escalado para ser um dos primeiros a morrer. O Elias… tá, o Elias às vezes é meio esquisito…
— Ei!
— Mas acho que ele é nerd demais para chegar a esse ponto. — A justificativa fez Elias revirar os olhos. — A Juni é muito fofa, paz e amor. Morgan surtaria. E a é tão princesinha que duvido matar uma mosca.
— Princesas não são tão inofensivas assim. — tentou argumentar.
— Não é sobre isso, . Só não acho que você seria capaz de fazer mal a alguém.
A atriz assentiu e sorriu fraco.
— E está certo.
— Por fim, temos o . Ele é meio frio de vez em quando, mas têm uma mira péssima, vai por mim. Nunca teve vocação para qualquer esporte.
— Obrigado, cara — ironizou.
— De nada. E mesmo eu, que pratico um monte de coisas, não mataria ninguém daqui. Vocês são meus amigos, e o Griff… — A voz de Jasper falhou e ele respirou fundo antes de continuar. — O Griff era como um irmão.
Mais olhares foram trocados, enquanto o silêncio reinava outra vez. Um silêncio desconfortável e carregado de lembranças.
Então, de repente, a expressão de Morgan mudou e sua voz se fez ouvir.
— E a Seraphine?
Elias piscou, confuso.
— O que tem a Seraphine?
— Onde ela está?
Todos olharam em volta surpresos por não terem notado a ausência da maquiadora antes.
— Ela não tinha ido ao banheiro, ou algo assim? — Callum continuou a procurar, como se, de repente, a colega fosse aparecer em um canto qualquer do ambiente.
— Não. — Jasper soltou, num tom baixo. — Eu a vi correr para a sala improvisada de maquiagem. Ela estava bem mal.
— E quanto tempo faz isso? — Morgan perguntou, e o rapaz apertou os lábios.
— Eu não sei, uns vinte minutos? Foi pouco antes de vocês resolverem se livrar do corpo do Griff.
passou a mão na nuca, inquieto.
— Ok, alguém vai ter que ir até lá ver…
— Não — Morgan cortou, rapidamente. — Eu falei que ninguém vai andar sozinho.
Os olhos de todos se voltaram para a imensidão daquele galpão escuro: o corredor longo, as salas improvisadas, as sombras imóveis e o eco silencioso de suas respirações.
De repente, era como se aquele lugar tivesse se tornado um labirinto vivo e brutal.
abraçou os próprios braços, como se pudesse reduzir o frio crescente que percorria sua espinha.
— E se ela só… foi embora? — ela disse, embora sua voz soasse incerta demais para convencer até a si mesma. — A Seraphine sempre foi impulsiva. E, convenhamos, ela odiava gore, todo mundo sabia disso. Vai que ela entrou em pânico e decidiu dar o fora?
Jasper olhou para com uma expressão cansada.
— Sem se despedir de ninguém, ou ao menos deixar alguma mensagem avisando? Tem algo estranho, . Está tudo silencioso demais.
As evidências eram sólidas demais para ignorarem.
— Sem falar que a bolsa dela ainda está aqui. — Juniper apontou para uma cadeira, onde o objeto estava repousado.
De fato, Seraphine não tinha ido embora.
Morgan respirou fundo, numa tentativa de raciocinar.
— Ok. — ela disse lentamente. — Então vamos todos juntos. Procuramos pelo galpão inteiro. Se ela não estiver aqui, vamos tentar ligar para alguém próximo, ou algo do tipo. Se estiver… — Engoliu em seco. — Bom, vamos torcer para que esteja bem.
olhou para a lâmina suspensa, agora imóvel, fria, inofensiva, porém ainda suja com o sangue de Griffin.
Um aperto trancou sua garganta.
Juniper limpou as lágrimas secas com o dorso da mão e respirou fundo.
— Então… por onde começamos?
Morgan virou-se para o corredor.
E, como se os olhos de todos fossem puxados por um fio invisível, olharam o mesmo ponto: o caminho escuro que os levaria até a sala de maquiagem improvisada.
— Por ali. — Morgan disse.
O grupo avançou pelo galpão escuro com passos lentos, cuidadosos, mas o silêncio não vinha por medo e, sim, pela incerteza.
Era como se ninguém ainda quisesse admitir que algo estava errado demais naquele lugar, e eles precisavam dar o fora dali o quanto antes.
— Seraphine? — Morgan chamou e tentou manter a voz neutra, mas sem sucesso. — Ei, se isso é alguma piada, já acabou a graça faz tempo.
Nada. Nenhuma resposta, ou movimento.
Apenas o eco distante da sua própria voz, que desaparecia nos corredores.
De repente, era como se o galpão tivesse aumentado de tamanho apenas para engoli-los.
Callum usou a lanterna do celular para iluminar o caminho e encontrou caixas, figurinos e umas estruturas enferrujadas que não sabia dizer o que eram, mas nada de Seraphine.
— Talvez a tenha razão — Elias sugeriu, numa tentativa falha de convencer os outros e até a si mesmo. — Tipo… o que aconteceu com o Griffin foi realmente pesado. Talvez ela tenha precisado respirar.
— Sem as coisas dela, Elias? — Juniper rebateu. — Sem sequer avisar a Morgan?
— Pessoas em choque não tomam decisões lógicas, isso é um fato. — respondeu, rápido demais.
observou o tom dele, sempre carregado por uma neutralidade exagerada, como se ensaiasse o que iria dizer, porém, ao mesmo tempo, não parecia atuação. Era confuso demais, e a atriz preferiu deixar aqueles pensamentos de lado.
— Tá escuro demais aqui. — Jasper reclamou, incomodado. — Por que ninguém acende tudo? Esse lugar tem gerador, ou sei lá?
Morgan balançou a cabeça.
— As tomadas daqui são antigas demais. Quando ligamos a iluminação do set completo, os disjuntores quase desarmaram. O resto só funciona com extensão.
— Ótimo — Elias resmungou. — Estamos realmente em um filme de terror e seguindo a regra número um: andar pelo escuro.
Ninguém respondeu. Estavam muito ocupados prestando atenção no ambiente e ouvindo.
A sensação era a de que havia alguém ali e esperavam, de todo coração, que fosse Seraphine e que ela estivesse bem.
Não suportam perder mais um colega.
— Vamos só checar a sala de maquiagem nos fundos. — Morgan decidiu, firme, como se dar ordens fosse a única forma de impedir seu cérebro de entrar em colapso. — Se ela não estiver lá, a gente volta. Não faz sentido continuar.
— Isso é ridículo. Um grupo de tantas pessoas só para checar alguém que com certeza já está longe daqui. Não sei por que ainda concordo com essas coisas. — se irritou e, de repente, se virou e começou a seguir por outro corredor.
— ! — Juniper exclamou em repreensão.
— E se ela não estiver na maquiagem? Se foi ao banheiro, ou sei lá, estiver lá fora?
— Então a sua ideia brilhante é ir até lá sozinho? — Elias ergueu uma sobrancelha.
— Se quiser ir comigo, eu não ligo. Não tenho medo desse assassino, se é que há um.
Elias trocou um olhar rápido com Jasper e Callum.
— Vamos nos dividir em dois grupos então. Eu, Jasper e Callum vamos com você, e as meninas…
— Espera, vocês vão mesmo nos deixar sozinhas com um assassino à solta? — Juniper se indignou.
Jasper suspirou.
— Vai com eles então, Juni. Eu vou com a Morgan e a .
As duas se entreolharam e deram de ombros.
— Muito bem.
já estava há uns bons metros quando os grupos se dividiram, e o trio seguiu atrás dele.
Elias apertou os passos, o que acabou o distanciando de Callum e Juniper.
Eles viraram à direita e seguiram por um corredor estreito. O ar ficou mais pesado, mais frio e mais úmido quanto mais longe do set principal se afastavam.
De repente, a luz do celular de Callum apagou.
— Droga de bateria. Consegue acender o seu, Juni?
Ao seu lado, a respiração acelerada dela era tudo que se ouvia.
— Claro. — Juniper não sabia se realmente era uma boa ideia seguir atrás de .
Para falar a verdade, ela já não tinha certeza de mais nada.
Quando a garota acendeu a lanterna do celular, no entanto, não havia mais nada diante deles. Nenhum sinal de Elias, muito menos de .
— O-onde é que eles foram?
Callum engoliu seco e tremeu como jamais havia tremido na vida.
— Eu não sei.
Juniper se aproximou o máximo dele que pôde, e o rapaz se colocou à frente dela, numa forma de protegê-la caso fosse necessário.
Eles continuaram andando pelo corredor a passos curtos, com os batimentos acelerados e o medo a percorrer suas veias.
Como e Elias haviam sumido tão de repente? Para onde haviam ido? Juniper não conseguia entender.
Na verdade, desde a morte de Griffin, nada mais fazia sentido.
— Callum… — ela chamou, a voz fraca e trêmula. — Onde nós estamos? — Então apontou a câmera ao redor e percebeu que, se virassem para a direita, entrariam em uma sala.
— Não faço ideia, Juni. Mas imagino que o fim desse corredor vai dar em algum lugar, não é? — Seu tom era incerto e, ao mesmo tempo, o ator torcia para que aquilo fosse verdade.
Juniper parou por alguns segundos para observar a sala e notou várias caixas velhas empilhadas.
— Seraphine? — Tentou, mesmo sabendo que não teria resposta. — ?
Apenas o eco de sua própria voz continuou a cortar o silêncio.
Ela engoliu em seco.
— Callum… — Tremeu mais, e o rapaz segurou em uma de suas mãos.
— Eu sei. Precisamos continuar andando, Juni. — Então a conduziu para que eles prosseguissem.
— A gente devia voltar — Juniper insistiu, de repente, incapaz de se conter, tamanho era o medo que sentia. — Ou, sei lá… falar com a polícia. Não faz sentido continuar procurando pela Seraphine como se ela fosse aparecer de repente, com a maleta de maquiagem e aquelas barras proteicas dela.
Callum riu nervoso.
— Seraphine desaparecida, clima mórbido, adrenalina… Daqui a pouco, um de nós tropeça num cadáver, e aí, sim, vai virar documentário na Netflix. — Tentou fazer piada para não parecer tão apavorado.
— Isso não tem graça.
— Eu sei — ele respondeu tão rápido que acabou se entregando.
Mais silêncio.
Eles continuaram caminhando, encontraram mais salas como aquela cheia de caixas e se perguntaram como um galpão daquele podia ser tão imenso.
O som dos passos ecoava como se houvesse alguém logo atrás.
Juniper começou a olhar por cima do ombro rápido demais, como se esperasse ver algo de repente.
Ou, quem sabe, alguém.
— Você está ouvindo isso? — sussurrou, enquanto apertava a mão de Callum com mais força.
— O quê?
— Parece passos.
Ele parou para prestar a devida atenção, e foi aí que ouviram:
Tic.
Tac.
Tic.
Como se algo pingasse em metal.
Como se algo estivesse… escorrendo.
Eles seguiram mais alguns passos. A luz do celular iluminou a parede. E Juniper arfou.
— Callum…
Um respingo vermelho marcava o concreto. Pequeno, irregular, como se tivesse caído de alguém em movimento.
Callum tentou rir e falhou miseravelmente.
— Deve ser tinta. A Seraphine sempre anda com aqueles pigmentos para maquiagem, lembra?
Juniper sacudiu a cabeça.
— Não é tinta, Callum. — Sua voz saiu fraca. — O cheiro é forte demais.
E ela estava certa.
O ar tinha agora um aroma metálico, quente e pungente.
Callum respirou fundo e tentou manter a postura. Precisava, porque sabia que a amiga entraria em pânico, e as coisas só piorariam. Seu corpo, no entanto, estava em estado de alerta.
— Relaxa, Juni. Se ela deixou isso cair aqui, deve estar perto. Nós vamos encontrá-la.
Ele avançou mais rápido e seguiu a trilha de pequenas manchas.
Juniper soltou a mão dele e ficou parada por um segundo.
Paralisada.
A garganta fechada.
O coração batendo tão alto que parecia vibrar no próprio ouvido.
— Callum… me espera.
Ele não a ouviu. Virou para a esquerda e desapareceu na escuridão.
Juniper prendeu a respiração.
Por três segundos eternos, ela ficou sozinha naquele corredor vazio.
Depois, com a voz embargada e os olhos marejados, ela sussurrou:
— Por favor… não me deixe sozinha.
E correu atrás dele.
Conforme Callum caminhava, a trilha vermelha se tornava mais irregular, pingos mais espaçados, alguns borrados, como se alguém tivesse tropeçado, ou sido arrastado.
Ele conseguia ouvir os passos de Juniper logo atrás de si, e a iluminação fraca do celular dela o guiava, enquanto seu coração parecia prestes a saltar pela boca.
— Seraphine? — o ator chamou, tentando manter a voz firme. — Olha, se isso for alguma brincadeira, eu juro que vou…
Clac.
O som veio do escuro.
Algo metálico.
Algo próximo demais.
Callum girou o corpo.
— Quem está aí?
Nada.
Só o som insistente de sua própria respiração e dos passos apressados de Juniper, que correu até finalmente alcançá-lo.
— Você encontrou algo? — Sua voz estava ofegante, não apenas pela corrida, mas pelo pavor.
Ele fez sinal para que ela levantasse o celular para iluminar a área ao redor, então os dois viram. No chão, perto de uma das paredes, algo brilhava.
Uma pulseira dourada que sabiam ser de Seraphine, porque tinha o nome dela gravado em um pingente.
Juniper levou a mão à boca.
— Callum… vamos sair daqui.
Ele ficou imóvel. A mandíbula travada, o corpo rígido.
— Isso não faz sentido…
— Eu sabia que tinha algo errado, Callum. Por favor, vamos voltar.
— Juni, isso não faz sentido. Quem poderia fazer algo assim com a gente? Nós somos amigos, e não tinha ninguém aqui quando entramos…
— Olha para mim, Callum. Seraphine não ia sumir sem falar com ninguém, e nós dois sabemos que jamais deixaria isso daqui para trás. É parte dela. — Ela se abaixou para pegar a pulseira e a ergueu.
Callum abriu a boca para responder, mas não teve tempo. Dessa vez, ouviram claramente.
PASSOS.
Rápidos.
Pesados.
Bem atrás deles.
Juniper virou a luz do celular para a escuridão do corredor.
— Tem alguém aí? — ela gritou.
Silêncio.
Então agarrou o casaco do amigo.
— Callum, por favor, vamos voltar.
— Juni…
Ele recuou um passo.
Uma sombra se moveu na parede, e era longa demais, angulosa demais, para ser de alguém parado.
Juniper estremeceu.
Callum engoliu seco.
— Ok, vamos voltar. Devagar, sem correr e sem pân…
A luz do celular de Juniper apagou.
— Callum? — ela sussurrou, a voz desesperada. — Meu celular travou, Callum!
Não ouviu resposta dele, seu coração acelerou.
— Callum…?
— Juniper, fica atrás de mim.
O breu era absoluto.
E foi justamente no escuro que o som veio:
Rasp…
Rasp…
Rasp…
Como metal arrastando pela parede.
Juniper sufocou o choro.
— Isso não é real. Isso não é real. Isso não é real.
Ergueu o celular novamente e conseguiu reacender a lanterna.
Então a luz revelou alguém parado a poucos passos deles.
Moletom escuro.
Uma máscara branca de teatro, com respingos de sangue e um sorriso macabro.
Nas mãos, cobertas por luvas pretas, uma faca reluzia.
Sua respiração era silenciosa demais, e a figura sequer se moveu. Apenas continuou parada ali, a observá-los.
O medo realmente era a mais bela das emoções.
Callum ergueu os braços instintivamente.
— Ei… calma. A gente não… A gente não quer confusão. Só queremos sair daqui, tá legal? Não vamos contar para ninguém o que vimos e…
O assassino avançou, tão rápido e silencioso quanto um predador.
A faca brilhou mais uma vez quando refletiu a tela do celular.
Juniper gritou.
Callum tentou bloquear, mas a lâmina atravessou o antebraço dele com facilidade e rasgou carne e osso.
Juniper deixou o celular cair.
A luz vacilou.
— CALLUM!! — a garota soluçou no escuro.
Ele tentou correr, tentou empurrar o assassino, tentou lutar por sua vida, mas o corredor era estreito demais.
O pânico era ainda maior.
O assassino era paciente e avançou mais uma vez.
O próximo golpe atravessou o abdômen de Callum.
Outro abriu o lado do pescoço.
Um terceiro perfurou o peito.
O rapaz caiu de joelhos, incapaz de respirar, e o único som que escapava de seus lábios era o de seus gargarejos.
Juniper assistia à cena paralisada, seu corpo inteiro tremia, e o cérebro gritava que ela precisava ajudar Callum.
Mas era tarde demais, ele já estava escorregando no próprio sangue.
No escuro, a máscara do assassino aproximou-se do rosto dele.
Callum não podia ver seu rosto, mas sentiu.
O sorriso desenhado na máscara ia além dela e estampava as feições do assassino.
Aquilo era prazer em matá-lo.
Antes do último golpe, antes do silêncio absoluto, Callum conseguiu sussurrar, num fio mínimo de voz:
— Você não é gente.
A lâmina entrou pela terceira costela e, quando saiu, o rapaz tombou no chão, imóvel.
Juniper recuperou seus movimentos e recuou, sem ar, até suas costas colidirem com a parede fria.
Ela encarou o corpo do amigo ali, sem vida, e o desespero tomou conta de si.
Então, quando tornou a erguer o olhar, percebeu que a figura ainda estava ali e a observava.
Como se decidisse se Juni seria a próxima.
A única coisa da qual tinha consciência era de que seus pulmões ardiam, suas pernas falhavam e o mundo parecia girar à sua volta.
O ar gélido entrava por suas narinas e descia queimando pela garganta a cada respiração desesperada, mas ela não podia parar. Parar significaria enfrentar a morte, e Juniper Hale não estava pronta para isso. Nenhum deles deveria estar, eram jovens demais e com tudo pela frente.
Os lábios tremeram e ela sacudiu a cabeça em negação, então se forçou a seguir em frente.
A escuridão atrás de si parecia se mover, como se a seguisse, porém Juni não se atreveria a olhar. Não queria encarar aquela máscara e aquele sorriso diabólico novamente.
— Callum? — Hale gritava enquanto corria, por mais que soubesse que não haveria resposta. — Callum!
Apenas o eco a respondia.
As lágrimas borraram sua visão e ela travou o maxilar para conter um soluço. O sangue dele encharcava seus dedos devido à tentativa de segurá-lo, e havia respingos por sua blusa, parte do pescoço e rosto.
Cada um de seus passos era um tropeço, um esforço descomunal. A cada curva, uma ameaça, como se a qualquer momento a figura fosse aparecer ali, afiando a faca nas paredes, sedenta por mais uma vítima.
Como num milagre, de repente, ela se viu em um espaço aberto e demorou alguns segundos para assimilar que estava de volta ao set de filmagem.
Morgan foi a próxima a retornar, acompanhada pelo restante do grupo.
— Juniper? — Ela arregalou os olhos e se aproximou rapidamente ao notar todo aquele sangue.
Hale a encarou atordoada, então desabou. Seus ombros sacudiram, ela caiu de joelhos e o choro veio engasgado, desesperado.
— Juniper, o que aconteceu? Você está ferida? — A diretora tentou procurar qualquer sinal e não tardou a perceber que o sangue não pertencia a ela.
— Juni, cadê o Callum? — também se aproximou, enquanto olhava para a colega com atenção.
— M-mataram… Mataram o Callum.
O silêncio que se seguiu àquela resposta foi muito mais pesado e cruel do que qualquer outro desde a morte de Griffin.
ergueu o rosto num movimento brusco, seus olhos se arregalaram ao observar o estado dela.
abraçou o próprio corpo, uma lágrima silenciosa desceu por sua bochecha.
Elias empalideceu, e Morgan continuou a encará-la, como se esperasse Juniper rir e dizer que era alguma brincadeira dos dois para descontrair.
— Não! — Jasper foi o primeiro a se pronunciar e negou com a cabeça como uma criança a recusar uma verdade inconvenientemente adulta. — Não… Não mataram, não!
— Tem muito… Tem m-muito sangue… Ele tentou correr, mas… mas… — Ela ofegava e tremia como se o ar fosse vidro. — Ele n-não conseguiu, porque foi tudo rápido demais… E-ele tentou, mas não conseguiu… Ele… Ele…
Seu corpo inteiro tremeu, e se aproximou para abraçá-la.
— Ei… — sussurrou, com a voz suave, quase maternal. — Respira, Juni. Você está segura agora, estamos aqui com você.
Juniper devolveu o abraço com força, como alguém que se agarra a um penhasco antes de cair.
— Juni… — Elias tentou, trêmulo, temeroso. — Você viu quem fez isso?
— Eu vi. — Os olhos dela se voltaram para ele enquanto ainda abraçava . O rapaz nunca a tinha visto tão apavorada. — Usava uma máscara e era horrível… Com um sorriso macabro, como se tudo não passasse de diversão.
avançou um passo, tenso.
— Máscara? Que tipo de máscara?
A forma como o roteirista perguntou, rápido demais, fez todos o olharem.
Morgan franziu a testa.
— E por que isso importa, ?
— Porque… — Ele respirou fundo, nervoso. — Porque a máscara com certeza tem um significado. Porque isso só confirma que tem mesmo alguém brincando com a gente e a morte do Griffin não foi um acidente.
Juniper começou a chorar outra vez.
— Vocês não estão entendendo! Não importa qual o significado da maldita máscara de teatro. Quem quer que seja, ainda está aqui dentro com a gente, e eu não acho que vai parar no Callum.
O pânico se espalhou entre eles como pólvora.
Elias olhou ao redor como se o assassino fosse saltar do teto.
Jasper murmurou algo inaudível, quase como se rezasse.
apertou Juniper contra si, num gesto protetor, enquanto ela mesma tremia.
Morgan respirou fundo, em mais uma tentativa de manter o mínimo de controle.
— Ok. A gente precisa sair daqui. Agora.
levantou a mão.
— Espera. E se ele estiver lá fora?
— E se ele estiver aqui dentro? — Juniper rebateu, desesperada.
A tensão ficou tão espessa que parecia possível rasgá-la com as unhas.
olhou ao redor, lentamente, com os olhos marejados, mas firmes. O tipo de firmeza que nasce do medo real.
— Então a gente segue o conselho da Morgan e não se separa mais. Vamos ficar juntos. Todo mundo. Até achar uma saída segura.
Morgan assentiu.
— Certo. Vamos buscar nossas coisas e…
Uma lâmpada estalou acima deles.
Outra.
E mais outra.
Até que metade do galpão mergulhou na penumbra.
Juniper agarrou a mão de com força.
— Ainda não acabou.
engoliu seco, mas ergueu o queixo, tentando ser mais corajosa do que se sentia.
— Então vamos acabar com ele antes.
Eles começaram a se mover, devagar, tateando, como se o chão pudesse desabar a qualquer instante.
Juniper ainda segurava a mão de com tanta força que seus dedos já estavam brancos. Elias caminhava ao lado delas e olhava por cima dos ombros a cada três passos. Jasper vinha logo atrás e respirava rápido, como se estivesse prestes a sucumbir diante de uma crise de ansiedade. Ele não havia dito nada com nada desde que soube da morte de mais um amigo e tinha a sensação terrível de que era o próximo.
Morgan, como sempre, tentava manter o controle.
parecia o mais tranquilo do grupo, porém a forma como seus olhos observavam tudo ao redor o denunciava.
Só havia um realmente no controle. Alguém que, segundo Juniper, usava uma máscara de teatro macabra.
As luzes tornaram-se a acender acima deles, porém logo começaram a falhar e piscar num ritmo inquietante, como um coração à beira da parada.
— Ok… vamos com calma… — Morgan murmurou, mais para si mesma do que para os outros.
Eles atravessaram a metade do galpão em silêncio, o som dos passos ecoava num espaço que agora parecia ainda maior, mais frio e profundamente hostil. Ninguém queria avançar, mas sabiam que era necessário, principalmente se quisessem encontrar uma saída segura.
Quando estavam prestes a virar o corredor que os levava ao local onde deixaram seus pertences, algo vibrou.
Fraco.
Longe.
Quase inaudível.
Todos pararam ao mesmo tempo. Congelados, em estado de alerta.
O som repetiu.
Vrrr… vrrr… vrrr…
franziu o cenho.
— Isso é…? — murmurou, porém se calou ao ver o sinal de Morgan pedindo silêncio.
Eram notificações, como se um celular tivesse sido ligado naquele instante e recebesse todas as mensagens do período em que permaneceu apagado.
Juniper soltou um soluço baixinho.
Elias estremeceu.
— Não…
Jasper fechou os olhos e balançou a cabeça. O frio percorreu sua espinha como mais um alerta de sua sentença.
O som continuou.
Vrrr. Vrrr. Vrrr.
engoliu em seco e tentou manter a respiração estável enquanto seus olhos percorriam o galpão em busca da origem daquele som.
— De onde isso tá vindo? — Ela arriscou. — Não parece que é da sala de maquiagem?
Morgan só conseguiu assentir.
O silêncio voltou. Um silêncio em que engoliram em seco e tomaram coragem para seguir em frente.
Eles deram mais alguns passos, cuidadosos, e o som mudou.
O que era vibração, passou a ser toque.
E ouvir aquele som foi ainda pior.
♬ I know your eyes in the morning sun
I feel you touch me in the pouring rain ♬
A melodia foi distorcida pelo eco, ainda um tanto distante. Soou por mais alguns segundos e parou.
empalideceu ao se dar conta da similaridade dos acontecimentos.
— Alguém mexeu no celular da Seraphine.
Jasper virou bruscamente para encará-lo.
— Como você sabe que é o dela?
O roteirista demorou meio segundo para responder, tempo suficiente para todos notarem e pararem de andar para o olharem também.
— Porque… — Ele passou a mão no rosto, sem acreditar que ia proferir aquelas palavras. — Porque eu escrevi isso. Essa cena está no roteiro do filme.
Juniper ofegou e levou as mãos à boca. tinha os olhos arregalados, o corpo tremia como nunca antes. Elias negou com a cabeça, como se estivesse se negando a acreditar, e os joelhos de Jasper fraquejaram.
Se a cena estava no roteiro, ele estava certo. Era o próximo a morrer em Stabbed.
Morgan respirou fundo, tentando decidir se levava o raciocínio em consideração, embora tudo estivesse muito evidente.
— Isso só pode ser brincadeira. E, se for, eu é que vou matar cada um de vocês.
negou veementemente.
— Não é brincadeira, Davis. É real, mas quem quer que esteja fazendo isso, está usando o meu roteiro como base.
Ela engoliu em seco e procurou não pensar no que aquilo implicava, porém, a cada segundo, o pânico se alastrava mais.
Então, como se respondesse diretamente a cada nota de pavor, a chamada recomeçou.
Mais alta.
Mais perto.
Agora não parecia mais vir da sala de maquiagem.
Vinha do corredor escuro.
apertou os lábios, numa tentativa de parecer firme, mas seus olhos estavam marejados.
— A gente precisa achar esse celular. Não podemos… Não podemos fingir que isso não tá acontecendo.
deu um passo.
Morgan segurou seu braço.
— Sozinho, não.
Todos recomeçaram a caminhar juntos, tensos, como se algo pudesse saltar da escuridão a qualquer momento e arrancá-los um por um.
Quanto mais avançavam, mais alto ficava o toque.
♬ And you come to me on a summer breeze
Keep me warm in your love, then you softly leave ♬
Até que…
No canto do corredor, a poucos metros da porta da sala de maquiagem, o ar parecia mais denso e a escuridão era interrompida pelo piscar de uma tela que acendia e apagava.
Era o celular de Seraphine caído de tela para cima.
O grupo correu em direção ao aparelho e o recolheu, trêmulo.
Ele sabia exatamente o que veria ser exibido na tela.
📲 NÚMERO DESCONHECIDO
ligando…
Juniper tapou a boca com a mão.
No entanto, antes que alguém conseguisse reagir, a chamada parou mais uma vez, e uma mensagem apareceu na tela.
"Quer mais autenticidade? Te desafio a entrar na sala. 🔪🩸"
As luzes do galpão tornaram a se apagar.
E deixou o celular cair como se tivesse levado um choque.
Era incrível como um simples apagar de luzes tinha a capacidade de fazer todas as suas terminações nervosas entrarem em estado de alerta. Uma mera baforada ao seu lado a fazia olhar ao redor rapidamente, como se esperasse encontrar a tal figura mascarada a qualquer segundo.
Ela sentia os outros se moverem ao seu lado, porém aquilo não a confortava em nada, muito pelo contrário, e Davis só percebeu que prendia a respiração quando e Jasper finalmente conseguiram acender as lanternas dos celulares e um suspiro de alívio escapou dela.
O grupo se entreolhou enquanto avaliava suas alternativas. estava estranhamente quieto, porém seu olhar denunciava o debate em sua mente.
Não queria entrar naquela sala, sentia que algo terrível os aguardava, principalmente depois de ler aquela mensagem de texto, mas o que mais poderiam fazer?
Após engolir a seco, foi o roteirista quem tomou a frente, enquanto apertava entre os dedos o celular que tinha se abaixado rapidamente para recolher.
A porta da sala de maquiagem estava entreaberta e rangeu quando foi empurrada, como se protestasse contra a presença deles ali. O lugar estava mergulhado naquela penumbra estranha, iluminado apenas pela luz das lanternas dos celulares. Junto ao cheiro agridoce de alguns produtos de beleza que Seraphine deixava dispostos em cima da penteadeira improvisada, havia também o de mofo e algo metálico que nenhum deles queria identificar.
entrou primeiro, com a lanterna do celular tremendo em sua mão, seguido por Morgan. Juniper vinha atrás da diretora, rígida como um fio prestes a se partir, enquanto ainda a amparava. Jasper e Elias fechavam o grupo, o primeiro com os olhos arregalados, tão pálido quanto o frasco de pó branco que Seraphine usava para selar suas maquiagens.
O que encontraram dentro daquela sala, no entanto, conseguia ser pior do que esperavam.
Maquiagens foram derramadas. Pincéis estavam espalhados pelo chão. A cadeira de Seraphine estava tombada e havia um amontoado de toalhas sujas em um canto.
Acima da penteadeira improvisada, o espelho.
Rachado de alto a baixo.
As fissuras se espalhavam pelo vidro como veias mortas. Haviam estilhaços por todos os lados e, em suas pontas, manchas vermelho-escuras tornavam o odor metálico ainda mais pungente.
Juniper levou a mão à boca.
— Isso é sangue, não é? — sussurrou, sua voz quebrada, enquanto apontava uma mancha maior bem no meio do espelho quebrado.
Morgan não respondeu, apenas aproximou o celular e fez o brilho da lanterna revelar mais detalhes. O padrão era bem característico. Era como se algo tivesse golpeado o vidro diversas vezes e havia respingos escorridos na moldura.
— Não… — Addie imitou o gesto de Juniper e desviou o olhar enquanto tentava conter as lágrimas.
— O-o que vocês acham que aconteceu aqui? — Elias ousou perguntar, com aquela sensação horrível de ter um nó prendendo a garganta.
— Não é óbvio? — Juniper soltou, esganiçada.
Seraphine, não. Ela não merecia, ela sempre ajudava todo mundo.
— Talvez… — Morgan se pronunciou sem nenhuma convicção. — Talvez ela tenha se machucado e saído correndo… Talvez tenha ido atrás de ajuda…
— Sem gritar ou deixar rastros de sangue? — observou, e o silêncio que se seguiu fez Juniper começar a tremer de novo.
— Precisamos dar um jeito de ligar essas luzes de novo. Não dá pra ficarmos no escuro. — Morgan passou a mão pelos cabelos, tentando pela milésima vez manter o controle por mais que desmoronasse por dentro.
— Nós precisamos dar o fora daqui, isso sim. — Foi Elias quem retrucou, ainda abalado.
— Sem enxergar vai ficar meio difícil encontrar uma saída. — Davis se conteve para não revirar os olhos.
— E se ela ainda estiver aqui? — Juniper perguntou, em um fio de voz, como se a resposta para aquilo pudesse matá-la.
Addie colocou a mão em seu ombro e apertou de leve para lhe passar segurança.
— Então nós vamos encontrá-la, Juni.
Ninguém ali acreditava naquilo, mas o mero resquício de esperança pareceu encorajá-los.
— Certo. Vamos sair daqui.
Mais uma vez, todos seguiram até o corredor, que parecia mais estreito do que antes. Cada lâmpada queimada criava um buraco escuro, e o ar, por alguma razão, estava mais frio.
Eles caminharam juntos por alguns metros com Morgan à frente, Elias e Jasper logo atrás, Addie e Juniper vindo mais devagar, e fechando o grupo.
Tudo aquilo era muito ridículo.
Como vagavam tanto e de repente não conseguiam encontrar uma saída? Era como se estivessem numa porra de um labirinto.
Jasper tremia mais a cada passo. Sua caixa torácica se movimentava com intensidade e todo o seu sangue parecia ter seguido para seus músculos, o preparando para correr o mais rápido que pudesse.
Cada movimento próximo o fazia se virar de forma brusca. Cada som de respiração aumentava seus batimentos cardíacos.
Ele sabia que era o próximo. Todos sabiam.
Então a quem queriam enganar com aquela brincadeira de procurar a saída?
— Isso é ridículo. — Ele parou de caminhar subitamente.
— Jasper? — Elias se aproximou, preocupado.
— Todos vocês sabem quem morrerá agora. T-tá no roteiro que o escreveu. — O ator estremeceu.
— Você não pode estar levando a sério essa história do roteiro, Kane! — Morgan soltou, impaciente.
— E por que você não está levando? A Seraphine podia não ser parte do elenco, mas a morte da personagem da Brenda não era no espelho da penteadeira? C-como ela desistiu de fazer o filme, o teve que trocar isso…
— Cara, não. Por favor, não faça isso. — Elias voltava a tremer da cabeça aos pés.
— Faço porque eu sou o próximo, porra. Eu sou o próximo a morrer, e sair procurando a porra das luzes não muda isso. Vocês… vocês deviam se afastar de mim, isso sim. — Kane se desesperou e olhou para os lados, então se desvencilhou de Elias.
— Jasper, o que…
No entanto, antes que pudessem terminar de falar, o rapaz saiu correndo pelo corredor escuro.
— Puta merda, de novo, não! — Elias correu na direção do amigo e, depois de bufar, Morgan fez o mesmo.
Juniper tropeçou no que parecia ser um cabo solto e quase caiu, agarrando o antebraço de com tanta força que certamente deixaria marcas.
— Ai, meu Deus! — ela começou a soluçar e tremia ainda mais do que antes. As imagens de Callum muito nítidas em sua mente. — Eu não consigo… Não consigo!
Addie não demorou a entender o que acontecia com a garota.
Ela olhou na direção onde os amigos haviam seguido, deu falta de , mas tornou a focar sua atenção na amiga.
— Juniper, preste atenção em mim. — balançou a luz da lanterna para atrair seu olhar. — Você consegue, sim. Ei! Juniper!
— Não… eu não consigo… Eu não consigo!
— Consegue, sim! Respira comigo. — Aproximou seu rosto do dela, e Juni a encarou, trêmula. — Se você parar agora, ele ganha. O assassino ganha. Por favor, respire comigo.
Aquele argumento funcionou. Imediatamente, Juniper assentiu e engoliu o pânico, puxou o ar pelo nariz e soltou pela boca, a fim de recuperar a respiração.
— Isso, bem devagar. Você vai ficar bem. Nós vamos ficar bem, Juni. — Addie a olhava profundamente nos olhos.
— Nós vamos ficar bem — Juniper concordou e uma lágrima teimosa escorreu por sua bochecha, porém ela a limpou rapidamente.
Mais alguns segundos ainda foram necessários, então, quando Addie levantou a cabeça para encarar o corredor, constatou o que já era óbvio.
O grupo havia se separado outra vez.
— Precisamos encontrá-los. Não devem ter ido muito longe, mas…
— Certo. — Juniper engoliu a seco. — Vamos.
entrelaçou sua mão à dela quando voltaram a caminhar.
— Addie… — A voz da garota embargou. — E se… e se for o ?
— O quê? — franziu o cenho, sem entender direito.
— E se o assassino for o ? É o roteiro dele, não é? E onde… para onde ele foi?
Addie hesitou por um segundo.
— Eu não sei, Juni. Mas se for, não vamos ficar esperando por ele, não é?
Parecia que o trio havia corrido por uma eternidade de corredores até encontrarem mais uma sala, onde Morgan rapidamente localizou uma caixa de lanternas, sem se dar conta de que o resto do grupo não estava mais com eles.
Jasper Kane, no entanto, não achava que lanternas eram a solução para nada e não quis permanecer naquela sala.
Ele olhou em volta, em desespero e, ao avistar uma porta do outro lado, correu em sua direção.
— Jasper, volta aqui, cara!
— Por que vocês estão me seguindo? Você principalmente! Esqueceu que você morre depois de mim no filme? Foge daqui, porra! — Kane tentou empurrar o amigo, mas Elias não lhe deu chance.
— Para de falar besteira. Ninguém mais vai morrer. Nós só precisamos ficar juntos, não é, Morgan?
A resposta da diretora, no entanto, nunca veio.
— Morgan? — Elias estranhou e se virou para encará-la.
Davis havia paralisado no movimento de abrir a caixa, uma das mãos ainda segurava em sua tampa, enquanto o olhar estava fixo em um dos cantos da sala.
Elias e Jasper acompanharam o olhar da mulher, completamente tomado pelo pânico, e então viram.
Bem ali, parada a poucos metros deles, estava aquela silhueta coberta pelas sombras.
Era exatamente como Juniper havia descrito.
Capuz preto. Luvas pretas. A máscara branca de teatro.
E o sorriso macabro com os respingos de sangue.
Em sua mão, a lâmina da faca reluziu quando o assassino a ergueu.
— Jasper — Morgan sussurrou. — Não se mexe.
Como se aquilo realmente fosse adiantar alguma coisa.
Kane girou na mesma hora, impulsivo, desesperado por uma fuga, porém não importava o que fizesse, seu destino estava selado.
O assassino avançou.
Os sons de seus passos eram firmes.
Sua respiração era ofegante, ansiosa.
A máscara branca refletia a luz fraca.
E, sem parar para pensar em mais nada, Elias reagiu.
— NÃO!
Então se jogou na frente do golpe.
A lâmina atravessou seu abdômen com um som úmido e violento.
Elias engasgou, tentou segurá-la, mas o assassino torceu o punho com precisão e o segundo golpe veio rápido, o acertando no peito.
Monroe caiu de joelhos.
— Corram… — ele conseguiu murmurar para Morgan. — Corram!
E despencou.
Jasper gritou, lágrimas escorriam por suas bochechas.
Morgan cambaleou para trás e esbarrou nas caixas de iluminação, algo pontiagudo a espetou nas costelas, mas não havia tempo para pensar muito naquilo.
A figura se virou para Jasper.
O rapaz estremeceu inteiro, suas mãos tentaram encontrar apoio no vazio.
De repente, todo o sangue pronto para uma fuga parecia ter se esvaído.
— N-não… Por favor… Eu… Por favor…
Mas, ao contrário do efeito desejado, o assassino parecia se divertir com as súplicas.
Um som semelhante ao de uma risada ecoou e ele tornou a avançar.
Morgan viu Jasper tropeçar nos próprios pés e despencar ao lado de Elias, que ainda agonizava.
O assassino tombou a cabeça de lado em um movimento que pareceu em câmera lenta, então segurou a faca com as duas mãos e a enterrou no peito de Kane.
O som que veio foi nauseante, seguido por outro, e mais outro.
Até que Jasper não se mexeu mais.
Morgan fugiu antes que o assassino virasse a atenção para si.
Não soube de onde tirou forças, mas correu tão rápido que quase não sentia o quanto o ferimento em suas costelas sangrava.
A tontura veio, Davis caiu, levantou e correu de novo.
Estava viva por um fio.
e Juniper haviam conseguido alcançar uma área aberta, mas tudo ainda estava escuro demais, apavorante demais.
Ouviram passos apressados antes de verem uma figura se aproximar.
— É ele. — Juni agarrou o braço de Addie e sussurrou, apavorada. — É ele, Addie.
Mas estava enganada.
Era Morgan.
Coberta de poeira. Os cabelos grudados na testa. Os olhos arregalados.
Ensanguentada.
Ela quase desabou nos braços das duas.
— Ele… Ele os matou… O Elias… O Jasper… Estão todos mortos… — Sua voz vinha entre soluços e falta de ar.
— O quê? — Juniper gritou.
— Eu tentei… Tentar ajudar… mas ele foi atrás do Jasper, e agora… — O choro veio engasgado e fraco.
Addie se adiantou rapidamente e segurou o rosto de Davis.
— Morgan, olha pra mim. Você viu ele? Você viu o assassino?
A diretora assentiu, trêmula.
— Ele estava atrás da gente… E depois… Depois… — Franziu o cenho, ao perceber algo a apenas alguns metros de onde as três estavam. — Estão vendo aquilo?
— Aquilo o quê? — Juni hesitou. Não sabia se queria ouvir a resposta.
— Parece que tem alguém sentado lá. — Morgan levantou o dedo trêmulo e apontou.
Juniper e Addie trocaram um olhar tenso, então se viraram para trás e acompanharam o movimento de Davis.
Ela tinha razão.
— A-aquilo é u-uma cadeira de d-diretor? — Juniper gaguejou.
— Sim. É o que parece. — engoliu a seco, então as três se aproximaram devagar.
Suas respirações estavam presas, cada passo ecoava como um presságio.
O ambiente estava escuro, mas a cadeira do diretor ficava iluminada por uma luz solitária vinda de uma janela quebrada.
Morgan tinha razão, havia mesmo uma silhueta sentada ali, completamente imóvel.
Juniper parou de andar.
Addie engoliu seco.
Morgan cobriu a boca. Antes mesmo de ver, já sabia exatamente quem era
. Quando finalmente se aproximaram o bastante, a silhueta ganhou foco.
Era Seraphine.
Sentada rigidamente na cadeira do diretor, como uma boneca fraturada.
A cabeça inclinada para o lado. Os cabelos grudados no sangue seco.
Metade do rosto irreconhecível pelas pancadas no espelho.
Os olhos abertos, vidrados.
Um fio escuro escorria da boca, preso no canto dos lábios.
Ela estava colocada ali, exposta, quase teatral.
Juniper levou as mãos à boca e soltou um gemido estrangulado.
— Meu Deus… É a Seraphine…
Era como se tudo não passasse de mais uma cena.
Morgan ofegou e caiu de joelhos, com os dois braços envolvendo o próprio corpo e pressionando a barriga.
Juniper a segurou pelos ombros para ajudá-la a se levantar, então percebeu que havia algo muito errado com a diretora.
— Morgan, você… Você tá sangrando. — Tentou não deixar transparecer a nova onda de pânico que se alastrava por seu corpo, porém falhou miseravelmente. Sua voz escapou trêmula e chorosa.
virou o rosto devagar.
A blusa de Morgan estava encharcada. O sangue jorrava pela cintura, quente, escuro, abun demais para ser superficial.
Davis tentou fazer mais pressão no ferimento, mas foi em vão, outro jato escapou por seus dedos.
— N-não. Não se preocupem com isso, não é nada. Nós precisamos a-achar o e sair daqui.
Juniper entrou em colapso na mesma hora.
— Meu Deus, Morgan! — Se aproximou da diretora e pressionou a mão trêmula contra o ferimento. — , me ajuda! Ela tá sangrando muito!
Davis tentou protestar novamente, mas tossiu sangue.
levou uma mão à boca, horrorizada, ao mesmo tempo em que se controlava para não piorar a situação e apavorar Juni ainda mais.
A cada minuto, mais amigos seus eram atacados, e não estava em lugar nenhum.
— , por favor! Socorro! Meu Deus, ela tá… ela tá… — Mais um grito de Juniper a arrancou do breve transe, e piscou os olhos rapidamente, engoliu em seco e tentou se manter firme ao encarar a colega quando se agachou para ficar na altura das duas.
— Juni, me escuta.
— Não consigo, ! Não dá. Ela tá sangrando… ela tá fria. Meu Deus, , ela tá fria!
— Juniper! — Ela levou as duas mãos ao rosto da garota com força para chamar sua atenção e, quando a teve, prosseguiu. — Faz pressão no ferimento. Forte. E não solta, ouviu bem?
— Forte. Não soltar, certo. — Juni assentiu.
— Eu vou buscar ajuda. — Viu a colega arregalar os olhos e se adiantou antes que protestasse. — Eu juro que vai ficar tudo bem, Juni. Só cuida dela até eu conseguir ajuda.
Um soluço escapou dos lábios de Juniper, então ela se voltou para Morgan e apertou o ferimento em sua barriga até os dedos ficarem escorregadios de sangue.
Davis, quase sem forças para dizer algo, soltou uma exclamação baixa de dor e tossiu sangue.
desviou o olhar daquela cena e se levantou com o corpo inteiro tremendo.
Precisava ser forte. Precisava salvar Morgan.
Deu alguns passos para longe das duas.
— Não demora! — Juniper implorou, e as encarou uma última vez.
— Eu volto, prometo.
Então correu, desaparecendo na escuridão.
não sabia dizer como, ou se tudo não passava de uma ilusão criada pelo pânico, no entanto, quanto mais corria, mais aquele corredor parecia aumentar. Pior que isso, ele parecia vivo, respirava e movia as sombras nos cantos.
De repente, não tinha ideia de qual direção tomar e, droga, a vida de Morgan dependia dela.
A vida de alguém estava em suas mãos.
E se ela não conseguisse ajuda a tempo?
O ar fugiu de seus pulmões e cambaleou. A postura racional desabou e o medo parecia consumi-la.
— … — chamou, com a voz embargada. — , onde você está? Por favor, aparece… Por favor.
Lágrimas silenciosas escorreram por suas bochechas e o choro ecoou como vidro trincado.
— Eu prometi que voltava, mas não sei o que fazer… Por favor, alguém me ajuda!
A voz estava fraca demais para ser ouvida, ela sabia.
encostou em uma parede ofegante, os dedos ainda sujos com o sangue da diretora Morgan Davis.
— Eu só quero ir embora… — soluçou baixinho. — Só quero que isso tudo acabe.
Será que teria aceitado aquela proposta de ser mais uma final girl se tivesse uma pista de todos aqueles acontecimentos? Era óbvio que não.
Na verdade, desde que soube do local da gravação, detestou a escolha de , e haviam muitas outras das quais ela não era exatamente fã, mas, apesar disso, por Deus, daria qualquer coisa para vê-lo novamente naquele momento.
Onde havia se metido?
— ! — Juntou forças de onde não tinha para gritar, e sua voz chorosa parecia reverberar nas paredes. — , cadê você? !
Ela se quebrou em soluços, o peito sacudiu e o ar ficou ainda mais escasso.
O medo e o desespero percorriam suas veias como veneno, mas precisava se acalmar.
Precisava salvar Morgan.
Um barulho seco soou no final do corredor, como se algo fosse arrastado.
congelou.
— T-tem alguém aí? — Se odiou naquele momento. Aquele era exatamente o tipo de atitude que ela detestava em todo filme de terror. A pergunta óbvia feita pela final girl burra.
Nada respondeu.
engoliu o choro e tentou voltar a si.
Outro som, dessa vez mais próximo.
Algo metálico encontrando a parede, como uma lâmina.
Sua respiração acelerou, a boca ficou seca e as mãos suaram.
— , é você?
O barulho se aproximou. tremeu.
— Por favor, … Por favor.
O próximo som foi pesado, firme, e ecoou bem atrás dela.
virou o rosto devagar e prendeu a respiração por dois segundos.
Seus olhos se arregalaram, o pânico era absoluto.
Um grito esganiçado saiu de sua garganta, ao mesmo tempo em que o barulho de lâmina num golpe seco pôde ser ouvido.
Juniper respirava rápido demais, prestes a hiperventilar a qualquer momento, enquanto tentava manter a mão firme sobre o ferimento de Morgan. O sangue escorria pelos pulsos dela e pingava, manchando o chão, e a atriz tentava não pensar na semelhança que aquela cena tinha com o roteiro escrito por .
Conseguia sentir Davis ficar cada vez mais gelada, e o pavor se alastrava em cada um de seus poros.
— Morgan, olha pra mim. Fica comigo, tá bom? — implorou, ao engolir mais uma onda de choro. — A… A vai voltar. — Acenou positivamente, como se tentasse convencer a si mesma daquilo. — Ela vai voltar e tudo vai ficar bem. É sério, confia em mim.
Davis abriu os olhos lentamente, pesados e enevoados. Abrir a boca para dizer algo agora demandava dela um esforço descomunal, mas a diretora não conseguia presenciar a colega em tamanho desespero.
— Juni… — sussurrou, com a voz tão falha que quase não pôde ser ouvida.
— Não, Morgan… Por favor, não diz nada. Poupe as suas forças. Eu sei que a já tá voltando e nós vamos dar um jeito nisso. Vai ficar uma cicatriz depois, mas você não liga, né? Nunca ligou para essas coisas.
Juniper desviou o olhar ao sentir mais lágrimas brotarem de seus olhos. Ela não era a pessoa certa para aquilo. Não tinha a estrutura emocional de , ou da própria Morgan, que parecia sempre saber o que precisava ser feito.
Tentou respirar fundo e pensar como a diretora, mas era impossível. Ainda mais quando sentiu o corpo de Davis desfalecer um pouco mais.
— Morgan, fica comigo! — choramingou, e tentou engolir o choro.
A diretora voltou seu olhar um tanto distante para Juniper, tão bonita e cheia de vida quanto , então praguejou a própria ambição.
Para onde o desejo de vencer um festival as havia levado?
Era o fim da linha para si, Davis conseguia sentir. Por mais que Juni repetisse que tudo ficaria bem, sabia que eram apenas palavras de conforto.
Como um agouro da morte, de repente, Morgan viu um vulto negro surgir atrás de Juniper, a apenas alguns metros das duas.
Seus batimentos aceleraram, o sangue jorrou com mais intensidade de seu ferimento, mas ela já não sentia mais dor. Era como se o gelo estivesse tomando conta de cada centímetro de seu corpo.
Ela levou alguns segundos para processar a imagem atrás da amiga, e, quando o fez, se engasgou na tentativa de falar.
— J-Juni… Corre!
— Não, ficou maluca? Eu não vou te deixar, Morgan. Vamos ficar juntas até a voltar. — As lágrimas caíam tão rápido dos olhos da atriz que molhavam a camisa ensanguentada da diretora.
Davis tentou erguer a mão, mas ela caiu ao lado do corpo, fraca demais, gelada demais.
— Ele… ele tá aqui.
Juniper arregalou os olhos, assustada e confusa.
— O quê?
— Atrás… a-atrás de você, J-Juni. Por favor, c-corre!
O olhar da diretora estava fixo por cima do ombro da atriz, seu rosto contorcido em terror puro e agonia.
— F-fuja.
O pânico se alastrou pelo corpo de Juniper como uma corrente elétrica. O choro mais uma vez foi engolido em uma fração de segundos.
Ela não queria virar para encarar a realidade atrás de si, porém sabia que não tinha escolha, assim como tinha certeza do que encontraria.
Então o fez devagar, como se estender aquele movimento pelo maior número de segundos possível pudesse ajudá-la de alguma forma, ou eliminar aquela figura pavorosa.
Porém, quando finalmente se virou, ali estava ela.
O capuz preto, a máscara de teatro branca com aquele sorriso macabro, e a faca afiada.
Juniper não teve tempo de gritar.
A figura se aproximou tão rápido quanto uma sombra, e quando Juni se levantou, a lâmina passou por seu pescoço em um único movimento limpo, quase elegante.
O corte abriu como uma boca vermelha.
Juniper levou as mãos ao ferimento, em uma tentativa tola de se salvar, mas o sangue jorrou por entre seus dedos, quente, abun e sufocante.
De repente, não havia mais ar.
Ela cambaleou para trás, tropeçou nas pernas de Morgan e caiu em cima dela enquanto engasgava.
Davis reuniu todo o restante de ar e força que tinha para tentar empurrá-la e viu a colega tombar para o seu lado.
Os engasgos foram diminuindo, o brilho nos olhos dela se tornando opaco.
— Juniper… J-Juniper, não.
Então Morgan Davis, que sempre se mostrava tão forte, deixou uma lágrima solitária escorrer por sua bochecha.
De repente, ela não sabia dizer se Juniper ainda respirava, ou se havia se afogado completamente no próprio sangue.
— J-Juni? — Se esganiçou, enquanto a sensação gelada subia pelo seu pescoço.
Os movimentos de engasgo então cessaram e ela soube.
Juniper estava morta.
— Não! Não, não, não! — Davis sussurrava e, num movimento fraco e tolo, tentou se inclinar para chorar pela amiga.
A sombra mascarada inclinou a cabeça para o lado, enquanto observava as duas mulheres empilhadas como uma obra grotesca.
Era espetacular. Como uma bela poesia.
Então avançou mais e se agachou para encará-la profundamente.
Morgan abriu a boca e tentou gritar, porém só conseguiu soprar um som seco, vazio de vida.
O assassino negou com a cabeça, como se reprovasse aquela tentativa, então ergueu os dois braços, com a lâmina apontada diretamente para o peito da diretora.
Mais uma vez, ela tentou dizer algo, porém foi em vão.
As lâmpadas piscaram, e mais um som de corte seco ecoou no ambiente, seguido por outro, e mais outro, até que o corpo já debilitado de Morgan Davis por fim ficou inerte.
Como se tivesse todo o tempo do mundo, a figura se levantou, então puxou um lenço vermelho do bolso e limpou a lâmina com cuidado, saboreando o que estava prestes a acontecer.
O take final estava próximo.
A súplica distante de fez o roteirista girar rapidamente, numa tentativa tola de desvendar de onde vinha sua voz.
Estava preso naquele maldito galpão. Perdido num emaranhado de portas e corredores que não parecia ter fim, e isso era insano, já que, olhando de fora, o ambiente nem era tão grande assim.
Custou todo o seu orgulho admitir, mas realmente a escolha daquele lugar havia sido péssima, e se não tivesse insistido tanto, as coisas não teriam se arruinado. Se não fosse por sua maldita ambição e o ego inflamado, nada daquilo aconteceria e seus colegas estariam vivos.
Não. Não podia pensar naqueles que haviam perdido. precisava dele.
— ! — Girou mais uma vez, como se aquele gesto fosse o bastante para fazê-la brotar em sua frente.
A magia do cinema não estava em seu favor. Na vida real, nunca era tão simples.
— ! — repetiu, enquanto começava a correr e seus tênis batiam no concreto num som molhado e grotesco.
Mais um grito desesperado ecoou pelo galpão, seguido pelo barulho nauseante dos golpes de uma lâmina. apurou seus passos ainda mais.
— Puta merda, . Você não. Por favor, você não! — Sua voz se quebrou, e ele continuou a murmurar aquilo como um mantra. O desespero o sufocava e as lágrimas ameaçaram tomar seus olhos.
, o roteirista sem coração, segurava o lamento por sua final girl favorita.
Quem diria?
No entanto, não se importava com mais nada. Estava no limite.
— , por favor, aguente firme! Eu tô chegando, calma!
Mas ela já parecia incapaz de respondê-lo e tudo o que ecoou foi um gargarejo sufocado.
— , NÃO!
dobrou uma esquina tão rápido que quase escorregou, então parou diante de algo que fez seu estômago se revirar.
Jasper estava caído, contorcido em um ângulo quase impossível, com o peito dilacerado exposto.
Ao seu lado, Elias tinha tanto o tórax quanto o abdômen abertos, como se aquela maldita máquina que criaram para a cena de Griffin também o tivesse atingido.
O sangue empoçado ao redor emanava um odor nauseante.
cambaleou para trás, a tontura nublou seus olhos e, por alguns segundos, ele se viu incapaz de se mover.
— Não! Não, não, Elias. Porra… Jasper! — Se deixou cair de joelhos, com as mãos tremendo e uma vontade avassaladora de se entregar.
Lembranças de seus colegas tomaram conta de sua mente. Momentos que compartilharam na faculdade e o instante exato em que expôs sua ideia de fazer aquele filme.
Se fechasse os olhos, o roteirista poderia ouvir Seraphine Cross reclamar que histórias de terror traziam mau agouro e que ela deveria ter escolhido o curso de moda. Jasper, Callum e Elias riram e argumentaram que o Freddy Krueger puxaria o pé dela durante a madrugada se não topasse. Seraphine havia feito uma careta chocada, porém sua expressão mudou para uma de malícia quando e Juniper argumentaram que se fosse o Jason ou o Ghostface, elas aceitariam ser puxadas de bom grado.
Uma risada ecoou pelos lábios de e ele permaneceu daquela forma por alguns segundos, até levantar o olhar para os corpos dos amigos e seu riso se transformar em soluços desesperados. Seu peito sacudiu e, de repente, aquele lugar era grande demais, e ele, pequeno demais.
Todas as barreiras construídas ao seu redor ruíram. A máscara despencou de seu rosto, e, por fim, o roteirista compreendeu.
Aquela não era mais a sua história, ele não sobreviveria para contá-la.
Então do que adiantaria se levantar e correr desesperado, como todas as suas terminações nervosas gritavam para fazer?
Por que desperdiçaria seus últimos minutos de vida lutando contra o fracasso?
Todos os seus amigos haviam tentado e olha só onde haviam chegado.
Todos estavam mortos, e ele, sozinho.
Não havia como ter sobrevivido ao ataque que ouviu segundos antes, e, a julgar pelo silêncio assustador naquele galpão, não havia mais ninguém vivo além dele e aquele maldito assassino.
As lágrimas em suas bochechas haviam secado. O choro interrompido sem que sequer tivesse se dado conta, enquanto seu olhar permanecia vidrado nos corpos de seus amigos mortos.
— Se essa merda toda for um pesadelo, eu juro que vou fazer diferente. Vou aceitar as sugestões de vocês e vou… — Respirou fundo e engoliu o gosto amargo que se formou em sua boca. O odor metálico agora parecia fazer parte de .
— Eu vou relaxar mais.
Os lábios de tremeram, então ele foi tomado por uma sensação gélida e terrível, que se espalhou por todos os seus ossos.
A sensação de ser observado.
Antes mesmo de olhar em sua direção, sabia.
O assassino surgiu em meio à escuridão como se sua forma tivesse sido moldada por ela.
A máscara de teatro branca estava coberta de respingos, o sorriso macabro trouxe à tona seus piores temores, e a lâmina em sua mão esquerda gotejava sangue em gotas pesadas demais.
Por alguns instantes, a figura não se moveu, apenas permaneceu ali, parada, como se estivesse o assistindo e o mundo congelasse ao seu redor.
Uma onda súbita de raiva tomou conta do corpo de , e ele se levantou com a respiração quebrada.
— O que você fez com ela? — rosnou. — Cadê a ?
O assassino não respondeu e tombou a cabeça levemente para o lado, como se a pergunta o intrigasse.
avançou dois passos em sua direção.
— Responde, porra! O que você fez com a ?
A figura ergueu a lâmina, o que fez o roteirista saltar para trás, assustado.
Uma risada baixa e absurdamente familiar ecoou quando o assassino tocou a ponta da faca com a outra mão enluvada e passou a girá-la entre os dedos, claramente brincando com o objeto.
tentou engolir em seco, mas, de repente, era como se o seu coração estivesse na garganta.
— Por favor… Só me diga que não a matou.
O silêncio continuava a ser a sua resposta, enquanto a figura se deleitava com aquela tortura psicológica.
O corpo inteiro de tremia. Mais uma onda de raiva tomou conta de si.
— Porra! Me responde, filho da puta!
A lâmina parou de girar imediatamente, o assassino a segurou com firmeza, então avançou em sua direção.
tentou correr, porém a figura foi mais rápida.
Seus cabelos foram puxados com violência e a lâmina atravessou o meio de suas costas com um som úmido e brutal.
caiu de joelhos e seu grunhido de dor abafou os passos do assassino quando este se colocou em sua frente e o encarou de cima.
Lágrimas tornaram a escorrer por suas bochechas sem que tivesse o menor controle, e ele sabia que não importava mais o quanto tentasse, não conseguiria escapar.
O gosto de sangue tomou conta de sua boca e o fez tossir em desespero, então outro grunhido escapou de seus lábios quando o assassino o segurou pelos cabelos mais uma vez e o forçou a olhar dentro da máscara.
Quando a voz finalmente saiu por ela, era levemente distorcida, mas não usava nenhum modulador.
Era real, cruel e assustadoramente familiar.
— Você é um covarde, .
A figura então aproximou um pouco mais seu rosto de sua última vítima.
— Quer saber por que o seu roteiro sempre foi uma merda?
tentou puxar o ar para responder, porém só conseguiu engasgar ainda mais. O ferimento em suas costas irradiava a dor por cada centímetro de seu corpo.
— Porque a sua final girl — a voz quase sorriu — só sobrevivia com a ajuda de um homem.
Foi como se um balde de água fria fosse jogado no alto de sua cabeça.
— James, por favor, me ajude! James, ele vai me matar!
A interpretação cruel fez o mundo inteiro de ruir.
— Você sempre fazia isso. Sempre retratava suas mocinhas como donzelas em perigo. Fracas e apenas à espera do grande herói aclamado depois de terem as melhores amigas destroçadas. Deixa eu te contar um segredinho, .
A mão soltou os cabelos do roteirista e um chute o acertou bem no meio do peito, o que o fez cair com tudo para trás e tossir violentamente.
Devagar, como numa cena coreografada, a figura levou a mão à máscara e então…
A removeu.
Os cabelos caíram sobre os ombros.
A boca sorriu.
E os olhos brilharam de uma forma que nunca havia visto antes.
— ? — Ele se engasgou mais uma vez, o choque tomou conta de si.
Ela passou a mão ensanguentada pelos cabelos sem dar a mínima para o fato de que os sujava no processo. Exceto pelo olhar, sua expressão era calma, e ainda tentava processar todas aquelas informações.
estava viva e inteira.
— … por quê? — O sangue escorria pela boca dele.
aproximou seu rosto do dele, íntima, quase carinhosa.
— Porque final girls, , também podem ser letais.
A lâmina dessa vez o perfurou no abdômen, porém não teve tempo para processar a dor. A faca saiu e tornou a rasgá-lo uma, duas, três vezes, subiu para o peito e o fez sufocar no próprio sangue.
o deixou cair no chão, o sangue estourava em volta como tinta derramada, e ela assistiu com tranquilidade enquanto limpava a lâmina com a outra mão enluvada.
Seu olhar se voltou para a câmera deixada estrategicamente no canto do cômodo e sorriu.
— Corta!
Murmúrios de expectativa ecoavam, enquanto o apresentador, sorridente e teatral, segurava o envelope mais aguardado da noite.
— E o prêmio de Melhor Filme Independente vai para…
A pausa era calculada.
O silêncio pesava.
Os corações aceleravam.
— Stabbed! Dirigido por Morgan Davis e estrelado por !
A plateia explodiu em aplausos, gritos empolgados vibraram e então todos os olhares se voltaram para a única sobrevivente de um dos piores massacres dos últimos tempos.
se levantou devagar.
Suas mãos tremiam e seus olhos brilhavam em lágrimas quando ela, por fim, caminhou em direção ao palco.
O vestido preto perfeito para seu corpo deslizou pelas escadas conforme as subiu. As câmeras se aproximaram de seu rosto como predadores, porém não se intimidou com elas.
A estatueta pesou em sua mão quando a atriz a recebeu de bom grado.
Aquela vitória foi construída por ela, morte por morte.
parou diante do microfone e respirou fundo, como se engolisse o choro e tomasse coragem para fazer aquilo.
Um silêncio reverente caiu sobre o teatro.
— Obrigada… Muito obrigada. — Sua voz falhou no ponto necessário para fragilizar o público. O tom de uma final girl ferida, mas forte.
— Eu queria… — pausou e buscou fôlego, como se estivesse tomada pela emoção e pela dor das perdas. — Eu queria que esse momento estivesse acontecendo de outra forma.
A plateia prendeu a respiração.
— Stabbed foi um sonho de todos nós. Meu, da Morgan, do Griffin, da Juniper, da Seraphine, do Elias, do Jasper e… do . — Cada nome foi pronunciado devagar, em sofrimento, como se fosse mesmo uma homenagem.
— Eles acreditaram nesse sonho e se foram por causa dele. E eu… — Os olhos marejaram tão convincentes que algumas pessoas nas primeiras fileiras começaram a chorar. — Eu sobrevivi.
Outro burburinho correu pela plateia.
Todos ali conheciam a história da final girl que escapou de um assassino misterioso que nunca foi encontrado.
— Eu não ia vir esta noite, mas não seria justo porque… Porque esse prêmio é deles. Eles mereciam estar aqui. E eu vou carregar essa história por todos nós, porque sei que é isso que eles gostariam.
Uma nova onda de aplausos e gritos de orgulho ecoou por todo o teatro.
As pessoas se levantaram, ovacionaram e se emocionaram.
abaixou levemente a cabeça em um gesto humilde de agradecimento, então se virou para descer do palco.
E naquele breve instante, onde nenhuma câmera poderia captá-la, deixou um sorriso de triunfo tomar conta de seus lábios.
FIM!
Nota da autora: Eu tô tão emocionada por ter finalizado uma long que nem encontro palavras kkk.
Stabbed era para ser uma short, mas no planejamento eu vi que precisava ser contada com mais calma, ainda mais por ser um slasher inspirado em Pânico, que é a minha franquia favorita de todos os tempos.
Eu espero de coração que vocês tenham gostado. Essa se tornou uma das minhas fics favoritas da vida.
Beijos e nos vemos nas outras fics.
Ste a.k.a. Saturno. ♥
Stabbed era para ser uma short, mas no planejamento eu vi que precisava ser contada com mais calma, ainda mais por ser um slasher inspirado em Pânico, que é a minha franquia favorita de todos os tempos.
Eu espero de coração que vocês tenham gostado. Essa se tornou uma das minhas fics favoritas da vida.
Beijos e nos vemos nas outras fics.
Ste a.k.a. Saturno. ♥
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