Revisada por Sagitário♐
Atualizada em: 12/12/2025
sabia que aquele trecho era traiçoeiro. Curva Bergwerk. A equipe já havia alertado sobre a instabilidade nos freios traseiros, mas ele não quis parar. Não ainda. Não quando liderava uma volta de recuperação perfeita.
A tensão estava no ar desde o começo do dia. A previsão de tempo ruim se confirmou logo nas primeiras voltas, e os pneus intermediários lutavam para encontrar tração. apertava o volante com força. Sentia cada vibração do carro. Cada desvio, cada toque sutil do asfalto molhado.
— Vamos, . Mantém a linha. Saí bem da curva dois. Vai com calma. — A voz de Felix Brandt ecoava no rádio, firme mas preocupada.
Felix sempre foi seu porto seguro. Muito mais que um assessor, era amigo, conselheiro, irmão de estrada. Os dois estavam juntos desde os tempos de testes na categoria de base. Se havia alguém que escutava, era ele. Mas mesmo assim, forçou. Um pouco além do ponto. Como sempre fazia.
A curva se aproximava. prendeu a respiração.
Na curva Bergwerk, a traseira do carro de escapou.
A chuva fina transformou o asfalto em vidro. O carro girou sutilmente, depois com violência. Ele tentou corrigir, contra esterçar, mas não havia aderência. Tudo aconteceu em milésimos. O carro derrapou como se flutuasse sobre o óleo.
O impacto contra a barreira foi seco, brutal.
O mundo girou. As luzes se apagaram por um instante. O som do metal retorcendo invadiu os ouvidos, seguido de um silêncio estranho. Não o silêncio calmo — mas o da suspensão brusca, do susto, do vazio.
Silêncio no rádio.
O braço esquerdo estava preso. Dores agudas dispararam pelo ombro e pelo antebraço. gemeu baixo. O sangue esquentou o tecido do macacão. O visor estava rachado. A respiração era rápida, trêmula.
Ele tentou mexer os dedos — mas não sentiu. O volante empurrou com força contra o antebraço no momento da batida. Um som seco, interno. O tipo de som que não se esquece.
— ?! , me ouve? Responde! ! — A voz de Felix retornou, desesperada, cortando estática.
Mas ele não conseguia falar. Não ainda. O som ao redor voltou aos poucos: sirenes ao longe, passos apressados, vozes confusas. O corpo dele tremia. Não de frio — de choque.
Foi ali, na curva que parecia comum, que a carreira dele mudou de marcha — e nunca mais voltou para a mesma pista.
O resgate chegou em segundos. Câmeras foram cortadas. A transmissão mostrou apenas o safety car. Mas quem estava ali, na pista, sabia: não era uma batida qualquer.
A equipe correu ao lado da maca. O rádio médico descrevia ferimentos no braço esquerdo, possível fratura múltipla, suspeita de compressão nervosa. abriu os olhos uma vez, antes de ser sedado. Olhou para o céu cinza da Alemanha.
Na Alemanha. Onde tudo começou para ele.
Ali, onde ele sonhou, onde treinou, onde foi escolhido para integrar a Mercedes. Era para ser o auge. Mas talvez tivesse sido a última volta.
Enquanto o helicóptero de resgate levantava voo, Felix ficou parado, em silêncio, no pit lane. O capacete de ainda sobre a bancada. A tela congelada mostrava o tempo da última volta incompleta.
Nürburgring ficou em silêncio naquele dia.
seria levado ao hospital, operado às pressas. Os médicos fariam o possível — e fariam bem. Mas os nervos no braço não responderiam como antes. A recuperação seria longa, cheia de incertezas.
A Fórmula 1 seguiria. Sempre seguia. Os jornais logo especulariam substitutos. As manchetes iriam de “queda de promessa” a “tragédia evitada”. Mas nada disso importava, naquele momento, dentro da mente de .
Ele estava parado. Travado entre a lembrança do impacto e a dor presente.
Entre a Alemanha e o futuro incerto.
Entre o piloto que era, e o homem que ainda não sabia quem seria.
Estava pronto. Ou pelo menos deveria estar. Mas os choques sutis que percorriam seu corpo, como memórias elétricas, denunciavam o contrário. O incômodo maior vinha do braço esquerdo; a velha cicatriz parecia pulsar sob a pele, latejando como se protestasse. Aquela que encarava com tanto desgosto.
Três batidas na porta. A última veio acompanhada de sua voz.
— ? Tá tudo certo aí? — adentrou.
— Tô, só pensando na viagem.
— Ansioso?
— É mais... nervosismo. Tô voltando pro lugar onde tudo começou.
— Então veste uma camisa. A gente sai em cinco.
Felix Brandt, assessor e parceiro de estrada, falava tentando manter o tom leve, mas já o conhecia bem demais. O jeito como ele evitava o olhar direto, o timbre forçado de tranquilidade… ele também estava tenso.
Seu reflexo sumiu quando a porta do elevador se abriu. Flashes tomaram conta de sua vista, dificultando manter o olhar firme para seus fãs e para as lentes dos paparazzi. As câmeras dos fãs capturavam cada passo, cada expressão. piscou, desviou o olhar e forçou um sorriso discreto. Manteve o braço esquerdo perto do corpo — os movimentos ainda eram limitados, e ele sentia os olhos alheios buscando por sinais.
— Ânimo, hein. Dá um sorriso e acena.
— Tô tentando — respondeu baixo.
Assinou algumas fotos, posou para os cliques e seguiu até o carro. A máscara de confiança que usava estava no limite.
Já no banco do passageiro, colocou os fones de ouvido e olhou para Felix, fazendo apenas um gesto com a cabeça. Queria silêncio. O som encorpado do baixo vibrou nos fones, preenchendo seus sentidos como um cobertor grosso num dia de inverno. Era aquela linha grave, familiar, que sempre ajudava a desacelerar os pensamentos. Korn sempre foi seu refúgio desde os dezessete. Aquela voz arrastada e crua parecia entender o que nem ele sabia explicar. Quando os gritos começavam, sentia que não estava sozinho com seus fantasmas. Por um instante, sentiu o corpo relaxar no banco — como se estivesse em outro lugar, longe dali.
Mas a paz durou pouco.
Sem perceber, a melodia o puxou de volta. As notas repetitivas, profundas, o levaram direto para a lembrança que ele mais queria apagar: a curva de Bergwerk.
Inspirou fundo. Soltou devagar.
As sessões com a psicóloga tinham ajudado — até certo ponto. Ele achava que estava melhor. Mas agora, com a proximidade do treino na Stille Strecke, a pista isolada onde a Mercedes o deixava treinar em privacidade, algo dentro dele parecia desencaixado de novo.
Desceram. O complexo estava silencioso, quase solene. O carro de treino, preto fosco, o aguardava sob as luzes do galpão. O capacete escuro já estava sobre o banco, junto com o macacão ajustado especialmente para ele.
— Uma volta. Só pra sentir o carro — disse Felix, pousando a mão em seu ombro.
— Beleza. — pegou o capacete. O microfone já vinha embutido. — Vai estar no rádio?
— Sempre.
Felix se afastou, caminhando até a sala de controle para acompanhá-lo pelas câmeras internas.
Zíper fechado. Velcro ajustado. Capacete firme. O cockpit agora era um velho conhecido, mas hoje ele o sentia como estranho. O peso do volante em suas mãos. O encaixe do cinto. O cheiro do estofado, de gasolina e borracha.
A dor veio sutil, mas precisa. Um estalo agudo no braço, como se o osso lembrasse que ainda havia rachaduras — mesmo que invisíveis.
— , rádio limpo. Quando quiser, pode dar a primeira volta. — A voz de Felix soou com nitidez no fone, abafada pelo isolamento do capacete.
Ele fechou os olhos por um segundo. O carro estava pronto.
Mas ele ainda não tinha certeza.
Felix colocou mais um pedaço de pizza para seu amigo. Estavam conversando sobre diversos assuntos, deixando tudo passar e fluir com tranquilidade. Estranho era aquele momento — como se nunca tivessem tido um tempo a sós, como antigamente na Itália.
— A verdade é que pode acontecer de novo.
— , cara, vamos parar com esse pensamento.
— Estou sendo realista.
— E eu também. Você está à altura de ser um bom piloto. Você vai voltar com tudo nessa corrida.
— Competir ao lado do Lewis, realmente. — Soou irônico.
— . — Encostou a cabeça no sofá, olhando para o teto branco sem graça. — Coloque isso de lado. Você sabe que dá conta de todas as corridas, e de todas as pistas.
— Menos de uma.
— Acho ao contrário.
— O novo capacete está finalizado?
— Está nos últimos detalhes. Só ajustamos a disposição dos patrocinadores… achei que seria melhor assim.
— Eu nem pedi mudança.
— Foi só um ajuste visual, . Nada que vá te atrapalhar.
Ele assentiu, mas o olhar baixou por um segundo.
— Um começo novo, um capacete que eu nem escolhi.
— Vai por mim, ficou ótimo.
— Tomara — disse baixo, desviando o olhar pela janela.
— Quando chegarmos no país, por favor, não arruma encrenca.
A gargalhada de foi imediata.
— Eu? Quem vive cercado de confusão é você, Felix.
A verdade é que, entre os dois, a fama de mulherengo sempre colava em Felix — e com razão. era diferente.
Preferia a sutileza: um olhar certeiro, uma conversa no tempo certo. Enquanto a música tocava e as taças giravam, ele esperava. Escolhia.
E quando escolhia, era porque realmente queria. E quando queria… quase sempre conseguia.
Quem diria que um dia estariam ali, novamente, no hotel onde sempre ficavam quando precisavam viajar para tão longe.
Frankfurt estava em seu dia mais nublado. Era como se o céu se recusasse a amanhecer por completo. O vento assobiava pelas janelas do quarto, e a chuva caía sem trégua.
A primeira coletiva seria no salão reservado do hotel. Tudo à sua volta parecia sinalizar que, talvez, o que ele buscava agora fosse diferente.
Vestiu a blusa de gola alta preta com certa dificuldade. Prendeu a corrente fina e se olhou no espelho. Estava bem — o suficiente para uma coletiva de imprensa.
Saiu do quarto cumprimentando Felix no corredor. Entraram no elevador com dois seguranças. Silêncio, exceto pelo som mecânico descendo os andares.
— Fale o que quiser — disse Felix, ajustando a postura. — Se sentir que alguma pergunta passou do limite, olha pra mim.
Já estavam atrás da porta do salão — últimos segundos, últimas instruções.
— Não tenho a opção de abandonar isso e só seguir pro avião?
— Até pode... mas sabe das consequências.
— Às vezes, nem ligo mais pra isso.
A resposta veio seca e deixou Felix sem palavras. não dava sinal de querer desistir — não depois daquele treino.
O salão estava preparado, mas o ar carregado parecia impedir qualquer sensação de leveza. O espaço reservado no hotel cinco estrelas abrigava uma mesa longa, uma fileira de cadeiras para a imprensa e um número modesto de repórteres — mas todos armados com gravadores, câmeras e olhares famintos por manchetes.
entrou pelo fundo do salão, trajando preto da cabeça aos pés. Elegante, sóbrio, quase inacessível. Seus passos eram firmes, mesmo que a dor insistisse em latejar discretamente no ombro esquerdo. Felix o acompanhava ao lado, um pouco atrás — mas a presença era tão constante quanto discreta.
Eles se sentaram: ao centro da mesa, Felix à sua direita. Um microfone diante de cada um, um copo d'água, um crachá com o nome da equipe.
As câmeras piscaram, os flashes vieram em ondas. mal piscou. Cruzou os dedos sobre a mesa e esperou.
Felix limpou a garganta antes de dar inicio a coletiva.
— A coletiva vai começar. Por favor, mantenham o tom profissional e respeitoso. Vamos às perguntas.
Uma mulher de blazer azul foi a primeira a se levantar.
— , antes de tudo, bem-vindo de volta. Como está sendo esse retorno aos holofotes após tanto tempo afastado?
Ele sorriu, mínimo.
— Não é um retorno completo. Ainda não pisei em nenhuma pista oficial. Mas... estar aqui já é um começo.
Ela agradeceu e deu a fala para outro jornalista, agora um homem.
— Você se sente pressionado a corresponder às expectativas por ser quem é? Ex-piloto promissor, agora tentando voltar?
— A pressão sempre existiu. A diferença é que agora eu escolho quando ela entra e quando ela sai comigo da sala.
Algumas risadas discretas foram ouvidas. Felix observava tudo, atento, mas ainda calado.
Mais uma repórter, loira, segura de si, o questionou.
— , muitos fãs comentam sobre o acidente em Nürburgring como um momento divisor. O que você sente ao ser lembrado por isso?
Ele desviou o olhar por um segundo, mas voltou.
— As curvas marcam mais que as retas, certo?
Houve um silêncio. A resposta vinha com metáfora, mas o recado estava claro.
Um jornalista jovem — de idade e experiência, se inclinou pra frente.
— A Mercedes confirmou que você está em período de avaliação. Isso significa que alguém da equipe pode perder o lugar? Ou você quer mesmo voltar a correr?
Felix interferiu, tirando o primeiro espaço de para responder.
— Isso será discutido internamente. Não vamos alimentar especulações.
, porém, não recuou.
— Eu não voltei pra fazer número. Se estou aqui, é porque quero o troféu de volta.
O burburinho começou. Gravadores mais próximos, olhares trocados entre repórteres.
E então, veio a pergunta que parecia aguardada por todos, mas que poucos tinham coragem de fazer. Um jornalista britânico, direto ao ponto fez tudo iniciar.
A sala ficou mais quieta do que deveria. Felix apertou os lábios, mas permaneceu em silêncio.
olhou para o jornalista com uma calma que doía. Levou alguns segundos antes de responder.
— O George é consistente. — Sua voz veio seca. — Mas consistência sem ousadia é só previsibilidade. — Fez uma pausa. — Eu não sou o piloto que vem no manual. Eu sou aquele que muda o roteiro, mesmo que vocês não gostem disso.
Cochichos. O impacto foi imediato.
A pergunta seguinte veio mais seca ainda.
— E quanto ao seu braço? Existem rumores de que você ainda sente dor e que isso pode afetar sua performance. Você tem condições físicas de voltar?
Até Felix encarou , esperando a resposta. Ele respirou fundo, olhou para o microfone como se calculasse as palavras. Depois, ergueu o olhar direto para os olhos do repórter.
— Eu não sou feito pra responder a rumor. Eu sou feito pra correr.
E então, como se um limite invisível tivesse sido ultrapassado, ele se levantou. Puxou o microfone com calma, deixou-o sobre a mesa e ajeitou as mangas da blusa.
Felix levantou ao mesmo tempo, discreto. deu um último olhar à sala, onde os cochichos já começavam a se espalhar como eletricidade em ar úmido.
Ele saiu. Sem pressa, sem olhar pra trás. Os flashes continuaram, mais intensos agora. O barulho de vozes se atropelando tomou conta do salão.
A entrevista tinha acabado — mas a notícia só começava a repercutir.
Felix foi atrás, sabendo que agora a Mercedes ficaria mais ainda em cima de . As perguntas saíram do controle, estava fora de controle.
O caminho para o aeroporto teria que ser mais restrito do que desejavam. Felix estava pronto para sair à frente de qualquer eventualidade por lá.
Com mais intensidade, a chuva caía na pista, deixando os voos atrasados. estava tomando um café. Aos poucos — assim como a lentidão de cada segundo — a chuva foi parando, até sumir, deixando um céu escuro e apenas a liberdade dos aviões irem e virem.
— Pronto? — perguntou Felix.
— Vamos logo. — A resposta veio áspera. deixou o copo pela metade e se levantou.
Dentro do avião, todos os olhares pareciam convergir para ele. Todos sabiam. era um dos nomes mais comentados da Alemanha — especialmente ao lado da Mercedes. Mas agora, as coisas pareciam estar escapando por entre seus dedos.
Sentia-se impotente. As fisgadas no braço operado, as pulsações involuntárias, os alertas silenciosos do próprio corpo... tudo o lembrava que ele já não tinha domínio nem sobre o que mais confiava: ele mesmo.
Voo direto, doze horas tentando não focar em nenhuma armadilha de sua mente.
Músicas, leituras, conversas, bebidas.
Doze horas de momentos que não tinham definição para as sensações.
Queria apenas chegar em solo firme. Entrar na pista Ayrton Senna.
Recebido pelo sol caloroso e o carinho de seus fãs, sorria como se nenhum acidente tivesse acontecido. Todos respeitosos, cuidadosos e atenciosos, seus fãs — assim como na Alemanha — deixaram o piloto confortável com a ocasião.
O Hilton Morumbi mais uma vez seria seu teto de lar provisório, correria e passaria um pequeno tempo no solo brasileiro. Para aproveitar, ele ia andar um pouco pela cidade, tomar um sorvete, ir às festas com Brandt, ele já estava planejando como seria ali. Queria que fosse diferente, uma nova página de sua vida começava ali e não deixaria que aquele fantasma do seu passado o assombrasse eternamente.
“Vou usar a academia do hotel.”
Deixarei o celular no quarto.”
“Beleza maninho, quando você estiver pronto vamos naquela balada de sempre.”
Riu e jogou o celular em cima da cama. Tinha a total certeza que ele iria onde conheceu a antiga garota que ele ficou.
A academia estava vazia, apenas ele e duas pessoas. Cumprimentou cada uma e seguiu para o aparelho. Ele sentiu o peso no braço. A dificuldade ainda estava presente em um simples exercício, parou e deixou o peso de lado.
Com a cabeça baixa, ele refletia: quem ele era agora, onde ele queria chegar, suas contas. Suas metas sempre foram as mesmas, mas agora tudo estava tão diferente. Sua dúvida tinha sido apenas uma durante todos seus cinco anos.
Largou tudo lá e, depois de guardar no lugar os aparelhos, pegou a toalha e sua garrafa d’água, retornou ao seu quarto. Um banho morno o ajudaria naqueles pensamentos irritantes.
Três batidas leves na porta.
caminhou até ela com passos lentos, vestindo apenas um moletom escuro e meias, e com o peito à mostra ainda úmido do banho. Ao abrir, deu de cara com Felix — sempre pontual — e Anika, a fisioterapeuta que agora o acompanhava nos treinos de reabilitação desde que assumiu oficialmente o caso dele.
— Como foi o treino? — perguntou Felix.
Cumprimentou Felix com aquele aperto de mão firme que carregava o peso da amizade longa.
— Fiz alguns, mas nada muito puxado — mentiu, sem culpa.
Anika arqueou a sobrancelha, mas preferiu não comentar.
— Continue assim — respondeu apenas, com um leve sorriso. Aquela resposta poderia significar muitas coisas.
A luz dourada do sol paulistano invadia o quarto do hotel, refletindo nas paredes claras. Era o tipo de manhã que quase fazia esquecer os pesos nos ombros ou quase.
se sentou na cadeira próxima à janela enquanto Anika organizava o material ao lado do sofá. O clima era leve, mas o ambiente carregava a tensão de quem sabia que cada movimento ainda contava. Ele apoiou o braço esquerdo sobre uma toalha dobrada.
— Vai ser leve hoje. Mobilidade e fortalecimento, nada além disso — avisou ela, já com o elástico azul-marinho nas mãos. Felix, discreto como sempre, deixou os dois a sós.
Anika se posicionou à frente dele, pegando o antebraço com cuidado. Começou com rotações suaves do punho, sentindo a rigidez nos movimentos.
— Muito incômodo?
— Aquele formigamento chato, mas... nada novo.
— Então seguimos.
seguiu o comando, erguendo o braço devagar, como se o próprio ar pesasse contra ele. O músculo reagia com resistência, e a pele ainda mostrava o traço esmaecido da cicatriz, contornada pelo brilho sutil da luz do dia.
— Você ainda está compensando com o trapézio. Vamos tentar de novo, mas agora, deixa o ombro descer um pouco.
Ela se levantou para alcançar as faixas elásticas que havia trazido. Entregou uma delas a ele, azul-marinho.
— Vamos fazer trabalho isométrico. Mantenha o braço em noventa graus e segura a faixa com as duas mãos. Isso, tensiona... mais um pouco... e segura por cinco segundos.
fechou os olhos, os músculos do pescoço contraídos, o maxilar travado. Cinco segundos. Longos, quase dolorosos.
— Respira. Agora, solta devagar.
Silêncio. Apenas o som da cidade ao fundo, abafado, e os suspiros entre cada repetição. A tensão era visível — nos movimentos, no ambiente, talvez até entre os dois.
Anika observava tudo com atenção clínica, mas também com um tipo de cuidado que ia além do manual. Sabia o quanto ele odiava se sentir limitado. Sabia que ali não era só físico, era ego, era medo, era passado.
Depois da última série, ela se afastou e escreveu algumas anotações no tablet.
— Você melhorou bastante. Amanhã podemos testar amplitude com resistência leve.
— Isso quer dizer que talvez eu esteja voltando a ser eu mesmo?
Ela o encarou por um segundo, o olhar firme.
— Quer dizer que você está fazendo o que precisa. O resto... depende de você.
— Ele dá conta — Felix comentou da sacada. — Que tal uma volta na pista?
— Acredito que ele consegue tirar isso de letra.
— Vamos — disse se encostando no sofá. — Preciso conhecer o carro novo.
Brandt se deu conta de algo: ainda não havia visto o novo carro. A Mercedes havia tratado isso com cautela, em longas conversas entre Brandt e a equipe de suporte. Decidiram criar algo visualmente diferente, que não evocasse lembranças do acidente.
— Quer ir daqui umas... — Pensou. — Três horas?
— Pode ser.
— E você quando sair, vê se cuida bem desse braço. Passe protetor solar para evitar qualquer eventualidade.
— Farei isso, Anika, eu não vou decepcionar você.
— Ele nem precisa dessas coisas, Anika. Não vamos inventar, por favor.
— Claro, Felix, você é o fisioterapeuta dele, o mais inteligente daqui. — Levantou segurando sua bolsa. — Vê se não tenta fazer o meu trabalho, pois disso você não sabe de nada.
— Ah, Ani, por favor.
— Por favor, eu que digo, não? . — Voltou a olhar para ele. — Cuide da forma que lhe instruí.
— Como você quiser.
— Até mais.
— Até — responderam juntos.
— Você não tem jeito ,né? Tenta sempre fazer o oposto que ela fala.
— Protetor, ? Fala como se você fosse uma criança.
Seu celular tocou, no visor, o nome de Anika apareceu junto de um emoji nada carinhoso.
“E não esqueça de passar o creme anestésico, não me faça intervir nisso outra vez!”
— Você está com o creme?
— O que ela receitou? — Viu Brandt concordar. — Tá na cabeceira da cama, eu passei assim que saí do banho.
— Melhor assim, quero evitar problemas. Passo aqui em breve, você vai gostar do carro.
Despediram-se, e ele voltou à solidão que o acompanhava há cinco anos. Olhou ao redor, pegou o videogame portátil e tentou se distrair. O tempo lá fora começava a mudar — o sol desaparecia, e as nuvens brancas e delicadas davam lugar a grandes massas escuras. O calor e a claridade que invadiam a sala pelas janelas da sacada sumiram, substituídos por vento gélido e os primeiros respingos de chuva.
Xingou em alemão.
— Tá de brincadeira, eu ia conhecer meu carro hoje — resmungou.
“É uma garoazinha, podemos ir mesmo assim.”
Felix enviou.
“Com chuva, você quer dizer.”
“Tá com medo de chuva agora?
Ficar assim não te leva à taça.”
revirou os olhos e jogou o celular de lado. Felix estava certo, não podia se esconder ou deixar o medo ganhar.
“Vou só pegar um casaco encontro você na frente do elevador.”
Enviou e pegou um casaco. Eles estavam no mesmo andar, não demoraria muito para se encontrarem.
O carro estava à espera dos dois na garagem do hotel. O alarme do carro desarmou e os dois adentraram no automóvel.Todo preto e blindado, andava pelas ruas de São Paulo, o GPS em alemão orientava o caminho até o autódromo. O rádio ligado em som ameno, observava as gotas tocarem no vidro do carro. Estava calmo e tranquilo tentando não se preocupar com a mudança climática.
Brandt seguia o percurso como se fosse tão familiar para ele, tinha uma paixão toda vez que ia para Interlagos, e usava o GPS por precaução.Felix virou o volante, pouco depois o sedã acessava a entrada lateral do autódromo Ayrton Senna — uma via estreita, reservada às equipes, bem distante da movimentação da entrada principal.
Pouca movimentação, apenas a equipe do próprio autódromo estava lá. fechou a porta e colocou as mãos no bolso da jaqueta. Felix começou a andar ao seu lado. O som da chuva caindo sobre o teto e tocando na pista.
— É logo ali — Felix avisou.
Seu carro estava no galpão da Mercedes, um lugar reservado e apenas para a equipe. A luz estava pendurada no teto e iluminava o carro coberto por uma lona preta fosca com o símbolo da Mercedes. Ele ficou parado olhando para o carro coberto.
— Quando estiver pronto. — Deu uns tapinhas no ombro do amigo.
Caminhou em passos lentos, sentia seu peito bater rapidamente, o cheiro do asfalto molhado, borracha e da gasolina trazia lembranças e calafrios.
Só os dois ali. Nenhuma equipe, nenhum engenheiro, nenhum ruído além do eco dos próprios passos. Era o momento.
Levantou as mãos e segurou a lona, revelando seu carro devagar. A pintura preta predominava, agora com acabamento em dois tons: o corpo era preto brilhante, mas com linhas em preto fosco que só apareciam sob certos ângulos de luz. Discretas, quase secretas. Linhas que cortavam a carenagem como cicatrizes em um corpo refeito.O número 30 estava estampado na lateral, com outline prata e contorno grafite escuro, quase como aço lapidado. Era simples, mas tinha presença. Na asa traseira, em letras firmes e discreto o seu sobrenome: SCH.
— Ele tá… — murmurou. Passava seus dedos pela lateral do carro. — Diferente, e perfeito.
— Tudo é novo, pensado nessa nova fase. — Felix se aproximou. — A Mercedes fez bons ajustes. Não mudou nada do que era antes, só tá mais “confortável”.
— As cores.
— Ah sim, as cores. Nós da equipe, tanto a sua quanto de George e claro a Mercedes, entramos num senso de novas cores. Ele aceitou, o que eu achei que não aconteceria — explicou. — E vou ter que admitir, eu vi o projeto antes mas agora vendo de perto ele tá um Unaufhaltsam.
— Com toda certeza.
— , o carro não é só a sua surpresa de hoje. — Felix se afastou e pegou uma caixa que estava encima da mesa. — Abre, e me diz se está do seu gosto.
O capacete estava impecável. O corpo principal era preto fosco, firme, com a presença marcante do esmeralda profundo — espalhado em faixas fluidas nas laterais, quase como pinceladas. Cortando tudo aquilo, uma faixa vermelha, sutil e estreita, atravessava diagonalmente da base até a parte superior — o tipo de detalhe que só se via de perto, mas que mudava tudo.
Na parte de trás, em letra manuscrita gravada com precisão, vinha a assinatura: M. . Abaixo dela, uma frase em alemão: Die Strecke gehört mir. Apenas para frente.
segurou o capacete como se fosse vidro. Não falou. Os olhos passeavam por cada linha, cada cor, cada escolha feita.
— Você precisava de algo só seu — disse Felix, quase num sussurro. — Isso aí é você. Literalmente. Eu mandei incluir tua assinatura do jeito que você fazia quando moleque, lembra? Aquela que você usava no kart.
não respondeu de imediato. Seus dedos passaram sobre o “M”. Uma pontada no peito — não de dor, mas de memória.
— Isso é mais do que um capacete, Digga — murmurou.
Felix deu aquele meio sorriso dele, de quem não admitia estar emocionado, mas estava.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer. Eu falaria para dar uma volta, mas com essa chuva vamos deixar como tá.
apenas balançou a cabeça, a chama acendeu em seu coração e por minutos esqueceu de todas as dores que às vezes faziam questão de aparecer. Ele queria correr, e nada parecia mais certo — afinal, ele pertencia à pista.
Enquanto caminhavam pela área técnica, Felix comentou, com aquele tom casual de quem finge não estar emocionado:
— Sabia que o autódromo foi oficialmente renomeado este ano? Agora é o Autódromo Ayrton Senna, como deveria ter sido desde sempre.
assentiu, os olhos ainda absorvendo cada canto do lugar. Ele não pôde deixar de notar o quanto tudo estava diferente. Um visual mais limpo, elegante, e toques sutis homenageando Ayrton espalhados pela extensão da pista.
Os dois estavam voltando, quando uma pequena equipe chamava atenção pela conversa descontraída. O cheiro de café recém passado misturado ao de asfalto molhado criava um contraste curioso.
Ele passou, cumprimentando todos com um gesto leve de cabeça e um "Hello" educado. Mas, entre os tons de voz e o vapor das xícaras, algo ali no meio fisgou seu olhar. Não sabia dizer o quê.
Ainda com aquela sensação indefinida no peito, focou no trajeto de volta. O carro os esperava, e o céu cinzento prometia mais chuva.
— Agora descansa, amanhã tem treino. Espero ver você bem, bruder.
— Treino não, vamos ver o que aquela belezinha guarda pra mim.
— Eu estava é com saudades desse !
O toque de mão fez um barulho muito alto no corredor, tirando um riso deles.
Ele se preparou para um bom descanso, passou o creme mais uma vez antes e se ajeitar em sua cama e fez uma prece breve, agradecendo mais um dia, mesmo não saindo como desejava.
O rock ecoava pelo quarto, um volume baixo, acompanhando alguns exercícios e pronto para a sessão com a Anika. Duave e mais tranquilo, queria estar em perfeita forma naquele momento.
O relógio marcava 9h. Já pronto, desceu para a garagem com os fones ainda pendurados no pescoço — e encontrou, logo de cara, a cena que mais via desde que voltara: Felix e Anika, frente a frente, travando mais uma das suas discussões sem fim.
— Ele não vai forçar o ombro hoje, Brandt. Já chega o que vocês fizeram ontem.
— Ninguém forçou nada, Weiss. Ele treinou dentro do que foi autorizado.
— É engraçado que seu conceito de “autorizado” muda dependendo do humor dele.
encostou na parede, cruzando os braços, só observando com um meio sorriso no rosto.
— Vocês dois de novo? — comentou, com voz preguiçosa. — Juro que se um dia vocês se beijarem no meio de uma briga, eu não me surpreendo.
Anika rolou os olhos, mas não disfarçou o leve rubor nas bochechas. Felix, por outro lado, respondeu seco:
— Cala a boca e entra no carro.
riu, se aproximando com passos calmos.
— Calma, Bruder. Vai ver ela só quer o melhor pra mim. Afinal... ela é a única que faz você ficar com o rabinho entre as pernas.
Anika já estava no carro, no banco traseiro. Felix bufou e seguiu à frente, sem olhar para trás e apenas ria de mais uma discussão entre eles.
O carro o aguardava na garagem, já posicionado para a primeira saída. O macacão, justo nos pontos certos, parecia apertar junto à responsabilidade do momento. E o capacete... aquele capacete novo parecia pulsar nas mãos, como se carregasse não só a proteção, mas tudo que ele era.
George passou por ele, com um leve aceno de cabeça e um sorriso rápido.
— Boa corrida, .
— Pra nós — respondeu, sincero.
Dois pilotos, um mesmo escudo no peito. Nada mais precisava ser dito.
— Tudo pronto , o carro está a sua espera.
— Vamos, eu estou pronto também.
Caminharam até o automóvel. Uma movimentação, um pequeno tumulto perto dos equipamentos fez Brandt arquear a sobrancelha. Desconfiado, ele se aproximou.
— O que está acontecendo aqui? Não falaram que estava tudo certo pro começar?
— O compressor de ar parou. Tínhamos testado horas antes, mas agora... — explicou um dos técnicos da Mercedes.
— Era o que faltava. E ninguém veio ver isso ainda?
— Estamos tentando...
Digitou algo no celular, provavelmente tentando resolver com apoio. Brandt já começava a ficar impaciente.
O seu rádio tocou, estava terminando de tomar um bom café. Em plena sexta-feira de treino e uma ocorrência para si.
— ! A Mercedes tá pedindo apoio no box quatro. Deu problema na alimentação do compressor de ar. Parece simples, mas querem alguém de confiança.
Sem delongas, respondeu com um "ok" seco. Prendeu o cabelo com uma caneta e seguiu firme. Passos decididos entre caixas de ferramentas e cabos no chão. Caminhava como quem já sabia o caminho.
De longe, a movimentação era clara. Brandt de cara fechada. com o macacão meio aberto, amarrado na cintura, copo d’água em mãos, aguardava de braços cruzados. O capacete ao lado, ele parecia entediado.
O macacão cinza-escuro com o logo do autódromo bordado no braço direito a destacava do restante da equipe Mercedes. Agora atraía seus olhares para todos após cumprimentá-los. Agachou-se ao lado do equipamento, puxou as ferramentas da cintura e trabalhou com agilidade. As unhas feitas contrastavam com a graxa que manchava seus dedos.
Com um leve assobio, o compressor voltou à vida. O ponteiro da pressão subiu, e a rotina no paddock voltou ao normal.
— Tenta de novo, mas com o adaptador reserva — orientou ela, firme, ao técnico mais novo, que assentiu sem hesitar.
a observava de longe. Encostado no fundo do box, segurava o capacete com a mão esquerda. O cenho levemente franzido — não por desconfiança, mas por curiosidade. Não estava acostumado a ver alguém fora da equipe mexendo com aquele nível de segurança e desenvoltura. Ainda mais alguém... como ela.
— Tudo em ordem.
— Obrigado — disse Felix, genuinamente.
— Não precisa agradecer. Se precisarem de novo, é só chamar.
— Seu nome?
— . — Sorriu. — Boa corrida!
E sumiu entre os boxes, deixando um leve rastro de perfume adocicado.
— Vou começar.
— Estarei na escuta, Bruder.
parou diante do carro, aguardando o engenheiro retirar o volante. A pintura, o número trinta, o logo da Mercedes — era bom estar de volta.
Retirou os fones e entregou para Brandt. Abaixou o olhar. O cockpit estreito pareceu ainda menor, e um arrepio percorreu seu corpo. Leves contrações no braço esquerdo voltaram a incomodar. Respirou fundo e encarou. Era um ritual, um que conhecia tão bem.
Com firmeza, apoiou as mãos na borda, ergueu a perna direita, depois a esquerda, e então veio o momento mais delicado: o encaixe do corpo.
Desceu devagar, sentindo os músculos arderem. Seus olhos fixaram-se em um único ponto, buscando concentração e cautela. Comprimiu os lábios — a dor era intensa.
Quando os ombros finalmente se ajustaram no assento e a costela estabilizou no espaço, ele moveu o braço esquerdo com o máximo de esforço.
O engenheiro então devolveu o volante. esticou a mão direita e o encaixou com firmeza. O estalo seco do travamento foi quase uma confirmação: ele estava pronto.
O starter foi acionado. dirigiu até o grid destinado a ele. Apertou os dedos contra o volante, fez sua pequena reza. Estava de volta, no exato ponto onde havia parado. A viseira abaixada, o capacete refletia o céu nublado.
O rádio em seu ouvido trazia as últimas instruções técnicas de Felix Brandt, mas ele já não ouvia com clareza. A mente estava em outro lugar, estava pensando apenas nele e no seu desempenho.
As luzes a sua frente começaram a acender uma a uma, até a quinta luz ficar vermelha, e consigo o som da largada. Ele acelerou como sabia fazer, como fazia antes. A adrenalina tomou conta. Estava se saindo melhor do que esperava.
Mas bastaram alguns segundos para a dormência surgir. A dor subia pela escápula, encostava no ombro. O braço começava a reclamar.
Ignorou. Psicologicamente, se forçou a seguir.
A primeira volta foi limpa. Até boa. Um leve sorriso escapou por baixo do capacete.
— Treinando assim já posso ver a taça em suas mãos, Digga — soltou Felix no rádio.
A próxima parada era no pit. Uma rápida checagem.
Ao retornar pra pista, foi como se a dor tivesse esperado esse momento. Uma pontada, aguda, irritante, queimando até a alma. Apertou os lábios e soltou um ar tentando fazer a dor sumir de dentro de si, mas não adiantou.
A voz de Brandt surgiu novamente, mas agora tudo soava embaralhado. Como se o rádio estivesse em outro idioma.
A primeira volta tinha sido estável. Agora, ele sabia: era que tremia por dentro.
O coração batia tão alto quanto o motor. A respiração estava presa em seu peito, como se o culpado fosse o macacão. Seu capacete já não era mais o melhor, estava pequeno, sufocante. O suor escorrendo pela nuca, frio como um gelo, mesmo com o cockpit fechado e a ventilação ligada.
O pânico se esgueirava pelas fissuras da autoconfiança. sentia as mãos suarem dentro das luvas, os dedos formigarem, o peito afundar como se estivesse em queda livre.
Aquela curva que havia feito tão bem, passou ser turva e desafiante.
A curva S de Senna. A traseira deslizou um pouco, nada tão grave para quem estava vendo de fora.
Felix cerrou o punho, angustiado ao ver tudo pela tela.
Ele sentiu o medo, aquela mesma sensação de cinco anos atrás. estava inseguro. Na descida para o Lago, ele precisou tirar o pé. Seu braço queimava, ele tentava manter tudo em ordem dentro dele, sentia sua respiração ficar ofegante.
— , está tudo certo ai?
— Tudo certo — mentiu descaradamente.
A segunda volta foi um desastre. Tempos baixos. Desempenho miserável. Dor e angústia altíssimas. Tentava ir além, mas estava travado, o medo e a ansiedade estavam tomando controle do piloto.
Nada impressionante, nada próximo do que já tinha feito no passado. Na verdade, era um dos piores da sessão. O suor se acumulava sob as pálpebras, e ele piscava rápido tentando manter o foco. A cada curva, uma dúvida. A cada aceleração, um fantasma.
Felix ouviu a respiração dele — e entendeu. Velhos amigos entendem sem palavras.
— Vamos encerrar essa. Só controle e aquecimento. Nada mais — ordenou.
Sem querer admitir, já estava encostando o carro. Queria sair. Respirar.
Completou a volta devagar. No fim da reta, soltou um suspiro longo. Tirou a mão esquerda do volante por um segundo. Arrependeu-se no mesmo instante. A dor confirmou: não era só memória. Era real. Era física. Era tudo.
Parou nos boxes. Não disse nada. Só olhou para Felix por trás do visor.
E foi o suficiente.
Deixou o capacete na bancada e saiu furioso. Não com a equipe, não com Brandt, mas consigo mesmo. A frustração pesava nos ombros.
Felix foi atrás, sem dizer nada. não foi pra sala da equipe, nem pro box — só andou. Quando o cheiro de café bateu, entrou na copa sem pensar. Encostou as mãos na bancada, respirando fundo. Serviu-se em silêncio, tentando não perder o controle.
— , bruder.
— Fiz meu pior tempo, Felix. O braço tá um lixo. Não vou conseguir correr.
— Você voltou pra pista depois de cinco anos. Tá esperando o quê? Magia?
baixou o olhar. A voz embargada.
— Eu me preparei. Me esforcei. Mas isso aqui… tá me engolindo.
Felix se aproximou, firme.
— Eu vi você entrar naquele carro. Eu vi lá na Stille Strecke. Se tem alguém que aguenta isso, é você.
— Você não entende...
— Não preciso entender. Eu tô aqui. Como sempre estive.
Silêncio. Então largou o copo, e o abraço veio. Nada ensaiado, nada dito, apenas a amizade deles.
— Me avisa quando quiser voltar pro hotel.
— Valeu, bruder.
— Tamo junto, sempre.
Felix saiu. ficou, respirando, tentando juntar os cacos. Um tempo depois ele saiu dali e caminhou até o box quatro, agora mais calmo e com um semblante um tanto mais tranquilo.
Agradeceu a equipe toda da Mercedes, um pequeno discurso e logo entrou na sala que ali tinha. Felix tinha ficado do lado de fora conversando com Anika, talvez novos exercícios ou aquela discussão de sempre deles.
estava sentado no sofá, com fone e ouvindo uma banda no aleatório, a figura feminina parada quase que na frente dele o chamou a atenção. Um sorriso sublime o cabelo amarrado num rabo de cavalo e o uniforme bem cuidado mas com algumas manchas.
— Olá! — retirou o fone.
— Oi, podemos conversar?
— Sim.
Imaginou ser uma fã, queria uma foto e um autógrafo, o que tudo bem afinal ele já estava acostumado com isso.
Entretanto, o formato do rosto lhe era familiar, apenas não se recordava direito.
— Eu não pude evitar de ouvir a conversa sua.
— Minha conversa?
— Sim, com o Felix, lá na copa dos funcionários do autódromo.
— Você é a , não?
— A própria. — Sorriu ao ser reconhecida por ele. — Eu sei que não é da minha conta e me desculpe por isso, mas . — Deu dois passos na direção dele. — Você não precisa se martirizar assim, você é um dos melhores pilotos. Eu sei que temos bons pilotos hoje em dia, mas nossa!
— Obrigado pelas palavras, mas não é tão fácil assim.
— Não posso imaginar que não seja, cada um tem sua dor e sua história.
— Exatamente.
Ele colocou o fone de lado, pela primeira vez alguém lhe disse o que sempre pensou. Ninguém nunca entenderia o que ele sente, o que ele passou e ainda passa!
— Só sei que quando temos uma grande dificuldade não podemos deixar ser vencidos, então queria saber se você não pensou nem um pouco em sair dessa sua rotina.
— Minha… rotina?
— Sim. Ir para um lugar que tirasse você do seu mundo, um lugar diferente. Desculpe, eu sou uma total estranha para você e, olha, você pode me mandar ir embora quando quiser.
— Não, continue, eu não pensei em sair da minha zona de conforto.
— Tenta, hoje ou amanhã antes da corrida de colocação.
— , eu nem sei pra onde ir aqui. — Tirou um risinho dela. — Só conheço o caminho do hotel para o autódromo e olhe lá.
— Se você não se incomodar, tem um evento de JDM aqui em São Paulo hoje à noite. — Ela encostou na parede. — Posso passar o endereço para você se quiser.
Como se uma pequena lembrança tivesse passado à sua frente. Levemente aquele flashback apareceu diante de seus olhos.
O ano era 2006, tinha chegado da igreja com seus pais. Um banho rápido e pijama no corpo, ele desejou boa noite ao seus pais e caminhou para o quarto. Esperaria cinco minutos e logo sairia pela janela, deixando na cama um boneco de lençol e cobertor fingindo ser ele.
Aquela manhã ele havia recebido um convite de seus amigos, com o dobro da sua idade. Haveria um JDM no bairro vizinho ao seu e ele não poderia perder. Ver um Supra e até mesmo um Nismo de perto seria seu sonho realizado.
Ele confirmou a presença mesmo sem seus pais saberem da existência desse encontro.
Pulou a janela, abriu o portão delicadamente e saiu correndo com um sorriso no rosto, seu plano tinha dado certo.
Dez minutos, o tempo suficiente para seu pai passar no quarto dele. Entrou caminhou até a cama, e percebendo algo estranho, não havia movimento de respiração na coberta.
— Schatz! Vem aqui!
— O que? Por que essa gritaria no quarto do nosso filho?
— Olhe bem, olhe para essa cama.
Amara se aproximou da cama, puxou o lençol e ao mesmo tempo levou sua mão à boca, estava surpresa tanto quanto seu marido.
correu tanto até o local de encontro com seus amigos que não reparou que deixou a chave de casa cair na rua.
Ele iria dirigindo, junto de outros quatro adolescentes no carro, que era do pai de um dos seus amigos.
O local estava lindo, as luzes dos faróis iluminavam a pista e as calçadas. Os donos dos carros ficaram do lado de fora deixando eles expostos para qualquer um que quisesse ver. Os olhos do pequeno brilhavam como as estrelas daquele céu lindo.
Ele chegou perto de um Nismo Z33, lindo, preto todo bem cuidado. Seu coração acelerou no mesmo momento que ouviu ele ser acelerado, aquele motor o levava a loucuras.
— Um dia eu vou correr com um carro desse.
— Até lá, você vai precisar ter bastante dinheiro — um de seus colegas falou.
— Vou ter.
— Bom pelo menos você sabe correr — o loirinho comentou.
— Você? Pequeno assim, sabe correr? — o dono do carro questionou todo incrédulo.
— Ele é um dos melhores pilotos de Kart, tem essa altura toda — era alto. — E trouxe a gente naquele Civic.
— Hm. — Olhou para o cara ao seu lado, era seu irmão, olhares que irmãos compreendem de longe. — Aceita um racha?
— Racha?!
arregalou os olhos, era um convite e tanto para um garoto de onze anos.
— Aceita, bruder, para de pensar.
— Ele aceita — o loirinho respondeu por .
— Ótimo, vai ser contra meu irmão. Linha reta, ganha quem chegar primeiro nas latas pegando fogo. — Estavam no fim da rua, uma de cada lado. — Vou no banco de carona, quero ver isso de perto. — Jogou a chave para pegar.
— E se ele ganhar a corrida?
— Como assim?
— A não se faz de desentendido, qual vai ser o prêmio dele?
Os irmãos riram.
— Vamos correr, e depois disso veremos seu prêmio, garotão — o outro irmão falou.
— Fiquem quietos e não atrapalhem meu momento!
entrou no carro com o dono ao seu lado, o carro era de respeito tanto por dentro quanto por fora.
Ajustou o banco, o retrovisor e fez — como de costume, sua pequena oração.
Acelerou e o ronco do V6 o fez ir a loucura.
— Inacreditável! — o loirinho comentou olhando para o lado oposto.
O carro saiu arrancando depois da sinalização abaixar. segurava firme os volantes, mas como se conhecesse há anos aquele caminho e confiasse naquele carro. Ele chegou em instantes na marcação. Os irmãos, sem entender como um garoto de onze anos conseguia controlar tão bem um volante, desceram do carro parabenizando o menino.
— Esse é seu prêmio. — O irmão mais velho entregou uma chave. — Ao completar seus dezoito anos e tirar sua carta, vá à nossa casa. — O irmão dono do Nismo entregou o endereço. — E lá você retirará seu prêmio.
— Só pode ser brincadeira.
— Não brincamos com isso.
— !
Aquela voz estrondosa fez todos pararem de falar e gritar, os olhares alheios foram até e o dono da voz: seu pai.
— , o que você pensa que está fazendo? — ele advertia a cada passo que dava. — Se você quer correr que faça isso da forma decente! Não criei você para quebrar leis!
tinha chegado mais perto dele estalando os dedos, Felix também estava junto, havia entrado dois minutos atrás na sala.
— Tava lembrando de algumas coisas.
— Não tem que dá explicação. — Sentiu que sua ajuda não seria bem-vinda. — Qualquer coisa estou por aí, nos corredores. Com licença, até às 16h.
— Até.
Os dois se despediram de . Instantemente olhou para Felix.
— Eu sei que tem mais um treino às 16h, mas podemos abafar com panos quentes o que aconteceu? Tentar dizer a mídia que vamos deixar a potência realmente para domingo?
— Vejo o que consigo, mas e você?
— Eu vou descansar, tentar relaxar e ver se distraio a mente.
— Muito bem, você é quem manda. Vou lá avisar a empresa. — Revirou os olhos.
— Valeu, Felix.
Viu o amigo acenar como quem dizia “não precisa agradecer” e se retirar da sala.
Às pressas, recolheu seu fone e correu para os corredores do autódromo Ayrton Senna; olhou para os lados a procura de , foi quando ele a viu, mais distante do corredor leste, conversando com uma equipe e aparentemente dando instruções.
Caminhou até ela, esperando-a terminar a reunião e poder conversarem.
— Oi, que bom vê-lo.
— Não faz tanto tempo.
— Isso é verdade, mas quer alguma coisa? Aconteceu algo para o segundo treino?
— Não, não precisa se preocupar assim. Eu quero falar sobre aquele evento, JDM.
— Ah, não é bem um evento. — Começou a caminhar para um lugar mais tranquilo sem pessoas andando por perto. — É algo mais… discreto, sabe? Ilegal.
Ele riu, era como se a vida o chamasse novamente.
— Não sei se você quer se misturar com algo assim — ela concluiu.
— Me passa o endereço, eu vou.
— Faz assim me encontra aqui por volta das dez da noite. Te levo até lá. Pode ficar no estacionamento, não tem problema.
— Combinado, eu te espero às dez.
Às 22h em ponto ele estaria lá, esperando por ela, por aquele JDM, já que fazia um bom tempo que não ia em um.


