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“Você tem que enlouquecer para se tornar normal, porque somos nós que mudamos o mundo”
(MAESTRO, Seventeen)


Diário do Ruby, Nova York, 18 de agosto de 2100.
A carcaça do que uma vez foi um rato de laboratório apodrece nas saídas de esgoto, destino final de tudo o que é imundo, descartável e desprezível. Depois de abrir-lhe a cabeça e tocar a maldita sinfonia até a demência ou morte por exaustão, o animal não serve mais, precisam de outro. E de outro, e mais outro, até todos os ratos do mundo serem dizimados e eles começarem a nos usar no lugar.
E eles usarão. O rastro que leva até a M.A.E.S.T.R.O é um rastro de sangue.
Eles disseram que nos ajudariam, que eram um ramo filantrópico do governo. Por causa deles, eu tive que ver a esperança brilhar nos olhos de crianças miseráveis e de pais aflitos apenas para assisti-la ser arrancada deles violentamente, assim como todo o resto.
A proposta de utilizar inteligência artificial em prol da população soava sedutora. A salvação viria com a tecnologia a nosso favor: controle das pragas que infestaram as plantações, mapeamento das novas doenças que surgiram, aprimoramento genético e, com tudo isso, o tão sonhado equilíbrio para um planeta estéril de solos inférteis. Tudo através da música. Cientistas descobriram que os organismos vivos reagem aos sons e que o arranjo certo das notas musicais pode estimular sementes a germinar mais rápido, ou até mesmo recondicionar e regredir células cancerígenas. Parecia bom demais. Todos os nossos problemas seriam regidos, como numa orquestra sinfônica, pelo grande maestro doutor Jeon , o neurocientista responsável por trazer ordem ao nosso caos.
No entanto, o governo desonesto e ganancioso estava mais interessado em outras notas. A música que eles prometeram, em vez de salvar, planejava cegar, ensurdecer e calar.
Controle cerebral. O real e cruel intuito.
Não demorou muito até que os poderosos percebessem que o projeto tinha potencial para se tornar uma arma de manipulação em massa e rapidamente esconderam o seu lado podre sobre a fachada brilhante e redentora do complexo M.A.E.S.T.R.O. O fascínio da solução gloriosa ludibriou a muitos, e àqueles que não conseguiu enganar, comprou-os, por um preço alto e sórdido. O governo sequestrou quem ameaçou abandoná-lo e silenciou quem ousou desafiá-lo.
Mas eu ainda estou aqui.
Essa cidade tem medo de mim, eu vi a sua verdadeira face. Eu sou o verdadeiro maestro.
E quando eu explodir as janelas daquele prédio e tudo estiver prestes a ir pelos ares, todos os políticos corruptos e todos os homens com as mãos sujas olharão para cima e gritarão: “salvem-nos!”
E eu sussurrarei:
Não.


Complexo M.A.E.S.T.R.O, 11:57pm.

— Não sei, doutor… Sinto que a resposta parece vir tarde. — Tiffany suspirou pesaroso com os dados que surgiam diante de seus olhos.
Mais um roedor caiu sem vida dentro do aquário e se sentou em sua cadeira, reprimindo o mesmo suspiro de sua assistente. Ele não podia trazer nenhuma nota de pesar com a ausência de sucesso, precisava continuar, tentar mais até encontrar o resultado tão esperado que outrora havia sido encontrado, porém se perdido.
— Vamos encerrar por hoje, doutor… — Tiffany ousou. Ela também estava cansada, precisava descansar, necessitava deitar o corpo em sua cama e encarar o teto. Talvez conseguisse pensar melhor assim.
Seu chefe, porém, não lhe encarou. Não ergueu o rosto para ver seus olhos pedintes, esperançosos de que ao menos uma noite naquela longa e exaustiva semana ele aliviasse a tensão e a presenteasse com uma simples folga ou tempo a mais de descanso.
— Você pode ir. — tirou o óculos redondo e de lentes grossas de seu rosto para limpar o vidro embaçado. — Tire o dia de amanhã de folga.
Imediatamente, Tiffany levantou. Sua felicidade foi tão instantânea, que não sabia como reagir. Tirou seu jaleco e apertou uma sequência nada convencional no ar, na tela holográfica de seu computador. Em segundos, tudo sumiu, se apagando como uma chama sendo soprada pelo vento. No momento em que ela se virou para abraçar , caiu em si, contendo seu corpo e envergonhando-se da sua infantil reação.
Também pudera, Tiffany mal havia entrado para o programa de estágio da M.A.E.S.T.R.O e já tinha passado por muita coisa, um dia de folga era o mínimo que merecia e esperava.
— Bem… — deu um passo para trás, segurando o jaleco pendurado em um dos braços, com as mãos nos bolsos de sua calça de moletom. — Obrigada, professor Jeon. Eu… Eu acho que o senhor deveria ir para casa também. Está muito tarde… — mais uma vez tomou uma atitude ousada, tocando no ombro dele sutilmente antes de se virar e partir do laboratório.
Foi uma partida rápida. Logo, ele estava sozinho. E no momento que constatou isso, agiu pelo maior dos impulsos, levantando-se e arrastando o braço por cima da bancada cheia de itens altamente tecnológicos. Amostras, anotações, aparelhos de medições… Tudo o que estava em cima do principal balcão de uso do laboratório foi ao chão pela máxima da frustração de Jeon .
Tiffany estava certa com palavras tão duras.
Era tarde. Realmente era tarde demais.
Tarde para ele ir para casa, uma divisão muito longe no complexo relacionada ao lugar em que estava naquele momento. Tarde para ligar para Liam e garantir que ele estava bem, no geral, poderia fazer isso através de Scherzo, o assistente de inteligência artificial que tomava conta de toda a vida no complexo. Era tarde para muita coisa, inclusive tentar descobrir em que momento e em qual linha estava o erro de sua fórmula. Tarde para trazer de volta quem poderia ajudá-lo.
A Teoria Maestro não era dele, então como iria dar conta? Como iria conseguir recomeçar um projeto enquanto martelava em sua mente uma saudade tão recente, que parecia ser impossível desaparecer? Não tinha como e era, de fato, tarde demais. O que já havia sido quebrado levaria adiante muitas cicatrizes e, talvez, estas não iriam se curar nunca.
A dor em seu peito aumentava, não diminuía, a cada nova linha de pensamento seu mundo parecia comprimir lhe causando uma implosão. E a mínima suposição de um “e se” parecia enterrá-lo dentro do próprio martírio.
Foi ele quem a levou para dentro. Foi ele quem trouxe ela para o perigo.
E era tarde demais para tentar salvá-la.
Salvação essa que passou por seus dedos como a mais fina camada de poeira. Quando chegou, já era dolorosamente tarde demais, sua estava ao chão igual as coisas do balcão naquele momento, entretanto, ela não tinha mais luz nenhuma em seus olhos e, por mais que tenha se esforçado por Liam, seu sorriso não brilhava. Não tinha vida.
— Seja corajoso e cordial. — foi o que ouviu dela para o filho, enquanto ele estava petrificado no lugar, sem coragem de chegar perto e se deparar com a realidade.
Como poderia pedir uma coisa dessas a um garoto de seis anos que estava perdendo a mãe no meio daquele caos?
E como ele iria fazer para seguir em frente com Liam sem ela para lhe acompanhar?
Era tão tarde, que nenhum cenário aparecia em sua mente como uma forma de alívio para suas dores.
Em um bravo ato de coragem contra os pensamentos aterrorizantes que sua mente lhe trazia, se sentou em sua cadeira, passando a mão no ar como sempre fazia para trazer ao funcionamento sua tela holográfica. Em sua área de trabalho tinha um arquivo protegido pela forma mais segura que encontrou: seus olhos através das lentes grossas. Após a leitura, um vídeo se iniciou.
Ah, como ele se lembrava com tanto amor do dia de seu casamento.
— Fica quieto… Você não para de se mexer. — tentou soar brava, mas uma risada melódica seguiu sua fala.
— É que isso está apertado. Eu prefiro quando a gente não-
— Shh! — ela pressionou o indicador e o dedo médio sob os lábios de . — Estamos gravando, lembra? — apontou para a câmera atrás dos dois, com a mesma mão acariciou sua barriga. — Nosso pequeno Liam irá ver isso no futuro.
Com muito carinho e sem nenhuma palavra dita, se curvou brevemente para que pudesse alcançar a barriga da, ainda, noiva. Embaixo do robe de cetim branco, sentiu não só o toque físico dos lábios dele, mas também o amor que ele fazia questão de sempre colocar em prática. Fosse por meio de palavras, toques, gestos de carinho ou à sua maneira solícita, ela se sentia muito amada.
— Você já pode ir. Está tudo no lugar. — soltando da mão dele, a contragosto, se esticou rápida para deixar um beijo na bochecha de . — Eu preciso terminar de me arrumar. E você também.
— A gente não pode mesmo deixar tudo isso e fugir?
— Os noivos fugirem do próprio casamento? — ela riu. — Não seja dramático. Isso não combina com você.
— Estou ansioso. Quero partir logo para a lua de mel.
E um silêncio prevaleceu.
Era um ponto delicado no assunto.
Quando decidiram que iriam se casar, na verdade, quando decidiu pedi-la em casamento durante a comemoração de um grande avanço na pesquisa da Teoria Maestro, sabiam que tudo deveria ser feito ali e nada fora. A lua de mel seria dentro da residência deles no complexo, o máximo que poderiam receber é uma demonstração da tão poderosa inteligência artificial ao reproduzir com perfeição a antiga Indonésia, onde sempre deixou claro ser uma opção para a viagem de casamento dos seus sonhos. Isso se tornou, aos poucos, delicado, porque sabiam que parte da catástrofe exterior, a distopia na qual viviam atualmente, era responsabilidade de ambos.
abaixou o rosto, soltando da gravata de com certo desânimo nos braços, as mãos escorregando pelo tronco nu do noivo, irradiando aquela melancolia por todo seu corpo. Além da culpa por eles, agora ela sentia pelo pequeno ser sendo gerado dentro de seu ventre; Liam não teria a mínima oportunidade de viver o que um dia foi fértil no planeta, o que um dia foi lindo e vivo. Só restou a ele reproduções tecnológicas de última geração, a realidade virtual e não prática. E tudo por culpa de um sonho dela.
— Me desculpa. — pediu num fio de voz. Com o indicador, ergueu o rosto dela. — Você sabe que se eu pudesse, tudo teria sido feito de forma diferente.
— Mas se fosse diferente, estaríamos aqui agora?
— Estaríamos. Apenas estaríamos. Em outro lugar talvez.
— Então não estaríamos, você sabe. — ela se esquivou, indo para outro lado, buscando qualquer coisa que a fizesse se distrair daquele momento.
Por outro lado, respirou fundo em culpa. Odiava quando tinha seus lapsos de contestações racionais até demais, com seus ideais por vezes malucos. “Tudo acontece da forma como tem que acontecer, não importa o quê, como, quando e onde”, ela dizia batendo os pés e sendo firme em suas convicções. E não importaria o que ele fosse dizer ou tentar mostrar para ela como uma forma de olhar diferente, era teimosa, acreditava naquilo e ponto.
— Amor, eu acho-
— Eu acho melhor você ir se vestir. Vamos nos atrasar. — permaneceu de costas para ele.
hesitou em continuar se aproximar dela, mas achou que era melhor dar espaço. Existia um milhão de coisas que poderiam estar passando pela cabeça da naquele momento, não somente sobre o casamento.
— Estamos bem adiantados graças ao seu senso de organização. Não vamos perder o pôr do sol programado… — ele tentou, mas ela continuou de costas para ele, mexendo nos pincéis de maquiagem usados há pouco tempo.
— Não estou falando sobre a cerimônia.
Agora, pela filmagem, conseguia ver que o tom dela era de tristeza e não grosseiro, como pensou no momento que ela lhe devolveu aquela resposta. Sem hesitar, ele se aproximou e deixou um beijo no topo da cabeça de . Seria melhor encerrar aquela conversa estranha.
— Eu te amo. — foi tudo o que disse.
Quando ficou sozinha, garantindo isso ao olhar pelo espelho e as imagens holográficas do que seriam câmeras no corredor da residência, se sentou na cadeira à penteadeira. De costas para a lente da câmera que estava disposta ali para filmar sua arrumação, a fim de manter uma memória, sua postura murchou ao curvar-se para frente. Bem baixinho, dava para ouvir o choro copioso dela e, devagar, os soluços fizeram com que seus ombros se mexessem.
Até ser um choro alto e doloroso.
Pouco tempo depois, se levantou, passando as mãos no rosto e endireitando a câmera para que a filmasse por inteira, agora em pé.
— Embora as coisas sejam diferentes agora, o amor que eu sinto pelo seu pai nunca mudou. — acariciando a barriga, disse serena, fazendo o caminho para seu vestido pendurado na porta do guarda-roupas. — A nossa história começou quando tudo isso aqui ainda era só um projeto. Apenas um rascunho de mentes capitalistas. Ele não sabe, mas… — tirando o robe, ela respirou fundo. — Eu acredito que estaríamos juntos ainda que não tivesse acontecido nada disso. Mesmo sem a M.A.E.S.T.R.O, seríamos eu e ele.
Sorrindo genuinamente, se vestiu. Seu vestido feito pela idealização de seus sonhos, passados através de uma inteligência artificial e confeccionado pela impressora 3D, encaixava perfeitamente em seu corpo. E, ainda que não fosse tudo no formato ideal, estava sendo como deveria ser.
— E, mesmo que sejamos só nós três no meio da sala, com o Scherzo sendo o buffet, sonoplasta, cerimonialista e tudo o que precisamos, ainda é perfeito, Liam. — outra vez acariciando a barriga, ela enfim sorriu.
— Scherzo, congela. — pediu alto e foi obedecido pelo sistema. — Zoom. — outro comando atendido. — Ah, minha … — sentiu o peito doer, vendo a lágrima escorrida pela bochecha dela.
Observando o que aquilo tudo poderia significar, que ele não fazia ideia naquela época e tão vagamente agora, também sentiu seu rosto úmido. No instante que iria se entregar ao remorso e à saudade, porém, seu assistente Scherzo o alertou:
— Alerta vindo de sua casa, senhor Jeon.
— Liberado. — passando a mão no rosto e fechando a pasta que abriu, fazendo com o que o vídeo sumisse.
— Oi, papai. — a voz de Liam logo ecoou, surgindo em outro vídeo por uma mini holografia. Seu rosto inchado denunciava que acordou de mais um pesadelo. — Vem pra casa… Eu tive um sonho ruim. — manhoso, pediu.
A mensagem gravada finalizou e ele assentiu, olhando a hora.
É, realmente. Era tarde demais.

🥼

Jeon tinha finalizado mais uma grande e incrível jornada em Nova York, estava pronto para partir para seu próximo destino no país quando uma jovem sonhadora e com uma incrível pesquisa em desenvolvimento surgiu em sua frente após a última palestra depois de uma sequência bem-sucedida. A vida dele era para ser somente sobre isso, nada de novo, apenas as descobertas que já havia feito com a neurociência. Entretanto, tinha um tema de tese inovador: o uso da música como meio de manipulação neurológica. Uma pesquisa científica que só poderia ser levada adiante com ajuda da neurociência.
E ele não poderia negar. Nem a pesquisa, tampouco .
Ondas sonoras possuem dois extremos, ainda que produzidas em meios sólidos. Elas podem causar estresse ou sensações diversas de prazer. A física explica que o som nada mais é do que uma onda mecânica, a qual se propaga através de algum meio, sendo tridimensional ou longitudinal, transportando energia, mas não matéria. Entretanto, existe um limite humano em que a sua propagação é captada em velocidade e intensidade. O infra som é percebido pelos ouvidos humanos e o ultrassom está acima da frequência de vinte mil hartz.
A pesquisa surgiu de um questionamento qualquer da mente sonhadora de sua esposa: como seria a vida humana se não houvesse um limite?
Já naquela época — quase vinte anos antes — existiam estudos que podiam comprovar o uso total da capacidade cerebral humana, extinguindo o mito de que o cérebro só é usado em 10%. Contudo, entre usar e estar completamente desenvolvido pode haver uma linha tênue. Basta usar a exemplificação mais simples possível: o coeficiente de inteligência. Conhecido como Qi, ele é usado para medir o nível de inteligência daquele testado; mas não se pode julgar que alguém é melhor que outro por uma nota.
O Qi é apenas uma forma de encontrar deficiências em capacidades interpretativas, dizia .
E é nisso o que a neurociência poderia capacitar com a física das ondas sonoras. Em teoria, a propagação do som pode estimular, causar resultados. Se houvesse algo que pudesse ultrapassar o limite, ela buscava entender qual estímulo o ser humano receberia. Alguns poderiam dizer que seria impossível, mas o impossível se tornou, comprovadamente, uma mera opinião.
Não era algo que trazia arrependimento para . Foi a descoberta de uma vida, de poderes que a população poderia usufruir a nível catalisador, e, vendo pelos olhos dela, tudo tinha acontecido como deveria.
Quando admitiu a pesquisa de e levou para a Maestro, tudo tomou proporções impossíveis de serem narradas. Num dia estavam usando o laboratório didático comum da Universidade Maestro de Nova York (a NYMU: New York Maestro University), no outro estavam dentro do complexo científico, um lugar subterrâneo do qual jamais saíram. Naquela época, a política já era tão extrema, com seus conflitos capitalistas e territoriais, não demorando muito a haver um grande evento que levou parte da população à extinção. Não tendo somente a Teoria Maestro – nomeada oficialmente assim devido ao patrocínio da indústria – como carro chefe, a Maestro tinha inúmeros outros projetos revolucionários, mas todos usados de forma errônea.
A tecnologia, um oásis para os dias atuais no cenário distópico, se tornou grande fonte de poder. Mesmo sendo algo de controle, ainda assim tinha sua própria autonomia.
Nem nem tinham essa visão para o futuro. Ela sonhava em fazer melhorias na vida humana com a sua pesquisa; quando descobriu o que de fato estavam fazendo, já haviam se tornado marionetes de uma indústria tecnológica comandada por um ditador lunático. Logo, se tornou tarde demais. Nunca mais puderam sair do complexo, que ao longo dos anos foi se tornando imenso e detentor de várias camadas. Todos que ali entraram foram responsáveis por sua evolução e quase vinte anos depois tinham praticamente uma nova humanidade.
Humanidade esta que era aprisionada por suas próprias criações.
A rotina era essa: trabalhar e descobrir. Descobrir para trabalhar.
Desde que o centro de pesquisas do complexo foi atacado pelos rebeldes, excluídos do lado de fora, que viviam lá em cima, na superfície destruída, não era mais o mesmo. Já não ligava mais se era manipulado ou não, ele queria apenas que a justiça fosse feita, mesmo que fosse por suas mãos. Afinal, a vida do seu grande amor havia sido ceifada por aqueles que eram contra a criação dela, logo quando estavam chegando nos cálculos finais. Então, sua rotina era redescobrir tudo e trabalhar, ir para casa e cuidar de Liam – ou ao menos tentar.
E ali estava ele, mais um dia dentro do laboratório, observando e anotando. Tentando um dia após o outro, revivendo todas as fases da teoria, desde o primeiro contato com a criadora dela.
— Professor, os diretores estão solicitando sua presença. — Tiffany girou a própria cadeira, engolindo a seco ao comunicá-lo. Nos últimos tempos ele não estava voltando muito satisfeito dos encontros com a diretoria.
Na verdade, dificilmente ele parecia satisfeito.
— Termine a rotação. Temos mais três tentativas. — tirando o jaleco e desativando todo seu equipamento de anotações com um simples toque no ar, ele deu as ordens.
A caminhada para outra sala segura não foi rápida nem demorada, foi normal. Seu jeito entediado com as cobranças dos diretores não mudaria mais, não agora que ele precisava se concentrar sozinho na própria pesquisa. Depois de certo tempo, se acostumou com a vida monopolizada que passou a levar, agora se sentia incompleto e isso o tornava um rebelde sem causa.
Logo que entrou em outra sala, igual a todas as outras com paredes e porta de vidro, selecionou uma sequência rápida no painel ao lado da entrada, para que o ambiente se tornasse compartilhado com aqueles que lhe chamavam. Do lado de fora, tudo ficava invisível para quem via, como se ele não estivesse ali e nem a representação digital dos outros.
— Professor Jeon! — Frank, o presidente da Maestro, logo lhe cumprimentou com sua animação nada verdadeira. Aos poucos, outras telas iam abrindo e revelando os outros membros daquele conselho.
Mas nem mesmo isso o abalava.
Quantas falsas verdades já haviam passado por ele até ali, não é mesmo?
— Presidente. — foi extremamente simples em seu cumprimento, cruzando os braços em uma clara demonstração do seu mais puro desinteresse. — No que posso ajudá-los?
— É uma honra tê-lo de volta, professor Jeon. Ficamos muito preocupados com o seu bem estar e… Bem, sabemos que o período de luto é algo que dura por muito tempo. — Selma, à direita do presidente, iniciou. — Saiba que sentimos muito pelo acontecido e não iremos sossegar enquanto não colocarmos as mãos nos responsáveis sobre isso.
— E na Teoria Maestro. — completou por ela. — Isso não está muito longe de acontecer. Talvez com ela completa possamos colocar um fim nesses rebeldes da superfície. É um dos grandes motivos de eu ter voltado ao laboratório antes do previsto.
— Novamente, sentimos muito, Jeon. — Frank usou um tom mais baixo.
sabia que tudo isso era da boca para fora. Ele não se importava, porém. Só queria concluir com seu objetivo ou então tudo teria sido em vão.
— Agradeço as condolências de todos. Mas nada irá trazer de volta. — embora doesse muito, por uma perda tão recente que era, ele acreditava que dizer isso em voz alta lhe faria bem. — Se não continuarmos, tudo terá sido em vão. Incluindo a morte dela.
— Sobre isso, precisamos saber em qual ponto estamos. Sei que retornaram ao trabalho há poucos dias, mas antes do ocorrido com a invasão rebelde, havia nos dito que tinha uma expressiva evolução. — Selma o encarou direta. — O quanto retrocedemos com a mor… Digo, perda dela?
— Preciso de mais duas semanas. — de forma assertiva, evitando olhar nos rostos de cada um deles, garantiu.
De uma maneira estranha, se sentiu vazio ao constatar que a regressão havia sido enorme. representava muito daquele trabalho, ela era a grande estrela.
E não só para a Teoria Maestro, mas também para a teoria da vida dele.

🥼

— Seu pai sabe que você está aqui?
— Eu só vim deixar o dispositivo de controle do Scherzo dele. — Liam se encolheu ao lado da mesa, respondendo Tiffany educadamente. Levou um susto ao ouvir a voz dela logo que colocou o pequeno envelope em cima da mesa que sabia ser de .
— Certo. Você precisa de ajuda pra voltar pra casa? — Tiffany endireitou o corpo, sendo mais serena com o menino. Ela não era muito boa com crianças e Liam exigia um pouco mais, visto sua perda recente.
Era um tanto desconfortável. Admirava o menino de seis anos conseguir ir àquele lugar depois do que viu.
— Não. — ele respondeu mostrando os dentes em um sorriso educado e ajustando o óculos no rosto. — Eu vou pegar o metrô. Consigo ir sozinho. Obrigado, Tiffany. — acenou, virando-se para sair.
— Avise quando chegar em casa!
— Aviso! — sem olhar para trás ele respondeu, completando: — Não precisa dizer a ele que eu vim aqui. Ele vai saber.
Não esperou qualquer resposta ou se importou com alguma, Liam continuou sua caminhada tranquila. Sabia que o pai iria repreendê-lo mais tarde por ter atravessado o complexo apenas para entregar algo que, com toda certeza, ele tinha reserva. Levar o dispositivo para foi apenas um pretexto da criança curiosa que ele era.
Sua curiosidade se fazia em saber até que ponto já estava tudo bem. Queria ver como o laboratório tinha ficado depois de ter sido destruído com sua mãe dentro; ele se lembrava muito bem daquele dia e andar por aqueles corredores de paredes de vidro com reflexos falsos o fazia se recordar mais.
Seria aniversário dela no próximo final de semana e Liam queria ir na feira de antiguidades que teria na quarta-feira anterior, ele e comprariam uma cerâmica bem feita e bem desenhada, assim como gostava e admirava. Saíram os dois pela manhã, ele não teria aula e tiraria o dia livre do trabalho; Liam não entendia, mas naquela semana ambos os pais estavam muito mais felizes, chegou a ouvir uma conversa deles sobre finalmente terem conseguido a sequência correta, que iriam apenas testar uma última vez. Ele só não entendia e nem sabia do quê.
O passeio com o pai foi um dos melhores que já haviam feito até então, com muito sorvete, jogos e risadas. Era um tempo de qualidade que Liam dificilmente conseguia ter com um dos dois por mais de algumas horas, ter durado praticamente o dia todo fez com que ele quisesse que aquele dia jamais acabasse. Estava próximo da noite – segundo o relógio e as manifestações tecnológicas das placas que compunham o céu dentro do complexo – e eles já estavam retornando, mas viu por seu Scherzo que ainda não tinha chegado em casa, então achou que seria legal ele e Liam irem buscá-la no laboratório, tendo a imagem dela sendo transmitida de lá.
Sempre muito fissurada em seu trabalho.
Para Liam, talvez no futuro, isso se tornasse uma memória importante, apesar de dolorida. Para , talvez não tivesse nenhuma outra cor, apenas preto, a representação do luto.
O laboratório estava todo revirado, os ratos objetos dos testes estavam em parte mortos, o restante corria de um lado para o outro em completa perturbação. As incubadoras de som estavam trincadas, fios cortados, partes do teto destruídas. Parecia que tudo poderia desmoronar a qualquer momento. E no meio de todo aquele caos confuso e violento estava , caída e extremamente fraca. Parte do corpo na incubadora.
Parecia que ela estava esperando alguém para se despedir. Ao menos foi essa a sensação do pequeno garotinho.
— Liam… — o seu sorriso foi mínimo quando viu o filho. Ao longe, embaixo de completo choque, ainda se acostumava com o que estava acontecendo, com o que via. — Meu filho…
— Mamãe? — já em desespero e ajoelhado ao lado dela, Liam tocava em seu rosto. — Por favor, mamãe, levanta…
— Tá tudo bem, meu amor. — com o máximo da sua força, ela tocou o rosto dele. — Prometa pra mamãe que você vai ser sempre um garoto muito gentil… Seja corajoso e cordial…
— Eu vou mamãe… Eu prometo… Levanta.
— Eu amo você e seu pai. Eu amo muito vocês dois.
O olhar dela se encontrou com o de . Ele se aproximava, mas a última coisa que conseguiu fazer antes que ele chegasse por completo foi segurar a mão de Liam. Quando seus olhos pararam vidrados numa só direção e seu peito parou de se movimentar pela falta de respiração, o choro de Liam aumentou, seu pedido incessante de que ela acordasse ecoavam por todo o ambiente.
Naquele instante, ele desejou que seu pai pudesse rebobinar tudo, fazer com que ele, inclusive, não entendesse nada. Mas mal ele sabia que também se sentiu da mesma forma.
Ao contrário do que se imaginava e totalmente fora da sua compreensão – Liam podia ser mesmo muito inteligente e ter sempre ouvido os conselhos e orientações de sua mãe, mas ainda assim tinham coisas que ele não entendia muito bem, o que podia ser bom –, não demorou a voltar para o laboratório. No começo, seu pai parecia completamente perdido, até mesmo em como fazer o café da manhã. Por via de regra: Scherzo não se metia nessas coisas, havia um limite de segurança. E agora ele estava ali, curioso do porquê era tão importante.
Algo dentro de si crescia como uma repulsa, ao ver que tava tudo de volta no lugar. Ele não entendia o que estava sentindo, mas conseguia mensurar o incômodo.
De tão desfocado, Liam acabou se perdendo. Por segurança, seu Scherzo o guiou para o local próximo ao seu pai. O que não foi exatamente uma boa ideia. Sem qualquer barulho, estava diante da conversa de com outras pessoas que ele não conhecia visualmente, apenas por vozes familiares. Já tinha escutado aqueles mesmos timbres em dizeres firmes para seus pais, fazendo sua mãe parar de sorrir após conversas estranhas que fugiam da sua capacidade de entendimento.
— Preciso de duas semanas.
Desta vez a insegurança veio ao ouvir seu pai dizer.
— Não perdemos muito da evolução. Estamos quase na frequência correta. — ele entoava um tom totalmente diferente do que Liam estava acostumado. — Falta pouco.
— Perfeito! — uma mulher disse.
— Eu gostaria de saber uma coisa… — ajeitou a postura e o óculos. — Quando vamos responsabilizar quem fez o atentado e tirou a vida dela?
Isso Liam estava entendendo. Estavam falando sobre sua mãe. Se sentiu ansioso, esgueirando-se pela porta de vidro. Mais um pouco e ele sairia correndo dali.
— Estamos trabalhando nisso, professor Jeon… — um outro homem se manifestou. — Sabe como esses rebeldes são difíceis de conter… Mas estamos dando o melhor que podemos.
— Sim. Assim como estou dando o meu melhor aqui dentro. A vida dela não pode ter sido ceifada em vão.
— E não será, professor. Isso a M.A.E.S.T.R.O lhe garante.
Parecia que Liam havia escutado sua mãe lhe dizer seriamente “xeque mate”. Quando jogavam xadrez, enquanto ela o ensinava, não existiam risadinhas ou gestos carinhosos, toda partida seria sempre levada muito a sério.
A ansiedade que lhe ocorreu no meio do que estava ouvindo apenas aumentou. Era uma lembrança da qual ele não gostava muito, talvez a única coisa que lhe fazia ter medo de sua mãe. Ela era sempre muito exigente com esse jogo, toda vez dizendo que era para estimular sua mente a ser mais lógica, criativa, concentrada e de boa memória.
Mas era torturante perder todas as vezes e receber seu olhar de reprovação.
Um sentimento que se assemelha ao mesmo que estava tendo pelo tom vingativo de seu pai. Dentro da sua ingenuidade, Liam sabia que aquilo que seus pais vinham projetando para aquele lugar não era de todo o bem. Ele sentia medo e queria fugir, como se pudesse entrar numa nova dimensão e fingir que sua vida não havia se tornado aquela.

🥼

A frustração era tão grande, que quando entrou em sua casa, Liam odiou ver toda aquela decoração. Deveriam mudar, a vida não havia seguido? Então por que manter os móveis no mesmo lugar? A mesma cor sendo refletida na parede? Os mesmos quadros!?
Por que deveriam continuar do mesmo jeito se do lado de fora tudo já havia voltado ao “normal”?
Até mesmo seu pai estava vivendo naquele laboratório outra vez.
Quando entrou em seu quarto, buscou rapidamente por seu Scherzoplay interativo. Iria escolher qualquer uma das realidades utópicas que tinha disponível no catálogo e esquecer todo o resto que mal compreendia, mas que o frustrava mesmo assim. Porém, estava sem bateria. Saiu tão apressado e esqueceu de colocar no carregamento por indução. Agora teria que escolher outra coisa para centralizar seu foco.
Se jogou na cama, remoendo tudo o que viu e ouviu, até se sentir entediado com sua própria solitude e ignorância dos fatos – era terrível não entender, mas ter sentimentos tão profundos. Depois de um tempo olhando para o teto, revirando na cama como o ponteiro de um relógio, estava de cabeça para baixo e corpo para cima, quando enxergou o pequeno aparelho do tamanho do seu celular jogado no chão em um canto de seu quarto.
Foi o desbloqueio de uma lembrança legal quando se levantou para pegá-lo.
— O que está fazendo, mamãe?
Liam puxou um banquinho, sentando-se ao lado de sua mãe dentro do laboratório. Estavam esperando seu pai retornar de algo que foi fazer com um dos alunos e aí iriam para casa. A bateria do Scherzo de Liam tinha acabado, agora ele estava entediado e também já havia finalizado suas tarefas letivas, restando ao pequeno se entreter com o que sua mãe estava fazendo.
— Construindo uma cidade. — desviou o olhar da tela para explicar a ele, garantindo que o filho estava sentado corretamente, sem perigo de cair. — Quando eu era mais jovem e o mundo era diferente do que é hoje, existia um jogo chamado “Seventeenth Heaven”, lá você podia montar uma cidade da forma que quisesse. Nunca fui boa nisso, mas seu pai era.
— Posso ver, mamãe? — esticou mais o pescoço.
— Claro que pode. — lhe entregou o aparelho que segurava. — Um dia, se você quiser, pode jogar também. Seu pai me dizia que jogar esse jogo era como criar uma nova realidade e viver dentro dela.
— Como quando eu entro na selva pelo Scherzoplay?
soprou um riso nasalado, negando.
— Não. Esse é diferente, Liam. — se virou para ele. — A gente usa esses botões para gerar os movimentos e nessa tela aparece todo tipo de informação. Você manipula tudo por aqui, daqui de fora mesmo.
— Que legal! — mesmo não parecendo tão empolgante quanto poderia ser, Liam manteve sua empolgação. — E eu posso colocar ele no meu dispositivo?
— Não, filho. Esse é um aparelho próprio. Seu pai ia jogar fora, mas eu guardei. Ele pode ser seu agora.
— Sério? — os olhos dele brilharam.
— Sério! — o sorriso de foi murchando automaticamente pelo pensamento a qual foi acometida, e um suspiro longo e pesado liberou seu peito.. — Quando você se sentir pressionado e confuso, pode ligar ele bem aqui — mostrou ao menino onde ficava o botão. — e pronto. Só escolher o que fazer. Pode ser uma forma diferente de mudar o foco.
Na memória de Liam, somente agora ele conseguia ver que a mãe estava com o semblante preocupado. Se tivesse percebido antes, teria perguntado o porquê daquilo lhe causar tanta preocupação. Agora era tarde demais.
Ele estava focado demais na nova descoberta.
— O que é isso? O Complexo? — virou a tela para ela.
— Sim! Seu pai tinha feito até aquela fronteira. — passou o mapa para que ele pudesse ver. — E depois eu criei uma maquete do complexo. Mas precisa completar. E é um segredo, ele não sabe que eu não joguei no lixo. Não pode contar para ele.
Liam assentiu.
— Isso ficou igualzinho. Eu posso andar por todos esses lugares do mapa? Posso finalizar ele?
— Pode sim. Ali do lado de fora do Complexo tem uma cidadezinha chamada Meanietown. Tem coisas legais e vizinhos bacanas.
— Esse jogo é online?
— Acho que sim. — ela deu de ombros.
Talvez, pensando bem agora, já naquele dia as coisas estavam fugindo dos planos de sua mãe.
Voltou para a cama, se sentando enquanto esperava o aparelho ligar. Quando a tela inicial apareceu, ele sorriu, ainda funcionava.
Pouco tempo depois que sua mãe lhe deu o jogo, Liam saiu desbravando o complexo e acrescentou tudo o que faltava no mapa, fez isso até não ter mais o que colocar e perder a graça. Sentia que não tinha mais o que fazer, apenas se ele criasse algo do zero, mas não teve essa vontade. Para gastar seu tempo e trocar a energia ansiosa para outra coisa, Liam ficou fazendo as missões simples que tinham no jogo, que ainda restavam, até encontrar o lugar por onde podia ir para a cidade mencionada por sua mãe.
— Meanietown. Parece nome de urso. — riu fraco, entrando pelo portal do jogo. Agora estava um pouco mais calmo também.
Tão calmo, que não havia visto o tempo passar. Estava começando a nova etapa quando ouviu o Scherzo doméstico anunciar que ele estava no quarto, provavelmente para seu pai. Por medo, jogou o aparelho para debaixo de sua cama e se ajeitou na cama, fingindo que estava dormindo. entrou lentamente e beijou o filho, antes de sair e apagar a luz. Quando a porta se fechou, Liam tentou voltar ao jogo, mas o aparelho havia travado e ele não conseguia mais.
Optou por olhar para o teto e tentar pensar que em algum momento tudo seria apenas um sonho, até mesmo que estava preso no seu Scherzoplay interativo.
Ou seria tarde demais esperar que algo fosse diferente?


Alojamentos para agentes, 21:36, quinta-feira.

O mundo inteiro estava na borda, olhando o precipício prestes a engoli-lo.
E a velha ferida latejava ainda mais no inverno.
Anos se foram desde os pontos e as suturas costurando a barriga, consequência irreversível de uma missão desastrosa na qual ele foi enviado e até hoje não sabia dizer em nome de quem. Lembrava-se apenas que era jovem, sobretudo de espírito, e sonhava em mudar o destino da Terra. Alistou-se para servir na Central de Armamento, Raciocínio e Ação Tática (C.A.R.A.T), julgando que sua decisão salvaria vidas e ajudaria a humanidade, mas foi a própria humanidade acima dele que colocou um fuzil MC PR300 em suas mãos, o enviou para a Rússia e o mandou neutralizar um alvo. Sem explicação alguma, somente as especificações da arma, o equipamento com um cano acoplado ao silenciador, a lente de mira híbrida e a munição.
A marca do laser no crânio alheio era tudo o que ele precisava saber. Não eram necessárias mais informações. Aliás, que tipo de informação era suficiente para atirar na cabeça de alguém?
Qualquer uma, aparentemente, desde que o comando viesse de cima e gerasse algum lucro. O trabalho dele não era servir as pessoas em perigo, como ele acreditava, muito menos as necessitadas, vítimas da devastação. O trabalho dele era obedecer cegamente em nome de interesses externos. E caso se recusasse, o trabalho dele o fazia pagar pela insubordinação com castigos físicos que só ficaram mais violentos com o passar do tempo. Quando uma dessas punições veio afiada na lâmina do seu superior, cortando-lhe a derme a sangue frio, foi que Kim entendeu.
O mundo inteiro estava na borda, olhando o precipício. Mas eram as pessoas que estavam engolindo umas às outras.
E a velha ferida latejava ainda mais no inverno.
A dor voltou lancinante, muito mais pela constatação dos ideais distorcidos que pela realidade da cicatriz. A desolação da praga deveria ter trazido união, no entanto, desde que o mundo é mundo, uma coisa é certa: a sociedade sempre vai conseguir encontrar um meio de se estratificar, de explorar as camadas “inferiores”, de devorar os mais fracos…
Eles encontraram. E rápido.
suspirou pesado, jogando-se na cama. Tinha sorte de ter uma. A C.A.R.A.T fornecia abrigo, um ordenado e comida aos seus agentes, porém a sua suposta boa vida não silenciava as dores nem os pensamentos sufocantes. Por que não havia mais ninguém na ativa? Por que desistiram, inclusive ele? Por que se dobraram àquele cenário disruptivo? Não restava ninguém para curar a fratura exposta de um planeta quebrado, parecia mais cômodo amputá-lo.
Eles amputaram. E rápido.
A partir do momento em que a conta não fechou mais e o número de vidas excedeu o de recursos disponíveis, os humanos começaram a ser aniquilados misteriosamente. Relatos de pessoas desaparecidas, pesquisadores que saíram para trabalhar e não voltaram, opositores do governo evaporando… Com o tempo, as autoridades passaram a se referir a eles como “os perdidos”, mas os números foram ficando feios e cruéis demais para serem maquiados e o termo não suavizava mais absolutamente nada. Foi nesse ponto em que os verdadeiros propósitos da M.A.E.S.T.R.O, o complexo científico que deveria ser um farol de salvação, passaram a ser questionados. Os rastros deixados pelos perdidos levavam ao laboratório, no entanto, era mais cômodo ignorar os fatos do que aceitar a nauseante verdade de que um ramo do governo estava sequestrando pessoas.
Houve quem quisesse lutar — sempre há — e insurreições se levantaram, pressionando o complexo por respostas que chegavam cada vez mais vagas. Os líderes de fala macia se acovardaram e, de repente, ninguém sabia o que fazer além de tapinhas nas costas e frases feitas como “esqueça isso, tente levar uma vida normal”.
repudiava aquele conselho.
Levar uma vida normal?
Caminhar pelas ruelas de uma cidade apodrecida e morrendo, ouvindo as pessoas mendigarem um punhado de sementes secas, aquilo era normal? Sangue morno e inocente espirrando nos muros, aquilo era normal? Ordens confidenciais, informações secretas, gente sumindo como se fosse neblina, aquilo era normal?
Suspirou outra vez, mais densamente, e teve uma saudade que não cabia no travesseiro. Uma saudade que tinha nome, alguns graus de miopia e um lugar intocado no seu coração. Jeon , o brilhante cientista e melhor amigo de , partilhava da sua esperança, dividia a mesma fé na restauração da humanidade e em dias melhores. Porém, como o mundo real não atendia às suas expectativas, a solução que encontraram foi construir o próprio mundo através da única coisa em abundância naqueles tempos de escassez: a tecnologia.
lembrava-se com clareza de quando ganhou o aparelho de videogame portátil, algo que era vintage agora, mas que representava o auge da inovação quando , sorrindo em “v”, lhe entregou o presente, muitos anos atrás. O único jogo instalado tinha uma mecânica que refletia a personalidade do mais velho: estratégico, preciso e científico. O objetivo do jogo era criar cidades, calcular áreas e perímetros, planejar limites fronteiriços, uma espécie de criação imersiva em que tudo precisava ser pensado desde os mínimos detalhes, como a arborização das ruas, a vizinhança, o ar mais respirável e o clima mais ameno…
O completo oposto daquela Nova York distorcida onde estava fadado a viver sozinho, sem família, desde que havia desaparecido sem deixar vestígios.
Desde que havia se tornado um dos perdidos.
A esperança, entretanto, sentimento teimoso e quase corrosivo, incidia como um vírus que não conseguia expulsar, insistente, imune à febre e aos efeitos do álcool que ele consumia em quantidades cada vez maiores. Uma crença dura e irritante que não o abandonava nem quando ele entornava o uísque mais forte do estoque que tinha em casa, seu ópio particular. Era como se a sua existência estivesse em suspenso, esperando uma oportunidade para agir, porque não se conformava com nada daquilo, nem com as missões sem propósito, nem com as explicações evasivas dadas para elas, muito menos com a ideia de não lutar para encontrar e tantos outros nomes apagados da história.
E a porra da ferida latejava ainda mais no inverno…
Levantou-se da cama, insone. As luzes foram acionadas pelo sensor de movimento, baixas, numa frequência personalizada e amarela, tentativa inútil de transformar a unidade residencial em qualquer coisa parecida com um lar e transmitir uma sensação de conforto irrisória. Abriu a gaveta e tirou de lá o jogo, a lembrança mais palpável que tinha do seu perdido, e ligou o aparelho que mantinha sempre carregado porque não suportaria perder o único vínculo que lhe restava.
E porque, um dia, poderia acontecer o milagre que ele tanto esperava ao acender a tela.
O usuário “Wonu” esteve on-line. — leu na interface.
O silêncio da surpresa o envolveu como uma manta pesada, abafando até o som do vento, que se arrastava pelas ruas desertas. foi incapaz de se mover, como se o frio congelante lá de fora houvesse encontrado uma maneira de invadir o quarto através das janelas cerradas e paralisar seu coração aflito. A sensação de gravidade zero, no entanto, logo deu lugar a um calor que se espalhou por todas as suas extremidades, uma onda viscosa e quente apoderando-se dele por completo, como um simbionte dominando um corpo cansado e revigorando-o. Há anos não sentia aquela fagulha, aquela faísca de ignição acordando seu cérebro movido no automático e acendendo ideias, milhares de ideias…
Porque se tinha feito check-in no jogo, significava que ele estava vivo.
E mais do que vivo, significava que ele queria ser encontrado.
O jovem agente pressionou a interface com dedos trêmulos, detalhando a atividade a fim de rastrear a sua origem. Os dados foram surgindo, mas não entregaram mais que o horário do login e uma localização vaga. Iniciou um jogo, quem sabe tivesse deixado alguma pista, e assim que o aparelho renderizou os últimos avanços na cidade fictícia, o sangue lhe faltou nos lábios e na face, obrigando-o a apertar as coxas e a sentar-se novamente.
A cidade não era fictícia. Era um mapa até .
— Está tudo aqui! — passou as mãos pelos cabelos, puxando-os. — A planta do complexo M.A.E.S.T.R.O, está tudo detalhado aqui!
marchou até o computador na sala, descontando no piso toda a agitação que aquela descoberta havia causado. Conectou o jogo a um programa de execução, mas o processo levaria horas, já que quase nenhum software era compatível com uma tecnologia tão antiga, assim, e enquanto esperava, conseguiu emparelhar o videogame com um projetor de realidade virtual, recriando bem diante dos seus olhos a maquete panorâmica do complexo que havia fornecido.
A estrutura tridimensional foi se desenhando e começou a flutuar, e viu a miniatura da M.A.E.S.T.R.O em uma tela holográfica no espaço à sua frente, suspensa no ar. Cada prédio e estrutura surgiam minuciosamente elaboradas e o complexo, uma enorme fortaleza científica, ocupava toda a sua visão. No centro da maquete, erguiam-se imponentes torres de aço e vidro, conectadas por passarelas transparentes e curvadas, que formavam uma rede entre as divisões militares e os pavilhões de pesquisa.
À medida que movia os olhos, a maquete respondia aos seus gestos: ele girava o cenário com um movimento suave dos dedos, ampliando e explorando as seções do complexo. Algumas áreas estavam destacadas em um brilho azul-neon, indicativas de zonas de experimentos secretos ou altamente protegidos. Outras, mais sombrias, indicavam instalações militares e de contenção, com muros grossos e cercas de segurança visíveis. No canto esquerdo da maquete, uma enorme seção experimental se destacava, com vários andares repletos de equipamentos que não conhecia. Havia também zonas de armazenamento, dispostas em fileiras simétricas, que abrigavam materiais e suprimentos.
Suprimentos alimentícios. Uma necessidade básica que dolorosamente havia recebido o status de luxo.
— Céus. Quantas pessoas estão presas aqui?
recuou, respirando errado. O peitoral subiu e desceu diversas vezes até o ar, o único elemento que ainda era de graça, parecer um grande esforço e custar muito caro. De repente, o brilho de uma área específica chamou sua atenção: uma divisão no setor de pesquisas avançadas, isolada e protegida por um campo de força invisível, assemelhava-se a uma casa.
Uma casa com o número 17. Um número mais que significativo para os dois.
Jeon só poderia estar lá.
— Aguenta firme. Eu vou te buscar. — ele fez uma pausa para assimilar o impacto da palavra seguinte. — Irmão.

💎🩸

21:57, quinta-feira.

Não pode ser ele. repetiu pela milésima vez para o telefone.
— Se não é ele, quem é? — insistiu entre dentes, olhando através da cortina. — Alguém roubou um videogame antigo, se deu ao trabalho de jogar e de fazer uma planta exata da… — baixou ainda mais o volume. — Da base científica ultrassecreta do governo?
Como você sabe que é a M.A.E.S.T.R.O? sussurrou de volta. — Pode ser qualquer lugar! Pode até ser uma base da rebelião!
rolou os olhos, descrente.
— Você não está vendo o que eu estou vendo. — ele parou na frente da maquete. — A rebelião não tem toda essa estrutura, muito menos um arsenal.
Ah, não? E como você explica aquele ataque?
— A M.A.E.S.T.R.O tem muitos inimigos, , não só os rebeldes.
Uma veia saltou no pescoço de , atestando que ele era, de certa forma, um daqueles inimigos. Um inimigo velado, que em vez de filiar-se à rebelião, fez o caminho oposto e juntou-se a uma divisão do governo que ele achava que poderia aproximá-lo do seu irmão. Doutor Jeon era o cérebro por trás do controverso projeto da sinfonia, e sabia que os rebeldes espalhariam o dele pelo chão para impedir que ele tivesse sucesso na experiência que levaria, inevitavelmente, ao controle mental. De fato, eles chegaram muito perto de desenhar o contorno do cientista com seu próprio sangue, e as informações que recebeu eram um claro pedido de socorro, confirmando a sua teoria de que estava sendo mantido naquela empreitada contra a própria vontade.
— Meu irmão é inocente. Aquela história de testes em humanos, ele não… — travou a traqueia. — Ele nunca faria isso.
Sentiu cada palavra em suas vísceras, sua alma partida cria na inocência fraterna, e não era do tipo que conseguia viver com a alma despedaçada — embora fosse o que ele estava fazendo desde o desaparecimento do mais velho. Quando soube que o irmão estava à frente das operações da M.A.E.S.T.R.O, seu coração lhe gritou a verdade, e a verdade, para ele, era que era tão refém quanto os outros perdidos, que havia se sacrificado pelo bem maior em que os dois acreditavam e que se voluntariou em silêncio para garantir a sobrevivência de ambos.
A de custou caro. Foi preciso trocar o sobrenome, o local de nascimento, apagar o passado e todos os vestígios que pudessem ligá-lo a Jeon , exceto por aquele jogo. Aquele jogo era tudo que havia restado e, agora, poderia guiá-lo de volta para o laço que ele teve que renegar.
, eu acredito em você, mas considere os riscos.
— Meu irmão me deixou dizendo que iria trabalhar para curar o mundo bem na época em que a M.A.E.S.T.R.O começou a recrutar os neurocientistas mais brilhantes da face da Terra. Foram anos sem contato algum, e agora que tentaram matá-lo, a planta da M.A.E.S.T.R.O cai no meu colo. — ele esticou um braço, batendo-o na coxa na volta. — Não é tão difícil montar esse quebra-cabeça, .
Exatamente. Pensa, , está fácil demais. Pode ser uma armadilha.
— De qualquer forma, estão usando ele.
Argh. — a língua dele estalou do outro lado da linha. — Merda! Eu sei o que você está pensando.
— Você tem que saber, é seu trabalho. Eu sou atirador e você é meu flanqueador.
Às vezes eu não gosto nem um pouco de estar na sua cabeça…
— Isso já não é problema meu.
verificou o dispositivo, um tipo de celular antigo sem Wi-Fi, feito apenas para comunicação de voz entre civis, certificando-se mais uma vez de que aquela conversa perigosa não estava sendo gravada nem rastreada de alguma maneira. Ele e usavam uma linha morta desde que a C.A.R.A.T passou a monitorar mensagens e os canais de transmissão internos com a desculpa de garantir a segurança dos dados das missões e dos membros da inteligência. Em vez disso, a medida transmitia uma sensação de asfixia, como se nada ali fosse confiável.
Exceto por Lee , o único que conhecia tão bem quanto ele mesmo.
Alistados no mesmo esquadrão, os dois foram definidos como dupla desde o treinamento, que dividia os agentes com base no ano em que nasceram, o que era, provavelmente, a única verdade sobre Kim — e sabia disso. Ele precisava saber. Precisava sondar todos os pensamentos do colega, antecipar seus movimentos, prever suas manobras. Fazia parte da sua atribuição. Depois que se sagrou como atirador de elite, a patente de exigia um flanqueador para acompanhá-lo nas missões, alguém que pudesse lhe orientar melhor que seus próprios olhos e que o conhecimento de balística incutido na sua mente; uma posição difícil que exigia extrema confiança. A função de era se colocar na brecha, fornecer cobertura e garantir que não se tornasse um alvo ao tentar acertar o seu. E por mais modernos que fossem os equipamentos, a aparelhagem ainda era passível de falha, mas a sinergia entre dois parceiros era norteada por instinto, uma habilidade humana que máquina nenhuma era capaz de reproduzir.
No entanto, os instintos de apontavam o contrário do que pretendia.
Olha, eu estava lá quando... Quando você perdeu o seu irmão. E se eu me lembro bem, foi ordem dele que você mudasse seu sobrenome e refizesse a sua vida!
— Que vida? Uma vida baseada numa mentira? A única verdade que eu sei é que o não é esse monstro que os rebeldes pintam! Aquele ataque poderia ter matado ele, ele precisa da minha ajuda, e está pedindo agora! — apontava energicamente a planta tridimensional no meio da sua sala como se pudesse vê-la.
O episódio lhe doía ainda mais que a costura no abdômen. A autoria do atentado foi atribuída aos rebeldes que se identificavam por uma alcunha misteriosa que os agentes da C.A.R.A.T ainda não haviam conseguido decifrar, RUBY, sob o comando de um líder cujo nome era soprado como veneno pelos cantos obscuros da agência.
Woozi era uma palavra proibida.
Mas fazia questão de pronunciá-la quando enfim pusesse as mãos nele.
Certo, digamos que, por um milagre, você resgate o . A RUBY vai caçar vocês até no inferno. Você acha que vai derrubar a rebelião toda sozinho?
— Não a rebelião toda. Só o Woozi.
Woozi é a rebelião, .
Não restavam dúvidas quanto a isso, o âmago do movimento era aquele que se intitulava o “verdadeiro maestro” na página de diário que foi encontrada numa das bases rebeldes, em uma ocasião em que a C.A.R.A.T quase conseguiu emboscá-lo. O registro escrito ficou para trás quando Woozi fugiu, assinando não só aquela página, mas sua sentença perante o governo. , no entanto, não temia o nome, o movimento, ou as promessas do líder de abater tudo e todos igualmente, sem julgamento ou misericórdia. Estava claro que, se chegasse ao poder, seria mais um tirano ensandecido e sanguinolento, um mal promissor que deveria ser aniquilado antes que o irmão fosse o primeiro a pagar no acerto seu de contas insano.
— Eu vou. — decretou, irredutível. — Com ou sem você.
Puta que pariu, !
— Você quer ver a planta?
Idiota. Se eu vir a planta, eu fico comprometido.
— Alguém precisa saber dela além de mim, caso… — pressionou a barriga. — Caso aconteça alguma coisa.
Caso estourem teus miolos com a maldita sinfonia ou sabe-se lá o quê. Eu vou com você. Alguém vai ter que limpar a bagunça.
— Vai ser furtivo. Eu entro, tiro o de lá e vamos embora. Você dá cobertura por fora.
“Eu entro, tiro o de lá…” imitou o amigo. — E como você vai passar despercebido? A força da M.A.E.S.T.R.O é armada até os dentes, você acha que vai tocar a campainha e pedir uma xícara de açúcar?

O quê?
— O mandou a parte subterrânea da planta, são dutos de transporte sem vigilância. — sugou o ar entre os dentes. — O caminho está livre.
A mudez do outro lado da linha entregou a condição de espanto do flanqueador.
Eu estou indo aí. Agora.
encerrou a chamada e seguiu andando nervosamente pela sala, até parar na frente da janela semiaberta, pondo-se a observar o ambiente austero lá fora, onde um único carro velho de vidros fumê estava estacionado. Apesar da opacidade do veículo, o propósito dele estava claríssimo, porque a lataria balançava de modo pornográfico, denunciando a atividade dos ocupantes. As paredes nuas, sem ornamentos, eram tingidas por uma luz fraca, vinda de uma lâmpada pendente que piscava intermitentemente, tais como os pensamentos que invadiam sua cabeça feito um enxame de abelhas, quando um não deixava o outro se concluir e tudo estourava num único nervo saltado na têmpora do agente. Fechou a cortina com força, esperando que o movimento enfático encerrasse também a enxaqueca que comprimia sua fronte e que aumentaria significativamente quando chegasse, pois, além do falatório sem freio que acompanhava o amigo, os dois tinham um quebra-cabeça difícil de montar.
Aflito, pegou de volta o videogame e ejetou o cartão de memória, conectando-o ao computador para iniciar a transmissão dos dados e ter uma cópia de segurança daquele registro. não descartava a possibilidade de ter que decorar tudo, então vasculhou as gavetas em busca de uma aspirina para tirar o foco da sua dor de cabeça e concentrá-lo em memorizar ao menos alguma parte da planta. poderia ser os olhos dele, mas, uma vez lá dentro, seria ele por si mesmo e mais ninguém, com o risco de apodrecer encurralado nos túneis desativados da M.A.E.S.T.R.O como os ratos que eles usavam para testes. A ideia lhe causou um arrepio único. Forte. Da base da coluna até o final dela, como se seu corpo tentasse, num sinal fulminante, avisá-lo do perigo em que estava prestes a se colocar, mergulhando-o em uma descarga de tensão repentina que isolou suas terminações nervosas, de modo que só voltou à realidade quando ouviu batidas violentas na porta.
— Eu já ia arrombar. — avisou assim que enfim destravou a tranca, visivelmente em alerta e com a mão apoiada no coldre.
— De serviço a essa hora? — olhou a arma de relance.
— Quando o seu parceiro te conta casualmente que planeja invadir uma base secreta do governo, é bom se prevenir. — entrou pelo pequeno corredor. — De agora em diante, essa belezinha dorme comigo.
— Você precisa de uma mulher.
— Eu arrumo uma quando você arrumar. A propósito, a Matilda não conta.
riu pela primeira vez em muito tempo, porém, no mesmo fôlego, lamentou profundamente sua situação. Uma pistola de estimação que levava nome de mulher era o mais perto que ele havia chegado de uma companhia “feminina” nos últimos meses. Embora existissem acompanhantes aos montes em cada esquina fugidia e borrada de névoa poluente, como a que deveria estar no carro em frente à sua casa, lhe faltava coragem para contratar o serviço.
O mundo estava na borda, olhando precipício. Mas as pessoas ainda gozavam umas nas outras.
Dos prazeres possíveis, absteve-se involuntariamente do sexo, não porque achasse no celibato alguma virtude, mas porque em meio aos longos turnos de trabalho e às crises de insônia permeadas por pesadelos em que o cheiro das massas cinzentas que ele eliminava parecia invadir o quarto, não sobrava energia para empreender em conhecer e cortejar uma moça. Além disso, depois que um homem atirava em um semelhante, também não havia muita sutileza remanescente em seus gestos, e era assim que se sentia, que os mesmos dedos que apertavam gatilhos eram incapazes de esboçar um carinho. Cada toque que dedicou àquelas com quem se envolveu era puramente carnal e livre de sentimentos, apenas impulsos instintivos de empurrar-se mais ainda contra a mulher embaixo dele para inundar seu cérebro automatizado em qualquer substância ou reação química momentaneamente entorpecente.
Anestesia à parte, o que ele precisava no momento não era uma mulher, era administrar a presença enérgica de , que sequer tinha visto o mapa e já estava munido de um turbilhão de recomendações, da sua fala incessante e das suas opiniões categóricas. O flanqueador era do tipo que anunciava qualquer pensamento que lhe ocorresse, porém, quando ele enfim parou diante do dispositivo e simulou a projeção da planta da M.A.E.S.T.R.O, recebeu dele uma rara reação.
Completo silêncio.
— Fala alguma coisa. — rosnou.
manteve os olhos vidrados nas linhas luminosas que se desenharam no meio da sala de , prestes a regurgitar. O rosto dele empalideceu e o semblante assumiu uma feição séria, solene, que se enchia de gravidade conforme ele caminhava ao redor do mapa. Os lábios totalmente cerrados tremeram, numa manifestação crua do medo, o mais puro ímpeto de sobrevivência, e a planta do complexo de repente se transfigurou numa sentença de morte. Por mais que os dutos desativados pudessem ser a cobertura perfeita, estava óbvio que aquela missão era suicida: um passo em falso e destino dos dois seria reduzido a pó. Contudo, se o medo era paralisante, a amizade e a consideração que nutria por eram motoras. A ideia de deixá-lo sozinho naquele corredor era inconcebível, preferia arriscar tudo ao lado do amigo a permanecer seguro, preferia ter a sua vida em jogo a conviver com a própria covardia. Passar o resto dos seus dias tentando achar alguma redenção para a sua omissão não combinava com o seu caráter.
— Então? — insistiu, impaciente. — O que você acha?
— Eu acho… — a voz de falhou e ele raspou a garganta. — Que não tem álcool suficiente nessa casa pra compensar o quão fodidos nós estamos.
— Nós? — o atirador surpreendeu-se. — Então você vem?
— Claro. — , já completamente refeito, manuseou o aparelho e apertou alguns botões. — Eu jamais me perdoaria se algo acontecesse com você e eu não estivesse lá para dizer “eu te avisei”. — um sorriso ladino para o qual rolou os olhos. — Agora vamos dar um jeito de enfiar esse mapa na sua cabeça.

💎🩸

02:19, sexta-feira.

A cortina outrora fechada movia-se lentamente e o balançar do tecido era hipnótico para a vista viciada e cansada de . já havia deixado o alojamento com mais perguntas do que respostas, mas pelo menos a codificação da planta no computador havia acabado. Em tela, foi possível submetê-la a programas que calculavam perímetros e estabeleciam rotas alternativas e, assim, depois de horas maçantes de estudo e contemplação, o atirador já havia gravado mais da metade do percurso de dutos.
Deu uma última olhada na tela, exausto de procurar padrões, mas ciente de que era inútil tentar dormir. O sono lhe escapava, naquela madrugada mais do que nunca, e havia uma carga de adrenalina energizando suas artérias; se ameaçasse fechar os olhos por mais de dois minutos, seu corpo confundia descansar com desfalecer, reanimando-o com uma taquicardia que o deixava em alerta máximo. Derrotado, puxou o casaco pesado que estava jogado nas costas da cadeira, vestindo-o feito uma pele protetora, apagou o monitor e escondeu o computador completamente desligado e desconectado da internet atrás de um fundo falso.
Em alguns casos, o sucesso de uma missão estava na simplicidade e aquele era um bom exemplo: uma solução fácil como um fundo falso era tão rudimentar que era naturalmente descartada, assim, se porventura alguém suspeitasse de algo e resolvesse investigá-lo, jamais procuraria em meios físicos. Em vez disso, vasculharia sua assinatura digital, e-mails, drives, mensagens, enfim, nada tão trivial como um esconderijo bem disfarçado. O conteúdo mais caro de no momento estava protegido por uma espessa camada de cimento que bloqueava qualquer sinal.
A sala ficou envolta pela sua própria respiração hesitante. Temia o que estava por vir, mas temia muito mais o passado do que o futuro, e a inércia já não era mais uma opção, era só uma palavra morna e fermentada que lhe provocava náusea — tinha vontade de cuspi-la. Pensava no irmão com toda força que tinha, mesmo durante movimentos automáticos como se arrumar para sair a pé em busca de um bar, e recordava-se de um tudo sobre : o timbre modulado, o olhar escurecido por trás dos óculos, a vez em que confessou aos pais, mortificado, que estava afundado no crédito estudantil, e o fatídico dia em que comunicou que iria partir, mas que ninguém se preocupasse. Que ninguém chorasse sua ausência. Que voltaria.
E não voltou.
A lacuna da falta esmagou o peito de , conduzindo-o, numa resposta condicionada ao sentimento, a pegar a pistola na gaveta da escrivaninha, uma arma pesada para o seu tamanho e gelada como o seu propósito, no entanto, com alguma fração de personalidade, dado o carinho que ele nutria por ela. Prendeu a fiel amiga Matilda ao coldre de cintura, habituado à arma de curto alcance, gatilho automático de dois tempos e acabamento fosco, projetada para precisão em ambientes fechados. Compacta, discreta e, sim, leal, modificada para reduzir o recuo e ganhar agilidade no disparo; Matilda era o tipo de objeto que um agente como ele mantinha por perto não por segurança, mas por convívio, pois já era uma espécie de prolongamento do próprio corpo, um apego emocional.
— Vamos tomar um último drink, querida. — beijou o cano com uma ternura distorcida. — Em algumas horas, seremos eu e você contra a M.A.E.S.T.R.O.
Devidamente acompanhado, digitou a senha da porta e atravessou o corredor até o elevador, que rangeu ao descer, como um monstro de metal despertando. Quando chegou ao saguão, o clima era opressivo e a saída apontava a rua conhecida, onde os postes espaçados refletiam a luz alaranjada nas poças que manchavam o asfalto molhado. Com o casaco fechado até o pescoço, ele deu os primeiros passos na calçada, sentindo a sola pesada das botas reverberar nas fachadas de concreto. A brisa da madrugada, gélida e cheia de partículas de sujeira da cidade, cutucava o seu rosto exposto enquanto seguia em direção ao bar, que, apesar de tudo, permanecia lá.
Assim como o carro promíscuo balançando, o que ele fez questão de ignorar.
apressou o passo, calculando quantas doses ele seria capaz de comprar e chegando sempre à mesma conclusão de que seu dinheiro não era o bastante. Dinheiro, a propósito, que não existia no lugar que ele havia escolhido para sedar a sua ansiedade, pelo menos não da maneira convencional. A moeda de troca do submundo tinha a forma de itens de sobrevivência, como cartuchos de energia que sanavam carências nutricionais, ou artefatos proibidos, como alucinógenos e armamentos, artigos aos quais um agente tinha fácil acesso: bastava inventar qualquer missão de apreensão violenta e fazer a divisão dos espólios recolhidos.
A violência, claro, era uma escolha. Uma escolha que optava por não fazer.
— Foda-se. Isso não me torna menos sujo. — respondeu para si mesmo quando lembrou-se dos comprimidos que carregava clandestinamente.
A carteira velha e surrada continha alguns cartões magnéticos e uma fileira de morfina potente e aprimorada para agir mais rápido. Tateou por si mesmo à procura do acessório e, ao abri-lo, um plástico amarelado que guardava uma foto dele com destacou-se pelo desgaste do tempo, perto de cair. Fotografias impressas já quase não existiam, mas nunca conseguiu se livrar daquele pedaço de papel onde os olhos pretos e austeros do irmão denotavam sua grandeza, ainda que fosse apenas através de uma foto envelhecida. O rapaz achou-se confrontado, posto à prova, como se sua consciência quisesse açoitá-lo ao lembrá-lo daquela imagem e daquela existência.
Ou pior, do propósito dela.
— Será que você se orgulharia de mim, ? Porque eu não. — ele riu, contrito, e bateu a cartela de morfina contra a palma. — Não era assim que deveriam usar isso, eu sei. Não foi pra isso que cientistas como você desenvolveram essas coisas, mas quando se tem mais dor do que alternativas no mundo, o que era para ser um remédio vira dependência química. Um comércio. Uma podridão da qual eu, irmão, eu faço parte. Eu posso bancar o policial bonzinho o dia todo, mas no final das contas, eu tô aqui, querendo me embebedar às custas da desgraça dos outros. Pagando um vício com outro.
Cortou o próprio monólogo guardando a foto e os comprimidos de volta. Nada era capaz de dilacerar tanto quanto os ecos da sua própria mente, que às vezes o impeliam a atitudes extremas para exorcizar seus demônios, como soltar o grito que vinha suprimindo e chutar uma lixeira de metal em seguida, forte o bastante para amassá-la. O acesso de raiva não aliviou muito, tampouco passou despercebido por um certo espectador, chamando a atenção do motorista do veículo há pouco ignorado por ele. Assistindo tudo de dentro do carro estacionado no escuro, a meia distância, o observador compadeceu-se minimamente do sofrimento alheio; só não o bastante para fazer alguma coisa a respeito. Em vez disso, ajustou um rádio de baixa frequência e iniciou uma transmissão culposa.
Um suspiro manchou o painel e o ar frio desenhou-se num espiral esbranquiçado de fumaça gelada, escapando por entre lábios nervosos. Um pendente de rubi deslizava pela corrente na qual estava pendurado, levado por dedos preguiçosos, que acompanhavam o corpo na completa apatia e falta de vontade de estar ali. A observação era entediante e já durava alguns dias sem nada de relevante para ser comunicado, porque , o objeto da tocaia, transitava exclusivamente entre a casa e a C.A.R.A.T, numa monotonia cansativa e enfadonha tal qual a rotina do seu vigia misterioso.
O mesmo carro velho e parado na frente do alojamento foi algo que escapou ao faro do agente justamente por sua obviedade, tal qual o princípio que ele aplicou para proteger o computador. Quem quer que estivesse ali não estava se escondendo ou se esgueirando, simplesmente estava, como mais um componente daquele cenário ordinário. Parecia apenas mais um carro, assim como o fato de sair tão tarde parecia apenas mais uma caminhada: ele não fazia ideia de que sua andança noturna se configurava numa atitude suspeita e digna de registro pelo vigia que ele não sabia que tinha. Um vigia que esperava que a resposta do outro lado do rádio não viesse.
Mas ela veio. E sua fala indiscernível, num idioma pouco falado, foi obrigada a reportar:
— Alvo em movimento atípico. — mais um suspiro entrecortado.
Ele viu você?
— Viu o carro, mas não deu importância. Eu usei um distrator.
Um distrator?
— Comecei a pular no banco para parecer outra coisa, chefe. Aquela lá que vendem pelas esquinas. A propósito, vizinhança super fofa a dele.
Que seja. Ele tem a planta da M.A.E.S.T.R.O. Entre na casa e revire tudo.
— Não dá, ele acionou um alarme de movimento, consegui ver daqui. E eu não posso desligá-lo porque, desde que a C.A.R.A.T atacou a nossa base, estamos sem a parafernália tecnológica que ajudava um bocado nessas horas. O que eu faço agora?
Siga. Até o inferno, se for preciso. — foi o comando enviado.
O comando enviado por Woozi.

💎🩸

Hellgate, 02:46, sexta-feira.

A fachada do Hellgate, apagada pelo descuido, revelava apenas o nome em néon vermelho, com algumas letras falhando e outras tremeluzindo, destacando o bar na ruela como um ponto de luz doentio que atraía quem queria desaparecer e ser esquecido. empurrou a porta de ferro, que se abriu com um silvo hidráulico e liberou um bafo morno com cheiro de uísque barato, suor, cigarro e metal, e cruzou o corredor de entrada procurando seu banco cativo no balcão.
As conversas sobrepostas ao blues sintético tocado pela jukebox de canto agrediam os ouvidos dele como um elemento de tortura, num toque plástico e artificial que fazia tudo parecer banhado pelo próprio inferno. sentou-se, indiferente às nuances condenáveis do Hellgate, e encarou seu velho lugar como uma punição pessoal deturpada. Sentia-se culpado, corrompido, um verdadeiro perdido, mas um perdido que todos sabiam onde encontrar.
Exceto por ele mesmo.
O mundo inteiro estava na borda, olhando o precipício.
E Kim estava prestes a quebrar por dentro.
O barman, um sujeito de pele cinzenta e cenho pesado chamado Ashen, servia copos de um líquido que ninguém queria saber o que era. Movia-se como um fantasma, resumindo-se ao papel de atender agentes e outros atormentados como que apareciam ali, recebia o seu “salário” e retirava-se para os fundos para usá-lo. O pagamento no Hellgate eram as substâncias supressoras, no caso de Ashen, pílulas fortes o suficiente para queimar neurônios e matar a dor que o vidro rachado ao redor de uma das suas córneas causava. Fruto de um implante que deu errado, a prótese ocular trazia um terror pungente ao seu olhar, que, literalmente, estava em todos os lugares e lhe rendia a chance de se dopar em troca de informação. Porém, não entrou ali em busca de informação. De fato, não estava em busca de nada.
Pelo menos não até ele cruzar com um par de olhos afiados, botas de couro vinílico até os joelhos e dedos repletos de anéis, cujas unhas grandes e pontudas sustentavam casualmente um cigarro, tragado com uma dedicação estranhamente atraente.
Relaxada, numa das mesas espaçadas ao fundo, a presença daquela moça estava longe de ser imperceptível. Sua aura se impunha, quente como um incêndio num porão úmido, sedutora como uma centelha acesa num lugar em que tudo mais parecia frio, morto, corroído e doente. Os cabelos, lisos e presos num rabo de cavalo bem alto, caíam feito uma cortina de veludo escuro, e seu batom escarlate era o único tom verdadeiramente vivo entre tantas bocas pálidas. Havia algo nos seus gestos, no seu cruzar de pernas demorado, no soprar da nicotina, no contato visual que não se partiu desde que chegou com sua nuvem negra de estimação sob a cabeça. Ela sabia que estava sendo observada. E gostava.
Não era o tipo de beleza que se exibia, era o tipo que exigia atenção. Que acendia alarmes internos. Que gritava “perigo” num sussurro e fazia o estômago de se contrair com uma agudeza que beirava a dor, mas uma dor fina, suportável e excitante. Ele poderia culpar a bebida que ainda não tinha tomado, mas resolveu que sua condenação viria do olhar dela, que incitava pecado e o atravessava em lampejos rápidos, fuzilando-o com a súbita certeza de que aquela mulher não estava ali por acaso. Ela não pertencia ao Hellgate.
Ela não pertencia a lugar nenhum.
Como ele.
O blister prateado finalmente cumpriu sua função e cuidadosamente o deixou sobre o balcão. Três cápsulas azuis permaneciam intactas, como pequenas promessas de fuga de um mundo que não oferecia saídas. O barulho sutil do plástico tocando o metal foi suficiente para fazer o olho mecânico de Ashen girar, focalizando o brinde deixado ali. A pupila artificial brilhou numa cor seca e amarelada, seguida de um discreto ranger do implante ocular. Ele avançou, tocando o blister com a avidez silenciosa de um cão treinado que reconhecia o som da tigela sendo servida e, num reflexo perfeito, o agente tirou o prêmio do seu alcance.
O barman não reagiu de imediato, somente pegou um copo com uma destreza automática e, enquanto servia o líquido âmbar habitual, respondeu com o pesar de quem já viu muita gente entrar e nunca mais sair daquele ciclo destrutivo, incluindo a si mesmo.
— Morfina. Dosagem difícil de achar. — ele quase salivou, oferecendo a primeira bebida da noite. — Onde você conseguiu?
— Eu faço as perguntas. — puxou o vidro para si, entornando-o.
— Responder a perguntas é o que me mantém vivo por aqui. — Ashen suspirou com a vista fixa na cartela.
— É o que te mantém vivo ou dormente, Ashen?
— Eu só estou vivo porque estou dormente, amigo.
engoliu em seco. A despeito do seu próprio estado abatido, o olhar clínico que usava para neutralizar alvos também era capaz de perceber rachaduras humanas. Ao ver o tremor nas pálpebras de Ashen e a ferrugem em volta do implante avariado, ele soube que a dependência dele não vinha só da lesão, mas de uma exaustão mais funda, de uma vida que o esmigalhou por dentro antes de deixá-lo mofar ali, servindo copos e trocando miséria por mais miséria. Era possível que ele tivesse alguém esperando por ele em casa? Que tivesse uma casa? Ou será que Ashen morava no depósito fúnebre do Hellgate fingindo esquecer quem era para suportar continuar sendo? Esses questionamentos despertavam em uma amostra de empatia que o destruía porque, ironicamente, o tornava cúmplice daquele vício: ele também estava comprando com entorpecente. Estava, mais uma vez, alimentando a prisão que abominava.
E isso fazia dele tão prisioneiro quanto Ashen.
— Casaco de pele falso, duas mesas para trás e três para o lado. Na minha esquerda. — engoliu seu dilema e murmurou, sem virar o rosto. — Eu quero o nome dela.
A prótese fez um ruído robótico, aplicando zoom na direção ditada por . O barman enrugou a boca em qualquer coisa parecida com um sorriso mórbido e entregou seu veredito:
— É uma das garotas de programa do Cicatriz.
— Nome. — insistiu.
— Ela não disse ainda. — Ashen deu de ombros. — Considerando o trabalho dela, nem precisa. É só assobiar que ela vai.
— Por que eu nunca a vi no Hellgate antes? — ele indicou o copo para que Ashen o abastecesse.
— Por que você acha que eu vou te dar mais uma informação de graça?
— Porque tem três comprimidos aqui. — ele ergueu o blister. — Se você quiser os três, vai ter que responder a três perguntas.
— Então você acabou de desperdiçar uma. — Ashen despejou mais bebida. — É só olhar pra ela. A pele dela ainda tem viço, tá na cara que começou no ramo agora.
não precisou se virar para conferir. A imagem da moça sem nome já estava gravada nele como uma tatuagem instantânea.
— Suponho que a próxima pergunta seja quanto ela cobra por noite…
— Com certeza não tão caro quanto você. — pressionou a cartela, dispensou dois comprimidos no balcão e ensaiou se levantar.
— Espera aí! — Ashen recolheu as duas pílulas rapidamente, instável e sedento pela terceira. — Deve ter mais alguma coisa que você queira saber.
— Tem sim. — ele fitou o barman e se pôs de pé. — Mas eu já te amaldiçoei demais por uma noite.
E o que um homem como você entende sobre maldição?
O synth industrial que tocava no jukebox perdeu espaço nos ouvidos de , que agora só captavam uma voz lasciva e feminina atrás dele, perto o bastante para trazer junto um perfume encorpado e marcante.
Era ela.
— Mais do que eu gostaria. — ele se virou, levemente abalado por aquela presença.
A moça o mediu de cima a baixo, estudando-o. A condição de era bem evidente e o denunciava, pois não só as suas roupas eram de uma qualidade melhor que a dos demais frequentadores daquele bar como seu próprio porte físico era um grande indicador de saúde e três refeições ao dia. Bastava uma rápida examinada para constatar a aparente boa sorte do agente, mas a mulher estava em busca de uma maldição, e para isso fez questão de prender o lábio inferior com os dentes.
O gesto foi intencional. Intencional e efetivo, porque fez a temperatura corporal de subir com loucura.
— Você não parece nenhum pouco amaldiçoado para mim, baby.
— As aparências enganam. — se esforçou para se mostrar indiferente, mas a biologia o traiu ao fazer sua virilha formigar e seus batimentos acelerarem. — Baby.
— Nesse caso, eu peço desculpas por não enxergar o seu amaldiçoado coração logo de cara. — a moça contornou os botões do casaco de . — É que tem um peitoral imenso na frente e eu me distraio facilmente.
Os pulsos dela apoiaram-se no peito dele com uma liberdade que beirava o atrevimento, depositando o aroma efervescente de cardamomo e gengibre na sua roupa. Uma dualidade entre quente e frio das duas especiarias nem tão doces, nem tão óbvias, invadiu as narinas do rapaz causando mais torpor que o álcool que Ashen lhe serviu. Já fazia muito tempo que não sentia o cheiro de uma especiaria, de um tempero tirado da terra e transformado em perfume de mulher, tanto que nem se lembrava mais o quanto era fresco, vivo, novo…
Real.
— Então, o que você estava tão interessado em saber com o cara do olho de vidro?
— O seu nome. — confessou sem pensar, sob efeito de um soro da verdade difuso no hálito dela.
Mitchell. — ela soltou como um feitiço. — Deveria ter perguntado direto pra mim, grandão. Aí você poderia ter ficado com aquela morfina.
— Morfina não me ajuda. — sibilou. — Morfina é pra quem não quer sentir nada. Eu quero sentir alguma coisa.
— Que tipo de coisa?
“Você. Debaixo da minha pele, na minha língua, na ponta dos meus dedos.”
— Qualquer coisa. — respondeu no lugar, trêmulo.
— Você parece nervoso, baby.
— Eu fico nervoso perto de mulheres muito bonitas e muito cheirosas. Acontece que você é as duas coisas.
— O que mais você acha que eu sou?
— Areia demais para o meu caminhão. — umedeceu os lábios ao imaginar o gosto por trás do batom dela.
— Não se subestime assim, querido. — agora passeava pelo tronco dele como se fosse dona. — Ninguém te contou que você é um cara gostoso de 1,90 de altura?
— Na verdade, 1,87.
Isso não vai fazer a menor diferença quando eu estiver sentando em você.
sequer titubeou, simplesmente lançou a oferta (e a si mesma) na mesa. sentiu-se despido, apesar de estar bem longe de ser um modelo da moral e dos bons costumes — o que ele tinha acabado de fazer com Ashen era a prova —, aceitar a proposta de uma garota de programa era endossar um modo de viver nocivo. No entanto, ao contrário da toxicidade que uma vida de sexo vendido representava, parecia certa de sua escolha, orgulhosa, até. É claro que um relance de cansaço transparecia, mas ela o disfarçou com camadas de rímel e um delineado sinuoso, assim, seu rosto e sua postura detinham uma altivez sensual no lugar da culpa.
O conflito interno do jovem foi travado, sem, contudo, se estender muito. era uma combinação instigante, acordava a sua hombridade e a sua luxúria, de modo que a luta “certo ou errado” dentro dele não durou nem meio segundo.
— Eu adoraria ter uma noite com você, . — testou o nome pela primeira vez, inebriado. — Mas acho que você está mirando no alvo errado. Não tenho tanto dinheiro assim.
— Às vezes não é pelo dinheiro, grandão. — ela juntou o cenho, tentando decifrá-lo. — Eu estou disposta a abrir uma exceção porque você me parece…
— Um cara bonzinho? — ele arriscou.
— Um cara raro. — ela enroscou um pé entre uma das pernas de , provocando-o. — Pra começar, você está me olhando nos olhos quando a maioria vem direto pra essa área. — ela circulou o decote avantajado, sustentado por alças finas. — Quem é você, afinal?
— Alguém não tão raro quanto você pensa. — ele baixou a vista, demorando-se. — Eu olhei pro seu decote várias vezes, só disfarcei melhor.
— Eu não percebi, não conta. — apalpou a cintura do agente, trazendo-o perigosamente para mais perto dela.
— Um atirador de elite precisa ser discreto.
— Oh, então isso é uma arma? — ela descobriu o cano escondido pelo forro grosso. — Achei que estivesse feliz em me ver, baby.
— Eu tenho duas respostas certas pra você.
— E eu tenho uma muito errada.
A moça afastou-se o mínimo necessário, apoiando uma mão no ombro de e usando a outra para puxar, debaixo do vestido, a calcinha rendada.
Foi como sentir o dedo no gatilho.
Uma tensão exata, latente, atravessou as costelas de como um disparo iminente, reverberando entre os ossos e convergindo para o vermelho do tecido, aquele pedaço minúsculo de tentação que agora amassava contra seu peito como um abrir fogo.
Então foi vítima de outro vermelho, do seu próprio sangue, que mudou de rota e se acumulou todo num único ponto.
— O que me diz? — ela esfregou a peça íntima nele, que se viu incapaz de negar a investida.
— Vamos ver quão raro eu realmente sou.

💎🩸

Alojamentos para agentes, 06:36, sexta-feira.

O que veio depois do Hellgate foi uma espécie de bruma embaçada na mente de ambos, uma fumaça densa que encobriu o caminho até a casa de como uma sombra que envolvia os dois sexos em fúria. Os dois ardiam, banhados de desejo e trocando beijos barulhentos; misturavam-se, mordiam-se, saciavam-se, tudo no intervalo de algumas horas sem espaço para palavras ternas. Sem espaço para quaisquer palavras, aliás. Só o que cabia na redoma que criaram eram sons de satisfação sem pudor.
Pela manhã, o velho veículo estacionado em frente ao alojamento continuava lá, parado em sua insignificância, quando acordou e espiou a janela pela fresta da cortina. Seu corpo morno, vitimado pelo cansaço e pela sonolência da carne farta, ainda se rendia ao teor voluptuoso e agradável da embriaguez, àquele delicioso desfalecer do gozo, do enternecimento físico, da doce prostração do sexo puro…
Mitchell era melhor que morfina. Não tinha sedativos, somente estimulantes.
Bastou que ela tirasse o vestido para que quase chorasse de emoção. Na atual conjuntura, em que sobravam simuladores e hologramas hiper-realistas prometendo reproduzir as sensações de uma relação física, nada se equiparava a uma mulher de carne e osso. Nada se igualava ao contorcer erótico de pernas trêmulas em volta da sua cintura e unhas afundando em seus ombros, a uma pele indócil e suada, gemendo em desespero no seu ouvido, aos seios em atrito com seu rosto e sua língua... Nada se comparava à .
sorriu ladino, a imagem ainda vívida em sua mente e a memória muscular despertando aos poucos, junto com seu corpo pesado, inspiraram um quase rir do agente. A diferença de altura não impediu de rebolar no seu colo e fazê-lo revirar os olhos, conforme lhe prometeu, e em uma das vezes ele gritou o nome dela do fundo de suas entranhas, avisando-a assim que estava para se desfazer dentro dela e preenchê-la de si. , por sua vez, separou os lábios inchados de tanto serem sugados, deliciando-se de recebê-lo, e aceitou seu generoso pagamento quando o grosso deleite de vestiu suas paredes internas e a lançou num estado de ápice pleno, absoluto, total.
Daquela vez, deitou-se inteira. Não por dinheiro, não pelo Cicatriz, não pelo seu ofício.
Por ela.
O jovem levantou-se com as costas sensíveis dos arranhões e o perfume especiado pairando no quarto, os únicos rastros da passagem de pelo lugar. O casaco de pele falsa e o vestido que ficaram pela sala quando ela caminhou nua, usando apenas as botas com as quais ela pisou no peito de , já não estavam mais espalhados no caminho, provando que ela tinha ido embora sabe-se lá para onde, deixando o rapaz sem uma despedida, apenas com uma marca de batom um palmo abaixo do seu umbigo.
“Pra lembrar de onde eu estive”, foi o que ela disse antes de fazê-lo delirar.
O êxtase da lembrança, então, finalmente deu lugar ao surto de consciência que acompanha uma péssima decisão. sabia da ameaça a que se expôs trazendo uma completa estranha para casa, colocando sob o mesmo teto alguém de quem ele não sabia nada e a planta detalhada que mostrava que ele sabia demais. Logo, tomado pelo ímpeto da desconfiança, correu até o fundo falso na sala, constatando que o computador ainda estava lá, exatamente como ele o escondeu.
Ao contrário do relógio, do token codificado de mobilidade (único dispositivo capaz de destravar o seu carro) e dos créditos oficiais do governo para comprar comida, mais valiosos que dinheiro, que ele ingenuamente deixou esquecidos no móvel de apoio.
Riu sem humor ao assimilar os fatos. Ele praticamente pediu pelo roubo, era a consequência mais óbvia de receber uma prostitua que propôs um transa “de graça”, tanto que mal se surpreendeu quando acionou as filmagens de monitoramento da garagem e viu , deslumbrante, levar facilmente o carro dele com a chave eletrônica e sua biometria gravada nela.
E soltar um beijinho para a câmera no processo.
Esperava sentir raiva por ter sido enganado com tanta facilidade, mas, estranhamente, tudo o que restava era um gosto amargo de orgulho ferido e uma pontada incômoda de… fascínio.
Ela o tinha vencido.
Apesar de toda a entrega que achava ter arrancado dela, o brilho escondido nos seus olhos durante a madrugada denunciava que esteve sempre um passo à frente, inclusive no delito planejado. Ela havia escolhido aquela noite tanto quanto havia escolhido sumir com os bolsos cheios e um motor novinho, que, àquela altura, já deveria ter sido hackeado por algum especialista das ruas para que nunca mais o localizasse. Mesmo diante da perda, a ira ainda não era uma resposta, ele só sentia conformação e mais encanto por . Estava tão fissurado pelo mel que escorreu entre as pernas dela que ainda era capaz de sentir o gosto do prazer alheio.
Enfeitiçado, encostou a testa na parede gelada, com os cabelos desgrenhados. Não tinha dúvidas de que, se encontrasse de novo, ainda iria querer perder para ela. Se ficasse novamente à beira daquele precipício, ainda iria querer pular por conta e risco.
— É. Eu mereci.




Continua...


Nota da autora: Olá! Essa história está sendo escrita por três autoras e as atualizações podem demorar um pouco. Esperamos que você goste e comente sempre que possível. Com carinho e com loucura, Daphne M, Ilane CS e M-Hobi.


Se você encontrou algum erro de codificação, entre em contato por aqui.


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