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Revisada por: Sagitário♐

Última Atualização: Julho/2025
Os olhos esverdeados de Maya encaravam o chão sem vida do hospital enquanto suas mãos se esfregavam uma à outra em sinal de nervosismo. A garota loira não sabia há quanto tempo ela e a melhor amiga, Riley, estavam ali, tentando manter as esperanças de que em algum momento ele abriria os olhos.
Na tentativa de não pensar em sua própria dor, Maya se virou para o lado e se deparou com Riley em lágrimas — não sem motivos, afinal, não era nada fácil perder o noivo assim de uma hora para outra. Sua amiga de personalidade alegre tentava ser forte, porém a garota loira a conhecia o suficiente para conseguir enxergar o sofrimento em seu peito.
—Ele vai ficar bem, Riles! — Ela abraçou a amiga enquanto tentava acreditar nas próprias palavras.
— Ele estava tão empolgado para a competição, tão feliz. Ele é o melhor hipista da cidade, não sei o que pode ter acontecido para ele ter se descuidado tanto a ponto de cair dessa forma….
Maya, por sua vez, por mais que não quisesse, conhecia muito bem o motivo do descuido do grande campeão Lucas Friar.
O atleta costumava ficar no estábulo até tarde às vésperas de uma grande competição e neste caso, era a competição estadual, em que alguém receberia o título de “maior cavaleiro do texas”. Lucas sonhava em ser nomeado desta forma desde que era um menino. E lá estava ele, prestes a entrar na competição como um dos favoritos. Já a garota loira, por mais que estivesse empolgada, escondia um segredo que havia prometido a si mesma levar para o túmulo.
Naquela noite, no entanto, as imagens de Riley falando sem parar sobre o casamento a perturbavam, não porque ela não queria o bem da melhor amiga, muito pelo contrário, mas desde que a garota loira havia colocado os olhos em Lucas… Contudo, isso não importava mais, o destino quis que ele fosse de Riley e agora tudo que ela podia fazer era se embebedar para tentar abafar a tristeza que crescia em seu peito devido aos sentimentos não expostos.
O álcool por sua vez, teve o efeito contrário, na verdade a fez ter coragem de dirigir até o estábulo onde ela sabia que o homem a quem havia apelidado carinhosamente de “caipira” estaria usando aquele chapéu ridículo e estaria usando uma blusa listrada da cor vermelha que, mesmo que ela não admitisse, achava muito sexy.
Lucas obviamente ficou perplexo ao ver a loira ali na sua frente, tão vulnerável.
— Caipira! — gritou com a voz arrastada o fazendo descer do cavalo.
— Maya, o que você…? Indagou já percebendo o estado de embriaguez da garota pelos olhos. Ele sabia muito bem que o verde dos olhos de Maya se amarelava quando ela ingeria uma grande quantidade de álcool.
— Me desculpa vir aqui assim. Eu sei que está tarde e você tem a competição amanhã, mas eu preciso te dizer algo e quando ficar sóbria vou perder a coragem — declarou enquanto tentava não hesitar.
— Seja o que for, não pode esperar? Eu estou um pouco ocupado, preciso terminar esse treino… — Tentou disfarçar, mas ele sabia muito bem que sempre encontraria um tempo para ajudar sua “beleza loira”, mesmo que ela nem soubesse que ele a chamava assim em segredo e quando estava sozinho.
Maya, por sua vez, respondeu com uma enorme risada.
— É claro, você não entenderia, não sei como não percebeu até hoje…
— Percebi o que? — Lucas colocou as mãos no bolso da calça jeans se fazendo de desentendido.
— O fato de que, na sua última competição, você quase se feriu a Riley estava super calma, enquanto eu ria as unhas de nervoso.
— Com medo de eu não sair da competição.
Maya deu um longo suspiro, tentando reunir ao mesmo tempo toda paciência e toda a coragem que tinha dentro de si.
— Não, seu caipira, por medo de perder… — Completou mentalmente antes de cambalear.
— Maya. — Lucas colocou suas mãos fortes sob os quadris de loira enquanto ela berrava
— Não, me deixa, eu…
Lucas a levantou de forma cuidadosa antes de assentá-la no cavalo. Todavia, antes que pudesse ter a chance de salvá-la, se perdeu naqueles olhos que tanto desejava por alguns segundos. A essa altura, Maya já tinha parado de gritar, afinal, sua voz não podia competir com o barulho de seu coração batendo a mais de cem por hora. Percebendo o que estava prestes a acontecer e sabendo que se começasse, não seria capaz de parar, ela desceu do cavalo.
— É melhor eu ir — afirmou ainda com a voz arrastada. Mesmo com a cabeça girando por causa do álcool, ela precisava sair dali.
Lucas, no entanto, não a deixaria sozinha, por isso subiu no cavalo e cavalgou o mais depressa possível. Havia entendido tudo, Maya o amava e assim como havia enterrado esse sentimento para o bem de Riley… Mas o que faria agora? Seria capaz de cancelar o casamento? Arriscaria tudo por uma garota que fez seu coração disparar à primeira vista, ocupava seus pensamentos 24 horas por dia e às vezes parecia entendê-lo melhor do que sua suposta “noiva”? As dúvidas não deixaram espaço em sua cabeça para a estrada de pedras a sua frente e, quando deu por si, havia caído.
— Lucas!
O grito desesperado da mulher que no fundo sempre havia amado foi o último som que ouviu antes de seus olhos se fecharem.
Mesmo que não estivesse sóbria, não havia álcool no mundo capaz de apagar a lembrança daquele momento que a assombraria para o resto de sua vida.
— Ainda bem que você está aqui comigo! — Riley a trouxe de volta ao presente. Você é a melhor amiga que alguém poderia ter! — A garota de olhos castanhos aconchegou a cabeça nos ombros da loira.
Maya sentia que a qualquer momento seria consumida pela culpa, a culpa pelo caipira estar no hospital lutando pela vida, a culpa de ter escondido um segredo tão grande da pessoa que mais amava no mundo. Eram tantas palavras não ditas, emoções reprimidas que poderiam sair de forma involuntária a qualquer instante. Ela não queria que Riley a visse dessa forma ou descobrisse tudo naquele momento, afinal a coitada já estava sofrendo tanto.
— Eu preciso de um pouco de ar.
A loira caminhou a passos rápidos até o jardim do hospital. O vento batia em seu rosto enquanto sua mente era invadida pelas memórias do dia em que seu caminho se cruzou pela primeira vez com o caipira charmoso. Ela finalmente havia convencido Riley a começar suas buscas pelo amor e por isso prometeu ajudar a amiga.
— Eu não sei se foi uma boa ideia Maya, quer dizer, eu odeio todo esse barulho e não estou vendo nenhum garoto bonito por aqui — Riley sussurrou de braços cruzados evidenciando o quanto estava desconfortável.
A garota loira por sua vez teve a visão fisgada pela imagem de um homem de olhos azuis brilhantes e um cabelo que mesmo coberto por um chapéu de cowboy branco era um charme.
— Quem é ele? — Riley interrompeu a hipnose na qual a amiga se encontrava.
A loira por mais que tentasse negar, sabia muito bem a resposta para aquela pergunta.
— Aquele é o Lucas Friar, o melhor vaqueiro da cidade… — Maya não escondeu a admiração na voz.
— Ele realmente é muito bonito, mas eu não teria nem ideia do que conversar com um homem como aquele.
Maya deu um suspiro enquanto tocava os ombros da amiga de forma carinhosa.
— É por isso que eu estou aqui!
Exalando sua habitual confiança, Maya caminhou até o cowboy cujo chapéu havia caído no chão. Sem pensar duas vezes, ela pegou o objeto antes de abordar o dono dos olhos azuis brilhantes.
— Com licença, isso aqui por acaso é seu? — Ela usou as mãos para exibir o objeto. — Sabe eu imaginei que sim porque um chapéu como esse só poderia pertencer ao melhor vaqueiro.
Lucas deixou escapar uma risada.
– Ah, então você me conhece.
— Quem não? Meu pai me faz acompanhar rodeios desde que eu era criança e eu acabei gostando. Sabe, sei que você é o campeão, mas eu aposto que se ninguém estiver olhando, eu conseguiria ganhar de você em uma corrida.
Dessa vez Lucas se permitiu sair de vez no riso. Aquela garota de desafios loiros realmente sabia cativar um homem.
—Olha, além de linda ela tem atitude!
Maya sentiu o rosto corar.
— Bom, se me acha linda agora, imagine quando eu estiver apertando sua mão perdedora depois que tiver te vencido? — provocou tentando parecer sexy.
— Tudo bem, desafio aceito. — Lucas a encarou de cima a baixo obcecado em guardar cada detalhe que pudesse daquela obra prima em forma de mulher.
— Mas para isso você vai precisar do seu chapéu.
Lucas que nem se lembrava mais do objeto e estava perdido naqueles olhos verdes, sem querer ser encontrado, demorou alguns segundos para voltar a si e responder:
— Ah claro, meu chapéu, mas sabe o que é, acho que as minhas mãos de perdedor não devem tocar em um objeto tão incrível. — Foi a vez do garoto provocar fazendo Maya morder os lábios em excitação.
— Não seja por isso…
Como se já tivesse feito o mesmo gesto milagroso de vezes, ela esticou as mãos enquanto seus dedos tiveram a chance bendita de tocar aqueles fios marrons sedosos. Como ela queria mergulhar ainda mais naquele cabelo e em outras partes daquele rosto perfeito.
Lucas por sua vez teve que usar todo o alto controle que ainda restava naquela hora da noite a fim de não segurar a garota loira em seus braços e beijá-la ali mesmo.
Mesmo a música alta que inundava aquele local não era páreo para o barulho das batidas daqueles dois jovens corações. Era como se estivessem destinados a se encontrarem e a se tornarem um só.
Sentindo os pelos do corpo se arrepiarem por inteiro, Lucas estava prestes a tomar uma atitude. Contudo, no instante em que realizaria seu desejo de conhecer o gosto daqueles lábios, uma voz feminina disse.
— Maya, eu vou comprar um drink, você quer algo? — A inocência de Riley não permitiu enxergar o que havia interrompido.
— Não, obrigada!
Riley encarou o garoto de olhos azuis com um sorriso no rosto, afinal, mesmo não tendo muita experiência no assunto, ela sabia reconhecer um monumento quando olhava para um.
Contrariando todas as expectativas de Maya e deixando de lado sua timidez, a melhor amiga da loira esticou os braços a fim de se apresentar:
—Oi, eu sou a Riley, Riley Matthews.
Ao ouvir o famoso sobrenome, os olhos azuis de Lucas se iluminaram, afinal não era todo dia que se conhecia a herdeira da maior fazenda de gado da região.
— É um prazer conhecê-la, Riley! — Lucas beijou a mão da garota que soltou uma risada irritante.
Como se pressentisse o que viria a seguir, Maya sentiu um aperto no peito ao constatar que havia perdido sua chance no amor.
— Maya! O Lucas acordou! — A voz de Riley a trouxe de volta ao presente.
Seu coração saltou no peito de ansiedade e alívio, porém era preciso se controlar.
— Eu sabia! E por que não está lá com ele?
— Porque ele quer ver você! — A voz de Riley pela primeira vez saiu ríspida enquanto seus braços se cruzaram em um leve sinal de raiva que se confundia com frustração.
Maya caminhava em direção ao quarto cabisbaixa na tentativa de evitar olhar diretamente para Riley, suas mãos trêmulas, no entanto, eram quase uma sentença de culpa.
Lá estava ele, com seus olhos azuis brilhantes e lábios atraentes que abriram um sorriso ao ver a loira.
—Maya, que bom que você está aqui! – ele exclamou olhando direto nos olhos, sem se importar com a presença da suposta “noiva”.
Excitante, Maya caminhou até ele para lhe dar um forte abraço de alívio, contudo Lucas foi mais rápido e segurou suas mãos.
— Maya, tudo aconteceu tão rápido, eu…
Maya engoliu seco com medo de que o garoto ainda zonzo por causa dos sedativos revelasse toda a verdade e principalmente, sua culpa, no que havia acontecido. Para evitar o pior, ela o interrompeu.
— Não precisa falar nada.
— Quando eu desmaiei, eu só pensei em ver o seu rosto! — Ele colocou as mãos grandes na bochecha de Maya de forma carinhosa, gesto esse que fez Riley sair da sala batendo pé.
Por mais que a garota loira desejasse ficar ali com o caipira, precisava ir atrás da pessoa que apesar de tudo sempre esteve ao seu lado.
— Riles, olha para mim. — Ordenou se aproximando da garota com os fios castanhos.
— Por que, Maya? — Riley se virou revelando que seu semblante era de tristeza e não de raiva dessa vez. — Por que isso teve que acontecer? Por que o meu noivo, depois de sofrer um acidente horrível, ao acordar mal falou comigo e chamou por você?
Muitas palavras vieram à mente de Maya naquele instante, justificando pedidos de desculpa, mas nenhuma conseguiu chegar a sua garganta para sair. O medo ainda falava alto.
— Eu não sei, não se esqueça de que ele bateu a cabeça, pode ter perdido a memória, bagunçado as lembranças — Maya afirmou, querendo acreditar nas próprias palavras, mas seu coração teimava com a ideia de Lucas desmanchar o noivado. Droga, ela o amava, mas não queria ver a amiga sofrendo como naquele instante.
— Eu estou com medo — começou entre lágrimas. -- E se ele nunca mais se lembrar de mim e nem do nosso dia de noivado?
Lucas podia até ter chances de não se lembrar de nada, contudo na mente de Maya aquela noite em que ela precisou segurar as lágrimas estaria gravada para sempre como um trauma.
Estava evidente que Lucas não se encontrava em plena felicidade, o que era estranho considerando que ele era alguém naquele instante prestes a firmar um compromisso e a se casar. Naquela noite, mesmo com todo o sofrimento, Maya se permitiu ter esperanças de que ele poderia desistir. Ao colocar o anel no dedo de Riley, o cowboy mais famoso e desejado da cidade ao invés de olhar de forma apaixonada nos olhos da noiva, desviou seu olhar para a garota loira que no fundo seu coração desejava. Seus olhos pareciam exprimir um pedido de desculpas discreto, o que Maya não demorou a entender. A garota loira conhecia Lucas bem o suficiente para entendê-lo mesmo sem palavras.
O tempo passou, e Maya pensou que tinha pelo menos se acostumado a dor de ver o homem que amava nos braços de outra e não qualquer outra, mas de sua melhor amiga de toda a vida, o que tornava tudo ainda mais difícil, pois a felicidade de Riley era o que mais desejava, sinceramente e do fundo do coração.
Contudo, lá estava ela em um hospital, consolando Riley porque a última coisa de que Lucas se lembrava era do maldito acidente que ela havia causado devido aos seus sentimentos estúpidos. Se pelo menos ela pudesse desligar seu coração, se pudesse ter deixado Riley ser feliz, nada daquilo estaria acontecendo. Ela precisava dar um jeito, precisava trazer o noivo de Riley de volta, mesmo que isso custasse sua felicidade, precisava fazê-lo se lembrar do compromisso e esquecer todo o resto, ou pelo menos tentar.
Decidida, ela caminhou até o quarto onde havia estado mais cedo. Lá estava Lucas, de pé. O cowboy abriu um sorriso enorme ao vê-la. Maya estava pronta para dizer tudo que pensava e importá-lo para ir até Riley. Contudo ao reparar na mão do cowboy, percebeu que seu dedo estava nu, o anel estava em cima da cama como um objeto sem importância.
Lucas se aproximou com dificuldades e segurou as mãos de Maya em silêncio, mas seus olhos diziam tudo.
“Embarque nessa loucura comigo, eu desisto de tudo por você.”
De repente tudo desapareceu, a tristeza de Riley, o acidente… Não havia nada além do caipira em sua frente com quem, por mais que tivesse tentado negar, ela queria passar o resto da vida. Então mesmo que sua mente dissesse que era loucura, a garota decidiu que era ouvir o próprio coração e colocar a própria felicidade em primeiro lugar.



Fim


Nota da autora: -

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