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Última Atualização: 13/01/26
Suspirei aliviada ao ver a porta entreaberta da sala. Apressei o passo e logo estava diante dela.
Respirei fundo e olhei pela fresta, sentindo o coração pular ao ver todos sentados em seus respectivos lugares e a professora McGonagall assumindo seu posto, falando sobre algo que eu não consegui identificar.
Tomei coragem e empurrei o pedaço de madeira, que rangeu ruidosamente, fazendo com que a atenção de todos se voltasse para mim, inclusive a da professora. Senti minhas bochechas esquentarem.
— Com licença, professora — falei formalmente ao entrar. Pude ouvir murmúrios vindos do meu lado esquerdo. — Perdi o horário.
— Ah, Srta. Manfreid, — disse a professora, torcendo o nariz em desaprovação — atrasada pela segunda vez só esta semana.
— Perdoe-me por isso, Sra. McGonagall. Prometo que não vai mais acontecer — falei, totalmente constrangida.
— Você disse isso nas últimas cinco aulas — ela respondeu com a voz firme, que ainda me assustava. Eu me vi completamente acanhada e envergonhada. — Vá sentar-se ao lado da Srta. Evans, e vamos continuar a aula. E, desta vez, sem interrupções.
Encolhi os ombros e engoli seco ao vê-la empurrar os óculos na ponta do nariz e me lançar um olhar gélido. Não demorei a cumprir suas ordens.
Ouvi risadinhas enquanto caminhava pelas mesas e não consegui evitar sentir a garganta se fechar. Meus livros quase caíram no chão, mas alguém os segurou. Olhei para a pessoa e encontrei Lily Evans, a garota com quem eu deveria sentar. Sorri fraco e finalmente me acomodei ao seu lado.
— Obrigada — sussurrei, e ela alargou o sorriso, como se dissesse “de nada”.
Arrumei-me e voltei minha atenção para a professora, que já explicava o que faríamos naquela aula.
— Como eu dizia, quero que vocês transformem essa pedra à sua frente em uma flor — disse McGonagall. Baixei o olhar e encontrei a pedra sobre a mesa.
Suspirei frustrada, já acostumada com a ideia de fracassar. Ah, qual é? Eu sempre fui horrível em Transfiguração. Na realidade, nunca me dei muito bem em nenhuma matéria mágica. Minhas habilidades geralmente se manifestavam em tarefas manuais, sem o uso da varinha, o que me tornava uma aluna totalmente mediana e sem muitas pretensões aos olhos dos professores.
— Sabe, se quiser, posso te ajudar — a voz delicada de Lily soou, e eu a encarei, surpresa.
— Você quer me ajudar? — Meus olhos estavam bem abertos, as sobrancelhas arqueadas.
— Por que a surpresa? — Ela deu de ombros e pegou a varinha. — Eu não mordo, se é isso que está se perguntando.
— Não, por nada — murmurei, empunhando minha varinha um tanto trêmula.
Ela começou a explicar o que fazer: a distância ideal, como segurar a varinha, a pronúncia correta. Lily já havia transformado sua pedra em um lírio logo na primeira tentativa. Eu, por outro lado, tentava havia mais de quinze minutos, sem sucesso. Considerei, por um momento, jogar a pedra na cabeça de alguém. Estava frustrada. Como eu disse: mediana.
— Vamos lá, você consegue! — Evans continuava me incentivando, enquanto eu bufava, apertando a varinha com força.
Suspirei frustrada e larguei a varinha sobre a mesa.
— Desisto. Não adianta. Nunca fui boa em Transfiguração, e não é agora que isso vai mudar — ergui as mãos em rendição e passei os dedos pelos cabelos, afastando-os do rosto.
— Então você está desistindo? — perguntou ela, incrédula.
Assenti, desanimada.
— Escuta aqui, eu não vou deixar você sair dessa sala antes de transformar essa pedra, nem que seja numa folha! Entendeu?
Assustada, vi seus olhos verdes brilhando de raiva. Engoli em seco e resolvi tentar mais uma vez, para ao menos evitar sua fúria.
Respirei fundo, apontei a varinha para a pedra, enchi o peito de confiança e pronunciei as palavras com firmeza.
Por alguns segundos, nada aconteceu, como eu já esperava. Mas então, da ponta da varinha, saiu um feixe de luz arroxeado que atingiu a pedra em cheio. Num piscar de olhos, o objeto rochoso se transformou numa linda rosa amarela.
— Você conseguiu! Eu disse que você ia conseguir! — Evans dava pulinhos de excitação, enquanto eu olhava para a flor e para a varinha, sem saber como reagir.
Havia dado certo. Eu consegui.
Olhei para Evans, ainda perplexa, mas sorri. Trocamos um “high five” e ela riu.
— Olá, meu lírio — uma voz masculina nos interrompeu de repente.
Virei-me e encontrei um garoto de óculos redondos e cabelos rebeldes, sorrindo galanteador para Evans. Ela revirou os olhos. James Potter, é claro.
— Você está incrivelmente linda hoje. Mais bonita do que nos outros dias. O que tem feito pra ficar assim? — Ele apoiava-se na mesa e tentava um sorriso sedutor que mais parecia uma careta.
— Potter — ela torceu o nariz. — O que você quer dessa vez? Já fez o que a professora pediu?
— Já, e fiz muito bem, se quer saber — respondeu, inflando o peito. — Sabe que flor eu transformei? Um lindo lírio, assim como você, minha princesa.
Evans o encarou com uma expressão indecifrável, mas certamente não era boa.
— Ora essa, Potter... vá procurar o que fazer — ela resmungou, escondendo a própria flor atrás do corpo. — Agora, se nos dá licença, estou ajudando minha amiga.
— Sua amiga? Desde quando você é amiga de sonserinos? Achei que essa fase já havia passado... — Perguntou ele, e arqueei as sobrancelhas. Ele nem sequer me olhou.
— Desde quando minha vida pessoal te diz respeito, James? Com quem ando ou deixo de andar é problema meu — exclamou Evans, e eu sorri de lado, gostando da atitude dela.
James encolheu os ombros e finalmente me encarou. Nossos olhos se encontraram, e o que vi nos seus foi um pedido silencioso de desculpas. Desviei o olhar para as minhas mãos.
— Ei, Pontas, vem cá! — chamou outro garoto, e ele foi sem hesitar.
Soltei um suspiro e voltei a observar a rosa, pensando nas palavras de James sobre eu ser da Sonserina.
— Não ligue pra ele. O Potter é um idiota — disse Evans, e forcei um sorriso amarelo. — Ele só fala essas coisas sem pensar.
Soltei o ar pelo nariz, numa risadinha abafada, e ela riu comigo.
— Você é Jasmine Manfreid, não é? — ela perguntou, e assenti. — Que pena termos demorado tanto pra sentar juntas. Achei você bem legal.
Um sorriso enorme e verdadeiro se formou em meu rosto.
— Você acha? — perguntei, retoricamente. — Pois saiba que eu também.
Trocamos mais um sorriso sincero e senti um quentinho se espalhar dentro do peito. Algo em mim dizia que poderíamos ser grandes amigas, e eu torcia para que isso fosse verdade.
Pude perceber o olhar atento do meu primo sobre mim, vindo da mesa da Corvinal. Seus olhos claros me encaravam fixamente. Sorri fraco para ele e vi-o erguer o polegar e fazer uma careta engraçada. Não pude evitar rir baixo.
Lancei-lhe um sorriso em uma tentativa de tranquilizá-lo, e ele retribuiu antes de voltar a atenção para a namorada ao seu lado. Sorri mais uma vez ao observar a interação dos dois. Eles faziam um lindo casal.
Suspirei e voltei a comer meu purê de batata. Demorei mais um pouco até limpar o prato do almoço. Levantei-me e decidi ir até o dormitório pegar os livros necessários para o resto do dia e depois seguir para a aula de História da Magia com o professor Binns.
Saí do salão sem ser notada e dobrei à direita, indo em direção às masmorras. No meio do caminho, resolvi pegar um atalho para chegar mais rapidamente ao salão comunal da Sonserina.
Franzi o cenho ao ouvir barulhos estranhos. Percebi que vinham da direção para a qual eu ia, provavelmente de um dos muitos casais apaixonados que volta e meia trocavam amassos pelos corredores da escola.
Eu só não esperava que o casal que encontraria fosse James e Lily. James quase engolia Lily, que se agarrava à camisa branca de botões do bruxo, amarrotando-a e quase a arrancando de seu corpo.
Arregalei os olhos e tentei dar meia-volta para sair dali o mais rápido possível e sem ser notada, mas meu plano falhou miseravelmente quando meus sapatos traíram minha intenção, fazendo um barulho irritante. Os dois imediatamente perceberam minha presença e se separaram num salto. Lily ficou vermelha como um tomate, e James tinha um sorriso maroto nos lábios.
— Hã... não é nada disso que você está pensando, Jasmine, é sério — Lily se enrolou nas palavras, e eu segurei o riso. — A gente só estava, bem, é... e o que você tá fazendo aqui mesmo?
— Estava indo para o salão comunal da Sonserina — murmurei, encarando minha saia, agora tão constrangida quanto a ruiva à minha frente. — Mas não se preocupem comigo, continuem o trabalho de vocês... Eu já vou indo.
Virei as costas e ouvi James rindo, e Lily brigando com ele.
— Ei, Jasmine — ela me chamou, e eu me virei para ela — poderia deixar isso aqui entre nós? Não contar para ninguém?
— Segredo guardado, Evans — sorri de maneira tranquilizadora, e ela assentiu, suspirando, tentando se convencer de que eu cumpriria minha parte.
Dessa vez, pude sair do corredor sem ser impedida novamente.
Caminhei até o salão comunal da Sonserina e, ao chegar, agradeci a Merlin por não ter quase ninguém ali. Antes de subir para o quarto, joguei-me em um dos sofás confortáveis e deixei meu corpo relaxar. Ainda havia algum tempo antes da aula começar.
Respirei fundo e fiquei olhando para o teto, pensativa demais para fazer qualquer coisa. Após alguns minutos, percebi que o movimento do salão aumentava e decidi subir para pegar meus livros e sair o mais rápido possível dali. Não estava com nenhuma vontade de socializar com meus colegas de casa.
Enfiei tudo o que precisava dentro da minha costumeira mochila amarelada, que minha avó havia me dado no Natal passado, e a joguei nos ombros. Arrumei a saia e a gravata, penteei os cabelos com os dedos e finalmente saí do salão comunal.
A próxima aula seria com a Grifinória, e me animei com isso, já que veria Lily. Caminhei até a sala de História da Magia, quase certa de que não haveria quase ninguém, pois ainda faltavam bons minutos para a aula começar. Mas eu não tinha nada melhor para fazer mesmo.
Ao entrar, confirmei minhas suspeitas: nem o professor Binns, que costumava chegar antes de todo mundo, estava lá. Sentei-me em uma das primeiras fileiras, próxima à janela. Sempre gostei de apreciar o horizonte e ignorar o que o fantasma falava, como se fosse a coisa mais interessante do universo.
Peguei um livro trouxa que havia comprado nas últimas férias e comecei a lê-lo com vontade. Era um romance, meu gênero favorito.
Já estava no quarto capítulo quando algo chamou minha atenção. Marquei a página com um pedacinho de pergaminho e fechei o livro. Virei o rosto para ver o que acontecia e vi três garotos entrando na sala fazendo bagunça, mas dois deles se destacavam por gritarem e gesticularem como gazelas loucas.
Logo reconheci um deles: James. Mas o garoto ao seu lado parecia querer chamar ainda mais atenção. Ele falava alto e seus cachos negros dançavam sobre os ombros.
James percebeu minha presença, abriu um grande sorriso e logo veio até mim, puxando uma cadeira e sentando-se ao meu lado.
— Olá — disse como se aquilo fosse uma rotina diária.
— Oi — respondi, arqueando uma sobrancelha, desconfiada sobre o que ele realmente queria.
— Jasmine, estou certo? — Ele perguntou e eu confirmei com a cabeça. — Você parece ser legal.
— Obrigada... eu acho — agradeci sem jeito. Seu sorriso só aumentou.
E então não dissemos mais nada. Ele apenas ficou ali, me encarando de um jeito que começava a me deixar desconfortável. Antes que eu pudesse dizer algo ou pedir para que parasse, uma terceira pessoa se juntou a nós.
— Ei, Pontas, já está trocando a ruivinha por outra ruivinha? Você é rápido mesmo, hein! — Um de seus amigos debochou, rindo. James revirou os olhos e bufou.
— Não, senhor "pego todas que vejo pela frente" — respondeu irritado. — Caso você não saiba, essa é a amiga da Lily. E eu acabei de conhecê-la.
— Na verdade, a gente já se conhece desde o primeiro ano, né? — falei, mas pareceu que nenhum dos dois me ouviu de fato.
O amigo dele arqueou uma sobrancelha, surpreso.
— Pensei que a ruivinha não se relacionasse com “esses aí” — falou, torcendo o nariz para mim por eu ser da Sonserina. Encarei-o incrédula. Se antes o achava irritante, agora o considerava babaca.
— Como é? — falei, desta vez sendo ouvida. — Não sei se você percebeu, ou se é só idiota mesmo, mas eu estou aqui e estou ouvindo tudo. Sei que alguns de vocês da Grifinória não gostam da Sonserina, mas gostaria de ser tratada com respeito.
Senti as batidas do meu coração errarem um passo e respirei com dificuldade, estressada.
James e o garoto me olhavam assustados, mas eu não me importava. Apenas virei o rosto para minha carteira, tentando ignorá-los para não me exaltar ainda mais.
— Ei, pessoal, desculpem a demora — outra voz invadiu o local, e olhei discretamente.
— Sem problemas, Aluado. O professor ainda nem chegou — disse James. Em seguida, afastou-se de mim em silêncio. Senti que ele queria continuar a conversa, mas o amigo idiota havia estragado tudo.
O grupo de amigos se dirigiu a outro canto da sala e começou a conversar sobre algo que não me interessava, me deixando sozinha.
Longos minutos se passaram até a sala começar a se encher. Sonserinos de um lado, grifinórios do outro, e eu, sentada entre eles. Senti alguns olhares desconfortáveis vindos de colegas da minha casa e revirei os olhos, achando ridícula toda essa rivalidade eterna.
— Olá, Jasmine. Posso me sentar ao seu lado? — A voz doce de Lily invadiu meus ouvidos. Virei-me para ela, sorrindo.
— Olá, Lily. Claro que sim — falei animada. Ela sorriu de volta e sentou-se ao meu lado.
Notei que ela trazia uma mochila pequena repleta de livros. Arqueei as sobrancelhas, me perguntando como ela conseguia ser tão organizada.
— Nossa, isso é Madame Bovary? — perguntou surpresa ao ver a capa do meu livro.
— É sim. Comprei nas férias passadas — comentei sorrindo. — Você gosta?
— Se eu gosto? É um dos meus livros favoritos! — exclamou animada, pegando o livro como se fosse uma joia rara. — Você me empresta quando terminar? Quero muito reler.
— Claro. Te aviso quando acabar pra discutirmos tudo — falei, e ela vibrou animada.
— É bom ter com quem conversar sobre livros trouxas — comentou, cabisbaixa. — Minhas outras amigas são do mundo bruxo e pouco conhecem o "outro mundo". Fico feliz por ter alguém pra conversar.
— Se você quer saber, eu também fico feliz — falei, sorrindo fraco.
A aula então começou, interrompendo nossa conversa.
Tentei conter os bocejos enquanto o professor falava, mas era difícil me manter acordada. Por que aquela aula tinha que ser tão chata?
Lily, por outro lado, fazia várias anotações. Eu a invejei um pouco, tão focada, enquanto eu lutava para manter os olhos abertos.
Por sorte, a aula passou rápido. Quando o professor Binns nos liberou, me espreguicei e comecei a juntar minhas coisas.
— Você tem aula de quê agora? — perguntou Lily, também recolhendo seus materiais.
— Poções — falei desanimada. — E você?
— Runas Antigas — respondeu bufando. — E depois?
— Adivinhação. E você?
— Defesa Contra as Artes das Trevas — falou ainda mais tristonha. — Mas que droga! Me diz que a sua última aula é vaga, por favor?
Mordi o lábio, tentando lembrar da última aula do dia. Como não me vinha à mente, presumi que fosse vaga.
— Sim, acho que sim — falei com um meio sorriso, vendo seu rosto se iluminar.
— Certo, me encontre na biblioteca assim que o sinal tocar, pode ser? — perguntou e eu assenti freneticamente. — Tá bom, nos vemos mais tarde.
Ela saiu na direção contrária, e eu suspirei contente, indo para minha aula com um sorriso bobo no rosto. Era bom ter uma nova amizade, principalmente para quem sempre preferiu ficar só.
Fiz meu caminho até a sala de Poções, me preparando mentalmente para o que o professor Slughorn havia preparado.
Mas, ao me aproximar da sala, ouvi barulhos suspeitos e xingamentos. Curiosa, segui na direção dos sons.
E então tudo se esclareceu: Lucius e Bellatrix discutiam com James e o amigo espalhafatoso. Os quatro trocavam ofensas, especialmente sobre linhagens de sangue puro.
Vi Lucius erguer a varinha, prestes a atacar James, que nem percebia. Antes que conjurasse algo, sussurrei “Densaugeo”, e os dentes da frente de Lucius começaram a crescer descontroladamente. Todos pararam na hora.
Bellatrix o encarou confusa e procurou ao redor o responsável. Escondi-me atrás de uma pilastra rapidamente.
James e seu amigo riam descontroladamente.
— Vamos, sua estúpida, me ajude! — esbravejou Lucius, com dificuldade de falar. Bellatrix o puxou pelo braço e os dois desapareceram.
Quando estavam longe, não resisti e soltei uma risadinha.
— Ei, quem fez isso? Já pode sair, eles já foram — disse James.
Dei um passo à frente, me revelando. Eles me olharam e depois se entreolharam, confusos.
— Jasmine?
— Olá — murmurei, acenando timidamente.
— Por que fez aquilo? — perguntou o amigo, sorrindo. — Foi incrível!
— Digamos que também tenho problemas com eles. E não achei justo Malfoy atacar James pelas costas. Uma luta precisa ser justa, não é?
— E você não podia perder a chance de ver o Malfoy parecendo um coelho, né? — disse James. Riram escandalosamente e se aproximaram de mim.
— Uau, você é oficialmente minha nova pessoa favorita de Hogwarts — disse James, apertando minha mão.
— Com certeza — disse o outro, apertando a outra. — Te devemos uma.
— Uma não. Várias — disse James, sorrindo. Eu, completamente vermelha, só consegui rir, um tanto quanto envergonhada, mas estranhamente feliz.
— Ah, e desculpa pelo que eu falei antes — disse o amigo, agora sincero. — Fui um idiota.
— Tudo bem — dei de ombros. — Mas agora você me deve uma azaração na Bellatrix quando puder.
— Combinado! — respondeu ele, animado.
James e seu amigo finalmente soltaram minhas mãos e eu respirei fundo, tentando fazer meu coração desacelerar. Eu não sabia exatamente o que estava acontecendo, mas... me sentia diferente. Aquela manhã começara com vergonha, solidão e um prato de purê meio frio. Agora, de alguma forma, eu havia defendido um Maroto, e sido aceita por dois deles.
Eles começaram a caminhar em direção à sala de Poções e, antes de entrarem, James virou-se para mim e disse:
— Vai se atrasar, Jasmine. E dessa vez a McGonagall não vai estar lá pra te perdoar.
Pisquei confusa por um segundo até perceber o que ele queria dizer. Claro, a aula que eu tinha agora não era Poções, era Adivinhação. Sorri meio culpada.
— É, acho que estou no lugar errado... de novo — murmurei, me virando no corredor.
— A gente se vê por aí, Jasmine Manfreid — disse ele com um meio sorriso, antes de desaparecer porta adentro com o amigo.
Fiquei parada por um momento, observando a porta se fechar atrás deles. Aquele era, sem dúvidas, o dia mais estranho e mais... animador que eu tivera em Hogwarts em muito tempo.
Endireitei os ombros, ajeitei a mochila e comecei a subir as escadas. Talvez, só talvez, aquele ano não fosse tão solitário quanto os anteriores.
Talvez, eu realmente estivesse começando a fazer parte de algo maior.
Juntei minhas coisas e as guardei em minha mochila, já me levantando e seguindo rapidamente em direção à porta, tentando evitar a multidão que também já se direcionava para ir embora. Por sorte, consegui ser uma das primeiras a sair.
Passei as mãos pelos meus cabelos e mordi os lábios de forma nervosa assim que fiz meus passos em direção à biblioteca. Por algum motivo desconhecido, de repente, eu me sentia nervosa em ir me encontrar com Lily. Apenas balancei a cabeça e tentei afastar essa sensação e outros pensamentos que me atormentavam.
No meio do caminho acabei encontrando Malfoy e seu grupo, e sorri comigo mesma ao me lembrar de mais cedo quando ele tinha seus dentes da frente tão grandes que quase se arrastavam pelo chão. Porém agora ele parecia melhor e também resmungava alguma coisa com os seus amigos idiotas, mas não parei para prestar atenção.
Continuei o meu caminho, mas assim que virei um dos corredores para chegar à biblioteca, acabei esbarrando em alguém fazendo com que nós dois caíssemos e esparramássemos todos os nossos livros pelo chão.
— Oh me desculpe — falei me sentindo constrangida enquanto juntava os meus pertences e os colocava em minha mochila.
— Não, tudo bem, eu que sou um desastrado e não olho pra onde ando — falou o garoto que havia trombado em mim de forma envergonhada.
Ergui os olhos e encontrei o garoto da cicatriz da aula de História da Magia. Remus Lupin, o monitor da Grifinória.
Nós dois nos olhamos por alguns segundos, ainda sem graça por termos nos esbarrados, mas ele apenas sorriu fraco e se levantou estendendo sua mão para me ajudar a me levantar também.
— Obrigada — falei me sentindo sem graça por conta de seu olhar misterioso e acabei direcionando meus olhos para meus pés.
— Você é a nova amiga da Lily, não é? — Ele perguntou de forma delicada e eu concordei ainda sem olhá-lo. — Sou Remus Lupin, muito prazer.
— Sei quem você é, temos algumas aulas juntos — falei balançando os ombros e ainda sem olhá-lo.
— É claro, e você é Jasmine Manfreid. – Abri um sorriso doce e eu enrubesci. – Hã, você, por acaso, está indo pra biblioteca? Lily está procurando por você. Última mesa da direita, na janela.
— Oh, muito obrigada — agradeci num aceno.
— Por nada – ele deu de ombros e sorriu. — Nos vemos por aí.
E saiu andando rumo sabe-se Morgana para onde.
Pisquei algumas vezes o olhando caminhar elegantemente e com seus livros embaixo dos braços antes de novamente fazer o meu caminho em direção à biblioteca que estava quase que deserta.
Assim que passei por alguns corredores indo em direção as mesas da janela, pude avistar Lily acenando e sorrindo abertamente para mim. Sorri de volta e apressei o passo para chegar até ela.
— Oi — falei largando as minhas coisas em um canto da mesa que tinha alguns pergaminhos dobrados e um pote tinta, o que indicava que Lily estava fazendo os seus deveres. — Acabei de encontrar um amigo seu quando eu vinha pra cá.
— Sério? — Ela pareceu surpresa por alguns segundos, mas em seguida sorriu e apoiou a cabeça em uma das mãos. — Ah, você deve estar falando do Remus.
— Isso. Ele me disse que você estava me procurando.
— Sim. Pensei que não viesse, já que você estava demorando tanto.
— Muitos alunos nos corredores — falei dando de ombros e já pegando os pedaços de pergaminho que eu tinha em minha bolsa, também muito disposta em adiantar os meus deveres que não paravam de se acumular.
Então logo nós duas nos encontrávamos submersas em nossas coisas. Lily fazia o que parecia ser o seu dever de poções enquanto eu fazia os resumos que o professor Binns havia pedido mais cedo.
Por incrível que pareça, não havia nenhum clima tenso entre nós duas e também trocávamos poucas palavras, não nos incomodando nenhum pouco com o silêncio confortável que havia se instalado entre nós duas.
Algum tempo já havia se passado e eu já terminava o dever de transfiguração quando duas garotas sorridentes e saltitantes se aproximaram da nossa mesa, chamando a nossa atenção e nos fazendo parar o que fazíamos. Pela expressão amigável de Lily, julguei que fossem suas amigas.
— Lily, você não quer vir ver o treino de Quadribol da Corvinal com a gente? — Perguntou uma delas, Dorcas, se não me falhava a memória.
— Hã, eu adoraria Dorcas — ela sorriu sem graça —, mas estou adiantando os meus deveres.
— Ah, deixe isso para mais tarde. Você tem o final de semana para fazer tudo isso — falou a outra fazendo uma careta ao ouvir a palavra “deveres”.
— Na verdade não terei tempo nesse final de semana. Vou a Hogsmead com Maria e com Jasmine — Lily falou e eu arqueei uma de minhas sobrancelhas. Desde quando iríamos juntas a Hogsmead? — Semana que vem eu vejo se consigo ir com vocês. Agora se nos dá licença, estamos tentando estudar.
As duas bufaram irritadas e saíram pisando duro para fora da biblioteca. Encarei Lily sem entender nada.
— Não ligue para elas — ela revirou os olhos. — Elas são legais e tudo mais, mas às vezes só sabem pensar e falar sobre garotos, isso me irrita.
Apenas suspirei e dei de ombros tornando a fazer as minhas coisas que estavam, finalmente, se dando por fim.
Mais uma meia hora passou até que eu já me via livre de tudo o que eu tinha de pendente para o resto da semana e também o que os professores haviam passado para a próxima.
A bruxa a minha frente parecia estar acabando as suas coisas também, então eu apenas encostei minha cabeça no vidro da janela ao meu lado e esperei pacientemente até que ela estivesse livre para podermos conversar mais um pouco.
Eis que então, pode-se ser ouvidos alguns barulhos altos demais considerados em uma biblioteca. E eu tinha sérias dúvidas de que era James e seus amigos que pareciam não saber controlar o seu entusiasmo em lugar algum.
— Olá Lily, lírio da minha vida.
De fato era James. Ele havia acabado de puxar uma cadeira para se sentar ao lado dela que bufou irritada e passou as mãos pelos cabelos cor de fogo. Acabei não segurando o riso ao me lembrar da cena de mais cedo, quando os dois se beijavam as escondidas.
— O que é que as madames estão fazendo? — Perguntou o seu amigo ao se sentar ao meu lado. — Não me vão dizer que estão fazendo dever na aula vaga da sexta-feira?
— Sim, algum problema Sirius? — Lily perguntou de forma indiferente.
— Nenhum, ruivinha — ele deu de ombros. — Só que isso é muito chato!
— Pelo menos elas fazem as coisas e não ficam pedindo para copiar dos amigos — falou outro garoto se sentando a mesa. Era Remus e ele sorria abertamente.
— Posso saber quem convidou vocês a se sentarem com a gente? — Perguntou Lily irritada.
— Ora essa! Pelo o que eu sei, a biblioteca é aberta para todos os alunos — falou Sirius com uma falsa irritação, pois o seu sorrisinho no canto dos lábios indicavam as suas reais intenções, que era incomodar Lílian.
Lily bufou irritada e molhou sua pena no tinteiro retornando a escrever em seu pergaminho como se seu colega de casa não estivesse ali. Eu precisava admitir que ela era muito boa nisso.
Sirius e James então começaram um assunto sobre Quadribol enquanto Remus olhava o que Lily fazia e eu apenas observava tudo no mais absoluto silêncio.
Era engraçado ver como James e Sirius ficavam animados ao conversarem sobre balaços e pomos de ouro. Isso me lembrava de meu pai e meus tios quando se renuem no Natal e conversam horas e horas sobre futebol.
Já Remus se concentrava na bela escrita de Lily, apesar de eu ter minhas dúvidas sobre o que realmente se passava em sua mente que aparentava ser muito conturbada.
— Então minha florzinha... — Sirius passou o seu braço incrivelmente grande ao redor de meus ombros e me puxou para perto de si, me fazendo despertar de meus devaneios. — Você por acaso viu o Malfoy?
— É você viu ele? Como estão os seus dentes? — Perguntou James risonho.
— Malfoy? O que tem o Malfoy? — Foi à vez de Remus perguntar. Lily e ele se entreolharam sem entender nada enquanto nós três ríamos aos nos lembrarmos do que havia acontecido mais cedo.
— Eu o encontrei enquanto vinha pra cá — comecei a falar e pude ver Sirius e James esticando seus pescoços para mais perto para ouvirem com clareza —, mas, infelizmente, ele já não parece mais um roedor.
Os dois então bufaram e jogaram seus troncos para trás, soltando um alto “ah” enquanto resmungavam coisas que eu não consegui decifrar.
— Mas do que é que vocês estão falando? — Perguntou Lily nos olhando desconfiados.
— Nada não, ruiva — Sirius sorriu de lado. — Segredo nosso.
— Desde quando você tem segredos com eles? — Ela me olhou sem entender nada. — Desde quando você é amiga deles?
— Desde que ela se tornou a melhor pessoa de Hogwarts — falou James sorrindo e erguendo sua mão para que eu batesse, e assim o fiz. — Yeah!
— Tudo bem, eu cheguei à conclusão de que vocês são muito estranhos — ela balançou a cabeça negativamente e eu apenas ri pelo nariz, realmente achando graça de tudo isso que estava acontecendo de forma tão natural que parecia que éramos todos amigos há anos.
Ficamos ali conversando por mais algum tempo. Quero dizer, eles ficaram conversando enquanto eu apenas ficava olhando. Não que eu estivesse me importando muito em só olhar, mas eu realmente preferia isso. Era divertido ver como eles se comportavam e como os seus olhos brilhavam a falar de determinado assunto ou como uma ruga surgia na testa de Remus quando algum assunto indelicado surgia e como Sirius gargalhava de forma escandalosa. Ou até mesmo como James resmungava quando surgia alguma piada interna deles.
— Está quase na hora do jantar — anunciou Remus olhando o que parecia ser um relógio de bolso. — O que acham de irmos indo? Esse horário costuma ser bastante movimentado pelos corredores.
Todos nós concordamos.
Lily e eu guardamos as nossas coisas e seguimos lado a lado enquanto os garotos estavam um pouco atrás e brincavam entre si.
— Pode sentar com a gente se você quiser — Lily falou sorrindo solidária quando paramos na porta do salão.
Mordi o lábio indecisa. Olhei para a mesa da Sonserina que já tinha alguns alunos sentados conversando entre si e em seguida direcionei meus olhos para a mesa da Grifinória que aparentava estar mais cheia e mais animada também.
— Se não tiver nenhum problema... — falei encolhendo os ombros me sentindo um pouco constrangida.
— Não tem nenhum problema, florzinha — Sirius brotou ao meu lado sorrindo galanteador pegando em minha mão e me guiando para um dos cantos da mesa da sua casa. Pude ouvir Lily bufar baixinho, provavelmente irritada com o amigo que parecia fazer questão de me “roubar” dela.
Sentamo-nos então eu, Lily e Sirius de um lado, e James, Remus e o quarto membro dos Marotos, Peter, do outro lado.
Senti alguns olhares feios de alguns alunos da Grifinória e encolhi os ombros quase que instantaneamente, querendo me tornar invisível e sair dali.
— Ei, não se preocupa com eles — falou James ao perceber o meu desconforto. — Eles são uns idiotas.
— É eles só estão com inveja porque você agora é amiga do melhor grupo da escola! — Exclamou Sirius se exaltando e eu ri fraco de sua interpretação.
Lily sorriu encorajadora para mim e eu apenas suspirei profundamente e sorri de volta, me deixando levar pelo ótimo momento que eu estava tendo com essas novas pessoas que eu poderia chamar de amigos.
Encarei minha taça de suco enquanto refletia sobre a palavra “amigos” e tentava contar quantos eu já havia feito desde o primeiro ano, sem conseguir muitos resultados antes de me juntar com esse pessoal que parecia ter me acolhido realmente de braços abertos. Não pude evitar de abrir um sorriso pequeno com o pensamento.
— Pensando na morte do Hipogrifo, lindinha? — Sirius perguntou me cutucando na cintura, me fazendo cócegas.
— Para — falei rindo quando ele começou realmente com uma torturante sessão de cócegas, agora que ele havia descoberto o meu ponto fraco, ele parecia não querer parar tão cedo. — Por Merlin, pare! Socorro!
Os meus novos amigos riam da cena enquanto eu tentava me desvencilhar de Sirius que gargalhava. Só quando lágrimas escorriam pelos cantos dos meus olhos ele parou, mas ainda ria.
— Deveria sorrir mais, florzinha — ele comentou ainda sorridente. — Fica linda.
Senti minhas bochechas esquentando e agradeci timidamente pelo elogio.
Logo o jantar foi servido e nós continuamos juntos por mais algum tempo.
Depois do jantar, continuamos sentados por algum tempo, rindo de histórias antigas dos Marotos e cochichos de Sirius que me arrancavam risadas vergonhosas. Era uma sensação estranha, como se eu estivesse invadindo um grupo que já existia há anos… mas, ao mesmo tempo, como se uma parte de mim sempre pertencesse àquele lugar.
Em certo momento, Remus se inclinou por sobre a mesa e perguntou calmamente:
— Você gostou de passar o dia com a gente?
Olhei para ele, para os olhos amáveis e cansados, como se escondessem segredos antigos demais para alguém tão jovem.
— Sim… muito — respondi com sinceridade. — Foi diferente de tudo.
Ele sorriu, e por um instante, algo entre nós dois pareceu vibrar de forma silenciosa. Mas antes que eu pudesse processar aquilo, Sirius se inclinou novamente sobre mim e sussurrou:
— Se quiser, amanhã podemos fazer algo mais divertido do que deveres e biblioteca.
Revirei os olhos com um sorriso nos lábios, mas meu coração bateu estranho. Entre os dois... algo me dizia que as próximas semanas seriam mais complicadas do que eu esperava.
O sentimento confortante de não ter nada para fazer, poder dormir até a hora que eu quisesse e não ter ninguém para me atormentar, já que todos gostavam de sumir nos passeios a Hogsmead, era, sem dúvidas, uma das melhores sensações da vida.
Mas hoje o dia prometia ser diferente.
Pela primeira vez em um bom tempo, eu não ficaria o dia inteiro no dormitório apenas descansando e sem nada para fazer, pois havia prometido à Lily que passearia com ela à tarde. Iríamos nós duas e mais uma amiga dela, que aparentava ser muito legal.
Já era quase hora do almoço quando finalmente tomei coragem para me levantar da cama e ir ao encontro de Evans, que disse que estaria me esperando na mesa da Grifinória.
Mas eu não poderia ir com as vestes da Sonserina, por mais que as achasse extremamente confortáveis. Passeios em Hogsmead pediam roupas trouxas que nos lembrassem de que nem tudo era escola e deveres. Por isso, logo escolhi uma roupa que me deixava confortável e, ao mesmo tempo, fazia com que eu me sentisse minimamente bonita.
Assim que estava pronta, saí do dormitório e segui para fora da sala comunal, que se encontrava praticamente vazia, como quase todos os fins de semana, e fui em direção ao Grande Salão, onde Lily provavelmente já me esperava.
Assim que passei pelas portas, pude avistar Evans sorrindo e acenando para mim. Sorri de volta e me dirigi até a mesa da Grifinória, que parecia mais vazia do que o normal.
— Bom dia — falei sem graça ao me sentar ao lado de Lily.
Ela sorriu abertamente após me olhar atentamente.
— Uau, você está linda, Jasmine — falou surpresa, provavelmente sem esperar me ver sem o uniforme.
Franzi o cenho e olhei para mim mesma, tentando entender o motivo de tanta surpresa.
— São só roupas trouxas — dei de ombros. — Nada demais.
— Eu sei. É que você fica melhor assim do que com as vestes da Sonserina — ela deu de ombros e voltou a comer, tomando em seguida seu suco de abóbora. Eu apenas a encarei com uma sobrancelha arqueada, mas não disse nada, apenas comecei a me servir. Meu estômago clamava por comida, já que eu havia perdido o café da manhã por ter dormido demais.
Lily e eu comemos em silêncio, como vínhamos fazendo desde ontem, e como costumávamos fazer sempre que estávamos juntas. Nossa amizade não precisava sobreviver de conversas, e isso me agradava bastante, pois nunca fui muito falante.
O silêncio foi quebrado quando nós duas já estávamos terminando nossas refeições. Uma garota baixinha e gordinha se sentou à nossa frente com um enorme sorriso no rosto.
— Olá, lindas — ela falou de forma simpática, e eu apenas sorri sem mostrar os dentes, pois estava com a boca cheia.
— Oh, olá, Maria — Lily pareceu se alegrar ainda mais, e eu alarguei o sorriso ao perceber que ela seria nossa companhia em Hogsmead. — Maria, essa é minha amiga, Jasmine.
— Muito prazer, Jazz — ela estendeu a mão por cima da mesa e eu a apertei de bom grado. — Posso te chamar de Jazz?
— Prazer, Maria. É claro, sem problema algum — falei, sorrindo de forma sincera.
Lily e eu terminamos de comer enquanto Maria nos aguardava pacientemente, apenas nos observando e sempre com os lábios curvados num grande sorriso. Eu já me encontrava bastante animada em passar a tarde com as duas.
Finalmente estávamos prontas para sair, e eu sentia como se meu coração fosse saltar do peito a qualquer momento. A ansiedade me dominava, e um grande sorriso estava estampado no meu rosto, demonstrando toda a minha alegria.
— O que acham de irmos primeiro à Zonko’s? — perguntou Maria, assim que passamos pelos portões principais, já fora do castelo. Arrepiei-me inteira ao sentir o vento frio bater em meu rosto, fazendo meus cabelos voarem para trás.
— Por mim, tudo bem. E você, Jazz? — perguntou Lily e eu gostei como meu novo apelido soou em sua boca. Concordei com um aceno de cabeça.
Seguimos lado a lado, enquanto Lily e Maria conversavam animadamente sobre algo que eu não fazia ideia, mas que parecia interessante, já que as duas soltavam risadinhas e davam pequenos pulos de empolgação. Eu, como de costume, apenas observava tudo. Notei que muitos alunos de Hogwarts caminhavam ao nosso redor e pareciam tão ou mais animados do que nós.
— Você é prima do Carl, né? Aquele bonitão da Corvinal? — perguntou Maria de repente, e eu não pude deixar de rir com seu comentário.
— Sim, somos primos — respondi com um meio sorriso, e ela soltou uma risadinha apaixonada.
— Uma pena que seja o último ano dele — comentou, despreocupada. — Vai ser difícil não ver mais aquela boniteza desfilando pelos corredores com aquele cabelo maravilhoso.
Lily e eu nos entreolhamos e caímos na gargalhada ao ver a feição sonhadora de Maria.
Continuamos andando, cada vez mais próximas de Hogsmead. lugar que eu havia visitado apenas uma vez, no terceiro ano, quando decidi ir sozinha. Foi horrível, se você quer saber. Não é divertido ficar sentada num banco, chupando um pirulito, enquanto todos ao redor se divertem.
— Quanta gente! — exclamou Lily, surpresa, assim que chegamos. — Estranho... quando começa a esfriar, geralmente os alunos ficam nos dormitórios.
— Pois eu acho melhor assim, se querem saber — disse Maria, encarando fixamente um garoto que eu nunca tinha visto. — Assim podemos ver melhor as pessoas.
— Ela é sempre assim? — perguntei num sussurro para Lily, que apenas riu baixinho e assentiu.
Resolvemos entrar na Zonko’s, o lugar preferido de Maria de acordo com suas próprias palavras.
Maria e Lily compraram diversas coisas enquanto eu apenas fiquei parada perto da porta. Não estava com vontade de gastar meu dinheiro com guloseimas.
— Não quer nem uma balinha? — perguntou Maria assim que saímos. Ri ao ver seus braços cheios de doces. Apenas balancei a cabeça negativamente, e ela deu de ombros, sem se importar muito.
Andamos mais um pouco e decidimos nos sentar em um dos bancos vazios espalhados por ali. Percebi que Lily mantinha o olhar atento às pessoas que passavam, como se estivesse à procura de alguém. James Potter.
Foi então que o vi: seus olhos castanho-esverdeados do outro lado da rua, também vasculhando a multidão. Sorri de forma significativa ao notar que ele percebeu meu olhar. Ele sorriu de volta, ergueu um polegar e veio em nossa direção, acompanhado por Remus e Peter, cuja presença eu sequer havia notado até então.
— Mas o que três moças bonitas estão fazendo sentadas sozinhas nessa tarde maravilhosa de pré-inverno? — perguntou James, com um grande sorriso.
— Apreciando a vista, Potter — respondeu Lily, com indiferença. Mas, no fundo, referia-se a ele mesmo, já que não desviava os olhos de James. E o sorriso dele só aumentou. — Agora, se me dão licença, vou procurar um banheiro — completou ela, se levantando e caminhando como se nada tivesse acontecido.
Todos nós nos entreolhamos e, em seguida, olhamos para James, que parecia tentar disfarçar, mas seus olhos pediam permissão para segui-la.
— Vai logo, Pontas. Você sabe como ela odeia esperar — disse Remus, empurrando-o levemente pelos ombros.
— Prometem que não vão contar pra ninguém? — perguntou James, risonho. Tudo o que recebeu foram olhos revirando e pedidos para que fosse logo.
Ri ao vê-lo praticamente correr atrás de Evans e fui acompanhada por Remus, que agora se sentava ao meu lado.
— Por que eles não se assumem logo? — perguntei, olhando o garoto ao meu lado, que me encarou por alguns segundos.
— Você não sabe da rixa que existia entre os dois? — perguntou surpreso, e eu neguei com a cabeça. — James sempre foi apaixonado pela Lily, mas era muito travesso. E Lily... bem, você sabe que ela gosta de tudo certinho. No início, até conversavam, mas depois que ela se aproximou do Snape e James começou a azará-lo, os dois brigaram feio. Toda vez que James tentava se aproximar, ela o afastava aos berros.
— Espera... a Lily andava com o Severo? — perguntei, visivelmente surpresa, e ele assentiu. — Uau. Que coisa mais estranha de imaginar. Quer dizer... É o Snape.
— Nem me fale — suspirou ele. — Mas depois que ele a chamou de sangue-ruim, os dois cortaram relações. Só então James conseguiu se aproximar dela de novo.
Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando processar o que acabara de ouvir. Meu estômago se revirou ao imaginar Lily e Snape juntos. Era uma visão difícil de engolir.
— Mas ainda bem que estão se acertando — comentei, e Remus concordou. — Fazem um casal muito bonito.
— E é bom para os meus ouvidos também. Assim não preciso mais ouvir o James lamentando porque a Lily não dava bola pra ele — disse, rindo.
Então o silêncio se instalou entre nós dois. Muito ao contrário de Maria e Peter que engatavam em um assunto animado.
Suspirei e coloquei uma mecha de meu cabelo que caía em meus olhos atrás da minha orelha enquanto avaliava as pessoas que passavam por nós, tentando reconhecer alguém, mas eu não fazia ideia de quem era à maioria de todos aqueles alunos. Reconheci apenas alguns lufanos que conversavam comigo de vez enquanto e poucos sonserinos.
Até que eu avistei uma cabeleira negra e cacheada que chamou a minha atenção, mas o que mais me intrigava era a garota que estava ao seu lado e quase o engolia.
— Aquele é o Sirius? — Perguntei apontando para o garoto que ainda não partira o beijo.
— É sim — respondeu-me Remus torcendo o nariz ao ver a cena desagradável. — E eu não faço ideia de quem é a garota. Na verdade, eu nem sabia que ele viria. Deve ter arrumado alguém de última hora.
Franzi o cenho e me peguei encarando a cena por tempo demais. Tentei me convencer que apenas tentava reconhecer a garota, mas eu sabia que era mais do que isso.
Porém, logo tratei de desviar o meu olhar e voltei a minha atenção para Remus que me olhava, mas não parecia me enxergar, pois parecia afundado em seus pensamentos que aparentavam ser tão intensos que até eu conseguia senti-los perturbando-o.
— E você Lupin, não veio com ninguém? — Perguntei tentando puxar algum assunto. Ele arregalou os olhos e seu rosto se tornou um perfeito pimentão. — Eu falei alguma coisa errada?
— Não, não, imagina. — Balançou a cabeça negativamente três vezes. — É que as garotas não parecem ter uma queda por mim, não que nem o Sirius ou o James. Eu meio que sou o invisível do grupo, sabe? Não acho que sou muito interessante.
Arqueei as sobrancelhas ao ouvi-lo admitir isso e pela primeira vez eu reparei nele de verdade.
Apesar da grande cicatriz que estampava o seu rosto ele não era feio. Não, nenhum pouquinho. Tinha os cabelos castanhos claros que lhe caíam nos olhos, num indicativo que ele não os cortava fazia algum tempo e os olhos de cor âmbar tão calmos e tão agressivos ao mesmo tempo em que me intrigava de uma forma quase que surreal. Ele parecia estar sempre em paz, pois sempre tinha um sorriso no rosto, mesmo que fosse mínimo, além de suas mãos estarem em constante movimento, num ato contínuo de nervosismo, ora estavam cruzadas, ora ele as levava até a boca e em seguida arrumava os cabelos. Ele era o tipo do garoto que qualquer garota se derreteria e eu não conseguia entender o porquê de as garotas não se interessarem por ele.
— Então essas garotas não sabem o que estão perdendo, porque eu acho você muito interessante — soltei o que eu pensava sem olhá-lo e arregalei os olhos após alguns segundos ao perceber o que eu havia falado.
Olhei-o e vi que ele sorria de forma tímida para mim e eu retribui da mesma forma.
Só cortamos a troca de olhares quando Maria, que eu já havia esquecido completamente sua existência ali conosco, soltou um gritinho animado e se levantou e saiu correndo em direção de um pequeno aglomerado de pessoas que havia se formado rapidamente logo a nossa frente. Ela logo foi seguida pelo outro garoto que também estava ali.
Remus e eu nos entreolhamos sem entender nada, mas imitamos os dois e nos aproximamos da confusão que acontecia ali.
Com um pouco de dificuldade consegui achar uma brecha e me enfiei no meio de todo mundo, tentando ver o que acontecia, uma vez que eu era pequena e as outras pessoas não.
E assim que eu percebi o acontecido, não pude deixar de abrir a boca num ato de surpresa e alegria.
No meio da roda estavam James e Lily, e Potter segurava o que parecia ser um colar e tinha um sorriso tão grande que parecia que rasgaria as suas bochechas a qualquer momento. E Lily não ficava para trás, soltou uma expressão alta e clara de felicidade e se jogou nos braços de James com tanta voracidade que os dois quase caíram.
Os dois então deram um digno beijo de cinema que foi aplaudido e comemorado por todos ali. James havia acabado de pedir Lily oficialmente em namoro.
— Aleluia, meu Merlin! — Uma voz muito conhecida gritou ao meu lado e eu me virei para comemorar com Sirius que parecia tão animado quanto o mais novo casal. — Olá florzinha.
— Aleluia mesmo — Remus apareceu do meu outro lado e os amigos gargalharam em conjunto e fizeram uma dancinha estranha compartilhada, me fazendo rir.
— Eu nem acredito que vivi para ver Lily dizer que sim para James, quer dizer, publicamente, no caso, porque a gente já sabia o que rolava pelos corredores, né? — comentou Sirius sorridente e Remus concordou.
— Uma cena e tanto! – Remus concluiu.
Aos poucos as pessoas foram se dispersando e nós três pudemos, finalmente, nos aproximar do mais novo casal para parabenizá-los, apesar de Remus e eu já sabermos que os dois se pegavam as escondidas.
— Parabéns, Pontas! — Sirius se pendurou no pescoço de James que agradeceu e o abraçou com um de seus braços já que o outro estava ao redor da cintura de Lily.
— Parabéns para os dois — falei sorrindo e os dois agradeceram.
— Felicidades ao novo casal — felicitou Remus.
— Só vê se não me troca, viu seu veado — Sirius agora olhava para o amigo com os olhos semicerrados tentando parecer ameaçador, mas que não convenciam ninguém.
— Eu já falei que é cervo, Sirius! — James protestou e os três que sobraram riram, me deixando um tanto quanto perdida em relação à piada interna deles. Eu apenas sorri fraco tentando me enturmar apesar de não entender absolutamente nada.
— Você sabe que eu não me importo — Sirius estalou a língua no céu da boca deu de ombros. — O que acham de uma cerveja amanteigada?
E assim fomos para o Três Vassouras.
Lily, James e Sirius foram à frente enquanto Remus e eu caminhávamos lado a lado e conversávamos animadamente sobre alguns livros em comum que já tínhamos lidos.
Suspirei aliviada ao entrarmos no ambiente quente e aconchegante, além de estar bem menos cheio e calmo também.
Seguimos para uma das mesas do canto onde Remus, Sirius e eu nos sentamos de frente para o mais novo casal que parecia não querer se desgrudar um segundo sequer, pois James tinha o seu braço ao redor do corpo de Lily que sorria abertamente como eu jamais havia visto e volta e meia deitava sua cabeça no peito dele. Eu não conseguia deixar de sorrir para os dois.
Fizemos os nossos pedidos e enquanto esperávamos tornamos a conversar. Rapidamente a atenção foi para Sirius que parecia ter abandonado a sua companhia, o que havia deixado todos muito curiosos.
— Quem era a garota da vez, Almofadinhas? — Perguntou James interessado. Sirius apenas balançou os ombros de leve e estalou a língua encostando suas costas no escoro da cadeira.
— Abigail Lopez — respondeu tranquilo e cruzou as pernas embaixo da mesa e os braços atrás da cabeça. — Corvina do sétimo ano. Nada demais.
— Já conseguiu iludir a garota? — Remus parecia realmente ácido com a sua pergunta. Estava claro que ele não aprovava as atitudes do amigo que parecia não se importar nenhum pouco com que o pensavam sobre si.
— Não é como se ela não quisesse só se divertir também — sua despreocupação me deixava um pouco desconfortável. Como ele conseguia não se importar desse jeito? E como as garotas ainda sim caíam aos seus pés mesmo sabendo de sua má fama? Isso era uma coisa que eu jamais teria uma resposta plausível. — Mas é coisa rápida. Ela mesma me disse que só queria se distrair porque terminou com o namorado, é muito provável que semana que vem os dois já estejam juntos de novo.
Então todos nós suspiramos sem saber o que dizer sobre isso. O silêncio reinou entre nós até que nossas cervejas amanteigadas chegaram e nós nos ocupamos demais em apreciar a bebida.
— Você tá com bigode — falou Remus, rindo levemente, e eu franzi o cenho, me sentindo muito envergonhada.
Tentei pegar um guardanapo para e limpar, mas Lupin foi mais ágil do que eu.
— Deixa que eu limpo — disse ele, puxando a manga do casaco e passando suavemente sobre a minha boca.
Senti meu rosto se tornar um verdadeiro tomate por conta do gesto carinhoso e também pelos risos e piadinhas maldosas que nossos amigos faziam.
— Só não vai babar na garota, Aluado! — exclamou James, risonho. Nós dois olhamos para baixo, ainda muito constrangidos. Ainda não tínhamos essa intimidade toda para nos sentirmos à vontade em situações assim, por mais que a ideia de ser próxima dele me parecesse cada vez mais tentadora.
— Deixe os dois, Jay — Lily ralhou, dando-lhe um tapa no ombro. — Não está vendo que estão envergonhados?
Esse comentário apenas fez com que James risse ainda mais.
— É, seu idiota, deixe os dois — disse Sirius, com um tom de voz que eu nunca havia ouvido antes, e provavelmente nem seus amigos, já que todos o olharam com certa surpresa.
Ele nos olhou, como se nem entendesse o que havia acabado de dizer, e deu de ombros, tomando mais um gole de sua bebida.
— Cara, vocês são muito estranhos.
— E é por isso que você é nosso amigo, Black — justificou James, sorrindo abertamente. Os dois trocaram um toque esquisito por cima da mesa.
— Com certeza! — Sirius sorriu e me lançou uma piscadela. Apenas retribuí com um sorriso fraco.
— A gente não brindou — falou Remus, de repente, e todos nós o olhamos, confusos.
— Pelo namoro do James e da Lily — ele explicou.
— Ah, é mesmo! — Sirius deu um tapa na própria testa, fingindo frustração, mas logo ergueu o copo pela metade, incentivando todos a fazerem o mesmo. — Um brinde ao melhor casal de Hogwarts! Por enquanto, lógico. Até o Aluado começar a namorar e então, bom… não vai existir casal mais fofo do que ele e sua namorada igualmente nerd!
— Ei! Nós somos fofos, sim, tá?! — protestou James, roubando mais um beijo de Lily, que sorriu, um pouco sem jeito.
— Cala a boca — disse Remus, rindo, e também ergueu o copo, sendo seguido por todos nós. — A James e Lily!
— A James e Lily! — repetimos juntos, brindando com entusiasmo. Um pouco de cerveja acabou voando e respingando em todos, inclusive em mim, melecando minhas mãos.
Soltei um muxoxo irritado e procurei onde limpar a mão. Sirius então segurou meu pulso e esfregou minha mão em seu próprio casaco, sem o menor remorso, deixando a meleca lá mesmo.
Olhei para ele como se fosse maluco, e ele apenas sorriu genuinamente antes de me mandar um beijo no ar, me deixando estática por alguns segundos. Talvez ele tivesse uns parafusos soltos, mas confesso que não consegui conter um sorrisinho.
O tempo passou mais rápido do que eu queria. Aos poucos, o dia foi escurecendo e fomos obrigados a sair do ambiente quente e acolhedor para voltar ao castelo. Lá fora, o vento era cortante, típico do pré-inverno, e cada rajada parecia zombar da nossa felicidade. Mas nada disso importava de verdade.
O dia havia sido não só proveitoso, mas também mágico. E no fundo, eu mal podia esperar pelo próximo passeio a Hogsmead, com aquela sensação boa ainda viva no peito, como se algo grandioso estivesse por vir. Algo que eu ainda não sabia nomear… Mas que, de alguma forma, me transformava.
Em todas as refeições, eu me sentava com Lily e os Marotos. Ela e eu também passávamos bastante tempo na biblioteca, adiantando nossos trabalhos, e eu até mesmo matava aula para passear com os garotos.
Mas, infelizmente, o fim de semana já havia acabado, e as aulas retornavam acompanhadas de um frio que parecia ter se adiantado naquele ano, congelando quase até os ossos.
Eu acabara de sair da penúltima aula do dia, que era Poções, quando encontrei James saindo de Transfiguração, e seguimos juntos para Defesa Contra as Artes das Trevas, já que a aula era conjunta com a Grifinória.
— Acho que essa é uma das minhas aulas favoritas — comentou James, enquanto caminhávamos lado a lado pelo meio da multidão de alunos que se apressavam pelos corredores.
— Você quer ser auror, James? — perguntei, deduzindo, e me senti realmente curiosa. Ele assentiu, com um enorme sorriso estampado no rosto.
— É o meu sonho! — falou com ar sonhador. — Na verdade, é o meu segundo sonho. Só perde para o de me casar com a Lily e ter seis filhos.
— Seis filhos? — perguntei, surpresa.
— É, assim terei meu próprio time de Quadribol! — se exibiu, estufando o peito. Eu ri e empurrei de leve seu ombro.
— Não ria, estou falando sério.
Ergui as mãos em rendição, ainda rindo. Seguimos em frente até finalmente chegarmos à sala, que já tinha um bom número de alunos aguardando o início da aula.
— E você? — retomou o assunto ao entrarmos. — Vai ser auror também?
— Não sei — respondi, dando de ombros. — Na verdade, nem sei se seguirei alguma profissão bruxa. Meus avós têm uma alfaiataria, e eu... bem, eu gosto de costurar.
James parou o que estava fazendo e me encarou visivelmente surpreso, mas com um sorriso sincero de apoio.
— Ótimo! — exclamou animado, abrindo os braços. — Assim já temos alguém para fazer o vestido da Lily e o meu terno pro nosso casamento.
Ri. Como sempre fazia em sua companhia. Era curioso como ele conseguia essa proeza, afinal, até então, eu sempre fora muito fechada e tímida. Raramente sorria ou socializava com outras pessoas. E tudo isso mudara tão rápido.
Apesar da sala estar cheia, nossos amigos ainda não tinham chegado. James e eu sentamos juntos e ficamos conversando amenidades enquanto esperávamos.
— Então quer dizer que seu pai é jogador de futebol? — perguntou ele, quando mencionei que era mestiça e que a parte trouxa da minha família era a paterna. Acenei afirmativamente. — Que incrível! Mas ele joga em qual posição?
— Meio-campo — respondi, percebendo a confusão no rosto dele. — Veja, futebol é um pouco diferente do que você está acostumado, então as posições podem ser um pouco confusas.
Ele soltou um “ah” e balançou a cabeça, como se estivesse tentando imaginar um jogo de futebol.
— Se quiser, posso te levar para assistir a um jogo de verão — convidei, um pouco sem graça, sem querer parecer atirada. — Nas férias os jogos aumentam bastante, e meu pai sempre consegue ingressos de graça.
— Sério?! — ele pulou animado no banco. — Mas é claro que eu quero! Posso levar o Sirius também? Aquele cachorro mora comigo e não se desgruda de mim nas férias.
— Claro — falei rindo, mas me perguntando o porquê de Sirius morar com James, já que não eram parentes. Decidi que perguntaria mais tarde. — Podemos levar Lily e Remus também. Meus pais adoram uma bagunça, então, quanto mais gente, melhor.
James vibrou no lugar, parecendo prestes a explodir de alegria. Sorriu abertamente e me abraçou tão apertado que quase me senti sufocada em seus braços fortes e no seu peito fofo. Ele parecia um ursão.
— Já está traindo a Lily? Mas você é um cretino mesmo! — fomos interrompidos por uma voz forçadamente indignada ao nosso lado. Soltamo-nos e vimos Sirius sorrindo maroto para nós.
— Não é nada disso que você está pensando — tentei me justificar, mas ele apenas gargalhou.
— Fique tranquila, florzinha — disse despreocupado, puxando um banco para se sentar conosco. — Se um dia o James beijar outra boca que não seja a da Lily, pode ter certeza de que está enfeitiçado.
— Ou louco — completou Remus, chegando e sentando-se ao nosso lado. — Olá a todos.
Respondemos um "oi" em uníssono, e antes que retomássemos a conversa, Lily chegou. Estava ofegante, os cabelos bagunçados, provavelmente correra para chegar a tempo. Pelo menos conseguiu.
— Cheguei — falou, tentando ajeitar os fios ruivos com as mãos. — Por favor, me digam que a aula ainda não começou.
— Está vendo o professor em algum lugar? — perguntou Sirius, olhando em volta. Tudo o que recebeu foi um cascudo de James por ser rude. Mordi os lábios para conter o riso, mas uma risada escapou pelo canto da boca. — Ai, seu agressivo! Sabe o que é isso? Falta de uns amassos bem dados. Evans, você precisa urgentemente dar um jeito nesse veado!
James chegou a abrir a boca para retrucar, mas foi interrompido pela chegada do professor, com sua habitual entrada dramática: capa preta esvoaçante, balançando para todos os lados, arrancando risadas e comentários da turma.
Todos os alunos rapidamente se organizaram. James permaneceu ao meu lado, enquanto Lily e Remus sentaram-se na mesa ao lado, e Sirius se juntou a Peter.
— Boa tarde a todos — cumprimentou o professor, afastando o quadro negro e sua mesa. Os alunos o observavam com curiosidade, já que ele costumava trazer atividades inusitadas. — Hoje, vamos praticar alguns feitiços de defesa com duelos. O que acham?
O silêncio foi rapidamente substituído por exclamações animadas, exceto por mim. Permaneci encolhida, sem dizer uma palavra. Duelos me causavam nervosismo. A emoção era empolgante, sim, mas o medo de me machucar (ou ferir alguém) era maior. Nos grupos clandestinos da escola, eu era apenas espectadora. Como em quase tudo.
James percebeu meu desconforto, tocou meu braço e me olhou preocupado. Tentei sorrir, mas só consegui fazer uma careta estranha.
— Ei, está tudo bem? — sussurrou.
— Sim — respondi rapidamente. — Tudo certo. Não se preocupe.
Ele pareceu não acreditar, mas não insistiu. Voltou a atenção ao professor, que agora escolhia as duplas. Iríamos trocar de parceiro a cada rodada, e eu torcia para não cair com Malfoy ou Bellatrix.
— Ah, Manfreid — assustei-me com o professor parado ao meu lado, sorrindo amplamente. Ele conhecia meu potencial e sempre me encorajava. — Vamos descobrir o que você tem guardado aí hoje, hein?
Senti minhas bochechas esquentarem. Todos os olhares estavam sobre mim enquanto o professor arqueava as sobrancelhas num gesto provocativo.
— Para começar... — ele olhou ao redor procurando um oponente. — Que tal Lucius Malfoy? Acho que é uma briga justa.
Arregalei os olhos e quase toda a sala também.
— Vamos começar com vocês dois mesmo — anunciou, com um sorriso maquiavélico. Com um aceno de varinha, as carteiras foram empurradas para os cantos, abrindo espaço no centro da sala. — Regras: feitiços ditos, respeito acima de tudo e, principalmente, jogo limpo.
Engoli seco ao empunhar minha varinha, encarando Lucius. Ele estalou os dedos e torceu o pescoço, tentando me intimidar. Quase ri da sua tentativa patética.
— Preparada para ser humilhada, Manfreid? — disse, com seu habitual tom de superioridade.
— Sabe, Malfoy, pra quem fala tanto... não vejo muita ação — falei sem nem pensar, pois suas provocações me irritavam mais do que tudo. Alguns “ooooh” ecoaram pela sala. Vi seu rosto avermelhar de raiva.
— Ora, sua sanguezinha ruim — cuspiu. Mas antes que ele erguesse a varinha, fui mais rápida:
— Everte Statum!
O feitiço o atingiu em cheio, e ele saiu rolando descontrolado pelo chão. Após alguns segundos de cambalhotas, murmurei “finite”, encerrando a magia. Não pude deixar de sorrir para mim mesma ao vê-lo praticamente espumando de raiva. Aos poucos, o nervosismo começava a se dissipar pela adrenalina do duelo.
— Locomotor Mortis! — ele gritou, e, antes que eu me esquivasse, minhas pernas estavam coladas. Mal conseguia me mover.
Mesmo assim, sorri. Ainda tinha as mãos livres.
— Stupefy! — exclamei, e ele ficou visivelmente atordoado. Seus movimentos estavam lentos. Achei que ele não conseguiria reagir...
Mas conseguiu.
— Flagrate! — Um chicote de fogo saiu de sua varinha e atingiu meu braço. O tecido rasgou, deixando uma queimadura horrível que me fez gritar. Ele sorriu.
Funguei e olhei a ferida ardente em meu braço. O professor imediatamente correu até Malfoy, furioso, interrompendo o duelo. Talvez ele acabasse detido.
Antes que eu chorasse pela dor e humilhação, fui cercada pelos meus amigos, todos falando ao mesmo tempo. Sirius estava irado, prometendo espancar Malfoy. James e Lily tentavam me acalmar. Remus, com sua varinha, examinava meu braço cuidadosamente.
— Pessoal, eu estou bem — falei, me sentindo sufocada com tanta atenção.
— Eu juro que vou esfregar aquela cara feia dele no campo de Quadribol tão forte que ele vai engolir toda aquela grama e... — Sirius ainda resmungava e só parou quando a mão do professor o puxou pelo ombro para trás e ficou de frente para mim.
— Você está bem, Manfreid? — Ele parecia realmente preocupado e eu assenti num curto aceno de cabeça.
— Estou, professor. O Remus usou um feitiço para parar o sangramento — tentei tranquilizá-lo, mas sua expressão ainda não era nada boa.
— Mesmo assim, Jasmine, peço para que vá até a enfermaria se certificar de que está tudo certo, sim? – Segurou uma de minhas mãos nas suas e eu concordei mais uma vez. — Bom, dado aos fatos, infelizmente serei obrigado a tirar quinze pontos da Sonserina e o senhor Malfoy está de detenção até aprender a ter boas maneiras e saber se portar de maneira justa em um duelo.
Estiquei o pescoço a procura do Malfoy e o encontrei sentado e encostado na parede com a respiração ofegante. Seus olhos me encaravam tão fixamente que quase soltavam as faíscas do feitiço que havia acertado o meu braço. Rapidamente mudei o meu olhar do seu e engoli o seco, me sentindo um tanto quanto acuada.
Para a tristeza da maioria, o professor cancelou o restante da aula de duelos e nos encheu com uma pilha de deveres para a próxima aula. A decepção em seu rosto era um tanto quanto visível e eu me encolhia a cada novo olhar que recebia dos meus colegas.
Por sorte, Lily não demorou a me agarrar pelo braço e pediu licença, dizendo que me levaria para a enfermaria, como o professor mesmo havia solicitado.
Durante nosso caminho, tudo o que eu conseguia pensar era nos grandes olhos de Malfoy me encarando e um grande arrepio percorreu pela minha espinha.
A ida até a enfermaria foi praticamente em vão. Madame Pomfrey foi categórica ao afirmar que eu tivera sorte por Remus estar por perto, pois segundo ela, ele fizera um ótimo trabalho. Ou seja, ela não tinha muito o que fazer além de me receitar uma de suas poções amargas e nojentas, só para garantir que eu ficaria bem.
Após me forçar a beber o líquido espesso e de gosto insuportável, ela nos para nossos próximos compromissos. Que, até então, eram... nenhum.
Acabamos reencontrando os garotos no corredor e decidimos caminhar até o campo de Quadribol, onde o time da Lufa-Lufa treinava com entusiasmo, suas vassouras cortando o ar sob os balaços velozes.
Lily nos deixou alguns minutos depois, alegando ter deveres para adiantar e, segundo ela, não se sentia disposta a assistir ao treino. Ninguém tentou convencê-la do contrário.
Sirius e James se sentaram no banco abaixo de onde Remus e eu estávamos, comentando a cada jogada dos lufanos. Era divertido assistir aos dois se exaltando, principalmente Sirius, que ficava possesso cada vez que alguém fazia um passe melhor do que o dele.
Remus e eu, por outro lado, apenas observávamos. E ríamos.
— Como está o braço? — perguntou ele, puxando minha mão com cuidado para examiná-la. A queimadura ainda era visível pela fenda no tecido.
— Ainda arde um pouco — admiti. — Mas está tudo bem. Não é como se eu fosse morrer.
— Eu sei — respondeu, rindo de leve. Eu também ri, lembrando da expressão alarmada dos meus amigos quando viram o ferimento, antes de Remus intervir. — Mas, mesmo assim, fiquei preocupado. Malfoy pode ser bem cruel quando quer.
Não respondi. Em vez disso, olhava para o rosto dele com mais atenção do que deveria. Seus olhos ainda estavam carregados de preocupação, uma preocupação que me causava uma sensação diferente. E a cicatriz em seu rosto, embora despertasse minha curiosidade, também me transmitia segurança.
Balancei a cabeça, tentando afastar os pensamentos que começavam a se formar.
— Onde você conseguiu essa cicatriz? — E quando percebi, já tinha perguntado.
Remus se remexeu, desconfortável. Hesitou por alguns segundos. Eu soube, naquele momento, que ele estava prestes a mentir.
— Caí de uma árvore quando era criança — desviou o olhar do meu.
— Deve ter caído e rolado também — retruquei, encarando-o. — Porque só um tombo não deixa uma cicatriz tão grande assim.
— É... foi exatamente isso que aconteceu — ele ainda evitava meus olhos, visivelmente desconfortável.
— Conheço uma poção que ajuda a deixá-la mais fina — comentei, tentando aliviar o clima. — Não vai fazer desaparecer, mas vai ficar bem mais discreta.
Ele me olhou surpreso. Provavelmente esperava que eu insistisse no assunto. Mas eu sentia que, um dia, ele me contaria a verdade. E, felizmente, sempre fui muito paciente.
— Eu... adoraria — suspirou aliviado, e sorriu. Apertou levemente minha mão, que ainda segurava, um gesto simples, mas cheio de confiança. E isso fez meu sorriso crescer ainda mais.
Antes que ele pudesse dizer qualquer outra coisa, James nos interrompeu com um resmungo alto vindo da arquibancada:
— Aquele Diggory é horrível! Além de ter uma cara feia, é um péssimo jogador!
Olhei para o campo e só então percebi que o capitão da Lufa-Lufa era Amos Diggory. Pelo olhar raivoso de James, os dois claramente não se davam bem.
— Amos Diggory — murmurou Remus ao meu ouvido, me causando um leve arrepio. — Eles disputaram a Lily por um tempo.
Arqueei uma sobrancelha. — Ah...
Observei o tal Amos por um momento. Quando ele me viu, sorriu largamente, como se estivesse tentando me impressionar. Fiz uma careta. Ele voltou sua atenção ao treino.
— Você viu isso? — James bufou. — Além de querer roubar minha namorada, agora também está dando em cima da Jasmine! Eu vou socar a cara dele.
— Isso tudo é ciúmes, meu amigo pontudo? — provocou Sirius, rindo. Eu o encarei, um pouco sem saber o que dizer, mas também me sentindo... estranhamente feliz e segura. — Calma, cara. Não vou deixar aquele amarelinho chegar nem perto da Jasmine.
Ele se virou para mim e piscou, fazendo-me corar. Sirius riu da minha reação e voltou a assistir ao treino, que já dava sinais de encerramento. O dia começava a cair, e a temperatura também.
Um vento forte soprou contra o meu rosto, e senti um arrepio subir pela espinha. Cruzei os braços, tentando me aquecer.
Remus pareceu notar meu desconforto.
— Quer entrar? Também estou com um pouco de frio — disse ele. Assenti com um leve movimento de cabeça. — Vamos entrar. Vocês vêm? — perguntou aos outros dois.
Mas James e Sirius apenas acenaram com gestos vagos. Estavam totalmente imersos no treino.
Remus e eu nos levantamos e começamos a caminhar lado a lado de volta ao castelo. Lá dentro, estava menos frio, mas ainda assim eu tremia. Não queria subir até meu dormitório para buscar um casaco. A companhia de Remus era boa demais para ser interrompida.
— Acho que nunca vi duas pessoas tão fissuradas por Quadribol quanto eles — comentei, surpresa. — E olha que meu primo é capitão da Corvinal. Ele não cala a boca sobre isso quando estamos juntos.
Remus riu.
— Você não joga? — perguntei.
— Não — respondeu, coçando a nuca. Já entendi que viria um “mas”. — Gosto bastante, na verdade. Mas não tenho muita habilidade com vassouras. Nunca me achei bom o suficiente pra nenhuma posição.
— Se você não tentar, nunca vai saber — incentivei, sorrindo. Ele retribuiu o sorriso, parecendo grato.
— Eu tentei ser batedora no terceiro ano — confessei. Ele me encarou, surpreso. — Mas fui um desastre. Passei vergonha na frente do time todo. Acho que é por isso que sou mais fechada: virei piada durante semanas na Sonserina.
— Que crueldade — comentou, indignado. — E você desistiu?
— Completamente — ri, sem humor. — Carl até tentou me animar. Às vezes treinamos nas férias, mas nunca mais me senti segura pra voar numa vassoura. Então deixei esse desejo de lado.
— Bom... se eu fosse você, tentaria mais uma vez. Vai que agora você consegue. Seria incrível fechar o sétimo ano como membro do time, não acha?
— Só se você tentar também — desafiei, sorrindo. Ele pareceu hesitar.
— Pode ser...
— Fechado? — estendi a mão para ele. — Se você topar, vai ser uma promessa.
— Fechado — sorriu, apertando firme minha mão.
E, ali mesmo, selamos o nosso acordo.
Rimos de algo bobo e seguimos pelo castelo. O frio ainda insistia lá fora, mas por dentro, tudo parecia um pouco mais quente.
Veio com seus floquinhos brancos e brilhantes na quinta-feira à noite, quando todos já dormiam e se aqueciam sob as cobertas. Isso fez com que o frio aumentasse ainda mais na manhã seguinte, quando a neve derreteu, infelizmente, um dia de aula.
Estávamos todos sentados na mesa da Grifinória como de costume, na mesma formação de sempre: Remus e Sirius de cada lado meu, e James, Lily e Peter à nossa frente. Sem contar Maria, Dorcas e Marlene, que sentavam por perto, mas trocavam poucas palavras conosco.
Sirius quase babava no meu ombro quando minha coruja, Fuzzy, atravessou o salão e pousou bem em frente ao meu copo de chocolate quente, quase o derrubando ao bater suas asas cobertas de neve. Assustado, Sirius deu um pulo e coçou os olhos preguiçosamente.
— Ei, garota — cumprimentei-a, fazendo carinho em sua cabeça felpuda e sorrindo ao vê-la se deliciar com o afago. Já fazia algum tempo que não nos víamos. — O que trouxe para mim hoje?
Peguei a carta que ela havia deixado à minha frente e sorri ao reconhecer a letra caprichada da minha mãe no remetente.
— Muito obrigada — lhe dei um pedaço do meu pão, que ela aceitou com prazer, antes de alçar voo de volta ao corujal.
— Que coruja linda — elogiou Lily. — Ela é sua?
— É sim. O nome dela é Fuzzy — respondi, dando um gole na bebida quente. — Ganhei do meu avô antes das aulas começarem no primeiro ano. Ela é uma ótima companhia.
— Ela parece gostar muito de você — comentou Sirius. — A da minha família me odeia. Não que minha mãe me mande muitas cartas, mas, quando manda, a coruja faz questão de me bicar.
— Talvez ela não fizesse isso se você não tivesse quase sentado em cima dela uma vez — James falou, como se fosse óbvio. Arqueei as sobrancelhas ao imaginar a cena.
Sirius apenas deu de ombros e apoiou a cabeça no meu ombro novamente enquanto eu abria delicadamente a carta da minha mãe.
"Oi, meu pequeno raio de sol,
Como estão as coisas aí em Hogwarts? Bem, eu espero. Dumbledore me prometeu que não deixaria que continuassem a te tratar mal.
Fiquei sabendo que fez amizades. É verdade? Quem são eles? Não vejo a hora de conhecê-los e levá-los aos jogos do papai. Ah, ele está mandando um super beijo e disse que está morrendo de saudades. Mas quem é que não está? Todos aqui em casa te amam muito, minha preciosa Jasmine.
Mas o que tenho para dizer hoje é muito sério, e peço do fundo do meu coração que você não fique chateada conosco. Você sabe que não temos escolha.
Seu pai foi convocado para um jogo solidário nos Estados Unidos no dia de Natal, e eu precisarei ir com ele. Você sabe como ele fica nervoso com esse tipo de evento, e eu sou a médica particular dele.
Por isso, peço que fique em Hogwarts este ano. A tia Evangeline vai viajar para a Alemanha com o primo Carl, e não quero que você fique sozinha aqui em casa. Além do mais, agora você tem amigos. Acredito que pelo menos um deles vá ficar para lhe fazer companhia no Natal e no seu aniversário.
Por favor, não fique chateada. Você sabe que eu choro.
P.S.: Este ano, serão dois presentes para compensar!
P.S.: Te amo muito. Estou morrendo de saudades e não vejo a hora de ver seus lindos olhinhos verdes.
Com amor, Suzie."
Como estão as coisas aí em Hogwarts? Bem, eu espero. Dumbledore me prometeu que não deixaria que continuassem a te tratar mal.
Fiquei sabendo que fez amizades. É verdade? Quem são eles? Não vejo a hora de conhecê-los e levá-los aos jogos do papai. Ah, ele está mandando um super beijo e disse que está morrendo de saudades. Mas quem é que não está? Todos aqui em casa te amam muito, minha preciosa Jasmine.
Mas o que tenho para dizer hoje é muito sério, e peço do fundo do meu coração que você não fique chateada conosco. Você sabe que não temos escolha.
Seu pai foi convocado para um jogo solidário nos Estados Unidos no dia de Natal, e eu precisarei ir com ele. Você sabe como ele fica nervoso com esse tipo de evento, e eu sou a médica particular dele.
Por isso, peço que fique em Hogwarts este ano. A tia Evangeline vai viajar para a Alemanha com o primo Carl, e não quero que você fique sozinha aqui em casa. Além do mais, agora você tem amigos. Acredito que pelo menos um deles vá ficar para lhe fazer companhia no Natal e no seu aniversário.
Por favor, não fique chateada. Você sabe que eu choro.
P.S.: Este ano, serão dois presentes para compensar!
P.S.: Te amo muito. Estou morrendo de saudades e não vejo a hora de ver seus lindos olhinhos verdes.
Com amor, Suzie."
Senti o papel escorregar pelos meus dedos e cair no colo assim que terminei de ler. Os cantos dos meus olhos se inundaram rapidamente, e eu precisei disfarçar minha tristeza.
O Natal era o meu feriado favorito. Era quando eu revia minha família e celebrava também meu aniversário. E essa seria a primeira vez, desde que entrei em Hogwarts, que eu não voltaria para casa.
— Ei, não chora, florzinha — disse Sirius, me assustando. Provavelmente ele lera a carta comigo, já que era absurdamente curioso desde que nos aproximamos. — Vem cá.
Ele abriu os braços e eu não hesitei em me aconchegar. Se James parecia um urso ao me abraçar, Sirius parecia um leão, e o abraço era tão gostoso quanto. Exceto pelo perfume forte que irritava meu nariz e me dava uma vontade quase incontrolável de espirrar.
— O que aconteceu? — perguntou Lily, notando que eu estava mais sensível que o normal.
— Ela vai ter que ficar em Hogwarts no Natal. E é aniversário dela — respondeu Sirius por mim, confirmando minhas suspeitas de que havia xeretado a carta. Funguei, mas não tive forças para repreendê-lo.
— Se você quiser, Sirius e eu podemos ficar aqui com você — sugeriu James, e Sirius assentiu.
— Eu fico também. Minha mãe vai visitar minha avó em outra cidade, e eu passarei o ano novo sozinho — Remus se prontificou. Quando percebi, todos estavam dispostos a ficar comigo. Eu já chorava de novo, dessa vez, de felicidade. Fiquei surpresa com tanto carinho.
— Não, gente, não precisa — falei, interrompendo-os. — Agradeço a preocupação, mas não seria justo que deixassem suas famílias por minha causa. Eu vou ficar bem, prometo.
— Nada disso! — Lily protestou, visivelmente irritada. — Se você não quer que fiquemos aqui com você, então vem pra minha casa. Pode passar todo o feriado comigo.
— Ou passa o Natal com a Lily e o Ano Novo na minha casa — James sorriu, estendendo a mão por cima da mesa, e eu a segurei. — Mamãe adora visitas. Podemos chamar o Remus também. E Sirius... bom, esse encosto mora comigo, então você vai ter que aturá-lo, mas nós o amarramos no quintal e ele não incomoda ninguém.
Sirius xingou James e eu ri da discussão boba entre os dois.
— Vocês são incríveis, de verdade — sorri, um pouco envergonhada.
— Então tá combinado? Natal comigo e Ano Novo com eles? — Lily insistiu.
— Tudo bem — acabei cedendo, e todos vibraram. — Obrigada, de verdade.
— Você não precisa agradecer — disse Remus, segurando minha mão livre. — Agora você faz parte da nossa família bagunçada.
— Isso mesmo! — Sirius falou. — E nem pense que vai se livrar da gente tão cedo, porque eu não vou deixar.
— E eu, muito menos — disse James, estufando o peito. Eu ri fraco.
Pois é... Se antes eu duvidava de que tinha os melhores amigos do mundo, agora eu tinha certeza. E não poderia estar mais feliz por isso.
Fazia tanto tempo que eu não me sentava no jardim da escola, que era quase sempre desabitado, apenas para relaxar e deixar a cabeça espairecer, que eu já tinha até esquecido como era maravilhosa essa sensação.
Estava sentada ali, em meio à neve que começava a derreter, já fazia uns vinte minutos.
Minhas duas últimas aulas do dia seriam de Poções, mas o professor Slughorn não apareceu. A professora McGonagall veio nos informar que ele havia tido um grande imprevisto e que faltaria por pelo menos mais uma semana, o que foi uma alegria imensa para mim e, sinceramente, para quase toda a escola.
Assim, fiquei completamente livre nos dois últimos horários do dia e com o fim de semana inteiro à minha frente.
Eu acabara de ler as últimas páginas de Madame Bovary quando senti a presença de alguém ao meu lado. Dei um pulo ao ver Remus Lupin parado, apenas me observando.
— Meu Merlin! Quer me matar do coração? — exclamei num gesto exagerado, levando a mão ao peito e respirando fundo.
— Desculpe — ele sorriu, um pouco envergonhado. — É que você parecia tão compenetrada no livro que eu fiquei com dó de te interromper.
— E acabou me fazendo quase morrer de susto — reclamei, fazendo drama. Remus apenas riu e se sentou ao meu lado. — Sua penúltima aula também é de Poções?
— Não. Só não estava com vontade de ir para Transfiguração hoje — deu de ombros. Eu o encarei, surpresa. Apesar de não conhecê-lo tão bem, já tinha percebido que ele era extremamente estudioso. Não parecia do tipo que faltava aula.
— Tem certeza de que está se sentindo bem? — perguntei, colocando minha mão em sua testa como se verificasse uma febre, numa tentativa boba de brincar. Ele riu, graciosamente.
— Só estou cansado, é só isso — deu de ombros.
— Tudo bem, Remus. Não estou aqui para te julgar — assegurei.
O silêncio reinou entre nós. Não que eu achasse isso ruim, muito pelo contrário. O barulho de alguns poucos pássaros que se arriscavam a sair no frio deixava o clima leve, apesar do vento cortante que congelava minhas orelhas, já que eu havia me esquecido de pôr meu gorro.
— Sabe o que eu percebi? — Ele quebrou o silêncio após longos minutos. Virei o rosto, esperando que completasse a frase. — Que, apesar de gostar muito de você, sei bem pouco sobre suas preferências.
— É verdade — murmurei, semicerrando os olhos, como sempre fazia quando refletia. — Se quiser saber algo, é só perguntar. Não me importo em responder.
— Então isso quer dizer que posso fazer um interrogatório completo com você? — animou-se. Assenti com um curto aceno. — Certo. Qual a sua cor favorita?
— Acho que é verde — disse pensativa. — Não, não. Gosto de roxo. E a sua?
— Acho que amarelo. Próxima: comida favorita?
— O bolo de chocolate da minha avó — sorri, lembrando da massa fofinha e do cheiro delicioso que tomava a casa. — E a sua?
— Frango assado. O que minha mãe faz é o meu favorito no mundo — respondeu com um sorriso de canto, e por alguns segundos me peguei imaginando como seria sua mãe. Seria tão bonita e adorável quanto ele? — Quem é a sua pessoa favorita?
— Antes de conhecer vocês, era meu primo — refleti. — Mas agora, acho que vocês se tornaram meus melhores amigos.
— Oh, sinto-me honrado, bela donzela, por ser considerado uma de suas pessoas favoritas — disse ele, fazendo graça. Pegou minha mão e depositou um beijo como um perfeito cavalheiro. Ri abertamente.
— Do que as beldades estão rindo? Posso saber? — Paramos na hora ao ouvir a voz rouca de Sirius soar ao nosso lado.
— Na verdade, não — disse Remus sério. — É assunto secreto. Coisas do Ministério da Magia.
— Isso mesmo, muito sério — entrei na brincadeira e quase vacilei um sorriso. — O Ministro da Magia acabou de sair daqui, furioso, porque o diretor Dumbledore espalhou segredos. Agora quem cuida deles somos nós.
— É verdade? — Sirius perguntou, visivelmente impressionado.
Remus e eu trocamos olhares cúmplices e caímos na gargalhada ao perceber que ele realmente havia acreditado.
— O quê? — perguntou ele, confuso. — Vocês não podem contar o segredo pra mim? Juro que não conto pra ninguém. De dedinho.
— Era brincadeira, Sirius — falei ainda rindo, com a barriga doendo. — Você realmente achou que era verdade?
— Ué, vocês estavam tão sérios que eu acreditei. Sou ingênuo, tá? — disse ele, meio constrangido.
— Claro que todo mundo acredita nisso, Almofadinhas — Remus riu em descrença.
— Mas o que estão fazendo aqui? Está congelando. – Sirius esfregou os próprios braços, demonstrando o frio que sentia.
— O Remus está matando aula e eu estou pensando — respondi. — Posso ver que você também gosta de ficar fora da sala, não é, senhor Black?
— Ah, sabe como é — coçou a nuca, sem graça. — Está chegando o Natal. Sou da opinião que os professores podiam parar com as aulas assim que dezembro começa.
Remus e eu reviramos os olhos e empurramos Sirius pelos ombros, fazendo-o cair deitado na neve.
— Ah, isso tá congelando! — ele gritou, tentando se levantar num impulso, mas só conseguiu alguns centímetros antes de voltar ao chão. — Acho que comi demais os doces do James. Socorro!
Remus riu escandalosamente enquanto eu tentava conter o riso e ajudá-lo.
Segurei uma de suas mãos e puxei com força, mas ele mal se moveu. Quando Remus percebeu que nem minha força nem a disposição de Sirius eram suficientes, agarrou a outra mão e, juntos, o puxamos até ele conseguir se sentar novamente.
— Meu Merlin, Almofadinhas — disse Remus, ofegante. Nós dois estávamos sem fôlego. — O que você anda comendo? Chumbo derretido?
— Preciso manter esse corpo maravilhoso de alguma forma, meu amigo lupino — gabou-se, enquanto Remus revirava os olhos descaradamente. — Admita, Aluado: você morre de vontade de ser gostosão como eu.
E, num gesto totalmente inesperado, puxou a barra do suéter, exibindo o abdômen.
Arregalei os olhos e senti minhas bochechas queimarem ao ver sua barriga definida. Se eu soubesse que o Quadribol dava esse resultado, talvez tivesse tentado com mais afinco.
Virei o rosto, tentando disfarçar o constrangimento e os pensamentos que me invadiram.
— Esconde isso aí, Almofadinhas — disse Remus, cobrindo o rosto com as mãos, enquanto Sirius ria alto.
— Só vou abaixar porque está frio, e não porque você quer — disse, fazendo drama. Quando voltei a olhá-lo, ele já havia se coberto. — Ih, minha florzinha ficou com vergonha. Não precisa, Jazz. Mas se quiser, posso te mostrar o resto depois...
Soltei um muxoxo e balancei a cabeça, ainda mais envergonhada.
— Cala a boca, Sirius! — ralhou Remus, e eu o agradeci mentalmente. — Ela não é mais uma das garotas que você pega e descarta depois.
— Qual é, cara? — Sirius agora parecia genuinamente ofendido. Eu não sabia o que fazer, muito menos como reagir. — Você sabe que não sou assim com todo mundo!
— Diga, Sirius, pelo amor de Morgana: o nome de ao menos uma garota com quem você ficou e sentiu algo além de desejo?
O silêncio que se seguiu foi revelador.
— Foi o que eu pensei — Remus concluiu com uma carranca evidente.
Sirius se preparava para levantar e ir embora, realmente magoado, mas agarrei seu pulso com firmeza. Não era justo que brigassem por minha causa, ainda mais sendo amigos há tanto tempo. Eu mal havia entrado no grupo.
— Rapazes, por favor — pedi, quase suplicando. Ambos me olharam atentos. — Não fiquem com essas picuinhas por minha causa. Vocês são amigos há anos e estão brigando por algo que já deveria ter sido superado.
Suspirei, sentindo a garganta apertar. Pessoas brigando ou em conflito sempre me deixavam mal e com uma sensação de peso.
— Vou entrar. Vocês fiquem aqui e se resolvam. Só voltem a falar comigo quando estiverem bem um com o outro novamente.
Levantei-me sem esperar resposta e segui em direção à escola, sentindo os olhares deles queimarem minhas costas.
Fingi que nada havia acontecido e continuei andando, sem olhar para trás. Não sabia exatamente para onde ir, já que os meus amigos, os que não estavam brigados ou matando aula, ainda estavam em suas salas.
Decidi procurar um canto deserto e desfrutar de alguns momentos de paz, para tentar organizar os pensamentos e pensar no futuro, coisa que eu não fazia há algum tempo.
Encontrei um corredor vazio, me encostei em uma das paredes e me sentei, apoiando as costas no frio da pedra.
Deixei as coisas entre as pernas, encostei a cabeça para trás e fechei os olhos. Respirei fundo e deixei os músculos relaxarem.
Varri a mente em busca de alguma música calma e, assim que encontrei uma, comecei a cantarolá-la baixinho. Mas, como sempre, a paz não quis me acompanhar.
Passos pesados ecoaram, seguidos de alguém cantarolando alto demais para o meu momento. Abri os olhos. Uma garota saltitante vinha em minha direção. Quando percebeu que eu a observava, abriu um sorriso tão largo que pensei que suas bochechas fossem rasgar.
— Oi! Sou Jenna Williams! — exclamou animada, estendendo a mão. Reparei nas pulseiras de miçangas coloridas por cima do suéter.
— Olá — respondi, forçando um sorriso simpático. — Meu nome é Jasmine Manfreid.
— Jasmine? Que nome bonito! Seus pais escolheram por causa da flor?
— Na verdade, não sei o motivo — confessei, meio sem graça.
— Eu acho que sim! Faz até sentido — riu graciosamente, e me peguei encarando-a por tempo demais. — Posso me sentar aqui com você?
— Hã… claro. Por que não? — dei um meio sorriso.
Ela então se jogou ao meu lado, fazendo um barulho alto. Olhei preocupada, achando que havia caído e se machucado, mas ela ria do próprio tombo.
Franzi o cenho, tentando entender de onde vinha tanta alegria. Notei o brasão da Lufa-Lufa em suas vestes e me lembrei de comentários sobre uma garota meio maluca, sempre sorridente, de cabelos castanhos claros. Talvez fosse ela. Mas, para mim, ela não parecia maluca. Parecia feliz.
— Você é a nova namorada do Sirius Black, não é? — perguntou, de repente.
— O quê?! Claro que não! — respondi apressadamente, enquanto ela soltava uma risadinha. — Mas que absurdo… quem disse isso?
— Todo mundo, oras! Estão comentando sobre uma ruivinha da Sonserina que anda com o Sirius. Ele vive te abraçando e elogiando. Até parece mais calmo desde então.
Meus olhos continuavam arregalados.
— Sirius e eu somos apenas amigos — respondi, mais calma após alguns segundos. — E não vejo nada de errado em elogiar amigos. Isso mostra que eles se importam.
Ela assentiu com um aceno e, de repente, tirou um bolinho do bolso da capa e começou a devorá-lo sem a menor cerimônia.
Desviei o olhar, encarando minhas mãos, enquanto ela fazia barulhos estranhos mastigando.
— Oh, me desculpe — disse de boca cheia. — Nem te ofereci uma migalhinha.
— Tudo bem — respondi rindo fraco. — Não estou com fome.
O silêncio se instalou entre nós. Jenna parecia perdida em pensamentos e eu também não me sentia à vontade para puxar assunto. Ainda não tínhamos intimidade.
Mesmo assim, o clima não era ruim. Era até agradável. Jenna era estranhamente encantadora e um tanto quanto autêntica.
Não sei quanto tempo ficamos assim, mas percebi que já estava ficando tarde quando os corredores começaram a se encher.
— Vou procurar minha amiga — falei para quebrar o gelo. — Quer vir junto?
— Eu adoraria! — exclamou. — Mas preciso encontrar minha irmã. A gente se vê por aí, Jasmine Manfreid.
Antes de se levantar, ela beijou minhas bochechas e saiu apressada, no sentido oposto ao meu.
Fiquei a encarando sem reação e, quando percebi, estava rindo de sua espontaneidade.
Balancei a cabeça, ainda sorrindo, e segui em direção à biblioteca — onde achava que Lily estaria, aproveitando para adiantar os deveres.
Mas, ao chegar, só encontrei alunos que não me interessavam — e que também pareciam não querer minha presença.
Resolvi, então, ir direto para o salão comunal da Sonserina. Iria para o quarto, onde ficaria até a hora do jantar.
Com sorte, encontraria meus amigos lá, e, quem sabe, Remus e Sirius já teriam se resolvido.
Continua...
Nota da autora: Sem nota.
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