Codificada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 31/10/2025O toque de um telefone.
Três meninos corriam entre as sombras, os passos esmagando a neve recém-caída. As respirações deles formavam nuvens rápidas no ar, desesperadas, e, vez ou outra, lançavam olhares rápidos para trás – sempre para trás. Entre os troncos, uma figura se movia, lenta, mas certeira – como um caçador que já sabia onde a presa iria tropeçar.
O som metálico do toque ecoou de novo… e de novo.
Um dos garotos caiu, o segundo parou para ajudá-lo e o terceiro gritou o nome dos dois – um grito que virou fumaça. O caçador não precisava correr. A presa já estava cansada demais para fugir. De repente, o som de um estalo, como se fosse madeira quebrando, seguido de passos sobre o gelo. E então, o telefone tocou de novo, desta vez mais alto e mais próximo. Um toque que não deveria existir ali.
Um toque que ela reconhecia.
— Gwen… ei, acorda!
A garota abriu os olhos com um sobressalto ao ouvir a voz do irmão, o coração martelando no peito. Não estava mais em seu quarto, mas sim na cozinha, o som distante da rua ainda envolto pela madrugada.
— Tava sonâmbula de novo. — Finney murmurou, guiando a irmã pelos ombros de volta ao quarto.
— Finn…
— Shh, volta a dormir, antes que o pai acorde. — Ele fechou a porta, deixando-a sozinha, com a cabeça a mil.
Aqueles episódios estavam se tornando mais frequentes. Sempre o mesmo local. Sempre a mesma neve. Sempre os mesmos garotos. Sempre o mesmo toque. Passou as mãos no rosto, respirando fundo. Por mais que tentasse voltar a dormir, os pensamentos não deixavam. Não demorou muito para ela ouvir o som abafado do despertador de Finney. Fazia tempo desde a última vez que ele conseguiu realmente pegar no sono. Desde o porão.
Desde ele.
Finn não era mais o mesmo menino. O tempo havia crescido dentro dele de um jeito estranho – rápido demais, duro demais. E, mesmo quatro anos depois, ninguém realmente o via como antes. Na escola, os corredores ainda murmuravam seu nome, alguns com respeito, outros com medo. As pessoas cochichavam, desviavam os olhos ou falavam baixo, como se a simples menção àquele verão pudesse trazer o monstro de volta. Até os garotos que antes o empurravam nos armários agora lhe davam passagem, num silêncio quase reverente. Mas Finney não parecia perceber – ou talvez apenas não se importasse. Gwen fingia não notar os olhares. Com o tempo, aprendera a sorrir, a responder quando alguém perguntava “como o irmão estava” e a esconder o fato de que ainda o ouvia ter pesadelos à noite e tentava esquecer com vários maços de cigarro durante o dia.
— Por que não tenta falar com alguém hoje? — Perguntou, ajustando o cachecol no pescoço dele.
— Já tô falando com você. — O irmão respondeu, sem erguer o olhar.
Ela revirou os olhos, mas o canto da boca tremeu num quase sorriso. Havia aprendido a aceitar aquilo – as respostas secas, o silêncio. Era melhor do que o vazio completo que às vezes tomava conta dele.
A entrada da escola era uma massa de vozes e risadas, o vapor das respirações se misturando ao frio da manhã.
Finney parou na escada, observando o pátio. Por um instante, pareceu ver algo – um vulto escuro entre os carros, parado, imóvel – mas, quando piscou, não havia nada. Gwen notou o jeito como ele endureceu.
— Tá tudo bem?
— Nada. Só achei que… — balançou a cabeça. — Deixa pra lá.
Ela assentiu devagar, estudando o rosto do irmão. Depois respirou fundo e se virou para o corredor da direita.
— Te encontro no almoço?
— Aham.
Eles se encararam por um segundo – um olhar silencioso que dizia “se cuida” sem precisar de palavras. Gwen seguiu, o som dos sapatos ecoando no piso encerado, e Finney ficou parado por um momento, assistindo a multidão engolir a irmã até desaparecer.
O resto da manhã passou arrastado, como se o tempo tivesse medo de avançar. As aulas se misturavam num zumbido distante, vozes e risadas que pareciam vindas de outro mundo. Gwen tentava se concentrar, mas os olhos dela insistiam em deslizar até a janela. Por mais que tentasse se distrair conversando com Ernesto, cada vez que piscava, via fragmentos: neve caindo sobre um lago, os meninos correndo, o telefone tocando. E, como se não bastasse, ainda tinha que aguentar os cochichos e risadinhas das garotas de sua sala que, sempre que tinham a oportunidade, soltavam um “bruxa” ou “esquisita” quando passavam por ela. Quando o sinal da saída tocou, respirou aliviada, já correndo para o pátio, mas, assim que pisou lá percebeu o burburinho. Primeiro, risadas abafadas. Depois, gritos. Em segundos, metade dos alunos corria para o mesmo ponto. A garota atravessou a multidão, sentindo o estômago gelar e o coração acelerar, e viu Finney no meio da roda de estudantes, com os punhos cerrados, o casaco amassado e o rosto tenso. À frente dele, um garoto sangrava pelo nariz, o olhar misto de raiva e surpresa. Ao lado, outro menino menor tremia, os livros espalhados pelo chão.
— Finney! — A voz dela cortou o ar.
Mas ele não olhou. O som da multidão abafava tudo: “briga!”, “acaba com ele!”, “deixa eles!”.
— Acha que é engraçado machucar alguém menor que você? — O menino tentou reagir, mas Finney o empurrou contra o chão com força. O barulho ecoou pelo pátio e, por um instante, ninguém respirou. — É sangue o suficiente pra você? — Perguntou, baixo, quase calmo.
O outro apenas assentiu com a cabeça. Antes que mais alguma coisa acontecesse, Gwen correu até o irmão, agarrando-o pelo braço.
— Finn, para! — Ela implorou. — Já chega!
Ele piscou, como se despertasse de um transe, e, aos poucos, seus ombros relaxaram e a respiração começou a desacelerar. Soltou o garoto, que rastejou para trás, com o olhar envergonhado. Gwen o puxou para longe da multidão, ignorando os olhares e cochichos que os seguiam.
— O que foi isso? — Perguntou, sem fôlego.
Finney soltou um suspiro enquanto limpava os dedos ensanguentados no casaco, sentindo-os tremerem de leve.
— O novato tava implicando com um garoto mais novo e quando eu fui defender ele me provocou… perguntou se era verdade os boatos de que eu só parava de brigar depois de arrancar sangue.
— E você…?
— Perguntei se ele queria descobrir.
— Claro que perguntou… — o tom era mais de preocupação do que de raiva.
Ele ficou em silêncio, encarando o chão. Depois de um tempo, murmurou:
— Eu não consegui ver e não fazer nada, Gwen. Eu só… não consegui.
A irmã apenas assentiu e eles seguiram o caminho, não antes de serem interrompidos por Ernesto Arellano chamando Gwen para um show da Duran Duran. Se não fosse pelo sobrenome, ele facilmente seria um daqueles garotos que passavam despercebidos no colégio, sempre com o cabelo perfeitamente alinhado, óculos de grau, suéteres arrumados e um sorriso tímido – o completo oposto de Robin. Gwen suspeitava que, diferente de Finney, que acabou absorvendo algo do comportamento do amigo – talvez a sede violenta por justiça – Ernesto achasse que o jeito desinibido do irmão havia o condenado. Apesar de tudo, ela se sentia menos “esquisita” com ele.
— Tá, mas você sabe que é um encontro, né? — O mais velho perguntou, divertido, e ela respondeu com uma careta.
— Cala a boca, Finn.
Os flocos de neve desciam lentos, pairando sobre o espelho congelado de um lago. No meio dele, três garotos corriam, deixando rastros quebrados no gelo. Os mesmos garotos. Gwen os observava à distância, os lábios tremendo de frio. O som do vento parecia um lamento. Antes que pudesse entender o que estava acontecendo, do que eles estavam fugindo, o gelo rachou, um estrondo seco ecoou e os garotos desapareceram na água escura. Ela correu em disparada até onde eles haviam caído e encontrou… nada. A camada de gelo estava intacta. Então notou, por baixo do gelo, os corpos sem vida dos meninos arranhando a superfície do gelo com as unhas roxas, escrevendo algo apressados. Gwen deu um passo à frente, o chão estalando sob seus pés, e, quando chegou perto o suficiente, conseguiu ler:
Um telefone tocou. O som vinha de todos os lados, distante e perto ao mesmo tempo. A garota se virou, tentando encontrar de onde vinha o toque antigo, metálico, mas o vento cessou e o lago, o frio, tudo desapareceu. Agora ela estava diante de uma casa – uma que reconheceria em qualquer lugar. Andou em passos cuidadosos até a janela que dava no mesmo porão que seu irmão foi preso anos atrás. Dessa vez estava quebrada. E o toque parecia aumentar a cada segundo. Então ela entrou pela janela, sentindo o cheiro de mofo misturado com ferro do porão invadir suas narinas. As sombras se estendiam pelas paredes e o telefone preto estava lá, intacto, pendurado no gancho, com o fio enrolado feito uma cobra. O toque cessou.
— Alô…? — a voz dela saiu trêmula.
Por um instante, silêncio. Depois, uma respiração suave do outro lado da linha.
— Oi, quem tá falando? — A voz era baixa, familiar, como uma lembrança que doía. — Você precisa me ajudar.
— Meu nome é Gwen.
— Você é do Colorado? Eu não botei código postal então só pode ser daqui.
— Sou…
— Olha, estamos em Alpine Lake. Você precisa vir nos ajudar… ele os pegou.
— O quê? Quem? — Apertou o telefone com força.
O som começou a falhar, a ligação se desfazendo num zumbido estático.
— Ele está aí com você! — A voz se distorceu, até virar ruído puro.
Do andar de cima, veio o rangido de uma porta abrindo e então, passos lentos, pesados, descendo as escadas. Gwen virou o rosto e viu a sombra inconfundível da máscara. Era ele. Tentou correr, mas o corpo não respondeu. A sombra se aproximava, degrau por degrau, até que uma mão tocou seu ombro.
— Gwen! — A voz do irmão a arrancou do pesadelo.
Ela acordou ofegante, os olhos marejados, a respiração em descompasso. O quarto ainda estava escuro. Finney segurava seus ombros, preocupado.
— Ei… foi só um sonho.
Mas ela sabia que não era. Ainda conseguia ouvir o eco da voz do outro lado da linha: Alpine Lake.
