Revisada por: Nyx 🌙 (Até o capítulo 01 por Lightyear 💫)
Úlima atualização: 04/06/2026“Se ainda não começou por estar com medo
Então pare de reclamar! (GG)
Se hesitar, todas as oportunidades passarão por você
Pois então abra seu coração e mostre-se! (T.R.X).”
- The Boys / Girls’ Generation
Seoul, inverno de 2023
Antes dos aplausos e da fama, existe uma história que quase ninguém conhece.Então pare de reclamar! (GG)
Se hesitar, todas as oportunidades passarão por você
Pois então abra seu coração e mostre-se! (T.R.X).”
- The Boys / Girls’ Generation
Seoul, inverno de 2023
Quando vemos um cantor debutando, entre shows e apresentações impecáveis, não imaginamos o quanto ele sofreu para chegar onde está. Só quem foi trainee por pelo menos um ano sabe o que estou falando. Contudo, ninguém foi tão longe quanto eu para conseguir realizar seu sonho de debutar em um grupo de kpop, e pior, na melhor gravadora da Coreia do Sul no quesito oportunidades, qualidade e empatia aos funcionários.
Desejada por todos os trainees…
Moonlight Company
— Acorda, dorminhoca — disse minha avó, rindo da poltrona ao lado.
— Não, me deixa aqui — resmunguei, jogada no sofá, meu corpo dolorido me fazia sentir que estava cansada demais até mesmo para falar.
Eu tinha chegado tarde na noite anterior.
Não era fácil sustentar dois empregos, dar aulas de ballet para completar a renda e ainda servir de DJ na casa noturna do irmão de um amigo. Era de se esperar que eu não tivesse uma vida social. E não tinha mesmo, desde que me formei no ensino médio, não tenho feito outra coisa: trabalhar, trabalhar e trabalhar. O propósito? Juntar uma grana para me mudar para Seoul. Afinal, viver em Daejeon era monótono, além de todas as grandes gravadoras estarem na capital do país. Felizmente, tinha minha avó e meu amigo para conversar, assim, minha vida social estava meio salva. Meu círculo também se estendia a meu irmão gêmeo, porém, com sua bolsa de estudo no exterior, seguia vivendo seu sonho em Londres. O nerd desfrutava das regalias de Oxford, estudando engenharia química.
Tudo que eu não tenho afinidade.
Pelo menos, se nada desse certo para mim, ele salvava a honra da família. Brincadeira. Tudo daria certo, sim, e eu seria uma deusa definitivamente.
— Por que não deita na cama para descansar melhor? — perguntou.
— Porque o sofá foi o primeiro lugar que encontrei para desabar, agora não tenho força para levantar — expliquei, aconchegando-me entre as almofadas. — Me deixa aqui mais um pouco.
— E não vai comer? — indagou, num tom preocupado. — Você precisa se alimentar, senão vai acabar com anemia.
— Prometo comer mais tarde — assegurei, sentindo que não iria cumprir a promessa.
Foi fechar os olhos e apagar.
Para minha sorte, a folga de todas as minhas ocupações profissionais coincidentemente eram no mesmo dia, ou seja, nesse dia eu entrava em coma para o mundo e recarregava minhas energias. Foram longas horas dormindo naquele velho sofá, até que o intruso do apareceu e me derrubou dele.
— Yah. — acordei assustada e gritando, abri os olhos e o vi rindo de mim, enquanto sentava no lugar em que estava anteriormente.
Bufei irritada.
— Você quer morrer? — perguntei aos berros. — Jamais acorde uma pessoa desse jeito, principalmente se essa pessoa for eu.
— Eu avisei a ele. — A voz da avó soou da cozinha.
O espaço era integrado à sala e conseguia vê-la manuseando perfeitamente os alimentos.
— Halmeoni, é engraçado acordar ela. — Continuou rindo da minha cara.
— Eu vou te matar! — Joguei-me contra ele, tentando derrubá-lo do sofá.
— Cuidado, vocês dois, ainda vão acabar se machucando — alertou ela.
— Antes eu estrangulo esse pabo — disse em risos, já sendo atacada por uma sessão de cócegas. — Yah, isso é golpe baixo.
Algumas gargalhadas saíram.
era meu melhor amigo. Crescemos juntos e poderia afirmar que nossa proximidade e conexão eram ainda mais fortes do que com meu próprio irmão. Sempre compartilhamos nossos sonhos loucos e expectativas para o futuro. E foi ele que tinha inventado de eu ser DJ na casa noturna do primo dele. Donghwa era uma pessoa legal, pagava até mais do que deveria só para me ajudar, e porque eu era amiga de alguém da família.
— Então, já viu a notícia meio boa e meio ruim que saiu hoje de manhã? — disse ao se sentar no tapete no chão.
— Sério? Você viu meu estado quando chegou, que pergunta é essa? — Deitei-me novamente no sofá, suspirando fraco.
— Ui, não precisa ser tão ríspida — riu com descontração. — Sua empresa favorita iniciou o processo de fusão com a influente Nexus Entertainment.
— Ainda não entendo o motivo de fazerem isso, estavam indo tão bem sem uma fusão. — Um suspiro fraco surgiu de forma espontânea. — Confesso que são uma gravadora pequena e não chamam muita a atenção da mídia, seu artista de maior destaque é o modelo da Vogue, Byiunghan e aquela atriz que fez sucesso na série da Netflix…
— Smooth Criminal?! — Pareceu puxar da memória.
— Esse mesmo — assenti. — A atriz que fez a vilã… Acho que se chama Park Minah.
— Hum… Acho que eles querem competir com a Hybe e aproveitar esse tempo sem o BTS para atrapalhar, por isso a fusão. Depois que a Nexus reviveu com a compra total das ações feita pela empresa brasileira — Brincou de falar a realidade. — Mas essa foi a notícia boa.
— Surpreenda-me com a ruim — pedi, com receio.
— Como acabaram de debutar o Mystic, lançaram em nota de imprensa a paralisação por tempo indefinido das audições para trainees femininas. — A notícia soou com tranquilidade.
— O quê? — Ergui meu corpo, permanecendo sentada no sofá, olhando surpresa. — Não, eles não podem fazer isso comigo, agora que estou quase lá, justo quando vou fazer minha audição, não podem.
— É a vida, minha querida — opinou minha avó, enquanto preparava o almoço. — Nem sempre as coisas saem como esperamos.
— Mas, Vó, isso não é justo, como eles fazem isso comigo? — questionei indignada.
— Eles são simplesmente a Nexus Entertainment agora. E me parece que a decisão foi de ambos os lados — detalhou meu amigo, me olhando preocupado. — O que pretende fazer agora?
— Não sei, sinto como se meu sonho tivesse descido pelo ralo, levado pela enxurrada. — Fiz meu tom dramático.
— Quanto drama. — Sua risada saiu debochada. — Você fala como se não existisse mais nenhuma gravadora.
— A Moon não é qualquer gravadora, ela era A GRAVADORA. — Respirei fundo. — E devo admitir que a Nexus vem ganhando espaço na mídia também, falam muito bem dela, e eles possuem o Zion como artista principal.
Um suspiro fraco de chateação.
— Você não entende meu sentimento — completei.
— Hum... — Pareceu segurar o riso, então se levantou do chão. — Halmeoni, o que está fazendo para o almoço?
— Um pouco de kimbap para animar essa garota — respondeu.
— Preciso mesmo, só comendo para esquecer essa notícia péssima. — Olhei-a, fazendo cara de tristeza. — Vovó, parece que eu não serei uma trainee de sucesso.
— Calma, garota dramática, a vida ainda não acabou — falou.
Aquilo era uma frase de consolo?
— está certo. — Minha avó sorriu da cozinha. — Você ainda tem todo um caminho de sucesso pela frente.
— Verdade. — Sorri de volta para ela e desviei meu olhar para meu amigo. — E você? Por que veio tão cedo aqui?
— Não está cedo, estamos quase na hora do almoço — retrucou, argumentando. — Vim para contar a minha novidade.
— Hum. — Dei de ombros, não demonstrando interesse.
— Pare com essa cara de nojo — riu de mim, conhecia-me bem. — Recebi minha carta da Seoul National University, vou começar meu curso de engenharia da computação no próximo semestre.
— E eu devo ficar feliz por você? — perguntei.
— Claro, você é minha melhor amiga — retrucou, fechando a cara, como se me repreendesse.
Minha avó riu da cozinha. Realmente tinha que ficar feliz por ele, seu dom para tecnologia era surreal — além das muitas habilidades artísticas para design de games, que ficavam como hobby. Saboreamos o almoço e fomos para meu quarto. Vovó ficou na sala vendo TV acompanhada pelo seu cachorro, um pug mini chamado Bob.
— E agora, o que vai fazer? — perguntou , se jogando na minha cama.
— Não sei. — Suspirei fraco, olhando para o espelho que tinha ao lado da porta. — Estava sonhando com o dia da minha audição, por que justo agora?!
— Li que a fusão foi ideia do filho do senhor Park — explicou com mais detalhes. — E parece que ele ficou com cargo de CEO vitalício da gravadora, após trocar 1% de suas ações com a brasileira dona da Nexus Global… Permitindo-a ser a sócia majoritária com 51%.
— Isso me choca ainda mais. — Meu olhar continuou demonstrando a surpresa. — Como assim? O senhor Park se aposentou?
— Sim, não sabia? — indagou, parecendo ainda mais surpreso por minha falta de informação. — Foi após anunciarem a aposentadoria do senhor Park, que os rumores da fusão começaram.
— Me desculpa, mas nos últimos meses não estou tendo tempo para acompanhar as notícias — relembrei minha realidade profissional.
— Bem. — Seu olhar parecia empático. — Ao que tudo indica, por um problema de saúde, o senhor Park teve que se aposentar mais cedo, e o filho mais velho dele, , assumiu.
— ? Aquele idiota que tentou debutar às custas da gravadora do pai? — Segurei-me para não entrar em pânico. — Ele vai destruir a Nexus com o mau gosto dele, a brasileira fez um mau negócio.
— Pelo menos ele tem um vocal legal — retrucou, não se segurando e começando a rir da minha careta.
— O vocal dele não encobre sua falta de bom senso, a começar por cortar as audições femininas. — Cruzei os braços. — Não acredito nisso, que raiva.
— Calma, você está com uma cara de causar medo — pediu, desviando seu olhar para a janela. — E quando você faz essa cara, tenho a certeza de que vai quebrar alguma regra, sempre foi assim.
— Regra — sussurrei, voltando meu olhar para o espelho. — Você está certo, sempre quebrei as regras e não será desta vez que não vou quebrar. — Dei um sorriso de canto, enquanto olhava meu reflexo. — Se eles só querem garotos, então, são garotos que eles terão.
— Em que loucura está pensando? — indagou, erguendo seu corpo e me olhando preocupado. — Seo , conheço esse seu olhar de garota travessa.
Seu tom soou mais forte, ao me chamar pelo nome completo.
— O que se faz quando se é igual a uma pessoa? — perguntei, desviando meu olhar para ele.
— Não — repreendeu de imediato, parecendo ter entendido minha ideia louca. — Não vou deixar fazer isso.
— Você sabe que sempre dá certo, eu fazia isso sempre na escola — questionei. — Foi assim que passei em química.
— Definitivamente, não, não vou deixar você se passar por seu irmão, não desta vez — disse, revelando minha ideia em voz alta. — É loucura, se eles descobrirem, você estará acabada.
— Só irão descobrir se você contar. — Encarei-o, num olhar ameaçador.
— É claro que não vou contar, sempre guardei seus segredos — retrucou, de forma fria e indignada.
— Então, ninguém saberá — concluí.
— Existe uma coisa chamada pesquisa, e é claro que quanto mais você ganhar visibilidade, vão querer saber quem é você. — Em argumento, me encarou dessa vez. — Como vai fazer? Porque seu irmão está lá em Londres.
Tinha fundamento, principalmente pelo fato de também sermos filhos de dois mundos, igual às integrantes do girl group Mystic. Filhos de um coreano e uma brasileira, que se conheceram em um intercâmbio da minha mãe para o país. Amor à primeira trombada, que depois de nove meses, resultou nas dores de parto em dose dupla.
— Simples, eu tenho um melhor amigo maravilhoso, que além de criativo, é hacker e pode manipular algumas informações para mim. — Dei um sorriso de satisfação. — Basta só você fazer com que eu esteja em Londres e meu irmão aqui, para todo mundo.
— Simples assim?! — deu de ombros, inacreditado.
— Sim, simples assim, e sei que você consegue. — Pisquei de leve.
— E você acha mesmo que vou me envolver na sua loucura? — questionou, embasbacado.
— Claro que vai, você é meu melhor amigo, tem obrigação de me ajudar. — Olhei-o atravessado.
O meu sonho que estava sendo jogado na fogueira.
— Como pode uma mente como a sua... ser tão brilhante arquitetando planos surreais e tão ineficiente em provas de cálculo? — indagou, com o olhar perplexo.
— Tudo depende do ponto de interesse. — retruquei, olhando-o. — Por acaso, o senhor hacker sabe ler uma partitura, ou tocar algum instrumento? Eu sei!
— Continuo não concordando. — insistiu.
— Mas, mesmo sem concordar, você vai me ajudar. — impus.
— Vai ficar me devendo mais uma. — disse, ao se levantar da cama. — Das muitas que me deve.
— Põe no caderno que depois a gente acerta a conta. — ri de leve, o fazendo rir junto.
— E quando você pretende iniciar essa loucura que está arquitetando? — perguntou, com mais seriedade na voz.
— Quando você vai para Seul?
— Na próxima semana, apesar das aulas começarem só mês que vem, tenho que ir para encontrar um lugar para ficar — respondeu. — Não quero depender dos dormitórios da universidade.
— Fechou então. Vou com você, ainda terei uma semana para deixar meus empregos e terminar de juntar minha grana. — respirei fundo, determinada. — Já que você não vai ficar no dormitório da universidade, vamos morar juntos.
— O quê? — seu olhar de espanto me deixou desacreditada, que era mesmo meu melhor amigo.
— É, e trate de arrumar um lugar com dois quartos. — alertei sem medo. — Ou vosso senhorio vai dormir no sofá.
— Quem você pensa que é? — me olhou com ar de indignação.
— Sua melhor amiga, agora, kojo. — ri de leve, o expulsando do meu quarto. — Tenho que trocar de roupa.
— Eu estava indo embora mesmo. — deu de ombros, enquanto caminhava até a porta.
Ao fechá-la, após, abri o guarda-roupa para pegar meu pijama e a toalha. Um merecido e relaxante banho quente fazia-se necessário, assim que retornei ao quarto, me joguei na cama. Sim, eu iria passar o dia na cama, com o notebook no colo, ouvindo música, enquanto arquitetava meu plano de ser uma trainee e futura artista da Nexus Entertainment.
“Vivendo somente pela razão
Esta ideia amadureceu você?
Você está bem?”
- The Boys / Girls’ Generation
Esta ideia amadureceu você?
Você está bem?”
- The Boys / Girls’ Generation
“O desejado fim da nossa caminhada sem destino,
Eu deixo de lado a tristeza sem fim deste mundo.”
- Into The New World / Girls' Generation
Seoul, inverno de 2023
Eu deixo de lado a tristeza sem fim deste mundo.”
- Into The New World / Girls' Generation
Seoul, inverno de 2023
A semana se passou e com ela, os meus preparativos para a viagem.
Foi triste deixar minhas pequenas e fofas alunas de ballet, um grupo de cinco garotinhas de sete anos. Monótona foi a despedida na padaria onde trabalhava no período da manhã, a ajumma dona gostava muito de mim. Já na loja de instrumentos musicais onde eu era vendedora na parte da tarde, o gerente fez uma breve comemoração de despedida, eu era a melhor vendedora que ele tinha, seria triste para ele obter boas vendas sem mim. Por fim a casa noturna do Donghwa, não foi uma novidade para ele minha saída, afinal eu só estava ali temporariamente para completar a quantia que eu estava juntando.
Morar sozinha em um país como a Coreia do Sul não era fácil.
Eu não queria depender do dinheiro da minha avó, o que ela recebia da aposentadoria do meu avô que foi um fuzileiro naval da Coreia, não era muito. Algo positivo, não estaria sozinha, iria dividir as despesas com . Sexta pela manhã, já estava com tudo em mãos e as coisas mais importantes jogadas na mochila, tinha passado a noite toda arrumando minha mala. Foi estranho pegar as roupas do meu irmão que havia deixado, e pensar que não seria as minhas roupas que eu iria vestir a partir daquele dia, não seria meu nome que as pessoas falariam.
Contudo, tinha um objetivo, mostrar ao novo CEO da Moonlight, com quantas garotas se faz um boy grupo.
— Yah, pensei que tinha desistido. — reclamou , assim que cheguei no aeroporto.
— Só demorei alguns minutos. — retruquei — Estava me despedindo da vovó.
— Hum, vamos, nosso voo é daqui dez minutos.
Foram 11 minutos de voo até chegarmos no Aeroporto de Incheon, e mais uma hora e meia de ônibus até Hongdae, o bairro onde iríamos morar. Hongdae não era um lugar qualquer, era o point dos artistas de rua, o bairro que possuía as noites mais badaladas de Seoul, eu estava me sentindo em casa. Assim que chegamos em frente ao prédio, fiquei um pouco intrigada, a arquitetura não tinha traços de modernidade, mas tradicional também não era, o prédio não parecia nem um pouco novo, mas enfim era o que dava para pagar.
Quatro andares com dois lofts por andar, e moraríamos no terceiro, apesar das escadas a vista era bonita e tinha uma praça perto, que era muito frequentada. Sala e cozinha integrada, fazia o lugar parecer mais amplo e espaçoso, um banheiro e uma pequena varanda na lateral do prédio, que tinha a saída pela cozinha, a única má notícia é que não tinha dois quartos. Dividiríamos o único que tinha, dormindo em uma beliche.
Não seria tão ruim assim.
— Eu fico com a cama de cima. — disse, ao jogar minha mochila na cama como se estivesse marcando território.
— Vá em frente, nunca gostei de altura. — nem se importou e abriu o pequeno guarda-roupa que tinha — Lado direito é meu.
— Sim, minha esposa. — brinquei, rindo da sua cara de senhor certinho.
— Muito engraçado. — se espreguiçou e abriu sua mala para colocar as coisas no lugar — Como pretende fazer sua audição?
Meu melhor amigo era viciado em organização.
— Hum, eu li os novos regulamentos hoje de madrugada enquanto arrumava minha mala, me parece que eles vão fazer uma audição especial. — me sentei na cama embaixo o olhando organizar suas coisas — Os interessados devem se gravar, fazendo sua performance em algum lugar do país e enviar para a empresa, os trinta melhores serão escolhidos para fazer a audição presencial, uma audição que somente dez irão passar. — suspirei fraco — Então esses dez serão avaliados durante um ano e depois escolherão os cinco melhores para treinar para o debut.
— Que complicado. — ele me olhou — Vamos supor que consiga ficar entre esses dez, como vai fazer para esconder seu segredo por um ano?
— Já disse, com sua ajuda. — meu olhar permaneceu sereno e confiante.
— E você acha mesmo que não vai ter que morar no dormitório da empresa? — ele riu da minha cara — Só quero ver.
— Digo a eles que tenho onde ficar. — retruquei — Eu dou um jeito, apenas faça sua parte e me ajude.
Ele ficou em silêncio.
Conseguia notar que segurava o riso. sabia que quando eu queria uma coisa, eu conseguia de alguma forma. Nos juntamos para limpar todo o loft, a decoração ficou relativamente a nossa cara. Outra coisa em comum, nossos gostos até para grupos de kpop e gêneros de filmes eram os mesmos. No final do dia, eu estava desabando de cansaço, aquele lugar era pequeno mais tinha muita sujeira, contudo, sempre me diverti ao fazer tarefas domésticas com meu melhor amigo, quando eu o forçava a me ajudar a limpar a casa da vovó. E ele sempre dava um jeito de fazer ficar divertido.
— Fazia tempos que eu não fazia uma faxina tão pesada. — comentei ao me jogar no sofá de pallet com futon.
— E o que fazíamos na casa da halmeoni? — indagou ele.
— Ela sempre mantém tudo no lugar, e nas últimas vezes ela nem nos deixava fazer tudo. — o olhei — Além do mais, eu nunca teria disposição para essas coisas com minha rotina pesada.
— Isso é verdade. — ele riu.
— Mas agora eu estou livre. — abri os braços sorrindo, erguendo meu corpo — Posso fazer o que realmente quero com minha vida, e para começar, já sei onde vamos gravar meu vídeo.
— Surpreenda-me.
— Pensei em gravar vários takes de mim performando em frente a obras de grafite que existem pelo bairro, então você edita montando todos os trechos de forma legal encaixando a música.
— Uma mesma performance em lugares diferentes, pode ser legal, se você mantiver a sincronia dos passos.
— Sincronia é meu sobrenome. — estava mais do que confiante.
— Hum, vou comprar algo para comer, você quer? — perguntou, pegando sua carteira.
— Estou meio sem fome, mas vou com você, quero me adaptar com o ambiente. — me levantei do sofá — Preciso de ideias para meu vídeo.
— Vamos lá.
Nós saímos em risos e comentários sobre nossa nova situação. O objetivo de somente comprar comida, foi desviado para um longo passeio pelo bairro, o que proporcionou e muito minha escolha dos lugares para o vídeo. A semana foi passando comigo escolhendo a música e desenvolvendo a coreografia, não queria chegar com nada cover, queria mostrar uma dança original.
Enquanto isso, , que não precisava se preocupar com os estudos no momento, estava se empenhando em trocar minha identidade virtual e fazer com que não descobrissem que meu irmão estava em Londres, o que seria segredo até mesmo para meu lindo gêmeo. Ele odiava quando tinha que se passar por mim para fazer minhas provas de cálculo, mas nunca me deixava ficar de dependência em nenhuma matéria, afinal eu era a maknae por uma questão de sete minutos de diferença.
E melhor aluna em literatura!
Das várias habilidades que o meu melhor amigo tinha, uma delas era de edição de vídeo, de certa forma tudo que envolvia computador era seu universo. E foi ele próprio que gravou todos os takes necessários, foram cerca de sete pontos diferentes, muitas vezes repetindo a mesma coreografia, dois dias de gravação e mais três para a edição. Isso porque era rápido e eu estava sempre em sincronia com os passos da dança. Após muito trabalho, fiz meu cadastro no site da Nexus e enviei meu vídeo, meu próximo passo era esperar o resultado final que seria divulgado no final do mês.
Aproveitaria esse momento de calmaria, como um momento de férias para descansar, relaxar e me divertir. Estava nos meus planos, e meu amigo me ajudaria a me adaptar à minha nova identidade. Inicialmente, pensei que me passar por meu irmão era uma coisa fácil, porém, eu só fazia isso por alguns minutos e agora teria que fazer isso por um ano ou mais. Respirei fundo diante do espelho do banheiro e saí, estava vestida com a roupa do meu irmão.
A parte dolorosa foi cortar meu cabelo.
— Uah. — ele me olhou impressionado — Você está, uah, a cara dele, não por ser gêmea, mas realmente parece que estou olhando para o hyung.
— Essa é a ideia. — expliquei.
Era fofo quando chamava meu irmão de hyung, por mais que ele fosse mais velho que nós, ele sempre tratava meu irmão assim, já eu... me explicou de forma desajeitada como eu poderia me comportar, sem comprometer meu irmão e estragar meu disfarce, até mesmo me ensinou a paquerar meninas. Essa parte achei desnecessário, mas se eu fosse me fazer de garoto, tinha que saber como tratar uma garota sendo um garoto.
Foi nesse momento que me lembrei que meu melhor amigo era bem popular na época do colégio, tanto ele quanto meu irmão arrancavam suspiros das garotas sem esforços. Após minha aula básica de como ser um garoto, eu fiz o jantar como gratidão, algo rápido e gostoso, ramen.
— Do que está rindo? — perguntei para ele que não parava de rir desde que começamos a comer.
— Nada, só estou lembrando de coisas. — respondeu ele.
— Ah, fala o que é, me deixa rir também.
— Te olhando com as roupas do hyung, me lembrei de quando você se passou por ele e uma menina veio se confessar, pensando que era ele e você ficou sem saber o que fazer.
— Verdade. — eu comecei a rir — E acabei fazendo a menina chorar.
— E depois fez o hyung pedir desculpas no seu lugar.
— Sim. — ri um pouco mais.
— Foi engraçado ver sua cara de desespero quando a garota saiu correndo e chorando.
— Eu quase acabei com a imagem do meu irmão por causa disso, o oppa sempre ficava pra me matar.
— Mas ele sempre te protegeu.
— Porque ele é meu irmão mais velho, tem que me proteger.
— Sei. — ele riu — Como se você precisasse.
Lembrar das vezes que eu fingia ser o oppa, me fazia pensar no que deveria ou não fazer e como agir estando disfarçada, ainda mais que eu não queria que ele soubesse, não queria trazer problemas para ele. Os dias foram se passando, até que finalmente recebi o e-mail de resposta, eu tinha passado, estava entre os trinta que fariam a audição presencial, não sabia se ficava feliz ou apavorada, tinha passado não como , mas sim como meu irmão.
— Você passou. — disse , parando atrás de mim e olhando meu e-mail.
— É, tenho dois dias para me preparar. — disse desviando meu olhar para ele — Em dois dias passarei a ser meu irmão.
— Te desejo sorte. — disse ele se afastando um pouco.
— Obrigada. — fechei o e-mail — Vou precisar, e da sua ajuda também.
— Yah, já me envolvi o suficiente. — ele caminhou em direção a geladeira — E a partir de amanhã, vou focar nos meus estudos.
— Aish. — murmurei — Menino chato.
Nesses dois dias que tinha, utilizei todo meu tempo para praticar ainda mais o jeito do meu irmão andar e falar, era estranho, mas não poderia deixar passar cada detalhe, teria que ser impecável. Eu estava concentrada na minha audição, enquanto isso, estava animado com sua primeira semana de aula, ainda mais com os materiais de artes que ele tinha comprado. Aparentemente, meu calouro favorito de engenharia da computação, tinha se juntado ao clube de design gráfico, ele era louco por fotografia e lettering.
Vai entender…
Mas confesso, até eu fiquei admirada com a variedade de cores de lápis que existia em um estojo de 120 cores.
Sua empolgação era maior que de uma criança em festa infantil.
— É hoje! — disse pegando minha mochila — Já estou indo.
— Quer que eu te acompanhe? — perguntou ele, pegando seu tubo de folhas.
— Você não tem aula? — perguntei.
— Tenho, mas só daqui duas horas, agora pela manhã eu vou encontrar o pessoal do clube, eles resolveram fazer palestras de prática em desenho ocidental, não preciso disso.
— Ai, rei do desenho. — eu segurei o riso — Então, vamos.
— Sou mesmo. — ele riu — Faço engenharia porque gosto de cálculo.
— Tu é um surtado, como meu irmão. — comentei, fazendo uma careta.
— Como você. — brincou ele, me lembrando da minha identidade falsa.
Um momento de silêncio… E caímos na gargalhada.
Como prometido, me acompanhou até a porta da Nexus. Nos olhamos por alguns segundos e ele deu um impulso para me abraçar, porém, parou no meio e voltou seu corpo, estendendo sua mão direita levou até o alto da minha cabeça e bagunçou meu cabelo um pouco. Eu ri de leve, com ele me desejando boa sorte e dizendo para eu ligar assim que tudo terminasse, assenti e me afastei indo em direção a porta do prédio.
— Hum. — eu tossi um pouco ao me aproximar de uma staff, precisava engrossar um pouco minha voz — Bom dia, eu vim para a audição.
— Ah. — a moça me olhou de baixo para cima e desviou sua atenção para um papel em sua mão — Qual seu nome?
— Joseph, Park Joseph. — respondi com o nome do meu irmão, entregando a folha com o e-mail impresso.
— Hum, vejamos. — ela passou o olho na lista — Me acompanhe, por favor.
Assenti com a cabeça.
Saímos da recepção e seguimos por um corredor largo e longo, descemos algumas escadas e chegamos no grande auditório, já tinha muitos garotos esperando lá também. O novo prédio da Nexus tinha seu lugar no mundo da arquitetura, e tinha que admitir que era infinitamente mais bonito e atraente que o antigo prédio da Moon. Mais recursos, mais qualidade. Respirei fundo e continuei caminhando atrás dela até chegar ao palco, outro staff se aproximou e me colocou sentada em uma das cadeiras do auditório. Pelo que entendi, todos os candidatos estavam sentados enfileirados e seriam numerados, de acordo com sua nota na primeira aprovação.
Meu número era o sete, não estava triste já que eu gostava daquele número e para uma garota vestida de garoto, entre trinta estar em sétimo, era lucro.
— Cavalheiros, sejam bem-vindos a segunda etapa da audição especial da Nexus Entertainment! — disse uma mulher ao subir ao palco, ela trajava um vestido preto com um sapato maravilhoso, a reconheci logo, era a senhorita Jang — Nessa etapa teremos duas partes, a primeira formaremos dois grupos de quinze, que terão que seguir uma coreografia estipulada pelo senhor Ong, nosso coreógrafo geral, o grupo que mais se destacar será escolhido para a segunda parte.
Já poderíamos imaginar que o grupo perdedor voltaria para casa.
— A segunda parte vamos dividir o grupo vitorioso em três equipes e cada equipe terá uma hora para preparar uma performance improvisada… — continuou ela, em um tom ainda mais rígido.
Os garotos começaram a cochichar entre si.
Seria um massacre em forma de audição, como ouvi do garoto atrás de mim.
— Por fim, serão escolhidos os dois melhores grupos para serem os dez trainees durante um ano. — concluiu ela — Vocês serão avaliados por mim que no futuro atuarei como a manager do grupo debutante, pelo senhor Ong, pela senhorita Mills, nossa treinadora vocal, pelo senhor Lobato nosso diretor comercial e pelo CEO da Nexus, o senhor Cho .
— Filho da… — sussurrei para mim mesma.
— Então vamos começar pelo primeiro grupo a se apresentar. — Jang deu dois passos para a borda do palco — Para que não houvesse nenhuma forma de privilegiar nenhum dos candidatos, principalmente os mais pontuados, decidimos dividir os grupos em par e ímpar, então todos os candidatos com número par, são do grupo um e os candidatos com números ímpares, são do grupo dois.
Em ordem todos os candidatos do primeiro grupo caminharam em direção ao palco. O senhor Ong se posicionou de frente para eles, a primeira fileira da plateia estava reservada para os jurados. E por mais que eu não quisesse, meus olhos estavam fixados em uma pessoa, o monstro que poderia destruir a Nexus, com suas ideias descartáveis.
Foram dez minutos de coreografia para o primeiro grupo. Não eram quaisquer passos, aquele coreógrafo era nascido de um boombox, outro massacre em forma de passos de dança. Contudo, olhando de longe, eu conseguia assimilar o ritmo aos passos, uma pena que certamente na minha vez seria outros. Assim, trocamos de lugar, o grupo um foi para seus lugares e o grupo dois subiu ao palco, para minha sorte ou não, eu estava na primeira fileira, eles me veriam com clareza, mas se eu errasse, seria meu fim.
Mais dez minutos, os movimentos pareciam mais difíceis quando se dançava, tinha pegado com rapidez e clareza. Minha especialidade, afinal, dançava desde criança por influências do meu falecido avô. Quando terminamos, voltamos para nosso lugar e os jurados se retiraram por alguns minutos, momento de aflição, pois a vitória não dependia somente de mim, mas de todos do meu grupo.
— Bem, vou anunciar nossa decisão agora. — disse a senhorita Jang, desviando seu olhar para por alguns instantes.
— Dois, dois, dois. — sussurrei.
— O grupo que fará a segunda parte será. — ela olhou para todos nós fazendo um pouco de suspense — O grupo dois.
Um suspiro de alívio saiu de mim, estava com a mão no meu coração.
Os eliminados saíram do auditório, frustrados e decepcionados, fazia parte da vida, uma hora se ganha, outra se perde. Enfim, a senhorita Jang continuou falando os números de forma aleatória para formar os três grupos da segunda parte, iniciando a batalha dos gladiadores, e fiquei no grupo dois novamente. Os garotos até eram legais e muito comunicativos, exceto um, chamado Junseo, e me incomodou o jeito que ele me olhava. Passamos vinte minutos discutindo sobre as músicas, não conseguindo entrar em acordo com nada. Era complicado ter que trabalhar com mais quatro pessoas com estilo e gosto diferente do seu.
E certamente isso fazia parte do teste, afinal o ponto principal dessa fase era saber trabalhar em grupo.
— Por que não fazemos uma junção de tudo? — sugeri — Eles não querem ver um cover de outro grupo, querem ver algo novo e improvisado, mas que seja de qualidade.
— Não dá para gravar uma música em quinze minutos. — Jaehyun me olhou com desdém — Menos ainda uma coreografia.
— Eles querem artistas de verdade e não rosto bonito. — joguei essa verdade na cara dele, tinha que admitir que ele era lindo — Se não consegue, pode desistir.
— O que sugere então? — retrucou, com olhar desafiador.
— Poderíamos começar com os rappers, é mais fácil improvisar no rap, então os vocais poderiam bolar um refrão fácil de gravar. — expliquei — E quanto a coreografia, fica por conta dos dancers.
— A ideia não é ruim. — disse Junseo — Dependendo do que os rappers vão dizer, acho que posso pensar em algo que se encaixe.
— Devo presumir que você é vocal? — perguntei.
— Com muito orgulho. — assentiu.
Já gostei dele, me apoiou na ideia maluca.
— Já que é para improvisar, podemos quebrar a banca? — perguntou Jung — Uma letra desafiando os jurados a nos escolher, dizendo que somos a melhor opção.
— Achamos nosso rapper, dependendo do que você quer falar, posso te acompanhar. — disse gostando da ideia.
— Legal. — concordou Jung.
— Você também é rapper? — perguntou Joy — Porque eu sou vocal.
— Eu sou mais dancer, mas gosto de rap também. — respondi.
— E você Jaehyun? O que é?
— Visual?! — disse lançando uma indireta.
— Visual? — ele me olhou dando um sorriso irônico — Eu sou um dance machine.
Aquilo soou como uma declaração de guerra.
Enquanto eu e ele permanecemos nos encarando, os outros nos olhavam assustados, até que Junseo entrou no meio e nos fez perceber que nossos rivais eram os outros grupos. Naquele momento só faltava trinta minutos, nossa meta era entrar em harmonia e conseguir fazer algo que chamasse a atenção dos jurados.
Difícil, mas não impossível.
O tempo terminou, aproveitamos enquanto o primeiro grupo se apresentava, para terminar de sincronizar nossos movimentos do refrão, acertar o tempo para o rap e definir a parte em que os dancers iriam se destacar. Para algo preparado em dez minutos, eu fiquei impressionada com o grau de dedicação de cada um, inclusive de mim. Subimos no palco enfileirados e nos posicionamos, todos de costas para os jurados, a melodia que tínhamos pedido para tocarem iniciou, então começamos cantando o refrão, Jung foi o primeiro a se virar iniciando o rap, depois o Joy e o Junseo viraram para cantar o refrão. Eu e Jaehyun seríamos os últimos, viramos juntos fazendo alguns movimentos mais complexos, enquanto eu fazia minha parte de rap. Mais uma vez cantamos o refrão juntos.
Para finalizar, todos os outros se viraram de costas ainda enquanto caminhavam para o final da canção, com Jung fazendo algumas partes de rap sincronizadas, deixando apenas eu e Jaehyun de frente para os jurados. Era nosso momento de mostrar o poder dos dancers, nossos passos não estavam sincronizados, mas era harmônico cada um a seu estilo, finalizando tudo com um free step improvisado.
Eu fiz um free step…
E pude perceber a surpresa nos olhos da senhorita Jang, antes de descer do palco. Depois da apresentação do terceiro grupo, os jurados se retiraram novamente para a decisão, porém somente a nossa futura manager retornou. Com o nosso destino nas mãos, respiramos fundo quando ela começou a agradecer por termos escolhido a Nexus, e não sei o quê, mas percebi que tinha parado de respirar quando ela disse que um grupo tinha se destacado mais que os outros.
— Por fim, não vou mais me prolongar, os grupos que vão passar são grupo dois e grupo três.
Eu voltei a respirar na mesma hora, estava aliviada, tinha passado e era oficialmente uma trainee da Nexus Entertainment, ou melhor, um trainee.
— Aos eliminados agradeço a presença, os staffs acompanharão vocês até a saída, para ambos os grupos escolhidos, gostaria que se sentassem, tenho algumas informações para repassar.
Nós nos sentamos nas fileiras da frente, enquanto ela pegava uma cadeira para se sentar no palco, a senhorita Jang parecia ser uma pessoa legal de se trabalhar, mas sua face era muito séria e dava medo.
— A partir de agora vocês são oficialmente trainees da Nexus, então espero que se comportem como trainees. — ela olhou para alguns papéis que estavam em sua mão — Continuando, vocês permanecerão com os mesmos grupos, essa foi uma decisão do CEO, por achar que ficam bem separados assim, o grupo dois se chamará T1 e terá Junseo como líder por ser o mais velho, já o grupo três se chamará T2 e terá Dong como líder por ser o mais velho também. — e continuou ao sentar na cadeira — Vocês terão dormitórios separados para cada um dos grupos, e daremos duas horas para trazerem suas coisas, o treinamento de verdade começa amanhã às seis da manhã.
Agora era real, mas só tinha um problema: Como eu poderia ficar naquele dormitório? A senhorita Jang se afastou indo em direção a saída, eu me levantei correndo e fui atrás dela, tive que me desviar de alguns staffs até alcançá-la.
— Senhorita, senhorita?! — disse, recuperando o fôlego.
— Sim? — ela me olhou assustada por minha chegada repentina.
— Eu não posso ficar no dormitório. — disse.
— Por que não? — parecia confusa.
— Problemas pessoais, mas eu prometo que independentemente de estar lá ou não, estarei aqui às seis da manhã, se quiser eu chego às cinco. — pedi quase implorando.
— Você é quem sabe, mas espero que isso não atrapalhe seu rendimento. — com clareza nas palavras.
— Eu juro, não vai, serei o melhor trainee que essa empresa já teve.
— Tudo bem então.
Sim, eu seria a melhor trainee que a Nexus poderia ter, e não seria a distância do loft à empresa que me atrapalharia. Assim que cheguei em casa, já estava sentado em frente à mesa de desenho, eu cheguei por trás e o abracei.
— Adivinha quem passou?! — disse empolgada.
— Sério? — ele me olhou sorrindo — Parabéns.
— Sim, sobrevivi ao massacre da audição.
— Mas e agora? E vai poder ficar aqui?
— Sim, desde que consiga chegar às seis na Nexus e não atrapalhe meu rendimento.
— Te desejo sorte, então. — ele me abraçou — Não se preocupe, vou te acordar todos os dias e se quiser te acompanho até lá, agora que tenho uma moto, será mais fácil chegar no horário.
— , você é o melhor amigo do mundo! — o abracei novamente.
— Eu sei, por isso quando você for famosa, vai me descolar o número de telefone da Lisa do BlackPink.
— Yah, seu interesseiro. — o empurrei de leve o fazendo rir.
Interesseiro ou não, eu sabia que podia contar com ele, e isso me deixava ainda mais animada para meu um ano como trainee. Acho que não seria tão ruim assim me passar pelo Joseph durante aquele tempo.
"Caminhando pelos diversos e desconhecidos caminhos,
Eu sigo uma luz fraca,
É algo que faremos juntos até o fim,
No novo mundo."
- Into The New World / Girls' Generation
Eu sigo uma luz fraca,
É algo que faremos juntos até o fim,
No novo mundo."
- Into The New World / Girls' Generation
“Garoto, você não é melhor que eu, não
Você acha que você é realmente bacana
Você acha que você é realmente bacana
Está na hora de acabar com a sua ilusão
Garoto, você não é melhor que eu, não.”
- You Think / Girls' Generation
Seoul, primavera de 2023
Você acha que você é realmente bacana
Você acha que você é realmente bacana
Está na hora de acabar com a sua ilusão
Garoto, você não é melhor que eu, não.”
- You Think / Girls' Generation
Seoul, primavera de 2023
Os dias se passaram e deu para sentir, a rotina era sim muito desgastante, estava com dó de por me acompanhar todos os dias, eu realmente não imaginava que era tão dolorido ser um trainee. Nosso treino começava às seis em ponto, fazíamos exercícios físicos e uma hora de corrida, depois do café da manhã, aula de canto com a senhorita Mills. Aprendi que ela era ainda mais exigente que o coreógrafo Ong, pois sempre nos colocava para fazer uma série de exercícios vocais e aquele que desafinasse, sempre ficava uma hora a mais na aula.
Após o almoço, era a aula de rap, eles tinham convidado o artista rapper da empresa H.B para nos ajudar nessa parte e teríamos aula com ele duas vezes na semana. Até mesmo os vocais participaram, todos tinham que saber pelo menos o básico, e enfim após o café da tarde era a aula de dança.
Retiro o que eu disse.
O senhor Ong era sim o pior de todos, fazia até pessoas apaixonadas com a dança, como eu, querer não dançar por um bom tempo. Para a não surpresa de alguns, eu e Jaehyun éramos os únicos que conseguíamos acompanhar os passos sem errar, acho que já estava visível a nossa rivalidade. A senhorita Jang acompanhava a maioria das aulas, sempre perguntando sobre meu rendimento. Acho que ela não acreditava que eu conseguiria, morando longe.
— Boa tarde, trainees. — disse nossa manager, após nos reunirmos na sala de ensaio — Amanhã vocês terão um ensaio fotográfico, vamos anunciá-los oficialmente à imprensa e colocar seus perfis no site da empresa.
— Uah, que legal. — sussurrou Joy, atrás de mim — Vamos ser reconhecidos na rua agora.
— Durmam cedo hoje que amanhã o carro da empresa estará aqui para pegar vocês às seis na porta. — ela olhou para mim como um tipo de indireta — Eu irei acompanhar pessoalmente o ensaio, trabalhem duro, pois a partir de agora vocês terão que brigar pela popularidade entre os trainees.
Ela saiu da sala tranquilamente, deixando a faísca para uma terceira guerra mundial acesa, os times se olharam, meu olhar estava fixo em Jaehyun, pois sentia que ele era o único rival a minha altura. O T2 saiu da sala de ensaio também, acho que eles iriam confabular algum plano para conquistar a vaga.
— Que comecem os jogos. — brincou Joy, rindo — E que a sorte esteja sempre a seu favor.
— Estou mesmo me sentindo em um jogo vorazes. — comentou Jung — Ela falou como se quisesse que a gente se matasse.
— Isso é tudo para colocar mais pressão na gente. — disse Junseo — Vamos continuar trabalhando duro e mostrando a eles que somos a melhor escolha.
— Será que eles mantiveram os grupos inalterados para isso? — sibilei um pouco — Porque no final, ou eles debutam o grupo T1, ou o T2?
— Sempre pensei que eles formariam o grupo no final e nós seríamos avaliados individualmente. — Jung me olhou — Mas agora, concordo com você, Joseph, acho que estamos sendo avaliados em grupo.
— Então, não somos rivais, mas sim aliados. — concluiu Junseo — E se for mesmo assim, acho melhor vocês dois pararem de competir entre si e se unir.
Aquela era para Jaehyun e eu, era ruim admitir, mas nosso líder estava certo, tínhamos que nos unir como grupo para ganhar nosso debut.
— Acho que uma trégua é válida. — concordei.
— Como vocês são mais carismáticos, poderia até usar isso para dar popularidade ao nosso grupo. — sugeriu Jung.
— É um caso a se pensar, de qualquer forma eu serei o mais popular. — Jaehyun sorriu de canto.
— Veremos. — eu não iria deixar barato aquela afronta.
As horas se passaram e eu voltei para casa. Para minha surpresa estava vendo televisão, eu deixei minha mochila ao lado da porta e me aproximei dele e coloquei a mão em sua testa para me certificar que ele não estava com febre.
— O que está fazendo? — perguntou ele.
— Vendo se está bem. — respondi.
— Por quê?
— Você não está estudando. — expliquei.
— É porque estou vendo um documentário sobre cibercrime. — disse ele.
— Está explicado, está estudando. — ri indo para o banheiro — Tem comida, esposa?
— Sim, eu fiz ramen, marido. — brincou, respondendo.
Tomei um banho relaxante, comi o ramen e me joguei na cama.
Não era difícil pegar no sono com tanto cansaço acumulado em meu corpo, a coisa estava tão intensa que eu não consegui acordar a tempo de chegar no dia seguinte. Fiquei desesperada quando cheguei atrasada na empresa e o carro já tinha saído, olhei frustrada para , sem saber o que fazer e com medo de ser repreendida. Meu amigo me acalmou primeiro, então com a mente mais clara, consegui pegar o endereço do lugar com a professora Mills. O que foi um milagre, ela me ajudar.
Com o endereço na mão, poderia ir de táxi até o lugar, mas não deixou. Escolheu matar a sua aula de Álgebra Linear, para me levar de moto até o lugar. Eu já estava devendo tanto para ele, aquilo entraria para a lista em dose dupla. Assim que chegamos, desci da moto tão rápido que nem agradeci a carona, corri em direção ao prédio, entrei desesperada na recepção, a recepcionista me apontou o caminho. Subindo escadas e correndo pelo corredor, acabei trombando em uma pessoa, no impacto, me desequilibrei e caí puxando-a junto comigo.
Paralisei ao ver quem era.
— Me desculpe. — sussurrei para ele, nossos olhos estavam um no outro.
— Quem é você? Sai de cima de mim. — o presidente parecia nervoso e sua voz estava bem alterada
— Me desculpe. — eu me levantei rapidamente, mantendo minha cabeça abaixada e me curvando enquanto repetia — Me desculpe, senhor.
— Você, reconheço seu rosto, é um trainee? — disse se aproximando um pouco mais.
— Sim. — assenti.
— O que está fazendo aqui sozinho? Não deveria estar com os outros? — indagou.
— Bem, eu perdi a saída do carro, então vim direto. — me curvei de leve, estava odiando aquilo, ter que pedir desculpas para ele — Eu me atrasei.
— Atrasou? — ele riu de leve, e descontraído — Na verdade, você foi o primeiro a chegar.
— O quê? — saiu com perplexidade.
Não acredito nisso.
— Qual o seu nome?
— É… — respirei fundo, quase que dizia meu nome de verdade — Joseph. Park Joseph.
— Hum, o trainee do grafite, filho de dois mundos. — soou com curiosidade, enquanto me olhava de baixo para cima — Seu vídeo me impressionou, gosto de pessoas criativas.
— Obrigado. — seu elogio que me impressionou, pensei.
— Bem, me parece que seus companheiros chegaram. — ele olhou para frente.
Eu me virei, e os outros estavam vindo em nossa direção acompanhados pela senhorita Jang, a cara dela de surpresa em me ver ali, foi a salvação do meu dia. Eu fiquei intrigada com o sorriso de Junseo ao me ver, parecia que ele estava feliz por eu ter conseguido.
— Bom dia. — disse os cumprimentando.
— Como chegou aqui antes de nós? — perguntou ela.
— Bem, acho que o que importa é que estou aqui. — respondi num tom educado e baixo.
— Bom dia, senhor Cho. — ela desviou o olhar para ele — Me desculpe pelo contratempo.
— Não foi nada. — olhou para mim — Gosto de pessoas pontuais.
Todos se espantaram, acho que ele estava se referindo a mim, dois elogios no mesmo dia. Eu não estava bem. A senhorita Jang nos acompanhou até os camarins que estavam preparados, cada time tinha o seu, teríamos vinte minutos para nos arrumar.
— O que você fez? — perguntou Joy, ao sentar na cadeira.
— Eu juro que não fiz nada. — respondi a ele — Ou melhor, entrei correndo achando que estava atrasado e trombei nele.
— Você o quê? — Junseo me olhou — E o que ele fez?
— Nada, só perguntou quem eu era e disse que tinha gostado do meu vídeo para a audição.
— Que bom. — ele suspirou aliviado.
— Por que ficou tão preocupado? — perguntou Jaehyun.
— Porque somos um grupo, temos que nos proteger. — explicou Junseo — Além do mais, estamos sendo avaliados em conjunto.
— Isso é verdade. — concordou Jung.
— Estou aqui pensando, acho que estamos em vantagem e podemos tirar proveito disso. — Joy me olhou com uma cara de quem estava planejando algo.
— No que está pensando? — perguntei.
— Ele gostou de você. — explicou ele — Se você virasse amigo dele, poderíamos ter mais créditos.
— O quê? — aquilo era um absurdo, eu não seria amiga, ou melhor amigo, de alguém que eu não gostava — Não.
— Não é de todo uma má ideia. — Jaehyun me olhou — Vale lembrar que a senhorita Mills gosta mais do T2 por causa do Dong, e já percebemos que a senhorita Jang não vai com a sua cara.
Aquilo era um absurdo, mas tinha que concordar, ela não gostava mesmo de mim e eu nem sabia o motivo.
— Ou seja, dois pontos para o T2. — concluiu Joy — Se você for amigo dele, podemos igualar, ele é o CEO, o voto dele deve valer por dois, ou três.
— Vocês são uns mercenários, querendo me usar para ganhar vantagem. — falei com um tom de ofendida.
— Joseph, meu amigo. — Jung colocou a mão no meu ombro — Você quer ou não debutar? Tenho que admitir que a ideia do Joy é maravilhosa.
— Junseo. — olhei para ele — O que você acha?
— Não acho certo, me parece uma forma de trapacear. — ele parecia do meu lado, me defendendo, como um irmão mais velho — Mas, é você quem deve decidir.
— Ele tem razão. — Jung se afastou um pouco de mim — A decisão é sua.
— Mas pense na vantagem que seria. — completou Joy.
— Vou pensar, não prometo nada. — respondi.
Os meninos continuaram conversando, enquanto isso eu peguei minha roupa e saí, tinha que me trocar no banheiro, quando cheguei na porta, fiquei alguns segundos olhando. Não conseguia decidir se entrava no masculino, ou me arriscava no feminino, foi quando senti uma mão atrás de mim.
— Também tem vergonha de se trocar na frente dos outros? — perguntou Junseo, aparecendo ao meu lado.
— Sim. — respondi, aliviada.
— Com o Jaehyun perto dá até inveja mesmo. — ele riu um pouco — Vamos, a não ser que seja um pervertido e queira entrar no banheiro feminino. — brincou ele.
— Não. — protestei entrando no banheiro masculino antes dele.
Junseo era uma pessoa muito observadora. Às vezes me intrigava com seus comentários, sempre estava preocupado comigo, acho que fazia isso por eu ser a maknae do grupo. Nos trocamos no reservado e voltamos ao camarim, após arrumar o cabelo e fazer a maquiagem, seguimos para o espaço que seria a seção de fotos. Como nos demoramos muito, o T2 já estava fazendo as fotos na nossa frente, mas a culpa do nosso atraso foi do Joy e suas brincadeiras, ele acabou demorando para se trocar. Primeiro foram as fotos individuais, depois em grupo, não era porque eu estava no grupo, mas o T1 era muito fotogênico, e eu tinha que admitir que Jaehyun ficava maravilhoso nas fotos.
Tive que conter meu olhar de admiração.
— Vai ser difícil competir com essa máquina de sedução chamada Jaehyun. — brincou Joy, enquanto fazíamos a pausa das fotos.
— É, ele parece um modelo. — concordei.
— E você parece um bebê, suas fotos ficaram fofas. — elogio Junseo rindo — O rei do aegyo.
— Fala assim porque eu sou o mais novo. — disse rindo.
— Talvez. — concordou ele, enigmaticamente.
— O que importa é que nossas fotos ficaram perfeitas. — Jaehyun se aproximou de nós — Tenho certeza de que seremos os mais votados.
— Já estou escolhendo até o nome para meu fandom individual. — disse Joy, com cara de pensativo — Acho que vou chamá-las de jolys.
— O quê? — Jung riu dele — Só você.
— Eu gostei. — disse rindo também — Jolys é legal.
— Vocês viram, que o CEO parou para ver nossas fotos? — comentou Jung.
— Não reparei. — disse olhando discretamente para a direção de .
— E eu volto a lembrar da vantagem que podemos ter. — Joy me olhou sugestivamente.
— Já disse que vou pensar. — voltei meu olhar para o cenário.
— Quanto tempo será que vamos ficar aqui? — perguntou Jaehyun — Ouvi a senhorita Jang dizendo que tinha cancelado todas as nossas aulas.
— Acho que vamos ficar o tempo que for necessário. — respondeu Junseo — E no que depender daquele fotógrafo, passaremos o dia aqui.
De fato, passamos o dia naquele lugar, e tiramos algumas fotos ao luar também. Eu estava quebrada e destruída de tão cansada, nunca mais falo mal de modelo, foi tão difícil agradar aquele fotógrafo, para ele o ângulo nunca estava bom o bastante. O carro nos deixou na porta, os outros entraram, enquanto eu fui para o ponto de ônibus acompanhada por Junseo.
— O que achou de hoje? — perguntou ele.
— Cansativo, mas divertido. — respondi — Gostei de ser fotografado.
— Eu também, ser um trainee está sendo uma experiência marcante e única, imaginar que deixei muitas coisas para estar aqui. — ele me olhou — Você também se sente assim, como se tivesse incompleto às vezes?
— Incompleto como?
— Longe de casa, da família.
— Me sinto às vezes, mas estou morando com um amigo, isso me dá forças para continuar.
— Deve ser muito duro para você ir e voltar todos os dias. — comentou.
— Sim, mas vale o sacrifício.
— Por quê? Fico me perguntando o motivo de não morar no dormitório.
— Bem. — eu nunca tinha dado o motivo certo — Coisas pessoais.
— Mesmo tendo coisas pessoais, acho que não deveria se arriscar tanto, vejo quando chega com seu amigo, mas sempre vai embora sozinho. — ele desviou seu olhar para o céu — Mesmo sendo um garoto, o mundo é perigoso, além do mais, hoje você quase se atrasou, se não estivesse lá quando chegamos, poderia prever que a senhorita Jang te expulsaria.
— Ela não gosta mesmo de mim. — eu respirei fundo — Mas não se preocupe, hyung, eu vou ficar bem, já temos três meses, eu acho que consigo ir além.
— E se debutarmos? Como vai ficar, já pensou nisso? — ele me olhou novamente — Você não vai poder morar longe da empresa para sempre.
— Oh, o ônibus. — desviei meu olhar para a rua — Até amanhã, hyung.
— Até. — sussurrou ele.
Entrei no ônibus pensando em suas palavras, ele estava certo, a cada dia eu tinha ainda mais dificuldade de chegar pontualmente, mesmo com a ajuda de , precisava dar um jeito de conseguir ficar no dormitório e ninguém descobrir meu segredo. Quando cheguei em casa já passava das onze, o ônibus tinha quebrado no meio do caminho.
— Uau, hoje você superou na hora de chegar. — disse , assim que entrei.
— O ônibus que eu estava quebrou, tive que esperar pelo próximo que passou atrasado.
— Que falta de sorte. — comentou.
— Nem me fale, mas tenho que te agradecer por ser a minha sorte hoje de manhã. — eu o abracei — Komaweyo!!!
— Então conseguiu?
— Não só consegui, como cheguei antes deles.
— Que bom. — ele se afastou um pouco de mim indo em direção a cozinha — Está com fome? Te faço um sanduíche.
— Não, eu comi lá. — sentei no sofá, respirando fundo — Preciso te pedir um conselho.
— Diga, sou sua esposa, estou aqui para isso. — ele se virou me olhando, se encostou na bancada.
— Acho que não terei como escapar, estou me dando conta que tenho que morar no dormitório, o que você acha?
— Já pensei sobre isso hoje, você se atrasar, está ficando mesmo complicado para fazer esse trajeto todo dia. — concordou ele.
— É, se não tem outro jeito, acho que terei que me mudar.
— Seja cuidadosa, mais ainda.
— Pode deixar, eu serei, ninguém vai saber que eu sou uma garota.
Foram se passando as semanas.
Eu tinha me mudado para o dormitório, era complicado conviver com quatro garotos que eu não conhecia, e fazer eles acharem que eu era um garoto também. Tinha que trancar a porta do banheiro sempre e do meu quarto com frequência, que por sorte era só meu, já que Junseo aceitou dividir o quarto com Jung, para que eu pudesse ficar com o quarto que estava sobrando. O ponto mais crítico era saber que Jaehyun dormia somente de cueca e sempre saía do banheiro enrolado na toalha, imagina meu sacrifício em não olhar para as pequenas gotas de água que escorriam pelo seu abdômen.
Joy sempre fazia algumas piadas de como eu agia como uma garota em alguns momentos, isso fazia meu corpo gelar. Mas Junseo sempre me defendia, ficando do meu lado, e ainda estranhava aquilo dele, mas era legal ter alguém cuidando de mim.
— Aonde você vai? — perguntou Jung, que estava vindo da cozinha com um sanduíche na mão.
— Vou ensaiar um pouco. — respondi tranquilamente.
— A essa hora?
— Bem, compus uma música, e agora estou ensaiando uma coreografia para ela, para mostrar para o CEO. — expliquei — Então vou usar a sala de ensaio, enquanto não tem ninguém.
— Você está mesmo se empenhando para virar amigo dele.
— Não é esse o plano?! — o lembrei.
Sim, após muita insistência de Joy.
Dei início ao plano de me tornar próxima de , não seria difícil já que ele começou a acompanhar também nossas aulas e ensaios. A cada dia que eu convivia mais com ele, mais eu ficava confusa com meus sentimentos. Tinha raiva e repulsa por ele, mas quando estávamos perto um do outro conversando, o CEO mercenário parecia ser uma pessoa totalmente diferente do que eu pensava. era uma pessoa educada e gentil, além de inteligente e bonito, e pior, a voz dele era sim perfeita quando ele cantava.
— Ah, não está dando certo isso. — disse ao errar pela quinta vez minha própria coreografia, sentei no chão por um momento e olhei meu reflexo no espelho da sala.
— Joseph?! — disse alguém da porta.
— hyung. — eu me levantei, o olhando.
— O que faz aqui? — perguntou ele.
— Estava ensaiando, mas acho que vou desistir. — um suspiro fraco.
— E desde quando trainees desistem? — ele riu, vindo em minha direção.
— Não estou conseguindo conectar meus passos na música.
— Posso ver? — perguntou ele.
— Não. — respondi — É uma surpresa para você, em agradecimento por me dar tantas dicas e conselhos, quero ser a melhor trainee da Nexus.
— A?! — ele me olhou confuso.
— O, eu quis dizer o melhor trainee.
— Está tão cansado que está até trocando as palavras. — ele riu — Acho melhor parar por hoje e descansar, um trainee deve cuidar da saúde também.
— Tem razão, obrigado por mais um conselho. — eu não entendi, como ele podia ser tão legal comigo, logo comigo.
— Vem, vamos dar uma volta.
— Para onde? — perguntei.
— Vamos só caminhar, preciso de um amigo para conversar e você é meu amigo agora.
— Ok. — assenti meio sem entender.
Nós saímos do prédio da gravadora e começamos a caminhar pela rua sem um destino certo, eu não imaginava o que ele queria falar, mas ele parecia triste, dava para ver que queria desabafar.
— Você tem estado muito silencioso ultimamente. — comentei puxando assunto, após um longo silêncio — Aconteceu alguma coisa?
— Várias. — ele respirou fundo — São coisas que vem acontecendo, se acumulando em minha vida… As pessoas pensam que eu tirei a sorte sendo filho do meu pai, outras pensam que aceitei a fusão e estou na empresa para destruir tudo, por não saber gerenciá-la, está sendo difícil ser eu.
Acho que eu me incluía na segunda leva de pessoas, estava começando a me sentir mal, por julgar alguém sem conhecer, mas ainda não engolia o fato dele tirar as audições femininas.
— Com grandes poderes vem grandes responsabilidades. — disse tentando descontrair.
— Sim. — ele riu — Só você para me fazer rir disso.
— Sou seu amigo, amigos são para isso.
— Eu também achava isso. — ele continuou olhando para frente — Mas há dois anos me decepcionei com meu melhor amigo.
— O que ele fez? — perguntei curiosa.
— Estragou meu debut, roubou minha noiva e colocou meu pai contra mim. — com a voz regada a frustração e visível raiva, fez uma pausa, parecia segurar as emoções — Só não fui expulso da empresa, porque metade era da minha mãe e ela ficou do meu lado, mas nunca mais terei a confiança do meu pai de novo, mesmo com o acordo e a entrada da Nexus… nada vai voltar a ser como antes.
— Que amigo filho da mãe. — sussurrei para mim mesma, olhei para ele e o parei, essa parte da história não sabia — Mesmo que não volte a ser como antes, você pode fazer com que seja melhor que antes, não pode mudar o passado, mas pode decidir seu futuro.
— É o que estou fazendo, este grupo que quero debutar, será uma prova para meu pai que sou capaz, conto com sua ajuda, meu novo amigo. — ele sorriu de leve.
— Eu vou te ajudar, seu pai irá se orgulhar de você. — eu o abracei no impulso.
ficou imóvel, parecia não saber como reagir, de repente eu me lembrei que não deveria fazer aquilo, eu era um garoto aos olhos dele, logo me afastei meio sem saber o que dizer.
— Abraço encorajador. — ele riu — Você é um garoto meio incomum, soube disso desde que vi seu vídeo.
— Obrigado. — estava meio envergonhada, e meu coração acelerado.
— Fico triste pela senhorita Jang pegar tanto no seu pé. — ele desviou seu olhar para frente — Ela é uma amiga de infância, crescemos juntos, o pai dela era diretor da empresa, ela sempre fica com ciúmes de alguém que desperta meu interesse.
— Ciúmes? — eu o olhei — Interesse?
Será que ele era gay agora?
— Não. — ele riu — Não me olhe com essa cara, o único interesse que você despertou em mim foi profissional, você é determinado, evolui rápido, é criativo, esforçado, além de inteligente, toca muito bem, dança muito bem, é um dos melhores no rap, é fotogênico, é um artista completo. — ele suspirou um pouco — Às vezes eu te invejo, eu só tenho minha voz e nenhum carisma.
— Sua voz vale por todas as minhas qualidades, sua voz é incrível, pode acreditar. — eu o olhei — E o carisma vem com o tempo, para ser sincero, eu acho que você é muito sério, para alguém com um sorriso tão bonito.
— Você acha meu sorriso bonito? — ele me olhou confuso.
— Acho. — respondi meio sem jeito — E sua voz é incrível.
— Você já disse isso. — ele riu — Não precisa ficar nervoso, não vou achar que está gostando de mim.
— O quê? — o olhei assustada.
Ele soltou uma gargalhada.
— Você é muito engraçado, obrigado por me fazer rir.
— Mudando de assunto, fiquei curioso com uma coisa. — disse.
— O quê?
— Você disse ciúmes, a senhorita Jang gosta de você?
— Sim. — ele foi direto — Descobri isso no dia que fui deixado pela minha ex-noiva, a Jang se confessou para mim, mas eu não consigo ver ela como uma mulher, para mim ela é minha irmãzinha.
— Hum.
Agora fazia sentido porque ela não ia com a minha cara.
Imagina se ela soubesse que eu era uma garota.
Conversamos um pouco sobre a empresa e os planos dele para o debut do grupo escolhido, chocante foi descobrir que a decisão sobre cancelar as audições femininas partiram do senhor Park, seu pai e da senhorita Montenegro. Aquilo me deixou ainda mais confusa com meus sentimentos por , eu não estava mais odiando ele, me sentia triste por ele ter sido traído por pessoas que amava. Me sentia bem quando estava conversando com ele, e para minha surpresa, estava começando a pensar nele quando não estávamos perto um do outro.
O que me preocupava muito.
Eu sempre relatava tudo para , minha esposa era minha conselheira, e a única conclusão dele para isso, era que eu estava me apaixonando por .
Não, eu não poderia sentir isso por alguém que um dia eu detestei, ou podia?
Mais semanas foram se passando com a dura e fatigante rotina de trainee, eu dividia meu tempo em treinar, encontrar nos finais de semana e folga, conviver com os outros fingindo ser meu irmão, ser o novo melhor amigo de e não me apaixonar por ele.
Esse último estava sendo uma provação!
— Estamos a alguns passos do debut. — disse Jung, se jogando no sofá.
— É, só falta uma semana para a escolha final. — concordou Junseo, sentado na cadeira — Vocês estão arrependidos de algo? Algo que não fez ou que fez?
— Eu não, acho que dei o meu melhor. — disse Jaehyun.
— Falou o mais popular de todos. — brincou Joy — Eu queria ter mais likes, mas estou satisfeito, a senhorita Mills tem me dado boas notas.
— Eu também estou satisfeito. — disse me sentando no último degrau da escada — Não tenho ressentimentos.
— Você está no céu, mesmo se não formos escolhidos, é tão popular quanto Jaehyun ou mais até, é amigo do CEO, todos os professores te elogiam. — Joy me olhou inconformado — Você me faz ter inveja, isso não é legal.
— Me desculpe se sou o melhor no que faço. — brinquei.
— Yah, sai daqui. — brincou ele, fazendo todo mundo rir.
Meu celular começou a tocar, pensei que fosse , mas era uma mensagem de .
“S.O.S”
Eu não sabia o que significava, mas eu peguei minha mochila e saí correndo, eu já tinha ido na casa dele uma vez, então sabia o caminho, quando cheguei toquei o interfone e logo o portão se abriu.
Assim que entrei, ele estava caído no chão.
— Hyung?! — gritei indo até ele — O que houve?
— Acho que estou doente. — sua voz estava baixa, e seu corpo muito quente, parecia ter febre.
— Eu vou te ajudar a se deitar. — com muito esforço, o ajudei a se levantar e o coloquei no sofá.
Respirei fundo tentando pensar no que fazer.
Antes mesmo de chegar em uma conclusão, ele me pediu para ligar para o médico da família. Na ligação expliquei a situação, o médico já tinha a resposta para mim, era um dos muitos ataques alérgicos que possuía durante sua vida. O que eu tinha que fazer era simples… Simples para um garoto normal. Tinha que colocar debaixo do chuveiro com água fria para baixar a febre, e para complicar, deveria acompanhá-lo e não o deixar adormecer.
Ou seja, eu estava ferrada!
Não podia esperar ninguém chegar ou seria tarde demais para , a vida dele estava nas minhas mãos e eu teria que fazer o que não deveria fazer. Respirei fundo, o ajudei a levantar e o levei para o banheiro, assim entramos no box e abri o chuveiro, tive que retirar sua blusa para dar mais efeito, foi um momento embaraçoso para nós dois. Ele adormeceu algumas vezes, comigo lhe chamando, não estávamos abraçados, mas nossos corpos estavam bem próximos, o suficiente para eu sentir sua respiração e ouvir seus batimentos.
— Preciso te agradecer. — disse ele, ao sair do banheiro com a roupa trocada.
Um pouco mais recuperado após tomar o remédio que encontrei em seu escritório, porém, com a voz baixa e parcialmente falha.
— Basta me emprestar uma roupa que estamos quites. — disse sorrindo.
— Claro. — ele sorriu meio sem jeito e abriu seu armário — Você é um pouco pequeno, acho que isso vai ficar meio largo.
— Largo é sinônimo de conforto. — peguei a roupa da mão dele — Vou me trocar.
A parte ruim era que a faixa que usava para reduzir meus seios estava molhada, seria um problema, mas poderia ser resolvido com uma blusa de frio de moletom. Coloquei a blusa e o short dele, estava mesmo largo. Assim que saí do banheiro, abri seu armário e peguei outra blusa para ajudar a esconder, voltei para a sala onde ele estava atendendo a porta, era seu médico, o doutor Lee, trazendo outro remédio, mais eficaz.
— Que bom que o doutor chegou. — disse, parando no meio da sala.
— Sim. — concordou ele — Doutor Lee, este é Park Joseph, meu salvador.
— Um prazer, o senhor me falou como foi corajoso em ajudá-lo.
— Ele é meu hyung, não poderia deixá-lo daquele jeito. — sorri de leve.
— Você está bem? — o doutor me olhou estranho.
— Estou sim, por que? — aquilo me deixou confuso.
— É que você está sangrando. — ele apontou para minha perna.
Eu desci meu olhar lentamente, até ver aquele sangue escorrendo pela minha perna, eu não conseguia acreditar no que estava acontecendo, não agora, não naquele momento. Olhei para , sua face estática, seus olhos confusos. Minha primeira reação? Saí correndo até o banheiro. Me tranquei lá.
Não acreditava naquilo.
Estava menstruada! Tanta pressão, estresse e preocupação, fizeram ela descer antes da hora. Aquilo seria meu fim, ele tinha um médico na sala que poderia comprovar que eu era uma garota, eu não conseguia aceitar e admitir o que estava acontecendo.
Estava sendo traída pela minha própria natureza feminina.
“Sob a chuva que cai
As lágrimas que escondi
As cicatrizes que recebi
Você simplesmente não deu a mínima
Você simplesmente escolhe as coisas que quer e não dá a mínima, oh~”
- You Think / Girls' Generation
As lágrimas que escondi
As cicatrizes que recebi
Você simplesmente não deu a mínima
Você simplesmente escolhe as coisas que quer e não dá a mínima, oh~”
- You Think / Girls' Generation


