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Codificada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 11/02/2026

Grossas correntes prendiam meus pulsos acima da minha cabeça. A água que pingava dos canos se misturava junto ao meu suor e escorria pela minha testa. Eu já não sentia a ponta dos meus dedos fazia algum tempo, bem como minhas pernas que pendiam no cansaço excessivo do meu corpo exausto.
Eu não sabia dizer quanto tempo havia passado desde que eu estava ali, daquele jeito. Havia me perdido depois do quarto dia. A luz do sol era impossível de ser vista e a única coisa que iluminava o local era a porta que ficava sempre entreaberta, mas as sombras que ficavam do outro lado geralmente não deixavam que a luz entrasse.
Eu me sentia vazia. Não tinha lágrimas para chorar nem sorrisos para distribuir. Tudo dentro de mim parecia um grande e enorme vazio. Se eu pudesse sentir alguma coisa, provavelmente seria o horror.
Eu não sabia o que queriam de mim, afinal, as poucas sombras que entravam, não falavam minha língua. Não sabia distinguir o que eram aquelas coisas, mas sabia que não eram humanas.
Suas garras negras adentravam pelos meus ouvidos e narinas todos os dias e sugavam de mim as emoções que um dia haviam feito parte da minha vida.
O meu corpo tremulava a cada novo segundo. A esperança de poder sair dali já havia se esvaído a muito tempo.
Ninguém aparecia para me salvar. Os heróis haviam ido embora. Afinal, quem se importaria em salvar alguém como eu? Não, eu não valia a pena.
Tentei puxar no fundo da minha mente qualquer resquício de tristeza para que lágrimas pudessem umedecer meus olhos cansados, mas nada dentro de mim se moveu.
As lembranças da minha vida antes de estar ali também estavam se apagando, lentamente, como a chama de uma vela que não consegue mais se manter acesa. Com sorte, minha morte chegaria ainda hoje.
E era isso que eu esperava.



“Raízes são a estrutura mais importante de uma planta. É por meio delas que ela se fixa no solo e pode criar mais raízes, tornando mais propício o nascimento de novas plantas, criando um lindo jardim de interligações de plantio.” Era o que dizia o livro que eu segurava enquanto procurava algo que me ajudasse a cultivar melhor as tulipas que havia comprado na feirinha de flores que encontrei quando voltava para meu quarto.
Um sorriso amargo se formou no canto dos meus lábios. Raízes… Quando foi a última vez em que eu mesma havia cultivado as minhas próprias, em algum lugar? Não sabia responder.
Um suspiro pesado escapou da minha garganta junto com o pensamento melancólico, e, de repente, uma fagulha surgiu da ponta da minha cabeça. Uma pequena nuvem, prestes a chover, começou a se formar acima de mim.
— Mas que merda… — murmurei, abanando a nuvem para que ela se dissipasse e não molhasse o livro. — Pensamentos felizes, pensamentos felizes, pensamentos felizes.
Fechei os olhos com força, imaginando cachorrinhos e gatinhos correndo atrás de uma bola. Quando olhei novamente, a nuvem havia ido embora, deixando faíscas douradas saindo do meu peito, piscando como se tivessem vontade própria. As tulipas ao meu lado tremularam e pareceram crescer alguns centímetros.
Sorri, satisfeita, e voltei à leitura, tentando não deixar que minhas emoções influenciassem o ambiente. Como sempre acontecia.
Eu não sabia de onde vinha esse poder. Só sabia que ele estava comigo desde o nascimento.
Dizem que, na noite em que nasci, uma nuvem pesada e cheia de raios surgiu no quarto do hospital. Médicos e enfermeiras correram assustados, minha mãe segurava meu corpo recém-nascido com horror. Conforme eu gritava, a nuvem parecia inflar, tilintando com raios que cresciam em intensidade. Na minha imaginação, os raios chegaram a atingir minha mãe, e ela morreu comigo em seus braços, enquanto ninguém conseguia ajudar.
É claro que essa era a minha versão da história. Os jornais contavam outra: médicos e enfermeiras deliraram após inalarem um gás tóxico, minha mãe morreu de hemorragia por negligência, e o caso caiu no esquecimento.
E o bebê? Bem... Fui deixada em um orfanato, onde vivi até os oito anos, quando fugi pela primeira vez. Nunca mais voltei para casa.
E assim, aprendi que cada emoção que sentia podia se manifestar de maneiras imprevisíveis e perigosas. Desde então, precisei viver com esse peso.
Mas eu tentava não pensar muito sobre isso. A essa altura você já deve ter entendido que as minhas emoções causam coisas e pensar na tragédia que minha vida era desde que eu viera para esse mundo era motivo o suficiente para causar um novo dilúvio na terra. E um bando de heróis atrás de mim me perseguindo tentando parar tudo era o que eu menos precisava para mim nesse momento.
— Ok, acho que por hoje chega — murmurei para mim mesma ao sentir os olhos pesarem e a imagem de dois carneirinhos se formar acima da minha cabeça. Fechei o livro, colocando-o ao lado das tulipas. — Talvez a ideia de ser uma boa jardineira seja meio esquisita mesmo.
Não era incomum conversar comigo mesma. Depois de tanto tempo evitando contato com outras pessoas e vivendo sozinha, falar com alguém, ainda que fosse só comigo, parecia necessário.
Passei a mão pelos cabelos e olhei pela janela, vendo o sol se pôr delicadamente. Sorri, sentindo as pequenas faíscas douradas que escapavam do meu peito se misturarem ao calor dos últimos raios do dia.
— Estou com fome — disse para ninguém, passando a mão na barriga. — Uma volta no mercado seria interessante.
Peguei minha bolsa e saí do quarto de motel que chamava de lar na última semana.
— Olá, Clarice — a recepcionista me cumprimentou, sorridente.
— Um fim de tarde bonito, não é? — puxei um assunto que sabia que não iria muito longe. Ela apenas manteve o sorriso e segui meu caminho até a conveniência mais próxima.
Clarice não era meu nome de verdade. Na verdade, eu nem sabia qual era o nome que minha mãe havia escolhido. No orfanato, fui batizada de Tereza, em homenagem à santa. Irmã Celine dizia que o nome combinava comigo; Irmã Dulce, por outro lado, afirmava que eu não tinha a doçura nem a compaixão da madre.
Nunca me importei muito com esses comentários. Na escola confessional me chamavam de Tess e, quando fugi pela primeira vez, passei alguns anos atendendo por Alice.
Talvez já tivesse se tornado algo divertido para mim. Mudar de nome e de personalidade a cada nova mudança. Mas, no fundo, a solidão ainda era uma grande perseguidora no meio de tudo isso.
Suspirei com tal pensamento e fixei o olhar no grande outdoor do outro lado da rua que estampava um grande hambúrguer. Às vezes era necessário enganar meus próprios sentimentos para não causar outra chuva de raios e matar outra pessoa. Ou pelo menos, não assustá-la com o que quer que minha mente criasse.
Era, de fato, uma existência um tanto difícil.
A conveniência escolhida não ficava muito longe do motel e já havia sido minha parada outras vezes. Os atendentes eram como eu gostava, quietos e paradões. Ninguém se movia quando eu entrava ou me perguntavam nada. Apenas passavam minhas compras sem nem manter contato visual. Eu entrava e saía como tal como o plano, viver como um fantasma.
O tilintar característico do sino acima da porta soou assim que entrei no local e, como esperado, ninguém levantou a cabeça para me olhar.
Sem demora, peguei um cestinho e me enfiei entre as prateleiras, escolhendo qual seria a minha refeição menos saudável do dia.
Alguns pacotes de macarrão instantâneo e barras de chocolate já estavam dentro do cesto quando me virei em direção às bebidas. Mas algo me deteve.
Uma senhorinha, de cabelos brancos presos docemente num coque, estava parada no corredor.
— Oh, olá, querida. Você poderia me ajudar a ler o que está escrito aqui? — perguntou, erguendo uma lata de batatinhas, alguns dentes faltavam em sua gengiva. Tentei não olhar muito.
— Hã… claro — forcei um sorriso, pegando a lata e procurando o que exatamente ela queria saber.
— Isso aí tem glúten? — a voz saiu fina e falhada, enquanto ela me olhava com atenção… perto demais.
Dei um passo para trás, desconfortável com a proximidade. Mas a velha avançou, reduzindo a distância quase até encostar em mim.
— Não, não tem — disse, fingindo ler. Estendi a lata de volta, ansiosa para me afastar. — Pode levar.
Virei-me para sair, mas a mão dela agarrou meu braço com uma força que nenhuma senhora deveria ter.
— Aonde você vai com tanta pressa, querida? — perguntou, a voz agora carregada por um tom rouco, dissonante.
Arregalei os olhos quando a pele enrugada se distorceu diante de mim. Não era mais uma velhinha simpática: o que me prendia era uma criatura horrenda, de olhos negros e chifres retorcidos.
— Me larga! — esbravejei, tentando me soltar, mas os dedos ossudos se alongaram em garras que se cravaram na minha pele.
— Eu disse para não ter pressa! — rugiu a coisa, cuspindo saliva que respingou no meu rosto. O nojo embrulhou meu estômago.
Então senti. Algo começou a fervilhar dentro de mim, queimando no peito, nos braços, em cada nervo. Desta vez, não consegui segurar a energia que queria escapar.
O ar pareceu vibrar ao meu redor. Meu coração batia tão rápido que cada pulsar era como um tambor dentro do peito. A raiva pela dor, o nojo pelo hálito pútrido da criatura, o medo que ameaçava me engolir por completo… tudo se misturou, transbordando.
E então explodiu.
Uma onda de luz saiu de mim, faiscante, como fagulhas coloridas que se chocaram contra as prateleiras e derrubaram embalagens pelo chão. A criatura soltou um urro ensurdecedor e foi arremessada contra a parede do mercado, as garras se desprendendo da minha pele.
Eu caí de joelhos, arfando, observando enquanto o ser se contorcia, queimado pela energia que ainda escapava em estalos do meu corpo. Minha visão tremia, manchada por cores que dançavam no ar.
A criatura tentou se erguer, mas cambaleou, deixando um rastro de fumaça escura antes de desaparecer em um clarão seco, como se tivesse sido arrancada da realidade.
Silêncio.
Ainda tremendo, forcei os braços para me erguer, e me arrependi no instante seguinte, quando o sangue escorreu pelo ferimento aberto. Arregalei os olhos: o vermelho do meu sangue se misturava a uma gosma verde e grudenta que pingava das garras da criatura. Reprimi um grito. Veneno. Só podia ser.
Olhei ao redor e encontrei o homem do caixa caído, desacordado pelo impacto da explosão.
— Merda. Merda. Merda. — praguejei, mancando até o balcão.
Os anos de fuga tinham me ensinado muito, e apagar rastros era o básico. Não demorei a acessar as câmeras e excluir as cenas da luta. Ainda assim, perdi segundos demais observando a gravação onde a senhorinha se transformava em monstro. Procurei sinais, pistas, qualquer coisa que denunciasse o que ela era. Nada. Eu nunca tinha visto nada parecido, e isso me apavorava mais do que o próprio ataque.
Respirei fundo três vezes, tentando controlar o pânico. Antes de sair, roubei algumas garrafas de água e as enfiei na mochila. Se eu não me acalmasse, destruiria outro lugar antes mesmo de decidir para onde fugir.
Bebi alguns goles, engasgando de dor, e segui mancando pela rua. Eu precisava encontrar uma loja vazia, trocar de roupa e desaparecer da cidade. Rápido. Antes que eles me achassem.
Mas então a dor me atingiu com força. O braço. O ponto exato onde a criatura havia me atingido.
Um borbulhar corrosivo queimava sob a pele.
— Mas que inferno! — rosnei, pressionando o machucado enquanto me apoiava contra a parede mais próxima. A calçada estava quase vazia, e as poucas pessoas que passavam não me davam atenção. Por sorte.
Sem saber o que fazer, joguei água sobre os buracos esverdeados. O alívio não veio. Ao contrário: a dor explodiu. Minha cabeça girou, e um grito abafado escapou enquanto eu mordia o lábio com força. Lágrimas escorreram pelo rosto sem que eu pudesse impedir.
No fundo, ouvi o som das sirenes. Polícia. Estavam chegando.
O medo se misturou à náusea. Se me pegassem ali, ferida e sem forças, eu não teria como explicar.
Tentei dar um passo, mas meu corpo não respondeu. O veneno já tinha me tomado.
Fechei os olhos com força, desejando apenas sumir.
E, antes que conseguisse reagir, desmaiei ali mesmo, no meio da calçada.



Um grito ecoou na rua escura e fria, cortando o silêncio da madrugada.
Abri os olhos devagar, sentindo meu corpo inteiro dolorido e o braço ainda queimando como se estivesse em chamas. A gosma verde havia sumido, mas a aparência da ferida continuava horrível.
O que chamou minha atenção, porém, foi mais à frente: um homem estava sendo chutado sem piedade por um guarda raivoso. O impacto fazia o corpo dele quicar no chão, e o sangue já começava a manchar a calçada.
— Ei, para com isso! — Gritei, apavorada, mas nenhum dos dois ergueu o rosto para me olhar.
Levantei-me com dificuldade, a perna esquerda fraquejando, apoiando-me na parede para não cair. Meu corpo inteiro clamava por descanso e medicamento, mas eu não podia deixar aquele homem daquele jeito.
Puxei uma quantidade considerável de ar para os pulmões e tentei caminhar o mais rápido possível até o guarda.
— Isso é pelo lixo espalhado pela cidade, seu merda! — Esbravejou ele, cuspindo sobre o homem que gemia.
— Você tá maluco? — Gritei, tentando empurrá-lo. Mas meus braços atravessaram o corpo dele como se não houvesse nada sólido à frente.
Um grito escapou da minha garganta. Não. Não. Não.
Tentei novamente tocar o guarda, mas tudo continuava oco, invisível. O pânico se instalou no meu estômago. Eu havia morrido? Me tornado uma alma penada?
Instintivamente, virei a cabeça para procurar meu corpo, mas não havia sinal dele. Será que já tinham me levado, pensando que eu era mais uma indigente?
Agarrei-me a mim mesma, urrando de dor ao tocar meu machucado. Não podia estar morta. Mortos não sentem dor, certo?
O guarda finalmente encerrou sua sessão de tortura e deixou o homem desmaiado no chão. Foi então que minha mente recuperou a lembrança do que havia acontecido antes de eu acordar: loja de conveniência, ataque do monstro, gosma verde, desmaio na calçada.
Eu não tinha morrido. Eu tinha certeza disso. Só desmaiei.
Mas ainda não tinha respostas sobre o que havia acontecido comigo… ou por que ninguém podia me ver.
Então algo pareceu farfalhar dentro de mim e um plim surgiu na minha cabeça, como se o farfalhar falasse comigo.
Era óbvio. Eu havia ficado tão apavorada e com o desejo de sumir ao ouvir o barulho das sirenes, que eu mesma havia me feito desaparecer. Era o meu poder me auto protegendo.
Não tive tempo de vibrar com a incrível descoberta, pois a pontada lacerante que acometeu meu braço foi mais forte. Agora o meu corpo me avisava de outra coisa, eu precisava tratar esse machucado antes que infeccionasse e algo pior acontecesse.
Tirei os fios de cabelo que grudavam em minha testa e saí mancando a procura de suprimentos em qualquer lugar que eu conseguisse alguma coisa possível. Resolvi seguir pelo lugar de onde eu tinha vindo no dia anterior, na conveniência que provavelmente estaria fechada para análise da polícia.
E, como o esperado, faixas amarelas circundavam a entrada do local escuro e, por sorte, nenhuma viatura fazia guarnição no local, o que o deixava completamente desabitado e propício para eu entrar.
Ultrapassei as faixas, achando graça do meu estado fantasmagórico, e segui em meio as prateleiras caídas e as diversas embalagens espalhadas pelo chão, procurando por água oxigenada, esparadrapos e o que mais me fosse mais necessário.
Então me dei conta de que eu estava invisível e com aparentes poderes de fantasma quando encontrei o esparadrapo e não consegui pegá-lo, pois minha mão o atravessou por inteiro.
— Ah não... — Resmunguei para mim mesma e tentei mais uma vez sem sucesso. — Mas que saco! Por que tudo na minha vida tem que ser caótico? Era só pegar as minhas coisas e dar o fora, mas não, eu tinha que me fazer invisível e ficar com um poder de merda que não consigo nem pegar uma porcaria de água oxigenada e...
Parei meu resmungo bruscamente ao ouvir algo se mexendo em direção a porta. Virei-me e dei de cara com um homem que adentrava o local com feições ameaçadoras e um braço de metal ainda mais medonho. Arregalei os olhos e entrei em pânico por um milésimo de segundo.
Observei-o serpentear pelo local com destreza e rapidez. Ele, de fato, procurava alguma coisa, eu só ainda não havia descoberto o que.
Eis que então o meu pânico aumentou ainda mais quando o vi se aproximar do que uma vez era um corredor, que era onde eu estava. Sua mão de metal carregava uma pequena lanterna que ele usava para verificar os cantos escuros da conveniência.
— Onde está? — Aparentemente eu não era a única ali que conversava sozinha, já que ele resmungava baixinho consigo mesmo.
Sentindo a boca do estômago revirar com a sua presença, dei um passo ao lado, me escondendo atrás da montanha de salgadinhos e outras coisas que haviam se formado ao lado de uma prateleira caída, tentando sair do seu caminho. Afinal, eu não sabia por quanto tempo eu ficaria invisível.
Mordisquei o lábio e prendi a respiração quando ele se aproximou mais e mais.
— Eu sei que você tá aí... — Falou baixinho e eu achei que meus olhos pulariam fora da órbita naquele momento. Será que ele tinha me visto?
Meu coração disparou tão alto que eu tinha certeza de que ele podia ouvir. A cada passo que ele dava, a lanterna cortava a escuridão e se aproximava perigosamente do meu esconderijo improvisado.
“Calma, Tereza, calma… ele não pode te ver… você tá invisível…” — repeti mentalmente, como se fosse um mantra.
Mas, quando ergui os olhos, o braço de metal afastou os pacotes de salgadinho com uma facilidade absurda, e a luz da lanterna iluminou o espaço exato onde eu estava.
— Aí está você… — murmurou com a voz baixa, mas carregada de certeza.
Engoli em seco. Ele me via. Não importava a minha invisibilidade, de alguma forma, aquele homem sabia exatamente onde eu estava.
Antes que eu pudesse recuar, a mão de metal avançou e fechou-se firme ao redor do meu braço. Por sorte, ele agarrara o braço bom. Um arrepio percorreu minha espinha, e eu lutei instintivamente, mas era inútil, pois ele tinha força de sobra.
— Larga… — tentei gritar, mas minha voz saiu fraca, embargada pelo medo.
Ele franziu o cenho, os olhos azuis intensos fixos em mim.
— Como você está fazendo isso? — Questionou, quase como se não acreditasse no que via… ou no que não via.
Apertei os lábios, paralisada. Se eu não conseguia nem segurar um esparadrapo, como ia me soltar dele?
Ele aproximou o rosto, estudando o vazio que segurava.
— O que é isso? — Disse, mas parecia mais falar consigo mesmo.
De repente, percebi: minha invisibilidade oscilava. Meus dedos, parte do meu braço estavam se revelando diante dos olhos dele.
Um suspiro de desespero escapou da minha garganta. Eu estava perdida.
Meu estômago fervilhou em medo e pavor e as pontas dos meus dedos faiscaram. Era isso. Mais uma explosão de energia, como havia acontecido no dia anterior e assim eu estaria salva do homem assustador.
Fechei os olhos e esperei ansiosa pela explosão que... Nunca veio.
— Merda! — Exclamei frustrada e, ao abrir os olhos, percebi que estava visível e tangível novamente, o que piorava muito as coisas pra mim.
Ele me fitou como se estivesse vendo um fantasma. A mão de metal apertou meu braço com mais firmeza, como se temesse que eu desaparecesse de novo a qualquer segundo.
— Então é você… — Murmurou, a voz baixa, grave, como se juntasse peças de um quebra-cabeça.
— Me solta! — Tentei puxar o braço, mas foi inútil.
Um músculo se contraiu em sua mandíbula. Não havia raiva em sua expressão, mas uma mistura estranha de cautela e confusão.
— O que diabos é você? — Perguntou, ainda firme, mas agora sem agressividade, como se estivesse avaliando cada movimento meu.
Engoli em seco, o pânico me travando.
— Eu... Sou um ser humano, ora essa! – Respondi alto demais, como fazia sempre que ficava nervosa.
O homem assustador torceu o nariz numa careta, como se desaprovasse o que eu havia dito, como se não fizesse sentido.
Então, para meu completo espanto, soltou meu braço de repente.
— Você não deveria estar aqui. — Disse por fim, recuando meio passo, mas seus olhos não me deixavam. — Vá embora antes que peguem você.
— Você fala como se eu não estivesse tentando fazer isso — resmunguei, ajeitando a camiseta e tentando me afastar. Mas fui impedida pela dor dilacerante que acometeu meu braço. — Ai!
Instintivamente, tentei segurá-lo, mas me arrependi no mesmo segundo, tocar no machucado só piorava a situação. Meus dedos tremiam e os buracos na pele começavam a assumir uma cor indecisa entre verde e preto. Meu estômago revirou com a imagem e por um instante temi vomitar ali mesmo.
— O que é isso? — O homem voltou a me importunar, segurando meu braço com firmeza, mas agora com um pouco mais de delicadeza.
— Fui atacada ontem — respondi, o braço latejando e os olhos marejando de dor.
— O que fez isso com você? — Seus olhos pareceram atravessar a minha alma, e me demorei mais do que deveria encarando aquele olhar frio e intenso.
— O que você estava procurando? — Devolvi a pergunta, e ele pareceu engolir em seco.
— Recebi relatos de uma criatura não identificada que atacou uma parte do Brooklyn — Respondeu sério, lançando outro olhar rápido para meu braço.
— Você é policial? — Perguntei, tentando juntar as peças.
Ele deu de ombros. — Algo do tipo. Já respondi suas perguntas, agora é a minha vez: o que fez isso com você?
— Provavelmente a mesma coisa que você está procurando, policial — tentei fazer graça, mas uma careta escapou quando ele virou meu braço para examinar melhor, arrancando de mim um grito abafado. — Ai!
Ele estreitou os olhos.
— Precisamos tratar isso antes que necrose. — Sem esperar, começou a me puxar.
— Ei, ei! — Tentei soltar meu braço, mas já havia percebido antes que a força dele era incomum. — Primeiro: eu não vou a lugar nenhum com você, nem sei quem você é. Segundo: eu sei me cuidar.
Ele soltou uma risada seca, sem humor.
— Sabe se cuidar? Procurando bandagens no mesmo lugar onde foi atacada? Brilhante.
Fiquei de boca aberta em descrença, mas não consegui pensar em uma resposta à altura antes que ele voltasse a me arrastar.
— Me larga! — Tentei me desvencilhar de novo. — Eu vou gritar, e as pessoas vão ver que você está me sequestrando!
— Sequestrando? — Ele me lançou um olhar ofendido por cima do ombro. — Eu tô tentando ajudar você.
— Eu não pedi ajuda! — Rebati, tomada pela raiva.
E então aconteceu. Outra explosão. Pequena, mas intensa. Uma faísca alaranjada saltou do meu peito e atingiu em cheio o braço de metal dele. O impacto o fez me soltar imediatamente.
Aproveitei a chance e corri, sem olhar para trás.
— O quê? — Ouvi a voz dele, confusa e quase incrédula. — Ei, volta aqui! Eu só quero ajudar, sua maluca!
Corri sem pensar, os pulmões ardendo e a perna latejando a cada passo. As ruas não estavam cheias àquela hora, mas ainda havia movimento suficiente para que eu tentasse me esconder entre as pessoas que passavam. Eu só precisava despistá-lo.
Mas era como se a multidão não fosse obstáculo nenhum para ele. Olhei por cima do ombro e lá estava o homem, com o braço metálico refletindo a luz dos postes, abrindo caminho com uma facilidade que me deixou gelada.
— Você não vai a lugar nenhum desse jeito! — Ele gritou, a voz grave ecoando por trás de mim.
— Quer apostar? — Respondi ofegante, dobrando a esquina e entrando em uma rua estreita.
Meus pés bateram contra as poças de água acumuladas na calçada enquanto eu buscava desesperadamente alguma rota de fuga. Mas, quando pensei ter ganhado vantagem, senti uma mão de ferro agarrar minha cintura e me puxar para trás.
— Me solta! — Gritei, debatendo-me como podia. — Você é louco!
— Louco? — Ele arfava quase tanto quanto eu, mas não parecia minimamente cansado. — Se eu fosse louco, teria deixado você sangrando até esse braço apodrecer.
Revirei os olhos, tentando ignorar a pontada de dor que atravessou meu corpo.
— Você tem um jeito bem estranho de convencer alguém de que está ajudando.
Ele me empurrou contra a parede de tijolos, sem violência, mas com firmeza suficiente para me impedir de escapar de novo. Sua expressão endureceu.
— Escuta, garota, eu não sei o que você é ou o que aconteceu ontem, mas tem algo solto nessa cidade. Algo que deixa rastros de destruição por onde passa. — Ele se inclinou mais perto, a voz baixa, mas intensa. — Se essa coisa atacou você… então talvez você seja a única pista que eu tenho.
O coração disparou no meu peito. Ele falava sério, e pela primeira vez não parecia apenas um estranho perturbador tentando controlar minha vida. Mas a lembrança da dor no braço e da faísca que havia saído de mim falava ainda mais alto.
— Pista ou não — sussurrei, encarando-o de volta — eu não vou ser cobaia de ninguém.
Antes que ele pudesse reagir, outra onda de calor percorreu meu corpo e uma segunda faísca alaranjada surgiu, obrigando-o a se afastar por reflexo. Aproveitei o espaço e disparei de novo para a rua, ignorando seus gritos atrás de mim.
— Droga! — ouvi-o resmungar. — Essa garota vai se matar antes da criatura conseguir!
Quis rir do seu comentário, mas estava cansada demais para isso e então, apenas continuei caminhando, pois já não conseguia mais correr. Minhas pernas começavam a falhar junto com a minha respiração e meu braço latejava cada vez mais.
E então eu quase caí.
Olhando para trás, para ver se despistava o homem assustador, meu corpo trombou em algo firme e duro e, sem demora, dois braços me seguravam e aquele toque, infelizmente, eu já conhecia.
— Como fez isso? — Perguntei indignada. — Você estava atrás de mim agora pouco!
O homem assustador abriu um sorrisinho de lado e, se aquele não fosse um momento de tensão, eu provavelmente teria me derretido pela sua beleza e charme.
— Tem muitas coisas que não sabe sobre mim — disse bem-humorado e eu rolei os olhos. — Agora para de ser teimosa e aceite a minha ajuda.
Engoli o seco e senti seu aperto ficar mais frouxo, mas sem indícios de que ele me deixaria ir. Droga! Ele não estava agindo com os planos de me deixar ser fantasma e escapulir dos lugares sem deixar rastros.
— Ok — disse por fim e no meio de um suspiro. — Você me ajuda com o meu braço, eu respondo o que você quiser e depois você me deixa ir embora, como se eu nunca tivesse existido.
— Ok, Ghost — falou e me soltou.
— Ghost?
— É, como um fantasma — respondeu sério e eu procurei alguma evidência em seu rosto de que ele estivesse brincando, mas não encontrei nada. — Você quer ir como se não existisse, acho que Ghost é um bom nome.
— Tá bom, isso foi estranho, mas pode ser — dei de ombros. — E então, aonde vamos para curar o meu braço?
Ele não respondeu de imediato. Apenas me olhou de cima a baixo, como se estivesse avaliando não só meu braço, mas também minha capacidade de aguentar ficar de pé por mais dois minutos.
— Vamos para um lugar seguro — disse, por fim, o tom mais sério agora.
— Defina “seguro”. — Cruzei os braços, mas me arrependi na mesma hora com a dor lancinante que percorreu meu ferimento.
— Longe dessa rua, para começar. — Ele virou-se sem me dar opção de recusar e começou a andar.
Bufei, mas o segui, porque sinceramente já não tinha forças para discutir.
— Você sempre sequestra garotas na madrugada ou eu deveria me sentir especial?
Ele lançou um olhar rápido por cima do ombro, um sorriso quase imperceptível curvando seus lábios.
— Só as que quase desmaiam no meio da rua depois de tentar fugir de mim.
Revirei os olhos, mas dessa vez não consegui esconder o riso fraco que escapou.
Andamos algumas quadras em silêncio. As ruas estavam quase desertas, apenas o barulho distante de um carro ou outro e o som dos nossos passos apressados ecoando na calçada. Então, ele parou em frente a um prédio antigo de tijolos aparentes.
— É aqui. — apontou com a cabeça.
Arqueei a sobrancelha. — Você mora em um lugar normal? Eu jurava que sua cara era de esconderijo subterrâneo, tipo, sei lá, a Batcaverna.
— Desculpa decepcionar. — Ele abriu a porta do prédio e segurou para que eu entrasse. — É só um apartamento.
Subimos dois lances de escada e ele destrancou a porta de um pequeno apartamento de canto. Ao entrar, percebi que o lugar era simples, mas aconchegante. Um sofá gasto ocupava o centro da sala, havia algumas prateleiras com livros, e a cozinha americana tinha panelas ainda penduradas. Nada de armas espalhadas, nada de mapas secretos. Apenas… um lar.
Eu fiquei parada na entrada, meio sem graça. Não parecia o covil de um homem perigoso. Parecia o lugar de alguém solitário.
— Senta aí. — Ele apontou para o sofá e foi até um armário, de onde tirou uma caixa de primeiros socorros. — Vamos cuidar desse braço antes que piore.
Engoli em seco. Eu não sabia o que esperar dali pra frente. Mas sabia que, pela primeira vez em muito tempo, eu não tinha para onde fugir.



Eu não sabia quais traços eu havia herdado de meus pais, principalmente os que envolviam jeitos e preferências. Mas, havia um deles que eu tinha quase certeza de que vinha de algum lugar. O fato de eu ser uma completa manteiga derretida.
O homem assustador não falava nada, apenas limpava e organizava a bagunça que estava meu braço machucado. E eu? Chorava é claro. Chorava como se meu braço tivesse sido arrancado, como se o próprio homem tivesse o arrancado com seu braço de metal.
— Estou quase terminando — ele anunciou e eu dei a décima fungada desde a última vez que ele havia encostado meu braço.
Não disse nada, pois sabia que eu pareceria ainda mais patética, mas não tinha nada que eu pudesse fazer. Se eu não conseguia nem controlar meus poderes, como é que eu controlaria meu próprio choro? E era por esse pensamento que meus olhos se tornavam grande cachoeiras e minha cabeça começava a latejar pelo choro descontrolado.
— Eu nem fiz os pontos ainda... — O homem disse de repente e a força das minhas pernas sumiu no mesmo instante.
— Eu vou desmaiar — anunciei sentindo a visão ficar turva e ele riu sem mostrar os dentes. — Estou falando sério!
— Não estou rindo do seu desmaio, mas do... — ele fez uma pausa, segurando a risada. — Do jeito que você está fazendo a lâmpada piscar toda vez que começa a chorar.
Arregalei os olhos e levantei a cabeça, mesmo com a visão meio embaçada pelas lágrimas. Olhei para cima e, de fato, a lâmpada da sala piscava como se fosse uma boate barata em plena madrugada.
E então eu chorei mais forte, me sentindo constrangida pela situação.
— Eu odeio isso — desabafei e sequei o canto dos olhos com a mão livre.
O homem apenas abriu um mínimo sorriso e continuou o seu trabalho minucioso. Por sorte, ele não falou mais nada sobre as lâmpadas, embora elas continuassem piscando.
— Tem medo de agulha? — Perguntou-me de repente e eu vi que ele segurava uma.
— Ninguém gosta de ser furado, não é? — Disse com obviedade e fechei os olhos, me preparando para a dor que viria a seguir enquanto ele costurava meu braço.
Mas essa dor não veio. Abri um olho de cada vez para ver se ele havia desistido no meio do caminho, mas um riso sincero saiu de minha garganta ao ver que nuvens fofas e coloridas nos circundavam. O homem, por sua vez, enfiava a agulha nos cantos dos meus machucados e eu não sentia nada.
— Seu poder não é de todo ruim — falou cortando um pedaço de linha. — Protegeu você de sentir dor.
Mordisquei o lábio, sem ter certeza de que eu queria concordar com ele.
— Ok, eu terminei — falou e se levantou, começando a organizar o seu arsenal de curativos e coisas de primeiro-socorros.
— Obrigada — respondi com sinceridade e ele me olhou por alguns segundos sem dizer nada. — Você tem todas essas coisas... É normal você se machucar?
— Mais ou menos – respondeu vagamente, como sempre fazia quando a pergunta se voltava a ele. — Um band-aid não ajuda muito em muitos casos.
O homem então sumiu para uma das portas do corredor, provavelmente o banheiro, onde descartaria tudo o que havia usado. Eu o aguardei pacientemente, aproveitando o macio do seu sofá e o copo de água fresca que ele havia me oferecido antes de iniciar a sessão de tortura.
— Tudo bem, vamos ao interrogatório então — presumi quando o vi voltar e ele assentiu enquanto se sentava a minha frente e em uma distância segura. Ele ainda parecia assustador para mim.
— Como era a criatura que atacou você? — Assumiu uma postura rígida e, se estivéssemos em uma delegacia, poderia jurar que ele seria o policial mau.
— Você não vai nem pedir o meu nome? — Fiz uma careta em estranhamento.
— Ghost, por enquanto, é um bom nome pra mim — falou e eu percebi que ele ainda não confiava em mim, o que era totalmente recíproco.
— Era grande, com chifres e escura — respondi sua pergunta me ajeitando no sofá e puxando as pernas para cima. — Mas nem sempre foi assim. Nossa interação começou com ele parecendo uma velhinha indefesa.
— Ele falou com você? — Inclinou o seu corpo para mais perto.
— Ele me ameaçou — justifiquei. — Não tivemos muito tempo de bater papo. Ele quis me pegar, eu causei uma explosão e então ele fugiu.
— Então foi você que destruiu tudo? Uau, não sei porque não imaginei antes — assumiu o seu humor ácido e eu fiz outra careta. — E como funcionam os seus poderes?
— Eu não sei se isso é exatamente um poder – ponderei enquanto gesticulava. — Mas nasci assim. Sempre que eu sinto demais, alguma coisa acontece, mas não tenho controle.
— Então você não ficou invisível porque quis?
— Bem que eu gostaria – suspirei. — Mas não funciona assim. Eu só sinto e tudo acontece, em intensidades diferentes. Eu não queria causar a explosão na conveniência, só aconteceu. E tem sido assim por toda a minha vida.
— É por isso que você foge? — O olhei com atenção, pois sabia que ele também me analisava.
— É, como você mesmo disse, sou um fantasma — abri um sorriso amargo.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, me encarando com olhos azuis que pareciam atravessar qualquer fachada que eu pudesse erguer.
— E o que você está querendo encontrar sobre a criatura? — Voltei ao foco do assunto e ele soltou um suspiro pesado e cansado.
— Acho que ele está procurando alguma coisa. Ele deixou um grande rastro de destruição ontem à noite, matou e dilacerou pessoas e foi embora — seu tom era vago, como se revivesse a situação. — Nada como aquilo faz isso e vai embora como se nada tivesse acontecido.
— Tem algum palpite do que ele está procurando? — Mordisquei o lábio, nervosa com a sua resposta.
— Algo como você, provavelmente.
Arrepiei-me dos pés à cabeça pelo tom gutural que saiu de sua garganta com a sua resposta. Acariciei as têmporas, tentando me acalmar, pois não podia destruir o apartamento de quem havia me ajudado até então. Eu devia isso a ele.
— Acha que ele vai voltar atrás de mim?
— Tenho certeza disso, Ghost — o apelido saiu de maneira quase automática e eu o ouvi de maneira amarga. — Precisamos ficar de olho em você e em qualquer movimentação estranha.
— Como assim “precisamos”? O combinado era que eu vinha aqui, a gente cuidava do meu curativo, você me interrogava e eu ia embora.
— A porta está aberta — apontou. — Mas pensei que fosse se sentir mais segura com alguém por perto.
Fiquei em silêncio, encarando a porta descascada. Ela me convidava a ir embora, mas, estranhamente, meus pés não se moveram e meu corpo permaneceu estático no mesmo lugar. A ideia de voltar para a rua, sozinha, com aquela coisa me caçando, parecia mais sufocante do que estar ali com um homem que eu mal conhecia.
— Não costumo me sentir segura em lugar nenhum — murmurei, mais para mim mesma do que para ele.
Ele não me respondeu. Apenas recostou-se no sofá, ainda me observando como se tentasse decifrar cada fragmento meu. Por um instante, quase desejei que ele conseguisse.
Apoiei o rosto nas mãos, exausta.
— Tudo bem… fico essa noite. Mas isso não significa que eu confio em você.
O canto da boca dele se ergueu num quase sorriso.
— Confiança é superestimada, Ghost. Prefiro resultados.
Senti algo revirar dentro de mim e minha respiração se tornou pesada. Eu não sabia onde estava me enfiando, só esperava que valesse a pena no final.

O ambiente escuro e mal iluminado do quarto me causava certa estranheza. Um sentimento de alerta havia se instalado na boca do meu estômago e as faíscas que saíam do meu peito eram vermelhas como fogo, imitando uma sirene de alerta.
Respirei fundo algumas vezes, tentando me acalmar.
O colchão abaixo de mim era macio demais. A coberta aconchegante demais. E o travesseiro fofo demais. Tudo me convidava para uma linda e confortável noite de sono. Mas a faca embaixo do travesseiro era um lembrete constante de que eu não deveria estar ali.
O homem assustador, que ainda não havia me contado seu nome, havia me cedido seu próprio quarto para que eu dormisse. Eu julgava a motivação ser se certificar que eu não fugiria no meio da noite, mas a altura da janela não era alta o suficiente para me manter presa ali, então não sabia exatamente o que pensar.
O ambiente não constava com um relógio, mas eu sabia que já passava da meia noite, pois o barulho da rua começava a diminuir gradualmente, possivelmente pelas pessoas estarem indo para suas casas descansarem e viverem suas vidas normais.
Vida normal. Quase sorri com o desejo de tal coisa.
Mas tudo o que eu tinha agora era uma criatura horrenda atrás de mim, um braço enfaixado e costurado e um homem assustador que me mantinha por perto para descobrir onde tudo isso daria. Eu definitivamente estava falhando horrivelmente na minha missão de me manter invisível.
Apoiei a mão sobre a faca embaixo do travesseiro, como se esse gesto pudesse me devolver algum controle. O quarto era estranho, meu corpo pedia descanso, mas a mente não se calava. Ainda assim, fechei os olhos, desejando que o sono viesse rápido, nem que fosse apenas para me enganar, por algumas horas, com a ilusão de uma vida normal.
Aos poucos, senti a consciência se dissolver. O peso do corpo se transformou em leveza, como se eu estivesse suspensa, flutuando entre nuvens. Era uma sensação estranha, mas também perigosamente confortável. Então me deixei levar, exausta, como se finalmente pudesse descansar.
— Ah! — Abri os olhos de repente, e um baque me trouxe de volta à realidade. Não tão seco, graças à cama sob mim, mas suficiente para me arrancar o fôlego.
— O quê? O que aconteceu? — Murmurei, atordoada. Levantei-me de supetão, a tontura me dominou e quase caí. Antes que o chão me recebesse, mãos firmes já me seguravam pelos braços.
Era ele. O homem assustador. E, pela primeira vez, parecia tão ou mais apavorado que eu.
— Você estava flutuando! — A voz dele carregava incredulidade.
— O quê? — Girei o olhar, sem acreditar. O quarto estava tomado por uma névoa branca e cintilante que se espalhava suavemente pelo ar, como se respirasse junto a nós. — Meu Deus...
Toquei a estranha névoa, e meus dedos ficaram úmidos, como se mergulhassem em uma nuvem de verdade.
— Eu ouvi um barulho estranho e vim ver se você estava bem — explicou, ainda com a voz firme, mas os olhos fixos em mim como se buscassem uma resposta. — Quando entrei, encontrei isso. O quarto todo... e você flutuando.
Engoli em seco. Não havia resposta. Não havia explicação. Apenas o silêncio desconfortável e a vergonha queimando em minhas bochechas, como se eu tivesse sido pega em flagrante de algo que nem eu mesma sabia fazer.
Ele não disse mais nada, apenas me observava, sério, como se analisasse cada detalhe meu em busca de uma resposta que eu não tinha.
Me encolhi sob o olhar dele, mordendo o lábio até sentir o gosto metálico do sangue. Queria explicar, justificar, inventar alguma desculpa qualquer. Mas o que se diz quando o impossível acontece diante dos olhos de alguém que você mal conhece?
A névoa ainda se dissolvia devagar, ocupando o espaço entre nós, como se fosse uma lembrança física do que eu acabara de fazer. Do que eu era.
Apoiei as mãos na beira da cama, tentando parecer firme, mas a voz falhou quando finalmente consegui murmurar:
— Eu não... eu não sei o que foi isso.
Ele arqueou uma sobrancelha, mas não respondeu de imediato. Apenas respirou fundo, desviando os olhos como se ponderasse se deveria insistir ou não.
— Você precisa descansar — foi tudo o que disse, por fim, a voz baixa, quase um comando.
Assenti em silêncio, sem ousar argumentar. Ainda estava tremendo.
Ele se afastou, mas não saiu do quarto. Ficou por alguns segundos encostado ao batente da porta, me observando com aquela expressão que eu não sabia decifrar, era uma terrível mistura de vigilância e dúvida.
Quando finalmente apagou a luz e deixou apenas a penumbra me envolver, percebi que não importava o quanto eu tentasse me convencer: eu não conseguiria dormir.



Eu era uma péssima mentirosa. Percebi isso no instante em que abri os olhos e vi a luz da manhã atravessar as frestas da janela. Ou seja, eu havia dormido.
A sensação de estar flutuando ainda me acompanhava, mas agora não vinha de nenhum poder descontrolado. Era só o conforto daquela cama, coisa rara para mim. Normalmente, o mais perto que chegava disso eram colchões gastos de motéis baratos, com lençóis que cheiravam a desinfetante e pouco mais.
Espreguicei-me devagar, até que uma fisgada me lembrou do ferimento no braço. Olhei rapidamente por cima, o curativo já estava gasto, mas a dor tinha diminuído. Logo seria preciso trocá-lo.
Calcei os tênis e deixei o quarto.
O apartamento estava mergulhado em silêncio. Ainda assim, eu sabia que ele estava ali. Se eu era um fantasma, ele era como uma sombra. Discreto demais, os passos inaudíveis, como se tivesse sido treinado a se apagar.
— Bom dia — murmurei, sem jeito, ao encontrá-lo sentado na bancada da cozinha, de frente para a porta, como se tivesse esperado por mim. — Posso usar o banheiro?
Ele apenas assentiu, levando sua xícara aos lábios.
Agradeci e tratei de não me demorar. Quando voltei, alguns minutos depois, encontrei uma xícara e um prato postos diante de mim. Era óbvio que ele os havia colocado ali para que eu me juntasse a ele. Um gesto pequeno, mas que quase me arrancou um sorriso.
— Você não comeu nada ontem — disse ele quando me sentei. — Imaginei que estivesse com fome.
No mesmo instante, meu estômago roncou alto, me traindo.
— Viu só? Sempre certo — murmurou, como se tentasse fazer graça. Mas o cenho franzido, eterno, fazia com que sua voz soasse mais como uma sentença do que como uma piada.
A primeira mordida no pão me fez lembrar de quanto tempo fazia desde que eu comia de verdade. Engoli devagar, tentando disfarçar a fome, mas não havia como enganar o som do estômago ou a forma desesperada como mastigava.
Ele observava em silêncio. Como sempre fazia. A essa altura, eu já começava a me acostumar.
— Não parece acostumada com isso — comentou, como se tivesse lido meus pensamentos.
— Com o quê? — ergui os olhos, desconfiada.
— Com alguém cuidando de você.
Quase engasguei. Baixei o olhar, fingindo me concentrar no café fumegante.
— Não preciso que ninguém cuide de mim. – Respondi com medo que minha voz falhasse.
Ele arqueou uma sobrancelha, cético.
— Não foi o que pareceu ontem à noite, quando mal conseguia ficar de pé.
Engoli em seco, mais pelas palavras do que pelo pão. Queria responder, mas algo em sua voz, firme, quase dura, e ainda assim sem julgamento, me fez calar.
— Você sempre foi assim? — Perguntou de repente.
— Assim como? — Encarei-o de volta e ele não pareceu se intimidar nenhum pouco.
— Como se estivesse pronta para fugir a qualquer segundo.
A pergunta caiu entre nós como uma pedra no fundo de um lago. O silêncio que se seguiu só fez ecoar a estranheza daquela cozinha iluminada, onde duas pessoas que não confiavam uma na outra dividiam um café da manhã quase íntimo.
— Você fala como se fizesse diferente de mim — falei e, dessa vez, sem olhá-lo, pois, temia a minha própria reação ao ver a sua.
Ele me encarou por longos segundos, e por um instante tive a impressão de que sorriria. Mas não sorriu. Apenas voltou a beber seu café, como se a conversa tivesse terminado.
Ainda assim, eu sabia: nada, absolutamente nada, passava despercebido por ele. E isso era um problema que eu teria que lidar daqui pra frente ou, pelo menos, até que nossos caminhos finalmente se repartissem e cada um seguisse o seu rumo. Mas, por enquanto, ele parecia cada vez menos disposto a isso.
— Hoje vamos visitar a região onde aconteceu o ataque — ele falou, mudando de assunto. — Quero que converse com as pessoas que foram atacadas e sobreviveram para ver o que descobrimos.
— Eu? — Apontei para mim mesma. — Mas você já não investigou lá? Porque temos que ir de novo?
— Você também foi atacada. As pessoas vão se sentir mais à vontade em saber que podem conversar com alguém que passou pela mesma situação — disse como se fosse óbvio e eu o encarei com uma das sobrancelhas arqueadas.
— E isso não tem nada a haver com o fato de que você tem uma postura extremamente assustadora, não é?
— Você me acha assustador? — Um meio sorriso surgiu em seus lábios e eu me arrependi no mesmo instante de ter dito isso.
— É, eu meio que te apelidei de homem assustador para mim mesma — admiti encolhendo os ombros e, pela primeira vez, ouvi o som da sua risada.
A risada dele ecoou pela cozinha, curta, mas sincera, quase como se tivesse sido arrancada de uma parte dele que raramente mostrava. Eu arregalei os olhos, surpresa por ter provocado alguma reação assim.
— Homem assustador, hein? — repetiu, balançando a cabeça e ainda sorrindo. — Não posso dizer que estou ofendido.
Engoli em seco e desviei o olhar, sentindo meu rosto aquecer. Havia algo curioso e desarmante na maneira como ele ria, como se aquele momento de leveza fosse completamente fora de lugar no contexto de tudo o que vivíamos.
— Bucky — ele falou.
— O que? — O encarei sem compreender.
— Pode me chamar de Bucky — falou e eu senti como se uma grande parede tivesse sido derrubada entre nós dois.
— Eu sou... — Engoli a saliva que se acumulou em minha boca antes de continuar. — Sou Tess.
Ele assentiu, como se me cumprimentasse com a cabeça e eu soltei o ar lentamente, me sentindo um pouco mais leve com ele. Bucky soava muito melhor do que homem assustador.
— Ok, Tess — falou devagar o meu apelido e eu gostei mais do que deveria. — Vamos assim que terminar o seu café da manhã.
Respirei fundo, tentando organizar minhas próprias emoções antes de encarar o que estava por vir. O bairro ainda carregava os ecos do ataque, e eu sabia que o que encontrássemos lá poderia mudar tudo. Mas, por algum motivo, não conseguia evitar sentir uma ponta de confiança naquele homem assustador, ou, melhor dizendo, naquele Bucky, que, de forma inesperada, parecia decidido a me proteger.
Não tardei em terminar o café, embora pudesse ficar ali por mais tempo, recuperando o que havia perdido. Mas a impaciência de Bucky era clara, como se gritasse em silêncio: “Vamos lá, não temos tempo!”
— Aqui — disse ele, me entregando um capacete assim que saímos do apartamento.
— Você tem uma moto? — perguntei, surpresa. — Por que não usou ontem? Estava a pé.
— Minha casa não era longe — deu de ombros. — Caminhar é mais silencioso que o ronco do motor.
— Então você é do tipo furtivo — murmurei, observando o meio sorriso que surgia em seus lábios. Ele não respondeu, mas a confirmação veio na expressão.
Uma pontada de hesitação me atingiu. Subir na garupa significava proximidade física, contato que ainda me deixava nervosa. Respirei fundo, tentando controlar minhas emoções.
— Vamos? — Ele chamou, impaciente.
Suspirei e coloquei o capacete antes de me acomodar atrás dele. Sem esperar, Bucky acelerou, e o vento me lançou contra seu corpo.
— Jesus Cristo! — Ofeguei, agarrando-me a ele.
Sua risada abafada pelo vento me alcançou, um som que, de alguma forma, me tranquilizou.
— Você está me esquentando demais, Ghost — disse ele. Arregalei os olhos, sentindo o calor subir dos braços às mãos, até a ponta dos dedos. Vergonha misturada ao medo me dominava, mas não afastei minhas mãos.
Ele não falou nada e seguiu, e eu percebi que talvez não estivesse tão ruim assim.
Em pouco tempo, Bucky desacelerou e entrou em uma rua do Brooklyn. A destruição à frente era evidente: casas e estabelecimentos arruinados, poucos civis se escondendo atrás dos escombros.
— Meu Deus — murmurei, aterrorizada.
— Chegamos — anunciou ele, desligando a moto. Pisei no chão, tentando controlar o calor nos braços e me preparar para o que estava por vir.
Bucky tomou a dianteira, como se já soubesse exatamente o caminho. Segui em silêncio, evitando olhar ao redor. Eu não queria ver a destruição, tampouco descobrir como reagiria se encarasse mais uma cena de horror. Uma explosão a mais, outra vida despedaçada... nada disso era necessário para o que restava daquela comunidade.
— O nome dela é Judy — disse Bucky de repente, parando diante de uma das poucas casas intactas da rua. — Estava brincando com as crianças quando tudo aconteceu. Conseguiu se esconder e saiu ilesa. O irmão dela, Josiah, bem... — a pausa dele já dizia tudo. — Não teve a mesma sorte.
Engoli em seco, tentando afastar as imagens que minha mente insistia em criar. Mas era inútil.
Bucky tocou a campainha. O silêncio que se seguiu foi pesado, até que uma voz cortou do outro lado da porta, carregada de rancor:
— Escute aqui, Soldado Invernal, nós não queremos mais papo com gente da sua laia!
A porta se abriu e revelou uma mulher baixa, de olhos cansados e rosto marcado pela amargura.
— Com licença, Hellen — disse Bucky, e pela primeira vez ouvi sua voz suavizar, quase suplicante. Pisquei, surpresa com a mudança de tom. — Eu trouxe Tess. Ela também foi atacada. Talvez Judy possa falar com ela.
Hellen desviou os olhos para mim, me avaliando dos pés à cabeça. Seu olhar se fixou no machucado do meu braço. Tentei sorrir, um gesto pequeno, forçado, quase um pedido mudo de confiança.
— Vocês têm dez minutos — disse ela, seca. Bucky assentiu de imediato. — Se ela não abrir a boca, quero os dois fora daqui. E não voltem nunca mais.
Ela abriu espaço e, sem alternativas, seguimos para dentro.
— Ela está no quarto — informou Hellen, seca. Bucky caminhou como se já conhecesse a casa, e eu apenas o segui em silêncio.
E então a vi. Uma garotinha que não deveria ter mais do que oito anos. Roupas delicadas, típicas de uma criança que ainda deveria brincar de bonecas, mas seus olhos me causavam estranheza. Seus olhos estavam fixos em um ponto da parede, completamente vazios, como se tivessem sido roubados de qualquer brilho infantil.
— Oi, Judy — Bucky pigarreou antes de se abaixar ao lado dela. Sua voz soava calma, paciente, quase paternal. — Sou eu, Bucky. Lembra que eu estive aqui ontem, pra gente conversar?
Nenhuma resposta.
— Eu trouxe uma amiga — acrescentou, lançando-me um olhar de soslaio ao dizer “amiga”. Não soube reagir, fiz uma careta desajeitada, sem decidir se sorria ou se estranhava o rótulo. — O nome dela é Tess. Ela também viu aquela coisa.
Silêncio absoluto.
O ar começou a pesar. Judy permanecia imóvel, perdida em seu próprio mundo, e cada segundo de silêncio parecia apertar ainda mais meu peito. Na porta, Hellen observava como uma sentinela: braços cruzados, olhos de gavião, pronta para nos expulsar ao menor sinal de erro. A ansiedade queimava dentro do meu estômago, como se me empurrasse a agir.
— Oi, Judy — arrisquei, tentando quebrar a barreira entre nós. Minha voz saiu mais baixa do que eu gostaria. — Eu... eu queria falar com você.
Bucky se ergueu devagar, me dando espaço. Agora era comigo.v Me ajoelhei diante dela, sentindo o chão frio contra meus joelhos. Por um instante, não soube o que dizer. Como se fala com alguém que parece ter perdido toda a cor da própria alma?
— Eu... também fiquei com muito medo — murmurei, sem coragem de encará-la diretamente. — Não sabia pra onde correr, nem o que fazer. Achei que ia... — engoli em seco, as palavras presas no nó da garganta. — Achei que não ia conseguir.
Judy não se mexeu. Seus olhos continuavam fixos na parede, como se nada do que eu dissesse pudesse alcançá-la. Ainda assim, senti que precisava continuar.
— Eu também me escondi — acrescentei, baixando a voz como se estivesse contando um segredo só nosso. — E, quando acabou, eu queria que alguém tivesse me dito que estava tudo bem... mesmo que não estivesse.
O silêncio pesava, mas notei algo sutil, os dedos dela, tão pequenos, se contraíram levemente sobre o vestido. Quase imperceptível, mas suficiente para me fazer acreditar que minha voz estava atravessando aquela barreira.
— Você não precisa falar comigo agora, Judy — continuei, devagar. — Mas eu estou aqui. Eu entendo como dói.
De canto de olho, vi Hellen endireitar a postura na porta, surpresa. Bucky, por sua vez, apenas observava em silêncio, como se soubesse que aquele momento não era dele, mas meu.
E, então, Judy piscou. Um movimento simples, mas diferente do vazio estático de antes. Por um segundo, seus olhos se moveram da parede para o chão, como se reconhecessem minha presença.
Meu coração disparou. Pequeno demais para os outros notarem, mas enorme para mim.
— É isso... — sussurrei, quase para mim mesma. — Você não está sozinha, Judy.
A observei por mais alguns segundos, mas nada saiu de sua boca. Suspirei pesado, me dando por derrotada naquela batalha.
— Ele levou Josiah.
Parei no meio do movimento de me levantar. Precisei de um milésimo de segundo para entender o que estava acontecendo. Era Judy. E ela estava falando comigo.
— Como é, Judy? — Instiguei, a voz mais baixa do que eu pretendia.
Foi então que ela virou o rosto. Seus olhos enormes encontraram os meus, e todo o pavor que guardava pareceu se derramar sobre mim.
— Ele levou Josiah com ele. — A voz falhou e os olhos se encheram de lágrimas.
— Como ele levou? — Perguntei com cuidado, mas antes que a resposta viesse, Hellen entrou às pressas no quarto, colocando-se entre nós duas.
— Já chega! — A mãe exclamou, com o tom afiado. — Se vieram aqui pra fazer minha filha reviver esse inferno, podem ir embora!
— Hellen, nós só queremos... — Bucky tentou intervir.
— Não, ele levou a alma do Josiah! — Judy interrompeu de repente, a voz clara e cortante. O silêncio caiu como um peso sobre o quarto.
— Não, querida... — Hellen tentou segurar as lágrimas, passando a mão trêmula pelos cabelos da filha. — Josiah foi morar com o papai do céu, e...
— Não! Eu vi! — Judy se desvencilhou do toque da mãe, levantando-se num pulo e correndo até mim. Segurou minhas mãos com força, e os dedos frágeis pareciam arder contra minha pele. — Você precisa ajudar a liberar a alma dele!
— Judy, eu... — Minha voz morreu antes de se formar por completo. Eu não sabia o que responder.
— Ele pegou você também. Ele queria a sua alma. — Seus olhos grudaram nos meus, implorando que eu acreditasse. — É isso que ele quer. Eu ouvi ele dizer!
Engoli em seco, sentindo o pânico se instalar em meu peito.
— Judy... — Bucky se juntou a nós, pousando a mão humana sobre a dela e apoiando a de metal em minhas costas. O frio do toque me atravessou num arrepio. — O que ele disse?
— Que precisava da energia dele... que ele era especial. — Apesar de responder a Bucky, Judy não desviava de mim. — Então... — sua voz quebrou em soluços — ele soltou uma garra... e enfiou na boca dele.
— Ah, meu Deus! — Hellen deixou escapar, levando as mãos ao rosto enquanto lágrimas de puro pavor deslizavam por sua pele.
Eu mesma só percebi que chorava quando o gosto salgado se misturou à minha boca.
— Saiu uma coisa dele... de Josiah. — Judy tremia, mas não parava. — Era como se o monstro estivesse sugando ele. Eu sei... eu sei que era a alma dele!
Aquelas palavras... aquela descrição grotesca... Não eram apenas da lembrança de Judy. Era como se o eco daquela noite maldita me atingisse de novo, cortando minha respiração, trazendo à tona o frio que ainda não havia abandonado meu corpo desde que o vi pela primeira vez.
A garra. O rasgo em minha pele. Eu não havia tido nada sugado, pois meu poder explodiu antes que ele conseguisse. Mas e... E se ele tivesse conseguido? O que essa criatura queria de mim?
Meus dedos começaram a tremer dentro das mãos pequenas de Judy, mas ela os segurava com tanta força, como se soubesse que estávamos presas ao mesmo fio invisível, o mesmo destino que nos ligava ao monstro.
— É isso que ele quer... — Sussurrou ela, mais para mim do que para qualquer outra pessoa no quarto.
— Chega! — A voz de Hellen cortou o ar como uma lâmina. Ela puxou a filha com força, afastando-a de mim, e depois respirou fundo, tentando manter uma calma que claramente não existia. — Basta. Não vou permitir que vocês alimentem ainda mais esses delírios!
— Hellen... — Bucky começou, mas ela levantou a mão, firme.
— Não. — Sua voz era quase um choro. — Não aqui, não na frente dela.
Por um instante, pensei que fosse nos expulsar de vez. Mas, em vez disso, Hellen inspirou fundo, fechou os olhos e apontou para a porta.
— Vamos conversar lá fora. Agora.
Olhei para Judy, que ainda chorava, mas seus olhos suplicantes permaneciam fixos em mim. Era como se ela estivesse tentando me passar um segredo que nem a própria mãe podia ouvir.
Bucky tocou meu ombro, sinalizando para irmos. Eu engoli em seco, me obrigando a soltar as mãos dela. O frio imediato da ausência me percorreu os braços.
Saímos em silêncio, e quando a porta se fechou atrás de nós, a sensação de peso não diminuiu.
— O que essa coisa quer? — Hellen perguntou de maneira exasperada. — Ele levou meu filho. Matou meu filho. E deixou minha filha nesse estado.
— Nós estamos tentando descobrir — ponderou Bucky, a voz baixa, mas carregada de gravidade. Seu olhar se manteve em mim, como se buscasse antecipar cada passo que eu estava prestes a dar.
— Vocês já enterraram o corpo? — Pedi, me sentindo a pessoa mais sem sentimentos do mundo por conta disso.
— O quê? — Hellen piscou, desnorteada, e Bucky franziu o cenho, tentando encontrar o fio que ligaria nossos pensamentos. — Não... Os médicos legistas não liberaram o corpo ainda, estão analisando.
— Ele fez isso comigo — falei, puxando o curativo, e Hellen levou a mão à boca em pavor. — Bucky me ajudou a fazer um curativo, mas eu estava com o braço apodrecendo. Talvez... talvez a gente encontre algum sinal no corpo de Josiah que possa nos ajudar a entender como essa coisa funciona.
Foi como se eu tivesse arrancado o último fôlego de esperança dela. A mulher explodiu em lágrimas, o corpo inteiro tremendo, e se jogou contra mim, buscando um afago. Eu a segurei firme, deixando que desabasse. Ela precisava disso.
— Ele levou o meu menino... — Chorava copiosamente, e agora eu começava a chorar junto. — O meu doce Josiah... Ele levou.
Eu a apertei com mais força e fechei os olhos, temendo fazer as luzes piscarem como havia acontecido na casa de Bucky. E, ainda assim, senti um leve tremor nas lâmpadas acima de nós.
Bucky, a poucos passos, mantinha a mão metálica cerrada ao lado do corpo, tenso, os olhos fixos em mim, pronto para intervir caso algo saísse do meu controle.
— Nós vamos descobrir o que é isso e o que ele quer — falei com firmeza, e Hellen foi me soltando aos poucos. — Eu prometo.
Seus olhos brilhavam pelo acúmulo de lágrimas. E então, por um instante, o corredor pareceu escurecer, como se a própria casa tivesse ouvido a promessa.
— Ok, eu quero os dois fora da minha casa, agora — disse ela fungando, voltando a sua postura dura e defensiva. — Só voltem aqui quando acabarem com essa coisa. Se não, não quero mais que pisem na rua. Não queremos mais sofrer com isso.
Assenti a olhando no fundo dos olhos, tentando transparecer o máximo de confiança que eu tinha, embora tudo dentro de mim parecesse ruir em medo e ansiedade. Bucky, por outro lado, concordou, afirmando que logo voltaríamos com boas notícias.
E então, sem demora, nós dois saímos como fora o pedido.
Uma sensação de vazio tomou conta de mim no momento em que começamos a caminhar em direção a sua moto. O que aconteceria a partir de agora?
— Onde você mora? — Perguntou Bucky e eu pisquei, me sentindo desnorteada.
— O que? — Balancei a cabeça, tentando me concentrar na conversa. — Eu... Eu não tenho casa, na verdade.
Encolhi os ombros conforme eu falava e senti Bucky ficar ainda mais tenso, se é que isso era possível.
— Mas pode me deixar por aqui, eu procuro um lugar pra ficar e... — comecei falar, mas fui logo interrompida.
— Nosso trabalho juntos ainda não acabou, Tess — trincou o maxilar e apoiou as mãos na cintura, como se pensasse no que íamos fazer. — Sei que o combinado era cada um ir para seu lado, mas a coisa ainda está por aí e provavelmente vai voltar pra te pegar.
— E o que sugere? — Questionei coçando a parte de trás da cabeça.
— Posso ceder minha casa enquanto caçamos a coisa – me encarou profundamente e um arrepio percorreu pela minha espinha. — Mas com uma condição.
— Qual?
— Que você vai me prometer que não vai mais ficar flutuando por aí enquanto dorme.
A seriedade no olhar dele quase me fez rir, mas a verdade é que aquela condição era menos sobre mim e mais sobre o medo dele.
Suspirei, me dando por vencida. — Prometo.
E, pela primeira vez em muito tempo, senti que não estava sozinha.




A convivência humana ainda era um tópico um tanto quanto sensível para mim. Afinal, após fugir e me instalar em lugares diferentes por tanto tempo, era estranho voltar para um lugar que de fato era uma casa, e não um motel barato onde eu passava no máximo cinco noites e depois trocava por outro.
Então voltar para o apartamento de Bucky sem saber por mais quanto tempo eu ficaria por lá, me causou uma sensação diferente.
O caminho de volta foi silencioso e tenso, como quase todas as minhas interações com o homem assustador. Agarrada em sua cintura pelo medo de cair da moto, eu conseguia sentir o seu corpo tenso e duro sob meus braços, mas dessa vez não houve nenhum comentário sarcástico sobre meus poderes, pois até mesmo eles pareciam terem se acalmado no meio de tanta coisa que estava acontecendo.
— Hã... Bucky? — Chamei quando ele estacionou a moto em frente ao prédio onde morava.
Ele apenas me observou, como sempre fazia, esperando que eu continuasse o que queria.
— É que estou sem roupas — falei, constrangida. — No caso, eu sei que tô vestida, mas não tenho nada além disso. Também não tenho nada para minha higiene pessoal, tipo, escova de dentes nem nada assim.
Ele suspirou tão pesado que eu quis me enfiar em um buraco, por me sentir um peso. Eu sabia que a última coisa que ele precisava naquele momento era se preocupar comigo fazendo compras, mas eu não podia ficar mais um dia com a mesma roupa e sem um bom banho.
— Mas pode deixar que eu me viro — tratei de completar, quando recebi mais uma vez o silêncio. — Eu dou uma volta pelo bairro, deve ter alguma loja de roupas que eu possa comprar o que preciso e uma farmácia pras outras coisas. Enquanto isso você pode ir vendo sobre o corpo de Josiah, o que acha?
— Você vai às compras e eu vou verificar um corpo atacado por uma criatura? — Perguntou sério, mas percebi o traço de ironia escondido na voz. — Não me parece uma troca justa.
— Prometo que não vou demorar.
Ele arqueou a sobrancelha, ainda sério, e por um instante achei que fosse recusar. Mas então soltou um suspiro resignado e tirou as chaves do bolso.
— Você tem uma hora pra comprar o que precisa — disse, apontando para mim, e eu assenti rapidamente. — Enquanto isso vou fazer algumas pesquisas antes de irmos ver o corpo.
— Combinado! — Vibrei, e precisei me conter para não lhe dar um abraço em agradecimento. Ao invés disso, lhe lancei um sorriso e esperei que ele entrasse no prédio antes de seguir o meu caminho.
Por sorte, o bairro onde Bucky vivia era cercado por diversas lojas de departamento e alguns brechós, o que facilitaria o meu trabalho.
Eu geralmente não vivia com muito. Nunca passava de mais de dez peças de roupas e dois pares de calçados, pois era o que cabia em minha mala que eu levava para lá e para cá. Quando eu enjoava, trocava em brechós ou revendia por valores menores. O problema é que, mais uma vez, eu precisaria recomeçar tudo do zero, já que todos os meus antigos pertences haviam ficado no quarto de motel, junto com as minhas tulipas. É, talvez a ideia de ser mãe de planta não fosse uma boa coisa mesmo.
A loja escolhida foi uma que não era muito grande nem muito habitada. Apenas uma vendedora, que ficava atrás do caixa, ou seja, sem ninguém no meu pé enquanto eu escolhia o que eu precisava.
Após uma boa verificada pelas araras, decidi o que levaria: duas calças, uma blusa, um moletom e um tênis novo. Um conjunto de lingerie simples e uma pequena bolsa onde caberia o que eu precisava.
— Bom dia — falei sorrindo sem mostrar os dentes, para a vendedora que apenas balançou a cabeça num cumprimento silencioso e começou a passar as minhas compras no sistema.
— Duzentos e oitenta dólares — respondeu após os vários “bips” soarem em seu sistema e sem muito ânimo.
— Vou fazer no cartão de crédito — respondi, começando a tatear meus bolsos à procura de um dos cartões clonados que eu sempre levava comigo.
Mas não encontrei nada. Dos três que costumavam ficar comigo, nenhum estava por ali.
— Merda — sussurrei para mim mesma, passando as mãos pelos cabelos em nervosismo.
A vendedora já começava a me encarar de maneira impaciente.
— Hã, eu acho que... — abri um sorriso amarelo. — Acho que esqueci em casa.
— Eu não posso liberar as roupas sem o cartão.
Abri a boca para pedir que ela guardasse as coisas e que eu voltaria mais tarde, mas o som da porta abrindo chamou minha atenção.
— Mavis? — Era Bucky e a sua voz ecoou firme. Ele falava diretamente comigo. — Procurei você por toda parte.
Franzi o cenho, sem entender. Ele, por sua vez, me encarava com uma expressão controlada, mas havia preocupação em seu olhar e um sorriso discreto no canto dos lábios.
— Você esqueceu seu cartão comigo — disse, mostrando um dos que eu costumava carregar. O gelo percorreu minha espinha ao ver o nome impresso nele: Mavis Spancer.
— Ah, obrigada, querido — entrei em seu jogo, tentando soar natural enquanto pegava o cartão. — Não sei o que seria de mim sem você.
Bucky sustentou o sorriso e se posicionou ao meu lado, encostando nossos ombros como se fosse o gesto mais natural do mundo.
— Aqui — entreguei o cartão para a vendedora, que finalmente pôde finalizar a compra.
A vendedora então me alcançou a sacola com os meus pertences e eu me despedi no meio de um agradecimento. Em seguida, Bucky e eu saímos lado a lado, em um silêncio quase palpável.
— Então... — Ele suspirou pesado e me olhou com cautela. — Mavis Spencer? Ashley Orion? Sarah Mackenzie? Algum desses é seu nome de verdade?
Ele falava num tom que me causava estranheza. Não que fôssemos íntimos para que eu soubesse quando algo estava diferente, mas a desconfiança em sua voz quase me cortou ao meio. Corei furiosamente, sem saber o que responder de prontidão.
— Você pegou do meu bolso... — murmurei, sem coragem de encará-lo. — E eu nem senti. Como fez isso?
— Você mesma disse que gosto de furtividade — deu de ombros, mas seus olhos não se desviaram. — E você ainda não me respondeu.
Encolhi os ombros, sentindo-me como uma criança pega no flagra.
— Se vamos trabalhar juntos, Tess, ou seja lá qual o seu nome, precisamos ter confiança um no outro. — O maxilar dele trincava a cada palavra, e eu quis me encolher até desaparecer.
— É que... — passei a mão pelos cabelos, olhando para os lados como se fosse possível encontrar coragem nas vitrines ao redor. — É complicado. Minha vida é complicada.
— Ninguém disse que seria fácil, Ghost. — Finalmente levantei os olhos para ele, e a intensidade em seu olhar pareceu atravessar cada camada de defesa que eu tinha construído. — Mas preciso que você seja um pouco mais transparente comigo.
As palavras dele ecoaram em mim. E eu sabia que estava certo. Eu estaria dormindo sob o teto dele. Eu devia isso a ele. Respirei fundo, sentindo meu peito apertar como se algo dentro de mim se partisse.
— Meu nome é Tereza — disse por fim, a voz falhando. — Meu apelido é Tess, de verdade. Poucas pessoas sabem disso. Não menti pra você.
— E os cartões? — tirou outro do bolso e o exibiu entre os dedos. — Acho que já sei a resposta, mas quero ouvir de você.
Engoli em seco.
— Eu os faço para sobreviver — admiti, mordendo a bochecha com força. — Não me orgulho disso, se quer mesmo saber. Tudo o que eu mais queria era ter uma vida normal. Uma casa. Um emprego estável. — Minha voz falhou outra vez, e senti meus olhos arderem. — Mas me diga, Bucky... como é que vou me instalar em algum lugar sendo desse jeito?
Apontei para mim mesma, e nesse instante as lágrimas romperam. Não foram silenciosas nem delicadas, foram pesadas, densas, como se carregassem anos de fuga e solidão.
Ele não disse nada por alguns segundos, apenas me observou. E, estranhamente, não havia julgamento em seus olhos. Havia peso, sim, mas não condenação.
— Vamos pra casa, Tess — disse por fim, a voz mais baixa, quase rouca. E naquele instante ele não me chamou de Ghost, nem desviou o olhar. Usou meu nome como se fosse uma promessa. — Lá podemos conversar melhor.
Engoli em seco, assenti em silêncio e o segui.

Se a cama de Bucky era confortável, o chuveiro era ainda mais. Os jatos de água quente caíam sobre meus ombros tensos e me davam a sensação de que minha alma também estava sendo lavada. O shampoo escorria pelos fios, o cheiro fresco inflava meus pulmões, e por um breve instante quase acreditei que podia me sentir segura ali.
Mas não podia me dar esse luxo. Principalmente quando tudo era tão fácil de ruir. Por isso, tentava não gostar demais, nem demorar tanto.
Bucky me esperava no sofá da sala.
O caminho de volta até o apartamento fora silencioso e tenso. As únicas palavras trocadas foram ele pedindo para que eu tomasse um banho e relaxasse antes de conversarmos. Garantiu que me esperaria para trocar meu curativo e colocarmos tudo “em panos limpos”.
Eu não sabia se estava preparada para essa conversa.
Nunca tinha tido essa conversa com ninguém além de mim mesma.
Mas não havia mais volta. Tudo acontecera rápido demais e eu sequer sabia como tinha chegado até ali, apenas que precisava acontecer.
Finalizei o banho sem demora, aspirando contente o aroma suave do sabonete em minha pele. Vesti uma das roupas novas e sequei os cabelos com a toalha emprestada por Bucky. O cheiro dele impregnava quase tudo naquele apartamento. E eu precisei de muito esforço para não admitir para mim mesma que gostava bastante.
— Fiz café — foi a primeira coisa que ouvi ao sair do banheiro. Sobre a mesa de centro, uma xícara fumegante me aguardava. — Servi quando ouvi o chuveiro desligar.
— Obrigada — murmurei, envergonhada, e me sentei ao lado dele, mantendo uma distância segura.
Bebi alguns goles que queimaram minha garganta. O silêncio voltou a se tornar palpável. Eu já havia percebido que Bucky preferia assistir, esperar que os outros falassem primeiro.
— Por que está me ajudando? — A pergunta escapou, carregada pelo medo que me rondava desde o início.
Ele não respondeu de imediato. Suspirou, levantou-se e retornou em seguida com a caixa de primeiros socorros.
— Porque você é uma sobrevivente — disse, enquanto segurava meu braço com cuidado para trocar o curativo. — Assim como eu.
Meu rosto inteiro ardeu, e pequenas faíscas saltaram da ponta dos meus dedos. Ele fingiu não notar e continuou seu trabalho com paciência.
— A mãe de Judy, Hellen… ela te chamou de uma coisa — engoli em seco. — Soldado Invernal. O que significa?
Ele parou. Ficou imóvel por alguns segundos, e o ar pareceu pesar. Meu estômago se revirou, temendo ter tocado em algo que não devia.
— Você realmente não sabe? — Sua voz carregava uma súplica, como se precisasse que eu dissesse que não. Apenas neguei com a cabeça. — Tudo bem. Façamos um trato: você me conta a sua história, e eu te conto a minha.
— Fechado. — Tentei sorrir, mas uma careta de desconforto surgiu quando ele apertou meu braço sem querer. — Tudo bem… por onde você quer que eu comece?
— De onde você acha importante que eu saiba. — Seu tom era sério. Ele estava me dando um voto de confiança, talvez o último.
— Eu matei minha mãe no parto. — Fui direto ao ponto, arrancando de Bucky um olhar surpreso. — Não de propósito, claro. Mas criei uma nuvem de raios e ela morreu por causa deles. Nunca soube se tinha pai. Logo depois, fui dada para adoção. Um convento de freiras me acolheu, onde vivi até os oito anos.
— Quantos anos você tem?
— Vinte e oito — suspirei. — Faz vinte anos que vivo de um lado para o outro. Fugi do convento quando percebi que nada do que acontecia comigo podia ser explicado ali. Cansei de rezar para Deus me curar, enquanto me deixavam trancada em uma sala chamada “solitária”.
Molhei os lábios com a ponta da língua e o observei terminar o curativo com destreza.
— Obrigada — murmurei, esboçando um sorriso. Ele só esperou que eu continuasse. — Aprendi a roubar e furtar cedo, pois era a única forma de sobreviver. Passei por abrigos e casas de apoio até atingir a maioridade. Desde então, nunca fico mais de uma semana no mesmo lugar. É mais seguro assim.
— Seu nome é Tereza mesmo? — Ele perguntou de repente.
— O quê? — Pisquei, confusa. — Sim. Tereza Meyer.
Bucky se levantou e voltou com o notebook. Sem explicar nada, começou a digitar com concentração e um tanto de dificuldade, os olhos iluminados pela tela. Esperei em silêncio, tentando adivinhar o que ele fazia.
— Onde você nasceu?
— St. Louis. — Franzi o cenho. — O que você tá fazendo?
— Dia?
— Vinte e um de dezembro.
— Você sobreviveu ao estalo? — Olhou-me de canto. Assenti. Ele voltou a digitar.
— Bucky, pode me explicar onde você está querendo chegar?
— Não acredito que seu nome seja Tereza Meyer. — Virou a tela do computador em minha direção. — Não há nenhum registro seu em hospital nenhum de St. Louis. Nem em todo o Missouri.
Ele digitou mais algumas coisas.
— Nem em qualquer parte dos Estados Unidos. Também não há registro de entrada de nenhum bebê em convento algum na data do seu nascimento.
Meu lábio tremeu. O ar sumiu dos meus pulmões. A tela do notebook confirmava o que ele dizia: nenhum registro em meu nome. Era como se eu não existisse.
— Isso explica por que você nunca foi detida por clonagem de cartões, ou quando fugiu do convento tão nova. — A voz de Bucky era calma, quase compassiva, como se me desse tempo para processar.
— Eu… eu… — as palavras sumiram da minha boca, engolidas pelo desespero que me dominava.
A xícara sobre a mesa de centro tremeu, junto com todos os objetos em cima dela.
— Tess, eu estou aqui. — A mão calejada e a metálica agarraram as minhas, e um choque percorreu todo o meu corpo. — Você precisa manter a calma, ou vai explodir as coisas aqui dentro.
Algumas lágrimas escaparam pelas minhas bochechas. Apertei as mãos de Bucky de volta, tentando recuperar o controle. Procurei seu rosto, temendo encontrar reprovação, mas o que vi em seus olhos azuis foi apenas preocupação e ternura. Por baixo da casca grossa de homem assustador, havia algo suave que me puxava de volta ao meu ponto de paz e tranquilidade.
Aos poucos, a sensação de sufocamento e ansiedade foi se dissipando.
— Isso não muda quem você é. — Murmurou, olhando fundo nos meus olhos. Mais uma lágrima caiu.
— Acha que a criatura tem alguma coisa a ver diretamente comigo?
— Quem sabe? — Deu de ombros. — Não importa. O que importa é que vamos proteger você, Judy e a mãe dela. E encontrar essa coisa. E destruí-la.
Assenti, fungando. Soltei as mãos de Bucky e sequei as lágrimas com a ponta dos dedos.
— Sua vez. — murmurei, me encolhendo no sofá.
Ele me lançou um olhar confuso.
— Sua vez de me contar a sua história.
Bucky recostou-se no sofá, os ombros pesados como se carregassem décadas de segredos. Passou a mão pelo rosto, demorando-se antes de falar.
— Minha história não é simples, Tess. — murmurou, a voz baixa, quase áspera. — E também não é bonita.
Eu abracei os joelhos contra o peito, esperando. Ele manteve o olhar fixo na própria mão metálica, como se ela fosse a sua lembrança mais cruel.
— Digamos que… por muito tempo, eu não fui exatamente dono de mim. — Fez uma pausa, respirando fundo. — Pessoas erradas me usaram para fazer coisas das quais não me orgulho. Coisas horríveis.
Senti um arrepio percorrer minha espinha. Não era difícil juntar as peças: os silêncios, os olhares pesados, o jeito como ele sempre parecia carregar o peso do mundo.
— Mas isso não foi culpa sua. — Arrisquei, mesmo sem saber o que dizer de fato.
Ele soltou um riso curto, sem humor.
— Tenta convencer o meu reflexo disso, quando olho no espelho. — Murmurou e suas palavras me cortaram como facas afiadas.
Meus lábios se entreabriram, mas nenhuma palavra saiu. Então, de repente, ele desviou o olhar para mim e arqueou uma sobrancelha, mudando o rumo da conversa.
— E antes que você pergunte… sim, eu sou muito mais velho do que pareço — disse com uma ponta de ironia. — Vamos dizer que já perdi a conta das velas no bolo.
Pisquei, surpresa, tentando calcular mentalmente sua idade, mas o sorriso torto dele me desarmou.
— Tá falando sério? — Perguntei, incrédula. — Tipo… “muito mais velho” quanto?
— O bastante para ter lido O Senhor dos Anéis na época do lançamento.
Encarei-o por dois segundos inteiros, procurando algum resquício de mentira, mas ele apenas continuou me olhando com aquele sorriso travesso.
— Você tem mais de noventa anos?! — Exclamei alto demais e precisei me conter para não tocar o rosto dele, como se pudesse descobrir se aquilo não era uma máscara. — Como isso é possível?
— Fui um experimento por muito tempo — trincou o maxilar. — Injetaram um soro que retardou meu envelhecimento.
— Uau… — precisei de muito esforço para não permanecer de boca aberta. — Você tá mais do que muito bem pra quem já é um idoso.
Ele riu pelo nariz, e eu arregalei os olhos no mesmo instante, sem acreditar que tinha realmente falado aquilo.
— Vou levar isso como um elogio — respondeu ainda rindo.
— Você que manda, vovozinho. — Retruquei com um sorriso malicioso.
Ele arqueou uma sobrancelha, mas não respondeu, apenas pegou as chaves sobre a mesa e me lançou um olhar que misturava exasperação e paciência. Segui seus passos até a porta, sentindo aquele frio no estômago que nunca me abandonava quando estava com ele, uma mistura de fascínio e receio.
O apartamento se fechou atrás de nós, deixando para trás o breve momento de leveza. O peso daquele dia longo voltou a se instalar sobre meus ombros. Logo estaríamos diante do corpo de Josiah e algo me dizia que aquela não seria a visão mais difícil que enfrentaríamos.



De todas as coisas estranhas que já haviam acontecido em minha vida, a última que eu pensei viver foi a de invadir um necrotério e procurar por um corpo às escondidas.
— Por que a gente não entrou pela porta da frente? — Perguntei para Bucky enquanto ele me oferecia suporte para que eu pulasse para dentro do que parecia ser a lavanderia pela janela
Tentei fazer o menos de barulho que eu conseguia quando senti meus pés alcançarem o chão. Abaixei-me instintivamente e esperei que Bucky viesse logo atrás de mim.
— E o que você diria? Que veio ver um corpo por pura vontade própria? — Ele me olhou com obviedade. — O acesso só é permitido a médicos, boneca.
Boneca. Uma faísca se acendeu na boca do meu estômago e eu precisei fingir que o apelido não havia me afetado.
— Tudo bem? — Ele me olhou com preocupação.
— Tudo, é que não é sempre que eu invado um necrotério, sabe — troquei o peso de uma perna para outra, tentando evitar seu rosto.
— É que tinha uns coraçõezinhos voando ao redor da sua cabeça — falou num tom divertido e eu arregalei os olhos. Merda. — Vamos, não temos tempo.
Engoli o seco e o segui, agradecendo aos céus por ele não se concentrar no fato dos coraçõezinhos que haviam saído de mim só por ter ouvido um simples “boneca” da boca dele. Eu precisaria me controlar melhor, pois já estava me deixando levar demais por um rosto bonito. Bonito até demais.
— Tá legal, qual é o plano? — Perguntei ao ver que ele observava o lado de fora pela janela da porta.
Bucky se inclinou perto da porta, o olhar afiado varrendo os cantos como se pudesse enxergar através das paredes.
— O plano é simples — disse, em voz baixa. — A lavanderia dá direto para o corredor de serviço. Daqui, temos três opções: um, vamos para a sala de arquivos, pois se alguém apagou o nome do Josiah, vai estar ali. Dois, câmara fria que é onde eles guardam os corpos antes de liberar para autópsia. Três, necrotério central que pode ser o nosso último recurso, mas é onde podem ter escondido o corpo.
Eu arregalei os olhos, começando a me questionar onde é que eu havia me enfiado.
— Três opções? Achei que você tivesse algo mais… certeiro. – Mordi a bochecha em nervosismo.
— Isso é certeiro — ele rebateu, se mostrando impaciente. — Primeiro a gente confirma nos arquivos. Se não acharmos nada, vamos para a câmara fria. Se ainda não encontrarmos, é porque alguém está mentindo.
Ele olhou para mim, sério e eu me encolhi institivamente.
— Você fica de olho no corredor — voltou a falar. — Se alguém aparecer, você tosse duas vezes. É o nosso código. Nada de gritar, entendeu?
Assenti, engolindo o nervosismo.
— E se alguém desconfiar da gente? — Perguntei, cruzando os braços.
Ele tirou uma caixa de luvas descartáveis de uma das prateleiras e me entregou um par.
— Então a gente improvisa. Finge que é funcionário, que veio buscar roupa ou entregar exame. — Ele exalava impaciência. — Mas lembre-se, quanto menos falar, melhor.
Vesti as luvas, tentando parecer profissional. Mas por dentro, meu coração batia forte demais para qualquer missão.
— Então vamos nessa, boneca — murmurou, empurrando a porta devagar.
O corredor parecia mais frio do que deveria. Talvez fosse psicológico, mas a cada passo eu sentia o ar gelado bater na pele como se me lembrasse do que havia atrás daquelas portas de metal.
— Por aqui — Bucky murmurou, mantendo-se encostado na parede enquanto caminhava, o corpo inteiro pronto para reagir a qualquer ruído.
Eu o segui, torcendo para que meus passos não soassem tão altos. Nem mesmo os anos de fuga haviam me deixado tão silenciosa quanto Bucky.
Ele então parou diante de uma porta estreita com uma plaquinha metálica: ARQUIVOS.
— Bingo. — Bucky puxou do bolso um pequeno estojo que parecia saído de um filme de espionagem. Em segundos, já estava mexendo na fechadura como se fosse a coisa mais natural do mundo.
— É sério que você anda por aí com kit de arrombamento? — Sussurrei, tentando ignorar meu nervosismo.
— E você não? — Ele arqueou a sobrancelha com a sombra de um sorriso, e o clique suave da fechadura ecoou como um trovão no silêncio do necrotério.
Entramos, Bucky na frente e eu o seguindo como uma garotinha assustada. Eu conseguia sentir os batimentos cardíacos aumentarem a pressão dentro da minha caixa torácica a cada novo passo.
A sala estava mergulhada em penumbra, com prateleiras lotadas de pastas e uma escrivaninha velha no canto, iluminada apenas pela luz vermelha piscante de um monitor em desligado. O cheiro de papel velho e desinfetante se misturava de um jeito desconfortável.
— Procure a letra “J”. Rápido. — Bucky começou a puxar caixas com a calma tensa de quem sabia exatamente o que fazia.
Corri os olhos pelas etiquetas, as mãos tremendo um pouco enquanto puxava pastas. Jackson. John. Jordan. Nada.
— Não tem nada de Josiah aqui — murmurei, sentindo um arrepio me subir pela espinha.
Bucky fechou uma gaveta com força contida, os músculos tensos, se concretizando o que ele temia.
— Eles apagaram o garoto dos registros. — Passou a mão de metal pelo rosto de maneira exasperada.
Antes que eu pudesse responder, um estalo metálico ecoou no corredor. Como se uma porta tivesse se fechado.
Eu congelei. Bucky ergueu a mão, pedindo silêncio absoluto.
Parei de respirar para que não o atrapalhasse e o observei seguir até a porta e verificar o que poderia ter sido aquilo. A mão humana agarrou a maçaneta e ele a girou com delicadeza, mas nada aconteceu.
— Merda! — Ele exclamou no meio de um sussurro.
— Trancaram a gente? — Perguntei o óbvio e pude vê-lo arfar enquanto olhava ao redor, procurando qualquer saída que pudesse nos parecer boa.
— Alguém sabe que estamos aqui – apoiou as mãos na cintura. — E talvez saiba como a gente pensa.
Puxei uma quantidade considerável de ar para dentro de meus pulmões e dei um giro em minha própria volta, tentando não entrar em pânico.
— Por que você não arromba a porta? — Sugeri sem pensar muito.
— E então o plano de furtividade vai por água baixo, Tess — ele estava tenso e sua postura me deixava ainda mais nervosa.
— Mas já sabem que estamos aqui — tentei justificar e percebi que estava gesticulando demais, como sempre fazia quando ficava nervosa. — O plano de sermos o Batman já acabou faz um tempo, sabe.
Ele estreitou os olhos, como se processasse minhas palavras, mas claramente detestava admitir que eu tinha um ponto.
— Primeiro, eu sou o Batman nessa dupla. — Ele ergueu a mão de metal e apontou o indicador no meu nariz e, se eu não estivesse tão nervosa, estaria rindo.
— E eu sou o quê, então? — Cochichei, cruzando os braços. — O Robin?
O canto da boca dele tremeu, mas a tensão no olhar permanecia.
— Talvez a Batgirl. Mas uma que fala demais.
Revirei os olhos, mas antes que pudesse retrucar, passos pesados ecoaram no corredor. Alguém estava ali. E estava se aproximando.
Bucky se moveu em silêncio absoluto, quase grudando a mão metálica sobre a minha boca antes que eu deixasse escapar qualquer barulho de nervosismo. Com a outra, apontou para baixo da mesa de metal enferrujada.
Aquilo não parecia um esconderijo decente, mas, sinceramente, não era hora de discutir. Me agachei, o coração martelando tão alto que tive certeza de que quem estivesse do lado de fora conseguiria ouvir.
A maçaneta girou lentamente. O som arranhou meu estômago.
Eu não sabia o que era pior: sermos descobertos ou passar mais alguns minutos sufocando em silêncio absoluto ao lado do Soldado Invernal, que parecia pronto para matar ou morrer a qualquer instante.
Cutuquei suas costelas, num pedido silencioso que ele maneirasse a força.
— Preciso... respirar... — minha voz saiu abafada e quase inaudível.
Mas seu toque não teve tempo de se tornar mais brando, pois um barulho alto se deu acima de nós, me fazendo pular de susto. E então, num piscar de olhos, todas as luzes estavam apagadas.
Achei que Bucky fosse soltar fogo pelas ventas quando o olhei de soslaio. Ele, por sua vez, me puxou ainda mais perto e manteve a mão em minha boca, me sufocando lentamente. Logo ele teria dois problemas, o que quer que fosse que estava acontecendo e eu desmaiada aos seus pés pela falta de ar.
Outro baque. Seco e rígido. E a porta estava no chão. Completamente arrancada, fazendo com que apenas o vento gélido do corredor adentrasse pelo rombo que a falta da porta causava.
— Mas que merda... — Bucky sussurrou com seus olhos de águia atentos a qualquer movimentação estranha.
E então eu me senti em um filme de terror.
Do fundo do corredor surgiu uma velhinha, doce e amigável como a que havia se transformado na criatura. De passo lento e bengala na mão, ela se aproximava com os olhos fixos em mim.
Não tive tempo de avisar a Bucky quem realmente era aquela velhinha, pois ele logo havia me soltado e já estava em pé, pronto para atacar e combater o que quer que aquilo fosse.
— Olá, querida — a voz da velhinha saiu estremecida e eu engoli o seco, tentando manter a calma. Seus olhos envoltos pelo óculos de grau pareciam não enxergar Bucky que a fuzilava com o olhar. Tudo o que ela fazia era me encarar fixamente. — Não achei que fossemos nos encontrar aqui hoje.
E então Bucky atacou.
Avançou como uma sombra, a mão de metal erguida e o corpo em tensão absoluta, pronto para esmagar qualquer coisa que se interpusesse entre mim e a criatura.
Mas, antes mesmo de chegar perto, algo invisível o atingiu. Foi como se tivesse batido contra uma parede de concreto. O impacto o lançou de volta alguns passos, e ele cravou as botas no chão para não cair. O som do metal arranhando o piso ecoou pelo corredor.
— Fica atrás de mim! — Ele rosnou, e a ordem soou mais como um instinto de sobrevivência do que uma estratégia.
Eu já sabia. Ele também sabia. A velhinha não queria ele. Nunca quis. Os olhos por trás das lentes grossas continuavam cravados em mim, como se Bucky fosse apenas fumaça.
Ele tentou de novo. Um movimento rápido, certeiro, de soldado treinado para nunca errar. A lâmina de sua faca brilhou por um instante sob a luz fraca, mas, no meio do trajeto, o ar pareceu se solidificar. O golpe parou no ar, a poucos centímetros da criatura.
Bucky rugiu de raiva, os músculos do braço metálico se contraindo como se fosse estourar as juntas, mas nada aconteceu. A faca não avançava. Nem um milímetro.
— Que porra é essa? — Ele arfou, os dentes cerrados, os olhos faiscando ódio e incredulidade.
A velhinha, por sua vez, apenas sorriu. Um sorriso pequeno, cortês, completamente fora de lugar. Algo começou a borbulhar dentro de mim.
— Eu disse, querida… — a voz soou tremida e ao mesmo tempo anormalmente firme, como se duas bocas falassem juntas. — Nosso encontro era inevitável.
E então, como se o esforço de Bucky fosse insignificante, ela moveu apenas a bengala. Um toque leve no ar e o corpo dele foi arremessado contra a parede com violência, como se fosse feito de papel.
— Bucky! — Meu grito rasgou o silêncio.
Senti o ar sumir dos meus pulmões e fechei os olhos, a combustão dentro de mim pronta para explodir. Mas, antes que acontecesse, um estrondo cortou o ambiente. O vidro das janelas estilhaçou em mil pedaços, a sala inteira iluminada por reflexos cortantes.
A velhinha urrou, e sua voz deixou de ser apenas humana. Um som grave, distorcido, quase animal. Mas, ao contrário da outra vez, eu não tinha sido lançada para longe. Meu corpo ainda estava no mesmo lugar.
Abri os olhos, confusa, e então percebi: a explosão não tinha vindo de mim.
— Hoje não, vovozinha! — Uma voz forte ecoou, seguida de um borrão metálico atravessando o ar.
Num movimento brutal e certeiro, a velha foi derrubada ao chão. O impacto ecoou como um trovão.
— Capitão América? — Minha surpresa escapou em voz alta, incrédula, enquanto a figura com asas prateadas e escudo reluzente tomava o espaço.
Ele não me olhou. Estava ocupado demais golpeando a criatura com precisão militar. A imponência dela parecia diminuir a cada impacto, mas seu rosto ainda se retorcia em algo que não era humano.
A coisa urrou outra vez, tentando formar palavras, mas a garganta deformada só produzia ruídos grotescos. O Capitão a atacava de forma veloz, usando o ar a seu favor, socando e desviando, como se fosse impossível acompanhá-lo.
Eu ainda estava paralisada. Até que meu olhar caiu sobre o corpo aparentemente imóvel no chão.
— Bucky! — Minha voz saiu num soluço desesperado. Sem pensar, corri até ele, ignorando o perigo, o caos, o herói e a criatura.
A batalha pareceu congelar por um instante, e percebi os olhos de ambos, do Capitão e da velhinha, se voltarem para mim.
Mas não perdi tempo em ficar olhando-os e me ajoelhei ao lado de Bucky.
Seu peito subia e descia de forma irregular, e por um instante achei que ele fosse desmaiar. Mesmo assim, sua mão metálica buscou a minha, um gesto trêmulo, como se quisesse me afastar.
— Tess... corre... — sussurrou com esforço, mas eu não obedeci.
Um estalo ecoou antes que eu pudesse reagir. A criatura se desvencilhou da luta e avançou na minha direção com velocidade brutal. Seus olhos, opacos e famintos, cravaram-se em mim como se nada mais existisse.
O coração martelava no peito e minha cabeça revirava numa tontura que eu não sabia de onde vinha. Eu sabia que, se ela me tocasse, seria o fim.
O braço disforme da velha-que-não-era-velha se ergueu, pronto para me agarrar, mas no instante em que a mão se aproximou, algo aconteceu.
Um calor abrasador percorreu meu corpo de dentro para fora, explodindo em um clarão súbito que me envolveu como uma parede invisível. O impacto foi imediato, a criatura foi arremessada para trás, colidindo contra a parede com força.
Ofegante, olhei para minhas próprias mãos, que ainda tremiam e brilhavam como se estivessem carregadas de energia viva. Eu não tinha feito nada de propósito, mas havia sido eu. Salva pelo meu próprio gongo, mais uma vez.
A criatura se ergueu novamente, urrando em frustração. Avançou de novo, tentando me alcançar, mas cada passo era barrado pela mesma energia que vibrava em torno de mim, como se o próprio ar tivesse se tornado sólido. Ela urrava, arranhava, golpeava, mas não conseguia me tocar.
— Tess... — Bucky murmurou, entre a dor e o espanto.
A criatura deu um último grito, gutural e raivoso, antes de recuar. Seus olhos mortos não desgrudavam de mim, como se me marcassem. Então, num movimento repentino, ela se lançou contra a janela estilhaçada e desapareceu na noite escura.
Fiquei imóvel, os braços ainda erguidos, a respiração descompassada. O brilho se apagou devagar, até restar apenas minhas mãos vazias, trêmulas.
Me virei para Bucky, o peito ardendo.
— Ele... não conseguiu... — murmurei, sem acreditar.
Os olhos cansados de Bucky se encontraram com os meus. Apesar da dor, havia um brilho determinado ali.
— Mas vai tentar de novo.
Engoli em seco, incapaz de responder. O frio da sala parecia se enroscar em volta do meu corpo, mas não vinha do necrotério. Era de dentro de mim.
Foi então que senti outro olhar sobre mim. Levantei os olhos e encontrei o Capitão, parado na sombra quebrada da janela, as asas recolhidas, o escudo ainda erguido. Ele não dizia nada, mas seus olhos avaliavam cada detalhe minuciosamente, a criatura, Bucky no chão, e principalmente eu.
O silêncio pesou, e minhas pernas quase cederam.
Eu estava ferrada.
Se antes o plano era viver escondida do mundo, agora tudo tinha mudado. Um herói tinha visto. E meu segredo já não estava seguro com ninguém.



O saudoso Capitão América era, aparentemente, tudo o que eu não esperava.
Começava pelo fato de ele conhecer Bucky e terminava com os dois brigando na minha frente como um casal de velhinhos.
— O que foi que conversamos sobre sumir sem dar notícias? — O herói pestanejava com Bucky, que ainda estava no chão, gemendo de dor.
— Eu estava resolvendo... coisas — Bucky fez uma careta, e eu não soube distinguir se era de ranzinza ou de dor.
— “Coisas”? Você chama de “coisas” lutar contra uma criatura das trevas sem me avisar? — Capitão América estava com as mãos na cintura, o olhar sério e cortante. — Fiquei preocupado, seu velho idiota.
— Foi por isso mesmo que eu não falei nada. — Bucky estendeu a mão para que o amigo o ajudasse a levantar. — Você é muito dramático
Por um segundo achei que o herói fosse socar seu rosto. Mas, em vez disso, a surpresa se transformou em um sorriso breve, e logo os dois trocaram um abraço apertado e amigável.
Engoli em seco, desconfortável, com aquela sensação de não pertencer à cena. Encolhi-me no canto e considerei, por alguns segundos, sair de fininho e deixar os dois resolverem suas pendências. Mas antes mesmo que eu desse o primeiro passo, já me encaravam.
— E quem é a Super Girl, hein? — Capitão arqueou uma sobrancelha, divertido.
— Super Girl? — soltei sem pensar. — Eu sou a Batgirl.
— O quê? — O herói piscou, confuso, enquanto Bucky riu pelo nariz e imediatamente fez uma careta de dor. Capitão o segurou pelos ombros para que não caísse.
— Essa é Tess — disse Bucky, com dificuldade. — Minha... hã... amiga?
— Você não sabe se ela é sua amiga? — O herói o encarou, e os dois trocaram uma expressão que quase me arrancou uma risada. Eles eram engraçados juntos.
— É, ela é minha amiga — disse Bucky, meio desconcertado. — Ela tá dormindo na minha casa.
— O quê? — Sam arregalou os olhos e ergueu as sobrancelhas. — Olha, no meu mundo, isso tem outro nome...
Senti meu corpo inteiro pegar fogo.
— Cala essa boca — Bucky resmungou, com a voz mais grave do que o normal.
— Tudo bem, chame como quiser, então. — Sam ergueu uma das mãos em rendição, já que a outra ainda segurava Bucky pelo braço. — Muito prazer, Tess, “amiga” do Bucky. Sou Sam Wilson.
— Eu sei quem você é — respondi constrangida, mas ao mesmo tempo maravilhada. Era uma sensação estranha estar tão perto de um herói de verdade.
— Espera... você sabia quem ele era esse tempo todo, mas não sabia quem eu era? — Bucky pareceu ofendido, o que fez Sam soltar uma gargalhada alta.
— Isso é ciúmes, meu velhinho? — provocou Sam, dando um tapinha no ombro de Bucky, que gemeu de dor.
— Você tem sorte de eu estar com dor, se não já teria quebrado esses seus dentes branquinhos — Bucky resmungou, e Sam riu ainda mais.
— Eu vi ele na TV — tentei me explicar, a voz um pouco trêmula. — Poucas vezes, na verdade. Você sabe... sem muito tempo pra ficar vendo notícias.
Bucky me olhou de um jeito que fez meu estômago revirar, e eu desviei rapidamente o olhar.
— Ok, pombinhos, vou chamar um táxi pra vocês irem pra casa — anunciou Sam.
Bucky abriu a boca para retrucar, mas Sam ergueu a mão e o cortou no mesmo instante:
— Eu fico e converso com a polícia. Depois encontro vocês em casa e a gente tira essa história a limpo.
E assim foi feito. Em poucos minutos, nossa carona nos esperava do lado de fora.
Sam ajudou Bucky a entrar no banco de trás e eu me sentei ao seu lado, pronta para qualquer coisa que ele precisasse.
O caminho até a casa dele foi silencioso e tenso. O clima que pairava entre nós parecia quase palpável. Se eu tivesse uma faca, talvez conseguisse cortar aquela sensação que me dava calafrios e embrulho no estômago.
— Obrigada e boa noite — falei ao motorista quando ele estacionou em frente ao prédio de Bucky.
Ele apenas acenou e esperou pacientemente que eu ajudasse Bucky a sair do carro com alguma dificuldade.
— Eu consigo, boneca — ele disse arfando, e eu quase rolei os olhos pela sua teimosia. — Sou um super soldado, não vou morrer.
— E super teimoso também — resmunguei, imitando o tom de Sam, enquanto passava o braço de Bucky pelo meu ombro para ajudá-lo a subir as escadas.
Ele bufou como uma criança mimada, e eu reprimi um risinho. Era curioso como ele podia passar de um velho ranzinza de cem anos para um garoto birrento em segundos.
— A chave tá no meu bolso — anunciou, ofegante, quando chegamos no topo dos degraus que pareciam não ter fim. — Na parte de trás da calça.
Meu rosto pegou fogo só de imaginar ter que colocar a mão ali, e percebi que ele também parecia desconfortável com a situação.
Com toda a cautela do mundo, tentei encostar o mínimo possível e enfiei a mão lentamente em seu bolso, evitando tatear demais.
— Tess... — ele murmurou, e eu respondi um “hmm”, sem coragem de olhar pra ele. — Você tá esquentando minha bunda.
Arregalei os olhos e afastei a mão imediatamente. Dos meus dedos, faíscas avermelhadas escapavam, iguais às que tinham surgido quando eu o aquecei na moto.
— Meu Deus, eu vou morrer de vergonha — falei, virando o rosto para a parede.
Ele soltou uma risada curta pelo nariz, e aquilo só aumentou ainda mais meu constrangimento.
— Desculpe — falei por fim e após uma longa suspirada. — Vou tentar não te esquentar dessa vez.
Não tive coragem de olhá-lo, mas eu sabia que ele me observava.
Dessa vez, tentei não me deixar levar pelos meus sentimentos bobos e fiz com rapidez, pegando a chave pela argola dos chaveiros e a enfiei na fechadura no instante seguinte, para não dar espaço para que voltássemos a falar sobre esse assunto.
— Onde dói? — Pedi a ele assim que o ajudei a se deitar no sofá.
— Tudo — fechou os olhos enquanto falava e arfou. — Parece que levei uma surra de um batalhão inteiro.
— Aquilo te pegou de jeito, hein — falei dando a volta pelo sofá e me sentando a sua frente.
— Imagina o que não faria com você, se tivesse conseguido te pegar — falou ainda de olhos fechados e eu engoli o seco, ficando trêmula com o pensamento.
— Obrigada por me salvar — falei sinceramente.
— Sam salvou você, no final das contas — deu de ombros e se ajeitou, deitando mais para baixo.
— Mas se você não fosse ter me encontrado naquela conveniência, ele já teria me encontrado e sabe-se lá o que seria de mim.
— Besteira — ele estalou a língua contra o céu da boca. — Tenho certeza de que você daria um jeito de escapar.
Revirei os olhos, mas não consegui evitar um sorriso pequeno. Ele podia ser insuportavelmente teimoso, mas havia algo nisso que me aquecia por dentro.
— Tá bom, soldado invencível... — murmurei me impulsionando para levantar. — Deixa eu ver seus machucados.
Ele arqueou a sobrancelha, como se estranhasse meu tom autoritário repentino.
— Não precisa, boneca. Vou ficar bem, já passei por coisa pior. — Ele tentou minimizar, mas o ranger de dentes o entregou.
— Não é porque você já passou por pior que não dói agora — retruquei, e só depois percebi o quão suave minha voz tinha saído.
O olhar dele se prendeu no meu, intenso demais, como se buscasse alguma coisa que eu não tinha certeza de poder oferecer.
— Você se preocupa demais comigo — disse por fim, quase num sussurro.
— Alguém tem que fazer isso — respondi, tentando soar leve, mas sentindo minhas bochechas queimarem.
O suspiro dele veio pesado, mas, por fim, ergueu a barra da camisa. A visão me tirou o fôlego. Hematomas arroxeados marcavam as costelas, cortes recentes riscavam a pele, mas foi outra coisa que fez meu coração disparar.
Ali, próximo ao abdômen, se espalhava uma mancha esverdeada, pulsante, como se tivesse vida própria. A mesma cor que manchava meu braço desde o ataque.
— Meu Deus... — a mão tremeu quando a levei até perto da pele dele, sem coragem de tocar. — É igual ao meu.
Ele franziu o cenho e abriu bem os olhos para me encarar.
— Igual... ao quê?
Respirei fundo, sentindo minha garganta arder de nervoso. Mas eu não queria mentir para ele. Não depois de tudo.
— O meu braço... — Não precisei mostrar, pois ele mesmo sabia como ele estava. Embora não doesse mais, a cor ainda estava feia e se os curativos não fossem trocados, ficavam escuros e molhados.
O silêncio entre nós se tornou quase ensurdecedor. O olhar dele ficou preso no meu, intenso, como se estivesse tentando decifrar cada parte de mim.
— Será que é um tipo de... — Engoliu o seco. — Veneno?
Mordi o lábio com força, com medo de pensar demais e chegar a uma conclusão que não nos agradasse nenhum pouco.
— Mas ele não me tocou... — Bucky divagou. — Eu não senti ele me tocar.
Franzi o cenho, me obrigando a colocar as engrenagens da minha cabeça para funcionar e repassei toda a cena em minha cabeça. Bucky me defendendo. A velhinha sem deixar ele se aproximar. Bucky atacando mais uma vez. A velhinha mexendo a bengala e o jogando para longe.
— A bengala tocou em você? — Levantei uma hipótese e Bucky me olhou sem entender. — Talvez o veneno estivesse na sua bengala de alguma maneira completamente assustadora e maníaca.
Bucky ficou em silencio por alguns segundos, tentando se lembrar com clareza dos fatos. E, quando abriu a boca para me responder, uma batida seca na porta o interrompeu.
— Sam — ele disse e eu me levantei para recebê-lo.
— Como está o velhote? — Sam perguntou já entrando e parando ao lado do amigo que já assumia uma carranca no rosto.
— Vivo, para a sua infelicidade — Bucky resmungou.
— O que é isso? — Sam fingiu não ter ouvido o ultimo comentário de Bucky e começou a analisar onde eu olhava instantes atrás.
— Achamos que pode ser um tipo de veneno que a criatura libera — expliquei virando meu braço para que Sam pudesse entender sobre o que eu falava. — Quando fui atacada, ele enfiou as garras no meu braço e ele ficou do mesmo jeito.
O Capitão olhou mais a fundo o machucado de Bucky e uma feição de preocupação assumiu seu rosto.
— Afinal, o que é essa coisa? — Sam murmurou visivelmente preocupado.
— Era o que estávamos tentando descobrir — Bucky fez uma careta ao tentar se mexer.
— E porque não pediu minha ajuda? — Sam disse se movimentando pelo apartamento, provavelmente a procura do kit de primeiro socorros.
— Você tem muita coisa pra se preocupar — Bucky balançou os ombros e Sam estalou a língua no céu da boca, incomodado.
— E você é uma delas, Bucky — ele disse sério. — Você não tem que resolver tudo sozinho sempre.
— Não estava sozinho — Bucky deu um sorriso convencido, como se tivesse ganhado a discussão. — Tess estava comigo.
Enrubesci e baixei a cabeça. Algo fervilhou dentro de mim.
— E o que essa coisa quer com você, Tess? — Sam virou-se para mim enquanto preparava os curativos, a expressão de desconfiança me acertou em cheio.
— Eu não sei — mordi o lábio e remexi as mãos em nervosismo.
O silêncio pairou entre nós três. Cada um absorto demais em seus próprios pensamentos, levantando suas próprias hipóteses sobre o que tudo isso queria dizer.
Senti o peso dos olhares sobre mim: o de Sam, cauteloso, avaliando cada movimento meu, como se procurasse uma resposta nas entrelinhas, e o de Bucky, mais suave, mas ainda firme, como se quisesse me dizer que eu não precisava enfrentar aquilo sozinha.
Tentei desviar dos olhares e esperei que Sam cuidasse do machucado de Bucky.
Sentei-me na poltrona mais afastada e observei a cena em silêncio, desejando sumir daquela situação que me sufocava e estava virando tudo de cabeça para baixo.
Suspirei pesado e fechei os olhos, tombando a cabeça para trás. As cenas da batalha com a criatura invadiram minha mente em fragmentos confusos. Eu precisava de respostas. O que aquela coisa queria comigo? O que queria com o corpo de Josiah?
Um enjoo me tomou de repente, um nó se formando entre o estômago e a garganta. Minha pele formigou e algo dentro de mim se deslocou.
— Tess? — A voz de Bucky me puxou de volta. Abri os olhos, ofegante, e percebi o espanto estampado nos rostos deles.
— O que foi? — Perguntei, mas nenhuma resposta veio.
Segui o olhar deles e então vi: parte do meu braço já não estava lá. As bordas do meu corpo se dissolviam no ar, como se eu fosse feita de fumaça sendo levada pelo vento.
— Bucky, o que é isso?! — Sam exclamou, levantando-se de imediato.
Meu coração disparou e tentei, em desespero, me agarrar à sensação de estar inteira. Mas quanto mais lutava, mais rápido a realidade me escapava.
— Tess — Bucky chamou outra vez, a voz grave e firme, ancorando meus sentidos. Eu me forcei a encarar seus olhos azuis, tentando encontrar algo que me prendesse ali.
O ar sumiu dos meus pulmões. Meu corpo perdeu o peso. E, diante do olhar atônito dos dois, comecei a levitar, como se estivesse sendo arrancada da própria existência.
Um arrepio percorreu minha espinha. Eu quis gritar, me afastar, mas o elo parecia cada vez mais forte, me afogando na escuridão dos olhos dela.
— Tess! — A voz de Bucky ecoou distante, abafada, como se viesse de trás de um vidro grosso.
Eu tentei me agarrar a esse som, mas a criatura não desviava. Ela me mantinha presa, olhos nos olhos, como se quisesse me marcar para sempre.
De repente, outra sensação atravessou o nevoeiro: o calor de uma mão firme envolvendo a minha.
— Olha pra mim — a voz de Bucky soou de novo, mais clara desta vez, firme, real.
A escuridão vacilou. Os olhos da criatura ainda estavam lá, tentando me puxar, mas agora havia outro par de olhos à minha frente, azuis, intensos, me chamando de volta.
Respirei fundo, arfando, e, num solavanco, meu corpo despencou de volta à poltrona. O ar entrou com violência nos meus pulmões e minhas mãos tremeram quando percebi que estava inteira, visível de novo.
— Tess! — Dessa vez foi Sam quem correu até mim, ajoelhando-se ao meu lado. — O que está acontecendo com você?
Tentei abrir a boca para responder, mas só um suspiro rouco escapou. A sala girava, o chão parecia distante e minha visão nublava.
Bucky ainda não soltava minha mão, mas eu já não conseguia me manter firme.
— Fica comigo — ele pediu baixo, quase como um sussurro.
O mundo escureceu antes que eu pudesse dizer qualquer coisa.
E então, tudo se apagou.



A primeira sensação que invadiu meu corpo antes mesmo de abrir os olhos foi a de uma náusea que me deixou tonta e o instante seguinte foi marcado pelo jato de vômito que saiu de minha boca em direção ao chão.
— Ah merda... Bucky, vem aqui!
E mais uma vez botei para fora tudo o que tinha em meu estômago.
O gosto amargo e a cor esverdeada anunciavam que o possível problema estava em meu fígado. Mas tudo dentro de mim parecia borbulhar em um fogo ardente e meu corpo tremulava a cada nova náusea que continuava me acometendo.
— Tess! — Uma mão fria como metal repousou em minhas costas e uma toalha tocou meu rosto, limpando as lágrimas que escorriam loucamente pelas minhas bochechas. — Meu deus, você tá bem?
Abri bem os olhos, ainda surpresa pelo vômito repentino e sem saber onde eu estava.
Era Bucky. E ele me olhava preocupado.
Eu estava em seu quarto, com roupas que não eram minhas.
— O que... — Não consegui terminar de falar e vomitei mais um pouco. Dessa vez, Bucky fora mais rápido e me dera um balde para que o estrago não fosse ainda maior. — ...Aconteceu?
— Você precisa descansar — ele disse, fugindo do assunto e me entregou a toalha para que eu limpasse a boca.
— Ok! O que é isso tudo? — Uma terceira voz se juntou a nós e vi Sam parado na porta do quarto com um rodo e panos.
Engoli a saliva que se acumulava em minha boca e então entendi sua expressão de pavor. O líquido no chão borbulhava em algo que parecia ácido e completamente mortal. E o pior, eu havia vomitado aquilo tudo.
— Isso não é normal — Sam falou, ainda imóvel, como se o simples ato de pisar mais perto pudesse ser perigoso. — Isso parece… tóxico.
O barulho do líquido borbulhando preenchia o quarto em intervalos regulares, como se tivesse vida própria. O cheiro ácido parecia grudar no ar. Eu estremeci, abraçando a toalha contra meu peito.
— O que… o que aconteceu comigo? — minha voz saiu fraca, trêmula. — Eu só lembro de… de tudo ficar escuro. Depois… nada.
Bucky e Sam trocaram um olhar rápido, carregado de preocupação.
— Tess… — Bucky começou, com o tom baixo, quase como se não quisesse me assustar ainda mais. — Você desmaiou nos meus braços. Ficou… apagada.
— Por quanto tempo? — Perguntei, o coração já disparando.
Ele suspirou, desviando os olhos por um instante antes de voltar a me encarar.
— Quase um dia inteiro.
Engoli em seco, sentindo minhas pernas tremerem.
— Um dia inteiro? — Repeti, incrédula. — Vocês me deixaram assim, sem saber se eu ia acordar?
— Eu fiquei aqui o tempo todo — Bucky respondeu, firme, como se quisesse deixar claro que não havia me abandonado nem por um segundo. — Mas… não sabíamos o que fazer. Você não reagia a nada.
— E quando acordou, começou a vomitar isso aí — Sam completou, apontando para o líquido borbulhante que se espalhava pelo chão.
Meu estômago se revirou ao olhar para aquilo de novo. O verde pulsante, denso e corrosivo. Precisei de muito autocontrole para não vomitar mais uma vez.
— É o mesmo verde… — murmurei, a voz falhando enquanto as engrenagens em minha cabeça juntavam as peças dos últimos acontecimentos que começavam a retornar para a minha mente em terríveis lembranças. — Igual ao do machucado da criatura.
Bucky se virou imediatamente para mim.
— Você viu isso também no meu ferimento, não foi? — Seus olhos buscaram os meus, exigindo a verdade. Engoli em seco, incapaz de negar.
— Sim… é exatamente a mesma cor.
Por um instante, o silêncio pesou. Eu conseguia sentir os pensamentos deles se entrelaçando, calculando possibilidades, perigos, tentando entender como tudo aquilo se conectava.
— Então é veneno — Sam concluiu, se aproximando com cautela. — A coisa te atingiu, Tess. Mas não é só isso… — ele apontou para o balde que Bucky segurava. — Está dentro de você.
Não soube o que pensar nem em como agir. Não podia ser real. Nada daquilo fazia sentido. Três dias atrás eu apenas queria cuidar de algumas tulipas que havia comprado, agora tinha veneno de uma criatura horrenda dentro de mim.
— Precisamos deixar você em quarentena — disse Sam enquanto passava um pano úmido no líquido pegajoso do chão.
— O que? — Bucky e eu dissemos em uníssono.
— Não sabemos o que essa coisa é — o herói falou com seriedade e eu senti Bucky ficar tenso ao meu lado. — Nem o que isso é capaz. E se está dentro dela, não sabemos quando virá para fora ou os riscos que isso tudo pode causar.
Um amargo surgiu em minha boca pelo tom de Sam ao se referir a mim como “dela”. Eu não era mais Tess. Era uma ameaça para ele e sentia que ele faria de tudo para combater.
— Isso é loucura — disse Bucky se levantando. — Não podemos deixar Tess trancada.
— O que não podemos, meu amigo, é deixar que algo de pior aconteça — Sam falava sério e Bucky o encarava ainda mais.
— Não vamos trancar a Tess! — Bucky exclamou e eu me encolhi ao grito do soldado raivoso.
— Não vamos estar trancando ela como se fosse uma solitária — Sam então me direcionou o olhar. — Conheço uma base no interior. É tipo um bunker. Tem comidas e outras coisas de suporte. Vamos manter contato por meio de câmeras de segurança enquanto Bucky e eu tentamos encontrar respostas sobre tudo isso.
— Não, Sam. Isso não vai acontecer — Bucky tentou mais uma vez.
— Isso não é decisão sua — Sam apontou para o seu peito. — Tess, o que você acha?
Engoli em seco, o estômago revirando novamente, mas dessa vez não era só pelo veneno, era pelo peso da escolha.
Os olhos de Sam estavam cravados em mim, firmes, impiedosos, como se quisessem arrancar uma resposta imediata. Já os de Bucky… os dele tremiam. E eu não soube interpretar o que isso queria dizer.
— Eu… — minha voz falhou, e senti o peito arder. — Eu não sei, Sam. Eu não sei o que está acontecendo comigo.
— É por isso mesmo que precisamos ser cuidadosos — ele rebateu, com calma, mas sem suavizar as palavras. — Ninguém aqui quer te machucar. Mas se esse veneno se espalhar, se tiver… efeitos que não conhecemos, você também não vai querer machucar a gente nem ninguém, certo?
Meu coração parou por um instante. A ideia de me tornar uma ameaça para o mundo era insuportável.
— Você não vai machucar ninguém — Bucky interveio, com firmeza, segurando meu braço como se pudesse me ancorar à realidade. — Eu prometo, Tess. A gente vai descobrir um jeito.
Eu o encarei, tentando absorver aquela certeza que ele carregava, mas havia medo por trás de sua voz. Um medo que o traía, mesmo que ele não quisesse admitir.
— Bucky… — sussurrei, apertando a mão dele. — E se o Sam tiver razão?
Vi seus olhos se fecharem por um instante, como se minhas palavras o perfurassem. Mas, antes que ele pudesse responder, Sam se aproximou, sério:
— Não se trata de escolher entre nós. Se trata de você sobreviver.
O silêncio que veio depois parecia pesar toneladas.
— Tudo bem. — Disse no meio de um suspiro e sentindo uma pontada de arrependimento instantâneo em meu peito. — Me leve até essa base, Sam.
Bucky me olhou com mágoa e eu engoli o choro. O peso da realidade de tudo isso se tornava mais pesado a cada segundo.
— Eu termino de limpar essa bagunça — Bucky disse tirando o rodo da mão de Sam e sem me olhar.
E saiu do quarto sem mais nada dizer.
— Vamos Tess, tome um banho e se arrume — Sam assumiu uma postura autoritária. — Saímos assim que você estiver pronta.
Assenti e me levantei com dificuldade, sentindo as pernas fraquejarem.
Era isso. Não tinha mais volta. Eu era o que eu mais temia em toda a minha vida: uma verdadeira ameaça para todas as pessoas.

Bucky não se despediu. E eu fui embora tal como era o plano desde o início. O apelido Ghost começava a fazer cada vez mais sentido.
O bunker ficava a duas horas de onde estávamos e Sam pediu que eu fosse no banco de trás. Nossa interação foi mínima, por mais que eu sentisse que ele queria perguntar muitas coisas. Mas como não sabíamos como o veneno agia ou se propagava, o silêncio parecia mais seguro que qualquer palavra.
O lugar onde eu ficaria por tempo indeterminado lembrava a batcaverna: escondido no subsolo, iluminado apenas por lâmpadas artificiais, frio e sem janelas. Eu teria dificuldade em distinguir o que era dia e o que era noite.
Câmeras estavam espalhadas pelo local, e um computador vigiava de um canto. Apesar da atmosfera estranha, o bunker imitava uma casa. Sala, quarto, banheiro e até uma minicozinha. Mais confortável do que muitos hotéis onde já fiquei.
Mas eu estava sozinha de novo.
E, aparentemente, brigada com Bucky.
Duas coisas que faziam meu peito se apertar como se fosse encolher para sempre.
— Qualquer notícia nova, avisamos pelos microfones das câmeras — disse Sam, antes de ir embora.
No instante em que fiquei só, o desespero veio como uma onda silenciosa. Não podia deixar que me engolisse, se perdesse o controle, não teria mais onde ficar.
Mesmo assim, era difícil.
Meus suspiros ecoavam pelo quarto vazio, enchendo o ar de cansaço. Acabei me sentando ao pé da cama que seria minha pelos próximos dias. Sam havia dito que eu não estava presa. Mas era exatamente assim que me sentia: enjaulada como um pássaro. Presa por algo invisível. Presa por algo que não tinha nenhum controle.
E, enquanto o silêncio pesava, uma sensação estranha latejava no fundo do meu braço, como se o veneno estivesse apenas… esperando.
Deitei na cama sem sequer me trocar. O colchão parecia confortável, mas o vazio em volta tornava tudo desconfortável. Fechei os olhos tentando enganar o cansaço, mas a escuridão não ajudava, pelo contrário, parecia viva.
Cada estalo da estrutura do bunker ecoava como se fosse um trovão. O zumbido baixo das lâmpadas parecia uma voz, insistente, constante, martelando dentro da minha cabeça.
Foi quando senti.
Um calor estranho percorreu meu braço, lento, como se estivesse rastejando sob a pele. Abri os olhos e, na fraca luz amarelada, percebi a mancha esverdeada voltando a pulsar, como se respirasse.
O medo subiu pela garganta, mas junto com ele veio algo diferente: uma pressão nos pensamentos.
Era como se uma presença me observasse de dentro para fora.
Pisquei várias vezes, tentando afastar aquela ideia, até que, por um instante, não vi mais o quarto. Vi olhos. Gigantes, luminosos, fixos em mim na escuridão. Os mesmos olhos da criatura.
Minha respiração se descompassou. Meus dedos tremeram. Era como se, mesmo ali, trancada em um bunker, ela ainda estivesse comigo, ligada a mim.
— Para… — sussurrei, sem nem saber para quem.
Fechei os olhos com força, as unhas marcando a palma da mão. Mas quanto mais eu tentava lutar, mais os olhos voltavam, queimando na minha mente, como se me puxassem para um lugar que eu não queria ir.
— Não! — Gritei, sentando de repente na cama, o suor frio escorrendo pela nuca.
Cambaleei até a parede e bati a testa contra ela, tentando me ancorar no real, qualquer coisa que me fizesse lembrar que eu ainda estava ali, viva, respirando.
Foi quando percebi a câmera, discreta, instalada no canto do quarto. A luz vermelha piscava, pequena, mas implacável. Eu não estava apenas sendo atormentada pelo veneno. Eu estava sendo observada.
Engoli seco.
E, em algum lugar do outro lado daquela lente, eu sabia que Sam estava vendo tudo, o meu colapso, minha fraqueza, meu medo transbordando.
Não consegui evitar. O choro veio em ondas, descontrolado, e por mais que eu odiasse a ideia, não havia como esconder. As luzes piscaram furiosamente acima da minha cabeça.
Sam estava me vendo despedaçar.
E eu não tinha forças para parar.
— Tess... — senti minha cabeça revirar ao ouvir meu nome ser chamado e eu fiquei com medo de não estar mais reconhecendo o que era realidade ou não. — Tess, tá me ouvindo?
Girei a cabeça, ainda com a testa apoiada na parede e senti as gotículas de suor descerem pelas minhas bochechas. A luz vermelha da câmera continuava piscando.
— Tess, é o Sam — a voz robótica disse e eu arfei. — O que você tá sentindo?
— Eu... — Engoli a saliva com dificuldade e a cabeça revirou mais uma vez. — Eu acho que essa coisa... Ela... Ela tá dentro de mim. Me observando... Não sei explicar.
O estômago revirou e eu achei que fosse vomitar ali como havia feito no quarto de Bucky.
— Tess, me escuta — a voz de Sam parecia se afastar e se aproximar ao mesmo tempo. — Achamos que o Bucky encontrou alguma coisa que pode nos ajudar. Mas você precisa se manter forte.
Virei o rosto pra câmera, tentando fazer as lágrimas pararem.
— Tem alguns calmantes na gaveta ao lado da cama — Sam continuou. — Tente tomar alguns para dormir. Você precisa descansar.
Fiz o que ele pediu, cambaleante. A sensação de estar sendo observada se grudou nas minhas costas e eu me esforcei muito para não sucumbir a sensação e ao medo de tudo aquilo.
Deitei novamente na cama, com as mãos trêmulas. Afastei os cabelos do rosto e puxei a coberta até o queixo. Fechei os olhos com força e tentei pensar em coisas felizes. Cachorrinhos de olhos brilhantes. Sorvete de morango. Tulipas roxas. Cheiro de chuva.
E pareceu funcionar. Aos poucos, minha mente pareceu relaxar e os tremores foram diminuindo. Os músculos tensos dos ombros já não estavam mais tão enrijecidos e a sensação de estar sendo observada pela criatura também ia se afastando conforme o sono ia invadindo minha mente.
A última coisa que ouvi antes de apagar foi a voz calma de Sam:
— Descansa, Ghost. A gente está de olho em você.
Meus olhos já estavam se fechando quando outra voz cortou o silêncio pelo alto-falante, grave, firme, inconfundível:
— Só não faça nenhuma besteira, Tess.
Meu corpo inteiro enrijeceu. O coração disparou.
— Bucky…? — Sussurrei para o vazio.
Mas não houve resposta. Apenas o chiado baixo das câmeras preenchendo o espaço.
De repente, não sabia mais se aquilo tinha sido real ou fruto da minha cabeça cansada.


Continua...


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: Sem nota.

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