Revisada por: Lightyear 💫
Última Atualização: 22/08/2025A floresta estava estranhamente silenciosa naquela noite. Não se fazia audível nem o canto agudo dos grilos ou o bater de asas invisíveis; apenas um vazio que se espalhava entre os troncos e o vento frio balançando as folhas das árvores altas de Mudwood. A lua pairava nítida no céu limpo, branca e fria como o olho de um deus ausente, iluminando o caminho de casa.
Estranho. Uma noite deveras estranha. Algo estava no caminho, eu podia sentir. O ar estava diferente — denso, quase sólido, com uma doçura sufocante, como veneno de cobra.
Suspirei enquanto cruzava os braços e franzia a testa levemente. Ótimo dia para Sonja ir à cidade e deixar-me sozinha. Lembrei-me de suas ordens: "alguém está vindo fazer uma encomenda. Se eu não chegar em casa até lá, você deve oferecer sua ajuda". Não era a primeira vez que eu assumia um cliente, mas nunca sem a supervisão dela. Não que estivesse insegura ou algo assim, apenas... aquela maldita sensação de que algo estava errado me roía por dentro.
Calafrios percorriam minha espinha pela última hora e, por um breve momento, desejei ardentemente que Sonja voltasse logo.
Passos quebraram o silêncio, roçando na grama molhada de orvalho. Levantei a cabeça num sobressalto, como um cão de caça ao farejar uma presa, vendo a pequena figura de uma garota que não parecia ter mais de dezoito anos vindo em direção à casa. Deve ser aquela de quem Sonja me falou, pensei. Desfiz os braços amarrados e tentei parecer mais acolhedora, a linha de preocupação em minha testa suavizando-se. Ela parecia angustiada; sombras escuras sob seus olhos igualmente escuros e cansados que evitavam os meus, e os braços que seguravam firmemente o próprio corpo. Com uma visão melhor do rosto da garota sob a luz pálida das velas, a reconheci prontamente. Nancy Plath. Filha do Magistrado, a mais nova de suas irmãs. Ela tinha quinze anos, se me lembrava corretamente; era raro uma garota tão jovem procurar os meus serviços e os de Sonja. Isso só podia significar uma coisa.
— Eu lhe saúdo, Nancy Plath. Entre. — Abri a pesada porta de madeira atrás de mim e entrei sem sequer esperá-la. Se ela ficou surpresa por eu saber seu nome, não transpareceu.
Ela entregou-me a cesta que segurava com cuidado, provavelmente contendo o que Sonja pedira como pagamento. Era difícil para nós duas viajarmos para longe para comprar mantimentos, então às vezes exigíamos alimentos que não conseguíamos encontrar na floresta ou fabricar como forma de contribuição.
— Gostaria de um chá? Biscoitos? Por favor, sente-se. Eu não mordo.
A garota encarou-me com um olhar inquieto, mas sentou-se no sofá duro e aceitou uma xícara de chá.
— O que tem aqui? — perguntou, tímida, após erguer ligeiramente os olhos.
— Apenas lavanda e camomila. Para seus nervos. — Não pude conter um leve riso. Estava acostumada com a desconfiança dos moradores locais, mesmo que eles precisassem desesperadamente dos nossos serviços, mas isso nunca falhava em me divertir. Quando ela pareceu envergonhada, garanti que estava tudo bem. — Você não será a primeira nem a última a desconfiar. E, verdade seja dita, não está errada. Cuidado nunca é demais.
Ela assentiu e tomou um gole do chá. Ainda parecia terrivelmente inquieta, embora claramente apreciasse o gosto da bebida, seus dedos batucando contra a porcelana. Esperei pacientemente até que ela se sentisse segura o suficiente para compartilhar o motivo da visita, sem apressá-la de forma alguma. Claramente, era algo muito sério e possivelmente traumático. De qualquer forma, eu não tinha pressa.
— Tudo o que eu disser aqui jamais será ouvido por outros, certo? — ela finalmente perguntou depois de alguns minutos, ainda evitando meu olhar.
Sorri de leve para transpassar segurança enquanto negava.
— Claro que não. Seus problemas são apenas seus. Não dizem respeito a mais ninguém. — A estudei com expectativa. Vi os machucados em suas unhas, a forma como arrancava as cutículas e peles do lado delas. Feria-se, possivelmente, há dias. Devia estar nadando em angústia. — Não é meu lugar julgá-la. Seja o que for.
Ela suspirou e cobriu o rosto com a mão livre, entregando-se a soluços violentos que faziam todo o seu corpo tremer. Meu coração doeu um pouco, e não consegui evitar sentir pena dela.
— Permita-me ajudá-la, Nancy. O que posso fazer para aliviar sua dor?
— Você... você conhece Jonathan Gray?
Grunhi levemente enquanto pressionava os lábios num bico de descontentamento. O rapaz Gray novamente, é claro. Mas ele havia mirado alto desta vez, a filha mais nova do Magistrado?
— Muitas meninas que vêm aqui o têm citado ultimamente. Você parece ser a mais nova até agora. Quer me contar o que aconteceu? — “mesmo que eu já saiba a resposta para essa pergunta”, completei mentalmente.
— Meu pai deu um jantar há alguns meses para comemorar meu noivado com Peter Marcher. Jonathan Gray é um dos amigos mais próximos dele, então, naturalmente, ele foi convidado. Meu pai e ele acabaram se aproximando por compartilharem alguns valores em comum, então ele começou a frequentar minha casa com muito mais frequência.
Ela parou para recuperar o fôlego e limpar as lágrimas com um movimento rápido da mão, colocando a xícara na mesa de centro corroída.
— Uma noite, no mês passado, meu pai o convidou para passar a noite em nossa casa, pois já era bem tarde. Ele veio aos meus aposentos no meio da noite e... me forçou. Desde então, meu sangue não desce mais. Estou arruinada! — Ela cobriu o rosto novamente, elevando a voz alguns tons. — Se fosse só o... o ato, isso daria para lidar. Mas um fruto no meu ventre! Ele me arruinou completamente. Não posso ter este bebê, então uma das criadas me contou sobre você. Pagarei o quanto você exigir. E os pesadelos… — Agarrou a cabeça com as duas mãos num ato de desespero. — Eu imploro, apenas me ajude.
Instintivamente segurei uma de suas mãos e acariciei-a com ternura para trazer-lhe conforto. Aquela pobre criança. A raiva fervia em meu peito, como um oceano tempestuoso em minhas veias. Algo precisava ser feito em relação ao rapaz Gray. Eu cuidaria disso.
— Não tema, minha irmã. Você não será arruinada. Nós cuidaremos disso. Quanto a Jonathan Gray, ele não será um problema por muito mais tempo.
Meu tom ficou mais sombrio ao mencionar o rapaz, e virei as costas para Nancy enquanto começava a colher algumas ervas para um chá, para que se livrasse do problema maior.
— Você tem alguém de confiança para preparar essas ervas para você? Posso lhe entregar o chá pronto, mas você teria que voltar aqui para buscá-lo.
— Eu posso arranjar. Vir aqui uma vez já foi difícil. Só me diga o que fazer.
— Muito bem. — Coloquei as ervas em um pote de vidro e fechei-o bem. Enquanto lhe dava as instruções para o chá, ela já parecia mais esperançosa, assentindo atentamente, os grandes olhos marejados focados nas minhas palavras.
Depois de agradecer quantas vezes o decoro lhe permitiu, ela se virou para ir embora, mas parou no meio do caminho, evitando encarar-me.
— O que... O que você vai fazer com ele? Com Jonathan?
Não pude deixar de sorrir sombriamente, erguendo o queixo com um olhar perigoso.
— Não se preocupe mais com este assunto. Tudo será resolvido. Abençoada seja, irmã. Vá para casa em segurança e em paz. — desejei, dando um passo à frente para fechar a porta, sozinha novamente. Um sorrisinho malicioso decorou meus lábios. Sabia exatamente o que fazer, mesmo sendo um dos atos estritamente proibidos por Sonja. Teria de fazê-lo antes que ela voltasse.
Eu entraria nos domínios dos sonhos dele e faria o homem perverso pagar por seus atos.
Senti meu corpo leve como uma pena enquanto me deitava na cama. Fechei os olhos e me concentrei na tentativa de centralizar meu poder e guiá-lo para o intuito necessário.
"In regna somniorum intrao, Jonathan Gray, somnia tua mea sunt." Entoei as palavras em latim quando me senti pronta, "no domínio dos sonhos eu entro, Jonathan Gray, seus sonhos são meus", até sentir minha consciência desconectada do corpo e uma imagem tênue começou a flutuar no fundo do meu cérebro.
Abri os olhos. O cheiro de terra molhada invadiu minhas narinas, a luz quente do sol banhava minha pele. Respirei o ar puro do campo e ouvi os pássaros cantarem alegremente.
Mais uma vez, a raiva fez meu sangue ferver.
Aquela pobre garota estava tendo pesadelos todas as noites, e aquela criatura imunda estava tendo os sonhos mais doces. Como isso era justo?
Virei-me e finalmente avistei Jonathan Gray deitado sob uma árvore, sem nenhuma preocupação, enquanto olhava para o horizonte com um olhar pensativo. Aproximei-me, chamando a sua atenção com um sorriso sedutor no rosto e um rebolar suave dos quadris enquanto me movia, parando bem à sua frente.
— Bem, olá. O que uma coisinha linda como você está fazendo aqui sozinha? Estes são campos perigosos, sabia? — ele arrulhou, e um sorriso vil e maléfico deformava suas feições já desagradáveis.
Engoli o próprio desgosto que amargou como fel e sorri ainda mais.
— Eu sempre me banhei neste lago, então é você quem está invadindo meu lugar seguro. Mas... se quiser… — comecei a desamarrar as vestes enquanto caminhava em direção à água. — … pode juntar-se a mim.
Seus olhos se arregalaram e, com um largo sorriso, ele começou a se despir.
Assim que estávamos completamente nus, puxei-o pela mão para as águas mornas do lago escuro, apreciando o quão seduzido e sob meu feitiço ele já estava. Era perfeito. Como seria fácil garantir que Jonathan Gray nunca machucasse mais ninguém.
— Qual é o seu nome, minha bela? — ele questionou, suas mãos percorrendo meu torso e apalpando o que conseguia como uma criança em uma loja de doces.
— Você pode me chamar assim, na verdade. Minha bela.
— Com certeza combina com você. — Ele gemeu levemente quando lambi o lóbulo de sua orelha, mordiscando-o. — Eu simplesmente preciso de você. Preciso tê-la.
Ri baixinho e segurei seus ombros, minhas unhas criando vergões na pele clara.
— Ah, é? O que você faria para que isso acontecesse?
— Qualquer coisa. Tudo. O que você desejar, minha senhora, será seu. Eu sou seu homem.
— De fato, você é. Tudo bem, então, Jonathan. Há algo que eu quero. Você me concederia esse desejo?
Inclinei-me para lamber o lóbulo da orelha dele novamente, mas desta vez, uma língua de cobra saiu dos meus lábios e o silvo o assustou, fazendo com que seus ombros se tensionassem.
— Minha senhora? — perguntou e tentou afastar-me para olhar em meu rosto. A visão à sua frente o fez empalidecer, os olhos opacos arregalando-se de pavor.
Eu não era mais a beleza que ele vislumbrava no início. Agora, minha pele estava acinzentada como a de um cadáver. A pele em decomposição descascava-se de várias partes do meu corpo, e meus olhos pareciam nada ver, dois globos embranquecidos que escorriam um líquido escuro nauseante. Meus lábios, antes tão convidativos, agora estavam finos e riscados, feitos de pavor, como os dentes podres que despontavam deles.
— Morra, Jonathan Gray — ordenei, e o corpo dele foi puxado para debaixo d'água antes mesmo que pudesse gritar, seus pulmões se enchendo com a água agora congelada do lago.
Não tive tempo para me alegrar com meus feitos, no entanto. Tudo ficou escuro e o vazio frio engoliu-me por inteiro. Ofeguei enquanto olhava ao redor e tentava controlar meus nervos para compreender o que estava acontecendo. Em um momento eu tinha perfeito e total controle do sonho, mas agora tudo era uma mistura turva e desconexa que me sufocava.
— Você ousa entrar em meu reino sem ser convidada? — Uma voz ecoou em meus ouvidos, tão alta que franzi a testa um pouco e segurei as laterais da cabeça para bloquear o barulho. A energia e o poder do ser que se dirigiu a mim me fizeram perceber instantaneamente meu terrível erro e por que Sonja me proibia tanto de tais atos e feitiços. — Como ousa usar o Sonhar para seus próprios interesses?
Quando a sensação de uma chicotada jogou meu corpo para trás, senti que caí abruptamente na cama, ofegante. Que diabos foi isso? O que aconteceu?
Eu não estava sozinha. Havia uma presença em minha cabana, algo ancestral e poderoso que fez meu sangue congelar nas veias. Levantei a cabeça e me recostei rapidamente na cama ao perceber que um homem alto, esguio e de cabelos tão escuros quanto a noite me encarava a poucos metros de distância. Havia um corvo em seu ombro, e ele grasnou, prestando atenção em mim.
— Quem é você? Exijo que me diga seu nome! — Tentei parecer menos assustada e mais ameaçadora do que realmente era, mas minha voz me traiu, falhando e tremendo levemente.
O homem de cabelos negros se aproximou, parecendo, se possível, ainda mais pálido e ameaçador com a minha pergunta, seus olhos brilhando no escuro como dois vaga-lumes. Percebi que ele havia apagado toda fonte de luz, sendo iluminado apenas pela lua que entrava pela janela.
— Tenho um acordo com a sua espécie, feiticeira — pronunciou o título como se fosse uma maldição. Sua voz era profunda, rouca, e senti como se já a tivesse ouvido antes, de alguma forma, num tempo há muito perdido, em pensamentos há muito esquecidos. — O Sonhar jamais deve ser usado como instrumento a seu serviço, nem você deve entrar sem um convite adequado de seu governante.
Há muito tempo, Sonja me contara sobre os Perpétuos, seres antropomórficos que governavam os domínios responsáveis pelos pilares da humanidade. Ela dissera que era improvável que eu encontrasse um deles algum dia — salvo a ocasião da minha própria morte —, mas que existiam e perduravam, e as bruxas lhes deviam o devido respeito.
Engoli em seco. Sonho. Eu havia enfurecido um dos mais poderosos dos Perpétuos, o Senhor dos Sonhos e Pesadelos, o Modelador de Formas, o Monarca das Marchas Adormecidas.
Aquele era Morpheus. Em peso, em pessoa, ali na minha frente. Abaixei o olhar num sinal de respeito enquanto minha mente lutava para consertar a merda que eu havia feito, enquanto eu tentava vir com alguma desculpa plausível que não me complicasse ainda mais.
— Compreendo minha infração, meu senhor. No entanto, não me pareceu justo que uma criatura como Jonathan Gray tenha sonhos tão adoráveis enquanto seis garotas da vila sofrem com memórias e pesadelos causados por ele. — Falhei miseravelmente na tentativa, meu tom se tornando um pouco arrogante e desafiador.
Os olhos do Perpétuo brilharam ainda mais, e sua voz soou como punhais em minha pele, como a sensação de cair em um lago congelado na noite mais fria do ano. Tentei controlar minha respiração, as ondas de seu poder fluindo pelo meu peito, arrepiando minha espinha, ribombando em meu ser como as batidas de um tambor.
— Lembre-se de seu lugar, ou o farei para você. Por acaso, ousa me dizer como comandar meu próprio reino? — questionou, seu queixo erguido de maneira tão arrogante quanto o meu, sua voz profunda como um abismo. A fúria contida era nítida em seu tom, quase um grunhir de voz.
Hesitei, quase dizendo que sim, mas em plena consciência das consequências que aquilo traria.
— Lorde Morpheus. — Uma voz calma e contida ecoou pela casa, e vi Sonja atravessar a porta, colocar uma grande cesta sobre a mesa com os mantimentos que havia ido buscar. Ela fez uma reverência elegante ao rei dos sonhos. — Perdoe, minha protegida. é jovem e imprudente e, de tais defeitos, consigo apenas corrigir um. Como sabe, uma bruxa de berço pode ser difícil nos primeiros anos.
— Uma bruxa de berço, você disse? — ele perguntou, erguendo uma das sobrancelhas, a expressão facial mais significativa que o vi exibir até aquele momento. — A primeira em muitos séculos, se me recordo bem.
— De fato. Então, compreende o quão crucial ela é para minha espécie, e o quão erráticas e problemáticas podem ser na juventude, nos primeiros anos. Peço desculpas profundamente pelo delito dela, e garanto que isso não acontecerá novamente.
Senti-me muito estúpida, como se ela estivesse falando de uma criança fazendo birra, um cachorrinho mau-comportado. Como se eu sequer estivesse ali. Senti minha raiva começar a aumentar novamente e, antes que pudesse me controlar, divaguei mais uma vez.
— Jonathan Gray vem violando mulheres há meses sem punição, e esperam que eu fique parada e não defenda minhas irmãs da forma que eu puder? — questionei enquanto encarava seus olhos brilhantes. — Típico de um homem, aliar-se a seus iguais, Perpétuo ou não…
Sequer consegui terminar de falar. Naquele momento, a mão de Sonja chocou-se contra minha bochecha e lançou-me direto ao chão com tamanho impacto. O gosto de sangue invadiu minha língua, e engatinhei para longe dela, chocada, cobrindo meus lábios ensanguentados. Ela nunca havia erguido a mão para mim antes.
— Cale-se, criança! — rangeu entredentes, os olhos arregalados de fúria. — Mostre algum respeito à Lorde Morpheus!
Um chiado baixo chamou minha atenção, e minha familiar, uma cobra preta venenosa chamada Kyrax, subiu pelo meu corpo e parou em meu ombro, um aviso silencioso para Sonja e qualquer um que ousasse me machucar. Levantei-me com as pernas tremendo e o rosto corado de humilhação. Estava certa de que conheceria meu fim naquele momento.
— Admiro sua paixão. — Uma voz desconhecida me fez levantar o olhar envergonhado, encarando o corvo. O animal falou! Ela! Seu tom era mais gentil do que o de qualquer um ali, e parecia ser a menos propensa a me repreender e entender meu lado da história. — No entanto, existem regras que devem ser seguidas, . Caminhos que devem ser respeitados, caso deseje evoluir e não conhecer um fim precipitado.
Concordei uma vez com a cabeça.
— Eu compreendo…
— Jessamy.
— Jessamy. Eu compreendo, o que eu fiz não foi correto, e peço profundas desculpas por isso. — Encarei o Senhor dos Sonhos, no intuito de estender as desculpas para ele. — No entanto, há uma jovem sofrendo e tendo pesadelos terríveis pelos atos dos outros, e eu prometi ajudá-la. É tudo o que eu quero.
O Perpétuo observou-me em silêncio, os lábios pressionados em um biquinho irritado. Permiti-me, pela primeira vez com menos tensão, estudar suas expressões. Deuses, era etéreamente belo. Os olhos eram como o céu estrelado após a primeira noite que seguia uma tempestade. Era esguio e elegante. Esbanjava poder e aura, e eu soube que poderia obliterar minha existência num mero estalar de dedos. Por um momento, senti um pouco de inveja alfinetar meu coração; sabia que nunca chegaria nem perto de possuir tal quantidade de poder, embora fosse a primeira bruxa a nascer abençoada em séculos, sem precisar de pactos e contratos para tê-lo. O que me era natural por possuir uma herança de sangue antiga era cedido pelo Diabo a Sonja, por exemplo; ainda assim, Lorde Morpheus fazia o ar em seu redor estalar com o quão poderoso era, e aquilo me era fascinante.
Por fim, ele virou-se para Sonja, parecendo ter chegado ao seu veredicto.
— Confiarei que conseguirá controlar sua discípula no futuro, Malburg. — Quando se dirigiu a mim novamente, tensionou a mandíbula em irritação. — E eu ouço o seu apelo, , filha de Luris. Aprenda a ser mais humilde em seus pedidos. Não quero voltar para lhe delegar uma punição. Como eu disse antes, saiba o seu lugar.
Acenei levemente com a cabeça, evitando olhá-lo nos olhos. O Perpétuo não se estendeu; desapareceu em uma nuvem de areia sem sequer despedir-se, tal qual era sua irritação e ofensa. Por fim, quando tudo parecia mais calmo e o ar voltava ao normal, Sonja virou-se para mim com uma expressão ainda furiosa que me fez engolir em seco.
— Em minha defesa, ela tem quinze anos, Sonja. Uma menina, não muito mais jovem que eu. Ela estava em profundo desesp…
— Você foi arrogante, impulsiva, egoísta e infantil. Estou severamente desapontada, .
— Tantos adjetivos…
— Silêncio, menina! Você tem ideia do perigo que corremos? Nunca se deve chamar a atenção dos Perpétuos, já não lhe disse isso muitas vezes?
— Me disse uma vez, devo ter esquecido — retorqui com sarcasmo, deixando a mais velha ainda mais pálida de raiva. — Sonja, eu te amo. Você cuidou de mim todos esses anos, e eu sou grata. De verdade.
Caminhei até ela com um olhar sombrio e parei bem em sua frente, meu queixo erguido.
— Me bata de novo e se arrependerá amargamente. Compreende o que digo?
Sonja ergueu o queixo numa tentativa de parecer menos preocupada, mas era apenas uma bruxa de contrato. Eu era uma bruxa de berço, muito mais poderosa do que ela jamais seria. Poderia eliminá-la da existência com um estalar de dedos.
Dei-lhe as costas e caminhei até o quarto, sentindo-me muito importante com a ameaça.
— Você deveria sair e colher camomila, zimbro, tomilho... até beladona, se precisar. — Sonja arrulhou em tom condescendente.
A encarei novamente por cima do ombro, irritada.
— Para quê?
— Os pesadelos que você está prestes a ter. O rei dos sonhos e governante dos pesadelos raramente é misericordioso. — Ela sorriu com ironia.
Cerrei o maxilar e fiz uma careta de descontentamento antes de finalmente ir para o quarto. Porém, não pude evitar me perguntar se ela estava certa. Por precaução, fiz alguns feitiços para uma boa noite de sono e bebi um pouco do que restava do chá de lavanda. Quando me deitei, era em expectativa. Eu não sabia se teria pesadelos…
… Mas parte de mim estava ansiosa para ver o Senhor dos Sonhos novamente.


