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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 24/09/2025

PARTE UM • THE MASQUERADE


Berlim Oriental • 1989


Ela fechou os olhos com o zumbido alto em seus ouvidos.
O martelar constante provinha de sua própria pulsação irregular e intensa. Estavam amortecidos, como se estivesse embaixo d’água. Podia ouvir algo ecoando de forma contínua dos aparelhos eletrônicos, misturando-se com as vozes desconhecidas, pulsava de quase todos os lados possíveis, quase desorientador, mas ela conseguia identificá-los com praticidade: o ruído de pessoas no corredor discutindo política e os potenciais que deixariam em aberto com a queda do muro, alguns comentando sobre a crescente movimentação russa, e então, ao fundo de tudo isso, lá estava. Ping. O gosto amargo era pungente em sua boca, metálico e escorria por sua garganta de forma quase sufocante, impossível de ser ignorada. Era sempre assim, então, viria o latejar contínuo em sua têmpora direita, mas não pior do que a dor afiada que se seguiria, percorrendo seu cérebro inteiro. Como uma pequena descarga elétrica, gélida e afiada como agulhas, pulsando pelo músculo antes de voltar a amortecer tudo ao seu redor. E então, havia aquele cheiro discreto de carne queimada, um suave clique sobre sua orelha esquerda que indicava que ela estava pronta para ação. E então, quando ela abria os olhos novamente, tudo desaparecia.
Pronta para agir.
Empunhou a arma outra vez, dando um passo para trás, encarando fixamente a porta, e então, mais um, a espera. O peso da pistola era frio, mesmo contra suas mãos enluvadas, passava a falsa sensação de que estavam escorregadias, mesmo que o suor que envolvia as palmas de suas mãos fizesse o couro das luvas grudarem, desconfortável, a sua pele. A tensão espalhava-se por seus antebraços, os músculos se contraindo com a movimentação do indicador dela sobre o gatilho. Havia algo suspenso no ar; o desejo de apertar o gatilho pulsando pela tensão que envolvia seus músculos, o desejo de mover-se, mas ela obrigou-se a esperar. O treinamento gritava mais alto do que o instinto, perfeitamente adestrado, enquanto ela escutava, atentamente, os passos dele.
Ainda não. Ainda não…

Ela sabia que ele estava vindo. Ela estava esperando que ele viesse.
E isso tornava tudo ainda pior.
O coração dela martelou contra a caixa torácica. A adrenalina percorreu sua coluna como uma descarga elétrica gélida, rápida demais para ser imediatamente registrada, presente demais para ser ignorada. O tremor finalmente atingiu suas mãos, obrigando-a a respirar fundo e exalar por entre os lábios, uma, duas, três, quatro, tentando manter sua mira firme. Não funcionou. Deu mais um passo para trás, sem perceber que a respiração se tornava mais pesada, mais irregular, raspando por sua garganta e escapando por entre os dentes cerrados com mais força do que o normal. Os olhos arregalados revelavam as pupilas dilatadas.
O eco das botas de combate se tornou mais alto, mais próximos. Os olhos dela se moveram, de um lado para o outro, registrando, passo por passo, um à frente do outro, mais e mais alto. Estava vindo pela esquerda. Ela estalou o pescoço, tentando aliviar a tensão de seu corpo quando os passos pararam à frente da porta.
Ele estava ali.
O tremor aumentou. Medo espalhou-se pela corrente sanguínea dela, pungente como ácido, corroendo tudo o que se encontrava pelo caminho, e por uma fração de segundos, seu impulso foi simplesmente fugir. Seu corpo inteiro gritou para que ela fosse embora. Para ceder à parte animalesca não treinada de seu cérebro, mas a coleira que envolvia seu pescoço era mais forte do que o instinto de autopreservação, então ela não se moveu. Ela esperou, contando mentalmente os segundos, seu dedo indicador envolveu com mais força o gatilho, sentindo o metal gélido implorar para que ela apertasse. Não o faz.
Sete. Oito. Nove. Dez. Onze. Doze. Tre…
A porta abriu com força.
O estrondo do trinco, chocando-se contra a parede e fincando-se no concreto, foi o suficiente para acionar o estado de alerta dela, e sem que percebesse, puxou o gatilho. O disparo foi rápido e preciso; enterrou-se na cabeça do soldado, que desabou com um baque molhado e alto no chão à sua frente.
Ela não se moveu. Os olhos acompanharam a poça de sangue que se formava no chão de mármore, pálido como alabastro, afundando-se por entre a massa corrida branca quase imperceptível, delineando os formatos retangulares do porcelanato, conectando-se em interseções e chocando-se com as solas gastas de suas botas de combate. Por uma fração de segundos, tudo pareceu ficar suspenso no ar. Pulsando. Vibrando por baixo de sua pele. Os músculos travados pela tensão, por um instante, quase a impossibilitou de se mover. Os lábios entreabertos davam passagem para a respiração que ela tentava, custosamente, controlar. Ela obrigou-se a dar um passo à frente.
Os olhos dela permanecem fixos no corpo à sua frente. Ela deu um passo, então outro, aproximando-se devagar e de forma rígida, de onde seu alvo jazia. Ela estava no terceiro passo quando seus olhos finalmente capturam o pequeno detalhe que ela havia deixado escapar.
O soldado era loiro.
Puta mer…
O disparo veio pela direita. Ela não o registrou a tempo, a bala cortando o ar com violência,alojando-se com uma explosão de fogo, no músculo tenso do ombro dela. E então, seguiu-se o segundo. Desta vez, ela já estava pronta, e lançou-se para a direita, saltando por sobre o corpo de um dos inimigos abatidos, rolando pelo mesmo ombro que estava ferida. A dor a cegou por um segundo enquanto suas costas atingiam com brutalidade a parede branca do quarto de hotel, deixando a marca grotesca e abstrata do sangue que fluía pelo ombro dela, no branco impecável hospitaleiro. Ela ofegou, trincando os dentes com força, sua cabeça pendendo para trás, contra a parede, ao mesmo tempo que os fragmentos de vidro da janela, estraçalhada pelo impacto do corpo pesado, chocam-se contra o chão, misturando-se com o porcelanato branco e o sangue do soldado abatido.
Ela exalou por entre os dentes cerrados, obrigando-se a empunhar rapidamente sua arma, e então disparando duas vezes em resposta; o auxílio de sua visão periférica apresentou apenas o breve vislumbre da silhueta larga, e o brilho do braço de metal. Os disparos atravessam o quarto, alojando-se nas paredes do outro lado, sem sequer tocá-lo. Ele se voltou na direção dela, três segundos depois, disparando outra vez. Ela xingou em alto e bom-tom, o ruído ecoando mais como um sibilo entrecortado.
Ela se lançou novamente para frente, deixando-se deslizar pela falta de atrito de sua calça pesada militar e o porcelanato, chocando-se bruscamente contra a parede oposta onde estava, disparando de volta no Soldado Invernal. Desta vez, ela quase o acertou — um buraco se abriu no flanco direito dele, onde a bala alojou-se. Mas ele não era um simples inimigo; o Soldado Invernal nunca falhava.
E igualmente, não hesitava.
Ele disparou outra vez na direção dela, acertando em cheio em sua coxa direita, quando ela se lançou para frente, em direção a ele. Era suicídio, isso não era sequer uma suposição, mas sim, uma declaração do que lhe aguardava. Ela iria morrer, e seria o Soldado Invernal a matá-la naquela noite. Mas se ela não iria lutar com unhas e dentes para, pelo menos, ganhar um pouco mais de tempo. Tempo o suficiente para que Nick Fury conseguisse escapar dali com o pacote intacto, a salvo. Tempo o suficiente para a missão ser cumprida. Tempo o suficiente para o matar se tivesse uma chance.
Um grunhido escapou por entre seus dentes trincados, quando ela acertou com toda a força que tinha em seu braço esquerdo a parte de trás do joelho do Soldado Invernal, obrigando-se a levantar-se dois segundos depois. Suprindo a dor e a contração muscular do ferimento em seu ombro, obrigou-se a segurar o braço biônico dele, com a pistola automática, a tempo apenas de empurrá-lo com força para trás, em direção à parede.
O Soldado Invernal possuía músculos grandes e pesados para combater, e mesmo que ela fosse uma exímia combatente, jamais iria conseguir vencê-lo com força física. Ela precisava lutar de forma suja. Honra não importava quando era sua sobrevivência que estava em jogo. Então, ela fincou seus dedos esquerdos no ferimento aberto no flanco direito dele. Sangue espirra para fora, o líquido encorpado e mais claro do que de fato acreditava-se ser encharcando rapidamente sua mão enquanto o Soldado Invernal parecia grunhir por trás de sua máscara. Ela trincou os dentes com ainda mais força, uma careta quase selvagem, apossando-se de suas feições quando ela usa a coronha de sua arma para empurrar a cabeça dele contra a parede. O impacto reverbera não apenas pelo crânio do Soldado Invernal, como igualmente pelo corpo dela inteiro. Espalhou-se de forma dolorosa, mas ela sequer conseguiu perceber isso com a adrenalina correndo por suas veias como uma droga; intoxicante, pungente e viciante.
Aproveitou o momento de distração do Soldado Invernal para acertar o nariz dele com a coronha de sua arma, em um ato desesperado. A máscara que envolvia apenas a parte de baixo do rosto dele — deixando os olhos, a testa e os cabelos longos expostos — absorveu o impacto do golpe, dando tempo o suficiente para que o Soldado Invernal lançasse o rosto mais para a esquerda, e com um ruído metálico, seu braço biônico agarrasse o pulso dela. A dor foi imediata quando os dedos biônicos dele esmagaram seus ossos, tentando retirar a arma de sua mão. Mas ela não era idiota o suficiente para lutar pela dominância da arma.
Ela soltou a arma que se entortou com a pressão feita pelos dedos metálicos do Soldado Invernal, e então, com um grito entredentes — talvez envolto por pura adrenalina, talvez apenas pela dor amortecida que transcendia o efeito de amortecimento causado pelo hormônio. Ela acertou um soco com violência no olho esquerdo do Soldado Invernal e então atingiu com força o abdômen dele, na altura de suas costelas, ouvindo-o perder o fôlego e dobrar-se para frente de imediato.
O Soldado Invernal não fazia ruídos.
Ele lançou a arma que roubou dela para sua mão direita, feita de carne e ossos, e disparou. O disparo não atingiu ela, mas explodiu seu tímpano esquerdo. O grito de dor escapou antes que ela pudesse conter, a cabeça dela foi lançada pelo instinto para a direita, enquanto o ruído alto, quase enlouquecedor, abafando tudo, ecoava com os batimentos erráticos dela. Mas o medo da morte sempre seria maior do que sua dor. Ela agarrou o pulso dele com suas duas mãos, os ossos esmagados projetando-se para fora da pele, metálicos como vibranium, enquanto seu aperto aumentava ao redor do pulso humano dele, empurrando-o para longe, girando naquele abraço violento e ficando parcialmente de costas para o Soldado Invernal. Ela sentiu quando o braço biônico dele imediatamente avançou em direção ao seu pescoço, fechando-se ali de forma impetuosa, os dedos atravessando a pele do pescoço dela e a fazendo se sufocar com seu próprio sangue.
Ela ainda conseguiu quebrar o pulso dele, ouvindo-o grunhir alto ao pé de seu ouvido, quando ele a arremessou do outro lado do quarto. O choque foi imediato e doloroso, os olhos dela explodiram com pequenos pontinhos pairando, o fôlego foi roubado de seu peito enquanto o som do baque molhado do corpo dela contra o chão abruptamente. Ela se contorceu, tossindo e soluçando por ar, levando suas duas mãos em desespero em direção ao seu próprio pescoço, pressionando-o enquanto sangue se esvaia por sua garganta. As costas dela se arqueiam brevemente, acompanhados pelo eco vago dos passos silenciosos, porém pesados, dele.
Estilhaços de vidro estalaram sob seu peso, partindo-se ainda mais, enquanto as solas emborrachadas de suas botas de combate absorviam o sangue espalhado pelo chão, criando um barulho incômodo de sucção. Ela tentou se obrigar a se levantar. Tentou se obrigar a se mover, mas estava perdendo aquela luta. Ela trincou os dentes com força, tossindo, lançando-se para a direita conforme a pressão em seu peito aumentava. Os olhos começaram a ficar embaçados, estranhamente desfocados, as cores saturadas, os cantos extremos da visão periférica obscurecendo. Ela não tinha mais muito tempo. Tateando cegamente abaixo de sua cama naquele maldito quarto de hotel, empurrando papéis e alguma coisa áspera que lembrava papelão, ela esticou seus dedos esquerdos ao máximo que conseguia, tentando alcançar o dispositivo acoplado à estrutura da cama em caso de emergências. Os dedos dela se enroscam no dispositivo pequeno no exato momento que a mão biônica do Soldado Invernal se enroscou em seus cabelos, puxando-o com força para trás, um grito de dor teria escapado da garganta dela se não houvesse um ferimento aberto em sua garganta, então tudo o que escapou de seus lábios, foi um gorgolejo.
Usando o restante de suas forças, ela se lançou para trás, contra ele, o suficiente para conseguir prender o aparelho elétrico no braço biônico dele, e o acionando. Há uma fração de confusão do Soldado Invernal, e então, um clic alto. A corrente elétrica lancinante percorreu pelo braço biônico do Soldado Invernal, soltando o cabelo dela ao cambalear para trás, sentindo a corrente elétrica percorrer não apenas seu braço, mas seu corpo inteiro. O cheiro de fios, plástico e carne queimada espalhou-se pelo quarto de forma aguda, uma pequena fumaça escapando por entre os mecanismos do braço biônico, quando ele desabou de joelhos, desorientado, balançando sua cabeça, respirando pesado.
Ela deixou-se espalhar no chão. Os músculos de seu corpo, outrora tensos, se tornaram não apenas amortecidos, desprovendo-a da sensibilidade de seu tato, e substituindo-a para uma sensação de formigamento que se assemelhava com pequenas agulhas sendo fincadas rapidamente contra sua pele, mas, igualmente não havia força alguma para sequer fechá-la. Ela engasgou outra vez, os olhos dela obscurecendo-se mais e mais, a pressão em seu peito, tornando-se quase insuportável, ao espalhar-se por suas têmporas também. Espasmos outrora esporádicos agora se tornam mais frequentes, enquanto ela busca pelo ar que ela sabe que não irá encontrar. Ela está morrendo. Não vai demorar muito mais que isso.
Fechou os olhos, ouvindo-o farfalhar do tecido de seu uniforme de combate e os tic metálicos do braço biônico quando ele se aproximou outra vez. Ela sentiu a mão áspera pressionada contra sua garganta, os dedos calosos pressionando o ferimento na garganta, as unhas fincando-se em sua pele, deixando para trás marcas de meia-lua.
Ela esperou pela inconsciência, pela dormência atraente que iria corroer toda sua existência, reduzindo-a ao completo vazio, ao esquecimento. Mas o golpe final nunca chegou, em seu lugar, o que ecoou por seus ouvidos foi um sussurro em choque do Soldado Invernal.
Uma única palavra escapando de sua voz quase emudecida pela máscara que envolvia seu rosto. Um nome. O dela.
?



Latvéria • Agora


Ele a reconheceu por seu cheiro.
O perfume tinha uma nota intensa de canela que destoava do aroma floral original produzido pela marca. Ele sabia que havia sido adaptado por ela mesma, com o único propósito de torná-lo único — como ela era. Às vezes, o sentia mesmo quando ela não estava por perto, como se carregado pelo vento, ou uma memória muscular, ou uma traiçoeira ilusão convidativa, uma oferta momentânea de desassociação que ele sempre parecia estar no limite de aceitar. O sentia preso em suas roupas. Preso em sua pele. E ele tinha quase certeza de que essa era uma das muitas formas pelas quais ele estava condenado a perder sua sanidade; culpa inteira dela. O aroma que facilmente se espalhava pelo espaço agora denunciava sua presença como um grande e brilhante sinal em neon vermelho, indicando por onde ela havia atravessado a entrada arcada do salão feito de mármore e pedras, medieval, de Doom. Sentiu sua garganta ficar seca, raspando com o fôlego que havia tomado, podia ouvir Yelena murmurando algum comentário seco pelo comunicador preso em sua orelha direita. Bob prontamente a respondeu, então Walker, que se seguiu com um grunhido e uma piada baixa de Ava, e a gargalhada satisfeita de Aleksei; Bucky não podia se importar menos. Sabia que Yelena havia lhe direcionado a pergunta, mas sequer havia ouvido.
Por instinto, desligou o comunicador, ajustando a máscara preta que envolvia a parte superior de seu rosto, antes de marchar com um único propósito. O alerta vermelho se acendeu por trás de sua mente, naquela parte enterrada profundamente em seu subconsciente que havia se tornado um instinto; sabia que não deveria estar fazendo aquilo. Sabia que estava desviando o curso da missão, colocando tudo em perigo apenas porque se deparava com um demônio de seu passado, um do qual não conseguia livrar-se, não importava o quanto tentasse. Mas era ela. Era . Sua… chiou entre dentes, não se permitindo atrever a finalizar aquela linha de pensamento, não quando sequer sabia quais eram as intenções dela ali, o que ela queria desta vez, quem seria quando se deparasse com ela. Os olhos azuis esverdeados cintilaram por trás da camada grossa de plástico revestido por tecido preto, uma mistura de couro e veludo formando linhas diagonais em diferentes nuances da coloração, desviando dos outros convidados com facilidade. Passos silenciosos, a essa altura instintivos, eram dificultados por seus sapatos sociais, quase o fazendo praguejar entre dentes por aquela ideia estúpida de Yelena.
Para todos os efeitos, Bucky era o assistente de um dos embaixadores russos na Latvéria — papel este que Aleksei Shostakov desempenhava com o máximo de graciosidade que possuía. Usavam roupas parecidas, condecorações que pertenciam de fato ao embaixador e seu assistente, até mesmo as máscaras eram destas, a fim de auxiliar o disfarce. Ao mesmo tempo, Ava e Walker estavam no quarto de hotel, de olho no verdadeiro embaixador e assistente russo, com Bob, responsável por monitorar as câmeras e ajudá-los a se moverem sem que algo ficasse no caminho deles — incluindo a si mesmo. Yelena estava nos telhados, assistindo a tudo e esperando a oportunidade certa para descobrir o que diabos Doom estava mantendo em seu porão, enquanto Barnes e Shostakov serviam, para dizer o mínimo, como iscas. A princípio, Bucky se irritou com a ideia, estava mais acostumado a agir nas sombras, a ser aquele que fazia a infiltração e eliminava os seguranças, espionagem era seu forte, mas igualmente o deixava exposto ao perigo de reconhecimento. Com Aleksei sendo aquele a usar a máscara que transfigurava o rosto para o do embaixador russo, Bucky tinha a vantagem de o assistente do embaixador não ser conhecido por Doom ou qualquer um dos seus aliados, isso não alterava o fato de estarem lidando com alguém perigoso e terrivelmente atento como Victor era.
Tensionou sua mandíbula, alçando uma taça de vinho, não para si, mas porque sabia que ela gostava daquele tipo — não doces, os amargos, ela sempre preferia sabores amargos. Por uma fração de segundos, seus olhos encontraram-se com os de Aleksei, vendo o questionamento silencioso ali: “O que diabos você está fazendo?”, mas apenas indicou discretamente na direção onde Ophelia Sarkissian encontrava-se, conversando com um riso frouxo e toques repletos de flertes com alguns convidados, embora seus olhos, igualmente verdes, estivessem fixos em Victor. O tirano, por sua vez, permanecia eloquentemente explicando algo com desinteresse para aqueles que o ouviam, perguntas empresariais, pela dinâmica que portavam. Sobrancelhas grossas, unidas, taça de vinho pela metade, os olhos percorrendo o espaço com alerta e desconfiança de alguém que via entre as linhas. Barnes desviou para a esquerda, usando um dos pilares quadrados compostos de pedra da estrutura medieval do castelo para fugir do olhar de Doom. No segundo em que o ouviu pedir licença para aqueles que discutiam sobre precificação e investimentos, abrindo um sorriso confiante, quase satisfeito, quando a mulher deslumbrante se aproximou dele.
Foi como levar um soco: seu estômago se contorceu, sua respiração se esvaiu, os dentes trincaram com força. Ela estava deslumbrante em um vestido vermelho-escuro como vinho de veludo. Era justo ao corpo, ocultando pouco de sua forma — e Bucky sabia que ela havia feito de propósito. Em seu rosto encontrava-se uma máscara delicada, vazada, apenas a estrutura da máscara permanecia exposta como se fosse feita de renda, com a lateral inferior sobre a maçã do rosto esquerda construída por pequenas argolas de cobre formando uma corrente delicada. Os cabelos longos estavam soltos, pendendo por seu ombro direito em camadas irregulares, como uma cachoeira — elegantes, macios, contrastavam lindamente com a cor escolhida do vestido e da pele. Os olhos exibiam um delineado repuxado, afiado, como um gato, e os destacavam com a intensidade que estes exibiam, como se fossem capazes de absorver tudo ao seu redor, sem nada devolver. Como se pudesse ler facilmente através da fachada que lhe era apresentada — ela podia. O decote do vestido era singelo, até mesmo modesto entre os outros, com um formato em coração. A barra, bordada delicadamente com pedrarias igualmente vermelhas, expunha apenas o colo e a clavícula, mas as costas do vestido dela eram a atração principal. Estavam completamente expostas, a iluminação amarelada proporcionada pelas velas dispostas nos candelabros de prata e cobre que envolviam o salão destacava a pele macia e suave, adornando músculos discretos, porém presentes. Barnes sentiu seu corpo se tensionar um pouco mais, a restrição e uma censura mental, tentando obrigá-lo a manter seus olhos fixos nas omoplatas dela, nas cicatrizes que ele havia ajudado a criar ao longo dos anos. Mas seus olhos, traidores, sequer reconheceram a censura. Determinados a decorar, mais uma vez, cada centímetro da pele exposta, na forma como o tecido parecia deslizar sobre seu corpo, expondo discretamente as covinhas sacrais que ela possuía na região lombar, como o tecido parecia esticar-se sobre os quadris dela, destacando a bela bunda que tinha. Como a fenda na lateral esquerda, iniciando-se um pouco mais acima de sua coxa, expunha as pernas torneadas e grossas. Bucky engoliu em seco, tentando sufocar o anseio por percorrer com sua mão aquelas pernas, fincar os dedos em sua maciez, relembrar qual era a sensação da pele dela, quente, macia, sob seu toque, tentadora.
Podia sentir como seu corpo havia se tensionado, aquele choque de desejo percorrendo-o como algo vivo, queimando por suas veias, contorcendo-se por baixo de sua pele, enroscando-se em seus músculos, pressionando-o. Sua pulsação acelerou, esquentando sua pele e começando a deixá-la sensível. A brisa suave que adentrava por uma das portas duplas de vidro envolto por ferro das sacadas arrepiava os pelos de sua nuca, tocando sua pele como se esta estivesse envolta por estática. Obrigou-se a desviar os olhos dela, inspirando fundo algumas vezes, tentando ignorar o calor que começava a se formar em seu baixo ventre, ou como suas calças pareciam estar mais apertadas do que deveriam. Praguejou entre dentes, obrigando-se a focar na tarefa que tinha em mãos: descobrir por que estava ali e quais eram suas intenções.
Moveu-se com as sombras do lugar, os músculos tensos começando a latejar suavemente por baixo de sua pele, a mão biônica soltando um pequeno estalido mecânico, evidenciando o impulso intenso para agir. Apertou com um pouco mais de força a taça de vinho intocada, observando por um momento os rostos desconhecidos, verificando se havia algum olhar voltado em sua direção ou se ele continuava em segurança em seu anonimato e sombras, antes de seguir em direção à sacada que Von Doom havia a guiado. Algo queimou por suas veias, algo perigoso e feio, sombrio, algo que ele não tinha o menor interesse de descobrir o que diabos poderia ser quando observou a mão enluvada de Von Doom repousar sobre a parte inferior das costas dela. A ideia de quebrá-la não parecia assim tão extrema quanto Bucky normalmente acreditaria que era. Parou perto o suficiente para conseguir ouvir, ou ao menos discernir, o que eles estavam falando, mas não perto o suficiente para evidenciar seu interesse, muito menos sua presença.
— Ela está interessada. É por isso que está tentando encontrar uma forma de se aproximar — informou, sua voz baixa e cautelosa, ecoando pelo ar gélido da parte externa do castelo de Doom quase como um ronronar suave. Era de acreditar-se que seu sotaque britânico a essa altura já teria desaparecido, todavia, ainda estava ali, pulsando por sua voz, como uma carícia suave, elegante, polido e pesado, sempre marcante, modulando cada uma das palavras que ela dizia. Uniu as sobrancelhas, tentando analisar quem havia sido sua contratante; pelas palavras, certamente uma mulher, mas ela poderia simplesmente estar mentindo como sempre havia feito. — Não irá descansar até descobrir o que você está planejando.
Von Doom pareceu absorver as palavras dela com uma expressão contemplativa. O rosto frio e austero voltou-se para o horizonte iluminado e vivo do centro da cidade. Era uma parte destoante do velho castelo medieval, com estruturas compostas por madeira, madeira e a mistura entre argila e cimento, em que o tirano fazia questão de morar, com a imagem viva da modernidade com a qual sua cidade coexistia. Não era nem um pouco próximo do que Wakanda era, e toda a tecnologia que possuía, composta em um equilíbrio elegante entre a ancestralidade e o futurístico, lembrava, de certa forma, uma versão mais agressiva, menos evoluída e estranhamente sufocante. Não pelas pessoas que viviam ali, mas pela presença de Doom.
— E assumo que você se sentiu bondosa o suficiente para vir até mim e avisar-me, não é? — O sarcasmo na voz de Doom não era sequer disfarçado, mas a fez sorrir. Bucky estreitou os olhos um pouco mais, unindo as sobrancelhas. Fez uma careta consigo mesmo, censurando seus próprios pensamentos e aquele sentimento estranho que começava a distorcer e infestar seu peito, fincando-se como garras afiadas em suas entranhas. Levou a taça de vinho em direção aos seus lábios, finalizando seu conteúdo em um único gole. Uma parte de si, meio a parte, desejou que Sam estivesse ali, ao menos Sam poderia ajudá-lo a manter a cabeça no lugar e não a analisar, de novo e de novo porque havia tamanha intimidade no tom de voz de Doom.
— O que posso dizer? Às vezes gosto de fazer caridade — ela retorquiu com um quase sorriso afiado. Desviou o olhar do rosto de Doom e, por uma fração de segundos, quase o viu, mas Barnes era sempre mais rápido do que ela. Moveu-se com facilidade em direção a uma das paredes, escorando-se ali por um momento, permitindo-se vagar com seu olhar pelos convidados de Doom, buscando por Aleksei. Com o canto do olho, pôde ver o momento em que Yelena entrou em ação.
Seus olhos azuis esverdeados se encontraram com os da russa, e uma ponta de exasperação surgiu por seu semblante neutro ao vê-la gesticular por entre os pilares de sustentação — “o que diabos você está fazendo?” e “Preste atenção” — antes de se lançar para frente, deslizando por entre os pilares, antes de conseguir se lançar por entre a saída de vento do castelo. Por ser uma estrutura medieval, as saídas de ar eram mais largas e propositalmente usadas como opções de fuga para nobres em perigo. O fato de Yelena ter se voluntariado para aquele trabalho dizia muito de que ela estava interessada na oportunidade de rastejar entre os ratos e ratazanas a fim de encontrar o cofre de Doom, apenas pelo prazer de poder atormentar Walker com descrições explícitas e gráficas das coisas nojentas que ela viu ou teve que fazer. Tecnicamente, Barnes deveria ser contra aquela postura; pessoalmente, era sempre um prazer ver Walker se contorcer a um passo de vomitar.
— Muito bem, Senhorita , preciso reconhecer que sua lealdade tem se provado um presente e tanto — a voz de Doom atraiu a atenção de Barnes outra vez, e, desta, a pressão de sua mão biônica, ocultada pela luva de couro, foi maior do que deveria, partindo a taça que ainda segurava. Barnes tencionou a mandíbula com força, um pequeno músculo saltando pela pele coberta por uma camada suave de barba, recentemente aparada, descartando discretamente a parte superior do copo, ajustando o copo em sua mão de modo que a base estivesse pressionada com a palma biônica, e o cabo, agora quebrado e com uma ponta afiada, estivesse preso entre seus dedos. Uma arma, improvisada, ainda assim tão mortal quanto ele mesmo.
— Significa que vai fazer o que lhe pedi? — Indagou , arqueando uma sobrancelha, ao deixar-se escorar contra a balaustrada de pedra que adornava a sacada. Barnes pressionou suas costas com mais força contra a parede atrás de si, sentindo as pequenas irregularidades e protuberâncias da pedra gélidas, umedecidas pelo ar ao seu redor, contra o terno elegante de kevlar que Aleksei havia conseguido para eles naquela noite. Falando em Aleksei, sua risada sonora ecoou de algum ponto à sua esquerda, talvez mais alta do que deveria, mas a atenção de Bucky permaneceu inalterada, fixada no reflexo que acontecia contra o vidro das portas duplas.
Victor Von Doom pareceu considerar as palavras dela por um longo tempo, tempo suficiente para que Barnes pudesse ver a expressão casual dela começar a tornar-se cautelosa. Escorou as duas mãos, uma de cada lado, contra a balaustrada de pedra, as unhas longas e avermelhadas batucando ritmado contra a superfície; uma demonstração sutil de sua própria ansiedade. Barnes moveu a mandíbula por um momento, observando a forma como os músculos expostos dela se tensionaram, embora o sorriso tranquilo estivesse exposto em seu belo rosto. A pior parte era que ela era boa naquilo. Ocultar suas reais reações e emoções parecia ser apenas instinto, permitindo que os outros vissem apenas o que ela desejava que fosse visto. Sabia que, se tocasse seu pescoço, sua pulsação permaneceria ritmada e firme, sem denotar um pingo de seu desconforto. Ela era boa em compartimentalizar suas emoções, e ainda melhor em agir como se nada importasse. Como se fosse fragmentada em duas partes completamente opostas.
— Não — Victor Von Doom disse por fim, quebrando o silêncio que havia se instaurado entre os dois. A brisa suave que atingiu seu rosto afastou algumas mechas escuras de seus cabelos lisos, e Barnes pôde jurar que o fantasma de um sorriso quase se formou nos cantos dos lábios do tirano. — Não irei fazer nada. Deixe que ela venha, diga a ela que estarei esperando.
— Sem recompensas? Oh, me sinto enganada — murmurou, aquele ronronar familiar, como se suas palavras fossem carícias sob a pele, arrastando-se de maneira perigosa, agora possuíam uma ponta mais afiada, perigosa. Ela forçou um sorriso divertido na direção de Victor Von Doom, que lhe lançou um olhar curioso e até mesmo apreciativo. Os dedos biônicos de Barnes envolveram com mais força a taça quebrada, feita de arma improvisada. Não ousou, todavia, permitir-se quebrar mais o objeto; não havia uma segunda opção para ele.
— Como você disse, Senhorita , há dignidade em oferecer um gesto de caridade às vezes. Tomo-lhe o teu como um indicativo de uma potencial frutífera amizade — Victor retorquiu, encarando-a com intensidade, parecendo buscar alguma coisa em seu rosto. O que quer que ele buscasse, deveria ter encontrado, para a tensão e irritação crescente de Barnes, porque Doom finalmente sorriu.
— Então houve recompensa, afinal. Sempre generoso, Barão Von Doom — murmurou a ninguém em particular, retribuindo o sorriso de Doom, charmosa. Ele detestou o que viu no rosto dela, mas, igualmente, não era mais real do que qualquer outra emoção que ela já havia expressado anteriormente. Ela acenou com a cabeça, em uma despedida silenciosa para o tirano, quando este, sem muita cerimônia, se retirou, de volta para sua festa, ou o que quer que fosse aquele encontro. O sorriso de se tornou mais preguiçosos, deliberado, os olhos pareceram se iluminar pela penumbra parcialmente iluminada da lua e das chamas amareladas das velas que se espalhavam pelo salão, acentuando as sombras que se projetavam ao redor de seu rosto, acentuando os traços delicados e marcantes de seu rosto. — Você já pode parar de se esconder, James.
Não ficou surpreso por ela saber que ele estava ali, tampouco murmurar seu nome daquela maneira — um arfar suave que pareceu percorrer seu corpo inteiro como eletricidade. Os pelos de sua nuca e braço se arrepiaram, um tremor suave percorreu sua espinha, pulsando por sua corrente sanguínea, intoxicante. apoiou os cotovelos sobre a balaustrada de pedra, permitindo-se inclinar-se um pouco para trás, deixando sua cabeça pender um pouco para trás, as longas mechas de seus cabelos deslizando de seu ombro e pescoço, pendendo atrás de si, movendo-se com a brisa, expondo o desenho delicado e atraente de sua clavícula. O observava com olhos intensos e difíceis de serem lidos. Os lábios, tingidos com um batom vermelho escuro, combinavam com o vestido que usava, ainda exibiam aquele sorriso preguiçoso, quase felino, que possuía.
— Sem discursos dessa vez, James? — murmurou, o sotaque agora arrastado por cada uma das palavras que enunciava.
Barnes engoliu em seco, tentando manter sua expressão neutra e firme, mas algo naquela rouquidão suave, algo naquela maneira com que os lábios vermelhos formavam seu nome, na maneira com que ela o chamava, como sua voz modulava seu nome com um suspiro, uma carícia invisível, estava o afetando mais do que desejava admitir. Mais do que poderia se permitir afetar. Tensionou a mandíbula com força, engolindo em seco, ignorando a maneira com que seu corpo parecia reagir a ela; como se fosse puxado em sua direção como um ímã, como se faíscas de eletricidade percorressem seu corpo ao estar tão próximo dela agora.
pareceu perceber, é claro, seus olhos cintilaram com um brilho perigoso, fazendo um biquinho ridículo, mas que ainda assim foi capaz de roubar sua respiração por uma fração de segundos. Por um momento, tudo o que ele desejou foi simplesmente desfazer aquele maldito beicinho com um beijo; sem gentileza, sem paciência ou cuidado, apenas aquela chama intensa e quase enlouquecedora de desejo puro, um anseio por ela que fazia com que seu corpo latejasse e seus músculos tivessem pequenos espasmos, implorando para que ele fizesse algo. Para que tomasse o que queria, consequências que fossem para o inferno. Ela estava brincando com ele; Bucky conhecia aquele jogo; havia jogado com ela vezes o suficiente para saber que havia perdido antes mesmo de se iniciar. No entanto, não sentia nenhum impulso de afastar-se dela.
— Estou desapontada. Estava esperando no mínimo um resmungo de desaprovação, talvez até mesmo uma carranca e uma arma no meu pescoço, mas isso? Tsc, nem mesmo um rosnado? Parece que se tornar um vingador realmente o mudou, que pena.
O comentário era afiado, mesquinho e não demorou a entrar por baixo de sua pele. Bucky forçou um sorriso irônico para , os olhos sombrios, parando à frente dela, a poucos centímetros de distância. Então, o perfume dela estava por toda parte, envolvendo-o em um manto quase sufocante, intoxicante e do qual ele não queria se afastar. Tentou obrigar-se a desviar os olhos da bela mulher à sua frente, trincando os dentes com força, ao olhar por sobre seu ombro, verificando outra vez se alguém estava os observando. Não podia encará-la, não quando estava a centímetros de distância dela, não quando podia sentir o calor de seu corpo, mesmo envolto pelas peças de roupa, tão próximo ao seu, não quando cada centímetro de seu corpo parecia estar lutando contra sua mente, tentando convencê-lo a ceder ao que desejava. Por dois motivos, o fizera: primeiro, a última coisa que ele desejava era que lesse suas emoções; era alimentar uma víbora com seu próprio sangue, esperando que sua mordida eventualmente se tornasse menos dolorosa, não apagaria o veneno, tampouco lhe ofereceria resistência. E segundo, Barnes não tinha tanta confiança dentro de si para sustentar o olhar dela, não sem ter certeza de que cometeria mais uma vez aquele maldito erro. E, céus, como ele queria…
— O que está fazendo aqui, ? — Embora as palavras de Barnes tivessem sido bruscas, até mesmo rudes, seu tom de voz contrastava. Baixo, rouco, mais vagaroso, o efeito que ela causava nas pessoas ao seu redor não o tornava imune a quem a conhecesse há muito tempo, pelo contrário. Obrigou-se a prender a respiração, tentando permanecer imóvel quando ela se aproximou. Tinha quase certeza de que o gesto era deliberado e calculado, assim como tinha quase certeza de que não levaria muito para que ele derretesse se sentisse seu perfume outra vez, tão, tão perto de si…
— E se eu fizer a mesma pergunta para você, Bucky? — Os músculos de Barnes tensionaram-se ainda mais quando ela se endireitou, erguendo o queixo desafiadoramente, buscando seu olhar. Não se moveu quando sentiu dar um passo em sua direção, pressionando seu corpo contra o dele. Os olhos azuis esverdeados cintilaram por trás da máscara escura, as pupilas dilatadas, finalmente encontrando-se com os dela. Podia sentir o olhar dela queimando o seu, as palavras não ditas, e a acusação por trás da maneira com que mantinha o queixo erguido, mas igualmente havia curiosidade ali, e algo mais perigoso, familiar, convidativo. Travou a mandíbula com força, prendendo sua respiração quando sentiu o hálito dela, uma mistura de canela e vinho, chocar-se contra a base de seu pescoço. O ar cálido expelido de seus lábios enviou um tremor por seu tronco, que quase o fez praguejar. — Vai me responder?
O impulso falou mais alto do que seu autocontrole, ou talvez ele simplesmente estivesse preso demais no jogo que ela criou para se importar com as consequências — fossem estas quais fossem. Naquele momento, apenas cedeu ao que seu instinto e subconsciente, que parecia determinado a demandar imperiosamente. Usou seu corpo para prensá-la contra a balaustrada de pedra que outrora ela se escorava preguiçosamente, prendendo-a ali, uma mão repousando de cada lado de sua cintura. O suporte do copo quebrando ainda preso entre seu punho biônico, pronto para entrar em ação se necessário, roçando perigosamente contra a lateral da cintura dela.
pareceu prender a respiração, os olhos se arregalando por uma fração de segundos, antes de retirar, com um movimento rápido, a faca que mantinha oculta na faixa presa em sua coxa. Ele não percebeu que ela a empunhava até que a lâmina, fria e lisa, uniforme, repousasse contra seu pescoço, firme contra sua pele quente. Bucky trincou os dentes com um estalo baixo, sua mandíbula travada apertando-se um pouco mais, fazendo novamente um pequeno músculo saltar. Ele não se afastou; pelo contrário, sustentando o olhar dela em um desafio silencioso, inclinou-se em direção ao rosto dela, ficando a centímetros de distância, a lâmina afiada da faca beliscando a base de seu pescoço. A respiração misturando-se com a dela, os olhos fixos nos dela sem desviar, quase vidrados.
Por um longo momento, os dois apenas se encararam.
Não soube o que poderia ser, mas Barnes buscou no rosto dela por algo, qualquer coisa que pudesse lhe indicar que , sua , estava ali, mas ela era um livro em outro idioma completo e Barnes mal saberia ler seu próprio idioma. Ainda assim, percebeu a respiração dela se perder, como um pequeno tremor percorreu seu corpo com a proximidade, como suas costas se arquearam suavemente, buscando mais contato. Suas pupilas dilataram-se até que as íris se tornassem meros anéis finos ao redor destas e os lábios avermelhados se entreabriram, um suspiro baixo escapando pelos mesmos, o hálito cálido misturando-se com a frieza da lâmina. Ele teria sorrido se não estivesse perdido na frustração e no desejo; a necessidade de conseguir as respostas de que precisava, e o anseio de simplesmente esquecer-se, ainda que por um momento, de todo o resto.
— Desde quando você faz caridade, ? — questionou Barnes, sustentando o olhar dela, desta vez sem desviar o olhar, e puta merda, se ele não estava se afogando nela. Não se importava, não quando ela estava tão perto assim, não quando ela estava tão perto do seu alcance como nunca antes havia estado.
— Desde quando é você que atua como a isca em uma missão, Barnes? — ela retorquiu, sarcástica, inclinando sua cabeça para trás, um pouco mais, expondo sua garganta delicada, e Barnes engoliu em seco, uma parte de si desejando apenas se inclinar o suficiente para saborear o gosto que sua pele tinha; para lembrar-se de como era ter a pele dela contra seus lábios.
Céus sabiam o quanto aquele pensamento ainda o atormentava.
Girou habilidosamente a base quebrada do copo, apoiando o cabo quebrado e afiado na altura das costelas dela, em resposta. prendeu a respiração, sentindo a pressão da ponta afiada da arma improvisada de Barnes, enquanto Bucky lhe ofereceu um quase sorriso sarcástico.
— Perguntei primeiro.
— E eu, em segundo — murmurou ela, petulante. Ele poderia beijá-la se quisesse; estava perto o suficiente para poder sentir o calor de seus lábios, perto o suficiente para respirá-la como um viciado em busca da próxima dose que lhe ofereceria alívio. Ainda assim, obrigou-se a não fazer nada, apenas permaneceu encarando em silêncio. Se perdido no que poderia ter vindo a ser, ou no que havia sido, pouco saberia dizer. — Você nunca muda, não é, James? Mesmo perdido, você sempre volta a este início.
Bucky estreitou os olhos, observando-a com atenção, buscando a mentira ou a manipulação, mas não encontrou nada senão uma pesada camada de cinismo que ele certamente não havia colocado ali, mas havia ajudado a construir. Engoliu em seco, ainda em completo silêncio.
— Você sempre vai ser um herói, não vai? — murmurou, por fim, os olhos intensos, desviando-se dos dele para repousar em seus lábios. Por um momento, Bucky se questionou o que diabos estava passando por sua mente, mas então ele a sentiu mover a faca por sua pele. Uma ameaça silenciosa, a ponta afiada fincando-se um pouco mais contra sua pele, cortando-a superficialmente, sentiu quando um filete de sangue escorreu por sua garganta, quente e vagarosa, seguindo a faca dela. — Nobre. Correto. Impecavelmente bom. Tem sorte, sabia?
Bucky lançou um olhar enviesado, irritado.
— Não. — Ainda que rouca, sua voz escapou mais firme, mais intensa do que antes.
A voz baixa, grave até para os próprios ouvidos, vibrava contra a lâmina pressionada em sua garganta. Seus olhos permaneceram fixos nos dela, e por uma fração de segundos ele quase viu algo familiar, algo que ele buscava há anos, e ainda mais tentava esquecer. Sua ; ainda estava ali, em algum lugar.
— Não aja como se não tivesse escolha, . Você tem… você sempre teve… eu procurei por você… — Não havia como disfarçar a urgência em sua voz, e Barnes odiou-se por deixar-se tão exposto assim na frente de . — Não ouse se ressentir de mim agora, … não você… eu tentei… sabe tão bem quanto eu que tentei, mas você nunca esteve lá… você nunca sequer me retornou uma carta…
Um riso amargo escapou por entre aqueles malditos lábios tentadores. A mente de Barnes dividiu-se dolorosamente em estímulos diferentes: uma parte dele sabia que precisava encerrar aquilo logo, e a melhor escolha a se fazer era capturá-la e levá-la de volta para o Complexo dos Novos Vingadores; teria que tentar convencer Yelena a manter aquele segredo sem que o restante da equipe fizesse muitas perguntas, mas se Victor Von Doom estava escondendo alguma coisa, então deveria saber de algo — deveria saber muito mais do que sequer havia deixado perceber. E, todavia, sua outra parte estava apenas desesperada para vencer os poucos centímetros que o separavam dela e a beijar até que ela fosse nada mais do que um amontoado trêmulo de suspiros e gemidos, até que fosse obrigado a respirar outra vez, e mesmo assim, ele não tinha intenção de parar. A base da taça quebrada que Barnes usava como arma acabou escapando de sua mão biônica, não por um deslize, mas simplesmente pela urgência, ao repousar na cintura dela. Seus dedos fincando-se contra a pele macia e quente dela, mesmo por sobre o veludo de seu vestido, sentindo sua respiração tornar-se mais pesada e lenta. Não desviou os olhos dela, não poderia, mesmo se assim desejasse.
— Me diz uma verdade — sussurrou ele, talvez mais impulsivo do que deveria, talvez apenas desesperado para agarrar-se àquela maldita mísera linha que ainda os conectava, que ainda a mantinha em sua órbita. Estava comentando um erro estúpido, um do qual já deveria ter aprendido; mas não podia se impedir, não queria.
o encarou por um longo momento. Uma mistura de emoções contrastantes surgiu em sua bela face, distorcendo suas feições por um momento. Havia frustração, impaciência, cinismo e até mesmo um ressentimento latente direcionado e cultivado somente a ele. Havia o peso de anos naquela mesma dança, naquela mesma busca. Poderia confiar nele? Poderia ele confiar nela? Parecia que ambos estavam sempre em paralelas, rumando em direções diferentes, ela indo, ele vindo, e vice-versa. Nunca se encontravam, por mais que o desejo queimasse como lava por suas veias. Mas Bucky não desistia assim tão fácil; havia aprendido isso com Steve, era sua melhor qualidade, sua única qualidade.
— Você fica horrível de azul escuro — sussurrou, sua voz rouca, baixa, quase inaudível. Algo no peito de Barnes se acelerou, martelando com força contra sua caixa torácica. A faca repousava na base de seu pescoço, completamente esquecida quando ele venceu os poucos centímetros que os separavam, os lábios deslizando gentilmente pelo canto direito dos lábios dela, sentindo a maciez de sua pele, ouvindo com uma ponta de satisfação o pequeno arfar que ela deixou escapar. Estava a afetando tanto quanto ela o afetava. Bom, ela merecia isso.
— murmurou, rouco contra a pele dela, prendendo o lóbulo da orelha dela entre seus dentes, mordiscando-o. A sentiu tremer em seus braços, e teve que controlar-se para não envolver sua cintura com seus braços, e perder-se ali mesmo, em uma sacada, no meio de uma festa de um poderoso inimigo.
— Não deveria estar aqui — sussurrou ela, fechando os olhos, sua pele arrepiando sob o toque dos lábios dele em sua mandíbula, trilhando um caminho de beijos lentos, cálidos, sem pressa alguma. Barnes sentiu quando a pressão da faca dela começou a ceder. — Diga a Valentina que foi um erro, Bucky, que foi um tiro no escuro, diga que encontraram o alvo errado e saiam daqui antes que as coisas fiquem piores. Porque se ficar… — perdeu a linha de seu pensamento quando Barnes mordiscou a curvatura de seu pescoço, um gemido baixo, sem fôlego, escapou da garganta dela, parecendo incendiar as veias dele, uma onda de desejo e satisfação percorreu por seu corpo inteiro, suas mãos deslizando de sua cintura para repousar em seus quadris, puxando-a com um pouco mais de urgência contra si. Dedos fincando-se na pele macia que havia ali. — Um de nós dois irá morrer, James, e você sabe que não será eu… — Bucky pausou por um momento, afastando-se da clavícula dela, apenas para repousar sua testa contra a de . Tensionou a mandíbula, ainda perdido na névoa intoxicante de seu próprio desejo e na sensação de tê-la em seus braços mais uma vez, obrigando-se a fechar os olhos e concentrar-se em suas palavras.
— Sabe que não posso fazer isso, — retorquiu Barnes com um tom de voz baixo, por fim, abrindo os olhos e afastando-se somente um pouco para poder encará-la outra vez. Uniu as sobrancelhas, considerando o que diabos deveria fazer, o que ele poderia dizer que a faria reconsiderar… que a faria finalmente aceitar a mão que lhe estendia… — As coisas não precisam acabar dessa forma, — Barnes sussurrou, buscando o olhar dela com intensidade, precisava fazê-la entender suas palavras, precisava fazer com que ela visse… — Não desta vez. Vem comigo. Por favor, me deixa ajudar você como me ajudaram…
o encarou e, por um doloroso segundo, Barnes viu o que tão desesperadamente desejava ver. Por uma fração de segundo, a viu tornar-se transparente, revelando uma profunda incerteza, misturada com desconfiança e uma tentativa de esperança. Ele viu a garota que admirava escondido através da janela do apartamento de sua família no Brooklyn, e não a femme fatale capaz de conquistar até mesmo Victor Von Doom. Mas então, tão rápido quanto apareceu, se foi.
Parecia com o ligar de um interruptor, ou o desligar do mesmo; em um momento, ela o encarava daquela forma que era capaz de roubar sua respiração, e então, no instante seguinte, sua expressão voltava a tornar-se impossível de ser lida, intensa e cautelosa. Até mesmo fria ao inclinar sua cabeça um pouco para trás a fim de observá-lo com atenção. As mãos de Barnes soltaram os quadris dela, pendendo por seu próprio corpo, enquanto as sobrancelhas se uniram, tentando compreender quais seriam as próximas ações dela. Estreitou os olhos.
A resposta de veio desprovida de palavras; tinha optado por uma forma mais eficaz de se fazer entender. A faca alojada entre as costelas de Bucky era tudo o que ele precisava saber sobre a decisão dela.

•••

Brooklyn • 1939


Enquanto encarava o papel em suas mãos, Bucky considerou que seu peso se assemelhava a toneladas de puro metal, puxando-o para dentro de um abismo obscuro e nauseante, mesmo que a brisa suave de outono o dobrasse com facilidade, ameaçando roubá-lo de seus dedos com apenas um sopro. Os olhos azuis esverdeados do jovem percorreram o que pareceu ser a vigésima nona vez, passaram por sobre as letras com a certeza de que já as havia decorado, todavia não poderia dizer que as relia naquele momento. O gosto em sua boca era amargo, acompanhado de uma certeza desconfortável de que algo estava sendo roubado de si. Algo estava se esvaindo por entre seus dedos sem que ele pudesse sequer considerar o que diabos poderia ser; não sabia o que ainda estava a perder, mas podia sentir esvaindo-se.
O peso do papel acompanhava uma sentença silenciosa. Considerou o que falaria para sua mãe naquela noite; teria, é claro, que a informar sobre sua convocação. Esquadrão 107, Sargento Barnes. Seu pai ficaria incandescente ao descobrir que ele em menos de alguns dias seria enviado para os fronts na Europa para lutar contra os malditos nazistas. Em menos de alguns dias, Bucky deixaria tudo o que conhecia para morrer pela honra e pela liberdade, em uma guerra que não havia começado, uma guerra que sequer compreendia direito como estava acontecendo, com a certeza de que havia ainda mais tantas coisas que ele queria fazer ali. Ir à Expo Stark era uma delas; Steve havia prometido que se juntaria é claro — Bucky tinha quase certeza de que o melhor amigo, na verdade, estaria tentando se infiltrar, mais uma vez, em uma das filas de alistamento para conseguir entrar. Steve tinha aquele desespero dentro de si para provar-se digno, para lutar pelo que era certo. Não gostava de bullies tanto quanto Bucky, mas havia uma pequena diferença ali: Bucky não tivera escolha. Quisesse ou não, a guerra era seu destino.
Pensou no que Steve diria amanhã quando lhe contasse sobre seu alistamento. Pensou em como o encararia, ficaria feliz também? Ou se sentiria traído? Como poderia dormir à noite sabendo que deixava seu melhor amigo para trás? Steve Rogers jamais o deixaria para trás, todavia, lá estava Bucky, preparando-se para deixar o país, para perder-se em trincheiras e preparações para as ofensivas contra um bando de porcos desgraçados que sequer mereciam o reconhecimento de suas existências. Uma parte de si estava desesperada para enfrentá-los, o desejo de mostrar para aqueles malditos demônios que era a vala que mereciam, não o medo que tentavam infringir nos outros; por sua família, pela família de Steve, especialmente por Sarah, a mãe de Steve, que de certa forma era como uma segunda mãe para ele, e que era judia. Queria que tia Sarah, onde quer que estivesse, o olhasse com a certeza de que havia ajudado a criar um homem de princípios, um homem que se colocaria na frente do perigo por quem amava, que se certificaria de ajudar a criar um mundo seguro para que Steve pudesse ter uma vida em paz.
Mas Bucky Barnes estava apavorado.
Apavorado com o que viria a seguir, com o que poderia encontrar no front. Com a ideia de que, muito provavelmente, ele não voltaria. Seus olhos marejaram um pouco com um pesar sufocante, que quase o fez se engasgar. Não era do tipo emocional, seu pai havia se certificado de criá-lo a velha maneira, — educou-o de forma severa, com amor duro, o choro não lhe era uma opção antes, não iria se tornar agora. Mas, naquele momento, enquanto tomava coragem para subir as escadas do prédio em que sua família morava, Bucky se sentiu no limite das lágrimas. Sua garganta estava doendo, parecia inchada, como se houvesse criado um nó em sua traqueia do qual ele não conseguia se livrar, as lágrimas queimavam por trás de seus olhos, embaçavam sua visão e o obrigavam a piscar com mais rapidez do que deveria, tentando afastá-la. Sua respiração tornou-se irregular, meio trêmula. Estava prendendo-a, hora sim, hora não, como se isso pudesse ajudá-lo a não chorar. Uniu as sobrancelhas, memorizando outra vez a numeração de seu Esquadrão quando uma voz doce ecoou à sua esquerda.
— Sei que não vai servir de consolo, mas você não estará sozinho lá — Bucky piscou, desviando os olhos do papel que tinha em mãos para encarar a garota que se projetava à sua direita, alguns degraus abaixo, esperando que ele se movesse para que ambos adentrassem no hall do prédio. Por um segundo, Bucky apenas a encarou, estupefato. Jesus, ela era linda. O cabelo liso, macio e sedoso estava solto, pendendo por seus ombros, em ondas ajustadas para emoldurar seu rosto delicado e elegante. Os olhos eram profundos, intensos, como se pudessem ver através de seu corpo e enxergar o cerne de sua alma, como se fossem capazes de absorver tudo o que estava ao redor, sem retornar nada. Sobrancelhas angulosas e grossas emolduravam o rosto de traços delicados, enquanto os cílios longos projetavam sombras suaves sobre suas maçãs do rosto altas. O vestido simples, porém elegante, era justo na cintura, mas espalhava-se em uma saia rodada, de um verde escuro, que contrastava com o cardigã de linho que usava, com um tom terroso. As mãos delicadas, com dedos longos, eram envoltas por uma luva discreta, branca de renda, tão fina que parecia propensa a se rasgar se não tivesse cuidado.
Ela ofereceu um sorriso hesitante para Bucky, brincando distraidamente com o dedo mindinho de sua mão direita, esticando-o e puxando-o como se estivesse um tanto quanto nervosa por interromper seus pensamentos ou por falar indevidamente sem ter sido chamada.
— Eu sei, mas não posso deixar de acreditar na solidão que vai me acompanhar sem uma presença tão encantadora quanto a sua, senhorita…? — Bucky se recuperou, pigarreando para clarear sua voz, enquanto oferecia seu sorriso mais charmoso para a jovem deslumbrante à sua frente, torcendo para que ela comprasse o ato.
Os olhos dela se estreitaram por alguns breves segundos, cínicos, mas os cantos dos lábios angulosos se curvaram um pouco para cima, e Bucky tomou isso como uma vitória. Ainda não era um sorriso, mas de repente percebeu-se determinado a fazê-la sorrir, até o fim daquela conversa, ele a veria sorrir.
. — ela se apresentou estendendo a mão delicada em sua direção. Bucky a tomou feliz, tentando suprir um sorriso, ao observar a fina camada de renda delicada que a envolvia, era só um pouco mais áspera ao toque do que a pele abaixo do tecido vazado. Pegou-se traçando gentilmente o desenho nas costas da mão dela, um que se parecia com uma rosa vazada, antes de beijar a mão dela, em um gesto cavalheiresco.
— Encantado, Senhorita — Bucky respondeu, sem ocultar a verdade de suas palavras; ele realmente estava encantado por ela. Tão encantado que, por uma fração de segundos, havia se esquecido completamente de que estava no meio de uma conversa e que deveria se apresentar também. Sua respiração, ainda apertada pela percepção do que significaria ir para o front, pareceu escapar por entre seus lábios, um pouco engasgada enquanto se perdia naqueles olhos . Bucky nunca havia visto uma cor como aquela, tão intensa, tão vívida e marcante. Pela primeira vez, em toda sua vida, percebeu porque Steve gostava tanto de desenhar. Se ele tivesse o mesmo talento que o melhor amigo possuía, ele também iria querer gravá-la; optou, portanto, em gravá-la em sua memória. — James Barnes — Finalmente, encontrando sua voz, Bucky se apresentou, apressou-se, todavia, a acrescentar: — Bucky, por favor, me chame apenas de Bucky.
— Um apelido não é algo muito íntimo para oferecer a um estranho, Senhor Barnes? — questionou, novamente com aquele sotaque que ele ainda estava tentando reconhecer, envolvia sua voz suave e macia como um manto, criando um arrastar que havia arrepiado os pelos de seu corpo quase como se estivesse envolto por estática.
— Mas você não é uma estranha, é Senhorita ? — O sorriso de Barnes aumentou um pouco mais, incandescente, quando viu uma coloração avermelhada começar a surgir nas maçãs do rosto dela. Era tímida, percebeu ele, surpreendentemente ainda mais intrigado, desviando os olhos marcantes dos dele para encarar algum ponto invisível à frente do uniforme dele. — Ou, ao menos, espero que não se torne uma.
negou com a cabeça, apertando os lábios com força e inspirando fundo. Os olhos azuis esverdeados dele se desvirtuaram para a maneira como a clavícula delicada dela marcava a pele suave, e estranhamente, ele sentiu seu corpo se aquecer com a visão. Engoliu em seco, praguejando mentalmente, obrigando-se a encará-la nos olhos.
— Você certamente precede a fama que carrega, Senhor Barnes — disse por fim, mordendo o interior de suas bochechas, parecendo estar lutando contra um sorriso, ao lançar um olhar sugestivo na direção de Bucky, que piscou, estupefato com aquele gesto. Fama? Como assim fama? Desde quando ele era famoso? E se ele era, então era pelo que? Bucky ponderou por uma fração de segundos, talvez fosse pelo cabelo; ele tinha um cabelo muito bom e macio, sedoso até.
— Fama? — Ecoou ele.
pareceu um pouco estupefata, mas não surpresa. Alisou o corpete de seu vestido, ajustando-o antes de passar as mãos pela saia, endireitando-se e então oferecendo um sorriso educado, forçando a passagem por Bucky e a entrada para o hall do prédio. Seu coração disparou no segundo em que o ombro dela roçou suavemente contra o peito dele, mesmo coberto pelo tecido de suas roupas. Uma sensação elétrica pareceu percorrer seu corpo inteiro em resposta ao toque. O perfume dela invadiu seus pulmões; ela cheirava muito bem, uma mistura de flores que Bucky não tinha ideia do que poderia ser, mas soube que havia gostado mais do que deveria, mais do que era apropriado gostar.
— Exatamente, a sua fama — ela pontuou, caminhando graciosamente em direção ao elevador. Bucky não conteve um sorriso, admirando a maneira como ela se movia. Lembrava, de certa forma, uma gata elegante, com os quadris movendo-se de forma quase hipnótica. — Acredito que deva existir um motivo para que quase todos do Brooklyn digam que o senhor é um grande mulherengo, e bem, eu acabei de me mudar, então, são boatos bem sólidos para se descredibilizar de imediato, tendo em consideração sua postura.
Bucky piscou, surpreso — não que não existisse um pouco de verdade no comentário dela, mas havia uma pequena conotação de desdém na voz dela que o incomodou. Sabia que flertava sempre que via uma saia por perto, Steve sempre lhe lançava olhares recriminadores, mas havia algo de divertido na conquista. Mas isso não significava que Bucky era algum tipo de idiota que encantava corações apenas para parti-los posteriormente. Bucky gostava de flertar com qualquer pessoa que acreditava ser atraente, mas não se deixava enganar, nem a outra com suas palavras. Era sempre honesto com o que sentia e sempre transparente com suas intenções. Percebeu-se repassando todas as interações que já havia tido, considerando onde havia passado tal falsa impressão e, por algum motivo, Bucky queria provar a ela que ela estava errada.
— Admito que seja um grande entusiasta da apreciação feminina, mas não me consideraria um mulherengo — Bucky tentou se defender, seguindo-a de uma distância respeitosa. A última coisa que desejava era fazê-la se sentir desconfortável com sua presença. — Soam mais como boatos pejorativos, não acha? Não há nada de errado em flertar com alguém, há?
se voltou na direção de Barnes com uma sobrancelha erguida.
— Recomendo que não zombe de minha inteligência, Senhor Barnes — avisou ela, e Bucky franziu o cenho, apertando os lábios em uma linha fina, percebendo a seriedade com que ela falava. Bucky desviou os olhos por um momento, buscando as palavras corretas para usar com ela, mas não conseguiu.
— Não era minha intenção ofendê-la, senhorita — Bucky voltou a encará-la com sinceridade, algo que não pareceu acreditar. Alguma coisa em seu peito se apertou quando a porta do elevador abriu à sua frente. Bucky prendeu a respiração, sentindo-se, surpreendentemente, pela primeira vez, relutante em deixá-la ir. Tentou convencer-se de que era por causa do ego, que não desejava deixar uma visão errada sobre si, não queria que ela assumisse que ele era somente aquilo, um mulherengo, um malandro desonesto. Mas algo mais profundo dentro de si, algo que ele não iria reconhecer, por hora, pelo menos, sabia que ainda não tinha uma explicação apropriada; não queria que ela fosse embora, ao menos não ainda. — Ei, espera, posso…
Quando ela ignorou seu pedido, entrando no elevador sem muita cerimônia, Bucky prendeu a respiração. Não soube ao certo dizer por que havia cedido àquele impulso, especialmente por não ser algo característico de sua postura. Bucky, normalmente, teria acenado em despedida e seguido seu caminho em um silêncio contemplativo, mas havia algo nela, havia algo na maneira como ela havia dito aquelas palavras que despertou uma necessidade de provar que seu pré-julgamento dele estava mais do que equivocado. Então, ele agiu por impulso quando se espremeu pela porta do elevador, cambaleando para dentro e chocando-se contra uma das laterais da cabine apertada, antes de se ajustar, tentando manter o restante da dignidade que já não tinha mais certeza de que ainda possuía.
parecia surpresa e um pouco assustada com a ousadia de Bucky, e ele sentiu-se imediatamente culpado por isso. Pediu desculpas, com um tom pesaroso, até mesmo envergonhado pela atitude, sua mãe não o tinha criado daquela forma, e se Rebecca o visse, teria certamente o acertado com uma colher de madeira. Ainda assim, não conseguia desligar de sua mente aquela necessidade de provar que ela estava errada sobre ele. Bucky piscou, tentando encontrar suas próprias palavras quando o elevador travou. soltou um gritinho baixo, saltando para o lado e lançando um olhar surpreso em direção ao painel de controle, enquanto Barnes franziu o cenho, inclinando-se para a direita para investigar o que havia acontecido. Testou um, dois botões, e então suspirou pesado.
— Quebrou — ele murmurou baixinho, alcançando o telefone que se encontrava na lateral do elevador, que deveria dar na cabine do zelador do prédio, e apertou o botão, apoiando-o em seu ouvido enquanto esperava que alguém atendesse à chamada de emergência. Mas a ligação caiu na caixa postal. Barnes uniu as sobrancelhas, lançou um olhar de soslaio na direção de e então tentou ligar de novo. E de novo. E, mais uma vez, apenas para ter certeza. Mas não havia ninguém ali. Praguejou por baixo de sua respiração, imaginando que o Senhor Wilson deveria ter se retirado para almoçar em algum dinner próximo dali, e Bucky estaria preso naquele lugar claustrofóbico com até que Wilson retornasse. Sentiu uma pontada de culpa ao imaginar como ela deveria estar aterrorizada em estar presa, em um lugar como aquele, com um estranho. Suspirou pesado, deixando-se afastar ao máximo que conseguia de , encostando suas costas contra a parede gélida de metal atrás de si. — Sempre quebra, moro aqui desde os 12, e quando era mais novo, eu tinha essa aposta com a minha irmã de ver com quem iria quebrar. Costumava apertar todos os botões e sair correndo quando sabia que minha irmã estava voltando das aulas de dança, ela sempre ficava presa, e eu sempre conseguia alguns centavos com a aposta, gastava tudo com doces, então, não era lá um bom negócio.
lançou um olhar desconfiado na direção de Bucky, mas então, mordeu o lábio inferior, parecendo considerar as palavras dele. Ela suspirou, colocando as duas mãos enluvadas para trás de si, antes de escorar-se contra a parede contrária do elevador. Manteve por um longo momento os olhos baixos, distantes, e então, tentando, ergueu a linha de seu olhar para encará-lo.
— Também estou indo para o front — ela disse suavemente, e Bucky foi pego de surpresa. Franziu o cenho, sentindo a confusão amortecer todo o resto ao seu redor, questionando-se como diabos ela havia conseguido algo assim, e por que diabos alguém lhe permitiria fazer isso. Ela ofereceu um sorriso entristecido a ele. — Como enfermeira. Me formei há alguns meses atrás, quando ainda estava em Londres. — Inclinou a cabeça para o lado, observando-o com olhos intensos. — Falei sério quando lhe disse, senhor Barnes, você não estará sozinho lá.
Bucky sabia que deveria ter oferecido um sorriso de volta para ela, deveria no mínimo ter se sentido aliviado, mas não foi isso que tomou conta de seu peito. Em vez de alívio, Bucky sentiu um profundo pesar por ela; pela juventude roubada e o risco que ela correria estando em meio a uma zona de guerra, exposta a qualquer tipo de crueldade. Precisava acreditar que ela estaria segura, mas, no fundo, Bucky sabia que aquele mundo não era gentil com pessoas como ela — não com mulheres. Obrigou-se a pigarrear, tentando limpar sua garganta do nó que se formava, oferecendo um sorriso forçado, ainda educado, para ela.
— Então — disse Bucky por fim, quebrando o silêncio que se instalou no espaço. Inspirou uma vez, tomando coragem, e então, convocando em silêncio toda sua sinceridade, estendeu sua mão direita em um cumprimento formal, respeitoso; um convite, um pedido pairando em seus olhos. — Podemos começar de novo, Senhorita , eu odiaria que a última impressão que você tivesse de mim fosse a de um completo idiota. Embora eu tenha meus momentos.
o encarou em silêncio, sem conseguir ocultar, dessa vez, seu sorriso. Bucky perdeu o fôlego por um breve momento, observando como o rosto dela suavizou quando sorria, como se tornava mais doce, mais gentil. Um suspiro aliviado escapou por entre seus lábios, seguido por um sorriso largo quando ela finalmente aceitou seu aperto de mão. Um acordo silencioso se formou entre os dois.
— James. James Barnes, mas por favor, prefiro que me chamem apenas de Bucky. — O sorriso dela pareceu se tornar mais caloroso, iluminando os olhos , e algo dentro do peito de Bucky dobrou de tamanho: quente, confortável, seguro. Não se lembrava da última vez que havia se sentido daquela maneira, mas certamente não queria livrar-se da sensação assim tão cedo.
— Encantada em conhecê-lo, Bucky — murmurou, seu sotaque fazendo com que o apelido dele soasse como uma carícia suave contra sua pele. Bucky percebeu que faria de tudo para ouvi-la chamá-lo daquela forma outra vez. — Sou .



TW: o capítulo a seguir terá descrições GRÁFICAS de ABUSO FÍSICO e PSICOLÓGICO, perpetrados por figuras de autoridades. Pule para a sessão “Latvéria • Agora” caso sinta-se desconfortável.

Berlim Oriental • 1989


Vagão de Carga — Foi como um clique. Reverberando por sua cabeça como pulsos elétricos, sentiu como se algo tivesse acabado de estalar atrás de sua nuca, obscurecendo sua visão por completo. Tudo pareceu desaparecer; havia, agora, apenas um instinto treinado. Piscou desorientado, tentando buscar em sua mente alguma informação, qualquer que fosse, mas tudo estava completamente em branco. Não sabia onde estava, não sabia quem eram aquelas pessoas, sequer sabia seu nome. A única coisa que ainda pulsava em sua mente era o instinto de continuar a se mover, o instinto de sobrevivência, rasgando por seus nervos, fincando-se como garras em seus músculos, envolvendo sua pele como correntes, pesadas e frias ao toque, enroscando-se por seus pulsos, tornozelos, tronco, pescoço, prendendo-o no lugar, puxando-o para baixo. Puxando-o para um lugar desconhecido e aterrorizante.
Não sabia o que era, quem era, mas sabia que eles iriam o matar. Sabia que havia algo espiralando por baixo da superfície de sua psiquê que estava lutando, debatendo-se como uma criatura agonizante, gritando para que ele fugisse dali. Para que usasse tudo o que tinha que pudesse o ajudar a escapar daquele lugar; daquelas pessoas. Mesmo que, no fundo, ele não tivesse ideia do porquê o faria.
Correntes elétricas ainda percorriam seu corpo quando finalmente o empurraram para fora da cadeira. O gosto metálico e salgado de seu próprio sangue se espalhou com violência por sua língua, o fluxo cálido do líquido encorpado escorreu por entre os dentes cerrados dele, fazendo-o afogar-se ao tentar expeli-lo. A tosse, brusca, reverberou por seu corpo, dolorosa, fazendo-o projetar-se para frente em um espasmo mal contido, o tremor aumentou enquanto a dor o cegava para tudo ao redor. O grito morreu em seus lábios com um engasgo. De repente havia apenas aquele ponto central: os choques haviam amortecido os tecidos musculares, mas ativaram as terminações nervosas de seu corpo, o peito ardia, como se coberto por brasas, lentamente esfregadas pela pele sensível, ao obrigar-se tentar inspirar com mais força, desesperado por quaisquer resquícios de oxigênio que pudesse absorver. Mas tudo o que podia sentir era o cheiro metálico de ferrugem, pungente, sufocante, e espalhado por todo lugar. A dor em seus ouvidos tornou-se um zumbido alto, latejante. Seu pulso estava acelerado, irregular, mas a pior parte era seu próprio cérebro; como este reagiu.
Dividia-se em duas partes, uma frontal e uma sombra que se projetava sobre si, incapaz de fazer alguma coisa que pudesse o libertar daquela sensação terrível. A frontal era composta pela praticidade do treinamento. Começou a compreender rapidamente a situação: instalação militar, seus prováveis colegas de trabalho o encaravam com uma ponta de apreensão — não por ele, percebeu, mas por causa dele; o temiam, era uma máquina —, analisando seus movimentos como se estivessem de frente para um animal selvagem, mãos repousadas nas armas e em bastões com pontas achatadas que estalavam pelo espaço com o choque potente. Uniformes militares e botas pesadas os envolviam, olhares impenetráveis. Sabia o que aquilo indicava: era um soldado, uma arma, nada mais. A compreensão rendeu uma sensação falsa e temporária de tranquilidade; não precisava saber de muito mais, apenas quais seriam suas próximas ordens. Percebeu de imediato que a complacência lhe ofereceria segurança, que a subserviência lhe renderia dores menores que resistir.
A frontal havia ganhado sem esforço. A dor que o cegara aos poucos começou a diminuir, seu corpo pareceu se adaptar à situação em mãos, e ele deixou o ar escapar por entre seus lábios, deixando-se sentar sobre seus calcanhares. Os olhos, ainda enevoados pelos choques e a máquina a qual estivera preso, tentaram afastar o acúmulo úmido que se formava, o piscar letárgico, espasmódico, enquanto inspirava fundo. Sentiu quando uma lágrima cálida escapou de seus olhos, sem ter ideia do porquê poderia tê-las derramado, além da dor física que corroía seu corpo. Sua garganta ardia, mas tudo o que ele podia fazer era tencionar sua mandíbula, obrigando-se a colocar de pé. Alguém o empurrou para trás, sem paciência para sua instabilidade e então um sargento parou à sua frente.
Em mãos, havia uma lanterna, calculadamente voltada para seus olhos, analisando algo, parecendo buscar uma confirmação de efetividade que para ele permanecia desconhecida. Quase desconectada. Quando deu-se por satisfeito, encarou-o em expectativa, e antes que ele pudesse pronunciar-se, antes que pudesse questioná-lo sobre o que diabos estava acontecendo, as palavras que se derramaram por seus lábios foram instintivas, gravadas em seu cerne tão profundamente que não tinha ideia de onde haviam surgido, mas estavam presentes como o reflexo muscular de respirar:
Pronto para cumprir — sussurrou, sua voz soando áspera, rouca e irregular, desconhecida aos próprios ouvidos, uma sensação desconfortável que rastejava por entre sua pele, apoderou-se de seu peito quando percebeu que não a reconhecia. Escapava por seus lábios; estava ciente da forma que se projetava para fora com o esforço de sua garganta, como vibrava pela traqueia, falha por sua falta de uso, mas não a reconhecia como sua. Soava estrangeiro, distante de si mesmo, como se fosse nada mais do que componentes divergentes separados em pedaços e reconstruídos, de novo e de novo.
Impulso, instinto e sua consciência se fragmentavam e embrenhavam-se em um caos doloroso que pulsava em sua cabeça; sentia-se desnorteado, como se as pancadas invisíveis que pareciam atingir as paredes invisíveis de sua mente fossem, aos poucos, desfeitas, enviando-o para uma espiral vertiginosa e profunda, em queda livre, para um desconhecido repleto de lacunas. Algo se agitava em seu peito, algo acorrentado e que ele não sabia o que poderia ser; desconforto apegava-se a sua pele como uma segunda camada, escorria por entre músculos e tendões, viscoso, como se estivesse desesperado para consumi-lo por inteiro. Podia sentir a dor como pulsos elétricos percorrerem seu cérebro, corroído e destruído tudo, tal como fogo, o que encontrava pelo caminho, choques que ainda lhe enviavam dor, ao mesmo tempo que amorteciam o músculo abusado. Não se lembrava nem mesmo de seu próprio nome, de onde viera, como havia parado ali. Não houve luta, portanto, quando ele foi chamado apenas por Soldado; compreendeu que esta era sua identidade. Uma arma, um objeto nas mãos daquelas pessoas desconhecidas, um instinto aprisionado em uma jaula escura, passivo.
Não ofereceu resistência alguma, quando prenderam uma máscara em seu rosto, tão firme que os cantos de metal fincaram-se em sua pele de forma dolorosa, cortando-lhe os cantos da mandíbula e maçãs do rosto, um pouco abaixo de seus olhos, sufocando-o com sua rigidez ao ponto de não conseguir sequer mover sua boca direito, não o suficiente para falar ao menos. Por mais que ajustasse a máscara em seu rosto, nunca parecia o suficiente para aliviar a pressão que se formava na parte inferior de seu rosto, ao ponto que manter-se em silêncio era melhor do que arriscar cortar mais os pontos que o metal já havia ficado profundamente em sua pele. Filetes de sangue, cálidos e pegajosos, escorrem pela lateral de seu pescoço, deslizando lentamente pela pele exposta até serem absorvidos pelo colarinho de seu uniforme. E então, antes que possa perceber, os ferimentos recentemente abertos já estão curados, a pele refeita, adaptando-se à máscara presa em seu rosto.
Movia-se mecanicamente, pelo debriefing da missão, decorando detalhes, encontrando oportunidades que estavam invisíveis até então para os outros soldados, comandava em poucas palavras o esquadrão, apenas estabelecendo onde cada potencial soldado poderia estar para a contenção de prováveis erros, mas agia sozinho. Solitário; como se uma peça estivesse lhe faltando, como se algo estivesse tão errado dentro de si, que criara-se um cabo de guerra. A sanidade e uma parte estranha, fragmentada e arrefecendo-se aos poucos, composta por mais lacunas do que certezas de algo que já havia sido, de sua mente lutavam entre si, debatiam-se e contorciam-se como vermes ao tragar a carne morta de um corpo abandonado em meio ao gelo. Algo estava quebrado dentro do peito do Soldado, algo que lhe era único e precioso; algo que sequer lembrava-se de ter um dia existido.
Mas ele sentia, sentia a tudo, e talvez, esse fosse o problema.
Quando finalmente colocou-se em posição, sobre o telhado do prédio contrário ao hotel, que o alvo havia sido identificado, verificando duas vezes se a arma estava bem engatilhada e buscando-a com a mira da sniper apoiada em seu ombro biônico, o Soldado foi coberto por um silêncio atroz. Pulsou por seus ouvidos, acompanhado do zumbido dos ferimentos internos que os choques constantes tendiam a formar. O comunicador preso em sua orelha direita — a que ainda ouvia com mais clareza — acionava-se esporadicamente com breves comandos de seus superiores, palavras soltas, às vezes, apenas para confirmação, e então atualizações de movimentações. O Soldado pouco prestava atenção, não precisava, tudo aquilo lhe vinha com naturalidade. Era como se ele tivesse sido projetado para aquilo; para a guerra.
Mas o monstro, acorrentado em seu peito, não se satisfazia.
Concentrou-se então, não na sensação de que algo estava lhe faltando, de que algo estava errado, mas na mira da arma. Fechou o olho direito para conseguir focar com o olho esquerdo, observando através da mira rostos desconhecidos e inocentes. Localizou os seguranças do hotel e então alguns hóspedes. Nomes não lhe vinham à mente, mas os rostos, ele reconhecia; havia repassado com o time antes de os enviar para dentro do espaço apenas por contenção de danos, não que ele precisasse. Tinha a estranha sensação de que era enviado sozinho para fazer o trabalho que se precisava. Tinha a vaga memória de missões bem-sucedidas com uma única certeza: ele não falhava.
Então uma mancha apressada de cores vermelhas escuras e cabelos esvoaçantes, repicados, atraiu sua atenção. O Soldado redirecionou sua mira para a pessoa que caminhava às pressas por entre os civis, coberta por um casaco de trincheira pesado, esvoaçante; o rosto dela não demorou a surgir na mira. Que era bonita, isso não havia dúvidas, mas foi o que fez com o peito do Soldado que o incomodou profundamente.
Seu corpo teve uma reação física ao rosto dela. Seu estômago se contorceu, em um espasmo inesperado, o gosto pungente e amargo em sua boca corroeu por sua garganta e estômago, transformando o sangue em suas veias em lascas de gelo, aumentando a pulsação, e enviando um tremor involuntário para sua mão direita. As lacunas que se espalhavam por sua mente pareceram retorcer-se, incongruentes, agora iluminadas por imagens desconexas, espiralando e pulsando rápido demais para que ele pudesse entendê-las de fato; tudo o que conseguiu sentir, todavia, era aquela estranha familiaridade. A sensação projetava-se sobre si como uma sombra, enroscava-se pelos cantos dos olhos, manchando sua visão periférica, mas não estava ali, de fato, a sensação de que já havia visto aquele rosto uma vez. Talvez em um sonho, talvez em uma vida da qual ele não sabia se sequer existira ou se fora meramente projeção de seu cérebro, mas ela era tão familiar quanto sua própria respiração.
Podia sentir que a conhecia de algum lugar; já havia visto aqueles olhos de intensos, marcantes, já havia visto aqueles mesmos cabelos anteriormente, ainda que estivessem mais curtos e irregulares agora, presos em uma trança embutida, que deixava seu rosto livre e exposto, tudo nela era estranhamente familiar, ele só não conseguia saber dizer de onde aquele sentimento partia.
Por alguns segundos, quando seus superiores comandaram um retorno de sua parte, ele hesitou. Não soube dizer por que, mas o gesto pareceu quase instinto, gravado em alguma parte mais funda de sua mente que a razão pairava. O monstro acorrentado em seu peito debateu-se contra a outra parte de sua mente, aquela que estava focada em concluir a missão — aquela que lhe sussurrava ao ouvido que, se fizesse como lhe era comandado, se agisse de acordo com o esperado, não haveria mais dor —, tentando soltar-se do que o prendia e vir à frente de sua mente. De tomar controle de si. Sentiu-se como se estivesse preso a dois polos opositores, e que estes, ao mesmo tempo, o puxavam, dilacerando-o deliberadamente até que não restasse nada senão músculos e tendões rompidos. Mas o comando venceu o instinto, e antes que pudesse se impedir, tocou o comunicador preso na orelha direita, informando-os de forma precisa e fria, seu status:
Alvo na mira. — Esperou por alguns minutos pela retórica de seus superiores, e só se moveu outra vez quando ouviu “verde”, liberando-o para prosseguir com a missão.
O Soldado voltou a inclinar o rosto para frente, acompanhando externamente a movimentação que ela estava fazendo, os óculos de visão infravermelha, não demorando muito a localizá-la através das paredes, cabos, metais e madeiras que sustentavam o hotel. Acompanhou-a com a mira até onde deveria ser seu quarto, e então, esperou. Ajustou a mira de novo, aguardando o momento em que ela entraria no local desejado e ele poderia ter um tiro limpo. Com um resmungo baixo, o Soldado comandou para que o time de contenção se movesse, os olhos azuis esverdeados, fixos nas costas de seu alvo, calculando e alinhando a ação. Observou-a caminhar em direção a um canto, do quarto, retirando algo de trás de um esconderijo, mas foi o movimento que ela fez, um tique nervoso, espasmódico, quase imperceptível, que o pegou: ela levou a mão em direção ao pescoço, pressionando alguma coisa, o que parecia ser uma pequena medalha, um dog-tag.

— Apesar das condições, acho que elas tinham razão sobre você em seu uniforme — A voz suave de ecoou por seus ouvidos como uma carícia melodiosa e Bucky sentiu o impulso de fechar os olhos e apenas pedir para que ela continuasse a falar. Ele ouviria de tudo, até mesmo se ela começasse a dissertar sobre o tempo, desde que não parasse. Invés disso, ele bufou baixinho, sem conseguir conter um sorriso satisfeito. Terminou de amarrar os coturnos de combate antes de levantar-se outra vez, encarando-a com um pequeno arfar. Estava ridícula vestida de enfermeira, como algum tipo de piada dolorosa religiosa onde ela havia escolhido o caminho da conversão e castidade, condenando-o a algum tipo de tortura dolorosa e lenta ao desejar algo que não poderia ter, mas o sorriso que exibia em seus lábios foi o suficiente para aquecer seu peito. Tanto que, mesmo sob as baixas temperaturas do acampamento, ele sentiu-se em um dia de verão.
— Elas? — Bucky questionou, fingindo-se de confuso e inocente. Sabia exatamente de quem ela se referia, mas preferiu não entrar naquele assunto outra vez. Ele prendeu a respiração, enfiando suas mãos nos bolsos de suas calças, encarando-a com atenção, como um completo abestalhado admirando o pôr do sol, tentando não sorrir quando ela lhe lançou aquele olhar reprovador irritante que havia virado seu melhor vício.
— Que idiota — ela murmurou, mas riu, e desta vez, Bucky não conseguiu conter o sorriso. Ele amava aquele sorriso, mais do que deveria. considerou com um movimento suave de sua cabeça, e então revirou os olhos, estendendo-lhe um objeto terrivelmente familiar. Bucky levou a mão em direção ao pescoço, imediatamente tateando-o, e fechou os olhos, exasperado. Droga, ele havia esquecido de novo. — Phillips estava furioso mais cedo, para a sua sorte, consegui encontrar isso antes que você se apresente, mas não vai ter uma próxima vez, então é melhor não perder de novo — pontuou, entregando a identificação de Bucky de volta a ele. O toque de sua mão macia contra a calejada dele enviou uma onda inadvertida de adrenalina e arrepios por seu corpo, o suficiente para que seu corpo agisse antes mesmo que ele pudesse registrar o que estava fazendo, segurando o pulso dela, desesperado para não deixá-la escapar de si. piscou, parecendo surpresa com o gesto, mas não incomodada, ela uniu as sobrancelhas, sorrindo suavemente enquanto o encarava confusa, à espera de alguma justificativa para seu ato, mas Bucky apenas conseguiu encará-la.
Sua garganta pareceu ficar mais seca do que o normal, raspando, enquanto ele tentava desesperadamente encontrar alguma coisa para dizer; sua mente estava em branco e, por um breve momento, tudo o que ele conseguiu fazer foi encará-la. Não tinha nada mais a acrescentar, não tinha sequer certeza se conseguiria lhe dizer alguma coisa que soasse mais precisa do que palavras balbuciadas; ele só sabia que não podia deixá-la ir, ainda não. Bucky piscou, praguejando mentalmente, tentando encontrar suas palavras, quando outra voz, esta britânica e mais pesada, projetou-se um pouco mais à frente em direção à área externa de treinamento.
Escorado contra o capô de um jipe, Dum Dum Dugan, com o charuto preso aos lábios, o bigode grande e ridículo e o chapéu coco, encontrava-se com um sorriso divertido e desaforado, observando Bucky como quem assistia um idiota em completo desastre. Bucky apertou os lábios, exasperado, já imaginando as piadas que ouviria do resto do Esquadrão 107 o dia inteiro. Obrigou-se, com muito esforço a soltar o pulso de quando Dum Dum Dugan gritou:
— Oi, lass, Fury está procurando por você. Disse algo sobre gatilho ou coisa parecida. É melhor ir logo, antes que você irrite o Comandante. — apertou os lábios, praguejando por baixo da respiração, e sem olhar outra vez para Bucky, ele assistiu a jovem disparar o mais rápido que conseguia em direção à área administrativa do acampamento, parecendo exasperada e urgente. Uma parte dele se questionou o que diabos ela teria a tratar com alguém como Nick Fury, mas sua atenção foi roubada pela risada alta e entrecortada de Dum Dum Dugan: — Se era assim que você conquistava as moças em Nova York, filho, eu duvido que você sequer tenha falado com uma — Dum Dum Dugan brincou, e Bucky revirou os olhos, seguindo-o em direção à área externa de treinamento, colocando o dog-tag de volta em seu pescoço, antes de empurrá-lo para baixo do colarinho de seu uniforme.


A dor que espalhou-se por sua mente, fez o Soldado grunhir entre dentes e perder seu fôlego. Sentiu como se tivesse acabado de levar um soco doloroso em sua têmpora. A espiral de dor que o atingia como choques elétricos, triplicou, cegando-o de um olho, e quase o fez derrubar a sniper que empunhava. Seu peito parecia estar sendo esmagado por um container, empurrando-o mais e mais para dentro daquela escuridão enlouquecedora, onde as lacunas se apresentavam com o eco de um nome. . Mas quem diabos era ? E então, houve o estalo familiar em sua mente, como se um interruptor tivesse sido ligado, e o Soldado já estava em ação antes mesmo que pudesse ter certeza do que estava fazendo.
O Soldado disparou, mirando a direita, o braço biônico ainda estável, imóvel, conseguindo mantê-la em sua mira. O projétil cortou o ar com violência, atingindo com precisão o ombro dela. Tomando a sniper com os dois braços agora, focando na tarefa em mãos, ele puxou o gatilho outra vez, mas desta vez, ele errou. Jogou a sniper de volta às suas costas, retirando o dispositivo compacto com um gancho — como um arpão enrolado em uma corda — e disparou com precisão um pouco mais acima de onde a janela se encontrava. Enganchou a corda em seu próprio braço, saltando. O braço biônico não tardou em alcançar a pistola presa contra sua omoplata, disparando vezes o suficiente para conseguir diminuir a resistência do vidro, antes de soltar a corda e se lançar pela janela.
O impacto reverberou por seu corpo inteiro, os dentes trincados pareceram chocar-se uns com os outros de forma dolorosa, e o braço biônico imediatamente curvou-se para proteger sua cabeça e auxiliar na quebra do vidro; uma chuva de estilhaços perpetrou-se ao seu redor, como neve, alguns pequenos fragmentos, quase imperceptíveis cravaram-se em sua pele, em suas roupas, mas o Soldado sequer percebeu. Rolou por sobre seu ombro para amortecer a queda, e então, já estava de pé outra vez, com a arma empunhada, endireitando-se deliberadamente. Os olhos azuis esverdeados buscaram por ela, desligando a visão infravermelha, para enxergar o espaço como precisava através dos óculos presos a seu rosto. Não demorou muito para encontrá-la, parcialmente escondida atrás de uma das paredes que levavam em direção à porta do quarto. Ele não pensou muito, sequer calculou direito, apenas disparou na direção dela, tentando atingi-la. Os disparos atravessaram o quarto, alojando-se nas paredes do outro lado, enquanto o Soldado lançava-se para trás, tentando desviar da forma que conseguia dos tiros que ela havia lhe retribuído. Por impulso, o Soldado cobriu a cabeça com o braço biônico, ouvindo os disparos ricocheteando contra o metal. Por uma fração de segundos, o Soldado fez uma careta, tentando livrar-se do zumbido que se espalhou por seu ouvido esquerdo, pulsando em conjunto com seu coração, martelando contra seu peito, violentamente. Respirando pesado, o Soldado sentiu o impulso de arrancar a máscara em seu rosto, sentindo-se sufocado, mas o segundo passou e ele voltou-se na direção dela; os disparos foram imediatos.
Movendo-se como um espectro, o Soldado se lançou para a esquerda, tentando aproximar-se de onde ela estava, apenas para sentir o impacto de um dos disparos dela em seu ombro. A dor que deveria explodir por seu flanco direito, onde a bala havia se alojado, continuou amortecida. Então ele não parou. Não hesitou ao disparar outra vez na direção dela, acertando com precisão sua coxa direita, quando ela se lançou para frente, em direção a ele. O Soldado soltou um grunhido abafado pela máscara, voltando a mirar nela, e apertando o gatilho da arma, mas o objeto emperrou. O Soldado acertou o cano da arma, tentando ajustá-lo quando ela o alcançou. Ouviu-a grunhir por entre dentes, acertando com força a parte de trás de seu joelho, fazendo-o projetar-se para frente, o reflexo do golpe fazendo seu joelho ceder ao peso de seu corpo. Antes que ele pudesse se recuperar, ele sentiu quando ela agarrou seu braço biônico, sentindo-a tentar empurrá-lo em direção à parede. Cometeu um erro terrível, porque aquele braço não possuía falhas.
Um estalido de seu braço biônico é tudo o que ela precisa ouvir para saber que falhou. O Soldado empurra o braço para longe, mas foi cegado pela dor pungente que o atingiu quando fincou os dedos no ferimento aberto em seu flanco. Sangue derramou-se como uma torrente para fora, o líquido encorpado, cálido e viscoso espalhando-se rapidamente pelo material de seu uniforme, enquanto um grito era abafado por sua máscara. A dor o deixa letárgico, ainda que por um breve momento. Ainda desnorteado pelo golpe, o Soldado sentiu quando ela usou a coronha de sua arma para empurrar a cabeça dele contra a parede. O impacto reverberou por seu crânio com violência, choques elétricos pareceram pulsar pelo cérebro fragmentado e machucado dele, os olhos se obscurecem por um breve momento, antes de voltarem a ter foco.

— Bucky, qual é? Tem homens dando a vida lá. Eu não tenho o direito de fazer menos que eles — Steve retorquiu com um tom de voz determinado e impaciente, que sempre indicava que ele estava pronto para fazer alguma merda que colocaria Bucky e ele em problemas, mas era o mesmo tom que Bucky havia aprendido a admirar. Seu melhor amigo poderia ser um idiota por vezes, mas ainda era seu melhor amigo. Havia algo ali que nunca poderia ser perdido.
Bucky suspirou pesado, ciente de que não conseguiria fazê-lo mudar de ideia, e percebendo o quanto amava o melhor amigo por isso, mas sem conseguir conter a preocupação por ele. Afinal, Steve Rogers poderia ser um idealista heroico, mas ainda era só um magricela asmático que estava suscetível a qualquer desgraçado que encontrasse pelo caminho. Pior, talvez desta vez um dos soldados do exército percebesse que ele era, e ele fosse preso.
— Eu sei, eu sei — Bucky disse por fim com um suspiro pesado, apoiando sua mão direita sobre o ombro do melhor amigo, em uma demonstração silenciosa de suporte, mesmo que não fosse o suficiente para Steve. — Eu só… — Bucky pausou por um momento e então encarou Steve Rogers, no fundo, de seus olhos azuis claros, tentando conter um pequeno sorriso pesaroso. — Só não faça nada estúpido até eu voltar.
Steve bufou, empertigado, mas ainda assim abriu um sorriso torto, encarando Bucky com aquele olhar cúmplice que sempre havia sido algo deles e mais ninguém.
— Como eu posso? Você tá levando toda a estupidez com você! — Steve acusou, e Bucky soltou um riso baixo, nasalado.


Dor explodiu pelo rosto do Soldado quando ela o atingiu com a coronha de sua arma em seu nariz. O óculos que se prendia a seu rosto se partiu, estilhaçando-se no chão, livrando-o de sua compressão, mas a máscara permaneceu intacta, presa firmemente na parte inferior de seu rosto, absorvendo o impacto. O Soldado lançou o rosto mais para a esquerda, seu braço biônico acionando-se com um ruído metálico e agarrando imediatamente o pulso dela. Os dedos fincaram-se com brutalidade na carne dela, esmagando tudo o que encontrava pelo caminho, o crack sonoro dos ossos ecoando por seus ouvidos, pressionando-o até que ela tivesse soltado sua arma. Ela soltou um grito entredentes, acertando um soco com violência no olho esquerdo dele, seguido de um preciso na altura de seu estômago, roubando seu fôlego, então um na altura de suas costelas, obrigando-o a dobrar-se para frente.
O grunhido de dor foi completamente silenciado pela máscara, que agora cravava-se mais fundo em seu rosto. Com a arma dela em sua mão direita, o Soldado tentou apoiar o cano abaixo do rosto dela, mas ela se moveu rápido demais, quando ele apertou o gatilho, tudo o que conseguiu foi disparar ao lado do ouvido esquerdo dela. Ela agarrou o pulso dele com as duas mãos, os ossos esmagados projetando-se para fora da pele, metálicos como vibranium, e o Soldado distraiu-se com isso. Os olhos se arregalaram por um momento, encarando-os com uma ponta de assombro, antes de encará-la outra vez, em choque.
O que diabos ela era?
Ela o empurrou para longe, girando naquele abraço violento e ficando parcialmente de costas para o Soldado. Agiu mais por impulso do que qualquer outra coisa, ainda em choque pelo detalhe que havia acabado de descobrir sobre ela, tentando envolver o pescoço dela com seu braço biônico, os estalidos agora ecoando mais alto conforme a intensidade da luta aumentava. Fechou-se ali de forma impetuosa, os dedos atravessando a pele do pescoço dela, observando-a sufocar com seu próprio sangue.

— O Esquadrão será enviado amanhã de manhã. Até a noite, é provável que tenhamos atravessado a fronteira com a Áustria — Bucky resmungou, como se o assunto não fosse assim tão importante, como se ele não estivesse com aquela sensação insuportável de que algo ruim iria acontecer, como se seu peito não estivesse apertado com a ideia de ir para o front e o que lhe aguardava ali. Tentou forçar um sorriso ao terminar de descascar a maçã, usando a faca de assalto para cortar uma fatia e lançá-la em direção à própria boca, antes de cortar outra e oferecê-la a ela. uniu as sobrancelhas, parecendo não precisar de muito para compreender as palavras não ditas dele.
— Então essa será a última vez que nos veremos, não é? — ela sussurrou suavemente, e algo no peito de Bucky se contorceu dolorosamente. Ele sentiu o impulso de dizer a ela que não, não seria a última vez que o veria, que ele voltaria, talvez até mesmo como uma condecoração, mas Bucky Barnes não fazia promessas, especialmente se não podia cumpri-las. Então, ele apenas ficou em silêncio, observando-a com pesar.
— Queria ter te conhecido antes, talvez alguns anos atrás, teria te levado para dançar, sabe? Ou para Coney Island, sou muito bom de mira, se quer saber, teria ganhado um urso de pelúcia para você, um bem grande, difícil de guardar em casa — Bucky resmungou com pesar, observando-a parar à sua frente com aqueles olhos marcantes de tirar o fôlego que pareciam ler sua alma como um livro de criança. Deixar sua casa havia sido doloroso, dizer adeus à sua mãe e à sua irmã, com a vã promessa de que lhe escreveria todos os dias, que tomaria cuidado e voltaria para casa, céus, havia estilhaçado seu coração, mas Bucky nunca havia pensado que seria diante daquela jovem mulher que seu maior dilema se apresentaria.
Porque uma parte de si estava revoltada. Não tomaria uma escolha diferente, não mudaria seu caminho por nada. Quando pessoas não podiam se defender, o correto a se fazer, o que deveria ser feito, era colocar-se entre elas e os monstros que os caçavam, e manter-se firme, lutar por eles até seu último respiro ou último inimigo. Rendição jamais lhe seria uma opção. Mas era por causa daqueles malditos monstros que perseguiam inocentes em troca de uma falácia para afagar os próprios egos imundos que Bucky perdia sua vida. Que perdia a chance de viver algo que sempre havia desejado para si, e talvez, futuramente, até mesmo considerar algo mais sério. Sabia que seu pai não ficaria lá muito feliz com sua escolha. A ideia de uma noiva de si poderia ser demais para o pai dele, mas pouco importava-se. Sabia que sua mãe iria adorar conhecê-la, e Rebecca a acharia a melhor pessoa do mundo com todas as respostas sarcásticas que lhe oferecia. Se o mundo fosse justo, Bucky poderia ter a cortejado da maneira correta, levando-a para dançar, para tomar sorvete e caminhar no parque, teria lhe comprado presentes e até mesmo se apresentado oficialmente ao pai dela, não simplesmente roubado momentos esporádicos durante o treino para dividir uma maçã e jogar conversa fora. Disso ele sempre iria se ressentir.
— Teria adorado, Sargento Barnes. — Ela sorriu, e Bucky suspirou, sem conseguir conter o fantasma de um sorriso saudoso por algo que não teria. Ele tocou a lateral da bochecha dela, gentilmente, traçando a curvatura de sua maçã do rosto com o polegar, sentindo a pele macia contra seus dedos calejados e ásperos. Algo queimou dentro de si, e, desta vez, ele não se importou em ocultar, não dela.
— Bucky — ele corrigiu suavemente, vendo-a engolir em seco.
— Bucky —, ela repetiu suavemente e os olhos dele se escureceram. Talvez tivesse sido a forma como ela havia dito seu nome, talvez fosse a estranha crescente certeza de que muito provavelmente não voltaria daquela vez. Seja lá o que tenha sido, Bucky, desta vez, não se afastou dela. Pelo contrário, inclinou-se em sua direção. Sua mão deslizou, gentilmente, para a lateral do pescoço dela, envolvendo a pele macia. O polegar traçou com cuidado seu ponto de pulsação, sentindo-o aumentar por baixo do dígito áspero e calejado pelo treinamentoSabia que não era medo que ela sentia, embora talvez um pouco de nervosismo pela forma como ela havia hesitado. Bucky é deliberado, dando tempo para ela decidir se queria acertá-lo na virilha e correr para longe, se diria não e afastá-lo ou se não faria nada. Quando, por alguns minutos, ela não o impediu, o jovem sargento tomou coragem e venceu os poucos centímetros que ainda o mantinha afastado dela, beijando-a; primeiro, devagar, gentilmente, como se estivesse testando para saber se ela estava certa daquilo, mas então, movido por um anseio, um desejo causticante que parecia lhe corroer tudo, alma e corpo, percebeu-se aprofundando o beijo com uma fome desvairada, desesperado por aquilo; por ela.


Errático, confuso, atordoado, o Soldado arremessou seu alvo na direção contrária. Um grito escapou da garganta dela, transformando seu sangue em lascas de gelo, mas foi rapidamente sufocado pelo barulho do choque de suas costas contra a parede, seguido do baque molhado de seu corpo contra o chão, abrupto, nauseante. O Soldado cambaleou para trás, ofegante, deixando a arma escapar de suas mãos, de repente amortecidas demais para que o permitisse segurar a pistola corretamente, espasmódicas demais para que sentisse que eram suas. Fincou os dedos contra a máscara que prendia-se em seu rosto como uma segunda pele. Estava deixando-o nauseado; tudo estava começando a girar ao seu redor, mas era mais do que apenas isso. Seu cérebro parecia estar em choque, sobrepondo situações e espaços, fazendo-o perder a consciência de onde estava e o que estava fazendo. Por uma fração de segundo, ele ficou completamente desnorteado.
A sensação que tivera era de que havia acabado de acordar de um pesadelo. Sentiu a letargia enroscar-se por seus músculos como espinhos, fincando-se sobre a pele e arrastando-se de forma insuportável, deixando-o mais lento, cambaleante e ofegante. Misturava-se com a dor aguda que lhe cegava os olhos, zumbia nos ouvidos e o fazia tremer como se estivesse tendo algum tipo de reação adversa. Cambaleou para frente, chocando-se cegamente contra os móveis espalhados pelo quarto, contra a parede enquanto arrastava-se em direção a onde seu alvo havia caído. Um grito, que se iniciou baixo, mas tornou-se mais e mais alto, externando o desespero que o sufocava, lhe rasgou a garganta, ao puxar, de novo e de novo, a máscara de seu rosto. Arremessou-a cegamente, tossindo e engasgando-se. O cheiro do ar era sufocante, e estava permeado com aquele aroma ferroso que acompanhava sangue. Os olhos azuis esverdeados se arregalaram por uma fração de segundos, encontrando a mancha grotesca de sangue que começava a aumentar um pouco mais à frente, vindo da lateral esquerda da cama. Seu coração disparou; havia algo de errado ali.
Porque o sangue, vermelho pungente, estava acompanhado de algo a mais.
Um líquido viscoso e tão pungente quanto aquele que se misturava, mas preto, como óleo. O Soldado exalou entre dentes, unindo as sobrancelhas, caminhando com passos cautelosos em direção a onde a mancha formava uma pequena poça crescente, onde o corpo de seu alvo parecia estar se contorcendo. Vinha dela. Seu coração disparou, irregular e doloroso contra sua caixa torácica, como se de repente o órgão estivesse prestes a implodir. Um tremor percorreu seu corpo, parecendo aumentar gradativamente, enquanto batalhava contra a consciência dividida.
Quem era ela? De onde ele a conhecia? Quem era ?
Ele tinha que matá-la. Algo ruim iria acontecer se ele não cumprisse aquela missão, algo que envolvia muita dor e violência, algo que lhe roubaria não apenas o desejo de manter-se vivo, mas seu propósito. Algo que quebraria além do reparo; e ele estava com medo. As solas de suas botas de contato soltaram pequenos guinchos baixos quando o material pareceu absorver o sangue e óleo que se acumulava pelo assoalho do quarto, um barulho baixo, imperceptível e irritante, mas que não havia escapado de seus ouvidos. Seu braço biônico estalou mecanicamente outra vez, girando com uma mistura de vibração e reiniciação, os dedos se fecharam e abriram, instintivamente, e então ele estava sobre ela. Seus dedos metálicos enroscaram-se nos cabelos desalinhados e agora, parcialmente soltos, deslizando pelas mechas sedosas em um aperto violento. Puxou a cabeça dela com força para trás, ouvindo um grito meio gorgolejo repleto de dor escapar da garganta dela.
Sangue manchava seu rosto bonito, esvaía-se do buraco aberto em sua traqueia, cabos se projetavam para fora, de onde o líquido preto vazava mais vagarosamente, o corte profundo que seus dedos haviam feito revelava também parte da traqueia e cartilagem de seu pescoço. Estava agonizando, morrendo devagar, tinha-a onde precisava, tudo o que deveria fazer era finalizá-la e a missão estaria cumprida. Os dedos biônicos apertaram-se mais contra as mechas de seus cabelos, firmes, impossíveis de escapar. Com sua mão livre, ele alçou a faca presa na lateral de sua cintura, girando-a habilidosamente entre os dedos, e preparando-se para cravá-la naquela parte frágil do crânio humano, entre a têmpora e a orelha, onde o osso era insignificante. Quebrar-se-ia mais rápido, permitiria que a faca afundasse precisamente no cérebro, fundo o suficiente para que ela não tivesse mais do que alguns segundos até a morte.
Mas então ela prendeu algo em seu braço biônico. O dispositivo que mais parecia-se com uma pequena aranha elétrica, agarrando-se ao metal e prendendo-se entre as pequenas falanges do material que permitiam seu movimento. O Soldado uniu as sobrancelhas, inicialmente confuso, mas percebendo apenas tardiamente o que aconteceria. Ela atingiu o objeto com um botão, e um clique alto ecoou por seus ouvidos.
A corrente elétrica lancinante percorreu o braço biônico do Soldado, fritando os mecanismos e fios, sobrecarregando-o e obrigando-o a soltar os cabelos dela. O braço biônico teve um espasmo violento, empurrando seu ombro esquerdo para trás, e pendendo, inerte ao lado de si. Mas não foi apenas isso, a corrente elétrica, potente, percorreu seu corpo inteiro. Um grito agonizante quase escapou de sua garganta, mas o Soldado acabou cravando os dentes em sua própria língua, cortando-a com violência, sangue escorrendo pelos cantos dos lábios, enquanto seus olhos reviraram-se em suas órbitas. A dor lancinante que se apoderou de sua mente o deixou, mais uma vez, completamente amortecido, enevoado com uma sensação sufocante de perda de controle. O cheiro, pungente de fios, plástico e carne queimada, se espalhou pelo quarto, uma pequena fumaça começou a escapar entre os mecanismos de seu braço biônico, superaquecendo-o, e seus joelhos cederam ao seu peso.
Quando voltou a si, o Soldado estava desorientado, chacoalhando sua cabeça, respirando pesado, tentando afastar a nuvem sufocante de memórias que espiralava, fora de controle pela sua cabeça. Os olhos azuis-esverdeados moveram-se de um lado para o outro, enquanto a voz de Steve Rogers pulsava por seus ouvidos, enquanto seu próprio grito escapava de sua garganta até que doesse, o desespero palpável, seus dedos tentando agarrar-se ao que quer que houvesse pelo caminho, tentando agarrar o ar que esvaía-se por entre as junturas de sua mão. Então houve o choque que obscureceu tudo. Ouviu a voz suave dela, suspirando seu nome de uma forma que havia feito seu sangue tornar-se lava pura, queimando e seu peito aquecer-se com uma estranha mistura de emoções que até o momento ele não sabia que era capaz de sentir. Os olhos se arregalaram, uma mistura de choque e surpresa começando a dissipar-se quando percebeu onde estava.
Um quarto de hotel, mas… como… como ele havia ido parar ali?
Então seus olhos encontraram os dela, agonizando a poucos centímetros de distância. Algo se partiu no peito dele, algo que já estava fragmentado e obliterado a tal ponto que sentia como se fosse apenas um amontoado de areia e não mais fragmentos em seu peito, mas foram os gorgolejos que escapavam dos lábios dela que o assombraram. Foi a mancha de sangue que enxergavam suas mãos. Tudo pareceu desaparecer diante dele, resumindo-se apenas àquele único ponto focal doloroso de ver. , sua estava ali, mãos agarrando o próprio pescoço, enquanto os olhos, vidrados, focalizavam o nada. O peito movia-se de maneira irregular, mais rápido, evidenciando o desespero pela busca de mais ar, enquanto ela se contorcia no chão. Seus movimentos tornando-se mais e mais lentos. Ele ofegou, desesperado, avançando em direção a ela.
?! — Pânico tomou conta de Bucky Barnes.

•••

Latvéria • Agora.


Um grunhido de dor abafado escapou por entre os dentes cerrados de Barnes quando ele arrancou a faca da lateral de sua cintura. A dor o cegou por um momento, e tudo o que ele pôde fazer foi escorar-se contra a balaustrada de pedra que envolvia a sacada, fechando os olhos com força. Era difícil saber o que poderia doer mais naquele momento, se era o ferimento aberto na lateral de seu corpo, a dor aguda assemelhando-se a um metal superaquecido atravessando e rompendo o tecido e músculo que encontrava pelo caminho, dilacerando e cauterizando o próprio ferimento. O sangue cálido e encorpado escorria por sua pele, umedecendo não apenas o tecido de seu terno, como igualmente tornando a fibra do material mais pesada, fazendo-o grudar contra sua pele; ou se era a percepção do que havia acabado de acontecer. havia recusado sua oferta, outra vez. A dor de ter acreditado que poderia salvá-la apenas para perceber, agora, que se enganara deliberadamente mais uma vez era sufocante. Torturante e pesava em seus ombros. A certeza de que havia permitido iludir-se com uma efêmera possibilidade apenas para deparar-se com a dolorosa realidade que, mais uma vez, havia enganado-se sobre ela, era pior do que a faca que havia sido alojada na lateral de sua cintura.
Porque da faca ele conseguiria se recuperar.
Seu peito pareceu arder com a mistura de emoções que percorreu seu corpo inteiro. Havia ainda aquele desespero para alcançá-la; céus, ele jamais conseguiria se livrar daquilo; era seu refém, seu condenado e tinha certeza de que aquela história não acabaria bem. Mas também havia a dor, a raiva e a desilusão de alguém que muito provavelmente havia acabado de arriscar tudo naquela missão para alcançar uma parede que se recusava a mover. Havia o peso da responsabilidade de liderar uma equipe e de vidas que estavam contando com o sucesso daquela missão. Vidas de seus colegas, amigos que estavam na linha porque Bucky deixou-se acreditar, ainda que por um segundo, que sua ainda estava ali. Era uma história doentia, que se repetia mais do que ele jamais admitiria para si mesmo: eles sempre pareciam estar fadados a se encontrarem, e, todavia, a piada cruel que lhe era feita, provinha de estarem em linhas paralelas, sempre próximos um do outro o suficiente para estar ao seu alcance mas sem jamais conseguir tocá-la.
E isso doía, lhe consumia com uma mistura de frustração, dor e raiva. Porque, em algum momento durante as décadas, ele a havia perdido. Em algumas das décadas que vivera, o Soldado Invernal havia ido longe demais e ela escapara de pôr entre seus dedos como areia. E Bucky jamais poderia desculpar-se por isso; jamais poderia acertar as contas com o que ele havia perdido, porque ela havia se perdido também. O que restava, agora, era aquela , a agente, a femme fatale sem escrúpulos e sem limites, que fazia o que desejava, como desejava, e servia a ninguém senão a si mesma. Que partia seu coração deliberadamente a cada recusa, por motivos que não compreendia, mas desconfiava que era apenas divertido vê-lo quebrar-se de novo e de novo. Que se aproximava o suficiente dele para que o lembrar de quão boa era, apenas para lembrá-lo de que ele jamais a teria.
Grunhiu entre dentes, piscando algumas vezes, tomando sua decisão. Precisava pará-la.
O que quer que Victor Von Doom estivesse planejando, havia participado como alguma chave central; ela sabia o que Victor Von Doom estava planejando. Era evidência. Se queriam impedir Doom, e acima de tudo, compreender que tipo de jogo o ditador estava fazendo, então eles precisavam capturar . Precisavam prendê-la, e então ela seria o problema de Valentina Fontaine De Allegra resolver, não mais dele. Tentou convencer-se de que não importava com o que acontecesse com ela, se fosse enviada para a Balsa ou para a Zona Negativa, iria conviver com isso como havia aprendido a fazer com todos os demônios que o assombravam. Todos os demônios que ele não poderia se redimir.
Percebeu que, além de idiota, havia se tornado um péssimo mentiroso para si mesmo.
Tocou no comunicador preso à sua orelha, voltando a caminhar para dentro do salão. Os olhos azuis esverdeados movendo-se por entre os rostos desconhecidos dos convidados de Doom com impaciência.
— Finalmente! — A voz carregada com o sotaque russo entrecortado de Yelena pulsou pelo ouvido direito de Bucky, como um lembrete irritante de sua existência. — Que merda Bucky!
Bucky fez uma careta, tentando ignorar o tom acusatório e irritado da mais nova, unindo as sobrancelhas enquanto disparava por entre as pessoas, passos apertados e rápidos, determinados.
— Encontrei uma brecha — Bucky cortou a reclamação de Yelena. Seu tom de voz, controlado e comedido, soava, agora, tenso e estranhamente irregular, ofegante, evidenciava, mesmo a contragosto, que havia algo errado ali. Algo que provavelmente não havia escapado da atenção de Yelena e que seria averiguado mais tarde, certamente, mas Barnes, preso na tempestade que o consumia, não se preocupou em explicar, tampouco em pensar sobre o assunto no momento. — O nome dela é . Se queremos descobrir o que Doom está planejando, precisamos levá-la sob custódia! Ela sabe de algo — cuspiu Barnes, disparando pelos corredores, buscando com o olhar pela mulher deslumbrante em um vestido vermelho escuro. Virou à esquerda e então desceu uma escadaria em espiral, seguindo o perfume dela e os vestígios de tecido vermelho escuro que desapareceram ao final da escadaria para a direita.
? ? A Espectro de Fury? Ela não morreu durante a Guerra Fria? — Yelena ecoou, mas foi abruptamente cortada quando Bucky se chocou contra alguém. O corpo era sólido, e a cabeça acertou seu queixo com uma explosão inesperada e descoordenada. Bucky grunhiu entre dentes, lançando-se para a direita, preparando-se para acertar um soco preciso no rosto de quem quer que tivesse acertado por acidente, apenas para se deparar com uma Yelena de olhos arregalados, dentes trincados, e pronta para lançar uma corrente elétrica em seu peito. Os dois se encararam por uma fração de segundos, a irritação gritante no semblante de ambos, antes de Yelena abaixar o braço, revirando os olhos. Estava prestes a dizer algo quando a voz de Bob projetou-se pelo comunicador dos dois.
— Gente? — Bob chamou, a voz outrora incerta, agora um pouco mais ansiosa. Bucky parou de correr, unindo as sobrancelhas ao deparar-se com uma Yelena ofegante e com um corte na lateral de sua maçã do rosto. Bucky estreitou os olhos, analisando o ferimento, tentando ter certeza de que ela não estava ferida, fingindo que não estava. — Perdi o sinal do Aleksei! — Bucky e Yelena arregalaram os olhos; o rosto da mais nova pareceu empalidecer.
— Bob, respira — comandou Yelena, mas ainda gentil. Bucky já estava se movendo em direção a alguns guardas à paisana. Concentrou-se na tarefa em mãos, movendo-se com as sombras que o corredor projetava por entre os candelabros altos e elegantes. Os dois seguranças à paisana não viram o que lhes atingiu até que Barnes já os tivesse onde queria. Movimentos rápidos e precisos, um soco bem dado no centro do rosto, seguido de um chute na canela, e então uma chave de braço com seu braço biônico, e os dois estavam no chão, e o Soldado Invernal já estava com duas armas em suas mãos. Prendeu uma atrás de suas costas, no cinto, e a outra manteve em mãos. Destravou o cartucho com as balas, verificando quantas havia ali, antes de voltar o cartucho no lugar, engatilhando com um clic-clac rápido. Trincou os dentes encarando Yelena com intensidade, calculando uma maneira de conter o desastre que aquela missão havia se tornado. — Bob! Com quem ele estava antes?
— A ruiva, ou de cabelo verde? — Bob atrapalhou-se na descrição, parecendo estar espiralando em uma crise de ansiedade imediata. Merda, isso não era bom. — Sasscathin… Sascat…
— Sarkissian! — Barnes cuspiu o nome como se fosse uma maldição, e os olhos de Yelena se fixaram em seu rosto com uma clara interrogação. Yelena piscou, confusa, parecendo prestes a questionar quem diabos era Ophelia Sarkissian, mas Bucky não teve tempo de dizer-lhe como e quem era a maldita mulher, porque mal o sobrenome havia se esvaído de seus lábios, e tudo ficou vermelho. Bucky arregalou os olhos, praguejando, com raiva, observando o sistema de segurança de Von Doom ser acionado. As janelas de vidro foram imediatamente cobertas por uma camada indestrutível de adamantium, enquanto uma por uma das portas do salão se fechavam bruscamente.
Yelena e Bucky se encararam, compreendendo no mesmo segundo o que havia acabado de acontecer: foram expostos. Doom sabia que estavam ali. Não precisaram dizer nada um para o outro, apenas se colocaram a correr o mais rápido que conseguiam, desesperados para alcançar Aleksei antes que fosse tarde demais. O ruído alto de botas em sincronia e gritos na língua latveriana foi o suficiente para que Barnes soltasse um grunhido baixo, impaciente. Os guardas de Doom estavam se espalhando, buscando por eles, isso apenas piorava tudo. Virou à esquerda, segundo Yelena, e as informações entrecortadas que Bob lhe passava do caminho que o Guardião Vermelho havia feito acompanhado de Víbora, quando um manto de cabelos longos e lisos capturou sua visão periférica. Por instinto, Bucky voltou seu olhar a tempo de deparar-se com , escorada contra o que parecia ser um elevador antigo. Ela cruzou as pernas longas e torneadas à frente de si, apoiando as duas mãos atrás de si, e inclinando-se para trás, o queixo erguido, em um sorriso traiçoeiro, enquanto os olhos cintilavam como os de um gato, sustentando o olhar de Bucky com uma ponta afiada de desafio.
ergueu uma sobrancelha, e então, ainda com aquele sorriso de tirá-lo do sério, piscou.
A porta se fechou com Barnes congelando no lugar, os lábios se entreabrindo, as mãos envolvendo com mais força a arma que empunhava enquanto a realização o atingia como uma parede de tijolos dolorosos e abruptos. “Ela está interessada, é por isso que está tentando encontrar uma forma de se aproximar”, havia dito a Doom, “Não irá descansar até descobrir o que você está planejando”. Os olhos azuis esverdeados de Barnes se moveram de um lado para o outro enquanto ele finalmente compreendeu a quem se referia. Ela não estava trabalhando para Doutor Destino naquela noite; era para Sarkissian.
E ela havia sido a isca perfeita.


Continua...


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: sei que não teve nenhum hot, até porque essa é uma fic Slow Burn, mas espero que tenha valido a pena a leitura ♥️ a gente se vê daqui a pouco, prometo!

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