Codificada por: Lightyear 💫
Última Atualização: 31/10/2025— Onde é que você estava?! — perguntou Yuha da ponta da sua cama. Minha amiga, que já estava completamente vestida e maquiada. Com sua bela cauda de raposa à mostra, ela cruzou os braços e fez um bico ao me ver entrar em casa.
— A última aula atrasou, Yuha. Foi mal, de verdade — tentei me justificar enquanto pendurava a bolsa em um dos ganchos atrás da porta. — Fora que já tem muita gente lá fora.
Yuha não ia ficar nada feliz se nos atrasássemos por minha causa para as celebrações da noite. Podia até ter começado como uma tradição emprestada dos não-mágicos, mas o Halloween era coisa séria na Universidade das Artes Mágicas de Seul. Ou seja: era sinônimo de festas para todos os lados, organizadas pelos mais diferentes tipos de seres mágicos, muita bebida e, minha parte favorita, os doces.
Muitos doces.
Podia até ter gente que achava que doces ou travessuras era sem graça coisa de criança, mas era outro assunto com o qual o pessoal daqui não brincava. Era uma das principais atividades da noite e, quanto mais cedo a gente começasse, melhores as chances de, quem sabe, esbarrar em alguém especial antes do amanhecer.
— Eu sei, né! Seu professor poderia ter feito como todos os outros e liberado vocês mais cedo, . — Yuha se levantou e apoiou as mãos nos meus ombros, pronta para me empurrar até o banheiro com toda sua força de gumiho. — Anda, corre!
— Ei, calma aí! Eu ainda tenho que-
— Nada disso, marcamos de encontrar o pessoal já já — retrucou ela antes de bater a porta na minha cara. — Você tem 30 minutos!
Com um “empurrãozinho” da minha querida amiga, consegui me arrumar a tempo de chegarmos elegantemente atrasadas na Sociedade das Bruxas, a primeira parada da noite.
Yuha me cutucou, indicando um grupo grande, de seis meninos e outras três meninas, que já aguardava perto da fachada decorada com abóboras e caldeirões. Assim que nos reconheceu, um deles apontou para o próprio relógio e nos chamou com os dedos. Tentei me acomodar rapidamente, cumprimentando o pessoal.
Logo recebi uma olhada de cima abaixo e uma pergunta afiada:
— Fugindo do circo, ?
Meu sangue começou a ferver. Nunca tive problemas com grupos grandes. Eu realmente acreditava que havia força nos números — afinal, bruxas viviam em grupos — e ainda mais durante uma festa.
Esse grupo, no entanto, tinha um problema.
Um problema muito específico que atendia pelo nome de .
— Achei que você precisava de um pouco graça nessa sua vida tão ranzinza – respondi sem perder tempo, virando o rosto para cravar meus olhos nos dele.
Considerando minha fantasia de mestre do picadeiro, essa era esperada. Eu já era craque nesse joguinho, tão familiar para mim quanto um feitiço para esconder um diário adolescente.
era parte da minha rotina desde que me entendia nessa faculdade. Lembro do dia, logo no início das aulas, que um dos meninos o trouxe para conhecer a mim, Yuha e o resto dos calouros daquele ano. Já que era um bruxo assim como eu, ele achava que íamos ter muito em comum.
Spoiler: não tínhamos. Ele simplesmente travou e decidiu me ignorar pelo resto da noite.
Com o tempo, descobri que ele estava na maioria das minhas aulas de feitiços — e fazia questão de me perturbar em todas elas. Se eu levantava a mão, ele logo erguia a dele para discordar de qualquer coisa que eu dissesse. Eu me preparava para cada aula para poder rebater cada um dos seus argumentos. Estávamos numa briga acirrada desde o início do ano pelo título de melhor bruxo do nosso ano e eu não pretendia desistir tão cedo.
— Quem ri por último ri melhor, . Principalmente quando eu conseguir o prêmio no fim do semestre.
Aquele atrevido! Contei até dez mentalmente, tentando não perder a razão.
— Com essa sua nota de poções, eu duvido muito — disparei.
— Como se a sua tivesse sido lá grande coisa. Suas notas de magia elemental também não ajudam muito, né, ou me enganei?
Eu estava prestes a rebater, quando um dos outros meninos interrompeu.
— Já terminaram?
Abri o maior sorriso que consegui. não ia estragar uma das minhas poucas noites de folga no ano.
— Por hoje – decretei, finalmente desviando os olhos.
— Eu juro, não consigo entender. – Ouvi Yuha comentar com uma das meninas ao nosso lado. – Em algum momento, esse jogo de cão e gato tem que ir para algum lugar.
— Tem sim – ela respondeu. – Para a cama. É muita tensão para duas pessoas.
— Vocês têm certeza mesmo que eles nunca ficaram? — um dos garotos perguntou.
— Ei! – protestei de cara feia. — De que lado vocês estão?
O coro de “de nenhum lado!” não se estendeu muito e, para o meu alívio, o grupinho se dispersou em conversas paralelas conforme a fila avançava. Provavelmente, tentando impedir que eu e esganássemos um ao outro logo cedo.
— Doces ou travessuras! — gritamos todos juntos quando chegamos na entrada da Sociedade.
Uma das garotas, que reconheci de alguma das eletivas de poções, riu e gesticulou para um grande bowl, que veio flutuando até nós. Meus olhos brilharam ao ver a profusão de embalagens coloridas através do vidro.
— Um pouco de açúcar para trazer mais... alegria para a noite, certo? — ela comentou.
Não hesitei quando o pote parou na minha frente — fui logo metendo a mão, tentando juntar o máximo de doces que conseguia com os dedos. Será que pareceria ansiosa demais se abrisse um deles logo ali? Doces bruxos eram os melhores.
— Essa aí sabe das coisas — ouvi outro veterano comentar. — Um bom doce faz mágica.
Desci as escadarias da Toca das Raposas, sorrindo com minha bolsinha ainda mais cheia. Yuha e as outras meninas tinham entrado para falar com alguns de seus colegas de classe, o que poderia demorar, então prometeram me encontrar logo depois.
Já era aquele momento da noite, então. O grupo começava a se dividir, esbarrando em um ou outro conhecido pelo caminho.
Procurei um banco mais à frente na rua e sentei sem pressa, pronta para descansar os pés. Respirei fundo, fechando os olhos. Ainda faltavam alguns outros pontos que participavam doces ou travessuras, sem falar nas festas para aproveitar. Eu me pus a conferir meu saldo de açúcar da noite, procurando algo que pudesse me dar mais energia dentro da bolsa.
— Cansou rápido dessa vez, hein? — uma voz familiar me interrompeu.
Não era possível. Tudo que era bom realmente durava pouco.
— Você não tem mais ninguém para perturbar não, ?
— Ninguém tão divertido como você. — Ele sentou ao meu lado, cruzando os braços atrás da nuca. — Além do mais, perdi os garotos de vista. Anda, o que você tem aí nesse seu saco sem fundo?
Ele indicou minha bolsinha, pousada bem no espaço entre nós, com um gesto da cabeça.
— Não. De jeito nenhum — neguei, tentando puxar o acessório de volta para mim. — Você não é nem louco. Pegue você seus próprios doces.
— Ah, qual foi! — Ele se ajeitou, puxando o tecido com uma das mãos. — É só um-
— Já me basta essa perturbação toda durante a semana-
Nem consegui impedir: quando me dei conta, estava de pé e tinha me dado as costas. Alguns passos adiante, ele se virou para mim, erguendo um doce entre os dedos. Ele ainda fez questão de abrir a embalagem e colocar a porcaria na boca toda de uma vez, enquanto um sorriso vitorioso decorava seus lábios.
Filho de uma—
— Céus, tem como você ser mais infantil? — suspirei, balançando a cabeça. Por mais que eu odiasse admitir, era só um bombom. Não adiantava fazer drama, e a noite ainda seria longa.
Passei alça da bolsa pelo corpo e levantei, decidida a dar meia volta, continuar andando, a fazer qualquer coisa que me tirasse dali. Não vi nenhum dos rapazes na casa, então talvez tivessem se afastado tanto da Toca das Raposas. Ou talvez as meninas já estivessem acabando. Com sorte, conseguiria reencontrar alguém mais adiante e evitar ficar sozinha com até o fim da noite.
— Como se você me desse folga. Eu preciso retribuir na mesma moeda — ele disse quando passei por ele, meus olhos fixos na multidão a frente. — Aliás, eu quase reprovei na prova última prova de Poções porque me distraí por sua causa!
— Até parece. O que eu tenho a ver com isso? — respondi, bufando. Onde estavam esses garotos quando a gente mais precisava deles? — Conta outra, vai.
— Mas é sério — ele continuou. — Seu caldeirão explodiu e eu fiquei debatendo se devia te ajudar a limpar antes do professor voltar. Mas aí a minha poção já tinha passado do ponto. Minhas botas travaram no asfalto.
— Como é que é?
— E eu já sou bem ruim na matéria, então- — cobriu a boca com os dedos, desviando o olhar. — Não era para eu ter dito isso. Ou isso! Ai, caramba!
Mas o que…
Não havia um universo em que me admitiria algo assim. As palavras fluíram sem pausa, quase como...
Quase como ele estivesse enfeitiçado.
Minha mente foi juntando pedaços da noite. A implicância. A parada na Sociedade das Bruxas. O doce que ele roubou da minha cesta.
— , olha para mim.
Ele sacudiu a cabeça.
— Nem pensar.
Era lógico que ele iria dificultar a minha vida. Segurei seu rosto entre as duas mãos.
— , olha para mim — mandei outra vez. — O que. Você. Comeu?
Ele piscou uma, duas vezes.
— E—era só um bombom! Um roxo, tipo... — Ele remexeu mais uma vez o interior da minha bolsinha. — Não é possível que só tinha um... desse, desse aqui! Foi um desse aqui.
Rasguei a embalagem metalizada com pressa. À primeira vista, era apenas um bombom de chocolate normal. A cor marrom, a textura cremosa que derretia em contato com a pele. Trouxe o doce para mais perto do rosto, inspirando fundo pelo nariz.
Bingo. Aí estava: mesmo mascarado pelo açúcar e o cacau, havia o resto de um cheiro muito familiar. Como o cheiro de terra molhada logo depois de uma tempestade, levemente elétrico.
O cheiro de um feitiço.
Meu coração acelerou. Eu precisava ter certeza e só poderia ajudar se soubesse exatamente no que ele tinha se metido. Respirei fundo, me concentrando, e mordi metade do doce.
— Ficou doida?!
Ignorei os protestos de , focando no sabor do chocolate. Já tinha provado muitos venenos e feitiços escondidos em comidas para saber que algo estava fora do comum.
Pesquei um lenço dentro da bolsa para cuspir o pedaço fora o mais rápido possível.
Essa não.
