Codificada por Lua ☾
Finalizada em: 28/12/2025
Minha pequena bagunceira era uma enérgica spitz alemão, com pelagem clara e muita disposição. Passear com ela havia se tornado um dos nossos rituais conjuntos, mesmo com a rotina intensa de treinos e demandas recentes da SM Entertainment. Mas enquanto eu estava perdida em devaneios, minha pequena resolveu puxar a coleira, se esquivando como um foguete. Imediatamente, ela passou a correr em direção ao jardim central, me fazendo perder o fôlego atrás dela.
— Cindy! Ei, volta aqui! — minha voz ecoou pelo pátio vazio, com certa raiva no tom.
Não era a primeira vez que ela fazia isto. Era costumeiro que minha pequena cadela gostasse de me pregar peças desse tipo, deixando-me à beira de um colapso de tanto nervosismo. Ela era minha única companhia e fiel escudeira, sequer sabia qual rumo teria minha vida sem sua presença. Longe dos meus pais, que já eram naturalmente ausentes, e dedicada fulltime a empresa, Cindy havia se tornado um porto-seguro, mesmo que gostasse de tirar minha limitada paciência às vezes.
O som das minhas botas batendo no chão molhado me deixou ainda mais irritada. Meu coração acelerava a cada segundo sem sinal dela, pois a havia perdido de vista. A última coisa que eu precisava era perder minha cachorrinha num lugar cheio de gente rica e esnobe. Não que eu não gostasse do condomínio, mas eu não tinha uma relação exatamente boa com meus vizinhos,, velhos e avarentos.
Virei uma esquina em completo desespero, indo em uma direção mais remota do parque central do condomínio. Estava sendo guiada pelo barulho incessante de latidos que surgira, que não era comum da pequena Cindy. Ela latia apenas quando ficava muito animada ou excitada, então não era uma reação exatamente comum.
Quando me aproximei mais do som, no entanto, entendi exatamente o porquê. Ali, no banco de madeira perto da fonte, estava ele, sentado de forma despretensiosa, enquanto passava os dedos — cobertos por luvas pretas — pela pelagem da pequena, lhe fazendo carinho.
Mark Lee.
Sossegado. Tranquilo demais. Vestido com um enorme casaco preto, semelhante à um sobretudo, touca puxada até metade da testa, postura relaxada como se fosse dono do lugar. Daquele jeito retesado e sério como sempre fazia quando eu estava por perto.
A pequena cadelinha abanava o rabo, completamente entregue ao cafuné que ele estava fazendo na cabeça dela. Ele havia passado muito tempo com Cindy antes, então não era incomum o quão entregue ela estava ao seu dengo. Mas confesso que me senti traída. Como aquela cachorrinha pôde me colocar em uma situação daquelas em plena quarta-feira à noite?
Mark, ainda em silêncio, levantou os olhos devagar, e o sorriso dele veio como um golpe calculado — não muito escancarado, mas o suficiente para me dar um arrepio na espinha. Eu não sabia qual sentimento ainda nutria por ele, mas nós, definitivamente, não éramos amigos. E nunca voltaríamos a ser.
— Vejo que ela ainda se lembra de mim. — ele pronunciou, convencido, com aquele sorriso insuportável nos lábios.
Revirei os olhos e caminhei até ele, esticando as mãos para pegá-la, sem dizer sequer uma palavra. Mark, no entanto, sequer fez menção em entregá-la. Aquilo despertou uma fúria quase que instantânea em mim.
— Você devia tomar mais cuidado com ela, MinHee. — Lee disse, e o tom não era de arrogância. Era… pessoal demais, e aquilo me incomodou profundamente.
— Agradeço, Mark, mas eu sei muito bem o que estou fazendo. Ela apenas escapou.
Só o som do meu nome na boca dele já me fez estremecer, de raiva, óbvio. Ele, por sua vez, sequer parecia abalado. Estava completamente indiferente ao meu nervosismo e aquilo me deixava cheia de raiva dos pés à cabeça. Ele colocou-a em meus braços e ela latiu em protesto. A pequena traidora se ajeitou a contragosto, enquanto minha respiração ficava descompassada. A única certeza que eu tinha, era que precisava sair dali.
Porém, Mark era inflamável comigo e comentário que fez a seguir, me tirou do eixo:
— Bom ver que ao menos uma das duas não tem memória curta.
Quase rosnei de raiva. Já era terrível ter de trabalhar e morar no mesmo local que ele, mas aquela peça que o destino nos pregou já era demais. Sempre evitava ao máximo evitá-lo, mesmo com nossa conexão em comum sendo Haechan. E mesmo assim, em uma noite qualquer, ele voltava como uma maldição para continuar me assombrando.
— Às vezes, esquecer é um favor, Lee.
Virei as costas, irritada, e apertei Cindy, garantindo que ela não fugisse novamente. Comecei a caminhar em passos largos, retirando-me completamente de perto dele, ouvindo apenas uma última frase:
— Apenas cuide dela. Boa noite, Park.
Quase corri para dentro do elevador, apertando o botão do 10° andar com uma força suficiente para arrancá-lo. Digitei a senha do meu andar, e em poucos segundos, abriu-se diretamente no meu apartamento. Deixei a pequena Cindy no chão, que ainda latia de forma animada por tê-lo visto após tanto tempo. Mas, de certa forma, era compreensível a forma que Cindy ficou alegre. Afinal, ela sempre reconheceria quem foi o primeiro dono dela, a pessoa que lhe trouxe para casa. Eu, entretanto, desejava ardentemente esquecer — tanto ele, quanto aquele episódio.
E, por algum motivo que eu ainda achava pessoalmente ofensivo, decidiram que Park MinHee, a trainee e pessoa mais teimosa que eu já conheci, seria minha responsabilidade direta. Talvez fosse um castigo divino, piada interna da gerência ou ironia do destino. Talvez fosse só o universo rindo da minha cara colocando aquela garota no meu caminho pela segunda vez em tão pouco tempo.
Ela provavelmente estava tão irritada quanto eu por ser minha mentorada, e o pior, é que era por tempo indeterminado. Conhecia a mulher a tempo suficiente para reconhecer que ela tinha muitos talentos — e versar no rap não era um deles.
Tomei um gole de água gelada da minha garrafa térmica e finalmente criei coragem de entrar no estúdio marcado com nossos nomes na porta. Era estranho ver nossos nomes combinados após tanto tempo. Hesitante, com certo receio, abri a porta do estúdio de prática e encontrei MinHee de costas, mexendo no tablet da sala. O cabelo preso em um coque meio bagunçado, calça de moletom preta, baby tee branca — simples, mas ela ainda brilhava de um jeito que me irritava profundamente.
E, como esperado, ela já tinha deixado o instrumental tocando na caixa de som, mesmo sem eu ter chegado. Mexido em diversas coisas na mesa de mixagem, curiosa como sempre.
Atrevida, como sempre.
Às vezes, eu me esquecia do quão petulante aquela garota era.
— Você chegou cedo. — minha voz saiu mais fria do que eu pretendia, ao passo que eu evitava contato visual.
Ela virou devagar, e por um instante, só por um, os olhos dela ficaram mais abertos — surpresa real — antes de ela recuperar a pose. MinHee soltou seus cabelos de um jeito hipnótico antes de me responder em um tom desinteressado:
— Eu sempre chego cedo, Lee. Eu sou dedicada.
Dedicada. Ri internamente, em uma amargura que eu odiava sentir. MinHee era de fato dedicada para muita coisa, exceto para as coisas que realmente importam. Mas evitei pensar sobre aquilo e remoer ainda mais aquele sentimento amargo dentro de mim.
— Certo. — finalmente tranquei a porta, apertando o botão que indicava que o estúdio estava ocupado. — Hoje vamos trabalhar dicção e flow. O básico do básico ainda.
— Eu não sou tão ruim assim, Mark. — ela se colocou em defensiva, cruzando os braços e semicerrando os olhos em desconfiança.
Passei por ela, suspirando, conectando o celular na mesa de som, respondendo-a:
— Não disse que era ruim. Só disse que é iniciante. Tem muito a aprender.
Ouvi um resmungo meio inaudível enquanto procurava alguns arquivos de base no Drive do meu iPhone. Sentei-me na cadeira acolchoada, cruzando as pernas, enquanto delineava um plano palpável dentro da minha cabeça. MinHee era delicada para o rap, era difícil visualizar como ela se encaixaria. Eu, no entanto, era movido por desafios. E Park MinHee, com certeza, seria um grande desafio.
— Vamos lá. — Entreguei um tablet em suas mãos para que ela acompanhasse a letra. — Começa no verso um. Devagar.
O beat estava calmo e melódico, ótimo para quem estava começando. Meio desgostosa, MinHee segurou o aparelho eletrônico em mãos, hesitando para iniciar. E conforme ela versava, eu tirava algumas conclusões: não era horrível, mas não era incrível. Precisava de lapidação gradativa, porém nada que fosse impossível.
Ela se afobava em alguns versos e gaguejava em outros, mas tinha um talento quase que natural para voltar para o flow. Continuei ouvindo até que ela chegasse perto do refrão da canção, versos que eu mesmo escrevi em uma das milhares de noites que passei em claro.
Por causa dela, à propósito.
MinHee sempre teve presença, desde trainee novata até agora. Uma presença particularmente irritante para mim em particular. Mas rap exigia outro tipo de entrega, ritmo interno e muita precisão. Uma coisa que ela não dominava ainda.
— De novo. — voltei a música do início, pegando-a de surpresa.
Ela revirou os olhos, bufando e me olhando diretamente.
— Você nem deixou eu chegar no refrão, Lee.
— E nem foi preciso. — mantive a calma, encarando-a diretamente. — Se você tropeça na entrada, cai no resto. Começa de novo, Park.
MinHee bufou, claramente irritada com a observação. A teimosia em pessoa detestava ser contrariada, demonstrando uma irritação quase que palpável de tão presente. E eu deveria ter ficado satisfeito com isso. Deveria.
Mas quanto mais ela franzia a testa… mais bonita ela parecia. Daquele jeito que era antes.
Inferno.
Bufei comigo mesmo ao passo que me reconectava com a fluidez de MinHee. Certamente, teríamos um longo treinamento pela frente, mas não queria deixá-la nervosa. Sabia como a SM sugava e deixava os trainees nervosos, principalmente quando estavam cotados para o pré-debut.
Park MinHee, apesar de despertar em mim sentimentos complexos e reativos, era uma baita artista. Ainda precisava de pequenas lapidações, claro, mas havia um talento nato. Sua voz era doce e angelical, ornando perfeitamente com a face perfeitamente desenhada.
Ela tirou alguns fios de cabelo do rosto, ofegante e levemente suada. Realmente estava quente lá dentro e tudo parecia nos sufocar. Devagar e delicioso demais para o nosso próprio bem.
Conforme o tempo foi passando, ela parecia mais ambientada com a tarefa. Não reclamou mais nenhuma vez dos meus pedidos para retornar ou repetir e parecia realmente empenhada. O destino, em contrapartida, resolveu nos surpreender com a única coisa que poderia me estressar naquele momento: a porta abriu-se atrás de nós. Furioso, virei para trás irritadiço, dando de cara com Haechan e uma expressão sapeca.
Só podia ser sacanagem.
MinHee, em retrospecto, limpou o suor da testa com uma das mãos e me lançou um olhar estranho, que fingia indiferença, mas carregavam uma irritação quase elegante. Eu não correspondi. Não confiava na minha expressão quando ficava tempo demais olhando pra ela e não precisava que nosso melhor amigo percebesse isso.
— Ah, não acredito nisso… vocês dois. No mesmo lugar. Sozinhos. — Ele arqueou a sobrancelha, completamente entretido com o que via. — Isso parece até uma fanfic. — Ele continuou, com graça, cruzando os braços e balançando a cabeça negativamente como se nos repreendesse. — Juro, tive que abrir a porta para saber se era verdade.
MinHee bufou, desviando o rosto. Eu mantive a postura, mas o canto da boca quase ameaçou ceder. Haechan tinha esse talento irritante de expor o que ninguém dizia em voz alta — de forma cômica e ao mesmo tempo expositiva.
— Só estamos trabalhando — respondi, cruzando os braços numa tentativa inútil de parecer neutro.
Haechan riu, aquela risada leve que sempre soava como deboche e afeto ao mesmo tempo.
— Trabalhando. Claro. — Ele caminhou até a mesa de som, observando os takes que eu havia marcado. Assim como MinHee, nosso melhor amigo era um baita de um atrevido. — Você tá levando isso a sério demais, Mark. Esse é só o primeiro treino conjunto de vocês… e olha só a tensão. Imagina até o final do ano.
MinHee revirou os olhos, mas não rebateu. Talvez estivesse cansada demais para continuar a guerra fria habitual. Ou talvez estivesse evitando dar a ele mais munição, como sabíamos que aconteceria. Tudo que disséssemos a Hae, poderia e seria utilizado contra os nossos próximos argumentos.
— Tensão só porque você chegou — eu retruquei. Era mais fácil jogar a culpa nele do que admitir que ficar naquele mesmo estúdio com ela mexia comigo de maneiras que preferia não revisitar. — Onde já se viu entrar no estúdio quando está sinalizado como ocupado?
Haechan inclinou a cabeça, estudando nós dois como se estivesse prestes a fazer um diagnóstico preciso de um problema que eu preferia ignorar. Afinal, talvez o problema fosse eu.
— Vou achar graça disso pro resto da minha vida — afirmou, ignorando completamente meu protesto contra ele. — A SM colocou justamente vocês dois juntos… Alguém lá dentro gosta muito de entretenimento. Eu teria feito a mesma coisa, mas continua sendo engraçado.
Eu inspirei fundo. Não porque as palavras dele me incomodaram — mas porque, por um segundo, enquanto MinHee arrumava cuidadosamente os cabos e evitava me encarar, algo dentro de mim conhecera uma sensação antiga. Familiar demais. E letalmente perigosa.
— Já terminamos por hoje. — declarei, principalmente para mim mesmo. — MinHee, pode ir.
Ela apenas assentiu, séria, como se nossas faíscas anteriores nunca tivessem existido. Como um raio, ela saiu do estúdio tão rápido quanto veio, deixando-me sozinho na companhia do meu amigo nem tão querido assim.
— Você realmente é péssimo em disfarçar — comentou, aproximando-se de mim com aquela lentidão provocativa que ele adora usar quando está prestes a fazer observações inconvenientes.
— Não começa — adverti, passando a mão pelos fios da mesa de som para evitar encará-lo. Eu precisava de algo para manter minhas mãos ocupadas; caso contrário, ele perceberia mais do que já tinha percebido.
Não havia como não notar, apesar de tudo. Hae era meu melhor amigo desde sempre e dela também. Acompanhou toda a nossa história — e o fim dela. Nos conhecia demais para o nosso próprio bem.gm
— O problema é que você já começou, Mark. — A voz dele veio carregada de diversão. — Ainda nem passaram duas horas juntos e você está assim… tenso, desconcentrado…
Revirei os olhos, sem paciência para suas provocações.
— Estav trabalhando. Isso se chama profissionalismo, coisa que você não teve ao invadir o estúdio.
— Claro que é. — Ele deu uma risada curta, semicerrando os olhos. — É por isso que você ficou travado quando eu cheguei.
Bufei, esgotado.
— Chega, Haechan. — Minha paciência estava desgastada demais para lidar com o prazer que ele tirava da situação.
Ele ergueu as mãos em rendição, embora o sorriso presunçoso permanecesse.
— Colocar você como mentor dela foi uma escolha meio irônica. Só achei engraçado.
— Ou talvez seja uma punição divina — murmurei mais para mim do que para ele.
Haechan, em retrospecto, soltou outra risada em explosão.
— Para você? — Ele inclinou a cabeça. — Ou para ela?
Não respondi, não havia como. O silêncio que se instalou dizia mais do que qualquer frase minha seria capaz. E ele percebeu.
A expressão divertida suavizou apenas um pouco — o suficiente para indicar que, apesar da provocação constante, ele sabia onde pisava. Éramos melhores amigos há muito tempo e ele sabia o quanto podia me irritar.
— Não faz essa cara. — Ele me deu dois tapinhas no ombro. — Vocês só têm uma história. História complicada, mas ainda sim, uma história. É normal isso bater forte quando ficam sozinhos de novo.
Desviei o olhar, irritado por ele continuar mexendo na ferida. Mas mesmo assim, me via incapaz de não comentar sobre MinHee.
— Ela nem me suporta!
— E você também não a suporta… pelo menos é assim que vocês gostam de interpretar. — O sorriso dele reapareceu, mais leve. — Mas qualquer pessoa de fora enxerga outra coisa.
A irritação me atravessou pela metade — a outra metade era algo que eu preferia ignorar.
— Vamos embora antes que eu me arrependa de ter deixado você entrar — resmunguei, desligando as coisas.
Haechan ergueu as sobrancelhas, satisfeito.
— Tudo bem, tudo bem. Mas, só pra constar… — Ele abriu a porta e apontou com o queixo para o corredor vazio. — Se ela saiu correndo desse jeito, não foi só por birra. Ela também sentiu. Eu sei o que digo, sou o melhor amigo dela.
Engoli em seco, mantendo a postura como se nada daquilo me alcançasse. Afinal, não deveria me abalar, certo?
— Você está imaginando coisas.
— Estou, sim — respondeu, dando de ombros. — Mas é impressionante como minhas imaginações sempre se provam certas quando o assunto é vocês dois.
Ele saiu primeiro, deixando-me ali por um instante — sozinho, pensativo — no mesmo estúdio onde a voz dela ainda parecia ecoar pelas paredes. E, para meu desgosto, descobri que não me incomodava tanto quanto deveria a persistência dessa presença.
— Finalmente, MinHee. — comentou, alongando o próprio pescoço, enquanto me observava calçar as sapatilhas. — Pensei que fosse fugir de mim também.
— Não seja dramático, Hae. — retruquei, tentando manter o tom neutro. — Só perdi a hora.
Ele arqueou uma sobrancelha. Não disse nada, mas o olhar dizia tudo: não acredito em uma palavra sua.
O treino começou com correções diretas, como sempre. Haechan tinha um jeito meticuloso de ordenar cada movimento meu, e eu costumava acompanhar sem resistência. Mas naquele dia… meu corpo obedecia, minha mente não. Era como se tivesse algum delay em minhas ações, com minha mente muito longe dali.
— MinHee, você está atrasando o giro. — ele advertiu, aproximando-se para ajustar minha postura. — O que está acontecendo?
— Nada. — respondi depressa, rápido demais.
Ele riu. Não com deboche, mas com aquela familiar irritante certeza de quem enxerga o que não foi dito. Não era estranho, afinal. Haechan era meu melhor amigo há muito tempo, obviamente me conhecia melhor que qualquer um.
— “Nada”, certo? — cruzou os braços, encarando-me. — Engraçado, porque desde ontem você parece… dispersa.
Respirei fundo, tentando não demonstrar a tensão que se acumulava desde o treino com Mark. O jeito como ele me olhara, a proximidade, as provocações veladas… o eco da voz dele ainda parecia cercar meu pensamento. Me fazia revistar memórias tão adormecidas dentro de mim, que causava-me calafrios.
— Só estou cansada. — tentei, mantendo a expressão firme.
Haechan aproximou-se, inclinando levemente a cabeça, analisando-me com aquela sensibilidade que ele habilmente escondia sob suas piadas.
— Isso tem nome, sabe. — murmurou. — E começa com M, e depois A…
Revirei os olhos, mas o incômodo apertou meu peito, fazendo com que eu o interrompesse.
— Haechan, por favor.
— Mark. — completou, ignorando meu pedido. — Você acha mesmo que não percebi?
Parei no meio do passo. Ele me observava com paciência, braços cruzados, sem a mínima intenção de recuar.
— O que houve entre vocês ontem?
— Nada. — repeti, agora mais seca. — Ele só está me ajudando com o rap, como mandaram. Não é como se eu tivesse opção.
Haechan soltou uma risada curta, quase piedosa.
— Claro. E você costuma ficar corada assim quando não tem opção?
Virei o rosto, irritada comigo mesma. Traidora, murmurei mentalmente para minha própria pele. Primeiro fora Cindy, agora eu mesma.
— Você está exagerando!
— Talvez. — concedeu ele. — Mas, sinceramente, MinHee… achei que você ficaria mais tranquila sabendo que ele está… seguindo a vida.
Desviei o olhar sem querer. Por um momento, eu vacilei. E que merda, Hae me conhecia bem demais. Nos conhecia bem demais.
— Como assim?
Haechan deu de ombros, fingindo casualidade, mas seus olhos permaneciam atentos.
— Ele está saindo com uma garota. — disse com uma naturalidade nada espontânea. — Já tem algumas semanas, pelo que ouvi.
O golpe foi discreto, mas preciso. Bem no estômago. No entanto, resolvi ignorar o desconforto repentino, aquela pontada absurda que não fazia sentido algum. Não havia sequer motivo para que eu me sentisse assim.
— E por que isso deveria me interessar? — perguntei, um pouco rápido demais.
Atuação não era o meu forte.
— Não sei. — Ele sorriu, não cruel, só consciente. — Você me diz.
O silêncio que se instalou não me ajudou em nada. Eu tentava repetir mentalmente que nada entre mim e Mark fazia sentido — nem o passado, nem o presente, nem aquela inexplicável frustração agora. Mas, pela expressão satisfeita de Haechan, ele já tinha percebido exatamente tudo que eu tentava esconder.
— Vamos voltar ao treino? — perguntei enfim, controlando o tom.
— Claro, MinHee. — Ele finalmente assentiu, calando-se.
Não sei se ele se deu por vencido, porém eu não queria parecer incomodada pela informação que ele fornecera. Por isso, ainda em silêncio, voltei à posição inicial, mesmo com minha mente traidora insistindo em permanecer em outro lugar — especificamente nos olhos dele, na maneira como me chamava pelo nome, na proximidade que eu fingia não sentir.
E, para meu absoluto desgosto, nas palavras de Haechan ecoando como um aviso incômodo: Ele está saindo com outra garota. E admitindo em voz alta ou não, aquilo me afetava muito mais do que deveria.
Voltei para o estúdio alguns minutos antes do horário. Era um costume meu, para me organizar com silêncio, preparação adequada, organização do local. Tudo precisava estar no lugar antes que alguém entrasse, especialmente ela.
Estava revisando a letra quando finalmente ouvi a porta deslizar. Não precisei levantar a cabeça para reconhecê-la. O passo firme, o ritmo impaciente, o som controlado da respiração com aquele perfume tão doce e característico… MinHee sempre chegava como quem tomava posse do espaço, como se o invadisse e o preenchesse por completo.
Mas, naquele dia, havia algo diferente.
— Você está atrasada. — comentei, sem desviar os olhos da folha.
— Três minutos. — ela respondeu, seca. — Não muda nada.
Levantei o olhar. Ela não estava me encarando diretamente — e isso, vindo de MinHee, já era um sintoma de algo. Por trás daquela menina engraçadinha, havia uma mulher que encarava tudo de frente. A ausência disso me deixou em alerta.
— Você sempre disse que pontualidade era crucial. — provoquei. — Mudou de ideia hoje?
Ela me lançou um olhar breve, duro, antes de ajeitar o cabelo atrás da orelha. Ela pegou os cabelos lisos com leves ondulações nas pontas e amarrou-os, disparando em seguida:
— Só porque você vive por regras não significa que eu precise seguir todas elas.
Arqueei uma sobrancelha.
— Interessante. Normalmente você faz questão de competir comigo até nisso.
Ela riu com certo escárnio antes de prosseguir:
— Hoje não. — disse, e o tom foi tão cortante quanto inesperado.
Havia algo no jeito dela: menos confrontativa e ao mesmo tempo… irritada. Como se estivesse brigando com o próprio ar. Ou talvez, com a própria mente. E naquele ponto, eu era um mero espectador de toda aquela bagunça emocional.
— Certo. — coloquei a música para tocar, um pouco irritado para prolongar aquela discussão. — Vamos começar.
Ela respirou fundo e iniciou o verso, mas seu ritmo estava deslocado, a dicção tensa. Eu sabia que ela havia entendido e estudado a técnica, mas não estava presente nos ensinamentos para seguir o que já havíamos conversado. Tentei não encará-la diretamente, deixando alguns erros passarem a princípio. Nosso convívio não era particularmente fácil e quanto mais eu prolongasse aquilo, mais inflamados ficaríamos.
No entanto, estava mais desafinada e confusa que o comum. Eu precisava intervir:
— Pare. — pedi.
Ela fechou os olhos por um instante, contrariada. Senti que ela segurou uma bufada irritadiça, apenas me respondendo com certa impaciência:
— Agora é o quê?
— Você está atropelando metade das sílabas e ignorando a respiração no fim do segundo compasso. — expliquei, mantendo a voz neutra. Não queria que MinHee entendesse como uma ofensa. — Você sempre consegue acertar isso. O que está acontecendo, MinHee? Quer fazer uma pausa, tomar um café…
— Nada! — respondeu imediatamente, como se já estivesse cansada de se justificar.
Apenas respirei fundo, tentando deixá-la confortável. Eu sabia — como ex-namorado dela, embora odiasse admitir — quando ela saía do eixo. E também sabia como tirá-la do sério.
— De novo essa resposta? — inclinei-me ligeiramente para frente. — MinHee, se algo estiver afetando seu treino, preciso saber.
Ela me encarou, finalmente, mas seu olhar não tinha o brilho costumeiro de provocação. Era mais… defensivo. Quase ferido, sob camadas de teimosia. Engoli em seco, com certo receio de quais poderiam ser suas palavras a seguir.
— Você não precisa saber de nada. — ela respondeu, cruzando os braços. — Só precisa fazer seu trabalho.
O incômodo veio rápido, apesar de eu tentar sufocá-lo. Estava tentando manter meu equilíbrio emocional a todo custo, mas naquele momento, ele se esvaiu quase que por completo.
— E você precisa fazer o seu. — retruquei, no tom irônico de sempre. — Mas parece ocupada demais pensando em outra coisa.
— Não estou. — ela rebateu, ultrapassando o limite da irritação. — Só estou cansada.
— Você? Cansada?
O olhar dela se apertou num reflexo que eu conhecia bem. Ela estava à beira de explodir. E, por algum motivo que eu não devia analisar, a ideia me atingiu com uma mistura de culpa e fascínio.
Não queria levá-la ao limite, mas precisava. Sentia que aquilo era o mais próximo do íntimo que tínhamos antes em nossa relação. De como ela se sentia à vontade para ser ela mesma na minha frente, sem restrições.
— Às vezes você fala como se me conhecesse de verdade. — ela murmurou, em tom de reclamação.
— Talvez eu conheça. — respondi baixinho, antes que pudesse evitar.
O silêncio entre nós ficou pesado demais. Ela desviou o rosto primeiro. Depois, respirou fundo, pegou a garrafa de água e caminhou até a porta com passos decididos.
— Aonde você pensa que vai? — perguntei, frustrado comigo mesmo pela urgência que escapou sem permissão.
— Sair antes que eu diga algo que vá me arrepender depois.
— MinHee, ainda temos vinte minutos de tre—
A porta bateu atrás dela antes que eu terminasse.
Fiquei ali, parado, com a música ainda tocando e o eco da presença dela se dissolvendo pelo estúdio vazio. A luz, anteriormente vermelha, tornou-se verde, deixando o estúdio livre. Mas o meu coração, em retrospecto, estava pesado, denso. Pois, pela segunda vez naquela semana, percebi que, por mais que eu tentasse, Park MinHee ainda mexia comigo de um jeito que eu não sabia — ou não queria — decifrar.
Ela estava com os braços cruzados, a expressão indecisa. E, embora MinHee sempre tentasse parecer maior do que todos os seus medos, eu sabia reconhecer aquele tipo de silêncio.
A porta automática se abriu, e eu me aproximei devagar, deixando que pequenos respingos me atingissem. Ela respirou fundo ao sentir minha presença, provavelmente denunciada pelo perfume que eu comumente utilizava.
— Vai ficar aí até a chuva parar? — perguntei, sem ironia, mas também sem suavidade.
Ela endureceu imediatamente, deixando seus músculos enrijecerem de tensão. A mais baixa pareceu engolir em seco antes de me encarar nos olhos, de forma ainda irritadiça pelo diálogo mais cedo.
— Não é da sua conta!
— Você tem guarda-chuva? — questionei, ignorando o tom.
Ela suspirou, piscando os olhos devagar. Aquilo pareceu desarmá-la momentaneamente, como se não esperasse nenhuma gentileza vindo da minha parte. Não podia culpá-la pela reação, sabia que não estava sendo dos mais gentis com ela nos últimos tempos.
— Não. — respondeu, um pouco relutante. — Mas dá pra correr.
Olhei para o céu, tão escuro que parecia noite. A chuva caía em golpes pesados, como se o clima tivesse decidido também perder a paciência. Suspirei, um pouco frustrado.
— Vem comigo. — disse, direto e talvez um pouco ríspido. — Eu te levo.
Ela virou o rosto para mim, em surpresa evidente, mas mascarada sob aquele orgulho irritante que parecia ser a marca registrada dela. Talvez tenha sido o tom imperativo ou a surpresa, mas obviamente, ela se opôs:
— Não preciso que você me leve, Mark.
— Não perguntei se precisava. — respondi, já sem paciência. — Estou dizendo que vou te levar.
— Você está sempre assim, dando ordens! Quem você pensa que é?
— E você está sempre assim, discutindo coisas óbvias. — revirei os olhos.
Ela respirou fundo, quase exasperada, e a mandíbula dela tensionou. Um sinal claro de que estava prestes a recusar — até um trovão ecoar tão forte que fez o chão tremer. MinHee deu um leve sobressalto, com um pequeno gritinho de fundo. E pronto, a decisão estava tomada por ela.
— … Tudo bem. — murmurou. — Só porque o tempo está feio lá fora.
Assenti, sem vitórias desnecessárias. Caminhamos juntos pelo corredor até o estacionamento, sem trocar sequer uma palavra — o tipo de silêncio que dizia mais do que qualquer frase. Não havia nada que pudesse ser dito após tantas emoções no mesmo dia e eu poderia lidar com isso depois.
Quando ela entrou no carro, acomodando-se no banco do Volvo, a primeira coisa que notei foi a minissaia — não por estar procurando, mas porque era impossível não notar. Ela rapidamente ajustou a barra, como se tentasse se esconder de mim e, ao mesmo tempo, de si mesma.
Liguei o motor, engolindo em seco. Eu não precisava de uma lembrança tão perigosa naquele momento, em que seria obrigado a estar no mesmo ambiente que ela. Por isso, decidi que dirigiria o mais rápido — e seguro — que pudesse.
A chuva batia no vidro com força, e o som preenchia o espaço entre nós, tornando cada respiração perceptível demais. As ruas pareciam estar lotadas de carros graças ao horário de pico, fazendo com que eu amaldiçoasse aquela decisão.
— Você ainda está estranha. — murmurei, porque silêncio demais me desestabilizava quando ela era o motivo. — Quieta. — Corrigi, um pouco sem graça de iniciar o assunto.
Antes, nosso silêncio era confortável, como se ela entendesse tudo que eu não conseguia verbalizar. Mas agora doía, como uma lâmina atravessando meu pescoço. Aquilo seria uma verdadeira tortura psicológica se MinHee não me ajudasse. E segundo o Google Maps, estávamos longe de chegar em casa.
— Não tenho nada pra dizer. — respondeu, olhando pela janela. A voz dela estava mais baixa do que o habitual, quase… vulnerável.
Peguei a avenida principal, já engolida pelo trânsito mais lento e pela névoa provocada pela chuva intensa. O ambiente, entretanto, permanecera tenso, não porque brigávamos — mas porque não estávamos brigando. E isso, de alguma forma, era pior.
Foi quando passamos pelo semáforo, com as luzes refletindo na poça d’água e no painel do carro, que a lembrança me atingiu sem aviso. No mesmo carro, em outra noite chuvosa. E MinHee, muito mais próxima. Em um flash rápido — mas marcante demais para ser ignorado, ela ria baixo, nervosa. E eu, como sempre, dizia que ela falava demais. Ela, entretanto, respondera que eu pensava demais, ao passo que fomos tomados por um silêncio.
E após aquilo, veio o beijo, intenso, inesperado, quente demais para dois jovens que mal sabiam o que fazer com aquela energia. As roupas se foram tão rapidamente quanto nosso desejo e anseio que surgiu um pelo outro. Foi ela quem se afastou primeiro naquela noite. Assim como fez hoje no estúdio. Como sempre costumava fazer quando se sentia vulnerável.
Pisquei devagar, afastando a maldita lembrança. A mão no volante apertou-se involuntariamente no material de couro. MinHee não percebeu, ou fingiu não perceber. Não instantaneamente.
— Você está tenso. — comentou posteriormente, olhando para o lado de fora do veículo.
— Você também. — retruquei, sem hesitar.
Ela não respondeu, mas vi seu reflexo no vidro; o leve rubor nas bochechas, o jeito quase imperceptível que mordeu o lábio. A verdade é que toda essa tensão entre nós nunca foi simples irritação. Nunca foi só competitividade. Era outra coisa, algo que ambos reconhecíamos e recusávamos ao mesmo tempo.
Mas ainda sim, era complicado. Eu odiava ter de ficar eternamente na defensiva; com MinHee, entretanto, não havia outra alternativa. Tudo sempre caminhava para discutirmos sobre remorso ou algo do nosso passado embaraçoso que não havia sido discutido.
O som da chuva aumentou, abafando qualquer diálogo que poderia seguir-se. E seguimos assim, numa mistura de silêncio, memórias e algo que eu não deveria sentir, mas ainda sentia.
Dirigi de forma segura, mas intensa, sendo presenteado pela diminuição gradativa da chuva quando estacionei diante do nosso prédio. Ainda assim, nenhuma palavra foi dita durante aqueles últimos minutos. Ela parecia pronta para sair correndo assim que o carro parasse — exatamente como naquela noite antiga em que tudo entre nós saiu dos trilhos.
— Obrigada pela carona. — murmurou, num tom tão educado que soou quase distante.
Desci conjuntamente a ela, indo em direção ao elevador em completo silêncio. Assim que as portas metálicas se abriram, ela digitou seu andar e senha — em vista que o elevador parava direto na sala de estar do apartamento — e rapidamente o pequeno cubículo nos levou até seu andar.
Um andar que conhecia muito bem.
Ela rapidamente caminhou para o lado de fora, quase que em um sobressalto, tomada por uma pequena — e peluda — surpresa.
— Cindy…? — MinHee arregalou os olhos, apertando os lábios.
A cachorrinha correu direto para mim, como se soubesse exatamente o que estava fazendo. Dei um passo à frente e a peguei no colo sem pensar — um gesto automático, antigo demais para não me pegar de surpresa.
Cindy pulou nos meus braços, lambendo minha mão com aquela animação ridícula que eu fingia não achar graça. Beijei sua testa com saudade, sentindo o rabo abanar em agitação com o meu toque. Tínhamos um ritual, que envolvia carinho, e era nítido a falta que a pequena sentia de mim. E eu também sentia dela.
Quer dizer, não só dela.
— Ei, pequena, eu senti sua falta. — comentei, tentando soar casual, mas minha voz saiu baixa demais.
MinHee engoliu em seco, o olhar preso em mim e na cachorrinha, como se aquela cena abrisse algo nela que ela lutava para manter fechado.
— Eu… Obrigada. — disse de novo, mas agora a voz estava trêmula nas bordas.
Entreguei Cindy para ela, com cuidado demais para alguém que, supostamente, não se importava. MinHee, entretanto, a recebeu contra o peito, ajeitando a coleira, já pronta para fugir para dentro do apartamento como sempre fazia quando alguma emoção ameaçava escapar.
Só que, desta vez, não permiti. Antes que ela pudesse virar para trás e me deixar no saguão, segurei sua mão. Não com força, mas de forma incisiva. Isso foi suficiente para paralisá-la e chamar sua atenção.
A pele dela estava fria por causa da chuva. A minha, quente demais, tomada por um nervosismo repentino de uma ação quase que impensada. MinHee, contudo, levantou o olhar para mim devagar, e pela primeira vez naquela noite, não havia raiva ali, apenas curiosidade sobre o meu gesto.
— Se quiser dizer alguma coisa… — minha voz saiu grave, mais íntima do que eu pretendia. — Pode dizer.
Era um convite, mas também uma provocação. Acima de tudo, era uma oportunidade que eu nunca tinha dado antes, e que ela, em retrospecto, também não. Ainda surpresa, MinHee abriu a boca, só que nada saiu. Ela apenas piscou, desconfortável.
Os olhos dela tremeram por um segundo, revelando tudo o que ela tentava esconder desde a sala de dança. E então, num movimento rápido e dolorosamente previsível, MinHee puxou a mão, desviou o rosto e simplesmente balançou a cabeça de forma negativa.
Fiquei ali parado por alguns instantes, antes de virar para trás, frustrado e decepcionado, apertando o botão do elevador. Assim que o pequeno cubículo metálico parou no andar, entrei rapidamente de costas para seu apartamento, digitando a senha do meu andar.
Cindy latiu estrondosa ao passo que a porta se fechava gradativamente entre nós. E eu, em retrospecto, soltei um riso sem humor, passando a mão pelos cabelos. Por um instante, tive a impressão que MinHee sussurrou meu nome antes que a porta se fechasse, mas não importava mais.
O maior erro foi ter achado que ela seria sincera comigo. Se MinHee não tivera esse cuidado no início, por que o faria agora?
Eu observava tudo de longe, feliz por ter sobrevivido aquele período intenso de treinamentos, não só com MinHee, mas com todos os outros trainees. Ela, inclusive, estava impecável. Estava trajada com um vestido extremamente elegante, o cabelo preso com um descuido calculado, um rosto particularmente sereno demais.
Conhecia aquele olhar. Era o mesmo que ela usava quando estava prestes a desmoronar, mas se recusava a dar esse prazer a qualquer um. Ela era uma mulher que não conseguia esconder os sentimentos da sua face; o nervosismo era denunciado através das mãos trêmulas ou das pequenas mordidas no lábio inferior.
Nossa convivência havia sido particularmente difícil nos últimos meses. Após minha última interação em sua casa, com o desastre naquele dia chuvoso, sua casca havia aumentado — mesmo que, em algumas vezes, ela abaixasse a guarda. Então deixamos apenas que o profissional aflorasse.
Deixei meus devaneios de lado para observar o grande palco em que os nomes seriam anunciados. Todos estavam em polvorosa, cheios de expectativas pelo ano que viria a seguir, e consequentemente, os novos desafios. Eu já estive naquele lugar, sabia o frio na barriga que dava.
Conforme os nomes começaram a ser anunciados, um por um, não pude evitar de observá-la. À medida que a lista avançava, senti algo se deslocar dentro de mim, já que nome dela não vinha e eu tinha certeza que esse ano ela seria anunciada.
Apesar dos deslizes dela com o rap, ela era uma artista muito focada e empenhada em absolutamente tudo. Sabia que, ao passo que esse sonho fosse mais uma vez adiado, não haveria previsão para realizá-lo. Eu sabia o quanto doía e o quanto aquilo era capaz de fazer com que nos sentíssemos incompreendidos e incompetentes.
Da parte dela, entretanto, não houve cena ou lágrimas. Apenas um endurecimento súbito do maxilar, um sorriso que se sustentou por pura força de vontade, aplaudindo os outros candidatos. No entanto, não demorou para que ela se afastasse ligeiramente, saindo do salão sem olhar para trás.
Suspirei fundo. Eu não queria ir atrás dela, queria respeitar o espaço que ela sempre exigiu. Queria, acima de tudo, fingir que aquilo não me atravessava como uma lâmina. Mas, infelizmente, o meu corpo traidor já estava em movimento antes que minha mente pudesse argumentar.
Encontrei-a no corredor externo, perto das portas de emergência e longe de todos os gritos e comemorações. O som da festa chegava abafado ali, como se o mundo estivesse a uma distância segura. De certa forma, era bom que estivéssemos ali, longe de todos os holofotes e julgamentos alheios.
— Você devia estar lá dentro. — ela disse, sem me encarar. — Aproveitando o espetáculo.
— MinHee… — comecei, com cuidado.
— Não. — ela se virou para mim de repente, os olhos brilhando de raiva contida. — Não venha com esse tom. Não hoje!
Aproximei-me um passo. Era compreensível sua irritação, mas eu não tinha como saber.
— O combinado era outro, MinHee. Mas não é minha culpa.
Ela riu, de forma curta e sem humor. Apesar da irritação crescente, ela continuava linda e deslumbrante, mesmo com as lágrimas escorrendo e levando consigo sua maquiagem.
— Bem-vindo à SM. — retrucou, em retrospecto. — Onde promessas expiram sem aviso prévio.
— Você sabe que isso não define o seu valor.
Aquela fala foi um erro fatal. Ela me observou com os olhos em fúria, como se eu houvesse a ofendido pessoalmente.
— Não ouse! — a voz dela falhou pela primeira vez, denunciando um tom de tristeza. — Não ouse tentar me consolar como se você soubesse exatamente o que isso significa pra mim.
— Eu sei o que significa se preparar por anos — rebati, mais firme do que pretendia. — Eu sei o que é ser deixado de lado.
Ela me encarou então, de forma verdadeira e cansada. Parecia exausta daquele espetáculo.
— Não, Mark. — sussurrou. — Você foi escolhido. Eu não. É mais de uma vez aliás.
O silêncio que se seguiu foi denso, pesado, carregado de tudo o que nunca dissemos.
— Talvez… — ela respirou fundo. — Talvez seja só mais uma prova de que eu nunca fui suficiente.
Foi ali que algo em mim se rompeu. Pareceu me incomodar mais que o comum, justamente por conhecer bem demais o seu íntimo.
— Você é insuportavelmente teimosa. — disse, com a voz baixa e controlada. — E cruel consigo mesma.
Ela deu um passo para trás, na defensiva.
— Não venha atrás de mim agora só porque se sente culpado.
— Eu vim porque não aguento mais fingir.
MinHee arregalou levemente os olhos, dando um passo para trás. Ela pareceu estar desconfortável com a minha atitude em não recuar, engolindo em seco.
— Fingir o quê?
Aproximei-me de novo, ignorando cada barreira que construí ao longo dos anos. Todas as noites em claro, as lágrimas, nada daquilo importava. Apenas os meus batimentos cardíacos descontrolados e a saudade.
— Que eu não me importo com você.
Ela balançou a cabeça em negativa, os braços cruzados contra o próprio corpo. Estávamos próximos demais, era perigoso para nós. Após tanto tempo sem ceder, não podíamos cair em tentação. Não daquela forma.
— Não faça isso.
Sua súplica, quase inaudível, tornou-se irrelevante quando seu cheiro doce atingiu minhas narinas.
— Eu passei tempo demais em silêncio. — continuei. — Guardando rancor por algo que nunca tive coragem de dizer em voz alta.
— Mark… — ela tentou me interromper.
— Você me dispensou sem olhar pra trás. — minha voz saiu rouca. — E eu fiquei. Com tudo.
Os olhos dela se encheram de lágrimas, mas MinHee permaneceu firme. Ela tinha uma grande mania de ser uma mulher extremamente teimosa, mas aquele não era hora ou local para discussão.
— Você não entende…
— Então me explique. — pedi, já perto demais. — Agora.
Ela hesitou por um segundo. Apenas um. E isso foi o suficiente para que eu tomasse a decisão que vinha evitando há anos.
Com raiva de mim, segurei seu rosto com cuidado, como se ela pudesse desaparecer se eu fosse brusco demais, e a beijei de forma gentil. Foi contido, intenso, carregado de tudo o que acumulamos no silêncio. MinHee resistiu, as mãos pressionando meu peito, o corpo tenso… mas o beijo já tinha atravessado fundo demais.
Quando ela finalmente cedeu, foi como um suspiro contido por tempo demais. Suas mãos se fecharam na minha jaqueta. As minhas a puxaram para mais perto, como se o mundo pudesse ruir ali mesmo e ainda assim não importasse.
O beijo não precisava ser explícito para ser incendiário. Era um misto de saudade, frustração e desejo reprimido, que só foi contido quando nos afastamos, as testas ainda encostadas, ela respirava de forma irregular.
— Isso foi um erro.
— Talvez. — admiti, com um meio sorriso cansado. — Mas foi honesto. Pela primeira vez em tempos.
Ela fechou os olhos por um instante, e naquele momento, eu soube. Nada entre nós seria simples dali em diante. Mas, pela primeira vez, também não seria fingido. Não importa o quão difícil fosse, eu só queria estar com ela.
FIM!
Nota da autora: Sem nota!
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