Revisada por: Júpiter
Última Atualização: 21/12/2025Profundos, de um tom de preto que parecia devorar até mesmo o brilho das estrelas.
Quando se viram pela primeira vez, em um almoço de família há tantos anos, Lillia não conseguia parar de encará-los.
Muitos diziam que olhar diretamente para um Mercer era sufocante. Ela não conseguia concordar com isso, ao menos na época. Até porque, naquele dia, havia uma beleza ímpar na maneira como o azeviche das írises de Erza engoliam a luz do sol que atravessava as janelas ao invés de refleti-las… Como desviar-se disso? Até mesmo piscar pareceu difícil.
Talvez tenha sido ali onde começou a se desejar mais do que deveria, dando início a uma corrida lenta e viciosa que, já previamente fadada ao fracasso, ia de encontro a uma linha de chegada inexistente — sempre em círculos, cada um destes mais dolorido do que o anterior.
Poucos meses depois da primeira vez em que se viram, quando o cortejo e os trâmites familiares os levaram para o altar, outra vez Lillia se viu perdida nos olhos de Erza. Olhos estes que — por alguma razão que permaneceu nebulosa com o passar do tempo — não deixavam os seus.
E, pelos anos seguintes, o fato não mudou. Embora nunca realmente a visse, Erza nunca foi o primeiro a virar o rosto.
Nem naquela época, quando a sua respiração oscilou diante do lento deslizar da aliança dourada pelo anelar, e nem no dia em que Lillia decidiu ir embora. Erza a olhou até no último segundo e isso o perturbava mais fundo do que qualquer outra coisa.
Ali, naquela sala de espera privativa, com os dedos trêmulos embrenhados nos cabelos , Lillia só conseguia pensar no quanto quase parecia que Erza estava tentando transmitir de alguma forma tudo aquilo que os lábios pálidos já não podiam mais dizer, e essa mera impressão continuava lhe assombrando a mente enquanto dava voltas sem fim, ignorando a gentil Marianne e suas solicitações para que se sentasse; se acomodar em uma poltrona em nada atenuaria a sua perturbação, então se mantinha de pé, mesmo que já houvesse se passado muito tempo.
Pensando bem, talvez fosse essa também uma forma de covardia. Se sentar e buscar algum alento nos braços da sogra soaria quase como uma ofensa diante da clareza de que tudo aquilo tinha sido reflexo do seu desejo egoísta. Será que ela ainda sorriria para si se soubesse que queria abandonar o filho dela? Ou mesmo que foi sua fome por se libertar daquele casamento oco e abandonado por Deus que ocasionou o acidente?
Não tinha coragem o suficiente para buscar as respostas, então, quem sabe se desgastasse o bastante as solas de seus sapatos, Erza acordasse e enfim lhe deixasse.
Se sobrepondo aos ecos, a voz da médica insurgiu com palavras sobre milagre, recuperação... Lillia mal conseguia diferenciar o bip estridente da máquina de sinais vitais do choro aliviado de Marianne.
Lillia só ouvia as batidas do próprio coração.
Desesperadoras.
Completamente desordenadas.
Batidas essas que só ficaram mais altas quando as horas se dissolveram e, pouco a pouco emergindo do véu da anestesia, Erza abriu aqueles olhos obsoletos e, com estes ainda turvos, sorriu em sua direção.
De um jeito nunca antes feito, radiante, apesar de frágil nas bordas.
Aquele içar de lábios abatido e confuso quase roubou seu ar, mas foram as palavras que vieram depois que fizeram as rachaduras de seu mundo estremecerem até ruir:
— Nós… por um acaso já nos vimos antes…?
