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Codificada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 27/12/2025

“Last Christmas, I gave you my heart”
— Last Christmas – Wham!

reconhecia que andava trabalhando muito. Sua filha precisava passar mais tempo com a babá do que ele queria, o sentimento era de culpa por não poder compensá-la com atenção dobrada desde que a mãe dela faleceu.
Era o final do ano de 1989 e Clarissa estava crescendo depressa, já não acreditava em Papai Noel há muitos anos e, agora, queria escolher seus próprios presentes. Ele só pôde assistir a ela concluir que o Papai Noel era, na verdade, em uma fantasia, Laura saberia o que fazer para contornar a situação e levar Clarissa a acreditar por mais alguns anos, mas ele só se atrapalhou com suas desculpas esfarrapadas.
A sua garotinha estava com dez anos, ele não sabia onde o tempo foi parar. No trabalho, provavelmente. Ela compreendia da sua maneira que ele precisava trabalhar, eram raras as vezes que pedia por atenção e não tirava sua razão. Ele queria dar um presente especial naquele Natal, sabia que não seria o suficiente para reparar a sua ausência, mas era a sua maneira de retribuir a compreensão dela.
Ainda era novembro, mas dependendo do que ela pediria, ele teria que ir atrás com antecedência ou esgotaria rápido. Brinquedos dos comerciais tinham alta procura. Apesar de nunca mais ter visto Clarissa brincar, ele não poderia descartar a possibilidade.
Ele chegou aquela noite esperando encontrar sua filha dormindo, mas ela estava rindo com , a babá. Encostou o corpo no batente da porta, analisando a cena com um sorriso no rosto. estava sentada em um dos banquinhos que costumava ser utilizado para Clarissa brincar de chá da tarde com suas bonecas; hoje, era só mais um entulho no quarto.
— Me deixe contar a história — disse .
— Mas o príncipe é mesmo um tonto teimoso — respondeu Clarissa. — Se ele não desse ouvidos a mãe dele, tudo estaria resolvido.
— Aí não existiria história — riu.
A menina notou a presença dele ao erguer o olhar e sorriu mostrando todos os dentes.
— Papai, você chegou mais cedo!
olhou para trás, sentindo um frio no pé do estômago ao ver a figura alta do seu chefe junto à porta. Ele fazia algo dentro dela despertar, algo bem inconveniente.
— Oi, Clapi. — Ele resolveu puxar outro banquinho daqueles e se sentou ao lado dela.
O apelido carinhoso que utilizava filha também causava sensações nada bem-vindas no interior de . Lembrava-se de Clarissa contando que “Clapi” foi o jeito que ela falava “Clari”, apelido usado pela sua mãe, quando estava aprendendo a falar. Somente seu pai a chamava de Clapi, o que julgava que tornava tudo mais fofo. E achar qualquer coisa, além de um bom pai, não era nada recomendado.
Ele segurou a mão da menina e estalou um beijo em sua testa.
se controlou para não deixar um suspiro escapar com a cena. Ela não sabia dizer o que veio primeiro, se era achar atraente por ser bonito ou por ser pai daquela garotinha adorável. Talvez os dois tivessem vindo ao mesmo tempo.
— O que vocês duas estavam fazendo?
estava me contando uma história.
— Não acha que está crescida demais para histórias para dormir?
— Não era uma história para dormir, era só uma história — respondeu, empinando o nariz.
— E sobre o que era?
— A de hoje era sobre um amor proibido. A mãe do príncipe era contra o relacionamento do príncipe com a princesa porque ela era pobre — explicou rápido. — Pai, eu te imagino como o mocinho de todas as histórias que a conta.
Ele sorriu para ela.
— E a mocinha é a , claro — completa.
percebeu a babá corar ao seu lado. Deixou uma risada escapar, Clarissa tinha seus momentos de soltar pérolas e sentia pena de por ser seu alvo do momento.
— Pode deixar que eu assumo daqui, .
Ela concordou com a cabeça, mal vendo a hora de ir para casa e enterrar a cabeça em algo. Ele viu todo o seu sangue subir para o seu rosto, perguntou se poderia ser mais óbvia que isto.
Quando passou pela porta, censurou Clarissa com o olhar.
— O quê? — perguntou ela.
— Você sabe o que fez. — Levantou os cobertores para que ela pudesse entrar e se deitar. — Deixe a coitada em paz.
Ela obedeceu.
— Eu só disse o que penso.
Ele sabia que não adiantaria discutir com ela aquele assunto. Sua filha havia se tornado tão cheia de argumentos capazes de derrubar os dele que era até assustador.
— Então, Clapi, o que você quer esse Natal?
Os olhos dela se iluminaram.
— É isso? Não vai me levar ao centro comercial e me pedir para escolher algo?
— Não, vamos estender mais os limites do presente do que o centro comercial dessa vez.
Clarissa o analisou.
— Posso pedir qualquer coisa?
— Qualquer coisa.
— E você promete que vai me dar?
Prometer aquilo para uma criança era perigoso, mas ele queria recompensar a sua paciência com um presente diferente de todos os outros.
— Prometo.
— Quero você e a juntos.
Dessa vez, ele que devia ter corado. Ela lançou um sorriso ansioso em sua direção.
— Esse não vale. Envolvem muitos fatores, tampinha.
— Você prometeu. — Franziu o cenho.
suspirou. Já se arrependia de ter prometido aquilo. Precisava dar o exemplo para Clarissa que as promessas tinham seus valores, mesmo que aprendesse que não era bem assim no decorrer da vida. Ele tinha que fazer sua parte.
— Vou ver o que posso fazer — disse. — Agora, vá dormir.
Clarissa fechou os olhos com um sorriso no rosto. Antes de apagar o abajur, ainda estava lá, emoldurando seu rosto. Ele pensou que faria de tudo para vê-la sorrir daquela forma, até mesmo procurar meios de atender seu pedido.

❄️


perdeu o sono e a paz pensando em como agradar a Clarissa. Até que uma ideia mirabolante lhe ocorreu. Naquela noite, chegou em casa de madrugada. dormia no sofá e ficou claro para ele que levara um susto com a porta. O cabelo dela estava uma bagunça engraçada, que ela tentou arrumar com a mão.
— Você pode dormir no meu quarto, . Não precisa passar a noite nesse sofá desconfortável.
Só de imaginar ficar cercada de lençóis com o cheiro de , a pele dela se arrepiava. A suíte era proibida para ela, havia estabelecido aquilo quando, em uma bela manhã, o viu saindo de lá usando apenas uma calça de pijama e seu cabelo preso no alto da cabeça. Agora, só de olhar para o lugar, ela pensava em como a calça pendia em sua cintura, destacando aquela linha em V que aflorava sua curiosidade em descobrir até onde a levaria.
— Está tudo bem, eu gosto desse sofá, senhor .
Os dois sabiam que era uma mentira.
— E, como te disse milhares de vezes, pode me chamar só de . Parece até que está falando do meu falecido pai.
Ela riu enquanto ele depositava a carteira e as chaves em cima da mesa.
— Além do mais, eu não sou tão mais velho que você.
Ele achava que não era, mas, ao mesmo tempo que parecia estar no começo dos seus vinte anos, ela aparentava ter quase a sua idade, trinta anos.
— É claro que não... — disse em tom de brincadeira.
a lançou um olhar atravessado, que fez com que risse baixo mais um pouco e ele acompanhasse.
— Ela fez o dever de casa?
— Sim. Ela faz o dever sem eu pedir. Porém, sempre fico por perto para caso precise de ajuda.
Ele concordou com a cabeça.
— Obrigado.
Quando ele se sentou no sofá ao seu lado, o coração dela começou a bater tão rápido que achou que ele escutaria. Eles nunca ficaram tão próximos sem a companhia de Clarissa ou da mãe dele. Ele não sabia dizer quem estava mais sem graça com a proximidade, talvez não tenha sido uma ideia tão boa assim. Agora, ele não poderia voltar atrás.
— Escuta, ... Eu nem sei como te contar isso... — titubeou.
— É sobre o que a Clarissa pediu de presente de Natal?
Ela viu que era melhor acabar com o sofrimento dele logo.
Ele arregalou os olhos, impressionado.
— Ela contou para você?
— Sim, disse que você até prometeu.
Droga, pensou ele.
— Eu prometi antes de saber o que era. — Achou melhor garantir que ela soubesse. — Você não tem que atender aos desejos dela, isso é uma obrigação minha, então fique à vontade para dizer não.
— Certo — ela disse, sem conseguir imaginar onde ele queria chegar com aquilo.
— Você quer sair comigo?
Ela virou a cabeça como um cachorro, pensando não ter escutado certo.
— Sair? Como um encontro?
— É, um encontro. Eu sei que parece meio do nada te convidar assim e eu juro que é sem compromisso...
Ela nem pesou os prós e os contras, só foi interrompendo a fala dele:
— Sim.
Arrependeu-se em seguida de ter soado desesperada demais, mas soltou um suspiro aliviado.
— Isso costumava ser mais fácil onze anos atrás — deixou escapar um pensamento ao colocar o cabelo todo para trás.
Um sorriso brotou nos lábios dela. estava se atrapalhando todo para convidar uma garota para sair, ele era tão encantador que ela poderia apertar suas bochechas.
O clima ficou estranho entre eles, o que levou ele a coçar a nuca, sem saber como prosseguir.
— Eu deveria ir embora.
— E eu deveria ir ver a Clarissa.
Os dois se levantaram ao mesmo tempo e nem arriscaram trocar um olhar. Ela apressou os passos até a porta, pegando sua mochila no trajeto.
?
A voz dele a fez virar, mais uma vez, rápido demais. A vontade de fechar os olhos e bater a mão na testa era grande, mas ela só sustentou o seu olhar.
— Sim?
— Nós não combinamos um dia.
Certo, o dia. Ele só quer saber uma data e não te pedir para ficar porque quer conversar a noite inteira, pensou ela.
— Quando fica bom para você?
Tirando os dias que precisava ser babá de Clarissa nessa semana, ela só trabalharia um dia como garçonete no restaurante. tinha uma folga por semana, ele geralmente usava o dia para ficar com a filha, mas já conseguia ver a menina ir passar feliz mais uma noite na casa da avó por causa do encontro deles.
— Que tal sexta?
— Perfeito.
Ele notou que as bochechas dela estavam coradas. Não era difícil só para ele.
— Te busco às oito?
— Estarei pronta.

❄️


pensou em como mentiu para . O relógio marcava sete horas e ela ainda analisava roupas com uma toalha na cabeça, sem chances de estar pronta quando ele batesse em sua porta. Tudo parecia inadequado demais, inclusive ela. Horas no telefone com sua irmã não foram o suficiente para trazer um pingo da sua autoestima de volta, destruída pelo nervosismo.
Você deveria usar aquele vestido preto que te dei no Natal passado — disse Joan do outro lado da linha.
— É ousado demais.
— E qual é o problema nisso?
— Não posso usar aquilo para sair com um dos meus chefes.
Não é apenas um dos seus chefes, é o mais gostoso entre eles. Qual é o problema se ele quiser tirar uma casquinha?
— Para com isso, Joan. Ele ainda usa a aliança de casamento.
Tudo bem, ele não está disponível. Porém, ele pode admirar uma mulher bonita em silêncio. Vamos lá, , você não quer surpreendê-lo? Deixar o cara de queixo caído?
A peça pendurada na frente do guarda-roupa a julgava de volta. Bastava uma escolha para que ele a olhasse ou mudasse sua opinião sobre ela por ser atrevida demais. Ele não queria se relacionar com ninguém, isso ficou claro para , mas Joan poderia estar certa e não mataria fazer com que ele a olhasse da maneira que ela o olhava por apenas um segundo.
Grunhiu e pegou o vestido do cabide.
Era uma peça que exibia muito das suas coxas grossas, mesmo que elas estivessem cobertas pela meia calça; além do decote quadrado que evidenciava os seios. Ela não teve mais tempo para repensar a escolha, correu para escovar o cabelo e fazer a maquiagem.
Quando tocou a campainha, ela estava calçando as botas. Pamela, sua colega de apartamento, abriu a porta. Levantou-se rápido e alisou o tecido que usava. Ele apareceu na sala e imediatamente notou suas roupas, vestia calça jeans azul e um casaco em lona. Roupas normais. Ela estava vestida como se fossem para uma festa.
Ao entrar na sala e ver a babá de sua filha o esperando como ele nunca a viu foi, primeiro, uma surpresa. Como era um encontro sem compromisso, ele esperou a encontrar vestindo suas roupas de sempre. Ela estava tão linda que seu coração palpitou por alguns segundos.
— Oi — disse ela.
Ele estava a olhando fixamente havia um tempo.
— Oi.
— Você quer se sentar?
— Não, não. — Ele passou a mão pelo cabelo, nervoso. — Então... Vamos?
Ela concordou com a cabeça. Perto da porta, ela ia colocar o sobretudo, mas ele a interrompeu com uma mão em seu ombro. Era a primeira vez que ele a tocava, os dois sentiram uma corrente elétrica, mesmo por cima do pano do vestido. Ela o encarou e seus olhos brilhavam.
— Me permite? — perguntou ele.
Se ele quisesse a levar para a lua, ela aceitaria.
— Claro.
Ele pegou o casaco e ajeitou para que ela pudesse colocar os braços. Foi nesse momento que ela percebeu a ausência da aliança dourada na sua mão esquerda.
O que aquilo significava?
Nem mesmo sabia dizer, apenas deixou o anel em cima da bancada do banheiro antes de ir.
O caminho foi silencioso, com exceção da música baixa preenchendo o ambiente. As rádios já tocavam Last Christmas do Wham! várias vezes por dia, mesmo sendo final de novembro. As mãos de suavam no volante e a perna esquerda de se mexia sem parar, mas nunca notaram o nervosismo um do outro.
Ele parou o carro no meio de um campo, havia pessoas espalhadas, aproveitando a noite à sua maneira. Pegou uma toalha de piquenique, uma cesta e um cobertor de dentro do porta-malas.
— Espero que goste de observar as estrelas — disse.
— Eu gosto — respondeu ela, sorrindo.
o ajudou a arrumar o lugar em cima da grama. Ele tirou várias opções de comida de dentro da cesta.
— Eu não sabia o que você gostaria de comer, então trouxe um pouco de tudo. — Abriu uma vasilha e imediatamente um cheiro bom invadiu o nariz dela. — Fiz as quiches hoje.
Ela lembrou que ele cozinhava. E muito bem, aliás. Pegou uma e deu uma mordida, o gosto era surreal.
— Meu Deus, isso está muito bom. O que tem aqui dentro?
Ele sorriu, orgulhoso.
— É de cogumelos. Clarissa disse que você gostava.
Ele cozinhou pensando em mim.
— Não precisava ter se incomodado.
— Era o mínimo que eu poderia fazer já que você está me fazendo um favorzão.
Ela estava fazendo isso por Clarissa, claro, mas também era por si mesma.
— Está tudo bem. Não é um favor, eu quero estar aqui.
Um brilho atravessou o olhar de , se esvaindo antes que ela pudesse ver.
Eles consumiram quase todo o conteúdo da cesta de vime, o que sobrou foi guardado de volta para que pudessem deitar e observar o céu. Ele esticou o cobertor por cima dos dois e ela só conseguia pensar que estava dividindo o cobertor com um dos seus chefes, como disse Joan, o mais gostoso entre eles.
— Sabe de alguma história por trás das constelações? — perguntou ela.
— Não faço ideia — ele riu.
— Nem eu — ela também ri.
— Acho que é nesse momento que nós apelamos para as perguntas embaraçosas.
Ao escutar a gargalhada de , algo se acendeu dentro dele e, de repente, ele queria fazê-la rir daquela forma sem parar para que pudesse desfrutar do som como um viciado.
— É sério. Eu deveria perguntar como foi o seu primeiro beijo e você devolveria perguntando como foi a minha primeira vez.
— O meu primeiro beijo foi horrível, como deve ser o de todo mundo. Molhado e atrapalhado. Foi com quatorze anos, quando todas as meninas da minha turma já haviam beijado. — Ele havia se virado para prestar atenção nela. — O apelido do garoto era Dick, não porque o nome dele era Richard, mas porque ele era um babaca mesmo.
— Minha nossa. — Arqueou as sobrancelhas.
— É. — Fez uma careta com a lembrança. — E como foi a sua primeira vez?
— Um desastre. Foi durante um acampamento de verão e enquanto meus amigos gritavam do lado de fora da barraca. Eles descobriram o que estava acontecendo no meio, quando já era tarde demais para parar. Eu virei motivo de chacota. A garota não era inexperiente como eu, então acabei durando menos do que aquela propaganda acelerada de sabão em pó.
Ela gargalhou outra vez. A boca dele se curvou em um sorriso.
— Desculpa, não deveria rir disso.
Ele quis dizer que se ela quisesse rir daquela forma até da sua cara, estaria mais do que convidada a fazê-lo.
— Pode rir, imagino que você tenha repassado a propaganda na cabeça só para saber quanto tempo foi — disse.
A risada dela continuou.
— Sim! Foi exatamente isso.
Ela virou a cabeça para fitá-lo e ele notou uma veia destacada na sua testa por causa do sorriso.
— Posso te fazer uma pergunta pessoal, ?
— Pode sim.
— Se você aceitou sair comigo hoje é porque não tem mais um namorado, certo?
— Já tem bastante tempo que eu não tenho um.
— Eu pensei que aquele garoto que te passava para te pegar às vezes era seu namorado.
não fazia ideia de que havia visto Pelle dentro do carro durante as madrugadas.
— Não, ele é o irmão da minha colega de apartamento. Eu pegava carona com ele, mas ele acabou trocando de emprego.
Ele desviou o olhar e assentiu.
— Posso te fazer uma pergunta pessoal também?
Isso pareceu ter chamado a atenção dele de volta.
— Quantas quiser.
— Por que não está usando sua aliança?
Aquilo pegou de surpresa e ela percebeu.
— Esquece, eu fui muito invasiva e...
— Não — interrompeu-a. — Só não parecia certo sair com você usando um objeto de compromisso que eu compartilhava com outra pessoa.
Ela entendeu que era um sinal de respeito à ex-esposa. Imaginava sendo tão apaixonado e dedicado por Laura quanto os personagens principais dos seus romances de banca.
— Entendo.
Ele tratou de mudar de assunto antes que o clima fosse arruinado de vez. riu tantas vezes pelo resto da noite que sentia as bochechas doerem quando a deixou em casa. Enquanto ele, ainda escutava a risada dela se repetir no caminho para a casa de sua mãe.

❄️


Nos dias que se seguiram após o encontro, tudo mudou. Por fora, estava tudo igual, era no interior que sentia sensações diferentes despertarem. De repente, pequenos detalhes de chamavam a atenção dele. O jeito que ela colocava o cabelo atrás da orelha, a veia saltada quando sorria, a pele macia... A lista seguia por minutos. Ele passou a lutar contra tudo aquilo, guardou a sete chaves e escondeu todas elas.
Clarissa estava decidida a atrapalhar tudo. Não satisfeita em saber que eles não estavam juntos depois de saírem aquela noite, ela os deixava sozinhos em qualquer oportunidade e mandava indiretas cada vez piores. Ele e disputavam o lugar de quem corava mais.
Aconteceu numa sexta-feira, quando havia acabado de chegar no trabalho e era o dia de folga de . Clarissa ligou para o pai dizendo que a avó esqueceu de buscá-la e ela continuava sozinha. Nem tentou ligar para a mãe para saber o que havia acontecido, só largou todos os papeis que analisava e correu para casa.
Ao abrir a porta, encontrou a última pessoa que esperava. ofegava ao pé da escada, parecendo ter corrido uma maratona.
? — Franziu o cenho.
— A Clarissa me ligou para dizer que sua mãe esqueceu de passar aqui — explicou.
Ele prendeu uma risada de desespero.
— Engraçado, eu recebi a mesma ligação.
— Ela não está com você?
— Não. Aquela engraçadinha deve ter armado para a gente.
Ela empalideceu.
— Você está bem? — perguntou ele, preocupado.
— Eu só preciso me sentar um pouco. — Caiu de bunda no último degrau. — Fodeu — sussurrou, mas teve quase certeza de que ele tinha escutado.
— O que houve? Você precisa estar em algum lugar? Eu posso te levar.
Precisava. Quando Clarissa ligara, ela estava se arrumando para ir para o restaurante e pegar o próximo turno. Só que não era aquilo que a afligia.
— Esse é o problema — disse. — Nós não podemos sair nas próximas horas, haverá uma nevasca.
Ele se lembrou de ter visto policiais fechando o caminho atrás dele, acabou nem raciocinando o que poderia ser com a pressa que tinha de chegar logo.
— Tenho certeza de que se sairmos agora, nós conseguiremos chegar ao seu prédio a tempo.
Sua preocupação era tão grande de que ela não quisesse ficar presa com ele, que mal pensava em si mesmo.
— É muito perigoso.
— Vou ligar a TV para sabermos qual a dimensão e, se for só daqui a algumas horas, eu vou te deixar em casa, está bem?
Assentiu. Ela já sabia da resposta quando cercaram a TV para ouvir a previsão do tempo, mas escutar que a estimativa era de um dia para que fosse seguro circular pelas ruas novamente foi um baque. Um dia presa com estragaria toda a distância que ela estava se esforçando para colocar.
Depois do encontro, sentia como se ele tivesse descido do pedestal inalcançável que ela o havia colocado. Ele deixou de ser alguém que ela admirava a beleza de longe para uma pessoa que ela queria ter ainda mais perto. Isso era perigoso. Tentava se lembrar sempre que possível que ele não era uma opção a se considerar, mas todo dia a vontade de se aproximar crescia mais um pouco.
A energia elétrica foi cortada assim que a âncora lembrou a todos de ficarem em casa e se aquecerem. Alguns segundos se passaram antes que eles se olhassem.
— Isso é, definitivamente, pior do que eu pensava — disse ele.
— E agora? E a Clarissa? — perguntou, em pânico.
— A Clarissa está segura na casa da minha mãe.
— Como você pode ter certeza? E se outra pessoa passou aqui e a pegou?
— Ei, calma. — Ele pediu com as mãos também. — Não vamos nos desesperar, ok?
Ao ver que a expressão de espanto continuava no rosto dela, emendou:
— Eu conheço a minha filha, ela armou isso daqui. A nevasca é só um bônus conveniente do plano dela — garantiu. — Além do mais, a minha mãe deixou biscoitos para mim na bancada da cozinha.
Ela relaxou um pouco ao escutar que havia uma prova de que a avó de Clarissa passou por ali. O desespero cedendo fez com que ela notasse que ele estava muito perto, o cheiro da loção pós-barba dele ainda podia ser sentido, sua vontade era de fechar os olhos para apreciar todas as notas.
— Certo. — Forçou uma resposta a sair.
— Está com fome? — Ela pensou em negar, mas deixou com que continuasse: — Já que estamos presos aqui mesmo, podemos fazer o jantar juntos.
Só a menção à palavra “juntos” fez com que ela se arrepiasse.
Ele sorriu para endossar sua proposta.
— Está meio cedo para o jantar, não acha? — perguntou, passando na frente para ir até a cozinha.
— Não para um jantar em uma nevasca. — Seguiu-a.
ligou o rádio a pilhas da cozinha e The Sweetest Taboo tocou enquanto cuidava da massa na bancada conforme as instruções dele. Em um certo momento, ele parou de saltear as chalotas para olhar para ela. parecia cada vez mais longe de alcançar o ponto e mais perto de cair na porrada com a massa. Ele se posicionou atrás dela, cobrindo seu corpo ao se inclinar para frente e as mãos com as suas maiores. Foi quase imediato que o aperto dela se afrouxou. Ela arregalou os olhos, com todos os seus alarmes interiores se esgoelando ao máximo. Porém, o corpo dele era quente e convidativo o suficiente para que ela não quisesse deixar seu abraço até o próximo ano. Suas mãos se mexeram, levando-a a seguir o seu ritmo e apertar a massa.
— Nós queremos uma massa homogênea e consistente, não um saco de pancadas, .
O apelido parecia doce dito daquela forma em sua orelha.
— Eu não sou tão boa na cozinha — comentou, a voz saindo rouca.
— Acho que você está se dando pouco crédito. Eu provei um pouco do muffin que você fez para o aniversário da Clarissa, estava delicioso. — As mãos deles continuavam amassando juntas.
— Eu sei fazer bons muffins, reconheço isso, mas só porque tive que fazer muitas fornadas para pagar um curso de datilografia.
Talvez não fosse tão nova quanto pensava.
— E deu certo? Conseguiu concluir o curso?
— Sim, a única parte que não deu certo foi que meu certificado está guardado numa gaveta pegando poeira — disse. — Mas, pelo menos, eu tenho o título de datilógrafa, né... — ironizou.
Ele largou as mãos dela para colocar a massa para descansar e ligar o timer, deixando o lugar. Ela sentiu frio com a ausência dele.
— Por que você está cuidando de criancinhas atentadas e não atrás de uma máquina de escrever?
Ela soltou uma risada baixa.
— A vida aconteceu.
A frase despertou reflexões indesejadas em ambos. O silêncio enquanto os olhares estavam perdidos só era preenchido pela voz de Whitney Houston em Saving All My Love For You.
Antes que pudesse controlar as palavras, ela se assistiu perguntar:
— Você dança?
O olhar dele deixou o armário e voltou aos olhos de . Arqueou uma sobrancelha ao notar o convite implícito.
— Por que eu não te mostro? — Esticou a mão, convidando-a.
Ela pensava em quanto aquilo era má ideia, mas seu corpo estava agindo por conta própria e sua mão se encaixou na dele. Eles se posicionaram respeitando o espaço um do outro e valsaram pelos azulejos da cozinha. Ele a rodopiou e trouxe para mais perto, os seios dela contra o seu abdômen fizeram o que mais temia se revelar. O desejo.
sorriu por ter sido pega de surpresa, mas, ao ver a forma que era observada, o sorriso se desmanchou. A mão, que descansava no peito dele, se apertou em volta da sua.
O timer tocou, arruinando o momento. Foi ela que se afastou primeiro, com medo do rumo que seus pensamentos estavam tomando. Se fosse em outra realidade, juraria que ele estava pensando em como seria beijá-la; naquela, era mais provável que ela tivesse algo em seu rosto.
bateu no timer que voltou a contar os quinze minutos.
— Ele faz isso às vezes — explicou.
Havia uma marca de farinha na camiseta preta dele, exatamente onde as mãos estavam unidas.
— Bem, o que falta fazer? — ela puxou outro assunto.
Eles terminaram a receita quase em silêncio total. Enquanto ele dava os retoques finais, ela colocava as louças e acendia as velas na mesa de jantar. pensou que aquele era o mais próximo de um jantar romântico que já teve na vida.

❄️


— O que você e seus amigos fariam sem energia elétrica? — perguntou ele, ao final da refeição.
limpou a boca só para pensar naquela pergunta. O mais próximo que tinha de amigos, no momento, era as garotas com quem dividia o apartamento. Pensou em uma noite no escuro com elas, o irmão de Pamela e o melhor amigo de Sabrina.
— Talvez um “eu nunca” até estarmos quase pelados — brincou ela.
Ele riu.
— É uma boa ideia, deveríamos fazer.
Ela soltou o guardanapo e franziu o cenho.
— Eu e você?
— Por que não? — deu de ombros.
só observava, hipnotizado, como a luz das velas realçava a cor dos olhos dela. pensava em mil motivos porque não, mas dar voz a qualquer um deles só faria com que ele percebesse que ela o olhava de outra forma.
— Pode ser...
Eles se levantaram e seguiram para o centro da sala, entre a TV e o sofá. Ele foi alimentar o fogo da lareira enquanto ela se sentava no carpete.
— Eu nunca acendi uma lareira — começou ela. Ele ainda estava de costas, mas virou a cabeça o suficiente para lançar um olhar atravessado. — Tira.
Esticou a perna e puxou uma meia.
— As meias contam como uma peça — adicionou. Ele fez uma careta de desagrado, mas puxou a outra. — Sua vez.
— Eu nunca fiz um curso de datilografia.
Ela bufou.
— Isso é sério?
— Você também foi bem pessoal — sorriu de lado.
Tirou o casaco enquanto via se sentar em sua frente. Se ele estava decidido a devolver na mesma moeda, ela faria o máximo para ganhar aquele jogo.
— Eu nunca toquei guitarra.
A camisa de botões que ele usava aberta foi parar no chão.
— Eu nunca fiquei acordado durante a madrugada lendo romance de banca.
As meias dela se juntaram à pilha.
— Eu nunca nadei pelada.
— Como você poderia saber disso? — perguntou. — Você estava lá, por acaso?
E lá se foi a camisa dele. As borboletas dançaram em seu estômago assim como no dia que ela o viu de apenas calça de pijama e se sentiu uma adolescente cheia de hormônios outra vez.
— ‘Tá, se for para perder, vou fazer valer a pena. Eu nunca fiz sexo no lago da cidade.
Ele se levantou e começou a desabotoar a calça quando ouviu tirar a blusa. Um sorriso de lado acabou se formando.
— Quem nunca, não é mesmo? — perguntou ela. — Aquele lago é conhecido por isso.
Arqueou uma sobrancelha.
— Por que não te vi tirando no “Eu nunca nadei pelada”?
— Eu não nadei, entrei só para isso.
— Espertinha. — Semicerrou os olhos. — Você é boa demais nesse jogo, eu nunca tive chance.
Desceu a calça pelas pernas e se desvencilhou delas. prendeu o ar por um momento ao vê-lo só de samba canção, algo dentro dele ficou satisfeito ao notar.
— Isso que é espírito natalino — comentou, apontando para baixo com a cabeça.
Ele olhou para baixo e viu a estampa de Natal no tecido.
— Clarissa e minha mãe foram às compras — sorriu.
— E arrasaram. — Devolveu o sorriso.
Fez uma análise rápida do estado dela, a calça que contornava o corpo era a única peça que a separava da seminudez. Ele não queria que a noite acabasse agora, queria passar mais tempo com ela e a pouca roupa entre eles.
— Vem comigo até a cozinha.
Ele tirou uma garrafa do armário mais alto.
— Vodca?
— É a diversão para adultos da casa.
Ela aceitou a oferta, pegando a bebida da sua mão. Os dois se sentaram mais perto da lareira, encheu os copos que trouxe.
— Agora, acho que me sinto livre para pegar pesado — disse , pegando um copo. — Eu nunca me interessei por alguém que não devia.
Ele também bebeu.
— Eu nunca gostei além do que deveria de algo que era para ser sem compromisso.
percebeu que ele estava participando do seu esquema. Beberam juntos, pois sentiram o mesmo com o encontro.
— Eu nunca... — Ela pensou em algo sagaz para continuar com aquilo, mas a onda de calor repentina em seu corpo causava coragem. — Eu nunca me interessei pelo meu chefe.
E bebeu.
pensou nos outros trabalhos que ela disse ter, poderia ser qualquer um, assim como poderia ser ele. Decidiu que arriscaria colocar todas as cartas na mesa e rebateu:
— Eu nunca me interessei pela babá da minha filha.
Sorveu todo o conteúdo do copo e bateu o vidro contra o chão.
Os dois se olharam por alguns segundos antes de explodirem em risadas.
— Por que você não falou antes? — perguntou ela.
Ele pressionou os lábios e o clima ficou sério.
— Eu nunca me permiti olhar para alguém depois que a Laura morreu. — Suspirou. — Nem tive tempo para isso, na verdade.
Descansou a mão por cima da dele.
— Eu sinto muito, .
— Eu a perdi no Natal de ’85. Câncer. Só pude assistir a ela ir embora, já não havia mais o que ser feito quando foi descoberto. — Não tirou a mão da dela enquanto colocava mais bebida nos copos. — Ficar com uma criança de seis anos fez com que eu precisasse virar um novo homem, por mim e por ela. Desisti de me dedicar ao meu sonho de ter uma banda de sucesso para arrumar outro emprego, venho pegando turnos mirabolantes para manter essa casa...
Estava abrindo sua alma, contando aquilo para ela. ouviu com atenção, mas foi somente quando os olhos cheios de dor pousaram nos seus que ela soube que deveria dizer algo.
— Ter uma criança que depende de você é um contexto bem diferente, mas trabalhar para sobreviver é algo que entendo muito. Meus pais se mudaram de cidade e eu me organizo entre bicos para pagar pelo apartamento que divido com mais duas garotas.
Ela tirou a mão para pegar o copo, ele fez o mesmo. Os dois brindaram e beberam mais um pouco.
Eles passaram um momento sem dizer nada, presos em pensamentos. descansou a mão com o copo na coxa, viu o olhar de acompanhar e se perder nas suas coxas para, depois, subir pela barriga e pararem nos seios emoldurados pelo sutiã. Ele percebeu que foi pego no flagra, pois um sorriso de lado se formou em seus lábios.
— Peço perdão.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Está mesmo arrependido?
— Nem um pouco.
pensou em como ele deveria se sentir sozinho, por isso o interesse por ela. só conseguia pensar em como ela era linda e divertida. Ele não aguentou mais, queria saber de maneira desesperada como seria selar seus lábios. Inclinou-se para a frente e a beijou.
Ela não o negou. Como poderia? Desejava tanto aquilo a ponto de doer. O beijo começou com um toque tímido, mas a curiosidade tomou conta e o tudo foi escalando rapidamente.
pediu passagem com a língua e cedeu. Ele deixou um gemido escapar ao sentir o gosto dela, vodca e algo doce, assim como seu cheiro. Ela estava entregue ao momento por completo e parecia nem ter percebido quando subiu no colo dele. Ele espalmou a mão em sua bunda para apertar e trazê-la para mais perto.
Ela o sentiu endurecer entre suas pernas e soube que era demais. o afastou, achando que talvez ainda não fosse o momento para ele dar aquele passo.
— O que houve? — perguntou ele. Os lábios inchados, o cabelo bagunçado e as pupilas dilatadas lhe davam um ar que ela não conseguia resistir.
— Você está pronto mesmo para fazer isso com a primeira mulher que te interessou?
— Estou cansado de lutar contra tudo. Fui tolo o suficiente para achar que podia reprimir isso, mas eu não posso.
Se ele estava fazendo aquilo por se sentir sozinho, ela não deveria ser culpada porque se sentia também. Todos os amigos que costumava ter estavam em uma fase diferente com seus filhos, suas famílias, e se distanciaram. Ela sentia tanta falta dos pais, de Joan e dos sobrinhos.
Ele enxergou a solidão nos olhos dela conforme os pensamentos iam surgindo.
— Me deixe acabar com isso esta noite, nós podemos ser a companhia um do outro.
Ela se levantou, levando-o a pensar que fugiria, porém, anuiu. Ele ficou de pé e desviou dos copos para ir até ela. olhou para cima, nos olhos dele, e ele segurou seu rosto.
— Seus olhos me fazem pensar em todas as coisas boas que eu posso ter — disse para ela.
beijou o sorriso que ela abriu. Os dedos dela se embrenharam no seu cabelo para aprofundar o contato dos lábios. Eles se beijaram de maneira faminta, as mãos explorando ao máximo o corpo do outro.
Ele deu passos para trás, levando-a consigo, até bater com as costas na parede que ia para o corredor. Deslizou as mãos até encontrar as coxas de e fez pressão para que ela subisse e enlaçasse sua cintura.
arranhou as costas dele quando sentiu toda a extensão da sua rigidez, passando a desejá-lo com tudo que tinha. Foi carregada até o quarto que tanto tomou cuidado para não entrar enquanto recebia beijos que desciam do seu maxilar até a linha dos seios. Ela abriu os olhos e viu um quarto normal ao seu redor, havia um guarda-roupa embutido, uma cômoda e a cama de dossel que ocupava a maior parte do ambiente.
Ele pousou seu corpo nos lençóis cinza e a fitou.
— Você nunca entrou aqui, não é?
Ela negou.
— Você saiu daqui vestido só com uma calça uma vez e eu comecei a ter alguns pensamentos sempre que olhava para esse lugar.
— Também deveria ter me contado que me via de outra maneira.
— Você provavelmente me demitiria.
— Eu provavelmente te beijaria, assim como vou fazer agora.
Ele distribuiu beijos pela sua garganta e desceu até alcançar os seios cobertos pelo sutiã. Os mamilos se destacavam no pano, ele rodeou ambos com a língua, umedecendo-os.
Quando ele afastou o rosto para olhá-la, ela sentiu o ar bater nos mamilos proeminentes e soltou um gemido baixo. A sensação irradiava para o meio de suas pernas sem fazer curvas. As mãos dele seguraram sua cintura e os beijos demorados na sua barriga fizeram a pele se arrepiar. Ela pensou que ele estava mesmo cumprindo com sua palavra e a beijando. O cabelo fazia uma cócega gostosa em sua pele conforme descia, ela quis guardar a sensação no coração para revisitar em suas noites de solidão.
Ele enfiou os dedos no elástico da calça dela e desceu a peça até se livrar, arremessando em um canto qualquer do quarto. Parou para olhar cada parte do corpo de . Ela era linda como o nascer do sol em uma manhã de inverno. Sentiu suas mãos deslizarem por conta própria pelas coxas dela, sentindo cada parte e deixando uma trilha de poros arrepiados, a pele macia fez com que sua excitação escalasse. Abriu as pernas dela e percebeu o quanto a roupa íntima estava encharcada.
— E como eram esses pensamentos?
— Impuros.
Ele deslizou o dedo pelo tecido, testando a excitação dela. Ela se contorceu, mas os quadris se ergueram, pedindo por mais.
— Me fale mais.
— Eu pensava na linha V do seu abdômen, para onde ela me levaria se eu descesse sua calça — sorriu de olhos fechados. — Seria o verdadeiro caminho da felicidade?
pensou que era impossível ficar ainda mais duro, mas ela havia conseguido apenas com aquelas palavras. Umedeceu os lábios com a visão ao afastar o pano e prová-la se mostrou uma necessidade.
— Você vai ter que descobrir, .
As costas de deixaram o colchão ao sentir a língua dele deslizando de cima a baixo para experimentar o seu gosto. O gemido de aprovação que soltou fez com que o seu corpo ardesse, ela respondeu prendendo a cabeça dele no lugar com suas pernas.
O gosto dela era doce, assim como sua boca, e isso enlouquecia . Ele deu atenção ao ponto mais necessitado de , alternando entre sugar e lamber. O gemido alto que escapou dos lábios da garota fez com que agarrasse e apertasse a carne de sua bunda. Ela era tudo que ele imaginou e mais um pouco, não deveria ter passado tanto tempo evitando pensar nela, poderia ter gastado aquele tempo dessa forma.
sentiu a língua dele deslizar para sua entrada. A mão se enterrou no cabelo de numa tentativa de trazê-lo para ainda mais perto. Logo, seus pensamentos começaram a se apagar um a um, ela sentiu que caiu de um penhasco diretamente no fundo do mar e afundou... afundou... afundou... até se desfazer.
estava fascinado pela expressão dela ao atingir o ápice. Ele queria mais. Suas mãos trabalharam em despir enquanto ela se recuperava. Ao terminar, beijou a boca dela para que sentisse seu gosto delicioso. Ela pareceu aprovar pela maneira que prendeu seu cabelo e atacou seus lábios. Um dedo deslizou pelo corpo de até entrar nela, fazendo com que parasse o beijo para ofegar.
... — ronronou ela.
— Eu também vim tendo uns pensamentos.
— É? — o encarava com tesão. — E sobre o que eram?
— Como seria te foder naquele vestido, mas...
Ele a penetrou com outro dedo, ela gemeu.
— Mas...?
— Você sem ele é infinitamente melhor. — Tirou alguns fios da testa suada dela. — Ainda mais rebolando nos meus dedos desse jeito.
Ela sentiu o nó abaixo do seu umbigo se apertar, implorando por um alívio. Como se tivesse lido sua mente, ele aumentou a velocidade e acrescentou o polegar à provocação no lugar que ela mais precisava.
Ele sentiu apertar seus dois dedos.
— Eu não vou aguentar.
— Goza para mim, — sussurrou em seu ouvido.
Seu corpo obedeceu à ordem. Ela se perdeu mais uma vez, mas, dessa vez, olhando nos olhos de e chamando seu nome. O olhar dele estava fascinado, como se fosse um quebra-cabeça que estava se montando aos poucos. Ela gostou disso.
deu um beijo na testa dela. Pensou que não podia ficar mais linda, mas satisfeita, com as bochechas coradas, os olhos semiabertos e mordendo o lábio inferior, ela beirava a perfeição.
capturou os lábios dele com os seus, beijando-o com fervor. Uma mão encontrou o volume na última peça que ele usava, o gemido que soltou contra sua boca que fez a nuca de se arrepiar. Ele precisava de atenção e ela estava mais do que feliz em dar. Ela pousou a mão no ombro dele e o afastou até que estivesse deitado no colchão. Ele a fitou com olhos brilhantes de curiosidade e luxúria. subiu em suas coxas, sentindo o corpo formigar por conta dos orgasmos que ele a proporcionou, queria que ele se sentisse assim também. Pegou-o por baixo do pano e não conseguiu esconder seu choque.
— Deveria ser crime algo assim.
Ele sorriu de lado.
— O que quer dizer?
— Tem três anos que eu trabalho para você, ou seja, tem três anos que você esconde isso daqui de mim. — Ela começou a masturbá-lo, fazendo com que gemesse baixo. — Eu nunca vou te perdoar.
— Me deixe te recompensar por todo esse tempo perdido então. — Ele tocou as panturrilhas dela e o toque pareceu queimar.
— Você vai me recompensar ficando quietinho.
O sorriso dele cresceu. Ficaria muito feliz em obedecer.
Ela desceu de suas coxas. Não perdeu tempo, logo o segurou para lamber a gota de excitação que escapava. Os olhos dele faiscaram em sua direção, aprovando.
Quando ela tirou a última peça que vestia, ele soube que era o momento que tudo mudaria. Ninguém o tocou todos aqueles anos, ele estava inseguro, mas curioso também. Ao sentir os lábios que passou dias sonhando acordado deslizar por sua extensão, relaxou e deixou escapar um gemido longo.
No começo, achou que ele pediria para que parasse, mas a mão dele encontrou seu cabelo de maneira gentil e apenas ficou ali, sendo o incentivo que ela precisava. Os sons que saíam da boca de eram tão lascivos que sentiu o corpo pedir por mais, pedir por ele.
Ele a parou depois de alguns minutos.
— Preciso de você.
deu graças aos céus, pois ela também precisava dele. Desesperadamente. Ela deixou um beijo na glande que fez com que ele pulsasse em sua mão.
— Eu não tenho uma camisinha — falou assim que ela voltou a subir em suas coxas.
— Nem eu.
Ele fechou os olhos e disse:
— Merda.
— Eu tomo pílula, mas se não tiver bom para você, podemos parar.
, eu acho que vou morrer se pararmos agora.
Ela soltou uma de suas risadas, levando-o a rir também.
A seriedade voltou quando ele se sentou e olhou no fundo dos olhos dela. soube que ele tinha certeza de que queria seguir. Ela se ergueu e o encaixou na sua entrada.
— Já faz um tempo que não faço isso...
Ela entendeu que o sentido estava implícito ali, ele estava com medo de estragar tudo.
— Vamos no seu ritmo, está bem?
Ele concordou com a cabeça. Ela sentiu mechas do cabelo dele rasparem em suas coxas e teve uma ideia. Pegou as mãos dele e posicionou ali.
— Você controla a velocidade — completou ela.
Ele apertou a pele, sinalizando que estava pronto.
Ao sentir a invadir, de repente, todos os eventos desde que se conheceram e que culminaram naquele momento passaram a fazer sentido. Nunca se sentiu completa, mas, com ele, ela sentia que poderia transbordar.
As mãos de a apertaram outra vez, dando o aval para que começasse a se mexer. Ela segurou nos ombros dele e foi devagar, para que eles se acostumassem um com o outro. Ele pensava que, na verdade, nunca se acostumaria com o corpo de conectado ao seu. Era tão bom, ele queria repetir todos os dias durante o dia inteiro para que caísse sua ficha.
Os lábios se encontraram e selaram um acordo mudo — ela era dele e ele era dela, mesmo que fosse durante aquela noite de dezembro.
Ele apertou sua coxa, pedindo por mais velocidade. jogou o corpo para trás, ondulando os quadris, e se perdeu nos movimentos. , ao sentir ela se apertando em sua volta, a seguiu. Eles atingiram o clímax olhando nos olhos do outro, com medo de perder um segundo que fosse daquele momento.
Quando se recuperaram, ele se deitou, trazendo-a consigo. Um tempo se passou enquanto, em silêncio, ele acariciava as costas de e ela retribuía tocando as pontas do seu cabelo.
— Eu queria ficar assim para sempre — disse ela.
queria viver no abraço dele, sentir seus beijos e escolhê-lo mais uma vez todas as manhãs; porém, ela não verbalizaria esse complemento.
— Posso escrever uma música sobre você?
— Sobre mim? — Ela franziu o cenho e ele assentiu. — Achei que você tivesse desistido da música.
— Temos nossas reuniões uma vez ao mês para tirar um som. Um amigo do Ken conseguiu nos colocar no line-up de um show em um bar na semana que vem. — Ele pegou a mão dela. — Você me permite escrever a música?
— Claro, — sorriu. — Eu ficarei lisonjeada de ter uma música inspirada em mim.
— Eu te quero lá, . Quero procurar você em meio às pessoas e sentir um frio na barriga ao te ver olhando para mim.
Ela se virou para fitá-lo e percebeu que ele quis dizer cada palavra, não era por educação ou solidão.
— Estarei lá.

❄️


No dia seguinte, acordou nos braços de . Seu coração aqueceu ao se dar conta de que haviam dormido daquela forma, sem saber onde começava ela ou ele. Pensou em acordá-lo com beijos, mas ele dormia de uma forma fofa, então ela só se desvencilhou dele e foi tomar um banho. Estava se sentindo alegre naquela manhã, porém bastou uma olhada para a bancada que seu sorriso murchou.
A aliança dele estava ali.
não havia superado a morte da esposa e já estava o escolhendo todas as manhãs como se fosse seu.
Poucos minutos depois que ligou o chuveiro, ela o sentiu em suas costas.
— Bom dia, .
— Bom dia.
E, assim, engoliu todos seus sentimentos pelo resto do dia.

❄️


Os dois passaram o dia aproveitando a presença um do outro. Quando a luz voltou, ligou a TV para ver como andava a nevasca enquanto ligava para a casa de sua mãe. As estradas haviam sido liberadas. O corpo dela tremeu com a notícia, ela sabia que era hora de colocar um ponto final naqueles dois dias perfeitos e seguir com a rotina.
notou que estava diferente desde que a energia havia se estabelecido, mas foi somente quando eles entraram no carro que ela soltou o peso do mundo em seu colo.
— Nós não podemos fazer mais isso.
— O quê?
— Precisamos dar um fim a isso e eu prefiro que seja antes que eu me machuque. — Ela o fitou com os olhos vazios. — Você ainda não superou a Laura e eu não posso ficar com alguém indisponível emocionalmente.
...
— Você sabe que eu tenho razão.
Ele ficou sem palavras por um momento, só o que lhe restou foi concordar. Afinal, ela estava certa, ele não sabia se podia dar o que ela precisava.
O caminho até a casa dela foi silencioso. Ao chegar no prédio, ele só quis beijá-la, mas sabia que não era justo. Já ela, só quis que ele a parasse e dissesse que fariam aquilo funcionar, mas a vida não era assim.
Ela deixou o carro com uma lágrima solitária escorrendo pela bochecha.
Ele seguiu para a casa da sua mãe com uma sensação ruim no peito, como se estivesse perdendo um pedaço do seu coração. Quando Clarissa entrou no carro, ele disse:
— Você está encrencada, Clarissa .
— Eu não fiz nada — cantarolou.
— Você nos deixou preocupados com essa armação, isso não foi legal.
— A vovó também pensou que era uma boa ideia deixar vocês presos, ela me ajudou. — Ela se virou para ele com olhos esperançosos. — Você e a estão juntos?
Ele pensou no quanto aquela pergunta era complicada, mas que não poderia falar para sua filha de dez anos que estava se sentindo a pior pessoa do mundo por deixar escapar. Por isso, ele apenas respondeu:
— Não foi dessa vez, Clapi.

❄️


Naquela noite, ligou para sua irmã. Contou tudo enquanto Joan ouvia pacientemente do outro lado da linha.
Você já tem sentimentos por ele. Alimentar o seu interesse por ele resultou nisso.
Ela ficou arrasada ao concluir que Joan tinha razão mais uma vez. Ela estava apaixonada por ele.
Naquela mesma noite, pegou o telefone para ligar para sua mãe determinado a brigar por ter ajudado Clarissa a arquitetar aquele plano.
— Você não tinha esse direito, mãe.
Você precisa superar a Laura e ser feliz novamente.
Ele suspirou.
— Eu não consigo.
É claro que consegue. Por que não convida a para passar a véspera de Natal na sua casa como primeiro passo?
— Não sei se é uma boa ideia.
Milagres de Natal acontecem, .

❄️


Depois de enfrentar uma batalha interna, resolveu ir ao show. A convivência deles havia regredido e ela sentia que a mais afetada por isso era Clarissa. Então, para melhorar um pouco, ela estava disposta a tentar colocar seus sentimentos de lado e vê-lo tocar.
Dentro do bar era quente, ela foi obrigada a tirar toda a parafernália que vestia para se livrar do frio exterior. Estava arrumada para a noite, o que fez com que atraísse alguns olhares enquanto esperava pela banda. Porém, só tinha olhos para , principalmente quando ele entrou com sua guitarra. Ele brilhava aos olhos dela. Os dedos deslizando pelas cordas tão rápido e em movimentos precisos. Ela sabia que ele tinha talento com as mãos depois de assisti-lo cozinhar e de tocá-la, mas não sabia que também guardava aquele tipo de técnica complexa na manga. Era como se tivesse nascido para a música. se perguntava em qual momento o universo começaria a funcionar ao seu favor para que pudesse viver daquilo, porque ele merecia.
Nas duas primeiras canções, a luz direcionada ao palco parecia muito forte, impedindo os membros da banda de ver a plateia. Foi somente na terceira que diminuíram a iluminação e trocaram a guitarra de por um violão. Ele assumiu o microfone após ficar sozinho no palco, sentindo seu coração palpitar mais por olhar de rosto em rosto do que por cantar depois de anos.
— Dedico essa à .
Seu olhar encontrou o da mulher sentada em uma das mesas. Todos os seus poros se arrepiaram ao constatar que ela estava ali, como prometera. O frio na barriga também se fez presente, assim como esperava, e só se intensificou quando ela abriu um sorriso de incentivo. Seus lábios se curvaram em uma resposta involuntária, ele não pôde conter a chama da esperança que acendeu dentro de si, se estava ali era porque não estava tudo perdido. E foi com esse pensamento que ele iniciou a música.
Quando passou a palheta pelas cordas do violão, ela já sentiu as lágrimas brotando nos olhos. Parecia irreal que ele tivesse pensado nela para compor uma música, ainda mais depois que ela decidiu acabar com tudo antes de mal ter começado. Esperou que ele a detonasse na música, dizendo que foi uma covarde — porque era exatamente assim que se sentia —, mas o conteúdo da música era sobre pequenos detalhes dela que gritavam por sua atenção, o jeito que ela se movia, a sua maneira doce de falar, sua risada, entre outros. O queixo de foi ao chão, teve que se lembrar que aquela não poderia ser uma declaração de amor porque escolhia manter seu coração preso ao passado. Mas ela quis tanto que fosse. As lágrimas rolaram livres pelo seu rosto.
Ele mal acabou de tocar as últimas notas e já entregou o violão para a primeira pessoa que viu. Precisava encontrar e conversar, então deu a volta no palco e praticamente correu até a mesa em que a viu. Ela se levantou assim que ele apareceu na porta que levava aos fundos.
— Você veio — disse ele ao se aproximar.
— Eu disse que viria — sorriu.
Ele franziu o cenho ao ver a bochecha dela úmida. Não resistiu em erguer a mão e deslizar o polegar para secar. O olhar dela estava preso em seus traços, como se ela tentasse absolver tudo outra vez.
— Não gostou?
— É perfeita, .
Ele soltou o ar, aliviado. Veio trabalhando naquela música desde o dia da nevasca, apagando e reescrevendo incontáveis vezes para que fizesse jus a ela, e só naquele dia pela manhã que se sentiu minimamente satisfeito.
Ela viu um dos homens que estava com no palco tocar suas costas e sussurrar algo em seu ouvido enquanto ele concordava.
— Eu preciso ir, tem um produtor aqui que quer falar com a banda — disse . — Nós precisamos conversar, . Passe a véspera do Natal conosco, vai ter um jantar lá em casa.
Clarissa já havia falado sobre o jantar da véspera de Natal e tentado chamá-la, mas ela não queria aparecer para pesar o clima, e pensou nisso aquele momento com o convite de . Provavelmente, eles iriam discutir e acabar com o Natal e ela não queria discutir com ele. Seu lado racional pediu para que negasse, mas os olhos dele cheios de esperança fizeram com que concordasse com a cabeça.
O sorriso dele foi o suficiente para que não voltasse atrás.

❄️


dirigiu até o cemitério para levar as flores ao túmulo de Laura logo cedo. A véspera de Natal significava mais um ano sem ela e ele já acordava com uma sensação ruim, revivendo o dia em que a perdeu. Porém, aquele ano era uma exceção, ele acordou com um propósito e seguiu com determinação até encontrar a lápide.
Tirou algumas folhas secas dali e depositou as rosas brancas.
— Oi. — Suspirou. — Mais um ano... Eu vim mantendo a sua tradição de comemorar o Natal só por causa da Clarissa, mas me senti despedaçado em todos eles. — Ele tocou a lápide. — Este ano foi diferente, não me sinto só despedaçado, eu estou ansioso, Laura. Ansioso para falar com você o que vem acontecendo dentro de mim. Existe uma mulher na minha vida agora, na verdade, ela é a babá da Clarissa já tem alguns anos, mas só daí dá para sabermos o quanto ela é boa para a nossa garotinha. Ela jamais vai tomar seu lugar, mas ela conquistou um lugar novinho no nosso coração, um lugar só dela. — Uma lágrima escorreu pela sua bochecha, antevendo o que estava por vir. — Eu te amo e vou te amar para sempre, mas sinto que chegou a hora de te deixar ir.
Afastou-se um pouco.
— Adeus, Laura.

❄️


Os passaram o resto da véspera de Natal organizando tudo para que a casa ficasse pronta para o jantar. Era tradição da família passar o dia em preparativos para que pudessem desfrutar pela noite e no dia seguinte. Ele ficava feliz em poder passar um tempo com a mãe e com sua filha, mas as duas estavam o enlouquecendo. A mais velha não queria que nem olhasse para ela enquanto cozinhasse por considerar interferência no preparo, e a mais nova, encarregada dos biscoitos para o Papai Noel — mesmo que não acreditasse mais, ela os comia com ele na manhã de Natal —, não queria sua ajuda de forma alguma; então, elas o expulsaram da cozinha. Como tudo que estava cozinhando já estava encaminhado, ele não teve opção a não ser arrumar os últimos detalhes da casa.
tocou a campainha no momento que o relógio marcou oito horas. Pegou uma carona com um amigo até a casa dos e chegou mais cedo, mas ficou um tempo parada na varanda admirando as luzes de Natal. As luzinhas foram colocadas por e Clarissa no final de novembro em uma manhã que ele acordou cedo só para enfeitar a casa com ela, assistiu a tudo com carinho. Agora, toda vez que olhava para aquelas luzinhas em que havia erguido Clarissa para colocar perto do telhado, ela sentia o coração aquecer.
Foi a mãe dele que abriu a porta e pediu para que entrasse. Assim que colocou um pé para dentro da casa, sentiu o cheiro característico do Natal. A comida e a lareira provocavam uma sensação de lar, algo que não sentia desde que seus pais foram embora. Seus ombros relaxaram enquanto ela inspirava todo aquele aroma delicioso para seu interior. Pendurou o casaco e seguiu a mulher até a sala vazia.
está na cozinha e Clarissa está tomando banho — explicou. — Você deseja algo para beber?
— Sim, por favor.
Ela se sentou no sofá e se perdeu em pensamentos enquanto analisava a árvore de Natal. Clarissa se jogou em cima dela, assustando-a.
! — gritou. — Eu senti tanto a sua falta!
Ela sorriu e abraçou a menina.
— Só se passaram três dias.
— Pareceu um século.
Clarissa se jogou no sofá ao seu lado.
— Pareceu mesmo, porque também senti sua falta.
O sorriso no rosto da menina era gigante.
— Você deveria morar aqui, eu super toparia dividir o quarto com você.
riu.
— Se você quiser dormir no quarto do meu pai, tenho certeza de que ele iria feliz dormir no sofá — completou. — Ou vocês podem dormir juntos, como um casal faria.
Ela fuzilou Clarissa com o olhar.
— Nós já conversamos sobre isso.
— Eu sei, mas você é uma das minhas pessoas favoritas, a única que não está na minha família e eu quero você como parte dela.
Antes que ela pudesse responder, a avó de Clarissa apareceu segurando uma taça com o que parecia ser vinho.
— Vovó, diz para ela que queremos que ela faça parte da família oficialmente.
A mais velha sorriu.
— Essa é uma escolha dela, Clarissa.
Ela quis dizer que não era uma escolha só dela, mas de também. Ela poderia se jogar de cabeça, já se sentia parte daquela família há muito tempo, mas ele tinha que se sentir pronto para se jogar com ela. Porém, julgou que o melhor era se manter calada.
Como se invocado pelos pensamentos dela, ele apareceu no cômodo. O cabelo estava todo bagunçado em um rabo de cavalo. Cumprimentou-a com um abraço e agradeceu por ter vindo em sua orelha. Ela apenas concordou com a cabeça e sorriu.
anunciou que o jantar sairia daqui a alguns minutos e que tomaria banho para poderem fazer a refeição.
, Clarissa e avó ficaram jogando conversa fora na sala pelos próximos minutos, até passar outra vez pela sala. percebeu que eles usavam o mesmo suéter de rena, um presente de Clarissa.
Aquela pestinha.
Ele olhou para o próprio tronco e depois para , caindo na risada ao constatar. Ela o acompanhou e, logo, sua mãe e Clarissa também estavam rindo. Ele nem havia percebido quando pegou a peça de roupa para vestir, só sabia que era mais um presente de Natal da sua filha e da sua mãe que teria que vestir.
Quando as risadas cessaram, ele as chamou com a mão. Elas se sentaram à mesa e o jantar foi servido.
O clima entre os dois não estava pesado, mas estranho, sentia um aperto no peito toda vez que precisava olhar para ele com todos os seus sentimentos borbulhando na superfície, pedindo para sair; se sentia culpado por ter estragado tudo e ter permitido com que ela criasse uma distância entre eles.
Depois do jantar, Clarissa insistiu para que eles três tirassem uma foto e ela os posicionou da maneira que desejava. Com e lado a lado e ela em frente, a avó tirou a foto. Antes que os dois pudessem pensar em se mover, a menina apontou para o visco pendurado no portal, acima de suas cabeças.
— Clapi, não — disse ele.
— Mas, papai, você sabe a regra. Se tem visco, tem que beijar.
viu que a avó estava com um sorriso no rosto e que foi cúmplice daquilo.
— Não.
Clarissa franziu o cenho e cruzou os braços.
— Se você não cumprir a tradição, terá azar no amor. Eu não quero que meu pai fique sozinho para sempre e...
— ‘Tá! — foi quem a interrompeu. — Vamos logo com isso.
Se ela precisava se sacrificar para que não ficasse sozinho para sempre, que fosse assim.
Ele fuzilou Clarissa com os olhos, insatisfeito com a insistência dela. Ele já esclareceu que não havia nada entre ele e , mas ela não deixava aquele assunto para lá. Uma parte sua agradecia a oportunidade de beijar a babá outra vez, mas ele sabia que era sua parte egoísta falando.
sentiu o toque dele em seus antebraços e o cheiro de shampoo emanando do seu cabelo úmido. Tudo nele era um convite para ela se aproximar e se aninhar. Ele tocou o queixo dela e trouxe o rosto para cima.
— Tem certeza? — perguntou.
Ela concordou com a cabeça.
— Me beija.
se abaixou até seus lábios se chocarem com os de . Sentiu a saudade de tê-la perto daquela forma, conectada a ele. Quis transformar aquele singelo toque em algo de verdade, mas ela se afastou antes que pudesse.
Ela se sentia devastada, não era para um simples selar de lábios ser bom daquela forma e fazer seus sentimentos ficarem a ponto de sufocar.
Clarissa bateu palminhas, animada. observava enquanto ela evitava seu olhar, ou poderia ver seus olhos marejados. Ele, ainda assim, notou.
— Vem, menina. Vamos lavar os pratos — a mãe de chamou Clarissa.
Agora que estavam sozinhos, começou:
— Eu te magoei, . Sinto muito por não dar uma chance para nós.
— Não é culpa sua que criei esperanças com o que deveria significar nada.
— Não... — Franziu o cenho. — Não significou nada para mim e você não deve reduzir seus sentimentos assim.
Ela sentiu os olhos ficarem ainda mais marejados e desviou o olhar outra vez.
— Não importa mais, esse assunto já está resolvido.
— Olha para mim, por favor — pediu. Ela o fitou e foi como se agulhas perfurassem a pele dele. — Eu precisava me desvencilhar dos meus sentimentos antigos para me permitir sentir algo. E, agora, eu estou pronto.
entendeu que ele estava pronto para se relacionar com pessoas e não para enfrentar outro relacionamento.
— Fico feliz que, pelo menos, te ajudei com isso.
— Eu estou apaixonado por você.
Ela quis fechar os olhos ao ouvir aquelas palavras, vinha esperando tanto tempo por elas. Só que agora que estavam ali, sozinhas, não significavam tanto assim.
, eu preciso de mais do que isso.
— Eu quero tudo com você, . — Ele pegou as mãos dela. — Eu quero entrar na sua vida assim como quero que entre na minha, quero todas as suas noites, mas seus dias também. Quero acordar com você, te beijar e fazer o café da manhã. Também quero te ver com a minha filha, não só como a babá dela. Eu te quero por inteiro.
Os poros dela se arrepiaram. Era exatamente o que ela desejava, ter por completo e não só metades de um homem. Não queria pressioná-lo, mas aquelas palavras vieram do fundo de sua alma.
— Eu também quero tudo com você.
Ele capturou os lábios dela sem cerimônias e a beijou de maneira ávida, como queria fazer debaixo do visco. Ela retribuiu, soltando as mãos dele para agarrar o cabelo. Só pararam quando a consciência de resolveu agir.
— Minha nossa, nós estamos na sala! E se a Clarissa entrasse aqui?
— Minha mãe não deixaria.
Ela passou a mão pelo cabelo dele, colocando-o no lugar.
— Podemos vê-la?
— Claro.
Ele selou os lábios nos dela e seguiu para o quarto da menina. Pararam na porta, pois Clarissa já dormia. Os dois sorriram com a cena.
— Ela é linda — comentou .
— Sim, ela é.
andou até a luminária que banhava o quarto com uma luz amarelada fraca e desligou. Na cozinha, não havia sinal de louças e nem de sua mãe. Um bilhete no meio da bancada avisava que ela voltou para casa.
— Temos a noite livre — notou ele.
— O que podemos fazer numa véspera de Natal?
— Tenho uma ideia.

❄️


Na noite anterior, e passaram parte da madrugada fazendo chocolate quente e contando histórias. Depois de muitas risadas, eles caíram exaustos na cama.
só acordou no dia seguinte com Clarissa pulando na cama.
— Papai! Pai! Acorda! É Natal! — gritava ela em meio aos pulos.
A porta do banheiro havia sido aberta.
— Clapi, saia já daí.
— Espera, se você está aí... — Ela puxou o cobertor, revelando a mulher. — ?
Ela abriu um sorriso envergonhado. Por sorte, estava com suas roupas de ontem, se estivesse vestida com as dele seria vinte vezes pior.
— Oi.
percebeu o quanto ela estava sem graça.
— Que tal comermos os biscoitos que você fez enquanto a acorda? — chamou a filha.
Ela semicerrou os olhos, olhando de para , em seguida, deu de ombros e seguiu para a sala.
levou um tempo para se recompor, ir até o banheiro e seguir para a sala de estar. Deparou-se com os dois rindo enquanto comiam perto da árvore de Natal.
— Ah, aí está você. Estamos te esperando para abrir os presentes — a menina disse.
Ela se sentou no chão ao lado deles. beijou a testa de e passou o braço pelos seus ombros enquanto Clarissa rasgava as embalagens dos presentes. Quando os embrulhos acabaram, ela se virou para eles.
— O que achou? — perguntou ele.
— Você me deu o presente que eu queria. — Ela apontou com a cabeça para eles e sorriu de lado. — Eu estou tão feliz! — Jogou-se em cima deles.
O pedido veio de Clarissa, mas os três ganharam seu presente inusitado aquele Natal.


FIM


Nota da autora: Espero que tenham gostado assim como gostei de escrever mais essa fic <3 Feliz Natal ;)

🪐

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