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Valentine's Protocol

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Prólogo

Liverpool. Reino Unido.
10 de Setembro de 2025.
14:14 da tarde.

As pastas repousavam sobre a mesa. Fazia dez minutos que ele a encarava. A sala estava vazia. O silêncio era quebrado apenas pelo leve tic-tac do relógio na parede. O prédio, alto e sem vida, ainda tinha algo que o salvava: a vista. Era o único detalhe que dava alguma elegância ao lugar. A altura fazia jus à paisagem.
Henry entrou no escritório. A pressa estava contida em seus passos. Ao passar pelo agente, ele se virou imediatamente para o superior. Em segundos, a sala começou a se encher. Seus olhos percorreram o escritório, parando em cada um deles. Ele reconhecia todos.
— Eu não esperava por isso — disse Henry, frio e direto. — E sei também que vocês não queriam estar aqui.
Não mesmo, ninguém naquela sala queria estar reunido novamente ali.
— Eles voltaram… não foi?
A mais nova de todas: uma mulher de estatura média, cabelos ruivos e olhar marcante. A voz carregava ódio, ela sabia muito bem o que Henry estava a conversar.
— Sim, estamos nisso há anos.
— Vinte anos — alguém completou.
— Vinte anos… e depois desse sumiço tivemos novas evidências.
Aquelas pastas que estavam em cima da mesa foram distribuídas por Henry um a um, até entregar a última pasta ao primeiro que chegou ao escritório.
— Aí está tudo que sabemos, houve informações que em cinco pontos do mundo a organização começou a deixar rastros. Equador, Coréia, Nova York, Brasil e Espanha…
Todos os agentes passaram folha por folha, atentos a cada detalhe — do início até o ponto em que acreditaram ter chegado ao fim.
Infelizmente, influenciados por conteúdos que deveriam ter permanecido apenas como distração, encontraram algo maior.
A organização — que um dia teve fundadores movidos por poder, controle e dominação — começou ali. Vinte anos atrás. E, para eles, nunca terminou.
— Eu sei que vocês já estão nessa há um tempo, conhecem todos os passos e é por isso que queremos vocês novamente.
— Henry, nem todos aqui querem mais isso. Estamos cansados, é uma caça sem fim.
— Sabemos disso, por isso que precisamos de vocês.
— Por mim, tudo bem — a mulher respondeu, dando um passo à frente. — Estou cansada disso.
— Conte comigo — o homem, que aparentava ser o mais velho da equipe, também se prontificou.
Assim, todos os outros concordaram em entrar na missão. Sendo um em especial que ficou ali vendo os seis companheiros concordaram em pôr um ponto final naquilo, custe o que custar.
— Agente? — Henry o olhou.
— Preciso de tempo.
Curto e direto, sem hesitar em responder para Henry assim. Ele se retirou da sala, tendo todos os olhares para ele. Um homem que chamava atenção sem esforço, com um porte que dificilmente passava despercebido, e o prédio da DCD ficava assim quando ele estava lá.
A mulher o seguiu.
Aquele heliponto era um lugar que muitos conversavam de coisas tão banais. O vento batia forte, deixando os cabelos dela bagunçados. O salto atrás dele denunciou quem era, ele a conhecia tão bem.
— Chloe.
— .
— Você foi a primeira que eu achei que não aceitaria.
— E você o último que não deixaria de aceitar.
— Tenho meus motivos.
— Eu também, por isso estou determinada a acabar com essa organização. E você?
— Eu estou bem, obrigado.
— Ai, . — Ela riu, passando seu olhar pela cidade. — Liverpool é linda, não?
— A cidade que eu mais amo. Onde tudo começou para mim.
— E esse é o motivo essencial para você.
— Por favor, Chloe.
— . — Encostou no parapeito, deixando o vento levar seus fios ruivos, trazendo um leve ar seduzente. — Já fazem doze anos.
— Treze — corrigiu.
— Então… deixa isso. Vamos acabar com isso de vez.
— Se eu acabar… nada volta ao normal. Nada vai trazer… — ele engoliu as palavras.
— Não vai. Mas pode salvar outras vidas.
— Vidas… — ele soltou em um suspiro.
Ela inclinou a cabeça, analisando.
— Ah, … você já foi melhor.
— Tô só me fazendo de difícil.
— Idiota. — Deu um leve tapinha no braço dele.
Ele soltou um meio sorriso.
— Vamos? Henry já deve estar esperando.
Chloe andou na frente, deixando parado ainda admirando toda a vista do prédio da DCD. Ao menos ela tentou, se ele iria aceitar voltar para a missão, aí seria apenas a decisão dele.
Liverpool estava ali, diante de seus olhos, movimentada, viva e com a garoa fina caindo sobre ela. Por alguns segundos, tudo à sua frente se transformou em um borrão.
As memórias voltaram, aquele aperto e angústia tomaram conta de seu coração. Ao fundo, podia ouvir seu nome sendo chamado, não para algo que te tirasse daquele momento, mas para que mostrasse que, mesmo ele sendo um policial, ele não conseguiu fazer nada.
A missão que o ligaria à Obsidian Unit estava marcada nele mais do que em qualquer outro ali. Respirou fundo, deixando o peso contido escapar lentamente entre os lábios; anos atrás de anos, e, mesmo assim, havia coisas que ele ainda não estava pronto para enfrentar.
Como ela já estava, Chloe lançou o olhar pela última vez para a porta. Henry não parava de falar, eram inúmeras palavras que ela já estava cansada de ouvir por todos ali, mesmo sendo a mais nova da equipe. Abrir a mesma missão onde tudo começou ao lado de parecia tão incerto.
— Vou enviar vocês para cada país.
— Não, eu não vou — Chloe se prontificou. — Vou ficar daqui e ajudar eles no que for preciso.
— Vai fazer desfocado — um dos agentes comentou.
— Kennedy, às ordens. — Ele entrou. — Eu vou. — Ee aproximou de Chloe. — Vai ser bom ter alguém coordenando daqui, alguém inteligente que não atrapalha. — Riu nasal.
Pegou a pasta e olhou os países como se fosse uma criança escolhendo o próximo brinquedo.
— Eu fico com essa… Espanha.
O sorriso do Henry foi de orelha a orelha, dava voltas.
Agora, com sua equipe completa, Obsidian Unit poderia da continuidade de onde pararam; todos prontos para acabar com algo que nunca deveria ter existido.

San Sebastián. Espanha.
10 de Setembro de 2025.
14:14 da tarde.

Desconectada do trabalho, da faculdade, dos problemas, caminhava com o cachecol bem ajustado ao pescoço, protegendo-se do vento frio de outono. Próximo à praça, ela parou e voltou o olhar para o lugar onde tudo começou; o sorriso cresceu ao ver uma das mulheres mais lindas se aproximar.
A elegância nos passos, o sorriso doce, o semblante calmo, tudo o que ela precisava para terminar o ano bem.
— Oi, , minha linda.
— Oi, mãe… estava com saudades. — Estava abraçando a mulher fortemente.
— Eu também, minha princesa.
— Comprei algumas coisas. — Levantou a sacola. — Podemos tomar café lá em casa.
— Ou na minha galeria.
— Madre! Você tá falando sério?
— Sim, depois de tanto insistir e eu negar… seu pai resolveu me fazer uma surpresa.
— Ai, estou tão feliz por você. — Abraçou novamente a matriarca.
— Vamos antes que esfrie mais, e você sempre passa muito frio nessas épocas.
Não discutiu, não negou. Apenas seguiu a mãe até a galeria.
O caminho era calmo; o badalar dos sinos das igrejas preenchia o silêncio, a data era especial para elas, para seu pai — Bruno Martins, também. Tudo ali remetia às boas lembranças — as únicas que ela fazia questão de guardar.
Não tão longe de uma das igrejas principais ficava a Galeria, o nome de sua mãe estava grande e exposto para todos lerem: Carmen Navarro. Seu coração transbordou de orgulho, assim como seus olhos, que ficaram marejados. Adentraram, admirou cada exposição que ali tinha, uma mais impecável que a outra. Entretanto, naquele dia a galeria estava fechada.
Mais à frente, na última entrada do corredor, ficava a cozinha. deixou tudo em cima da mesa e passou a cuidar do café da manhã para as duas. Conversavam, riam, apenas aproveitando o momento.
— E o trabalho, estudos, como está indo?
— Tudo certo, mãe. Melhor do que eu imaginei.
— Isso me agrada tanto. Não encontrou nenhum problema?
— Nenhum, tudo tranquilo, graças a Deus!
— Isso soa como música para os ouvidos de sua mãe.
Bruno surgiu na cozinha, ainda com o doma preso ao braço, um sinal que acabava de chegar do restaurante.
— Sei que encontros de família devem ser em casa, mas imagino que aqui também seja agradável.
— E muito! — o abraçou fortemente — Como o senhor está?
— Muito bem. Vamos fazer esse café da manhã, me ajuda, pequena?
— Ajudo, porém eu já cresci e tenho vinte oito anos.
— Daqui alguns meses vai ser vinte nove, vai vir pra cá? — sua mãe perguntou.
— Vou, acho que consigo uma folguinha também.
— Isso é bom — seu pai comentou. Ligou a televisão, deixando um canal de reportagem ao fundo.
— Eu… acho que posso ser promovida.
— Que notícia maravilhosa!
— Com isso, comemoramos as duas coisas, tá bom? — ela deu a ideia.
— Do jeito que você quiser, filha — seu pai concordou.
— Vou pedir por isso. — Foi sua mãe agora.
— Pedir?
— É, antes que eu esqueça. — Bruno serviu as mulheres. — Sua mãe quer ir até a Cantábria semana que vem… por causa do dia da Assunção da Virgem.
— De novo? — riu baixo.
— Você sabe como ela é. E você também prometeu que iria esse ano.
— Não esqueci não, foi por isso que vim agora.
O olhar passou pela televisão, duas notícias foram divididas na chamada, mas claro que ela não daria tanta atenção para o país inglês, apenas para a notícia do seu chefe. O homem estava dando uma entrevista, na comemoração de aniversário do hotel.
— Ele tem uma educação. — Carmen olhava para a televisão.
— E um bom coração, ele é muito compreensivo.
— Algo difícil de achar em pessoas hoje em dia. Vamos logo, tenho que voltar pro restaurante.
A frase tirou uma gargalhada gostosa da primogênita. Aquele lugar, aquele calor de sua família era a melhor coisa que ela tinha.
Naquele dia quinze, a família foi até a Cantábria. tirou o véu dos ombros e o colocou sobre os cabelos. O sinal da cruz foi feito ao passar pela porta e, junto deles, se sentou, estava grata por tudo, grata pelos momentos, pelos livramentos.
olhou para o lado. O sorriso de seus pais era contagiante — aquele tipo de felicidade que aquecia só de olhar, aquele casal que transbordava amor e ternura, desejo e compreensão.
Mas aqueles momentos ao lado de sua família eram algo que nunca perderia. Mesmo com o tempo, mesmo com a distância entre San Sebastián e Málaga, ou nas visitas breves que conseguiam manter.

Capítulo 01

Málaga. Espanha. Casa de Navarro.
14 de fevereiro de 2026.
05:15 da madrugada.

Aquela noite era marcada pelo jogo mais aguardado por ela. passou a noite acordada, deixando VeilOfNyx conquistar seus troféus. Sabia que, no fundo, era uma péssima ideia, mas ainda assim organizou seu tempo para aquele lançamento.
Virou a cabeça, procurando o relógio que ficava ao lado da cabeceira. Marcava cinco e quinze.
O cobertor estava amontoado sobre ela. A madrugada havia esfriado e ela já não via a hora de o inverno ir embora.
Levantou-se após respirar fundo. Aquele seria o dia mais feliz. Caminhou até o pequeno quarto que usava como espaço de estudos e jogos. Percebeu o descuido: havia deixado o console em modo repouso. Esperou que ele ligasse por completo enquanto seguia sua rotina matinal.
Passou pela cozinha, colocou o café para passar e preparou rapidamente uma tigela de iogurte com frutas. Retornou ao quarto com a xícara de café puro e desligou o console. Agora poderia sair mais tranquila.
Com o capuz protegendo o rosto, saiu de bicicleta — um hábito que adotou ao saber que, por um tempo, seu foco seria o jogo e a academia ficaria de lado.
Seu destino: o trabalho e depois a universidade.

Málaga. Espanha. Hotel Place.
14 de fevereiro de 2026.
06:00 da manhã.

Cumprimentou o segurança após deixar a bicicleta no lugar adequado. Tirou a mochila das costas e caminhou até o vestiário. Seu uniforme cinza se destacava entre os pretos dos outros colaboradores que ali estavam. Olhou-se no espelho, ajeitou os últimos detalhes e prendeu o cabelo em um coque modesto.
Os hóspedes já circulavam pelo hotel. O café da manhã estava disposto no restaurante, agora era o momento em que ela passaria a cuidar dos quartos.
— Com licença. — Isabel se aproximou. — Bom dia a todos.
— Bom dia!
— Espero que tenham descansado e estejam todos muito bem para mais um dia. Vim avisar que Marta entrou hoje em licença-maternidade e, como ajustado — seus olhos pararam em —, a senhorita Navarro ficará, a partir de hoje, responsável pela ala presidencial.
concordou com um movimento educado e sutil com a cabeça. O sorriso em seus lábios não saiu por nenhum instante.
— Se tiver alguma dúvida, pode entrar em contato.
— Claro — respondeu.
— Nossa querida Marta retorna daqui a alguns meses, mas podem ficar sossegados, quando o bebê dela nascer, eu comunicarei a todos e também iremos festejar.
Ouviram-se sons de alegria dos funcionários — de todos os setores, não havia um funcionário que não gostasse tanto de Marta.
— A rotina permanece a mesma, espero que tenham um bom-dia e um ótimo dia de trabalho. Obrigada!
Ela se retirou, postura ereta e elegante, os sons do salto batendo no piso frio.
Agora era com , tudo o que Marta fazia, ela iria fazer.
Como foi ensinado, começou pelas suítes mais tranquilas, aquelas que sempre saem cedo para reuniões ou passeios. Batia na porta, esperava alguns segundos. Ao destrancar, anunciava sua entrada, sempre com o olhar voltado para o chão. Quando se tinha a certeza de que não havia ninguém, ela colocava a plaquinha de que o serviço de quarto estava acontecendo e começava a limpar.
Luvas postas, ela limpava cada canto do quarto. Não mexia em nenhum pertence do hóspede, apenas dobrava as roupas caso ficassem em cima da cama, trocava a roupa de cama, substituindo-a por uma limpa e perfumada, sem deixar qualquer dobra ou desnível no tecido.
Começava assim e seguia assim até o fim do expediente.

Málaga. Espanha. Hospedagem temporária.
14 de fevereiro de 2026.
07:02 da manhã.

A respiração pesada. Deixou o relógio rodar mais um pouco. O olhar fixo no teto enquanto o som da televisão preenchia o quarto. Levantou-se, andou até o banheiro e apoiou suas mãos na pia. Com um movimento, abriu a torneira e observou a água escorrer. Ficou ali por dois segundos, encarando o líquido transparente. Encheu as mãos e jogou a água no rosto, duas vezes seguidas; a água gelada o despertou daquele sono que o perseguia.
Levantou a cabeça, se encarou no espelho, as gotas de água escorriam pelo seu rosto, alguns fios de cabelo ficaram molhados e presos ao rosto. A barba estava para fazer.
Cansado. Seu rosto estava cansado e exausto.
Sentiu a água fria tocar em seu tórax, trazendo-o novamente para o momento presente. Fechou a torneira e ligou o chuveiro.
A água morna tocava seus músculos tentando trazer o relaxamento, mas o Glass Veil parecia eterno em suas memórias. Poderia ser agora o fim para um caso aberto há mais tempo do que poderia desejar.
Em seu quarto, ele colocava a jaqueta de couro por cima da camisa preta de manga longa que se ajustava ao corpo como uma segunda pele, o tecido elástico destacando os músculos firmes dos braços. Verificou as armas e as acomodou no coldre. Afiou a faca que carregava consigo e a guardou. Pegou seus últimos pertences, seu documento e a chave do carro.
Decorou o caminho assim que o recebeu da companheira de equipe. Não seria longe, já que escolheu uma casa em um raio médio do alvo.

Dirigia com cautela, observando cada movimento na rua. Virou a segunda à direita e logo estava em uma pequena rua sem saída, onde deixaria seu carro. Desligou o carro, olhava através do vidro fumê o lugar que entraria. Uma porta velha, mas cuidada, mostrando que cada canto sempre teria uma atenção. A câmera se mexia devagar; observando, ele calculou o tempo exato para passar sem que sua silhueta fosse capturada.
— Chloe, você já me enviou a planta?
— Sim, dois minutos antes de você chegar. Como está aí?
— Sem muita movimentação, como se fosse uma casa de repouso.
— Você sabe que não é certeza.
— Mas não é assim que conseguimos estar aqui?
— Tudo bem, tenha cuidado e mantenha contato.
— Você que manda.
Passou a mão em sua perna até chegar ao celular, tirou do bolso direito e verificou a planta. Nada muito complexo. Nada além do que ele já tinha visto antes. Apenas muitos corredores atrás de corredores, o que o alarmou um pouco mais.
Desceu do carro, guardou a chave no bolso interno da jaqueta e caminhou contando os segundos, a câmera virou e ele abriu a porta sem muito esforço.
Estava pronto para dar um fim naquilo ou se aproximar mais ainda do fim.
Silêncio total, a área dos funcionários estava vazia. Sentia que aquela pequena parte estava inativa por alguns meses.
Caminhou seguindo o caminho traçado até chegar a um dos corredores. Realmente era um labirinto, não tinha como saber por onde ir ou por onde sair.

batucava o dedo no carrinho que empurrava, em silêncio, e estava indo para seu último quarto presidencial naquele andar. Parou na frente da porta. Ao lado direito, tinha uma placa que marcava o número duzentos e quarenta e quatro A, em dourado. Uma das suítes mais caras do Hotel Place.
Bateu duas vezes, esperou a resposta e, em um segundo, um homem alto, cabelos alinhados e terno dos mais elegantes abriu a porta.
— Bom dia, senhor, serviço de quarto — falou em sua língua nativa.
— Entre, entre — respondeu tão automaticamente em inglês. — Apenas o quarto — ordenou em espanhol.
concordou com a cabeça e seguiu para o cômodo.
O homem, então, retornou para a sala de reunião que ali tinha, deixou a porta entreaberta e retornou à sua conversa com o outro homem. Aparentava ser mais velho, usava um terno de linho e um casaco por cima para espantar o frio de Málaga.
— O projeto está avançando mais rápido do que esperávamos — disse Adrian Frost, observando o mar pela janela da suíte presidencial.
— Há espaço suficiente para manter alguns dos nossos… incidentes humanos — Carlos Pérez comentou. — E o senhor, está de acordo?
acabava de tirar o lençol da cama. Tirava o plástico que envolvia um outro novo lençol, higienizado, limpo e perfumado.
Jogou por cima da cama, deixando cair sutilmente como uma pluma. Podia ouvir as vozes dos dois homens filantrópicos conversando na sala ao lado, mas não era algo que queria prestar atenção.
— Seu hotel. — Olhou para a direção da e tornou o olhar a Carlos. Com um sinal, entendeu que não precisava se importar. — Seu hotel tem uma estrutura intacta, seria apropriado para todos os equipamentos laboratoriais, também vejo. — Olhava para a planta em cima da mesa. — Que tem bom espaço para deixar alguns dos nossos incidentes humanos.
— Aqui, senhor Frost, você não vai precisar se preocupar, não vão achar os corpos, caso haja, e muito menos saber o que estamos fazendo.
Carlos olhou na direção de , ele tinha o conhecimento de que ela não compreendeu nenhuma palavra do que estava sendo dito.
— Você tem certeza? — Acompanhou o olhar do dono do hotel.
— Uniformes cinzas são para representar nativos e estrangeiros que não falam mais de uma língua, são inferiores, frágeis e fáceis de manipular. Ela é tão inútil que não compreende uma palavra em inglês.
Palavras que soaram frias, insensíveis, atravessando como uma ponta fina de uma faca. Respirou fundo duas vezes, soltando o ar lentamente para que assim pudesse manter a calma.
compreendeu muito bem a conversa e, além disso, aprendeu o que significavam as cores dos uniformes. Não iria pensar que todos os chefes que vestiam preto sabiam desta nomenclatura, mas sim se questionavam até onde os acontecimentos iam.
Com desejo de finalizar ali logo, ela pegou a roupa de cama usada, colocou rapidamente no carrinho e finalizou o quarto. Pérez a observava sem muitos alardes, podendo perceber que estava com as mãos trêmulas caminhando até a porta com a pequena gôndola.
Fechou a porta atrás de si, rezando por sair dali.
A porta se abriu de uma vez, levou seu olhar para o homem. Seu olhar carregava um dos sentimentos mais mistos que ela pôde presenciar, e bruscamente ela foi puxada para dentro. Sua boca foi amordaçada enquanto Carlos segurava seus braços para trás com brutalidade.
foi jogada em cima do sofá que ficava de costas para a janela, sentiu sua cabeça bater na parte de madeira; em seguida, uma dor se fez presente no lado direito, o líquido quente podia ser sentido escorrendo pela sua pele que suava frio, ela fechou os olhos tentando conter o que acabara de sentir.
— Pegue um pedaço de corda — Adrian solicitou. — Você consegue alguém que limpe aqui?
Adrian agora estava próximo de Pérez, que mexia em uma das gavetas da sala de reunião, terminava de anexar o silenciador na .45. Em um pequeno momento, poucos segundos, tudo o que era necessário foi traçado pelo destino.
respirou devagar, sem que seu corpo mexesse muito. Apenas com os olhos, pôde analisar toda a situação, não tão longe da porta, mas tão perto da morte. Mirou sem pestanejar, atirou na direção dela. Os olhos de mantiveram-se abertos e, em um impulso, levantou-se tão rápido e saiu correndo pelo corredor do hotel, não conseguia gritar por ajuda. Não conseguia pensar em um nome que pudesse fornecer proteção.
Entrou por uma porta, uma discreta que apenas funcionários tinham conhecimento. Passou por ela, tirou a mordaça e desceu, deixando o tecido para trás. Não queria saber quantos metros eles estavam dela, só queria sair dali o mais rápido possível.
Um, dois, três lances descidos correndo, tropeçando no próprio pé, no nono ela esbarrou em um homem. Alto, musculoso, imponente, todo vestido de preto.
se assustou. Foi a primeira vez desde aquela fuga que sua voz saiu. Gritando desesperadamente para ele, a soltou e falava palavras que falharam miseravelmente. Se debatia, chorava, sentindo as gotas escorrendo pelo rosto avermelhado.
Por fim, ele a segurou contra a parede, alternou o olhar entre ela e a escada.
Foi então que realmente o viu. Alto, ombros largos sob o casaco escuro, os cabelos castanhos caíam de forma levemente desordenada sobre a testa. Os olhos claros observavam o corredor com atenção silenciosa, atentos a qualquer movimento. Havia algo naquele olhar — firme, experiente, quase cansado — que denunciava anos lidando com situações perigosas demais para pessoas comuns.
Levou sua mão até a calça e pegou sua identidade, mostrando-a para ela, e assim ela respirou um pouco.
DCD, Directorate for Covert Defense, uma divisão que responde diretamente ao comitê do governo. Um serviço onde apenas as sombras podiam saber o que estava acontecendo, ou encobrir.
— Eles. — Engoliu. — Eles vão me matar. Eles vão me matar! — Olhava desesperada para o agente. As lágrimas traziam cada desespero que passou a sentir no quarto.
— É claro que eles vão. — Olhava para a escada. — Vamos. — Tornou a olhá-la.
apenas concordou com a cabeça e praticamente grudou nele.
O seguiu, sem ao menos se dar conta de que ele conhecia muito bem o caminho. Passaram por corredores que ela não tinha conhecimento, até chegar ao mesmo local onde o agente entrou.
Saiu apenas ele, a arma em punho, olhando em volta e se certificando de que não havia ninguém da Black Transfer. Olhou para trás, estava acuada, as mãos tremiam e apenas esperava ter a certeza de que o homem à sua frente a chamaria.
— Precisa ser rápida. — Segurou a porta para ela, que passou rapidamente pelo lado dele. — O carro está aqui perto, não saia do meu lado.
A arma estava em seu coldre, a atenção redobrada. Seguia pelas ruas até entrar à direita na rua sem saída. O carro à frente deles piscou as luzes e emitiu um bipe. Ele entrou, ligou o carro, colocou o cinto, ficou do lado de fora, encarava a porta.
— Desculpa, eu esqueci que preciso abrir a porta. — A deixou entreaberta. — Olha, se você quiser, fica tudo bem. — Acelerou.
— Não, não.
Estava ainda em choque.
Quase que em um pulo, ela entrou, colocou o cinto e fechou a porta. O homem deu ré rapidamente, olhando pelo retrovisor, virou o volante e acelerou para saírem do perímetro do hotel o quanto antes. Ainda não havia conversado com ela, estava esperando a mulher se acalmar um pouco.
A duzentos metros do hotel, o agente da DCD olhou pelo retrovisor, avistou três SUVs pretas virando a rua. Velocidade alta, cortando os carros sem cautela, eles se aproximaram com armas em punho através da janela. Pisou no acelerador, forçando o corpo deles contra o banco.
— O que foi? — olhou para ele.
— Temos alguns fãs.
— Fã?
Franziu o cenho. Por instinto, olhou para trás e procurou quem eram as pessoas que estavam atrás deles. No mesmo instante, balas ricochetearam contra o carro. gritou tão desesperadamente que se agachou no banco, quase tirando o cinto de segurança.
Girou o volante, entrando na primeira rua, tentando despistar, procurando uma rota para poder sumir do campo de visão deles.
— O que você sabe?
— Hã?
— O que você sabe? — reforçou a pergunta. — Para eles estarem te seguindo, você sabe ou pegou algo.
— Eu não roubei nada!
— Então eles são seus fãs?
— Eu acabei de sair do hotel onde eu trabalho. Não faço a mínima ideia do motivo de ter três carros atrás de mim.
— Para eu te ajudar, eu preciso que você conte para mim.
Ela comprimiu os lábios ao hesitar em falar, agora estava um pouco sentada no banco, mas ainda olhava desesperada para os carros.
— Só… só estava trabalhando, serviço de quarto como faço todos os dias. Entrei na suíte presidencial e tinha dois homens, eles conversavam em inglês, acharam que eu não compreendia, mas eu compreendi e perceberam.
— O que exatamente?
— “Não vão achar os corpos caso haja, muito menos saber o que estamos fazendo.” — repetiu. — Achei que estava maluca por ouvir isso, mas pelo jeito, de alguma forma, são testes em humanos.
— Black Transfer — sussurrou.
— O quê?
Ele ficou em silêncio, não conseguia compreender como acabou entrando em contato com uma possível vítima da organização.
— Você agora vai esconder as coisas de mim?
Mais tiros disparados contra o carro. Agora a SUV estava parada quase que ao lado do carro dele. Com reflexo, ele pegou sua arma e, mantendo bem firme o volante, atirou contra o carro. A precisão era acertar os pneus, assim evitaria a perseguição.
Conseguiu tirar de perto deles o segundo carro, virou à esquerda bruscamente tentando fechar a última SUV.
— Vamos para a minha casa.
— O quê?
— Acredito que eles nem imaginam que você pode me levar lá.
— Longe?
— Não muito, um pouco, talvez, tenho que ver a rota.
— Muito bem, se segura.
O agente freou bruscamente, fazendo a SUV desviar do carro deles, acelerou com a ré engatada e passou atirando no carro, quase todos — senão todos — acertaram o carro e também o pneu.
O endereço foi colocado no GPS pela proprietária da residência e ele dirigiu o mais rápido que pôde, para ter a certeza de que nenhum outro carro encontraria eles.

Capítulo 02

Málaga. Espanha. Casa de Navarro.
14 de fevereiro de 2026.
08:20 da manhã.

Poucas horas haviam se passado desde que se encontrou com . Estavam próximos à residência dela. Ela indicou a casa. Pararam do lado de fora e abriu a garagem manualmente, permitindo que ele estacionasse.
— Bairro sossegado.
— Perto do mar… é quase impossível quererem barulho por aqui.
parou diante da porta, olhando ao redor enquanto passava as mãos pelo corpo.
— Esqueceu algo?
— A chave… minhas coisas ficaram no hotel.
— Não tem chave reserva?
— Tenho, mas está do lado de dentro.
Ele apenas a olhou.
— Se incomoda? — Apontou para a porta. negou com a cabeça.
Pegou a faca presa à panturrilha, aproximou-se da porta e forçou para fora. Foi então que sentiu uma dor aguda. Olhou para baixo e percebeu o rasgo na jaqueta, o sangue começando a manchar o tecido.
— Pronto. — Abriu a porta.
— Obrigada. Entre… a casa é simples, mas acho que dá pra ficarmos aqui até eles esquecerem que eu sei.
— Você é funcionária deles. Esse é um dos primeiros lugares onde vão te procurar.
caminhou até um pequeno vaso na sala e pegou a chave reserva. Girou a chave duas vezes. As mãos trêmulas dificultavam o movimento. Para garantir, girou mais uma vez; e parou em uma ponta do sofá, enquanto ele permanecia de pé quase ao lado da porta.
Poucos segundos se olhando, como se apenas estivessem analisando a pessoa que estava à sua frente.
— Acho que ainda não nos apresentamos. — Ele olhava a jaqueta perfurada. — Kennedy. DCD. — Pairou o olhar sob ela.
— Navarro, apenas uma camareira.
— Você é daqui?
— Sim, não vim de nenhum outro país. Quem são eles?
— Onde fica o banheiro? — desconversou. — Você teria uma banheira lá?
— Terceira porta seguindo o corredor. Sim, por quê?
— Preciso ver se a bala está alojada.
— Bala? — Levou os olhos para o braço do . — Meu Deus!
— Você tem soro fisiológico? E algumas coisas esterilizadas também para ajudar.
— Sim, vou pegar.
seguiu o caminho indicado e passou pela cozinha, lavanderia e o quarto, sabendo que teria itens que pudessem ajudá-lo. Caminhou às pressas até o banheiro, carregando tudo nos braços. Chegou perto dele, colocando tudo em cima de uma mesinha que puxou para perto de .
— Eu trouxe o soro, achei uma tesoura, isqueiro, álcool e gazes.
— Isso vai bastar.
tirou a jaqueta, deixando-a cair ao seu lado no chão, revelando o rasgo que a bala causou na manga.
— Ótimo — murmurou. — Eu gostava tanto dessa jaqueta.
— Ai, meu Deus, você está sangrando bastante. — franziu o cenho.
— Eu já estive pior.
Kennedy esterilizou a tesoura e a sua faca que, se precisasse, ele usaria. Colocou em cima da toalha limpa que manteve em cima da mesinha. Com a tesoura, ele cortou uma parte da manga esquerda. Analisou, antes de continuar, o procedimento. Com o auxílio das gazes, ele limpou a região do bíceps, pegou a faca e com a ponta tocou o ferimento.
A dor subiu pelo braço como fogo, trazendo uma ardência intensa. Ele estava devagar, tentando ter a certeza que não estava alojado.
Suspirou.
— Ficou aí dentro.
— O quê?
— A bala. — Olhou para ela.
A mulher ficou imóvel, apenas alterando o olhar entre o ferimento e o olhar de , que também estava focado no local da bala.
— Você só pode estar brincando.
— Não estou. Tudo bem — falou tão calmo como se fosse algo tão rotineiro. — Se eu desmaiar, você pode entrar em pânico.
— Que brincadeira boba.
— Eu estou falando sério.
Subiu o olhar, o rosto suado, os fios caindo sobre o olhar claro. Se não fossem aquelas circunstâncias, ela acreditaria que seria um dos olhares mais tentadores. se afastou, encostando-se no batente da porta, não teria coragem de ver tão de perto.
Kennedy pegou a faca e limpou com o soro, colocou na mesinha e depois jogou soro no ferimento. O líquido transparente escorria, já tingido de vermelho, sobre o braço dele, caindo dentro da banheira. Com calma, ele pegou a faca e colocou mais adentro, prendendo a respiração e mantendo todo o ritmo simultâneo. A faca tocou o pedaço metálico no músculo e, em um movimento único, ele tirou a bala.
O barulho ao cair dentro da banheira trouxe alívio aos ouvidos de , que havia fechado os olhos.
soltou o ar. Agora, com um pequeno momento de tranquilidade, o olhava, com calma. O jeito, o olhar, o desenho do rosto, a lembrava de alguém, mas não se recordava de quem no momento.
se aproximou, deixando uma caixinha de primeiros socorros que havia dentro do armário do banheiro.
— Já estive pior. — Ele percebeu o olhar preocupado e espantado dela. Ao menos tentou tranquilizá-la.
Por fim, começou a fazer o curativo com um pouco de dificuldade para passar as gazes, passar a faixa e fazer todo o processo. se agachou, ficando em uma altura razoável.
— Deixa que eu ajudo.
Apenas falou já com as gazes na mão. Limpou o local do ferimento, depois cortou duas partes do esparadrapo e colocou, puxando onde a bala perfurou, esperava que esse ponto falso ajudasse de alguma forma. Por último, passou a faixa, deixando firme o local sem muito apertar.
— Obrigado.
— Não precisa agradecer, é o máximo que posso fazer por você, na verdade.
— Você não me deve nada.
Levantou-se. A jaqueta estava em sua mão, a colocou pendurada na banheira para não sujar mais o chão. A garota limpou o local, o deixando descansar, já estava um pouco mais calma, suas mãos não tremiam mais como antes.
Aproveitando que estava na sala, tomou um banho rápido. Queria tirar aquela sensação das mãos de Pérez de seu corpo e também cuidar de seu ferimento.
se sentou na poltrona perto da janela. Cortina fechada, luz do corredor acesa, estava atento à movimentações lá fora. A cadeira era desconfortável, então procurou uma posição onde pelo menos ao sentar não incomodaria tanto o braço.
Levou a mão ao ouvido, dando um leve toquinho no aparelho que ali tinha.
— Chloe?
— Sim, , pode falar.
— Preciso que você procure informações sobre uma pessoa para mim.
— E qual seria o nome?
— Navarro. Ela trabalha no Hotel Place.
— Hm.
— Vê se não demora.
Jogou a cabeça para trás, uma tentativa de relaxar.

Roupa adequada, confortável para ficar na presença dele, passou em seu quarto antes de ir à cozinha. Procurou por um analgésico, um que poderia ajudá-lo. Comemorou com um sorriso ao achar e com isso caminhou para a cozinha.
Faria uma receita de bolinho de queijo que seu pai tinha passado para ela, por sorte, a massa já estava em descanso na geladeira desde a noite anterior. Agora, com a forma untada e no forno, ela terminou o café, esperando que desse o tempo exato.
colocou em uma tigela alguns bolinhos, levou para a sala e colocou em cima da mesa quase de centro. Em seguida, levou um copo com água e uma xícara de café, também colocados na mesa e agora junto ao remédio.
Aproximou-se dele, não sabia como abordá-lo, então apenas o chamou pelo nome.
— , Kennedy.
Apenas com o reflexo, despertou, puxando a arma do coldre e apontando para ela, segundos depois de um susto para ela.
— Desculpa, eu acordei você.
— Estava apenas descansando os olhos.
— Ah, claro. — Riu pelo nariz. — Olha. — Apontou na direção da comida. — Eu fiz algumas coisas para comermos, bolinho de queijo e também tem café. Trouxe um analgésico para você. — Pegou e colocou na mão dele. — E tem água, não sei como você prefere tomar.
pegou a água e bebeu o remédio, quase que com urgência.
— Obrigado.
Ela apenas sorriu em agradecimento.
Estava de pé, bebericou o café e deu uma mordida generosa no bolinho, precisando a combinação dos dois.
— Você pode ficar no sofá, ali não é bom para dormir.
— Não há necessidade, e alguém precisa ficar atento à movimentação.
— Você vai, só que em um lugar mais confortável. — Também comia. — Eu fico no seu campo de visão, se é que isso te tranquiliza.
— Fique aqui. — Apontou para o outro sofá. — O campo de visão de você pela janela é quase nulo, precisa fazer um bom esforço.
— Está bem. — Sorriu.
saiu da sala em uma corridinha. Foi até o quarto que também usava para jogar, pegou o videogame portátil e retornou para a sala.
— Pronto, pode ficar tranquilo. — Por escolha, deitou-se no tapete felpudo.
— Os bolinhos estão ótimos.
— Agradecida, é a receita do meu pai, é simples, mas impossível não amar fazer.
— Se escutar algo e eu não acordar — entregou uma arma a ela —, pode usar.
— E-eu não sei usar.
— Imagino que saiba — referiu-se ao jogo.
respirou fundo e pegou a arma, colocou ao lado dela e viu se ajeitando no sofá. Agora ele estava confortável, seu braço podia relaxar e ter um início de recuperação melhor. Ali mesmo ele pegou no sono e passou seu tempo todo jogando para distrair a mente, mesmo com a arma ao seu lado.

Capítulo 03

Málaga. Espanha. Casa de Navarro.
14 de fevereiro de 2026.
11:54 da manhã.

O videogame iluminava o lado dela, mas não o suficiente para clarear todo o cômodo. O relógio marcava alguns minutos para o meio-dia. O som de freios acordou de imediato. Levantou sem alertar , que dormia tranquilamente, por uma pequena fresta, sem mover muito a cortina, olhou para fora.
— Sempre a mesma coisa.
Soltou o ar pelo nariz.
Novas SUVs estavam descendo a rua. Pegou o casaco e colocou, verificou a arma que estava em punho e acordou a mulher.
— , acorda.
— Mas… o que está acontecendo?
A visão turva, o cansaço ainda presente, achou, por um instante, que estava vendo o protagonista de um de seus jogos favoritos.
— Eles estão vindo. Precisamos ir.
— Não acredito…
— Não foi por falta de aviso.
Talvez por medo, ou por automático, já havia preparado uma mochila e deixado o tênis próximo à sala quando havia saído do banho. Calçou o tênis e seguiu .
— Estão procurando sua casa.
— Acha que ainda dá tempo?
— Temos que ser rápidos.
— E seu braço?
— Estou melhor que antes.
olhou mais uma vez para fora, fez uma pequena contagem e começou a se movimentar. Destrancou a porta e colocou atrás dele, ao saírem, ele a colocou à frente. Abriram o portão da casa juntos — um em cada folha. Ele ligou o carro entrando rapidamente. colocou a bolsa no chão do carro e colocou o cinto.
Esperou alguns segundos, torcendo que haviam virado a esquina sentido leste da rua, ele focou no som dos carros. Aquele era o momento. Rápido, sem muito rodeio, arrancou com o carro, torcendo para não ter sido visto.
Quase a uma quadra dali, Kennedy sentiu seu bolso vibrar, deduzindo que poderia ser Chloe, ele manteve a calma para ler o relatório que ela havia mandado sobre .
Claro que não seria tão fácil.
— Eles nos encontraram. — comentou para .
— Ótimo.
— Ainda está com a arma?
— Sim. — pegou ela da mochila. — Você a quer?
— Quero que use. — alterava o olhar entre ela e a pista. — Tente acertar no carro.
— E se eu matar alguém?
— Bom, então você não vai ser mais procurada.
— Ok, ok, mas eu nunca usei.
— Só precisamos de tempo.
Ela concordou. Olhou por um tempo para a arma em sua mão e para os carros através do retrovisor, respirou fundo e abriu a janela; inclinando um pouco o corpo para trás, ela passou a confiar em que estava dirigindo e abriu fogo contra eles.
Seu desespero tomou conta por todo o corpo; nunca havia feito aquilo, muito menos segurando uma arminha de brinquedo. Atirar sem ao menos saber tudo estava saindo como deveria sair. A força que o objeto causava em sua mão acabava desestabilizando ainda mais os tiros. Nenhum deles foi preciso.
Os cinco carros estavam se aproximando deles, quando, por ironia do destino, ela conseguiu acertar o motorista do primeiro carro.
O som dos freios veio com a batida; os SUVs ficaram para trás, dando o maior tempo para eles.
sorriu de lado, agora tinha mais tempo suficiente.
colocou a arma no chão, queria se livrar do objeto logo. Fechou os olhos e encostou a cabeça no banco, respirando aliviada e se acalmando.
— Muito bem! — a elogiou. — Me lembra de nunca jogar contra você.
— Realmente, é tudo que eu quero ouvir agora. Para onde vamos?
— Eu tenho uma rota.
E então ela apenas confiou nele e deixou ele conduzir até o local que ele se recordava. Quase um quilômetro de onde estavam, virou a segunda direita e depois a última esquerda.
Eles já estavam se aproximando.
— É sem saída. — comentou ao perceber.
Não era exatamente sem saída, era um beco onde claramente era usado por crianças quando elas estavam na rua, mas, naquele horário, quase uma da tarde, o local estava vazio.
estacionou o carro levemente inclinado, o suficiente para poder manter a placa fora do alcance daqueles que o seguiam.
— E agora? — questionou.
— Agora... — a olhou. — Nos abaixamos e esperamos.
Por ora, ela fez o que ele pediu. Um instante, quase ao longe, pode-se ouvir os freios dos carros virando a esquina. A fúria para acharem era perceptível.
Entretanto, o olhou. Sem muito hesitar, ela se mexeu no carro, estava se levantando no banco. respirou fundo e não acreditou que teria que pedir outra vez.
— Eu mandei você ficar abaixada.
Não teve resposta; muito pelo contrário, agora até ele estava sentado no banco. Observando todos os movimentos dela, que eram rápidos e um pouco ágeis. subiu em cima dele, tentava se ajeitar em uma posição não tão… comprometedora.
— , o que você está faz...
— Por favor, só... confia.
Deixando uma mão apoiada no banco, ela deixou o cabelo cair na frente de seu rosto o cobrindo por quase inteiro. Sua outra mão precisou apoiar no ombro de Kennedy.
Os olhos dele apenas estavam pairando na silhueta do rosto dela, que estava levemente refletida pela luz do sol.
Por um momento, manteve seus olhos nos lábios entreabertos de .
O carro começou a mexer. Ela estava se movimentando para manter tudo como havia passado na sua cabeça, mantinha o olhar para baixo, torcendo para que aquilo desse certo. Pouco espaço sobrou entre eles; manteve as mãos imóveis ao lado do corpo, compreendendo — só então entendendo a ideia dela.
O SUV passou na frente do beco, depois voltou; eles olharam para a cena. O carro se mexia com intensidade, de fora, podia ter a certeza de que um casal estava aproveitando a data.
Os agentes da Black Transfer não conseguiram acreditar que, em plena luz do dia, havia gente indecente.
— Que casal sem pudor. — o motorista comentou.
— Deixa, não vale a pena. — dessa vez foi o passageiro.
— Eles sabem aproveitar a data. — o terceiro ressaltou.
E eles podiam até parecer estar aproveitando, mas, na verdade, não era um proveito que eles queriam.
, que olhava para fora — não com o rosto virado, viu o carro saindo; junto, seus movimentos pararam. A respiração estava forte, o carro abafado, seu braço não tinha mais força e ela acabou cedendo em cima do corpo de Kennedy.
Para evitar, ele movimentou seus braços, segurando-a e ajudando-a a sentar no banco ao lado.
Não havia palavras. Apenas ficaram olhando em um ponto fixo por minutos. Só estavam ambos ali, lado a lado, esperando que toda aquela adrenalina e tensão pura passasse.
foi a primeira a se mexer, prendeu o cabelo e virou o rosto para . Havia algo nele que podia acelerar compassos em seu coração, e aquela aproximação só fez como descompensar seu coração.
— Conseguimos. — foi a única coisa que ela falou.
Kennedy não respondeu, manteve o olhar na parede à sua frente. A mão dele apertou o volante com mais força do que o necessário, os nós dos dedos ficando pálidos, enquanto tentava manter a respiração tão calma quanto na sua primeira vez na DCD.
Finalmente se mexeu. Kennedy soltou o volante, sem muita pressa, retomando todo o controle de seu corpo. O que veio em sua mente, quase que em primeiro instante, para poder focar na missão, foram as mensagens que havia recebido no percurso.
Deslizou a mão para o bolso da calça jeans e tirou o eletrônico, a tela acendendo, iluminando o rosto de . Na notificação da mensagem, o nome Chloe apareceu no visor. Os olhos de , que passaram pelo braço até chegarem à mão dele, conseguiram ler claramente o nome da mulher.
Soltou a cabeça e olhou para o lado após engolir a seco.
Foi em questão de segundos, travou a mandíbula e ligou o carro. Com uma pequena manobra, ele saiu do beco e seguiu para o endereço de uma casa bem simplória que ali teria.

Málaga. Espanha.
14 de fevereiro de 2026.
14:04 da tarde.

já dirigia mais relaxado, entretanto não conversava com . Aquele silêncio mútuo a fez duvidar se, sem querer, havia atravessado uma linha proibida entre eles.
Saíram de Mangas Verdes rumo a Miraflores del Palo. Em menos de quarenta minutos, saíram da rua principal e entraram na rua onde passaram o tempo de hospedagem necessário. O cheiro do mar com o som das ondas trouxe uma das melhores sensações que a praia Del Palo podia trazer para ela.
O som da seta podia ser ouvido e, após verificar, ele entrou numa garagem de portão cinza. O carro ficou estacionado em fácil acesso à rua.
Desceram. travou o carro e caminhou até onde a chave estava guardada.
estranhou, mas não perguntou nada, afinal ele não estava conversando com ela.
— Vamos ficar pouco tempo. — foi a primeira vez que ele falou. — Deixe a porta trancada. — colocou a chave do carro na mesa da cozinha.
O agente Kennedy não a olhava, apenas poucos movimentos na direção dela.
— São dois andares; sala, cozinha e lavanderia ficam aqui. — apontou para o andar em que estavam. — Lá em cima tem dois quartos e dois banheiros. Pode se sentir à vontade.
— Tá. — respondeu direta, sem muitas emoções.
— Se não se incomodar, eu vou para o banho. Tem roupas limpas para você no último quarto à esquerda.
apenas o seguiu com o olhar enquanto ele subia as escadas e desaparecia. Como aquele momento tinha se tornado tão formal e monótono, a interação deles estava boa, mesmo sendo a primeira.
A mulher sentou-se no sofá, tirou a blusa de frio que estava usando e olhou para ela. A primeira que pegou não era uma das suas favoritas, muito menos uma que a protegia muito do inverno da Espanha. Num primeiro instante, hesitou em subir, mas depois seria uma decisão horrível não tomar mais um banho depois daquele último momento, da tensão máxima que passou. Ela resolveu se dar um momento relaxante.
Levou consigo a blusa e a mochila.
Passou pelo quarto onde estava; a porta — apenas do quarto — ficou um pouco entreaberta. Aquele aroma de sabonete masculino invadiu as narinas dela, num momento mostrando o tempo que ela passou sem saber o que era exatamente isso.
— Com tanta data… — voltou a andar. — Isso tinha que acontecer justo hoje.
No quarto, ela verificou as roupas, simples e discretas, pensadas para não chamarem tanta a atenção daqueles que a seguiam. Quanto ao tamanho, de alguma forma quem providenciou acertou.

Minutos depois.

Kennedy estava na cozinha, encostado na pia, de frente para a janela que ali tinha. Ele conversava naturalmente, como se a pessoa na outra linha tivesse uma intimidade profunda com ele.
pigarreou, mostrando que estava ali.
— Depois eu retorno. — e desligou. — Vejo que as roupas ficaram boas.
— Ficaram.
Ele a olhou por mais de um segundo. Algo estava estranho ali.
— Não precisa agradecer.
Ela apenas revirou os olhos e caminhou até o sofá.
— Vamos ficar aqui até quando?
— Por pouco tempo, como eu falei.
— Quero saber quanto tempo é esse “pouco”.
— Pouco.
sentou-se em uma das cadeiras, deixando-a sozinha na sala.
Agora que tudo aparentava calmo, o agente pôde ler o que Chloe encaminhou para ele.

Martins Navarro.
San Sebastián. Espanhola.
17 de outubro de 1996. 29 anos.
Solteira.
Martins Navarro. Filha de Bruno Martins, um chefe de cozinha e proprietário do Akelarre Martins, e de Carmen Navarro, uma ex-garçonete e atualmente artista plástica.
Formada em Direito aos vinte e dois anos. Estava prestes a dar início à sua carreira profissional como advogada, entretanto teve a carreira abruptamente interrompida por seu ex-companheiro Hugo Castillo. Ele apresentava comportamentos controlador, possessivo e instável, comportamento que se intensificou quando foi convocada para trabalhar com um advogado.
Em decorrência disso, terminou o relacionamento, deixando registrado um boletim de ocorrência no dia 14 de fevereiro de 2019. Ela deixou a cidade natal sem registros de retorno ao antigo círculo social.
Em 2019, mudou-se para Málaga, Mangas Verdes. Onde passou a trabalhar como camareira no hotel Place. A mudança marca um ponto de ruptura voluntário e estratégico, indicando alta capacidade de adaptação e preservação pessoal sob pressão.
Atualmente, Martins Navarro está cursando Relações Internacionais, custeando seus próprios estudos.
Fluente em inglês e português. Suas habilidades de outros idiomas não foram constatadas para o Hotel Place. Mantém perfil discreto, com rotina estável e baixo nível de exposição. Permanecendo em casa a maior parte do tempo.
Apresenta independência consolidada, sem dependência financeira familiar. Não há registros de envolvimento em atividades ilícitas.
Interesses pessoais incluem jogos eletrônicos, possuindo equipamentos próprios em sua residência, utilizados tanto para lazer quanto para estudos.
Sem antecedentes criminais. Sem ligações conhecidas com organizações de risco.
Motivo da perseguição: desconhecido.

leu com tanta atenção que sua respiração entregava a angústia que sentia. Seus olhos passaram pelo cômodo até pararem em . Algumas dúvidas surgiram no mesmo instante, dúvidas que ele não fazia questão de responder, até porque já estava sendo invasivo ao ler um dossiê sobre a vida dela.
— Se não aceitou ter sua vida ditada pelo que fazer, o que te fez acreditar tanto em mim?
Kennedy guardou o celular. Levantou-se e foi em direção ao sofá oposto em que estava. A expressão de tédio, enquanto mexia no cabelo, trouxe um leve sorriso ao rosto dele.
— Podemos conversar? — ele perguntou.
— Podemos.
— Consegue me dizer o que exatamente aconteceu hoje cedo?
Sentou-se no sofá, ficando praticamente à mesma altura que ela. Foi a primeira vez que sustentaram o olhar por mais tempo.
— Eu estava fazendo o que sempre faço, ou fazia, não sei mais. — eles ainda se olhavam. — Passei pelos corredores de serviço para ninguém ver a gente andando pelos corredores. Fiz a limpeza dos quartos, mantive tudo alinhado como solicitado até chegar ao quarto duzentos e quarenta e quatro A, que fica na ala presidencial norte, onde realmente o poder aquisitivo é bem superior. — ajeitou-se no sofá. Seu corpo estava de frente para ele, relaxado e, ao mesmo tempo, tenso, por lembrar da situação.
— Pode parar, se estiver difícil.
— Não… tá tudo bem. Bati na porta, Carlos Pérez, o dono do hotel, deixou-me entrar, mas com uma pressa urgente, mas, se eu soubesse, eu teria evitado aquele quarto. Quando entrei, a primeira dúvida do outro homem foi se eu compreenderia tudo que eles conversavam em inglês, e Carlos afirmou com tanta convicção que eu não compreenderia.
— Como? Você sabe me dizer? — olhava-a por mais tempo, estranhando algo nela.
— Ele explicou para o outro homem que funcionários que têm o uniforme cinza são a classe que não tem estudo, não compreendem outras línguas, por exemplo, o inglês, são estrangeiros de diversos lugares do mundo e, quando acham um lugar para trabalhar, ele coloca essa divisão. — respirou fundo. — Já os que vestem preto são os nativos e até mesmo estrangeiros que falam em inglês, fácil para compreender qualquer conversa discreta.
estalou a língua, como se entendesse tudo naquele instante.
— E o nome do outro homem?
— Era… Frost. O sobrenome. O nome eu não sei.
o achou; era o homem que ele procurava, estava tão próximo, mas, por algum motivo, o destino quis colocá-la em seu caminho.
— . — mudou de assento. — O seu rosto, como você se machucou?
— Ah. — levou a mão até a sobrancelha. — Já está melhor. — deu de ombros. — Cuidei disso já.
— Fui eu? — se recordando de quando a encontrou descendo as escadas.
— Não! — o olhou indignada pela pergunta. — Eu cortei quando estava no quarto. — deixando claro que, além de não querer explicar como aconteceu, queria mudar de assunto.
Kennedy se levantou. Aceitou o limite que ela colocou e passou a focar no interrogatório. O homem parou na frente dela, cruzando os braços. Os bíceps ficaram marcados na blusa de manga curta escura, o braço ferido estava com um curativo tão torto que não pôde evitar olhar para aquilo.
Aquela cena por um instante a fez viajar em ideias inadequadas.
— Você chegou a ouvir algo além de “testes em humanos”?
— Black Transfer… — ele andou pela sala. — Eu não deveria te envolver nisso. Mas… é maior do que parece. Envolve testes humanos. A DCD está tentando conter isso antes que se torne algo muito maior.
ficou boquiaberta, seus olhos não saíam do rosto de Kennedy, ficou digerindo toda aquela informação.
— Aqueles que te seguem são os Reapers.
— Não entre em detalhes.
Ela pediu. Ele apenas assentiu.
se levantou, pegou a mochila — havia descido a mesma após o banho —, procurou o kit de primeiros socorros e refez o curativo. Precisava conter as batidas aceleradas do coração estando tão perto dele; estava ficando sem jeito diante de tudo que ela já sabia.
— Obrigado.
— Descanse, assim sua recuperação vai ser melhor. Você tem um celular que eu possa usar?
Ele apenas levantou a sobrancelha.
— Quero ligar para os meus pais.
— Recomendo não fazer isso, acredite, você vai querer seguir o que eu falo.
— Tanto faz.
deixou a respiração pesada sair e subiu para o quarto que, temporariamente, era dela. Ficou jogada na cama, ouvindo o mar e deixando o tempo passar. Estava cansada de fugir.
De tempos em tempos, rondava os andares como se só estivesse verificando se tudo estava como deveria estar.

Continua...
Nota da autora
Eu descobri que no capítulo 01 eu não coloquei a NA kk. Desculpa!
Gente, eu espero que vocês estejam gostando muito do , ele é meu amor e 100% inspirado no Leon S. Kennedy.
Eu tive o meu surto, escrevi e agora estamos aqui, no capítulo 02.
Ele se apresentando quase (totalmente) igual o Leon em RE Requiem. Prometo que o capítulo 03 vai ser muito mais convidativo que esse.
Obrigada por ler. 💜✨
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