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Revisada por: Lightyear 💫

Última Atualização: 13/07/2025

— Aqui está ele — disse, ao entrar na oficina e ver James sentado na cadeira, com um olhar amedrontado. Certamente não estava gostando do tratamento dos meus mecânicos.
— Lady… Eu juro que não fiz nada de errado — apressou-se em tentar explicar algo que talvez nem soubesse o que era.
— Se não fez nada de errado, por que está tão nervoso? — dei mais alguns passos até ele, passando pela mesa de ferramentas, peguei uma chave de grifo e continuei — Mas não me parece ser inocente.
— Senhora, me diga o que fiz para que possa me defender — ele estava levemente sendo segurado por dois funcionários meus, forçado a permanecer sentado naquela cadeira.
— Bem, andei escutando alguns rumores a seu respeito... — Mantive meu olhar nele, enquanto deslizava o dedo indicador pela ferramenta em minha mão. — Que estava tentando vender peças de carros roubados na minha área.
— Eu juro… — nem mesmo permiti que ele terminasse, fiz um sinal com o olhar para meus funcionários, que logo o derrubaram no chão.

Rapidamente montei em cima dele, ficando de joelhos e o prendendo no chão, então bati a chave de grifo no chão, na altura de sua cabeça, o deixando ainda mais desesperado.

— Escolha bem suas palavras. — disse, fitando meus olhos nele.
— S-s-sim, senhora. — parecia gaguejar de medo — Eu juro que não queria, mas estou em dívida com ele, se não pagar com meu trabalho… Minha família.
— Por que foi pedir dinheiro para Dimitri?! — nem precisava mencionar o nome para saber de quem James falava.

Dimitri era uma cobra disfarçada de gente.
Um dos piores gângsters que já tive o desprazer de conhecer, havia se instalado no bairro ao leste de Vancouver, três meses atrás, onde montou uma espécie de QG para controlar seus negócios ilegais. Não me importei com isso de início, até que seus lacaios começaram a fazer negócios em minha área, nos bairros ao sul da cidade.

— Eu tive alguns problemas e perdi meu emprego — respondeu ponderadamente.
— E foi recorrer justo… — respirei fundo, me levantando, pensando o que poderia fazer para ajudá-lo, mesmo não merecendo — Quanto você ainda deve?
— Cinco mil. — Ele continuou no chão, receoso do que eu poderia fazer.
— Onde estão as peças que você está vendendo? Quanto elas custam? — perguntei, me virando em direção às grandes janelas laterais da oficina.
— Estão na garagem da minha casa — respondeu — Elas custam quatro mil.
— O que pretende fazer? — perguntou Jenie, minha amiga desde sempre — Não está pensando em…
— Não vou deixar essa família à mercê dele. — retruquei.
, você não é a Mulher Maravilha, não pode sair ajudando todos que se metem em roubada. — Jenie era boa em me dar conselhos, mas meu coração molenga sempre queria comprar briga onde não podia.
— Eu sei, mas conheço a esposa dele, suas filhas… Desta vez, só mais uma vez. — Voltei meu olhar para ela, como se pedisse sua autorização.
— Não vou falar mais nada. — Ela cruzou os braços — Lavo minhas mãos.

Desviei meu olhar para Rodrigues, meu funcionário mais antigo.

— Vá até a casa dele e traga as peças, traga também sua família. — Olhei para James. — Onde estão ficando?!
— Em um quarto de uma hospedaria — respondeu James.
— Pegue o endereço correto e vá, Rodrigues — Dei alguns passos até a mesa de ferramentas e coloquei a chave de grifo em cima. — Tavares e Torres, vocês ficam de olho no nosso vendedor.

Me afastei deles e subi as escadas que davam acesso ao mezanino, onde era meu escritório, sendo seguida por Jenie. Sei que ela havia dito que não falaria mais nada, porém, sentia lá, no fundo, sua vontade enorme em me bater por querer me intrometer.

— Não me olhe com essa cara — Segurei o riso. — Eu simplesmente não consigo evitar.
— Você é assim, , vê um problema e já quer se jogar nele. — Jenie respirou fundo, sentando-se no sofá, passando a mão nos seus ruivos cabelos naturais. — Não quero nem imaginar o que a vovó vai dizer.
— Por favor, nem ouse falar sobre isso com ela, não agora. — Senti uma leve apreensão por isso.

Vovó Somália era um amor comigo e minha irmã mais velha, Mary.
Desde que nossos pais foram cruelmente assassinados por causa de um mal-entendido, ela nos criou em meio à crise e incerteza, algo que daria conta em sua idade avançada. Mas, felizmente, Mary se tornou uma excelente enfermeira, trabalhando no St. Paul’s Hospital, além de ter feito um afortunado casamento com o capitão Hilth, do corpo de bombeiros da cidade. Já eu, não era exatamente a ovelha negra da família, mas tinha herdado a paixão do meu pai por carros, principalmente os de corrida, era fascinada com o som do ronco de um motor. Então, fiz questão de continuar com a oficina onde papai trabalhava e conquistou o respeito de muitas pessoas, mas, ao contrário dele, eu tinha sim um lado de contravenções que me fazia organizar corridas clandestinas.
Foi daí que fiquei conhecida como a Lady das corridas clandestinas.

— Minha avó está muito feliz com meu diploma da universidade, preciso aproveitar esse momento para não ser expulsa de casa de novo. — Não me contive em soltar um riso, fazendo-a rir comigo.
— Ainda não acredito que você realmente enfrentou uma universidade, só para manter essa oficina viva. — Jenie me olhou com admiração.
— Esse lugar é… Era o sonho do meu pai, se tornou meu sonho também. — Encostei-me em minha mesa de trabalho e sentei em cima. — Já que a condição da vovó para não vender a oficina e me deixar trabalhar aqui era fazer graduação, até que minha escolha de curso foi bem racional.
— Ah, sim, ser a única mulher em meio a um bando de macho exibido no curso de engenharia mecânica foi bem racional — comentou de forma irônica.
— Claro que foi, além do mais, me formei com medalha de honra por ser a melhor aluna da classe, não é para poucos. — Cruzei os braços demonstrando satisfação no olhar. — Não é qualquer pessoa que consegue vaga na Universidade de Toronto. — Boa tarde… — disse Freya, adentrando minha sala. — Posso entender por que tem um cara lá embaixo sendo vigiado pelos irmãos T? Justo no meu local de trabalho?

Freya Linz, minha melhor mecânica. Mesmo sem ter feito faculdade e tendo passado por várias provas com cálculos mais mortais que veneno, eu a considerava mil vezes melhor que eu quando o assunto era montar e desmontar um carro. Havia aprendido tudo com seu pai, que aprendeu com o pai dele, assim como eu, uma tradição que se passava em sua família. Me divertia sempre que os clientes entravam na oficina e viam aquela bela mulher negra consertando motores dos carros, de cair o queixo.

— Pergunta pra chefe. — Jenie lançou seu olhar em minha direção.
— O quê? — Freya me olhou também. — Não vai me dizer que tá comprando briga de alguém.
— Mas é só isso que ela sabe fazer.
— Ai, nossa, nem sou assim — reclamei delas.
— Tem certeza?! Devo lembrar daquela senhorita que estava sendo despejada e você comprou a casa dela?! — Freya cruzou os braços também. — Ou do senhor John da barbearia que estava sendo roubado e você deu um jeito nos meliantes?
— Teve também aquela vez… — Jenie ia completar.
— Ok! Eu entendi — bufei de leve. — A senhora Dolores tinha um grande afeto por aquela casa, morava lá há mais de quarenta anos, não ia deixar uma senhora ser despejada na minha área… O senhor John sempre teve consideração com o papai e minha família, ele nunca fez mal a ninguém e todos sabem que não devem roubar no sul de Vancouver, esse lado da cidade é meu, minhas regras.
— Querida Lady, você não é a Mulher-Maravilha — Freya retrucou.
— Alguém me entende aqui. — Jenie soltou um suspiro de alívio. — Eu disse isso para ela.
— Vocês sabem que eu odeio injustiça, não sou uma santa, mas… Era o que meu pai faria.

Elas se calaram, já sabia que estava com:
“Foi por isso que ele morreu.”
Na ponta da língua, para me dizer, porém, respeitavam muito a memória dos meus pais e de tudo que eles fizeram pelas pessoas daquele bairro; papai realmente era como a válvula de escape para todos. O que precisavam, recorriam a ele, que estava sempre pronto para ajudar, o que explicava o carinho e respeito dos moradores por mim e Mary.

— Desculpa, eu sei que não sou nenhuma super-heroína e não vou deixar que o mesmo aconteça comigo — disse, me referindo à morte deles. — Mas, se eu não mantiver a ordem aqui, quem vai? A polícia? Semana passada, vocês viram comigo a falta de respeito deles e o abuso de autoridade com o dono da mercearia da esquina.
— Só queremos que você tome cuidado — disse Jenie, como se sentisse um pouco mal por me repreender tanto.
— É claro que tomo, por isso tenho seguranças. — Pisquei de leve para elas, que riram de mim.
— Ah, sim, seguranças com roupas de mecânico — Jenie riu.
— Pior é quando pensam que eles é que vão consertar os carros. — Freya mantinha seu braço cruzado, balançando a cabeça negativamente — Não sabem nem o que é chave biela.
— Deixa de ser ranzinza — ri dela. — Você é muito bonita para ser reclamona.
— Você devia me agradecer por trabalhar aqui, segundo minha mãe, se eu fosse mais esperta, teria me tornado modelo. — Freya soltou uma risada maléfica — Queria ver como ficaria.
— É claro que você não iria me abandonar, somos melhores amigas desde a infância, e seu pai se aposentou trabalhando aqui. — retruquei — O legado da sua família é trabalhar junto com a minha.
— Que lindo. — ela me olhou emocionada — Você falou junto e não para.
— Ai, quem disse que existe hierarquia aqui? Você é minha funcionária e ganha mais do que eu — reclamei.
— Claro, eu trabalho mais.
— Vocês duas — Jenie se contorcia de tanto rir no sofá.
— Tá, ok, vamos deixar a troca de amor para depois, me diz, quem é o cara lá embaixo?
— James, aquele que trabalhava entregando jornal, a esposa dele fazia bombons para vender e tem duas filhas — respondi.
— Gostaria de saber como você consegue guardar os detalhes da vida de todo mundo dessa área — Jenie comentou, embasbacada.
— Pois é — Freya concordou.
— Herdei do papai — ri. — Mas então, ele ficou desempregado e acabou criando dívidas com quem não devia.
— Não me diga que foi com o Carl?! — presumiu Freya.
— Pior — Jenie comentou.

Carl era uma criança perto do Dimitri, estava no lugar do pai há quase um ano comandando a área oeste da cidade, mas queriam se mudar definitivamente para Toronto, onde tinham seus parentes.

— Dimitri — respondi.
— Ah, não… Que burro.
— Pois é, pegaram ele vendendo peças de carros roubados na minha área. — suspirei. — Justo aqui.
— E quanto ele deve?
— Cinco mil, e sua amiga louca quer comprar as peças. — Jenie desviou o olhar para o jornal da mesinha de centro.
— Estava cedo demais. — Freya suspirou também.
— Se eu não me impor agora, ele vai acabar invadindo — argumentei.

Toc...toc…
Voltamos automaticamente nossa atenção para a porta, Freya abriu e era Rodrigues que tinha retornado com as peças e a família dele.

— Mercedes. — disse ao terminar de descer as escadas — Você está bem?!
— Sim, senhora, um pouco com medo do que possa acontecer com James. — ela olhou para o marido — Ele só queria salvar nossa filha que estava doente.
— Vocês poderiam ter me procurado — disse com segurança.
— Me perdoe, foi em um momento de desespero, já que a senhora não estava na cidade. — explicou.

Logo me lembrei de que havia viajado para Chicago, para organizar uma corrida especial em comemoração do aniversário de um velho amigo da família, senhor Han.

— Poderiam ter falado com a vovó, mas tudo bem, o mal já foi feito e deixa que eu resolvo a partir de agora — assegurei a ela.
— Como vamos ficar depois disso, senhora?! — James se levantou da cadeira em que permanecia sentado até o momento e se aproximou de sua família, segurando na mão de sua filha de dez anos. — Não temos para onde ir e não tenho como sustentar minha família.
— Jenie. — Mantive meu olhar neles.
— Sim.
— Faça um contrato de trabalho, James é um homem forte, fará parte da minha equipe de segurança — ordenei. — Rodrigues ficará encarregado de cuidar de você, quanto à moradia, tenho certeza de que a senhora Kim tem um apartamento no térreo vago no seu prédio, diga que é um pedido meu, tenho certeza de que abrirá exceções.
— Obrigado, senhora. — Seu olhar de gratidão era sincero, o que me deixou ainda mais feliz por estar ajudando-os.

Era por esse olhar que meu pai jamais negava ajuda.

— Freya, venha comigo, vamos fazer uma visitinha a alguém. — olhei para meus outros funcionários — Irmãos T, vocês vêm com a gente, mas de moto.

Eles assentiram.
Voltei para meu escritório, peguei o valor em dinheiro que James ainda devia e coloquei em uma maleta. Tinha que admitir que meu lado mafioso estava gritando para sair de dentro de mim. Entrei no clássico Chevy Impala '67 do papai. Eu amava aquele carro. Assim que chegamos no tal QG ridículo dele, um pub moderado com traços da arquitetura tradicional francesa, adentrei sem medo, acompanhada de Freya, caminhei até a mesa onde estava sentado com seus amigos contando alguns bolos de dinheiro.

— Ora, ora… Visitas — disse o homem de jaqueta vermelha, com ar debochado.
— A quem devo a honra?! — Dimitri desviou o olhar das notas para mim, naquela indiscreta análise, partindo dos meus pés até chegar em meus olhos. — Eu te conheço?!
— Para a sua infelicidade, está conhecendo hoje. — Joguei a mala nele. — Isto é tudo que James te deve, deixe aquela família em paz.
— James… James… — ele fez uma cara de quem não sabia do que estava falando, então abriu a maleta e viu as notas enfileiradas. — Ah, sim, o ex-entregador de jornal… Quem diria que ele conseguiria! Foi para você que ele vendeu as peças?
— Não, suas peças estão devidamente desovadas na frente do seu... disso aqui. — olhei ao meu redor com cara de nojo. — Não quero nada que venha de você.
— Como queira… — deu um sorriso de deboche.

Me virei para sair, porém, voltei novamente minha atenção para ele.

— Ah, antes que me esqueça… Trate seus negócios bem longe da área sul.
— Área sul… — ele se levantou, demonstrando um pouco mais de interesse — Devo presumir que você é a famosa Lady.
— Está avisado.

Da mesma forma que entrei, saí.
De cabeça erguida e cheia de atitude, já era a hora dele saber quem eu era e que não iria fazer suas negociações na minha área. Os dias se passaram e a oficina estava transbordando de trabalho. Parecia que, a cada um carro que consertávamos, mais quatro apareciam. Era bom para os lucros, porém não estava tendo tempo para organizar minhas corridas. Eram elas que aliviavam o estresse da vida adulta cheia de responsabilidade. Eu precisava da minha válvula de escape, então combinei com Margareth, minha relações-públicas e a irmã mais nova de Jenie, para me ajudar a organizar um circuito de corridas pela cidade.

— Preciso que descole a permissão dos outros — disse, me referindo às outras áreas do bairro.
— Dimitri também?! — perguntou Marg inocentemente.
— Claro que não — respondi prontamente. — Quero ele longe de tudo que eu estiver envolvida.
— Como quiser, amiga, mas seria bom uma corrida naquela área, tem bastante gente de lá que participa.
— Não — continuei, relutante.
— Ok! Não está mais aqui quem perguntou — Marg segurou o riso, enquanto anotava em sua agenda de estimação. — Vou providenciar tudo para o nosso evento.
— Não se esqueça, desta vez, de informar ao nosso capitão do DP, para ele deixar seus policiais bem longe do nosso caminho.
— Não se preocupe, não me esquecerei desta vez, é a primeira coisa da minha lista de prioridades — assegurou ela.
— Confio em você, Marg — pisquei de leve.

Ela saiu do meu escritório rindo, logo Mary adentrou acompanhada de sua filhinha.

— Tia . — Clair correu e pulou em mim, que estava sentada no sofá.
— Oi, princesa! Que saudade!
— Se você não vai até a família, a família vem até você — comentou Mary ironicamente.
— Vocês sabem que tenho trabalhado muito.
— Sei, desde quando organizar corridas clandestinas é trabalho? — ela colocou a mão na cintura.
— Corrida é diversão. — Voltei meu olhar para Clair. — A mamãe é muito careta.
— Não sou careta. — retrucou — O que anda aprontando agora? Vovó vai te matar.
— Ela já me expulsou de casa, o que mais pode fazer? — indaguei.
— E você ainda fala como se fosse normal. — Ela cruzou os braços, embasbacada.
— Mas é normal, acho que essa já é a décima vez que ela me expulsa.
— Você ainda conta?!
— Claro, minha história de vida — disse com tranquilidade.
— Sua história de rebeldia — corrigiu.
— Nossa, você e as meninas só me dão bronca.
— Porque você merece, sua descuidada. — disse com um soar repreensivo.

Fechei a cara e fiz bico, fazendo Clair rir de mim juntamente com Mary.

— Como está meu cunhado?
— Fazendo hora extra. — respondeu, vindo sentar ao meu lado.
— A corporação está sem pessoal novamente? — perguntei, curiosa.
— Transferiram dois para Toronto, até agora não veio ninguém para substituir. — Ela me olhou. — E como foi? Ele é medonho como todos falam?
— Tá falando de quem? — perguntei, confusa.
— Dimitri, né!
— Não achei nada de mais — respondi.
— Porque você é desligada e quando veste seu lado mafioso, não 'tá nem aí pro perigo. — comentou. — Sabe o quanto é tenso isso, vovó pode até ter ficado brava, mas ela se preocupa com você.
— Eu sei, não se preocupe, eu estou bem e vigilante. — Sorri de leve. — E você, mocinha, soube que já começou a ir para a escola.
— Estou aprendendo o alfabeto, titia.
— Que lindo, isso é muito importante. — Sorri para ela.

Mary ficou mais um pouco conversando comigo.
Dos muitos assuntos, um em especial me chamou a atenção: um encontro arranjado que estava tramando para mim com um médico do hospital onde trabalhava. Pela foto, era bonito, mas não estava com cabeça para romances no momento. Já tinha se completado dois anos desde que terminei com Joe, meu último namorado, e ao longo desse tempo Mary sempre reservava suas folgas para bolar encontros malucos para mim. Tinha colocado na cabeça que, se eu me casasse, pararia com minha vida perigosa.

--


— Três… Dois… Um… — assim que Freya deu a largada, arranquei com meu motor.

É claro que eu não abria mão de participar efetivamente de meus eventos.
A corrida principal sempre contava com minha presença, mas também entrava nas batalhas de 10 segundos. Já coleciono cinco carros que ganhei em apostas; naquilo, sim, eu era a melhor. A cada curva que dava na pista das ruas de Vancouver, era um pulsar mais forte em meu coração. Me fazia ter lembranças vívidas do meu pai me ensinando a dirigir.

— Por que eu já sabia que você venceria?! — disse Jenie, assim que eu freiei na linha de chegada.
— Porque eu sempre ganho — gritei, desligando o motor e saindo. — Danis, me deve 500.
— Aqui, Lady, tenho que admitir, você acelera sem dó. — Entregou-me o dinheiro, admirado. — Mas me sinto honrado em poder correr com você.
— Que bom dizer isso, porque essa mandona não aceita qualquer desafio — brincou Jenie.
— Você aceitaria o meu?! — Uma voz grossa e firme veio de trás de mim, me fazendo sentir um breve arrepio.
— Está me desafiando?! — virei-me e olhei para o dono da voz, estava bastante formal com aquele terno cinza escuro disfarçando o tênis All Star branco, para quem queria participar de uma corrida clandestina — Tem certeza?!
— Me disseram que não aceita o desafio de qualquer pessoa, mas acho que é desculpa de quem tem medo de perder. — Ele desviou o olhar para Danis. — Sem ofensa.

Respirei fundo, pensando em algo para retrucar.

— Então, se não tem medo, pode dar a chance para um desconhecido. — ele sorriu de canto de forma pretensiosa.

Se seu objetivo era desencadear meu lado competitivo, estava conseguindo.

— Você parece muito confiante. — ri com deboche — Tudo bem, acho que posso abrir uma leve exceção à regra, afinal de contas, eu sou a dona delas.
— Você vai correr com ele?! — Jenie me olhou surpresa.
— Sim, diga que a corrida principal será somente entre nós dois. — voltei meu olhar para ele — Vamos ver como se sai nas ruas de Vancouver.

Entrei no carro e segui com Jenie até a rua onde era a largada.
Freya ficou um pouco chocada com minha decisão, assim como os outros corredores, porém, entenderam e aceitaram correr sem mim na noite seguinte. Minhas amigas ainda tentaram me fazer voltar à razão da minha regra inicial, mas eu estava motivada a descobrir, nem que fosse a 200 km/h, quem era aquele homem.

— Eu vou ganhar, não se preocupem. — Pisquei para elas.
— Que bom que não apostou o carro do seu pai — comentou Freya.
— Eu nunca aposto o carro do papai, é minha herança. — Olhei para ela.

Pouco antes de entrarmos no carro…
Enviei para ele o mapa com as ruas por onde teríamos que passar, era uma corrida pela cidade de ida e volta, onde terminaríamos parando no mesmo lugar. Assim que Jenie se posicionou entre os carros, as apostas entre os espectadores já rolavam a todo vapor, até mesmo pelas redes sociais. Todo mundo queria saber quem era o louco desafiante. Respirei fundo, sentindo meu coração acelerar com o ronco do motor, mais uma vez eu correria com o meu pai, simbolicamente, por mais que vovó e Mary não soubessem disso e talvez nem entendessem, aquele era o maior e mais forte motivo para continuar organizando as corridas. Pisei no acelerador assim que a bandeira se levantou nas mãos da minha amiga e parti. Eu estava confiante como sempre, fazendo minhas curvas como se estivesse montando um carro.
Em alguns momentos olhava para o lado e o via emparelhado comigo.
Pelo modelo, seu carro era uma Nissan 350Z preta, e muito bem ilustrada; que pena que ficaria suja com a poeira do meu asfalto. A ida foi tranquila, até que na terceira curva de volta, passando pelo centro da cidade, ele desapareceu de trás de mim, voltando a aparecer na minha frente no semáforo seguinte. Foi quando apertei o botão do gás nitro para acelerar a corrida. Mais alguns quilômetros à frente, o carro dele também foi acelerado, aparentemente de forma incorreta, pois começou a sair fumaça da capota da frente. Isso me fez desconcentrar na corrida, e na última curva ele me ultrapassou por alguns milímetros e a fumaça chegou à minha frente.

— Então?! — disse ele, ao sair do carro.

Eu ri, saindo do meu carro, não acreditava que tinha perdido por uma falta de atenção da minha parte.

— Você pode ter ganhado a corrida, mas pelo visto perdeu seu carro — disse, mantendo minha superioridade. — Acelerou na hora errada, o que explica a fumaça, certamente acabou danificando o motor.
— Você conhece bastante de carro — observou.
— Se me conhecesse de verdade, saberia disso — sorri de canto. — Entretanto, para sua sorte, passe na minha oficina amanhã, consertarei seu carro.
— Essa é a minha recompensa por ganhar? — seu olhar intenso me deixou perplexa.
— Entenda como quiser.

Afastei-me dele, seguindo para meu carro com Jenie.

— O que foi aquilo?
— Se ele queria me impressionar, acabou conseguindo — disse para ela.

Assim que cheguei na casa da vovó, subi direto para meu quarto, estava morta de cansada e não queria dar espaço para ela me dar alguma bronca por ter chegado de madrugada.

— Aonde pensa que vai?! — perguntou, assim que passei pela sala em direção à escada.
— Bom dia, vovó. — Não acreditava que estava me esperando, sentada em sua cadeira de balanço ao lado da janela.
— Vou me limitar a não dizer nada sobre o horário, mas tem um presente para você no seu quarto — comunicou.
— Um presente?! — fiquei confusa. — De quem?!
— Vá e veja. — Curta e grossa como sempre.
— Te amo, vovó! Bom dia! — abri um sorriso descarado para ela, que ficou segurando o riso de sua cadeira.
— Vá logo, menina, antes que eu te dê uma surra — brincou.

Subi as escadas correndo e ao entrar…
Vi um bouquet de rosas vermelhas em cima da cama e, ao lado, um cartão. Estranhei a princípio e logo pensei que pudesse ser de algum outro pretendente que Mary estivesse arrumando para mim, porém, assim que peguei o cartão, constatei que o dono não era quem imaginava.

— Espero que venha me visitar mais vezes, assinado Dimitri. — sussurrei ao ler — Quem esse idiota pensa que é?!

Pensei em rasgar o cartão e jogar as flores fora.
Mas a ideia de fazê-lo engolir aquele presente estava sendo mais convidativa. Na manhã seguinte, acordei um pouco mais tarde para ir trabalhar, ainda sentia minhas costas doerem, minha cabeça pesada e eu nem bebi. Mal cheguei na oficina e me deparei com Frey já xingando as novas recrutas que Jenie contratou; as aprendizes não me pareciam habilidosas na função de mecânicas, mas eram esforçadas. Precisavam do emprego: Taylor tinha a responsabilidade de ajudar a mãe, que havia sido abandonada pelo marido, com outros cinco filhos pequenos para criar; já Holly era órfã e acabou de ganhar sua emancipação aos 16 anos, além da guarda da irmã caçula.
Traduzindo, eu não podia demitir as duas.

— Relaxa e pare de ficar nervosa com facilidade, Freya — disse ao chegar perto dela. — No final, sempre dá tudo certo.
— Sei. — Olhou-me desconfiada. — Acho melhor ir se trocar, antes que o corredor apareça por aqui.
— Ele não veio ainda — ri. — Achei que chegaria logo pela manhã.

Caminhei em direção às escadas rindo e segui para meu escritório, deixei as persianas entreabertas e me troquei no meu banheiro privado. Passei alguns minutos analisando os impecáveis relatórios financeiros que Jenie fazia com orgulho. Se fui a melhor aluna de engenharia, ela havia sido a melhor de administração, com pontuações de dar inveja a qualquer nerd. Não demorou muito até que ouvi o som estranho de um motor morrendo; um largo e instigante sorriso surgiu em minha face.
Levantei-me da minha mesa e desci.

— E não é que veio mesmo! — comentei ao me aproximar dele.
— Não iria desperdiçar a chance de ter meu carro consertado por você — disse, num tom sarcástico.

Analisei disfarçadamente seu “look” do dia; estranhamente, estava mais casual, com uma básica camisa social branca e jeans preto, além do All Star.

— Ok, vamos analisar — disse, olhando superficialmente. — Marg, faz a ficha do carro para mim.
— Sim, senhora! — disse, batendo continência de forma debochada, como sempre.

Minhas amigas ficaram observando discretamente de longe, claro que, assim como eu, queriam saber aonde aquilo ia dar. Abri o capô do carro e comecei a observar com cuidado cada centímetro; o problema realmente é no motor e na instalação elétrica. Peguei minha caixa de ferramentas e a coloquei ao lado, em cima da mesa de apoio.
Era complicado, não sabia por onde começar.

— Ele vai sobreviver, doutora?! — brincou o homem.
— Bem, o paciente está em estado crítico, mas você veio no lugar certo. — Sorri de canto, entrando na brincadeira. — Então, Desafiante...
— Pode me chamar de . — Sorriu de volta.
, acho que seu carro ficará aqui por alguns dias — informei.
— Devo ficar feliz por isso?! — indagou, mantendo seu olhar fixo em mim.
— Talvez, se o seu objetivo era se aproximar de mim.
— Do que está falando?! — Seu olhar ficou confuso.
— Você sabe muito bem.

Assim que peguei a chave inglesa, dei uma rasteira nele para que caísse no chão e montei em cima dele, como sempre fazia, bati a chave ao lado do seu rosto. Todos ao nosso redor ficaram espantados com minha reação, então meus seguranças se posicionaram perto, mostrando estarem armados.

— Quem é você e o que quer aqui?! — perguntei diretamente.
— O quê?!
— Fala logo — gritei. — Foi o Dimitri que te mandou, não é?!
— Não, juro, nem conheço esse tal de Dimitri — respondeu, ainda tentando assimilar e voltando seu olhar para os seguranças. — Por favor, não é isso que está pensando.
— Claro que não, Dimitri apareceria pessoalmente. — Coloquei a chave inglesa no bolso do meu macacão e comecei a vasculhar os bolsos dele.
— O que é isso? — questionou, se remexendo no chão, tentando me impedir. — O que está fazendo?
?! O que é isso?! — perguntou Freya, não entendendo minhas ações.
— É isso — disse com satisfação ao encontrar um grampo de escuta atrás do cinto da calça. — Sabia que você era certinho demais para ser das ruas, é um policial.

Logo meus seguranças apontaram a arma para ele, então levantei, joguei no chão o grampo e pisei em cima.

— Parece que você me pegou — admitiu, rindo como se não fosse um problema. — Acho que agora podemos conversar seriamente.
— Quem é você?! Conheço o rosto de todos os policiais de Vancouver — disse.
— Agente Lewis, da Interpol — disse Jenie, ao entrar na oficina, como se estivesse esperando essa deixa para aparecer. Estava com uma pasta nas mãos. — Passei a madrugada com um amigo invadindo alguns sistemas, mas valeu a pena as câmeras de segurança terem filmado seu rosto.
— Sabia que faria o trabalho de casa. — Sorri para ela, então voltei meu olhar para ele. — Agente Lewis, acho que iria me enganar por quanto tempo?
— Confesso que não esperava por uma amiga hacker. — Ele olhou para Jenie, depois para mim. — Mas estou aqui por algo do seu interesse.
— Meu interesse?!
— Dimitri Brock — respondeu. — Me parece que você o conhece bem.
— Já até comprou briga — comentou Freya, de forma debochada.
— Freya — chamei sua atenção, fazendo-o rir. — Agente, não tenho nada que possa falar com você, nem mesmo sobre o Dimitri.
— Tem certeza?!
— Seu carro ficará pronto daqui a três dias, quanto ao valor, fica por cortesia da casa. — avisei. — Agora pode se retirar.

Dei as costas para ele, e segui em direção à escada.

— Era só o que me faltava — disse ao entrar no meu escritório, seguida por Jenie e Freya.
— E agora?! — perguntou Jenie. — , ele correu com você, ele é um policial.
— O que quer dizer com isso?! — a olhei com a serenidade de quem não devia nada.
— Ele tem provas contra você — disse Freya. — Não precisamos ser um gênio para imaginar no que pode rolar.
— É a palavra de um… — então caiu minha ficha. — Que merda, ele estava com escuta.
— Viu, eu disse que era loucura aquela corrida — Jenie tentava não se desesperar.
— Calma, o máximo que pode acontecer é eu ser presa por alguns meses — brinquei.
— Não tem graça.
— Não importa o que possa acontecer, não quero ouvi-lo — assegurei.
— Eu gostaria — interveio Jenie.
— O quê? — dissemos eu e Freya.
— Ele mencionou Dimitri, não te deu uma curiosidade? — explicou.
— Olhando por esse ângulo — concordou Freya.
— Não sei… Dimitri me enviou um buquê de rosas vermelhas e um cartão — respirei fundo. — Não sei mais o que pensar.
— Aquele babaca ousou fazer isso?! — Freya boquiaberta.

Assenti com a face.
Eu não queria me preocupar com mais isso na minha vida, mandei um entregador devolver as flores e o cartão para Dimitri no final da tarde. Deixei minhas amigas na direção das corridas da noite e passei a madrugada na oficina consertando o carro do agente, quando pensei estar sozinha.

— Você não dorme?! — disse, aparecendo da porta.
— Estou tentando garantir que você desapareça daqui, agente. — Mantive minha atenção no sistema elétrico do motor. — O que faz aqui?
— Quero conversar com você — disse.
— Mas não quero, pode ir embora. — Larguei a chave de fenda e o olhei. — Agora.
— Uau, você é muito autoritária, por isso te chamam de Lady?! — perguntou, com ar curioso.
— Não, foi meu pai que me deu esse apelido, as pessoas foram se acostumando com ele — expliquei.
— Você era bem ligada ao seu pai — comentou.
— O que sabe sobre isso?
— Não imagina o quanto estudei sobre você. — Manteve seu olhar fixo em mim.
— E nada disso deu certo para seu disfarce, o que pretendia?! — perguntei. — Me fazer apaixonar por você e depois me convencer a te ajudar em algo? Não acredito que achou que eu fosse tão fácil assim.
— Bem, meu plano era um pouco mais simples, mas… A ideia de te fazer se apaixonar por mim. — ele riu — Gostei.
— Ridículo. — voltei meu olhar para o motor — Tudo bem, pode falar.
— Falar o quê?! — senti sua movimentação.
— O que você quer? — assim que me virei, já estava próximo o suficiente para ouvir sua respiração — O que quer de mim?
— Admito que quero sua ajuda, temos um inimigo em comum. — explicou, dando um passo para se afastar.
— Essa filosofia não cola muito comigo. — ri.
— Eu sei que Dimitri tem causado alguns problemas a você, a Interpol também não gosta dele há anos, podemos nos ajudar. — insistiu.
— Eu até poderia pensar, mas não me envolvo com pessoas do seu tipo.
— Meu tipo?!
— Que usam fardas. — expliquei.
— Os agentes não usam fardas.
— Trabalha para o governo, prende pessoas, dá no mesmo. — retruquei.
— Você sempre tem respostas imediatas assim? Ou é só comigo? — ele riu.
— Ainda não viu nada. — me voltei para o carro — Já que está aqui, vai me ajudar.
— Você não pode me ajudar, mas posso te ajudar. — Ele riu mais. — Pensei que fosse consertar isso sozinha.
— Pare de falar, se não se comportar, eu coloco uma bomba escondida aqui. — o ameacei brincando.

O que fez soltar uma gargalhada boba.

--


— Alô — atendi o celular sem a menor vontade.
?! Onde você está?! Meu amigo do hospital disse que você o deixou sozinho no restaurante — disse minha irmã desesperada do outro lado da linha.
— Levantei para ir ao banheiro, nossa, quando me dei conta já estava bem longe de lá, errei o caminho — respondi com sarcasmo. — Juro que não foi de propósito.
— Eu te conheço muito bem, , estou envergonhada por você — repreendeu-me. — Ele é meu amigo.
— Lamento, mas ele não tinha assuntos legais, eu lá quero saber quantas veias tem no corpo humano?! — retruquei. — Me desculpa, Mary, mas esse foi o pior encontro que você me arrumou, e olha que aquele dono de concessionária esnobe conseguiu ganhar na comparação, pelo menos ele sabia algo sobre carros, e me deixou dirigir o Mustang dele.
!
— Mary! Preciso desligar, diga à vovó que dormirei na oficina, preciso terminar o carro de você sabe quem — expliquei o motivo.

Assim que coloquei o celular no bolso, tive uma surpresa desagradável.

— Ora, ora, quem está aqui. — Dimitri sorriu ao se aproximar de mim, sentando-se na banqueta ao lado. — A garota das corridas.
— Esse bar já foi mais bem frequentado, Timothy. — disse ao garçom, conhecido de anos que sempre me servia.

Timothy permaneceu em silêncio secando o copo em sua mão, mas, pelo seu olhar, sabia que concordava comigo.

— O que faz aqui? Pensei que nunca saísse da espelunca que chamamos de QG. — Voltei meu olhar para ele.

— Estava passando por perto e pensei em beber algo — respondeu. — Que sorte a minha.
— Que azar o meu — retruquei.
— Por favor, não acredito que ainda me odeie por causa da família do entregador. Aquelas flores foram meu pedido de desculpas. — O cinismo escorria do seu olhar. — Pensei que tivesse entendido minha resposta com a devolução. — Mantive meu olhar nele. — Não está aqui para beber, o que você quer, Dimitri?
— Para ser sincero, em um passado próximo, eu queria mandar em toda Vancouver, mas após te conhecer, meus interesses mudaram. — Ele estendeu a mão para tocar em meu cabelo. — Você é uma mulher muito ousada.
— Tira a mão de mim. — Tentei fazê-lo se afastar, porém, ele pegou em meu pulso com força.
— Posso te oferecer muitas coisas, que outras mulheres se matariam para ter. — afirmou.
— Eu não quero nada que venha de você. — Mantive meu olhar firme.
— Então, terei que convencê-la do contrário. — sorriu com ar de superioridade e soltou meu pulso.
— Oi, querida. — apareceu misteriosamente ao meu lado e me beijou com destreza e certa ousadia, de forma moderadamente intensa.

Assim que me afastei de leve dele, o olhei como um pedido de explicação.

— Não sabia que estava acompanhada — comentou Dimitri.
— Sim, ela está — confirmou , passando seus braços em minhas costas, pousando sua mão em minha cintura, aninhando meu corpo ao dele. — Me desculpe a demora, tive que me atrasar um pouco, e você quem é? É seu amigo, ?!
— Não — disse, tentando voltar ao eixo. — Nos vemos depois, lady. Dimitri se afastou de nós.
— Querida?! — Mantive meu olhar para . — E um beijo?!
— O que você queria que eu fizesse? — Ele sorriu com malícia. — Nosso amigo ainda está nos observando.
— Era só o que me faltava — ri baixo. — Por que me beijou?
— Não gostou do beijo?! — Sorriu audaciosamente.
— Abusado, havia outras formas de se aproximar.
— Eu precisava ser convincente — ele riu. — Mas confesso que o beijo foi intencional.

Respirei fundo, até que não tinha sido tão ruim assim.

— Vocês, agentes, são sempre assim? — perguntei.
— Não, mas você está despertando vários lados meus — brincou.

Ridículo. Mas charmoso!

— Por que disse que estava atrasado?
— Foi a primeira coisa que me veio à cabeça — respondeu, com um sorriso de canto presunçoso.
— Cretino — sussurrei. — Você estava todo esse tempo sentado na quinta mesa, aos fundos do bar, me vigiando.
— Como sabia que era eu?! — Seu olhar parecia o de alguém admirado.
— Você está me seguindo desde a hora em que saí de casa para meu encontro. — Cruzei os braços — Precisa ser mais discreto em vigiar as pessoas.
— Nunca fui bom em espionagem. — ele suspirou. — Podia ter me pedido carona então, já que sabia que era eu.
— E perder a oportunidade de te fazer achar que está um passo na minha frente?! — eu ri. — Jamais.
— Mercenária, mafiosa.
— Com prazer. — Pisquei de leve.

Ele se manteve ao meu lado o tempo todo, abraçado a mim.
Não sabia se aquilo era bom ou ruim, pois já estava um tanto desnorteada pelo aroma envolvente do seu perfume. O tempo foi passando e fiquei com sono, mas estava relutante para ir embora. Aparentemente, Dimitri estava fazendo mais um de seus negócios no bar do Timothy, porém, quando me dei conta, já estava adormecida no sofá da minha oficina.

— Você me deixou dormir — sussurrei, abrindo os olhos e vendo a persiana do meu escritório.
— Achei que seria melhor não te impedir — respondeu.
— Como me trouxe, ou melhor, como conseguiu entrar aqui?! — perguntei, erguendo meu corpo.
— Te trouxe de carro, estava um pouco sonolenta, e entrei pela porta da frente. Sua amiga Jenie ainda estava aqui quando chegamos — explicou.
— O que ela fazia aqui? — indaguei.
— Trabalhando, eu acho.
— Jenie e sua mania de perfeccionismo. — Mantive meu olhar na jaqueta dele que me cobria. — Assim, nunca vai arrumar um namorado.
— Falou a solteira da cidade — ele riu.
— Minha vida íntima não te interessa. — Olhei-o de cara fechada. — E não ache que mudei de ideia quanto ao que disse, seu carro já está quase consertado, poderá pegá-lo amanhã à tarde e sumir daqui.
— Como eu também disse, ainda te farei mudar de ideia — assegurou e sorriu de canto.

Ficamos nos olhando por alguns minutos, até que o despachei para fora da oficina. Eu realmente não dormiria aquela noite, tomei um café extra forte e voltei para o trabalho em seu carro. Perder horas de sono foi gratificante, pois na tarde seguinte consegui entregar a chave em suas mãos.
O carro estava cem por cento renovado.

— Três dias, você é uma mulher de palavra. — disse, pegando as chaves.
— Nunca duvide disso — assegurei. — Agora pode ir.

Ele assentiu sem problema, entrou no carro e partiu. Achei estranho, não tentou me convencer ou simplesmente argumentar mais, somente se foi.

— Está muito estranho — sussurrei.
— Pela primeira vez, concordamos. — Jenie se colocou ao meu lado.

Os dias de calmaria foram breves.
Uma semana depois do sumiço geral do agente, recebi uma ligação aflita da minha avó, após a hora do almoço. A padaria do senhor Martim havia sido incendiada criminalmente. Parei todo o meu trabalho e corri para o local. Por mais que o corpo de bombeiros fizesse todo o trabalho, na prática, eu tinha que descobrir o culpado.

— Quem em sã consciência faria isso? O senhor Martim é uma boa pessoa — indagou Jenie, que havia me acompanhado.
— Não sei, mas vou descobrir — reconheci um rosto e segui até ele. — Hilth, cunhado, que bom que está aqui.
— O senhor Martim é um grande amigo do meu pai, não pude deixar de acompanhar pessoalmente — explicou. — O que faz aqui?
— Ainda pergunta, essa área é minha — respondi. — Minha avó me ligou contando, mesmo não gostando de como levo minha vida, ela sempre me liga nessas situações.
— Porque confia no seu senso de justiça — concordou, ponderadamente.
— E como está a situação? — perguntei.
— Controlamos o fogo com facilidade, estamos terminando a perícia, mas quase certeza de que foi criminal — garantiu, segundo sua experiência profissional. — E veio endereçado.
— Como assim?! — Olhei-o confusa.
— Vem comigo — Ele se aproximou do carro de bombeiros comigo. — O senhor Martim estava com alguns ferimentos e escoriações, teve leves queimaduras e já o enviamos ao hospital, mas antes ele me fez prometer que te entregaria isso.

Ele retirou do banco dos motoristas, um buquê de rosas vermelhas e me entregou.

— O senhor Martim disse que entenderia o recado.
— Não acredito — sussurrei ao pegar o buquê, já matando a charada. — Filho da mãe.
— Você sabe quem foi, não sabe?!
— Sei. — Passei a outra mão no cabelo, sem saber o que faria. — Cuide dos trâmites legais, não se preocupe, vou resolver isso mais tarde.
— Tenha cuidado, cunhada.
— Terei.

Pedi que Jenie auxiliasse a família do senhor Martim, aquela padaria era o sustento deles, então me sentia na obrigação de ampará-los naquele momento. Passei a noite em claro no escritório da oficina, controlando minha raiva enquanto mantinha meu olhar fixo naquelas rosas. Na manhã seguinte, não perdi tempo ao entrar no carro do papai e seguir em direção ao QG do inimigo.
Estava cega de raiva?
Sim, queria fuzilá-lo.

— Eu não disse para ficar longe? — Mantive um tom moderado ao jogar as flores na cara dele.

Em segundos, seus homens apontaram suas armas para mim.

— Sabia que viria pessoalmente desta vez — ele riu. — Gostou da surpresa?
— Você é um monstro — sussurrei.
— Sabe o que mais me atrai em você? É ver como mantém sua postura impecável, mesmo diante dessa situação — Ele me olhou de baixo para cima como da primeira vez. — Só me faz te querer mais.
— Vai sonhando, você não me mete medo nenhum.

Ele soltou uma gargalhada.

— Eu disse que te faria mudar de ideia… Não vou desistir.
— Tem razão… — eu ri — Você realmente me fez mudar de ideia.

Me virei e saí do seu QG.
Havia mudado de ideia, mas não era da forma que ele esperava.
Voltei para casa da minha avó e expliquei para ela e Mary o que havia acontecido, ocultando a parte que envolvia Dimitri, não queria causar ainda mais pânico. Fui para meu quarto, joguei-me na cama e, pela primeira vez, estava sentindo um enorme peso nas costas, sentia-me culpada pelo que havia acontecido ao senhor Martim. Com isso, a primeira lágrima desceu em minha face, não sabia classificar se era de tristeza, raiva ou, curiosamente, de saudade dos meus pais.
Certamente, se papai estivesse aqui, saberia o que fazer.
Horas de sono foi a solução, ou melhor, minha única opção para uma mente cansada e cheia de problemas para resolver. Quase hibernei no quarto, estava mesmo sobrecarregada. Acordei no dia seguinte, pouco antes do almoço, ouvindo certa movimentação intensa no andar de baixo. Estranhei, pois a vovó não gostava de receber visitas na hora do almoço, a menos que fosse Mary ou minhas amigas. Me espreguicei um pouco antes de levantar, então peguei a toalha e adentrei o banheiro. Precisava mesmo de uma ducha quente para acordar os músculos do meu corpo. Assim que coloquei a roupa, prendi o cabelo e desci; certamente, todo aquele barulho se devia à minha sobrinha vendo TV. Dito e feito, porém um corpo estranho estava sentado no sofá da sala, com o olhar voltado para mim, da forma mais natural possível.

! Que bom que acordou — disse Mary ao me ver, logo me pegou pelo braço e me puxou em direção à cozinha — Trate já de ir contando tudo.
— Como assim contando tudo?!
— Que história é essa de conhecer e começar a namorar o amigo do meu marido, sem eu te apresentar ele antes? — explicou ela.
— O quê? — tentei disfarçar meu olhar estático.

Namorar?!

— Não precisa fingir sua boba, ele me contou tudo — insistiu ela.
— Ele?!

Eu mato o .

— Ele está aqui desde quando? — perguntei.
— Chegou há pouco tempo.
— E quando ficou sabendo do meu suposto namoro? Desde quando Hilth o conhece?! — aquela era eu, confusa pelas muitas informações novas.
— Lembra quando te contei que Hilth já fez um treinamento militar? Mas resolveu mudar para o corpo de bombeiros?
— E?!
— Eles são amigos desde essa época, era ele que eu queria te apresentar há muito tempo, mas você sempre dizia que não queria farda — explicou.
— Ele não veste farda — corrigi-a.
— Mas fez treinamento militar, prende pessoas perigosas, dá no mesmo. — deu de ombros.

Essa fala é minha.
Senti uma leve tontura, estava ainda mais desnorteada.

— Você sabe que ele é um agente da Interpol, não sabe? — perguntei. — Foi ele quem correu comigo, foi o carro dele que eu consertei.
— Ou… Isso eu não sabia.
— Então o namoro é…
— Falso — completei.
— Ai, nossa, e agora?! O que ele faz aqui?!
— Ele veio ser a solução do meu problema. — Mordi meu lábio inferior, pensando. — Onde está a vovó?
— Hilth a levou para visitar o senhor Martim no hospital.
— Ele está bem?
— Sim, felizmente a situação não é grave — contou.
— Mary, me faz um favor, dá uma voltinha com a nossa princesa na rua, preciso conversar a sós com meu “namorado” — pedi.
— Tudo bem, mas cuidado e juízo. — Ela me olhou, receosa.

Voltamos para a sala e ele permanecia com aquele olhar sereno. Mary pegou Clair no colo e saiu dizendo que iriam comprar sorvete para a sobremesa.

— Parece que dessa vez, eu é que estou um passo à frente — ele riu.
— Não tem graça — Mantive-me séria. — Que história é essa de namoro?
— Acredite ou não, foi a primeira coisa que me veio à mente — respondeu. — Sua avó não queria me deixar entrar.
— Ela não te deixaria entrar só por dizer isso — retruquei.
— Tenho um amigo na família, seu cunhado.
— Ainda não acredito nessa parte da história.
— E juro que essa parte não foi premeditada — Ele suspirou fraco. — Enfim, já que contou à Mary quem eu realmente era, por que não deixá-la participar da nossa conversa?
— Vai me dizer que colocou escutas aqui também?! — Cruzei os braços.
— Confesso que fiquei tentado, mas respeito sua privacidade — sorriu. — Além do mais, sei que toda ação acontece na oficina.

Mantive meu olhar nele em silêncio.

— E por falar em ação, não foi perigoso demais tentar enfrentar o inimigo sozinho? — continuou.
— Como soube? — Mantive meu olhar desconfiado.
— Voltando a nada ser premeditado, eu soube do incêndio, foi quando me deparei com Hilth e descobri que ele era seu cunhado — explicou. — Não acredito que deixei esse detalhe passar, estava tão focado em você.
— Sei.
— Mas, então, depois que ele saiu da corporação, nos encontramos em um bar para colocar a conversa em dia, foi quando ele mencionou novamente a cunhada que queria me apresentar e mostrou sua foto. — Sorriu de forma cativante. — Parece que estávamos mesmo destinados a nos encontrar.
— Não sorria assim — alertei.
— Gosta do meu sorriso? — Num tom presunçoso. — Ou está com medo de se apaixonar?
— Já disse que comigo não funciona, então pare seu plano de me seduzir — adverti.
— Eu já disse que não tenho esse tipo de plano — ele riu. — Mas acho que sua irmã está tentando nos preparar um jantar romântico.
— Cancela o jantar, ela já sabe quem você é… — lembrei. — E logo falarei para minha avó que não somos namorados.
— Não precisa — ele riu. — Ela não acreditou mesmo, disse que eu me vestia muito bem para namorar você, devo levar isso como elogio?
— Minha avó era costureira profissional, sabe o que é uma boa peça de alfaiataria quando vê. — Apontei para seu terno. — E você está usando uma.
— Estou admirado. — Arqueou a sobrancelha direita.

Parei por um momento e pensei.

— Agora eu é que estou curiosa, Hilth...
— Sabe — confirmou antes mesmo de ouvir a pergunta toda. — Ele sabe que sou da Interpol.
— E ainda assim queria me apresentar a você? Eu mato o meu cunhado!
— Nossa, você fala como se eu fosse uma pessoa má — lançou-me um olhar ofendido, levantando-se da cadeira. — Você realmente tem esse pensamento de mim?

Não sei o motivo, mas meu olhar fixou em seus lábios por um momento. Então respirei fundo e voltei à razão.

— Não importa agora, você venceu.
— O que eu venci? — ele continuou dando passos sinuosos até mim.
— Eu mudei de ideia — respondi.
— Mudou de ideia?! — confuso e reflexivo. — Curioso, o que a fez mudar de ideia? — O próprio Dimitri, indiretamente. — Dei um passo para frente para ficar mais próximo a ele, então sorri. — Você tem razão, inimigo do meu inimigo é meu amigo. — Devo presumir que estamos avançando em nossa relação? — brincou.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Será maravilhoso trabalhar com você. — Sorriu de canto, mantendo aquele mesmo olhar intenso em mim, fazendo meu corpo se arrepiar.

Sim, seria divertido trabalhar com ele e eu aproveitaria cada segundo.
Minutos depois, Mary retornou com Clair, acompanhada de Hilth e vovó. Contamos toda a verdade a eles, principalmente a parte em que ajudaria em seu plano para prender Dimitri definitivamente.

— Não sei se fico aliviada pelo agente estar aqui, ou apreensiva por você estar se metendo em mais confusão — disse vovó ao terminar de lavar a louça do almoço, após todos irem embora.
— Não se preocupe, vovó, eu sei os meus limites — assegurei ao despejar a água da garrafa no copo e beber. — Não darei o passo maior que a perna.
— Como se eu não te conhecesse. — Ela balançou a cabeça negativamente, mantendo o olhar em mim. — Você é destemida como seu pai, temo por isso.

Deu alguns passos até ela e a abracei com carinho.

— Me esforcei tanto para que não fosse assim, mas, no fim, acabou herdando o gênio dobrado do seu pai — disse ela, começando a chorar.
— Eu também sinto falta dele, vovó.

Permanecemos um tempo abraçadas, até que minha avó se afastou de mim e riu.

— Que menina de sorte, não vai perder essa oportunidade — disse ela, dando uma risada maldosa.
— Do que está falando, vovó? — Olhei-a confusa.
— Do agente bonitão. — Pegando o pano, começou a limpar o fogão.
— Você também?! Já não basta Mary dizendo que coincidências são sinais de sorte. — Cruzei os braços, ainda desacreditada da história de ser amigo de Hilth. — Era só o que me faltava.
— Você está escolhendo demais, minha neta — riu de novo. — Ou está com medo? — Não tenho medo de nada, vovó — garanti.
— Sei… — Terminando sua limpeza, olhou-me. — Seria pedir demais que você se casasse com um homem bom, honesto e tivesse uma vida normal e segura como a de Mary?
— Vovó, não somos nem gêmeas para termos uma vida igual — brinquei. — Além do mais, sei que, perigoso ou não, a senhora sabe como é importante o que faço. Eu não tenho uma vida de contravenções, minhas corridas são saudáveis, e o principal, a área onde moramos é a mais segura da cidade e não temos que presenciar crianças vendendo drogas.

Meus argumentos eram bons.

— Odeio admitir, mas sinto um pequeno orgulho da grande mulher que virou, seu pai também estaria orgulhoso com isso — admitiu.
— E com certeza a mamãe estaria ainda mais apreensiva que a senhora — eu ri. — Verdade, sua mãe tinha um emocional fraco para uma vida de perigos — riu junto. — Mas no final, foi valente ao lado do seu pai.
— Quero ser como eles, independente do caminho que eu seguir em minha vida — disse ao tocar a correntinha em meu pescoço, presente do último natal que passei com eles.
— Mas isso não muda o fato do agente… — ela riu de novo.
— Pare com isso, não vou me casar ou ter algum tipo de relacionamento com um homem que usa farda.
— Ele não usa farda — alegou ela.
— Tem distintivo e prende pessoas perigosas, dá no mesmo — retruquei.

Ela me deixou na cozinha e saiu para o jardim dos fundos rindo da minha cara.
Não acreditava que minha avó e irmã estavam se juntando para me casar, e ainda mais com esse pretendente. Duas semanas se passaram comigo e estudando tudo sobre o passado e presente de Dimitri, para enfim conseguir arquitetar o melhor futuro para o nosso inimigo em comum: a penitenciária de segurança máxima ao norte de Whitehorse.

— E então?! — perguntou , assim que entrei no meu escritório da oficina.
— O que ele faz aqui?! — perguntei desviando meu olhar para Jenie, que me acompanhava.
— Não olhe para mim, ele chegou de manhã cedo te procurando, disse que ficaria aqui até você chegar. — Ela entregou a pasta com os balanços do mês e se retirou. — Espero que não tenha colocado escutas aqui — disse, me dirigindo para perto da mesa de trabalho e colocando a pasta perto do notebook.
— Por quem me tomas?! — ele riu.
— Você é um agente da Interpol — resumi.
— Não se preocupe, seus negócios na oficina são todos bem-vistos perante a lei. — Piscou de leve. — Pode respirar aliviada.
— Como se eu não soubesse que você sabe das minhas corridas. — Cruzei os braços e o olhei séria.
— Até o momento, você não causou nenhum dano à sociedade com suas corridas e todas estão sendo monitoradas pela polícia local, fique tranquila.
— Sei. — Ainda não confiava. — E então, o que o traz aqui?
— Não me contive de ansiedade, então vim te ver — respondeu ele. — Como foi o café da manhã com a senhora Hana?
— Produtivo, ela aceitou a sua proposta e está inteiramente interessada em nos ajudar — respondi prontamente. — Descobri que ela também possui inimizades com Dimitri, então usei isso a nosso favor com bons argumentos.
— Garota esperta, você daria uma boa agente — elogiou.
— Deus me livre. — Fiz careta e ri. — Agora que já sabe, pode ir.
— Mal-educada — sussurrou.
— Eu ouvi essa.
— Temos algumas peças soltas para colocar no eixo, então o dia será longo hoje. — Ele piscou e logo deu um sorriso malicioso.
— Não vai achar que pode tirar proveito da situação — adverti. — O fato de Mary e vovó estarem empolgadas com o tal jantar da vitória não quer dizer nada.
— Eu disse que Mary estava preparando um jantar — riu.
— Ha… Ha… — remexi de leve em meus cabelos e logo me lembrei do beijo ousado que havia me dado no bar. Era um alívio não ter contado para minha irmã. — Depois que pegarmos o Dimitri, eu vou sair de férias — anunciou.
— E eu deveria saber disso?! — Olhei-o surpresa.
— Não, mas não quero que seja pega de surpresa quando eu te desafiar novamente — Ele sorriu com mais ousadia. — Vou querer escolher o prêmio da próxima vez.
— E qual seria?
— Um encontro de verdade — Seu olhar fixo em mim, fez meu coração acelerar um pouco.
— E se eu ganhar?! — retruquei.
— Te dou um beijo.
— Abusado — Ri dele. — Mas, posso considerar.

Brinquei.

— Ainda garante que seu plano não é me conquistar?! — eu instiguei.
— Bem, se tratando das coincidências da vida, acho que sou inocente, mas não nego minha vontade atual. — se aproximou um pouco mais de mim — Acho que foi você quem me seduziu.
— Eu é que sou…

Nem mesmo pude terminar a frase e seus lábios tocaram os meus.
Um beijo ainda mais intenso que o primeiro. Comparado a meus outros relacionamentos, fazia o tempo paralisar de alguma forma, como se tudo ao nosso redor desaparecesse e só existíssemos nós dois. Meio louco da minha parte, mas passar aquelas semanas com ele estava sendo uma experiência que não desejava que terminasse; seus comentários sarcásticos e seu bom humor me faziam rir de tempos em tempos.

— Abusado. — Afastei-me dele, tentando demonstrar indignação, mas não conseguindo.
— Você precisa variar os adjetivos que arruma para me classificar — riu com sarcasmo.
— Opa… — disse uma voz vinda da porta, era Mary. — Devo me empolgar com isso?!
— Não! Sim! — dissemos em coral, claro que eu negando.
— Hum… — ela tentou segurar o riso sem sucesso.
— O que faz aqui, Mary? — perguntei.
— Ah… Quase ia me esquecendo — Ela deu alguns passos até nós e me entregou o buquê de rosas vermelhas que estava em sua mão, juntamente com um cartão. — Chegou pouco antes do almoço; como seu celular está fora de área, a vovó me ligou.
— Meu celular descarregou, coloquei na tomada há pouco tempo — disse, pegando as flores. — Dimitri realmente acha que consegue ser cavalheiro.
“Estas rosas são minha resposta, estou ansioso para saber se vai aceitar desta vez” — disse ao ler o cartão. — O que significa?
— Que ele aceitou minha proposta, vamos fazer a corrida do ano — expliquei.

A proposta para organizar uma corrida na área de Dimitri era o que nosso inimigo mais queria de mim, consequentemente, era também o ponto inicial do plano milimetricamente calculado de . Meu olhar focou no dele, e um sorriso de satisfação misturado à empolgação logo surgiu no rosto de . Consegui sentir uma leve ponta de gratidão misturada ao prazer de ter minha ajuda.
O que me fez ficar ansiosa para a próxima corrida.

"Someone call the doctor."
- Overdose / EXO


Help: Há momentos na vida que a ajuda vem de onde menos esperamos, então fique atento e perceba quem são as pessoas que realmente pode contar.” - by: Pâms



Fim


Qual o seu personagem favorito?


Nota da autora: Welcome to Pâms' Fictionverse!!!

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