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Revisada por: Sagitário♐

Última Atualização: 25/4/26
Perdizes, outubro de 2020
Apesar do forte sol de primavera que atingia o asfalto da maior cidade do Brasil, havia algo naquele dia que não conectava. Um clima cinzento e depressivo — quase como de luto — pairava sobre o escritório onde estava.
Ela bateu o telefone com força no gancho, fazendo a funcionária do outro lado da sala dar um pulo na cadeira depois de cinco minutos em completo silêncio. passou a mão no rosto, abaixando a cabeça por mais alguns segundos — talvez minutos. Tentar não se apegar era quase impossível no seu emprego.
— Outra desistência? — a voz da colega foi ouvida, mas preferiu ignorar.
— Vou pegar um café — disse, levantando-se. Ajustou a máscara no rosto e saiu da sala.
Seu corpo achava que o caminho até a copa, no primeiro andar, era perto demais. Então, pôs-se a caminhar um pouco mais longe. Quando percebeu, já estava do lado de fora do Fórum e até respirou fundo com a diferença de clima. Desviou de algumas pessoas que entravam e saíam, seguiu pela calçada e atravessou a rua junto com uma massa de pessoas que aguardavam o semáforo. Virou na primeira rua à direita, entrando por uma pequena porta. O cheiro de café a atingiu de imediato.
Entrou na curta fila e esperou sua vez. Havia esquecido a carteira, mas ficou aliviada por estar com o celular no bolso — o novo Pix vinha facilitando sua vida.
— Boa tarde! O que posso te servir? — a atendente sorriu por baixo da máscara. nem tentou retribuir.
— Um capuccino cremoso, por favor — pediu, sentindo o cansaço em sua voz.
— Treze e vinte e cinco — informou a atendente. abriu o aplicativo do banco.
— Pix, por favor — respondeu. A mulher lhe estendeu um papel com um número de telefone, e fez o pagamento antes de guardar o celular.
— Seu nome?
.
— Só aguardar ao lado, por favor.
Ela se afastou da fila, aproximando-se da área de entrega. Tentava manter o distanciamento social, embora não estivesse cheio a ponto de ser um problema. ouviu dois nomes antes do seu, se esgueirou para pegar o copo quente e cremoso, e se virou para sair dali o mais rápido possível.
Seu braço esbarrou no de alguém. O copo foi direto ao chão, derramando todo o líquido. Um pequeno “oh” escapou da boca da barista. Aquilo foi como um soco. abaixou-se automaticamente e, de repente, começou a chorar copiosamente.
— Me desculpe! Me desculpe! — repetia, cobrindo a máscara com a mão.
— Está tudo bem! — disse a barista rapidamente.
— Eu preciso de um pano! — balbuciava, confusa. — Por favor, você tem um pano?
Seus olhos vermelhos denunciavam que não estava tudo bem, causando surpresa tanto na barista quanto no cliente com quem esbarrara.
— Senhora... está bem? — uma voz com sotaque perguntou, mais próxima ao seu ouvido. ergueu o rosto. Um homem de máscara estava agachado ao seu lado. — Posso ajudá-la? — Estendeu-lhe a mão.
— Me desculpe. Não é um bom dia — ela respondeu, abanando a mão. As lágrimas se acumulavam na máscara, mas ele a ajudou a se levantar.
— Por quê não respira um bocadinho? Eu vou buscar-lhe outro café — disse, com voz calma e sotaque reconfortante.
— Eu preciso limpar, eu...
— Está tudo bem, senhora. — A atendente já estava com um rodo e um pano. A barista preparava outro capuccino igual ao anterior.
— Venha cá... — O homem guiou-a até uma mesa alta. sentou-se num banco. Ele voltou ao balcão e pagou o café.
aproveitou para tirar a máscara e puxou alguns guardanapos para secar os olhos. Sentia-se ainda mais estúpida por chorar como uma criança por causa de um café derramado. O homem voltou com o novo café dela e o seu, sorrindo discretamente por baixo da máscara ao notar a beleza da mulher.
— Você não precisava... — disse ela, apressando-se para recolocar a máscara.
— Está tudo bem. — Abanou a mão. — Acho que precisa só de respirar um pouco.
— Eu ia gostar... — Suspirou, trazendo o copo para perto.
— Quer partilhar? — perguntou. percebeu uma certa esperança nos olhos castanhos dele. Respirou fundo antes de tomar um pequeno gole
— Eu sou assistente social, trabalho no Fórum... — Fez um gesto vago com a mão. — Por causa da Covid, estamos recebendo uma quantidade gigantesca de desistências... — A voz embargou. — Só penso nas crianças abandonadas nessa época... — respirou fundo. — Me desculpe.
— Está tudo bem — assentiu. — Imagino que não seja um trabalho fácil...
— Não é. A gente aprende a deixar os sentimentos de lado, mas... — Enxugou os olhos novamente. — É a sétima ligação da semana. E ainda é terça-feira.
Ele tirou a máscara, mostrando o rosto. Ela tentou esconder a reação.
— Acredito que tudo são fases — disse ele, com um sorriso discreto. — Há de passar.
— Eu sei... — Ela suspirou. — Mas temos algumas crianças com necessidades especiais que precisam de atendimento próximo e...
— Respire — disse, e ela puxou o ar com força, soltando-o devagar. — Apesar de tudo, o seu trabalho é incrível.
— Eu gosto, mas, nesses momentos... — Balançou a cabeça e bebeu mais um gole do café.
— É só uma fase — repetiu.
— Você parece saber do que está falando. — Ele riu, com gosto.
— Bem, depois de alguns problemas pessoais, achei que seria interessante começar no Brasil...
Ela finalmente entendeu o sotaque. Ele não era brasileiro, mas o português era impecável.
— Você é português — constatou, e ele assentiu.
— Abel.
— ela respondeu. Ele sorriu.
— O que te traz ao Brasil, Abel?
— Sou treinador de futebol. Vim treinar o Palmeiras, o clube, sabes? — Ela reconheceu os traços familiares.
— Você é o novo treinador do meu time? — disse, rindo.
— Você torce pro Palmeiras?
— Você está em Perdizes, Abel. — Ela deu de ombros, fazendo-o rir. — Uau, que prazer te conhecer!
— Espero que não se arrependa daqui a uns meses. — Riram.
— Nhá! Independente disso, você me ofereceu um ombro pra chorar. — Ele sorriu. — Serei eternamente grata, mesmo que não traga troféus pro meu time.
— Estou à espera que dê a hora da minha reunião — comentou.
— Bem, te desejo toda sorte do mundo. O futebol brasileiro é muito caótico...
— Já ouvi dizer — Sorriu. — Alguma dica? És literalmente a primeira pessoa com quem falo por aqui.
— Não se deixe abalar pelas críticas. A torcida é chata demais — ele assentiu.
— Eu também sou um bocado emotivo... espero não me deixar afetar tanto.
— Impossível! — ela disse, rindo e finalizando o café. — Eu preciso ir.
— Trabalho?
— É... Dei uma fugidinha, mas... — Olhou o relógio. — São só três horas...
— Claro! Claro! Ainda tenho aqui uma hora...
— Boa sorte, ok? — Ela sorriu.
— Igualmente — respondeu, num tom mais sério.
— Pode deixar. Ah, o café! Posso pagar?
— Não, não podes — respondeu ele, e ela riu.
— Obrigada — agradeceu novamente.
— Mas... podemos encontrar-nos aqui outra vez, no futuro? Para eu saber como ficaram as crianças — disse, e ela riu de leve.
— Próxima terça, nessa mesma hora? — ela sugeriu, brincando.
— Combinado! — respondeu ele, fazendo-a sorrir por trás da máscara.
— Combinado, então... — ela achou graça, sem realmente acreditar que ele apareceria. Mas já ansiava por esse reencontro. — Faça um bom trabalho...
— Vou dar o meu melhor! — sorriu, e ela deu um último aceno antes de sair da cafetaria.




Perdizes, outubro, 2020
olhou para o relógio — passava pouco das três horas. Ponderou com a cabeça: era terça-feira novamente, mas será que ele estaria lá?
A página com a notícia da contratação de Abel Ferreira estava aberta em seu computador. Novo técnico do Palmeiras, 41 anos. Veio após a saída de Vanderlei Luxemburgo.
Devido à Covid e aos problemas recentes, não vinha tendo tempo para acompanhar seu time de infância. Ouvia as notícias e passava diariamente em frente ao estádio para chegar ao trabalho, mas não sabia dizer quando tinha sido o último jogo — muito menos o resultado. Era, com toda certeza, uma péssima torcedora.
Mas algo estranho pairava em seu coração. Será que devia ir a esse encontro?
Eles combinaram sem combinar. Disseram que se veriam novamente, mas ninguém falou dia, muito menos horário. Não trocaram sequer números de telefone. É claro que ele não apareceria, ainda mais agora, que estava na boca do povo e da imprensa.
Mas... e se ele fosse? Ela não se surpreenderia se ele não fosse, mas também não queria decepcioná-lo caso aparecesse. Ele era o novo técnico do seu time — merecia, no mínimo, respeito. Além disso, estava chegando ao Brasil agora, depois da passagem pelo PAOK, da Grécia., como ele mesmo dissera: “Ainda não conheço ninguém.”
Ela matutou por mais alguns minutos enquanto finalizava o relatório da última visita à casa de uma família interessada em adotar um garoto de oito anos. Ficou genuinamente feliz ao ver que, dessa vez, o interesse foi confirmado. Estava cansada de negativas e recuos — uma confirmação era quase motivo de festa.
Finalizou o documento dentro dos padrões da Vara da Infância e Juventude do Foro Central e o encaminhou para o juiz. Agora, restava aguardar a liberação para as primeiras visitas e, com sorte, a oficialização da adoção.
Olhou novamente para o relógio: haviam se passado vinte minutos desde a última vez que checara. Ponderou mais uma vez entre o sim e o não. Sua curiosidade, no fim, falou mais alto. Levantou-se da cadeira, pegou o celular e a bolsa, recolocou a máscara no rosto e saiu da sala.
Ainda sentia vergonha do surto da semana anterior, mas ele... ele havia sido tão calmo, atencioso. E ela estava mesmo precisando daquilo.
Fez o mesmo caminho da semana passada, acompanhando o vai-e-vem de gente pelas ruas de São Paulo. As restrições da pandemia estavam mais leves, e a cidade começava a se movimentar novamente.
Ao entrar na cafeteria, varreu o espaço com os olhos. Nada de Abel. Sentiu um leve desapontamento no peito. Talvez estivesse animada demais com a ideia de conhecer alguém novo.
Suspirou ainda na porta, pensando em voltar. Mas, já que estava ali, ao menos tomaria um café. Nada como afogar as mágoas com um cappuccino bem forte e um pedaço de bolo de cenoura.
— Desculpa... estive na casa de banho. — virou-se, surpresa, ao vê-lo surgir de um corredor lateral. — Saí a correr.
— Ei! — disse ela, surpresa.
— Pensaste que eu não vinha, não foi? — disse ele, com o olhar nervoso. — Nem tive hipótese de te dar o meu número para combinarmos, mas…
— Estou feliz que veio. — Ela sorriu sob a máscara. — Técnico.
— É... treinador. — Riu. — Queres sentar-te? — Ela assentiu, e os dois seguiram para a mesma mesa da semana passada. — O que queres beber?
— Um cappuccino... e um pedaço de bolo de cenoura.
— Combinado! — Ele foi até ao balcão, e ela suspirou, deixando escapar um pequeno sorriso.
A cafeteria estava vazia naquele dia, então Abel foi e voltou rapidamente. Primeiro, deixou dois pedaços de bolo na mesa; depois, buscou as bebidas — ele optou por um expresso. Sentou-se com ela.
— Então... — ela riu. — Honestamente, eu não tinha certeza se devia vir.
— Pensei o mesmo. — Riu. — Quer dizer… uma parte de mim queria mesmo que viesses, mas outra não sabia se ias aparecer. Ela retirou a máscara.
— Eu pensei o mesmo... — Deu um gole no cappuccino. — Digo... minha vida tem sido só trabalho. Às vezes, acho que só precisava de um amigo.
— Como te disse, foste a primeira pessoa que conheci aqui. Se calhar, eu também estava a precisar.
Ela sorriu.
— E então? Como foi a reunião?
— Bem, contrataram-me. — Riram. — Vamos lá ver como me saio.
— Eu poderia dizer que você vai se dar bem, mas... o Brasil tem um costume péssimo de demitir treinador por baixo desempenho.
— O meu primeiro jogo é quinta-feira. Se perder... pode ser que nem volte para o nosso próximo café — disse ele, e ela riu.
— Também não precisa ser tão dramático. Talvez se perder três... — Riram juntos.
— Espero que não... Fiz uma aposta enorme ao aceitar vir para cá.
— Quer compartilhar?
— Ah, nada de grandioso. É só que tenho filhas. Estão em Portugal com a mãe. Estar na Grécia, onde estava antes, era mais perto… Brasil e Portugal não é propriamente uma ponte aérea.
— Compreendo. — Ela assentiu. — E... sua esposa?
— Não tenho esposa — respondeu. — Já há dois anos. Temos uma relação muito respeitosa um com o outro. — assentiu de novo. — Foi com a separação que fui para a Grécia. Mas ela deu-me as minhas duas filhas lindíssimas, sou muito grato por isso.
— Que bom. — Ela sorriu.
— E tu? És assistente social, certo?
— Sim, sou. É praticamente tudo que você precisa saber da minha vida. — Ela riu.
— Sem marido? Namorado? Filhos?
Ela riu de leve, sentindo o peito apertar, mas limitou-se a negar com a cabeça.
— Não... só eu. Visito minha mãe com frequência. Ela mora no interior, uns 100 quilômetros daqui.
— E tens tido mais sorte no trabalho? Na semana passada estavas...
— Me desculpa por aquilo. Acho que estava na TPM, juntou com o trabalho e...
— Não te desculpes. Nem todos os dias são bons.
— É... mas foi feio. — ela riu, e ele sorriu também.
— Como disse um dos meus jogadores: há dias em que é noite, não é?
— Exatamente. — Ela riu e checou o relógio. — Mas sim, tive mais sorte. Hoje enviei um relatório ao juiz sobre a adoção de um menino de oito anos. Isso me deixou com o coração mais leve.
— Deve ser incrível isso.
— Tem seus altos e baixos. Eu lido com entrevistas, visitas, acompanhamentos, mediação... elaboro pareceres. E também cuido da parte ruim: desistências, devoluções, decisões de retirada de uma criança da família...
— Isso não deve ser bom.
— Não mesmo... — suspirou. — O Estado brasileiro é bom nessa área, mas há casos complicados. Já vi juiz dar guarda pra quem não devia, e a criança acabar sofrendo. Para bebês, insistem muito em mantê-los na família biológica antes de encaminhar para adoção... mas, às vezes, a família é completamente desestruturada.
— Isso é horrível.
— É... então imagina, eu já vi de tudo um pouco.
— Há quanto tempo trabalhas com isso?
— Doze anos.
— Uau! — Ele se inclinou levemente para trás, surpreso. — Desculpa perguntar, mas...
— Trinta e sete — disse ela, rindo. — Passei num concurso aos vinte e cinco, e desde então me encontrei. Não sou muito fã da cidade de São Paulo, mas a gente se acostuma...
— É grande, não é? Não estou habituado! — disse a rir.
— A gente acaba se afeiçoando... de uma forma ou outra. — Ela checou o relógio mais uma vez. — Eu preciso ir, estou no meio do expediente.
— Antes de ires, dá-me o teu número, por favor — pediu, fazendo-a rir. Ele tirou o aparelho do bolso e estendeu-lhe.
Ela viu uma foto dele com duas meninas entre dez e quinze anos e digitou rapidamente seu número antes de devolver o aparelho.
— Pronto, agora podemos mesmo combinar uma hora. — Riu.
— É?
— Vou gostar de ter uma amiga — disse. — E tu, pelo que parece, precisas de um amigo.
Ela riu.
— Terça que vem?
— Às três e meia? — sugeriu ele.
— Combinado! — disseram juntos, trocando sorrisos.
— E, se tiver algum compromisso, pode me mandar mensagem. — Ela sorriu.
— Vamos ver se sobrevivo ao Bragantino, depois falamos.
— Ganhe! Não vai ser bom perder um amigo tão cedo. — Riu. — Estou brincando, não quero te deixar nervoso.
— Não te preocupes! — Riram juntos.


Washington D.C., junho, 2025
Meus olhos ardiam com a luz intensa do computador e a iluminação baixa do cômodo. Já tinha fechado os olhos pesadamente três vezes, mas insistia em terminar a leitura daquele artigo. Faltavam só...
— Dez páginas? — Gemi baixo com a descoberta, tirando os óculos de leitura e coçando os olhos mais uma vez.
Virei para o lado, vendo Lia esparramada no cercadinho, no canto da sala. O silêncio no apartamento alugado em Washington D.C. só era interrompido pela respiração suave da minha menina e o som abafado do metrô, que passava ao longe.
Na mesa da sala, além de três canecas diferentes de café, havia folhas rabiscadas com anotações sobre os artigos do curso de Políticas Públicas e Proteção Infantil que eu já tinha lido. Não era fácil equilibrar estudos, maternidade e saudade. O tema me agradava muito, mas hoje eu estava com sérios problemas para focar. A ansiedade estava gritando.
Levantei devagar, evitando fazer barulho, já que minha mãe dormia no sofá com um livro aberto sobre o peito. Sou muito grata por ela ter topado vir comigo — assim pude trazer Lia e não passar quatro meses morrendo de saudade da minha pequena.
Agora, no entanto, a saudade era de outra pessoa. Uma que apertava forte no peito.
Talvez essa viagem tenha acontecido no pior timing possível, mas foram quatro anos esperando por um movimento dele. Eu não podia continuar adiando as oportunidades que surgiam — e já vinha postergando esse curso desde 2023.
Ouvi meu celular vibrar em cima da mesa. Franzi a testa, olhei rapidamente em direção à minha mãe e a Lia — ainda dormiam. Suspirei, aliviada. Peguei o celular, abri o aplicativo de mensagens e vi o nome dele.
Abel. Como se ele estivesse lendo meus pensamentos. Mesmo à distância.
Hoje seguimos para os Estados Unidos. Vamos a ficar em Greensboro. Posso pedir que venhas me ver? Faz-me esse favor?
Sorri, inevitavelmente. Até em texto, o sotaque português parecia estar ali — impresso nas palavras. Era como se eu ouvisse a voz dele me dizendo aquilo. Ele nunca deixou de ser esse jeito direto. Nunca deixou de ser ele.
Eu sabia que esse campeonato nos Estados Unidos traria alguma vantagem... Como torcedora e como amiga, meu coração já estava acelerado. Mas com esse reencontro tão esperado... agora sim que a ansiedade ia bater de verdade.
— Mamá? — Me distraí com a voz de Lia, vendo-a se sentar no cercadinho. Os cabelos cacheados estavam armados em sua cabeça, e a chupeta ainda presa à boca.
— Ô, meu amor, acordou? — Me aproximei dela. Ela esticou os braços e eu a peguei no colo, sentindo os bracinhos se enroscarem no meu pescoço e as perninhas se prenderem na minha cintura.
— Uhum... — Dei um beijo em sua testa, ajeitando os cabelos bagunçados de quem acabou de acordar.
— Fiz cocô — ela disse, com um biquinho, e eu a apertei nos braços. O desfralde não estava sendo nada fácil.
— Ô, meu amor, tá tudo bem. — Beijei sua testa. — Que tal um banho? A gente troca essa fralda suja, coloca uma roupa bem fresquinha e come alguma coisa?
— Uhum! — Ela abriu um largo sorriso, me fazendo rir.
— Minha esfomeada! — Dei um beijo no meio dos cachinhos. Foi quando vi minha mãe se mexendo no sofá.
— Ah, eu dormi. — Ela se espreguiçou devagar. — Ai, minhas costas... — Virou-se para mim. — Oi, filha, terminou?
— Ainda não, mas precisava de uma pausa — respondi. — Já estava piscando forte... Vou aproveitar pra dar um banho nela.
— Quer que eu faça isso? — ela sugeriu.
— Não precisa, vou ficar um tempo com ela. Quer pensar em alguma janta pra gente? — Apontei com a cabeça para Lia.
— Hum... me deu vontade de comer pastina mais cedo. — Minha mãe disse, sorrindo.
— Olha, tá um calor danado, mas eu adoraria uma pastina agora. Me lembra a vó — respondi, rindo.
— Eu vou fazer — disse ela, se levantando.
— E eu e essa pequena vamos tomar um banhão bem fresquinho! — Apertei Lia, arrancando uma risada gostosa dela.
— Quelo meu bichinho! — ela pediu.
— Vamos procurar seu bichinho, meu amor! — respondi, rindo, enquanto seguia com ela para o interior do apartamento.

Abel

Academia de Futebol do Palmeiras, Água Branca, São Paulo.
O tempo em São Paulo era do mais aleatório possível, mas hoje nem estava tão calor assim. O céu estava encoberto, tinha chovido de manhã, mas eu me sentia quente por dentro. Minha testa suava, e não era pelo clima. Era pela expectativa.
O Mundial começava em poucos dias, e eu sei bem o quanto isso significa para o time, para o clube, para a torcida. A gente trabalhou muito pra chegar até aqui. Mas, no fundo, havia outra coisa pulsando junto com esse momento. Uma esperança.
Eu queria reencontrar a nos Estados Unidos. Estava me preparando para dizer a ela tudo aquilo que guardei por tempo demais — que a amava, que queria ficar com ela. Mas esse curso dela acabou colocando tudo em pausa.
Sim, talvez eu devesse ter falado antes. Anos antes, até. Mas me faltou coragem. Tive medo de decepcionar minhas filhas… e, talvez, minha ex-esposa também.
Uma notificação apareceu na planilha que eu mantinha aberta no tablet. Era dela.
Claro, Abelito! Está na hora! Me diga quando que eu vou até vocês! respondeu, me fazendo sorrir.
Sorri, mesmo sem querer. e esse apelido… só ela pra me tirar do eixo assim. Estava torcendo para que o curso já estivesse na reta final, para que ela pudesse vir com a gente. A presença dela seria importante — não só pra mim. Depois de quase cinco anos de amizade, muitos jogadores também gostavam de tê-la por perto. Diziam que eu ficava mais leve.
— O míster tá até andando mais leve hoje — comentou Weverton, cruzando os braços enquanto pedalava, e preferi ignorar.
— Aposto que não é só o café que tá animando ele — completou Veiga, sem levantar os olhos do celular, e revirei os olhos.
Desfiz o sorriso que, claramente, estava em meus lábios, e ergui o olhar para os dois — além de Gómez e Ríos, que finalizavam a musculação nas bicicletas. Os quatro me encararam de volta, com aqueles sorrisos brincalhões e olhares provocadores. Neguei com a cabeça.
— Algum problema aí, ou tão a falar de mim pelas costas?
— Que isso, míster! Só estávamos comentando como o senhor parece... inspirado — disse Gómez, com um sorriso de quem sabia mais do que devia.
Cocei o queixo, rindo sozinho. Com esses quatro — e alguns outros — era difícil esconder qualquer coisa.
— É impressão de vocês. A cabeça tá no Mundial. Jogo importante, foco total. Vocês sabem.
Os quatro riram na hora.
— Ah, claro — emendou Richard, fingindo inocência. — O Mundial. E o café em Washington também, aposto!
Apontei pra ele com um olhar de ameaça divertida.
— Vais ver se não te deixo no banco só por isso, rapaz.
— Agora sim! — explodiu Veiga, gargalhando. — Será que finalmente te veremos com nossa querida ?
Revirei os olhos.
— “Nossa” querida, não. Minha querida! — Eles gargalharam de novo. Só então percebi que tinha deixado escapar. — Já disse pra vocês que eu não sou homem de ficar falando da minha vida pessoal, né? — rebati, pegando o tablet de volta, enquanto via Weverton saindo da bicicleta.
— Mas também não é homem de esconder quando tá feliz, né?! — Weverton se aproximou com um tapa no meu ombro. — Boa sorte lá, professor. Que esse Mundial traga mais que uma taça, hein?
Revirei os olhos, mas sorri.
— Estão livres! Podem terminar de se arrumar! — falei, observando os outros três saírem das bicicletas e caminharem pela academia em direção à saída mais próxima.
Respirei fundo. Meus preparadores já organizavam a bagunça do treino da manhã. Teríamos nosso almoço, e depois seguiríamos viagem para os Estados Unidos. A jornada seria longa, mas a minha cabeça já estava lá faz tempo. Com ela.
Ou melhor, já estava com elas. Lia faziam a mesma falta que as minhas filhas.


Washington, D.C., junho
Já havia perdido as contas de quantas vezes encarei o relógio estrategicamente colocado na mesa de cabeceira. Eu o ignorava e, minutos depois, voltava a fitar os números com o mesmo intervalo de sempre — menos de cinco minutos. Já estava ficando inquieta.
Empurrei o lençol que me cobria, sentindo-o me abafar, apesar do ar-condicionado estar ajustado para 18 graus. Nunca pensei que enfrentaria um calor digno do Brasil nos Estados Unidos. Quase todos os dias beiravam os 30 graus, mas era a umidade que tornava tudo ainda mais sufocante.
Olhei para o relógio mais uma vez. Uma da manhã.
— Eu vou ficar louca — sussurrei, sentando-me na cama enquanto coçava o rosto.
Tentei dormir assim que Lia pegou no sono. Achei que poderia aproveitar algumas horas extras de descanso ao invés de pensar em Abel, mas meu corpo decidiu o contrário. Ao menos Lia dormia bem.
Levantei com cuidado, andando na ponta dos pés até a outra cama. Ela estava ali, pequena e entregue ao sono, os cabelos bagunçados, o braço enlaçado no porquinho de pelúcia, a boca entreaberta. A chupeta havia rolado pelo colchão. Peguei-a devagar, aproveitando para escondê-la por ora. Até ela se lembrar novamente.
Ajeitei a coberta sobre seu corpo e aumentei um pouco a temperatura do ar-condicionado. Para mim estava suportável, mas para ela poderia ser demais. Voltei a caminhar em silêncio até sair do quarto, fechando a porta com o máximo de cuidado.
De volta ao corredor, suspirei e andei normalmente até a cozinha. Talvez um chá quente me ajudasse a descansar. Peguei uma caneca no armário, enchi com água do filtro e levei ao micro-ondas. Dois minutos. Parei o aparelho antes dos segundos finais para não fazer barulho.
Abri a caixinha do chá de camomila, coloquei o sachê dentro da água fervente e me apoiei na bancada, esperando a infusão acontecer.
— Problemas pra dormir? — Levei um susto ao ouvir a voz da minha mãe, vinda do corredor, já de pijama.
— Você também? — perguntei, franzindo a testa.
— Eu te ouvi — disse ela, se aproximando.
— Só pensando... — Dei de ombros.
— Sobre certo português?
Ri baixinho, assentindo.
— O que te preocupa? — Ela se sentou à mesa, me observando com calma.
— Tenho medo de que nada mude — confessei. — Que depois desses quatro meses tudo continue exatamente como era antes.
— Ele te ama, filha. Isso é óbvio.
Suspirei.
— Ama mesmo? — Dei de ombros. — Nos conhecemos há quase cinco anos… e até agora, nada. Já devo ter entrado na friendzone.
— Nunca — ela respondeu com um sorriso firme. — Nenhum homem que cuida da sua filha como se fosse dele te colocou na friendzone.
Ela segurou minha mão, apertando com carinho.
— Talvez só faltasse o momento certo.
— E qual é esse?
— Talvez seja hora de descobrir — disse, levantando-se. — Tome um Dramin, se for necessário. Mas durma.
Assenti, sem dizer nada.
— Boa noite — disse ela, deixando um beijo no meu rosto.
— Boa noite, mãe.
Fiquei ali por mais alguns segundos, em silêncio. Retirei o sachê da caneca, depositei-o na pia e adocei o chá com algumas gotas de adoçante. Bebi devagar, tentando pensar na aula do dia seguinte. Teria palestras, um conteúdo que até me interessava… mas naquele momento, nada parecia realmente importante.
Encontrei a cartela de Dramin junto aos medicamentos da minha mãe e tomei um comprimido. Finalizei o chá. Se conseguisse dormir, seria um bônus. Mas duvidava que o sono viesse forte o suficiente para me fazer perder a aula.
Voltei para o quarto com passos lentos. Meu corpo começava a esquentar — talvez efeito do chá, talvez do cansaço. Aquela diferença sutil de temperatura entre os ambientes me acalmou. Entrei no quarto outra vez na ponta dos pés, deitei-me com cuidado e puxei o lençol fino sobre mim. Mania minha.
Peguei o celular automaticamente. Não tinham se passado nem vinte minutos.
Foi então que vi a notificação no WhatsApp.
Abel.
Meu coração disparou.
Chegamos. Mal posso esperar para ver vocês! As tenho no coração. Sempre tive!
— Ai, Abel... — murmurei, apoiando o celular no peito, sentindo o coração apertado. — O que você faz comigo, hein?
Devolvi o celular ao carregador e fechei as mãos no lençol. Meu coração batia mais forte, mais rápido.
Está perto. Está perto…

Abel

Greensboro, junho
Ajeitei-me no banco do autocarro, sentindo o corpo a escorregar no assento. Esfreguei os olhos, fixando as luzes do carro à frente. Afastei a cortina, espreitando lá para fora: o dia ainda claro e um prédio antigo do outro lado da rua.
Tínhamos chegado.
Depois de um voo até Miami, seguido de uma ligação até Greensboro… finalmente, estávamos cá. As minhas costas estavam em frangalhos e o estômago roncava de fome. A última refeição foi ainda no outro voo — desde então, só café.
O autocarro contornava o campus da UNC Greensboro quando ouvi os primeiros gritos. Metros depois, vi a claque a agitar bandeiras. Foi nessa altura que as luzes do autocarro acenderam, e os jogadores começaram a acordar, a bater nas paredes, a animar ainda mais quem estava lá fora.
Esta torcida era qualquer coisa de especial! Um mar de verde e branco. Em Greensboro.
— PALME-E-E-IRA-A-A-S! PALME-E-E-IRA-A-A-S! PALME-E-E-IRA-A-A-S!
O autocarro não parou para cumprimentarmos a torcida. Não sei bem como funcionava por cá, mas o campus parecia enorme. Em vez de o som abrandar, parecia que só crescia. Lá dentro, os rapazes também ligaram a chave do “Mundial de Clubes”. Era como se já estivéssemos a disputar uma final.
Queria acompanhar esse ânimo, mas só pensava em jantar e cair na cama. Não dormia bem em voos internacionais — ainda menos com esta ansiedade toda. O primeiro jogo era em menos de uma semana. Tínhamos que preparar o espírito… e o coração.
Quatro meses depois, estava no mesmo país que a outra vez. E não esperava sentir-me como um miúdo apaixonado de novo. Não que tenha conseguido esquecê-la durante este tempo… Cada mensagem dela era um disparar de emoções. Mas agora… agora estamos cá.
O autocarro parou em frente a um edifício antigo, e fui um dos primeiros a sair. Por fora, o hotel tinha ar de coisa velha — mas por dentro era moderno. Talvez não estivéssemos na zona dos estudantes.
A Leila já estava lá, com os assessores e o pessoal da comunicação do Palmeiras. Cumprimentei-os com um aceno — viemos apenas noutros transportes — e esperei os jogadores se juntarem no lobby, largo e alto.
— Bem, pessoal! Hoje é dia de descanso — disse a Mônica. — Vamos distribuir as chaves dos quartos, o jantar já está servido no segundo andar. Amanhã começam às nove. Café da manhã a partir das seis.
— E nada de encherem a barriga! Não vou perdoar treino mole por causa disso, hein? — brinquei, arrancando risos. — Descansem, miúdos!
— Pode deixar, míster! — responderam em coro, em tom de gozo carinhoso.
— Professor… — Mônica estendeu-me a chave. — O número do quarto e o andar estão no cartão.
Olhei. Quinto andar, quarto 51. Segui até ao elevador, e alguns dos adjuntos vieram atrás. Subimos todos juntos.
— Encontramo-nos no jantar. — disse o João, e respondi com um simples aceno de cabeça.
Queria um banho e cama. Mas antes… precisava mesmo de comer qualquer coisa.
Uma coisa de cada vez, Abel.
Atirei as malas para um canto assim que entrei no quarto. Era espaçoso — e, sendo treinador, tinha sempre essa vantagem: um quarto só para mim.
Tirei o blazer verde do Palmeiras, deixei-o numa poltrona e fui buscar o telemóvel na mochila. Sentei-me na cama quando o encontrei. Havia uma mensagem da .
Estamos esperando ansiosas por você. Faça uma boa viagem e me avise quando estiver em Greensboro (nome propício para o Palmeiras, né?!)
Sorri com o trocadilho.
Chegamos! Vou-me ajeitar e amanhã começa o trabalho.
Enviei a resposta. Mal fiz isso, vi que ela já tinha lido.
Descansa sim, essas viagens acabam com a gente. <3
Sorri de novo, dessa vez com o coração. Suspirei.
A vós também!
Logo a seguir, uma foto começou a carregar. Era ela com a Lia. A menina com a mamadeira de sumo verde, os caracóis todos desgrenhados — e só o sorriso da aparecendo por trás.
As minhas meninas.
Mal posso esperar para vos ver.






Perdizes, São Paulo, janeiro de 2021
saiu correndo da estação de metrô, ajeitando a bolsa no ombro. O começo do ano estava caótico para os trabalhadores em São Paulo, mas ela aproveitava suas férias da melhor forma possível.
Só ainda não tinha aprendido a lidar com todo o tempo livre que aquele recesso lhe proporcionava.
Havia chegado de Indaiatuba naquela manhã, dado uma geral no apartamento, e acabou perdendo completamente a noção do tempo. Aquilo ali não era Indaiatuba, onde se atravessava a cidade em meia hora. Em São Paulo, era movimento, trânsito, metrô e muita gente em pouco espaço — e o resultado só podia ser um: atraso.
Ela parou de correr ao alcançar a esquina da cafeteria. Respirou fundo, ajeitou os cabelos, secou a testa e descolou a blusa suada do corpo, por conta do calor sufocante de janeiro, antes de entrar.
— Ei! Chegaste! — disse Abel, próximo à porta, com um sorriso que a desarmou.
— Me desculpa! Perdi totalmente a hora! — largou a bolsa na cadeira e o abraçou.
— Não te preocupes.
— Eu sei que você tem hora... não queria te atrapalhar — respondeu, um tanto culpada.
— É bom ver-te — disse ele, mudando de assunto com suavidade. — Feliz ano novo!
— Ah, verdade! Pra você também! Como passou? — Ela se sentou à frente dele, numa das banquetas mais altas.
— Acabei por ficar por aqui. Com esta coisa da quarentena, nem consegui ver as minhas filhas...
— E o time? Nenhuma grande festa? — perguntou, tentando se ajeitar na cadeira, ainda recuperando o fôlego.
— Recebi muitos convites... mas não era bem isso que eu estava a precisar — respondeu, brincando com o canudo do suco à sua frente.
— Não acredito! Devia ter ido pra Indaiatuba comigo... — riu, e ele a acompanhou.
— Agradeci o convite várias vezes, , mas tu também precisavas estar com a tua família.
Ela suspirou. O convite tinha sido mais por educação, afinal três meses de convivência mal sustentavam uma amizade. Mas o jeito caloroso da sua família não permitia deixar ninguém de fora de grandes celebrações.
— Mesmo assim! — disse, com um sorriso. — Vai ficar só no suco? Quer um café?
— Melhor ficar no sumo, sim — respondeu, com um riso discreto.
— Me dá um minuto, então.
Abel observou enquanto recolocava a máscara e seguia até o balcão. Pouco depois, voltou com um café com chantilly e um pedaço generoso de torta.
— Hum, pedido diferente? — brincou ele.
— Eu ‘tô de férias! — disse ela, erguendo as mãos em rendição. Ele riu. — Servido?
— Acho melhor manter-me longe da glicose hoje... — Ela assentiu.
— Sabia que essa torta se chama Torta Holandesa, mas foi criada aqui no Brasil? — comentou, antes de colocar um pedaço na boca.
— A sério? — Abel riu. — Parece boa.
— Vamos fazer um acordo? — ela propôs, inclinando-se levemente.
Ele assentiu com a cabeça, curioso.
— Se você passar pelo River hoje à noite e nos levar pra final... — Ele suspirou alto, fingindo estar exausto das cobranças dela, mas esperou que continuasse. — Eu compro uma dessas inteiras pra você!
— Hum, gosto desse acordo! — Abel levou a mão ao queixo, pensativo. — Alguma condição?
— Bom... vocês têm três gols de vantagem. É só dar xeque-mate. — Ela deu um sorriso contido, quase provocador.
— Quero para a semana que vem, então. — A seriedade no tom surpreendeu .
— Combinado! — esticou a mão, e ele fez o mesmo, selando o trato com um aperto.
Foi então que ela notou a pulseira de miçangas coloridas em seu pulso.
— Virou fã da Taylor Swift agora? — segurou o pulso dele, como se já fossem íntimos, e virou para ler o que estava escrito: Palmeiras.
— As minhas filhas — explicou ele. — Mandaram uma caixa com presentes, cartas... e esta pulseira. "Para dar sorte", disseram elas.
sorriu com ternura.
— Não deve ser fácil ficar longe delas.
— Não... — suspirou Abel, erguendo os olhos. — Qualquer dia destes, desato a chorar... — Eles sorriram. — O futebol consome tudo. O bom e o mau.
Ela assentiu.
— A gente se conhece há pouco tempo, mas... se um dia quiser desabafar, pode contar comigo, tá?
Abel apertou a mão dela com mais firmeza, grato.
— Obrigado.
— Precisa correr ou dá pra ficar mais um pouco? — perguntou, sabendo que a semifinal contra o River Plate seria naquela noite.
— Preciso ficar. — respondeu ele, com simplicidade. Sabia que aquele breve encontro com lhe traria a calma que precisava antes do jogo.


Greensboro, junho de 2025
Fiquei feliz quando o avião pousou em Greensboro.
Lidar com uma criança de três anos em um voo não era tarefa fácil — ainda mais sem recorrer a remédios. Eu sabia que ela estava tão ansiosa quanto eu para encontrar o pessoal. Então, os pouco mais de 70 minutos de viagem foram ocupados com quebra-cabeças, desenhos, massinha... e muitas tentativas de convencê-la a falar mais baixo.
— Chegamos, mamãe! — Lia falou animada assim que o avião tocou o solo. Suspirei, aliviada.
— Chegamos, meu amor — acariciei seus cabelos.
Aproveitei enquanto o avião taxiava para guardar todos os itens que tinha usado para distraí-la — menos o Pork, seu porquinho de amigurumi quase do tamanho dela, que fazia questão de arrastar embaixo do braço.
Como estávamos com uma criança de colo e minha mãe, que já passava dos 60, fomos prioridade para sair do avião. Cumprimentei os comissários e seguimos pelo finger: Lia de mãos dadas comigo, uma mochila nas minhas costas, e minha mãe carregando outra bolsa da pequena.
— A gente vai ver o Label, mamãe?! — Lia perguntou com os olhos brilhando. Sorri.
— Sim, meu amor, vamos ver o Abel e todo o time!
— Eba-a-a-a! — Ela deu um pulinho animado, me arrancando um sorriso.
O tempo tem outro ritmo nos olhos de uma criança. Pra ela, podiam ter se passado meses — pra mim, parecia uma eternidade. A despedida tinha sido meio dramática, e mesmo longe, ela assistia aos jogos comigo, vibrando como se estivesse no estádio.
Esperamos pela única mala grande que trouxemos — foi proposital, pra não termos mais bagagem além da própria Lia. Quando pegamos, minha mãe tomou a frente com Lia no colo, e eu segui com a mala.
— Filha! — minha mãe chamou, apontando. Vi um homem com uma placa verde, onde estavam os nossos nomes: o meu, o da minha mãe e o da Lia. O sorriso dele entregava que tinha nos encontrado. A Lia, com o uniforme do Palmeiras e o Pork no braço, era inconfundível.
— Oi! Eu sou a — me apresentei. — Português?
— Sim, falo português! — ele riu. — Sou Marco, vou levar vocês até o time.
— Prazer! — trocamos um aperto de mão.
— Sigam-me, por favor — ele indicou, já pegando a mala da minha mãe.
— Ah, não precisava... — falei, sem sucesso.
Saímos do aeroporto e logo encontramos outro homem parado ao lado de uma van. Cumprimentamos e entramos. Coloquei o cinto em Lia, depois em mim, sentindo a ansiedade crescer.
— Na-na-na-na! — Lia cantarolava a música da rádio enquanto eu acariciava sua cabeça. Sorri, tentando não transbordar antes da hora.
O trajeto até o CT foi curto. Eu não conhecia Greensboro — nunca tinha ouvido falar da cidade antes de o Palmeiras escolhê-la como base para o torneio. Sabia apenas que ficariam hospedados em uma universidade.
Era dia de semana, então a movimentação era grande ao redor do campus. Ao passarmos por um portão antigo, o fluxo diminuiu. Vimos alguns jogadores, mas pelo porte atlético, pareciam ser da equipe universitária de futebol americano.
— Chegamos! — avisou o motorista. — Fiquem à vontade, vamos levar suas malas para o hotel. Depois vocês fazem o check-in com calma.
— Obrigada! — sorri, descendo com cuidado. Dei a mão para Lia antes que ela pulasse sozinha da van.
— Uau! É gandi, mamãe! — ela disse, maravilhada.
— É mesmo, meu amor — sorri, sentindo o sol forte no rosto.
Atravessamos a rua em direção aos campos do outro lado. Passamos por uma área interna e andamos um pouco às cegas, procurando alguém com as cores do Palmeiras.
, você chegou! — ouvi e virei rapidamente. Era a Leila.
— Leila! — falei, surpresa.
— Tia Leila-a-a-a! — Lia gritou animada, me fazendo rir. Só ela pra chamar a presidente do clube assim, na cara dela.
— Olha quem está linda de Palmeiras! — Leila pegou Lia no colo e deu um beijo carinhoso. — Está uma graça!
— Como se fala? — perguntei.
‘Bigada! — respondeu Lia, toda sorridente, exibindo a janelinha sem um dente da frente.
— Alguém está de janelinha! — Leila brincou, e Lia sorriu, envergonhada.
— Como estão as coisas? — perguntei, abraçando Leila quando ela colocou minha filha de volta no chão.
— Os nervos já estão à flor da pele, mas tudo conforme o plano.
Assenti.
— Coragem, Leila.
— Sempre! — ela sorriu. — Estão procurando o Abel?
— Si-i-i-i-im! — Lia respondeu antes de mim, arrancando mais uma risada minha.
— Sim, acabamos de chegar — confirmei.
— Sigam por aquele corredor, eles estão no campo. — Ela apontou. — Amélia, quer descansar? Posso levá-la até o hotel.
— Acho que aceito — respondeu minha mãe. — Ainda vou ter muito tempo pra falar de futebol — rimos juntas.
— Nos encontramos lá dentro.
— Claro! Já, já vamos, ela vai querer comer em breve — indiquei Lia.
— Vamos, mamãe! — ela disse, me puxando pela mão com pressa.
Após duas curvas, o verde vivo do campo apareceu. Os jogadores estavam reunidos dentro das quatro linhas, e bastou um segundo para eu localizar Abel — era sempre fácil. Era só procurar a pessoa que mais gesticulava no gramado.
— Ele tá babo! — Lia comentou, e pensei o mesmo. Ele parecia dar uma bronca no Vitor e no Paulinho. A questão era... por quê?
— Ei! Olha quem chegou! — Piquerez nos viu primeiro e acenou.
— Pique! — Lia gritou, correndo até ele.
Ele a pegou no colo com facilidade, fazendo-a gargalhar.
— A minha boneca! — disse ele, girando com ela nos braços.
Outros jogadores se viraram com a gargalhada, e por um momento, Abel foi totalmente ignorado.
— Filha, xi! — sussurrei, sentindo meu rosto corar de vergonha. — Piquerez...
— Ei! O que é que se passa aqui?! — ouvi a voz do Abel, firme, e me virei.
O rosto dele estava sério, os olhos semicerrados. Mas no segundo em que nos viu, a expressão se desfez por completo. As sobrancelhas se ergueram, o sorriso se abriu largo, e por um instante, até as linhas de cansaço em seu rosto desapareceram.
— Ah, elas aí estão — murmurou, e eu pude ler seus lábios mesmo à distância.
— Chegamos! — falei, rindo... e, claro, morrendo de vergonha.

Abel
Greensboro, Estados Unidos
— Ah, elas aí! — sorri, soltando um suspiro.
— Chegamos! — deu de ombros, claramente envergonhada.
— L-Abe-e-e-e-e-el! — ouvi Lia, e o Piquerez a colocou no chão, fazendo-a vir a correr na minha direção.
A primeira coisa que notei foi o uniforme do Palmeiras, tamanho “criança de três anos”, e os laços verdes perdidos pela cabeça. Os tênis brancos combinavam com o lookinho, claramente montado pela .
— L’Abe-e-e-el! — Abaixei-me quando Lia se aproximou e peguei-a no colo, ouvindo sua risada. Uma calmaria tomou conta do meu peito no mesmo instante. Levantei-me com ela nos braços, apertando-a contra mim com força.
Como eu estava com saudades.
Sinti sodadi! — disse ela, apoiando as mãozinhas nos meus ombros para me ver melhor.
— Também senti, minha linda! — dei-lhe um beijo forte na bochecha, arrancando mais uma risada.
— Ai, faz cócegas! — rimos juntos.
— Mas que fardamento mais bonito é esse, hein? Estás pronta pra jogar?
— Si-i-i-im! Eu vou fazer go-go-go-o-o-ol! — A galera ao redor começou a rir.
— Aposto que vais! — beijei de novo, bem no meio dos seus caracóis.
— Vou fazer gol no ‘Veverton’. — Apontou para trás de mim.
— Em mim? — o Weverton disse, surpreso, pegando-a no colo. — Não deixo! Não pode!
— Pode sim! — respondeu ela, aos risos.
Virei-me para a mais uma vez. Ela olhava a cena meio sem saber onde pôr as mãos, escondendo o sorriso com os dedos.
Estava com jeans e uma camisola simples, com uma estampa neutra. Bonita, como sempre.
— Vai lá, professor! — o Gómez puxou o coro.
— Vai! — outros jogadores o acompanharam.
— Eu vou pôr todos vocês a dar 20 voltas no campo. — falei, atravessando o gramado na direção da .
— A-a-a-ah, professor! — gritaram, rindo.
— Agora são 30 voltas! — bati palmas.
— A-a-a-ah... — a reclamação foi geral, mas ninguém se mexeu.
— Acho que a tua moral tá em baixa — ouvi a comentar quando me aproximei dela.
— Achas? — abri os braços e ela veio até mim, puxando-me num abraço apertado.
— Oi, Abel — disse, rindo. Fechei os olhos, absorvendo o cheiro do cabelo dela, misturado com o perfume suave que conhecia tão bem.
— Oi, — suspirei. O abraço desfazendo-se de forma natural, como se o tempo tivesse parado só por esse instante. — Sentiu saudades? — tentei rir, tentando parecer menos envergonhado.
— Claro! Quatro meses sem café? Assim não dá! — Ela abriu aquele sorriso lindo.
— As nossas chamadas de vídeo não serviram de muito, não é? — Ela fez uma careta.
— Não é a mesma coisa — segurei o impulso de tocar no rosto dela.
— Desculpa pela bagunça... A Leila foi quem nos indicou vir pra cá, então... — deu de ombros. — Ela não se conteve.
— Não te preocupes! Eu fazia mesmo questão que viessem ver-me quando chegassem. – Ela sorriu, leve.
— Aqui estamos. Prontas pra competição. E vocês? Estão? – Suspirei longo.
— Precisamos estar.
— Vocês estão — ela apertou o meu braço com firmeza. — Eu confio em vocês.
Assenti com a cabeça, sentindo o peso bom daquela frase.
— Estão cansadas? Querem descansar? Posso pedir uma pausa aqui e...
— Não! — cortou ela, firme. — Você está trabalhando. Foi só uma hora de viagem, não estamos mortas de cansaço. — Além do mais — disse a , cruzando os braços — faz tempo que não vejo meu time treinar... Posso assistir?
Sorri com gosto.
— Claro que sim. Temos mais uma horinha só, depois libero a malta. Posso mostrar-vos o quarto e jantamos juntos depois.
Ela assentiu.
— Combinado — virou-se para o campo.
— Mas acho melhor tirares a Lia dali. Do contrário, não consigo mais trabalhar. — falei, vendo-a agora no colo do Ríos.
— Não vai ser fácil... — suspirou ela.
— Eu vou! — ri, e ela sorriu.
— Como sempre, um amor!
Ela seguiu para os bancos espalhados ao lado do campo e sentou-se. Respirei fundo.
— Lia! Vamos! Hora de treinar! — gritei, indo na direção dela.
Mas no fundo, eu sabia. Ninguém ia tirá-la de perto dos jogadores tão cedo. O treino estava oficialmente terminado por hoje.
E, na verdade, eu queria mesmo era aproveitar este momento.


Greensboro, Estados Unidos
— Ah, também senti saudades! — Me afastei de Gómez, passando o braço por Marcos em seguida.
— Não some mais, hein?! — Ri com Gómez.
— Não se preocupem, meu curso está quase no fim, logo tudo volta ao normal. — Eles sorriram.
— Bom te ver! — Marcos se afastou de mim, e vi Maurício trazendo Lia.
— Eu num vou embola! — ela disse, fazendo-o assentir com afinco.
— Eu sei! Você vai ficar aqui com a gente. — Ele a trocou de braço e estiquei o meu para ela.
— Vem, filha. Eles precisam descansar agora — falei.
— Deixem isso comigo. — Abel apareceu, esticando os braços.
— Eba-a-a-a! — Lia disse rindo, praticamente pulando no colo dele.
— Ai! Estás pesada, menina! O que é que se passou, hein?! — Abel brincou, me fazendo sorrir.
— Eu ‘tô forti, Abel! — Ela respondeu, cheia de orgulho. — Eu ‘tô forti!
— Pois eu estou a ver, minha linda! É tão bom ver-te assim! — Ele estalou um beijo no rosto dela, e eu sorri.
— Oi, ! Bom te ver! — João, assistente de Abel, disse ao passar por mim.
— Ei, João! Bom te ver! — Sorri, acenando.
— Não quero atrapalhar, Abel. — Falei.
— Tu dizes isso desde o primeiro dia que puseste os pés no CT. E sabes quando foi isso? — Ele me olhou com um meio sorriso.
— Muitas e muitas vezes... — falei, rindo. — Desde que Lia ficou confortável ao redor de vocês.
— Então... — Ele pensou. — Um ano? — Virou-se para Lia e revirei os olhos. — Anda! Deixa-me levar-vos para o vosso quarto. — Suspirei.
— Eu reservei um hotel na cidade e...
— Posso garantir-te que a Leila já cancelou — ele respondeu, seguindo para fora da área do campo pelo mesmo caminho de antes. Os jogadores já haviam entrado por uma entrada particular.
— Foi ela quem reservou para nós.
— Então garanto-te que ela nem chegou a reservar. — Ele riu, me deixando surpresa.
— Tem um ponto... — falei, confusa, ouvindo-o rir.
— Anda, vou levar-te ao quarto. — Rimos, entrando pela lateral do hotel.
Logo que entramos, percebi que era o Grandover Resort & Spa, A Wyndham Grand Hotel. Confesso que fiquei surpresa, pois nem sabia que havia um hotel dessa magnitude em Greensboro. Na verdade, nunca tinha ouvido falar da cidade antes.
Cumprimentei outras pessoas pelo caminho, vi alguns parentes dos jogadores e da comissão técnica, e me senti em casa novamente. Depois de quatro meses, parecia que nada tinha mudado.
— Venham. — Ele nos indicou o caminho e seguimos até o elevador. — Coloquei-vos num andar mais alto. A maioria dos familiares está aqui embaixo, sei que te incomodas fácil com barulho. — Dei um pequeno sorriso, entrando com ele, Lia e minha mãe. Vi-o apertar o número oito. — E tem um espaço jeitoso para vocês três, claro.
— Eu sempre te digo para não se incomodar, e você nunca me ouve.
— Já falamos mil vezes sobre isto. Desiste, porque eu não vou mudar. — Disse ele, já dentro do elevador.
— Então desiste você, porque eu também não vou mudar. — Dei de ombros, ouvindo-o bufar. Lia riu.
— Pois é, Lia, a tua mãe não é fácil! — Abel disse para ela, nos fazendo sorrir.
— Como se você fosse, Português! — falei séria, e ele riu.
— Venham — ele disse ao sair do elevador. Segui-o pelo corredor até que ele empurrou uma porta no fim e entrou, colocando Lia no chão.
— Lega-a-a-al! — Ouvi sua voz se perder dentro do quarto e fui logo atrás.
O quarto era enorme. Tinha uma pequena antessala com sofá e frigobar, depois um espaço com cama de casal e uma cama com grades ao lado, além de um armário e uma televisão. Minha mãe abriu a outra porta do quarto conjugado.
— As malas já estão nos armários. Fiquem à vontade.
— Obrigada. — Sorri para ele.
— Um passarinho! — Lia disse animada, vendo um enorme bicho de pelúcia do Periquito — quase maior que ela — e tentou pular na cama para pegá-lo.
— Obrigada — repeti, olhando para Abel.
— Não te preocupes. Não fiz nada mais do que a minha obrigação. — Suspirei.
— Não é — falei, sorrindo com os lábios pressionados.
— Descansem um pouco e encontro-te no jantar, sim? — ele disse sério. Assenti com a cabeça, e senti a mão dele apoiar-se de leve na minha cintura. — É bom ter-te aqui. — Ele beijou minha bochecha e saiu pela porta, puxando-a logo em seguida.
— Vamos comentar sobre isso ou...? — Ouvi a voz da minha mãe.
— Não. Não vamos falar nada. — Soltei a respiração, como se a estivesse segurando há muito tempo, e ela gargalhou, se afastando.

Abel
Greensboro, Estados Unidos
Depois de deixar a no seu quarto, fui até ao meu para organizar os detalhes do treino de hoje. Anotar as evoluções, possíveis dificuldades, além de outras questões técnicas. Apesar disso, a minha cabeça hoje estava noutro lugar. Ter a aqui mudava o meu foco de uma forma completamente diferente, mas tinha de manter a mente firme nos treinos — a competição estava prestes a começar.
Aproveitei o horário e dediquei alguns minutos às minhas filhas. Já era quase meia-noite para elas, mas não podia deixá-las ir dormir sem lhes desejar boa noite e ouvir aquela mensagem de boa sorte. Depois, tentei relaxar um pouco. Forcei-me a ignorar os pensamentos sobre as meninas, a competição, até sobre a ... mas não estava nada fácil. Era impossível desligar-me.
Por volta das sete horas, vesti novamente o uniforme e fui jantar. Alguns jogadores e familiares já estavam no restaurante, especialmente as esposas com crianças pequenas. No entanto, a pessoa com uma criança pequena que eu procurava ainda não tinha descido. Ela também tinha uma criança pequena, por isso imaginei que não devia demorar a aparecer.
Sentei-me numa mesa com os meus adjuntos e fui buscar um prato de comida. Aproveitei para dar uma vista de olhos geral nas opções disponíveis. Depois de um ano a conviver com a Lia, bastava olhar para a comida para saber o que ela podia ou não podia comer. Claro que ainda havia algumas dúvidas em certos casos, mas o tão famoso Mac ‘n’ Cheese era completamente proibido para ela.
No meu caso, algo quente e reconfortante parecia a melhor escolha. Acabei por escolher também um hambúrguer — não podia negar que os sabiam fazer bem. Mas os brasileiros ainda ganhavam. Ganhavam sempre em tudo, na verdade.
Voltei à mesa e comecei a comer, falando de trivialidades e parvoíces com os meus adjuntos e com um ou outro jogador que se juntava a nós. Era fácil sentir-me em família com esta equipa.
— Ei, professor! — Gómez deu-me uma cotovelada. — Ela lá!
Virei-me para onde ele apontava e vi a a aproximar-se do buffet, com aquele olhar meticuloso de sempre. Decidi esperá-la regressar à mesa. O riso animado da Lia quando a viu fez-me sorrir. Elas fazem-me sorrir, mesmo sem fazerem nada de especial.
Terminei o prato rapidamente, limpei a boca com o guardanapo de um jeito que fez o pessoal à volta rir, e levantei-me. Fui até à mesa onde estavam a , a Lia e a mãe dela. A mãe tinha acabado de se levantar para se servir.
— Eba! Macalão! — disse a Lia, animada, enquanto a ajeitava os talheres de plástico na sua mão.
— Tente não fazer sujeira. — Ajeitou um guardanapo como babete, e eu sorri ao aproximar-me.
— Vocês podiam sentar-se mais perto — disse, vendo a sorrir.
— O-o-o-i, L’Abel! — disse a Lia, a rir.
— Olá, meu amor! — Dei-lhe um beijo na cabeça.
— Comer de boca fechada, meu amor! — disse a , e puxei uma cadeira para me sentar ao lado dela.
— Desculpa, não queria incomodar. Não sabia se estavam numa reunião ou...
— Chega de reuniões, pá! — Abanei a cabeça. — E eles gostam de ti. Tu podias...
— Não vamos confundir as coisas. — disse ela, e acenei com a cabeça.
— Fico feliz que estejas aqui. — disse, vendo-a sorrir e pousar os talheres.
— Quão bravo você vai ficar se eu disser que posso ficar só dois dias? — disse ela, mudando-me logo a expressão.
— Eh pá, não! Estava à espera que ficasses pelo menos até aos jogos.
— Eu vou estar nos jogos, Abel! — Ela segurou a minha mão por cima da mesa, apertando-a com carinho. — Eu só preciso terminar meus estudos também. — Riu.
— Quando é que isso acaba? — perguntei.
— Dia 25, eu acho — respondeu.
— Pode ser que ainda estejamos por cá — disse a rir.
— Ai, para! Vocês estão bem! Temos que pensar positivo! — disse ela com um sorriso largo.
— Deixo essa parte contigo, que achas? — Ouvimos um barulho e olhámos na direção da Lia, mas era a mãe dela a sentar-se novamente. A Lia brincava com o macarrão em forma de argolas no prato.
— Com todo o prazer! — Ela sorriu. — Se for para você se preocupar com menos uma coisa.
— Vou tentar! — Sorri, apertando-lhe a mão de volta.
— Agora tente de verdade! — Rimo-nos juntos.
— Podes crer! — Ela sorriu, soltando a minha mão para voltar a comer.
— A comida brasileira é muito melhor... — murmurei.
— Eu sei! — disse ela, a rir.





São Paulo, 30 de janeiro de 2021
A sala da casa de dona Amélia era um verdadeiro caos. Gritos, palmas, almofadas e salgadinhos voavam pelos ares. Ela já tinha pedido um zilhão de vezes para diminuírem o volume, mas , o pai, o avô e os colegas da faculdade simplesmente ignoravam. Quanto mais difícil o jogo ficava, mais alto o barulho aumentava.
Nessas horas, agradecia por estar em Indaiatuba, numa casa, e não em um apartamento. Tinha certeza de que, em Perdizes, a vizinhança estaria muito menos paciente.
Depois dos noventa minutos, o árbitro ainda deu angustiosos quinze de acréscimo. O jogo, no Maracanã, tinha pouquíssimo público, mas a final entre Palmeiras e Santos parecia fazer o estádio fingir que havia muito mais gente ali.
— Isso vai pra prorrogação! — Gabriela gritou, levantando-se aflita, enquanto dona Amélia colocava mais uma travessa de enroladinhos de salsicha sobre a mesa atrás delas.
— Eles estão batendo demais! — reclamou, jogando a cabeça para trás.
— Vai dar merda! Vai dar merda! — Gabriela repetia.
— Xi! — alguns ecoaram.
— Eu preciso respirar! — Lucas, primo de , escapou do aperto entre Fábio e Euclides e foi para perto de Gabriela.
— Está na hora das apostas ou…? — seu Carlos provocou.
— XI! — o coro aumentou quando viram o cruzamento.
Então o tempo desacelerou.
Breno Lopes subiu.
Testou firme.
E a bola foi entrando devagar, enquanto John apenas olhava.
Por um segundo houve silêncio.
— Gol?
— GOL!
— GO-O-O-O-O-O-O-O-O-O-!
O grito dentro da casa dos se misturou ao da vizinhança. Gente se trombava ao levantar, alguns tropeçavam, risadas se confundiam com berros de comemoração.
pulava junto com todos, quase derrubando a poltrona para trás. Cerveja e salgadinhos caíram no tapete antigo de dona Amélia, mas, abraçada ao marido, ela parecia nem notar.
— MEU DEUS, ELE CONSEGUIU! — a prima de gritava, surtada.
— EU FALEI QUE IA SER O BRENO! — Fábio comemorava.
— Calma, ainda tem jogo! — alertou o senhor João.
— Ô, caceta! — Euclides resmungou, voltando a sentar.
Dessa vez, ninguém saiu mais do lugar. Quem tinha caído no chão ficou ali mesmo. A tensão dos minutos finais era quase igual à do início da partida.
Enquanto os jogadores comemoravam com a torcida, a câmera encontrou Abel. Tenso. Contido. Como se se recusasse a festejar antes da hora.
ainda não tinha contado aos amigos que estava tomando café com ele uma vez por semana. Só precisou revelar à mãe que estava saindo com alguém quando ela estranhou a pressa em voltar para São Paulo depois das férias.
O Santos tentou reagir, mas o nervosismo embaralhava tudo. Abel parecia à beira das lágrimas. Os torcedores tinham criticado tanto o novo treinador… aquela vitória poderia ser o começo de outra história.
Quando o apito final soou, a casa explodiu outra vez.
Mas explodiu por ele.
Estava radiante.
No meio do turbilhão, percebeu que fazia quase duas semanas que não o via. Ele não tinha conseguido aparecer para o café daquela semana.
Riu sozinha e pegou o celular da poltrona.
Afundou no estofado, abriu as mensagens e digitou com as mãos trêmulas e um sorriso impossível de esconder:
“Espero que tenha valido a pena perder aquele café.”
Bloqueou a tela e deixou a cabeça cair para trás.
É campeão.
O celular acendeu segundos depois.
Abel.
“Consegui. Agradeço muito por tudo. Ainda me aceita para aquele café?”
O sorriso dela cresceu ainda mais. olhou para a televisão, tentando descobrir se ele tinha mandado a mensagem naquele exato instante, mas Abel já estava nas entrevistas.
Rindo baixo, ignorando a festa ao redor, respondeu:
“Claro. Comemorar é o mínimo.”
Enviou a mensagem e deixou o corpo relaxar, finalmente permitindo-se sentir o momento.


Greensboro, Estados Unidos, 2025
Observei Lia dormindo no carrinho e o empurrei devagar com a ponta do pé, sorrindo ao perceber como ela já estava grande demais para aquele espaço. Mas era só provisório, apenas para que pudesse descansar um pouco naquele tempo.
— Para lá! Para lá! — ouvi Abel gritar com o time, fazendo os meias recuarem durante o jogo-treino.
O olhar sério dele era fascinante. Uma prova perfeita de que, mesmo com o lado emocional ligado nos 220 volts, ele tinha nascido para esse trabalho. E poder conhecer tudo isso de perto era ainda mais gratificante.
— Você não cansa, não é?! — virei para o lado, vendo Leila surgir em seu tradicional conjunto verde.
— Bem, foram quase quatro meses. É um longo tempo! — ela riu.
— Sua mãe não parece ter o mesmo pique... — rimos juntas, enquanto ela se sentava ao meu lado.
— Ah, não. Deixei-a descansar um pouco desse caos. Ela me ajudou muito em Washington. — Leila confirmou com um gesto.
— E como foi o curso? — perguntou.
— Muito bom! Foi bem legal. Entediante em alguns momentos, não vou negar... — Leila riu. — Mas vai aumentar meu salário em 15%, pelo menos.
— Então é por uma ótima causa! — rimos juntas.
— Uma ótima causa! — repeti, suspirando.
— E vocês? — ela indicou Abel no campo. — Quando vamos sair do 0x0?
Ri, envergonhada.
— Eu não sei, honestamente. — suspirei.
— Não vai dizer que conheceu algum americano enquanto esteve aqui? — minha risada saiu mais alta do que o esperado, chamando a atenção de Abel e de alguns jogadores. Abanei a mão, tentando disfarçar.
— Desculpe! — falei ainda rindo. — Não, eu não conheci. — suspirei de novo. — E estar de volta aqui, com ele, nesse ambiente, só me dá mais certeza de que meu coração bate cada vez mais forte.
— Posso te garantir que ele tem um carinho enorme por vocês.
— E você só sabe disso? — perguntei, provocando.
— Que ele gosta de você é óbvio, ! — disse rindo. — Só não sei dizer se existem outros problemas que o façam evitar isso.
— Bem, eu entendi quando ele chegou ao Brasil. A separação era recente, ele estava com problemas com as filhas, mas... já faz quase cinco anos. — suspirei.
— Eu poderia dizer “um dia de cada vez”, mas... conheço pessoas que são menos lentas do que ele. — rimos juntas.
— Fico feliz de não ser a única que pensa assim.
— Bem, vocês são uma família, isso ninguém tira. Só falta se garantir que a parte física também aconteça. — rimos ainda mais. — Bem, ele tem mãos grandes...
— Leila-a-a-a! — protestei, rindo.
— Você tem uma amiga, ! Conte comigo sempre! — ela segurou minha mão, e eu sorri.
— Obrigada! É bom ter uma amiga nesse caos masculino.
— Ah, e precisamos, mulher! Precisamos! — sorriu de volta. — Inclusive, precisamos de álcool.
— Eu ia adorar uma caipirinha agora! — rimos juntas.
— Mamãe? — virei o rosto para o carrinho, vendo Lia esfregar os olhos.
— Ei, meu amor! — aproximei o carrinho. — O cabelo bagunçado! — comentei sobre os cachos despenteados, pegando-a no colo.
— Mamãe! — ela gemeu, aconchegando-se contra mim. Apertei-a nos braços.
— Mamãe está aqui, meu amor. — beijei sua cabeça.
— Fominha! — disse sorrindo.
— Ah, minha safada! Tá com fome? — rimos juntas. — Suquinho verde?
— Si-i-im! — falou animada.
— Ela é a única pessoa que se anima com suco de couve! — rimos juntas.
— E bicoito! — completou.
— Esse não tem, amor. Mamãe só consegue fazer em casa.
— Nós temos um chef incrível, . Aposto que ele sabe preparar biscoitos de chocolate e aveia para ela. — disse Leila.
— É? — olhei para ela.
— Você se esquece de quem eu sou, né?! — riu.
— Obrigada, tia Leila! — virei-me para Lia. — Como se diz, meu amor?
‘Bigada, tia Leila! — Lia se esticou para abraçá-la, e Leila a sentou no colo.
— Não é nada, meu amor! — ela deixou um beijo no meio dos cachinhos. — Vou pedir para ele fazer agora mesmo para você.
Sorri, voltando o olhar para o campo. E foi então que vi Abel: um sorriso perdido no rosto, enquanto nos observava de longe.

Abel
Vi a Lia atirar-se para o colo da Leila com aquele sorriso maroto e senti os meus lábios abrirem sozinhos, traidores. Os caracóis estavam completamente despenteados, o lacinho verde perdido em algum ponto daquela confusão adorável.
Tão pequena.
Tão casa.
Por um segundo, o barulho do relvado ficou distante. Havia apenas aquela imagem — a leveza dela, a forma como observava tudo com aquele ar de quem guarda o mundo nas mãos.
— Se eu não te conhecesse, professor, dizia que o teu humor mudou — comentou o Gómez ao meu lado.
Lancei-lhe um olhar de soslaio.
— O quê? Não podes dizer que é mentira! — insistiu, já a rir.
Suspirei e acabei por me virar para ele.
— Não é mentira — admiti. — Mas não gosto nada que andem a meter-se na minha vida pessoal.
Ele ergueu as sobrancelhas, divertindo-se com o meu desconforto.
— Por quê? Acha que isso quer dizer que já devia ter feito alguma coisa a respeito?
Resmunguei qualquer coisa imperceptível.
Devia, talvez.
Queria, seguramente.
— Ia tratar disso, pá… — comecei, baixando o tom. — Mas ela falou-me da viagem. Anda a sonhar com esse curso há três anos. Não ia agora chegar lá, despejar o que sinto e, quem sabe, baralhar-lhe a cabeça. Tirar-lhe a vontade de ir.
Gómez fez um gesto com a mão, como quem compreendia… mas nem por isso deixava de provocar.
— Eu sei, eu sei. Mas ela está aqui agora! — apontou.
Baixei-lhe logo o braço.
— Eh pá, tem calma!
Olhei em volta por reflexo, certificando-me de que ninguém nos prestava atenção.
— Sim, está aqui. E o que queres que eu faça? Que vá ali e a beije à frente de toda a gente?
— É-é-é! — respondeu, arrastado, com um sorriso enorme. — É óbvio!
Revirei os olhos.
— Tu és impossível.
— Perguntaste! — defendeu-se, rindo em provocação.
Voltei a olhar para o relvado, mas era inútil fingir concentração quando a minha atenção continuava a fugir para o mesmo ponto da bancada.
ria.
A Lia dizia qualquer coisa ao ouvido dela, e inclinava a cabeça, paciente, como se aquele fosse o lugar mais importante do mundo. A mão dela pousava protetora nas costas da miúda, num gesto automático, natural.
Familiar.
Senti o peito apertar de uma forma boa e assustadora ao mesmo tempo.
Queria atravessar aquela distância.
Queria estar ali.
Mas querer nem sempre é poder. E, às vezes, poder exige tempo.
— Então quando? — Gómez voltou à carga. — Vais esperar que o universo marque na agenda?
Olhei para ele, sério desta vez.
— Quando eu achar que é o momento certo.
Ele sustentou o meu olhar por um instante e, desta vez, não brincou. Apenas assentiu.
Porque ele sabia. Todos sabiam.
Eu não fazia nada pela metade.
Bati palmas, retomando a postura.
— Vá, toca a trabalhar!
Ele ainda soltou uma gargalhada antes de se afastar.
Fiquei ali por mais alguns segundos, imóvel, as mãos na cintura, fingindo observar qualquer movimentação em campo.
Mas voltei-me outra vez para a arquibancada.
agora tinha a Lia no colo. As duas riam de algo que eu não podia ouvir, e mesmo assim parecia que o som chegava até mim.
Sorri.
Não era o momento.
Ainda não.
Mas ia chegar.
Eu ia fazer com que chegasse.

— Você deveria aproveitar as amenidades do hotel...
— Abel, eu vim te ver! — falei firme. — E estava com muitas saudades de ver meu time treinar. — Ele sorriu. — A gente se acostuma, sabe?
— Senti tua falta também... — disse ele. — Tornas tudo espe...
Mamã-i-i-i! — Lia nos interrompeu. — Mamã-i-i-i-i! — Viramos para ela, apoiada na janela, na ponta dos pés. — Olha! Olha! Olha! — Abel me olhou sugestivamente e eu ri.
— O que foi, meu amor? — atravessei o refeitório até minha menina, e Abel veio atrás.
— Olha! Olha! Olha-a-a-a-a! — exclamou animada. Segui seu dedo. — Paquinho! Paquinho! — Me abaixei ao seu lado.
— Está quase na hora de dormir, meu amor. — Acariciei seu rosto.
— Mas ‘tá quase na hora, mamãe... Vamo’ bincá’ um pouco! — Ela fez um biquinho irresistível e respirei fundo. — Vamo’, L’Abel? — virou-se para Abel, e foi minha vez de olhá-lo sugestivamente.
— É só do outro lado da rua, . Vamos lá, eu acompanho-vos. — disse ele.
— Eu ainda preciso arrumar as malas para amanhã...
— Só um bocadinho! Vai deixar-me feliz e vai deixar a tua filha feliz... – Suspirei.
— Não vai dar problema para ti? — sussurrei.
— Qual é! É literalmente do outro lado da rua, dentro do complexo. — Suspirei e ele fez um gesto com a cabeça. — Vamos!
— Ok, mas só alguns minutos, hein?! — falei séria para Lia.
— Oba-a-a-a! — Sua animação ecoou pelo refeitório, arrancando risadas de alguns jogadores. Neguei com a cabeça.
— Mas você precisa se comportar! — falei séria.
— Vou me compotá’, mamãe! — estiquei minha mão para ela.
— Vamos lá! — disse.
— Vamos, L’Abel! — Lia estendeu a outra mão para ele, e sorri vendo-o pegar de imediato.
— Vamos, meu amor! Vamos divertir-nos um pouco. O tio L’Abel só trabalhou hoje.. — disse ele, me fazendo rir.
Trabaiou nada! Só jogou futebol! — Lia retrucou, arrancando uma gargalhada de Ríos.
— Eu amo essa menina! — sorri, seguindo com eles pelo refeitório.
— Já volto. — Abel falou com seu assistente e fomos para o elevador. — Onde é que queres brincar?
— No escorrega! — disse animada. — Depois no balanço!
— Ah, eu gostava do baloiço quando tinha tua idade. — respondeu ele.
— Que papo de velho, Abel. — falei rindo, e ele sorriu.
— Pior é começar a falar isso lá pelos 20. — ponderei.
— Fica cada vez pior! — completou, antes das portas se abrirem.
Atravessamos o lobby com Lia nos puxando pelos braços, e fizemos um balanço com ela, deixando-a tirar os pés do chão. Assim que saímos, o parquinho do complexo já estava diante de nós.
— Eba-a-a-a!
— Não corre! — puxei-a quando ameaçou disparar. — O que a mamãe ensinou?
— Olhar pros dois lados da rua... — respondeu desanimada, de biquinho.
— Muito bem! — elogiei. — Olhou? — Ela virou o rosto para a direita, depois para a esquerda, antes de erguer os olhos para mim.
‘Tá livre, mamãe!
— Então vamos! — deixei-a nos puxar até o parquinho.
Ele não era muito grande, mas esposas de alguns jogadores estavam lá com seus filhos. Cumprimentei algumas antes de me abaixar diante de Lia.
— Cuidado! — falei séria, indicador em frente aos olhos dela. — Fica só aqui! Se precisar de ajuda, chama a gente. Mamãe e papai estarão aqui... — baguncei seus cabelos, percebendo o que tinha dito. — Mamãe e Abel! — corrigi rápido.
‘Tá bem, mamãe! — respondeu. — Posso ir?
— Pode! — deixei-a correr até a casinha com escorregador.
— “Mamãe e papai”? — Abel perguntou, e virei para ele.
— Desculpa. Saiu sem pensar... — sentei-me no banco, e ele ao meu lado. — Acho que é a figura paterna mais próxima que ela tem.
— E eu amo-a como se fosse minha filha. Tu sabes disso, não sabes? — assenti, e ele passou o braço atrás de mim, no encosto. — Um ano e meio, ... parece tão pouco, mas mudou tudo. — disse.
— Mudou mesmo. Às vezes penso que nem me lembro mais de como era antes dela. — falei, sorrindo ao ver Lia subir no escorrega.
— Sinto o mesmo com as minhas. — comentou. — Elas cresceram tão depressa... sinto que perdi pedaços.
— É normal, Abel. Não há pai perfeito. — respondi, e ele riu.
— Então é por isso que estás sempre a lembrar-me de comer, dormir, não enlouquecer? — sorri e dei de ombros.
— Alguém tem de cuidar de ti. — falei num tom leve, mas ele me olhou de lado, demoradamente.
— E quem é que cuida de ti, ? — a voz dele saiu mais baixa, carregada de ternura.
— A Lia... de certa forma, ela me lembra todos os dias porque continuo. — confessei.
— Mas tu também mereces ser cuidada. — respondeu, aproximando-se, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Dei uma risada curta, nervosa:
— Vai começar a fazer discurso motivacional aqui, no meio do parque?
— Só se quiseres. — retrucou, sorrindo, mas sem afastar o olhar.
Enquanto falava, já tinha se inclinado um pouco mais, e percebi que meu corpo respondeu no mesmo compasso. O braço dele no encosto roçou meus ombros; minha mão, distraída, quase tocou na dele. Era como se a conversa nos puxasse para perto, sem que nenhum de nós tivesse de decidir.
— Sabes, ... contigo eu sinto... — ele começou, mas não terminou. Eu já conseguia sentir a respiração dele tão perto da minha que engoli em seco.
— L’Abe-e-e-e-el! — a voz de Lia subiu até nós. — Vem me empurrar no balanço? — Ela se debruçou nas pernas de Abel e suspirei, nos afastando automaticamente.
— Talvez precisemos esperar mais um pouco. — ele disse, acariciando meu rosto. Fechei os olhos com o toque.
— Desculpa... — fiz careta, e ele riu.
— L’Abe-e-e-el! — Lia o sacudiu, chamando sua atenção.
— Eu vou, meu amor! Eu vou! — levantou-se. — Vamos lá!
— Vai, “papai”. — Mayke brincou, fazendo Abel rir antes de seguir até o balanço.
Abel colocou Lia no assento, se abaixou para dar algumas instruções e depois foi para trás dela, começando a empurrá-la devagar. Mesmo do outro lado do parquinho, dava para ouvir a risada de Lia e os gritos de “mais alto, mais alto!”.
Indiretamente, sempre pensei em Abel como pai de Lia. Meus pais moram relativamente longe, então não consigo vê-los com frequência para que meu pai seja uma figura paterna para ela. Abel, porém, sempre esteve lá. Para mim, e para ela. Talvez fosse cedo para sonhar com uma família completa, mas impossível não — ainda mais depois de todo esse tempo juntos.

Abel
— Acho melhor eu subir, preciso finalizar a mala ainda. — disse à mesa do refeitório, depois de voltarmos do parquinho, suados — eu e a Lia, claro.
— Queres ajuda? — ofereci.
— Não precisa, tem que descansar para amanhã. O primeiro jogo está a chegar. — respondeu.
— A tua mãe foi tomar banho, posso ajudar a dar banho à Lia e pô-la a dormir enquanto arrumas… — falei sugestivamente. — Que te parece?
Ela olhou-me, os ombros cansados. Talvez pelo dia, talvez pelas decisões que sempre tinha de tomar como mãe solteira.
— Abel… — suspirou, vendo a Lia quase a dormir na poltrona ao meu lado.
— Não digas que vais atrapalhar-me. — falei firme e ela suspirou.
— Está bem, mas não me olhe assim! — respondeu séria, levantando-se, e eu fiz o mesmo.
— Vem, meu amor, vamos para cama. — disse, e eu apoiei o braço no seu ombro.
— Deixa. — falei, segurando a Lia pelas axilas e ergui-a. — Vamos dormir, meu amor?
Mimir! — murmurou, aninhando-se nos meus braços, os cabelos bagunçados e as bochechas ainda rosadas pela correria do parque.
O refeitório já estava vazio; fomos praticamente os últimos a jantar, apenas alguns funcionários do hotel nos acompanhando. Cumprimentámos quem passava e seguimos até o elevador. Observei a pelo espelho; parecia cansada, talvez sem notar a minha aproximação mais cedo. Não foi intencional, mas falar de cuidado e preocupação um com o outro era inevitável.
Ela tinha razão: cuidamo-nos desde que nos conhecemos. Ela preocupava-se com o meu bem-estar, por eu estar longe das minhas filhas e pela pressão do futebol brasileiro. A família dela vivia a cerca de 100 quilómetros de São Paulo — não muito longe, mas a vida corrida da não permitia visitas frequentes.
— Obrigada… — disse , na porta do quarto.
— Por que não vais arrumando as tuas coisas? Eu cuido da Lia…
— Abel… — interrompeu-me.
— Dá para ver nos teus olhos que estás cansada e o voo é cedo. Deixa-me ajudar-te. — falei. Ela não respondeu, apenas abriu a porta, permitindo que eu entrasse primeiro. — Vai arrumando a tua mala, eu trato da Lia. Não é a primeira vez.
— E provavelmente não será a última. — falei e ela assentiu.
— Vou dar banho nela, arrumar a malinha dela e logo trago o pijama. — assenti, entrando no banheiro.
— Vamos tomar banho, meu amor? — acariciei os seus cabelos.
— Ah, nhã-a-a-a-ao! — gemeu, apertando-me.
— Rapidinho, minha linda, só para limpar este pé sujo. — ergui o pé dela, fazendo-a rir.
— Não está sujo! — disse, rindo.
— Não! Está imundo! — brinquei, ouvindo-a rir. — Vamos, ajuda o tio L’Abel!
— Ajudo! — disse, um pouco bêbada de sono.
Despi a minha pequena com todo o cuidado do mundo. Ela entrou no chuveiro sozinha e eu ajoelhei-me para usar o chuveirinho. Sabonete, xampu infantil, cachos molhados… uma rotina que já estava acostumado. Cuidei especialmente do pescoço, joelhos e pés enlameados pela brincadeira.
— Aqui está a roupinha. — entrou rapidamente e apoiou a pequena roupa na pia.
— Obrigado, estamos quase a terminar. Fecha os olhos, meu amor! — pedi, tirando o xampu.
— Também precisas de tomar banho, L’Abel! — disse.
— Eu sei, meu amor, mas primeiro tu! — falei, e ela assentiu.
— Vai ficar fedozinho! — riu.
— Vou nada! — dei-lhe um beijo na bochecha, fazendo-a rir. — Agora vamos sair daqui.
Peguei uma toalha, enrolei-a e sequei-a cuidadosamente. Vesti-a no pijama preto e branco de vaquinha, ajustando cada braço, cada perna.
Mimir? — perguntou.
— Sim, vem! — estendi as mãos e levantei-a, apoiando-a no meu ombro.
No quarto, as malas quase prontas e a ajeitá-las com precisão.
— Pronto, . — disse.
— Preparei o leite dela. Poderia…?
— Sim, posso sempre! — falei sério, sentando-me na poltrona e dando-lhe a mamadeira com a fórmula de aminoácidos. Ela esvaziou rapidamente; lembro-me de todas as pesquisas que fiz para me habituar à alergia da Lia. Hoje era rotina, mas com atenção constante.
Ela foi soltando a mamadeira conforme o sono chegava, aconchegando-se novamente ao meu peito. Dei leves batidinhas nas pernas, embalando-a, enquanto fechava as malas.
— Como está o curso? — perguntei.
— Está tudo bem. Falta só o último trabalho e termina.
— Espero que os jogos não te prejudiquem. — sorri.
— Não te preocupes, vai dar certo.
— Claro que vai! És demasiado determinada para não dar certo.
Ela sorriu, desviando o olhar, e admirei-a por alguns segundos antes de voltar para a menina que dormia calmamente, os lábios entreabertos, as bochechas gordinhas.
— Boa noite, meu amor! — sussurrei, beijando-lhe os cabelos. Levantei o olhar para , que me olhava com ternura e olhos marejados.
— Você é incrível, Abel. — disse, sentando-se na beirada da cama. — Pensei mil vezes em adotar a Lia sozinha, enfrentar este desafio sozinha, mas…
— Nunca estiveste sozinha. — falei e ela assentiu.
— Você, a minha família, o time… — suspirou cansada. — Todos sempre me ajudam… sou eternamente grata.
— Não ajudamos por gratidão, . Ajudamos porque amamos vocês duas. — falei e ela assentiu. Fiquei feliz por ela entender esse tipo de amor. — E és também a minha família. As meninas estão longe… não sobra muita gente para me divertir. — riu.
— Bom ver que sou a sua segunda opção. — brincou, e eu sorri, estendendo a mão até a dela e apertando-a.
— Nunca. — sorrimos.
— Eu não…
— Filha? — Dona Amélia apareceu na porta, de pijama. — Precisa de ajuda?
— Não, está tudo certo. — respondeu, soltando nosso contato.
— É melhor deixá-las descansar. — falei, vendo pegar a Lia do meu colo; a menina gemeu levemente, mas acomodou-se no colchão. — Vemo-nos no pequeno-almoço?
— Não, descansa! — ordenou . — Vamos muito cedo.
— Prometes que estarás no jogo? — perguntei quase como necessidade.
— Não perderia por nada neste mundo! — sorriu, puxando-me para um abraço.
Suspirei, controlando-me para não criar clima com a mãe dela no quarto, e dei-lhe um beijo na bochecha antes de me afastar.
— Estaremos de volta antes que perceba. — sorri.
— Espero que sim! — afastei-me devagar, dei um rápido beijo em dona Amélia.
— Tenham uma boa viagem e avisem quando decolarem, quando pousarem…
— Pode deixar. — disse.
— Ah! — lembrei-me da Lia e aproximei-me novamente para beijar-lhe a bochecha. — Deus te abençoe, meu amor! — sussurrei e afastei-me.
— Boa noite! — sorriu e sorri junto, prolongando o olhar por alguns segundos.
— Boa noite! — disse, saindo do quarto e fechando a porta com cuidado.
Suspirei, sentindo o coração bater mais forte, e sacudi a cabeça, sabendo que precisaria de forças para aguentar mais alguns dias sem elas.





Doha, Catar, 2021
Abel chegou ao quarto do hotel muito depois da meia-noite. Já havia perdido a noção do tempo.
O jogo durara quase três horas com a prorrogação e, para ajudar, terminara em derrota. Não ligava tanto, afinal, ninguém na Europa se importava muito com o Mundial de Clubes. Era apenas uma competição da FIFA para cumprir calendário.
Ao menos era isso que passara pela cabeça de Abel durante a viagem ao Catar e também antes do jogo.
Mas isso o deixou confuso quando um jornalista lhe perguntou, ainda no gramado:
— Como se sente com essa derrota tão cedo em uma competição tão importante para o Palmeiras?
“Importante?”
Aquilo pegou Abel de surpresa.
Por que um Mundial de Clubes seria importante?
Ele não conseguiu responder à própria dúvida. A correria do pós-jogo, as entrevistas, a preparação para deixar o estádio… tudo virou uma grande confusão. No fim, ele só queria voltar para o hotel.
Sentia-se triste pela derrota da mesma forma que se sentia após qualquer jogo.
Entrou no quarto, deixou suas coisas em um canto e foi direto tomar um banho gelado. O calor e a umidade do Catar faziam com que ele suasse por todo o corpo. Talvez aquilo ajudasse a esfriar um pouco a cabeça.
Vestiu um pijama e deitou-se na cama.
Sentia fome, mas não estava com disposição para comer nada. Talvez pegasse algo do frigobar mais tarde, quando estivesse mais relaxado. No momento, só queria descansar.
Pegou o celular entre suas coisas e abriu as mensagens.
As filhas tinham escrito dizendo que sentiam muito pela derrota, mas que continuavam torcendo por ele.
havia mandado apenas uma mensagem:
“Cheguei em casa. Me liga quando puder.”
Ele não sabia exatamente que horas eram no Brasil, mas se ela já estava em casa, provavelmente poderia falar com calma.
Então ligou pelo WhatsApp.
— Achei que não ia ligar — disse assim que atendeu, antes mesmo de a imagem carregar.
— Olá, — respondeu ele, cansado, vendo a imagem dela finalmente aparecer. Ela segurava um balde de pipoca e o celular parecia apoiado em uma mesinha.
— Oi, Abel. — Ela lhe deu um sorriso tranquilo.
— Vais ralhar comigo? — perguntou ele.
Ela riu.
— Ainda não decidi. — sorriu. — Como você está?
— Com a cabeça um bocado cheia — ele deu de ombros. — É uma competição inútil, mas por algum motivo sinto que estou a perder alguma coisa.
— O jogo… — disse ela.
— Ah, ah! — respondeu ele, fazendo-a rir. — Para além disso. E lembro-me de teres dito algo sobre valorizar cada jogo… não sei. Sinto que me está a escapar alguma coisa.
— Ninguém te contou? — perguntou ela.
— Contou o quê? — Ele se sentou na cama, ajeitando-se.
— O Mundial de Clubes é importante para o Palmeiras.
— Por quê? É uma competição que não vale grande coisa… — suspirou.
— Porque o Palmeiras precisa ganhar. — Ela se ajeitou no sofá. — Sim, a gente tem o Mundial de 1951. Mas como o formato da competição mudou milhões de vezes, os rivais dizem que não vale. — Ela revirou os olhos. — Coisa de torcedor de time pequeno, sabe?
Abel sorriu.
— Por causa disso, o Palmeiras quer acabar com essa piadinha. Igual à da Copinha.
— Li muitas piadas a dizer: “Palmeiras não vai ganhar a Copinha, porque não vai haver” — comentou ele.
— Exatamente. — Ela suspirou. — O Mundial é muito importante para o Palmeiras. Não me conformo que ninguém tenha te explicado isso. Deveriam ter colocado isso na sua cabeça desde o começo.
Abel passou as mãos pelos cabelos.
— Sinto-me um idiota — murmurou. — Agora tudo faz sentido. — Ele bufou. — Meu Deus… apetece-me pedir desculpa em nome de toda a equipa.
Ele negou com a cabeça.
— Aos adeptos.
— Não, você se saiu bem com os torcedores — disse , sorrindo. — Você não perdeu tempo, você ganhou a torcida.
Abel suspirou.
— Não vão te demitir por isso, relaxa. — Ele lhe deu um pequeno sorriso.
— Obrigado, . — Ela deu de ombros.
— Sempre que precisar. — Ela pegou mais um pouco de pipoca.
— Te vejo no nosso café na terça-feira? — Ele fez uma careta.
— Temos jogo! — disse ele. — Às 16h. — Ela torceu os lábios.
— Então te vejo em duas semanas?
— Espera. — Ele abriu a agenda no celular. — Não… afinal é às 18h.
— Ah, meu Deus! — ela reclamou, irritada. Abel riu.
— Espero que ganhe, pelo menos.
— Também espero — respondeu ele. Os dois riram.
— A Covid baralhou tudo — comentou Abel.
— Pelo menos o campeonato está acabando… — disse ela.
— Mas o de 2021 vai começar oficialmente — respondeu ele. revirou os olhos.
— Vai dormir, Abel. — Ele riu.
— Vou ver a agenda com calma e depois digo-te. Se for preciso marcamos outro dia, que tal? Não precisa ser obrigatoriamente na terça. — Ela lhe deu um pequeno sorriso.
— É… acho que pode ser.
Boston, Estados Unidos, 2025
, nossa aluna de intercâmbio… — a professora se aproximou e sentou-se na cadeira ao meu lado. — Em que posso te ajudar?
— Eu acho que decidi meu tema… — comentei.
— Ótimo! Diga-me. — Ela se ajeitou, fechando o blazer.
— O custo invisível da adoção de crianças com histórico de vulnerabilidade, mostrando os desafios emocionais, sociais e institucionais…
Ela ponderou por um instante, assentindo devagar.
— Uau. Isso é muito forte, . Você se refere a…
— Tudo. — Dei de ombros. — Autismo, síndrome de Down, crianças amputadas ou com deficiências de nascimento, cegueira, surdez… — Respirei fundo. — Alergias.
— É um tema extremamente relevante. — Ela cruzou as mãos. — Nem todo mundo quer uma responsabilidade dessas. Nem todo mundo pode.
— Exato. — Concordei. — Eu tenho uma filha… — Ela assentiu, atenta. — Eu a adotei há um ano. Ela tem quase dois agora.
— Eu não sabia disso. Você literalmente levou trabalho para casa… — rimos juntas, com aquela cumplicidade típica de quem atua na área social.
— E levei muito trabalho para casa. — Sorri, mas logo suspirei. — Passei quase o primeiro ano inteiro da vida da Lia tentando que alguém a adotasse. Mas ela tem uma alergia severa à proteína do leite…
— Ah… essa é pesada. — Assenti.
— No Brasil, uma lata da fórmula pode custar até um quinto do salário mínimo.
— Então, obviamente, uma família humilde que deseja adotar por inúmeros motivos acaba não conseguindo. — Assenti novamente.
— Exato. E estou usando a Lia só como exemplo. Crianças com autismo severo precisam de psicólogos, fisioterapeutas, neuropediatras, neuropsicólogos… A família precisa de apoio também. Sem estrutura, isso se torna quase impossível.
Ela pressionou os lábios, pensativa.
— A ideia é perfeita, senhorita Azevedo. — Levantou-se. — Consegue me trazer o primeiro capítulo até quinta-feira?
— Claro. — Respondi, vendo-a se afastar.
Assim que ela saiu, meus olhos se arregalaram.
Hoje é segunda-feira.
Ela quer o texto em três dias.
E no sábado eu preciso estar em Nova Jersey para o primeiro jogo do Palmeiras.
Estou completamente fodida.
Guardei o material na mochila e deixei a sala. Caminhei até o estacionamento da Catholic University of America, entrei no carro alugado e segui até o Airbnb no centro da cidade. Subi os poucos degraus até o segundo andar e abri a porta.
— Cheguei! — anunciei, deixando as coisas sobre a mesa.
— Mamãe! — Lia saiu correndo do sofá em minha direção.
— Oi, meu amor! — me abaixei para pegá-la no colo e vi minha mãe na cozinha.
— Eu comi purê de cenoura hoje! — contou, animada.
— Sério? — beijei seus cabelos. — A vovó fez pra você?
— Uhum!
Aproximei-me da bancada e sentei Lia ali, enquanto minha mãe se virava para mim.
— Oi, mãe. — Dei um beijo nela.
— Oi, meu amor. Já adiantei o almoço dela. — Assenti.
— Dá pra adiantar o meu também? Estou morrendo de fome. — Ri.
— Claro. — Ela ligou o fogão. — Você parece mais feliz.
— A parte boa é que finalmente tenho o tema do projeto final.
— Até que enfim! — rimos juntas. — Qual é?
— Ela. — Apontei para Lia, que brincava com o próprio reflexo na colher, fazendo caretas. — O problema da adoção dela não é só no Brasil. É algo mundial. E eu já tinha todas as informações por causa das pesquisas que fiz antes de adotá-la.
— É perfeito, filha. — Sorriu. — Você está chegando ao fim.
Assenti, mas logo abaixei os ombros.
— Mas você falou em má notícia…
— Tenho que entregar o primeiro capítulo até quinta. — Suspirei. — E minha cabeça só está no jogo… e no reencontro com o Abel. — Ela riu. — E no jogo, claro.
— Claro. — Ela riu também. — Ele mexe bastante contigo, né?
Suspirei.
— Vamos ignorar isso por enquanto. — Peguei Lia novamente no colo. — Pelo menos até sexta-feira.
— Combinado. — Ela sorriu.
— Mas sim… — admiti baixinho. — Ele mexe comigo de um jeito diferente.
Ela apenas sorriu.
— Já passou da hora. — Disse com carinho. — Vai trocar de roupa. Vou preparar seu prato.
— Tá bom. — Olhei para Lia. — Quer ir com a mamãe?
— Sim! — Ela sorriu, me abraçando forte.

Abel
Greensboro, Estados Unidos, 2025
— Você quer tentar algo parecido com o Cruzeiro? — perguntou o João. Mantive os olhos no papel, a caneta a deslizar rápida, quase impaciente.
— Não. Nós vamos com tudo para isto. — falei, rabiscando no papel. — Não posso cometer o mesmo erro das duas últimas finais. Se formos para a frente e alguém se magoar no processo, ajustamos depois… mas agora precisamos de foco.
— Cabeça fria, Abel. — disse o Thales. — Não precisamos abusar de uma vez só.
— O Porto não é um time fácil, gente. — acrescentou o Vitor. — Estou revendo os jogos deles milhares de vezes. Eles são chatinhos em todas as oportunidades. Surpreendem em todo jogo. O ideal é ir com o time completo. Temos todos os jogadores disponíveis.
Suspirei.
Os nomes estavam ali, à minha frente. Opções. Responsabilidade. Consequências.
Cada risco tinha um preço.
— Posso falar? — Levantei o rosto. Leila observava-nos com aquele ar atento de quem nunca está apenas de passagem.
— Leila, claro! Entre. — levantei-me, e os outros fizeram o mesmo.
— Não se preocupem, eu só estava de passagem. — aproximou-se da mesa. — Mas, se puderem, façam uma boa primeira impressão… Só se fala do Palmeiras lá fora. As ruas estão tomadas, os jogadores em peso nos Estados Unidos… Um bom marketing não faria mal a ninguém. — Pressionou os lábios num sorriso contido.
— Nunca faz. — respondi, deixando escapar um riso curto enquanto ela saía.
— Ela está certa. — comentou o Rogério. — Os torcedores estão fazendo bonito. Nova York está tomada…
Assenti devagar. Bonito era bom. Mas eu precisava de eficácia.
— Então vamos a isso — voltei ao bloco. — Weverton na baliza. Giay, Gómez e Murilo atrás. Anderson, Ríos, Moreno e Piquerez no meio. — pausei, sentindo o peso da decisão. — Estêvão, Roque e Maurício na frente. Testamos assim no próximo treino.
— Combinado — disse o João.
As cadeiras arrastaram-se pelo chão. Um a um, foram saindo.
Antes que a porta fechasse, acrescentei:
— Treino fechado.
Eles pararam.
— Não quero a imprensa em cima de nós. Não mais do que já está.
— Coletiva na sexta? — perguntou o Thales.
— Sim. Antes de viajarmos para Jersey. Lá trato do que é obrigatório e acabou.
A porta fechou.
Silêncio.
Fiquei sozinho com o quadro, os nomes e aquele zumbido constante que aparece sempre que a responsabilidade ganha volume.
Passei a mão pelo rosto e tirei o telemóvel do bolso.
Mensagem da .
“12 páginas, uma aprovação e uma passagem para New Jersey!” Abri a fotografia. A capa do projeto, a assinatura do professor, o orgulho escondido naquele enquadramento rápido.
Outra imagem surgiu logo a seguir.
“Três passagens, na verdade!” A Lia sorria para a câmara como se o mundo fosse a coisa mais simples de segurar.
E, por um instante, foi.
Sorri sem dar conta.
“Saudades de vocês.” Não precisei de esperar.
“Nos vemos no domingo. Pronto para ver vocês derrotarem o Porto?” Deixei escapar um riso pelo nariz.
“Espero que sim.” Os meus dedos bateram na madeira da mesa, denunciando a inquietação que nunca me larga.
A resposta apareceu quase de imediato.
“Para de pensar, Abel! Vai treinar os teus jogadores. Nos vemos em dois dias!” Abanei a cabeça.
Só ela.
Só ela para atravessar a tensão e deixar espaço para um sorriso.
“Vou lá. Bons estudos. Dá um beijo na Lia por mim.” O telemóvel vibrou novamente.
“Dado, ela mandou outro! <3” Fechei os olhos por um segundo, respirando fundo. Guardei o telefone.
O peso voltou para onde estava.
— Vamos, Abel… — murmurei. — Vamos.
Empurrei a cadeira para trás e segui em direção ao campo.

Leonor
New Jersey, Estados Unidos, 2025
— Eu não vou ter como agradecer à Leila por tudo o que ela está fazendo por nós — comentei com a minha mãe assim que a porta da van se fechou.
— Ela sabe o quanto você é importante para o Abel, filha — minha mãe respondeu, e eu suspirei.
— Eu sei… — neguei com a cabeça enquanto ajeitava Lia deitada entre os bancos, prendendo o cinto de segurança em seu corpinho.
O aeroporto LaGuardia — assim como os aeroportos e ruas mais famosas de Nova York — estava um completo caos. A torcida do Palmeiras mostrava que tudo era possível, que estávamos ali e que queríamos ganhar.
Entre algumas camisetas de outros times, só se via verde e branco. Era incrível.
E, ao mesmo tempo, completamente caótico — especialmente com uma criança da idade da Lia.
Eu tinha dado um suco de maracujá antes do voo, mas foi só entrar no avião para toda a paz acabar. Os torcedores não ficaram quietos um segundo sequer durante a viagem. No desembarque, vários grupos se encontraram, cantando, gritando… e eu já estava desesperadamente à procura de um remédio para dor de cabeça.
Amo meu time. Amo essa animação.
Mas odeio quando o meu modo mãe está ligado.
— Tenta dormir — minha mãe disse do banco de trás da van, acariciando meu cabelo.
Assenti.
Encontrei um Paracetamol na bolsinha de primeiros socorros e encostei a cabeça, querendo apenas chegar logo a New Jersey.
Isso só aconteceu mais de duas horas depois. Tudo ainda parecia caótico. Talvez fosse normal, não sei dizer — mas parecia que absolutamente tudo lembrava jogo. Até eu estava ansiosa, honestamente.
Abel sabia o peso de um Mundial de Clubes para nós. Eu só conseguia imaginar como estava o clima com o time.
— Chegamos! — anunciou o motorista.
Agradeci em silêncio quando saí da van com Lia no colo, dormindo novamente.
— Vou fazer o check-in — minha mãe disse.
Assenti.
— Poderia… — indiquei o carrinho ao motorista.
— Deixa comigo! — Reconheci a voz feminina antes mesmo de virar. Nathália, do marketing, apareceu ao meu lado.
— Obrigada — sorri.
Ela destravou o carrinho e aproveitei para acomodar Lia com cuidado. A pequena se mexeu um pouco, mas não acordou. Sorri, aliviada.
— De mãe pra mãe — Nathália disse, sorrindo também.
— Ei, Nath… como estão os ânimos? — perguntei.
Ela suspirou.
— Eles estão voltando da visita ao MetLife. Daqui a pouco chegam. Estão empolgados…
Rimos juntas.
— Então vamos ver o humor do nosso técnico, né?
Ela arregalou os olhos antes de cair na risada.
— Até mais!
— Até!
Empurrei o carrinho para dentro do hotel, tão deslumbrante quanto o anterior. O lobby estava quase vazio àquela hora. Aproximei-me do balcão com minha mãe, mas o check-in já estava todo organizado. Confirmaram nossos documentos e nos entregaram as chaves.
— Você pode subir com a Lia? A Nathália disse que eles estão chegando — minha mãe pediu.
— Claro. Se ela acordar, já dou um banho nela.
Beijei sua bochecha.
— Não devo demorar.
Ela sorriu e seguiu o concierge empurrando o carrinho.
Observei os diferentes tipos de assentos no lobby antes de me jogar na poltrona que parecia mais confortável. Meu corpo afundou nela, arrancando um suspiro involuntário.
Aquela semana tinha sido intensa. Fiquei focada no projeto, consegui adiantar mais do que apenas o primeiro capítulo — e quase fiquei vesga no processo.
Ter trazido minha mãe tinha sido a melhor decisão possível. Quando eu precisava focar, ela levava Lia para passear, brincar no parquinho perto do Airbnb. Quando eu queria ficar perto da minha filha, ela estava ali comigo.
Ouvi vozes do lado de fora.
Levantei-me a tempo de ver o ônibus estacionar em frente ao hotel. Um a um, os jogadores desceram, seguindo para dentro, com Leila à frente.
! — ela sorriu, me abraçando. — Chegou faz tempo? Fez boa viagem?
— Acabei de chegar. Tudo certo! Obrigada pela carona.
— Ah, não precisa agradecer! — abanou a mão. — Da próxima vez mando o avião pra vocês.
— Leila! — repreendi, arrancando risadas.
— Fala aí, ! — Bruno passou com Giay.
— Oi, meninos!
— Ah, agora ele fica mais calmo — Gomez comentou ao me ver, passando com Piquerez.
— Ih, agora ele vai te xingar! — o capitão me deu um abraço rápido.
— Sempre! — ri.
Señorita! — Ríos! — acenei, vendo Veiga logo atrás.
— Agora sim. Nosso amuleto chegou! — ele brincou, me abraçando.
— Olha isso! — João comentou. — Nosso amuleto!
Rimos.
!
— Que confusão é esta toda?
A voz veio de trás. Abel acabava de descer do ônibus.
— Enfezado como sempre? — provoquei.
! — ele disse, surpreso.
Sorri e o puxei para um abraço. Ele suspirou perto do meu ouvido.
— Oi…
— Olá. Já chegaste…
— Eu disse que viria.
Ele sorriu de leve.
— Eu sei…
Suspirou fundo.
— Respira, Abel. Temos um bom tempo até o jogo.
— Estás aqui. É o que importa.
— Lia? Sua mãe?
— No quarto.
Ele assentiu.
— O que vai fazer agora?
— Jantar, talvez. Ainda é cedo, mas não como desde o pequeno-almoço. – Ele passou as mãos pelos cabelos.
— Quer ver a Lia?
— Quero. — saiu quase como um desabafo.
— Ela está dormindo lá em cima. – comentei.
— Melhor assim… — murmurou. — Ao menos ela não percebe o quanto estou a entrar em parafuso.
— Você não precisa fazer isso sozinho. – Ele me olhou em silêncio. – Vem. – segurei sua mão e o puxei para dentro do hotel.

Abel
New Jersey, Estados Unidos, 2025
— Deem-me um minuto, por favor — pedi.
— Estaremos lá fora — respondeu o João.
Assenti e fiquei a ver a porta fechar-se.
Respirei fundo antes de me levantar e caminhar até ao espelho encostado na parede. Encarei o meu reflexo. Fechei os olhos por alguns segundos.
Respira, Abel. Respira. Encolhi os ombros, obriguei-os a relaxar. Rodei o pescoço de um lado para o outro, num gesto automático, tantas vezes repetido antes de entrar em campo.
Voltei a abrir os olhos.
Sacudi a cabeça uma vez.
— Vamos.
Guardei o bloco e a caneta no bolso, vesti o casaco do Palmeiras e saí da sala dos treinadores em direção ao balneário.
— VAMOS, MALTA! É AGORA! É O MOMENTO QUE ESTÁVAMOS À ESPERA! — O João puxava pelo grupo quando entrei.
Alguns estavam em silêncio absoluto, perdidos nos próprios pensamentos. Outros alongavam-se, concentrados. Havia ainda quem falasse como se fosse apenas mais um treino.
Cada um lida à sua maneira.
Eu sempre fui dos mais calados.
— Abel… — chamou o João.
Respirei fundo.
— Juntamo-nos, rapazes?
Aproximei-me e eles fecharam a roda, braços sobre os ombros uns dos outros.
— É contigo, mister.
Assenti.
Olhei um por um antes de começar.
— Olhem à vossa volta. Ninguém chegou aqui por acaso. Cada treino duro, cada jogo complicado, cada dia em que foi mais fácil desistir… foi isso que nos trouxe até este momento.
Fiz uma pausa curta.
— Hoje não é sobre perfeição. É sobre compromisso. Sobre responsabilidade. Sobre confiar no trabalho que fizemos e no homem que está ao vosso lado.
Alguns acenaram com a cabeça. Outros mantiveram os olhos presos em mim.
— Lá fora vão tentar tirar-nos o controlo. Vão acelerar o jogo, provocar, empurrar-nos para o erro. Cabeça fria. Coração quente. Joguem simples. Joguem juntos. Lembrem-se de quem somos quando ninguém está a ver.
Respirei outra vez.
— É isso que entra em campo agora.
Senti a energia a mudar.
— Hoje vamos jogar uns pelos outros… e por aqueles que vieram conosco, que estão lá em cima.
— E pelos que ficaram em casa! — alguém completou.
— ISSO! — gritaram, batendo palmas.
— Vamos lá! — chamou a Nathália. — Em ordem!
— Ai, esta gracinha americana… — murmurou o Thales, arrancando algumas gargalhadas nervosas.
Já a caminhar, Nathália aproximou-se de mim.
— Como se sente a jogar contra uma equipa de Portugal?
Nem precisei de pensar.
— O meu clube é o Palmeiras.
Ela sorriu, satisfeita.
— Boa resposta.
Tocamos as mãos antes de seguir atrás dos jogadores. A entrada foi feita um a um. Quando pisei o relvado, o som engoliu tudo. Verde e branco por todo o lado. O azul do Porto quase desaparecia. Por um segundo, parecia que o Allianz tinha atravessado o oceano.
Cumprimentei o Farioli e dirigi-me para o nosso banco.
Mas antes procurei.
Não demorei.
Uma pequena figura debruçada sobre a divisória acenava com toda a força que cabia naquele corpo minúsculo.
— L’Abeeeeeeel!
E, atrás dela, a , a segurá-la pela cintura. A mãe ao lado.
— Boa sorte — li nos lábios dela.
Sorriu.
E qualquer coisa em mim acalmou.
Sorri também.
Eu estava pronto.
Mesmo.



Continua...


Nota da autora: Oi, gente! Tudo bem?
Faz tempo que eu tenho uma ideia com o Abel e o Mundial de Clubes foi um balde de inspiração, e só faltou um motivo especial para eu mandar para vocês, e nada como um especial como os Astros do Ano Ficsverse, né?! Eu sou palmeirense desde criancinha, tenho um amor especial pelo Abel, o Mundial de Clubes foi um momento que uniu mais ainda os palmeirenses, então espero que vocês gostem muito e comentem, claro! <3
Um agradecimento especial à minha beth Gigi e ao Ficsverse por esse convite!
Até a próxima!

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