São Paulo, 30 de janeiro de 2021
A sala da casa de dona Amélia era um verdadeiro caos. Gritos, palmas, almofadas e salgadinhos voavam pelos ares. Ela já tinha pedido um zilhão de vezes para diminuírem o volume, mas , o pai, o avô e os colegas da faculdade simplesmente ignoravam. Quanto mais difícil o jogo ficava, mais alto o barulho aumentava.
Nessas horas, agradecia por estar em Indaiatuba, numa casa, e não em um apartamento. Tinha certeza de que, em Perdizes, a vizinhança estaria muito menos paciente.
Depois dos noventa minutos, o árbitro ainda deu angustiosos quinze de acréscimo. O jogo, no Maracanã, tinha pouquíssimo público, mas a final entre Palmeiras e Santos parecia fazer o estádio fingir que havia muito mais gente ali.
— Isso vai pra prorrogação! — Gabriela gritou, levantando-se aflita, enquanto dona Amélia colocava mais uma travessa de enroladinhos de salsicha sobre a mesa atrás delas.
— Eles estão batendo demais! — reclamou, jogando a cabeça para trás.
— Vai dar merda! Vai dar merda! — Gabriela repetia.
— Xi! — alguns ecoaram.
— Eu preciso respirar! — Lucas, primo de , escapou do aperto entre Fábio e Euclides e foi para perto de Gabriela.
— Está na hora das apostas ou…? — seu Carlos provocou.
— XI! — o coro aumentou quando viram o cruzamento.
Então o tempo desacelerou.
Breno Lopes subiu.
Testou firme.
E a bola foi entrando devagar, enquanto John apenas olhava.
Por um segundo houve silêncio.
— Gol?
— GOL!
— GO-O-O-O-O-O-O-O-O-O-!
O grito dentro da casa dos se misturou ao da vizinhança. Gente se trombava ao levantar, alguns tropeçavam, risadas se confundiam com berros de comemoração.
pulava junto com todos, quase derrubando a poltrona para trás. Cerveja e salgadinhos caíram no tapete antigo de dona Amélia, mas, abraçada ao marido, ela parecia nem notar.
— MEU DEUS, ELE CONSEGUIU! — a prima de gritava, surtada.
— EU FALEI QUE IA SER O BRENO! — Fábio comemorava.
— Calma, ainda tem jogo! — alertou o senhor João.
— Ô, caceta! — Euclides resmungou, voltando a sentar.
Dessa vez, ninguém saiu mais do lugar. Quem tinha caído no chão ficou ali mesmo. A tensão dos minutos finais era quase igual à do início da partida.
Enquanto os jogadores comemoravam com a torcida, a câmera encontrou Abel. Tenso. Contido. Como se se recusasse a festejar antes da hora.
ainda não tinha contado aos amigos que estava tomando café com ele uma vez por semana. Só precisou revelar à mãe que estava saindo com alguém quando ela estranhou a pressa em voltar para São Paulo depois das férias.
O Santos tentou reagir, mas o nervosismo embaralhava tudo. Abel parecia à beira das lágrimas. Os torcedores tinham criticado tanto o novo treinador… aquela vitória poderia ser o começo de outra história.
Quando o apito final soou, a casa explodiu outra vez.
Mas explodiu por ele.
Estava radiante.
No meio do turbilhão, percebeu que fazia quase duas semanas que não o via. Ele não tinha conseguido aparecer para o café daquela semana.
Riu sozinha e pegou o celular da poltrona.
Afundou no estofado, abriu as mensagens e digitou com as mãos trêmulas e um sorriso impossível de esconder:
“Espero que tenha valido a pena perder aquele café.”
Bloqueou a tela e deixou a cabeça cair para trás.
É campeão.
O celular acendeu segundos depois.
Abel.
“Consegui. Agradeço muito por tudo. Ainda me aceita para aquele café?”
O sorriso dela cresceu ainda mais. olhou para a televisão, tentando descobrir se ele tinha mandado a mensagem naquele exato instante, mas Abel já estava nas entrevistas.
Rindo baixo, ignorando a festa ao redor, respondeu:
“Claro. Comemorar é o mínimo.”
Enviou a mensagem e deixou o corpo relaxar, finalmente permitindo-se sentir o momento.
Greensboro, Estados Unidos, 2025
Observei Lia dormindo no carrinho e o empurrei devagar com a ponta do pé, sorrindo ao perceber como ela já estava grande demais para aquele espaço. Mas era só provisório, apenas para que pudesse descansar um pouco naquele tempo.
— Para lá! Para lá! — ouvi Abel gritar com o time, fazendo os meias recuarem durante o jogo-treino.
O olhar sério dele era fascinante. Uma prova perfeita de que, mesmo com o lado emocional ligado nos 220 volts, ele tinha nascido para esse trabalho. E poder conhecer tudo isso de perto era ainda mais gratificante.
— Você não cansa, não é?! — virei para o lado, vendo Leila surgir em seu tradicional conjunto verde.
— Bem, foram quase quatro meses. É um longo tempo! — ela riu.
— Sua mãe não parece ter o mesmo pique... — rimos juntas, enquanto ela se sentava ao meu lado.
— Ah, não. Deixei-a descansar um pouco desse caos. Ela me ajudou muito em Washington. — Leila confirmou com um gesto.
— E como foi o curso? — perguntou.
— Muito bom! Foi bem legal. Entediante em alguns momentos, não vou negar... — Leila riu. — Mas vai aumentar meu salário em 15%, pelo menos.
— Então é por uma ótima causa! — rimos juntas.
— Uma ótima causa! — repeti, suspirando.
— E vocês? — ela indicou Abel no campo. — Quando vamos sair do 0x0?
Ri, envergonhada.
— Eu não sei, honestamente. — suspirei.
— Não vai dizer que conheceu algum americano enquanto esteve aqui? — minha risada saiu mais alta do que o esperado, chamando a atenção de Abel e de alguns jogadores. Abanei a mão, tentando disfarçar.
— Desculpe! — falei ainda rindo. — Não, eu não conheci. — suspirei de novo. — E estar de volta aqui, com ele, nesse ambiente, só me dá mais certeza de que meu coração bate cada vez mais forte.
— Posso te garantir que ele tem um carinho enorme por vocês.
— E você só sabe disso? — perguntei, provocando.
— Que ele gosta de você é óbvio, ! — disse rindo. — Só não sei dizer se existem outros problemas que o façam evitar isso.
— Bem, eu entendi quando ele chegou ao Brasil. A separação era recente, ele estava com problemas com as filhas, mas... já faz quase cinco anos. — suspirei.
— Eu poderia dizer “um dia de cada vez”, mas... conheço pessoas que são menos lentas do que ele. — rimos juntas.
— Fico feliz de não ser a única que pensa assim.
— Bem, vocês são uma família, isso ninguém tira. Só falta se garantir que a parte física também aconteça. — rimos ainda mais. — Bem, ele tem mãos grandes...
— Leila-a-a-a! — protestei, rindo.
— Você tem uma amiga, ! Conte comigo sempre! — ela segurou minha mão, e eu sorri.
— Obrigada! É bom ter uma amiga nesse caos masculino.
— Ah, e precisamos, mulher! Precisamos! — sorriu de volta. — Inclusive, precisamos de álcool.
— Eu ia adorar uma caipirinha agora! — rimos juntas.
— Mamãe? — virei o rosto para o carrinho, vendo Lia esfregar os olhos.
— Ei, meu amor! — aproximei o carrinho. — O cabelo bagunçado! — comentei sobre os cachos despenteados, pegando-a no colo.
— Mamãe! — ela gemeu, aconchegando-se contra mim. Apertei-a nos braços.
— Mamãe está aqui, meu amor. — beijei sua cabeça.
— Fominha! — disse sorrindo.
— Ah, minha safada! Tá com fome? — rimos juntas. — Suquinho verde?
— Si-i-im! — falou animada.
— Ela é a única pessoa que se anima com suco de couve! — rimos juntas.
— E bicoito! — completou.
— Esse não tem, amor. Mamãe só consegue fazer em casa.
— Nós temos um chef incrível, . Aposto que ele sabe preparar biscoitos de chocolate e aveia para ela. — disse Leila.
— É? — olhei para ela.
— Você se esquece de quem eu sou, né?! — riu.
— Obrigada, tia Leila! — virei-me para Lia. — Como se diz, meu amor?
— ‘Bigada, tia Leila! — Lia se esticou para abraçá-la, e Leila a sentou no colo.
— Não é nada, meu amor! — ela deixou um beijo no meio dos cachinhos. — Vou pedir para ele fazer agora mesmo para você.
Sorri, voltando o olhar para o campo. E foi então que vi Abel: um sorriso perdido no rosto, enquanto nos observava de longe.
Abel
Vi a Lia atirar-se para o colo da Leila com aquele sorriso maroto e senti os meus lábios abrirem sozinhos, traidores. Os caracóis estavam completamente despenteados, o lacinho verde perdido em algum ponto daquela confusão adorável.
Tão pequena.
Tão casa.
Por um segundo, o barulho do relvado ficou distante. Havia apenas aquela imagem — a leveza dela, a forma como observava tudo com aquele ar de quem guarda o mundo nas mãos.
— Se eu não te conhecesse, professor, dizia que o teu humor mudou — comentou o Gómez ao meu lado.
Lancei-lhe um olhar de soslaio.
— O quê? Não podes dizer que é mentira! — insistiu, já a rir.
Suspirei e acabei por me virar para ele.
— Não é mentira — admiti. — Mas não gosto nada que andem a meter-se na minha vida pessoal.
Ele ergueu as sobrancelhas, divertindo-se com o meu desconforto.
— Por quê? Acha que isso quer dizer que já devia ter feito alguma coisa a respeito?
Resmunguei qualquer coisa imperceptível.
Devia, talvez.
Queria, seguramente.
— Ia tratar disso, pá… — comecei, baixando o tom. — Mas ela falou-me da viagem. Anda a sonhar com esse curso há três anos. Não ia agora chegar lá, despejar o que sinto e, quem sabe, baralhar-lhe a cabeça. Tirar-lhe a vontade de ir.
Gómez fez um gesto com a mão, como quem compreendia… mas nem por isso deixava de provocar.
— Eu sei, eu sei. Mas ela está aqui agora! — apontou.
Baixei-lhe logo o braço.
— Eh pá, tem calma!
Olhei em volta por reflexo, certificando-me de que ninguém nos prestava atenção.
— Sim, está aqui. E o que queres que eu faça? Que vá ali e a beije à frente de toda a gente?
— É-é-é! — respondeu, arrastado, com um sorriso enorme. — É óbvio!
Revirei os olhos.
— Tu és impossível.
— Perguntaste! — defendeu-se, rindo em provocação.
Voltei a olhar para o relvado, mas era inútil fingir concentração quando a minha atenção continuava a fugir para o mesmo ponto da bancada.
ria.
A Lia dizia qualquer coisa ao ouvido dela, e inclinava a cabeça, paciente, como se aquele fosse o lugar mais importante do mundo. A mão dela pousava protetora nas costas da miúda, num gesto automático, natural.
Familiar.
Senti o peito apertar de uma forma boa e assustadora ao mesmo tempo.
Queria atravessar aquela distância.
Queria estar ali.
Mas querer nem sempre é poder. E, às vezes, poder exige tempo.
— Então quando? — Gómez voltou à carga. — Vais esperar que o universo marque na agenda?
Olhei para ele, sério desta vez.
— Quando eu achar que é o momento certo.
Ele sustentou o meu olhar por um instante e, desta vez, não brincou. Apenas assentiu.
Porque ele sabia. Todos sabiam.
Eu não fazia nada pela metade.
Bati palmas, retomando a postura.
— Vá, toca a trabalhar!
Ele ainda soltou uma gargalhada antes de se afastar.
Fiquei ali por mais alguns segundos, imóvel, as mãos na cintura, fingindo observar qualquer movimentação em campo.
Mas voltei-me outra vez para a arquibancada.
agora tinha a Lia no colo. As duas riam de algo que eu não podia ouvir, e mesmo assim parecia que o som chegava até mim.
Sorri.
Não era o momento.
Ainda não.
Mas ia chegar.
Eu ia fazer com que chegasse.
— Você deveria aproveitar as amenidades do hotel...
— Abel, eu vim te ver! — falei firme. — E estava com muitas saudades de ver meu time treinar. — Ele sorriu. — A gente se acostuma, sabe?
— Senti tua falta também... — disse ele. — Tornas tudo espe...
— Mamã-i-i-i! — Lia nos interrompeu. — Mamã-i-i-i-i! — Viramos para ela, apoiada na janela, na ponta dos pés. — Olha! Olha! Olha! — Abel me olhou sugestivamente e eu ri.
— O que foi, meu amor? — atravessei o refeitório até minha menina, e Abel veio atrás.
— Olha! Olha! Olha-a-a-a-a! — exclamou animada. Segui seu dedo. — Paquinho! Paquinho! — Me abaixei ao seu lado.
— Está quase na hora de dormir, meu amor. — Acariciei seu rosto.
— Mas ‘tá quase na hora, mamãe... Vamo’ bincá’ um pouco! — Ela fez um biquinho irresistível e respirei fundo. — Vamo’, L’Abel? — virou-se para Abel, e foi minha vez de olhá-lo sugestivamente.
— É só do outro lado da rua, . Vamos lá, eu acompanho-vos. — disse ele.
— Eu ainda preciso arrumar as malas para amanhã...
— Só um bocadinho! Vai deixar-me feliz e vai deixar a tua filha feliz... – Suspirei.
— Não vai dar problema para ti? — sussurrei.
— Qual é! É literalmente do outro lado da rua, dentro do complexo. — Suspirei e ele fez um gesto com a cabeça. — Vamos!
— Ok, mas só alguns minutos, hein?! — falei séria para Lia.
— Oba-a-a-a! — Sua animação ecoou pelo refeitório, arrancando risadas de alguns jogadores. Neguei com a cabeça.
— Mas você precisa se comportar! — falei séria.
— Vou me compotá’, mamãe! — estiquei minha mão para ela.
— Vamos lá! — disse.
— Vamos, L’Abel! — Lia estendeu a outra mão para ele, e sorri vendo-o pegar de imediato.
— Vamos, meu amor! Vamos divertir-nos um pouco. O tio L’Abel só trabalhou hoje.. — disse ele, me fazendo rir.
— Trabaiou nada! Só jogou futebol! — Lia retrucou, arrancando uma gargalhada de Ríos.
— Eu amo essa menina! — sorri, seguindo com eles pelo refeitório.
— Já volto. — Abel falou com seu assistente e fomos para o elevador. — Onde é que queres brincar?
— No escorrega! — disse animada. — Depois no balanço!
— Ah, eu gostava do baloiço quando tinha tua idade. — respondeu ele.
— Que papo de velho, Abel. — falei rindo, e ele sorriu.
— Pior é começar a falar isso lá pelos 20. — ponderei.
— Fica cada vez pior! — completou, antes das portas se abrirem.
Atravessamos o lobby com Lia nos puxando pelos braços, e fizemos um balanço com ela, deixando-a tirar os pés do chão. Assim que saímos, o parquinho do complexo já estava diante de nós.
— Eba-a-a-a!
— Não corre! — puxei-a quando ameaçou disparar. — O que a mamãe ensinou?
— Olhar pros dois lados da rua... — respondeu desanimada, de biquinho.
— Muito bem! — elogiei. — Olhou? — Ela virou o rosto para a direita, depois para a esquerda, antes de erguer os olhos para mim.
— ‘Tá livre, mamãe!
— Então vamos! — deixei-a nos puxar até o parquinho.
Ele não era muito grande, mas esposas de alguns jogadores estavam lá com seus filhos. Cumprimentei algumas antes de me abaixar diante de Lia.
— Cuidado! — falei séria, indicador em frente aos olhos dela. — Fica só aqui! Se precisar de ajuda, chama a gente. Mamãe e papai estarão aqui... — baguncei seus cabelos, percebendo o que tinha dito. — Mamãe e Abel! — corrigi rápido.
— ‘Tá bem, mamãe! — respondeu. — Posso ir?
— Pode! — deixei-a correr até a casinha com escorregador.
— “Mamãe e papai”? — Abel perguntou, e virei para ele.
— Desculpa. Saiu sem pensar... — sentei-me no banco, e ele ao meu lado. — Acho que é a figura paterna mais próxima que ela tem.
— E eu amo-a como se fosse minha filha. Tu sabes disso, não sabes? — assenti, e ele passou o braço atrás de mim, no encosto. — Um ano e meio, ... parece tão pouco, mas mudou tudo. — disse.
— Mudou mesmo. Às vezes penso que nem me lembro mais de como era antes dela. — falei, sorrindo ao ver Lia subir no escorrega.
— Sinto o mesmo com as minhas. — comentou. — Elas cresceram tão depressa... sinto que perdi pedaços.
— É normal, Abel. Não há pai perfeito. — respondi, e ele riu.
— Então é por isso que estás sempre a lembrar-me de comer, dormir, não enlouquecer? — sorri e dei de ombros.
— Alguém tem de cuidar de ti. — falei num tom leve, mas ele me olhou de lado, demoradamente.
— E quem é que cuida de ti, ? — a voz dele saiu mais baixa, carregada de ternura.
— A Lia... de certa forma, ela me lembra todos os dias porque continuo. — confessei.
— Mas tu também mereces ser cuidada. — respondeu, aproximando-se, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.
Dei uma risada curta, nervosa:
— Vai começar a fazer discurso motivacional aqui, no meio do parque?
— Só se quiseres. — retrucou, sorrindo, mas sem afastar o olhar.
Enquanto falava, já tinha se inclinado um pouco mais, e percebi que meu corpo respondeu no mesmo compasso. O braço dele no encosto roçou meus ombros; minha mão, distraída, quase tocou na dele. Era como se a conversa nos puxasse para perto, sem que nenhum de nós tivesse de decidir.
— Sabes, ... contigo eu sinto... — ele começou, mas não terminou. Eu já conseguia sentir a respiração dele tão perto da minha que engoli em seco.
— L’Abe-e-e-e-el! — a voz de Lia subiu até nós. — Vem me empurrar no balanço? — Ela se debruçou nas pernas de Abel e suspirei, nos afastando automaticamente.
— Talvez precisemos esperar mais um pouco. — ele disse, acariciando meu rosto. Fechei os olhos com o toque.
— Desculpa... — fiz careta, e ele riu.
— L’Abe-e-e-el! — Lia o sacudiu, chamando sua atenção.
— Eu vou, meu amor! Eu vou! — levantou-se. — Vamos lá!
— Vai, “papai”. — Mayke brincou, fazendo Abel rir antes de seguir até o balanço.
Abel colocou Lia no assento, se abaixou para dar algumas instruções e depois foi para trás dela, começando a empurrá-la devagar. Mesmo do outro lado do parquinho, dava para ouvir a risada de Lia e os gritos de “mais alto, mais alto!”.
Indiretamente, sempre pensei em Abel como pai de Lia. Meus pais moram relativamente longe, então não consigo vê-los com frequência para que meu pai seja uma figura paterna para ela. Abel, porém, sempre esteve lá. Para mim, e para ela. Talvez fosse cedo para sonhar com uma família completa, mas impossível não — ainda mais depois de todo esse tempo juntos.
Abel
— Acho melhor eu subir, preciso finalizar a mala ainda. — disse à mesa do refeitório, depois de voltarmos do parquinho, suados — eu e a Lia, claro.
— Queres ajuda? — ofereci.
— Não precisa, tem que descansar para amanhã. O primeiro jogo está a chegar. — respondeu.
— A tua mãe foi tomar banho, posso ajudar a dar banho à Lia e pô-la a dormir enquanto arrumas… — falei sugestivamente. — Que te parece?
Ela olhou-me, os ombros cansados. Talvez pelo dia, talvez pelas decisões que sempre tinha de tomar como mãe solteira.
— Abel… — suspirou, vendo a Lia quase a dormir na poltrona ao meu lado.
— Não digas que vais atrapalhar-me. — falei firme e ela suspirou.
— Está bem, mas não me olhe assim! — respondeu séria, levantando-se, e eu fiz o mesmo.
— Vem, meu amor, vamos para cama. — disse, e eu apoiei o braço no seu ombro.
— Deixa. — falei, segurando a Lia pelas axilas e ergui-a. — Vamos dormir, meu amor?
— Mimir! — murmurou, aninhando-se nos meus braços, os cabelos bagunçados e as bochechas ainda rosadas pela correria do parque.
O refeitório já estava vazio; fomos praticamente os últimos a jantar, apenas alguns funcionários do hotel nos acompanhando. Cumprimentámos quem passava e seguimos até o elevador. Observei a pelo espelho; parecia cansada, talvez sem notar a minha aproximação mais cedo. Não foi intencional, mas falar de cuidado e preocupação um com o outro era inevitável.
Ela tinha razão: cuidamo-nos desde que nos conhecemos. Ela preocupava-se com o meu bem-estar, por eu estar longe das minhas filhas e pela pressão do futebol brasileiro. A família dela vivia a cerca de 100 quilómetros de São Paulo — não muito longe, mas a vida corrida da não permitia visitas frequentes.
— Obrigada… — disse , na porta do quarto.
— Por que não vais arrumando as tuas coisas? Eu cuido da Lia…
— Abel… — interrompeu-me.
— Dá para ver nos teus olhos que estás cansada e o voo é cedo. Deixa-me ajudar-te. — falei. Ela não respondeu, apenas abriu a porta, permitindo que eu entrasse primeiro. — Vai arrumando a tua mala, eu trato da Lia. Não é a primeira vez.
— E provavelmente não será a última. — falei e ela assentiu.
— Vou dar banho nela, arrumar a malinha dela e logo trago o pijama. — assenti, entrando no banheiro.
— Vamos tomar banho, meu amor? — acariciei os seus cabelos.
— Ah, nhã-a-a-a-ao! — gemeu, apertando-me.
— Rapidinho, minha linda, só para limpar este pé sujo. — ergui o pé dela, fazendo-a rir.
— Não está sujo! — disse, rindo.
— Não! Está imundo! — brinquei, ouvindo-a rir. — Vamos, ajuda o tio L’Abel!
— Ajudo! — disse, um pouco bêbada de sono.
Despi a minha pequena com todo o cuidado do mundo. Ela entrou no chuveiro sozinha e eu ajoelhei-me para usar o chuveirinho. Sabonete, xampu infantil, cachos molhados… uma rotina que já estava acostumado. Cuidei especialmente do pescoço, joelhos e pés enlameados pela brincadeira.
— Aqui está a roupinha. — entrou rapidamente e apoiou a pequena roupa na pia.
— Obrigado, estamos quase a terminar. Fecha os olhos, meu amor! — pedi, tirando o xampu.
— Também precisas de tomar banho, L’Abel! — disse.
— Eu sei, meu amor, mas primeiro tu! — falei, e ela assentiu.
— Vai ficar fedozinho! — riu.
— Vou nada! — dei-lhe um beijo na bochecha, fazendo-a rir. — Agora vamos sair daqui.
Peguei uma toalha, enrolei-a e sequei-a cuidadosamente. Vesti-a no pijama preto e branco de vaquinha, ajustando cada braço, cada perna.
— Mimir? — perguntou.
— Sim, vem! — estendi as mãos e levantei-a, apoiando-a no meu ombro.
No quarto, as malas quase prontas e a ajeitá-las com precisão.
— Pronto, . — disse.
— Preparei o leite dela. Poderia…?
— Sim, posso sempre! — falei sério, sentando-me na poltrona e dando-lhe a mamadeira com a fórmula de aminoácidos. Ela esvaziou rapidamente; lembro-me de todas as pesquisas que fiz para me habituar à alergia da Lia. Hoje era rotina, mas com atenção constante.
Ela foi soltando a mamadeira conforme o sono chegava, aconchegando-se novamente ao meu peito. Dei leves batidinhas nas pernas, embalando-a, enquanto fechava as malas.
— Como está o curso? — perguntei.
— Está tudo bem. Falta só o último trabalho e termina.
— Espero que os jogos não te prejudiquem. — sorri.
— Não te preocupes, vai dar certo.
— Claro que vai! És demasiado determinada para não dar certo.
Ela sorriu, desviando o olhar, e admirei-a por alguns segundos antes de voltar para a menina que dormia calmamente, os lábios entreabertos, as bochechas gordinhas.
— Boa noite, meu amor! — sussurrei, beijando-lhe os cabelos. Levantei o olhar para , que me olhava com ternura e olhos marejados.
— Você é incrível, Abel. — disse, sentando-se na beirada da cama. — Pensei mil vezes em adotar a Lia sozinha, enfrentar este desafio sozinha, mas…
— Nunca estiveste sozinha. — falei e ela assentiu.
— Você, a minha família, o time… — suspirou cansada. — Todos sempre me ajudam… sou eternamente grata.
— Não ajudamos por gratidão, . Ajudamos porque amamos vocês duas. — falei e ela assentiu. Fiquei feliz por ela entender esse tipo de amor. — E és também a minha família. As meninas estão longe… não sobra muita gente para me divertir. — riu.
— Bom ver que sou a sua segunda opção. — brincou, e eu sorri, estendendo a mão até a dela e apertando-a.
— Nunca. — sorrimos.
— Eu não…
— Filha? — Dona Amélia apareceu na porta, de pijama. — Precisa de ajuda?
— Não, está tudo certo. — respondeu, soltando nosso contato.
— É melhor deixá-las descansar. — falei, vendo pegar a Lia do meu colo; a menina gemeu levemente, mas acomodou-se no colchão. — Vemo-nos no pequeno-almoço?
— Não, descansa! — ordenou . — Vamos muito cedo.
— Prometes que estarás no jogo? — perguntei quase como necessidade.
— Não perderia por nada neste mundo! — sorriu, puxando-me para um abraço.
Suspirei, controlando-me para não criar clima com a mãe dela no quarto, e dei-lhe um beijo na bochecha antes de me afastar.
— Estaremos de volta antes que perceba. — sorri.
— Espero que sim! — afastei-me devagar, dei um rápido beijo em dona Amélia.
— Tenham uma boa viagem e avisem quando decolarem, quando pousarem…
— Pode deixar. — disse.
— Ah! — lembrei-me da Lia e aproximei-me novamente para beijar-lhe a bochecha. — Deus te abençoe, meu amor! — sussurrei e afastei-me.
— Boa noite! — sorriu e sorri junto, prolongando o olhar por alguns segundos.
— Boa noite! — disse, saindo do quarto e fechando a porta com cuidado.
Suspirei, sentindo o coração bater mais forte, e sacudi a cabeça, sabendo que precisaria de forças para aguentar mais alguns dias sem elas.