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Revisada por: Saturno 🪐

Última Atualização: 27/12/2025

Sob a luz do luar da Itália, ele descansava em sua casa em Bolonha, aproveitando o frio e a tranquilidade, bom, até o momento para ele estava tudo tranquilo. Kimi estava longe de casa desde março, e isso nitidamente o deixou numa rotina agitada e com noites de sonhos irreajustáveis.
Ao certo não se recordava de como era sua cidade natal, mas, aos poucos, tinha certeza de que voltaria à rotina habitual. Deixou o PlayStation de lado por um tempo e pegou o celular. Mais uma notificação da Mercedes, aquela foto fazendo a pequena contagem de Natal. Isso o fez lembrar que em vez de estar arrumando a mala para uma viagem rápida ele estava jogando. Duas semanas em Seefeld in Tirol, ou caso eles quisessem, até o ano novo. Kimi queria proporcionar aos seus pais uma viagem boa depois de todos os momentos o apoiando em seu primeiro ano na Fórmula 1.
— Tudo pronto? — sua mãe perguntou, do outro lado da porta, com ela fechada.
— Sim. — Pegou poucas roupas para a viagem.
— Podemos sair quando você e o papai quiserem. — Ele abriu a porta.
— Ótimo, então já podemos ir. — Abriu um sorriso.
Antes de sair do quarto, verificou se tudo estava realmente desligado. Tudo conferido, segurou sua mala e foi a caminho do carro.
Quase sete horas de viagem, dentre escalas e até o destino final Seefeld in Tirol. Uma pequena ponte o fez passar por cafés, uma vista por lojas do aeroporto de Frankfurt. De volta ao avião, e mais um tempo descansando na viagem, logo após, pôde ouvir a aeromoça avisar que estavam sobrevoando a Áustria. Cintos apertados, as janelas com as persianas levantadas, e sua mãe estava admirando toda a paisagem lá embaixo.
O sorrisinho que apareceu em Kimi por saber que estava proporcionando esse momento a ela era perceptível.
Estavam esperando as malas deles aparecerem na esteira para poderem finalmente irem para o chalé que eles haviam reservado para aquelas festividades de final de ano.
Quem diria que eles iriam chegar e ser tão bem recebidos. Havia informações de que todos os italianos que viajavam para Seefeld in Tirol se apaixonavam pela cidade, principalmente por aquela época do ano.

Chave em mãos, seu pai abriu a hospedagem e se certificou de que não havia alguém lá dentro e tudo estava de acordo, conforme a recepcionista informou. Kimi ocupou seu quarto, colocou as roupas no guarda roupa por paleta de cor, deixou os calçados alinhados e caminhou para o banho. Era um quarto com suíte, o que trazia mais privacidade e conforto para o hóspede.
— Vou sair, dar uma volta. Vocês querem ir?
— Eu prefiro ficar — sua mãe falou entre uma bolacha e outra. — Estou cansada do voo.
— Ficarei junto de sua mãe.
— Tudo bem, qualquer coisa pode me ligar.
Com o casaco fechado, ele pegou o celular e colocou no bolso após ligar os fones e deixar já a música começar. Se despediu de seus pais e saiu do chalé que estava. Levou consigo uma das duas chaves que haviam entregado para eles.
Kimi andou pela cidade, admirando cada lugar, agora com um pouco mais de tranquilidade. Deu atenção a alguns fãs que paravam ele. A neve caía de leve. Aproveitava o momento, até sentir mais uma vez seu estômago roncar. Na viagem para Seefeld in Tirol, quando a comissária passou servindo a refeição, ele estava dormindo tão profundo que sua mãe ficou com dó de acordá-lo.
Procurou por um restaurante que pudesse estar servindo pratos quentes naquele horário, já que estava entre o almoço e o jantar. Em cada restaurante que passava e se informava, ele não estava com pratos quentes disponíveis ainda. Diga-se de passagem que andou por um bom tempo procurando até entrar no Alpenglühen Stube.
— Boa tarde, seja muito bem-vindo ao nosso restaurante. — A hostess o recebeu.
— Boa tarde, eu gostaria de saber se vocês ainda estão servindo pratos quentes?
— Claro, o senhor deseja uma mesa?
— Sim, por favor.
— É apenas o senhor? — Eles passaram a andar até chegar a uma mesa para dois. — Essa mesa está boa para o senhor?
— Apenas eu. Ótimo, não precisa ser outra. — Sentou-se de costas para a porta.
— Por conta do horário, temos apenas três pratos quentes disponíveis. — Colocou o cardápio sob a mesa.
Antonelli o pegou e passou os olhos por cada prato, enquanto ouvia as informações da hostess.
— Para este horário, senhor, temos três opções quentes disponíveis. — Ela virou a página com cuidado. — Começando pelo nosso Käsespätzle. É servido com massa Spätzle caseira, preparada diariamente, e finalizado com uma mistura de queijos alpinos premium: Bergkäse, maturado por doze meses, e Emmentaler, reserva, todos derretidos até ficarem cremosos. Finalizamos com cebolas tirolesas crocantes, douradas na manteiga clarificada. — Ela o viu acompanhar cada prato. — Também temos o Zwiebelrostbraten. — Continuou ela. — Um bife alto de ribeye austríaco extremamente macio, temperado apenas com sal rosa do Himalaia e pimenta fresca. É servido com nosso molho de cebolas caramelizadas ao vinho tinto e acompanha batatas Bauern cortadas em rodelas grossas e douradas lentamente.
O olhar dele pareceu se acender no mesmo instante.
— E, por fim — disse a hostess, com um sorriso discreto —, temos o Rinderkraftbrühe, caso deseje algo mais leve. É um caldo forte de carne, cozido por doze horas com ervas alpinas da casa. O senhor pode acompanhá-lo com nossa massa Nudelstern, ou, se preferir, com os bolinhos Leberknödel artesanais.
Ela fechou o cardápio com elegância e manteve a postura impecável.
— Essas são as opções disponíveis neste horário, senhor. Precisa de um tempo para escolher?
— Na verdade, eu já tenho um escolhido, o Zwiebelrostbraten.
— Certo. — Anotou no celular. — E para beber, teria alguma escolha?
— Qual bebida você recomenda?
— Para acompanhar o seu Zwiebelrostbraten, eu recomendaria um Blaufränkisch — disse, com um sorriso gentil. — É um tinto austríaco com acidez equilibrada e notas de frutas escuras, realça muito bem o sabor do molho de cebola e da carne. Posso trazer uma taça para o senhor experimentar, se desejar.
— Sim, por favor.
Ela se retirou, levando o cardápio consigo e, ao cruzar o salão, chamou um dos garçons que estava prestes a iniciar o turno. Poucos minutos depois, a garçonete retornou à mesa com a entrada escolhida para ele: uma Brettljause Tiroler, uma pequena tábua de frios composta por queijos alpinos, pão rústico ainda morno, presunto defumado, linguiça tirolesa e picles servidos com uma mostarda levemente picante.
Era simples, mas reunia quase todos os petiscos favoritos de Kimi.
Enquanto degustava a entrada e aguardava seu prato principal, Kimi deixou o olhar passear pelo salão. A decoração era acolhedora: madeira clara e polida por toda parte, luzes amareladas pendendo do teto e, logo na entrada, um lustre trabalhado que iluminava o hall com um brilho suave. Tudo transmitia exatamente a atmosfera que ele esperava de um inverno nos Alpes.
A voz da hostess ecoou novamente no hall, misturando à música ambiente do local. Não se deu muito trabalho em prestar tanta atenção na conversa. Entretanto sua atenção parou na garota à mesa à sua direita, o cabelo se soltando lentamente pelas costas. Ele sorriu, já a reconhecendo quase que instantaneamente.
?
Kimi a chamou, e ela virou para trás com um olhar desconfiado e a expressão fechada. Ela não gostava de dar tanta atenção para homem que a chamavam — pois sempre soava com segundas intenções, e ela detestava isso. Mas, pela primeira vez, ouviu alguém pronunciar seu nome de verdade.
O sorriso inocente e feliz de Kimi desapareceu no instante em que viu a forma como ela o encarava. O olhar de , antes duro, suavizou ao reconhecê-lo.
— Ah, oi, Kimi!
O humor dela mudou tão rápido que ele precisou piscar algumas vezes antes de retomar o que pretendia dizer.
— Você está sozinha?
— Sim, vim fazer uma pequena viagem aqui, passar o Natal e até mesmo o ano novo, eu acho. E você?
— A mesma coisa. — Ele apontou para a cadeira à frente. — Vem. Sente-se comigo. A gente conversa enquanto come.
— Não precisa.
— Pode vir.
— E sua namorada? — Ela ergueu uma sobrancelha. — Imagina o que ela vai pensar quando souber disso.
— Nós… — Ele hesitou. — Terminamos semanas antes da última corrida.
— Ah. — mordeu o lábio e desviou o olhar, fingindo procurar algo na bolsa. — Que bola fora, .
— Certeza que não quer vir se sentar comigo?
— Só um momentinho. — Ela pegou a bolsa e se levantou. Kimi fez o mesmo, puxando a cadeira para ela com aquele cuidado gentil.
— Obrigada. — Sorriu, tímida.
— Eu já fiz o meu pedido, quer me acompanhar? Pedi um Zwiebelrostbraten, é um prato de carne que...
— Desculpa interromper… — Ela ergueu a mão, suave. — Eu não como carne. Na verdade… ela não cai muito bem pra mim.
— Tudo bem, vou pedir para alguém trazer o cardápio, pois não me recordo das opções.
Com elegância, Kimi ergueu a mão para chamar um dos garçons. Pediu um cardápio para e avisou que ela agora seria sua acompanhante à mesa. Ela sorriu educadamente quando o garçom entregou o menu e, ao folheá-lo, viu exatamente as três opções que já haviam sido oferecidas a ele minutos antes.
Por ser a única opção sem carne — e também por levar um dos seus ingredientes favoritos —, escolheu o Käsespätzle.
Enquanto aguardavam, conversaram sobre o teste dos pneus, sobre a temporada e sobre a primeira impressão dele no paddock. Kimi, com aquele jeito doce e gentil, começou a perguntar sobre ela: seus gostos, como havia entrado para a equipe de mídia da Mercedes, o que a motivava nas viagens e nas fotos.
adorava responder. Fazia tempo que não tinha uma conversa tão leve e tranquila. E Kimi, por outro lado, parecia completamente encantado, observava cada detalhe com um brilho suave nos olhos, como se estivesse descobrindo uma nova constelação em cada frase dela.
Mas, toda vez que ele puxava algo relacionado à família dela, desviava. Perguntava outra coisa, mudava o rumo, e às vezes suas mudanças abruptas arrancavam um risinho discreto de Antonelli.
Depois de comerem — e elogiarem bastante o restaurante —, deixaram o Alpenglühen Stube e começaram a caminhar lado a lado pelas ruas do bairro, onde a neve caía fina e silenciosa.
— E desde quando você está aqui? — ele perguntou.
— Desde que saímos de Abu Dhabi. Vim direto pra cá.
— Seus pais não se incomodaram? — Kimi ergueu as sobrancelhas. — Digo, se fosse eu, minha mãe ia querer pelo menos que eu passasse lá pra dar um oi.
respirou fundo, mas não respondeu à pergunta.
— Você ficou muito tenso com a sua primeira corrida? — disse de repente, mudando o rumo da conversa de novo. — Eu não fiz as fotos da estreia… entrei umas cinco corridas depois.
— Quem não fica, né? — Ele sorriu. — Tudo que fazemos pela primeira vez, ou em lugares novos, dá um nervosinho.
— Ai, eu concordo perfeitamente. — riu. — Mesmo sendo fã da Red Flag, entrar pra trabalhar na Mercedes quase me matou do coração.
Kimi soltou uma risadinha.
— Então temos alguém que torce contra a Mercedes?
— Não é bem assim. — Ela balançou a cabeça, divertida. — Não torci contra. Ficar em P2 nos construtores me deixou super orgulhosa. Sem contar os elogios que recebi pelas fotos e filmagens que fiz… E também… que ano pra Ferrari, né? Eu quase perguntei se eles não queriam que eu fizesse uma pequena reza pra ajudar.
Kimi gargalhou alto com o comentário.
— Realmente não foi um ano bom. Pelo menos o Charles conseguiu um pódio.
— Bom… esse foi um dos raros momentos em que precisei me controlar pra não comemorar ao lado dele.
— Mas você pode. Só… de maneira controlada — disse ele, com um sorriso de canto.
— Ah, mas digamos que aí não teria tanta graça. — Ela olhou o relógio e, logo depois, ergueu o olhar para o céu.
— Preocupada com o tempo? — ele perguntou, curioso.
— Na verdade… — Ela sorriu. — Fiquei sabendo que aqui tem um fenômeno muito bonito. — Elevou o queixo na direção da paisagem. — Próximo ao pôr do sol, os raios ultravioletas tocam a neve e, se você olha pro horizonte… — procurou as palavras — a neve fica com um tom arroxeado.
— Neve roxa?!
— Sim! Não literalmente, claro. É só a coloração que aparece. Dizem que é maravilhoso. Sempre vi por fotos e vídeos, mas, dessa vez, eu vim determinada a registrar com meus próprios olhos… e com a câmera também.
— Tem um lugar específico? — perguntou ele. — Gostaria de ir junto.
— Desde que tenha neve e seja lindo de fotografar, não precisa ser um ponto exato. — Ela sorriu. — Você não precisa voltar para sua hospedagem agora?
— Tá tudo tranquilo.
— Então vamos. — Ela estendeu a mão, indicando a direção. — Tem um lugar ali perto que dizem ser perfeito para capturar o fenômeno.
Kimi concordou com um gesto e seguiu ao lado dela, rumo ao ponto que ela já tinha planejado visitar.

💫


Não tão longe de onde estava hospedado — embora ele não reconhecesse o local — Kimi sentou-se ao lado dela para esperar o tal momento perfeito, mesmo sem saber exatamente o que procurava. Ficaram ali por um bom tempo, e ela não tirava os olhos do visor da câmera, apoiada no colo, enquanto a bolsa permanecia aberta ao lado dos dois.
— Sem sucesso hoje — murmurou, nitidamente desanimada. — Talvez eu tente amanhã. — Levantou-se devagar.
— Você me deixou curioso. Quero ver se esse momento é tão bonito quanto você fala.
Eles começaram a andar lado a lado, seguindo a trilha de neve fina que levava a conveniência mais próxima.
— Vai ver, sim. — Ela sorriu de leve. — É perfeito, e eu fico encantada todo ano que tento registrar. Quer me encontrar aqui amanhã?
— Claro que quero. — Kimi parou, a olhando por um segundo a mais do que deveria. — Eu vou indo… Posso te acompanhar até onde você está hospedada, depois sigo pro meu chalé.
— Que isso, não precisa.
— Eu faço questão — ele insistiu de forma gentil.
— Kimi, tá tudo bem. Eu tô acostumada — repetiu, quase como um reflexo.
Ele respirou fundo, respeitando.
— Não quero passar por cima da sua escolha. Até amanhã. — Despediram-se com um abraço.
Foram apenas segundos, mas jurou que seu coração quase saiu do peito.
Seguiram pelo caminho de concreto até a rua principal. Ainda caminhavam na mesma direção, Kimi estava alguns passos atrás dela. Ela, achando que ele apenas estava indo pelo mesmo caminho, deixou. Não tinha forças para discutir sobre isso.
A certa altura, ele começou a achar cômica a situação — e ao mesmo tempo temeu que ela pensasse que estava seguindo-a. Então desviou para uma vitrine qualquer, fingindo interesse só para aumentar a distância. Funcionou… por um tempo.
Quando dobrou a esquina novamente, lá estava ela. Parada em frente a uma pequena confeitaria, saindo com um doce nas mãos e um sorriso infantil enquanto dava a primeira mordida.
Seus olhares se cruzaram. colocou a mão sobre a boca, educada, rindo da própria cena. Ficou ali esperando ele se aproximar.
— Me diga… está me levando até o hotel? — perguntou ela, divertida.
— Não — ele respondeu com sinceridade. — Esse é o caminho para o meu chalé.
— Tá brincando. — riu. — Não é possível.
— Pensei o mesmo, … Posso te chamar assim?
Se recordou que todos da equipe, até o Wolff, a chamavam daquele jeito.
Ela sorriu, balançando a cabeça.
— Todos me chamam assim.
— Imagino que até seus irmãos — ele comentou sem pensar muito.
apenas apontou para a rua à frente.
— Vamos? Está começando a nevar.
Ele concordou, e retomaram a caminhada. O silêncio que surgiu não era desconfortável, mas fez Kimi pensar. Talvez ele tivesse sido invasivo demais, ou talvez houvesse algo com a família dela, alguma tensão, alguma ferida — porque todas as palavras relacionadas a lar, casa e pais ela colocava de lado, assim como o DRS depois da última corrida da temporada.
Quando entraram no mesmo hotel, Edelweiss Haven, os dois se entreolharam e acabaram rindo da coincidência absurda.
— Você está aqui? — ele perguntou, genuinamente surpreso.
— Sim. Meu chalé fica pra lá. — Apontou para o setor mais simples. — Imagino que o seu seja ali. — Agora indicava os chalés mais luxuosos.
— Exato. Tem certeza de que não quer que eu te acompanhe até lá?
— Se quiser, tudo bem. Mas aqui dentro já estou mais em casa do que lá fora.
— Então tá. Te vejo no café da manhã?
— Sim. Até mais.
seguiu para o chalé de mãos trêmulas. Nunca tinha passado tanto tempo ao lado dele e aquela foi a primeira vez que conseguiu conversar com Kimi sem tropeçar nas próprias palavras.
Depois do banho quente, se sentou na cama, abriu o notebook e descarregou a memória da câmera. Aproveitou para rever seu pequeno álbum virtual dedicado ao seu piloto favorito: Kimi Antonelli.
As fotos estavam perfeitas. Todas com pequenas legendas descrevendo o que ela sentiu ao tirá-las. E a última era deles dois — não juntos, mas na foto de Abu Dhabi.
Suspirou, sorrindo apaixonada, enquanto os flocos caíam lá fora, trazendo o frio do inverno.

💫


Kimi acordou cedo, animado para encontrar . Iria com os pais, mas achou que isso não seria um problema — ou assim esperava.
Na entrada do restaurante do hotel, aguardava. O sorriso que estava tão aberto foi diminuindo a cada passo que ele dava acompanhado dos pais. Ela simplesmente não estava preparada para aquilo.
— Bom dia, — ele a cumprimentou. — Esses são meus pais.
— Prazer em conhecê-los — ela respondeu educada.
— Ela faz parte da mídia da Mercedes, trabalhamos juntos — Kimi explicou.
— Que coincidência conhecer você aqui — comentou sua mãe. — Seus pais estão com você?
— Não — respondeu seca. — Vamos? Tô esperando aqui fora faz um tempinho.
O tom direto fez o estômago de Kimi revirar. Ele entendeu, mas como explicar aos pais sem revelar demais? Ou será que estava exagerando? Respirou fundo e tentou focar no self-service, escolhendo algo que abrisse mais ainda seu apetite.
Sentaram. Kimi ao lado dela, seu pai logo à frente.
A conversa fluía muito bem entre os três, mas, a cada minuto, parecia diminuir na cadeira. Movimentos contidos, meias respostas, sorrisos pela metade. Ela cruzava e descruzava as pernas como quem tenta se reorganizar por dentro.
Havia um desconforto ali, algo que ela não conseguia entender o que era. De minutos e minutos, ela mudava a posição das pernas. Ela conversava, mas não como ela sempre imaginou como seria. Talvez seria aquela singela interação de pais e filho, talvez isso seria sua rota de desconforto.
Kimi percebeu. Percebeu cada desvio de olhar, cada respiração presa. E começou a evitar certas palavras, tentando deixá-la menos sufocada.
Até que ela levantou abruptamente, o assustando.
— Agradeço a companhia — disse rápido. — Eu preciso ir. Obrigada mesmo.
— Por nada, querida — respondeu a mãe de Kimi, confusa. — Será que aconteceu alguma coisa na casa dela? Nunca vi alguém sair tão rápido.
— Você sabe de algo, filho? — seu pai questionou.
— Não… mas depois eu converso com ela — murmurou, seguindo com os olhos a silhueta dela desaparecendo na neve. — Depois.
caminhou o mais rápido que pôde até o chalé. Ao chegar, simplesmente se deixou cair na neve, sentindo o frio atravessar as roupas e relaxar seus músculos tensos. Quanto tempo fazia desde que sentia tanta pressão assim?
Quando finalmente se acalmou, levantou, entrou no chalé e trocou de roupa. Pegou algo confortável, pronto para passar o resto do dia ali dentro. Como antigamente.
A decoração natalina não ajudava. As luzes, a árvore, a pequena rena que balançava a cabeça ao som da música, nada despertava um sorriso. Ela estava de volta a um lugar interno que não visitava havia anos.
As horas passaram. Kimi passeou com os pais, praticaram esqui, almoçaram juntos — um dia familiar perfeito. Mas quando o pôr do sol se aproximou, ele se despediu do senhor e da senhora Antonelli e caminhou até o local onde havia combinado com para verem a neve roxa.
Sentou e esperou. Uma hora. Duas. Três. Cinco.
O sol se pôs, a luz roxa tingiu a neve, e ela não apareceu.
Mais tarde, Kimi voltou ao chalé com o peito pesado. Será que tinham dito algo que a machucou? Será que ele mesmo tinha sido grosso sem perceber? tinha educação demais para reclamar, mas não para esconder sentimentos.
Decidiu esperar até o dia seguinte. E, mesmo que não se encontrassem por acaso, ele daria um jeito.
Precisava saber se ela estava bem.

No dia seguinte, ele esperou por no restaurante mais uma vez. Mas, dessa vez, ela não apareceu. As horas foram passando, o sol subia e descia lentamente atrás das montanhas, e ele não avistou nem mesmo nos arredores — nem com a câmera, nem andando apressada, nem buscando o fenômeno que tanto queria fotografar.
Aquilo já não era mais apenas estranhamento. Era uma preocupação.
Decidido, Kimi foi até a recepção do Edelweiss Haven. Precisava escolher bem as palavras.
— Com licença… boa tarde.
— Boa tarde, senhor. Em que posso ajudar?
— Tenho uma amiga hospedada aqui. A … — franziu o cenho, tentando puxar da memória — . A gente se encontrou esses dias, e eu acabei esquecendo de perguntar onde ela estava.
A recepcionista o analisou com um olhar cuidadoso, quase desconfiado. A postura se manteve impecável, mas o tom dela já denunciava que o achou estranho com aquela pergunta.
— Infelizmente, senhor, não podemos passar informações pessoais dos nossos hóspedes.
Kimi assentiu, compreendendo, mas não aceitando.
— Eu entendo — disse, tenso. — Mas eu realmente preciso falar com ela. Olha… — Puxou o celular e mostrou a foto deles com a equipe. — Trabalhamos juntos. Não é nada preocupante.
— Sinto muito, senhor. Mesmo assim, preciso respeitar as normas do hotel.
Um silêncio pesado se instalou por um segundo. Kimi abaixou a cabeça, respirou fundo e desistiu.
— Tudo bem. Obrigado.
— Por nada, senhor.
Ele havia acabado de sair, quando a outra recepcionista se aproximou.
— Que coisa estranha — disse, em um tom ameno. — Desde quando esses corredores fazem isso?
— Também achei estranho.
— Piloto ou automobilista. — A mulher foi corrigida. — Não são corredores, isso dói a alma de um fã de fórmula um.
A frase veio de trás delas.
Era , ela acabava de sair do hotel para poder fazer mais uma refeição. O boné cobria o rosto e ela andava de cabeça baixa, não queria ser reconhecida pela família Antonelli.
Nos dias que se seguiram — quatro deles —, evitou qualquer lugar onde pudesse encontrar Kimi. Ia para pontos mais distantes, buscava paisagens novas, ocupava o tempo atrás da câmera. Tudo menos lidar com aquilo.
No quinto dia, finalmente mais leve, ela caminhava animada até o restaurante. Cantava baixinho uma música da Sabrina, o sorriso reacendendo no rosto.
E então o viu.
O sorriso só aumentou.
— Oi, Kimi! Como está?
Ele parou. Ficou alguns segundos tentando entender. O sumiço, a fuga, e agora esse humor radiante?
Parecia até que ela não lembrava de nada.
— Estou bem. E você?
— Ótima! Obrigada por perguntar.
Sim. Ela realmente parecia não lembrar.
— Já almoçou?
— Já.
— Pena… ia te chamar pra comer comigo.
— Posso fazer companhia se quiser. Só nós dois — reforçou, como se aquilo fosse importante.
— Claro. Por que não?
Adentraram, e ela se serviu, enquanto Kimi escolhia uma mesa mais afastada para eles.
A conversa fluiu fácil, tão natural quanto no primeiro dia. Como se nada tivesse acontecido. Como se ela tivesse simplesmente reiniciado.
— Ainda tô atrás da foto — ela reclamou, bebericando o refrigerante. — Tá impossível. Você conseguiu ver alguma coisa?
— Não. Também não tive sorte.
— Será que justo agora que estou aqui isso não vai acontecer? — Riu. — Decepcionante, mas tudo bem, tenho um bom tempo ainda.
— Tem planos pra hoje?
— Hoje não. Na verdade, não tenho nenhum plano para nenhum dia.
— Quer esquiar comigo?
Ela levantou o olhar, prestes a responder, quando ele completou — rápido demais.
— Só nós dois, é claro.
sorriu. Gostou de saber que teria um tempo a sós com Kimi.
— Pode ser. Meu chalé é o doze. Me espera lá na frente.
— Vou esperar.
Se despediu dele e voltou para o chalé. Escolheu uma roupa confortável, deu mais uma carga no celular e verificou a câmera — ainda não sabia se levaria ou não. Queria registrar a paisagem, mas também queria apenas curtir, como tinha prometido a si mesma.
Algum tempo depois, Kimi já estava parado em frente ao chalé. Ela ouviu as batidas na porta e, lá de dentro, gritou que já estava indo. Com o passaporte na bolsa e o celular, saiu sorrindo e o abraçou ao cumprimentá-lo. Estava animada para aquela tarde de esqui.
Kimi dirigiu até o mesmo local onde estava com seus pais. Explicou tudo para ela desde o caminho, as pistas e até os cuidados. Sempre medindo as palavras, sempre observando. E, cada vez que olhava para , ele sentia que de algum jeito ela estava se esforçando para estar com aquele sorriso.
Por escolha de ambos, ele decidiu ensiná-la a esquiar. Era a primeira vez dela; passou um bom tempo tentando, tropeçando, caindo, e a cada queda arrancava risadas sinceras dela e até dele. Por alguns instantes, realmente parecia leve, como se a companhia dele tirasse o peso de tudo.
— Gente, como isso é difícil — disse, rindo, se sentando na cadeira do restaurante do local. Tomavam chocolate quente agora, recuperando o fôlego. — Nunca imaginei que seria algo tão complicado assim.
— Mas você tá indo muito bem — respondeu, levando a xícara à boca. — Melhor que eu quando tentei pela primeira vez.
— Olha… vindo de um piloto, fico lisonjeada.
— Não exagera. — Ele sorriu de canto. — Você é boa no que faz, até aprendendo.
abaixou o olhar para a bebida, mexendo a colher devagar.
— Acho que você é a segunda pessoa que me fala isso. A primeira foi a Scarlet… mas isso não vem ao caso. — Encurtou a frase, quase se encolhendo.
Aquela confissão rápida, quase jogada, acendeu nele uma curiosidade suave — não invasiva, mas verdadeira. Queria saber mais. Queria entender o que estava por trás daqueles cortes de assunto, daqueles sorrisos que sumiam rápido demais.
— Ela estava certa então. — Concluiu com gentileza. — Quer tentar mais um pouco?
— Quero — respondeu. — Mas… tem algum lugar baixinho? Mais fácil? Talvez eu pegue mais confiança assim.
Kimi pensou por alguns segundos, tentando lembrar de um lugar onde ela pudesse aprender sem medo e, principalmente, sem pressão. Não queria que aquele sorriso dela desaparecesse outra vez.
— Na verdade, tem um lugar sim — disse, se levantando. — Normalmente é onde as crianças treinam.
— Não tem problema. — Ela riu. — Pode ser lá. Vai que eu desisto de vez.
Eles caminharam, descendo até o local em que Kimi se recordava onde ficava o local que praticava. Não era tão longe e, por sorte, estava bem tranquilo aquele horário, apenas algumas crianças com seus instrutores.
— Aqui — ele falou, apontando para o local. — Se você conseguir ficar de pé aqui, já vai ser meio caminho andado. E eu sei que você consegue.
— Perfeito — ela falou, se escondendo entre seus cabelos pra não mostrar o sorriso tímido. — É minha última tentativa antes de eu assumir que nasci para me esconder atrás da câmera.
colocou os esquis novamente e se posicionou. Kimi segurou seus braços para ajudá-la a equilibrar.
— Relaxa os ombros — pediu com paciência. — Isso, assim, agora inclina um pouquinho pra frente…
Sua tentativa ali durou por dois segundos, funcionando até o momento que ela escorregou. O reflexo perfeito de Kimi a segurou pela cintura, a puxando contra si, evitando uma queda completa. soltou um gritinho assustado misturado à risada dela — depois de saber que estava tudo certo.
— Quase — ele sussurrou, já que estavam próximos.
Subindo o olhar, ela se deu conta do quão perto estavam. Podia ter a certeza de que ele estava sentindo o coração dela acelerando e a respiração perdendo o compasso.
Kimi a soltou devagar, com cuidado, como se qualquer movimento brusco pudesse assustá-la.
— Vamos de novo — ela disse, tentando disfarçar o coração acelerado.
— Quantas vezes você quiser — ele respondeu, e era verdade.
Tentaram tantas vezes, sempre tomando cuidado tanto com ela quanto com as crianças que passavam por ali. Quando ela finalmente conseguiu descer a pequena ladeira sem cair, levantou os braços em vitória.
— CONSEGUI! MEU DEUS DO CÉU, EU CONSEGUI!
Kimi bateu palmas, sorrindo orgulhoso.
— Eu falei que você ia pegar confiança.
— Licença, preciso tentar outra vez. — Entregou o celular. — Poderia?
Ele balançou a cabeça, confirmando que faria aquele favor. E lá foi , descendo mais uma vez com todo sucesso gravado por Kimi. Terminaram, viu Kimi descer de esqui muito bem e com essa deixa aproveitou para tirar algumas fotos dele, ficaria guardado consigo naquele mesmo álbum virtual.
O tempo foi escurecendo, a noite já estava chegando, e com isso a hora de retornar para o hotel era inevitável. Enquanto dirigia, ele notou uma quieta, com o olhar no movimento da estrada, mas sentia que toda aquela alegria estava desaparecendo aos poucos.
Kimi a deixou no chalé que ela estava, combinaram de sair mais uma vez no dia seguinte, e ele novamente frisou que era apenas os dois. Aos poucos, ele foi entendendo que, se ao menos um pouco feliz ele poderia fazê-la, seria seguindo uma pequena regra para passar os dias com ela: atividades longe da família dele, lugares tranquilos, horário combinado e tentativas de achar a neve roxa.
Dia após dia, Antonelli ia se aproximando dela, a conhecendo e se encantando com aquele jeito doce e sutil de .

💫


voltava da academia do hotel; tinha um horário marcado com Kimi exatamente, como nas últimas duas semanas. Hoje, porém, a rotina seria diferente — e tudo aconteceria ali dentro do hotel. Kimi havia reservado um lugarzinho próprio para o momento que ele tinha em mente.
No caminho para o local, ela ajeitava a calça térmica, a jaqueta da Ferrari por cima da blusa de frio, a câmera pendurada no pescoço e o protetor de orelhas combinando. Esperava por ele.
Kimi apareceu alguns segundos depois, usando o patrocínio da Mercedes, dos pés à cabeça de Adidas. O verde escuro realçava absurdamente seus olhos.
— Oi, desculpe a demora.
— Oi. Tá tudo bem. — Ela sorriu. — Então quer dizer que vamos ao Frostfire Lounge?
— Sim. Deixei uma área reservada para nós, peguei a última lá no fundo.
— Ótimo! Estou curiosa, nunca fiz isso.
— Eu também. Vamos ter essa experiência juntos. — Ele apontou para ela. — Só espero que isso aí não seja uma provocação.
Claramente ele se referia à jaqueta dela.
— Fica tranquilo, é só pra lembrar que vamos ser campeões ano que vem.
Kimi arqueou a sobrancelha, se aproximando um pouco demais.
— Campeão, é? Bom saber que você acredita tanto em mim… mesmo usando a jaqueta rival.
O sorriso que ele deu foi lento, quase provocador.
— Só espero que você esteja lá quando acontecer. De perto.
Desviou a atenção para a câmera, precisava esconder suas maçãs coradas por conta de Antonelli.
Caminharam lado a lado até o canto mais afastado do Frostfire Lounge.
A área reservada era paradisíaca. Um sofá circular embutido, estofado em tecido branco de inverno, cercava uma fogueira moderna com pedras vulcânicas que aguardavam a chama. Almofadas em tons de vinho, cinza e azul davam vida ao espaço.
As paredes de vidro revelavam a paisagem lá fora, uma árvore enorme inclinada sobre a neve fina, como se guardasse aquele pequeno refúgio.
As duas taças já estavam posicionadas sobre a mesa baixa. Kimi a deixou se acomodar, enquanto acendia a fogueira.
A chama subiu devagar, aquecendo os dois. Beberam vinho, comeram e conversaram sobre coisas tão banais que o tempo parecia relaxar com eles — o calor, o álcool, o conforto. A leveza era quase nova para os dois.
deu uma gargalhada, jogando a cabeça para trás para recuperar o ar. Quando olhou para frente outra vez, travou.
— K-Kimi… olha. — Ela levantou num impulso com a câmera na mão. — Eu não acredito!
A neve do lado de fora não estava mais branca.
O reflexo das luzes subterrâneas e a composição específica do gelo criavam um brilho lilás que ondulava no ar como poeira estelar. O fenômeno. O que ela esperou por semanas.
— Você estava tão certa — Kimi murmurou, ainda olhando lá fora. — É de uma beleza inigualável.
Ele dizia sobre o fenômeno, mas seus olhos diziam outra coisa.
tirava foto após foto, deslumbrada. Voltou a se sentar, registrando cada mínimo tremor de luz. E então, sem pensar duas vezes… Fotografou Kimi.
O reflexo lilás nos olhos dele, o contorno do rosto iluminado pela fogueira, o sorriso suave e involuntário, perfeito.
Ela guardou a câmera rápido, o coração acelerado igual a um carro de fórmula 1.
— Quer outra taça? — ele perguntou.
— Por favor. — Ela entregou a taça, mas seu olhar já começava a se perder.
A cada gole, ela passava a ter o olhar mais perdido, se fechando novamente e deixando Kimi preocupado com o que poderia estar se passando pelos pensamentos dela. O último gole ela virou de uma vez só, apenas sentiu o líquido descer pela garganta e esquentá-la mais um pouco.
— Eu não suporto essa data comemorativa — falou de repente, como se a frase fosse um espinho saindo. — Porque… — os olhos marejaram — enquanto todo mundo está feliz, comendo, rodeado de família, eu sempre passo sozinha.
Kimi se aproximou devagar, respeitando o momento. Tocou na mão dela, e ela não recuou.
— Eu queria saber por que isso tinha que acontecer comigo — ela sussurrou.
E então o que ela evitou por anos finalmente veio.
— E-eu sou órfã. — As palavras saíam como se cortassem. — Eu não sei o que é ter um Natal em família.
Ela tentou continuar, mas o ar falhou. O choro veio rápido, descontrolado, o tipo que não se pode esconder.
Kimi a puxou num abraço, guiando suavemente a cabeça dela ao seu ombro. Ajustou-se no sofá circular, a envolvendo e tentando trazer um pouco de segurança e conforto. Ele não disse nada.
Porque não havia frase que reparasse aquilo, mas em seus braços ele a apertou com força. E, com ela tremendo contra ele, tudo fez sentido.
Ele permaneceu ali, naquela posição, por longos minutos. Apenas esperando que a respiração de parasse de tremer, que o choro desacelerasse até virar silêncio.
Quando finalmente ela se acalmou um pouco, percebeu que ainda estava nos braços de Kimi Antonelli.
Imediatamente se afastou, procurando um lenço na bolsa para limpar o rosto. Respirou fundo, ajeitou a postura e só então encarou o piloto.
— Kimi… desculpa. Eu te coloquei numa saia justa.
— Não tem nenhum motivo pra se desculpar.
— Tem, sim. Eu… falei coisas que não precisava.
. — Ele inclinou o rosto para ver melhor seus olhos inchados. — Se você confiou em mim o bastante pra dividir essa dor… eu só posso ser grato. E feliz por ter sido seu conforto hoje.
Ela piscou rápido, tentando processar.
— Não só hoje.
— Hã?
— Desde que entrei na Mercedes — corrigiu depressa, corando. — Me refiro a… isso tudo.
Ele sorriu de leve, aquele sorriso que dizia que tinha entendido perfeitamente. A moça baixou o olhar.
— Eu quero voltar pro chalé.
— Claro que sim. Eu te levo. Não sai daqui, tá?
concordou com a cabeça e acompanhou os movimentos. Apagou a fogueira, colocou as taças e tudo o que usaram em cima da mesa e esticou a mão para ela. Segurando em sua mão, eles saíram do Frostfire Lounge e andaram devagar até o chalé onde ficava.
— Obrigada.
— Por nada. — Hesitou e continuou. — Me passa seu celular? Vou deixar meu número. Se você precisar de qualquer coisa hoje ou amanhã… me chama. Eu respondo na hora.
A mulher assentiu com a cabeça e entregou o celular, rapidamente salvou seu número e a deixou entrar.
Kimi voltou tão pensativo para o chalé que não percebeu que sua mãe havia comprado alguns doces para ele e deixado em cima da bancada. Só depois do banho, com a mente descansada, pegou um pedaço de bolo e ficou ali sentado, mastigando devagar, o olhar perdido em algum lugar que não existia.
Queria saber de alguma forma que poderia ajudá-la, com palavras, lugares, momentos, conversas, algo que ele soubesse que poderia acabar com essa dor, ou apenas uma parte dela. Ali, ainda sentado, comendo o bolo devagar, ele pensava. Passos atrás dele nem o distraíram, só saiu dos pensamentos quando a voz de sua mãe passou por seus ouvidos.
— Kimi? — ela chamou, delicada, se aproximando como quem não queria assustar. — Você tá bem, filho?
Ele piscou devagar, como se estivesse voltando de muito longe.
— Ah… mãe. — Tentou sorrir, sem sucesso. — Eu tô tentando.
Ela se sentou ao lado dele na bancada, apoiando o cotovelo e inclinando levemente o rosto.
— Você nunca tenta assim sem motivo.
O bolo no prato perdeu o gosto. Kimi respirou fundo, o nome dela quase escapando sem controle.
— É a .
A expressão da mãe mudou instantaneamente — não em surpresa, mas em compreensão. Como se já soubesse que havia algo de errado ali.
— Aconteceu alguma coisa com ela?
Kimi abaixou a cabeça, passando a mão pelos cabelos, inquieto.
— Ela… — Engoliu seco. — Ela desabou hoje. Na minha frente. E eu não fazia ideia de que ela carregava uma dor tão grande. — Ele fechou os olhos por um instante. — Mãe, ela é órfã. O Natal pra ela é tudo o que mais dói.
A mãe soltou um suspiro triste.
— Ah, pobre menina…
— Eu queria ajudar — ele confessou, quase num sussurro. — Mas eu não sei como. Eu não sei o que fazer pra que ela não passe por isso sozinha de novo.
A mãe colocou a mão sobre a dele, quente, firme, amorosa.
— Filho… ninguém precisa de alguém que resolva suas dores. Ela precisa de alguém que fique.
Ele a encarou, tentando entender.
Kimi sentiu algo dentro dele se encaixar, como se finalmente tivesse encontrado a direção certa.
— Ficar… — repetiu, quase para si mesmo. — Eu consigo fazer isso.
A mãe sorriu, orgulhosa.
Kimi sorriu pela primeira vez desde que voltou ao chalé.
— Obrigado, mãe.
— Sempre, meu amor.

💫


No dia seguinte, eles conversavam outra vez, Kimi pediu que ela não contasse nada para que ela sabia sobre a condição, apenas a tratasse normal e que seu pai fizesse o mesmo.
Foi até o chalé onde a fotógrafa estava, bateu na porta, e ela apareceu ainda de pijama.
— Oi.
— Oi.
— Você quer fazer algo hoje?
— Quero só ficar aqui.
Ele assentiu, compreensivo.
— Já tomou café?
— Pedi serviço de quarto.
— Tá certo. — Respirou fundo. — Se precisar de qualquer coisa, me manda mensagem. Eu te respondo na mesma hora.
— Está bem…T, Kimi.
— Tchau, .
A porta se fechou. Ele ficou olhando frustrado, mas entendendo.
Que conversa mais desanimadora, ele queria animá-la, mas compreendia o lado dela. E o único jeito que ele encontrou para amparar foi através das mensagens. Então começou a ajudá-la por mensagens — pequenas conversas, piadas bobas, fotos bestas do hotel, qualquer coisa que mantivesse o mundo dela um pouco menos cinza.

Dias se passando, e ele a viu apenas na véspera de Natal, estava um pouco corada e um tiquinho feliz. Enquanto naqueles dias ela estava apenas ficando no chalé — ele sempre ia visitá-la. Kimi e sua mãe pensaram que, de alguma forma, poderiam começar a transformar o Natal dela em uma data feliz, aos poucos com interações sutis para que assim ela pudesse se sentir em uma família.
A ideia era ótima, para ele, queria ver o momento que contasse à garota.
Esperou dar a hora do almoço para poder buscá-la e irem juntos ao restaurante, mas no caminho que dava até o chalé doze ele a viu saindo com as malas e novamente com a jaqueta da Ferrari.
, onde você vai?
— Kimi!
Se assustou, não queria que o garoto a visse partindo às escondidas.
— Eu, eu vou viajar.
— Você falou que ficaria até o Natal, ou ano novo.
— Mudanças de planos.
, fica.
— Não posso, meus planos mudaram. Quero ver tudo de outro ângulo. — Começou a andar.
, eu tô te pedindo. — Segurou a mão dela. — Por favor, não vá, não me deixe aqui.
A fotógrafa se virou para ele, deixando as malas paradas ao seu lado. Os olhos castanhos mergulhados em lágrimas, prontos a transbordar a qualquer momento.
— Por favor, fique, eu preciso passar esse Natal com você. Eu preciso te dar um presente.
— Presente?
— Fique e você entenderá.
— Eu não sei, Kimi. Você sabe que é difícil.
— Eu sei, você me contou. — Acariciava a mão dela. — Mas é exatamente, quase isso, que eu preciso te entregar.
Respirou fundo, mantendo aquele olhar sem desviar. Por que ela tinha que amá-lo tanto a ponto de aceitar ficar?
— Eu fico — disse, por fim.
O sorriso dele apareceu lento, aliviado, sincero.
— Ótimo — ele falou, entre risos. — Eu sei que hoje é a véspera e eu preciso que você vá ao meu chalé por volta das onze e meia. Também é o doze, mas é o premium.
Tirou uma risadinha dela.
— Na véspera? Você e sua família?
O piloto balançou a cabeça concordando.
— Eu te garanto, nada vai te machucar. E se você não conseguir, eu vou estar do seu lado.
— Eu vou.
— Te espero lá então.
Antonelli a puxou para mais perto e deu um pequeno beijo sob a testa dela, depois se afastou e a viu entrar novamente no chalé que ela estava.
Mesmo com medo de que até o momento marcado ela pudesse ir embora, ele tentou manter a calma, respirava fundo, torcendo que tudo sairia muito bem para eles.

💫


respirou fundo antes de bater à porta do chalé. O ar frio da noite deixava seu nariz levemente rosado, e a neve recém caída fazia tudo brilhar em volta dela. Ela ergueu a mão, hesitou por meio segundo, então tocou duas vezes na madeira.
Do lado de dentro, se ouviram passos apressados. A porta se abriu.
Kimi apareceu, cabelo um pouco bagunçado, suéter grosso de lã, e… congelou.
Literalmente.
Foi como se alguém tivesse apertado pause nele. Os olhos dele percorreram o rosto dela, depois desceram, e ali ele perdeu o ar de vez.
deu um sorriso mínimo, tímido, antes de deslizar os dedos pelo casaco bege que envolvia seus ombros. Com um movimento suave, ela o retirou, revelando o vestido por baixo — e Kimi sentiu o mundo dar um pequeno nó.
O Midnight Lilac, da Bellini Luxe. Roxo claro, leve, um lavanda frio que parecia ter sido feito para refletir a neve lá fora. Tão delicado que não parecia tecido e, sim, um suspiro colorido.
O modelo era curto, acima do joelho, mas com aquele caimento leve que se movia como pétala ao menor gesto dela. As alças off shoulder, dobradinhas nos ombros, envolviam o busto com dobras discretas, elegantes. O decote limpo em V suave que parecia moldado exatamente para ela.
O tecido era puro refinamento, crepe couture com uma camada de organza fosca, impecavelmente limpo, deixando as alças e o desenho do vestido reinarem sem esforço. A cintura tinha uma estrutura interna tão discreta que só quem entendia moda perceberia — e usava como se tivesse nascido dentro dele.
Quando ela deu um passo para dentro, a saia leve balançou em ondas suaves, como se cumprimentasse o ar do chalé.
Ele piscou devagar, ainda travado.
… — Foi tudo o que conseguiu dizer, e mesmo assim saiu baixo, rouco, como se o nome dela tivesse ficado preso na garganta.
Ela sorriu, meio sem graça, ajeitando uma mecha atrás da orelha.
— Não está demais… né?
Kimi riu pelo nariz, incrédulo, quase nervoso.
— Demais é pouco — disse, a olhando como se nunca tivesse visto nada tão bonito na vida.
E, pela primeira vez naquela noite, sentiu as pernas quase tremerem.
— Entre. — Deu passagem para ela. — Minha mãe está terminando a ceia e está só decorando a sobremesa.
— Eu espero. Oi — cumprimentou a senhora Antonelli.
— Oi, querida, seja bem-vinda. Obrigada por aceitar vir.
— Não precisa agradecer.
— Ah, . — O pai de Kimi apareceu. — Que bom ver você. Conseguiu tirar a foto?
— Foto?
— Eu contei para eles que você queria registrar o fenômeno.
— Ah. — Se envergou por não associar. — Sim, foi muito lindo. Eu coloquei no meu celular.
Mexeu nele rapidamente.
— Aqui, olha.
— Kimi disse que era uma das suas grandes vontades conseguir essa foto — a matriarca conversou com ela. — Espero que você me mostre pessoalmente.
— Suas fotos são de extrema qualidade, parabéns.
— Obrigada. A senhora quer realmente ir?
— Claro, querida. — Parou na frente dela. — Vamos um dia todos nós, não perderia esse momento por nada. Queridos, eu volto rapidinho. Podem ir até a mesa.
se aproximou de Kimi, sua mão suava frio, não estava acostumada com esse calor familiar.
— Eu não sei se consigo ficar aqui — cochichou para ele.
. — Segurou a mão dela. — Eu estou aqui. Vou ficar do seu lado mesmo se você quiser ir embora, mas se você quiser enfrentar, eu vou permanecer ao seu lado também.
— Eu imagino que consigo.
Sorriu confiante para ela e depois se sentaram à mesa. Sentaram-se um do lado do outro e esperaram a mãe de Antonelli retornar para a pequena sala de estar que ali tinha. Desta vez, tudo foi mais tranquilo, ela não se sentiu tão deslocada como no dia do café da manhã. A senhora Antonelli era gentil e atenciosa com ela, um sentimento que ela nunca recebeu.
Chegando perto da meia noite, eles fizeram troca de presentes. recebeu dois, além de Kimi, um dos pais dela. Não era o fato de ser o cachecol da Ferrari, mas, sim, aquele gesto simples que deixou ela toda emocionada.
— Vamos até o restaurante, voltamos logo, quero dar feliz Natal para umas amigas que fiz aqui — senhora Antonelli falou, parando na frente deles. — Pode ficar aqui o tempo que quiser, querida.
— Muito obrigada. — Sorriu tímida demais.
Os dois saíram, deixando Kimi e sentados no sofá.
— Como está sendo?
— Não sei como explicar. Sua mãe toda carinhosa. Parece que ela me abraçou como filha dela.
Kimi sorriu com aquele jeito calmo dele, quase um sorriso que aquecia o ar.
— Eu tô feliz por isso, — disse baixo, olhando para ela, não para a árvore iluminada atrás. — Feliz porque você merece sentir isso. Acolhimento. Calmaria. Gente que te quer perto.
desviou o olhar por um segundo, respirando fundo como quem tenta guardar aquilo dentro do peito para que não transborde.
Do restaurante ali perto, a música começou a mudar. Bem baixinha, abafada pelas paredes de madeira, mas ainda assim clara o suficiente para entrar no chalé como um convite discreto. Uma melodia lenta, doce, com aquele toque de Natal que parecia enroscar no ar.
Kimi inclinou a cabeça, ouvindo.
Depois voltou os olhos para ela com um brilho quase tímido.
— Vem cá — pediu, oferecendo a mão.
— O quê? — Ela riu, surpresa.
— Só… confia.
colocou a mão na dele, e Kimi a guiou até o pequeno espaço entre o sofá e a lareira. Nada planejado, só o suficiente para caber um momento bonito.
Ele colocou uma das mãos na cintura dela, gentil. A outra segurou seus dedos com firmeza. , ainda meio sem acreditar, deixou a cabeça cair um pouco para trás, rindo da cena inesperada.
— Isso é muito... — ela murmurou, mas a voz já sorria.
— É — ele concordou, rindo também. — Mas você tá rindo, então valeu a pena.
Eles começaram a girar num ritmo lento, acompanhando o ritmo da música. A saia do Midnight Lilac balançava a cada passo que ela dava ao lado dele, e Kimi não conseguia tirar os olhos dela nem que tentasse.
… — ele começou, mas a voz falhou, como sempre falhava quando queria dizer algo grande.
Ela levantou os olhos para ele, aguardando.
Kimi respirou fundo, aproximando a testa da dela, e continuaram dançando num balanço tão suave que parecia que o tempo tinha diminuído para acompanhá-los.
— Eu pensei que, quando você fosse embora hoje cedo… — ele parou, engolindo o resto — eu tinha perdido alguma coisa que eu nem tinha entendido ainda. — Umedeceu os lábios. — , eu gosto muito de você.
A respiração dela descompensou, era como se estivesse flutuando após ouvir aquelas palavras. Soltou a mão de Kimi e entrelaçou seus braços no pescoço dele.
— Kimi. — Seus olhos brilhavam com a paixão que sentia por ele. — Eu já gostava de você, já te amava desde que te conheci na Fórmula regional Europeia.
Balbuciou, tentando falar algo, mas perdeu todas as palavras.
— Eu sei. — Ela soltou uma risadinha nasal. — Eu achei que seria passageiro, só mais um piloto que eu ia começar a admirar e depois passaria, mas eu me enganei. Por isso que quando eu fui admitida na Mercedes eu aceitei sem pestanejar, mesmo amando minha Scuderia Ferrari. Eu só… queria ficar perto de você.
Ele levou a mão até o rosto dela, devagar, quase com medo de que ela desaparecesse se ele tocasse rápido demais.
Os dedos roçaram sua pele quente e suave.
— Você entrou… por minha causa? — A pergunta saiu num sussurro rouco, cheio de incredulidade, como se o coração dele tivesse tropeçado no próprio peito.
apenas assentiu, verdadeira.
Kimi riu baixinho, aquele riso curto, o tipo de riso de quem acabou de receber a maior revelação da vida.
… — ele pronunciou o nome, sem conseguir sustentar o peso do que sentia. Nenhuma palavra parecia grande o suficiente. Nenhuma parecia justa.
Então ele escolheu a única capaz de carregar tudo.
— Eu te amo.
Puxou-a pela cintura, sem hesitação, a aproximando até que não houvesse mais espaço entre eles. E a beijou. Com a urgência silenciosa de quem esperou anos sem perceber que estava esperando.
Voltar para a Áustria — o país que ele jurou evitar pelas lembranças que ainda doíam — acabou trazendo algo que ele nunca imaginou. No mesmo lugar onde guardava histórias tristes, começava agora uma nova história de amor.


FIM


Nota da autora: Oi Oi!
Eu espero que tenham gostado da fanfic, como retratei o Kimi. Eu não aguento esse menino de tão fofo que ele é.
Desculpa se ficou corrido, mas é shortfic, e eu também não tinha mais tempo...
Obrigada por ler!
Boas festas!
Beijinhos!

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Se você encontrou algum erro de revisão ou codificação, entre em contato por aqui.
Para saber quando essa fanfic vai atualizar, acompanhe aqui.


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