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Revisada por Aurora Boreal 💫
Atualizada em: 19/01/2026

Algumas horas atrás, me despedi de um pouco do que construí no Brasil. Um pouco que, para mim, era muito. Durante esses anos todos de muitas guerras pessoais, depressão, alguns outros problemas psicológicos... eu nunca imaginei que estaria vivendo o que estou vivendo hoje, nem que conseguiria ao menos alcançar o que alcancei. Foi duro terminar minha faculdade, foi duro conciliar trabalho e estudo, foi duro tentar me manter viva e forte. Principalmente, foi duro viver.

Teve meses em que eu não sabia nem se ia conseguir pagar o aluguel. Eu me mudei da minha cidade natal para São Paulo aos 17 anos. Sozinha. Me virei. Não foi fácil. Mas foi mérito meu. Cada conquista foi do meu suor.

Minha vida mudou completamente quando o destino me agraciou com um estágio na Arktis, no meu primeiro ano de faculdade. Eu sempre fui muito cética no quesito “crescer por mérito”. Longe de qualquer privilégio que vi, eu jamais imaginaria que ia crescer em uma multinacional por fruto do meu esforço.

Eu cresci na empresa. Foi gradual, não foi fácil, mas a Arktis sempre teve essa cultura de trabalho enraizada. Cada passo que eu dava, eu me sentia cada vez mais orgulhosa e confiante. Depois que finalizei minha formação em Publicidade e Propaganda, minha vida deu um salto gigantesco. Desde então, eu dava tudo de mim naquela empresa.

Um mês atrás, depois de mais de dez anos na Arktis, eu consegui. Minha vida já estava estável, eu poderia comprar um apartamento onde eu quisesse, seguir trabalhando, pensar em construir alguma coisa parecida com um futuro... mas ainda não era suficiente. E todos sabiam. Vi¬am porque eu deixava claro: eu queria mais. Eu podia mais.

Eu consegui minha tão sonhada promoção. Iria trabalhar na matriz da empresa, em Estocolmo. Não era apenas uma mudança de cargo, era um novo universo. A partir dali, eu entrava na camada da empresa onde as decisões realmente aconteciam. Estocolmo significava muita coisa. Mais do que sair do Brasil, do idioma, do clima. Era o centro de tudo aquilo que a Arktis vinha construindo ao longo das últimas décadas. A matriz não era só um prédio. Era o lugar onde o futuro era pensado, testado e, principalmente, decidido.

O Projeto Nexus era o motivo de eu estar fazendo minhas malas agora. Uma inteligência artificial capaz de reestruturar consumo energético e reduzir emissões num nível que poderia afetar governos e economias inteiras. Algo que, se desse certo, não seria apenas um produto, seria um marco.

Meu papel era posicionar o Nexus para o mundo: comunicar, expandir, convencer, traduzir tecnologia em impacto. E era quase inacreditável pensar que eu, a pessoa que topava qualquer trabalho pra conseguir o suficiente para pagar o aluguel, agora estava envolvida em algo que poderia literalmente alterar o curso de muita coisa. Era assustador e emocionante na mesma proporção. Um gelo e uma chama coexistindo dentro do meu peito. Eu só conseguia respirar fundo e aceitar que, gostando ou não, minha vida acabava de mudar de eixo.



Eu cheguei em Estocolmo ontem, já era noite. Encontrei o motorista da empresa que tinha sido designado para me receber e seguimos direto para o apartamento que, aparentemente, seria minha morada pelos próximos meses. Ou anos. Eu ainda não sei.

A cidade pela janela era outra coisa. Tudo parecia milimetricamente organizado, silencioso, frio. Um tipo de perfeição que, ao mesmo tempo, impressionava e intimidava. Olhos europeus não fazem ideia do que aquela paisagem significa para alguém como eu. Wicked Game, do Chris Isaak, tocava no meu fone. E eu só conseguia pensar em como o destino tem um senso de humor estranho. Sempre foi meu sonho viver algo assim, mas viver através da realização do meu próprio esforço... isso era outra história.

Hoje pela manhã seria a minha integração na matriz. Eu estava nervosa. Nervosa demais. Mas nesse ponto, eu não estava completamente sozinha. Trouxe comigo meu braço direito, .

Ela me ajudava a organizar minha vida inteira e, honestamente, às vezes parecia que entendia mais sobre mim do que eu mesma. Quatro anos mais velha, dois anos trabalhando comigo. Um vínculo que ultrapassava o profissional. era um apoio silencioso que ninguém via, mas que sustentava tudo.

Ela veio acompanhada da família, marido e filhos. E, de um jeito que eu nunca admitiria em voz baixa, eles também eram um pouco da minha família. Eu sempre fui muito só. Então eu os guardava com carinho num lugar que eu raramente deixava alguém alcançar.



O apartamento era bonito. Ainda estava “limpo”, sem histórias, mas era exatamente do jeito que eu gostava. Minimalista, silencioso, com uma vista quase cinematográfica da cidade: prédios envidraçados, luzes amarelas recortando a noite e aquele ar de que tudo ali funcionava em uma frequência diferente da minha.

A primeira coisa que reparei: o piso de taco. Madeira clara, impecável. Aquilo me fez sorrir de um jeito discreto. entendia bem meus gostos. Talvez até mais do que eu mesma.

Eu tinha pedido, com todo carinho, que ela escolhesse uma acomodação próxima da minha. Nada exagerado, só “perto o suficiente” para que eu não precisasse atravessar metade de Estocolmo quando o tédio começasse a me corroer e isso acontecia com mais frequência do que eu admitiria. A ideia de sair do apartamento em um sábado frio, pegar o carro e dirigir por minutos intermináveis até conseguir falar algumas palavras com ela e com o , marido dela... não fazia sentido nenhum. Sem contar as crianças, que eu chamava, em voz baixa, de “meus pequenos”. Aquela família que não era minha por laço nenhum, mas era por escolha.

Nós éramos uma família. De um jeito meio torto, mas éramos. E talvez, nesse momento da minha vida, isso era tudo o que eu precisava para me sentir um pouco menos deslocada naquele novo continente gelado.



O silêncio sueco era algo interessante. Eu gostava. Um silêncio que não era vazio, era quase respeitoso. Preparei meu café com calma, sentindo o vapor aquecer minhas mãos, e pensei que em breve precisaria conversar com a sobre a ideia de contratar alguém para me ajudar nessas rotinas domésticas. Não que eu não gostasse de cozinhar ou de manter minha casa organizada, mas o tempo não me permitiria assumir mais essa função. Não agora.

Tomei um banho e fiquei algum tempo parada olhando para o chão do closet: malas abertas, caixas empilhadas, roupas que eu tinha mandado antes espalhadas sem nenhuma lógica. A primeira conclusão veio rápida: sim, alguém vai precisar me ajudar com muitas coisas.

Comecei a abrir as malas devagar, sentindo aquele frio que não chegava a doer o rosto, mas o suficiente para atravessar a pele. Escolhi uma calça de alfaiataria preta e uma blusa de um tecido quase como lã, macio, pesado, de um preto profundo. Vesti um sobretudo igualmente escuro, bem pesado, como se pudesse me blindar de qualquer coisa que eu fosse enfrentar lá fora.

Nos pés, um scarpin preto. Na mão, uma bolsa de couro castanho. Minha posição jamais me permitiria desleixo. Honestamente, isso virou quase um TOC. Eu preciso estar impecável. Uma exigência minha sobre mim mesma.

Fiz uma maquiagem leve, pele limpa, traços suaves. Meu cabelo preto estava solto, caindo sobre os ombros. Me olhei no espelho, respirando fundo.

Hoje era um dia importante.

No carro, entreguei-me ao silêncio enquanto Sven, o motorista, tentava puxar conversa sobre a cidade, sobre ele e sobre a vida. Respondi o suficiente para ser educada, não fiz por mal, mas minha cabeça estava totalmente em outro lugar: no projeto, nos detalhes, nos possíveis questionamentos.

Passei o caminho inteiro ensaiando mentalmente minhas falas. Já fazia mais de dez anos que me via constantemente nessas situações: reuniões, apresentações, liderança, negociações. Lidar com pessoas. Sobretudo homens.

E ainda assim, nunca consegui me acostumar.

Eu sabia transmitir confiança, e isso sempre foi o essencial, mas por dentro... nunca se tornava natural. Havia sempre aquela sensação incômoda, como se eu estivesse atravessando um campo que não foi exatamente feito para mim.

De longe, já era possível ver o prédio. A matriz era gigantesca. A sede no Brasil era moderna, sim, mas aquilo... aquilo era outro nível. Quase cinematográfico.

Sven me desejou um bom dia e eu apenas assenti antes de seguir. Mantive minha postura: forte, impecável, confiante e, acima de tudo, competente. Jamais deixei alguém passar por cima de mim. Aprendi a pisar com cuidado em qualquer terreno, a medir palavras, a ocupar meu espaço. E sempre fiz isso muito bem.

Hoje encontraria Stellan, Stellan Skarsgård, nosso CEO, um dos membros vivos da Arktis, praticamente a força vital daquela corporação. Mais do que um encontro, era a continuidade de algo que começou meses antes, ele foi o responsável direto pela minha promoção. Na visita que fez ao Brasil, acabei mostrando parte do meu trabalho, não por intenção, mas porque eu estava exatamente onde deveria estar, fazendo exatamente o que sei fazer.

Isso foi suficiente.

Ele confiou.

Confiou em mim a ponto de me trazer até aqui.

A decisão gerou comentários na sede, muitos comentários. Questionamentos, hipóteses, teorias. Eu sempre me destaquei, de uma forma quase incômoda para algumas pessoas, e isso despertava respeito... e outras coisas. Agora, caminhando por esses corredores, percebi que os comentários atravessaram oceanos.

Cada setor que eu conhecia, alguém me olhava como quem reconhece uma história contada em outra sala. Sabiam meu nome antes de eu pronunciar qualquer palavra. . . Diretora Internacional de Comunicação Estratégica.

Por fim, chegamos à reunião central. Stellan estava lá.

Quando entrei, vi um mar de homens e algumas mulheres. E, honestamente, não demorou para notar onde estavam os olhares mais estranhos. Sempre me acostumei a pensar que o perigo vinha dos homens, até perceber que, no fim, quem tenta devorar você não são eles.

São elas.

As mulheres de meia-idade, em especial, carregam esse olhar que parece determinado a sugar sua vitalidade, como se apenas existir jovem, profissional e competente fosse uma afronta pessoal.

E eu senti todos esses olhares atravessarem a sala até mim. Mas logo o olhar de todos foi cortado pela voz firme do nosso superior.

— Bom dia a todos. — O som de Stellan encheu a sala como se fosse microfonado, mas não era. — E, principalmente, bom dia, .

Ele lançou um sorriso discreto, quase estratégico, que retribuí com a mesma medida, sem exageros.

— Agora que estamos todos aqui, hoje é um dia significativo para a Arktis. Formalizamos a integração da à nossa equipe no desenvolvimento do nosso novo projeto global, o Nexus. A partir de agora, ela será uma das principais responsáveis por estruturar nosso posicionamento internacional de comunicação e cultura corporativa entre as unidades.

Stellan fez uma pausa, como se deixasse espaço para as palavras assentarem em cada ouvido.

— Nexus é, digamos, nosso novo filho — continuou ele, com ironia calculada. — Um projeto que pretende redefinir a forma como conectamos operações, equipes e, principalmente, o nosso impacto estratégico no mercado europeu.

Ele virou levemente o rosto para mim:

— A tem um histórico impressionante. Não apenas pela excelência técnica, mas pela habilidade de tornar estratégias executáveis, vivas e humanas, algo que, confesso, faz falta em um universo como o nosso.

Respirei antes de falar. Mantive minha voz estável:

— Agradeço a confiança e a recepção. O Nexus representa muito mais do que integração de setores: estamos falando de identidade, de alinhamento cultural, de linguagem e coerência. Meu papel aqui será construir pontes, estabelecer diretrizes globais e garantir que cada unidade fale a mesma língua, ainda que com sotaques diferentes.

Alguns homens assentiram com a cabeça, avaliando cada sílaba como se fosse um dado. As mulheres... difícil decifrar.

Continuei:

— No Brasil, vimos que comunicação corporativa eficiente não é apenas informar, é articular influência. E isso exige precisão, consistência e sensibilidade às diferenças. É isso que pretendo trazer ao Nexus.

Stellan inclinou o corpo na cadeira, satisfeito:

— Exatamente o motivo de eu ter insistido pessoalmente para tê-la aqui.

Alguns olhares se cruzaram na mesa. Comentários não ditos. Pensamentos ruidosos disfarçados por expressões neutras.

Ele concluiu:

— Então, logo iremos ao que interessa. Temos muito trabalho, um projeto ambicioso... e tempo nenhum a perder.

Stellan ainda manteve a palavra por alguns segundos, como se lembrasse de algo que não pudesse passar despercebido:

— Ah, e como todos sabem, Bill, que infelizmente ainda não está aqui hoje, chega de Nova York esta noite. Amanhã pela manhã ele já estará conosco e, então, poderemos finalmente dar início integral ao trabalho.

O nome dele caiu no ambiente como um sinal de alerta elegante. Alguns executivos trocaram olhares discretos. Como se uma peça essencial estivesse prestes a entrar no tabuleiro.

Stellan continuou:

— Sabemos da importância estratégica da participação dele nesse projeto, principalmente pela frente de inovação comportamental e pelas previsões mercadológicas que estão sendo estruturadas em Nova York.

Fiquei imóvel, porém atenta. Bill.

Eu já tinha ouvido aquele nome circulando pela Arktis tem um tempo, meio mito, meio lenda interna, um daqueles profissionais que todo mundo comenta, mas poucos realmente conhecem.

Stellan apoiou as mãos na mesa:

— Portanto, todos devem estar preparados para alinhar suas etapas amanhã. Hoje, seguimos com as apresentações e com a base estratégica. Amanhã... — ele lançou outro sorriso sútil —, o Nexus realmente começa.

Um silêncio calculado se instalou.
Não por mim.
Por eles.

Eu apenas respirei, mantendo a postura:
meu trabalho começava ali, mas alguma coisa dizia que o verdadeiro desafio só chegaria amanhã, às nove da manhã.


Depois do primeiro dia, fui até o apartamento da . Ela mora perto, o suficiente para evitar longas viagens nessa cidade que já parecia engolir meu tempo.

Quando cheguei, estava na sala, as crianças já dormiam. Jantamos rápido, um prato simples, funcional. Durante a comida, alinhamos algumas agendas da próxima semana, horários, reuniões. Um pouco de conversa fiada, só o essencial.

No final, brindamos com uma taça de vinho, mais pelo ritual do que pelo sabor. falou, sem rodeios, sobre o quanto era grata por estar ao meu lado nessa fase. Disse que me acompanhar não era só uma escolha profissional, era uma aposta, uma forma de garantir que eu não perdesse o foco.

Não foi exatamente um elogio. Foi uma cobrança disfarçada.

Eu entendi. Ela esperava que eu desse conta. E eu esperava o mesmo de mim.

Era só o começo.



Acordei cedo, antes do sol mesmo. A luz aqui era tímida, um cinza pálido que se arrastava pelo quarto sem pressa.

O frio escapava pelo vão da janela, me lembrando que não estava mais no calor abafado do Brasil. Estocolmo exigia uma postura diferente, mais contida, mais calculada.

Levantei devagar, com uma inquietação que não me largava desde a noite passada. Na cozinha, preparei meu ritual matinal: um cappuccino forte, a espuma cremosa desenhando ondas enquanto eu mexia o café.

Me sentei perto da janela, segurando a xícara quente entre as mãos, e olhei para a rua ainda vazia. Pensei em tudo que estava por vir.

Hoje era o dia em que tudo começaria de verdade. O Nexus não era apenas um projeto, era uma prova.

Deslizei o dedo pela tela do computador, revisando uma última vez a apresentação que faria mais tarde.

Respirei fundo.

Sem espaço para erro.



Voltei ao meu quarto depois do café. não me acompanharia hoje pela manhã, dou essa flexibilidade para ela, sabendo que sua ajuda seria essencial em outras áreas.

Comentei sobre o caos que estava minha casa, malas espalhadas, caixas acumuladas. Na verdade, já tinha em mente algumas pessoas para me ajudar a organizar a rotina doméstica.

Hoje ela tiraria o dia para resolver isso, para me salvar dos deveres domésticos que eu simplesmente não teria tempo de enfrentar.

Era bom ter esse suporte. Mas eu sabia que o verdadeiro desafio estava lá fora, naquele prédio gigante que me esperava.



Entrei no quarto. Ontem mesmo já tinha escolhido minha armadura para o dia.

Peguei uma meia-calça preta, um vestido longo cinza, botas pretas até o joelho e um sobretudo pesado na mesma tonalidade.

Hoje precisava estar mais impecável do que o usual. Era minha integração, o momento de reafirmar quem eu era para os que já me conheciam e me apresentar sem rodeios para os novos.

Saí do banho quente, arrumei o cabelo num coque simples e fiz uma maquiagem contida.

Antes de sair, borrifei meu perfume de sempre, aquele aroma que sempre brinca que virou minha assinatura, um toque sutil que parece anunciar minha presença antes mesmo de eu falar.

Saí andando pelo apartamento, pegando tudo que precisava: meu fone, computador, carregador. Me olhei no espelho uma última vez, ajustei o sobretudo e respirei fundo.

Assim, saí.



Cheguei na empresa por volta das 8h. Lars Bergman, o HR Business Partner, havia começado minha integração no dia anterior, e hoje retomaríamos o processo.

Por volta das 8h45, me despedi de Lars e me dirigi ao elevador. A reunião começaria em breve.

Apertei o botão para o andar da diretoria, e as portas se fecharam suavemente. O elevador começou sua subida silenciosa, com aquele zumbido quase imperceptível.

No meio do caminho, o elevador parou abruptamente. As portas deslizaram lentamente para os lados e uma figura apareceu na minha frente.

Ele era alto, imponente, impossível não notar. Foi inevitável olhar diretamente nos olhos dele.

Havia algo ali, quase que fatal, que paralisava por um instante.

Nos olhamos em silêncio, tempo suficiente para que o elevador, automaticamente, começasse a fechar as portas. Mas ele saiu do transe, colocou o braço na porta para segurá-la e entrou.

Ele não apertou nenhum botão, o que indicava que provavelmente iria ao mesmo andar que eu.
Aquilo foi definitivamente uma das coisas mais estranhas que já me aconteceram nesses anos de trabalho. Não por ser uma situação comum no ambiente profissional, mas porque era diferente. Era anormal, eu sabia disso.

Ainda faltavam alguns andares para chegar, e eu estava completamente sufocada pelo cheiro dele, um aroma marcante, quase hipnótico, que parecia envolver tudo ao meu redor.

Depois de alguns segundos em silêncio, ouvi sua voz pela primeira vez.

— Bom dia.

O tom era cauteloso, quase como se ele estivesse medindo o que dizer.

Meu coração disparou, e por um momento eu quis responder, mas me limitei a um breve aceno com a cabeça.

Aquilo parecia uma eternidade. Finalmente, chegamos ao meu andar. Com pressa, saí andando pela frente, e ouvi os passos dele logo atrás. Definitivamente, ele também estava indo para o mesmo andar.

No corredor, topei com um executivo com quem tinha conversado no dia anterior. Ele sorriu ao me ver e parou para falar.

, bom dia! Como foi a chegada em Estocolmo? — perguntou, descontraído.

— Bom dia! Foi boa. Ainda estou me acostumando com o clima e a rotina, mas está sendo uma experiência interessante — respondi, com um leve sorriso.

— Imagino. A cidade pode parecer meio fria no começo, mas você vai ver, tem seu charme. — Ele riu, como se quisesse dizer mais alguma coisa.

Mas então seus olhos deslizaram para trás de mim, e ele parou de sorrir. A expressão mudou completamente, tornou-se mais séria, porém não havia medo, havia um nervosismo contido.

— Bom dia, Bill! — disse ele, com uma formalidade repentina.

Eu me virei devagar e encontrei o olhar do homem do elevador. O ambiente pareceu enrijecer por um instante. Era ele. Esse era o Bill.

— Bom dia, Tom. Como estão as coisas no time de Inovação? — disse ele, com a voz calma, mas firme.

Me senti como se tivesse sobrando ali. Analisei rapidamente se minha presença seria estranha ou se seria falta de educação sair tão repentinamente. Decidi que sair era o mais adequado.

Com muita sorte, meu celular apitou naquele exato momento com uma mensagem. Vi que era meu irmão, apenas olhei por cima, mas foi o pretexto perfeito para me retirar dali, ler a mensagem e me afastar da tensão que começava a se formar. Saí andando pelo corredor, mas mesmo sem olhar para trás, senti um olhar firme e atento me seguindo, fazendo meu corpo arrepiar por dentro.

Fui seguindo para a sala de reunião, pensando no que tinha acontecido. Eu já estava acostumada a lidar com homens de todo tipo. Se eu dissesse que nunca me senti intimidada, estaria mentindo. Mas dessa vez foi diferente. Não era intimidação, era quase... elétrico.

Assim que entrei na sala, quase todos os membros já estavam ali. Sentamos, sem mais delongas, todos entrando, inclusive ele, meu encontro do elevador. Ele se sentou em uma das cadeiras que ficavam lado do Stellan, que era o principal, cadeira única no centro. Para alguns, isso pode não significar nada, mas no mundo corporativo, aquilo é poder. Senti um pouco de curiosidade sobre aquilo, mas mantive meu foco na reunião. Até que chegou o meu momento, a minha apresentação.

Me levantei, comecei:

— Sou , Diretora de comunicação estratégica aqui na Arktis. Meu papel no Projeto Nexus é garantir que essa inovação não fique restrita a gráficos e relatórios técnicos. Vamos trabalhar para traduzir essa tecnologia complexa em uma linguagem que alcance não só investidores e parceiros, mas também a sociedade. Vamos construir narrativas que reforcem o impacto real do Nexus na vida das pessoas, buscando engajamento, confiança e, claro, suporte político e econômico.

Enquanto falava, notei o olhar atento dele, Bill. Não era um olhar comum de reunião, era mais profundo, curioso, quase como se ele estivesse medindo não só minhas palavras, mas minha essência.

Antes que pudesse continuar, ele falou, com calma e precisão:

, isso é muito interessante, mas.. como você pretende evitar que essa comunicação se perca no meio do caminho? Que ela não vire apenas um discurso corporativo distante, enquanto a transformação real permanece uma promessa?

A pergunta me fez pausar. Não era só uma questão técnica, era um desafio existencial do meu trabalho.

Respirei fundo e respondi:

— Para que a comunicação seja eficaz, ela precisa ser autêntica e alinhada com ações concretas. Não basta falar sobre inovação; precisamos mostrar resultados palpáveis, envolver as comunidades impactadas e garantir que o Nexus seja sentido no dia a dia das pessoas. Meu trabalho é ser essa ponte entre tecnologia e humanidade.

Ele assentiu levemente, e naquele momento percebi que aquele olhar curioso não era só interesse profissional, havia algo a mais naquele primeiro contato.

Enquanto a reunião fluía, percebi que a pergunta do Bill abriu uma margem para outras dúvidas e provocações por parte dos presentes. Foi interessante notar como aquele gancho dele puxou o interesse de vários na sala, trazendo um novo ritmo à reunião. Mesmo sem querer me distrair, fiquei atenta àquela dinâmica, pensando que aquele olhar curioso e aquela intervenção incisiva talvez fossem apenas o começo de algo mais complexo.

A reunião acabou, ainda rolavam algumas interações, perguntas e ideias, o ambiente estava leve, com todos conversando entre si. Foi quando percebi Stellan me olhando fixamente, como se quisesse chamar minha atenção. Ele sorriu levemente e falou:

— Vem aqui, quero te apresentar uma pessoa.

Me aproximei dele, sentindo o peso daquele convite. Stellan se virou para o homem que havia entrado comigo no elevador e disse com um tom de satisfação:

— Bill, esta é a . , este é Bill.

O homem sorriu, um sorriso que parecia conter uma mistura de respeito e interesse genuíno.

— Ouvi falar muito sobre seu trabalho, . Estou ansioso para ver o que podemos construir juntos no Nexus.

Ele parecia leve, era diferente, talvez fosse impressão minha, mas ele era ele, parecia que era só uma pessoa comum se apresentando.

Antes que eu pudesse falar algo, Stellan completou dizendo:

— Vocês se conhecerem é extremamente importante. Bill, é peça fundamental para levar o Nexus a outro nível. , você e Bill serão as pessoas à frente do Nexus, vocês precisam de parceria, sinergia, creio que terão bastante tempo para se conhecerem — disse ele, sorrindo, mas ao mesmo tempo, cobrando? Talvez.

— Obrigada, Stellan — respondi com um sorriso contido, tentando equilibrar a confiança com a responsabilidade que aquele momento exigia. — Também estou ansiosa, Bill. Pode contar comigo, estou pronta para fazer acontecer.

Fiz uma breve pausa, olhando nos olhos dele, como se quisesse reforçar o compromisso.

— Eu não tenho dúvidas, meu pai nunca erra nas escolhas. — Eles sorriram um para o outro. Stellan deu um aceno com a cabeça e me deixaram ali, confusa.

“Meu pai nunca erra nas escolhas.” ?



Durante o dia, combinei de passar na casa da para conversarmos. Meu dia na empresa foi leve, fluindo sem grandes surpresas. Em breve, os plantões do Nexus começariam, e eles poderiam nos levar a qualquer lugar, não só ali, qualquer lugar mesmo, até qualquer país.

Cheguei por volta das 18h40 na casa da minha amiga. Troquei algumas palavras rápidas com antes que viesse me abraçar e logo começasse o bombardeio de perguntas.

— Como foi hoje? O que achou? — disparou ela, sem me dar tempo de resposta.

— Foi tranquilo, nada fora do habitual. Tirando esse “ar europeu”, não sei se vou me acostumar, mas pra um povo fechado eles até foram receptivos. Ouvi alguns “bom dia”, coisa que não rola num elevador em São Paulo e a apresentação foi tranquila também. Logo logo, o Nexus entra em ação, então provavelmente vou arrancar meus cabelos e te deixar com vontade de arrancar os seus também.

— Uau, não vejo a hora. — Riu ela, com ironia. — Então...?

— O quê?

— Só isso?

— Sim, acho que é isso...

— Caramba, todo mundo fala sobre os filhos do Stellan? Você não conheceu nenhum deles? — perguntou, animada.

— Filhos do Stellan? Não sei, acho que não... Nem sabia que ele tinha filhos — respondi, surpresa com o olhar incrédulo dela. — Quer dizer, eu sei que ele deve ter uns 70 anos, mas não fazia ideia de que eles tinham tanta presença assim.

— Como não, ? O cara é praticamente uma máquina de fazer filhos. Deve ter sei lá, uns seis? Você até conheceu um no Brasil, o Gustaf, esqueceu? — ela disse, rindo.

— Caralho... verdade! Sou muito desligada nessas coisas, você sabe. Não me interesso pela vida pessoal de ninguém no trabalho — falei, dando de ombros.

— Sim, amor, mas ele não é qualquer um, você sabe — ela me repreendeu com um sorriso. — Eu sei que tem dois que ficam mais por Nova York, Alexander e Bill. Se prepara, que em algum momento você vai topar com eles.

Foi aí que me toquei. “Meu pai nunca erra nas escolhas.” Aquilo, junto com a proximidade das cadeiras na reunião, voltou a ecoar na minha mente.

— Porra — disse, alarmada. — Eu conheci sim, conheci um hoje. O Bill.

— Claro que conheceu, porra! Você vai trabalhar diretamente com ele. Eu te falei, provavelmente nem falei o nome direito, nem o que ele era — ela disse devagar, percebendo que havia esquecido de contar um detalhe importante. — Mas eu falei! — completou, apontando o dedo indicador pra mim, triunfante.

— Você me fala mil coisas diariamente, é difícil eu me apegar a uma só. “Vai trabalhar com pessoas”... uau, 2 + 2 é 4 — revidei, sorrindo.

— Tá, esse não é o ponto. — Ela se aproximou mais, quase encostando em mim. Achei curioso e engraçado. — Como ele é? Tipo... as garotas dos outros setores quando iam viajar a trabalho, e ele estava lá, ficavam enlouquecidas. Você não lembra? Da vez que a Júlia foi naquela convenção em Genebra e passou uma semana falando do quanto o filho do chefe era um gato? Era Bill pra lá, Bill pra cá.

— Caralho... — eu disse, como se minha mente tivesse explodido. — Verdade, eu lembro disso! Parece que eles tiveram um romance, não?

— Tiveram porra nenhuma. Ela é extraordinariamente delusional, você sabe. A própria Laís, que aparentemente é “melhor amiga dela” — disse, fazendo aspas com os dedos e se divertindo — negou tudo. Parece que ela só ficou meio obcecada por ele mesmo. Eu já vi ele por foto, é justificável, não é amor? — falou, puxando o para a conversa.

— Ei, o cara parece um deus escandinavo, pelo menos por foto — disse o , se juntando a nós. Eu sempre me divertia internamente com ele entrando nos nossos papos “calcinha”.

— Tá vendo? Vai dizer que você não achou ele bonito... — Ela sorriu maliciosamente, e nessa altura do campeonato, nós três estávamos com long necks na mão. Foi aí que me toquei que o tinha me oferecido uma quando passou por nós minutos antes.

— Bonito? Bonito é pouco. O cara é a personificação do meu tipo. Ele é bizarro de bonito, extremamente alto, desconcertante. Tem postura, a voz dele... sei lá — admiti, nunca tive problema pra conversar com eles dois. — Fiquei até meio envergonhada, acho. Um homem me deixou envergonhada, intimidada. Mas, obviamente, segui o fluxo.

— Que loucura — disse o , surpreso —, não te vejo falando de homem assim desde... na verdade, eu nunca te vi falando de homem assim. — riu.

— Ei, isso é verdade! Até nesses teus rolos com algum cara, você nunca chegou perto de falar nada — falou ela, provocando.

— Normal, odeio elogiar homem — respondi com desdém, dando um gole na cerveja.

— Ok, maneater — disse , brincando. — A propósito, seu apartamento tá um brinco, viu? Consegui contratar uma pessoa pra organizar sua vida e outra pra te manter alimentada.

— Amo. — Brindei com a cerveja dela, rindo.



Em casa, naquela noite silenciosa, a curiosidade tomou conta de mim de um jeito que não conseguia controlar. Com o celular na mão, comecei a digitar o nome "Bill Skarsgård" em todos os lugares possíveis. Instagram? Conta fechada, claro. Só consegui ver a foto de perfil, ele era, de fato, bonito. Fotos aleatórias, matérias dispersas pelo Google, nada que fosse muito além do esperado.

Pareceu o limite do normal, então parei ali. Bloqueei o celular, mas aquela imagem dele ficou martelando na minha cabeça. Um misto de fascínio e algo que eu não conseguia explicar direito. Eu estava intrigada...


Bill

O sol ainda tava baixo quando comecei a correr no parque. O ar frio bateu no rosto, deu um choque bom, daqueles que acordam sem piedade. Tudo quieto, só eu e o som dos meus passos batendo no chão.

No fone, tocou "Go With the Flow" do Queens of the Stone Age. A batida meio grudava no ritmo da corrida, nem percebia direito se a música ajudava a acelerar ou a acalmar a cabeça.

Gosto desse momento, corrida cedo, silêncio ao redor, cidade ainda dormindo. Dá pra pensar, ou não pensar, deixar as coisas virem e irem. Hoje o pensamento rondava no trabalho, esse projeto novo que o velho Stellan me jogou nas costas. Voltar pra Estocolmo é estranho, meio casa, meio estranho. Tem família, tem passado, mas é um lugar que não vejo todo dia.

A vida é meio isso, uns dias longe, uns dias perto. A rotina é estranha, mas boa. Eu corro, malho, tento manter o corpo alinhado. Mas tem as outras coisas também, o cigarro que acendo quando o dia aperta, a cerveja no fim da noite, só pra fechar o dia do jeito que eu gosto.

Não sou de muita conversa. Tenho uns poucos que são de verdade, meu irmão, Alexander, é quase o único que eu realmente falo sobre as coisas, moramos em Nova York há anos, ele foi primeiro, depois eu, meus irmãos permaneceram por Estocolmo, então ele sempre foi o mais próximo. Relações vêm e vão, e faz tempo que tô na minha. Gosto de estar sozinho, do meu espaço, do meu ritmo.

Trabalho é aquilo que me prende e me desafia. Gosto de aprender, de entender as coisas. O Nexus vai ser o que vai ocupar minha cabeça nos próximos tempos, tô tentando me preparar pra isso.

Mas por enquanto, só queria correr mais um pouco antes do mundo começar a gritar.



Era sexta-feira à noite em Estocolmo. Já estava escuro, mas ainda não muito tarde. Cheguei na casa do meu pai depois de um dia trabalhando em casa, cansado, mas de alguma forma satisfeito com o ritmo das coisas.

Na cozinha, já tinha gente: meus irmãos, minha madrasta, conversando enquanto preparavam algo para o jantar. Alexander ainda não tinha chegado, continuava em Nova York.

O assunto inevitável era o Nexus. Aquele projeto que tinha me puxado de volta para cá. O velho estava na sala, me esperando, e logo puxou papo.

— Já começou a trabalhar no projeto? — perguntou, direto. — E o que você achou mesmo do Nexus? Conversamos muito por ligação, quero saber o que você realmente pensa. É promissor?

Eu dei uma pausa, tentando resumir sem parecer evasivo.

— É um desafio grande, diferente do que já fiz antes. Tem potencial, sim. Mas tem muita coisa pra alinhar, ajustes que só com o tempo dá pra entender.

Ele assentiu, sem perder a intensidade do olhar.

— Meu filho, não esquece que a gente está apostando alto nisso. Precisa ter foco, não há margem para erros. Esse projeto é o futuro, e a gente conta com você pra fazer acontecer.

Falou com aquela firmeza que só um pai e chefe ao mesmo tempo sabe ter. Mas tinha carinho no tom, mesmo quando apertava.

Ele ficou me olhando, meio esperando uma resposta mais longa, mas eu não era de me estender muito.

Então ele mudou o assunto:

— E sua mãe? Já passou por lá desde que voltou?

— Ainda não. Vou passar essa semana — respondi.

Ele franziu a testa, a preocupação dele era clara.

— Meu filho, você está feliz com essa volta? Não é só mudar de lugar. Sabe... o Nexus não é coisa simples. Pode ser anos até. Você tem consciência disso? Que pode ser um período longo?

— Sei disso — falei, firme. — Estou preparado.

— A equipe vai te apoiar, pelo menos isso. — Ele tentou aliviar o peso das palavras. — Concentram tudo aqui em Estocolmo, mas trouxe gente do mundo todo. Vai ter recurso, não vai estar sozinho. Trouxe, por exemplo, — falou, com um leve sorriso, quase em tom de exemplo.

De alguma forma, mesmo sem saber muito sobre ela, eu já estava esperando esse momento, sabia que íamos falar dela. Era só questão de tempo.

Não consegui esconder a curiosidade.

— Por que você acha ela tão promissora? — perguntei, direto.

Ele sorriu de lado, satisfeito com minha pergunta, como se tivesse esperando ela.

— Tem algo nela que não é só técnica — ele disse, apoiando o cotovelo no braço da cadeira. — É presença. Inteligência. Vontade. Aquelas pessoas que puxam o grupo pra frente, entende? Preciso disso no Nexus.

Ele fez uma pausa curta, olhando para algum ponto da mesa, como se estivesse reorganizando pensamentos.

— E não é só isso. — O tom ficou mais suave. — Me falaram dela antes mesmo de eu conhecê-la. Disseram que subiu rápido, mas não só por competência... por maestria. Por postura. Por como ela lidava com crise, com equipe, com pressão. Uma profissional de verdade. E... — ele riu de leve, quase sem querer — ...uma pessoa doce. Daquelas que você percebe que funciona bem em qualquer ambiente.

Eu observei meu pai falando, porque não era comum vê-lo assim, realmente impressionado.

Ele respira fundo e solta:

— Você acha que eu cometi algum erro com ela, meu filho?

A pergunta ficou no ar, pesada e inesperada. Olhei para ele, mas eu não sabia o suficiente pra dar uma opinião concreta. A verdade era simples:

— Eu não a conheço, ainda ... — falei, sincero, sem florear. — Mas... do jeito que você falou, parece alguém que vale ter por perto. Não vejo você errando em apostar em gente assim.

Ele me estudou por um instante, como sempre faz quando tenta entender até o que eu não digo.

— Hm. — Seu olhar apertou um pouco. — E o que você achou dela?

Aquilo me pegou desprevenido. Eu só tinha visto o nome dela em documentos, talvez uma foto perdida entre arquivos. Nada sólido. Depois a encontrei no elevador, aquele primeiro momento me deixou alarmado, foi "diferente", mas o modo como ele falava dela... me deixava ainda mais curioso. Intrigado. Quase involuntariamente interessado.

— Não tenho opinião formada — admiti. — Mas... quero conhecer. Entender o que você enxergou.

Meu pai sorriu do jeito dele, pequeno, contido, mas cheio de significado.

— E você vai — disse ele, com aquela calma que sempre parece esconder um cálculo por trás. — Terá bastante tempo para conhecê-la. Ela será parte do seu dia a dia.

O sorriso que puxa meu rosto é automático, educado... mas não segura o nervosismo que bate por dentro, seco e rápido.

Parte do meu dia a dia.

A frase acendeu alguma coisa em mim ou talvez só cutucou o que já estava ali desde antes.

Lembrei, sem querer, daquela cena no elevador. Do primeiro segundo em que a porta se abriu e ela estava ali, meio distraída, segurando aquela bolsa bem firme contra o corpo. Do cheiro limpo que veio junto, da postura dela, daquele olhar curto que cruzou o meu como se medisse alguma coisa que eu nem sabia que estava expondo, aqueles cabelos longos.. bem escuros.

Foi instantâneo. Algo que eu não tinha como explicar: direto, intenso, meio absurdo até. Como se meu corpo tivesse entendido alguma coisa antes da minha cabeça.

E agora ela estaria comigo todos os dias.

Engoli em seco, disfarçado, tentando não deixar meu pai notar o efeito que isso tinha.

Mas ele percebe tudo.

O sorriso dele cresceu só um milímetro, o suficiente pra eu saber que ele viu.

— O que foi? — perguntou, com aquela voz que mistura carinho e inspeção.

Eu apenas balancei a cabeça, tentando controlar a reação.

— Nada. — Mentira óbvia. — Só... entendi.

Ele ficou me olhando por alguns segundos, como quem já sabe que tem mais coisa ali, mas decide deixar pra depois.

— Bom — ele disse, ajeitando-se na cadeira. — Vai ser bom pra você. E bom pro Nexus também.

O jantar seguiu, mas minha cabeça não acompanhava mais direito as conversas ao redor. Eu ria quando alguém fazia uma piada, respondia por reflexo, mas por dentro só havia uma frase girando:

Ela vai fazer parte do meu dia a dia.

E aquele olhar no elevador, que me atravessou como um raio, insistia em voltar.

Intenso demais pra um desconhecido.

Intenso demais pra ignorar.



Quando o jantar terminou, eu precisava de um ar. Aquela conversa tinha me deixado sufocado.

Peguei meu casaco no hall de entrada, me despedi de todos, abraços rápidos, comentários soltos dos meus irmãos e saí para o frio de Estocolmo. A cidade estava viva, mas num ritmo tranquilo típico de sexta-feira cedo à noite. As luzes dos postes refletiam nos prédios e molhavam o ar com um brilho dourado.

Estacionei e caminhei até o pub onde tinha combinado de encontrar o Ken. Nada demais, um bar pequeno, meio escondido, conhecido por ter cerveja boa e paredes de tijolos. Era o tipo de lugar que não exige nada de você. E naquela noite, eu precisava exatamente disso.

O Ken já estava lá, sentado no canto, mexendo no celular com aquela cara de quem chegou atrasado mas finge que está tudo bem.

— Você demorou, mano — ele falou assim que me viu, mas levantou pra me abraçar.

— Jantar em família — respondi, como se isso explicasse tudo. E, de certa forma, explicava.

Sentamos. Pedi uma lager. Ele já estava na segunda.

— E aí? Já tá sobrevivendo de volta na Suécia? — perguntou, apoiando o cotovelo na mesa.

— Tentando — falei, e dei um gole na cerveja.

A gente começou a falar de coisas leves: trabalho dele, umas histórias idiotas do passado, situações aleatórias que só fazem sentido entre amigos. Mas, por mais que eu tentasse ficar ali, presente, minha cabeça ainda estava presa na casa do meu pai.

Ou melhor... nela.

O Ken percebeu. Ele sempre percebe.

— Tá estranho hoje. — Ele me encarou por um segundo. — Estressado por causa do tal Nexus?

Eu quase falei que sim. Teria sido fácil.

Mas o silêncio que eu fiz antes da resposta entregou tudo.

— Não exatamente.

Ele franziu a sobrancelha, curioso.

— O que foi então?

Mexi no copo, pensando se fazia sentido dizer. Mas não era como se eu tivesse algo concreto.

— Nada sério — respondi. — Só... alguém novo no time.

Ele ergueu uma sobrancelha, imediatamente pegando o subtexto.

— Alguém? Tipo... alguém?

Revirei os olhos, mas o jeito que ele falou me fez rir, mesmo sem querer.

— Eu nem conheço — falei. — Mal troquei duas palavras.

Ken deu um gole, depois apontou pra minha cara.

— Mas já tá assim. — Ele riu. — Droga, Bill... você é péssimo disfarçando quando algo mexe com você, que dizer, você jura que consegue, mas não consegue.

Virei o olhar para a mesa, achando graça e incômodo ao mesmo tempo.

Porque, no fundo, ele tinha razão.

Aquela sensação no elevador... o jeito que meu pai falou dela... o fato de que ela estaria no meu dia a dia...

Era muita coisa pra um desconhecido.

E ainda assim, algo em mim já estava se preparando. Como se eu estivesse à espera daquele encontro desde antes de saber que ele existia.

Engoli essa ideia junto com a cerveja.

— Você nem sabe o nome da pessoa e já tá assim — Ken provocou, rindo.

Respirei fundo, olhando pro vazio por um segundo.

— Sei, sim — admiti, quase sem pensar. — .

O Ken abriu um sorriso lento, malicioso.

— Ah, então tem nome.

Eu só balancei a cabeça.

— Não começa.

— Eu não. — Ele levantou as mãos, inocente. — Só digo o óbvio.

Antes que eu pudesse retrucar, o bar fez aquele barulho típico de porta abrindo e algumas vozes entrando juntas. Instintivamente, olhei para o lado e meu cérebro precisou de um segundo inteiro para registrar.

Um casal entrou primeiro, rindo de algum comentário interno. Atrás deles... uma terceira pessoa. Andando sem pressa, tirando o casaco, procurando onde sentar.

A mulher se inclinou ligeiramente para visualizar as mesas livres e quando a luz do pub bateu no rosto dela...

O mundo parou.

Literalmente. O bar continuava existindo ao redor, mas para mim virou um borrão distante.

Era ela.

Por um segundo, eu fiquei parado, com a mão ainda segurando o copo a meio caminho da boca. O ar ficou preso na garganta como se eu tivesse esquecido como respirar. O Ken estava falando alguma merda, mas eu não ouvi nada só via a cena em câmera lenta: ela ajeitando o cabelo atrás da orelha, sorrindo pro casal, escolhendo a mesa exatamente ao lado da nossa.

Qual a probabilidade?
Ridiculamente baixa.
Quase impossível.
E, ainda assim... ali estava ela.

Eu senti meu peito apertar de um jeito que não era desconfortável era diferente. Quente. Intenso. Familiar de alguma forma que eu preferia não admitir.

— Bill? — o Ken chamou, virando a cabeça pra seguir meu olhar. — O que foi?

Eu não respondi.

Porque ela sentou.

Bem ali.
A menos de dois metros de mim.

E quando ela levantou o rosto pra chamar o garçom... nossos olhos se encontraram.

Por um instante curto, quase nada mas que pesou como se fosse uma eternidade.

Só sei que meus músculos ficaram tensos, como se meu corpo tivesse decidido reagir antes de mim. Meu coração acelerou de um jeito irritante, como se eu tivesse acabado de correr.

desviou o olhar delicadamente, sem pressa, sem desconforto e voltou a conversar com os amigos.

Ken aproveitou o silêncio mortal pra me cutucar com o cotovelo.

— Não — eu falei antes mesmo dele abrir a boca.

— Não? — Ele riu. Sem entender. E entendeu. — Não... é ela?

Não respondi.
Não precisava.

Ele apoiou o queixo na mão, analisando a cena como quem acompanha um jogo interessante.

— Cara... essa coincidência aí é absurda.

Concordei com a cabeça, ainda sem tirar os olhos dela por completo mas tentando, ao menos, parecer discreto.

Eu não sabia o que fazer.
Não sabia se ia lá.
Não sabia se era ridículo sequer pensar nisso.

Só sabia que o mundo tinha acabado de mudar de eixo.

De novo.




A semana tinha sido tranquila. Tão tranquila que até estranhei. Estar em Estocolmo ainda parecia novo demais, mas naquele ritmo bom, era tipo novidade, não assusta, só lembra que a vida muda de vez em quando.

Era sexta-feira e sexta sempre foi sagrada pra mim. Dia de respirar, de desligar a cabeça do trabalho e fazer o que eu e meus amigos gostávamos mais: explorar restaurantes como se fosse uma missão de vida.

escolheu o da vez, um italiano pequeno num bairro cheio de luz quente, cheiro de massa fresca e gente conversando na calçada. já estava na mesa quando chegamos, mexendo no celular e fingindo que não estava morrendo de fome.

— Finalmente — ele disse, assim que me sentei. — Achei que vocês iam me deixar aqui abandonado.

— Drama — zombou, colocando a bolsa na cadeira ao lado. — A gente demorou porque a madame aqui teve uma semana intensíssima. — Ela apontou pra mim. — Aliás...

Ela virou para o com aquele sorrisinho de “eu sei que acertei”.

— E então? A bendita babá deu certo?

deu um meio riso, rendido.
— Deu. Muito. As crianças amaram ela.

— Eu falei! — bateu a mão na mesa, vitoriosa. — Eu sabia que ela era boa. Desde o Brasil eu já tinha sentido que era “a escolhida”. Você viu o jeito que ela fala com eles? Super calma. Nem eu consigo aquilo.

— Ela conquistou eles com pão de queijo — completou. — Você não tinha chance.

— Por favor — ergueu o queixo, teatral. — Eu trouxe equilíbrio emocional. Ela só trouxe pão.

— De queijo... — completou.

Eu ri, balançando a cabeça.

O garçom trouxe a cesta de pão, e enquanto cada um se servia, me recostei por um instante, observando o ambiente. Gente falando alto em sueco misturado com italiano, luz amarela estourando nos quadros das paredes, cheiro de tomate e manjericão passando pela mesa como se desse um oi.

Era bom. Era simples. Era o tipo de noite que eu precisava.

— E o trabalho? — perguntou, mastigando sem a menor elegância. — Já sabe de toda a equipe que vai trabalhar no Nexus?

— Ainda não ― respondi. — Acho que vai demorar pra conhecer todo mundo. Por enquanto, estou tentando entender a estrutura... é muita coisa acontecendo ao mesmo tempo.

— Você? Sem entender algo? — debochou. — Mentira.

— Vai à merda — dei um sorriso de canto.

Eles riram, brindaram entre si, e por alguns minutos a conversa ficou leve: sobre comida, sobre como queria pedir três sobremesas, sobre como achava que nossa vida nos últimos anos parecia uma simulação, mudamos de rotina, de cargo, como quem troca de canal.

A conversa já tinha deslizado para aquele território perigoso onde adorava morar: minha vida amorosa. Ou, segundo ele, minha falta de interesse nela.

— Inclusive — começou, apontando o garfo pra mim como se estivesse prestes a me acusar de um crime grave. — Você lembra do Erik naquele jantar, né?

— Lá vem — murmurei, bebendo um gole de água.

— “Lá vem” nada — ele insistiu. — O coitado claramente tava de quatro por ti. Mas você? Incapaz de amar. Incapaz!

riu alto, cúmplice.

Revirei os olhos tão forte que quase vi meu cérebro.

, pelo amor de Deus. Ele até podia estar, mas sem condições. Ele definitivamente não é um homem que eu namoraria.

— Por quê? — ele rebateu, ofendido como se fosse ele o Erik. — O que ele tem demais?

— Personalidade zero, pra começar — respondi, dando de ombros. — Eu juro que tentei conversar com ele. Por educação, sabe? Tentar puxar assunto... qualquer coisa.

Eles estavam me ouvindo atentamente, então continuei:

— Mas não tinha nada ali. Nada. Era como falar com uma folha em branco. Eu perguntava sobre trabalho, sobre hobbies, viagens, música... e parecia que ele tinha sido gerado cinco minutos antes de chegar no jantar. Sem conteúdo, sem opinião, sem história.

soltou um “meu Deus” rindo, e se recostou, dramático.

— Por isso que ninguém presta pra você — ele disse. — Ninguém passa no vestibular da .

e ficaram me olhando depois da provocação do , esperando que eu rebatesse. Mas eu só balancei a cabeça, levantando a taça.

— Acho que já tá na nossa hora, né? — falei, num tom que não deixava dúvidas sobre o verdadeiro significado.

Os dois se entreolharam e sorriram.
Aquele sorriso cúmplice de gente que se conhece há anos e já sabe exatamente o que a outra pessoa está sugerindo.
A gente ia encher a cara.

Porque, apesar de serem pais, e nunca tinham perdido a alma jovem, a vontade de rir, beber, sair, viver. Claro, sempre dentro do limite responsável, sempre pensando nos filhos... mas ainda assim, eles não deixavam de ser eles mesmos.

já se animou imediatamente.

— Quando eu tava vindo pra cá, vi um pub no final da rua — ele disse, erguendo o queixo como se tivesse acabado de anunciar uma descoberta científica. — Acho que dá pra gente entortar o cano lá. A babá combinou ficar até as três. E... — ele olhou o relógio —, ainda são 21:22.

sorriu vitoriosa, como se tivesse acabado de ganhar uma aposta.

— Então vamos — ela decretou, já pegando a bolsa. — Se alguém me oferecer um cigarro hoje eu aceito.

vinha contando, pela terceira vez, a história de como tinha tentado pedir um lanche em francês quando moravam provisoriamente em Paris e acabou xingando a atendente sem querer.

— Eu juro, , eu falei baixinho “puta merda” porque derrubei o celular, e a mulher achou que eu tava chamando ela de... — Ele gesticulava, indignado.

— Amigo — eu chorava de rir —, você basicamente inaugurou a vida de expatriado chamando uma francesa de prostituta. Isso é poético.

gargalhou, se apoiando no braço dele.

— Ele pediu desculpa trezentas vezes. A mulher tava quase abraçando ele no fim, de tanto que ele se desesperou.

O riso foi crescendo entre nós três, daquela forma que só acontece quando a noite promete, leve, quente, despreocupada.

E foi assim, ainda rindo, que empurramos a porta do pub.

O cheiro de madeira, cerveja e perfume barato bateu de uma vez. A música estava num volume perfeito: alta o suficiente pra animar, baixa o suficiente pra conversar.

— Ali! — apontou para uma mesa no fundo, perto da parede de tijolos aparentes.

Fui atrás deles, ainda rindo, e levantei a mão para chamar o garçom, só um aceno rápido, automático, quando meu olhar esbarrou no dele.

Ele.

Sentado com apenas um amigo, braços apoiados na mesa, garrafa de cerveja na mão do outro cara.
Mas ele não estava olhando para o amigo.

Ele estava olhando pra mim.

Foi instantâneo, certeiro, como se ele já estivesse com o olhar parado ali, só esperando que eu levantasse a cabeça.

E por alguma razão inexplicável, talvez pela iluminação do bar, talvez pelo jeito despreocupado de sexta-feira, ele parecia mais bonito do que no dia da reunião.
Mais leve.
Mais... real.

Nosso olhar se cruzou por menos de um segundo, mas aquele segundo foi suficiente pra me deixar alerta demais.

E meu corpo fez o que sempre faz:

Eu desviei.

Rápido, discreto, quase automático.

Não por timidez.
Não por qualquer vergonha idiota.
Mas por aquele reflexo que eu sempre tive, uma espécie de autopreservação misturada com altruísmo, de nunca deixar ninguém achar que eu estava enviando algum sinal que eu não pretendia enviar.

disse algo, mas minha cabeça demorou um instante para voltar.

— Hã? — Virei pra ela.

— Perguntei se você vai querer fumar daqui a pouco... aqui vende cigarro — ela repetiu, com aquela voz quase suplicante de quem já está torcendo pra eu dizer que sim.

— Vou. Quem nega o vício é você — respondi, rindo, tentando disfarçar o meu mini-descompasso interno.

Ela riu também, mas no segundo seguinte sua expressão mudou.
O rosto dela congelou por meio segundo, depois voltou à vida num sussurro urgente:

— Ei! — Ela inclinou levemente o corpo na minha direção, falando baixo, mas com aquele tom alarmado. — Isso aqui do lado é o...? — Ela nem precisou completar. Mesmo falando português, sussurrou como se estivesse contando um segredo de estado.

Eu só dei uma olhada de canto de olho, rápida, quase imperceptível.

E assenti.

— É.
Era ele.

Antes que eu pudesse processar qualquer coisa, o apareceu do nada, provavelmente voltando do banheiro, secando as mãos na calça como sempre fazia.

— E aí, o que foi? — ele perguntou, inocente, zero ciente da tensão repentina no ar.

praticamente o agarrou pelo braço.

— Olha bem disfarçadamente e vê se você reconhece quem tá do nosso lado — ela falou como quem dá uma missão secreta, toda empolgada, mas ainda sussurrando.

fez aquele movimento exagerado de quem tenta ser discreto... e falha.
Olhou com calma, analisou por um segundo, depois franziu a testa.

— Não. — Ele riu, achando genuinamente divertido que estivesse perdendo alguma fofoca importante.

bateu na mesa com os dedos, quase vibrando:

— SIM! — disse ela, sorrindo ainda mais, como se estivesse assistindo a um capítulo da própria novela. — É ELE!

ainda estava rindo quando virou pra mim com aquela cara de quem já sabe a próxima parte da conversa.

— Você sabe que tem que falar com ele, né? — disse ela, como se estivesse descrevendo uma regra universal da boa convivência. — Seria extremamente falta de educação da sua parte.

Revirei os olhos.

— Eu sei — admiti, baixinho. — Mas eu nem sei se ele me reconheceu ainda.

soltou um “pelo amor de Deus” silencioso, só com o olhar.

— disse ela, pausada, como se estivesse falando com uma criança teimosa. — Claro que reconheceu. Ele já olhou pra cá umas três vezes.

, do lado dela, confirmou com a cabeça, se segurando pra não rir do drama todo.

continuou, levantando a sobrancelha:

— Será que é porque a gente tá falando outra língua completamente diferente da nativa? — provoquei.

— Óbvio que ele ouviu, óbvio que ele sacou. Você tá se fazendo — ela completou, apontando o dedo pra mim, mas sorrindo.

Antes que a pudesse continuar e ela ia continuar, eu via no brilho debochado no olho dela, a postura dela mudou. O sorriso congelou, os ombros se ajustaram, a coluna ficou reta.

E aí eu entendi o motivo.

Ele apareceu.
Magicamente, como se tivesse sido puxado pelo fio invisível da nossa atenção coletiva.

Parou na nossa frente, um pouco sem jeito.

— Oi... ! Tudo bem? — ele disse, com um sorriso contido, a voz um pouquinho tensa. O tipo de tensão de quem está genuinamente torcendo pra você lembrar dele.

Eu lembrei.
Obviamente que eu lembrei.

— Oi — respondi, e sorri de volta, discreta. Me inclinei apenas o suficiente para apertar a mão dele.

Só isso.
Um aperto de mão.

Depois de tanto tempo convivendo com pessoas de mil lugares diferentes, já era automático pra mim: nada de abraço, nada de beijo no rosto.
Carinho latino não é moeda universal, e eu tinha aprendido a me ajustar.

Ele pareceu até... aliviado. Ou talvez respeitoso. Não sei. Só sei que segurou minha mão por um segundo a mais que o necessário antes de soltar.

Assim que soltou, ele olhou para os dois ao meu lado.

— Desculpa interromper.

— Imagina — respondi, virando um pouco o corpo. — Essa é a , minha assistente na Arktis. E esse é o , marido dela.

— Oi — ele cumprimentou os dois, simpático.

devolveu a saudação com a educação impecável de alguém que, dois minutos antes, investigava a mesa alheia como detetive particular.

Ele respirou fundo, puxando um assunto seguro:

— Estão aproveitando a noite? Estocolmo nessa época costuma ser bem mais fria, então hoje é um dia raro.

— Estamos — eu disse. — Decidimos beber um pouco. Os três.

— A gente tem que explorar o máximo possível — completou. — Plano de sobrevivência em país novo.

Ele riu.

— Faz sentido. Eu tô ali com um amigo. Eu estava jantando com meu pai, aliás.

O olhar dele voltou pra mim.
Atento demais.
Estável demais.

Eu respirei.

— Se quiserem... podem sentar com a gente. Tem espaço.

Ele ergueu as sobrancelhas, surpreso mas com um sorriso sincero.

— Tem certeza?

— Tenho. Chama seu amigo.

— Já volto.

Ele se afastou.

imediatamente me deu um tapa leve na perna.

.

riu, já aceitando a bagunça que ia se formar.

Pouco depois, ele voltou com o amigo, um cara alto, mas não mais que ele, expressão tranquila.

— Esse é o Ken — ele apresentou. — Ken, essa é a , a e o . — Era curioso o sotaque carregado na pronuncia dos nomes.

Depois dos cumprimentos, puxaram duas cadeiras e se sentaram.

não se aguentou:

— Você comentou que tava jantando com o Stellan...

Ele sorriu, sem pretensão nenhuma.

— Tava, sim. Acabamos falando do nosso maior bicho-papão do momento... o Nexus.

soltou uma risada contida.

— Eu imaginava. É o assunto do momento — ela brincou, balançando o copo.

E então a mesa se dividiu naturalmente:

Bill, e eu caímos numa conversa meio técnica, meio caótica sobre trabalho, prazos, expectativas, “vai lançar”, “não vai lançar”, “quem vai surtar primeiro”.

Enquanto isso, Ken e estavam completamente mergulhados em um papo paralelo, alguma série que os dois descobriram que estavam assistindo, gesticulando como se tivessem encontrado almas gêmeas de gosto televisivo.

A mesa virou dois mundos diferentes coexistindo.

Até que, em meio à nossa conversa, colocou o copo na mesa e disse:

— Eu vou ao banheiro rapidinho.

Eu já estava inquieta. Aquele tipo de inquietação específica, familiar, vontade de sentir o amargo do cigarro na boca.

Olhei para a carteira de cigarros na mesa dela e perguntei, com gentileza:

— Você se importa? — Apontei com um olhar que ela entendeu na hora.

Ela riu baixo.

— Não, relaxa. Eu tô apertada. Depois a gente fuma um juntas.

Assenti e me levantei, ajeitando a jaqueta.

— Vou lá fora fumar um pouco — avisei aos demais, educada.

Bill ergueu os olhos para mim no mesmo instante, quase automático.

— Você se importa se eu for junto? — ele perguntou. — E... posso pegar um também?

A pergunta veio com aquele jeito dele: simples, direto, mas atentíssimo.

— Claro que não, pega — respondi, pegando a carteira e oferecendo.

Ele sorriu de lado.

— Obrigado.

Saímos juntos, enquanto atrás de nós e Ken continuavam numa discussão extremamente séria sobre qual temporada da série era a melhor.

O bar ficou para trás conforme abrimos a porta e o ar frio de Estocolmo bateu no rosto.

Era só nós dois.

Coloquei o cigarro entre os lábios e acendi, protegendo a chama com a mão. A primeira tragada veio quente, familiar. Quando soltei a fumaça, vi Bill repetindo meu movimento.

Talvez por isso, puxei assunto:

— Então... você mora em Nova York tem muitos anos, certo?

— Quase quinze. — Ele tragou devagar. — A cidade prende a gente de um jeito estranho.

— Imagino.

Até que, sem pretensão, ele soltou:

— Meu pai gosta muito de você.

Eu travei meio segundo.

— É mesmo?

— É. Falou bem de você no jantar. Disse que você é inteligente. Que tem uma visão interessante pra Arktis.

A frase era simples.
O olhar, não.

Eu ri, daquele jeito curto, quase desesperado.

— Isso é aterrorizante.

Ele entendeu. É claro que entendeu.

— Pra alguns, sim. — Tragou mais uma vez. — Mas você já tá em vantagem.

Eu o encarei, curiosa.

— Ah, é? Por quê?

Ele sorriu, devagar, de verdade.

— Porque ele já gosta de você.

Eu soltei o ar rindo, soprando a fumaça.

— Agora é só fazer com que ele continue gostando.

Ele riu junto, um som quente no ar gelado.

E ali, naquele pequeno intervalo entre uma tragada e outra, a noite mudou de lugar.




E o tempo foi passando.

O cigarro que eu tinha acendido era, provavelmente, o quarto desde que chegamos ao bar. A conversa fluía com uma facilidade quase perigosa, sem pausas, sem silêncios constrangedores, sem aquelas barreiras invisíveis que normalmente existem quando duas pessoas mal se conhecem.

Falamos sobre viagens, filmes, diferenças culturais... até que, naturalmente, ele começou a me perguntar sobre o Brasil.

Não de um jeito superficial, não era o clássico "ah, vocês têm muito calor lá?". Ele falava de um jeito que exigia contexto, referências, nuances.

— Você nasceu em qual região mesmo? — ele perguntou, genuinamente interessado.

Quando respondi, ele acenou como se estivesse processando peças de um quebra-cabeça maior... e então começou a citar coisas que eu simplesmente não esperava.

— Eu li Drummond na escola — ele comentou, como quem joga a informação com total naturalidade. — E Clarice Lispector... ela me bagunçou um pouco. No bom sentido.

Eu pisquei.

— Você leu Clarice? — perguntei, quase rindo. — Sério?

— Claro que li. Ela escreve como se estivesse abrindo a própria alma enquanto tenta entender o que tem lá dentro. — Ele deu uma tragada, olhando pro lado. — É fascinante.

Eu fiquei alguns segundos só observando ele falar.
A forma como ele articulava.
O jeito preciso, nada exibido.
Como se estivesse citando autores brasileiros da mesma forma que alguém comentaria sobre clima ou trânsito.

E então ele completou, quase tímido:

— Também gosto muito do Milton Nascimento. E... Gilberto. — Ele riu. — Isso é aleatório demais?

Eu ri de volta, surpresa e um pouco encantada.

— Não... é só inesperado. — Era aleatório demais.

Ele me olhou com aquela expressão tranquila e intensa ao mesmo tempo.

— Achei que você fosse perceber mais cedo que eu pesquiso muito sobre a cultura dos lugares quando conheço pessoas de lá. É meio... automático pra mim.

— Eu percebi que você era inteligente — respondi, sincera. — Mas não sabia que era esse tipo de inteligente.

Ele arqueou uma sobrancelha, divertido.

— Qual tipo?

— O tipo que presta atenção.

A brasa do cigarro iluminou o rosto dele por um segundo e eu soube que ele tinha entendido exatamente o que eu quis dizer.

Antes que qualquer outro assunto surgisse ou antes que eu pudesse tentar decifrar aquele olhar dele, a porta do bar se abriu atrás de nós.

Ken apareceu com as mãos nos bolsos da jaqueta, respirando fundo como quem precisava de ar.

— Wow — ele disse, rindo, apontando com o queixo para dentro. — Os velhos ali já tão querendo ir embora.

A frase saiu com uma naturalidade tão grande.
A noite tinha trazido intimidade para todos, até pros dois que dez minutos antes discutiam seriamente sobre uma série de ficção científica.

— Sério? — perguntei, achando graça.

Ken assentiu, fazendo uma careta bem-humorada.

E então me toquei, finalmente olhei para o relógio no meu pulso.

02:18.

Meu sorriso morreu por meio segundo.

— Meu Deus — murmurei. — O tempo passou e eu nem senti.

Bill soprou a última fumaça da noite pelo canto da boca, com aquele meio sorriso que não dizia muito... mas dizia tudo.

— Nem eu.



e pediram um Uber e colocaram uma parada para me deixar. Na porta do bar, antes de entrar no carro, me despedi de Bill com um breve sorriso, quase tímido, quase como se pedisse desculpas por ir embora tão rápido. Mas, naquela altura, o olhar dele já tinha mudado completamente. Já não era mais aquele olhar casual de alguém que cruza com outra pessoa numa festa qualquer. Havia algo diferente ali. Algo que ele mesmo talvez não soubesse nomear.

Cada um seguiu seu rumo, cada um para o seu destino, mas a cena ficou presa no ar: o sorriso rápido, o silêncio, a sensação...

No caminho do Uber, ninguém disse uma palavra. O silêncio não era desconfortável, era quase um descanso depois da intensidade da noite. Eu olhava as ruas passando pela janela, as luzes borradas pelo movimento do carro. Tudo parecia automático: respirar, piscar, observar. Mas, na minha cabeça, a noite inteira se rebobinava como um filme. Eu olhava distraída pela janela, quando uma música veio do nada: 'S Wonderful, na voz do Gilberto. Não tocava em lugar algum, mas ficou rodando na minha cabeça, como se fosse a trilha sonora daquela noite, suave, meio nostálgica, perfeita pra aquele momento e pra aquele olhar do Bill antes de eu entrar no carro.




Continua...


Nota da autora: Quero avisar aos leitores que esta é uma história de construção gradual. Eu me dediquei a desenvolver uma narrativa onde os acontecimentos e os relacionamentos fazem sentido e se desenrolam de forma realista e progressiva. Preparem-se para um enredo mais pé no chão e maduro. Espero que gostem de acompanhar a jornada!

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