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Codificada por Lua ☾
Finalizada em: 20/07/25

— Eu não acredito que você entrou no clube de xadrez — gritava na minha frente, tomada pela indignação.
— Entrei, ué. Qual o problema? — dei de ombros, ainda rolando a timeline infinita do Instagram.
— O problema é que você só pode participar de um clube por semestre. Isso significa que você não pode entrar no clube de dorama comigo. — As mãos dela firmes na cintura deixavam claro o nível da irritação. — E o pior de tudo é o motivo disso: YUNHO!
No momento em que ela pronunciou o nome proibido, meu celular praticamente bateu na boca dela, como um pedido silencioso para que parasse de gritar. Ela não podia dizer aquele nome em voz alta assim, não o nome de quem me fazia cair de quatro só com um olhar.
.
Veterano de Matemática. Alto, absurdamente alto. Sempre de moletom cinza, fone no pescoço, e um sorriso que parecia um bug no sistema de defesa emocional de qualquer pessoa com um mínimo de bom senso. Era gentil, educado, e muito perigoso. Pelo menos para mim, para minha sanidade.
— Eu tenho culpa se a única forma de encontrar com ele é naquele clube? — murmurei, encolhendo os ombros e tentando não chamar mais atenção no meio do saguão do prédio principal.
— Mas você sabe como jogar pelo menos? — ergueu uma sobrancelha.
— Claro que não. Parece que não me conhece.
Ela suspirou como quem já tinha aceitado a derrota.
— Só espero que você não passe vergonha.
— O clube começa semana que vem, ainda dá tempo de aprender o básico — tentei parecer confiante, mesmo que a única coisa que eu soubesse sobre xadrez era que tinha cavalo, rei e uma tal de rainha que todo mundo queria ter mais de uma.
— Que horas é o primeiro encontro? — cruzou os braços, desconfiada.
— Quarta-feira, às cinco da tarde. Sala B33 no prédio de Matemática.
— Nossa, tão longe do nosso prédio de Química.
— Fazer o que, é a única chance que eu tenho de falar com o fora do horário de aula. — Olhei para ela com um ar quase trágico. — Você viu o tanto de gente que vive em volta dele? Ele não é acessível. Ele é tipo um NPC raro.
riu, apesar de ainda estar com cara de quem preferia que eu tivesse me inscrito em qualquer outro clube.
— Ok, rainha do drama. Pelo menos promete que vai me mandar mensagem contando tudo o que aconteceu?
— E desde quando eu escondo algo de você? — Levei a mão ao peito fingindo indignação pela ofensa, sentida apenas por minha pessoa. — Só não prometo que vou sair viva se ele sentar do meu lado.
Ela balançou a cabeça, já puxando o celular.
— Vai dar tudo errado. Mas pelo menos vai ser engraçado. — com uma amiga assim, ninguém precisa de uma inimiga certo?
Eu queria discordar, mas o fato de que eu estava prestes a entrar em um clube de xadrez sem saber mover um peão apenas para ver um garoto dizia muito sobre minhas prioridades.
E, sinceramente? Eu não estava nem um pouco arrependida, pelo menos não por agora.

♟️

No mesmo dia, à noite, abri o notebook com a energia de quem estava prestes a derrotar Magnus Carlsen. Pelo menos os nomes dos jogadores famosos eu conhecia. Obviamente, porque vivia comentando sobre eles nas aulas.
“Como jogar xadrez?” Foi o que digitei na busca, com uma seriedade que faria se orgulhar de mim.
O primeiro vídeo que achei no YouTube tinha vinte minutos. O segundo, trinta e dois. O terceiro era em russo.
Comecei a abrir um vídeo por vez em uma nova aba. Abri outra. E mais outra. Em poucos minutos, já tinha feito uma coleção de abas abertas, até meu Google Chrome pedir arrego e travar em menos de cinco minutos de uso. O melhor é que eu sabia que não assistiria nem dois daqueles vídeos e acabaria procurando algo mais eficiente.
Sabe-se lá como, acabei parando em um site de inteligência artificial chamado ChessBuddy, onde um robô simpático com voz de desenho animado prometia me ensinar do zero.
— Boa noite! Quer aprender a jogar xadrez? — ele perguntou, animado.
— Quero, mas preciso aprender rápido. Tenho uma semana.
— Ótimo! Vamos começar com os movimentos básicos. Você conhece o nome das peças?
— Cavalo, rei, rainha… o resto a gente vê no caminho — murmurei.
ChessBuddy fingiu que não ouviu meu desprezo pelas torres e bispos e seguiu com a explicação. Só que o jeito como ele dizia “controle o centro do tabuleiro” parecia que havia saído de um manual de guerra militar.
Depois de perder quatro partidas seguidas para o modo iniciante, e descobrir que eu confundia peão com bispo o tempo todo, fechei o notebook com força e encostei na cadeira.
— Vai ser um massacre — falei para o teto do meu quarto.

♟️

Cheguei cinco minutos antes, como quem quer mostrar comprometimento, que na real eu só estava disfarçando minha ansiedade de esperar em outro lugar. Respirei fundo na porta, tentando parecer casual, mesmo com a mão tremendo de leve ao segurar a maçaneta.
Assim que entrei, ele já estava lá.
.
Sentado em uma das mesas centrais, de moletom cinza, mangas arregaçadas até os cotovelos, mexendo nas peças com concentração quase poética. O cabelo caía um pouco sobre os olhos, e ele parecia completamente alheio ao mundo, como se o tabuleiro fosse o único universo possível.
Ele levantou o olhar, e por um segundo, um mísero segundo, nossos olhos se encontraram. E senti uma puxada no estômago.
— Oi, — ele disse, com aquele sorriso calmo que me fazia derreter.
— Oi — respondi, engolindo em seco. Respira. Naturalidade. Isso. Anda até uma cadeira e senta.
Outros estudantes foram chegando aos poucos, alguns em duplas, outros sozinhos. Tentei escolher uma cadeira em que eu ficasse razoavelmente visível, mas não desesperadamente próxima. Era uma arte.
Foi quando ela entrou.
De salto baixo, cabelo preso em um coque frouxo e postura de quem sabia exatamente onde estava pisando. A garota cumprimentou o professor com naturalidade, como se já se conhecessem, e então... se aproximou de .
Ele sorriu. Não o sorriso que eu estava acostumada a receber, mas um mais aberto.
E ela sorriu de volta. Sentou ao lado dele. Ele moveu o tabuleiro para mais perto dos dois. E então começaram a falar algo baixinho, rindo entre uma peça e outra.
Eu ainda não sabia o nome dela. Mas a sensação de que já tinha perdido uma partida sem nem jogar me acertou como um cheque direto no estômago.
Tentei desviar o olhar, abrindo meu caderno e fingindo anotar alguma coisa. Mas a caneta estava de cabeça pra baixo, exatamente como a minha autoestima também.
Depois de alguns minutos, me resgatando do meu poço emocional de cinco metros, o professor chegou carregando um tabuleiro debaixo do braço e uma caixa com peças extras. Era um senhor baixo, com cabelo grisalho, óculos pendendo no nariz e uma postura animada demais para uma sala de xadrez.
— Boa tarde, pessoal. Vejo alguns rostos novos por aqui, o que é ótimo. — Ele colocou o tabuleiro na mesa principal e começou a organizar as peças com precisão milimétrica. — Antes de começarmos a prática, vamos revisar o básico, só pra garantir que estamos no mesmo tabuleiro... digo, na mesma página.
Algumas pessoas riram, eu inclusive. Nervosa.
— Alguém pode me dizer qual peça só anda em linha reta, mas nunca volta?
— O peão — respondeu uma voz firme, vinda de duas cadeiras ao lado.
Era ela. A garota da entrada. Agora sentada ereta, mãos cruzadas sobre a mesa, com a segurança de quem sabia exatamente onde estava.
— Muito bem. E qual peça é considerada a mais poderosa do jogo?
— A dama — ela respondeu sem hesitar.
— E por quê?
— Porque pode se mover em qualquer direção, quantas casas quiser. Horizontal, vertical e diagonal.
— Excelente — disse o professor, sorrindo. — Parece que temos uma veterana por aqui não é mesmo. , certo? Estudante de arquitetura?
Ela assentiu com um sorriso largo, o tipo de sorriso que sabe o efeito que causa.
O professor continuou com a pequena revisão e eu anotei tudo que era novo para depois rever e entender os conceitos.
— Muito bem, pessoal. Vamos começar com partidas rápidas entre duplas. Nada competitivo, só pra observar estilos. Eu vou designar as duplas agora.
Meu estômago deu sinal de vida, mostrando o quanto estava nervosa, minhas pernas balançavam rapidamente.
... com . — Ele olhou para mim, depois para ela, como quem achava estar fazendo um ótimo pareamento.
Claro. Ótimo. Justo.
, você joga com... .
acenou de leve e , sentado mais ao fundo, veio até a mesa do com aquele jeito calmo que parecia flutuar. Os dois cumprimentaram-se com um toque de mão leve e começaram a arrumar as peças.
já estava organizando o tabuleiro com eficiência cirúrgica quando cheguei à mesa. Comecei a organizar as peças ainda tentando lembrar onde exatamente o cavalo começava.
A mesa comportava dois tabuleiros, eu fiquei ao lado de e naomi na minha frente ao lado de , que estava na diagonal comigo.
Quando enfim terminei de organizar as peças tentei sorrir para ela, mas a mesma apenas me olhou como se eu fosse... um peão.
— Boa sorte — ela disse, em um tom neutro.
Tive certeza, naquele momento, que eu não ia receber sorte nenhuma.
Do lado, ouvi a risada baixa de ao comentar algo com , como se o xadrez fosse só uma desculpa pra rir bonito. Meu olhar escapou antes que eu pudesse impedir.
E ele olhou de volta. Sutil. Rápido.
— Boa sorte — ele falou, soprando as palavras no ar, eu sabia que era endereçado só a mim.
Meu coração perdeu um compasso.
moveu a primeira peça branca.
Duas jogadas. Era o tempo que eu levei para perceber que estava me cercando. Quatro, para entender que não tinha saída.
— Xeque-mate — ela anunciou com a voz tranquila, quase entediada.
Olhei para o tabuleiro, confusa, como se talvez alguma peça tivesse se movido sozinha enquanto eu piscava.
— Espera… como assim já acabou?
Ela recostou na cadeira e cruzou os braços.
— Abertura do pastor. É um xeque-mate clássico em quatro lances. Funciona bem com iniciantes.
Iniciantes.
A palavra bateu seco. Não foi ofensiva. Não foi cruel. Foi pior: foi um fato.
Fiquei em silêncio, as bochechas queimando, sem saber se empurrava as peças da mesa ou se simplesmente fingia que estava achando tudo super divertido.
Do lado, o jogo entre e seguia calmo, até que ele pareceu notar meu olhar perdido e virou seu olhar para o tabuleiro para entender o que havia acontecido.
— Ei — ele disse, se inclinando levemente para frente. — , não é muito justo usar essa jogada com quem está começando.
Ela apenas deu de ombros.
— Eu só joguei como sempre jogo.
— É. Mas aqui ninguém tá tentando ganhar um campeonato mundial — ele disse, olhando pra mim com um meio sorriso. — A ideia é se divertir um pouco também, né?
Por um segundo, o aperto no meu peito afrouxou. Não era uma defesa explícita, mas foi o suficiente pra eu me sentir… menos lixo.
não respondeu, mas estava visivelmente chateada, e então voltou a ajeitar as peças em silêncio, pronta para outra rodada — provavelmente contra outra vítima aleatória.
Eu, por outro lado, abaixei os olhos para o tabuleiro e respirei fundo.
Tudo bem. Respira. Junta as peças. Finge que está tudo sob controle.
— Vocês duas podem descansar um pouco. — disse o professor, enquanto circulava entre as mesas com uma prancheta na mão. — Quero que jogue a próxima com o . E com .
Levantei os olhos, surpresa.
já empurrava a cadeira para trás, enquanto , do meu lado, capturava a última peça do jogo com calma monástica.
levantou o olhar e sorriu de leve quando perdeu de e trocou de lugar com .
Engoli em seco, como eu ia jogar com yunho na minha frente? respirei e comecei a recolocar as peças no tabuleiro.
Dessa vez, não tinha como perder em quatro lances.
Pelo menos, era o que eu esperava. era muito gentil para fazer isso comigo.
Ele sentou na minha frente, ajeitando o relógio de pulso e se inclinando um pouco sobre a mesa.
— Antes de jogarmos uma partida, quer que eu te mostre como se defender da abertura que a usou?
Assenti, tentando parecer mais curiosa do que humilhada.
— Aquela jogada tem nome, sabia? É chamada de “Pastorzinho”. É uma armadilha. Você cai se não proteger direito as casas F7 e H5 logo no início.
— Hã… casas?
Ele deu uma risada baixa, gentil.
— É, as casas têm nomes. São identificadas por letras e números. A fileira horizontal é de 1 a 8 e as colunas são de A a H. Tipo coordenadas.
— Então é tipo batalha naval? — perguntei, franzindo a testa.
— Basicamente — ele respondeu, sorrindo. — Quando a moveu o bispo pra C4 e depois a dama pra H3, ela já estava armando o xeque-mate. A maioria das pessoas novas não percebe isso até já ser tarde.
— E eu fui a “maioria das pessoas novas”, no caso.
Ele riu.
— Não se preocupe. A maioria dos veteranos também já caiu nessa. O segredo é desenvolver as peças aos poucos, proteger o rei e não sair com a dama tão cedo.
— Tá. Mas tipo... se você disser “joga cavalo em F6”, eu não sei nem onde isso tá. Tem mapa?
Ele puxou meu caderno que estava do lado da mesa, virou uma página em branco e começou a desenhar um tabuleiro com letras e números, bem simples.
— Vamos fazer assim: você aprende o básico de notação e, em troca, eu prometo não usar jogadas de campeonato contra você hoje. Combinado?
Sorri, finalmente relaxando um pouco. Era incrível como ele conseguia me deixar confortável de qualquer forma.
— Combinado.
voltou a apontar para o tabuleiro desenhado no caderno, explicando com paciência cada letra, cada número, cada casa como se fosse óbvio, mas nunca me fazendo sentir burra por não saber.
Ele tinha esse dom estranho.
Conseguia me deixar à vontade com um sorriso, e logo em seguida me fazer esquecer como se respira direito.
— Você aprende rápido — ele comentou, depois que consegui identificar sozinha onde estava o tal do cavalo. — só falta confiar e praticar mais. — Suas palavras me deixaram aliviada, me tirando um pouco do peso daquela situação que eu mesma havia me colocado.
O jeito empolgado com que me explicava, os sorrisos satisfeitos diante do meu progresso no jogo… tudo aquilo era suficiente para me deixar feliz. O resto do tempo no clube voou. O professor adorou que estivesse me ensinando tudo do zero. A situação estava tão confortável naquele momento que mesmo que ainda não soubesse jogar direito eu queria aprender de verdade. Não só pelas regras ou pelas peças, mas pelo que aquilo despertava em mim. Pelo jeito como ele me olhava e ensinava. Pelo jeito como eu me sentia perto dele naquele ambiente: Só eu, ele e as peças.




♟️ Continua...


Nota da autora: Oi, pessoal! Jeniffer aqui!
Espero que tenham curtido esse primeiro capítulo!
Essa fic é baseada em fatos reais, hahaha, eu também entrei no clube de xadrez da escola por causa de um garoto. Achei legal transformar essa experiência em uma história com o Yunho e compartilhar com vocês nessa expedição de esportes.
Se quiserem ler mais histórias minhas, é só acessar minha página de autora:
https://ficsverse.com.br/autoras/jeniffermendeskoi.html

Muito obrigada por ler até aqui! <3


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