Revisada: Lightyear 💫
Finalizada em: 20/07/2025Entre um dia e outro, uma pergunta, uma resposta; ganhei aquele que seria meu eterno troféu: um riso nervoso encabulado que perguntava, sereno, se gostaria de companhia para andar até em casa. Lembro-me da sensação inquieta, das mãos que suavam frio e da vontade de que o caminho se estendesse, assim teria — ainda que por um momento —, mais de sua companhia. Naquela noite não aconteceu, mas, a partir dele, sempre que me via a caminho da saída do ginásio, apressava os passos oferecendo companhia.
Seria eu egoísta por querer que o tempo parasse? Estava errada em querer ser a única a escutar de seus lábios finos uma história do outro lado do mundo? Será que merecia ser agraciada pela música que era sua risada? Sim, é a resposta correta; afinal, naquela época era somente uma jovem recém-formada em fisioterapia que deu sorte em poder observar de perto atletas de desempenho. Porém, existia uma vontade latente, uma necessidade de acreditar que a mim o destino guardava uma verdade diferente.
Foi numa noite de verão que tudo começou. Havia uma brisa quente dançando com as folhas altas do parque que éramos obrigados a atravessar, e a lua brilhava cheia e soberana no céu escuro.
— É uma pena que não tenha estrelas, Tobio — comentei, olhando para cima. — O céu de Roma costuma ser bem bonito.
O silêncio perdurou entre nós por alguns minutos, e parei de andar quando vi que sua figura já não me acompanhava mais; sua cabeça estava baixa e a mão segurava fortemente a alça de sua bolsa. O rapaz de 20 anos pareceu galgar alguma força interior antes de fixar o olhar no meu e responder:
— Tem estrelas, , só que estão presas nos seus olhos.
Achei que meus ouvidos me traíram, que a frase fora dita por qualquer outro italiano passeando pelas ruas da capital, mas sua expressão ansiosa por uma resposta e o rubor que se estendia da maçã do rosto até a ponta das orelhas denunciavam que não. O ar me faltou aos pulmões, as borboletas nasceram em meu estômago, e pela surpresa, restou corresponder:
— Se vivem em mim, são somente para você.
Naquela noite, você não foi embora como em todos os outros dias. As mãos que antes somente observava de longe contornavam as minhas curvas com incerteza, mas com vontade. Meu simples quarto virou uma pista de dança, feita somente para dois; as pernas cambalearam, tropeçando nas peças de roupas jogadas ao chão. Gravei a sensação de seu corpo nu contra o meu; na língua, lembrava seu gosto profundo, e minhas mãos aprenderam cada trilha que se apresentava entre seus músculos. Era quente, intenso — fez tremores subirem pela minha coluna quando puxou meu quadril uma última vez, enterrado em minhas dobras enquanto alcançávamos estrelas e fazíamos toda uma galáxia. Fui sua antes mesmo que pudesse perceber, e, quando segurou minha mão para começar a andar ao seu lado, me vi sendo a pessoa mais feliz do mundo: meus olhos estavam em você, meu coração em suas mãos e meu corpo em sua cama.
Você disse que nunca teve um verdadeiro amor — não além do mesmo esporte o qual é tão devoto, não alguém com quem pudesse trocar beijos e carícias. Contudo, não havia tempo a perder: aceitei seu amor com todas as falhas, esperando que fosse o suficiente, porque nunca amei assim.
Parceira não apenas na vida, mas também no trabalho, passei a cuidar de mais do que seu coração, também do seu corpo e mente. Uma dupla feita pelos céus, aos olhos dos outros, algo que foi destinado a ser. Meses se passaram, anos vieram, e foi numa mesma noite quente no meio de julho que pediu minha mão. Sem data de validade, nosso amor prometido perpetuaria até a eternidade.
Ou foi o que pensei.
Foi com esses pensamentos tolos que me vesti de branco e deixei que seu nome se entrelaçasse com o meu, gravado também numa aliança de ouro que nunca deixava minha mão esquerda. Sete anos, sete anos nos separavam do início até o presente; nem tudo são flores, ou espinhos, para os admiradores de fora um equilíbrio que se mantinha forte.
Porém, do lado de dentro, um medo que crescia absurdamente. Uma insegurança que nascia em pensamentos e crescia como vinhas de erva-daninha. Até onde meu amor seria o suficiente? A cada dia, a cada hora, as mais belas e influentes mulheres se aproximavam — algumas, mais incisivas, proclamando em alto e bom são que não se importavam em ser amantes; outras, que mandavam em textos escondidos seus desejos de luxúria.
Tempo, o mesmo que me abençoava por estar com Tobio, também era uma maldição; invejoso, tomava para si o brilho jovial que um dia tive, junto da confiança de ser aquela digna de andar ao seu lado.
O brilho dourado da aliança puxou-me de pensamentos profundos. Sozinha numa sala de estar gelada, com nada além do silêncio da madrugada e um livro de contos sobre o colo, a insônia me mantinha acordada e de mãos dadas com pensamentos inquietos, afundando cada vez mais em direção à escuridão.
Na capa cor de vinho, bordado com arabescos dourados, havia os escritos “Clássicos de Roma, o amor de Cupido e Psiquê”. Contornei suavemente os escritos, lembrando-me de um dos contos mais românticos que existia.
Na mitologia romana, existe um ser que explica a união de todos os seres: o Cupido. Filho de Vênus e Marte — equivalente a Eros na mitologia grega —, o deus andava sempre com um arco e flechas, pronto para disparar no coração de deuses e homens. A personificação do amor que viveu seu próprio romance. Segundo os mitos contados através dos séculos, Psiquê era a mais jovem das três filhas de um rei de uma terra distante, tão bela que pessoas vinham de reinos distantes para contemplar a beleza da princesa. Adorada como uma verdadeira divindade, as oferendas antes entregues a Vênus passaram a ser entregues à bela princesa. Ofendida, Vênus chamou seu filho Cupido, ordenando que usasse suas flechas para forçar Psiquê a se apaixonar por uma criatura horrenda.
Cupido seguiu as ordens de sua mãe, mas, movido pela curiosidade, se aproximou da princesa, que dormia em seu leito, para constatar se sua beleza era realmente tão estonteante. Impressionado e distraído, o deus do amor e da paixão acabou se ferindo com a própria flecha, apaixonando-se imediatamente. O tempo se passou, e Psiquê não tinha nenhum pretendente, enquanto suas irmãs se casaram com homens de nobre estirpe. Após visitar o oráculo, foi revelado que o destino que a aguardava era casar-se com um ser alado e perverso, que seria também a causa de sua morte. A princesa foi abandonada na beira de um abismo e levada aos céus, onde encontrou uma moradia de luxo e criados invisíveis que a trataram como uma rainha. Disseram-lhe que seu mestre — agora seu marido —, a visitaria ao anoitecer. Quando o véu escuro trouxe a noite, Psiquê conheceu seu marido e, ao contrário do que a profecia lhe dissera, ele a amou e proporcionou-lhe o mais profundo prazer, deixando-a para acordar sozinha na manhã seguinte. Inúmeras foram as noites de amor, e um dia a mulher questionou o porquê de não poder ver seu rosto. Cupido respondeu, perguntando se o amor que compartilhavam não era o suficiente, e estendeu a conversa com um pedido para que ela nunca tentasse ver seu rosto.
Tempo depois, ela visitou seus pais no reino distante, cheia de ouro e outras joias, causando inveja em suas duas irmãs que duvidaram de todas as palavras que deixaram sua boca. Psiquê, inocente, as levou até sua casa, comprovando suas palavras e somente aumentando a inveja. Com frases venenosas, as irmãs plantaram a dúvida na mulher e disseram para que, quando o marido estivesse dormindo, acendesse uma vela, e cortasse a garganta do terrível monstro antes que ele a matasse, conforme a profecia. Tola, a princesa o fez, porém, não se deparou com uma criatura horrorosa, mas sim com um belo ser, tão deslumbrante que só poderia ser um deus. Descuidada, deixou que os resíduos da vela caíssem sobre ele, que acordou assustado, urrando sobre a esposa desobedecer seu único pedido. Naquela noite, eles se separaram e Psiquê voltou miseravelmente para perto de onde suas irmãs moravam, de coração partido.
Enquanto vagava sem comida e nem repouso, Psiquê avistou uma montanha e, no alto dele, um templo que pertencia a Ceres, a deusa das plantas e amor maternal. Dentro viu grãos, cevada e espigas espalhadas, criando uma bagunça; então, pôs-se a arrumar. A deusa, comovida por suas ações, ensinou a humana uma maneira de apaziguar a raiva de Vênus. Esta achou um ultraje, mas prometeu-lhe conceder perdão se estivesse disposta a cumprir algumas tarefas. Só assim poderia recuperar seu grande amor.
Psiquê conseguiu concluir suas missões, ainda que com ajuda de alguns deuses e até mesmo Cupido que sempre a observava. Porém, Vênus, exausta da situação, ordenou uma última missão: Psiquê deveria visitar a rainha do submundo, Proserpina, em seu nome e pedir que a deusa lhe enviasse beleza para então restaurar seu esplendor. Pensou que só havia um meio de chegar ao reino dos mortos, e quando estava prestes a se matar, uma voz soprou em seus ouvidos um caminho alternativo. Mais uma vez, com ajuda, chegou ao seu destino carregando numa caixa, a beleza destinada à deusa Vênus.
Psiquê não deveria abrir; contudo, após ver refletido no rio dos mortos seu rosto fatigado, pensou que tomar para si um pouco do conteúdo da caixa, quem sabe, assim traria de volta a beleza deslumbrante que um dia tivera. Uma névoa a envolveu no mesmo instante, tirando de Psiquê não só a consciência como também a vida.
— O que está fazendo? — A voz de meu marido estava rouca, provavelmente devido ao fato de ter acordado há pouco tempo. Os cabelos corvinos, levemente bagunçados, foram ajeitados em seguida pela mão. Ainda havia um pouco de sotaque em sua fala, mas deixara de ser algo significante para se tornar um charme.
— Não consegui dormir, estava lendo para passar o tempo — respondi, desviando o olhar de sua figura atlética, que andava com passos arrastados até minha poltrona. As calças largas e a camisa branca não faziam questão de esconder os músculos embaixo delas.
Tobio virou o rosto para o relógio antes de parar ao meu lado — Quatro horas atrás acordei para ver que não estava ao meu lado, está aqui há mais tempo do que deveria. Também precisa descansar, .
Um suspiro longo escapou dos meus lábios — Me desculpe.
— Não estou bravo com você — Ele se sentou no braço da poltrona, procurando meus olhos com os seus. — Estou preocupado com você, embora não fosse reclamar se prestasse mais atenção em sua saúde.
Senti um beijo no topo de minha cabeça; logo em seguida, o livro foi tirado do meu colo e a minha mão puxada com o único objetivo de me levar de volta para as cobertas quentes de nossa cama. O homem me aninhou em seus braços, e não pude me obrigar a encarar seu belo rosto; apenas prendi o tecido de sua camiseta entre meus dedos.
— O que você está pensando? — Sua fala mal passava de um sussurro.
— Ainda vai me amar quando eu não for mais jovem e bonita?
O nó em minha garganta não deixou que minha fala soasse firme; a pergunta que corroía meu interior soou como ela exatamente era, doída, amarga, trêmula, a refletir meus pensamentos mais amedrontadores. A de perder o grande amor da minha vida.
— Hã? — Seu rosto se afastou e sua voz se ergueu. — Que tipo de pergunta é essa? , olha para mim.
A mão que tão carinhosamente estava em minha cintura se ergueu até meu rosto para que pudesse secar as lágrimas que escorriam. Havia preocupação em seus olhos, e Tobio começou a murmurar palavras em japonês que não podia compreender. Sua testa encostou contra a minha.
— Não vou te deixar.
— Tobio, olhe para você, uma estrela, um superjogador — Os sentimentos acumulados em meu coração começaram a transbordar antes mesmo que pudesse os impedir. — Sou… Eu. A mesma menina patética que ficava no canto da quadra olhando você à distância, não sou uma supermodelo, não tenho unhas bonitas, ou um longo e aveludado cabelo; pelos céus, nem sei fazer uma boa maquiagem sem ajuda da internet.
— Ainda assim, é perfeita para mim — Um riso escapou. — É fofo quando fica olhando o celular para passar um lápis no olho.
Soquei seu peito de leve, não adiantando muito, uma vez que era como acertar uma parede.
— Eu amo você, Kageyama — Sua voz sempre soava mais grossa quando em japonês. — Em todas as línguas, de todas as formas. Não precisa se forçar a ser alguém; no fim do dia, independente de todas as minhas opções, vou continuar escolhendo você. Como na história do Cupido e da Psiquê.
— Ela morre no fim, seu panaca.
— Não — Tobio se afastou para poder olhar nos meus olhos. — Cupido tira a névoa de Psiquê e salva ela. Depois, eles vão para o Olimpo e Zeus faz dela uma deusa.
— Você está misturando as mitologias; em Roma, é Júpiter.
Seu rosto ficou corado — Sou japonês, só li uma vez e faz tempo, mas o que quero dizer é: medos vêm e vão, pessoas vêm e vão, se tem uma coisa que quero que seja eterna na minha vida é você.
— Até mais que vôlei?
— Dessa vez, abro uma exceção.
O peso que parecia esmagar meu coração pareceu se dissipar. Tobio me abraçou pela cintura, me puxando para perto, mantendo o rosto próximo e olhando profundamente em meus olhos como se estivesse procurando algo.
— O que está olhando?
— Minhas estrelas favoritas.

