Revisada por: Saturno 🪐
Última Atualização: 26/05/2026Gods & Monsters – Lana del Rey
Novembro de 2004.
O vento entrava balançando a cortina cor de creme. A casa estava limpa, com poucos móveis, tendo apenas o necessário. Leon estava sentado no sofá, assistindo à programação noturna. Estar naquela pequena tranquilidade era desconfortável e, ao mesmo tempo, bom.
Ele já não tinha o hábito de apenas relaxar. A rotina que adotou após os incidentes de Raccoon City o deixou mais… ativo. Mas aquela semana estava exatamente assim, calma, sem nenhuma mensagem ou ligação.
Tudo estava em dia: a casa, as contas, o cooper pela manhã e o exercício à tarde. Leon mantinha bem sua rotina para que, assim, sua mente não pregasse peças.
Jogou a cabeça para trás, o som da rua se intensificou quando o vento trouxe para dentro.
Levantou, após passar a mão no rosto, caminhou até a geladeira e abriu, olhou e deixou a porta aberta como se aquele ato o ajudasse a pensar. Segundos depois de ficar ali parado, ele pegou uma bebida, abriu sem muito esforço e bebericou.
Realmente, aquela rotina estava o cansando demais.
Ali ele ficou, apoiado no balcão, a garrafa em sua mão. O som da televisão se misturava aos carros passando na rua, o padrão mudou quando o celular tocou. Caminhou a passos largos até o aparelho. Pegou e leu o nome no visor. Ingrid Hunnigan.
Aquele sorriso apareceu no mesmo instante.
— Leon?
— Hm.
— Leon, temos uma agente em campo em uma instalação ligada ao que acreditamos ser um antigo braço da Umbrella. O contato está instável. Ela solicitou apoio direto. Você é o mais próximo.
— Hunnigan… achei que você ia me dar férias dessa vez.
— Você não é exatamente o tipo que fica parado, Leon.
— Depende do convite.
— Não tem convite, e é uma ordem.
— Chego aí em breve.
Leon não estava mentindo. Deixando a garrafa de lado, caminhou até seu quarto e trocou de roupa. A jaqueta de couro foi vestida assim que trancou a porta atrás de si e, quase simultaneamente, a mensagem da localização chegou ao seu celular.
O que levaria uma hora, para Leon, demorou apenas meia hora. Ele desceu do carro, já averiguando o perímetro. O local ficava a duas cidades de Raccon City, então parecia estar na mesma cidade; respirou fundo, ligou a lanterna que ficava acoplada na arma e caminhou até o ponto informado.
Um silêncio iminente. Só era possível ouvir seus passos contra a neve, o vento soprando entre as árvores que ali havia.
Adentrando, ele viu a pequena base montada pelo serviço dos Estados Unidos. Passou por eles após conversarem brevemente e seguiu com mais dois soldados. Eles foram os últimos a ver a agente Paris e, por isso, iriam guiá-lo até o local.
Era como ele já imaginava, uma fachada amigável, sem muitas coisas explícitas. Para o conhecimento dele, era nitidamente o centro de desenvolvimento e não o centro de comercialização. Quando se deu conta, estava passando pelas grades sozinho.
— Vão ficar? — Olhou para os soldados. — Achei que vocês fizessem parte da equipe da Agente Paris.
— Temos ordem de ficar. — Um blefou com Leon.
— Claro, claro. — Voltou a caminhar. — Melhor assim, não preciso ser baby brother.
Respirou fundo e entrou. A porta de metal rangeu no momento exato em que ela foi empurrada.
— Melhor que um interfone.
Passos firmes, a visão focada e prestando atenção em todos os sons à sua volta. O lugar era pior que o labirinto de Fauno. Seguiu por onde achou que deveria ser o caminho correto, ao menos as luzes acesas — piscando e também avermelhadas —, davam esse entender. Para um lugar supostamente abandonado, estava bem conservado.
Quanto mais andava pelos corredores, os sons familiares se intensificaram.
— Mais um dia.
Ao se aproximar, viu um infectado logo à sua frente. Com um tiro preciso, ele o matou sem tanto esforço. Nesse instante, o comunicador do rádio chiou em seu ouvido, em seguida, a voz de Ingrid pôde ser ouvida.
— Leon, eu consegui um pequeno rastro da Paris. O rastreador dela mostra que está no laboratório do subsolo 3.
— Entendido.
— Estou tentando triangular, porém está fraco, não sei se haverá algo que possa te ajudar.
— Não tem com o que se preocupar, até então tudo no padrão, nada de complicado do que já passei.
— Fico na transmissão caso tenha informações.
Então a voz dela desapareceu, trazendo novamente aquele silêncio total que tanto o ajudava.
Na parede mais à frente, ao seu lado direito para ser mais preciso, Leon viu o mapa do local e procurou uma escada que levava para o laboratório do subsolo 3. A descida ia ser longa e com certeza com mais infectados.
Colocou o pé no último degrau, estava olhando o perímetro, quando viu mais cinco infectados, dessa vez eram seguranças. Analisou bem antes de atirar. Se haveria alguma variante, ele iria perceber.
— Nada.
E então disparou cinco balas. E, como se fosse um momento simultâneo, mais sons de tiros, uma SMG, vinham do corredor oeste. Apertou os passos para chegar logo e não deixar nada desandar. À sua frente, uma grande porta blindada entreaberta, alguns soldados americanos estavam mortos diante dela. Entrou com cautela ao pegar uma escopeta e também as balas de um dos soldados.
O interior era amplo, um dos maiores da instalação que foi arquitetada para o local. Cilindros estavam espalhados ao lado de celas; algumas abertas, outras semiabertas. A agente Paris se protegia atrás de uma das mesas tombadas enquanto recarregava a submetralhadora.
Seria mentira dizer que ele não reparou nela ao se aproximar. Paris tinha um corpo atlético, loira e bonita. A roupa tática em nuances pretas realçava mais a beleza dela.
— Agente Paris — a chamou, se aproximando. — Leon S. Kennedy, Hunnigan me enviou.
— Ainda bem. — Respirou um por cento aliviada. — Eu falei que vir aqui sem alguém experiente seria a maior besteira.
— Qual é a situação?
— Temos alguns sobreviventes, mas essa coisa despertou bem na hora em que estávamos quase colocando todos eles para fora do laboratório.
— Quantos? — Atirou.
— Nove.
— Certo. Tirem eles daqui… Eu cuido desse grandão.
Levou a mão ao comunicador.
— Hunnigan, já estou junto da agente Paris — avisou, como prometido.
Leon pulou por cima da mesa e se aproximou do infectado. Os tiros eram precisos, atingindo os pontos fracos e fazendo a criatura cambalear. Foi o tempo suficiente para a agente Paris retirar um a um de dentro da cela. Um forte barulho veio atrás de Leon, o vidro de um dos cilindros se rompeu, a água esverdeada se espalhou pelo chão todo, e a outra criatura estava de pé na frente da cela, onde havia mais dois sobreviventes.
A agente Paris, que tirava uma criança com cuidado, escorregou naquele líquido, e a arma deslizou para o lado oposto. Estava impossibilitada de ajudar o agente Kennedy.
— Claro, estava muito fácil.
Kennedy finalizou a criatura maior à sua frente e iniciou disparos na direção daquele que saiu do cilindro.
— Essa coisa não morre logo?
Descarregou mais um pente e alternou para a escopeta — foi o disparo final que a derrubou. O cheiro que emanava era pior do que pura podridão.
A respiração estava descompensada, mas, ainda assim, o suficiente para poder ir até o local. Dentro havia duas garotas, ambas aparentavam ter a mesma idade. Leon ajudou cada uma: a primeira segurou a mão de Leon, ela havia voltado para dentro, quando a criatura rosnou ao morrer. Seu medo foi grande, a ponto de não soltar a cela.
— Vamos, está tudo bem agora.
— Tem certeza?
— Claro. — Um pequeno sorriso apareceu. — Vamos? Só confie em mim.
E ela confiou, confiou tanto que não hesitou na ajuda dele para se levantar e ir até a agente Paris.
A outra garota que se mantinha abraçada em suas pernas, contendo o choro de desespero.
— Ei. — Se aproximou, tentando não a assustar ainda mais. — Está tudo bem, eu estou aqui.
A voz saiu firme e suave, trazendo a segurança que ali dentro ela nunca ouviu. Os olhos avermelhados encontraram os dele. A mão estendida e uma pequena sensação de segurança ali, diante dela.
— Leon Kennedy. — Se apresentou. — Vamos sair daqui.
Leon percebeu que ela hesitava em segurar sua mão. Não era de se esperar, o lugar era um inferno já por natureza, quem diria para ela depois do que havia passado ali.
— Pode confiar em mim.
E então ela foi. Segurou na mão dele, era quente até onde podia sentir, já que a luva que vestia deixava algumas partes não expostas. Era impossível definir o que ela sentiu naquele momento. Um misto de salvamento e medo, segurança e perigo. Ela foi guiada por ele, ainda segurando sua mão, até chegar diante da porta blindada, que agora estava emperrada.
Sons foram ouvidos novamente, vindos do lado direito, por onde Leon havia chegado.
— Paris, onde fica a saída mais próxima?
Ela pensou rápido e, após um estalo com a boca, respondeu com toda precisão.
— O túnel de manutenção. Fica para o leste.
— Vamos até lá.
— Podemos ir, mas tem um problema. — Ela percebeu o olhar do agente parar apenas nela. — As válvulas estão estranhamente emperradas.
— Onde fica a cabine? — perguntou, após um suspiro pesado.
— Sobre as escadas, segunda porta à esquerda.
— Leve eles. Eu chego lá o mais breve possível.
Leon havia esquecido que ainda estava segurando a mão da garota que havia ajudado. Só percebeu quando ela soltou, deixando devagar a mão dele; o olhar recaiu sobre ela. Os olhos castanhos falavam por si, ela desejava que ele não demorasse tanto.
— Logo estarei lá.
Disse, se distanciando, mas não foi apenas para todos, foi para ela. Quase que especificamente para ela.
Leon subiu as escadas com a arma em punho. O som que foi escutado há minutos atrás vinha do mesmo local onde ele estava indo. Não era nada com o que ele havia visto antes. Partes da pele estavam arroxeadas, com o corpo deformado, a cabeça dividida ao meio.
— Que merda é essa?
Mesmo não sabendo onde era o ponto fraco, ele mirou na cabeça. Mais eficaz e com uma precisão que mataria a criatura.
Pegou abrigo em uma das salas, carregou a escopeta, eram as últimas balas que tinha consigo — e a criatura já estava perigosamente próxima.
Mirou sem pestanejar muito e atirou. O recuo ficou tão bem controlado, como de costume. Guardou a escopeta pendurada em suas costas e, a partir daquele momento, só utilizaria a pistola.
Seriam necessárias duas balas para finalizar os que sobraram. Entrando na sala de controle da manutenção, realmente as alavancas estavam emperradas de propósito, foi nitidamente utilizado algum tipo de líquido corrosivo.
Nada era por acaso. Os cilindros se romperam, mais sons vieram da ala onde estava, era como se o laboratório farmacêutico deixasse nítido que eles não iriam sair com vida.
Leon precisou pensar rápido, teria que ter outro lugar ali para abrir a passagem. Olhou em todos os lugares, procurando algo que pudesse ajudar naquele momento de fuga.
Debaixo da mesa, tinha um caderno velho e surrado. Essa sim era a única coisa antiga que tinha ali desde que entrou. Folheou até achar uma instrução.
— Seguir o corredor, virar à direita, descer dois lances e depois ir para a esquerda. — Rasgou a folha e guardou no bolso, ali também tinha a instrução da ordem de virá-las. — Tranquilo, só quero achar mais balas até lá.
Percorreu o caminho, eliminando todos os infectados que apareciam à sua frente. Na sala de segurança das máquinas, Leon colocou o papel parado em cima da mesa de ferro e seguiu as instruções: botão número dois, depois a alavanca seis, subiu os dois pinos de energia, apertou o último botão e, por último, girou uma válvula pesada três vezes. A densidade da força aplicada para girar realçou os músculos por baixo da camisa — já não estava mais com a jaqueta e nem sabia onde estava.
— Consegui. — O sorriso de canto apareceu nos lábios.
Os sons do mecanismo funcionando alertaram Paris de que Leon havia conseguido. Ela passou a instruir todos para fora, ficando ainda no laboratório farmacêutico. Com cuidado, um a um, foram saindo daquele lugar grotesco.
Paris e a garota que Leon tinha ajudado olharam para a direção do corredor, os passos fortes e rápidos na direção delas sem diminuir por um instante. A garota prendeu o ar com tamanho desespero. Foi quando Kennedy apareceu, os fios presos pelo suor do rosto, o corpo levemente sujo e o ar que tinha conseguido sem muito esforço.
— Paris, pode ir. Guia eles lá fora.
— Ok.
Leon ajudou mais três resgatados e, por último, elas.
O agente já tinha estendido a mão para ela automaticamente, ajudou a apoiar na passagem para não deslizar. Quando ela estava terminando de subir sua perna, um rosnado veio do fim do corredor.
— Merda — murmurou, na direção do som. — Vamos, eu estou logo atrás de você. — Ele viu o medo nos olhos dela. — Não tem com o que se preocupar, eu estou aqui.
Leon olhou para os lados, procurando algo que pudesse incendiar antes de sair.
— Ali — ela falou após apontar.
Era um tonel inflamável e seria exatamente isso que ele iria utilizar. Leon se esgueirou pela saída com facilidade. À sua frente, a garota saiu engatinhando e, ao ouvir o som da explosão, acelerou mais.
Tudo lá embaixo queimava. O odor de podridão e óxido subiu pelo local. Não havia sobrado nada do local, apenas um nome pendurado numa placa: Virexia Pharmaceuticals.
