We are each our own devil, and we make this world our hell.
Cada um de nós é nosso próprio diabo, e nós fazemos deste mundo o nosso inferno.
O toque do celular ecoou pelo cômodo, acordando o detetive que, após uma noite mal dormida, havia conseguido pegar apenas algumas horas de sono. Rowen coçou os olhos enquanto bocejava e se sentava na cama. Pegando o celular em seguida e atendendo à chamada.
— Bom dia, detetive. — A voz do xerife estava tensa, e um frio percorreu a espinha de Rowen. Ele sabia que aquele tom nunca trazia boas notícias. — Desculpe incomodar a esta hora, mas preciso que você venha me encontrar. Receio que tenhamos um assassinato.
— Um assassinato? — Rowen repetiu, acreditando ter escutado errado.
A incredulidade se misturava à preocupação. Ele havia revisado todos os arquivos de Bristol Cove, que não eram muitos, e sabia que nunca havia ocorrido um assassinato na cidade — pelo menos, não que constasse nos registros da polícia.
— Isso. Estamos na Praia Central, a mais próxima a delegacia. Acredito que o conhecimento será útil.
— Estou indo. — Rowen dignou-se a responder rapidamente antes de encerrar a ligação.
Ele olhou para a tela do celular e respirou fundo ao ver que o relógio marcava seis e treze da manhã. Havia conseguido dormir só depois das três. Estava exausto, mas não tinha tempo para adiar o começo do dia.
Deixou o celular na cama e levantou-se, indo até a cômoda. Pegou uma calça jeans de lavagem escura e uma camisa social branca, sua escolha habitual para o trabalho em Olympia. Rowen precisava de um banho frio para afastar o sono, mas teria que se contentar com um café forte depois que encontrasse o xerife Byron.
Um assassinato em Bristol Cove.
A frase soava tão fora de contexto, tão surreal, que ele mal podia acreditar. De fato, ao ser transferido, desejou que a cidade tivesse uma taxa criminal um pouco maior para que ele pudesse exercer seu trabalho, mas nunca imaginou que em seu primeiro dia de trabalho precisaria lidar com um assassinato.
Deixou de lado a calça de moletom e vestiu-se o mais rápido que pôde. Passou as mãos pelos cabelos, tentando deixá-los minimamente arrumados, e calçou o tênis do dia anterior, resignado com o cabelo negro ainda levemente bagunçado. Guardou o celular em um bolso e a carteira no outro, prendeu o distintivo antigo no cós da calça, pegou as chaves do carro e saiu, trancando a porta. Chamou o elevador e suspirou de alívio quando as portas de metal se abriram segundos depois.
No estacionamento, foi direto ao carro, colocando os óculos escuros antes de sair do prédio. Abaixou as janelas e deixou a brisa fresca da manhã e o cheiro da maresia atingirem seu rosto, o que lhe arrancou um sorriso mínimo. Dirigiu rapidamente pelas ruas vazias da cidade e passou pela delegacia, seguindo o GPS por mais alguns minutos até chegar à praia central. Avistou dois carros de polícia estacionados próximo a faixa de areia e estacionou o seu ao lado deles.
Trancou o carro e guardou as chaves no bolso da frente enquanto caminhava até pequena comoção. Passou por baixo da faixa amarela que mantinha o público curioso afastado e seguiu até o xerife, que estava cercado por alguns policiais.
— Bom dia. — Rowen cumprimentou ao se aproximar do grupo, atraindo os olhares em sua direção.
— Bom dia, detetive. — Byron foi o primeiro a responder, assentindo. — O corpo está logo ali, e a maré já está quase o alcançando.
— E quem é a vítima? — questionou Rowen, mais por reflexo do que por real necessidade. Sabia que o nome, por ora, não mudaria nada.
— Albert Whosen, 45 anos. — O xerife olhou brevemente para o corpo, sem esconder o quanto aquela morte parecia abalá-lo. — Vivia sendo detido por desacato, embriaguez e pequenas brigas, mas era um dos nossos melhores pescadores.
Rowen acompanhou Byron pela faixa de areia, parando quando finalmente teve o corpo em seu campo de visão. Estava estendido próximo à água, com os pés descalços parcialmente molhados pelas ondas que quebravam em seus dedos. A calça, rasgada nos tornozelos, deixava à mostra arranhões profundos na pele, semelhantes aos que cruzavam ambos os braços, manchando de vermelho a areia ao redor.
— Parece que ele foi atacado por algum animal. — Rowen pensou alto, analisando os cortes longos e profundos. — Embora, honestamente, não consiga imaginar que tipo de animal daqui faria isso. Os cortes estão tão fundos, que essa poderia ser a causa da morte.
— Compartilhamos o mesmo pensamento, detetive. Mas preste atenção nas orelhas da vítima. — Byron inclinou a cabeça na direção do corpo, guiando o olhar de Rowen para um detalhe ao qual ainda não havia se atentado.
Rowen se agachou ao lado da vítima, olhando com mais cuidado o que Byron apontara. Dos ouvidos do homem escorria um líquido espesso, escuro, que havia formado uma pequena poça seca junto à cabeça. Rowen reconheceu o sangue sem dificuldade, sabia muito bem o que estava vendo.
— É como se os tímpanos tivessem explodido — murmurou, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa, tentando compreender o que teria causado aquilo.
Lentamente, retirou os óculos escuros e continuou a examinar o corpo. Quanto mais olhava, menos sentido aquilo fazia. Jamais havia visto algo assim, e sequer conseguia imaginar o que poderia ter acontecido. A única certeza que tinha era que precisariam de um laudo completo.
— Precisamos levar o corpo para uma autópsia detalhada — Rowen falou, recolocando os óculos escuros. — Se os tímpanos realmente estouraram, precisamos entender como e por quê.
— Já vi muita coisa, mas nunca algo assim — Byron murmurou, o olhar fixo no sangue seco nos ouvidos da vítima. — Pode voltar para casa, detetive. O carro para levar o corpo já está vindo.
Rowen consultou o celular, mas levaria mais tempo dirigindo pela cidade do que de fato em sua casa. Pensou em voltar para casa apenas para tomar café, mas sabia que isso só faria perder tempo. Preferia pegar algo pelo caminho e concentrar-se em tentar compreender o que tinha acontecido com Albert.
— Tem alguma cafeteria aqui perto? — perguntou, fazendo Byron voltar a atenção para ele e assentir.
— Acho que nenhuma cidade prosperaria sem uma boa cafeteria. — Byron soltou um riso breve, que Rowen acompanhou com um aceno de cabeça. — Vou passar por lá a caminho da delegacia. É só me seguir.
Byron conversou rapidamente com um dos policiais, deixando-o responsável por vigiar o corpo até a chegada do legista. Despediu-se dos demais, sabendo que logo os reencontraria na delegacia, e seguiu até o carro, com Rowen ao seu lado. O silêncio foi interrompido por um grito que ecoou pela praia:
— ELAS ESTÃO VOLTANDO! VAMOS PAGAR PELO QUE FIZEMOS A ELAS! ISSO É VINGANÇA!
Fascínio era a única palavra que conseguia encontrar para descrever a sensação que experimentava desde o momento em que seus pés tocaram a terra firme. Caminhar era desafiador, seus passos ainda eram hesitantes e desajeitados, e seus pés descalços sofriam com o calor áspero do solo. Mesmo assim, ela seguiu em frente, determinada.
As pessoas ao redor olhavam-na com estranheza, seus olhares desviando-se rapidamente ao perceberem sua figura envolta em um moletom grosso e inadequado para o verão. Ela sentia um calor incomum, o corpo suado — uma sensação desconcertante, totalmente nova.
A jovem sereia tinha encontrado o casaco do lado de uma casa, após longos minutos caminhando pela sombra e observando os humanos que usavam diversas coisas cobrindo seus corpos. não sabia que eram tecidos, roupas, mas logo entendeu que precisava de usar algo se quisesse se misturar aos demais.
Sentindo a pele ressecar sob o sol, viu-se atraída pelo mar, ansiando pelo conforto da água salgada. Precisava sentir a umidade em sua pele, mas hesitou ao avistar um grupo de humanos reunidos na praia, o burburinho alto demais para os seus ouvidos sensíveis. Curiosa, ela se aproximou cautelosamente, empurrando alguns ombros e recebendo olhares reprovadores.
— Pobre Albert… — murmurou uma voz próxima. Ela virou-se, seus olhos observando a mulher ao seu lado, que encarava a cena com pesar. — Era um bom homem. Não merecia isso.
piscou, confusa. Observou o rosto tenso da mulher e seguiu o olhar dela, notando, então, um corpo sem vida estirado na areia. Algo dentro de despertou — uma centelha de reconhecimento instintivo. Seu corpo reagiu, e os músculos se enrijeceram. Os pelos que substituíam as escamas eriçaram, e seus dentes chocaram-se, um sinal involuntário de alerta. Ela inspirou fundo, captando um aroma metálico e denso que a deixou inquieta.
— A senhorita está bem? — perguntou a mulher ao seu lado, notando seu estado de tensão. balançou a cabeça em negação, incapaz de expressar-se de outra forma.
A mulher observou-a com mais atenção, uma expressão indecifrável em seu rosto.
— Sei que está apenas de passagem, mas... tem algum lugar para ficar? — questionou suavemente. balançou a cabeça mais uma vez, negando.
A mulher suspirou, um sorriso breve e decidido surgindo em seus lábios.
— Venha comigo. Pode ficar em minha casa o tempo que precisar.
Ainda incapaz de usar sua voz humana, limitou-se a assentir. Observou a mulher com curiosidade crescente enquanto seguiam em direção à cidade, afastando-se da praia. Algo no tom afetuoso e no olhar dela trouxe à tona uma memória longínqua — uma sensação de acolhimento que ela raramente sentira.
— Faz muito tempo que não vejo uma de vocês — a mulher murmurou, tão baixo como se compartilhasse um segredo. — Uma sereia.
O mundo de pareceu congelar por um momento. "Uma de vocês…" O olhar dela voltou-se para o corpo na areia, a lembrança da cena vívida em sua mente. Sabia o que aquilo significava. Ou melhor, sabia quem — ou o quê — estava por trás daquilo.
— Pensei que, depois do que essa cidade fez à sua espécie, jamais veria uma de vocês novamente. Você é tão jovem… ao menos sabe o que aconteceu aqui? — A mulher lançou-lhe um olhar indagador enquanto começavam a se afastar da pequena multidão.
apenas balançou a cabeça, negando. Ela mal sabia o que a esperava na superfície, muito menos o que a aguardava na cidade dos humanos.
— Quando chegarmos, contarei tudo — prometeu a mulher, e um vislumbre de preocupação brilhou em seus olhos.
Cada passo era um lembrete amargo do quanto estava longe de seu elemento. O peso de seu corpo, que na água era quase insignificante, agora parecia uma carga insuportável. Andar pela terra firme exigia uma força que ela jamais imaginara precisar. O mundo submarino era uma extensão de si, onde ela deslizava sem esforço, onde o movimento era fluido, quase como respirar. Mas aqui, a gravidade a puxava para baixo com uma intensidade implacável, e cada avanço vacilante doía, cada músculo parecia ter que ser forçado a se lembrar de como funcionava.
A mulher ao seu lado notou o esforço da jovem, diminuindo o ritmo para acompanhá-la com paciência. Havia algo de calmante em sua presença, um apoio silencioso que nem sabia precisar até aquele momento. Com sua noção limitada de tempo, a sereia não sabia dizer se andavam por minutos ou horas. Apenas sentia a exaustão se arrastar por seu corpo, tornando a caminhada uma provação que se estendia sem fim.
Para ela, a distância parecia não ter fim.
— Já estamos chegando, minha querida. Imagino o quanto precisa descansar — a mulher falou, interrompendo o longo silêncio que pairava entre elas. — Pode me chamar de Eleanour.
— Lea — murmurou, forçando a voz a sair.
A palavra deslizou de seus lábios em um tom baixo e suave, mas ali havia um toque de sua verdadeira natureza, um eco do mar e insinuação sedutora que só as sereias possuíam.
— É incrível o quão rápido vocês se adaptam… — Eleanour comentou, os olhos brilhando de curiosidade. — Vocês já saem do mar entendendo o que falamos?
assentiu com um leve movimento de cabeça. Ainda sentia a queimação no peito, o corpo inquieto pela secura. O moletom era quente e pesado, roçando contra sua pele ressecada e aumentando sua vontade de coçar os braços, que agora exibiam pequenas feridas causadas pela falta de contato com a água salgada.
— Bem-vinda ao meu lar, — Eleanour falou, abrindo a porta de uma pequena casa e fazendo um gesto para que ela entrasse.
olhou ao redor, sentindo o alívio da sombra fresca. O cheiro familiar da brisa marítima entrava pela janela entreaberta, e ela respirou fundo, permitindo que a calma tomasse conta de seu corpo tenso.
Ela andou o mais rápido que suas pernas cansadas e desequilibradas permitiam, sentindo o ardor nos pés diminuir assim que o chão frio da casa substituiu o asfalto quente da rua. Com passos trôpegos, observava ao redor com estranheza.
Casa era um conceito que não compreendia muito bem. Para uma sereia, o mar era a única morada.
— Venha, querida, vou preparar um banho para você. — Eleanour a guiou até outro cômodo. franziu o cenho ao ver um "lago" pequeno se formando ao cruzar a porta. — Esta é uma banheira — explicou com um sorriso paciente. — Nós usamos para tomar banho, isso nos mantém limpos e afasta o calor.
A dona da casa fechou a torneira quando a água alcançou metade da banheira, ajudando a se despir do moletom — a única peça de roupa que ela usava — e a entrar. Contudo, ao perceber que tocaria a água, a respiração da sereia se tornou rápida e instável. Instintivamente, Eleanour a segurou pelos braços, aproximando o corpo frio e trêmulo de do seu, em uma tentativa de acalmá-la.
Ela nunca tinha encontrado uma sereia antes, mas crescera ouvindo histórias de sua mãe e avó, que tiveram a oportunidade de ajudar as sereias em tempos antigos. A curiosidade e o fascínio por essas criaturas míticas sempre foram uma constante em sua vida, alimentados pelas narrativas cheias de magia e mistério que a cercavam. Eleanor sabia exatamente como agir, o conhecimento passado de geração em geração lhe concedia uma confiança e um cuidado que agora se tornava vital.
O pavor estava visível no olhar da sereia. Ela não estava pronta para sentir novamente a dor da transformação, e seus olhos arregalados encaravam a água com receio. A mais velha percebeu o que se passava em sua mente e suspirou, lamentando não ter se atentado a esse detalhe antes.
— Ah, querida, sinto muito — Eleanour falou calmamente, ficando de frente para e segurando suas mãos para acalmá-la. — Você não vai se transformar.
piscou repetidamente, atônita, enquanto tentava entender o que a mulher dizia. A ideia de entrar na água e permanecer “humana” era surreal para ela. Tinha saído do mar e experimentado toda a dor da transformação, e a perspectiva de passar por isso novamente a aterrorizava.
O mar sempre fora seu lar, um lugar de liberdade e dor, e, mesmo ali, na proximidade da água, a saudade e o medo a envolviam como uma neblina. Ela se lembrava da sensação de ser parte daquele mundo aquático, onde seu corpo dançava com a correnteza, mas também sabia o preço que tinha que pagar por isso. sentia o desejo de voltar, mas o receio de enfrentar a transformação novamente a mantinha ancorada ao chão frio da casa.
— Eu sei que é confuso, mas confie em mim. — Eleanour deu um passo à frente, guiando com cuidado. — Água doce não engatilha a transformação.
A sereia respirou fundo, soltando uma leve tosse no final do ato, ainda sem se habituar completamente ao ar. Em passos lentos, ela se aproximou da banheira, apoiando-se no braço de Eleanour ao entrar. Assim que o pé direito tocou a água gelada, um arrepio percorreu-lhe o corpo. Em seguida, o outro pé já estava submerso. Por alguns segundos, permaneceu ali, imóvel, esperando que os pés se unissem para formar a cauda novamente… mas nada aconteceu.
Ela arriscou um sorriso tímido para a humana, que lhe retribuiu com um sorriso encorajador. Sentindo-se um pouco mais confiante, afastou-se dela, submergindo o corpo por completo. Encostou as costas no interior da banheira, com o queixo levemente acima da superfície, enquanto a temperatura fria da água a fazia relaxar. Ali, naquela pequena bacia de água, sentiu-se, pela primeira vez, próxima do conforto do oceano – quase como estar longe da costa, mas ainda à beira da superfície.
A sensação da água ao seu redor não era a mesma do mar, mas, ao tocar sua pele, trazia um alívio imediato, diminuindo as coceiras que o ressecamento havia causado. A temperatura fria envolvia seu corpo como um abraço suave, e cada gota parecia acalentar sua dor, fazendo com que a tensão em seus músculos se dissolvesse lentamente. Enquanto a água escorria por sua pele, sentia a leveza de seus pensamentos se misturando com a tranquilidade do ambiente, afastando um pouco o pavor que a dominava. Embora o cheiro e a textura da água fossem diferentes, a experiência lhe trazia uma sensação de conforto.
— Detetive . — A voz chamou sua atenção, fazendo-o desviar o olhar das fotos do corpo encontrado pela manhã. Ele se virou para o homem parado próxima a sua mesa.
— Xerife West. — acenou em um gesto respeitoso. — Os resultados já saíram?
— Sim. Vamos? — O xerife fez uma breve pausa, como se estivesse ponderando algo antes de sair da sala, sendo seguido por .
Por mais que não quisesse admitir, a cidadezinha começava a conquistar . A tranquilidade do lugar, com seu trânsito praticamente inexistente, era um alívio em comparação à agitação de Olympia. Eles saíram da delegacia e, em poucos minutos, estacionaram em frente a um pequeno prédio de três andares.
seguiu o xerife sem hesitar, embora não tivesse ideia de onde estavam indo. A cada porta que passavam, sua curiosidade aumentava, mas foi ao sentir uma queda brusca de temperatura que soube que haviam chegado ao local.
— Jack, pensei que você só nos daria respostas após o almoço — o xerife exclamou, chamando a atenção do legista, que estava concentrado no corpo sem vida estendido na maca fria de metal.
— Isso pode soar um pouco anti-profissional, mas não pude resistir. Fiquei absolutamente fascinado ao observá-lo — Jack respondeu, sua voz apressada refletindo a empolgação de um cientista diante de uma nova descoberta. — Eu convidei todos para virem me ajudar. Passamos a manhã inteira nisso.
— E você já tem uma resposta? — O tom de era mais áspero do que pretendia, mas sua curiosidade era palpável. Em todos os anos trabalhando em Olympia, nunca tinha visto algo assim e não conseguia acreditar que estava testemunhando tal cena em Bristol Cove.
já havia lidado com muitos assassinatos ao longo de sua carreira, mas a causa da morte sempre era clara. Um tiro, uma facada... Mesmo que a identidade do assassino não fosse imediata, pelo menos havia uma compreensão de como e por que a vítima havia morrido.
Mas no caso de Albert Whosen? estava completamente perdido. Todos os ferimentos pareciam não ter a menor conexão entre si. Era como se o que aconteceu com Albert fosse um quebra-cabeça sem peças que se encaixassem.
— Li o relatório de vocês e fiz algumas adições — Jack explicou, segurando um amontoado de folhas que parecia mais um quebra-cabeça do que um relatório. — Os arranhões não foram causados por uma garrafa quebrada, a espessura do vidro encontrado a alguns metros não corresponde às marcas.
— Então o assassino ainda está com a arma do crime? — Byron comentou, a mente já maquinando possibilidades. A afirmação arrancou uma risada nasal do legista. — Ou então seguiremos com um animal? Mesmo que não existam felinos ao arredores que pudessem causar essas marcas.
— Não devemos considerar os arranhões como o ponto principal. Eles não causaram a morte do Sr. Whosen — Jack disse rapidamente, enquanto entregava fotos dos arranhões. — E, antes que vocês perguntem, os tímpanos estourados também não são a causa da morte.
— E o que seria, então? — cruzou os braços, a sobrancelha arqueada, tentando absorver todas as informações e avaliar se tinha deixado algo passar durante a inspeção visual.
— A causa da morte foi afogamento — Jack explicou, sua voz ressoando na sala em um silêncio tenso. — Encontramos os pulmões completamente inundados de água.
Dessa vez, o riso descrente quase escapou de . Cada nova peça transformava aquele caso em um quebra-cabeça ainda mais impossível. Seria mesmo plausível que alguém tivesse cortado Albert, deixado-o sangrar até que perdesse as forças, só então o atirando ao mar? O cenário era brutal, calculated, como se o assassino quisesse que Albert sentisse cada segundo de dor e desespero antes do fim.
A imagem fazia sua mente girar.
Quem seria capaz de tamanha crueldade em um lugar tão pacato?
— Certo, mas e os tímpanos? — Byron perguntou, confuso.
— Eles podem ter sido afetados antes ou depois da morte. Não posso afirmar com certeza — Jack respondeu, sua frustração evidente. O legista parecia odiar não ter respostas concretas. — Nossa primeira hipótese foi que o assassino perfurou os tímpanos da vítima, mas não faz sentido.
— Para o assassino, pode fazer sentido. Nunca se sabe como funciona a cabeça deles — resmungou, já imaginando a mente o quão perturbada era a mente do criminoso.
— Consideramos a possibilidade de que ele já tivesse o tímpano perfurado, mas não faria sentido ele sangrar — Jack prosseguiu, entregando fotos que detalhavam a área. — No final, não conseguimos determinar o que causou isso, mas sabemos que tem relação com o assassino.
— Muito obrigado, Jack — Byron disse com um sorriso, enquanto se virava para sair da sala. o seguiu, apenas acenando em reconhecimento. — Quanto mais penso nesse caso, mais confuso ele se torna.
— É isso que me atormenta desde que vi o corpo na praia — confidenciou, sentindo um nó apertar em seu estômago. — O que levaria alguém a matá-lo daquela forma?
— O afogamento não pode ter ocorrido na praia. Eu vi Albert ontem à noite, então o crime deve ter acontecido de madrugada ou logo no início da manhã. Se ele tivesse se afogado ali, o mar levaria dias para devolver o corpo. — Byron refletiu em voz alta, o olhar fixo como se tentasse enxergar através das pistas. — Alguém o afogou depois de infligir todos aqueles cortes.
— O assassino pode ter visto Albert como um alvo fácil e, quando a situação saiu do controle, decidiu afogá-lo para acabar logo — falou, os olhos fixos e intensos, quase enxergando a cena em sua mente. — Os cortes podem ter sido resultado de uma luta… ou de uma explosão de raiva por parte do assassino quando Albert resistiu mais do que ele esperava — o detetive fez uma pausa, reparando na atenção completa de Byron. — Talvez a perfuração tenha sido sua forma de assinatura
— Impressionante, . — Byron balançou a cabeça, ainda surpreso.
— É só uma teoria. — deu de ombros, os lábios tensos. — No fim, ainda não sabemos o mais importante. Quem é o assassino?
— Infelizmente, ainda não posso responder isso — Byron disse, conforme ambos se dirigiam à saída do prédio.
Do lado de fora, hesitou antes de falar outra vez.
— Xerife, posso lhe fazer uma pergunta?
— Claro! — Byron assentiu rapidamente, abrindo a porta, lançando um olhar intrigado.
— O que quiseram dizer na praia quando gritaram "elas estão voltando"? — encarou o xerife, que parou e suspirou, lançando-lhe um olhar cauteloso.
— Sereias. Alguns moradores acreditam que elas vão voltar para se vingar da cidade. — Byron revelou, sua expressão imperturbável, como se estivesse apenas relatando um fato.
piscou, atônito, sua descrença evidente. Se não fosse o tom grave de Byron, ele teria rido. Como era possível que, além de acreditarem que elas existiam, agora estavam prontas para culpar as sereias pela morte de um bêbado? Era quase cômico… mas ao mesmo tempo, algo naquele caso fazia com que todos os mitos de repente parecessem menos absurdos.
A mente lógica de resistia, mas no fundo, ele sentia um desconforto que ainda não conseguia explicar.