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✮⋆˙Independente do Cosmos✮⋆˙
Finalizada em: 28/12/25

O Tribunal do Ministério da Magia não era o melhor lugar para se estar naquele momento, mas se Draco fosse ser sincero, também não era o pior. Sua mente perturbada conseguia pensar em locais e situações muito piores do que a qual se encontrava.
Sim, estava subjugado, exausto, preso em um feitiço de contenção que o impossibilitava de realizar qualquer magia e trajando roupas de segunda mão dignas dos Weasley, com o conselho a sua frente o encarando fixamente.
O salão era grande demais para alguém que já se sentia pequeno. As bancadas em semicírculo erguiam-se como degraus de uma execução lenta, cada membro do conselho ocupando seu lugar com a mesma solenidade de quem já havia decidido o desfecho antes mesmo do início.
O nome Draco Lucius Malfoy ecoou pelo espaço, não como um chamado, mas como uma acusação em si.
A leitura começou.
Não houve adjetivos, apenas fatos. Datas. Locais. Registros frios demais para comportar o caos que haviam causado.
Associação direta com Tom Riddle, autodenominado Lord Voldemort. Uso de magia das trevas em território escolar. Omissão deliberada de informações estratégicas durante o conflito. Cumplicidade indireta em crimes de guerra…
Cada palavra era lançada como um tijolo, empilhando-se sobre seu peito. Draco não reagiu. Não porque fosse inocente, nem porque se achasse injustiçado – mas porque qualquer reação pareceria inútil.
Ninguém esperava por sua resposta, sua sentença já estava decidida desde de antes de cruzar as imponentes portas do salão.
Azkaban não era mencionada, mas era o futuro que pesava no ar e nas palavras não ditas. Estava no olhar atento dos aurores posicionados nas laterais, nas varinhas prontas, na maneira como ninguém se deu ao trabalho de perguntar por quê.
Ninguém perguntou quantos anos ele tinha quando recebeu a Marca.
Ninguém perguntou o que aconteceria com sua família se tivesse dito não.
Ninguém perguntou quantas noites ele passou desejando não acordar.
E Draco também não falou.
Não estavam interessados nas respostas.
Manteve o queixo erguido, os ombros rígidos, a expressão treinada desde a infância para não implorar, não demonstrar o que verdadeiramente sentia. Se aquele era o fim, seu fim, não lhes daria o prazer de vê-lo quebrar ali.
Um silêncio quase ensurdecedor se fez quando a leitura de seus crimes terminou.
Ele ergueu os olhos pela primeira vez, encarando o conselho com uma calma que não sentia.
Que viesse Azkaban.
Que viesse o castigo.
Ele já havia sido condenado muito antes daquela sala e já tinha aceitado seu futuro.
E estava preparado para o que receberia.
Um dos conselheiros bateu levemente a ponta da varinha na bancada, atraindo a atenção para si.
— Antes da leitura da sentença final — anunciou, sem emoção —, o Ministério da Magia fará um pronunciamento adicional.
Draco não reagiu. Não havia mais nada a ser acrescentado à lista de crimes. Nenhuma palavra seria capaz de torná-los menores – ou maiores.
Outro pergaminho foi aberto.
— Em caráter experimental, e sob aprovação do Conselho, fica instituído um novo programa de controle e reabilitação.
As palavras pairaram no ar, estranhas, deslocadas. Draco não se mexeu, seu cérebro demorando a processar o que aquelas palavras significavam para o seu futuro.
Programas não eram feitos para pessoas como ele.
Eram feitos sobre elas.
— Denominado informalmente como Projeto de Redenção.
O nome soou quase ofensivo.
Redenção.
Sua mente fez um som de escárnio, como se isso fosse algo que pudesse ser concedido por decreto.
O pergaminho foi desenrolado com cuidado.
— O projeto propõe a suspensão da pena em Azkaban para ex-Comensais da Morte considerados jovens à época de sua vinculação… desde que aceitem cumprir condições rigorosas impostas pelo Ministério.
Draco sentiu o primeiro impacto ali. Não no corpo, mas no estômago. Azkaban deixara de ser inevitável – e isso, de alguma forma, era mais aterrador.
— O participante permanecerá sob vigilância contínua do Ministério da Magia — declarou o conselheiro, sem alterar o tom. — Seus deslocamentos serão registrados, sua rotina supervisionada e qualquer atividade considerada fora do padrão será comunicada imediatamente ao Conselho.
Ele fez uma breve pausa, apenas para virar o pergaminho.
— O uso de magia será estritamente limitado. Feitiços defensivos, ofensivos ou de alto potencial só poderão ser realizados mediante autorização prévia. Qualquer tentativa de burlar essas restrições será tratada como violação direta do acordo e resultará na aplicação imediata da pena original.
A palavra imediata ecoou mais do que as outras.
— Além disso, o condenado não cumprirá essas condições sozinho. O Ministério designará um Agente de Redenção, responsável por acompanhar o participante em tempo integral, avaliar sua conduta, intervir quando necessário e relatar periodicamente ao Conselho qualquer progresso ou indício de recaída.
Em seguida se fez uma pausa, todos os olhos ansiosos e temerosos focando em Draco enquanto esperavam por uma resposta. Pela resposta certa.
Draco contentou-se em apenas concordar com um aceno de cabeça, enquanto se questionava se esse projeto não viria a ser algo pior que Azkaban.
— O agente não atuará como defensor — acrescentou, retomando a ler após a resposta positiva. — Sua função não é oferecer proteção, mas garantir o cumprimento integral do programa.
O pergaminho foi fechado.
— Qualquer descumprimento, por menor que seja, será considerado quebra de contrato. Nesse caso, a suspensão da pena será revogada, e o participante será encaminhado diretamente a Azkaban, sem novo julgamento.
A sensação de impotência queimava seu corpo como veneno de cobra. O projeto não era uma prisão comum – era algo ainda pior. Não havia paredes suficientes para contê-lo, nem grades para esconder seus erros. Todos os olhos estariam sobre ele, atentos, pacientes, esperando apenas um deslize para que pudessem chamá-lo de fracasso e, enfim, enviá-lo a Azkaban como se sempre tivesse sido inevitável.
— A Agente de Redenção designada para este caso encontra-se presente, pedimos, por favor, que assuma seu posto.
Draco desviou o olhar do ministro, mirando na movimentação à sua direita conforme uma mulher se aproximava.
Ela não vestia o uniforme dos aurores. Não empunhava a varinha em posição defensiva, nem exibia o mínimo sinal de satisfação contida. Não havia rigidez marcial, tampouco falsa compaixão. Apenas um semblante fechado, como se ela odiasse cada segundo perdido ali, assim como ele. Presa em um futuro que não desejava, mas que seria obrigada a seguir.
Calloway — anunciou o conselheiro —, nossa bruxa vinculada ao Departamento de Reintegração Mágica e sua Agente de Redenção, Sr. Malfoy.
Ela deu um único passo à frente ao ser apresentada. Não em direção ao conselho, mas a ele.
não sorriu. A expressão fria e distante não deixou seu rosto. Apenas o observou como quem avalia algo frágil demais para ser tratado com descuido — e perigoso demais para ser ignorado.
Draco soltou uma breve risada, baixa, cansada de discursos e sentenças disfarçadas.
— Então é isso? — disse, a ironia presente na voz áspera pelo desuso. — Você vai me vigiar?
— Vou garantir que você cumpra o contrato — respondeu , sem se importar com a provocação.
Ele inclinou levemente a cabeça, o sorriso torto surgindo como um reflexo aprendido desde cedo.
— E você é a minha carcereira?
sustentou o olhar, firme, sem pressa.
— Não — disse. — Eu sou a garantia de que você não vai transformar essa chance em mais um erro.
A frase não soou irônica ou debochada. Soou simplesmente como uma constatação.
não estava ali para julgá-lo, tampouco para salvá-lo. Estava ali porque alguém precisava assegurar que ele funcionaria dentro dos limites impostos. Draco entendeu isso imediatamente. Para ela, ele não era um nome, nem uma história. Era um risco a ser contido. Uma tarefa a ser concluída.
A percepção o atingiu com força suficiente para fazê-lo engolir em seco.
A atenção de Draco voltou para o conselho, disposto a acabar com seu novo pesadelo o mais rápido possível.
— Façam o que vocês precisam fazer.

caminhava ao lado de Draco, o som dos próprios passos ecoando no mármore claro enquanto bruxos e bruxas cruzavam o espaço em todas as direções. O contrato de redenção — agora oficialmente validado, selado e registrado — ainda parecia pesado demais para ser apenas um pedaço de pergaminho guardado no bolso traseiro da calça surrada de Draco.
— A partir de agora, você não pode sair das áreas permitidas sem autorização expressa do Ministério — disse, encarando Draco enquanto explicava as cláusulas finais. — Qualquer deslocamento deve ser previamente comunicado e será encaminhado um segundo agente para acompanhá-lo caso eu não esteja disponível.
Draco mordeu o interior da bochecha, engolindo a resposta atravessada de que não precisava de babás. Ao assinar o contrato, tinha concordado com aquilo, e agora não havia nada que pudesse fazer para mudar a situação na qual se encontrava.
Qualquer desvio de conduta o faria ser mandado para Azkaban.
— O vínculo estabelecido entre nós permite que eu sinta picos mágicos ou emocionais extremos da sua parte. Não consigo ler seus pensamentos ou suas intenções, mas o vínculo cria uma relação onde sentirei qualquer coisa extrema que acontecer com você, espero que isso o evite de se colocar em certas situações.
Draco manteve o olhar fixo nela, a expressão fechada enquanto obrigava sua boca a continuar da mesma forma.
Nada que falasse seria benéfico, mas não precisava tratá-lo como se fosse um completo idiota.
— Estamos entendidos, Malfoy?
O silêncio que se seguiu foi pesado, mas controlado.
Draco assentiu uma única vez e respondeu:
— Sim.
— Ótimo! Vamos começar o trabalho então.
cortou o contato visual e começou a andar, sem sequer olhar para trás para ver se era acompanhada, e Draco se obrigou a segui-la.
— Há uma autorização temporária para a retirada de itens pessoais não confiscados.
A voz dela, tão impessoal e fria, soou assim que Draco a alcançou, caminhando lado a lado com a sua carcereira.
— Retirada? — questionou confuso, sentindo-se o idiota que parecia crer piamente que ele era.
— Isso. Foi permitido que você recuperasse alguns itens pessoais da Mansão Malfoy, mesmo que a propriedade permaneça parcialmente lacrada.
Uma miríade de sentimentos o dominou.
Fazia tempos que não pisava em sua casa, que não deixava sua mente vagar para o passado em uma festa de autopiedade catalogando tudo o que tinham perdido nos últimos anos.
Sentia-se ansioso e assustado ao saber que voltariam lá.
Preferia continuar na ignorância, sem saber como o local se encontrava e preservar as lembranças que tinha de sua casa em toda a sua glória, com a sua família.
— Não podemos usar o sistema de rede de flu, a Mansão Malfoy perdeu o seu direito e a conexão foi interrompida. — A fala de o despertou de seus pensamentos, fazendo-o engolir em seco. — Precisamos sair do Ministério para que seja possível aparatar.
Eles caminharam juntos até a saída do prédio, o silêncio tornando-se um terceiro participante da caminhada.
Do lado de fora, o fluxo de bruxos seguia normalmente com suas vidas, alheio ao peso do que acabara de ser firmado, e Draco não conseguiu conter a inveja que o dominou. Queria ser qualquer um deles, livre do peso de seus erros assombrando o futuro, sem estar preso a um contrato do qual o Ministério parecia mais do que disposto a esperar que ele falhasse.
parou, avaliando o entorno.
— Vamos aparatar daqui. — Estendeu o braço. — Segure.
Draco obedeceu sem pestanejar, os dedos fechando-se ao redor do casaco que cobria o antebraço dela.
— A visita será curta — ela avisou. — Pegue apenas o necessário.
Ele assentiu.
No instante seguinte, o mundo se contraiu.
A aparatação os arrancou do chão, comprimindo o ar até que, segundos depois, a Mansão Malfoy surgiu diante deles – imponente, silenciosa, com os selos do Ministério ainda visíveis nas extremidades da propriedade.
foi a primeira a se afastar, impondo uma distância entre eles.
— Temos autorização apenas para as áreas liberadas, irei sinalizá-las para você — disse. — Vamos entrar.
Sem mais palavras, Draco seguiu em direção à porta.
Conforme diminuía a distância até a construção que costumava chamar de lar, o embrulho em seu estômago se tornava pior. O ar fugia de seus pulmões, cada respiração saia mais custosa e ruidosa do que a anterior.
Mas Draco se forçava a seguir em frente, ignorando os olhares de soslaio de e a vontade que tinha de dar meia volta e bater em retirada para o local mais distante dali. Mantinha sua usual expressão – uma mistura perfeita e bem treinada que misturava a apatia com um leve tédio –, disposto a não deixar que os olhos vigilantes de notasse o desconforto que ele estava sentindo.
–– Espero que já tenha decidido o que quer pegar e que ao menos saiba onde possa encontrá-los. –– A voz de o despertou do vórtice de sentimentos ruins, abafando momentaneamente sua mente. –– Tenha em mente que a sua casa passou por uma, hm, revista em busca de evidências de seus crimes e de sua família, então nada se encontrara da mesma forma a qual estava na última vez que você veio aqui.
Draco assentiu com a cabeça, só para mostrar que tinha ouvido, mas o aviso de não era necessário.
Ele sabia que nada estaria igual da última vez.
E isso parecia ser a sua nova maldição.

***

O peso da visita a Mansão Malfoy ainda pesava em seus ombros, assombrando sua mente com o contraste do que era sua antiga e sua nova vida. Sua família nunca fora da mais calorosa, mas caminhar pelos corredores vazios sem a voz do pai soando de algum cômodo e o perfume da mãe impregnado nas paredes era de uma estranheza descomunal. A casa antes, sempre tão cheia de empregados, agora não contava com uma só alma viva.
Os papéis de parede estavam desgastados, uma camada fina de poeira cobria os esparsos móveis ainda presentes e as pinturas familiares estavam todas cobertas por lonas.
Era como se seu passado estivesse sendo apagado.
E isso embrulhava seu estômago.
–– Malfoy? –– A voz de soou impaciente, atraindo sua atenção. –– Você ouviu alguma coisa que eu falei nos últimos minutos?
Um dar de ombros foi toda a resposta que Draco se dignou a dar.
Não mentiria para ela, mas também não estava disposto a confidenciar para a sua carcereira que sua mente estava longe, vagando pelos corredores fantasmagóricos do que já fora uma das maiores casas bruxas.
Sua casa.
A mulher que o encarava não era sua amiga. Era uma agente do Ministério, colocada em sua vida para monitorar seus passos e repassá-los.
–– Tente prestar mais atenção nas próximas vezes, não gosto de ser obrigada a repetir.
Draco engoliu a vontade de retrucar, contentando-se com um:
–– Sim, senhora.
E arrancando uma revirada de olhos de .
–– Acredite, Malfoy, estou tão satisfeita com esse arranjo quanto você –– ela resmungou, cortando o contato visual e voltando a andar. –– O Ministério me dispensou dos meus serviços pelo resto do dia, vou apresentar sua nova moradia pelos próximos meses.
O resto da caminhada seguiu-se com um silêncio desconfortável. Saber que estava ali contra sua vontade, presa a ele até que o Ministério o declarasse reparado ou até que falhasse, não o fazia se sentir bem.
Não gostava de saber que outra pessoa estava pagando por seus erros.
Perdido em seus próprios pensamentos, Draco não saberia dizer se a caminhada tinha sido longa ou não, mas agora já se encontravam de frente para uma pequena construção, tão estreita como as casas inglesas germinadas.
Aquilo era o extremo oposto da casa a qual nasceu.
–– Então essa é a minha nova casa?
A pergunta saiu retórica saiu de seus lábios antes que Draco pudesse notar, arrancando uma risadinha debochada de .
–– Sua casa? Não, Malfoy, essa é a minha casa, e infelizmente você é o meu mais novo hóspede.
Uma careta nublou suas feições, o desgosto explícito em cada traço do seu rosto.
O Ministério pagava tão mal seus funcionários para que sua carcereira morasse naquela caixa de sapatos?
–– Nós vamos morar juntos? –– Draco perguntou segundos depois, quando sua ficha finalmente caiu.
Tinha compreendido que teria acompanhamento integral, mas sua mente ingênua tinha acreditado piamente que ao menos teria seu próprio espaço. Não era tolo de crer que o Ministério o permitiria voltar para a Mansão Malfoy, tão pouco que o deixariam sem um guarda a postos em sua porta.
Mas morar com uma desconhecida, passar vinte e quatro horas por dia na companhia de outro ser humano que só o estava aturando por obrigação parecia um castigo maior do que ser um prisioneiro de Azkaban.
–– Não precisa fazer essa cara, Malfoy, nada aqui é tão opulente quanto a sua antiga casa, mas converti meu escritório para ser seu quarto.
A frase não teve um efeito calmante como provavelmente acreditou que teria.
–– Só não se sinta em casa, eu não pensaria duas vezes antes de lançar um feitiço se eu sequer imaginar que você está cogitando realizar algo nefasto.
Draco sentiu vontade de gargalhar, seco e ironicamente.
Sentia-se tão cansado que quase confidenciou a que ela não precisaria se preocupar com qualquer desvio dele, que não tinha interesse de repetir seus erros e muito menos associar-se com bruxos das trevas outra vez.
Mas engoliu suas palavras, assim como vinha engolindo muitas coisas nos últimos meses.
Afinal, do que adiantaria falar a verdade se quem escutaria não acreditaria nele?

Draco se encontrava deitado na cama, os raios solares iluminando sua pele pálida e desnuda. Tinha resgatado algumas poucas peças de sua casa e trazido para sua nova prisão no dia anterior, mas os meses pós-guerra não tinham sido gentis com ele.
Estava mais magro que o normal e nenhuma roupa parecia caber perfeitamente, algo ao qual ele não estava acostumado já que todas as suas roupas eram feitas sob medida.
Cogitou, antes de dormir, realizar um feitiço para que as roupas voltassem a caber com perfeição, mas lembrou das palavras do conselheiro. Estava estritamente proíbido de realizar um feitiço – qualquer que fosse – sem a autorização prévia, e Draco preferia se sujeitar a usar roupas que não lhe cabiam perfeitamente do que confidenciar para ou qualquer outro funcionário do Ministério a razão pela qual queria usar magia.
Guardaria seus problemas para si, como sempre tinha sido.
Seu estômago roncou alto, ecoando pelo quarto.
Draco levantou da cama e pegou as primeiras peças que encontrou, sem se importar com quais eram. Nenhuma ficaria verdadeiramente boa...
Se vestiu rápido e saiu do quarto, sabendo em qual direção precisava seguir para matar sua fome. A casa de , sua prisão sem grades, era tão pequena que Draco tinha gravado a planta da casa com uma facilidade absurda assim que sua carcereira lhe proporcionou um rápido tour pelo local.
Adentrou a pequena cozinha, avistando logo na banqueta, sentada de costas para a porta.
–– Bom dia. –– A saudação soou arrastada, a voz ainda rouca pelo sono e o desuso nas últimas semanas.
As duas palavras assustaram brevemente , que se virou com as mãos no coração.
–– Porra! Você é muito silencioso para um homem do seu tamanho.
Draco deu de ombros, paralisado no batente, não tinha o que responder.
–– Achei que dormiria até mais tarde após ter uma verdadeira noite de sono –– ela resmungou, voltando sua atenção para sua comida.
–– O sol me acordou.
–– Que merda. –– Os olhos de voltaram-se para ele. –– Não fique parado aí igual um trouxa, não tenho criados para fazerem sua refeição. Entre logo e prepare algo para comer.
Draco não esperou que ela falasse uma segunda vez.

***

Os olhos de Draco passeavam pelos exemplares expostos nas estantes de seu novo quarto. Ao acordar naquele dia, mais tarde do que na sua primeira noite ali, seus olhos logo encontraram a cortina que bloqueava a claridade de acertá-lo bem no meio da cara. Cogitou se deveria agradecer a , era coincidência demais que logo após seu comentário, o objeto aparecesse em seu quarto, mas preferiu guardar sua gratificação para si quando a mulher não comentou sobre isso no café da manhã.
Isso o deixou confuso, ansiando por querer conhecer a mulher com a qual seria obrigado a passar o resto de seus dias por tempo indeterminado. Do mundo ao qual Draco vinha, ninguém fazia nada gratuitamente, muito menos deixavam de se gabar por algum feito.
Quem era Calloway?
Seus dedos passavam pelas lombadas conversadas dos livros, questionando-se se algum dos tomos teria uma resposta para isso.
Uma batida na porta ecoou pelo espaço rompendo o silêncio.
–– Sim?
O barulho da porta se abrindo fez Draco virar parcialmente, o corpo ainda na direção da estante, mas seus olhos encararam assim que sua cabeça apareceu pelo vão, os cachos bagunçados livres pela primeira vez em dias.
Um desconforto fez Draco pigarrear.
–– Preciso pegar alguns livros e tenho certeza que eles estão aqui, se incomoda se eu...?
Draco negou com a cabeça, mas logo completou.
–– Fique à vontade. Não esqueça que é sua casa, afinal. –– A frase soou mais depreciativa do que ele desejava, atraindo um olhar estranho de . –– Estarei na cozinha.
Draco não esperou por respostas, saindo do quarto e passando por .
Sentia-se um intruso ali, forçando a jovem bruxa a suportar sua presença. Os cômodos pequenos e corredores apertados não o ajudavam em nada, fazendo-o apenas se sentir preso em uma caixa de sapatos, vigiado vinte e quatro horas por dia.
Um suspiro escapou de seus lábios, e a pergunta que piscava em sua mente retornou mais uma vez.
Até que ponto ele estaria disposto a ir pela sua redenção?

***

Draco estava jogado no sofá, os olhos fixos no livro em suas mãos, mas sua mente não conseguia focar no que estava lendo. Era como se as palavras que lesse não fizessem o menor sentido, pareciam muito mais um amontoado aleatório de letras do que frases propriamente escritas.
O ócio estava matando-o.
Durante sua infância e adolescência, sempre tinha coisas para fazer ao longo do dia. Sair com os amigos, estudar na Escola de Magia, praticar quadribol, azucrinar os estudantes menos afortunados...
Contudo, em sua nova prisão, Draco não tinha nada para fazer. E isso nem sequer era um eufemismo.
Seus dias eram longas repetições um do outro, uma rotina monótona e sem graça que parecia quase capaz de matá-lo de tédio. Acordar, comer algo, trocar algumas poucas e obrigatórias palavras com , e então se trancar de volta no quarto – no sentido figurado, claro, afinal seu quarto não tinha tranca.
E, na frente de , Draco precisava ser o Draco.
Imbatível, debochado, distante.
Não o jovem quebrado e arrependido por suas decisões, mas sim o arrogante Malfoy.
E isso era cansativo.
Esse teatro constante de que ele não se importava de ter perdido seus pais, sem sequer saber se veria a vê-los novamente, de que não se abalava ou se sentia arrependido por ter sido um fantoche na guerra.
Draco estava cansado, seu interior rachado em diversos pedaços, e ele só queria quebrar em paz.

***

–– Achei que seria mais... emocionante acompanhar seus passos, Malfoy. –– A frase rompeu o silêncio da cozinha.
Draco ergueu uma sobrancelha.
–– Você esperava que eu estivesse me esgueirando por aí, bolando planos para uma rebelião?
O silêncio foi toda a resposta que ele precisava.
Sim, esperava que ele estivesse fazendo exatamente isso.
Uma risada depreciativa escapou de seus lábios.
–– Sei muito bem dos crimes e erros que cometi, , mas eu teria que ser um grande estúpido para ignorar a chance de ouro que me foi dada. –– Seus olhos pousaram nela, nos cachos escuros desgrenhados e na expressão fechada. –– Não sou um santo e nunca serei, mas me arrependo de minhas decisões e estou disposto a pagar o erro dos meus pecados.
Os olhos dela brilharam com uma miríade de sentimentos, todos nebulosos e confusos, e Draco não conseguiu reconhecê-los.
–– Falar é fácil.
A resposta foi um murmúrio seco, mas o atingiu com a força de um soco.
Draco sabia que, aos olhos dos outros bruxos, ele sempre seria um traidor. Nem mesmo sua própria carcereira, que estava ali para acompanhá-lo durante seu processo de redenção, parecia crer que existia salvação para sua alma podre.
Ele não compreendia o motivo, mas saber que sua própria juíza de caráter o descredibilizava foi como beber ácido.


Draco sentou-se na cama, amaldiçoando o Ministério conforme despertava contra sua vontade. A caixa de sapatos que chamava carinhosamente de casa estava um forno, e ele não podia fazer nada para melhorar sua situação.
Não iria atrás de para pedir permissão para realizar um feitiço que melhorasse sua situação. Ainda achava patético ter que se sujeitar a isso, preferia fazer papel de trouxa e simplesmente não acessar a magia.
O pequeno relógio ao lado da cama marcava altas horas da noite. Draco não se importou em calçar chinelos ou sequer colocar uma blusa – estava muito quente para esse segundo – e saiu do quarto.
Iria até a cozinha beber um pouco d’água, talvez depois tomasse um banho para expulsar o calor.
Mas Draco parou no meio do caminho, petrificado ao notar que não foi o único tentando fugir do calor. estava de costas para ele, saindo do banheiro usando nada além de uma toalha ao seu redor.
Draco engoliu em seco, seus olhos arregalados sorvendo tudo. O cabelo molhado e grudado na pele dos ombros substituía os cachos, diversas pintinhas espalhadas pela pele marrom de sua pele, as gotículas de água que deslizavam por sua pele.
Ele se sentia um desvairado a encarando, mas não conseguia obrigar seus olhos a abandonarem a visão de uma seminua. Fazia muito tempo que não se deitava com uma mulher, e talvez por isso, achasse tão hipnotizante a visão de sua carcereira pós-banho.
o notou antes que Draco tivesse a chance de fazer algum som para indicar sua presença, dando um pequeno pulo ao encará-lo, suas mãos soltando rapidamente a toalha que escorregou um pouco, desnudando alguns centímetros da pele de seu colo, até que conseguisse firmá-la no lugar novamente.
A boca de Draco secou.
Seus olhos passaram rapidamente pelas pernas nuas até os joelhos, a toalha apertada ao redor da jovem bruxa marcava com perfeição suas curvas, deixando pouco espaço para a imaginação.
–– Caralho, Malfoy. –– A voz de soou ofegante. –– Você precisa deixar de ser tão silencioso.
Draco subiu o olhar para o seu rosto, as bochechas levemente rosadas pelo banho davam um ar diferente para a jovem bruxa.
–– Compre um sino e o coloque em mim, igual marcação de gado, assim você sempre vai saber quando eu estiver me aproximando.
não riu da sua piadinha depreciativa, apenas o encarou com o semblante sério e distante que ela parecia dominar tão bem. Draco não conseguia ler suas expressões ou adivinhar o que ela estava pensando, e isso o frustrava.
Não saber o que esperar dos outros não era algo do qual ele gostava.
Mais tarde naquela noite, Draco se encontrava deitado na cama com os olhos fixos no teto. O quarto ainda estava abafado, mas não era isso que o impossibilitava de dormir. Quando fechava os olhos, tudo que sua mente via era , usando nada mais do que aquela toalha. , com os olhos desejosos e um sorriso no rosto. , provocando-o a se aproximar e provar. , que o deixaria fazer o que quisesse com ela.
E Draco queria rir. Gargalhar. Uma gargalhada histérica.
Afinal, aquilo nunca aconteceria.
Sua mente estava presa em pois não tinha um contato íntimo com ninguém desde antes da guerra, não esperava vê-la usando tão pouco e isso mexeu com ele. Ele não estava interessado na sua carcereira, nunca estaria.
Afinal, de que valeria já que ela nunca o veria como mais do que um traidor?


Os cabelos da jovem bruxa estavam presos com perfeição, suas roupas alinhadas e uma leve maquiagem pintava seus lábios e bochechas. Draco não queria estar reparando nisso, não se importava como sua carcereira se arrumava para o dia, mas não conseguiu deixar de catalogar com interesse cada detalhe.
Desde o encontro no corredor algumas noites atrás, a mente de Draco agora parecia estar muito ciente da presença de .
–– Interrompi algo? –– ela questionou, seus olhos fixos em Draco quando o percebeu no canto da sala.
–– Claro, estava no meio da minha dezenas de afazeres antes da sua convocação. –– Um suspiro debochado acompanhou sua fala. –– Não sei como serei capaz de colocar tudo em dia depois.
apenas o encarou em silêncio. Os lábios cheios pressionados em uma linha reta. Aparentemente, ela não tinha achado engraçada sua ironia.
–– O Ministério me pediu para verificar ou ajustar o Vínculo.
Draco franziu o cenho.
–– Tem algo errado? Algum problema?
Sua preocupação era real. Nunca tinha participado de um feitiço de ligação assim, ele não sabia quais seriam as sequelas que poderia vir até se a magia corrompesse ou tivesse qualquer outro problema.
E ele não estava disposto a descobrir.
–– Não –– respondeu, sucinta. –– Mas é necessário realizar uma checagem quinzenal, nutrir o vínculo com magia e, hm, contato para que ele não se desgaste.
Draco apenas concordou com um aceno de cabeça.
Observou esticar o esquerdo em sua direção e não pensou duas vezes antes de fazer o mesmo. Logo a varinha dela estava em mãos, e só o encarou por alguns segundos antes de juntar as palmas de suas mãos, colando seus pulsos.
Um leve choque o dominou, seus corpos mais próximos do que em qualquer outro momento. Draco conseguiu notar com perfeição a diferença de tamanho entre eles, os olhos chocolate que o encaravam como se pudesse desvendá-lo, os lábios carnudos sussurrando o feitiço.
A atenção de Draco desceu para a parte de seus corpos em contato. A magia visível enrolada em seus punhos, atando-os magicamente como uma corda em seus braços.
A memória de Draco, sua pior inimiga, trouxe de volta as imagens que ele não conseguia esquecer. Os cabelos molhados de , a mera toalha que provocava sua mente...
E agora eles estão tão próximos que Draco conseguia sentir o cheiro do perfume dela. Poderia jurar que conseguia sentir o calor de graças a sua palma suave repousada na dele.
O feitiço acabou antes do esperado, o contato entre suas peles sendo interrompido no mesmo segundo, e Draco precisou conter o muxoxo desanimado que tentou escapar de seus lábios.
–– Tudo certo, não precisamos nos preocupar com isso pelos próximos quinze dias –– falou, já saindo da sala e deixando-o sozinho.
Uma sensação incômoda o dominou.
Fazia tanto tempo que não era tocado, verdadeiramente tocado, que o simples contato com o fazia desejar por mais. Não negaria para si mesmo que gostaria que a checagem ocorresse em um prazo menor.
O toque de , mesmo por mais singelo que tenha sido, o fez se sentir vivo de um jeito que ele sequer lembrava.
E Draco ansiava por mais.
Da sensação ou do toque, ele não saberia dizer.

***

pulou da cama, o coração batendo acelerado conforme a sensação de pânico congelava o sangue em suas veias. O suor deixava seu corpo pegajoso e sua respiração soava dificultosa e entrecortada.
A jovem bruxa demorou alguns segundos para compreender o que estava acontecendo, não estava sentindo os seus sentimentos.
Draco.
Aquelas sensações esmagadoras eram de Draco.
não pensou duas vezes antes de sair do quarto em disparada, seguindo até seu antigo escritório. Nunca agradeceu tanto por sua casa ser pequena como naquele momento, quando em alguns poucos segundos irrompeu pela porta do quarto de Draco.
A falta de ar aumentou, fazendo-a se curvar e apoiar as mãos no joelho, enquanto forçava seu corpo a subjulgar a dor que Draco e ela sentiam.
A roupa de cama estava uma completa bagunça, espalhada pelo chão e enrolada nas pernas e braços de Draco, que se debatia ferozmente. Seu corpo convulsionava contra a cama, batendo no colchão com força, e frases desconexas escapavam roucamente de seus lábios.
O coração de contraiu, provavelmente por Draco estar sentindo a mesma coisa, e o ar escapou de seus pulmões.
Sabia que a guerra não tinha sido fácil para ninguém, que todos carregavam sequelas desse tempo sombrio – ela própria era uma –, mas não imaginava que Draco fosse um deles. Mas, no final das contas, por que ele não seria? Todos perderam algo durante a tentativa de Valdemort de assumir o controle, mas percebia naquele momento que Draco tinha perdido tudo.
Conforme se aproximava da cama, a jovem conseguiu compreender alguns dos murmúrios lamuriosos. O nome da mãe, Narcisa, era repetido incontáveis vezes junto com uma procissão de nãos e desculpa.
Assim como ela, Draco estava quebrado.
Assim como ela, Draco usava uma máscara para fingir para todos que estava bens, que não carregava as assombrações do passado.
Mas elas estavam bem ali, na frente de enquanto Draco se debatia, perdido dentro em seus próprios pesadelos.
Seu coração contraiu mais uma vez.
e Draco eram mais parecidos do que ela gostaria de admitir.
E isso a fez se sentir estranha.
–– Malfoy?
O chamado dela não o fez se acalmar, pelo contrário, o sobrenome só o fez se debater mais forte contra as cobertas. O peito pálido e desnudo brilhava pelo suor, movendo-se para um lado e para o outro.
–– Draco. –– A voz dela saiu falhada, dolorida e quebrada igual ele, suas mãos segurando seus braços em uma tentativa de pará-los. –– DRACO!
O corpo dele se resetou de supetão, tornando-se quase tão sólido em suas palmas quanto pedra. Os olhos azuis se abriram, nebulosos e assustados, e a primeira coisa que ele viu foi parada ao lado de sua cama, a preocupação misturada com um sentimento de empatia que o fez tremer.
As mãos dela, quentes como sua presença, se afastaram dele e Draco sentiu um frio instantâneo com um calafrio percorrendo seu corpo. Sua garganta rouca e maltratada queria pedir para que voltasse, que se aproximasse novamente e que não o deixasse sozinho com seus demônios.
Mas ela não se afastou completamente.
Não, ela apenas sentou no chão, próxima a beirada da cama, e manteve o olhar fixo nele. Seus cabelos estavam desgrenhados, um pijama era tudo o que ela vestia e a frieza habitual, dirigida especialmente a ele, não estava presente em suas feições.
Ela o deu espaço para que não se sentisse sufocado, mas se manteve ali, presente em uma clara demonstração de que ele não estava sozinho. Draco queria acreditar nisso, que estava ali por ele. Fosse por pena, empatia ou qualquer outro sentimento, ele não se importava. Desde que ela não estivesse ali só por ele ser sua obrigação, seu trabalho.
–– Você me chamou pelo meu nome.
Draco é quem decidiu quebrar o silêncio.
–– Não se acostume com isso, Malfoy. –– Uma leve ironia estava presente no tom de .
Uma risada fraca escapou de Draco, sendo logo seguida por um suspiro.
–– Me desculpe por, hm... É, imagino que você tenha sentido tudo.
Um aceno de cabeça foi toda a resposta que ele recebeu.
O silêncio que se instalou no quarto não era como todos os outros que eles compartilharam – pesado e desconfortável. Draco não sentia a necessidade de quebrá-lo com alguma ironia ou de manter a máscara no lugar, de continuar fingindo.
o tinha visto no momento mais delicado e vulnerável de todos, nada que ele falasse, nenhuma mentira que contasse seria capaz de mascarar a verdade que Draco vinha escondendo de todos.
Seus erros o atormentavam como fantasmas em uma casa assombrada, e agora sabia disso.
–– Espero que não se envergonhe por isso, todo mundo tem seus próprios demônios. –– A voz de soou suave. –– Ninguém é forte o tempo todo, Malfoy.
Ele permanceu em silêncio, mas seus olhos estavam fixos nela.
–– Ninguém precisa ser forte o tempo todo... Todos somos humanos.
Draco se questionou mentalmente se estava falando aqui só da boca para fora, ou se a jovem bruxa falava por experiência própria. Desde que a conhecera, era uma muralha imperturbável e fria.
Draco quis perguntá-la se, assim como ele, usava uma máscara e fingia ser forte o tempo todo.


Naquela tarde, não era a agente responsável por ele, e Draco podia até mesmo confidenciar que estava com saudades da sua carcereira. O Ministério solicitou sua presença para uma conversa – que Draco sabia muito bem ser uma checagem – mas tinha algum trabalho que a impossibilitava de acompanhá-lo, por isso Draco se encontrava caminhando de volta para a casa, sendo escoltado por um agente mal-humorado que não tinha dirigido a palavra a ele nem uma vez sequer.
Não que ele fosse reclamar sobre isso, claro.
A brisa fresca e a oportunidade de caminhar um pouco, mesmo que fosse alguns poucos passos, já era o suficiente para ele ficar enclausurado na casa de por quase um mês.
A conversa de Draco com os conselheiros tinha sido rápida, após um feitiço para que ele só falasse a verdade, Draco podia jurar que os bruxos mais velhos ficaram frustrados por não encontrarem um desvio sequer de caráter do qual pudessem julgá-lo.
Quando seu carcereiro provisório parou ao lado da porta de , em um claro sinal de que só iria até ali, Draco teve certeza que a sua carcereira estaria ali dentro.
Eles não eram amigos, longe disso, mas estavam naquela zona estranha do “algo assim” após a noite que entrou em seu quarto.
Não conversavam sobre o passado e nem trocavam confidências, as muralhas de ambos ainda não tinham caído plenamente, mas algo crescia ali. Os silêncios não eram mais desconfortáveis, e ocasionalmente eram quebrados por assuntos sobre bobeiras diárias, como a refeição que compartilhavam juntos ou sobre qual livro de ele estava lendo.
Draco adentrou a casa, passando pela sala e seguindo pelo corredor estreito, disposto a ir até seu quarto, mas a porta aberta do quarto de atraiu sua atenção. Parado no meio do corredor, Draco sentiu todo o seu corpo entrar em pane conforme sua mente apreciava a vista.
Porque ali, virada parcialmente de lado estava , sem blusa.
A pele marrom parecia brilhar com os raios dourados que entravam pela janela e a banhavam. Uma calça justa grudava em suas coxas fartas. A barriga exposta. Os seios cobertos pelo sutiã, que parecia ser a próxima a ser retirada.
Aquilo era demais.
Draco estava cruzando um limite, encarando-a se despir enquanto sequer sabia que ele estava ali. Ele precisava sair dali, mas suas pernas não o obedeciam. Era como se sua mente soubesse o que precisava fazer, mas seu corpo se negasse, atraído pela visão de como marinheiros perdidos atraídos pelo canto das sereias.
A alça do sutiã branco escorregou por um ombro, a curva de seu seio completamente exposta, arrancando um gemido inconsciente de Draco.
O som ecoou pelo silêncio da casa, atraindo o olhar de para ele. Sua expressão estava calma, uma pitada de curiosidade brilhando nos olhos chocolate, a atenção dela fixada completamente nele.
Nenhum dos dois falou nada, sequer se mexeram.
O silêncio era carregado, mas nenhum dos dois parecia capaz de compreendê-lo.
Draco foi quem cortou o contato visual, engolindo em seco e seguindo para o seu quarto, disposto a não tornar as coisas estranhas entre eles.
Não mais do que já eram, se isso fosse possível...
Era uma pena que seu subconsciente não concordasse com ele.
Ao fechar os olhos naquela noite, tudo o que conseguia ver era . , com os cabelos soltos e cachos desgrenhados. , com a toalha enrolada ao seu redor e as gotículas de suor em sua pele desnuda. , com a alça de seda escorregando pelo ombro.
Draco questionava-se se a pele dela seria tão macia e quente quanto parecia. Se esses pensamentos corrompidos e perturbados também passavam pela mente dela e a assombravam, assim como o tornavam refém de seus novos desejos.
Desejo.
A palavra parecia zombar dele, como se fosse capaz que o desejasse. O sentimento era provavelmente algo unilateral, algo do qual Draco precisava ignorar, mas que parecia impossível quando tudo o que sua mente conseguia pensar era .
Seus olhos chocolate, suas mãos quentes, sua voz doce mesmo que distante.
Draco grunhiu, arrependendo-se do momento ao qual não foi mandado para Azkaban. Lá, pelo menos, ele não estaria começando a sentir algo por sua carcereira.
A ironia da situação não passou despercebida por ele.
Parecia que sua sina, independente do que significasse ou onde fosse, era estragar as coisas.


Draco era um homem de hábitos, seguidor fiel de uma rotina. Principalmente ali, levando em conta que ele não tinha muito o que fazer, então seguia sua rotina regrada. Já estava acostumado com o jeito a qual as coisas aconteciam e em quais horários poderia encontrar com pelos cômodos – seu horário era quase sempre o mesmo no Ministério, e era extremamente raro que ela precisasse fazer seu trabalho fora de casa.
Por isso estranhou quando a cozinha entrou no seu campo de visão e não encontrou a mulher sentada na banqueta de sempre. Será que tinha precisado sair de última hora e Draco encontraria outro agente no espaço deles?
Contudo, quando finalmente adentrou o cômodo, não teve problemas em encontrá-la. estava apoiada na bancada, na ponta do pé enquanto esticava sua mão na direção de um dos armários altos de parede.
–– Precisa de ajuda?
Como Draco já esperava, sua voz a assustou. pousou a cabeça no ombro após se recuperar do susto, encarando-o concordava com um aceno de cabeça.
–– A caixa de cereal acabou e não estou conseguindo pegar a outra –– confidenciou, seus olhos voltando para o armário em questão. –– Estava a um passo de subir no balcão para alcançá-lo.
–– Já pensou em usar um feitiço para pegar?
deu uma risada que soou bastante similar a uma bufada.
–– Sou péssima com feitiços assim –– resmungou. –– Nunca consigo direcionar corretamente e não quero que minha última caixa saia voando pela janela... como da última vez.
Isso arrancou uma gargalhada sincera de Draco.
Uma que ele não sabia quanto tempo não dava.
–– Isso é sério? –– questionou, a descrença presente em seu tom de voz.
Já tinha visto fazer pequenos feitiços, já tinha visto ela fazer o processo de checagem do vínculo. Como era possível que ela não soubesse como manusear perfeitamente um feitiço para levar o cereal até ela?
contentou-se em confirmar apenas com um aceno de cabeça.
Draco não pensou duas vezes antes de se aproximar. Poderia fazer um feitiço, mas para isso ele precisaria pedir permissão, e isso era algo que ele definitivamente não queria fazer. Gostava de fingir que não estava fazendo magia por escolha, e pedir permissão não lhe dava essa sensação.
Por isso, estava fazendo as coisas do mesmo jeito que os trouxas.
Parou próximo a , suas coxas separadas apenas por poucos centímetros, seu peito quase tocando as costas dela. Inspirou profundamente, sentindo o perfume doce dela nublar todos os seus sentidos, e precisou de toda a sua força para não pousar a mão na cintura dela e roubar um beijo.
Queria provar aqueles lábios que pareciam tão carnudos. Correr as mãos pela pele marrom assim como as gotas d’água na outra noite. Deslizar os dedos por seus ombros, despindo-a do sutiã.
Ansiava realizar todas as fantasias que começavam a dominar sua mente, multiplicando-se cada dia mais e que Draco mal sabia como tinham começado.
Em que momento deixou de vê-la como sua carcereira e passou apenas a vê-la apenas como sua?
Draco pousou a mão suavemente na curva da cintura de , e esticou o outro braço para o armário, não demorando para alcançar a caixa de cereal e a trazendo para a bancada.
Ele permaneceu parado na mesma posição, sua mão ainda apoiada na cintura dela, esperando o momento que faria uma piada e se afastaria, porque ao que dependia dele, Draco poderia continuar ali por horas e não se cansaria da proximidade, do calor de seus corpos e muito menos do perfume dela.
Quando virou e, ainda assim, não se afastou, a mente de Draco entrou em pane. Os olhos castanhos estavam calorosos como uma fonte de chocolate, e um sorriso acanhado, que Draco nunca tinha visto antes, pintava os lábios carnudos de .
Era como se também sentisse que as coisas entre eles mudaram, que o silêncio virou companhia e a companhia virou amizade, e agora a amizade ansiava por virar algo mais.
Poderia ser loucura da sua cabeça, poderia estar vendo coisas só porque ele queria que fosse verdade, mas Draco nunca saberia se não tentasse. E ele era alguém que preferia se arrepender por ter algo ter dado errado do que se arrepender por não fazer.
Mesmo que isso significasse perder a cumplicidade que tinha desenvolvido por .
Seus olhos focaram nos lábios carnudos, subindo rapidamente para os olhos de e descendo-os novamente. Esse foi todo o seu aviso.
No segundo seguinte seus lábios estavam colados no de . Apenas um selinho singelo, sua mão ainda estava pousada na cintura dela e a outra segurava a caixa de cereal, seu corpo ainda mantinha uma distância do dela, dando espaço necessário para que se afastasse se quisesse ou que usasse um feitiço para jogá-lo do outro lado do cômodo.
Nada aconteceu, e isso o fez romper o beijo.
Os olhos de o encaravam com uma mistura de confusão e felicidade, e o segundo sentimento foi o suficiente para fazê-lo se inflar. Ao que parecia, ela não lhe daria um tapa na cara.
–– Draco? –– Sua voz soou rouca e sedutora, fazendo-o desejar beijá-la de novo.
–– Hm?
–– O que foi isso?
–– Você sabe bem o que foi, –– respondeu, seus olhos focados nos lábios rosados. –– E quero que saiba que eu quero fazer de novo e de novo e de novo. Quero passar o resto do dia beijando-a, mapeando cada parte do seu corpo e me perdendo em você.
A confissão arrancou um suspiro da mulher.
Draco juntou suas testas, seus olhos fixados nos dela ao sussurrar:
–– Não sei o que é isso e posso afirmar que nunca senti nada assim. Mas isso é o que você desejar, .
Era verdade. Ele estava disposto a receber de bom grado o que quer que fosse que ela lhe desse. Fosse muito ou pouco, fosse o que ele ansiava profundamente ou algo que nunca tinha pensado antes. Nada importava no final, porque o que ele mais queria estava em seus braços naquele momento.
E pela forma como derreteu em seus braços quando ele selou seus lábios novamente, Draco sabia que ela queria a mesma coisa que ele.
Que, de alguma forma maluca e irreal, o desejava da mesma forma que ele a desejava.
E isso era tudo o que ele precisava.




Fim?


Nota da autora: Mari, preciso começar isso daqui com um ENORME pedido de desculpas por qualquer erro que possa ter tido pois a autora que vos fala não sabe basicamente nada do universo de HP. O segundo pedido de desculpas é pelo final corrido, eu planejei CDR para ter mais capítulos e ter muito mais tensão nesse slow burn, mas infelizmente a vida adulta não me permitiu seguir com o meu planejado.
No mais, espero que você tenha gostado desse casal e desse universo o mesmo tanto que eu gostei de escrever ele <3
Aos demais leitores que possam estar lendo isso, peguem leve com essa autora, por favor!

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