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Autora Independente do Cosmos ✨
Atualizada em: 27/07/2025

My name is whatever you decide
And I'm just gonna call you mine
I'm isane, but I'm your baby

🎧Don't Blame Me — Taylor Swift


Quando o juiz deu 4 minutos finais de acréscimo ao tempo regular para finalizar a partida, Jude Bellingham precisou apenas de meio minuto para marcar o gol da virada do Real Madrid em cima do Barcelona, vibrando com toda a torcida madridista presente no Bernabéu. O el clásico se consolidava mais uma vez com a vitória do time rival; todo meu sangue fervia de puro ódio, não somado apenas ao placar de derrota, mas ao fato de que Jude me provocou publicamente, embora ninguém soubesse que eu era o seu alvo. Ele não tinha ideia de onde eu estava, mas sabia que eu estava em algum lugar da arquibancada que completava a torcida do Barcelona, a multidão me escondendo da vista de qualquer um, mas eu podia vê-lo e isso foi o suficiente para ele para ele saber que sua provocação chegaria até mim. O sorriso pintou o seu rosto, ele fez a sua pose de comemoração e, em seguida, desenhou a inicial do meu nome no ar, empurrando um beijo logo depois. Foi tão rápido que mal deu para assimilar, de fato, o que ele acabou de fazer, mas eu reconheci o desenho. Reconheci sua provocação. Reconheci o seu deboche e puro orgulho de mostrar que seu time era superior a qualquer outro. Senti minhas bochechas esquentarem, a raiva me consumindo mais rápido do que eu esperava.
Aquele idiota imbecil.
Não esperei o apito final. Apenas me movi entre os torcedores, pegando o caminho oposto à saída, apenas para conseguir chegar até a área principal do banco de reservas. Tirei a credencial do meu bolso, apenas por precaução, já que os seguranças me conheciam e liberavam a minha entrada o tempo todo, mas nunca era demais ter a credencial que comprovasse minha ligação com o time, já que constantemente seguranças novatos costumavam cobrir o turno dos veteranos.
Bufando o tempo todo, consegui chegar até a parte baixa. Ajeitei o meu cabelo bagunçado e cheguei até a cerca que separava a multidão do gramado, bem no momento em que o juiz apitou o fim da partida. Eu podia ouvir os gritos de comemoração dos madridistas, mas para meu próprio bem, ignorei aquelas vozes entoando uma canção ridícula. Coloquei a credencial em volta do meu pescoço e estava prestes a mostrar para um dos seguranças liberar a minha entrada, mas reconheci-o e baixei a credencial.
— Ei, Scott, me ajuda aqui — chamei a sua atenção.
Seu rosto sério se suavizou ao se dar conta de que era eu quem estava chamando-o. Ele prontamente andou até mim e me ajudou a passar a cerca sem dificuldade alguma e, meio sem querer, acabei notando que os bíceps dele estavam mais firmes, mas guardei o comentário inapropriado para mim.
— Obrigada. — Exibi um um sorriso e ele balançou a cabeça, deixando suas covinhas aparecerem nas bochechas com o sorriso fechado que me ofereceu.
— Quem vai ser sua vítima hoje? — ele questionou, um tom brincalhão.
Todo mundo já conhecia o meu espírito competitivo contra o Real Madrid. Não era segredo para ninguém que, ao final de toda partida, eu acabava direcionando um pouco da minha irritação para alguém, incluindo meus xingamentos. Eu odiava perder para qualquer time, mas perder para o Real Madrid em especial me deixava duplamente puta.
Mas, porra, fomos roubados. Eu devia estar acostumada com esse fato acontecendo quase todos os jogos? Sim, eu devia, mas nunca diminui a minha indignação. A bola atravessou a porra da linha do gol, mas o árbitro não validou nosso gol. Desde o início dessa partida, tudo tem me estressado até então.
— Alguém que não vale a pena — respondi, dando de ombros, tendo apenas uma pessoa em mente.
Eu odiava como ele conseguia ter passe livre para se infiltrar em meus pensamentos com tanta facilidade. Ainda que eu não quisesse pensar nele, ouvir o seu nome ou saber qualquer coisa a seu respeito, ele estava lá.
— De novo, obrigada, Scott.
Ele assentiu e voltou para o seu posto. Naquele meio segundo sozinha, me permiti respirar fundo, enquanto os jogadores estavam dispersos no campo. Tons de branco com azul e vermelho pintavam a minha visão. Os meninos estavam com uma expressão vazia, derrotada, algumas indignadas. Quase se comparava com a mesma sensação de assisti-los sendo eliminados da Champions.
— Que camisa você escolheu hoje?
Uma voz me tirou dos meus pensamentos e vi Hector Fort se aproximando com Fermín. O loiro marcou um gol na partida, estava com um sorriso mais suavizado no rosto, mas também era notável que estava abatido pela derrota.
— Ela perdeu uma aposta — Fermin respondeu. — Está com a do Ferran.
Me virei o suficiente só para Hector ver que Fermín estava certo quanto ao seu palpite e dei de ombros. A expressão do mais novo se tornou desconfiada.
— Que tipo de aposta? — indagou, curioso. — Tem certeza que vocês não estão se pegando?
Revirei os olhos com a insinuação. Não era a primeira vez que me perguntavam isso, já que nunca escondi o quão próxima me tornei de Ferran no último verão, mas nunca rolou nada entre nós além da amizade.
— Você é um pirralho, sabia? — reclamei.
Fermín riu.
— Eu sou só três anos mais novo que você — Hector retrucou, cruzando os braços.
Eu meio que sorri, beijei a bochecha dos dois e segui eles para me juntar com os outros. Nunca fui muito boa com palavras de consolação e tudo mais, por isso, eu me limitava apenas a troca de high-fives e abraços e eles aceitavam isso como consolo.
Eu estava desesperada para ir embora daquele estádio o mais rápido possível, mas a equipe não estava se movendo ainda. Toda vez que eu cruzava com algum jogador do Real, simplesmente passava direto, ainda que alguns dos meninos cumprimentassem. Eles podiam se dar ao trabalho de serem educados; eu, não.
— Ei, . — A voz de Pedri me alcançou. — Soube que você foi para a multidão hoje. Por que não se juntou ao Fer? Ele também veio.
— Porque ele enche o meu saco — respondi, com humor, e dei um peteleco no nariz dele. — Assim como você. É um mal de todo González?
Ele revirou os olhos e devolveu meu peteleco, mas afastei sua mão com um tapa.
— Já se perguntou que o problema pode estar em você?
Minha testa se franziu em pura indignação e ele riu.
Dois González me irritam e o problema está em mim?
Ele levantou as mãos, se rendendo, quase arrependido de ter insinuado aquilo, embora eu soubesse que era brincadeira. Era isso que eu amava nos meninos: a derrota os abatia, mas eles tinham espaço para arrancar sorrisos um do outro.
Pedri sorriu e seu sorriso espelhou o meu, quase esqueci de toda raiva da partida, mas então Jude passou um pouco distante, bem atrás de Pedri, seu olhar cruzando com o meu em uma intensidade que fui incapaz de ignorar, meu sorriso sumindo na mesma hora. Minha mudança de comportamento deixou Pedri confuso; ele se virou na direção do meu olhar assassino e se deu conta de quem era o meu alvo. Quando ele entendeu, se colocou lado a lado comigo, ombro a ombro.
— Eu vi o que ele fez — murmurou.
Todo mundo viu o que aquele idiota fez. No entanto, poucas pessoas entenderiam a quem a inicial se referia. Consideravam uma homenagem; eu, por outro lado, considerei um ataque pessoal.
— O que você achou? — Mantive minha voz firme, conversando casualmente.
Meus olhos ainda estavam fixos em Jude. Eu tinha consciência da presença de Pedri ao meu lado, mas tinha mais ainda do olhar de Jude em mim, me queimando por dentro. Eu conseguia enxergar o seu sorriso de canto, a presunção em seu comportamento em se dar conta de que tinha me atingido e seu objetivo foi cumprido. Infelizmente, eu não tinha orgulho de dizer que ele sempre conseguia me tirar do sério, por mais que eu tentasse ignorar.
— Que você não gostou nadinha — Pedri respondeu, ciente de tudo.
— O quê? Claro que não. — Trinquei os dentes, o escárnio escorrendo pelos meus lábios. — Eu adorei.
Pedri riu e me abraçou por trás. Ele beijou a minha bochecha, deixando bem claro que percebeu o sarcasmo no meu tom de voz. Aparentemente, havia algum tipo de histórico entre eu e Jude que tinha sido estabelecido desde o primeiro el clásico. O jogador madridista me seguiu no instagram logo após da primeira partida, depois de ter me assistido xingar o goleiro do seu time por uns bons vinte minutos. Desde então, ele curtia me provocar.
— Olha como o semblante dele mudou — Pedri indicou.
Ele tinha razão; Jude fechou totalmente a sua expressão ao observar Pedri me abraçar daquela maneira. Para mim não significava nada, os meninos costumavam me abraçar o tempo todo, mas ele não sabia disso. Não sabia do meu nível de intimidade com o restante do time. Algo se agitou dentro de mim e percebi tardiamente que gostei do fato dele não ter gostado de ver alguém me tocar.
E isso me irritou profundamente. Eu não queria gostar de qualquer coisa relacionado a ele. Quanto mais distante eu conseguisse ficar dele, melhor. Quebrei o contato visual imediatamente e bufei, me afastando de Pedri.
— Vamos logo dar o fora daqui — decretei.
Ele balançou a cabeça e ficou assistindo eu me afastar. Passei pelo pessoal da nossa equipe e entrei direto no túnel, pronta para juntar as minhas coisas e dar o fora dali. A raiva fervente do resultado da partida ainda me consumia e eu queria muito dar o fora daquele estádio o mais rápido possível. Preferia mil vezes o Camp Nou, onde eu sentia que era minha segunda casa. Tudo era diferente lá, até o cheiro da grama.
Senti meu celular vibrar no bolso da calça e puxei o aparelho, vendo as notificações do X, antigo Twitter, começarem a surgir na tela. Se eu entrasse naquela rede social, ia conseguir ver a minha timeline cheia de reclamações contra a partida, contra a tecnologia que não conseguiu validar a porra de um gol claro, os xingamentos habituais contra os madridistas, mas principalmente, ia dar de cara com os questionamentos da comemoração do gol de Jude. A curiosidade consumiria os torcedores e fãs sobre quem era a dona da inicial que ele desenhou, ou o que significava.
Pensar naquilo fez minha cabeça latejar. Resolvi não abrir as notificações e silenciei tudo, guardando o celular de volta, voltando a focar no caminho do vestiário feminino, onde eu deixei as minhas coisas mais cedo. Nem sempre, mas geralmente costumava acompanhar os meninos nas partidas. Apenas um acompanhamento diário de rotina, só para que eu pudesse ir pegando um pouco de experiência na parte prática da faculdade.
Quando eu estava prestes a virar e adentrar o vestiário, alguém me puxou pelo pulso e me prensou contra a parede. Abri a boca para xingar e reclamar, mas as palavras se perderam na minha garganta quando o rosto de Jude ficou muito próximo do meu, meu coração bateu mais rápido e minha respiração ficou acelerada.
Seus olhos se fixaram nos meus e eu não entendia como, mesmo suado de correr mais de 90 minutos pelo campo, seu perfume ainda prevalecia em invadir a minha narina. Era a mesma fragrância das outras vezes, quando ele passava perto demais de mim de propósito.
— Mas que porra, Bellingham? — Finalmente explodi, sem entender.
Tentei me afastar, mas ele me prendeu mais ainda, me deixando encurralada. Ele puxou meu pulso para cima, segurando bem acima da minha cabeça. Sentir a intensidade do seu olhar tão de perto me deixou perturbada. Não havia nenhum sorriso presunçoso em seu rosto agora, apenas sua respiração pesada se juntando à minha.
— Não gostou da minha homenagem? — ele perguntou.
Revirei os olhos e apertei a mandíbula, aquela sensação de raiva de volta. Por baixo dela, havia uma mistura de sensações se enrolando uma na outra, mas eu não conseguia processar nada agora, não com ele tão perto.
— Não foi uma homenagem — retruquei, irritada. — Foi uma provocação.
Ele riu. O som vibrou inteiramente por todo o meu corpo.
— Saia de perto de mim.
Seus olhos escureceram outra vez. Jude não achou que estávamos próximos o suficiente e se aproximou mais, o nariz roçando no meu e minha respiração se tornou ainda mais pesada, meu peito subindo e descendo com uma frequência impressionante. Senti uma vontade súbita de beijá-lo e isso me surpreendeu. Não era uma vontade nova, ela devia estar ali no meu subconsciente para surgir agora, pois eu não seria as coisas de repente daquela maneira.
Há quanto tempo aquela atração estava ali e eu não enxerguei por estar nublada pela minha raiva?
— Vamos — sussurrou. — Vai dizer que não sente isso também?
Engoli a seco, sem querer dar o braço a torcer. Me sentir atraída por Jude Bellingham não era algo que fazia parte dos meus planos, ainda mais quando éramos tão opostos e considerados rivais. Nossas camisas eram a prova ilustrativa disso.
Sua outra mão livre pressionou a minha cintura e eu arfei, um delicado sinal que indicava uma possibilidade de resposta positiva para a sua pergunta, mas eu não ousei responder nada ainda. Ainda assim, ele não precisou de confirmação verbal nenhuma. Ao invés disso, decidiu me incitar, me provocando.
Seus lábios roçaram meu pescoço exposto, arrepiando minha pele. A batalha entre a raiva e a atração estavam pressionando o meu cérebro e eu não sabia a qual me render primeiro. Sua outra mão soltou o meu pulso apenas para entrelaçar seus dedos contra os meus e uma pequena faísca de surpresa cruzou os meus olhos, mas ele não viu. Era uma sensação nova e diferente.
Sua boca se afastou da minha pele e ele voltou a me encarar. Eu torcia que ele não conseguisse ouvir as batidas rápidas do meu coração, o que estava fazendo comigo. Eu ainda permanecia na mesma posição.
— Vou te beijar — ele disse. — Se depois disso você me dizer que não sente nada, eu te deixo em paz, .
Fui consumida pela surpresa, mas também pela expectativa de experimentar os seus lábios. Quis enganar a mim mesma dizendo que eu só estava aceitando deixar ele fazer aquilo para provar que eu não ia sentir nada daquilo e, enfim, ele me deixaria em paz. Pararia de me provocar todas as vezes que marcasse um gol comigo na arquibancada. Não me mandaria indiretas nas entrevistas, algo que só eu entenderia, enquanto o resto do mundo criava e investigava teorias para descobrir quem era a mulher chamando a atenção do garoto de ouro de Madrid.
Pedri pararia de me zoar. Eu ainda seria motivo de especulação sobre um romance com Ferran Torres, mas isso ainda era muito melhor do que ser associada com um jogador do time rival.
Jude esperou algum protesto meu, que não veio. Antes de juntar seus lábios nos meus, ele me deu um sorriso satisfeito e brilhante, algo que combinava com ele ser chamado de garoto de ouro, e finalmente me beijou. A sensação dos seus lábios nos meus enviou cargas de choques elétricos por todo o meu corpo e ele se pressionou contra mim. Nossas bocas se moviam com uma sincronia que me surpreendeu. Já fui beijada antes, mas nunca assim. Impulsionada por uma necessidade que, até então, eu não tinha conhecimento, usei a minha mão livre para puxá-lo pela nuca, ele aprofundou o beijo e havia uma mistura crítica de hortelã e tutti frutti, dos chicletes que mascamos antes.
Com uma perna, ele afastou as minhas e se enfiou no meio das minhas pernas, me provocando devagar; arfei contra o beijo, achando impossível ignorar a excitação crescendo dentro de mim. O ódio também. Não por ele, mas por mim, por estar gostando daquilo. Nem em mil anos, em todas as histórias dos el clásicos, eu achei que acabaria nessa situação com Jude Bellingham.
Ele quebrou o beijo e se afastou, e eu senti falta dos seus lábios na mesma hora, mas me repreendi. O combinado era eu não gostar daquilo, mas porra. Tentei me recompor, recuperar a minha respiração, enquanto ele ainda me mantinha presa ali. Minha mão continuava em sua nuca, a outra dele na minha cintura.
— E então?
Pisquei os olhos e umedeci meus lábios.
— Eu não…
Merda. Eu não conseguia nem mentir. Fui interrompida por vozes vindo de algum lugar, indicando que aquele corredor iria encher em poucos segundos. Achei que isso era algum sinal para que eu conseguisse fugir do seu ultimato, mas Jude pensou mais rápido e me puxou, nos enfiando dentro de uma sala que eu não tinha acesso nenhum. Ouvi o clique da tranca e logo em seguida ele iluminou a sala, eu observei, percebendo que era apenas um escritório sem decoração, com uma mesa e cadeira, além de um sofá grande na parede oposta. Não sei se alguém utilizava aquilo, mas meu palpite era que o lugar era novo e estavam começando a decorar.
Esfreguei os dedos contra os meus lábios e me acalmei, antes de me virar e encontrar ele, ainda vestido com o uniforme completo do seu time. Infelizmente para mim, ele realmente combinava com o tom de branco do kit e, pela primeira vez, me permiti reparar o quanto ele era bonito e… gostoso. Atraente de um jeito perigoso. E ele acabou de nos trancar aqui dentro.
— Você não me deixou responder.
Ele levantou os olhos para meu rosto e abriu um sorriso presunçoso, confiante.
— Eu não acho que você ia negar — ele disse, igualmente confiante. — Consigo notar os sinais do seu corpo. Sua boca pode dizer uma coisa, mas ele diz outra.
Um canalha observador, de fato. Nunca fui muito boa em esconder nada mesmo. Gavi está sempre replicando que eu sou uma péssima mentirosa e ele não estava errado. Ser sempre uma pessoa transparente quanto às minhas emoções sempre teve seus lados negativos. Como agora.
— Ah, é? — Levantei uma sobrancelha, um tom de desafio. — Que sinais são esses?
Seus olhos brilharam com algo que eu não consegui identificar, mas notei na mesma hora que eu ia me arrepender de ter desafiado ele daquela maneira. Jude se aproximou sem hesitar um passo dessa vez e eu estava indecisa se achava sua confiança atraente ou irritante. Ou os dois.
Ele chegou perto o suficiente para conseguir me empurrar até que eu estivesse com a bunda contra a mesa. Seu corpo se inclinou contra o meu, me obrigando a me inclinar um pouco também. Mais uma vez, ele afastou as minhas pernas e se colocou no meio, friccionando seu corpo contra o meu. Um gemido involuntário escapou da minha garganta e eu me xinguei mentalmente por estar me entregando tão fácil.
Jude sorriu. Merda. Ele não teria trabalho nenhum em provar o seu ponto.
— Quando eu mordo o seu pescoço… — ele começou a dizer, seguido de uma demonstração, realmente mordendo levemente uma parte da pele do meu pescoço e eu engoli a seco, me arrepiando. — Você se arrepia.
Espalmei minhas mãos contra a mesa, o cheiro inebriante do seu perfume me deixando um pouco tonta.
— Sua respiração está ofegante, suas bochechas estão ruborizadas — ele continuou, acariciando a minha bochecha esquerda. Sua outra mão puxou o meu pulso e verificou os meus batimentos. O sorriso aumentou. — E seus…
— Cale a boca, Bellingham.
Beleza, era tudo verdade, tudo sinais que também estava me sentindo atraída por esse idiota, ele estava certo. Mas seu sorriso com esse excesso de confiança estava começando a me irritar. Se eu fosse parar para pensar em tudo isso, em tudo o que aconteceu há pouco e o que estava prestes a acontecer, simplesmente não iria adiante com isso, então tomei coragem para calar os meus pensamentos e lidar com as consequência depois ao puxá-lo pela camisa e chocar meus lábios contra os dele.
Dessa vez, ele quem pareceu surpreso com a minha atitude, mas se recuperou rápido, enfiando a sua língua dentro da minha boca, me puxando para mais perto de si pela cintura. Fui mais ousada e entrelacei minhas pernas ao redor da sua cintura, enfiando minhas mãos dentro da sua camisa molhada de suor e suja da grama do campo. Arranhei seu abdômen com gosto, beijando-o com raiva e desejo puro, sentindo seu corpo quente contra a palma da minha mão. Eu também estava suada, mas por motivos diferentes do dele.
— Jude — ele disse, afastando sua boca da minha.
Lambi meus lábios, confusa sobre o porquê ele estava dizendo o próprio nome, sua respiração ofegante se misturando com a minha.
— O quê? — disparei.
Ele olhou para mim de um jeito adorável.
— Me chame de Jude, não Bellingham — ele esclareceu. — É esse nome que quero ouvir da sua boca quando eu fizer você gozar.
A mera ideia daquilo acontecendo fez minha boceta latejar. Mordi meu lábio inferior e afrouxei o aperto das minhas pernas contra a sua cintura. Queria que ele se livrasse daquele kit horroroso de uma vez, para que eu pudesse me sentir um pouco menos traidora por estar beijando o inimigo.
— Se você cumprir sua promessa, eu te chamo do que você quiser.
Desci minhas mãos até a barra da sua camisa e puxei para cima, ajudando-o a se livrar da peça de roupa. Admirei seu torso definido e passei as mãos pelos gominhos visíveis, o que o fez sorrir.
— É justo que você fique igual também, certo? — ele perguntou, as mãos na barra da minha camisa, o uniforme especial com o nome da Karol G. — Além do mais, prefiro te foder sem que você esteja vestindo uma camisa com o nome de outro homem.
Aquilo me fez rir gostosamente.
— É uma realidade impossível que eu use o seu nome.
— Não me desafie, .
Dei de ombros, inocentemente, os olhos dele escureceram outra vez e ele finalmente puxou a minha camisa, jogando-a para o mesmo destino que eu joguei a sua. Ainda havia um sutiã preto cobrindo os meus seios, mas o jeito que ele me olhou quase enfraqueceu as minhas pernas. Jude exigiu a minha boca de novo, me apoiei em seus ombros, um frio na barriga agitando meu estômago.
Enquanto me concentrava no beijo, ele se empenhou em se livrar do meu sutiã também. Quando conseguiu, a peça teve o mesmo destino das camisas e ele subiu uma das mãos para apertar o bico rígido, me arrancando um gemido satisfeito entre o beijo. Ele puxou meu lábio inferior com os dentes e foi descendo os beijos pelo meu queixo, pescoço e ombro, até descer e abocanhar um dos seios.
Arfei, o tesão me consumindo.
Eu queria que tivéssemos tempo de prolongar aquilo. Havia tantas maneiras que poderíamos provocar prazer um no outro, mas a partida já tinha acabado há uns bons minutos e logo o ônibus do Barcelona partiria com o pessoal da equipe. Alguém sentiria minha falta.
Enfiei os dedos no cabelo dele, puxando seu rosto para cima, obrigando-o a me olhar. Meu corpo inteiro estava em chamas e minhas bochechas esquentaram, resultado da minha excitação. Não aguentava mais minha boceta latejando de tesão.
Ele me encarou, esperando.
— Só… — Minha voz falhou um pouco e engoli a seco antes de continuar, esquecendo totalmente meu orgulho e dignidade. — Me fode de uma vez.
Ele beijou meu outro seio.
— Não vai me deixar te aproveitar, agora que eu te tenho aqui? — sussurrou.
— Não tenho tempo, Bellingham — repliquei, impaciente.
E eu queria ter. Mas, para início de conversa, eu nem mesmo devia estar ali. Estava cedendo aos desejos do meu subconsciente e não conseguia mais ser racional, não quando sua boca estava provocando a minha pele daquela forma.
Ele revirou os olhos e puxou o bico do meu seio com os dentes, me provocando uma sensação inédita, enviando ondas de choque pelo meu corpo inteiro. Minha boceta latejou mais intensamente, mas ele cedeu ao meu pedido, se afastando o suficiente para se livrar das últimas peças de roupa. Eu assisti ele se despir e minha respiração acelerou ao ver seu pau saltar para fora, duro e ereto na minha direção.
Não me orgulhava de dizer que salivei com aquela visão. Mesmo ciente de todas as nossas provocações e farpas trocadas nos jogos, não imaginei que fôssemos acabar aqui. Assim. O gosto da atração física por ele era amargo.
Mas também delicioso.
Se ele me fodesse tão bem quanto beijava…
— Sua vez.
Eu quase ri, mas mordi a parte interna da minha bochecha e me afastei da mesa, me livrando das minhas últimas peças de roupa. De repente, me senti exposta demais, mas o jeito que ele me olhava me esquentou inteira e empurrei a sensação para o fundo da minha mente.
— Isso… — ele começou a dizer e vi quando engoliu a seco, a expressão afetada. O jogador madridista se aproximou, me empurrou de volta contra a mesa e afastou minhas pernas, deslizando um dedo pela extensão da minha boceta, testando o quão molhada eu estava. — Eu sonho com isso aqui, com você assim.
A confissão escapou por seus lábios, mas fiquei sem reação quando ele tirou o dedo melado com minha umidade e levou até a boca, lambendo. Meu peito subiu e desceu em uma respiração rápida.
Já imaginei muitas coisas com Jude Bellingham. A maioria delas envolviam planejar seu homicídio quase 100% do tempo toda vez que eu ouvia o seu nome. Talvez eu tenha desejado que ele tropeçasse vez ou outra, cada vez que tocava na bola em uma partida.
Mas, porra, isso… Eu nunca imaginei. Eu não conseguiria nem mesmo descrever a sensação que tomou conta de mim com aquela visão, me tomando com uma necessidade urgente que, até então, eu pensava não existir.
Espalmei minhas mãos contra os ombros dele, querendo mais. Eu podia pensar nas consequências de seguir isso adiante depois, naquele momento eu só queria uma coisa. Só pensava em querer que ele se encaixasse dentro de mim, que se aproximasse mais, que sentisse o meu gosto de novo.
— Me fode — eu pedi, sem aguentar mais.
Ele sorriu para mim como um garoto travesso, me empurrou um pouco mais para trás e eu abri espaço entre as minhas pernas para que ele se encaixasse melhor. Sem se importar se nosso tempo era curto, ele começou a esfregar seu pau pela minha boceta, sem passar sequer perto da minha entrada, provocando o meu clitóris. O líquido pré-sêmen que saía da cabecinha do seu pau se misturou à minha umidade.
— Bellingham… — Meu tom de voz era alerta o suficiente.
Eu podia sentir as gotas de suor se formando nas minhas costas e na lateral da minha cabeça. Encarei-o com irritação e enfiei a mão entre o meio do nosso encaixe, pegando o seu pau por cima da sua mão. Apertei a cabeça do seu pau de propósito, ouvindo um gemido rouco escapar da garganta dele, o que me deixou satisfeita. Sem paciência de esperar mais, eu mesma enfiei o pau dele dentro de mim.
Nós dois ofegamos ao mesmo tempo.
Meu coração disparou em mil batidas por minuto com nosso contato visual intenso e fixo. Ele não desviava o olhar do meu nem mesmo por um mísero segundo sequer e eu não estava acostumada com aquilo, com aquele clima de… intimidade. Como se ele gostasse de olhar para mim, de me foder assim, mas era a primeira vez que fazíamos isso. Engoli a seco e umedeci meus lábios secos, tentando me encaixar melhor, enquanto ele procurava uma posição para se ajustar e movimentar.
Primeiro, ele começou lento. Testando. Sentindo carne contra carne, minhas unhas arranhando a sua pele com a sensação de ser preenchida daquela forma. Os fios do meu cabelo estavam começando a grudar na minha testa. Ele pousou as duas mãos na base da minha cintura e minha respiração ficou pesada, enquanto eu me acostumava com ele se enfiando dentro de mim com aquela lentidão torturante. Sem aguentar o peso do meu próprio corpo, me deitei contra a mesa e me empurrei ainda mais na direção dele, o choque se formando entre nossos corpos.
— Porra… — ele murmurou, em um tom quase sofrido.
Fechou os olhos por um instante e eu apreciei a sua expressão de prazer, sabendo que, a partir daquele momento em diante, a imagem ficaria na minha mente sempre que eu o visse. Eu não queria pensar naquilo agora, nas consequências da minha própria escolha, então nublei meus próprios pensamentos no exato momento em que ele voltou a abrir os olhos, se inclinando um pouco sobre o meu corpo, subindo as suas mãos lentamente pela lateral do meu corpo.
— Bellingham… — Minha voz saiu mais manhosa do que eu pretendia, mas, de algum jeito, ele conseguiu entender exatamente o que eu queria quando começou a aumentar a velocidade das estocadas, de modo gradual, até aumentar a força.
Ele beijou a minha barriga, sua respiração ofegante batendo contra a minha pele brilhando de suor e, desesperada por mais contato do que estávamos tendo, subi uma perna, me prendendo ainda mais contra o corpo dele ao entrelaçar a sua cintura. A fricção dos nossos corpos batendo emitia um barulho delicioso e quando Jude beliscou um dos meus mamilos, não me orgulhei do som primitivo que escapou dos meus lábios.
Ele riu contra a minha pele, o que me arrepiou.
— Vou me empenhar para você começar a me chamar de Jude.
Antes que eu pudesse responder, ele estocou com força, chacoalhando meu corpo contra a mesa, meus seios pulando com o movimento selvagem. Me segurei contra seus ombros, os gemidos começando a soar familiar. Meus lábios se ergueram em um sorriso malicioso com o tom de desafio que saiu da sua voz.
— Não deveria se esforçar tanto — provoquei.
Ele me lançou um olhar que não consegui decifrar. Em seguida, parou de se movimentar dentro de mim e eu franzi o cenho, confusa, frustrada por mais. Estava começando a ficar bom, alguma área do meu cérebro realmente produzindo dopamina o suficiente para eu perceber que estava gostando de ser fodida por ele.
De surpresa, ele mordiscou um dos meus seios, e eu reagi arranhando a pele do seu braço. Seus olhos brilhavam com uma emoção indecifrável. O tesão nublou totalmente a minha capacidade cognitiva de perceber as coisas mais rapidamente.
— Estou decepcionado, — ele disse, fixando os olhos em mim, nem sequer fazendo menção de voltar a me foder. — Não achei que você fosse uma mulher que se contentasse com tão pouco.
— O quê?
— Eu deveria esperar que você mereça que eu me empenhe e me esforce tanto — ele disse, fazendo menção de se afastar.
Enfiei meu orgulho na puta que pariu quando usei a minha perna entrelaçada na sua cintura para forçá-lo a continuar ali dentro de mim, meus olhos escurecendo com uma irritação repentina com mais uma de suas provocações. Por um momento, eu tinha esquecido que ele gostava de fazer isso, quase como se fosse a porra do seu passatempo favorito. Mas eu já estava ali e me recusava a sair daqui sem o trabalho completo.
Não ouse — disparei, os dentes trincados.
O sorriso que ele me deu foi deliciosamente magnífico, como se soubesse que atingiu algum ponto nervoso dentro de mim e minha boceta voltou a latejar, sentindo falta do movimento constante.
— O que você quer? — ele questionou.
Ainda não voltou a se mover dentro de mim. Soltei um gemido de protesto, do qual ele prontamente ignorou, assim como ignorei a sua pergunta. Insatisfeito pela minha recusa, ele escorregou o polegar contra o meu clitóris suavemente, enviando ondas de choque por todo o meu corpo, sua única intenção sendo me torturar.
Era um castigo. Eu merecia, por ter cedido tão facilmente ao seu charme e provocações.
— O que você quer, ? — insistiu.
Engoli a seco e encarei seus olhos, vendo meu próprio desejo refletir as suas írises escuras. Eu queria tudo. Muito. Estava à mercê de alguém por quem eu nutri — e ainda nutria — sentimentos conflitantes. Parte de mim queria ceder totalmente, enquanto a outra parte, a parte mais racional, me impedia. Parecia tudo tão certo e errado ao mesmo tempo e não só por ele ser um jogador brilhante de um time que eu desprezava, mas por ele ser simplesmente quem era.
Engoli a seco novamente. Impulsionei meu corpo a levantar da mesa e me juntei a ele, nossos rostos bem próximos, os narizes quase se tocando. Enrolei meus braços ao redor do seu pescoço e, ali, naquele instante, éramos só duas pessoas que estavam se aproveitando no momento, nada existindo além da barreira que acabei de criar, uma fantasia que vai deixar de existir quando aquilo acabar.
Mas agora…
— Eu quero que você se enterre fundo em mim — cedi, começando a responder. Minha respiração se tornou ofegante e eu puxei o lábio inferior dele com meus dentes. — Quero te sentir por todas as partes, em cada canto, que rasgue a minha carne com a força que quer me foder.
Minhas palavras tiveram efeito quando ouvi o gemido engasgado dele e desci meus lábios pelo seu pescoço, inspirando o seu cheiro suado com a fragrância do perfume que sempre associei a ele. Devagar, me ajustei contra a mesa para conseguir rebolar, me empurrando na direção do seu quadril, me movendo com seu pau dentro de mim. O som que saiu da sua garganta iria me assombrar nos sonhos.
— Vai fazer isso, golden boy? Vai me foder com força? — provoquei, os lábios no seu ouvido.
Jude segurou minha cintura com força, os dedos quase se enterrando contra a minha pele, algo que eu tinha certeza que deixaria marca, mas não me importei. Não quando ele reagiu tomando a minha boca com a sua agressivamente, voltando a estocar de surpresa, com força, intensidade e rapidez, tudo ao mesmo tempo, e eu mal conseguia manter a minha respiração regular.
Espalmei minhas mãos contra o seu peito, me deliciando com a sua boca exigindo a minha, aprofundei o beijo e brinquei com a sua língua, seus lábios abafando os gemidos que estavam presos na minha garganta. Ele subiu uma das mãos e alcançou um dos meus seios, enchendo a sua palma, se enterrando fundo, como eu tinha dito que queria.
Jude me puxou para si, me segurando em seu colo, andando cegamente para trás, até cair sentado comigo em um sofá reformado que havia ali, tudo isso sem tirar seu pau dentro de mim ou afastar a sua boca da minha. Não tinha ideia de quem seria essa sala, mas ele estava sendo estreada antes do tempo.
Ele pousou as duas mãos nas minhas nádegas, segurando com força suficiente para me arrancar um suspiro entre o beijo. Me encaixei em seu colo com uma perna de cada lado e afastei meus lábios dos seus, emitindo um som primitivo quando ele conseguiu atingir um ponto sensível, suas mãos me movendo para cima e para baixo, me ajudando a cavalgar no seu pau.
Ficamos nessa posição por mais tempo do que contei. Eu não tinha mais noção do que era o tempo, de onde estava, só queria que ele continuasse se enterrando em mim. Nossos beijos se tornaram desajeitados, os gemidos ecoavam como uma trilha sonora, os dedos dos meus pés se contraíam de prazer, nossas mãos exploravam o corpo um do outro de maneira frenética, como se nunca mais fossem fazer isso.
Talvez não fossem mesmo. Não era algo que eu pretendia repetir.
— Você não tem ideia… — ele murmurou, meio se contendo, sem completar a frase.
Não conseguia raciocinar muito bem para qualquer coisa fazer sentido, então não tinha ideia do que eu não fazia ideia. Ele tremeu abaixo de mim, seu corpo antecipando o aviso de que iria gozar e eu não estava muito atrás.
— Porra. — O xingamento escapou da minha boca quando ele fez questão de beliscar o meu clitóris sensível, aumentando o meu tesão em um nível que eu ainda não tinha experimentado.
Em um movimento rápido, ele me girou, me colocando deitada sobre o sofá, ficando por cima de mim, o polegar esfregando o meu clitóris, sua mão livre apertando a minha coxa, os olhos fixos em mim, como se não houvesse mais nada no mundo para olhar. Minhas pernas tremiam, minha respiração estava pesada e comecei a alucinar com a sua beleza, querendo tocar as maçãs do seu rosto com a ponta dos dedos, mas me contive.
— Você é linda, — ele sussurrou. — Tão gostosa. Goza para mim.
Engoli a seco com o tom da sua voz e fiquei sem saber como reagir ao elogio, mas não tive tempo para isso, atingindo o meu orgasmo logo em seguida, sem me envergonhar dos sons que minha boca emitia, tudo o que eu via era seus lábios delineando um sorriso que nunca vi ele exibir para mais ninguém.
Alguma coisa ali alterou a química do meu cérebro. Eu estava realmente alucinando.
Ele saiu dentro de mim e eu quase protestei.
— Não, você não…
— Estamos sem camisinha — ele explicou, um detalhe que esquecemos no calor do momento. — Não vou gozar dentro de você.
Mordi o meu lábio inferior e suspirei, estabilizando a minha respiração. Eu me levantei, ainda com o corpo meio mole devido ao orgasmo, mas, por mais que existisse uma certa rivalidade entre nós dois, eu odiaria deixar ele na mão daquele jeito.
— Deixa eu te ajudar.
Ele virou o rosto para mim, investigando se eu estava falando sério. Pareceu realmente acreditar quando me ajoelhei no sofá e indiquei um aceno com a cabeça, para que ele levantasse, o que prontamente ele obedeceu, ficando na minha frente, a expectativa tomando conta de toda sua expressão. Era até bonitinho vê-lo daquele jeito, esperando pelo contato da minha boca no seu pau. A malícia tomou conta dos meus lábios em um sorriso pequeno e fui completamente gulosa em abocanhar o seu pau quando ele se aproximou o suficiente.
Ele gemeu ao primeiro contato da minha língua contra a sua carne. Tinha o gosto dele, mas também tinha o meu, uma mistura. Apoiei uma mão na sua bunda e a outra segurei a base do seu pau, começando a chupá-lo devagar, aumentando a velocidade gradativamente, minha mão acompanhando os movimentos da minha boca. Lambi toda a sua extensão e engoli o seu pré-gozo e não demorou muito para que ele gozasse. Ele quis afastar minha boca, mas fiz questão de manter, provocando-o até que ele não aguentasse mais e jorrasse o líquido quente para que eu engolisse.
Seu corpo tremeu novamente, engoli tudo e passei a língua pela sua cabecinha, sem deixar nenhum resquício. Jude suspirou profundamente. Eu não perdi tempo em me afastar, limpar os cantos da minha boca e começar a vestir as minhas roupas, assim que as encontrei no chão. Alguém já deve ter dado a minha falta e seria meio difícil explicar a minha ausência se eu me demorasse mais.
— Eu deveria me sentir ofendido com o quão rápido você está fugindo de mim.
Passei a camisa pela minha cabeça, a última peça de roupa que faltava eu vestir, e me virei para ele, encontrando-o jogado no sofá, ainda completamente suado e nu. Ajeitei o meu cabelo, tentando melhorar a minha aparência o máximo que eu pudesse.
— Espero que tenha se divertido, Bellingham.
— Ainda nem fiz tudo o que sonhei em fazer com você, — ele disse, sem perder a pose. — Espero que da próxima vez, você grite o meu nome.
Me aproximei da porta e girei a maçaneta, um sorriso sutil desenhando os meus lábios com o seu comentário presunçoso. Eu demoraria a admitir para mim mesma o quão bom foi o que acabou de acontecer, mas eu me iludia com a única certeza que eu queria ter:
— Não vai ter uma próxima vez.
Bati a porta, deixando-o sozinho, mas ainda escutei o fantasma da sua risada tremer por todo o meu corpo, plantando a semente da dúvida de que eu não seria capaz de cumprir a promessa que eu tinha acabado de fazer, por mais que eu me mantivesse firme.
Jude Bellingham tinha um poder perigoso nas suas mãos. E eu tinha acabado de ceder a ele.


— Então… você não vai mesmo me contar o que rolou no último el clásico?
Pilar se jogou contra o banco, a voz um tom oitavo mais animada do que eu esperava que estivesse naquela tarde meio ensolarada do Barcelona. Não que ela não fosse uma pessoa propensa a ser animada o tempo todo — na verdade, ela meio que não era mesmo —, mas era o seu interesse, nem um pouco genuíno, que me fazia ativar a carranca desconfiada na minha expressão quando virei o meu rosto para encará-la.
Suas bochechas estavam coradas, resultado do esforço dos exercícios que se propôs a fazer com os meninos no treino daquele dia. Eu, por outro lado, ficava muito bem sentada em um banco que me escondia do sol quase frio, trabalhando silenciosamente com a tela do notebook no meu colo, respondendo a e-mails acumulados e solicitações que eu precisaria dividir com outros estagiários.
— A gente perdeu por 3-2 — respondi, mesmo sabendo que não era à isso que ela se referia.
Como protesto pela resposta, ela me chutou. Devolvi um olhar meio indignado para ela, ao mesmo tempo que alternava minha atenção para o notebook em meu colo.
— Porra, quem te contou? — perguntei, meu tom saindo meio irritado, enquanto eu enviava o último e-mail.
Pilar deu de ombros.
— Ninguém — respondeu, mas meu silêncio e minha expressão deve ter denunciado alguma coisa, porque logo em seguida, ela completou: — O Pedri, tá bom? Ele me disse que você se atrasou para voltar e, coincidentemente, o Bellingham também ficou bem ausente.
Lancei um olhar para o outro lado do campo, onde Pedri estava com os meninos, mas ele não estava olhando na nossa direção, então minha irritação teria que ser direcionada para ele mais tarde. Ao invés disso, resolvi focar na mais velha ao meu lado.
— E daí? — Dessa vez, eu quem dei de ombros, fazendo pouco caso. — Isso não significa nada.
Gostava de pensar que eu estava sendo um pouco mais firme quando se tratava de falar sobre Jude Bellingham. Eu não o via há duas semanas, desde aquele pequeno deslize do qual não me contive em cometer. Achei que o arrependimento iria me corroer por dentro, mas fui surpreendida quando essa sensação nunca chegou. Mesmo quando a euforia passou, o arrependimento nunca veio.
— Ah, significa sim. — Pilar riu, se abaixando o suficiente para pegar a sua garrafa perto do banco no chão. — Significa tudo. Acha que eu não percebi a tensão sexual de vocês?
— Não tinha na…
— Acho melhor você pensar bem antes de completar essa frase — ela me cortou, a sobrancelha arqueada, me desafiando a continuar mentindo.
Bufei, desistindo. Fechei a tela do notebook e me encostei contra o banco, as duas mãos cruzadas abaixo do meu peito. Eu achei que fosse conseguir resistir mais um pouco antes que ela soubesse de tudo, mas eu não tinha problema em contar as coisas para Pilar.
Na verdade, além de Ferran, ela era a única que eu tinha construído uma amizade sólida e verdadeira por ali, quando resolvi me arriscar em passar no teste de estagiária de social media do Barcelona, sem esperança alguma de que fosse ser chamada. Mas eu fui. E como quase sempre eu precisava estar fazendo registro diários dos meninos, às vezes acompanhando-o nas viagens dos jogos, Pilar estava, quase sempre, igualmente presente. Nossa aproximação foi inevitável.
Não que eu não fosse próxima dos meninos. Eles me tratavam tão bem quanto uma pessoa poderia tratar, mas eu não diria que era íntima deles daquele mesmo jeito.
— Vamos, desembucha logo. — Ela perdeu a paciência. — Você fodeu com o Bellingham ou não?
Eu também tive que me acostumar com o seu poço de delicadeza; Pilar não gostava muito de enrolação. Então não tive muita escolha, a não ser abandonar as minhas tentativas de continuar mentindo para mim mesma, admitindo algo em voz alta que eu esperava continuar negando.
— Sim. — Odiei como minhas bochechas esquentaram, mas fiquei feliz que ela deixou isso passar. — E foi no sentido bom da palavra.
Escutei a sua risada ecoar, satisfeita.
— Foi assim que você resolveu descontar a sua frustração por termos perdido um clássico?
Seu sorriso malicioso despontou dos lábios e ela bebeu longos goles de água, o suor escorrendo por sua testa. Balancei a cabeça, eu mesma quase sorrindo com a ironia de tudo. De longe, dava para ouvir as vozes dos meninos se misturando em uma conversa que eu não conseguia entender.
— Ele me provocou — me defendi.
Achei que dessa vez ela teve a decência de não rir de mim.
O olhar que ela me lançou foi apenas para que eu entendesse que o jogador madridista não precisava de muito para aquilo, como se ela acreditasse que uma hora ou outra isso ia acabar rolando de algum jeito. Não sei se veio mais cedo ou mais tarde do que ela esperava, mas não importava, eu não queria saber.
Só precisava que ela entendesse que esse deslize foi algo que aconteceu apenas uma vez. Uma maldita única vez.
— E como foi? — Ela voltou a se encostar contra o banco, bastante interessada em saber.
Bati meu ombro contra o dela, rindo pela primeira vez desde que ela chegou ali.
— Não vou te dar os detalhes sórdidos, Pilar.
— Ah, qual é? — ela se indignou, a testa se enrugando. — Eu te dei alguns sobre o Iñigo.
E eu me lembrava muito bem que ela foi detalhista até demais. Precisei de, pelo menos, uma semana para não pensar em todo conto erótico que ela me narrou envolvendo o zagueiro do time. E eu não podia nem ter reclamado, porque fui eu quem tinha pedido aqueles detalhes. Eu só tinha me esquecido a quem eu estava pedindo aquilo.
— Foi uma exceção — respondi, me defendendo outra vez. — Eu só precisava saciar a minha curiosidade sobre ele.
— Assim como você precisa saciar a minha agora — ela rebateu, rápida. — Como ele fode?
Tão bem quanto eu esperava, pensei.
E eu estava prestes a abrir a boca e dizer exatamente isso, algo com o que ela ia se contentar por ora, mas fui interrompida pela voz de Ferran.
— Quem fode?
— Estamos falando sobre…
— Ninguém — interrompi a frase de Pilar, chutando-a discretamente para que calasse a boca. — Você não vai querer saber.
Ela riu, mas não disse mais nada. Ferran olhou para nós duas com uma expressão desconfiada, mas algo o fez não insistir em querer saber sobre o que estávamos falando. Se eu não tinha nem contado do meu breve envolvimento com o jogador rival para Pilar, com certeza eu não tinha contado para ele. O único que podia desconfiar de alguma coisa era o Pedri, que abriu a boca grande para a mulher ao meu lado.
— Tá, tudo bem. — Ele deu de ombros, se sentando ao meu lado. — O que você resolveu sobre o fim de semana?
O fim de semana que eu precisaria estar com a minha família, da qual precisei tirar duas semanas de licença para isso, aproveitando as férias que eu acumulei e não tirei antes. Voltar para casa era sempre um misto de sensação e eu não sabia se algum dia melhoraria, mas eu continuava indo.
— Vou para Madrid. — A animação forçada não alcançou os meus olhos. — Você sabe o que acontece se eu não for.
Era aniversário de morte da minha avó e, embora eu não gostasse que minha família tivesse feito disso um evento, eu não conseguia deixar de ir para prestar homenagens e honrar a memória dela. Era sempre algo intimista, para pessoas próximas da família e a Sra. Lourdes, que era a melhor amiga da minha avó, mas também era sempre algo que chamasse atenção o suficiente para meu pai se exibir sobre qualquer coisa. Ele adorava se gabar da própria vida boa para o restante da nossa família.
Não só isso, meu pai também adorava me criticar pela minha escolha de faculdade. Vindo de uma família formada por médicos e advogados — incluindo minha irmã recém formada advogada —, eles não aceitaram muito bem o rumo estreito que eu tomei. Havia apenas um caminho possível para o meu futuro, na visão dos meus pais, mas eu fui mais persistente e criei um caminho próprio, da qual segui sozinha e que me levou ao estágio no clube do Barcelona.
Todo evento familiar me frustrava. Eu não tinha a menor vontade de participar de nada com eles, mas o inferno era ainda bem pior se eu não fosse, então eu aparecia, fingia socializar um pouco e caía fora, já que eles nem sequer notariam a minha ausência depois, toda a atenção sendo focada na minha irmã mais velha. Com o passar dos anos, parei de me importar que eu não recebia a mesma importância e passei a me aproveitar dela.
Ferran me encarou em silêncio. Pilar, do meu outro lado, ficou do mesmo jeito, ouvindo a nossa interação.
— Tem certeza disso? — ele se certificou, preocupado. — Eu já te disse que você não deve nada a eles, .
Soltei um suspiro, umedecendo os meus lábios. Aquela era uma batalha que eu ainda não tinha vencido, embora eu soubesse que ele estava certo. Mas família era uma coisa complicada e eu ainda estava tentando lidar com a minha.
— Eu sei, mas está tudo bem, prometo. — Tentei tranquilizá-lo, forçando um sorriso nos lábios.
Para convencê-lo que eu estava tranquila com aquilo, segurei a mão dele contra a minha, que entrelaçou seus dedos aos meus, ainda parecendo cético.
— Quer companhia? — Pilar ofereceu. — Eu posso dizer que o Ferran tá impossibilitado de jogar essa vez e arrasto ele junto comigo.
Ela piscou o olho e eu ouvi a risada de Ferran ecoar entre nós.
— Você ainda não tem esse poder todo — ele lembrou, mesmo que isso não fosse uma possibilidade que ele iria acatar.
— Não — ela concordou. — Mas conheço pessoas que têm. Falando sério, , por que você não manda todo mundo ir se foder e fica aqui?
— O seu método de resolver as coisas pode ser considerado um pouco brutal — avisei a ela, com um sorriso mais sincero, e ela bufou. — Eu agradeço a preocupação dos dois, mas isso não é nada com o que eu já tenha lidado antes. Acho que eu posso fazer minha própria homenagem à vovó ou algo do tipo. A Estela vai estar comigo.
— Mas também é algo que você pode considerar não lidar mais — Ferran complementou, a sobrancelha arqueada. — Você não precisa estar com sua família para honrar a memória da sua avó.
Minha amiga me cutucou, concordando com ele sem muito esforço. Soltei um suspiro novamente e balancei a cabeça, querendo encerrar aquele tópico de uma vez, porque minha decisão já estava acertada.
Além do mais, a minha irmã, Estela, estaria lá. Meus pais podiam nos comparar o tempo todo, me dizendo que eu deveria seguir o mesmo caminho que ela, mas ela sempre me avisava para ignorá-los e não dar importância. Ela me apoiava muito mais do que eles e não ligava para o que eu queria fazer da minha própria vida, contanto que isso fosse o que me fizesse feliz.
Ir para Madrid continuava valendo a pena por ela. E eu também amava a minha cidade, afinal de contas, tinha sido onde eu cresci. Era meio irônico, até, que eu tivesse me apaixonado pelo Barcelona e não pelo Real.
— Por que vocês dois não voltam ao que estavam fazendo e me deixam trabalhar? — Levantei uma sobrancelha para os dois, sugestiva. Não queria voltar ao assunto do jogador proibido com Pilar e nem discutir sobre a minha família com Ferran. A melhor opção era sempre expulsar os dois. — Eu preciso entregar algumas demandas antes do final de semana chegar.
Pilar abriu a boca para reclamar, mas seu olhar foi direcionado para onde os meninos estavam e, de repente, ela se levantou.
— Merda! Tenho que ir, que sorte a sua. — Ela deu um pulo, a garrafa ainda na mão. Mas antes de ir, se virou para mim e disse: — Nosso assunto ainda não acabou, .
E se foi.
Acompanhei os passos apressados dela até entender porque ela tinha se levantado tão rápido. O supervisor que a acompanhava, do seu mestrado em fisioterapia esportiva que o clube oferecia, tinha acabado de chegar, se juntando ao grupo de treino.
Balancei a cabeça e virei o rosto para o meu melhor amigo.
— A gente pode ir jantar hoje — ofereci, brincando com os dedos entrelaçados dele. — Encontrar um lugar novo e tudo mais, antes que eu vá para Madrid. Duas semanas longe é muito tempo, certo?
Não forcei nenhum sorriso dessa vez e ele retribuiu. Estava um pouco suado por conta do treino em grupo e não parecia querer soltar a minha mão. Para os olhos alheios, éramos muitos íntimos um com o outro e estar de mãos dadas daquela maneira com certeza incitava a imaginação alheia que acompanhava a fofoca que sempre saía sobre nosso possível envolvimento romântico, mas entre nosso grupo de amigos, ainda que nos zoassem um pouco, eles sabiam a verdadeira natureza do nosso relacionamento. Era só o que importava para mim.
— Você sabe que eu sobrevivo bem mais sem você, certo? — ele brincou.
Chutei a perna dele com força, recebendo uma careta sua de presente, um gemido involuntário escapando dos seus lábios.
— Porra — reclamou. — Você está andando demais com a Pilar. Desde quando você é agressiva desse jeito?
— Desde que você está sendo um idiota — reclamei de volta, soltando a minha mão da dele de próposito. Peguei o notebook do meu colo e me levantei. — Janta sozinho, então. Não vou a lugar nenhum mais.
Dei as costas para ele e fui andando, mas eu conseguia ouvir o som da sua risada me seguindo. Eu não precisava me virar para saber que sua expressão exalava diversão e dois segundos depois, ele estava me segurando pelos ombros, bem atrás de mim.
— Não seja tão radical, — ele disse, a voz suave, perto do meu ouvido. — Duas semanas longe de você e do seu humor brilhante é tempo pra caralho.
Continuei andando, fingindo não ouvir o que ele estava dizendo, tentando reprimir o meu sorriso, que queria escapar.
— E o que mais?
Ele apertou os meus ombros, seguindo o mesmo ritmo dos meus passos.
— Você é a melhor amiga do mundo todo — Ferran continuou.
Demorei um pouco a responder, minhas mãos em volta do notebook de um jeito mais firme. Eu me aproximava dos meninos na linha de campo em que eles estavam treinando alguma coisa com a Pilar, que assumiu a personalidade exigente. Eu conseguia ver daqui, uma distância segura, as bochechas de alguns meninos completamente coradas.
— Não é suficiente — respondi, finalmente.
Ferran tirou as mãos dos meus ombros e se materializou bem na minha frente, o que fez com que eu parasse de andar.
— Eu te pago um jantar no Caliento — ele prometeu.
Me senti tentada a perdoar sua gracinha no mesmo instante. Bastava eu ouvir aquele nome para começar a salivar, a vontade se formando dentro de mim, e ele sabia que o jogo estava vencido.
— Achei que a proposta fosse restaurantes novos — lembrei-o. — Nós já fomos nesse.
Ele sorriu, completamente convencido.
— Não importa, há sempre uma exceção — disse, sem se importar. — É seu restaurante favorito e depois você vai passar duas semanas em Madrid. Diga logo que sim, . É tudo por minha conta.
Eu não precisei responder. O sorriso que eu exibi foi resposta positiva o suficiente para ele saber que eu aceitei antes mesmo de sequer pensar sobre isso.


Uma notificação do instagram chamou a minha atenção assim que puxei o celular para verificar se minha irmã tinha respondido a mensagem que eu mandei mais cedo sobre o meu voo.
Enquanto Ferran ainda estava no banheiro do restaurante que tinha prometido me trazer, aproveitei para me distrair com o aparelho, mas duas semanas depois, eu não esperava que eu fosse ler o nome dele na minha barra de notificação. Não me orgulhava de verificar se ele continuava vendo meus stories, mas eu nunca via os dele, mesmo sendo um perfil público, e nem sequer o seguia, mas aparentemente, ele não se importava com isso.
Estreitei os meus olhos e li de novo, só para saber se eu estava mesmo lendo certo. Tinha várias outras notificações no meio: de e-mails, mensagens de grupos do whatsapp, ligações perdidas, marcações de stories e menções do twitter, mas só prestei atenção naquele.

Jude Bellingham deseja te mandar uma mensagem.

Ele curtia alguns dos meus stories, estava sempre na notificação de curtida de fotos, mas até então, nunca tinha respondido nenhum stories meu. Não que eu seja tão ativa quanto a Pilar era, por exemplo, eu só gostava de postar coisas simples do meu cotidiano e até um pouco dos bastidores do trabalho no gramado com os meninos.
Indecisa se eu abria ou não, tomei mais um gole de vinho e passei os olhos pelo restaurante, mas Ferran não estava vindo de lugar nenhum. Ele tinha reservado a mesa antes mesmo de ter me convencido a aceitar o convite, então estávamos em uma área mais reservada, para que nossa privacidade fosse respeitada, embora se houvesse fãs, ele não recusasse atender. A gentileza sempre despontava do sorriso nos seus lábios para uma foto, e nas pontas dos dedos na hora de autografar qualquer coisa.
Lembrando que Jude não ia conseguir ver se eu li a mensagem a menos que eu respondesse, tomei coragem e cliquei na notificação, abrindo o seu chat pela primeira vez. A mensagem era uma resposta ao stories que eu postei há quase uma hora, quando saí de casa com Ferran. Não tinha nossos rostos na foto, eu apenas registrei, dentro do carro, que estávamos com roupas combinando sem querer, uma foto um pouco desajeitada, mas quase, bem… íntima.
Provavelmente acabei de alimentar os rumores de que nós tínhamos algo além da amizade, mas tudo bem, eu não me importava. Estar com uma celebridade era quase como assinar um contrato de que seu nome também estava se tornando público, principalmente no meio de fofocas e rumores.
Você me superou rápido, era o que a mensagem dizia. Me repreendi mentalmente por esboçar um sorriso com aquilo. Eu não devia ter qualquer reação tão positiva com o Bellingham assim, mas merda, ele tinha um certo charme. Mesmo que eu conseguisse odiá-lo de verdade, com todo meu ser, desconfiava que ele ia conseguir atravessar esses muros apenas com o seu carisma sedutor. O sorriso era sempre um bônus, porque embora eu não fosse admitir isso em voz alta para ninguém, depois daquele el clásico, procurei por alguns vídeos seus. Em sua maioria entrevistas, e em todas, eu notei que seu sorriso sempre chegava aos seus olhos, demonstrando a sinceridade com que ele repetia aquele gesto.
Dizendo algo tipo ei, isso não é um sorriso vazio ou forçado, até eu me dar conta do que estava fazendo e parar.
Quando eu estava prestes a pensar em aceitar a mensagem e responder, Ferran apareceu e se sentou no seu lugar, de frente para mim. Levantei o rosto na direção dele e bloqueei a tela, guardando o celular.
— Você demorou — falei qualquer coisa, apenas para dissipar a mensagem da minha mente e me distrair.
Sua taça de vinho acabou e ele não pediu por outra, por causa do treino que teria amanhã. Sempre evitava beber em exagero, mas às vezes se contentava com uma taça. Eu, por outro lado, estava na minha terceira, com ele me acompanhando com suco sem açúcar.
— Duas fãs me pararam — ele explicou, mesmo que eu não tivesse notado de verdade que ele tinha demorado mesmo. — E uma delas tentou enfiar um guardanapo com seu número no bolso frontal do meu casaco sem que eu percebesse.
Ele me estendeu o guardanapo com um número escrito em uma caneta rosa e eu ri, balançando a cabeça. O que me levava a lembrar um assunto que não era nosso tópico favorito, mas eu abordava mesmo assim, porque minha preocupação com sua saúde mental era maior do que qualquer coisa.
Fase ruim todo mundo tinha. Mas a de Ferran pareceu vir com uma sequência infinita em que as coisas nunca pareciam melhorar, tanto no quesito amoroso, quanto profissional. Tive que ler e escutar comentários horríveis a respeito dele, não de modo pessoal, mas como o jogador que não cumpria as expectativas que os torcedores esperavam.
Vi de perto como tudo afetou ele. Sempre tentei oferecer meu apoio emocional, mas incentivei que ele buscasse ajuda profissional, porque minha amizade e qualquer apoio não seria base suficiente para sustentar nada.
— Nós vamos falar do assunto proibido? — investiguei.
Ele pegou um pouco da sua sobremesa, um sorvete de pistache com morango, levou a colher à boca e me encarou em silêncio.
— Por que falaríamos da minha ex? — ele retrucou, com cuidado.
Cocei a minha bochecha e encostei meus dois braços contra a mesa.
— Ah… — Umedeci meus lábios. — Porque ela é amiga da Carmen, tipo, super amiga, vivem juntas quase o tempo todo, indo para os jogos, principalmente, e eu não me preocuparia com isso, se a Carmen não tivesse começado a ficar com o Gavi, que, uau, é seu colega de equipe?
Eu tinha dito aquilo tudo bem rápido, quase sem respirar, o que me fez soltar um suspiro logo que terminei de falar, recebendo outro olhar dele.
— E qual é o problema?
— Ela está voltando a frequentar o seu círculo social, Ferran — respondi, apontando o óbvio.
Ele pareceu entender melhor onde eu estava querendo chegar. Eu não devia me meter na sua vida àquele ponto, mas eu tinha certas vantagens como sua melhor amiga, então ignorava o que seria ultrapassar o limite ou não.
Ou talvez eu simplesmente não gostasse da sua ex.
Não por motivo de ciúme ou algo do tipo, mas porque ela foi uma irresponsável emocionalmente com ele.
— Você está preocupada que eu tenha uma recaída? — ele investigou.
Revirei os olhos e desencostei meus braços da mesa, voltando a beber o restante dos goles do meu vinho que ainda sobrou na taça. Eu ainda podia beber mais, mas resolvi que já estava bom o suficiente.
— Não, acho que você não seria burro à esse ponto — respondi, mas depois franzi o cenho, pensando melhor. — Ou talvez sim, você é homem.
O ar de riso assumiu a sua expressão.
— Vou tentar não levar isso como uma ofensa — ele retrucou. — Mas falando sério, , embora eu entenda a questão da sua preocupação, não acho que você precise pensar tanto sobre isso. — Ele deu de ombros despretensiosamente. — Eu tô bem.
Mordi a minha bochecha, processando as duas palavras, enquanto avaliava, ao mesmo tempo, a sua expressão, procurando por algum vacilo ou algo que denunciasse que ele só estava dizendo aquilo para encerrar o assunto, porque como eu tinha dito, não era o nosso assunto favorito.
Discutir sobre a vida sexual dos pinguins era um tópico ainda melhor do que a sua ex. — Além do mais, — ele continuou, quando eu não respondi — nós tivemos um término amigável.
Eu tinha uma visão completamente diferente daquela afirmação.
— Se você diz. — Eu quem dei de ombros dessa vez, aceitando não prolongar aquilo. — Mas não suporto a presença dela em qualquer lugar que seja. Ainda preferia que ela não fosse tão grudada com a Carmen.
Ele riu, terminando a sobremesa.
— Isso diz mais sobre sua percepção pessoal sobre ela do que sua preocupação sobre mim — pontuou.
Fiz uma bolinha de guardanapo e joguei contra o rosto dele.
— Não sou obrigada a gostar ou simpatizar com pessoas que magoam os meus amigos, ok? — me defendi.
Acho que Ferran não entendia a importância que tinha para mim, tipo, pra valer. Na verdade, às vezes, achava que nem mesmo eu entendia. Nunca tive muitos amigos com quem comparar uma relação duradoura ou íntima dessa forma. Não dava para contar pela minha amizade com a Estela, que acima de tudo, era mais minha irmã do que minha melhor amiga, e nem com a Pilar, que era recente.
No final, talvez eu devesse aceitar que algumas coisas simplesmente aconteciam assim.
— Que sorte a minha ter você — ele disse, com um sorriso brincalhão, mas eu senti a sinceridade das suas palavras.
Apoiei um cotovelo sobre a mesa e meu rosto contra a minha mão.
— Que bom que você se sente assim — eu disse. — É mesmo um privilégio ter a minha amizade.
Dessa vez, ele quem formou uma bola com os guardanapos e jogou contra o meu rosto, nossas risadas se misturando.
— Você é tão convencida!


Apesar de não morar mais em Madrid, a cidade parecia me receber com os braços sempre bem abertos.
Eu já tinha me acostumado com o quão cansativo eram essas idas e vindas entre Madrid e Barcelona, a segunda sendo minha cidade atual, porque eu agarrei a oportunidade de trabalhar no clube do Barcelona, algo que eu tinha almejado desde que iniciei minha graduação. Não era algo que tinha deixado a minha família feliz, mas sendo alguém que nunca foi de dar muito orgulho para duas pessoas que me colocaram no mundo, eu decidi não levar esse peso em consideração.
No entanto, ainda assim, isso não me impedia de voltar à minha cidade natal. Na verdade, se eu fosse sincera, era mais pela minha irmã que eu continuava voltando. Estela sempre insistia que eu comparecesse. Ela não gostava de como nossos pais me tratavam, por isso, sempre tentava ser um peso a menos em toda a situação e conseguia amenizar as coisas comigo. Eu era muito grata, de verdade, que nossa relação era bem melhor do que a que eu tinha com minha mãe e meu pai.
Mamãe não era tão ruim, meu pai era mais rígido em todo o sentido e, não querendo nunca contrariar o marido, ela acabava indo mais por ele do que por mim.
Ainda que eu sempre preferisse me hospedar em algum hotel por perto, Estela não deixava. Ela meio que me obrigava a voltar para casa todas as vezes, avisando que meu quarto sempre estava à minha espera e ninguém tinha mudado nada. Ela mesma trancava e guardava a chave, abrindo só para eventual limpeza.
Parada em frente a porta de casa, depois que desci do uber, com uma mala de rodinhas média, que era decorada com figurinhas de todo tipo, soltei um suspiro, tentando me preparar mentalmente para as próximas duas semanas na casa que foi meu lar a vida inteira, mas que me transmitia, agora, um misto de sensações conflitantes. Não fazia muito tempo que fui embora dali. Não só isso, como também fui mais longe e mudei de cidade. Ousei arriscar as coisas sozinha e tive sorte que deu certo.
Eu não teria suportado as coisas darem errado e ter que voltar para casa, admitindo que meus pais estavam certos quanto às minhas escolhas. O orgulho talvez fosse meu maior defeito, mas aquilo doeria mais do que não conseguir atingir meus próprios objetivos. Quando uma rajada de vento úmido passou por mim, senti meu celular vibrar com algumas mensagens, mas assim que me preparei para pegar o aparelho e verificar as notificações, a porta foi aberta e a voz da minha irmã me atingiu a uma curta distância, o sorriso surgindo nos meus lábios instantaneamente.
Foi naquele momento que eu percebi a dimensão da saudade que eu estava sentindo dela.
— Você chegou! — ela exclamou, correndo até mim.
Não me deu chance alguma. Estela me abraçou com uma força exagerada, me apertando contra si, que era dois centímetros mais alta, sem me oferecer espaço para que eu a abraçasse adequadamente, meus braços presos entre o esmagamento do seu corpo contra o meu.
— Puta merda, que saudades eu estava de sentir esse cheiro enjoativo de frutas vermelhas do seu shampoo — ela reclamou, ainda sem me soltar.
Soltei uma risada e belisquei sua barriga de propósito com a implicância.
— É o melhor cheiro do mundo — rebati.
Finalmente, ela me deu espaço. Me olhou de um jeito cético e balançou a cabeça, deixando um beijo contra o meu cabelo. Ela reclamava, mas no fundo, amava aquele cheiro. Já a flagrei entrando no meu quarto diversas vezes só para roubar um frasco de shampoo.
— Tenho algumas ressalvas — ela continuou implicando. Em seu rosto, surgiu seu melhor sorriso. — Estou feliz que você realmente está aqui.
Quando contei para ela que decidi fazer a faculdade em Barcelona, ela me apoiou instantaneamente. Não disse que era loucura ou algo do tipo, embora aqui em Madrid eu também tivesse excelentes opções, mas ela sempre entendeu a minha paixão não só pela outra cidade, como também pelo time rival. A única coisa que ela disse foi que sentiria minha falta. Todos os dias.
Olhei para a casa, me sentindo meio nostálgica, e acho que ela deve ter visto algo na minha expressão que não tive a intenção de mostrar, porque logo em seguida, ela voltou a falar.
— Eu sei que para você não deve ser…
— Tudo bem, Estela — tranquilizei-a com um sorriso sincero. — Eu também estou feliz de estar aqui.
E eu estava mesmo. Estar longe de casa me fazia querer voltar e matar a saudade que sentia dela estando longe. Ela me lançou um sorriso e me ajudou com a mala pequena, insistindo em levar, e eu apenas a segui, levando o peso único da minha bolsa de costas. Assim que passei da porta e coloquei os meus pés na sala, o cheiro típico de lavanda impregnado na sala invadiu minhas narinas e relaxei. Não tinha percebido, até então, que meus ombros estavam rígidos e tentei soltar os meus músculos.
— Eles estão em casa? — perguntei, tentando escutar algum barulho que denunciasse a presença deles.
Estela começou a subir as escadas que levava ao primeiro andar, em direção ao meu antigo quarto, que já estava com a porta aberta.
— Não, só chegam amanhã — respondeu enquanto subia.
Me permiti relaxar ainda mais. Assim que chegamos ao meu antigo quarto, tudo continuava do mesmo jeito, como ela tinha me prometido que ficaria. Os posters no mesmo lugar, os quadro decorativos ainda desbotados do mesmo jeito, meu bom e velho computador e o guarda-roupa meio vazio. A cama estava forrada, meu cheiro de lavanda favorito impregnando o ar.
Tudo no mesmo lugar. Do mesmo jeito. Como se eu nunca tivesse saído daqui.
Estela colocou minha mala ao lado da cama e abriu um sorriso suspeito. Conhecendo-a como eu conhecia, eu já sabia que meus planos não seriam me jogar na cama e dormir pelo resto do dia, porque ela já planejou outra coisa sem eu saber. E considerando que ali era Madrid e ela era uma pessoa bastante social, podia ser qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.
— Tenho uma surpresa — ela anunciou, andando até a escrivaninha que ficava o computador em cima.
Me sentei na cama e tirei meus sapatos, esticando os meus dedos dormentes.
— Eu ‘tava com medo de ouvir essa frase — confessei.
Ela deu de ombros e abriu a gaveta pequena, tirando de lá algo que parecia muito com um ingresso. Não me lembrava de algum artista que nós duas gostássemos que iria fazer show em Madrid, então não consegui adivinhar de primeira.
— Balada? — arrisquei, levantando uma sobrancelha.
Ela negou prontamente, se sentando ao meu lado. Em seguida, me estendeu os ingressos.
— Não, é algo mais a sua praia.
Ingressos para o jogo do Real Madrid mais tarde. Não só isso, era passe VIP. Estreitei os olhos para ela, devolvendo os ingressos.
— O Real Madrid não é a minha praia.
Estela revirou os olhos, aceitando os ingressos de volta.
— É seu trabalho de qualquer forma, certo?
Me levantei, doida para tomar um banho. Fui até o armário do meu banheiro, verificar se havia toalhas limpas ali e percebi que minha irmã também cuidou dessa parte, além de ter os meus cremes faciais favoritos ali, mesmo que eu tivesse trazido os meus próprios produtos.
— Eu trabalho no Barcelona, você sabe disso, certo? — me certifiquei, voltando para o quarto. Meus olhos pararam nela. — Imagine como pega mal eu ser vista em um jogo do Real.
— Você assinou alguma cláusula que te proíba de pisar no Bernabéu?
— Não.
— Então eu não vejo problema.
Bufei, deixando meus ombros caírem em clara derrota. Eu estava sendo uma ridícula hipócrita. Pega mal ser vista em um jogo do Real com a minha irmã? Experimente se descobrirem que eu fiquei com um rival.
Não que eu devesse me importar com o que pessoas desconhecidas vão dizer da minha vida. Pilar bem tinha dito que a internet estava cheia de pessoas maldosas e que deveríamos ignorar 90% dos comentários de qualquer coisa naquele submundo, onde qualquer um podia se esconder através do anonimato.
Mas a rivalidade entre o Real Madrid e o Barcelona era bastante intensa. Eu preferia não estar envolvida nesse meio de outro jeito que não fosse como uma torcedora. Por mais que eu quisesse ceder a um desejo dela, eu precisava priorizar uma coisa mais importante: o futuro da minha carreira.
— Olha, eu entendo, mas pensa um pouquinho do meu ponto de vista — comecei, suspirando. — Você, como torcedora madridista, sabe mais do que ninguém o quão intensa essa rivalidade entre os dois times é. Eu ainda não tenho uma carreira consolidada lá dentro e prefiro muito preservar a minha imagem não sendo vista dentro do Bernabéu torcendo para um time que eu não gosto.
Minha irmã estreitou os olhos, desgostosa. Olhou para os dois ingressos VIP do jogo na sua mão e bufou, se jogando contra a cama, e eu sabia que tinha vencido aquela batalha.
— Ok, ok, tudo bem, eu entendo. — Ela se deu por vencida e levantou o rosto um pouco para olhar pra mim. — Mas mesmo assim, você não se safou de sair comigo hoje à noite. Depois do jogo, vai rolar um social com o time naquela boate privada. Eu prometi à Mina que iria, e você vai comigo.
Queria recusar. E estava prestes a abrir a boca e dizer isso, que estava cansada demais da viagem para aproveitar qualquer festa, mas ela foi mais rápida que eu quando levantou e apontou um dedo em riste para mim, com aquela expressão determinada que só ela tinha.
— Não aceito não como resposta — avisou e estalou um beijo na minha bochecha, saindo em seguida.
21 anos e nunca consegui dizer não para minha irmã em nenhuma ocasião. Dificilmente eu iria mudar aquele placar.


Você sentia rápido quando estava em território inimigo.
A social que Estela tinha mencionado na boate privada realmente foi confirmada depois do time ter vencido a partida por 4 a 2, subindo mais três pontos na tabela, o que não me deu escolha, a não ser deixar que ela me arrastasse junto. Eu até consegui descansar um pouco, até ter meus lençois puxados por ela, me acordando de um jeito nada delicado, praticamente intimando que eu me arrumasse logo, ou nos atrasaríamos.
Agora, ali, parada na entrada da boate, enquanto ela resolvia nosso passe com o segurança particular, foi que eu processei que eu estava praticamente indo de bom grado confraternizar com os que eram conhecidos como meus rivais. Bom, não exatamente meus, considerando que eu não era nenhuma jogadora em campo jogando contra eles, mas eu torcia para o time contrário, que por acaso, era o maior rival deles na Espanha, então o sentimento era semelhante.
Mas fora do campo, as coisas eram meio deixadas de lado.
Quando o segurança, enfim, permitiu a nossa entrada, minha irmã me puxou pela mão para entrar no local. O cheiro de bebida doce foi a primeira coisa que eu senti. Não estava cheio, como era o costume da boate, porque os jogadores fecharam o espaço para eles por uma noite. Eu nem mesmo lembrava mais que horas eram, mas já estava bem tarde, e nem mesmo tinha ideia de que eles deveriam estar ali. Normalmente, eles eram colocados em uma rotina rígida para seguir treinando no dia seguinte a qualquer jogo.
As luzes estavam claras o suficientes, colocadas em locais estratégicos, deixando o ambiente no limiar entre a iluminação e a parte um pouco mais escura, caso você optasse por estar ali. Havia alguns homens atrás do bar, contratados para servir naquela noite, uma música suave tocava e, conforme Estela ia me arrastando, se aproximando do que parecia ser um grupo, consegui distinguir vozes e risadas se misturando.
— Estela! — alguém gritou.
Minha irmã se empolgou, soltou a minha mão e correu na direção da pessoa que chamou o seu nome, e só percebi quem era depois, quando observei os fios lisos do cabelo, reconhecendo Mina. Fiquei logo atrás dela, esperando o abraço caloroso se desmanchar, ouvindo as duas trocar palavras que eu não conseguia entender, saindo tudo embolado.
As duas eram amigas há muito tempo. Bem antes de Mina se envolver com Valverde, que hoje era meio-campista do Real Madrid, o que também aproximou minha irmã do pessoal do time.
— Você lembra da ? — Estela perguntou para Mina, se desfazendo do abraço, apontando para mim.
O sorriso de Mina espalhou-se em mim e eu estiquei os meus lábios em um igualmente caloroso. Ela estava muito mais bonita agora, os cabelos um pouco mais longos do que eu me lembrava, vestida impecavelmente em um vestido que ia até acima dos joelhos. Havia pouca maquiagem em seu rosto e seu perfume doce misturava-se ao álcool que ela devia estar consumindo antes mesmo da gente chegar.
! — ela exclamou, vindo me abraçar também. — Que bom ver você aqui. Já faz um tempo que não te vejo.
— É, agora eu tô em Barcelona.
Ela me soltou.
— Eu soube — disse, assentindo. — Como anda sua experiência por lá?
Lambi meus lábios e puxei um pouco a saia justa para baixo. Estela também me enfiou dentro daquela roupa, mesmo que eu tivesse optado por um vestido mais confortável e leve, mas ela não quis nem ouvir. Ao menos optei por deixar os fios dos meus cachos soltos e pintei meus lábios de uma cor vinho.
— Superando minhas expectativas — respondi, ainda sorrindo.
Ela assentiu, entendendo. Minha irmã disse algo para ela e Mina olhou para trás por um momento, antes de se virar para nós duas novamente.
— Venham, vamos nos enturmar.
Seguimos ela por toda extensão do bar.
Algumas pessoas desconhecidas — provavelmente amigos comuns dos jogadores — também estavam por ali, virando um shot de algo que eu não reconheci. Continuei seguindo Mina, com minha irmã do meu lado, e vi quando ela parou de andar. Franzi o cenho e olhei para ela com uma expressão confusa, direcionando meu olhar para onde ela estava olhando, paralisada.
Encontrei Lucas Vazquez, acompanhado de Rüdiger, Carvajal e Vini Júnior, rindo de algo que seu companheiro de equipe disse. Minha expressão suavizou em entendimento e virei o rosto para ela.
— Você não considerou que ele estaria aqui? — investiguei, mordendo o lábio.
Estela bufou, revirando os olhos para mim. Mina estava logo à frente, sem perceber que nós duas paramos de andar.
— Claro que eu considerei — ela disparou, respirando fundo. — É só que… toda vez que eu ainda vejo ele, eu…
— Entendi.
— Você nem me deixou terminar.
Dei de ombros, sorrindo vitoriosa.
— Não precisa. Mesmo que você me diga apenas meia palavra, sua expressão entrega tudo para mim — expliquei, apontando para todo o seu rosto.
Minha irmã se envolveu com Vazquez há um tempo. Eu não entendia muito bem a natureza da relação deles, e nem me esforcei muito, já que nem Estela fazia questão de tentar explicar. A única coisa que eu tinha certeza, era essa: eles estavam saindo. Parecia algo sério, parecia de verdade que ela estava gostando de sair com ele, da companhia dele, ela ia praticamente a todos os jogos que aconteciam e, de repente, eles pararam de se ver. Ela tinha me dito que eram muito diferentes e que precisava começar a focar na própria carreira e precisava evitar distrações, mas conhecendo-a como eu conhecia, eu sabia que tinha algo mais.
Ela só não me contava o quê.
Toquei o braço dela, fazendo-a olhar para mim.
— Isso vai ser um problema? Porque nós podemos…
— Não, tudo bem — ela me interrompeu rápido demais. — Vem.
Apressamos nossos passos até Mina. Ela virou-se bem a tempo de nos ver chegando.
— Querido, as meninas chegaram — ela anunciou.
Valverde virou o rosto na direção dela, o sorriso brilhando nos lábios, e eu reparei que ele estava em uma roda com outras pessoas. Diversas bebidas estavam postas na mesa de centro, todos eles sentados em sofás confortáveis, alguns petiscos acompanhando a bebida. Os olhares curiosos dos outros foram imediatamente direcionados para nós três e senti minha irmã evitando olhar para o outro lado, onde Vazquez estava.
Valverde levantou-se e veio na nossa direção.
— Senti sua falta no jogo de hoje — ele disse para Estela. — Achei que ia comparecer. Minha irmã deu de ombros e olhou para mim rapidamente.
— Tive um pequeno imprevisto — justificou-se. — Quem sabe na próxima.
Ele riu e assentiu, os dois trocaram um breve abraço, e depois ele me cumprimentou.
— Oi, , como vai?
Assim que respondi, ele nos apresentou para o restante do pessoal. Ele e Mina voltaram a se sentar ali, mas eu precisava muito de uma bebida para começar a socializar daquela maneira, e não tão perto de tantas pessoas. Principalmente de quem eu nem era tão íntima assim, embora conhecesse alguns jogadores de vista.
— Eu vou ficar no bar um pouco, tá bom? — avisei à minha irmã, que assentiu, e se juntou à Mina.
Mas eu não consegui nem mesmo chegar até o bar.
Meu corpo trombou com o de alguém no meio do caminho e, prestes a me desculpar pelo meu descuido, senti duas mãos me segurar pelos braços, como se quisesse me impedir de cair ou cambalear para trás.
O perfume familiar invadiu as minhas narinas e, quando lentamente levantei o rosto na direção da pessoa com quem acabei de trombar, dei de cara com o sorriso charmoso e característico de Jude Bellingham.
Seus olhos brilhavam com uma surpresa genuína. Duas semanas de distância estava entre nós e aquela lembrança da sala do estádio. Fui ingênua em torcer que ele não estivesse ali hoje, quando eu, claramente, estava no ambiente dominante dele.
.
O som suave da sua voz dizendo o meu nome reverberou por todo o meu corpo e soltei a respiração que não percebi que estava prendendo. Pisquei meus olhos para ele e me livrei das suas mãos, segura de que eu estava firme o suficiente para não cair com qualquer impacto. Meus olhos desceram por ele, notando a roupa social que ele usava, fora daquele kit branco do seu time, transformando-o em alguém… comum.
A camisa social branca com os botões meio abertos me dava uma visão tentadora de seu peitoral e me obriguei a subir meus olhos, a deixar eles em seu rosto, em uma área segura, que não fizesse minha mente ir muito longe dali. Eu não tinha nem mesmo dito uma palavra, qualquer coisa, e ele ainda estava sorrindo e eu estava no mesmo lugar.
— Bellingham — eu finalmente disse, imitando-o.
Risadas se misturaram ao nosso redor. Saí do meu próprio transe e contornei o corpo dele, andando até o bar, mais afastada das outras pessoas, e levantei uma mão, chamando um dos barman.
— Pode me dar uma dose de whisky, por favor?
Não era o que eu pretendia pedir. Eu tinha em mente começar com uma cerveja ou um drink menos doce, mas a necessidade de algo mais forte acabou se sobrepondo diante do que acabou de acontecer. Quando me sentei em um dos bancos altos livres ali, percebi que Bellingham estava se sentando bem ao meu lado, inabalado pela minha fuga repentina.
O barman assentiu para o meu pedido e se mandou dali, me restando esperar que a bebida chegasse.
— Você não respondeu à minha mensagem — o jogador disse.
Ele não ia me deixar em paz.
Eu conseguia sentir o seu sorriso na sua voz, um calor familiar presente no meu estômago. Não estava nos meus planos dar papo para ele novamente, eu realmente pretendia que a nossa foda no El clásico fosse a única e última vez que aconteceu. Um evento que se consolidou exclusivamente para não me fazer repetir.
Algo que estava destinado a acontecer somente uma vez.
Mas quando virei o rosto para encará-lo, mais perto do que o normal, minha mente fervilhou com as lembranças daquele dia, do seu corpo suado colado ao meu, da sua boca me experimentando em locais que me fazia revirar os olhos de prazer, dos seus lábios me provocando sensações inebriantes.
Minhas mãos tremeram de um desejo contido e me odiei por meu corpo estar me traindo daquela forma, quando eu pretendia levar a minha promessa bastante a sério, mesmo que ele não estivesse ajudando, com seu perfume invadindo minhas narinas.
Espero que da próxima vez, você grite o meu nome.
— Eu não tive tempo — respondi, limpando a garganta.
Ele pediu cerveja a outro barman, sem tirar os olhos de mim. A tensão palpável estava começando a me incomodar.
— Então pretendia me responder? — ele questionou, um fio de provocação em seu tom de voz.
— Não — menti.
Algo em minha expressão o fez sorrir. Parecia que a boate inteira foi fechada exclusivamente para nós dois, pois eu não conseguia mais pensar em ninguém além dele ali. O som distante das vozes e da música era só isso: um som distante.
Estávamos na área mais longe de todo mundo, onde a luz ainda piscava para conter a escuridão. Eu conseguia vê-lo perfeitamente, o rosto esculpido em uma beleza única, daquelas que não deixava dúvidas em ninguém sobre o quão bonito ele era, porque ele era. Ponto final.
— Você mente muito mal — ele apontou. — Com quem você estava naquela noite?
Mordi a minha bochecha internamente.
— Não é da sua conta — disparei.
Ele não se abalou.
Ao invés disso, seus olhos queimaram por mim, descendo por cada centímetro do meu corpo, e era como se eu soubesse o que ele estava pensando, do que ele estava lembrando. Engoli a seco e ignorei as batidas erradas do meu próprio coração ao perceber que ele estava me afetando de um jeito que eu não deveria deixar.
— Estou surpreso que você está aqui — admitiu, em um sussurro, claro o suficiente para que eu conseguisse ouvir. — Tem noção do quanto venho pensando em você desde que minha boca experimentou o seu sabor?
Precisei de muito esforço para conter a minha respiração, que ameaçou se alterar. Suas palavras soaram como um tipo de alucinação, mas eu sabia que era real, eu estava vendo sua boca se mexer, o seu sorriso crescer, sua diversão em me provocar.
— Você… — tentei dizer, mas fui interrompida com o barman chegando com as nossas bebidas.
Ele ofereceu a garrafa de cerveja para Bellingham e me entregou meu copo com a dose de whisky e pensei que o álcool chegou em uma boa hora. Contornei tudo em um gole só, o barman me olhou com uma sobrancelha arqueada enquanto eu passava a costa da minha mão pela minha boca, limpando qualquer resquício de líquido escorrendo. Eu mal senti a bebida queimando, porque eu já estava me sentindo quente o suficiente para driblar aquilo.
O jogador inglês continuou me observando em silêncio.
Empurrei o copo de volta para o barman e sorri fechado, pedindo a mesma cerveja que Bellingham tinha pedido. Ele assentiu, pegou o copo e se foi, me deixando sozinha com o garoto ao meu lado de novo.
— Você está gostosa com essa saia — ele lançou, bebendo um gole da garrafa. — Não que você não seja sempre, mas essa saia…
Gemi involuntariamente, desgostosa com o rumo daquela conversa. O ordinário não estava ajudando em nada, porra. Eu evitava olhar para o seu rosto, porque meus olhos insistiam em descer para o seu corpo, para aquela camisa meio aberta, para ignorar o fato de que ele também estava gostoso pra caralho e minha sanidade estava por um fio.
Ele não era tão irresistível assim, é o que eu dizia para mim mesma, na tentativa de me convencer.
— Não vou ficar com você de novo — disparei, certa de que soei bastante determinada e convincente, mas senti minha voz vacilar e torci para que ele não tivesse percebido esse deslize.
Ele riu. Um som grave e áspero que atiçou o fundo da minha mente e me fez voltar a olhar para ele com uma intensidade nova. Que Deus me ajudasse, eu adorava aquele brilho nos olhos dele, a leveza em como ele era sincero, transparente e confiante.
— Como uma garota de Madrid se tornou uma culé? — ele perguntou.
Foi uma mudança tão repentina de assunto que fiquei confusa, a testa franzida em duas rugas distintas, os olhos ainda disparados contra ele, tentando entender. Reformulei a pergunta mentalmente, lambi meus lábios e me ajeitei contra o banco.
— Um presente da minha avó. — Para minha surpresa, me vi respondendo. — Ninguém amava o futebol mais do que ela e acompanhei de perto a sua paixão pelo Barcelona. Ela me levava a quase todos os jogos e estar no Camp Nou era…
Balancei a cabeça, sem saber como descrever a sensação. Existia milhares de palavras, milhares de descrições, sensações infinitas, e nenhuma apareceu na minha mente para explicar como eu me sentia. No entanto, estranhamente, ele pareceu entender, a julgar por sua expressão suave.
— Mas você não cresceu no Barcelona, certo? — ele continuou, curioso.
— Não, eu cresci aqui.
O barman voltou, me entregando a garrafa de cerveja. Agradeci com um sorriso e ele se foi novamente. Bebi um gole, me acostumando com o gosto amargo, sentindo os olhos de Jude em mim o tempo todo.
— E você? — disparei de volta. — Como é que um garoto claramente fã do Messi se tornou madridista?
Ele lambeu o próprio sorriso e bebeu um gole da sua cerveja.
— Na nossa carreira, a gente precisa se desvincular de certo favoritismo e aceitar as grandes oportunidades que surgem — respondeu, seguro. — O Real Madrid foi a minha.
— E se o Barcelona tivesse pedido por você? — perguntei, testando. — Você teria aceitado?
— Talvez. — Ele encolheu os ombros, a resposta enigmática. — Isso teria aumentado minhas chances com você?
Foi a minha vez de rir, e percebi, pelo brilho em seus olhos, que minha risada o pegou de surpresa. Era a primeira vez, desde que nos esbarramos minutos atrás, que eu ria de verdade. Até então, eu mal tinha sorrido para ele, presa demais na ideia não querer ceder. Mas Jude tinha esse jeito sutil de quebrar as defesas alheias. Aparentemente, eu também não era imune a esse seu encanto.
— Acho que preciso começar a admitir que nossa rivalidade torna as coisas um pouco mais interessantes — murmurei.
Enquanto eu levava minha cerveja aos lábios, senti o corpo dele se inclinar para mais perto.
— Está me dizendo que gosta do proibido? — incitou, a voz baixa, quase como um desafio.
— Tenho tendências a gostar do que não posso ter.
De algum jeito, ele conseguiu fazer com que a distância entre nós diminuísse. Meu corpo, traidor, girou para ele, me deixando completamente de frente para o corpo dele, sendo alvo do seu olhar me consumindo. A mão livre dele pousou na minha coxa descoberta, quente e confiante, como se já soubesse que era bem-vinda ali, meu corpo inteiro se arrepiando ao sentir seu toque. Ele não pareceu notar, mas aproximou o rosto, o sorriso lento desaparecendo dos lábios à medida que sua expressão se tornava mais séria... mais intensa.
— Você pode me ter, . — Seus olhos escureceram de desejo. — Sempre que quiser.
Algo se revirou dentro de mim, bem perto do meu ventre. Eu conseguia ouvir a minha pulsação, forte e rápida, mal conseguindo ouvir os meus próprios pensamentos.
— Bellingham…
— Eu te disse que ainda não fiz tudo o que sonhei em fazer com você — ele me ignorou, continuando, sua mão subindo de um jeito perigoso a cada segundo. Minhas pernas estavam meio entreabertas e ele podia se encaixar perfeitamente ali, mas ele ficou onde estava. — Lembra do que eu te prometi?
Espero que da próxima vez, você grite o meu nome.
Soltei a garrafa em cima do balcão ao meu lado, incapaz de confiar em mim mesma para continuar segurando algo de vidro com minhas mãos trêmulas. Eu estava em um conflito interno entre odiar ele ou odiar a mim mesma, porra.
— Acho que você lembra do que eu também prometi — consegui responder, a voz mais firme do que eu sentia.
Sem aviso, ele apertou a minha coxa, deixando um rastro de calor onde passava, e inclinou o rosto até que nossas respirações se misturassem, tão próximas que era impossível ignorar o cheiro de cerveja nos lábios dele. Tudo em mim estava entrando em uma combustão sem fim, meus órgãos fervendo por dentro, o desejo cruel por esse garoto ameaçando me desmoronar de um jeito que eu desconhecia. Não sou conhecida por perder o controle daquela forma, mas ao mesmo tempo, eu sentia que Jude atiçava um lado meu que eu nunca explorei muito.
Ele ficou exatamente onde estava, sem se mover mais um centímetro, mas a proximidade era quase insuportável.
— Acho que estou mais inclinado a cumprir a minha promessa — ele murmurou.
Eu quis sorrir da sua confiança inabalável. Minhas mãos estavam formigando para que eu tocasse em qualquer parte do seu corpo também, mas permaneci-as imóveis, testando a mim mesma naquele jogo.
— Eu não estava te desafiando.
Ele se afastou por um instante, apenas para me olhar melhor.
— Sabe o que eu acho, ? — ele começou a dizer, inclinando a cabeça de lado, o tom carregado de provocação. — Acho que você está acostumada a ter o controle. É isso que te assusta. Que comigo… você não tem.
Apertei os olhos, sentindo o impacto de suas palavras como um soco, mas me recusei a ceder. Meus lábios se apertaram em uma linha fina.
— Não se dê tanto crédito, Bellingham. Você não tem tanto efeito assim.
Ele riu, um som baixo e grave que fez minha pele arrepiar mais uma vez.
— Não? Então por que você ainda está aqui?
Minha garganta secou. Porque ele tinha razão. Porque parte de mim queria sair correndo, e outra parte — a mais perigosa — queria exatamente o oposto. Queria ver até onde ele iria. Até onde eu iria.
E era exatamente por isso que eu devia me afastar. Não devia nem ter deixado ele chegar perto, para início de conversa.
Jude percebeu minha hesitação e avançou um pouco mais, seus olhos dançando entre os meus, tentando decifrar algo. Fechei minhas mãos em punhos, uma de lado do meu corpo e a outra apoiada em cima do balcão.
— Se você quiser ir embora, vá, . Eu não vou te impedir. Mas você não quer, quer?
Eu soltei um suspiro entre os dentes, irritada com ele, comigo mesma, com tudo.
— Você é insuportável.
Ele aumentou o sorriso, sorriu, o mais convencido que já vi.
— E você adora isso. Não é tão ruim admitir, sabia?
Eu não consegui responder, porque, naquele instante, ele deslizou a mão da minha coxa até meu joelho, a pressão de seus dedos firme, mas sem ultrapassar qualquer limite. Meu corpo respondeu antes da minha mente, inclinando-se um pouco mais na direção dele, como se procurasse o calor que ele irradiava. Como se estivesse implorando inconscientemente que ele me tocasse mais.
— Isso é o que eu faço com você? — ele provocou, os olhos brilhando de algo entre curiosidade e satisfação. — Te deixo sem palavras?
Meu queixo subiu automaticamente, um reflexo do meu orgulho.
— Alguém já disse que seu ego enorme pode ser um problema?
Ele aproximou mais o rosto. De um jeito que eu não achei que fosse possível. Seus lábios suavemente roçaram o meu queixo, ameaçando me beijar, mas não o fez.
— Prove que eu estou errado — ele instigou, descendo os lábios por meu pescoço, uma trilha de beijos dedilhando o caminho por toda minha pele sensível e tentei controlar ao máximo as minhas próprias emoções, a vontade irresistível de fechar os olhos e apreciar a sensação.
Ele tinha acabado de me desafiar. E eu me sentia presa, como se ele tivesse me prendido em um jogo que eu sabia que estava perdendo desde o começo.
Mas uma parte de mim se recusou a dar a última palavra para ele.
Levantei a minha mão e segurei o seu rosto, prendendo-o bem na frente do meu, deixando que nossos lábios quase se tocassem, mas não completamente. Só o suficiente para vê-lo prender a respiração com a expectativa de me ver cedendo de novo.
— Boa tentativa, Bellingham. — Minha voz era quase um sussurro contra a sua boca.
Seus olhos escureceram ainda mais.
Reunindo o máximo de controle que consegui, ignorando a traição do meu corpo, me afastei.
Cortei nosso contato visual e desci do banco, pegando a minha cerveja, seguindo o mesmo caminho de antes, para me juntar à Estela e aos outros, como se estar no meio das pessoas me fizessem esquecer como era a sensação de sentir seus dedos dedilhando a minha pele, traçando um caminho perigoso.
Mas ele estava certo.
Era o único entre nós que estava mais propenso a cumprir a sua promessa. Porque ele tinha razão. Eu gostava de ter controle.
E se tratando dele, eu não tinha nenhum.


Abrir meus olhos doíam.
Minha cabeça latejava de um jeito bem insuportável, mas a claridão que entrava pela fresta da janela com a cortina mal fechada estava me irritando. Eu podia muito bem virar para o lado e ignorar a claridade, mas eu já tinha despertado o suficiente para não conseguir dormir mais, ainda mais com a ressaca me atingindo meio segundo depois de eu conseguir abrir os olhos.
O arrependimento surgiu instantaneamente. Eu não me lembrava de ter bebido tanto, mas misturei as coisas, o que me deixou bêbada rápido demais, mas também me ajudou a ficar longe de Jude Bellingham pelo resto da noite, ainda que eu lembrasse de todos os olhares que ele lançou para mim do outro lado.
Ele se juntou ao pessoal vinte minutos depois que eu me juntei.
A tensão ainda era palpável entre nós, mas ninguém ao nosso redor pareceu perceber, além de nós mesmos. Uma parte minha sabia que se eu tivesse dado outra oportunidade de ficar sozinha com ele novamente, ele venceria aquele jogo. Com o nível de álcool no meu sangue e o desejo insuportável que eu tinha de beijar aquela boca de novo, o resultado seria inevitável.
Eu não sabia se devia me sentir orgulhosa do meu auto controle.
Ou se estava sendo uma completa idiota.
?
Ouvi uma batida na porta do meu quarto, seguida da voz tranquila da minha irmã. Na verdade, reparando agora, um pouco mais desperta, estava tocando alguma música clássica de algum lugar, o som suave e abafado chegando bem baixo aqui em cima. Murmurei que ela entrasse e afastei os lençóis de cima de mim, ficando sentada em cima da cama. Ela entrou logo em seguida, os cabelos penteados de um jeito impecável, maquiagem básica e simples, usando um vestido longo preto, que terminava com ela calçando um salto pequeno.
Estreitei os olhos na direção dela.
— Você não esqueceu a homenagem da vovó, né? — ela perguntou, percebendo a minha expressão confusa.
Soltei um gemido, que mais pareceu com um grunhindo saindo do fundo da minha garganta, e me empurrei para frente, batendo meu rosto contra o travesseiro de algodão macio.
A homenagem da vovó.
Eu tinha esquecido por um instante, claro, minha cabeça nublada por pensamentos indesejados, a dor latejante e a ressaca batendo fundo. Ela fechou a porta, andando até a minha escrivaninha e eu ouvi o barulho da gaveta sendo aberta, porque aquele móvel estava velho e as gavetas rangiam.
— Toma, bebe isso aqui.
Levantei o rosto novamente e me virei na direção dela, encarando suas mãos me oferecendo um copo de água e uma aspirina. Eu nem queria ver a minha aparência diante dela e me inclinei só o suficiente para conseguir alcançar o copo e a aspirina, tomando logo em seguida.
— Como é que você parece tão bem se bebeu o dobro do que eu bebi? — reclamei, infeliz.
Ela riu, pegando o copo de volta, depositando no lugar dele, em cima da escrivaninha velha. Depois, sentou-se na beira da cama.
— Eu tenho uma tolerância mais aceitável para o álcool do que você — ela respondeu, orgulhosa desse fato. — Além do mais, eu não misturo bebidas e te avisei sobre isso, mas você não quis me ouvir.
Fiz um bico por pura pirraça e me joguei contra o colo dela, apoiando minha cabeça ali e, como sempre, Estela começou a acariciar os meus cabelos. Hesitei, engolindo a seco, me dando conta do que a homenagem da vovó significava.
— Eles estão aqui? — perguntei, em um fio de voz.
Parecia que eu era aquela garotinha de novo, me escondendo no colo da irmã outra vez.
— Sim.
Assenti devagar.
— Eles sabem que eu estou aqui?
— Sim.
O silêncio reinou por um instante. Estela estava mais calada do que o normal, como se quisesse me deixar processar tudo e me preparar psicologicamente para descer e encarar todo mundo, principalmente meus pais; era até ridículo a forma com a qual eu fugia deles. Mas eu vim aqui por um motivo, e a vovó não tinha nada a ver com meus problemas paternais. Ela merecia a minha homenagem e eu fazia questão de honrar a sua memória, ainda que fosse do meu jeito, e não do jeito espantalhoso que meu pai costumava fazer agora.
— Sei que esse nunca é o cenário ideal para você — ela começou, ainda acariciando meus cabelos. — E sei que você era mais apegada à vovó do que eu, então levanta, toma um banho e bota seu vestido, tudo bem? — resmunguei positivamente em resposta, ainda preguiçosa e infeliz. — Eu vou estar te esperando lá embaixo.
Concordei com outro resmungo e me afastei, para que ela pudesse se levantar e ir. Estela sorriu, beijou a minha testa, e se foi. Fiquei ali, processando a minha existência por alguns minutos, tentando criar coragem para fazer o que ela disse.
Comecei a me arrepender amargamente de ter bebido tanto ontem à noite e de ter voltado tão tarde, porque isso significava que eu tive sono de menos e não estava na minha melhor versão para lidar com aquele evento meio público. Respirei fundo e foi o toque do meu celular que me obrigou a me levantar. Procurei o aparelho por todo lugar, até encontrá-lo em cima da poltrona pequena, do outro lado do quarto, perto da janela. Não tinha ideia de como aquilo foi parar ali.
Peguei o aparelho e virei na tela inicial, a foto de Ferran surgindo no centro, em uma ligação de vídeo do Whatsapp. Mesmo sabendo que minha aparência não estava das melhores, atendi.
— Credo, um trator passou por cima de você? — No entanto, foi a voz de Pilar que estava do outro lado da linha, e não o meu melhor amigo.
Ela apareceu, usando seu uniforme habitual do Barcelona, parecendo estar no campo com os meninos. Eu conseguia distinguir o som de vozes distintas e risadas ao longe. Em resposta para ela, mostrei o meu dedo do meio com a mão que não segurava o celular.
— Cadê o Ferran?
— Eu tô aqui. — Meu melhor amigo apareceu ao lado dela, com o uniforme de treino. — Ela roubou meu celular de mim, essa pilantra.
Pilar não se abalou com a acusação. Aproveitei que estava em pé e fui até o meu guarda-roupa, tirando de lá o vestido preto que a Estela citou. Ele não era longo como o dela, mas era comportado o suficiente e cairia bem com o coque que eu ia fazer no cabelo e com o batom nude que eu pretendia pintar nos lábios.
— Como estão as coisas por aí? — ele perguntou.
Joguei o vestido na cama e fiz uma careta.
— Ah… tranquilas? — arrisquei, a resposta saindo mais como uma pergunta do que propriamente uma resposta adequada. — Eles não estavam aqui quando cheguei ontem. E a Estela me arrastou para uma boate privada, o que significa que eu bebi muito e estou de ressaca.
Ele riu.
— Agora você acredita que é ela? — Pilar perguntou para ele e observei a interação dos dois.
— Olha, me dá um crédito — Ferran reclamou, empurrando ela com o ombro por pura implicância. — A mídia não é tão confiável assim. Lembra daquele boato do Pedri se envolver com uma mulher casada?
Pilar moveu os lábios.
— Tecnicamente, não foi um bo…
— Do que vocês dois estão falando? — interrompi a conversa dos dois, andando até o banheiro, onde posicionei o celular na pia, para que eu ficasse com as mãos livres para lavar o rosto.
— É que saíram umas fotos no twitter de uma social dos jogadores do Real ontem — Pilar explicou, dando de ombros. Liguei a pia e peguei um pouco de água com minhas mãos em conchas. — Quer dizer, estavam meio escuras, provavelmente foram fotos de bêbados sem foco algum, mas tinha uma que você estava no fundo. Meio desfocada, mas vamos admitir, eu sou muito boa em reconhecer.
— Você debateu comigo por meia hora para decidir se era ela ou não — Ferran acusou.
— Ah, foda-se, e daí? Ela estava lá.
Bufei com os dois e esfreguei o rosto com as duas mãos. Não estava muito preocupada com aquela exposição das fotos, se ela dizia que a resolução não era tão boa assim.
— A Estela é amiga da Mina, como vocês sabem, que namora com o Valverde — iniciei. — Meio inevitável sair dessa bolha madridista, então, sim, eu estava lá ontem.
— Por que você bebeu tanto? — Ferran indagou. — Você geralmente não exagera. Não a ponto de ficar parecendo que um trator passou por cima de você.
Mostrei o dedo do meio para ele também, arrancando risada dos dois.
— O Jude estava lá? — Pilar complementou e eu vi o sorriso dela se estender para um cheio de segundas intenções. — Claro que estava, olha só a sua expressão. E, aí? O que aconteceu?
Ferran olhou confuso para a tela do celular e para Pilar em seguida, até voltar a olhar para mim de novo.
— Peraí, que papo é esse? — ele perguntou. — O que ela tem a ver com o Jude Bellingham?
Pilar abriu a boca.
Não ouse — eu impedi.
— Por que ele não pode saber? — ela disparou, prendendo um riso.
— O Gavi sabe que você fode com o Martínez? — disparei de volta.
Ferran balançou a cabeça, tomando o celular da mão dela, mas Pilar ainda aparecia.
— Você está fodendo com o Jude Bellingham? — ele perguntou, confuso.
Minha cabeça latejou ainda mais. Definitivamente, não era uma conversa que eu queria ter agora.
— Tenho que ir.
Peguei meu celular de volta, me despedindo.
, não…-
Mas eu já tinha desligado a chamada e não escutei o que ele disse, a frase saindo incompleta. Soltei um suspiro longo, silenciei minhas notificações e ignorei as mensagens que eu tinha que responder. Deixei o aparelho ali em cima da pia e comecei a me despir, entrando no box em seguida, ligando o chuveiro para escorrer a água quente e relaxante pela minha pele.
Resistir a Jude ontem me demandou um autocontrole fodido.
A sua acusação ainda reverberava pela minha mente, bagunçando todos os meus sentidos. Eu odiava que eu não tinha mais porque odiá-lo. Preferia quando eu não sabia o que era nós dois juntos, sem roupas, em um lugar fechado entre quatro paredes.
Preferia que ele ainda fosse aquela pedra no meu sapato, que me provocava toda vez que passava por mim, ou comemorava seus gols desenhando a inicial do meu nome no ar, quando sabia que eu estava assistindo-o. Preferia quando eu não tinha essa ciência do meu desejo por ele, do quanto aquela primeira e única vez não foi o suficiente para me saciar.
Esfreguei meu rosto mais uma vez, na tentativa de me despertar ainda mais, enquanto me livrava da espuma do sabonete no meu corpo.
Saí do banho depois de alguns minutos e levei, pelo menos, mais trinta minutos terminando de me arrumar. Quando enfim fiquei pronta, me olhei no espelho grande perto do guarda roupa, o coque bem feito, o vestido leve e preto, brincos minimalistas e apenas um batom nude pintado nos lábios, alguns fios de cachos insistindo em aparecer, mas não me importei. Imitei a Estela e optei por um salto pequeno também.
Voltei ao banheiro apenas para pegar meu celular de volta e, antes de girar a maçaneta da porta do meu quarto, inspirei e expirei pelo menos cinco vezes, expelindo toda minha ansiedade. Girei a maçaneta e fui inundada com o som mais claro da música clássica tocando no andar de baixo. Fechei a porta atrás de mim e comecei a andar, descendo as escadas devagar, ouvindo as vozes baixas se misturarem ao som da música. Minha presença foi notada imediatamente pelas pessoas que estavam mais no centro da sala, e eu me forcei a abrir um sorriso, cumprimentando aqueles que me cumprimentaram, devolvendo a cordialidade e a educação.
Eu não me lembrava de metade dessas pessoas.
Cada ano que passava, meu pai convidava mais e mais pessoas que nada tinham a ver com a proposta de homenagear a vida de vovó. Era como se ele aproveitasse esse momento de vulnerabilidade para expor seu lado mais humano aos outros e fechar negócios que estava de olho há algum tempo, uma oportunidade perfeita para concluir as suas armadilhas friamente armadas.
Quer dizer, foda-se nosso sofrimento velado. E daí que a gente sentia falta da vovó? Ela morreu há sete anos, ele não via mais motivos para nos lamentar tanto, mas preferia manter a tradição para benefício próprio.
E porque seu irmão, meu tio, uma das pessoas mais decentes da família, insistia. Ele levava a sério aquela coisa toda e realmente honrava o verdadeiro propósito de estarmos aqui.
? — Uma voz calma me chamou.
Reconheci imediatamente e me virei na direção da minha mãe, encontrando-a em seu vestido preto impecável, os fios de cabelo todos no lugar, o colar de pingente verde esmeralda sendo o único acessório que se permitiu usar, presente da minha avó.
Ela esticou os braços para mim, me chamando para um abraço, e não consegui resistir, me vendo naquela garotinha que sentia falta dos afagos da mãe.
— Oi, mãe — murmurei, no meio do abraço.
Ela afagou as minhas costas e permiti relaxar a tensão dos meus músculos por um instante, aproveitando o momento. Seu cheiro característico impregnou as minhas narinas e eu respirei suavemente.
— Que bom que você veio, querida — ela murmurou de volta. — Deixe-me ver você.
Me afastou, segurando o meu rosto com uma delicadeza pura, me olhando como se eu não pisasse em casa há anos. Seus lábios se curvaram em um sorriso maternal.
— Como você está?
— Eu tô bem, mãe — respondi, assentindo em ênfase à minha resposta. — Sinto muito por não…
— Aí está você!
Fomos interrompidas pela voz ressonante do meu pai.
Levantei os olhos para olhar por cima dos ombros dela, encontrando um homem de meia idade igualmente impecável em seu terno cinza. O sorriso estava maior do que o rosto, os lábios repuxados um pouco para baixo.
Limpei a minha garganta conforme ele se aproximava e se postava ao lado da minha mãe, sem a menor intenção de me abraçar tão calorosamente quanto ela. Minha mãe suavizou o sorriso.
— Oi, pai.
— Por um momento, achei mesmo que não vinha — disse.
Não deixei meu sorriso vacilar.
— Eu nunca falto à homenagem da vovó — respondi, a voz calma. — Todo mundo sabe disso.
Ele fez um gesto com as mãos, dispensando o que acabei de falar.
— Como estão as coisas em Barcelona? — perguntou, a curiosidade atiçando a minha desconfiança. — Estou surpreso com o quanto está demorando para você cair em si e perceber que é uma escolha errada.
— Pai.
Ele não me ouviu.
— A Estela não contou para você? Conversei com o reitor da Universidade de Madrid — ele começou a contar, uma empolgação que jamais se estendia à mim, e percebi minha mãe tensa ao seu lado. — Ele está disposto a aceitar você no próximo semestre e…
Pare.
Minha voz ressoou determinada o suficiente para ele me ouvir dessa vez, meus dentes trincados, os dedos esfregando a minha têmpora, massageando o local para diminuir a minha dor de cabeça latejante. A expressão dele se alterou, fechando-se completamente pelo que considerava ser uma rebeldia da minha parte, mas sinceramente, não me importei.
Eu estava cansada.
E sem humor para aguentar aquela merda.
— Como você… — ele tentou dizer, mas interrompi.
— Com licença.
Me afastei, minha mãe chamando meu nome, mas não me virei. Eu apenas mascarei um sorriso para os convidados, enquanto ia atravessando a sala de jantar, na intenção de chegar até a cozinha, onde eu sabia que não teria ninguém para me perturbar, além dos funcionários contratados para cuidar daquele evento, servindo comida e bebida.
Ele não esperou um minuto.
Um minuto, porra.
Eu ia ficar aqui por duas semanas e ele nem sequer conseguiu esperar passar a homenagem da vovó para decidir encher o meu saco sobre minhas escolhas, ao invés disso, era assim que ele me cumprimentava.
Entrei na cozinha, sentindo o cheiro de salgados recém saídos do forno, mas fui atrás de uma lata de coca na geladeira, sentindo a necessidade de tomar aquilo bem gelado. Eu estava evitando álcool, e talvez um pouco de cafeína me ajudasse na ressaca. Quando abri a geladeira, fiquei aliviada de encontrar uma variedade de latas de coca-cola ali dentro, pegando uma para mim.
Os funcionários ignoravam a minha presença e, como a cozinha era bastante grande, havia espaço suficiente para eles conseguirem trabalhar sem que minha presença atrapalhasse. Abri a lata e bebi goles consideráveis, sentindo um alívio momentâneo.
— Minha menina. — Ouvi a voz do meu tio atrás de mim e virei o rosto na direção dele, encontrando-o com uma feição carinhosa no rosto, aproximando-se de mim. — Venha aqui.
Ele me abraçou sem que eu me preparasse, seus braços me envolvendo como se eu fosse uma criancinha, e senti meus olhos lacrimejarem. Ele era tudo o que meu pai não era, suprindo a ausência daquilo que eu devia ter e não me era dado livremente. Muitas vezes, na verdade, eu tive que implorar, e quando meu tio me via fazendo aquilo, ele me pegava no colo e tomava as rédeas das coisas.
— Tio Raúl.
Apoiei meu rosto em seu ombro e fechei os olhos por um momento, aproveitando. Fora a vovó e Estela, ele era a pessoa que eu me sentia mais próxima da família. Fazia algum tempo que eu não o via, mas mesmo assim, estávamos sempre mandando mensagens um para o outro, com ele sempre demonstrando querer participar da minha vida, me perguntando sobre tudo.
— Como você está, menina? — Ele me soltou, e eu abri os olhos, olhando para ele com um sorriso pequeno. — Está precisando de alguma coisa?
Balancei a cabeça.
— Não precisa se preocupar comigo, tio — tranquilizei-o, balançando a cabeça.
Ele me olhou meio feio.
— Como não? — devolveu, parecendo ofendido. — Você é como uma filha para mim, sabe disso, não há a opção de eu não me preocupar. E eu vi você com o seu pai há pouco.
Contive um suspiro, meus dedos rodeados contra a lata de coca, o sorriso vacilando nos meus lábios. Deixei meus ombros caírem.
— Estou acostumada.
Ele apertou meu ombro, tentando me confortar.
— Não deveria, menina — disse. — Mas espero que saiba que sua avó estaria orgulhosa de você estar seguindo seus sonhos. Lembra do que ela te dizia?
Minha avó morreu quando eu tinha 14 anos. Para mim, ela se foi muito cedo, arrancando algo de mim que até hoje não consegui recuperar. O luto tinha estágios difíceis e dizem que nos acostumamos com a dor e a ausência, e acho que, em partes, isso é meio verdade, mas eu sentia muito a falta dela.
— Que não há maneira de ser mais fiel a si mesmo do que seguir os próprios sonhos — citei.
Ele sorriu, segurou meu rosto e beijou a minha testa.
— Que bom que não esqueceu, menina — murmurou, me soltando. — Sei que a validação do seu pai era importante para você, mas a sua felicidade é responsabilidade exclusivamente sua, está bem? Só siga o seu coração.
Limpei a minha garganta e assenti, meus lábios dando lugar a um sorriso melancólico, que me atingiu mais cedo do que eu esperava. Eu sempre ficava meio para baixo no dia da morte da vovó.
— Sinto falta dela — sussurrei.
Ele olhou para mim com ternura, a cabeça acenando de maneira positiva e devagar, concordando comigo silenciosamente. Nós ficamos alguns segundos em silêncio, pensando sobre isso, compartilhando a saudade de alguém que se foi há algum tempo, mas cuja presença ainda era sentida. Minha vó era luz. Ela era… tudo.
— Sei que seu pai desviou o propósito dessa homenagem, transformando esse evento em… — Ele suspirou, quase indignado. Apertou o nariz e continuou a falar. — Estava pensando em irmos para a estufa. Realizar nossas homenagens nós mesmo, no lugar favorito dela, o que acha?
Eu quase podia sentir o cheiro de rosas daqui.
Estava prestes a responder, quando a voz da minha irmã se sobressaiu, ecoando até nós.
— Esse convite se estende para mim também? — Ela andou até nós, um sorriso igualmente melancólico.
Ela se colocou ao meu lado e me abraçou pelos ombros, meu tio sorriu para ela, beijando sua testa também.
— Sim, é claro. — Ele se animou, virando-se para pegar a saída do jardim, que nos levaria direto até a estufa do lado de fora. — Vamos, o Manuel está nos esperando lá.
Estela segurou a minha mão, eu deixei a lata de coca pela metade em cima da pia, e seguimos nosso tio, indo ao encontro do nosso primo, filho único dele. Fazia um tempo que eu também não via o Manuel, mas meu tio sempre fazia questão de me dar notícias dele, então eu meio que estava por dentro da sua vida de algum jeito.
Quando atravessamos o jardim na direção da estufa, senti meu celular vibrar na outra mão. Deslizei o dedo pela tela e apertei para verificar a notificação mais recente, puxando a barra para baixo. Eu ainda não tinha lido nada, nenhuma notificação, e nem respondido a nenhuma mensagem, mas a notificação recente mostrava uma atividade nova no instagram, uma mensagem.
Um convite, na verdade.
De Jude Bellingham me chamando para um jantar.


A estufa ainda era bem cuidada.
O cheiro de lavanda era o mais predominante para mim, impregnando-se nas minhas narinas, mas não era, nem de longe, o cheiro favorito da minha avó. Ela sempre dizia que preferia o cheiro das rosas brancas, mas eu não conseguia sentir o perfume do mesmo jeito que ela, então eu fingia que era o melhor cheiro do mundo.
Ela amava passar horas aqui, cuidando das flores, das rosas, da terra. Dizia que era sua terapia particular e, portanto, o seu lugar favorito no mundo. Depois do Camp Nou, claro.
Meu tio nos reuniu em círculos, Manuel tinha pegado várias comidas e bebidas do buffet, e ficamos ali por horas, falando sobre a vovó. Sobre as melhores memórias que tínhamos dela e de como ela fazia falta, que o mundo perdeu um pouco da sua cor habitual quando ela se foi. Eu não sabia o que estava acontecendo lá dentro da casa, mas aqui eu me senti muito mais perto da minha avó do que não me senti em anos.
Mesmo quando o dia virou noite e meu tio e Manuel se despediram para voltar, eu continuei ali, sentada no espaço do chão.
Estela foi à cozinha, prometendo pegar alguma garrafa de vinho ou coisa do tipo para que continuássemos escondidas ali, só nós duas, sabendo da minha vontade nula de voltar para dentro da casa.
E enquanto eu esperava ela aparecer de novo, puxei meu celular, desbloqueei a tela e puxei a barra de notificações, a mensagem do instagram ainda ali. O convite brilhando como se fosse algo em destaque e meus olhos não viam mais nada, a não ser aquela única e exclusiva notificação. Tinha passado algumas horas desde que eu recebi, e ele podia ter apagado e fingido que não mandou nada, e a notificação sumiria, mas ele não fez isso, o que me fez acreditar que seu convite ainda estava de pé.
E eu nem sequer abri para responder.
— Aqui.
Ouvi a voz da minha irmã anunciar a sua chegada. Ela se sentou de frente para mim e me ofereceu uma taça de vinho, a garrafa ao nosso lado, e sua mão segurando a sua própria taça. Bebi um gole e deixei meus ombros relaxarem ao sentir o gosto forte do vinho. Não era minha bebida favorita, mas eu nunca recusaria uma taça.
— Tá tudo bem? — ela perguntou. — Você parecia concentrada no celular.
— Ah… — Umedeci os meus lábios, bloqueei a tela e olhei para ela, pensando se eu deveria contar ou manter aquilo para mim. Mas não fazia sentido esconder qualquer coisa da minha irmã ou tornar Bellingham um segredo. Não era algo que eu conseguiria esconder dela por muito tempo, de qualquer forma. — Eu transei com Jude Bellingham. Falei que isso nunca mais aconteceria de novo, e ele está me convidando para um jantar.
Soltei tudo de uma vez, levando a taça até os meus lábios novamente, engolindo mais do que dois goles dessa vez. Estela piscou os olhos freneticamente para mim, como se eu tivesse falado rápido demais e as informações estivessem chegando nela bem devagar, para que ela pudesse processar cada palavra que eu acabei de soltar.
— E não vai mais mesmo? — ela perguntou, depois de um segundo de silêncio.
Fiquei confusa.
— O quê?
— Acontecer de novo — explicou.
— Eu…
— O que você respondeu sobre o jantar? — ela me interrompeu, curiosa.
Mordi minha bochecha e dei de ombros, batendo dois dedos na tela do celular.
— Não respondi.
Foi a vez dela ficar confusa, como se realmente não estivesse entendendo nada do que estava saindo dessa conversa.
— Não tô entendendo, , foi ruim transar com ele? — ela começou a dizer. — Porque eu nunca te vi dispensar um gostoso desse jeito.
Cocei a minha bochecha e bebi mais vinho, esvaziando a taça. Peguei a garrafa e voltei a encher mais um pouco, enquanto respondia.
— Ele me irrita — comecei a contar. — Ou me irritava. É presunçoso, confiante demais e tem um ego do tamanho da distância da terra para a lua. E não, não foi ruim transar com ele. Na verdade, foi bom, foi muito bom, foi tão bom que eu repetiria outra dose, é só que…
Ela me observou em silêncio e minha respiração se tornou mais rápida.
— O que está te impedindo? — ela perguntou, os olhos ainda em mim, como se esperasse uma resposta de verdade, mas eu não sabia o que responder, porque acho que não tinha uma resposta concreta para aquela pergunta. — Você mesma? Sempre achei que, em alguns casos, você pensa demais e faz de menos. Vive de menos. Qual é o problema de se divertir, ?
Engoli a seco, minha única resposta sendo balançar a cabeça.
— Olha, você tem 21 anos. Está construindo a própria vida, e eu estou muito orgulhosa disso, mas não devia esquecer que a vida é muito mais — minha irmã continuou, sorrindo. — Não estou dizendo para você começar a namorar o cara, mas não devia pensar muito sobre isso também. Não vejo problema nenhum em você transar um pouco, se divertir, distrair essa mente enigmática. Não sou íntima do Jude, mas ele é um garoto simpático e gentil e, sinceramente, bonito e gostoso. Você tem o pacote completo, o que mais quer?
Soltei uma risada, revirando os olhos para os seus conselhos, mas regada de melancolia e enchendo o meu sangue de álcool do vinho, fiquei mais suscetível a concordar que ela estava certa.
— Eu quero muitas coisas, na verdade.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— E acha que se reprimir dessa forma vai te ajudar a conseguir essas coisas? — refletiu.
Soltei um suspiro e inclinei a cabeça um pouco para o lado, desfrutando mais dos goles de vinho.
— O que aconteceu com você e o Lucas Vazquez?
Vi em sua expressão que ela não estava esperando aquela pergunta. Ela levou a taça aos lábios e bebeu o restante do vinho que restou, enchendo o seu corpo de novo, encolhendo os ombros e mordendo a boca, antes de decidir me responder.
— Eu não menti para você quando disse que queria focar na minha carreira, mas… — Ela suspirou, olhando para mim. — Éramos muito diferentes também. Divergimos em muitas coisas. O sexo era bom, a companhia era ótima, mas a convivência só estava servindo para me mostrar que eu não via nenhum tipo de futuro naquela relação.
Assenti, compreendendo perfeitamente o que ela estava querendo explicar.
— Então achei que não valia a pena postergar uma coisa que estava fadado ao fracasso só porque o sexo era bom — continuou. — Nós conversamos e as coisas terminaram bem, eu fiquei bem, acontece. E isso não quer dizer que você deve levar como exemplo a sua situação com Jude, porque é completamente diferente, entendeu?
— Eu não estava pensando nisso — tranquilizei-a. — Mas parece que ele não te superou. Eu reparei como ele estava te olhando ontem à noite.
Ela riu, mas foi uma risada fraca, desacreditada. Mexeu os ombros e bebeu mais do vinho.
— Bobagem — dispensou meu comentário. — Você bebeu mais do que o normal ontem, não estava com um julgamento muito confiável.
Revirei os olhos, indignada com minha falta de crédito, mas resolvi não insistir naquilo. Estela podia esconder muito bem, mas eu não podia começar a plantar a dúvida da sua decisão de não seguir ficando com o Vazquez, gerando algum tipo de esperança em vão. Ela tinha um motivo para ter terminado tudo e eu respeitava a sua decisão.
Não cabia a mim cutucar qualquer tipo de ferida que tenha ficado com a expectativa gerada. E que certamente não foi suprida.
— Agora pega a porra desse celular e aceita o convite do Bellingham — mandou, com um tom de voz autoritário típico de irmã mais velha.
E eu, obviamente, obedeci de bom grado daquela vez.


— Obrigada. Pode ficar com o troco.
Saí do táxi e encarei a entrada do restaurante, me certificando pelo nome que eu estava prestes a entrar no lugar certo. Minhas mãos suavam um pouco, e apertei a alça fina da minha bolsa contra o meu ombro, obrigando os meus pés a me movimentarem para entrar no restaurante.
Um jantar parecia… íntimo demais.
Estela tinha me aconselhado a não pensar demais, mas minha mente tinha controle próprio e meus pensamentos iam surgindo sem que eu precisasse de muito esforço para pensar sobre qualquer coisa, o que acabava me fazendo pensar demais.
Parecia que minhas mãos estariam suando menos se o convite tivesse sido para aparecer no seu apartamento, porque eu sabia o que ia acontecer, mas um jantar? Ele me surpreendeu de um jeito que eu nem sequer estava esperando.
— Boa noite, como posso ajudar? — A recepcionista ofereceu assim que eu parei na frente da recepção, encarando a decoração delicada do local.
Não estava muito cheio. Eu também nunca tinha pisado ali, então não fazia ideia de que tipo de restaurante era. Quando respondi a mensagem sobre o convite dele, pedi apenas um endereço e avisei que estaria lá em trinta minutos quando ele me mandou a localização. — Reserva em nome de Jude Bellingham, por favor.
Ela olhou para alguma coisa no computador, antes de levantar o rosto na minha direção, exibir um sorriso profissional e apontar para minha frente.
— Claro — disse, seguindo na frente. — Me acompanhe, por favor.
Segui a mulher jovem, que só parecia alguns anos mais velha do que eu, pelo caminho que ela estava liderando. Nós passamos pelas mesas principais, a maioria ocupada por casais, e achei que encontraria Jude por ali, mas ela me levou para subir os degraus de uma escadaria que levava ao primeiro andar. Quando subimos, ela parou no topo, e eu reparei que havia poucas luzes acesas, o local sendo mais iluminado com uma mistura de velas, colocadas em pontos estratégicos. Havia iluminação o suficiente para que eu conseguisse enxergar que havia poucas mesas ali — e todas elas vazias.
— Fique à vontade — a recepcionista desejou, com o sorriso simpático ainda sendo exibido em seu rosto bastante oval. — Alguém já vem servir vocês.
Pisquei, sendo tirada do meu próprio transe e da bolha de surpresa e limpei a garganta.
— Ah… Obrigada.
Ela assentiu e se foi.
Quando virei o rosto novamente, Jude Bellingham estava me esperando em pé, um pouco mais distante, ao lado de uma mesa que parecia ser a nossa. Bem no meio do espaço todo, que contava com um bar do lado esquerdo, mas não havia ninguém ali.
— Estou confusa — comentei, começando a andar na direção dele, os olhos meio estreitos. — Você reservou um andar inteiro?
Sua risada melodiosa chegou até mim primeiro.
Eu parei bem na sua frente, encarando o seu rosto de uma distância consideravelmente segura, sendo invadida pelo seu perfume. O mesmo da outra noite.
— Eles oferecem uma reserva mais privativa — respondeu.
— Um andar inteiro? — Olhei ao redor. — Tem mesa para, sei lá, mais 25 pessoas aqui.
Chutei o número, porque obviamente não contei as quantidades de cadeiras que ainda estavam disponíveis.
— Eu queria ficar sozinho com você.
A resposta me desarmou e calei a minha boca, porque é claro que ele faria aquilo. Além de ser uma pessoa pública e famosa, o que já teria o risco dele ser reconhecido e constantemente cumprimentado, ele parecia ser o tipo de cara que gostava das coisas um pouco mais discretas. Sem distrações ao nosso redor.
— Bom, aqui estou. — Apontei para mim mesma, o sorriso e a voz escorrendo de um sarcasmo calculado. — Tudo para você.
Ele levou a mão ao peito, de um jeito bem dramático.
— Não brinque comigo, — murmurou, com um sorriso divertido nos lábios carnudos. Um que eu queria muito beijar de novo. — Posso levar essa frase a sério demais.
Dei de ombros, como se não me importasse nem um pouco, e tomei a atitude de me sentar na cadeira livre. Ele fez o mesmo, sentando-se de frente para mim, os talheres perfeitamente posicionados em cima da mesa, as taças vazias.
— Quando mandei o convite, não achei que você realmente ia aceitar — ele confessou, os olhos brilhando. — Foi uma aposta arriscada.
— Eu precisei ser convencida.
— Por quem?
Arrastei a alça da bolsa para fora do meu braço e deixei ela pendurada na cadeira, me ajustando melhor. Em seguida, mantive meus olhos neles, substituindo uma pergunta por outra.
— Por que tanto esforço para me levar para cama de novo?
A curiosidade genuína atingiu os meus olhos. Ele exibiu um sorriso simples e inclinou um pouco o corpo, apoiando as duas mãos em cima da mesa, seus olhos nunca deixando os meus.
— Eu não te levei para cama ainda. Não dá para contar aquela primeira vez — ele respondeu, esperto.
— Você tem milhares de garotas aos seus pés — continuei. — Não sou especial.
Ele umedeceu os lábios, assentindo lentamente. O silêncio se apossou do ambiente por alguns segundos, que pareceram longos demais, enquanto nenhum de nós quebrava o contato visual. Ali, sozinha com ele, e sem sons ambientes externos confundindo o meu cérebro, eu podia sentir a tensão evidente entre nós dois. O desejo iminente parecia querer me puxar para ele, como se não houvesse mais nenhum outro caminho a seguir.
Eu estava quebrando minhas próprias barreiras, deixando que ele tivesse o poder de me fazer quebrar a minha promessa.
— Isso não é você que decide, é? — ele finalmente falou alguma coisa, os olhos brilhando com algo que eu não consegui identificar.
— Eu gosto de apontar alguns fatos.
— São fatos no seu ponto de vista, — ele retrucou. — Eu não escondo que me sinto atraído por você. Você é linda, determinada, odeia chá e hambúrguer, e tem esse humor específico difícil de atingir. E sinto vontade de te conhecer mais.
Lancei um olhar desconfiado. De tudo o que ele disse, uma coisa se destacou mais.
— Como você sabe que eu odeio chá e hambúrguer?
Ele sorriu.
— Você é bem limitada nos stories, mas dá pra extrair algumas informações — explicou. — Além do mais, eu sigo a Pilar Sanchez.
É, Pilar gostava de postar bem mais do que eu. E como passavámos algumas horas do dia juntas, ela acabava gravando qualquer coisa para o seu perfil, que era praticamente um diário humano de sua rotina pelo Barcelona, gerando conteúdos até sobre os meninos. Eu tentava me esquivar para não aparecer muito, mas nem sempre funcionava.
E ele estava certo.
Eu odiava chá e hambúrguer. Não as duas coisas necessariamente juntas.
— Com licença. — Um garçom apareceu do nosso lado, oferecendo o cardápio. — Gostariam de decidir seus pedidos?
Nós dois olhamos para o rapaz. Ele tinha um semblante simpático e suave no rosto e eu devolvi meu sorriso por educação. Esperei que Jude aceitasse o cardápio, mas ele não o fez.
— Ah, é… — Ele virou o rosto para mim, investigando algo. — Se você não se importa, gostaria de pedir a entrada e o prato principal do dia. A não ser que você seja alérgica a frutos do mar.
— Não, tudo bem — concordei. — Pode pedir.
O garçom assentiu, recolhendo o cardápio oferecido.
— Bebidas para acompanhar?
— Um drink sem álcool para mim, por favor — pedi.
Jude dispensou com um aceno.
— Só água.
Imaginei que fosse porque ele tinha treino no dia seguinte. Alguns jogadores eram um pouco mais rígidos com bebidas alcoólicas e eles já tinham extrapolado o limite na noite anterior. Como eu já tinha bebido vinho mais cedo e acordei de ressaca pela manhã, preferi não arriscar acordar pior no dia seguinte.
O garçom assentiu mais uma vez e se foi, nos deixando sozinhos novamente.
— O que veio fazer aqui, em Madrid? — Jude perguntou, interessado em saber qualquer coisa. — Não é temporada de férias dos clubes.
Me aproximei um pouco, apoiando meus cotovelos contra a mesa.
— Minha avó morreu quando eu tinha 14 anos — me vi respondendo, as palavras saindo facilmente, sem que eu tentasse reprimir. O tom de voz saiu mais baixo do que eu esperava e pisquei os olhos, enxergando qualquer ponto atrás dele que não fosse seus olhos. — Desde então, todo ano, no aniversário de morte dela, nós nos reunimos para homenageá-la. Eu vim aqui para isso. E para participar da festa de formatura da minha irmã.
— Sinto muito pela sua avó.
— Tudo bem, já faz um tempo. — Balancei a cabeça, forçando um sorriso, engolindo o nó que surgiu na minha garganta. Busquei algum foco nos olhos dele novamente, gravando as características do seu rosto bonito. — O que está achando da cidade?
Senti a necessidade de mudar de assunto, não querendo que minha avó fosse o tema central da conversa, não depois do dia de hoje. Eu queria distrair a minha mente, que isso aqui me levasse o mais longe possível de casa.
— Ela tem seus encantos — respondeu, dando de ombros. — Ainda não conheço e nem visitei tudo o que eu quero, mas a coisa mais difícil daqui é, com certeza, o espanhol. — Nossa língua não é tão difícil.
— Não é difícil para quem a tem como língua materna — ele corrigiu. — Eu tenho sorte que a maioria dos caras sabem inglês.
— Então, se eu começar a falar na minha língua materna, você não vai entender nada? Ele coçou a bochecha.
— Só algumas palavras — admitiu, meio constrangido, o que quase me fez sorrir.
— Tipo o quê?
Ele pareceu refletir, como se estivesse buscando as palavras na mente.
Gracias, lo siento, permiso, hola, adiós, buenos días — ele começou a citar, o sotaque inglês soando extremamente forte. — As coisas mais básicas.
Cobri minha boca em uma risada, o que me surpreendeu. Ele arqueou as sobrancelhas para mim.
— Você precisa de aulas de espanhol — finalmente falei, umedecendo meus lábios. — O inglês não é tão universal assim.
Jude deixou os ombros caírem e bufou baixinho.
— Você está se disponibilizando para ser minha professora particular? — me provocou, no momento em que o garçom trouxe meu drink e a água dele, avisando que o jantar seria servido em cinco minutos.
Nós assentimos em silêncio, ele saiu novamente, e eu peguei minha taça, experimentando. O líquido era meio laranja, havia um pedaço pequeno de limão enfeitando a taça, e eu tomei um gole, notando que não era tão doce.
— Mesmo que eu fizesse isso, sou uma garota sem tempo — respondi a sua provocação. — O estágio no Barcelona e a faculdade não me permitiriam abrir uma exceção para você.
Era estranho que nós tivéssemos tendo uma conversa… normal. Esse cara tem me irritado em toda e qualquer oportunidade que tivesse, chamando a minha atenção para si de um jeito que o destacava. Eu não o odiava exatamente, nossas faíscas sempre se deram à nossa rivalidade pelos times, então eu o considerava um rival.
E ainda que ele continuasse sendo, ali, naquele momento, só éramos duas pessoas conversando e se conhecendo. Só nunca experimentei imaginar que isso fosse mesmo estar acontecendo algum dia.
— O que você estuda?
Cocei minha bochecha.
— Ah, eu estudo comunicação social — respondi. — Com ênfase em gestão de mídias.
— E conseguir um estágio no Barcelona sempre foi o seu propósito?
— Na verdade, não — contei, balançando a cabeça. — Eu meio que achava que não ia conseguir quando me candidatei, mas não custava nada arriscar. É melhor… do que eu esperava.
Além de ter me candidatado para esse estágio de social media no Barcelona, também me candidatei para o estágio em outras empresas privadas, no centro da cidade. Como eu realmente não esperava ser chamada para o estágio em um dos maiores clubes da Espanha, quis me certificar que seria chamada em algum outro lugar, porque meu objetivo era ganhar experiência no mercado de trabalho e pôr em prática as teorias de tudo o que eu vinha estudando.
Primeiro, eu consegui a vaga em uma empresa privada que trabalhava com turismo. Fiquei nela por duas semanas, quando recebi a mensagem sobre a vaga no clube, e larguei o atual estágio para ir para o time.
— Realizar um sonho tem esse efeito — Jude disse, com um sorriso.
Olhei para ele com um brilho diferente nos olhos, meu sorriso vacilando.
— É, tem — concordei quase em um sussurro. — Eu queria que minha avó pudesse me ver aqui.
Ele se iluminou.
— Ah, eu não acho que ela ia gostar de ver como eu estou olhando para você e os mil pensamentos obscenos que estão passando na minha mente agora — brincou.
Abri a boca.
— Não aqui, conosco, aqui… — Fui parando de falar e estreitei os olhos para ele, mordendo a parte interna da minha bochecha. — O que você está pensando?
Ele não conseguiu responder, porque fomos interrompidos com dois jovens trazendo nosso jantar. Fiquei esperando eles posicionarem nossos pratos e levantei a alça fina do meu vestido, que insistiu em cair do meu ombro. Eu não estava usando aquele preto de mais cedo. Antes de vir para esse jantar, fiz questão de trocar de roupa e melhorar um pouco a minha aparência com um pouco de maquiagem, o vestido da vez sendo um pouco mais curto, acima dos joelhos, e de um tom verde esmeralda, combinando com o rabo de cavalo no meu cabelo e um colar minimalista enfeitando meu pescoço.
— Obrigada — murmurei para os garçons, observando eles se retirarem.
O tempo todo, percebi o silêncio de Jude.
Quando voltei a olhar para ele, seus olhos já estavam em mim, e suspeitei que ele não desviou em nenhum momento.
— Estou pensando se você escolheu esse vestido de propósito — ele continuou, respondendo a pergunta que eu tinha feito antes de trazerem nossa entrada. — Para me fazer perder o controle.
Ele encarou seu prato, o aroma da comida subindo sutilmente para minhas narinas e percebi o quanto estava com fome. Jude mexeu os camarões com o garfo que, pelo cheiro, estavam submersos em azeite e alho, instigando o meu apetite.
Mas eu não consegui mover minhas mãos para levar o garfo até a minha boca. Ao invés disso, eu continuei olhando para ele, vestido com uma camisa casual, os cabelos perfeitamente penteados.
— Tem certeza que esse jantar não é para me impressionar e me levar para cama? — provoquei.
Ele voltou a olhar para mim, experimentando um pouco do seu prato.
Sua expressão se transformou em uma de prazer, um gemido de aprovação escapando dos seus lábios ao experimentar o camarão ao alho e azeite, e meu ventre se revirou com aquela imagem, deixando-o tão atraente quanto ele parecia.
— Tenho. — Ele mexeu os ombros despretensiosamente, seguro de sua resposta. — Mas se essa noite acabar com você na minha cama, com minha boca no meio das suas pernas… eu não iria me opor.
Canalha.
A tensão palpável nos dominou.
Minha respiração tornou-se superficial e me lembrei de experimentar a minha comida, antes que o prato esfriasse. Mas não tive a mesma satisfação que ele, não porque a comida estava ruim, mas porque minha mente agora fervilhava com as suas palavras e eu estava presa em outro sabor.
Ele sustentou o contato visual, enquanto nós dois comíamos. Eu passei a língua pelos lábios lentamente de propósito, seus olhos acompanhando cada movimento da minha boca, um jogo que dois podiam jogar, e ele sabia disso.
— O que mais você está pensando? — eu quis saber.
Ele largou os talheres, encostou-se contra a cadeira e me encarou. Ficou ali, me olhando por alguns segundos que pareceram uma eternidade, seu olhar queimando por mim inteira, de um jeito que fez minhas mãos soarem trêmulas, e me acalmei com uma respiração superficial. O desejo estava ameaçando me sufocar, duas semanas sonhando com aquele dia, os pingos de suor escorrendo pelo meu corpo toda manhã, como se ele estivesse bem ao meu lado.
Jude olhou ao redor, verificando algo. Quando pareceu satisfeito, arrastou a cadeira para trás e se levantou, dando a volta para parar do meu lado esquerdo. A diferença de altura gritante me fez erguer o rosto e olhar para cima, encontrando o rosto dele, o semblante suave, as íris escurecidas. Sua mão se ergueu bem no meu campo de visão e eu também larguei as talheres, incapaz de antecipar qual era o próximo passo dele, a expectativa se embrulhando no meu estômago.
— Levante-se — disse, quase rouco, a mão ainda estendida para que eu aceitasse. — Por favor.
Pisquei meus olhos e, um segundo depois, aceitei a sua mão e me levantei. Ele me arrastou para o lado, apenas o suficiente para que se sentasse no meu lugar, e minha testa franziu em três linhas distintas de pura confusão.
— Bellingham, o que você…
Sem que eu esperasse, sua mão escorregou da minha mão para a minha cintura, me puxando para ele. Dessa vez, ele quem erguia o rosto para me encarar. Seus dedos roçaram por cima do pano do meu vestido, buscando sentir a minha pele através do tecido. Pude jurar que eu estava queimando sob o seu toque.
— Vem aqui.
Me puxou devagar.
Eu hesitei, mas obriguei meus pés a obedecerem os comandos do meu cérebro e deixei que ele me sentasse em cima da mesa, minhas pernas um pouco abertas para ele se encaixar ali. Meu coração deu um salto, mas minha expressão estava completamente neutra. Ele olhou para a base das minhas coxas, observando que o vestido subiu um pouco, deixando muito à mostra para sua imaginação.
Sem ter onde me apoiar, coloquei as duas mãos contra os seus ombros, engolindo a seco, me sentindo um pouco nervosa e exposta, mas quando olhei ao meu redor, exatamente o que ele tinha feito antes, observei que não havia ninguém ali. Os garçons realmente nos deram privacidade e fiquei pensando se isso foi um pedido exclusivo do jogador à minha frente.
— Quer saber o que eu estou pensando? — ele murmurou, chamando a minha atenção de volta. Suas mãos começaram a traçar um caminho lento pela minha panturrilha, como se ele não tivesse pressa de nada naquele momento. Era diferente da primeira vez, daquela urgência que tinha nos cercado. — Eu tô pensando nisso…
Seus olhos mantiveram-se fixos nos meus.
Suas mãos continuaram subindo, arrastando-se pelas minhas pernas, esfregando-se contra a minha pele, me causando arrepios até em lugares que estavam cobertos naquele momento. Eu odiava como ele parecia saber que me afetava de maneira inimaginável.
Dar tanto poder a ele parecia perigoso, mas era exatamente o que eu estava fazendo quando não sentia a menor vontade de me afastar do seu toque. Na verdade, muito pelo contrário, eu queria saber até onde ele iria.
Até onde ele era capaz de me levar.
Tudo o que me faria sentir, o que estava disposto a me proporcionar.
Se eu me fechar, vou perder a oportunidade de explorar aquilo, de ter mais dele, de ceder aos meus desejos e me contentar com minha imaginação e o que poderia ter sido.
Mas se eu deixar…
— Na minha boca beijando cada pedacinho da sua pele — ele continuou, me tirando dos meus devaneios por um instante.
Então sua boca começou a traçar o mesmo caminho dos seus dedos, distribuindo beijos lentos, enquanto suas mãos chegaram às minhas coxas e subiram ainda mais o pano da saia do meu vestido, deixando-o com a visão da minha calcinha.
Se eu deixar… vou ter isso.
Vou ter a sua boca beijando cada pedacinho da minha pele, enquanto um gemido rouco escapa do fundo da sua garganta, como se aquilo fosse o ápice do seu prazer, mas ele tinha um caminho inteiro pela frente ainda. Lugares que sua boca não explorou e que poderia explorar.
— Meu Deus, … — ele sussurrou, apertando minha coxa direita com uma força que me arrancou um gemido. Cravei as unhas em seus ombros por reflexo, ofegando com a sensação de prazer me sufocando quando senti minha calcinha pesar. — Você sente isso?
Sim, eu queria dizer, embora eu não soubesse muito bem o que ele estava sentindo e nem se era a mesma coisa que eu estava sentindo. Mas as palavras não saíam da minha boca, eu me sentia incapaz até de pensar algo, tudo saindo de uma maneira muito desconexa para formar qualquer frase coerente.
A alça do meu vestido caiu do meu ombro e ele afastou ainda mais as minhas pernas, para que tivesse espaço de continuar me beijando. Sua boca se desviou para minha coxa esquerda, a mão prendendo a outra. Ele chegou perigosamente perto da minha boceta e parou, sua respiração pesada batendo contra a minha calcinha.
Eu queria poder conseguir nomear tudo o que eu estava sentindo. Queria ter a chance de saborear cada sensação devagar, pois a urgência da primeira vez me fez catalogar tudo de uma vez, sentir tudo ao mesmo tempo, tamanha a minha necessidade; queria que Bellingham pudesse fazer a mesma coisa.
Pudesse cumprir o seu desejo pessoal de realizar tudo o que queria fazer comigo. Era isso que eu me pegava desejando, estando tão perto dele daquela maneira, como se eu fosse movida com mil sensações e nenhuma capacidade de raciocinar. Emoção ao invés da razão.
Eu odiava admitir o quanto ele estava certo a respeito do meu controle em relação a ele.
— Penso em fazer isso — disse, me pegando de surpresa quando raspou o nariz por cima do tecido da minha calcinha, fazendo minha boceta latejar e um gemido me escapar, alto demais, o que fez com que ele levasse uma de sua mão até a minha boca, abafando o som. Não havia ninguém olhando ali, mas não significava que não podiam nos ouvir. — Em arrancar sua calcinha com os dentes só para ter certeza que você está como imagino. Molhada.
Minha respiração se tornou ofegante e pesada quando ele depositou um beijo ali.
Queria fechar as minhas pernas e esfregar as minhas coxas, para acalmar o meu incômodo, mas ele não deixou.
— Você está molhada, não está? — me provocou, subindo a boca para minha barriga. Ele se levantou e ficou em pé, de frente para mim, sua mão se arrastou da minha boca para a minha bochecha, mantendo-se ali, e eu sentia minha cabeça girar. — Diz para mim.
Balancei a cabeça, espalmando minhas mãos contra o seu peito.
— Eu não…
Ele segurou meu queixo e me fez olhar para ele, o olhar tão intenso que arrepiou a minha espinha.
— Não faça essa sua boca mentir para mim.
Encarei-o, uma mão descendo por seu peitoral até chegar onde eu queria.
— Estou tão molhada quanto você está duro.
Apertei seu pau por cima da sua calça linho e ele conteve um gemido, sua expressão alterando. Sua calça não era de um tecido tão leve quanto o seu kit de futebol, que dava perfeitamente para ver o seu volume, por isso, só podia imaginar o seu incômodo em ter o tecido apertando a sua ereção.
Ofegante, ele encostou sua testa na minha e fechou os olhos.
— Bellingham — sussurrei, um fio de voz, torcendo que ele conseguisse me ouvir. — Não vou transar com você aqui.
Ele soltou uma meia risada, balançando a cabeça quase imperceptivelmente, mas continuou do mesmo jeito, ainda sem abrir os olhos. Ainda com a testa encostada na minha, como se fosse algo natural, como se fizéssemos aquilo sempre.
— Sim, você continua dizendo isso — ele replicou, deixando os ombros caírem um pouco.
Beijei o canto do seu lábio, me controlando o máximo possível para não atacar a sua boca.
— Eu falei que não vou transar com você aqui — repeti, frisando a última palavra, para que ele entendesse o que eu queria dizer.
Ele abriu os olhos imediatamente.
— O quê… — balbuciou, juntando as sobrancelhas, seus olhos nunca deixando os meus. — Vai quebrar a sua promessa?
Seu tom de voz parecia ter um fio de esperança.
Como se ele realmente quisesse tanto, mas tanto isso que esperava que eu estivesse falando sério, e não estilhaçando o seu coração. Porque o desejo tinha aquele poder.
O desejo podia nos corroer por dentro, nos estilhaçar, nos quebrar. A intensidade dele fazia tudo se expandir de um jeito que muitas pessoas não costumavam experimentar.
Aquilo entre nós dois… aquela conexão. Algo que eu relutantemente quis ignorar, mas era impossível negar a sua existência. O quão teimosa eu estava sendo.
Aproveitando que minha mão ainda estava sentindo o seu pau duro por cima do tecido linho da sua calça, acariciei lentamente, minha boca salivando ao me imaginar chupando-o, sentindo o seu gosto, a sua textura, suas veias saltadas, fazendo-o arfar com a sensação. Meus lábios se curvaram em um sorriso, beijei o outro canto da sua boca, e tomei a decisão.
Sim.
Eu ia quebrar a minha promessa.
— Desde que você pretenda cumprir a sua.


O apartamento de Jude Bellingham era muito diferente de tudo o que eu tinha imaginado.
Não que eu fosse mais uma a cair no estereótipo de que os homens eram muito mais bagunceiros que as mulheres (eles eram), principalmente quando moravam sozinhos, mas aquele apartamento não tinha nem mesmo uma poeira fora do lugar. A decoração era um pouco mais minimalista e Jude tinha adotado cores suaves.
Na verdade, não sei o que eu tinha imaginado. Um altar exagerado para o Real Madrid, talvez. Que as coisas estivessem um pouco fora do lugar. Que a decoração não combinasse e houvesse meias ou algo do tipo espalhados pelo chão. Toalhas molhadas na cama.
Mas só havia fotos normais espalhadas, com seus pais e seu irmão mais novo, como uma família comum. Ele me fez entrar primeiro e a curiosidade tomou conta de mim, me fazendo andar lentamente pela sala, olhando tudo, me perdendo principalmente nas suas fotos em família.
— Quer beber alguma coisa? — Sua voz me tirou do transe.
Cocei minha bochecha e deixei minha bolsa em cima do sofá, me sentindo um pouco deslocada por um instante.
— Não, obrigada.
Não chegamos a experimentar o prato principal. Ele pediu que fosse embrulhado para viagem e estava, naquele momento, segurando as sacolas com o nosso jantar, mas eu não estava mais com fome.
Jude assentiu e andou até a cozinha, adentrando um corredor pequeno que se curvava até o cômodo.
Enquanto ele estava fora do meu campo de visão, me sentei no sofá confortável, tirei meu celular da bolsa e, ignorando todas as notificações de mensagens, abri o chat da minha irmã e avisei que não ia dormir em casa naquela noite. Ela se viraria para arrumar uma desculpa sobre a minha ausência para os nossos pais, mas eu meio que duvidava que eles se importassem. Madrid era a minha cidade e eles não tinham motivos para se preocuparem, se fossem esse tipo de pais.
Quando olhei ao redor e percebi que o jogador ainda não tinha voltado, mordi a minha boca e resolvi me distrair abrindo as inúmeras mensagens que Ferran me mandou depois da ligação de mais cedo. Ele tinha muitas perguntas, o que me fez rir um pouco, mas quando eu estava prestes a responder alguma coisa sobre todos os seus questionamentos do meu lance com o Bellingham, a voz dele me tirou do transe outra vez.
— Qual sua relação com o Torres?
A pergunta me pegou de surpresa e eu levantei os olhos na direção dele, observando seus movimentos. Ele estava segurando um prato com alguns morangos e tirou seus próprios sapatos, sentando-se bem ao meu lado, dispondo o prato em seu colo, levando um dos morangos até a boca, mordendo um pedaço. Fiquei um pouco hipnotizada com o movimento inocente, minha mente indo a mil e eu praticamente esqueci que ele tinha feito uma pergunta.
Percebendo que eu estava encarando demais, e provavelmente com uma cara de idiota, limpei a garganta e desviei o olhar, bloqueando a tela do celular, guardando-o de volta na minha bolsa.
— Somos só amigos — respondi, dando de ombros.
— Eu lembro de ler boatos sobre vocês — ele continuou, a voz enigmática. Eu me ajeitei no sofá de um jeito que pudesse ficar sentada de frente para ele. — Parece que não há muita gente que acredita que vocês são realmente amigos.
Umedeci meus lábios e encostei meu cotovelo na base do sofá, apoiando o meu rosto contra a palma da minha mão, meus olhos em seu rosto, enquanto ele ainda se deliciava com o morango. Ele me ofereceu um e eu aceitei.
— Isso acontecia com você e a Alessia Shaw¹? — Mordi um pedaço pequeno do morango, sentindo o gosto adocicado da fruta derreter na minha língua.
Jude exibiu um sorriso quase discreto quando mencionei a sua melhor amiga.
— Não com a mesma frequência que acontece entre você e o Torres — ele retrucou, a resposta na ponta da língua.
Mordi o resto do morango e revirei os olhos, um suspiro escapando dos meus lábios.
— Nunca aconteceu nada entre eu e o Ferran — garanti. — Muito menos houve qualquer interesse partindo de qualquer um de nós. As pessoas gostam de ver coisas onde não tem e parei de me importar com os boatos ou shipps.
Peguei outro morango, mastigando.
— Sem concorrência, então? — Ele quis saber.
Arqueei uma sobrancelha na direção dele, meus lábios levemente curvados para cima em um sorriso meio debochado.
— Cuidado, Bellingham — murmurei. — Assim vou começar a achar que você está com ciúmes.
Ele se esticou apenas para deixar o prato em cima da mesinha de centro de vidro que ficava bem perto do sofá. Em seguida, se virou para mim, limpando o canto da boca com o polegar, a outra mão livre chegando perigosamente perto da minha coxa exposta. Minha respiração quase falhou por antecipação, a expectativa pairando no ar.
Era diferente ali.
Não estávamos dentro de uma sala qualquer do Bernabéu, onde qualquer pessoa podia nos interromper, muito menos com o tempo contado para uma foda tão rápida. Eu não tinha a desculpa de que precisava ir embora. Ali, o tempo era obrigado a passar mais lento só para que tivéssemos mais tempo de explorar um ao outro.
Se eu tinha acabado de ceder e quebrado a minha promessa por um desejo sexual quase incontrolável, nada mais justo que eu aproveitasse cada pedacinho do que ele estava disposto a me dar.
— Não tenho motivos para ter ciúme — ele disse, a mão finalmente pousando na minha coxa, sua pele contra a minha, arrepiando a minha nuca. — Porque sou eu que estou tocando você agora.
O sorriso presunçoso alcançou seus olhos com uma confiança impressionante. Ele apertou minha coxa devagar, meu peito subindo e descendo com a respiração irregular, e fiquei imóvel, esperando o próximo passo dele.
— Seu ego realmente é um problema — murmurei.
Ele nem se abalou.
— Eu chamaria de autoconfiança — me corrigiu.
Antes que eu pudesse responder, sua boca se chocou contra a minha em um beijo urgente, como se ele tivesse se contendo o tempo todo para fazer aquilo.
Tinha gosto de vinho e de morango, e o peso do seu corpo obrigou o meu a cair deitado contra o sofá macio, com ele por cima, se esforçando para não deixar todo o seu peso cair sobre mim. Minhas mãos subiram, uma parando na sua nuca e a outra segurando a ponta da sua camisa, querendo-o mais e mais perto.
Intensifiquei o beijo e, involuntariamente, abri um pouco as minhas pernas para que ele se encaixasse melhor. Meu peito subia e descia com um esforço pesado, a respiração quase falhando, mas eu não me importava. Minha boca estava exatamente onde eu queria que estivesse, desde que o vi no restaurante.
Minhas barreiras cediam uma a uma, a resistência caindo por terra.
Dali em diante, eu não podia mais negar o meu desejo por ele.
A forma como meu corpo estava quente contra o dele por cima de todo aquele pano comprovava isso.
— Você vai se arrepender? — Bellingham afastou sua boca da minha, murmurando algo contra os meus lábios.
Meus pensamentos estavam completamente nublados e não entendi nem mesmo uma letra do que ele tinha acabado de me perguntar, totalmente bêbada, não do vinho, mas de desejo, minha coxa se esfregando contra a sua, o pano grosso da sua calça me impedindo de sentir o contato de maneira crua.
— O quê? — meio que balbuciei.
Ele roçou os lábios contra os meus e senti seu sorriso aparecer suavemente. Nossos olhos se encontraram e não consegui identificar a maneira que ele me olhava. Era uma mistura de adoração, desejo, algo mais quente.
— Você vai se arrepender disso? — repetiu para que eu entendesse. — Você parecia segura no restaurante, e fico feliz por isso, de verdade, mas você tem certeza que quer seguir adiante? Odiaria que você se arrependesse depois disso aqui acabar.
Quando processei o que ele tinha acabado de dizer, um sorriso surgiu lentamente nos meus lábios. Eu quase revirei os olhos pela pergunta, mas teria que considerar que ela era válida e, naquele momento, mesmo que tentasse esconder, vi um resquício de insegurança brilhar nas suas írises.
Acho que ele não suportaria o peso do meu arrependimento justamente porque era algo que ele queria tanto.
Toquei a sua bochecha com meu polegar, surpreendendo não só a ele, mas também a mim pelo carinho inesperado. Não sei de onde surgiu a necessidade de tranquilizá-lo sobre aquilo, mas eu me vi fazendo isso sem pensar.
— Eu não me arrependi nem da primeira vez, Bellingham — respondi a sua pergunta com uma voz tão suave quanto eu podia ser. — E foi bem diferente dessa vez aqui, e eu te odiava mais do que odeio agora.
Ele riu, aproximando sua boca da minha só para morder o meu lábio inferior.
— Você não me odeia — murmurou contra a minha boca e afastei meu polegar da sua bochecha. — Isso é só charme.
Antes que eu pudesse retrucar, ele me beijou, sabendo como calar a minha boca.
Engoli a minha vontade de rebater e me concentrei na sua boca, no beijo, em como meu corpo estava quente contra o dele, as peças de roupas começando a me incomodar. Queria sentir a pele dele sem nenhum obstáculo no caminho e, por isso, fui enfiando minhas mãos por dentro da sua camisa, buscando aquele contato pele a pele. As lembranças de nós dois juntos depois daquele jogo desastroso se misturavam ao momento, como se agora eu pudesse aproveitar da forma certa.
Da forma como eu deveria ter aproveitado antes, pensando que não teria outra chance ou que seria firme em não ceder outra vez.
Mas essa boca, a forma como ele me beijava, o jeito que ele parecia com fome…
Minha boceta latejou em expectativa.
E gemi em protesto quando sua boca se afastou da minha e ele começou a descer os lábios por meu pescoço, traçando beijos pela minha pele, suas mãos subindo pelas minhas coxas, me explorando tão lentamente que eu arfei, tentando ser paciente.
Não havia nenhum risco de sermos interrompidos ou flagrados ali, o que significava que não havia nenhuma necessidade de ter pressa e eu podia deixar ele ir devagar. Mesmo que eu tivesse com essa necessidade urgente de senti-lo mais perto, odiando a mim mesma por meu corpo trair o meu cérebro.
Respirei fundo e fechei os olhos, me concentrando nas sensações que seus lábios provocavam na minha pele, o beijo se arrastando por meu suor, enquanto ele continuava trilhando o caminho do meu corpo, descendo e descendo, me beijando por cima do pano do vestido, suas mãos vindo na contramão até parar na barra do tecido. Então seus lábios estacionaram bem em cima do meu ventre, onde ele deixou um último beijo, me fazendo abrir os olhos para observar seu próximo movimento.
Ele se inclinou apenas o suficiente para deslizar suas mãos para cima, arrastando o meu vestido junto, querendo se livrar da peça. Não dificultei a sua vontade e ajudei-o a tirar o vestido do meu corpo, revelando a minha nudez quase incompleta, porque a única peça que restava no meu corpo era a minha calcinha, contando com a ausência do sutiã. Vi um lampejo de desejo transpassar por seus olhos e engoli a seco ao sentir seu polegar rodear a auréola dos meus seios, jogando a peça de roupa em algum lugar do chão da sala.
— Você é tão linda, — ele melodiou.
Senti minhas bochechas esquentarem pelo elogio inesperado.
— Isso não é nada que você já não tenha visto — devolvi, o que o fez rir e revirar os olhos, beliscando o meu seio de propósito, me arrancando um gemido.
— Não sabe responder elogios? — retrucou, com humor.
Espalmei minhas mãos contra o seu peito e empurrei-o devagar, até ele cair sentado do outro lado, enquanto eu ia me levantando junto. Ele ainda estava com todas as peças de roupa no corpo, o que me incomodou.
— Não é o que me interessa agora — respondi, me sentando em seu colo.
Suas mãos imediatamente pousaram na minha cintura, como se não conseguisse ficar muito mais longe do meu corpo. Pousei uma mão em seu pescoço e a outra foi para o ombro, me apoiando.
Eu me aproximei mais, até sentir o seu pau duro por cima do tecido grosso da sua roupa. Minha boceta latejou com a proximidade e eu umedeci meus lábios secos.
Isso — comecei a dizer, me esfregando contra a sua protuberância, escutando um gemido baixinho escapar dos seus lábios entreabertos, minhas unhas fincando em seu ombro com força, mas ele nem se importou — é o que me interessa agora.
A fricção me fez perceber que minha calcinha estava molhada.
O pouco contato me deixou ofegante, pequenas gotas de suor escorrendo por minhas costas, o tesão me consumindo de maneira lenta e torturante e senti quando ele afundou os dedos na pele da minha cintura, como se tentasse se conter.

Movi minhas mãos para me livrar da camisa dele. A peça voou para algum lugar da sala, juntando-se ao meu vestido. E eu busquei por mais, me esfregando contra ele, contra o seu pau duro, tecido contra tecido. Isso era ainda melhor do que foi a primeira vez. Suas mãos foram subindo por minhas costas, até decidir me puxar para mais perto, para que sua boca alcançasse os meus seios. Primeiro, sua língua me lambeu.
O misto de sensações me deixou inebriada. Continuei me esfregando contra ele, devagar, ao mesmo tempo que ele agora mordia a ponta do meu bico, a mão livre beliscando o outro seio, intensificando meu prazer em cada partícula que preenchia o meu corpo. Nossos gemidos se misturaram, formando uma melodia que eu não sabia onde começava ou onde terminava e me tornei desesperada para sentir seu pau fora da sua calça, minhas mãos descendo desajeitadas para o meio dos nossos corpos, enquanto tentava encontrar o seu zíper.
Me surpreendi com a vibração da sua risada contra o meio seio esquerdo, meu corpo estremecendo. Ele afastou o rosto apenas um centímetro para me olhar e não parei a minha tarefa em busca do seu zíper.
— Desse jeito, amor, vou achar que você está desesperada para sentir o meu pau — me provocou.
Tive que conter um suspiro irritado.
— Não seja idiota — retruquei. — É óbvio que eu estou desesperada para sentir seu pau. Agora dá pra me ajudar?
— Só porque está me incomodando.
Eu desci do colo dele, me ajoelhando no chão bem na sua frente. Ele me encarou por um instante, como se percebesse qual era a minha intenção, mas finalmente se ergueu um pouco do sofá, abriu o zíper da calça e começou a empurrar a peça para baixo, seu pau saltando para fora. Quando ele chutou a calça e a boxer, me aproximei, ficando no meio das suas pernas, minhas duas mãos paradas cada uma em cima da sua coxa. Ele estava tão duro que minha boca salivou.
Toquei a ponta da sua cabecinha e apertei devagar, observando seu rosto transformado de tesão, o desejo se concentrando em seu sangue ali, as veias saltando de um jeito delicioso.
… — Seu tom de voz soou como um alerta.
Que eu estranhamente entendi.
— Relaxa, Bellingham — soltei, apertando sua coxa com minha outra mão. — Não vou te fazer gozar antes de me foder — prometi. — Eu só quero…
Eu nem consegui completar a frase. No próximo segundo, o pau dele estava na minha boca, seu pré-gozo derretendo na minha língua, enquanto eu tentava fazê-lo caber inteiro, seu corpo tremendo em resposta. Não fui gulosa, nem apressada. Eu só queria sentir um pouco do seu gosto, saborear lentamente, do jeito que eu não tive a oportunidade de fazer da outra vez. Queria assistir sua testa se franzir de prazer, seus lábios apertados em uma linha fina, contendo os próprios gemidos.
Ele disse que eu era linda, mas ele…
Picasso teria inveja da visão que eu estava tendo naquele momento. Se eu soubesse pintar, ele também teria inveja de mim do quadro que eu faria daquela imagem, de como eu teria eternizado aquela beleza em técnicas de pinturas que eu não conhecia e daria nomes a novas cores para fazer jus à pele brilhante dele.
Lambi suas veias saltadas. Ele se aventurou em acariciar a parte lateral do meu rosto, alguns cachos começando a grudar na minha pele devido ao suor. O pano da calcinha começava a me incomodar, mas minha boca continuou exatamente no mesmo lugar e quando meus olhos se voltaram para o rosto dele, seus lábios me presentearam com um sorriso digno de arrepio.
Porra, eu tinha me esquecido o quanto sua boca é boa nisso — ele disse, com um pouco de dificuldade em conter os gemidos, que para mim soaram como uma melodia única, feita por aqueles lábios deliciosos e carnudos. — Isso… Porra, , não. Vem cá.
Ele me fez afastar a minha boca do seu pau, soltando um suspiro quase aliviado. Passei as costas da mão na minha boca e sorri ao vê-lo quase perder o próprio controle.
— Assim eu vou gozar — ele explicou.
Me levantei, tirando a minha calcinha sem cerimônia alguma, jogando-a para se juntar às outras peças de roupas espalhadas pela sala.
— Camisinha?
Ele indicou o chão com um aceno.
— No bolso da calça.
Estreitei os olhos para ele e ri, meus olhos procurando por sua calça.
— Uau — soltei, andando apenas um passo próxima ao sofá novamente, onde sua calça estava no chão. Me abaixei e peguei um pacote de camisinha no bolso frontal. — Tava esperançoso ou confiante que isso acontecesse?
Ele revirou os olhos e me puxou pelo braço, me fazendo cair no seu colo novamente.
— Um pouco dos dois.
O meio-campista beijou a minha boca, me calando novamente.
Estava se tornando um hábito, mas não me importei naquele momento. Só me entrelacei melhor ao seu colo e me concentrei em sua boca, no beijo lento que sufocava o nosso ar até os pulmões e não havia mais nada nos separando — nenhum tipo de roupa, nenhum tecido pesado. Eu conseguia sentir a sua pele quente contra a minha, seu suor se misturando ao meu.
Jude puxou o pacote de camisinha da minha mão durante o beijo, rasgando. Ele só se afastou quando precisou colocar em seu pau, mas sua boca continuou na minha pele, descendo por meu pescoço, mordiscando cada pedacinho de carne que ele encontrava. Suas mãos, firmes, me seguraram pela cintura e me ergueram apenas o suficiente para que eu estivesse bem no centro do seu pau.
E, com a sua ajuda, me enterrei contra ele.
Devagar, lento, sentindo-o me preencher, meu peito subindo e descendo com a respiração ofegante. Eu finquei minhas unhas contra seus ombros enquanto ele me fodia e minha boca procurava a sua. Nossas respirações não estavam adequadas, mas nenhum de nós se importou com isso, só com a fricção dos nossos corpos se chocando um contra o outro, na maneira como ele me segurava e me mantinha para si, na forma que nossos gemidos escapavam juntos e sincronizados, às vezes alto, às vezes baixo.
Arrastei meus lábios dos seus para sua bochecha, chegando até perto do seu ouvido, minhas pernas tremendo de excitação.
— Me diga, golden boy — sussurrei, mordendo o lóbulo da sua orelha, arfando quando ele estocou forte e fundo. — Como eu poderia me arrepender disso?
Chupei o seu pescoço. Não o suficiente para deixar marca, mas minhas unhas estavam deixando uma trilha por sua pele. E quando ele estocou fundo de novo e enfiou os dedos contra a raiz do meu cabelo, puxando meu rosto para perto do seu, engoli a seco com o quanto gostei daquilo.
— Isso não é nem mesmo dez por cento do que eu sonhei em fazer com você — ele murmurou contra a minha boca, seus olhos alternando entre os meus olhos e os meus lábios, até que seus dentes se arrastou até a minha boca e mordeu meu lábio inferior com força, me arrancando um gemido. — Você não tem ideia de como é gostosa. Do que faz comigo quando se rende assim.
Ele não me deu tempo de responder.
Em um movimento rápido, inverteu os nossos papéis e, um segundo depois, eu estava deitada contra o sofá de novo, com ele em cima de mim, tomando o controle. Jude saiu de dentro de mim, esfregando o seu pau contra o meu clitóris inchado e sensível e mordi o seu ombro para conter o meu gemido alto.
Eu não conseguia mais pensar direito. Em minha mente, só havia um monte de imagens turvas e as palavras também sumiram, tudo o que ecoava sendo lindo, lindo, lindo, um grito escapando da minha garganta quando ele voltou a se enterrar e estocar forte e rápido, desistindo de ser lento, prometendo que era uma noite longa e que eu não iria a lugar nenhum.
— Está tudo bem? — ele perguntou.
Espalmei a minha mão contra a lateral do seu rosto, assentindo, quase me sentindo incapaz de falar, de dizer qualquer coisa. Talvez eu devesse ter cuidado com a forma que ele me afetava. Em como meu corpo tremia com cada toque sutil seu, em como minha boceta continuava latejando, como a excitação em mim só crescia e em como eu não conseguia lidar com a forma que ele me olhava.
Era diferente, gostosa e… indecifrável.
Perigosa.
— Só continua — respondi, em tom de reclamação. — Mais forte.
— Pedindo com tanto carinho… — O tom era sarcástico, mas ele me obedeceu.
Buscando por mais contato, enganchei minhas pernas ao redor da sua cintura, minha boceta apertando o seu pau, o que fez ele arquear as costas de excitação. E ele se enterrou. Mais e mais fundo, querendo entrar completamente, estocando forte. Jude se inclinou mais um pouco, buscando os meus lábios, nossos corpos grudados como se fossem um só. Eu não me importei com ele deixando mordida leves por minha pele, e ele não se importou comigo arranhando as suas costas.
Sua boca dizia palavras desconexas.
Eu não conseguia entender nem mesmo uma sílaba do que ele estava tentando dizer, as palavras se misturando ao som dos nossos gemidos, transformando a coisa toda em uma algo desconexo, impossível de ser entendido. Ao contrário dos nossos corpos, que estavam mais conectados do que nunca, como se tivéssemos feito aquilo centenas e centenas de vezes e só estivéssemos reproduzindo a memória muscular. Porque ele sabia como me foder. Sabia como me arrancar gemidos e sabia como me provocar.
Como naquele momento, em que ele enfiou uma mão no meio dos nossos corpos e começou a esfregar o meu clitóris em movimentos circulares, aumentando meu prazer e a minha sensibilidade, minhas pernas tornando a tremer. Eu me sentia mole. Sentia os espasmos tomar conta do meu corpo, um aviso que sempre antecedia ao meu orgasmo. Movida pelo tesão, minhas unhas se arrastaram por sua pele com mais força, um gemido rouco saindo de sua garganta.
— Bellingham…
Ele bufou e mordeu meu ombro devagar.
— Você é tão teimosa, coração — ele reclamou, a voz igualmente rouca contra a minha pele, arrepiando os meus pelos. — Eu estou te comendo e você não consegue me chamar de Jude?
O meio campista afastou o rosto só um pouco, para que ficasse bem acima do meu, me encarando com os olhos escuros de desejo e os lábios torcidos de uma meia irritação por eu não aceitar chamá-lo pelo seu nome. Ainda assim, eu sorri.
— Por que eu faria isso? — provoquei, passando o polegar por seu lábio inferior.
A resposta veio com uma estocada forte.
— Porque é o meu nome — respondeu, ofegante. — E eu quero ouvir a sua boca teimosa chamar.
Eu não disse nada. Ele arqueou a sobrancelha para mim e eu umedeci meus lábios, franzindo o nariz em diversão. Devagar, ele foi diminuindo as estocadas e parou de circular o meu clitóris. Quando ele ameaçou sair de dentro de mim, eu o segurei com minhas mãos e pernas ao redor da sua cintura.
Não — chiei, e comecei a rir, revirando os olhos. — Porra, tudo bem, tudo bem. Só não saia de dentro de mim.
Ele não saiu.
Ao invés disso, sorriu para mim.
— Tudo bem o quê? — me incentivou a dizer, e eu me agarrei a ele com mais força quando ele voltou a estocar.
Nossos corpos se chocavam com mais intensidade dessa vez, como se ele estivesse sendo movido por uma nova emoção. Quando eu não respondi, ele beliscou o meu clitóris devagar, minhas costas arqueando com a sensação que tomou o meu corpo.
Jude — finalmente chamei, assistindo os olhos dele se incendiarem ao ouvir seu nome sair da minha boca. — Ai, porra, Jude, só…
Minha boceta se contraiu contra o seu pau.
Eu fechei os olhos, sentindo tudo demais, ao mesmo tempo, o ápice tomando conta de mim logo em seguida, enquanto ele segurava o meu corpo tremendo, parando de se mover dentro de mim, me dando um tempo.
Tentei respirar normal, mas eu estava completamente ofegante e morrendo de calor, agarrada a ele como se ele fosse a única coisa que me sustentava no momento. Sentindo ele acariciar as minhas bochechas quentes, abri os olhos e encontrei-o me encarando.
— Acho que essa é minha nova visão favorita — ele disse, a voz baixa e rouca, depositando um beijo demorado nos meus lábios, saindo de dentro de mim sob meus gemidos de protestos. — Você gozando.
— E chamando seu nome?
— E chamando meu nome — repetiu.
Balancei a cabeça, um julgamento silencioso, ainda me sentindo completamente mole, mas satisfeita. Ainda que não completamente. Espalmei as minhas mãos contra seu peito e olhei para ele.
— Ainda não terminamos aqui.
Ele se afastou, sentou no sofá e me puxou junto, me segurando em seu colo.
— Não, coração, não terminamos — disse, enfiando uma das mãos ao redor do meu pescoço. — Nós temos a noite toda. Se você quiser ficar.
Outro convite.
Meu coração disparou e eu engoli a seco, tentando pensar se era uma boa ideia ceder. Eu tinha cogitado isso antes, claro, afinal de contas, mandei mensagem para minha irmã avisando que ia passar a noite fora, só não pensei muito bem no que significaria. Mesmo assim, era tarde e eu queria aproveitar mais disso, mais dele, não deixá-lo na mão. Eu continuava excitada e extasiada demais para dizer não.
Então assenti e vi seu sorriso iluminar o seu rosto e ele se levantar, me levando junto. Eu rodeei minhas pernas ao redor da cintura dele, me segurando, enquanto ele andava pela sala, me levando para algum lugar.
— Vamos — ele murmurou, subindo as escadas, beliscando a pele da minha coxa em pura provocação. — Eu ainda não te levei para minha cama.

¹Alessia Shaw é a personagem principal de touch me like you never que você pode ler aqui.



— Bellingham. Bellingham, acorda!
Ele sequer se moveu. Nem mesmo um centímetro, ainda que eu estivesse cutucando-o freneticamente. Seu peito subia e descia em uma respiração suave, a expressão completamente serena de quem estava em um sono dos deuses, sem preocupações.
Diferente de mim, que fui acordada com barulhos suspeitos vindo do andar de baixo. Quando olhei no relógio de mesa do outro lado, eram quase sete da manhã, o céu completamente nublado, impedindo que o sol desse as caras e iluminasse o quarto pelas frestas da janela.
Achei que tinha sido um engano ou que foi algo que sonhei, então tentei voltar a dormir, mas o barulho continuou, me despertando em um modo alerta que disparou o meu coração levemente em pânico. Alguém tinha invadido a porra da casa e o dono dela estava em um sono profundo e tranquilo.
— Bellingham! — sussurrei um pouco mais alto, com medo de gritar e a pessoa ouvir lá de baixo.
Então usei toda minha força e empurrei-o, a outra mão segurando o lençol que cobria a minha nudez.
— O quê? — ele resmungou, tentando abrir os olhos.
— Tem alguém na casa.
O quê?
Ele finalmente despertou, dando um pulo na cama, se sentando. Piscou os olhos e focou em mim, confuso, mas antes que eu pudesse repetir o que tinha acabado de dizer, um barulho nos silenciou e ele entendeu.
Sua expressão mudou e ele arrastou o lençol para o lado, pegando uma bermuda qualquer que estava pendurada em uma das poltronas, bem diferente da calça que ele usava ontem à noite.
— Ah, porra — ele murmurou, andando até a porta. — Eu já volto.
Tentei não entrar em pânico.
Talvez fosse só uma fã maluca que descobriu o endereço dele e invadiu a residência, ou coisa desse tipo. Tudo era possível, principalmente quando se tinha fãs malucas de todos os tipos e eu tinha certeza que ele colecionava um monte delas. Sei disso porque eu convivia diariamente com os meninos e trabalhava com as redes sociais dos clubes e via coisas que eu preferia não ter visto. Elas tinham uma imaginação bastante… fértil.
Mas esperei.
Não ousei nem mesmo sair da cama, até que ele voltasse e falasse que não era nada. Que foi só o vento inexistente derrubando as panelas da cozinha e que sua casa era completamente segura. Tinha que ser. Ele morava em um bairro caro, em um condomínio fechado que devia custar mais do que eu ganhava no mês como estagiária, o mínimo era ter um pouco de segurança.
Não sei quantos minutos se passaram, mas eu já estava quase roendo minhas unhas com os esmaltes descascando quando ele voltou. A expressão parecia mais tranquila, mais suave, o que me permitiu respirar fundo. Se ele tivesse encontrado algo que representasse perigo lá embaixo, não voltaria tão tranquilo.
— Tá tudo bem, , é só a minha mãe — ele informou, se jogando contra a cama, a cabeça quase no meu colo.
É só o quê?
— O que é que você disse?
Ele levantou o rosto amassado de sono, olhando para mim.
— É só a minha mãe preparando o café da manhã — explicou, como se não fosse nada. — Às vezes ela aparece assim. Virou um hábito tomarmos café juntos de vez em quando.
Crispei os lábios e cocei a minha bochecha, contendo o meu tom de voz. Era muito cedo para ficar tão irritada, certo?
— Você sabia que ela vinha? — perguntei.
— Não.
Apontei um dedo em riste para ele.
— Bellingham…
— Eu não sabia — reforçou. — Estava esperando que ela só aparecesse amanhã, ela só se adiantou.
Me afastei dele.
— Porra, eu sabia que devia ter ido embora. — Saí da cama, ainda segurando o lençol para cobrir o meu corpo, enquanto passava os olhos pelo quarto. — Nunca é uma boa ideia ficar até as primeiras horas da manhã. Cadê o meu vestido?
Ele escondeu o sorriso, se sentando.
— Lá embaixo.
— Só pode tá brincando, puta que pariu.
— Ei, relaxa — ele pediu, a voz calma e sonolenta. — É só a minha mãe.
Fuzilei ele com o olhar e ele calou.
É só a sua mãe? — Mantive meu tom de voz baixo. — Eu não a conheço. E ela, definitivamente, não me conhece. E acabou de passar pela sua porta, entrou na porra da sala e viu as nossas roupas jogadas no chão. Imagina o que ela pensou!
— Que duas pessoas jovens transa…
— Não completa essa frase! — Apontei o dedo em riste para ele novamente.
Me obriguei a respirar fundo e parar de surtar. Era uma situação incomum, mas não era o fim do mundo. Eu só não sabia onde enfiar a minha cara, porque de jeito nenhum eu ia descer e encarar a mãe dele. Não depois dela ter visto as minhas roupas jogadas no chão da sala do seu filho.
Nós continuamos a noite na sua cama. Fizemos de tudo um pouco até nós dois caímos exaustos e não me lembro como peguei no sono, mas dormi ouvindo as batidas do seu coração, com os olhos pesados demais para me lembrar de acordar cedo e dar o fora daqui. E agora eu estava arrependida daquela decisão estúpida.
— ele me chamou, a mão estendida bem na minha direção. — Vem aqui.
Eu não saí do lugar, mas ele não abaixou a sua mão.
— Você pode ir buscar o meu vestido para que eu possa vestir e ir embora daqui? — pedi, mais calma. — De preferência, sem ela me ver.
Ele insistiu silenciosamente que eu fosse até ele e, bufando, obriguei meus pés a me levarem até a cama e aceitar a sua mão. Ele me segurou pela cintura e continuei apertando o lençol contra o meu corpo.
— Eu posso buscar o seu vestido, mas acho que você não precisa ir embora — ele disse e eu levantei uma sobrancelha. — Olha, minha mãe não é um bicho de sete cabeças, tá legal? Ela já sabe que tem alguém aqui.
Estudei a sua expressão, analisando o seu pedido.
— Caramba, você já falou de mim, não foi?
Ele só deu de ombros, como se não se importasse de ter sido descoberto daquela forma.
— Eu te disse, eu penso em você e não é de hoje — admitiu.
Soltei um suspiro curto e baixo, sem saber exatamente o que pensar daquilo. Quer dizer, normal ele se atrair por mim e me provocar a cada clássico, tentando chamar a minha atenção, mas falar de mim para sua mãe?
— Isso tá começando a beirar a obsessão — brinquei.
Ele beliscou a minha cintura em retaliação.
— Fique mais um pouco. Toma café com a gente — pediu de novo, na esperança que eu aceitasse. — Ela pode ser um pouco difícil no começo, mas eu prometo que ela é ótima.
— Você precisa que sua mãe goste de mim? — investiguei.
Não sabia porquê, mas aquilo parecia importante para ele. E não sei quando passei a querer me importar que as coisas fossem importantes para ele.
— Isso seria ótimo — ele disse, com um sorriso.
Lambi meus lábios, encarei seus olhos e dei uma batidinha em seus ombros, me rendendo de uma vez. Ela já sabia que eu estava aqui, só pioraria a minha reputação se eu saísse de fininho, como se tivesse devendo alguma coisa. Por outro lado, era um pouco constrangedor ser pega naquele tipo de situação.
— Tudo bem, mas eu preciso de um banho — avisei. — E do meu vestido.
O sorriso cresceu tanto em seus lábios que eu achei que suas bochechas fossem se rasgar.
— Vista uma camisa minha.
Me afastei dele, as mãos ainda segurando o lençol, enquanto eu andava direto para o banheiro.
— Não seja idiota, não vou agir como se fosse sua namorada — retruquei, balançando a cabeça. — E vá buscar o meu vestido!
Eu ouvi a sua risada ecoar enquanto fechava a porta.


No fim das contas, Jude não trouxe o meu vestido.
O que me obrigou a caçar uma boxer e uma camisa dele em seu guarda-roupa, que ficasse grande o suficiente em mim para cobrir pelo menos metade das minhas coxas. O que também me fez pensar que ele fez aquilo de propósito, já que nem voltou para o quarto. A cada segundo que passava, eu começava achar aquilo uma péssima ideia, querendo desviar o caminho da cozinha até a saída, indo embora.
Infelizmente, eu não era tão corajosa a ponto de fazer tal coisa. Ou covarde o suficiente. Tanto faz.
Prendi o meu cabelo em um coque alto, deixando alguns fios rebeldes cacheados caindo soltos. Meu estômago reclamou de fome e senti meu próprio corpo me traindo e, como meus saltos também ficaram jogados na sala, não tive escolha a não ser descer as escadas descalça, um passo mais lento do que o outro. No último lance de escada, consegui sentir o cheiro de café, de algo assando na panela, e o som de vozes e risadas suaves.
Mas não foi isso que me paralisou.
Cada célula do meu corpo que se corroeu de nervosismo minutos antes se dissipou, dando lugar a uma lembrança nostálgica quando me dei conta de que o cheiro de algo era, na verdade, panqueca de mirtilo com mel. Era um cheiro tão específico que meu peito se apertou de saudade, lembrando da vovó na frente do fogão, preparando a panqueca para mim, enquanto eu esperava ansiosa, com sete anos de idade, sentada na bancada mais alta.
De modo automático, adentrei a cozinha, parando na entrada, encontrando Jude ao lado de sua mãe. A mais velha finalizava a comida no fogão, enquanto Jude preparava a mesa, dizendo algo com um sorriso no rosto e sua mãe balançava a cabeça para o comentário que não prestei atenção.
Ele me notou.
.
Ele me anunciou em voz alta. Ao som do meu nome, sua mãe suavizou a sua expressão e olhou para mim, ainda parada, os pés grudados contra o chão, me impedindo de dar mais um passo. Eu forcei as minhas bochechas a se esticarem para meus lábios formarem um sorriso pequeno e simpático, o cheiro ainda me invadindo em mil lembranças, anos de muita memória guardada convertida em saudade.
— Bom dia — soltei, só para dizer qualquer coisa.
A mãe dele não disse nada. Ela só olhou para mim, o rosto indecifrável, e tentei não me sentir intimidada, porque ela tinha uma presença forte. Era muito bonita, um pouco parecida com Jude, o mesmo formato do rosto. Seu filho veio até mim e parou do meu lado.
— Mãe, essa é a — ele me apresentou e, odiando ser tímida, só levantei a mão perto do meu corpo e acenei discretamente.
Que merda de situação estranha.
Ponderei se eu, sinceramente, contaria aquela parte para Pilar, porque eu já podia imaginá-la tendo uma crise de risos. E não uma crise discreta de risos, uma crise do tipo sonora, que todo mundo podia ouvir ela rindo a meio quilômetro de distância.
, essa é a minha mãe, Denise.
Ele tocou a base das minhas costas e eu estremeci, tentando disfarçar com um suspiro discreto e tenso.
— Oi, sra. Bellingham — cumprimentei novamente, estranhamente ansiando por validação.
Talvez fosse por isso que eu não quisesse descer e conhecer sua mãe nesse tipo de situação. Passar a vida inteira esperando e implorando a validação dos meus pais me fazia projetar isso em outras pessoas, principalmente figuras paternas e maternas. Ferran entendeu isso quando me levou para conhecer a sua mãe e eu não parava de suar frio, questionando-o constantemente sobre o que eu precisava fazer para ela gostar de mim.
Mas eu sequer tive essa chance com o Jude.
Parecia que a vida tinha me preparado aquela armadilha.
E meu corpo não relaxou até ver o rosto daquela mulher suavizando ainda mais com um sorriso caloroso nascendo dos seus lábios, não desarmando a minha retaguarda completamente, mas era um ótimo início. Não era?
— Oh, querida, me chame de Denise — disse, me corrigindo, fazendo um gesto de descarte com a mão. — E sinto muito por sua roupa, obriguei o Jude a colocar na máquina de lavar, mas deve secar rapidinho. Agora venha, sente-se.
Balancei a cabeça em repreensão para Jude sobre a minha roupa, mas, em silêncio, acatei o pedido da mais velha e me sentei na mesa, três pratos postos para cada um. Como se fôssemos uma família, como se aquilo fosse comum.
Na verdade, quis perguntar se isso era comum.
Se Jude trazia as garotas para sua casa e elas acordavam no dia seguinte para tomar café da manhã com a sua mãe.
O pouco que eu sabia sobre ele — e que pesquisei, assim, aleatoriamente — era que sua mãe morava aqui em Madrid com ele, enquanto seu pai morava com Jobe, na Inglaterra, como se fosse uma espécie de contrato entre eles. Tinha até uma entrevista engraçada do seu irmão zoando-o, dizendo que ficava sem a mãe porque Jude não sabia dirigir e nem cozinhar, o que eu não descobri ser verdade. Sua mãe não parecia estar ali de modo invasivo, do tipo mães que querem controlar tudo ao redor do filho, muito pelo contrário. Acreditei nele quando disse que costumavam tomar café da manhã juntos.
E apreciei aquele hábito, porque eu pude perceber que a família de Jude era bem diferente da minha. Eles eram unidos, amáveis e apoiavam um ao outro.
Coisas que eu nunca tive.
— Você é alérgica à alguma coisa, querida? — O tom carinhoso da voz dela me desarmou e eu saí do meu próprio torpor de distração, encarando-a sentada de frente para mim.
Jude estava ao meu lado. Eu senti quando sua mão pousou na minha coxa e apertou levemente, como se quisesse me passar algum tipo de conforto, percebendo, ainda, que eu precisava relaxar. Sua atitude também me pegou desprevenida, mas não tirei sua mão dali, o calor familiar me confortando de um jeito estranho — e bom.
— Não, tudo bem — respondi, com um sorriso pequeno nos lábios, encarando a panqueca de mirtilo no centro da mesa, uma bandeja pequena de torradas, geleia de morango, frutas e uma jarra de suco. — Eu como tudo daqui.
— Então, por favor, fique à vontade e se sirva — disse.
Tentei relaxar a minha postura, meus ombros ainda tensos. Cocei a minha bochecha, observando os dois começarem a se servir e Jude, percebendo que eu continuei estática, parada do mesmo jeito, tirou a mão da minha coxa e colocou uma panqueca para mim. Olhei para seu rosto, buscando por alguma coisa que não sabia o que era, seus olhos encontrando os meus no meio do caminho, aquela coisa estranha pairando entre nós, uma cena inusitada e incomum acontecendo.
Como é que eu dormia com ele pela primeira vez de verdade e no dia seguinte acabo tomando café da manhã com a sua mãe? Não sabia dizer quantas garotas tinham esse tipo de histórias semelhantes para contar, e nem dava para dizer que foi tudo calculado, de propósito. Ele não teria me encurralado daquela maneira, então só sorri, acenei em um silencioso agradecimento e respirei fundo discretamente, encarando a panqueca no prato, só então começando a comer.
O cheiro podia ser semelhante ao que a vovó fazia, mas o gosto não era, então relaxei e dispensei as lembranças.
Achei que o silêncio ia reinar de alguma forma. A linguagem corporal de Jude mostrava que ele não estava desconfortável, muito pelo contrário, parecia uma coisa normal para ele me ter tomando café da manhã conosco. Essa sensação de familiaridade falsa me atingiu em cheio. Mas era a mãe dele quem não estava disposta a tomar café da manhã em absoluto silêncio.
— Como se conheceram? — ela perguntou ao mesmo tempo que bebia algo do seu copo.
Engoli um pedaço da panqueca e encarei Jude, piscando os olhos, quase incentivando-o a responder aquela pergunta. Eu mesma queria saber qual a resposta que sairia da sua boca.
— Em um el clássico — ele respondeu, dando de ombros.
Uma resposta simples, fácil.
Como se isso não explicasse que éramos de lados opostos e, ainda assim, estávamos aqui.
— Ah, você é do Real também? — a mãe dele tornou a perguntar para mim.
Engoli a comida e tentei não levar aquilo como uma ofensa; ela não sabia.
— Acho que seu filho esqueceu de te contar que eu torço e trabalho para o time rival — avisei.
Jude balançou a cabeça, um meio sorriso afetado nos lábios.
— Em minha defesa, quando vi ela pela primeira vez, ela não usava nada que indicasse o Barcelona.
— E isso teria mudado alguma coisa? — disparei, encarando-o.
Ele me olhou em silêncio por tempo demais
— Não.
A resposta parecia carregada de uma certeza que eu não reconhecia o que significava para ele, mas não abri a boca para dizer nada. Nossos olhos continuaram assim, se sustentando, como se só houvesse apenas nós dois ali. Minha mão parou perto do garfo, minha pulsação estava mais forte e eu precisava que ele parasse de me olhar daquela forma.
Isso aqui não deveria ultrapassar nada.
Absolutamente nada.
— E como foi que você descobriu que ela não era uma simpatizante do seu time, querido? — a mãe dele questionou depois de um pigarro para chamar a nossa atenção.
Engoli a seco e desviei o olhar, me sentindo exposta.
— Quando ela me xingou — Jude disse.
Quase me engasguei com a resposta, a risada presa na garganta, meu pé se movendo com a rapidez de uma fração de segundo na direção da perna dele, proferindo um chute.
— Ele simulou uma falta em cima do Fermín e o juiz nem sequer deu amarelo — senti a necessidade de me justificar. — Eu só fiquei irritada.
Denise sorriu, o tipo de sorriso que chegava aos olhos e eu reparei o quanto Jude era parecido com ela, a mesma linha de expressão, o mesmo sorriso. Alguém capaz de defender com unhas e dentes aquele que gerou.
— Você parece ser tudo o que ele me disse — ela contou, a voz suave, parecendo gostar de estar ali, vivenciando aquilo com uma desconhecida, com quem flagrou seu filho passando a noite. — Fico feliz que ele tenha finalmente encontrado alguém decente.
Ignorei a queimação nas minhas bochechas e dei um sorriso sem graça.
— Ah, a gente não…
Um barulho estranho soou de algum lugar, me interrompendo.
— É a máquina — Denise disse, se levantando. — Vou dar uma olhada na sua roupa, já volto.
E sumiu do meu campo de visão, me deixando sozinha com seu primogênito. Eu parei de comer e olhei para Jude, que já estava olhando para mim.
— Isso acontece com frequência?
— Trazer uma rival para minha cama e na manhã seguinte fazê-la tomar café da manhã com a minha mãe? — ele ironizou, uma sobrancelha arqueada. — Não.
Observei quando ele enfiou sua mão por debaixo da mesa de novo, voltando a esquentar a minha pele como antes e odiei como isso me aliviou.
— Você está desconfortável? — investigou.
Balancei a cabeça com um suspiro curto.
— Você tem sorte, sabia? — sussurrei. — Vocês parecem unidos, mesmo distantes geograficamente da outra parte da família.
Jude se aproximou um pouco mais, colocando a cadeira mais perto da minha. Seu semblante exalava uma suavidade que eu não sentia.
— Vai me contar da sua família um dia?
— Você conhece a minha irmã. E já te falei da minha avó.
Sua boca se aproximou do meu rosto, depositando um beijo na minha bochecha, seu nariz roçando na mesma região. Não parecíamos duas pessoas que dividiam uma noite casual. A forma como ele agia quando estava comigo…
— Elas não são a parte que te dói — ele retrucou, em voz baixa.
Engoli a seco, me perguntando se eu era mesmo muito transparente daquela forma, ou se ele me observava muito bem. Não parecia que eu ia me acostumar com isso, com ele sabendo me ler de um jeito que nunca deixei ninguém fazer antes, não desse jeito tão íntimo.
Subi a minha mão e afastei o rosto dele do meu, colocando minha palma contra a lateral do seu rosto, nossas bocas quase se tocando.
— Talvez eu prefira que você não conheça essa parte minha.
Ele riu, a vibração do som tremendo o meu peito.
— Não seja inocente, — disse, a intensidade do seu olhar preso ao meu. — Eu tô disposto a conhecer todas as suas partes.




Continua...


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