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Independente do Cosmos🪐

Última atualização: junho/2026

Millard’s
Fim de semana

Na boa, eu não aguentava mais a república. Nem era tanto pelo Alex ou pelo PJ, no fundo eu gostava dos caras. Mas quatro anos morando numa casa compartilhada me deixou meio pirado da cabeça. Às vezes eu parava pra fazer as contas: tantos meses até formar, tantos anos até pagar minha dívida estudantil e mais tantos até conseguir um trampo que pagasse quatro paredes só minhas. Moradia era o tipo de coisa que deveria vir no pacote básico de ser um adulto funcional jogado no mundo, mas claro que algum filho da puta em Wall Street decidiu que a gente tinha que se foder por anos pra ter isso.

Nada como uma claustrofobia existencial pra me empurrar todo sábado à noite pra fora da república. Eu precisava cair no mundo, mesmo que o mundo fosse só o Millard’s, com aquele cheiro de madeira encerada igual a casa da minha avó. Geral ali vivia descomprimindo a semana na base da bebida. Eu, o Connor, o Davis e o Matt já perdidos na contagem das cervejas, tentando lembrar o nome do terceiro filme do Rocky Balboa.

O Millard’s nunca tinha nada de novo pra oferecer, mas, sei lá, hoje o álcool tava descendo sem discutir. Quase dava pra acreditar que tudo na minha vida tava administrável.

— É só “Rocky III”.

— Não é, porra, tem mais uma frase. Um subtítulo.

— Tem não.

— Juro por Deus que tem.

— Rocky III: A Vingança.

— Não… Você tá confundindo com Duro de Matar 3: A Revanche.

— Não é possível que você falou isso, Davis.

— Mas é verdade.

— Lembrei, lembrei. Rocky III: Stallone apanhando até virar metáfora de resiliência.

— Começou a palhaçada.

— Rocky III: Stallone matando russos e vietnamitas, mas sem ideologia, prometo.

— Puta que pariu. É inexplicável como vocês são chatos.

Eu tava bebendo devagar pra não acordar fodido no domingo, mesmo assim rindo igual bobo. Cara, impressionante como aquele lugar sugava o tempo. Abria um vórtex ali dentro e a gente torrava tempo infinito com essas merdas.

Em alguma mesa lá atrás, do lado oposto, de repente veio uma onda de vozes de umas meninas bebaças tentando acompanhar a música do bar. O coro delas tava tão alto e desgovernado que por um segundo abafou a conversa de todo mundo. A gente parou de discutir Rocky e ficou só ouvindo.

— Quem dera a gente tivesse metade desse ânimo.

— Fale por você, meu chapa — o Connor disse. — Se tocar Man in the Box aqui eu subo na mesa.

— Lá vem ele com Nirvana — o Davis revirou o olho. — Cara, eu acho-- Acho não, tenho certeza que você só escuta três bandas desde o ensino médio. Você e o .

— Porra, sobrou pra mim?

— E você só assiste três filmes — o Connor rebateu. — Rocky I, Rocky II, Rocky III.

— Pior que são cinco — eu corrigi pra ele.

— Ah, é. Ainda tem a porra do Rocky IV e Rocky V.

— Foi assim que o Davis aprendeu a contar em números romanos.

— Tá vendo? — ele bateu no peito igual doido. — Eu tenho repertório, caralho.

— Não, falando sério agora — o Matt pediu. — Fala um filme mais recente aí, Davis. Que você gostou. Sem ser Independence Day, pelo amor de Deus.

— Pô, aí você me complica.

— Outro dia ele tava se esgoelando de rir com O Professor Aloprado passando na TV.

— Cada filme que falam sua situação só piora, Davis. Quando você chamar uma mina pro cinema, vão assistir o quê? Vovó Zona?

A gente começou a rir enquanto ele ele só erguia as mãos pra terminar de se entregar.

— Não, pera, vou responder sério agora. Sem viagem. O que tá em cartaz? Fala aí, Connor, você que vive no cinema.

— Sei lá. Tá passando Missão Impossível 2. Era esse ou Miss Simpatia quando fui semana passada.

— Tem aquele também… — Eu estalei os dedos, tentando lembrar. — Aquele com o Russel Crowe.

— Gladiador.

— Isso.

— Três horas de soldados se matando. Nada mais apropriado. Cinema de qualidade pro nosso amigo.

— Não, sem sacanagem — o Davis falou todo embolado. — Fala outras opções, porra. Fala uma aí, . O Connor não sabe falar sério.

— Stuart Little.

— Quê?

— Stuart Little, não tá ligado?

— Você tá inventando isso agora.

— Tô não, pô. É um drama pesado até. Ganhou uns prêmios aí, vive lotando sessão.

— Sobre o quê?

— Um doidão que volta pra cidade natal depois que o irmão morre.

— Ah… Tô sabendo.

— Aí ele reencontra a ex-noiva que tá prestes a casar com outro cara, entra num dilema e tudo. Não sabe se volta pra São Francisco, não sabe se fica e tenta reconstruir a vida ali, mas o filme não responde. Deixa em aberto, sabe qual é? Pra provocar reflexão.

— Você tá inventando isso.

— Tem até beijo na chuva.

— Vai tomar no cu, .

— O pôster é amarelo, se isso te ajuda — o Connor completou, mas aí a gente já tava rindo pra caralho.

No meio daquela bagunça, um braço apareceu por cima da mesa e começou a juntar os copos sujos. Eu olhei pra cima e vi o garçom equilibrando tudo na bandeja.

— Mais uma rodada geral? — ele perguntou.

— Duas Heineken.

— Três.

— Uma IPA, qualquer uma.

— Vodka com energético… mas pouco energético.

— Beleza.

— Ô, rapidão, resolve uma aqui pra gente — o Davis falou antes do cara se virar pra ir. — Gladiador ou Stuart Little?

Todo mundo riu de novo e o coitado do mano não entendeu nada. Com aquela cara de morto-vivo de fim de turno, claro que ele era mais um estudante da Oyster fazendo bico ali no Millard’s.

— Não, não, foi mal, falando muito sério agora — o Davis até se aprumou na cadeira. — Imagina que você vai ver um filme com uma mina amanhã no cinema, beleza? Missão Impossível 2 ou… Miss…

— Miss Simpatia.

— Ou Miss Simpatia?

— Depende — o garçom respondeu. — Filme, restaurante, meu lado político, irmão… Sempre vai depender do tamanho do rabo da mulher. Mas a minha iria no Missão Impossível. É doida pelo Tom Cruise.

O Davis riu batendo palma e o idiota do Matt acompanhou. O Connor nem isso, eu também não. Na real, tava vendo se o rosto daquele cuzão encaixava em algum lugar da minha memória, porque eu tive a impressão que já tinha visto esse cara em alguma festa. Aí ele mandou um hang loose antes de ir embora e tava respondida a pergunta. Na mesma hora me veio a foto na cabeça, aquela no mural da . Pelo menos o adesivo de carinha feliz invertida não tava tampando o rosto dele hoje.

Uns dez minutos passaram e quem trouxe as bebidas foi uma garçonete.

Eu fiquei ali mais um tempo enchendo a cara, beliscando uns nachos murchos só pra ter alguma coisa pra fazer com a mão. O Connor até me chamou pra fumar lá fora, mas quando eu virei pra esquerda, sei nem por quê, vi uma mina de costas que finalmente me fez parar de procurar ela pelo bar.

A tava ali, a uns dez metros, sentada numa daquelas banquetas altas – uma perna cruzada por cima da outra, o pé balançando de leve. O cabelo solto. E o Hang Loose do outro lado, com um paninho jogado no ombro e as duas mãos apoiadas em cima do balcão. O ponto alto era a gola da camisa levantada. Tinha uns malucos que achavam que a Oyster era Princeton.

— Vou ali. Já volto.

Foi eu levantar que a pressão despencou na hora. Os caras nem notaram, vidrados na própria conversa, o Connor já até tinha ido lá pra fora sozinho. Pelo menos eu vi uma reta de chão livre até o outro lado, porque tava foda andar com o álcool pesando a cabeça.

Quando cheguei perto do balcão, tinha uma banqueta vaga bem ao lado da . Fui lá, sentei sem fazer barulho. Ela tava tão ligada no papo do ex que nem percebeu. Aí alguém gritou o nome dele lá do fundo – só então ele desencostou da bancada, virou pra sair e, num movimento só, a girou a cabeça pra ver quem tinha chamado.

E me viu sem querer.

A boca abriu um pouco, os olhos arregalaram. Daí o tal do Blaze voltou, mas parou no meio do caminho.

— Bom… Depois a gente conversa — ele falou só pra ela. — O que vai querer, ?

Ela continuava me olhando, era absurdo. Devia ter uns cinco segundos que ninguém falava nada.

— Eu, é… Eu vou--

— Dois Brambles, por favor — eu pedi pro Blaze. Se dependesse da , ela ia ficar ali a noite inteira enrolando a língua. — Os dois na minha comanda.

Tirei o papel meio amassado do bolso da calça e botei em cima do balcão. Putz, sei nem se sóbrio eu teria sido tão teatral.

Ficou um silencinho de merda sobrevoando a cabeça de todo mundo. Aí o Hang Loose puxou uma caneta e marcou um traço na minha comanda. Ele deu mais uma olhada em mim, olhou pra ela. O novo enigma do cara era entender de onde eu tirei tanta confiança que a não ia me mandar tomar no cu bem ali na frente dele.

Certeza que ela tava guardando pra fazer isso assim que a plateia fosse embora.

Eu puxei o papel de volta, dobrei uma vez, enfiei no bolso. O mano foi pro caixa e sumiu lá do outro lado. Foi a hora que eu me virei pra de novo, e a filha da puta tava tão gata que até doía um pouco.

— Achei que eu fosse te ver de novo só no seu exame final. .

— Eu vou te processar, — ela esticou o dedo na frente do nariz. — Já bebi demais hoje. Vim aqui fazer uma gracinha e você me atrapalhou.

— Pode continuar com a gracinha — eu cruzei os braços, lutando contra os céus e os abismos pra não rir. — Eu vim aqui pra assistir.

— Você não vale nada mesmo. Eu vou comprar a Oyster e te expulsar. Vai rindo. Vou acabar com aquele seu projeto superimportante e não sei mais o quê. — A cada bobagem eu ria mais. — Vou espalhar pra universidade inteira que você roubou o design de um projeto antigo do MIT ou qualquer merda dessa. Vão te acusar de plágio. Feiura.

— Dois Brambles — outro barman aleatório trouxe as bebidas.

A ficou chocada que não foi o Blaze.

— Pronto. Tá feliz?! — ela continuou. — Já pode voltar pra sua mesa, seus amigos, etc. — O polegar apontou pra trás com todo desprezo do mundo, só que a mira dela tava boa demais pra quem não tava olhando.

Eu estranhei. Olhei rápido pra mesa, depois voltei a olhar pra ela. — Você sabe onde eu tô sentado, por acaso?

— Não. — Foi o não mais furado que eu já ouvi. — Só chutei.

Porra, aquilo ficou mais divertido do que eu tinha imaginado.

— Ué, achei que eu tivesse te visto primeiro. Até agora. Você me viu antes?

— É você quem tá dizendo isso, . Dá pra gente falar de outra coisa, ou você vai continuar nessa versão dos fatos que te favorece? — Ela virou o copo com pressa, quase secou o drink em umas quatro goladas. — Bom isso aqui. O que é? Gim com amora?

Eu fiz que sim com a cabeça. Daí soltei os braços, apoiei um na bancada também e tomei dois goles do meu numa velocidade normal.

Ela tomou mais. Mania de beber competindo.

— Hm. Muito bom. Gostei. — O porre tava tão grande que ela veio tombando na minha direção. — Engraçado! Da última vez que um cara pagou uma bebida pra mim nesse bar, eu fui parar na ca-‐

Ih, infelizmente rolou um estalo de consciência ali que fez o corpo dela recuar.

— Nada não — o cotovelo foi escorregando de volta pra trás. — Tô falando demais.

— Pô, ressaca moral, já? Tá cedo ainda. Volta aqui, fala.

— Não. Você me estressa.

Eu dei uma gargalhada. Enquanto ela se esbaldava no gim, eu inclinei o tronco só um pouco e meu braço encostou no dela, ali em cima da bancada, mas isso a gente podia chamar de acaso se fizesse a dormir melhor. Eu tava brincando de girar meu copo em volta da minha mão, à toa, e quando vi, eu só olhava pra boca dela. Mais nada. O batom escuro era novidade, e o lábio de baixo tava mais apagado, úmido ainda do drink, mas combinava com ela por algum motivo.

Eu levantei os olhos e vi que eu tava fodido.

— Às vezes eu acho que você não faz a menor ideia do que faz comigo, .

— Escuta — ela tentava falar bem sério, mas não conseguia —, se você me beijar agora, eu nunca mais vou te perdoar.

O drama.

— Por quê?

— Porque você sabe exatamente onde isso vai dar.

— Sei nada. Tenho nem noção do que você tá falando.

O ódio foi tanto que ela riu. — Imagina se tivesse? Você ia ter que inventar outra desculpa pra vir aqui sentar do meu lado.

— E eu preciso? Sentei porque deu vontade.

… — ela me chamou de novo. Os olhos tavam que nem duas portinhas de elevador tentando se fechar. — Tô pensando em muita coisa agora, mas sabe o que vai acontecer… quando eu acordar amanhã… se a gente transar?

— Sei demais. Você vai me ligar pedindo pra repetir.

— Eu? — A gargalhada debochada veio em alto e bom som. Eu já tava até esperando. — Eu ou você?

— Tô na coleira já, . Puxa pra você ver o que acontece.

Uma sobrancelha dela subiu. Só a esquerda. — E depois? Você foge ou eu fujo? Pode escolher.

— Alguém tá preocupada com o futuro de novo… — Eu estiquei dois dedos, bem devagar, e comecei a arrastar pelo dorso da mão dela solta ali do lado.

— Não é o futuro. É o passado.

— Ah, o passado. Ele tá te assombrando hoje, né?

— Não, não tá, não… Mas ele sempre repete.

— Porra, sempre é uma palavra muito forte, acha não?

— Eu sei quando o meu passado repete. E isso diz muito do meu futuro.

— Não sabia que eu tava falando com o Nostradamus.

— Você entendeu, caralho.

Eu enchi a boca pra rir, mas não podia perder o fio da meada. — E aqui? Agora. Com você me olhando desse jeito. Ele tá repetindo?

Ela parou um minuto. Finalmente. Até ia falar alguma coisa, mas só ficou me olhando.

— Já pensou numa coisa, ? — Eu recuei só um pouco e voltei a segurar meu copo. — Que você tá vivendo agora o futuro que se preocupou tanto aquele dia lá na república? Antes de me beijar.

— Tá. Tá bom. Concordo. Mas eu não--

Eu tava terminando de beber quando, do nada, um milhão de garotas passaram atrás de nós, todas de risadinhas pra lá e pra cá, cada uma com o perfume mais doce que o outro. Eu girei minha banqueta pra frente, a se endireitou no lugar. Umas quatro passaram se despedindo, mexendo no cabelo dela e tudo, uma até falou alguma coisa que não deu pra ouvir.

Demorei a ligar os pontos, mas eram elas que tavam cantando igual doidas ali no bar antes. A tava com elas.

Quando desapareceram do Millard’s, ela soltou o ar todo. Olhou mais uma vez pra porta, depois pro copo que ela já tinha detonado, aí tomou o resto com uns cubos de gelo e bateu com ele no balcão com tanta força que eu achei que o vidro fosse rachar.

— Já deu sua hora, né, .

— Uhum.

— Tá batizada.

Talvez ela tivesse combinado de ir embora com aquelas garotas, aí eu cheguei ali e o combinado foi pro caralho.

Tomei um impulso e fiquei de pé na frente dela. Dei uma olhada rápida pra trás e, lá no fundo do bar, o Connor já tinha voltado do cigarro e se enfiado na conversa com os caras.

— Relaxa, pode ir — falei pra . Ela não deu sinal nenhum de que ia sair, só aqueles olhões de gato abandonado me acompanharam. — Quer que eu espere um táxi com você lá fora?

— Uhum.

— Vem, então — eu segurei o braço dela de leve, pra ela usar de apoio pra se levantar, e foi o que aconteceu.

A gente começou a atravessar o bar – tinha tanta mesa espalhada que a foi na frente e eu tive que me espremer atrás. Botei a mão na base da coluna dela e fomos em fila. Ela nem olhou pra trás, só foi desviando de cotovelo, de gritaria, de cadeira largada pelo caminho.

Ela passou pela minha mesa primeiro, nem olhou pros lados. Aí os caras me viram e já começaram a tirar onda que nem uns três palhaços. Quando eu passei, o Connor nem precisou se virar, só esticou o braço pra trás e meteu a mão nas minhas costas.

Graças a Deus passamos pela porta e paramos na faixa de concreto na frente do bar, colada na orla. Nada como um ar livre fedendo a mar de porto. Ali tinha muita gente chegando e saindo do Millard’s, e a música vinha abafada lá de dentro.

A ficou de frente pra mim. Tava baixinha sem aquelas plataformas que ela vivia usando.

— A gente pode voltar a ter essa conversa depois que eu passar no meu exame final?

— Quando você quiser — eu respondi. Ela tava me olhando com um sorrisinho puxado pra esquerda que ela nem devia ter consciência.

. Desse jeito você não me deixa ir embora.

— Ah, é? Essa pressa parece um problema só seu.

— Só meu nada. Tô quase te puxando pro banheiro lá dentro, e eu nunca transei em lugar público na minha vida.

Eu ri. — Não é uma má ideia…

— Nossa. Uma ideia maravilhosa. Chão grudento, cheiro de mijo, aquele negócio de girar a maçaneta-- Como chama?

— Trinco.

— O trinco quase despencando. — Enquanto ela desfiava a lista de horrores do banheiro, passei os braços pela cintura dela e o corpo foi vindo, até ficar colado no meu. — Nenhum funciona direito, você tem que segurar a porta com o pé pra ninguém abrir. Um momento inesquecível mesmo.

— Dentro da cabine não, nem fodendo, mas o banheiro exclusivo pros funcionários… Sabe ali no andar de cima? Rolaria suave.

— O feminino, só se for.

— Aí, tá vendo? Você já tá cogitando.

Jamais — ela tava indignada. — Meu Deus. Você já fez isso, né.

Pensei se eu respondia.

— Já. Não aqui.

— Onde?

— No terraço do Belva Hall.

— Meu Deus. Não acredito. Eu devia estar um andar abaixo no momento que isso aconteceu.

— Na verdade, dois.

— Mesmo assim. Acho que eu não queria saber disso. Me arrependi — ela subiu as mãos pela minha jaqueta. — A gente pode voltar no tempo?

— Por quê?

— Porque eu não tô a fim de pensar em você com a sua ex, caramba.

— Quem falou que foi com ela?

— Ah, não? — a voz da subiu uns quinhentos hertz. — E aí? Foi de dia ou de noite?

— Cara, a curiosidade ainda vai te matar um dia.

— Fala sério, , você teria coragem de fazer isso em plena luz do dia?

Minha cabeça até foi pra trás quando eu ri. Puta merda.

— Foi à noite, — eu olhei pra ela. — Até parece que você também não tava bem ocupadinha no seu quarto um ano atrás, né não? Com aquele barman.

Ela ficou boquiaberta. Como era exagerada. Aí o susto passou rápido e ela já tava tentando parecer sóbria.

— Olha… Tá. Já que você entrou nessa. Quer saber a real do Blaze?

— Claro. Faz uns bons minutos que eu tô aqui só esperando você chegar nessa parte.

— Pior que eu não sei como te falar isso sem perder a dignidade.

— Isso aí a gente já queimou junto quantas vezes de papinho lá em Oakwood? Umas cem?

Ela riu alto. Fez umas cinco pessoas passando por ali virarem a cabeça pra ver quem era. — Dessa vez é diferente.

— Nada. Só porque a gente tá se pegando? Porra, é agora que eu quero saber os detalhes sórdidos.

— Tá… Tinha uma química, claro. Eu e o Blaze. Mas hoje eu vejo que foi uma grande perda de tempo, essa que é a verdade. Foi meio… meh. Pra mim. Agora, se você perguntar pra ele, tenho certeza que a experiência foi cinco estrelas, me irrita só de lembrar. O desequilíbrio não era só sentimental não, . Homens, né. Homens são tão obcecados em sexo que você até pensa que eles são bons nisso. Mas eu fui lá e fiz o papel de trouxa direitinho. Eu sou a maior otária que você já conheceu, tá entendendo?

Ela falou aquilo e me desagarrou, cruzou os braços, ficou olhando pra algum ponto depois da minha cabeça, enquanto eu tentava não rir tão alto daquele trem desgovernado de espontaneidade. Tinha que respeitar o momento e tudo mais. Deu pra ver exatamente o momento que a raiva do ex virou raiva dela mesma.

— … Putz, eu falo demais quando tô bêbada.

— Eu gosto quando você fala demais, .

— Eu não.

— Não? — Enquanto minhas mãos subiam pelas costas dela, senti os braços trancados na frente, e eu queria eles fora do caminho. Forcei um pouco só pra ela soltar. — Ainda quer voltar no tempo?

— Sim... — Os braços dela caíram em cima dos meus de novo. — Mas quero voltar um pouco mais atrás.

— Pra quando você quer ir?

— Quero saber que dia você sacou que eu tava “afinzona” de você.

Porra… Nem eu sabia. Até olhei pra cima, e aí meu cérebro jogou um filme na minha frente.

— Deu pra fazer uma ideia no dia da festa de Ano Novo — respondi, olhando pra ela —, quado você deu em cima de mim, na cara dura, vamos começar por aí. Mas achei que fosse coisa da minha cabeça, você tinha bebido tanto que tava desse jeito que tá aí agora. Só que pior.

— Tá — ela já ia rir, mas fechou a cara. — Mas quando você teve certeza?

— Em Oakwood.

— Em Oakwood?!

— Naquele primeiro domingo do ano, sabe qual? Depois da virada do milênio.

— Nossa, de novo? Tem tanto tempo assim?

— Você tava igual uma árvore de Natal com aquele gorro vermelho na cabeça. Aí cismou de ir até a casa abandonada, mas eu te convenci a ir embora. Lembra disso?

— Lembro, mas não precisa continuar. Já sei como essa história termina.

— Pois é. E eu comentei essa parada da festa com você nesse dia. Joguei no ar, só pra ver o que você ia fazer. Achei que fosse rir, fazer uma piadinha e esquecer, mas não, ficou sem graça pra caralho e meio puta comigo — eu ri sem querer, só de lembrar. — Foi ali que você terminou de se entregar.

— Acho que eu vou me jogar na frente do próximo táxi que passar.

— Vai não... Fica aqui, vai.

— Você realmente me estressa, . Já tenho que administrar o pico de cortisol que esse último semestre da faculdade me causa, mas isso não é nada perto do que você me faz passar toda vez que eu te vejo, juro por Deus.

— Eu tô ligado — segurei o riso com as bochechas doendo. — Quase teve um ataque cardíaco quando me viu sentado do seu lado lá no bar.

Ela encheu o peito e soltou o ar com força, bufando igual quem acabou de subir dez lances de escada, aí virou o rosto pro lado. Mas eu vi um sorriso rápido que ela matou na boca antes de voltar a me olhar.

— Preciso ir embora — a nem se mexeu. O beijo tava ali, na moral… Ela até se esticou e me deu um selinho, que era o máximo que ela tava disposta a arriscar hoje. Mas aí a mão contornou minha nuca, e de repente eu tava olhando pra placa enferrujada do Millard’s, porque ela foi virando meu rosto pro alto. A boca grudou no meu pescoço, bem na lateral onde dava pra sentir o pulso, e quando soltou, fiquei até triste.

Eu não lembrava da última vez que vi a tão bêbada assim. Deve ter sido justamente na festa de Ano Novo.

Ela olhou pra mim de novo, cínica pra caralho. — Volta pra sua mesa agora — deu uns passinhos pra trás, até se afastar. — Vai ser divertido.

Eu toquei onde ela tinha beijado sem nem pensar.

— Não limpa. — Só faltou uma pistola na mão dela, porque o dedo já tava apontando pra minha cara. — Lida com isso.

Claro. Ela queria o meu estresse também. Adorou me botar numa sinuca de bico, deu um sorrisinho de tchau e se mandou. Foi pra beira da calçada, esperar um táxi com umas garotas lá na frente. Nem olhei pro carro chegando, só pra , e do nada aquele gosto de gim na minha boca começou a pedir um beck, pra ver se matava a vontade de chamar ela de volta.

O táxi arrancou. Virou a esquina e sumiu.

O silêncio durou dois segundos. Aí o mar lembrou que existia, os carros na avenida voltaram a passar, e lá de dentro do Millard's vazou um rock pauleira que alguém devia ter colocado no jukebox. Outro ruído, mais perto, me levou a olhar pra um cartaz na fachada do bar descolado pela metade, anunciando o luau desse ano. Era o vento que tava fazendo a aba solta bater na parede de vez em quando. Luau 2000 – Venha comemorar os 50 anos do Millard’s! e uma palmeira desbotada do lado.

Empurrei a porta e, lá dentro, o barulho voltou a bater – música alta, gritaria, vidro quebrando lá atrás. Um troço que entrava pelos ouvidos e subia direto pros miolos.

Eu podia ter esfregado o meu pescoço. A mão até coçou pra cima, depois caiu de volta no bolso. Porra.

Na mesa o Davis tava imitando o Matt bêbado, mas eu mal cheguei e eles todos pararam de falar imediatamente. Já tavam me observando que nem uns urubus vendo carne fresca cair no asfalto.

— Ué. Tá fazendo o quê aqui?

— Ninguém tava esperando te ver de novo, .

Eu puxei minha cadeira já sentindo o arrependimento chegar. Ainda mais quando olhei pra cerveja no meu copo, que já tinha virado um caldo sem espuma.

— Opa, e isso aí? — O engraçadinho do Davis pegou o copo vazio dele, levou pro olho e mirou que nem uma lupa no meu pescoço.

— Olha só… O cara ganhou até selo de adestramento.

— Inovador.

Os três, sem exceção, caíram na gargalhada. Eles não atacavam de primeira, lógico que não. Esperavam o bicho definhar, ou pelo menos parar de se debater. O que eles não sabiam era que eu já tinha parado há muito tempo.

— Eu tava achando que você tinha virado monge, porra.

— Tô em estágio probatório — respondi o Connor.

— Então tá reprovando desde março.

— E a gente achando que era coisa de balada.

— Balada — o Connor riu. — Mermão, vocês viram só o trailer. Tem um filme inteiro aí. Olha a cara do maluco. O olho vidrado.

O Davis esticou o braço e balançou a mão na frente do meu rosto, aí os trouxas riram de novo.

— É... Essa mina tá ciente que você tá na mão dela? Só pra eu saber.

Dei um gole na cerveja morna, horrível, e olhei pra eles. Até dei uma risada. — O dia que ela descobrir isso, eu viro lenda aqui no Millard’s. “Lembra do ? Sumiu.”

— Rapaz, olha aí. Já tô até decorando — o Connor balançou a cabeça. — Some toda vez que vê ela no rolê, aí volta parecendo que tomou mais uma porrada.

— E gostando.

— Gostando? Parece que tava com saudade de apanhar.

— Daqui a pouco o vira metáfora de resiliência igual o Stallone.

— O Stallone pelo menos voltava sarado.

— Vocês podiam ir se foder.



República
Dias depois

Sempre que era a vez do Alex fazer as compras do mês, o congelador ficava lotado de caixas de pizza e o PJ era o primeiro a recusar uma janta daquelas. Mas hoje a gente tinha voltado tão fodido de uma reunião com o Baxter que a quatro queijos da Tombstone tava muito mais fácil do que cozinhar qualquer coisa.

Ter passado a tarde e a noite toda naquela cadeira capenga da biblioteca deixou minha bunda quadrada e a coluna que nem uma ripa de madeira. A voz do Baxter ainda tava lá, enchendo o vácuo entre um pensamento e outro. Minha pálpebra direita tava até tremelicando sozinha.

Pensei em dormir, mas era cedo. Aquilo tava me deixando louco.

Eu abri a geladeira, peguei uma Coca e encostei a lata gelada bem no osso da minha sobrancelha. Fiquei com aquilo na cara, em pé mesmo.

O PJ puxou a assadeira com um pano de prato e a primeira coisa que eu vi foi o tanto de ingrediente que ele tinha incrementado na pizza: tomate, cebola, uns tocos de bacon, umas azeitonas. Tudo pra sair do forno com mais dignidade.

Ele virou pra mim com a assadeira na mão.

— Quê isso, compressa gelada? — ele riu, aí botou a pizza no meio da mesa. — É, esse projeto vai acabar com a gente antes da apresentação.

— Vai acabar é com a minha sanidade.

— Pelo menos você tentou hoje.

Minha vontade era falar “só eu tento”, mas ele ia discutir, e eu já tinha discutido o suficiente com o Baxter horas antes.

— O Baxter quer que a gente entregue um negócio que nem ele sabe o que é — eu larguei a lata, peguei uma fatia e fiquei ali, encostado na quina da bancada. — Aí você corta pixels, eu redesenho mil coisas, e no fim ninguém vai usar essa merda. Porque o usuário não vai entender porra nenhuma.

— Teve uma hora que eu achei que você ia engolir a língua de tanto repetir “mas senhor Baxter, o usuário não vai entender isso”.

A gente riu um pouco. Porra, aquele bacon tinha feito toda a diferença. Mordi mais um pedaço.

O PJ puxou a cadeira do outro lado da mesa, sentou de frente pra mim e cruzou uma perna com aquela calma toda. Na verdade, era mais sono do que tudo.

— Hoje, lá na biblioteca, antes de você chegar — ele pegou uma fatia também —, o Baxter me pediu pra mostrar o “MMS funcionando”. Aí eu abri o protótipo novo da VisiTel na frente dele.

— E aí?

— E aí que ele nem tá mostrando mais os símbolos que a gente usava pra diferenciar as mensagens, né. Lembra daquele triângulo que você desenhou pra indicar “mensagem encaminhada”? Sumiu. Agora tudo é linha reta. Mensagem recebida, enviada, rascunho… tudo igual.

— Sério?

Eu acabei abrindo aquela lata e tomei um gole.

— Aham. Aí o Baxter parou, olhou pra mim com aquela cara de rola murcha e perguntou “mas cadê o MMS?”, e eu “ô meu grande filho da puta, isso é o máximo que o aparelho faz”. Mentira, não falei isso.

A Coca até subiu pelo meu nariz quando eu segurei o riso. — Claro que não falou.

— Um dia você vai aprender que discutir com um cara desses não resolve nada, . Ele só espera a vez de falar pra se sentir importante.

— Porque ouvir calado que a gente tá fazendo tela de Game Boy é profissional pra caralho, né, PJ?

— Profissional seria se a gente tivesse sendo pago.

— Ser pago pra quê? Eu passo o dia desenhando a planta baixa dessa porra, estudando e medindo tudo, pensando “isso aqui vai funcionar”...

— Aí chega eu — ele mordeu o último pedaço e largou a borda num prato. — Com o limite de memória.

— Isso. Aí chega você com o limite de memória.

— Ou o Baxter com um palpite sem fundamento.

— Ou o Baxter com um palpite sem fundamento — fui no embalo, porque sim. — E aí a coisa deixa de ser o que era. E eu não tô mais no controle dela. E o que eu trago pra mesa é a primeira coisa que vai pro lixo quando a conta não fecha.

— Fica bolado com isso não, mano. Já te falei, a gente é tipo… cobaia. De professor maluco e empresa de fundo de garagem que se acha a Microsoft. É foda, mas é o que tem.

— É, mas--

— Por isso eu só obedeço. É pegar meu diploma, meu certificado, meu portfólio e tchau, um abraço. Caguei pra essa banca também.

Eu acabei de comer e fiquei olhando pro piso quadriculado da cozinha, viajando nos rejuntes e lembrando do primeiro semestre, lá atrás. Daquelas aulas teóricas sobre o que design deveria ser, dos professores dizendo que a gente tinha responsabilidade. Que a gente tinha que projetar pensando em resolver um problema de verdade, nem que fosse pequeno, mas que fizesse sentido, e em quem ia usufruir, não quem ia pagar.

Mas o PJ não ia ligar pra nada disso. Ele não fez essas aulas.

Ele tava lambendo os dedos agora.

— E é isso? — eu perguntei. — Só pegar o papel e vazar?

— É isso. O que mais você quer, cara? Mudar o mundo? A gente mal consegue fazer uma tela de mensagem funcionar direito — ele riu.

— Tá ligado que vai ter um tiozinho da Microsoft lá, né? Na banca.

— Quem?

— Um tal de Coleman que o Baxter comentou dia desses.

— Ah. Mas ele não é funcionário direto, é consultor numa empresa terceirizada. Deve ser mais um amiguinho empresário do Baxter — o PJ abocanhou outro pedaço no meio da frase. Aí olhou em volta, parou de pensar no Baxter dois segundos e percebeu que tava só a gente na cozinha. — Cadê o Alex?

— Tá lá em cima. Falou que já vem.

— Ah.

Ficou um silêncio danado. Só a gente mastigando e um creck de quando eu estalei meu pescoço. Olhei pro meu lado esquerdo e lá vinha o Alex descendo a escada. Era só falar nele.

— Ué. Vocês pediram pizza?

— Não — respondi, e enquanto isso ele vinha coçando a barbicha ruiva que ele cultivava desde o início do ano, achando que tava parecendo o vocalista do Alice in Chains. Era o Axl Rose do nariz pra cima, com a bandana vermelha na cabeça, e o Layne Staley da boca pra baixo. — O PJ ressucitou uma daquelas setenta e cinco pizzas congeladas que você comprou mês passado.

— Caramba, nem reconheci. Ficou da hora, hein? — ele catou um bacon solto e comeu. — E o projeto do Baxter? Eu tava ouvindo a falazada. Tão quase virando sócios da VisiTel ou tão só se fodendo mesmo?

Eu olhei pro PJ, ele olhou pra mim, e ninguém conseguiu falar nada.

— Saquei, pesei o clima — o Alex puxou um pedaço e parou do meu lado na bancada. — E aí, a foi bem no exame de Modelo Vivo? Aquela parada que vocês tavam treinando na praia?

— Foi bem.

— Você que aplicou?

— Não, tive que correr pra uma reunião com o Baxter e o PJ.

Ahhh — o PJ falou. — Era esse o papel que você entregou pra ela hoje no campus? Pra ?

— É, era a dispensa que ela conseguiu.

— Ela passou, então.

— Ainda bem, né? — o Alex botou a mão no meu ombro. — Senão ia sobrar pro monitor.

— Pra você ver como eu sou profissional. Fala aí pro PJ, ele tá precisando ouvir isso.

— Esse meu camarada aqui é um excelente profissional — o Alex sacudiu meu ombro. — Não mistura as coisas. Discreto. Zero favoritismo. Imparcial. Separação absoluta entre vida pessoal e tutoria.

Cara chato da porra. Olhei pro PJ pra ver se ele tava ligando.

— Falando nisso — entre a boca e o pedaço de pizza na mão dele tinha um fio imenso de muçarela. — A manja de tipografia, né? Será que ela toparia dar uma olhada naquela fonte feia pra cacete que o Baxter escolheu pro menu?

— Ela tá até o talo com trabalho final também, PJ. Esquece.

Nossa. O sono tava batendo de verdade agora. Terminei de beber a Coca, levei a lata até o lixo e, enquanto os dois continuavam falando asneiras, eu já tava subindo a escada.

Entrei no meu quarto, fechei a porta. A cama tava desarrumada. Nem tirei a camisa. Caí de bruço, de cara no travesseiro, e por um segundo ainda ouvi o PJ rindo de alguma coisa lá embaixo.

Depois, nada.

Tirei um cochilo pesado, nem sonhar sonhei. Acordei com um silêncio gostoso, milagroso, putz, parecia que todo mundo já tinha ido dormir naquela casa da mãe Joana. Dava pra ouvir a TV ligada lá na sala, provavelmente o Alex vendo Arquivo X.

Continuei deitado um tempo olhando pela janela na parede inclinada, a que acompanhava o ângulo do telhado, onde dava pra ver um pedaço de céu escuro com uma estrela ou outra piscando de longe. Quando a preguiça passou, levantei e fui ligar o som no outro canto, que começou a tocar o CD que já tava lá dentro.

Abri a gaveta da cômoda e… nada. Ninguém lembrou de fazer o corre essa semana. Puta merda. Tinha nem um tabaquinho pra salvar.

A mesa de desenho tava ali encostada na parede, cheia de papel e régua e lápis, e eu nem olhei direito. Não queria saber.

Catei meu sketchbook e sentei na cadeira giratória e fiquei rodando à toa, folheando sem compromisso. Paisagem, paisagem, paisagem. Desenhos inacabados, a maioria nem chegava perto do que eu tinha visto de verdade na minha frente. A praia que eu tentei desenhar em Oakwood nunca ficou igual à praia real. Eu nunca conseguia deixar um desenho pronto de fato, a verdade era essa. Sempre dava vontade de acrescentar mais um detalhe, mudar um negócio, refazer uma linha. Aí eu olhava de novo no dia seguinte e achava outra coisa pra mexer, que nem um neurótico, doido, viciado em corrigir, e eu nem era assim antes.

Aí parei numa página.

Dei de cara com o desenho do meu rosto. Aquele que a fez.

Meu olho tinha desacostumado depois de uns dias e agora parecia que eu tava vendo o desenho pela primeira vez. Não era uma obra-prima nem nada, era só um esboço que ela parou quando cansou, e mesmo assim não faltava nada. Será que era assim que gente normal fazia? Deixava o lápis cair quando o pulso doía?

Eu continuei rodando na cadeira.

Voltei mais algumas páginas – eu tava louco de tudo quanto era droga no dia que ela anotou o número dela na minha mão, mas eu tinha certeza que transferi pra algum canto daquele caderno. Quando achei, dei um empurrão no chão e a cadeira cruzou o quarto em diagonal até esbarrar no criado-mudo. O telefone sem fio tava encostado na base, e talvez estivesse muito tarde, mas eu apertei os números assim mesmo.

Fiquei reclinado de qualquer jeito no encosto, ouvindo a linha chamar.

Alô? — ela atendeu com a voz um pouco sem fôlego.

— Alô?

? Eu vou desligar na sua cara.

Eu ri pelo nariz. Já valeu a pena ter ligado.

— Tá ouvindo Backstreet Boys? Que novidade.

Não, é o *NSYNC… E esse Nirvana aí no fundo? Que novidade!

— É o Soundgarden.

Ah, foi mal. Soundgarden. Pra mim é tudo a mesma depressão de quem não toma banho.

— Relaxa, um dia você enjoa do cabelo de miojo do Timberlake e descobre o que é música de verdade. Eu espero.

Ah, entendi, você acha que eu não tenho refino suficiente pra apreciar rock de verdade? — Ela deu um bocejo altão, demorado, e eu rindo. — Uma hora dessas e eu tendo que lidar com homem pedante.

— Ô, , me perdoa, eu não quis ferir sua sensibilidade de apreciadora de pop industrial.

Dá um tempo.

— Vem cá, como tá a sua semana? Correndo muito?

Sim, contra o tempo. E a sua? Pior que a minha?

— Não sei. Pode ser. Eu entrei num buraco negro de trabalhos e obrigações.

Deu pra perceber pela profundidade das suas olheiras hoje mais cedo. Pensei que cê tinha levado outro soco do Finnegan, um de cada lado.

Eu ri e chamei ela de filha da puta ao mesmo tempo. Mereceu.

— Falou a noiva do Chucky desmontada lá na grama do pátio.

Ela quem riu agora. — Tá, e o que é que você tá arrumando, afinal de contas? É alguma coisa com o PJ, é? Que projeto é esse que vocês tão fazendo juntos?

Falei sobre isso por uns minutos. Pelo menos um resumo da história, do Baxter, do software, da empresa de telefone, do PJ programando, da coisa que era pra ser leve virando um monstro de sete cabeças. Falei do PJ mais calmo agora, eu nem tanto. Do Baxter com planos novos toda semana e a possibilidade de apresentar pros tais “mandachuvas”. Contei tudo desabafando sem perceber.

Quando eu finalmente parei, ela soltou a dela. Falou dos estágios que fez nos últimos anos, da dívida estudantil que já tava virando herança de família. Dos cochilos antes da aula de tipografia porque ela chegava tarde no Belva Hall e ainda tinha coisa pra fazer. Disse que só de um tempo pra cá preferiu focar nas matérias que tinha acumulado do que trabalhar enquanto estuda.

É foda você chegar morta e ter que fingir que tá prestando atenção em anatomia tipográfica.

Ela disse isso e eu lembrei daquelas aulas no segundo ano. Terça e quinta, oito da manhã, com um professor viciado em passar documentários que a gente chamava de Bobby Blockbuster. A sentava lá no fundo, na maioria das vezes dormindo, com a cabeça baixa por cima dos braços. Eu ficava do outro lado da sala. Nem olhava pra ela direito.

Aí chegou o dia das apresentações finais. Cada um mostrou um livreto que a gente tinha feito umas dez versões desde o começo do semestre, testando tipografia, diagramação, espaçamentos e os caralhos, até chegar na final. A subiu com a mesma cara de sempre, a de quem não dormia fazia quarenta e oito horas. Colocou o livreto na mesa do cavalete e começou a falar.

E o negócio foi bom. Surpreendentemente atendeu todos os requisitos, cada escolha dela funcionou, e o Bobby, que era um cara sistemático que só a porra, fez mil perguntas que ela respondeu sem enrolar. “Por que essa margem?” Porque o formato do papel pede. “E essa cor?” Porque a secundária tem que aparecer sem gritar. “Por quê?” Porque o olho cansa. Secundária que grita compete com o conteúdo principal. “E se eu trocar a secundária pela primária?” Aí a hierarquia inverte. Secundária vira protagonista sem razão e o projeto não pede isso.

Lembro de ficar olhando pra , pensando “de onde isso veio?”. Porque até então ela era só a mina que dormia na aula e ria alto no corredor. Não que eu esperasse que ela fosse ruim, só não esperava nada. Ela era só mais uma ali.

Até não ser mais.

— Tenho certeza que você vai conseguir um trampo bom aqui em Nova York. Depois da formatura.

Será?

— Claro que vai.

Sei lá, às vezes acho que não sei. Não sou filha de ninguém importante, não tenho bons contatos. Conheço um bando de gente aleatória que provavelmente vai sumir depois da formatura. É só o meu trabalho agora. E mesmo assim… isso não é garantia de nada.

— Eu sei. — Troquei o telefone de orelha. A outra já tava quente. — Garantia de retorno, né?

É, de olhar pro tempo gasto e não sentir que foi à toa, porque até agora, financeiramente falando, eu tô no zero. Os estágios não pagavam nada, a bolsa não cobre o aluguel. E eu cansei de ouvir que “no começo é assim mesmo”. Começo é o quê, caralho, dez anos?

— Pois é, o começo não acaba. É só o começo até você morrer.

Puxa, , que bom. Que ótimo. Tô mais feliz agora.

Eu ri sozinho.

— Eu tava reclamando da mesma coisa hoje pro PJ, que o Baxter muda os requisitos toda semana e o que a gente faz vai pro lixo. Ele me disse que é assim mesmo. Que a gente é cobaia.

E você concordou?

— Não. Mas também não resolvi nada. Só fiquei com tique na pálpebra.

A gente riu. A risada dela pelo telefone saía mais estourada ainda.

Por que eu cresci achando que o mundo ia ser diferente do que eu imaginava, hein? Quando na verdade eu sou só... mais uma aqui no meio. Tentando superar mil suicídios mentais por semana.

— Todo mundo é só mais um, . E daí? Você não é pior que ninguém, só precisa parar de achar que o jogo é justo. Nunca foi. Confia mais no seu taco, na moral.

… Pelo amor de Deus. Você é muito relaxado.

— Eu esquento a cabeça também, mas no fim do dia não tem porquê. Não tenho controle sobre o que vem amanhã. Já mudei de curso uma vez, mudei de cidade... Esse projeto do Baxter pode ser um tiro no escuro, mas tô tentando não pirar antes da hora. Um dia de cada vez. Se eu ficasse remoendo igual você, já tinha pirado.

É… Talvez eu precise um pouco mais de otimismo.

— Talvez você precise um pouco mais de maconha.

Ela riu. — Você é ridículo, . Por que nunca puxou um papo comigo nas aulas de tipografia?

— Por que essa responsabilidade passou a ser minha de repente?

Porque eu tava muito ocupada tirando oitenta e sete na nota final.

Calei a boca e levantei da cadeira pra deitar na cama, de costas, com o travesseiro embaixo da nuca. Queria que ela tivesse aqui, aí eu não precisaria ficar com esse telefone amassando a minha orelha.

— Não tô me incomodando de tirar o atraso agora.

Eu perdoo seu atraso. Quem sabe tudo teria sido diferente.

— Quem sabe…

Eu não fazia a menor ideia do que teria acontecido se eu tivesse falado com a naquela época. Talvez a gente tivesse mais tempo agora. Ou nem isso, talvez ela tivesse me achado um porre e me mandado pastar com aquele sotaque de Louisiana. Vai saber.

A gente ficou esperando o outro falar alguma coisa, só que ninguém falava nada. Eu também não tava com pressa.

Ouvi a linha chiando quando a respirou fundo.

— No que você tá pensando?

Eu? — Ela demorou um pouco. — Nada.

— Em mim?

Em como você é insuportável.

Eu ri de novo.

E você? Tá fazendo o quê, além de ouvir o Chris Cornell gemendo no seu ouvido?

— Ouvindo você falar merda.

Tá vendo como você é o insuportável aqui?

— E mesmo assim você não desliga.

Ai, ai…

— Vai, , deixa de ser sonsa uma vez. Eu sou o insuportável que não sai da sua cabeça, fala aí.

Eu não sei de onde cê tira tanta certeza assim. Tô começando a achar que é o contrário, tá?

— Nem precisa de teoria, tô pensando em você agora. Se vai aparecer no luau do Millard’s.

Hm. Será que eu devo?

— Baladeira do jeito que você é? Acho que a gente já sabe a resposta.

Então por que perguntou?

— Porque eu queria ouvir você falar em voz alta.

Eu vou. Nunca deixei de ir em nenhum luau nesses quatro anos. Não pretendo quebrar a tradição no meu último semestre. Se você der sorte, vai me ver lá.

— Ah, eu não vou precisar contar com a sorte. Eu tenho certeza que você vai me ver primeiro, igual me viu lá no bar.

Vou nada.

— Vai. Vai me ver e falar “porra, , cê tava certo. É impossível, inútil, irreversível tentar te tirar da minha cabeça”.

Só por causa disso, agora eu faço questão de te ver primeiro e alterar esse seu roteiro de merda.



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Nota da autora: tô de voltaaaaa e o próximo capíulo é o luau que não vai demorar a sair!!!!! deixa seu comentário pra fazer uma autora feliz e me segue lá no insta pra acompanhar as atualizações @autoramargo

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