AGORA
A luz da manhã invadia a cozinha, impiedosa, revelando cada migalha no chão e cada nervura de cansaço no rosto de . Ela estava encostada na geladeira, com os olhos fechados contra o enjôo que teimava em não ceder ao chá de gengibre. Essa gravidez estava sendo mais agressiva, golpeando-a com enjoos a cada cheiro diferente que sentia, mesmo aos seus favoritos. Do lado de fora, o silêncio do quintal foi abruptamente rompido.
— MÃE! PAI! SOCORRO! TEM UM BANDIDO NO JARDIM!
A voz de , mais estridente que um alarme, fez os dois adultos se entreolharem e correrem para a porta dos fundos antes mesmo de processarem. "Bandido" poderia ser qualquer coisa para a pequena, desde um pardal agressivo até um homem mascarado, no entanto, o que encontraram foi ainda mais surreal. Encostada na cerca de madeira, lambendo uma pata com ar de total despreocupação, estava uma cadela vira-lata de porte médio, com pelo amarelo-claro e orelhas meio caídas. Ela parecia exausta. Rastejando ao redor dela, em um emaranhado de patinhas desengonçadas e rabos microscópicos, havia uma confusão de filhotes. Não três ou quatro.
Oito. Oito minúsculas bolas de pelo, brancas, amarelas, malhadas, buscando desesperadamente o leite da mãe.
— Não é um bandido, , é uma mamãe cachorro e seus filhotinhos — explicou , com a paciência condescendente de quem já tinha entendido a cena. Ela estava agachada a uma distância respeitosa, observando.
— Mas ela é bandida porque invadiu nossa casa! — insistiu , agora fascinada, se aproximando perigosamente. — Olha quantos bebês! São um monte de invasores!
esfregou o rosto com as mãos.
— Meu Deus. Ela deve ter entrado pelo buraco da cerca que eu ainda não consertei e acabou parindo aqui.
sentiu o enjôo se transformar em um aperto de pânico. A conta em sua cabeça não batia e insistia em fazê-la sentir-se tonta.
Uma cadela.
Oito filhotes.
Em seu quintal.
Na manhã seguinte a ela voltar do hospital, grávida, com o casamento em frangalhos e duas crianças para criar sozinha.
Claramente o universo a odiava e decidiu fazer uma piada de mau gosto.
— Nós temos que ligar para o canil ou para algum abrigo o mais rápido possível. — ela disse, sentindo a voz soar fraca até para seus próprios ouvidos.
— NÃO! — se jogou no chão, literalmente se colocando entre os pais e a ninhada. — Eles não têm casa! A mamãe cachorro escolheu a
nossa casa para ter os bebês! É um presente!
— Não é um presente, , é uma responsabilidade enorme. — tentou, embora seus olhos também estivessem presos aos filhotes e a cadela olhando para eles com uma expressão cansada e quase suplicante. — Nós nem conhecemos essa cadela.
— Agora conhecemos! — anunciou , como se isso resolvesse tudo. — Eu vou chamar ela de... Girassol! Porque é amarelinha! E os bebês podem ser Botão, Margarida, Pipoca... — Ela começou a nomear ali mesmo, apontando para cada um.
— Não podemos ficar com nove cachorros, — firmou a voz, tentando soar final. A dor de cabeça latejava em suas têmporas. — É impossível. Nem sabemos se ela é saudável, se tem vacinas e nem da personalidade dela. Ela pode ser perigosa, sabia?
Foi quando se levantou. Ela caminhou até a cadela e, com uma calma que contrastava com o caos, se ajoelhou lentamente. A cadela levantou a cabeça, mas não rosnou, ao invés disso, cheirou a mão estendida de e deu uma leve lambida.
— Ela não é brava — declarou, olhando por cima do ombro para os pais. — Ela só está com muito medo e cansada. Olha onde ela veio parir, mamãe. No nosso mato, ela está sozinha e não tinha um lugar melhor.
Havia uma acusação sutil nas palavras de , ecoando o sentimento de desamparo que ela mesma carregava.
Ela não tinha um lugar melhor. Assim como a gente, agora, meio que não tem.
— — começou, com sua voz carregada de um cansaço profundo, ele odiava dizer não as filhas e na situação atual, talvez odiasse ainda mais.
— Você disse — o interrompeu, com seus olhos grandes e sérios fixos nele — que a família é pra cuidar um do outro quando as coisas ficam difíceis. Que mesmo quando a gente briga, a gente não abandona. — Ela fez uma pausa, deixando as palavras, que eram um eco distorcido das que ele usara no hospital, pairando no ar. — A Girassol e os filhotes são uma família e eles estão em dificuldades. Aqui. No
nosso lugar. Se a gente ligar para o abrigo, eles vão separar todo mundo. Os bebês vão morrer sem a mãe, ou a mãe vai ficar triste e sozinha sem eles.
Era um discurso articulado, emocionalmente carregado e brutalmente eficaz. não estava apenas pedindo por cachorros, ela estava testando os princípios que tentara desesperadamente vender como verdades. Ela estava forçando-o a praticar o que pregava, usando a cadela e seus filhotes como metáfora ambulante de sua própria família despedaçada. A inteligência aguçada das filhas assombravam os pais nesse momento, principalmente o homem, que tremia de receio em decepcionar a filha novamente. sabia disso. Sabia da dor que ele sentiu quando não quis vê-lo e sabia que ele temia que, o menor das negativas, trouxesse isso novamente. ficou mudo. Ele olhou para , buscando aliado, mas viu apenas o mesmo conflito refletido nela. Negar seria confirmar, para , que os ideais de família eram apenas palavras vazias. Seria, de alguma forma, repetir o abandono que ela tanto temia. , percebendo a brecha aberta pela irmã, jogou-se nos braços de , abraçando seu pescoço.
— Por favor, papai? A gente pode cuidar! Eu vou ajudar a ! A gente dá banho, dá comida também. E aí a mamãe nem vai precisar fazer nada! A mamãe pode descansar com o bebê na barriga!
A menção do bebê fez levar a mão instintivamente ao ventre. Um novo ser. Oito novas vidas. A casa vazia e silenciosa que ela temia enfrentar agora ameaçava se tornar um canil. O pânico a inundou, mas sob ele, uma onda irracional de algo que não era alegria. Era o universo rindo e dizendo:
Você acha que está no controle? Aqui, tome mais vida. Mais caos. Mais amor não solicitado.
— — a voz de saiu rouca. — É uma loucura.
— Eu sei — ele respondeu, quase num sussorro, mantendo sua testa encostada na de e seus olhos fechados.
— Nós não temos condições de nos preocupar com isso agora. — ela insistiu, mas a convicção já vacilava.
— Eu... eu posso vir todos os dias, para ajudar a cuidar deles. Eu posso consertar a cerca, construir um canil melhor, levar a cadela no veterinário. — As palavras saíam de como uma torrente, uma tentativa desesperada de encontrar uma solução, de
fazer algo, de consertar algo, mesmo que fosse a vida de uma cadela.
Em troca, ele estava se oferecendo, oferecendo uma presença constante. Uma desculpa para estar na casa todos os dias.
Era um cavalo de Tróia peludo e de oito filhotes.
percebeu a vitória iminente. Ela pegou o filhote mais fraquinho, o branco que parecia ter dificuldade para competir pelos mamilos, e o trouxe até .
— Olha, mãe. Ele é o menor. Precisa de ajuda. A Girassol não vai conseguir cuidar de todos sozinha.
olhou para a criatura minúscula e trêmula na mão de sua filha. Um ser frágil, dependente. Uma metáfora tão óbvia que doía. Seu coração, já tão vulnerável, cedeu. Não por causa dos cachorros, mas por causa da luz nos olhos de , que pedia por um ato de família. Talvez por causa do desespero de para ser um bom pai ou por causa do próprio instinto grávido dentro dela, que se recusava a virar as costas para a vida. Ela soltou um longo suspiro.
— Está bem.
soltou um grito de vitória que fez a cadela levantar as orelhas, alerta.
— FICAMOS COM TODOS!
— NÃO — ergueu a voz, encontrando um último resquício de autoridade. — Ficamos com eles temporariamente. Até os filhotes estarem desmamados e saudáveis para adoção. Então encontraremos bons lares para sete deles. Podemos ficar com um.
Apenas um.
Era um compromisso. Um meio-termo caótico e insano, mas era um plano. acenou, com um pequeno e raro sorriso tocando seus lábios ao acariciar o filhote branco. olhou para com uma mistura de admiração, culpa e alívio tão intenso que ela precisou desviar o olhar.
— Certo — ele disse, esfregando as mãos, assumindo um ar prático para esconder a comoção. — Preciso de caixas, cobertores velhos, água e ração. , você pode me ajudar a buscar os cobertores do armário da lavanderia?
Enquanto pai e filha se agitavam, se aproximou de , ainda segurando o filhote.
— Obrigada, mãe.
— Não me agradeça ainda — murmurou, sentindo outra onda de enjôo. — Vai ser um inferno.
— Mas vai ser um inferno com cachorros — disse, com uma sabedoria muito além de seus seis anos. — É melhor que um inferno quieto.
E então, com a mão livre, tocou levemente a barriga ainda plana de .
— O bebê vai gostar do barulho.
Apoiada na pia, respirou fundo.
Antes que pudesse responder a , o universo decidiu provar seu ponto sobre o inferno com cachorros. O caos, que até então era um potencial, desencadeou-se em cascata. , tentando ser útil, voltou da lavanderia carregando uma pilha instável de cobertores velhos e lençóis furados. , em sua missão de ajuda, corria em círculos ao seu redor, batendo palmas e gritando.
— Vamos fazer uma cama fofinha para os bebês! — O movimento brusco e o barulho foram o gatilho. Dois filhotes mais aventureiros, um malhado e um amarelo, que estavam explorando os limites do ninho, deram um salto desengonçado e saíram cambaleando pela grama em direções opostas. A mãe, Girassol, levantou-se de um salto, soltando um rosnado baixo de preocupação, ela não sabia se ia atrás de um ou de outro. — O filhotinho está fugindo! — berrou , mudando de missão instantaneamente e correndo atrás do malhado, que, assustado com o monstro barulhento que se aproximava, tropeçou e rolou direto para baixo do velho balanço de ferro.
— , não corra! Você vai pisar neles! — gritou, mas já era tarde. Ele tentou desviar do filhote amarelo que ziguezagueava perto de seus pés, tropeçou na pilha de cobertores e caiu de joelhos na grama molhada, os lençóis voando como bandeiras de rendição.
— Papai caiu! — anunciou , com um misto de alarme e fascínio.
Nesse momento, o filhote branco, o mais fraco que segurava com tanta reverência, decidiu que aquela era a hora perfeita para liberar seu minúsculo sistema digestivo. Um jato morno e amarelado escorreu pelo braço de e pingou no pé descalço de .
— Eca! — gritou , mais surpresa do que enojada, segurando o filhote esticado como se fosse uma bomba relógio prestes a explodir. O cheiro ácido e doce da urina de filhote, combinado com o cheiro de terra molhada, grama cortada e o café de dentro de casa, foi a combinação final. A náusea que vinha segurando com força de vontade pura rompeu todas as barreiras. Ela se virou e não conseguiu nem chegar à pia. A primeira convulsão de vômito, seca e agonizante, a dobrou ao meio no meio do caminho, suas mãos se agarrando à moldura da porta da cozinha. Ela vomitou no limiar, o chão de madeira recebendo o suco gástrico amargo e o resto do chá de gengibre. — Mãe! — A voz de foi um corte limpo através do pandemônio.
O filhote amarelo parou de correr. congelou debaixo do balanço. , ainda de joelhos no meio dos cobertores, olhou para preocupado. A mulher, por sua vez, ficou ofegante, com os olhos cheios de lágrimas involuntárias da força do enjoo, uma linha de saliva conectando seus lábios ao chão. Sentiu-se completamente exposta, miserável, envergonhada e doente. Esta era a imagem da sua maternidade agora: grávida, vomitando no quintal enquanto um exército de cachorros recém-nascidos e suas duas filhas assistiam. Girassol, a cadela, deixou seu ninho. Ignorando seus filhotes desgarrados, ela atravessou o quintal com passos cansados mas decididos e chegou até , então parou, e com um movimento infinitamente gentil, lambeu o pulso trêmulo de que estava agarrado à madeira. Era um gesto instintivo, de uma mãe para outra.
A simplicidade disso quebrou . De forma inesperada, uma risada trêmula, meio soluço, meio gargalhada, escapou de seus lábios.
— Olha — ela engasgou, limpando a boca com o dorso da mão. — Até a cadela estranha tem pena de mim.
se levantou, ignorando a terra nos joelhos da calça. Em três passos largos, ele estava ao seu lado. Sem pedir permissão, ele passou um braço firme ao redor de seu quadril e ajudou a mulher, segurando-a enquanto ela tremia.
— Vamos te levar para dentro — disse ele, com sua voz firme, ancorando-a. — , pegue um pano molhado, por favor. , fique parada e NÃO MEXA NOS FILHOTES.
— Mas o piratinha... — começou .
— PARADA. — a voz de era raramente usada naquele tom de comando, e o efeito foi instantâneo. ficou plantada no lugar, mantendo os olhos arregalados.
, ainda segurando o filhote urinador com cuidado, correu para dentro para buscar o pano. guiou para longe da bagunça, levando-a para o sofá da sala. Enquanto se deixava cair no sofá, pálida e exausta, pegou o pano das mãos de e, ajoelhando-se diante dela, começou a limpar delicadamente seu pé. Não foi uma limpeza qualquer. Foi um ato de cuidado meticuloso. Ele limpou cada dedo, passando o tecido macio entre eles, removendo o resíduo morno com uma paciência infinita. Seu toque era firme, mas suave, o mesmo que usava anos atrás para massagear seus pés inchados no final das duas primeiras gravidezes, quando o mundo deles ainda parecia sólido. Ele não falou nada, em vez disso, sua atenção era uma linguagem completa. Quando terminou de limpar, ele não soltou seu pé imediatamente. Com o polegar, ele começou a fazer pequenos círculos na planta do pé dela, numa pressão suave e conhecida, um gesto tão íntimo que fechou os olhos por um segundo, sentindo uma tensão escapar de seus ombros. Era um ponto no corpo dela que ele conhecia melhor do que o próprio, um ponto que sempre a fazia derreter, mesmo nos piores dias. então pegou a manta que estava jogada no braço do sofá, a mesma manta de lã azul-turquesa que sempre usava quando estava doente ou triste, ele a abanou suavemente e a colocou sobre as pernas dela, arrumando as pontas ao redor de seu corpo com cuidado. Seus dedos roçaram o tecido sobre seu colo, sobre o ventre ainda plano onde seu filho ou filha dormia, e sua mão parou ali por um segundo, num contato indireto, um reconhecimento silencioso da vida que carregavam juntos.
Ele se levantou e foi até a cozinha. podia ouvi-lo abrindo e fechando armários, podia ouvir a água correndo. O loiro voltou com um copo de água fria e dois biscoitos de gengibre em um pires, os biscoitos que ela só comia quando estava enjoada, que ele sempre mantinha em estoque, mesmo depois de sair de casa. Ele colocou-os na mesa de centro ao lado dela, dentro do seu alcance.
Em seguida, ele se virou para .
— Você fica com a mamãe. Só por alguns minutos. Se ela precisar de alguma coisa, você me chama do quintal, tá?
assentiu, séria, sentando-se no chão aos pés do sofá, como uma pequena guardiã.
Naquele momento caótico, com o cheiro de vômito ainda no ar e o som de oito filhotes no quintal, aquele cuidado silencioso e prático foi o mais puro "eu te amo" que poderia existir. Ele então virou-se e voltou para o caos do jardim, deixando seus ombros um pouco menos curvados, sua missão era clara: domar o exército de filhotes para que ela pudesse descansar. Porque mesmo separados, mesmo feridos, o bem-estar dela sempre seria o norte do seu compasso.
Depois que Simon saiu, um silêncio frágil se instalou na sala, quebrado apenas pelos ganidos distantes do quintal e pela respiração mais calma de Isla. Violet observava a mãe, com seus olhos grandes e sérios fixos no rosto pálido ainda marcado pelo esforço do enjoo. Ela apertou o filhote branco contra o peito, como se o animal fosse sua pequena fonte de coragem, e fez a pergunta que a atormentava desde que vira a mãe se dobrar de dor na porta.
— A Girassol e os filhotinhos fizeram mal pra você, mãe?
A pergunta era tão inocente e carregada de culpa que sentiu o coração apertar. Ela forçou um sorriso cansado e sacudiu a cabeça, pegando o copo de água que deixara sobre a mesa.
— Não, meu anjo. De jeito nenhum — ela disse, bebendo um gole pequeno. A água era fresca e acalmou um pouco a ardência em sua garganta. — Eles só apareceram na hora errada. O que me deixou mal foi outra coisa.
franziu a testa, deixando com que sua lógica infantil trabalhasse.
— Foi o braço machucado?
— Também não. — colocou o copo de lado e estendeu a mão, convidando para se aproximar. A menina veio, sentando-se na beirada do sofá, mantendo o filhote no colo. — É o bebê. Às vezes, quando um bebê está crescendo dentro da mãe, o corpo da mãe fica um pouco confuso e ele fica cansado, como se estivesse brigando por espaço.
olhou para a barriga ainda plana da mãe, coberta pela manta azul. Seu rosto era uma tela pintada de curiosidade e preocupação.
— O bebê te bate por dentro? É por isso que você ficou doente?
não pôde evitar um sorriso mais genuíno.
— Não é bater, querida, ele está mandando mensagens. O corpo da mamãe está mudando muito rápido para dar conta dele, e às vezes a mamãe fica tonta, com enjoo, é um aviso.
— Mas o aviso é nojento — observou .
— É — riu, um som baixo e rouco que soou estranho até para ela. — Pode ser muito nojento e cansativo. Com você e com a também foi assim, no começo.
Os olhos de se arregalaram.
— Eu fiz você ficar doente?
— Você fez — confirmou, acariciando o cabelo da filha. — E a também, mas depois que passou, foi só amor. O enjoo some, e aí a mamãe consegue sentir o bebê se mexendo, dando chutes, ouvir o coraçãozinho, tudo isso que vem depois é a parte boa.
ficou em silêncio por um momento, processando. Sua mão livre, pequena e suja de terra, tocou a manta sobre o ventre de com uma curiosidade reverente.
— Ele está se mexendo agora?
— Ainda não, flor. Ele é muito, muito pequeno ainda, ainda menor que o seu filhotinho, do tamanho de uma ervilha.
— Uma ervilha? — parecia intrigada e um pouco desapontada. — Mas como uma ervilha vira um bebê?
— Com muito tempo, e com o corpo da mamãe trabalhando — explicou, sentindo uma onda de cansaço, mas também de uma estranha felicidade por estar tendo essa conversa. — Ele vai crescer um pouquinho a cada dia. Daqui a algumas semanas, vamos poder vê-lo em uma fotografia especial, no ultrassom. Parece uma bolinha cinza que pisca.
— E aí a gente vai saber se é irmão ou irmã? — perguntou , lembrando da empolgação da irmã.
— Se é menino ou menina, sim. Daqui a um tempo.
mordeu o lábio, seu olhar perdia-se por um momento no filhote que dormitava em seu colo.
— E o bebê vai te deixar doente o tempo todo? Você vai ficar sempre assim, cansada?
Havia um medo real na pergunta. O medo de uma criança que já via a mãe frágil no hospital e agora a via vulnerável em casa.
— Não sempre — disse, escolhendo suas palavras com cuidado. — Vai ter dias bons e dias ruins. Eu vou precisar de muita ajuda, sua, da , do papai.
O nome dele pairou no ar entre elas. olhou para a porta por onde tinha saído, para o caos que ele estava tentando conter.
— O pai sabe fazer isso. Cuidar de você quando está doente — ela afirmou, não como uma pergunta, mas como uma constatação. Ela tinha visto isso muitas vezes.
— Ele sabe — concordou, a voz suave. Era impossível negar. Aquele cuidado, aquele conhecimento íntimo de suas necessidades, era um mapa que só possuía.
De repente, um barulho vindo do quintal as fez pular. Um latido mais forte da cadela, seguido pelo som de algo de metal caindo, provavelmente a tigela de água, e o grito abafado de
— Não, , pela milésima vez, NÃO COLOQUE O FILHOTE DENTRO DA SUA CAMISETA!
olhou para a mãe, e pela primeira vez naquele dia, um brilho de diversão genuína apareceu em seus olhos.
— O inferno com cachorros — ela repetiu, sábia.
sorriu, apoiando a cabeça no encosto do sofá.