Independente do Cosmos🪐
Última Atualização: 20/07/2025Capítulo 1 –
É irônico quando alguém fala que a melhor parte do corpo de alguém é um sorriso, mas há uma boa dose de verdade nisso. Sorrisos errados podem destruir vidas certas. Todos, repito, absolutamente todos possuem uma história em que um simples sorriso foi capaz de instaurar um caos na própria vida.
Eu tenho uma dessas, e ela começa da forma mais ridícula que poderia começar.
Antes
Buren não era exatamente uma cidade famosa pelas atrações ou o tamanho de sua população, na verdade, era mínima e não tinha mais que seus vinte mil habitantes. Não se engane, pode até parecer um número grande, mas não é nada quando você conhece absolutamente todos os moradores do lugar. A atração principal, no entanto, era uma bela pista de corrida capaz de abrigar vários dos jovens que sonhavam em ser pilotos um dia. E para pessoas como eu, universitárias que amavam a adrenalina, mas tinham medo de entrar nela, assistir essas corridas era a melhor coisa a se fazer em um sábado à tarde.
Entre os jovens pilotos do kart, um deles era o maior destaque do Campus: . As expectativas não eram à toa, ele realmente possuía um talento nato nas pistas e um foco devastador para qualquer um que entrasse em seu caminho – as ultrapassagens eram sempre rápidas, chegavam a ser até um pouco agressivas. Foi a sua agressividade que lhe deu o apelido de Mad Max.
Cinco minutos de corrida e o jovem alemão já detinha a liderança, não demorou muito até que ele ganhasse. A cada disputa nova, o loiro era considerado o novo nome do automobilismo. Finjo não entrar em um pequeno colapso quando ele se aproxima de mim, afinal, quem não surtaria com ele se aproximando?
— Eu costumo deixar os outros pilotos terem um pouco de esperança, mas no final sempre ganho. Sou , por sinal. — Ele tinha uma mistura de autoconfiança e charme, o típico conjunto de habilidades de alguém que sabia a impressão que causava.
— Você é bom nas pistas.
— A única coisa desafiadora pra mim nesta pista de kart é ganhar o número do telefone da garota mais bonita desse lugar. Então, o que você acha? Vai me dar a chance de ser tão rápido no seu coração quanto sou nas curvas?
Agora
Foi exatamente naquele ponto em que me apaixonei, caindo na armadilha das palavras envolventes que aquele sorriso possuía. Eu sucumbi àquela cantada barata, sabendo que aquele era um jogo do qual eu já estava em queda, mas não me culpei por isso. No fundo eu sabia: não existia uma alma sequer que resistia a .
E por mais que eu não quisesse ser mais uma em sua cama, eu fui.
À medida que nossos dias juntos se transformavam em noites compartilhadas, eu me pegava mergulhando nas curvas do sorriso estonteante e nos traços dos gestos mais incríveis encontrados em alguém. Porém, conforme o tempo avançava, percebi que meu coração também se entrelaçava nas linhas do garoto além das pistas. Foi um caminho que trilhei confiantemente, sem compreender que aquelas curvas eram tanto um desafio quanto um risco.
Estar com alguém tão popular não trazia apenas benefícios; rapidamente boatos de todos os tipos se espalharam pelo campus: alguns diziam que eu era mais um passatempo, outros diziam que eu transava com qualquer piloto por interesse e alguns simplesmente nos achavam insuficientes um para o outro. No entanto, enquanto meus lençóis tinham o cheiro dele, nada mais importava para mim.
Nós nos pertencíamos, de certo modo, e ele nunca fez nenhuma menção de esconder isso. Em meio a promessas de que seríamos para sempre, a vida chegou com uma baita pancada: uma oportunidade fez com que ele fosse escolhido como piloto da Fórmula 3, e com dois passos à frente ele estaria na Fórmula 1.
Só Deus sabia como era difícil que algo surgisse assim. “É mais fácil ser astronauta do que piloto”, diziam. E no fim tinham razão, o que não fez doer menos no dia de sua partida.
Antes
— Não importa o quão longe eu vá, eu nunca vou esquecer você.
— Não seja bobo, você precisa pensar no seu futuro. Viagens, pressões... Isso tudo pode nos afastar e eu não vou te culpar se sua jornada não for comigo.
— Você é a minha jornada. Prometo a você, não importa o quão longe eu fique, sempre vou encontrar um caminho de volta.
Agora
Foi naquela tarde, com as palavras dele ecoando em meus ouvidos e o olhar penetrante gravado em minha memória, que eu soube que nossos corações estariam unidos por algo mais profundo que a distância. Foi com essa certeza que eu olhei bem o sinal que ele tinha no canto superior dos lábios e me perdi nos brilhos intensos dos seus olhos. Eu acreditei. Acreditei mesmo que ele voltaria para mim, que seríamos para sempre. Foi com essa certeza que eu fui sua, mais uma vez, em meio aos seus lençóis.
Na manhã seguinte, terminamos.
Trinta e nove semanas depois, num quarto mal iluminado de hospital e um leito desconfortavelmente vazio, encarei pela primeira vez os olhos idênticos de . Quando olhei para meu filho, apesar de feliz, me controlei para não chorar por ter sido estupidamente burra. Observando o sinal familiar no lábio superior do meu filho, não pude controlar o arrependimento de ter trocado meus sonhos pelo sonho que agora estava em meus braços. Por mais grata que fosse pelo meu presente precioso, eu não podia negar a dor silenciosa de saber que eu havia desistido de mim mesma para isso.
Eu não tinha mais a minha bolsa de estudos, e o choro de todas as noites e o cansaço que me traziam fez com que minhas notas baixassem, por mais esforçada que eu fosse. Eu não seria mais uma médica de sucesso e não teria um futuro brilhante repleto das oportunidades que um dia sonhei, mas eu tinha o meu filho. E céus, como ele é lindo.
Respiro fundo, tentando afastar os pensamentos do passado e focar no futuro à minha frente. Em minha mesa havia vários papéis de contas prestes a vencer, incluindo o meu aluguel. De repente, a ideia de vender alguns órgãos ao mercado negro não era tão ruim assim. Eu tinha estudado alguns períodos de medicina, sabia que dava pra viver sem um rim.
Em pleno domingo, eu ouvia o barulho na televisão avisar que já eram sete da manhã. acordaria em algumas horas, e eu tinha acordado mais cedo apenas para constatar o óbvio: estava mais fodida do que imaginava.
Como em uma ironia clássica da vida, ele aparece na televisão, com o sorriso autoconfiante de sempre. Os olhos ainda mais intensos do que anos atrás. Estava prestes a ser tricampeão, liderava a competição com quase cem pontos de diferença e tinha doze vitórias consecutivas. Ele batia todos os recordes, dia após dia, e vê-lo tão incrível quase me fazia esquecer o motivo de odiá-lo tanto.
Como uma medida de autodefesa, a minha mente me lembra o motivo da dor que sinto ao ver a felicidade dele.
“Como você pode garantir que é meu?”
se aproxima, acordando mais cedo que o esperado, arrasta a sua manta pela casa e caminha até o sofá. Observo os traços do meu filho – sua beleza se tornava maior a cada dia, e foi olhando aquele rostinho dócil que entendi. Não tinha a menor possibilidade de ter um pai tão covarde a ponto de sequer reconhecer sua própria responsabilidade. Meu filho seria meu e, assim, não sofreria com a ausência de alguém que ele nunca conheceria.
entrou na Fórmula 1 um ano depois, sendo o piloto mais jovem a ingressar numa equipe oficial. Ele foi tão bom que pularam as etapas, e sequer participou da Fórmula 2. Foi inevitável me perguntar se ele se lembrava de que era eu quem o confortava e acalmava antes das corridas mais difíceis. contou para alguém que fui eu quem o impedi de desistir de pilotar quando o pai dele o castigou por perder uma das corridas de kart?
Afasto os pensamentos, abraço com mais força o meu filho em meus braços e torço o nariz. Odiava ter esses pensamentos porque me faziam duvidar da minha capacidade de seguir em frente. Se eu ainda pensava tanto, então era porque eu ainda sentia algo. E isso me doía.
sonhava que um dia seria piloto, e os papéis na mesa me traziam o medo de que ele não fosse conseguir. Parte das dívidas estavam diretamente ligadas ao tratamento dele e às contas intermináveis do hospital. Aos cinco anos de idade, havia sido diagnosticado com leucemia – foi quando meu coração partiu em mil pedaços. Quando recebi a notícia, senti o chão desaparecer dos meus pés, deixando-me à deriva em um mar de medo e incerteza.
Olho para aqueles olhos pequenos e inocentes. A dor vem de forma letal e em doses pequenas, fazendo-me perguntar como algo tão cruel podia afetar alguém tão jovem.
Meus olhos desviam da telha e pousam sobre o pequeno loirinho em meus braços; seus cabelos já estavam começando a perder a cor dourada. Respiro fundo, sentindo as lágrimas acumularem em meus olhos, uma raiva borbulhante tomando conta de mim. Eu sabia que raiva não me traria conforto e que comparar as situações era injusto e improdutivo. não tinha controle sobre a doença de , assim como eu não tinha controle sobre suas vitórias, mas ainda assim, eu não podia controlar o ressentimento que vinha forte como uma onda gigante.
ergue o troféu sob gritos e aplausos da multidão entusiasmada. Enquanto ele estava lá, no centro das atenções, meu filho enfrentava uma batalha dolorosa, uma que ele nunca pediu para travar.
Todos diziam que Mad Max odiava perder, mas ele já tinha tido a maior derrota de sua vida. Quando se negou a acreditar que era seu filho, o maldito holandês perdeu a criança mais incrível que já existiu. Nenhuma vitória seria como aquele pequeno menino loiro, de olhos verdes e sorriso invencível.
Com um suspiro, pego meu filho nos braços. Ele sorri da forma manhosa e dengosa que sempre fazia e uma gratidão enorme toma conta de mim. A glória de nas pistas era uma coisa, mas a força e a resiliência de na vida eram uma vitória muito maior – uma que eu sempre celebraria, mesmo nas sombras.
Sinto o ar pesar em tensão assim que minha mão pousa sobre a testa de . Ele estava quente ao toque e seu rosto exibia uma palidez repentina, me fazendo tremer por dentro. O médico tinha nos instruído sobre as possíveis crises que a leucemia poderia causar, mas estar diante disso era uma realidade assustadora demais.
— Mamãe, dói — ele murmura com a voz fraca, buscando conforto nos meus olhos. Tento manter minha voz calma e reconfortante enquanto acariciava seu cabelo.
— Eu sei, meu amor. Vai ficar tudo bem, a mamãe está aqui com você.
Seguro o telefone e disco o número do hospital com uma urgência que transparecia a cada toque. A angústia que eu sentia me apertava como um punho cerrado, e enquanto a voz do outro lado da linha me explicava os procedimentos e cuidados que seriam oferecidos, eu não podia evitar a sensação de impotência que me dominava. Olho para a pilha de contas em cima da mesa e respiro fundo. Não importa o que acontecesse, eu não podia deixá-lo sofrer. Mesmo que isso significasse um desafio financeiro monumental.
Capítulo 2 –
O Summer Break era o período mais esperado por todos os pilotos.
Eu odiava. As férias eram boas para quem tinha para onde ir, não era o meu caso.
A ideia de três semanas longe das pistas pesava em meus ombros com um lembrete anual de que o sucesso no mundo das corridas vinha acompanhado de um vazio peculiar. Superficialmente, minha vida era um testemunho de conquistas: o piloto mais bem pago do mundo, uma cobertura ampla em Mônaco, com todo luxo e glamour que isso trazia, uma garagem repleta dos carros mais caros – mas à medida que a pausa começava, um vazio ecoava dentro de mim. Um vazio que nenhum grau de fama ou fortuna podia preencher.
Me pergunto o que mais eu poderia querer. Tudo o que eu sempre desejei estava à minha volta: a riqueza, o reconhecimento, a velocidade. Eu tinha mais dinheiro do que jamais poderia gastar, um estilo de vida que muitos consideram invejável e, mesmo com tudo isso, me sinto como um corredor solitário em uma pista completamente vazia.
Contemplo as paredes opulentas do meu apartamento enquanto a sensação de solidão se intensifica. Não havia vozes de amigos ou familiares para preencher o ambiente. Apenas o som ocasional do mar lá fora e os ecoantes pensamentos na minha mente.
Os flashes das minhas conquistas passavam diante dos meus olhos. Eu pensava nas corridas e em cada vitória que vinha delas, em cada pódio, mas nada disso preenchia o vazio que eu sentia. Numa tentativa de entender o que eu havia perdido de tão fundamental, minha mente fez questão de vagar pelo rosto que eu não via há muitos anos, . A mulher que encheu meus dias com risos e promessas. A única que me viu além das curvas das pistas e me mostrou que na vida havia mais do que velocidade. Ela me largou sem desculpas, sem aviso prévio, e apesar de ter seguido em frente, algo dentro de mim ainda se perguntava o que aconteceu. Ela estava feliz? Encontrou o que buscava? Pensava em mim como eu pensava nela?
Volto ao dia em que a cantada ousada que lancei arrancou dela um sorriso e um brilho único nos olhos. Tudo isso parecia ser uma vida atrás, uma que tinha desaparecido completamente. As lembranças traziam uma verdade amarga que se infiltrava na minha consciência. Eu tinha conquistado muito, mas ao longo do caminho, deixei muito para trás também. não era apenas uma lembrança; era a parte de mim que eu ignorava, que eu tinha negado.
Não era como se eu nunca tivesse ido atrás dela. Uma semana após ela ter sumido, eu busquei formas de procurá-la em todos os meios de comunicação possíveis. Não a encontrei em nenhuma das redes que ela costumava ter – ela claramente havia trocado o número de telefone, me bloqueado em cada espaço de sua vida e, por mais que a ideia de um perfil fake fosse tentadora, eu sentia que precisava respeitar a sua decisão em manter a distância. Ela tinha o direito de buscar a sua felicidade, afinal de contas. Relacionamentos à distância só funcionavam em uma realidade fictícia, assim como o para sempre.
Eu não sou infeliz. Amo as corridas, amo a sensação da velocidade, a adrenalina que corre nas minhas veias a cada curva. Amo as viagens, os diferentes lugares que visito, as culturas que mergulho temporariamente. Amo o meu trabalho, a dedicação que coloco em cada treino livre, em cada volta cronometrada. Tudo isso faz parte de quem sou, é a essência que me trouxe até aqui, mas mesmo com toda essa paixão pelo que eu faço, mesmo com as multidões que aplaudem e os patrocinadores que sorriem, há um canto dentro de mim que permanece vazio. Posso mentir que não sei o motivo desse vazio, mas a verdade é que em tantos anos, ainda tem o espaço exato do buraco de meu coração.
Já fui pra cama com mulheres de sua altura, já me relacionei com outras que possuíam uma aparência bem semelhante à sua, mas nenhuma tinha o tamanho do vazio que ela deixou. Nenhuma boca, pele ou cama funcionava.
Foi quando essa ficha caiu que, em uma tentativa de encontrar algum significado, decidi que era hora de direcionar minha paixão e recursos para algo maior do que as pistas e corridas. Foi assim que surgiu a ideia de criar um hospital especializado no tratamento de leucemia infantil. Lembro-me de , maldita , e sua aspiração em ser médica. Ela sempre quis ser médica para ajudar os outros e, de alguma forma, através do hospital que tinha construído, eu podia me tornar parte daquilo que ela sempre aspirou ser. Era uma forma de me conectar com o passado sem ter contato com ele.
O zumbido do telefone quebra a confusão dos meus pensamentos.
— Oi, Lara — digo, curioso sobre o motivo da ligação. Lara era alguém da minha mais inteira confiança, no entanto, suas ligações eram quase nulas.
— , sei que você está de férias, mas... precisamos conversar. — Sua voz soava séria e um tanto tensa.
— Do que se trata? — pergunto, sentando-me em uma poltrona, coberto pela preocupação que começava a se infiltrar.
Ela faz uma pausa antes de responder, escolhendo cuidadosamente as palavras.
— Eu ouvi... Ouvi uma história perturbadora hoje. Eu não sei se é verdade, no entanto, acho que você precisa saber. negou cuidados a uma criança com leucemia porque a mãe não tem condições de pagar o tratamento.
A informação me atinge como um soco no estômago. Meu pai era obcecado por vitórias, mas não era alguém ruim, por isso foi tão difícil acreditar nas palavras da mulher. No entanto, eu já tinha visto lados egoístas dele.
— Não pode ser verdade. Eu garanti que o hospital fosse um lugar onde todas as crianças pudessem receber um tratamento, independentemente das suas circunstâncias financeiras.
— Essa não é a primeira vez que ouço histórias assim — ela sussurra, incerta do que compartilhava. — Claro, você não deve duvidar do seu próprio pai por boatos, mas... acho bom você acompanhar isso de perto.
— Obrigado por me contar, vou lidar com isso imediatamente, mas de antemão, ligue para a mãe da criança. Peça desculpas e o acomode, eu chego em algumas horas.
O avião me levou de Mônaco para uma cidade holandesa, próxima daquela onde eu e nos conhecemos. Era irônico como o destino me levava de volta às minhas origens, a um lugar onde minha paixão pelo automobilismo e minha história com a mulher que eu amei haviam se cruzado pela primeira vez.
Ao chegar, não procurei um hotel e tampouco fui para o meu apartamento. Fui direto para o hospital, ainda que me sentisse um tanto fora do meu elemento. Minha presença atraiu olhares curiosos, mas eu não estava ali como piloto; eu estava ali como um homem determinado a fazer o que eu tinha jurado fazer: honrar os meus próprios princípios.
Enquanto caminhava pelos corredores, os murmúrios diminuíram e eu fui capaz de observar de perto a operação do hospital. Era um lugar colorido, cheio de esperança, com crianças batalhando contra doenças terríveis e profissionais da saúde dedicados a ajudá-las. No entanto, minha mente estava focada em uma única missão: encontrar a criança que supostamente havia sido negada tratamento por falta de pagamento.
Com a ajuda de uma das enfermeiras, ela compartilhou informações sobre o caso da criança. Não demorei a achar o seu quarto; uma auxiliar estava com o menino e, assim que entrei, ela tratou de explicar que a mãe tinha ido tomar banho e voltaria logo.
O hospital era um dos projetos que eu fazia questão de manter longe dos holofotes da fama. Eu não queria que a exposição prejudicasse o tratamento das crianças e não precisava da mídia para ajudar aquelas vidas.
Quando entro no quarto, meu olhar cai sobre o menino. Ele estava deitado na cama, frágil e determinado, olhando para o teto com uma expressão que era um misto de coragem e vulnerabilidade. Uma sensação estranha me percorreu, uma conexão que eu não conseguia entender completamente. Ele é... diferente.
Enquanto observo o menino, meus pensamentos se perdem em um labirinto de emoções confusas. Não era apenas por ele ter, possivelmente, seus seis anos de idade, mas era como se algo, naquele momento, me ligasse a ele de forma inexplicável. O modo como ele olhava ao redor, como mantinha a cabeça erguida apesar das circunstâncias era estranhamente familiar.
Eu não conseguia tirar os olhos dele. Cada movimento, cada olhar parecia ressoar dentro de mim de alguma forma sobrenatural, mas apesar da sensação de familiaridade, eu não conseguia identificar de onde vinha. Era como se uma peça crucial estivesse faltando no quebra-cabeça.
Porra. O que está acontecendo comigo?
Meu peito aperta, mas de uma forma diferente dessa vez. Quando o olhar curioso do menino se vira para mim, eu me aproximo. Algo me puxa para ele.
Ele é familiar.
Muito familiar.
Ele me lembra alguém.
Quem?
Seus olhos verdes se fixam aos meus por um momento. Eu me sinto como se estivesse olhando para alguém que eu conhecia, mas a lembrança continuava a escapar pelos meus dedos. Meus olhos estavam completamente presos a essa criança. Presos pra caralho. Por quê?
— Oi — eu digo, sentindo minha voz falhar enquanto me aproximava da cama do pequeno. A auxiliar de enfermagem que cuidava dele me olhava com uma mistura de surpresa e curiosidade, sem falar nenhuma palavra.
O menino desconhecido vira o rosto em minha direção novamente. Era como se houvesse um lampejo de reconhecimento ali, algo que eu não conseguia explicar.
— Oi — ele responde com a voz fraca, mas cheia de curiosidade.
— Eu sou — me apresento, sentindo um nó na garganta enquanto falava. — E você?
— Eu sou o — ele responde com um pequeno sorriso aparecendo em seus lábios.
O nome atingiu-me como um soco no estômago. . Era um nome que eu nunca tinha ouvido antes, mas por alguma razão, parecia ressoar em algum lugar profundo dentro de mim. Era uma coincidência, uma ligação inexplicável ou havia algo mais?
Sento-me na beira da cama, com os olhos ainda fixos no dele. Os cabelos loiros, claros como mel, parecem mais nítidos agora de perto.
— , é um prazer conhecê-lo. Você é um lutador, sabia?
— Minha mãe diz que tenho que ser forte — ele diz com os olhos misturados em orgulho e determinação.
— Isso mesmo. Às vezes a vida nos apresenta desafios difíceis, mas o que importa é como nós os enfrentamos.
me observa por um momento, seus olhos cheios de uma sabedoria que parecia muito maior do que seus poucos anos.
— Minha mãe é forte também, ela nunca desiste.
Minha atenção estava inteiramente voltada para , nosso diálogo possuía um significado repleto de emoção. Eu não esperava que um estrondo repentino me tirasse da conversa, e o empurrão que veio logo em seguida me pegou totalmente desprevenido. Caio da cama, sentindo meus instintos de piloto entrarem em ação enquanto eu tentava minimizar o impacto.
Levanto-me rapidamente, voltando meu olhar para o homem que estava diante de mim. Ele estava furioso; a raiva emanava dele como um furacão e eu o reconheci imediatamente. Mesmo que nosso último encontro tivesse sido anos atrás.
— O que porra você está fazendo aqui? — ele rosna, com a voz repleta de hostilidade.
Olho para , que parecia assustado com a cena, então me controlo, sendo invadido por uma preocupação quase imediata com o garoto.
— Eu... Eu estava conversando com o — respondo, ainda momentaneamente atordoado. Não apenas pela queda, mas também pela súbita aparição dele. — Ele é uma criança incrível.
O homem ri amargamente, com os olhos cheios de desdém.
— Incrível? Você realmente acredita que pode aparecer aqui do nada e ser um herói, não é?
Levanto as mãos, em um gesto de calma. Não queria fazer uma cena na frente de , que agora nos olhava curioso com o desenrolar do impacto.
— Eu não estou tentando ser um herói. Eu só estava conversando com ele.
Ele me interrompe de forma abrupta, aumentando o volume de sua voz:
— Você não tem o direito de estar aqui, de se intrometer na vida dele.
Não percebo quando a enfermeira liga para Lara, mas a vejo entrar com a expressão doce de sempre. A mulher se coloca entre nós, provavelmente percebendo a mistura de emoções que fervilhavam de um para o outro. O olhar do garoto não sai da minha cabeça, nem mesmo quando me afastam dele, me colocando em alguma sala fechada e vazia, com a presença de Kyle.
— Kyle, pelo amor de Deus, não faça uma cena. Eu precisei fazer algo enquanto você não chegava. O menino estava tendo uma crise e eu pedi pela ajuda de alguém que podia ajudar.
— Ajuda. Não esse filho da puta.
— Filho da puta?! — repito, rindo com ironia. — O que porra eu te fiz, caralho? — Não controlo mais o timbre de voz, já não estava mais na frente do garotinho de minutos atrás.
— Ele não precisa de você, . — As palavras me cortam, afiadas como uma faca, e sequer entendo o motivo daquilo. — Ninguém aqui precisa ou gosta de você. Pegue suas coisas, seus troféus de merda, suas vitórias insignificantes e vá embora. Você é mestre em fazer isso.
— não parece compartilhar a mesma opinião que você.
— Você vai ficar bem longe dele.
Ele se aproxima de mim, o rosto vermelho; sua raiva parecia aumentar a cada segundo. Com um último olhar para Lara, ele balança a cabeça e sai. Penso em ir atrás, penso em voltar para o quarto de , mas Lara me segura pelas mãos.
— Você vai me dar alguma resposta do que merda tá acontecendo aqui?
Ela me olha conflitante, como se ao mesmo tempo que quisesse me responder, não soubesse se deveria dizer algo. Seu silêncio, no entanto, é o suficiente para que eu me vire e saia.
Apesar da raiva que sentia e da ânsia por respostas, volto a procurar , mas não o encontro. Ele não estava mais no quarto, mas estava em cada pedaço de minha mente. Uma sensação de ansiedade percorre minha espinha quando não encontro a criança e, de forma impulsiva, decido percorrer os corredores do hospital em busca do garoto que tinha me atingido tão fortemente no coração.
Por mais que eu o procure, não consigo achá-lo. Uma sensação de frustração me atinge quando chego à cafeteria do hospital, peço um café na tentativa de afastar os pensamentos tumultuados que me assombram e, quando recebo o meu pedido, mexo a colher na xícara, vagando com o olhar pela sala, até que algo me faz parar.
Lá estava ela, parada a distância. Meu coração salta em meu peito, como se eu estivesse acelerando na pista de corrida. Ela estava ali, diante dos meus olhos, e o choque nos rostos de ambos era evidente.
Antes que eu consiga processar completamente a cena diante de mim, um copo de café quente escorrega das mãos dela e cai no chão como um estrondo. O líquido quente se espalha pelo chão, formando uma pequena poça. De forma instintiva, dou um passo à frente como se quisesse correr até ela e garantir que estava bem. Nossos olhares se encontram e o tempo parece congelar. Estavam repletos de choque, como se todo o mundo ao nosso redor tivesse desaparecido. Minha mente estava turva com memórias do passado. O tempo parecia ter perdido seu poder sobre nós e eu vejo que, apesar dos anos que se passaram, a beleza dela continua tão impactante quanto antes.
Naquele momento, eu soube que as feridas que eu pensava estarem curadas estavam ainda abertas, pulsando de uma forma que eu não podia mais ignorar.
Consigo ver em câmera lenta o momento em que minha vida muda por completo.
Continua.
Nota da autora: Entre para o nosso grupo no WhatsApp! É lá que o coração da história bate primeiro.
Se você ama estar por dentro de tudo, não pode ficar de fora! No grupo, eu compartilho novidades em primeira mão, atualizações exclusivas, avisos importantes e, claro, mimos especiais que só quem está lá recebe.
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