Independente do Cosmos🪐
Fanfic Finalizada
— Parem. — A voz de Cartes cortou o ginásio como um chicote certeiro e destemido. — Outra queda dessas e alguém vai sair daqui em uma maca.
Revirei os olhos. Sempre tão exagerado que me dava até tédio.
— Ninguém se machucou, — intervi. — Ela escorregou, só isso.
Ele continuava parado no tablado, braços cruzados, com aquela cara de quem odiava estar ali, ou a todos nós. Ou talvez só odiasse a mim mesmo. Apostaria muito na última opção.
Era bastante recíproco, para ser sincera.
— Ela caiu de lado no chão, — ele falou devagar, como se estivesse explicando a coisa mais óbvia do mundo para uma criança inocente. — Você quer que eu espere uma fratura para tomar uma decisão? — Eu conseguia sentir a ironia escorrendo por sua voz, assim como a retórica.
Babaca.
O jeito como ele dizia “” me dava nos nervos e me tirava do sério. Isso porque era em um tom seco, sempre me lembrando que eu não passava de uma aluna ali. Uma atleta. Uma dor de cabeça que ele não pediu, mas que era obrigado a engolir.
Saí do centro de formação, ignorando o suor que escorria por minha têmpora e o calor que grudava o top no meu corpo.
— A gente precisa tentar o salto na altura completa — expliquei, irritada. — Se você continuar cortando tudo no meio, nunca vamos conseguir fazer o número inteiro até o campeonato!
desceu com calma do tablado, como se não tivesse pressa, mas eu já conhecia aquele jeito. Aquela fachada perfeita não me enganava, não me impedia de ver o fogo em seus olhos. Ele estava a um milímetro de explodir.
Ótimo. Que explodisse logo. Eu também estava no limite.
— Você acha que sabe o que precisa, mas não vê o todo. Sua base está instável, as pirâmides estão mal encaixadas. Vocês estão tentando correr antes de aprender a andar — disse, como se fosse a coisa mais reconhecível há quilômetros de distância e apenas eu continuava tentando forçar para dar certo.
Cruzei os braços.
Ele tinha mesmo que ser irritantemente bonito mesmo suado, com aquele tom grave que fazia tudo soar como verdade absoluta? Isso só tornava tudo mais insuportável.
— E você acha que só porque fez parte de um pódio olímpico em 2012, mais de dez anos atrás, sabe tudo sobre cheerleading agora? — questionei, em um claro tom desafiador, arqueando uma das sobrancelhas. — Isso aqui não é solo; A gente é um corpo só.
Ele me encarou com os olhos estreitos, o maxilar travado.
Não sei o que foi, mas naquele instante eu tive a ligeira sensação de que ele queria dizer algo muito pior.
— Um corpo só? — repetiu, debochado. — Isso vindo da garota que revirou os olhos hoje cedo quando uma flyers hesitou no salto?
Dei um passo para mais perto. Eu não ia recuar. Nunca recuei dele e não começaria agora.
— Porque ela hesitou pela quarta vez! — explicar aquilo era ridículo, porém necessário, aparentemente. — Você quer que eu confie em gente que não segura a base, mas você mesmo não confia nem em mim para montar a merda de uma coreografia! — cuspi aquilo com toda a irritação que eu vinha nutrindo por esse cara desde que tinha sido designado como nosso novo treinador.
O olhar de queimava no meu, e por um segundo, todo o barulho do ginásio pareceu sumir. Era sempre assim com ele. A gente podia estar cercado de vinte, cem pessoas… e mesmo assim era só eu e ele.
— Você não é treinadora, — E então, com cinco palavras, ele teve o poder de destruir todo o meu argumento. — Você lidera, mas não decide. Entenda de uma vez por todas a diferença.
Soltei uma risada curta, mas sem humor.
— Só quando você não confundir liderança com controle, — Minha língua afiada tomou as rédeas. — Você adora mandar, mas não sabe lidar com gente que te questiona, não é?
O ar entre nós esquentou. Literalmente.
Ele estava perto demais, e meu corpo notou isso antes mesmo da minha mente.
— Eu lido muito bem com gente que me questiona — ele rebateu. — Só não perto tempo com uma criança mimada que acha que sabe tudo só porque aparece em panfleto de calouro. — Sua respiração estava pesada, como se a irritação que sentia escorregasse das suas mãos como grãos de areia.
— E então por que ainda está aqui? — cuspi a pergunta, sem pensar. — Se somos tão abaixo do seu padrão olímpico, por que ainda perde noites e finais de semana tentando consertar tudo do seu jeitinho? — A ironia escapava por minha voz aveludada, porém venenosa, e eu abria os braços de leve, gesticulando para dar ênfase em todo o ginásio e as garotas que se alongavam e provavelmente fingiam não estar me vendo bater boca com o treinador.
Os olhos de vacilaram. Pouco, mas eu vi. Um sinal. Uma brecha.
— Porque vocês precisam de alguém que segure a porra das pontas anrtes que alguém se machuque. — Ele falou mais baixo agora, quase áspero. — E porque toda vez que eu penso em largar isso, você aparece me lembrando que eu não posso.
Pisquei.
Meu estômago virou.
Não era o que eu esperava. Não daquele jeito, pelo menos.
— Eu? — perguntei, tentando manter o sarcasmo. — Achei que você me odiasse.
— Eu odeio. — ele respondeu na lata, sem hesitar. — Principalmente quando você me olha assim.
Prendi o ar, meu estômago gelou.
— Assim como? — Meu tom caiu duas oitavas, e eu já não entendia para onde tinha ido minha determinação.
— Como se estivesse pronta para me destruir.
A tensão que eu tanto achava que existia, realmente explodiu ali. Não com um grito, mas em um silêncio denso, daqueles que arranham a pele e deixam marcas invisíveis a olho nu.
E a pior parte? Eu realmente estava pronta para destruir ele. Se ao menos eu soubesse o que exatamente isso queria dizer.
— Talvez eu esteja. — falei, com a voz mais baixa do que pretendia.
Ele desviou o olhar. Recuou um passo. A armadura subindo de novo.
— Voltem aos pares. — disse, de costas pra mim. — Sem pirâmides hoje. Façam os giros no plano inferior. Se eu ver mais uma queda, cancelo o treino da semana inteira.
Fiquei parada por um segundo, tentando recuperar o ar.
Mas não era cansaço físico. Era ele.
Sempre ele.
Voltei pro grupo com o corpo ainda quente, os músculos vibrando, o orgulho machucado… e algo mais. Algo que eu não sabia dar nome.
E ele?
Ele saiu do ginásio sem olhar pra trás.
Mas eu sabia.
Sabia que ele sentiu tanto quanto eu.
E que isso era só o começo.
Fiquei rolando na cama, ouvindo a respiração pesada da minha colega de quarto, a luz azul do celular queimando os olhos cada vez que eu tentava distrair a cabeça com qualquer coisa que não fosse ele.
.
O treinador mais irritante, autoritário, egocêntrico…
E o único que fazia meu corpo reagir como se eu tivesse tomado um choque só de olhar nos olhos dele.
Acordei com a mesma tensão nos ombros de ontem. Talvez pior. Passei mais rímel que o normal só pra tentar parecer menos esgotada — vaidade ou armadura, eu nem sabia mais a diferença.
Quando entrei no ginásio, ele já estava lá.
Claro que estava.
De costas, camiseta cinza colada nas costas largas, o cronômetro pendurado no pescoço. O boné preto jogado de lado. Eu odiava aquele boné. Queria arrancar da cabeça dele só pra ver o cabelo bagunçado que ele escondia.
Ninguém falava muito. Era como se o treino de ontem ainda estivesse ecoando nas paredes.
— . — ele me chamou sem virar o rosto. Só com a voz.
Suspirei fundo antes de responder.
— .
— Hoje você treina comigo.
— Desculpa… o quê?
Agora sim ele virou. E, claro, estava com aquele maldito sorrisinho de canto de boca que dizia: vou acabar com você em cinco etapas bem pensadas.
— Você quer ensinar coreografia? Provar que entende melhor que eu? Beleza. Me mostra. No chão. Agora.
Alguns colegas prenderam o riso. Eu mordi a parte de dentro da bochecha pra não xingar. Ele sabia me provocar. E eu, burra que era, deixava.
— Tá com medo que eu te derrube? — perguntei enquanto caminhava pro centro da quadra, mantendo o queixo erguido.
— Se você conseguir me derrubar, … — Ele deu um passo até ficar perto demais. — …talvez eu finalmente pare de pegar no seu pé.
Aí estava. Aquela tensão. Densa, elétrica. A mesma de ontem.
Engoli seco, mas mantive o olhar firme.
— Então espero que esteja pronto pra cair.
Ele estendeu a mão.
Demorei meio segundo a mais pra pegar. O toque da pele dele contra a minha fez meu coração pular, idiota que só. Era só uma pegada de treino, mas meu corpo reagiu como se fosse muito mais.
— Gira comigo. Base na esquerda, impulso do quadril. — ele disse perto demais da minha orelha. A voz baixa, profissional… e com um peso de segundo sentido que ele não precisava nem tentar esconder.
Executei o giro, sentindo os músculos dele tensionarem pra segurar meu impulso. As mãos dele desceram pelas minhas costelas, me reposicionando com firmeza, e aí sim: toque número dois.
Toque necessário, eu sei.
Mas senti mesmo assim.
Como se ele tivesse arrastado fogo pela minha pele.
— Mais leve. Você sobrecarrega o apoio e desestabiliza o giro. — ele murmurou. A mão ainda estava ali. Na minha cintura.
— E você adora achar erro onde não tem. — rebati, tentando ignorar o arrepio que subiu pelas minhas costas.
Ele chegou mais perto. O nariz quase encostando no meu rosto.
— Eu enxergo o que os outros não têm coragem de dizer. Inclusive que você se sabota toda vez que está prestes a ir longe.
O baque das palavras veio mais forte do que eu esperava. Me peguei parada, com os olhos presos nos dele, querendo gritar, empurrar, bater…
Ou puxar pela gola da camiseta e acabar logo com essa merda.
Mas não. Eu não ia ceder.
Não ainda.
— E você acha que entende tudo de mim só porque me vê no treino? — perguntei com a voz baixa, mas firme. — Você não sabe nem metade do que carrego.
Ele não respondeu. Só me segurou pelos ombros de novo e me girou. Um passo. Dois. Parada. De novo. Era treino, era técnica…
Mas era toque.
Era ele.
Na última repetição, tropecei de leve no pé dele e nossos corpos colidiram. Ele me segurou antes que eu caísse, os braços me envolvendo num reflexo automático. Mas ele não soltou rápido.
— Tá tudo bem? — ele perguntou, com a boca muito perto da minha.
— Sim. — sussurrei, sentindo a respiração dele bater nos meus lábios.
Quente. Intensa. Intolerável.
A mão dele ainda estava nas minhas costas. A minha, no peito dele.
O coração dele estava rápido. E o meu também.
— Você devia me soltar. — falei, mas não me mexi.
— Você devia parar de me provocar. — ele respondeu, com os olhos nos meus.
Ficamos assim por alguns segundos. Uma eternidade.
Eu quis.
Ele também.
Mas ninguém se moveu.
Até que ele afastou o corpo. Devagar. Lento demais pra alguém que queria mesmo se afastar.
— Volta pro grupo, . A gente já treinou o suficiente por hoje.
Só consegui assentir. Meus pés pareciam de chumbo.
Voltei pras outras meninas com as pernas trêmulas e a cabeça girando. Era só um treino. Só técnica. Só provocação.
Mas a gente estava dançando numa linha tênue demais.
E o próximo passo…
O próximo toque…
O próximo erro…
Seria fatal.
— ! — Aquela voz irritante gritou, me fazendo revirar os olhos pela enésima vez. — A perna esquerda! — repetiu. — Você tá caindo com o peso pro lado errado!
— Eu tô segurando a base! O problema é a altura dos meninos, não a minha perna! — rebati, sem paciência.
O olhar que ele me lançou por cima do apito pendurado no pescoço era de puro gelo. Mas eu já sabia o que vinha.
— Todo mundo no chão. Agora. — rosnou, entre dentes. — Vamos repetir.
As meninas bufaram, os caras reviraram os olhos. A maioria achava que ele pegava no meu pé só pra provar um ponto.
E talvez estivessem certos.
Eu sentia. A cada treino, cada correção, cada provocação. Ele me instigava como se estivesse procurando uma brecha. E eu… bem, eu nunca dava.
Porque se eu desse, ele ganhava.
E eu não podia deixar ganhar. Nunca.
— Tá nervosa hoje, capitã? — ele veio até mim, voz baixa só pra mim, mesmo com todos ali.
Revirar meus olhos foi uma consequência do asco que eu sentia por aquele cara prepotente e ridículo.
— Tô cansada de ouvir você reclamar. — murmurei, sentindo o calor subir pro meu rosto.
— Então faz certo. — Ele me olhou com desdém. — E eu não preciso repetir nada.
Aquele sorrisinho cínico, o maxilar tenso, os olhos me atravessando como se soubessem exatamente onde apertar. Se ele estivesse mais perto, eu juro que empurrava. Ou beijava. O que viesse primeiro.
Mas a gente ainda tinha público.
— Repete o salto com a como base. — Mandou para um dos meus colegas de treino. — Quero ver se ela finalmente aprendeu a distribuir o peso como uma líder, e não como uma bailarina mimada.
A frase bateu como um tapa.
E o pior: sabia que ele fazia de propósito. Sabia que eu ia reagir.
— Pode deixar, treinador, vou te mostrar como uma “bailarina mimada” segura mais peso do que muito cara que já passou por aqui. — cuspi, firme, indo direto pra posição.
O sorriso cínico ainda estava em seu rosto, agora com uma camada ainda maior de desafio. Ele pegou aquele maldito apito e o colocou sobre os lábios rosados, o soprando em seguida.
Repetimos. Várias vezes. E eu suei. Forcei. Aguentei o peso. Fiz tudo com perfeição só pra não dar a ele um segundo de razão.
Quando finalmente acabou, eu quase desabei no banco. As meninas saíram rindo, comentando entre si. Alguns caras ainda lançavam olhares curiosos, tipo: “vocês vão acabar se pegando ou se matando?”
Talvez os dois.
Fiquei mais um pouco, fingindo alongar, até o ginásio esvaziar. Eu sabia que ele ainda estava ali. Sentia. O calor da presença. O peso do olhar.
E, claro, ele veio.
— Sabe que não precisava ser assim, né? — perguntou, como se fosse eu a culpada por começar com aquela birra.
— Assim como? — Virei o rosto pra ele, encontrando aquele maldito par de olhos azuis, sempre intensos demais.
— A gente batendo de frente o tempo todo. — explicou, dando de ombros. — Você tentando me provar alguma coisa. Eu tentando te quebrar pra ver se cai.
— E por que você faz isso? Por que quer me quebrar? — Cruzei os braços e arqueei uma das sobrancelhas, pensando que dessa vez eu pudesse tirar dele muito mais do que um par de palavras grotescas e sem sentido.
Ele ficou em silêncio. Longo o bastante pra me deixar inquieta.
— Porque você me tira do controle. — ele disse, por fim.
Meu corpo gelou por fora. Ferveu por dentro.
Eu não sabia o que responder. Porque, por um segundo, eu quis dizer você também.
Mas em vez disso, deixei o silêncio se prolongar. Caminhei até a beira do tatame, peguei minha mochila. Ele me seguiu.
— O treino de amanhã vai ser mais pesado. — avisou, como se estivesse me fazendo um grande favor. Ou me dando a chance de desistir desse pesadelo. — Se quiser continuar sendo minha capitã, vai ter que aguentar.
Me virei. Fiquei frente a frente com ele, tão perto que podia contar os fios de barba malfeita no queixo dele.
— Eu aguento tudo o que você jogar em cima de mim, . Só não espere que eu obedeça calada.
Os olhos dele desceram até minha boca. Um segundo a mais ali, e eu juro, a gente teria cruzado uma linha.
Mas ele afastou. Engoliu seco. Deu um passo pra trás.
— Vai embora, . Antes que eu te prove que você não aguenta nem metade do que diz.
E foi embora antes de mim.
Me deixando ali, sozinha, com o peito acelerado e a mente em chamas.
A guerra não tinha terminado.
Mas alguma coisa… tinha mudado.
Mas eu não conseguia ir embora.
As luzes já tinham sido apagadas na arquibancada, e só os refletores sobre o piso de treino seguiam acesos, banhando o tablado em um branco quase etéreo. Parecia sagrado. Um altar onde eu insistia em me provar mais uma vez.
Meus pés deslizavam de novo pela linha imaginária da rotina que eu mesma montei. Um giro, dois. As mãos no chão, o corpo erguido, e a aterrissagem que ainda tremia quando eu não respirava direito.
— Droga. — murmurei, voltando à posição inicial, os joelhos pedindo arrego.
Mas eu não tinha tempo pra falhar. Nem permissão pra isso.
Desci a ponta do top com uma das mãos, sentindo o suor deslizar entre meus seios, a respiração já irregular. O elástico do short colava na minha pele como se estivesse me punindo por não ser perfeita de novo.
Me preparei para mais uma tentativa. E só quando meu corpo se lançou no ar mais uma vez foi que senti: o olhar dele.
Pousei em pé, meio trôpega, os pés escorregando um centímetro à frente do que deviam. Virei em um estalo, com os cabelos colando no pescoço.
estava ali. Encostado na porta do vestiário masculino, braços cruzados e o olhar mais sério do que deveria ser legal.
— Quer morrer ou só romper a coluna em definitivo? — ele perguntou, sem se mexer.
Revirei os olhos. Claro que ele apareceria justo agora, com a expressão de quem guarda uma crítica afiada atrás dos dentes.
— Você ainda tá aqui por quê? Não tem casa? — rebati, o tom mais áspero do que eu pretendia.
Ele caminhou até mim devagar. As botas fazendo o chão ranger, o som das passadas ecoando como uma ameaça mansa.
— Eu voltei pra buscar meu cronômetro. — respondeu, apontando com o queixo para onde o objeto estava. — Mas parece que achei outra coisa cronometrando errado.
— O quê? Meu tempo de voo? — perguntei rápido, já entrando na defensiva.
— Não. — Ele rolou os olhos, como se soubesse exatamente que eu já estava me armando para uma troca de farpas. — Seu tempo de descanso. Você está estourando o limite, .
Dei um passo pra trás. O que eu mais odiava nele não era a autoridade. Era o fato de que ele enxergava através dela. Ele via as brechas. Os esforços exagerados. As inseguranças escondidas em cada salto que eu insistia em refazer até a perfeição.
— Não vim aqui pra ouvir sermão. — sussurrei, abaixando o olhar por um segundo, antes de voltar a encará-lo com força. — Eu tô tentando acertar.
— Eu sei. — ele disse baixo.
E foi aí que tudo mudou.
Não no tom da voz, nem nas palavras. Mas no jeito como ele me olhou. Como se tivesse deixado de me ver como problema e começado a me ver como pessoa.
Uma pessoa exausta. Uma pessoa quebrando aos poucos.
— Você quer tentar de novo? — ele perguntou, agora mais perto. Tão perto que eu senti o cheiro da camiseta dele: algodão limpo e algo amadeirado que me deu raiva de tão bom.
Assenti, engolindo seco. Voltei à posição. As mãos na cintura, os pés alinhados. Mas antes que eu desse o primeiro passo, ele se moveu atrás de mim. Suave.
— Levanta o queixo. — disse, os dedos tocando minha mandíbula como se não quisessem ser notados. — O eixo tá desalinhado. Vem de dentro.
Me arrepiei inteira.
— E aí… segura aqui. — Ele pegou minha mão e posicionou ao longo da lateral do meu abdômen. — Respira aqui. Diagonal, não torce o tronco.
Eu nem sabia mais se era meu corpo ou o dele que eu tava sentindo. Os músculos do meu braço roçavam os dele. Meu quadril quase encostava no dele quando ele me virou um pouco, me guiando como se fôssemos parte de uma mesma dança. E o pior?
Eu deixei.
Deixei ele me ajustar, me corrigir, me tocar como se fosse natural. Como se a tensão dos últimos dias tivesse se dissolvido naquela música muda que era só o nosso silêncio carregado.
Quando finalizei o movimento, aterrissando com mais precisão do que antes, fechei os olhos por um segundo. E quando abri, ele ainda estava ali. Ainda perto.
— Viu? — ele disse, rouco. — Você só precisava confiar em alguém além de você mesma.
Eu queria odiar ele. Queria jogar na cara dele que ele não sabia o que era ser cobrada desde os 14 anos pra ser perfeita. Mas no fundo, algo em mim reconhecia que talvez ele soubesse sim. Que talvez, o peso que ele carregava fosse diferente… mas igualmente insuportável.
E então ele me olhou. Não como treinador. Não como o idiota que vivia apontando meu ego inflado.
Mas como homem.
Um homem prestes a fazer algo errado. Ou inevitável.
— …
A forma como meu nome soou na voz dele fez algo dentro de mim vacilar.
— Eu devia ir embora. — falei baixo, mas sem me mover.
Ele assentiu. Mas também não saiu do lugar.
O segundo que se seguiu foi um sussurro de eletricidade entre nossos corpos. A mão dele deslizou até a minha cintura, devagar. Como se me desse tempo pra recuar. Eu não recuei.
— Isso é uma má ideia. — murmurei, quase sem ar.
— As melhores normalmente são. — ele devolveu, e então seus lábios encontraram os meus.
Não foi urgente, nem bruto. Foi preciso. Como se ele estivesse me mapeando devagar, da forma que estudava meus movimentos, só que agora… com a boca.
O beijo começou contido, mas durou o suficiente pra que nada mais parecesse errado. Só inevitável.
Quando nos afastamos, a respiração dos dois estava descompassada.
— Agora sim, você pode ir embora. — ele sussurrou, com um meio sorriso nos lábios ainda molhados.
E eu fui.
Mas não sem antes saber, com cada parte do meu corpo, que alguma linha tinha acabado de ser quebrada.
E que eu não ia conseguir voltar atrás.
Mas não adiantava.
Eu ainda sentia a boca dele na minha.
Meus dedos escorregaram lentamente pela beirada metálica do armário enquanto eu tentava respirar fundo, manter o foco. Passei a madrugada inteira com o gosto de grudado em mim. Como se aquilo tivesse deixado alguma marca — algo mais profundo do que um toque, mais persistente do que um beijo roubado entre a respiração de dois inimigos.
A verdade era que ele não se afastou.
E eu também não quis fugir.
Mas agora… havia o hoje.
E hoje ele não olhou pra mim.
No ginásio, o treino começou pontualmente às sete. entrou sem desviar o olhar para o canto onde eu aquecia sozinha. Nem uma palavra. Nenhum comando direto. Passou instruções para o time com uma frieza clínica, o tipo que ele só usava quando estava tentando esconder alguma coisa. Uma parte de mim odiava aquilo. A outra… só queria entender o que, exatamente, a gente tinha quebrado.
A cada movimento, eu me pegava procurando a sombra dele. O jeito que os olhos dele sempre ficavam um segundo a mais nas minhas linhas. Mas nada. Nem um olhar. Nem uma bronca.
Silêncio.
E esse silêncio era ensurdecedor.
“Vira mais o quadril, .”
A voz dele veio seca, impessoal, como se ele estivesse falando com qualquer cheerleader do time. Meu corpo obedeceu, automático, mas meu peito queimou com o jeito como meu nome soou.
Sem calor. Sem toque. Sem nada da intensidade da noite anterior.
Depois do treino, fingi amarrar o tênis só pra ser a última a sair. Esperei alguma palavra. Um gesto. Um resquício do que tinha acontecido entre nós, mas saiu antes de mim. Sem uma troca de olhares. Sem sequer hesitar.
Foi como se o beijo nunca tivesse acontecido.
Mas eu sabia.
Eu sentia.
A tensão ainda pairava no ar, como eletricidade acumulada no ginásio vazio. Como se bastasse um fio se cruzar… e tudo explodiria de novo.
Mas ele tinha escolhido o silêncio. E agora, eu estava sozinha com isso.
Sozinha com o gosto dele ainda grudado na minha boca.
Sozinha com a dúvida de quem éramos agora — ou se tínhamos acabado antes mesmo de começar.
No terceiro dia de silêncio, comecei a achar que eu tinha inventado tudo.
Que tinha sonhado com o beijo, com os dedos dele afundando na minha cintura como se fosse difícil soltar. Com a respiração quente dele escapando entre nossos lábios, o olhar queimando como uma promessa silenciosa.
Mas eu não tinha sonhado.
Eu me lembrava de tudo com detalhes irritantes: o cheiro de suor misturado ao dele, o rangido abafado do tênis dele no piso, a forma como a respiração dele ficou presa quando nossos narizes se roçaram por acidente antes de tudo acontecer.
Nada naquilo foi um erro.
E, ainda assim, ele estava fazendo parecer que sim.
não me olhou uma vez durante o treino. Não corrigiu minha postura. Não provocou. Não gritou.
A ausência dele doía mais do que qualquer bronca já doeu.
Até que, depois do treino, quando eu estava quase convencida a deixar pra lá, ele apareceu.
A porta do vestiário bateu contra a parede com um baque seco e ele entrou.
Eu ainda estava de costas, amarrando o cabelo num coque frouxo, mas soube imediatamente que era ele. Senti no corpo inteiro.
O jeito como o ar pareceu mudar, ficar mais denso.
— A gente precisa conversar. — A voz dele veio firme, baixa. Um tom diferente do usual.
Virei devagar. Meu reflexo ainda estava embaçado no espelho, mas eu não precisava ver direito pra saber que os olhos dele estavam escuros.
Ele se encostou na parede do fundo, braços cruzados, mandíbula travada.
— Ah, então agora você fala? — retruquei, cruzando os braços também. O peito subindo num ritmo mais rápido do que o normal. — Depois de me ignorar por três dias como se eu fosse só mais uma no time?
Ele passou a mão pelos cabelos, os dedos deslizando com tensão. Não disse nada por um segundo. Um segundo longo demais.
— Eu não te ignorei.
— Você não me olhou.
— Porque se eu olhasse… — Ele parou. Engoliu em seco. E me encarou, finalmente. — Se eu te olhasse, ia fazer isso de novo.
O silêncio entre nós se esticou. A sala inteira pareceu encolher.
— E qual é o problema de fazer de novo?
Ele deu um passo à frente. Depois outro.
O coração martelava dentro do meu peito, cada batida mais alta que a anterior.
Não recuei. Nem pisquei.
— O problema é que se eu encostar em você agora, , eu não vou conseguir parar.
O ar ficou preso na minha garganta.
Não havia mais nada entre nós, a não ser três passos.
— E quem disse que eu quero que você pare?
Ele me puxou de uma vez, a mão firme na minha cintura, como da primeira vez. Mas agora não tinha dúvida. Não tinha medo. Meus dedos escorregaram pela camisa dele, agarrando o tecido como se eu também tivesse esperado por isso tempo demais. O beijo veio urgente. Molhado. Quente. Cheio de tudo que a gente não disse. A boca dele contra a minha como um aviso. Um pedido. Uma promessa.
Dessa vez, não era segredo.
Dessa vez, a gente sabia o que estava fazendo.
E o que queríamos fazer de novo.
O beijo foi só o começo.
Um estalo que quebrou o silêncio dos dias e incendiou tudo que a gente vinha tentando sufocar.
me empurrou com delicadeza até encostar na parede fria do vestiário, o contraste fazendo minha pele arrepiar sob o tecido fino da regata. Ele passou a mão por baixo da barra, os dedos quentes roçando minha barriga, subindo devagar, testando cada reação minha como se memorizasse o caminho com precisão.
Eu arqueei o corpo contra ele, a respiração descompassada, sentindo minha calcinha já úmida só pelo toque.
— Tem certeza…? — ele sussurrou contra minha boca, a voz rouca, rasgada, a testa encostando na minha.
Eu só consegui puxá-lo mais pra perto.
— Se você parar agora, eu te mato.
O riso dele foi baixo, breve, e logo se dissolveu na minha pele quando ele deslizou os lábios pelo meu pescoço, chupando ali até deixar uma marca. Uma lembrança. Uma afirmação.
Meus dedos se enroscaram nos cabelos dele com força, puxando com urgência, com fome.
Ele se ajoelhou na minha frente, os olhos fixos nos meus com um brilho escuro que me arrepiou inteira.
— Abre as pernas. — A voz dele era baixa, segura, como se soubesse exatamente o que estava fazendo comigo.
Minhas pernas se abriram por instinto, impulsionadas por um desejo que já queimava em mim fazia tempo. Ele puxou minha bermuda e minha calcinha com precisão, e o ar frio bateu contra minha pele molhada, fazendo meu clitóris latejar.
Eu devia estar envergonhada. Mas tudo o que conseguia sentir era antecipação.
me olhou como se tivesse encontrado o paraíso entre minhas coxas. Ele passou o nariz bem ali, inalando o cheiro da minha excitação, como se aquilo fosse combustível pra ele.
E então a língua dele tocou meu centro.
Firme. Lenta.
Soltei um gemido alto, o quadril se projetando pra frente sem controle. Ele me segurou com força pelas coxas, me impedindo de fugir.
— Fica aqui, — ele murmurou, a voz vibrando contra minha pele.
A língua dele deslizou entre meus lábios, quente, molhada, explorando cada centímetro. Ele me lambia com calma no começo, como se provasse cada parte de mim. Depois focou no meu clitóris — primeiro com leves toques circulares, depois com mais pressão, mais intenção.
Quando ele começou a sugar aquele ponto com força, eu perdi o ar.
— … porra… — minha cabeça bateu na parede, os olhos se revirando. — Não para…
Ele gemia contra mim, e as vibrações me faziam estremecer.
Os dedos dele se juntaram à brincadeira — deslizaram para dentro de mim devagar, dois de uma vez, curvando-se no ponto exato que me fez arquear inteira. Ele me devorava como se aquilo fosse tudo o que ele queria. Como se estivesse viciado em mim.
Minhas pernas tremiam.
Minhas mãos foram para os cabelos dele, puxando com força, tentando me manter de pé enquanto o prazer me invadia por completo. Cada chupada no meu clitóris me fazia perder um pouco mais da sanidade.
— Isso… aí… porra… — eu choramingava, implorando sem vergonha. — , eu vou…
O orgasmo veio quente, intenso, pulsando por todo meu corpo, fazendo minhas pernas cederem. Ele me segurou firme, continuando com a língua mesmo enquanto eu me contorcia, prolongando tudo até eu não aguentar mais. Quando finalmente ele se afastou, a boca ainda brilhando com meu gosto, o olhar dele era selvagem.
— Você tem o melhor gosto que eu já provei — ele disse, com a voz baixa e rouca.
Eu mal conseguia respirar. Me sentia derretida.
Consumida.
E, ainda assim, desesperadamente pronta pra mais.
Eu ainda arfava quando ele se levantou. Meu corpo tremia, cada músculo amolecido pela explosão que ele tinha arrancado de mim com a boca. Mas os olhos de diziam que aquilo estava só começando.
Ele tirou a camiseta com um puxão impaciente, revelando os músculos definidos, o abdômen coberto por uma leve camada de suor. O olhar dele cravado em mim, como se me desafiasse a recuar — mas não havia a menor chance. Eu o queria. Tanto que doía.
— Vira — ele disse, rouco. — De costas, agora.
A forma como ele falava me fazia obedecer sem pensar. Me virei e me apoiei na parede do vestiário, os braços trêmulos, a respiração irregular. Senti quando ele se aproximou, o calor do corpo dele quase encostando no meu.
— Você não faz ideia do que provoca em mim, .
A ponta do pau dele roçou na minha entrada, molhada, sensível, e eu arfei alto. Estava completamente pronta pra ele. Ele sabia disso. E mesmo assim, passou a glande provocativamente contra minha pele, espalhando minha excitação, fazendo meu corpo implorar.
— … — supliquei, sem pudor.
— Fala — ele rosnou contra meu ouvido, uma das mãos agarrando minha cintura com força. — Você me quer?
— Quero. Porra, eu quero muito.
Ele me penetrou de uma vez só.
Um gemido escapou dos meus lábios, rouco, entregue. Ele era grosso, fundo, e me preenchia completamente, esticando minhas paredes até o limite. A sensação era de perder o ar e ser invadida por inteiro. Cada investida dele arrancava um grito abafado da minha garganta. Minhas unhas escorregavam na parede úmida, sem onde me segurar direito. Eu estava à mercê dele — e amando cada segundo.
Ele me fodia com força. Ritmo firme, constante.
A mão dele desceu para o meu clitóris, esfregando em círculos enquanto me penetrava por trás. O prazer me engolia de novo, tão rápido quanto da primeira vez.
— Você gosta de ser fodida assim, hein? — ele sussurrou, os dentes arranhando meu ombro. — Gosta de me sentir até o fundo.
— Gosto... caralho, ... — minha voz falhou num gemido alto.
Meu corpo inteiro se contraiu ao redor dele, tremendo, suado, pulsando de prazer.
Ele continuou se movendo dentro de mim até que os gemidos dele ficaram mais intensos, os movimentos mais erráticos, e então ele gozou — fundo, quente, enterrado em mim até o limite.
Ficamos assim, colados, ofegantes. Os dois tremendo, suados, marcados.
Ainda com ele dentro de mim, senti os braços dele me envolverem pela cintura, o corpo grande encostado no meu. E mesmo sem palavras, havia algo naquele silêncio que queimava mais do que qualquer frase.
Eu tinha acabado de transar com o .
No vestiário do time.
Horas depois do treino.
E o pior — ou melhor? — é que tudo dentro de mim gritava que não era a última vez.

