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━Autora Independente do Cosmos.
Atualizada em: janeiro/26.

“É um tempo bom como qualquer outro para deduzir
O fato de que nem você, nem eu nunca tivemos a menor ideia
﹝...﹞
E se adivinharmos quem estou fingindo ser
Ganhamos um prêmio?
Tendo tentado duas vezes, ambas incorretamente
Temos uma terceira tentativa?”

Mr Schwartz


nunca imaginou que sua vida pudesse mudar tanto em menos de doze meses.
Todas as coisas horríveis, desconfortáveis, maquiavélicas e injustas que tinha passado do outro lado do mundo se encaixavam em uma equação temível, onde o resultado parecia muito claro: se aqui, onde tudo apontava para a realização de um sonho, foi desse jeito, o que poderia esperar de um país em que não conhecia nada e nem ninguém? Em que precisaria se enturmar e aprender uma língua nova do nada?
Desde o momento em que entrou naquele avião até pousar em terras orientais, não tinha expectativa nenhuma. Por ora, só estava feliz pelas oportunidades de Candice e aliviada por não estar só embaixo do cobertor no antigo apartamento na Califórnia, um apartamento que não conseguiria manter nos próximos dois meses caso não achasse um emprego que não andava tendo a menor energia de procurar.
Seul acabou se tornando uma virada de chave logo no seu primeiro dia. Aquele cara em particular tornou isso uma sentença. Jeon Jungkook. Um nome impactante, importante, indestrutível. A própria persona do rapaz passava toda a confiança e promessas de que , de jeito nenhum, teria alguma chance de escapar dele. Para o bem ou para mal. E isso acabou se revelando como a maior verdade de todas.
Ser odiada não estava nos planos da querendo uma vida nova, um recomeço sem os mesmos problemas de antes. Mas ser amada também não estava. E ela acabou sendo alvo das duas coisas, pela mesma pessoa. Um cabo de guerra que, como sempre, arrebentava para o lado mais fraco.
O ódio se soltou. E o amor floresceu. E estava vendo que se apaixonar era como sentir um vento úmido e gostoso no rosto no topo de uma ampla colina verde, e ao mesmo tempo olhar para baixo e ver que estava na base de um precipício. Ignorou todos os riscos que se relacionar com uma celebridade estrondosa prometiam. Ignorou as próprias advertências de si mesma, que via aquilo acontecer tantas vezes em Hollywood e apenas uma pequena minoria saindo ilesa. Com certeza aquilo não era para ela. Amar não era para quem estava tão machucada, corroída, sem força nenhuma para se arriscar a escorregar precipício abaixo. Cair ia doer muito, ia acabar com ela.
Mas amar tinha sido o maior ato de coragem de em anos. Em décadas. Amar Jungkook foi como derreter a parede de gelo que contornava inteira, foi a virada de chave que ela precisava para deixar passado e futuro de lado e se concentrar no que acontecia no agora. O agora nunca interessava demais — ela nunca pensou que existia algo de realmente importante no seu agora. Mas quanto mais passava tempo com ele, mais ela desejava que o tempo parasse e o agora existisse pra sempre. Jeon Jungkook, um cara que odiava ferrenhamente camisas polo, amava botas de combate, odiava amarelo e bermudas cáqui e tinha pernas gloriosamente bronzeadas, pegou na mão de e a tirou de uma caverna que nem sabia que estava. Fez ela aprender a não julgar, a não desistir, a abrir a porta do seu quarto escuro e deixar verem a bagunça. Porque todo mundo tinha bagunças, afinal. Todo mundo tinha esse mesmo espectro. E ainda era um pouco difícil aceitar isso, mas com ele ficava fácil. Tudo ficava mais fácil. As pessoas de fora amavam o grande astro Jungkook, e as pessoas de dentro continuavam amando Jeon Jungkook.
Jeon Jungkook, o cara que ela amava. Gentil, carinhoso e muito sexy. Gostava mais de mostrar do que de falar. Não fazia promessas que não iria cumprir. Não descansava enquanto ela não abrisse um sorriso. Não parava de buscar ser melhor no seu ofício, e agora na vida. Jeon Jungkook. Garotos como ele não morriam. Eles eram esculpidos em bronze e colocados do lado de fora de bibliotecas públicas, ou emoldurados em museus, maleados em cera. Ele tinha estendido uma mão para , prometendo experimentá-la de um jeito que mudaria seu mundo, e ela aceitou. Cedeu. Se entregou. O gesto foi encorajamento puro, mesmo que todos os sinais estivessem ali, gritando. Mesmo que o tráfego aéreo da desgraça iria chegar, uma hora ou outra. Mesmo que ele continuasse dizendo que ela estaria segura, que nada de ruim aconteceria.
Mas agora ela estava ali, vendo aquilo. E, de repente, a realidade estava explodindo.
— Ela precisava ver isso, meu bem. — disse a modelo loura e escultural, a voz ecoando pela sala enorme da mansão de Itaewon. Seu timbre era cheia do sotaque melodioso das fortunas da França, uma voz de quem tem autoridade sobre a verdade que quisesse. — Quem sabe assim, ela não acaba logo com isso.
continuava olhando para ele, continuava mantendo as memórias no lugar, continuava ecoando a imagem do cara bom e apaixonado várias vezes na mente, mas o que seus olhos viam, surgia de um pesadelo que ela nem sabia que era capaz de ter. Os olhos dele eram estáticos, escuros, frios se não fosse pelo brilho de aborrecimento nas íris.
Olhos que ela nunca viu, nem mesmo quando ele a odiava.
— Vai embora, . — ele soltou com o olhar firme, mais firme do que antes, mais firme do que tudo. — Não me faça pedir duas vezes.
— Isso é muito desnecessário. — Ali riu pelo nariz e se aproximou dos ombros rígidos dele, apoiando uma mão num gesto íntimo e até um pouco exclusivo. Exclusivo para uma namorada. Exclusivo para ela. — Que tal assim? Se você não sair agora, eu vou chamar a polícia. Seria bem ruim fazer você voltar pra lá de novo, não é? Depois de tudo que você fez. Invasão de propriedade tem uma pena ainda maior.
não olhou pra loira em momento nenhum. Ouvia o discurso, mas queria ver o que ele falaria. Se falaria. Queria ver se sua boca iria abrir pra cortar aquele assunto, se seus ombros iriam se mexer para afastá-la, se até mesmo seus olhos iriam para a loira e mostrariam algo. Ela queria ver algo nele, qualquer coisa, qualquer coisa mesmo! Ela estava demonstrando algo, mesmo que fosse as lágrimas ridículas que não paravam de cair desde que ele apareceu na porta de seu prédio há três dias.
Três dias de um inferno mental intenso que pisaram nela mais do que os últimos quatro anos, mais do que sua infância inteira.
Mas ele não mostrou nada. Não se mexeu por um centímetro sequer. Não abriu a boca. Apenas mexeu um pouco dos olhos, apertando-os levemente, apressando-a. Vai embora, caramba. Não tá ouvindo direito? Não vou impedir que ela chame a polícia.
Não vou impedir que toda aquela merda se repita.
Mais uma explosão da realidade, direto no coração. Três balas no peito que foram fincadas rápidas ali, que se alojariam por muito tempo, ainda que só fosse se dar conta depois, quando estivesse quebrando e quebrando. E então, à medida que ela enxugava as lágrimas e respirava com dificuldade enquanto seu cérebro entendia o que estava acontecendo, ela deu as costas e saiu.
Naquela noite negra, mais negra do que todas as outras, não havia lua, estrelas, música, luzes o suficiente que não pararam de respirar por um segundo para observar a garota correndo pela calçada, lutando para manter o movimento das pernas e não se estilhaçar, não quebrar por completo, mesmo que não se importasse mais.
Não importava mais.
nunca imaginou que sua vida pudesse mudar tanto, sim. E nem imaginava o quanto estava prestes a mudar ainda mais.


“E eu nunca imaginei, nem em um milhão de anos
Que eu conheceria tantos amantes
E todos os meus maiores arrependimentos mais musculosos explodem detrás dos meus olhos como
Esportes americanos.”

American Sports


GROENLÂNDIA
DIAS ATUAIS

O azul incontrolável do céu da Baía de Disko irradiava em cada pedaço de braço, perna e cílios expostos dos passageiros do Cessna 172.
tinha conseguido prender o cabelo antes que o vento a 40 quilômetros por hora o arrancasse desde o couro cabeludo, porque ali, no extremo oeste da Groenlândia, a realidade era essa: perigosa, imprevisível, mesmo com a vista majestosa.
Will tinha tentado sugerir que ela fizesse um coque, ou que escondesse aquela montanha de cabelos em uma touca, ou até que ela cortasse logo aquilo tudo antes que arrastasse pelo chão, mas não o deu ouvidos. Principalmente porque a parte do cortar não era sério. Ele amava o cabelo dela.
— Na verdade, eu amo as tranças que você me deixa fazer, isso sim.
— Eu não sou sua boneca, Will.
— Eu sei. Você me diz isso todo dia, friamente, mas eu vou continuar me relacionando com o seu cabelo, sim, obrigado.
Will amava mesmo o cabelo de , e dizia isso nos momentos mais aleatórios, até mesmo pegando um cardápio laminado de um bar de beira de estrada em Moçambique. No início, dava um sorrisinho meigo de agradecimento, e seu rosto até queimava às vezes quando ele dizia tal coisa muito perto, mas depois de ter cedido às provocações em algum hotel 2 estrelas na beira de uma estrada na Turquia, a curiosidade desapareceu, restando apenas a boa amizade.
Uma amizade cheia de altos e baixos, discussões e certas situações que faziam Will Allen ter certeza de que passaria o resto da viagem pedindo mesa para um. Situações como aquela em que se encontrava agora, inflando os pulmões para berrar:
— Você tá MALUCA, PORRA? — a voz dele foi surrupiada pelo vento forte no exato instante em que a porta do hidroavião se abriu, quase fazendo sua língua enrolar de volta para a boca. já tinha se livrado do headset aeronáutico, determinada a não ouvir nada. — Você quer me foder, ? TÁ QUERENDO ME FODER? A JILL VAI TE MATAR!
— O quê? — gritou do outro lado, já no limiar da porta aberta, uma perna apoiando o corpo inteiro, impedindo-a de despencar no vazio do oceano. A gritaria em volta não era apenas de Will, mas do piloto, e do homem gorducho encolhido em uma poltrona, com o meio das pernas já úmido pelo medo apavorante de morrer. — Eu não tô te ouvindo!
— Fecha essa porra que vou fazer questão de você me ouvir, sua infeliz! Volta pra cá agora,
— Quê? Cacarejar? — ela franziu o cenho, mas logo abriu um sorriso, provocando. Viu o rosto de Will ficar vermelho, o vento forte dividindo seu cabelo loiro e liso em dois. Ele costumava girar os calcanhares e sair de perto dela quando a via sendo inconsequente por aí, mas agora, ali, a 200 pés de altura no meio do oceano Atlântico, ficava meio difícil. — Fica quietinho aí e me deixa trabalhar, William.
!
— Ela está vindo! Olha lá! — apontou com a mão livre para baixo, para a água tremulante e extremamente azul. Na outra, estava segurando sua Sony Alpha, com a lente telefoto tão grande que parecia o bico de um pelicano, pesada e profissional, mas que funcionava na mão dela como uma faca funciona na mão de um cozinheiro. Ela firmou os pés com mais força e gritou, girando a lente: — Bob! Desce mais aí!
— Não, Bob! Não desce! — Will interviu.
— BOB, DESCE MAIS!
— Você quer matar a gente, porra?
— Talvez não seja uma boa ideia, senhorita . — Bob, o piloto careca com um singelo sotaque arrastado, gritou sem dificuldade de seu lugar.
— Bob, qual é! Eu tô com pressa! Ela já vai chegar! — grunhiu, apressada. Ela empinou o queixo para o lado, virando a cabeça para semicerrar os olhos, que já estavam irritados pelo vento forte e a maresia salgada, que entravam pelos seus pulmões comprimidos pelo bote salva-vidas grudado no corpo. Era mais do que o suficiente. — Desce logo essa merda!
, porra!
pensou em rebater, mas então ela viu. A ondulação na água ficando mais rápida, mais forte, trepidando o ecossistema geral. Sem perder tempo, já posicionou a câmera, firmando mais a perna.
— Ali! Ela tá ali! É ela, não é, doutor? — gritou sem olhar para o homem pálido e horrorizado atrás dela, abraçado contra o banco verde.
— P-por favor, s-senhorita, n-não faça…
— Eu sei que é ela, pode dizer. Aquela garça saiu correndo, as anêmonas sumiram, é ela, doutor, pode falar que sim!
— Jesus Cristo… — o homem soltou o ar. Suor quente descia em cascata pela lateral da sua bochecha, empapando as axilas e outras partes, enquanto seu corpo não parava de tremer. — Eu p-preciso d-d-dsscer…
, que merda, olha o que você tá fazendo com o velhote! Ele é a nossa matéria de capa, porra! — Will continuou, sabendo disfarçar melhor seus tremores do que o homem de terno marrom.
— A nossa capa vem vindo aí, seu idiota! Ela vai-
De repente, um “zuuuuuuuuuuum” intenso e agourento rasgou o próprio vento forte quando a carcaça cinzenta começou a emergir da água turva, quebrando o silêncio da própria atmosfera marítima.
O coração de disparou no peito.
— BOB, AGORA! ANDA LOGO, DESCE!
— Bob, não!
— ANDA LOGO!
O berro dela foi incisivo, daquele jeito que só em seu momento mais entretido no trabalho conseguia ser, sendo capaz de fazer uma turma de presidentes da república abaixarem a cabeça para obedecê-la. Bob, já ciente de tudo isso, xingou entre os dentes e virou o manche para inclinar significativamente o avião, arrancando um grito estarrecido de Will, um desmaio no convidado e uma risada gostosa de .
Ela afastou o tronco para trás a tempo de ver o tão aguardado momento: a estrutura carnosa da baleia-azul se expondo ao sol forte, cravejada de cracas, lodo, plantas, esqueletos de peixes e milhares de outras coisas que estavam sendo registradas em cliques infinitos da câmera poderosa da melhor fotojornalista da National Geographic.
A baleia subiu, subiu e subiu até estar em contato com o oxigênio, crescendo majestosamente até que o avião não passasse de uma lata de lixo ao lado do Empire State. Tamanha grandeza assustava o mais singelo dos homens dentro da aeronave, mas tudo aquilo arrebatava para outra atmosfera. À medida que a baleia subia, sua câmera tirava mais fotos, qualquer mísero movimento era catalogado, qualquer derramamento de água sobre sua pele grossa era indiscutivelmente lindo. Ela sabia que seria lindo desde que foi designada para a matéria, desde que participou da primeira reunião com o grande doutor oceanógrafo Bryan Cameron, desde que ouviu da boca torta dele que “uma aparição da baleia-azul na costa oeste da Baía é sempre um evento raro e pouco registrado. Esses animais aparecem duas vezes por ano e depois somem como se nunca tivessem estado ali. Com as mudanças climáticas, talvez nenhuma apareça, então não vamos ter esperanças…
Mas tinha esperanças. É claro que tinha. Jill a tinha colocado naquela matéria especialmente porque ela sempre tinha esperanças, e porque sabia que faria de tudo por aquele registro. Que ela não tinha medo de nada, nem mesmo quando sua vida estava em risco.
Era um traço que Jill sempre tinha achado muito, muito curioso.
— Um pouco mais, Bob! — gritou ela, com o olho grudado na lente.
— Tá maluca, porra? Quer se enfiar na boca dela? — as palavras de Will tropeçaram para fora, quase sem completar, e dessa vez não por causa do vento, mas porque ele estava com medo. Afinal, seu trabalho era sempre atrás de um computador, o completo oposto de .
— Ela vai dar o salto. Não vai, doutor? Foi isso que você disse ontem na revisão!
O homem não respondeu. Seus olhos estavam caídos, como se tivesse desmaiado e voltado umas cinco vezes nos últimos cinco minutos.
— Doutor? — virou a cabeça de perfil. Will soltou um urro.
— Chega, merda! Sua dissimulada! Você tá fazendo o cara passar mal! Bob, sobe com essa merda, esse bicho vai atacar a gente!”
— Não sem antes ela pular, Will!
— Que termo mais idiota! Não é assim que se fala, porra!
— Tanto faz, a gente vai esperar! Ela já vai-
— Por favor…. Por favor…
olhou para o homem encolhido de novo. Não entrava na sua cabeça como um estudioso dos oceanos ficava daquele jeito diante de tanta beleza, ainda mais quando estava relativamente bem seguro nos seus cintos de segurança extra fortes.
, qual é! Você já tirou as fotos, agora a gente vai embora. — Will tentou, a voz mais branda, os olhos grudados no bicho que não parava de crescer à medida que avançava. continuou olhando para ela, esperando, torcendo. Mandando energias positivas por telepatia, dizendo que a peça rara da natureza podia confiar nela. — -
— AGORA!
A água começou a borbulhar. Pequenos montinhos de espuma se condensaram até serem rasgados pelo corpo volumoso do maior animal que já habitou no planeta Terra. A baleia-azul, linda e camuflada com o mar, emergiu para cima, exposta ao oxigênio, a carcaça úmida brilhando no sol, maior do que um navio cargueiro, maior do que tudo que já viu de perto.
Os outros não tiveram forças nem para gritar. Mas gritou, abismada, a câmera tirando fotos sozinha, seu dedo trabalhando enquanto tentava admirar e trabalhar ao mesmo tempo. Gotículas de água salgada voaram sobre ela e na parte de dentro do avião, pequenos peixes foram jogados para o lado no momento em que a baleia deu seu salto, ficando uma eternidade de milissegundos pairando no ar até seu corpo bater na água com força, espalhando tudo aos quatro ventos, afundando com a cauda enorme logo depois.
Por um instante, a perna que apoiava fraquejou, e ela pensou mesmo que poderia cair, mas foi por pouco. O coração estava batendo na garganta, a cabeça tinha ficado em um silencioso ruidoso, e talvez ela tivesse sentido tanto medo quanto os outros por um tempo, mas isso era insignificante diante daquele ato que tinha se tornado tão bom e tão ruim ao mesmo tempo:
Sentir.
Todo o seu corpo estava formigando por sentir. Os órgãos tinham se movimentado de um lado para o outro quando Bob desceu a aeronave e subiu de novo. Quando a baleia passou tão perto de seus olhos que interrompeu toda a luz no rosto dela. O sangue nas veias correu rápido demais, percorrendo todos os hemisférios de seu organismo daquele jeito envolvente que ela já estava carente há um bom tempo.
E sentia falta de experimentar isso. Tanta falta que buscava a sensação sem pudor, sem misericórdia de si mesma, mesmo sabendo qual tinha sido a fonte dessa necessidade.
Todo esse torpor foi cortado bruscamente quando Will irrompeu do próprio medo e a empurrou para o lado, puxando a porta corrediça do avião com os braços que estavam acostumados a puxar 90kg no supino e afundou o turboélice em um silêncio parado e vazio, graças ao corte do vento. Bob nem precisou de comandos; em um instante, estava girando o manche e saindo o mais rápido possível do meio do nada em mar aberto.
balançou a cabeça, piscando os olhos já vermelhos pela maresia, o cabelo revoltado por toda parte, a câmera aninhada no peito como se fosse um filhote assim que caiu sentada na parte de trás da aeronave.
As narinas de Will estavam dilatadas. As veias na sua testa saltando para fora. Provavelmente, daquela vez ele iria levar mais um tempo pra conseguir perdoar . Principalmente pelo fato de ela tê-lo feito se sentir tão… medroso. Insignificante.
Mesmo assim, ela engoliu em seco, jogando uma mecha arrepiada para longe do olho e abrindo um sorriso elegante.
— E então, quem vai querer café?



Billboard, 14 de julho


DO GRUPO AO UNIVERSO: JUNGKOOK QUEBRA RECORDES E REAFIRMA SEU TRONO GLOBAL!


The Rolling Stone, 20 de julho


HISTÓRIA FEITA! JUNGKOOK ARREBATA RECORDE ATRÁS DE RECORDE E IMPRIME SEU NOME NA MÚSICA


The Hollywood Reporter, 5 de agosto


ALÉM DAS EXPECTATIVAS: JUNGKOOK SUPERA TODOS OS LIMITES E DEFINE O FUTURO DO POP


The New York Times, 12 de agosto


“JUNGKOOK: O VOO SOLO RUMO AO OLIMPO GLOBAL DO POP!”

De um dos maiores nomes do BTS a um fenômeno sem precedentes em carreira solo, o "Golden Maknae" não apenas brilha, mas ilumina um novo caminho para a música mundial, quebrando recordes e arrebatando corações.

Jungkook nunca foi apenas "o maknae" (membro mais novo) do BTS. Com um talento multifacetado que o apelidou de "Golden Maknae", ele sempre prometeu ir além. Agora, em sua explosiva carreira solo, ele não apenas cumpriu a promessa, como a superou de forma espetacular, redefinindo o que significa ser uma superestrela global.
Desde seu primeiro single solo, Looping, Jungkook tem dominado o cenário musical de uma forma que poucos artistas conseguem. Seus lançamentos não são apenas músicas; são eventos globais que paralisam a internet, esgotam estoques e viram febre nas redes sociais.
"É simplesmente insano o que ele está fazendo," comenta Jon Pareles, renomado crítico musical de Nova York. "A transição de um grupo tão gigantesco para o sucesso solo é um desafio monumental, e Jungkook não só o superou, como elevou o nível. Ele tem a voz, a presença de palco e uma capacidade inata de se conectar, que são raras de se ver em um só artista."


Forbes, 22 de agosto


“O FUTURO DO POP: NAS MÃOS DO "GOLDEN MAKNAE"

Com a carreira solo de Jungkook em ascensão meteórica, o futuro do pop parece mais vibrante do que nunca. Sua capacidade de mesclar gêneros, entregar performances vocais impecáveis e manter uma conexão autêntica com seus fãs o posiciona não apenas como uma estrela atual, mas como um ícone duradouro.
"Jungkook está mostrando que a era solo pode ser tão impactante, ou até mais, que a era de grupo," observa a doutora Emily Chen, especialista em cultura pop e tendências musicais. "Ele representa uma nova geração de artistas que transcende fronteiras geográficas e culturais, impulsionada pelo talento e pela paixão de uma base de fãs globalmente conectada. Ele não está apenas batendo recordes; ele está escrevendo o próximo capítulo da história da música pop."
Com o mundo a seus pés e o céu como limite, Jungkook prova que seu voo solo é apenas o começo de uma jornada lendária.




CALIFÓRNIA
DIAS ATUAIS

Jungkook odiava o carro que tinham alugado.
Dava para ver que era uma coisa que não foi usada tempo suficiente por seres humanos quando jovem só de olhar para a lataria fosca estilizada com uma faixa verde enorme que devia ser popular nos anos 1979, mas agora tinha virado uma coisa desagradável, tanto para olhar quanto para estar, já que o banco não chegava para trás o suficiente para caber suas pernas longas.
No entanto, foi muito fácil esquecer do carro desde que ele baixou a capota e arrancou na Highway 1, sentindo o vento marítimo se avolumar sobre ele e a avenida lisa, tão forte que seria capaz de arrancar seu cabelo se ele não estivesse tão curto. Várias vezes, pensou que os óculos escuros fossem sair voando, mas nem assim ele diminuiria ou voltaria para pegá-los. Desde que tinha saído às pressas do hotel Chateau Marmont naquela manhã, tudo que menos queria era olhar para trás.
Mas, infelizmente, ele ainda tinha telefone. E tinha esquecido de esquecê-lo.
— Você tá interrompendo na melhor música do álbum. — ele grunhiu para o celular acoplado ao som do carro, que não era dos melhores, mas apreciar The Walters não dependia de excelência tecnológica.
A voz do outro lado soou como um bicho que já tentou mordê-lo várias vezes:
Jeon. Jungkook. — o bufo saiu quente e alto, mais alto que o vento. — O que você pensa que tá fazendo agora, cacete?
— Manobrando na Highway. Já bebeu suco de abacaxi dentro de um abacaxi?
Você tem uma entrevista em trinta minutos.
— Eu sei.
E um show hoje à noite. E duas apresentações amanhã. Uma delas no programa do Stephen Colbert…
— Jamais me esqueceria do Stephen, Jungjae.
E tem a prova de figurino para as fotos da People Magazine às quatro. E não se esqueça de Londres na semana que vem! Então vou repetir: o que você pensa que está fazendo que não seja estar no hotel pra esperar a porra dos maquiadores? Eles custam uma fortuna.
Jungkook não respondeu. O carro era uma verdadeira merda. Estava resistindo aos seus esforços de fazê-lo chegar ao limite de velocidade, andando no seu próprio ritmo e pouco se fodendo para o dele. Além disso, aquele vidro temperado era embaçado demais para deixá-lo apreciar a paisagem da Califórnia no fim do verão, um lugar que o dava vontade de nadar, beber champanhe, fumar um baseado e finalmente aprender a surfar.
Também o dava vontade de cantar. Desenhar. Andar na praia e observar tartarugas migrando para o mar.
Você tá pensando naquilo, não está? — a voz de Jungjae rasgou os pensamentos do maknae. — Aquilo que você leu hoje de manhã. Sobre o que você disse ontem…
— Eu não disse nada ontem.
Se tivesse dito nada, viraria notícia de qualquer jeito, mas você escolheu a pior hora pra ser sincero demais.
— Eu sempre sou sincero demais.
Na frente das câmeras, você é até capaz de dizer que ama roxo.
— É uma cor ridícula pra um carro. Uma cor ridícula pra tudo, na verdade.
Ai, moleque. — Jungjae estalou a língua. — Não precisa sair correndo quando diz algo que se arrependeu. Se falarem sobre isso de novo, é só trocar por outro assunto e pronto, vida que segue, você fez isso a vida toda!
Jungkook riu com sarcasmo, com perplexidade, com uma vontade insana de xingar seu agente brilhante e, de quebra, acelerar aquela lata velha até que ela se desmembrasse e fosse picotada em várias partes.
Mesmo naquele momento, quando não estava perto de nenhuma câmera, nenhum veículo da mídia ou de pessoas que ele precisava impressionar, como todo o circo de Hollywood que amava vigiar cada um de seus passos, Jungkook ainda não conseguia dizer o que realmente estava pensando. Muito menos o que estava sentindo.
Uma das exigências de Jungjae, de sua agência e dele próprio quando decidiu embarcar na carreira solo há mais de um ano era de que ele fosse discreto. Não que fosse tão difícil; ele era um membro do BTS, com suas diversões e puladas de cerca ocasionais sempre acobertadas sob muito dinheiro e influência, mas daquela vez, com o seu nome em jogo, ele estava fazendo questão de não chamar atenção — o que andava sendo brutalmente impossível, visto que ele era Jeon Jungkook, o astro mundialmente cobiçado, mencionado, extremamente observado e o objeto de desejo de pilhas de nações inteiras que se convergiam em várias partes do mundo para vê-lo nem que fosse por um outdoor de campanha.
Mas ele estava conseguindo. No último ano, em uma rotina intensa de estúdios e viagens, todo mundo estava ciente de cada detalhe da vida profissional dele. Só isso.
Até a noite passada.
Se pudesse, ele apagaria as últimas dez horas da sua vida, a começar pela escolha da roupa. Ela era encouraçada e apertada demais, mesmo que os comentários da internet tenham ovacionado o designer e a grife pela escolha do Golden Maknae como novo modelo. Disseram que a roupa tinha nascido para ele e vice-versa, e até daria para concordar com isso se Jungkook não tivesse descoberto do pior jeito que o tecido era uma porcaria.
Que tipo de grife chega nesse patamar permitindo que uma manchinha de ponche ficasse tão grudada?
Foi assim que ele adentrou no tapete vermelho do American Music Awards, debaixo dos flashes incansáveis, gritos e cochichos da imprensa em peso e aquela mancha lamentável e possivelmente incriminadora na barra da jaqueta de couro vintage. Jungjae o obrigou a colocar alguma distância entre ele e os jornalistas, e Jungkook sabia que não era apenas pela mancha vagabunda na roupa caríssima.
Era porque não tinha sido apenas um copo de ponche. E não tinha sido uma mancha feita por terceiros. Ele estava bem perto do status de bêbado, que já era, por si só, um traço bastante cotidiano, e continuaria tirando de letra a dinâmica das interações sociais se não tivesse decidido virar aquela garrafa dentro da van em movimento.
Mas ele conseguiu. Posou para as fotos, recebeu os olhares de adoração que andava topando em cada esquina, carregou zelosamente sua postura e seu sorriso contra as máquinas fotográficas da elite, mantendo seus indicadores de vendas e seu topo no pódio das trends totalmente intacto.
Mas ele tinha que parar para uma entrevista. É claro que tinha. Por questões contratuais, ele deveria responder a algumas perguntas da emissora oficial do evento, perguntas previamente selecionadas e aprovadas por Jungjae.
E as primeiras delas realmente foram as mais genéricas possíveis. Como foi seu processo criativo, o que você pretende no ano que vem, da onde surgiu a inspiração para a coreografia, e trabalho trabalho trabalho… questões que ele já estava acostumado a responder, tendo mil e uma versões da mesma frase na ponta da língua, delineando um sorriso simpático que andava dando por aí de vez em quando.
Mas a imprensa de Hollywood era implacável. Do tipo que fazia de tudo para agarrar uma oportunidade de causar alvoroço na sociedade.
— Obrigada pelas respostas, Jungkook. Só tem uma coisa que bastante gente tá querendo saber, e aquela música da sua live? — a mulher de vestido dourado e maquiagem pesada perguntou com um sorriso brilhante, estendendo um microfone com a logo da CBS.
Jungkook franziu o cenho ligeiramente.
— Música da live?
— Eu tô um pouco atrasada, mas você fez uma há dois anos que estourou o recorde do Weverse, e teve uma música romântica que você cantou e nunca lançou, nem quando começou a gravar seu álbum. Todo mundo ainda tá maluco por ela, e pelo motivo do porque…
Ele parou de escutá-la por um momento. Aquele zumbido no ouvido veio e foi muito rápido, um que levou tempo para parar de ouvir, mas depois de algumas doses de álcool, ele sempre dava um jeito de voltar.
Jungkook quase não conseguiu disfarçar a careta, mas um sorriso bem ensaiado melhorava tudo.
— Ah! É! Aquela música não é trabalho oficial. Ela nem estava em produção, então a equipe achou melhor a gente focar no novo álbum e testar vários gêneros. May Everything Catch Fire veio com essa pegada indie, colocou o ritmo lá em cima…
— Mas isso tem muito tempo. Ela ainda pode ser lançada?
Ele engoliu um suspiro.
— Essa é uma pergunta bem difícil nesse meio. Alguns rascunhos precisam esperar, é a lei do mercado.
— Ah, sim, sim! Mas não sei se você tá antenado no TikTok, mas essa música foi separada em áudio e anda viralizando por aí, e todo mundo tá curioso pra saber se ela foi composta pra alguém em especial, ou sei lá… — a mulher levantou os ombros, deixando a frase no ar com um sorriso de malícia. Jungkook ouviu o zumbido de novo. Se pudesse, sairia dali sem olhar para trás.
Ele devia ter percebido sua intenção assim que ela mencionou a live ao invés do jogo de luzes surpreendentes que foram ligadas no seu último show no estádio MetLife. A tecnologia de ponta foi mencionada até no The Post, mesmo que fosse apenas para que os economistas fizessem cálculos em cima de cálculos do patrimônio do maknae. Jungkook teve certeza que estava bêbado de verdade naquele evento para não ter percebido mais rápido.
Dezenas de artistas naquele mesmo local estavam recebendo o mesmo teor de perguntas, alguma coisa que misturasse trabalho com sua vida pessoal, jornalistas famintos em achar uma agulha no palheiro, e honestamente, a vida pessoal dele não era realmente um problema. Jungkook não se importava muito em contar de sua família, do seu cachorro, dos seus amigos, dizer o que comeu no café da manhã, o significado de suas tatuagens novas e antigas, pelo menos as que podiam ser vistas (Polyc sempre vibrava de alegria lá de Seul), suas músicas favoritas e sua mania estranha de gostar de assistir luzes de galáxia piscando por sua parede, porque afinal, era só aquilo que era a sua vida. Normal, simples, e o mais tediosa possível.
Pelo menos andava sendo assim nos últimos dois anos.
Mas falar sobre aquilo… sobre qualquer coisa que envolvesse aquela época, já fazia todos os alarmes do seu cérebro zunirem. Os alarmes que os remédios até conseguiam manter sob controle, mas ainda eram como agulhas incomodando seu córtex cerebral, chacoalhando sua amígdala, pintando um mapa coerente para as lembranças que o deixavam fodido toda mísera vez.
— É só uma música. — ele manteve a postura, as sobrancelhas no lugar, os pés bem firmes no chão. — Não é uma autobiografia da minha vida. Aliás, nem acho que coisas assim podem acontecer.
— Entendi. Existe um charme considerável em caras com coração de gelo. Sabia que o pessoal adora escrever fanfics sobre você?
Ele riu. Estava saindo engasgado, mas pareceu muito verdadeiro.
— Eu gostaria de não saber.
— Em quase todas elas, você é durão e não se apaixona nunca. A não ser quando é pelo Jimin.
Eles riram mais alto. Jungkook balançou a cabeça.
— Eu definitivamente não gostaria de saber disso.
— Sei, sei. Mas ainda é muito curioso todo o seu trabalho de composição, você e a sua música passam a impressão muito verdadeira de alguém que escreve umas histórias de amor quando não tem ninguém olhando. Será que não existe mesmo nada assim…
— Não. — Jungkook cortou, e seu sorriso deu uma baqueada. Pelo canto do olho, ele buscou Jungjae ou seu segurança, chamando-o para entrar na arena. — Não existe nada assim. O álbum todo foi feito sob medida, com…
— O coração é mesmo de gelo, então?
Ele tentou rir. Estava ficando quente.
— Eu não diria isso…
— Engraçado que tem uma música no álbum chamada Ice in Summer, falando de um garoto terrível que se apaixonou no verão. Bem, é o que dá a entender, mesmo que a letra das outras seja totalmente o contrário…
— Jungkook! — o segurança finalmente chamou, a voz indo acima dos gritos e dos flashes. Ele demorou a perceber, a cabeça lenta.
— Eu vou ter que ir…
— Se me permite insistir numa última pergunta, viram você com a modelo Sydney Preston na semana passada, e a maioria dos comentários concordaram que estavam juntos…
— Obrigado, eu vou nessa. — ele lutou para manter o sorriso, começando a se afastar. A mulher deu um passo à frente.
— A música foi pra ela? Como vai ficar a reputação do coração de gelo?
Ele bufou. As cavidades do peito estavam querendo se encher de raiva quente, e tudo que ele mais queria era largar aquilo tudo, todo aquele evento, e dirigir para o centro da cidade, um lugar povoado por lanchonetes deliciosamente gordurosas e lojas de quinquilharias que o distrairiam enquanto pensava em uma forma de não matar Jungjae e sua inédita incompetência acerca de jornalistas de Hollywood.
Ele achava que todos os lugares do mundo eram como a Coreia? Aqui as pessoas não seguiam regras.
E sua cabeça estava tão lenta, mas tão lenta…
— Jungkook, a gente quer saber! Por que…
— Ele tá ocupado. — Jungkook respondeu por sobre o ombro, sem mais sorrir, sem mais fingir estar minimamente interessado naquela conversa. — O coração tá ocupado. Agora com licença, foi um prazer falar com vocês. — ele acenou para a câmera e as luzes piscantes, dando as costas e seguindo para uma das melhores e mais aguardadas performances da noite da grandiosa premiação musical, na qual seu nome estava exposto em pelo menos quatro categorias.
Ele tá ocupado.
Ele tá ocupado.
Ele tá ocupado.
Meu Deus, como ele foi idiota.
Na hora, ele não pensou que aquilo serviria de alguma coisa. Vários artistas diziam coisas daquele jeito o tempo todo, tentavam desviar assuntos, sendo esquivos e totalmente lúcidos quanto ao impacto que a mídia tinha sobre suas vidas. Jungkook era doze vezes mais esquivo, por motivos profissionais e pessoais, e achou que com um sorrisinho e uma frase daquelas, tudo iria ser levado na esportiva e ele poderia se livrar da entrevista.
Ele até se livrou dela. Mas não se livrou das consequências da internet.
Não demoraram muito a criar matérias, vídeos sensacionalistas e, claro, teorias. Principalmente envolvendo Sydney Preston e, lógico, Ali Dalphin. Sempre Ali Dalphin.
É só você continuar fazendo o que já estava fazendo. As pessoas vão esquecer. — Jungjae continuava no telefone, e Jungkook tinha certeza de que ele estava andando de um lado para o outro. — Os maquiadores já vão chegar. Se você me disser onde está…
— Preciso de uma hora.
O quê?
— Eu volto depois disso. Vou dar uma voltinha.
Uma voltinha? — o agente quase gritou. — Vai dar uma voltinha em Los Angeles? Tá achando que ninguém te reconhece por aqui?
— Ninguém vai me ver entrando por um motel, Jungjae.
Eu sei, acho que você nem sabe mais chegar em um. — Jungkook fez uma careta. Ai. — Não me preocupo com garotas, Jungkook, ainda mais aquelas que não vão ficar. Mas você tem compromisso, tem uma agenda lotada, e eu te garanto que as perguntas vão ser milimetricamente verificadas agora. Vou ameaçar processar e tudo.
Jungkook riu pelo nariz. Se aquele fosse o único problema…
— Eu sei, eu confio em você. Não é à toa que te pago uma fortuna.
Uma fortuna também são os maquiadores que estão chegan-
— Tchau, Jungjae. — e desligou o telefone, aumentando o som exponencialmente.
Ele virou na Bunnie Lane, passando por ruas largas e estreitas, recheadas de casas com varandas abauladas e colunas quadradas reluzindo em cores primárias, por prédio desgastados e charmosos, por casas grandes transformadas em bibliotecas, algumas que o fizeram espiar pela janela do carro enquanto dirigia, pensando em entrar, mas não dava. Ele ainda estava na metade de O Morro dos Ventos Uivantes, e não começaria outro até terminar a saga das irmãs Brontë.
Quando passou pela viela onde moradores locais sentados em cadeiras nas varandas encararam sua carroceria com curiosidade e aborrecimento, ele sabia que estava chegando. Sabia desde que sentiu o vento ficar mais gelado e a luz do sol ser constantemente quebrada pelas árvores enormes ao redor. Ele não sabia exatamente o nome da praia, já que as leituras do GPS não faziam sentido, mas sabia que seria um lugar onde poderia fazer o que estava querendo fazer desde que pousara no aeroporto de Los Angeles:
Ficar sozinho. Respirar sozinho. Pensar sozinho.
Então ele estacionou aquela monstruosidade na loja de conveniência da esquina, que alardeava ter o melhor sanduíche de atum da cidade, e seguiu pela pequena trilha deserta de terra batida até a praia, sendo açoitado pelo vento forte e pelo sol poente, sentindo toda a agitação de pensamentos ruins irem abaixando o volume conforme o som do mar ficava mais alto e mais perto.
Jungkook respirou. Respirou como alguém que não respirava há horas infinitas.
Os únicos habitantes do lugar eram um casal de idosos que liam sentados em uma manta estampada e uma senhora de lábios vermelhos que comia um sanduíche e um milk-shake, ambos ocupados demais com suas vidas para reparar no cara de preto que tirava os tênis e sentava na areia branca, apoiando os cotovelos nos joelhos para simplesmente olhar o mar.
Fazia um tempo que o mar acalmava Jungkook. Um tempo que parecia longo e curto na mesma medida.
Vendo-o ali, em um momento de introspecção e até vulnerabilidade, Jeon Jungkook parecia mais velho. Há tempos que seus ombros estavam sempre rijos, suas sobrancelhas sempre franzidas, sua mente em vários lugares. E também já fazia um tempo em que ele simplesmente se sentia flutuando no ar, perdido, desanimado, sem vontade de levantar da cama. Sentindo um vazio que era difícil de explicar, e isso não é, em hipótese alguma, algo confortável de se constatar.
Mas, bem no fundo, ele sabia o que era. Claro que sabia. Aquele mar explicava tudo, apresentava um argumento que reforçava totalmente sua frase dita naquele tapete vermelho, fazendo todos os olhos do mundo se voltarem para um fato que ele não queria trazer de volta:
Está ocupado. O coração tá ocupado.
O coração estava mesmo ocupado. Abarrotado. Tinha se apossado de todas as coisas externas do organismo e alocado tudo ali, trancando a sete chaves de aço inoxidável, mostrando para ele que, juntando todas as coisas que compunham sua personalidade, a maioria da porção boa tinha sido forjada por ela.
E sem ela, sua única opção era aquela: vazio esporádico, bateria social viciada, que só era recarregada por instantes de silêncio.
Pelo menos, o silêncio agora conseguia ser apenas silêncio. Sem choro, sem emoções conturbadas, sem vontade de desaparecer. Ele era apenas o silêncio.
Há dois anos, tudo na sua vida tinha explodido para fora do silêncio e do sossego. As coisas nunca tinham sido tão barulhentas quanto naquela época. A luz de seus olhos foi diminuindo à medida que as semanas passavam, e naquele ano, naquela noite, sofreu o primeiro golpe. Tudo estava fadado ao fracasso.
Ele estava fadado ao fracasso.
Raríssimas vezes, ele pensava naqueles dias. Não melhorava em nada, só piorava. Mas em alguns momentos dava para lidar. Até rendia alguma coisa. Tipo naquele momento, quando ele puxou seu novo bloco de notas, um sketchbook de capa preta entulhado com rascunhos de músicas, fotos e anotações dos livros que lia, e começou a rabiscar. Um desenho, uma composição, tanto faz. Ele só precisava se mexer.
Como não se mexeu naquela época.

くくく


SEUL
DOIS ANOS ANTES

parecia ter um carregamento de fogos para o Quatro de Julho pesando nos ombros, e não a mão de Jungkook.
À medida que os segundos passavam, essa mesma mão começou a escorregar e escorregar, até abaixar ao lado do corpo dele, mole e sem reação, combinando com o estado de seu corpo inteiro. Diante daqueles olhos verdes furiosos que os fuzilavam, só conseguia se sentir congelada e patética.
Ali Dalphin deu passos rápidos e furiosos para perto dela, marcando o gramado de forma violenta, olhando ameaçadoramente como um animal selvagem. testou mentalmente os níveis de perigo daquela aproximação e eles apitaram com todas as forças, mas mesmo assim, ainda nem chegou perto de se mexer. Não conseguiu mover um músculo sequer da mandíbula, das pernas, todos os ligamentos seriamente danificados pelo choque.
— Sua puta desgraçada... — ela viu a boca pintada de gloss brilhante proferir, e as palavras foram se formando lentas na cabeça de , mas não foi isso que a fez acordar para a vida. Foi o toque dele, que tinha voltado, finalmente. O toque que raspou em sua pele quando ele deu um passo à frente, tão imenso e decidido quando a garota loira, e ergueu o braço para formar uma faixa de jaqueta preta na frente de , fazendo Ali parar de imediato.
— O que você tá fazendo aqui? — a voz de Jungkook não era alta, mas também não era baixa. Caso contrário, a música não a deixaria entender nada. Mesmo estando atrás dele, conseguia ouvir a mandíbula trincando, as cordas vocais vibrando de irritação, os claros sinais de que ele estava aborrecido.
Ali olhou para ele, e tinha raiva naqueles olhos, mas bem menos do que se esperava de alguém que estava soltando as palavras puta e desgraçada há meio segundo. acordou de vez com isso.
Ali Dalphin. Ali Dalphin estava ali, parada na sua frente, parada na frente de Jungkook. Estava ali e faltou pouco para não avançar em cima dela de uma forma brutal.
Ali não parecia querer fazer a mesma coisa com o maknae.
— Surpreso em me ver? — disse ela para Jungkook. Ele trincou ainda mais os dentes.
— Responde logo. Quem deixou você entrar?
— E por acaso eu não deveria entrar, seu cretino? — de repente os dois braços dela se elevaram na frente do peito dele, armando um empurrão, que não forneceu o menor efeito no cara. — Eu não deveria vir aqui e ver você e essa... essa... — Ali não conseguiu terminar. Ainda esperava que tudo fosse uma pegadinha, um surto psicótico que apareceu tarde demais por causa de tanta oxicodona nos últimos meses.
abriu e fechou a boca. Ela não conseguia ver o rosto de Jungkook, mas não importava — a maneira como ele não estava saindo de sua frente, queria dizer que o olhar que Ali estava recebendo dele era ainda mais letal do que o que ela lançava para .
— Essa é exatamente o que você tá pensando. Não sei o que você tá fazendo aqui, mas você tem que-
— É exatamente o que eu tô pensando? Exatamente o que eu tô pensando?! — agora ela gritou, e gritou com força, gritou a ponto das pessoas ao redor começarem a reparar. — Você e a ... Porra, você e a ?! Que merda tá acontecendo aqui?! Você pirou de vez, sua vagabunda? Você...
— Ali… — conseguiu falar, mas a próxima frase se perdeu de novo. Os olhos furiosos da modelo quase a derrubavam como um soco. — Ali, eu não…
— Você não o quê? Não pretendia pegar meu namorado? Não pretendia jogar tudo na internet só pra me tirar da jogada?
— Vamos conversar…
— Conversar? Eu vou conversar o quê com você, sua maluca? Conversar sobre como você andou dando pro meu namorado esse tempo todo? E justo com ela, Jungkook! Você perdeu a sua noção, porra? Tem noção do que ela fez, tem noção de quem ela é?! Além da maior piranha do universo… — o corpo dela já estava se jogando na direção de de novo, as veias saltadas como um touro.
— Parou, parou. Você não vai surtar desse jeito aqui e nem agora, porra. — Jungkook gritou mais alto do que ela, e já dava para perceber o descontrole dele dando as caras, um que ele não pretendia mostrar a ela, mas era inevitável. Quem ela pensava que era, porra?
Ali arfou. As pessoas estavam olhando, e não de um jeito que ela queria. Não do jeito que foi na sua chegada resplandecente, uma exibição tácita de seu magnetismo em lábios cheios e cabelos sedosos, mas agora com uma estranheza misturada com horror.
Tudo que passava na sua cabeça, da forma mais gráfica possível, era usar o punho carnudo para desfazer alguma parte daquele rosto assustado de , agora perfeitamente posicionada para o golpe, se não fosse a montanha de músculos em preto na frente dela, olhando para Ali com olhos que, não adiantava quanto tempo se passasse, ela ainda pensaria que não eram os dele. Não de verdade.
O peito dela subia e descia, a música ao redor se tornando um mero sussurro estúpido, a boca ficando aguada pelo amontoado de palavras que queriam ser disparadas em berros.
— Como… como? — seu timbre foi diminuindo contra a sua vontade, à medida que a cena diante dela ia ficando mais real. À medida que aqueles dois não derretiam e sumiam em alguma alucinação maluca da sua cabeça, antes que ela acordasse no quarto de hotel, suada e com uma dor de cabeça dos infernos, puxando um calendário mental de que dia da semana e do mês devia ser.
Jungkook ficou parado, a expressão severa sem alteração, porém a língua ficando ausente de resposta. Seu cérebro ainda estava tentando assimilar a presença de sua ex-namorada na festa da qual ele definitivamente não a incluiu na lista de convidados, mas que também não se deu ao trabalho de avisar aos homens de preto na entrada que uma certa loira estava proibida de entrar. Ninguém, em sã consciência, pensaria que ela voltaria justo naquele dia, justo na data em que Jeon Jungkook estava sendo celebrado por dezenas de pessoas como se fosse um feriado nacional.
Mais uma armadilha imprevisível de Ali que ele tinha caído como um idiota. Mais uma vez em que ele não se preparava o suficiente para nada quando o assunto era ela.
— Eu te perguntei como? Essa merda não faz o menor sentido!
— Você aqui faz menos sentido ainda, Ali. Qual é a sua? Tá querendo o quê?
— O que eu já queria ter feito antes, mas agora, vendo isso, talvez eu tenha chegado atrasada… você definitivamente superou bem rápido. — ela usou um tom de desprezo que combinou com a sua expressão. Se o visse com qualquer outra garota, provavelmente, Ali não se importaria tanto. Pelo contrário, acharia divertido. Sabia de seu lugar bem consolidado no coração dele, sabia que só ela o tinha feito se ajoelhar para pedi-la em namoro na beira do Sena de madrugada depois de engolirem um sanduíche de atum totalmente mediano, mas que parecia extremamente bom depois de um baseado; só ela tinha recebido quantidades obscenas de flores pelo menos uma vez por semana nos últimos três anos; só ela tinha assistido os fogos de artifício à meia-noite com ele do prédio do tribunal em Praga no ano-novo. Ela não se deixaria enganar pelas outras, outras bocas, outros peitos, outras pernas e outros lugares.
Apesar de estar sendo muito difícil não titubear diante daqueles olhos novos dele, que pareciam lançar fogos direto nela, sem se preocupar com a integridade da própria casa.
— Não vou falar disso com você. — ele disse com um grunhido de raiva. Isso piorou o já desequilibrado estado emocional de Alison. Ele não deveria estar feliz? era mesmo a única garota que ele ia comer de agora em diante?
— Claro que não vai, agora que tá no meio da maior festa da cidade, enfiando a língua na garota que te expôs pro mundo inteiro, que deixou eu e você à mercê de um monte de comentário bosta, principalmente eu, que ainda contei pra ela todas as coisas que eu pensava e sentia, que avisei-
— Ali, não é o que você tá pensando! — falou, chegando mais perto e achando a voz. De repente, sentiu uma vontade insana de se defender.
— É exatamente o que eu tô pensando, sua pu-
— Ei, ei! — uma outra voz surgiu das costas de Ali, enganchando dedos e unhas nos braços da modelo até puxá-la para bem longe de e Jungkook, quase fazendo-a tropeçar no gramado e nas pequenas pedras. — Que porra é essa? O que tá aconte-
Candice parou quando viu a cara da loira que havia puxado. Agora mais do que a metade parcial da festa estava olhando, um pouco boquiabertos, um pouco confusos, mas definitivamente com a atenção inteira ali. A melhor amiga de só conseguiu espiar o rosto de Ali Dalphin, espiar o rosto de e se lembrar da cena de segundos atrás, onde aquela maníaca estava a centímetros de tocar em .
Ela nem hesitou em dizer:
— O que a Vadia Secrets tá fazendo aqui?
Ali soltou o ar com força. A parte da pele onde Candice tinha agarrado estava dolorida, e a coisa toda estava ganhando mais plateia. Pouco a pouco, rostos conhecidos estavam se ajuntando, como Yoongi arfando atrás de Candice, Namjoon largando seu cigarro e apertando os olhos para enxergar melhor, Jeong Jaehyun paralisando no batente da porta de vidro, franzindo aquele rosto estúpido e Hoseok correndo com os olhos arregalados para se misturar com todos.
Olhares de choque, de perplexidade, olhares que não iriam dizer que ela era a coisa mais bela da cidade. Tudo que ela não queria, tudo que repudiava.
Mas aquele dia já tinha ido para o ralo a partir do momento em que viu Jungkook e . Aquele garoto tinha, definitivamente, mexido em algo que não deveria ter mexido.
— Se tocar em mim de novo, vai se arrepender, Chaperman.
Candice ficou menos surpresa do que deveria por ela saber seu nome.
— Ah, eu jamais me arrependeria disso. Mas pela política da boa vizinhança, acho que é melhor você juntar esse Versace cafona e cair fora daqui porque dar uma de penetra é o cúmulo do fim de carreira, você não acha? Já tá entregando os pontos desse jeito?
Alguns burburinhos ficaram mais altos. A raiva queimou em cada nervo de Ali.
— Acha que eu sou uma criancinha que você vai aterrorizar?
— Você poderia ser a senhora primeira-dama que eu falaria no mesmo tom e bem claro: cai fora. Chispa. O bonitão ali não tá afim de falar de novo. — Candice fez um ligeiro movimento para Jungkook, que ainda estava parado ao lado de , ainda tentando não sentir tanta raiva e pensar com clareza.
Ainda estava se esforçando para se agarrar à realidade dos fatos.
Antes que ele pudesse dizer ou fazer alguma coisa, ele viu o corpo de Ali se projetar para frente, direto para Candice, grunhindo um “loira vagaba” em uma sequência muito rápida de acontecimentos. Primeiro ela avançou, depois foi Candice, mas nenhuma das duas se tocaram. O alvoroço começou e terminou em um piscar de olhos, quando todos pareceram acordar e Hoseok pulou para o lado de Ali, puxando-a para trás enquanto Yoongi fazia a mesma coisa com Candice.
— Ali, tá maluca? — Hoseok arfou, e Ali grunhiu porque ele agarrou bem em cima dos dedos da outra desgraçada. — O que você tá fazendo? Você disse-
— Me larga, cacete! — ela se soltou bruscamente. Olhou para uma Candice quase se contorcendo nos braços de Yoongi. — Você se acha muito esperta, não é, Chaperman? Aliás, todos vocês se acham! — ela deu um giro com o corpo, fuzilando Jungkook com o olhar. — Estão muito tranquilos me colocando como vilã, mas a verdade é que vocês se deixaram enganar. Seguiram a porra do roteiro direitinho. Diz aí, sua imbecil, como foi ter a sua festinha de promoção invadida pela imprensa? Fiquei sabendo que nem o chefe dos seguranças conseguiu impedir a bagunça.
Até mesmo Yoongi soltou os braços de Candice, franzindo o cenho prodigiosamente com a informação, sem entender. A reação de Candice foi petrificar o corpo, incapaz de responder ao que não absorveu completamente.
Ela estava dizendo…?
Diante de suas caras confusas, Ali riu. Foi um riso que seria bem bonito se fosse dado em outras circunstâncias. Ali, naquela ocasião, ele só te deixava com vontade de virar o rosto.
— De que merda você tá falando, Ali? — Jungkook se meteu, a raiva fervendo novamente, totalmente direcionada a ela. Estava difícil assimilar tudo de uma forma linear, estava difícil saber o que iria fazer.
Ela olhou para ele e riu ainda mais. Era muito feio e escroto de ver.
— Nossa, como vocês são burros. Super burros, se eu puder usar o plural. Você achou mesmo que todos os seus amiguinhos tinham virado as costas pra mim? Todos eles? — Jungkook gelou por completo quando o olhar dela se voltou para Hoseok, sorridente. — Eu fiquei muito bem informada, não é, Hobi? Inclusive do namoro clandestino da loirinha ali. Espero que tenha gostado dos comentários te chamando de piranha periscópio. Eu curti todos. — Ali riu de novo. Estava morrendo de raiva, mas subitamente, o sentimento era minúsculo comparado ao prazer de ver todas as expressões ao redor se tornando nada mais que retratos de choque perpétuo, principalmente dos amigos de Hoseok, que, um por um, foram virando as cabeças em movimentos mecânicos para ele, contorcendo toda a face em algo difícil de descrever ou explicar.
Estava tão bom que valia a pena continuar.
— E você, seu filho da mãe pomposo, achou mesmo que eu não ia me tocar do que você tava querendo? Achou que eu não ia saber dessa merda nunca? Você é um babaca de merda. — ela apontou para Jaehyun, que estava respirando fundo, perdido, atônito com o fato de aquela mulher não estar fumando seus cigarros Marlboro na casa em estilo vitoriano que se abria para campos imensos da propriedade dos Dalphin naquele exato momento. — E você, Jungkook, espero que tenha gostado da garrafa que eu mandei. Sangria, lembra? Nossa bebida favorita.
Ela se achegou a muitos passos dele, parecendo perdida em um devaneio de coragem abrupta para fazer isso ali, no meio de toda aquela gente, especialmente na frente de . Jungkook mal a viu chegar; sua cabeça estava voltando naquele dia que estava abrindo pacotes atrás de pacotes e até pegar um com a inscrição FRÁGIL, revelando a garrafa de vidro cilíndrica com o líquido vermelho reluzente que nem imaginou que poderia ter vindo dela.
Fazia muito tempo que ele não bebia sangria. Nem sequer sentia vontade. Nem sabia se algum dia já gostou mesmo daquela coisa.
Ele se afastou de Ali, abrindo uma brecha no ombro para que ela olhasse para o lado e visse a outra garota preocupada atrás dele. . Ainda boquiaberta, ainda chocada, e agora com o canto da boca cerrado, o rosto bem longe daquele retrato assustado que viu desde o primeiro dia na Universidade de Seul.
— E você, sua mentirosa? Achou mesmo que eu não me lembraria de você? Achou que eu não te acharia? — ela trincou os dentes, agora chegando perto de , que não se afastou. Sua mente já estava clareando, a realidade se tornando mais sólida. Ali Dalphin estava ali, e por mais que estivesse sendo a maior cuzona do planeta, achava que ela tinha algum direito de espernear. Sabia que ela não tinha passado os últimos seis meses observando carros passarem lentamente pelas grandes janelas de vidro de sua mansão na França, sabia que ela ainda amava o cara do seu lado e tinha continuado sua busca como uma forma de redenção, a qual se mostrou inútil, mas não diria isso. Ela não estava com vontade de dizer nada, também porque Ali não ouviria nada.
Mas aquele sorriso que ela lhe lançou foi diferente das outras vezes. Diferente do feio e tenebroso que apresentou a todos; o sorriso para foi quase dócil, inocente.
Por um segundo, um milésimo de segundo cortante e delirante, Jungkook sabia exatamente o que Ali diria a seguir:
— Como anda o seu projetinho mixuruca com o Edgar? A coisa das câmeras, o lance das luzes, as passadas de mão que ele com certeza deve dar em você…
— O quê? — perdeu o ar. O coração bateu mais rápido, tomado de um medo irracional.
Ali sorriu mais. Agora ela parecia deslumbrante, linda e maléfica, mas ainda era a beleza de uma flor de acônito venenosa.
— Ah é, que cabeça a minha, esqueci que você não o conhece por esse nome. Provavelmente por culpa do sorriso e do senso patriótico dele, mas Changmin…
— Ali, chega! — Jungkook gritou, arfou, um pânico nublando todas as outras coisas. A face de ficou branca. — Acabou, vai embora. Você já fez o show que queria…
— Eu não fiz metade do que eu queria, idiota! O que foi, não quer que ela saiba a verdade? Não quer deixar sua namoradinha pensar que foi enganada…
— Cala a sua boca.
— Tudo melhora com mais detalhes. Diz aí, , o que você andou aprontando com Changmin? Ele te levou pra passear por celeiros com torres e fazendas brancas, dizendo que ali tinha a melhor iluminação? Foi aí que ele mandou ver, o que, uma ou duas vezes? Disse que te achava preciosa, irreal, quase te pegou no colo e te levou pras alturas? Eu já fui para as alturas com ele uma vez, e olha, o lance é de outro mun-
Alison.
— Changmin? Você e Changmin? — agora se mexeu, se colocando na frente de Ali por conta própria. — Do que você tá falando? Como conhece o Changmin?
— Na verdade, é Edgar Zieger. Meu amigo de longa data. Meus olhos e meus ouvidos em todo esse circo nojento que vocês armaram por aqui. Acho que você o conhece bem, não é?
Ela arqueou uma sobrancelha, certeira e provocativa. O estômago inteiro de se revirou. A fiação do seu cérebro ficou velha de repente, pesada, pifando. A primeira coisa que explodiu no vácuo da sua mente foi o nome: Edgar Zieger. O célebre fotógrafo de renome mundial, carregando uma característica bem singular de não ter fotos de si mesmo (algo que ela sempre se identificou). Um mistério quase lendário, o queridinho das grifes europeias, um cara que sabia absolutamente tudo sobre uma câmera fotográfica e onde ela seria melhor usada.
Cenas dela e Changmin foram passado em um microfilme, as coisas que ele dizia, as coisas que fazia, como discorrer sobre a manutenção de um obturador, a técnica perfeita de golden hour, ensinando a como trocar os fios dos rolos de filme, como reaproveitar as bases de poliéster…
Não. Não!
— Você tá mentindo… — mas sabia que não estava. Ali Dalphin podia ser uma mentirosa em outras horas vagas, mas ali, quando estava tão determinada a machucá-la, não perderia seu tempo mentindo. E isso tirou qualquer ação posterior de , a mente voltando no tempo, assustada com o enlaçamento com que tudo estava se mostrando.
Os últimos meses foram uma mentira? Um jogo de xadrez onde ela e todos ao seu redor eram as peças e Ali Dalphin era a única jogadora?
— Alison! — Jungkook estava rangendo os dentes de novo, quase em posição de ataque na frente da loira. Ali se virou para ele.
— Você não parece tão surpreso, Jungkook. Qual foi a conversinha que ele teve com você?
— Cala a-
— Eu vou acabar com ela. — o grunhido de Candice foi ouvido até do outro lado da piscina. A essa altura, a realidade do que Ali tinha dito antes estava batendo aos poucos. As peças foram se juntando lentas, tanto por causa da bebida quanto pelo tanto de informação jogada ali.
A festa. A festa de comemoração do cargo que ela tinha dado o sangue e saúde mental para conquistar, o cargo que era um caminho quase declarado de crescimento, o cargo que merecia uma festa de arromba, uma festa que tinha começado perfeita e estava quase terminando da mesma forma antes que toda aquela algazarra começasse e Candice Chaperman tivesse o nome estourado em todos os veículos da mídia e dedos apontados para si de uma forma bizarramente invasiva.
Candice amava Yoongi, é claro, mas não amou nem um pouco o desrespeito que sofreu por causa dele. Não amou a usurpação que mudou sua vida da água para o vinho. Não amou ter que abrir mão de seu anonimato antes que estivesse plenamente preparada para isso. Não amou a sensação desconfortável de querer, repetidas vezes, pegar uma picape e dirigir sem rumo até algum lugar abandonado, onde tivesse cabras, silêncio e cigarros.
Nunca nem passou pela sua cabeça que Ali Dalphin tivesse alguma coisa a ver com aquilo, mas agora, fazia tanto sentido. Seu ódio por estava escancarado em cada célula do corpo. Dava para sentir mesmo que você nunca tenha encontrado a garota na vida.
Foi por causa disso que Candice avançou, sem pensar. Yoongi não estava segurando, por isso a coisa toda se desenrolou de forma tão rápida e maluca. Ela agarrou o braço da loira, puxando-a para mais perto, os dentes tão cerrados que só um animal selvagem seria capaz de fazer.
— O que foi que você disse? Aliás, o que foi que admitiu?
Ali detestou aqueles dedos de novo.
— Tenho certeza que você escuta muito bem, sua vaca, mas posso repetir se quiser. Eu. Chamei. A. Imprensa. Fiz você ter o mesmo gostinho que eu tive quando sua amiguinha tirou aquela foto…
— Você é maluca? — Candice se aproximou de modo perigoso. Yoongi agarrou sua cintura, murmurando avisos que ela não escutava. — Gastou seu tempo destruindo a minha privacidade e do Yoongi porque estava com raiva de ? Por uma coisa que ela não fez? Qual é o seu problema, cacete? — a palma da mão de Candice foi totalmente aberta no peito de Ali, empurrando-a com certa força. — Achei que você chegaria aqui pra causar com um motivo de verdade, alguma coisa que valesse a pena escutar o seu lado, mas você me vem com isso? Como você pode-
— Tira as mãos de mim. — Ali bateu na palma de Candice, desejando fazer a mesma coisa naquele rosto maquiado que a olhava com tanta repulsa.
— Você devia estar numa camisa de força.
— Candy… — Yoongi a segurou mais firme. Jungkook estava em modo de alerta.
— Devia estar num hospital psiquiátrico. Devia averiguar se seu único vício são as pílulas coloridas ou pentelhar a vida de pessoas que não se importam mais com você. Você achou o quê, que Jungkook iria simplesmente se ajoelhar, implorando pra voltar? Achou que ele estaria esperando na janelinha como uma lady? Que amanhã vocês dois estariam juntos de novo usando roupas combinando na mesma paleta de cores? Se toca, você é patética, porra. Devia ter gastado sua passagem de avião pra trepar com mais cinco caras em outro barco nas Maldivas.
Ali pulou para ela como um gato. Foi preciso que Jungkook se mexesse, junto com um Yoongi atordoado, puxando Candice para trás milímetros antes que o rosto de sua namorada fosse fustigado pelas garras bem pintadas de uma Ali com dentes à mostra e rosto contorcido de ódio. Seus olhos viraram uma mistura de verdes avermelhados com vermelhos esverdeados. Tudo estava queimando em fogo puro nas veias saltadas de sua testa.
— Sua desgraçada… — foi tudo que ela conseguiu dizer, já que falar não era seu plano. O plano era estraçalhar a cara daquela imbecil. Era fazê-la engolir tudo, todo o lixo que tinha saído de sua boca, uma montanha tão grande que dava para montar uma colina.
Foi a gota d’água mencionar o barco. Mencionar aquela época. A época em que tudo estava fora do lugar na vida de Ali Dalphin, época em que ela sempre achava que estava tarde demais; tarde demais para se arrepender de sua escolha de ir embora, tarde demais para aceitar que tinha perdido tudo, tarde demais para voltar a ter boas noites de sono. Candice Chaperman não estava lá em nenhuma das vezes em que ela precisou de dois comprimidos de Xanax e três doses de whiskey para conseguir fechar os olhos, e mesmo quando isso acontecia, ainda ficava se revirando, ainda via os fantasmas do vazio inalterável do seu ser em cada horizonte que passava, seja em Bali, Bora Bora ou Ilhas Fiji, mostrando como era possível ser tão solitária em meio a tanta fartura.
Candice não sabia de nada disso. Ela era do ramo editorial, onde as pessoas sabiam do que queriam saber e falavam do que queriam falar. Ali a deixaria um tanto surpresa se a contasse a realidade das coisas, mas isso poderia render um olhar de pena, o que seria mil vezes pior do que uma agulha embaixo da unha.
Enquanto isso, no meio da confusão e do falatório vicinal daquela festa que tinha saído totalmente do controle, a cabeça de estava juntando. Juntando, juntando, juntando… seus medidores cerebrais finalmente chegando em um consenso.
Devagar, ela girou o pescoço para Jungkook, a voz saindo em um sussurro quase indecifrável:
— Você sabia?
Ele piscou com a súbita mudança da conversa e da expressão de . O caos abrandou um pouco ao redor, fazendo-o focar ali.
Mas Jungkook não demorou a entender seu olhar. Não demorou a entender nada.
Uma calota de gelo escorreu pelo seu estômago.

Mas ele nem precisava responder. já tinha visto a verdade no seu rosto antes mesmo que ele abrisse a boca. Essas coisas costumavam ser reconfortantes em todos os outros momentos em que estavam juntos, mas naquele… não sabia explicar o que sentia naquele.
E como a grande oportunista que era, Ali prestou atenção e rendeu mais uma boa gargalhada.
— Ah, Jeon. Até me preocupei em como foi tão fácil você me descartar como se fosse uma qualquer, mas olhando agora… acho que você me contava mais coisas. As mentiras e as verdades. O que nossa querida anda tendo?
parou de olhar para ele. Sua atenção foi direcionada exclusivamente para Ali, agora recebendo toda a carga de raiva escondida em alguma viela escura de , raiva que se projetou para fora em uma expressão que ela não mostrava a ninguém, que ela nem sabia que era capaz de fazer. Estava com tanta vontade de agarrar no cabelo da modelo e enrolá-lo nos fios da companhia de energia elétrica do outro lado da cidade que quase se assustou com esse pensamento. Deve ter sido a coisa mais violenta que já passou pela cabeça de .
Só que ela ainda estava no meio de um monte de gente, meia dúzia de rostos infinitos que esboçavam surpresa, choque, dúvidas, divertimento, várias coisas por segundo. A festa ainda estava rolando nos longínquos cômodos internos, mas ali fora, todos tinham parado para ouvir os discursos picados de uma loira com um sotaque francês arranhado. Uma loira cujo nome soava como uma adoração, um cântico dentro do círculo de amigos do anfitrião, e que agora não estava passando por mera inconveniência.
Esse tempo todo, estava se importando com esse fato, se importando com as pessoas, mas não dava mais. Não depois de todas as verdades cuspidas por aquela boca, verdades dolorosas demais e que ficariam ainda mais dolorosas depois que ela chegasse em casa e absorvesse tudo. A festa de Candice. Hoseok. Changmin. Sua Nikon. Jungkook…
Ela nem queria pensar em Jungkook. Definitivamente, não queria.
Por isso, caminhou até ela, todos os traços do rosto trincados, assumindo um tom de voz que nunca teve:
— Por um mísero segundo, eu pensei em te pedir desculpas. Até me senti culpada quando você apareceu, senti que eu te devia alguma explicação, mas agora, com tudo isso, com toda a sua sujeira pra cima de Candice, do Yoongi, da covardia de você usar alguém pra se aproximar de mim… quero que você vá se foder, Ali. — invocou um terço de paciência, necessárias para que ela não gritasse. — E quero que vá se foder bem longe daqui, porque você tá estragando a droga da festa do meu namorado. Meu namorado, Ali, porque nem tudo que você joga fora, vai estar do mesmo jeito quando você decidir voltar pra pegar. Jungkook não é um objeto e ninguém aqui merece ser tratado como um fantoche pro seu show. Você não tinha o direito de mexer nas coisas que mexeu, por isso você tem que ir embora daqui agora. Chega de piorar as coisas.
A festa ficou em silêncio. Mesmo que a música ainda existisse, ela era indigna de qualquer atenção frente aquilo… aquela .
Jungkook entrou em um estado inerte. Ali estava muito perto dela, inflando as narinas, perdendo o sorriso malicioso aos poucos, cravando as unhas nas próprias palmas. não estava recuando, não estava mostrando hesitação, mesmo que seus olhos estivessem um pouco molhados e seu lábio tremesse um pouco. Parecia mais raiva, e pouco medo propriamente dito. Ali não duvidou que ela pudesse, sei lá, empurrá-la até que ela saísse daquela casa como um cão.
E com isso, a eletricidade do ódio voltou. Ali já estava com raiva, mas agora tinha ficado possessa, irada com aquele ataque de coragem, a afronta de valentia vinda de uma garota que vivia de ombros encolhidos e olhos baixos por todos os corredores da vida.
Meu Deus. O que tinha acontecido com ela? E o que tinha acontecido com ele? Que merda eram aqueles dois juntos?
Ali ficou cega com a possível resposta.
— Ah, mas você vai engolir tud-
Ela tentou avançar, e não retrocedeu, mas a comoção foi demais. Dedos fortes e pálidos agarraram Ali antes que ela desse um passo, dedos bem mais fortes e ágeis que os do desajeitado e encurralado Hoseok, dedos que ela já tinha sentido antes, quando estava cometendo uma burrice em Los Angeles.
— Chega, você vai sair agora. — Jaehyun usou a força para empurrá-la para o lado, sem se preocupar com julgamentos, porque sabia que não haveria nenhum. O olhar dele era tão feio que faria uma criança minguar e sair chorando. — Já chamei os seguranças lá fora. Se não quiser piorar tudo, melhor ir de livre e espontânea vontade.
Ela nem sentiu vontade de rir, mas sentiu vontade de debochar. De cuspir no rosto dele. De fazer qualquer coisa que acabasse com aquele olhar.
— Olha ele aí de novo, o Martin Luther King de Seul. Me diz, como anda sendo ficar no banco dos rejeitados?
— Você não precisa se preocupar comigo, Ali. Agora sai.
— Ah, mas eu me preocuparia. Principalmente depois de ter trepado com essa daí. Foi junto com o Jungkook? Fizeram uma DP? Todo mundo fez exames depois?
O vento soprou mais forte quando Jungkook atravessou o gramado a uma velocidade alucinante com as pernas longas, alcançando a loira e seu braço sem misericórdia, começando a levá-la casa adentro, decidido a não esperar segurança nenhum.
— Ai! Que porra, o que você tá fazendo?
— Eu não quero ouvir a sua voz, Dalphin, não quero que você diga uma única palavra até estar fora da minha casa.
— Jungkook! Ei…
O corpo de Ali foi solto com certa brutalidade quando pisaram no hall, onde algumas pessoas totalmente alheias à confusão dançavam e conversavam. Àquela hora da noite, ninguém mais fazia ideia do próprio nome, quanto mais que estavam cantarolando uma versão bêbada de Highway to Hell ao lado de Jeon Jungkook e Ali Dalphin, o casal mais comentado do mundo há alguns meses, as duas grandes figuras que estamparam todas as manchetes digitais e fizeram os telefones de centenas de editoras não pararem de tocar.
E bastava ver a forma com que cada um se olhava para saber que não eram mais nada disso.
— Você tá fazendo merda! — ela gritou, quase ao mesmo tempo que os sapatos pretos de verniz de dois homens enormes chegavam perto, rodeando-a, sem tocá-lá. Pareciam irmãos gêmeos, iguais na calvície e nas tatuagens do pescoço. — Jungkook! O que é isso? Que palhaçada…
— Palhaçada é o jeito como você chegou, como fodeu com o clima de todo mundo. Tá pensando que é quem, porra?
— Quem eu sou? Quem eu sou?! — ela quase o empurrou de novo. Aquele questionamento era de revirar o seu estômago. — Como tem coragem de me perguntar isso? Você sabe quem eu sou, seu babaca, sabe bem demais, e mesmo assim, não achou que seria interessante terminar comigo antes de namorar com outra?
Jungkook soltou um som perplexo. Estava com tanta raiva dela que seria capaz de socar uma parede até virar pó.
— Levem ela embora daqui. Agora.
— Quê? Não, não toca em mim… — ela tentou, mas Jungkook já tinha dado as costas. Ali diria aos caras que poderia ir sozinha, xingaria em uma porção de idiomas diferentes e sairia por conta própria, de cabeça e ombros erguidos para seja lá qual fosse o carro que usou para chegar ali. Provavelmente, pegaria um telefone e tentaria ligar umas duas ou seis vezes para ele, mas que se dane. Jungkook não ficou para ver o resto disso. Voltou com passadas pesadas para fora, os olhos duros e negros, a boca fundida em uma contorção estranha, a mente apagada cheia de tudo e cheia de nada.
Porra, seria uma merda tentar entender tudo isso depois. Seria uma merda até pensar nisso depois.
Estava tão distraído que mal percebeu quando chegou na árvore de novo, vendo que a maioria das pessoas tinham se dispersado, e se tocou de que estava andando sem rumo até achá-la. .
Ela estava com Candice, uma mão na testa, a respiração pesada. Ele só teve tempo de se aproximar para ouvir um:
— … embora. Vamos pra casa.
Candice estava passando o braço para puxá-la. Jungkook arfou e se apressou:
— Ei. Ei, espera… — ele colocou as duas mãos no seu ombro. — Você vai embora? Eu vou te levar…
— Não precisa, Candice vai me levar.
— Mas a gente tinha combinado…
— A Candice vai me levar. — ela o encarou dura, resoluta, e Jungkook soube que ela estava com raiva. Dele.
Isso terminou de destruir a mente do anfitrião.
engoliu em seco, desviando os olhos. Odiava isso às vezes; odiava amá-lo tanto que seu corpo, suas reações, físicas e motoras, estavam sempre prontas para abraçá-lo, ouvi-lo, entendê-lo, perdoá-lo, mesmo sem ouvir a história toda, mesmo que não tivesse veracidade. Aquele tipo de amor que nos torna quase anestesiados para a dor que ele pode nos causar. E Jungkook estava, de fato, causando alguma dor em , um desconforto irascível, um frio que vinha da brecha na janela que ele tinha quebrado no meio daquela tempestade.
— Falo com você amanhã. — foi a única coisa que ela disse antes de sair com Candice, dando passadas mais fundas, quase correndo, amedrontada com a ideia de mudar de ideia. Estava sentindo uma coisa que nunca sentiu antes, algo sem nome, sem distinção, algo que apontava, com todas as letras, que ela tinha feito a escolha certa quando falou daquele jeito com Ali.
E algo a dizia que estava fazendo a errada com Jungkook. Que ela precisava dele, é claro que precisava, mas a necessidade de ficar sozinha era maior. A necessidade de acabar aquela noite de uma vez por todas, permitindo que seu telefone acumulasse todas as “chamadas perdidas” que quisesse.
Com um olhar de relance para as luzes fluorescentes que crepitavam acima do hall, se abraçou quando correu para o carro de Candice e se enfiou no banco do carona.
Lá dentro, Jungkook ficou inerte por um longo tempo, completamente embaixo d’água. Trágico era a palavra certa para descrever o término daquela noite. Ele não estava preocupado com nenhuma contingência para esse dia; era para ser o dia perfeito, o dia de sua estreia, o dia que algo maior estava tendo início. E tudo bem que esse algo maior aconteceu e seguia acontecendo, mas agora a voz de Ali e sua risadinha estariam para sempre na sua cabeça, relembrando-o dessa data como seu retorno de merda. Um riso absolutamente satisfeito e deliberado.
E também foi o dia que tinha ido embora, exposta a tanta informação quanto os outros, mas com o bônus de topar com a mentira dele. Ou melhor, a sonegação de algo indiscutivelmente importante.
Ela nem precisou dizer nada. Jungkook simplesmente sabia que ela não tinha a menor intenção de atendê-lo pelas próximas horas.
Nada mais tinha graça. O esplendor chegou ao fim.
Aos poucos, ele foi percebendo que estava sendo tocado, que seus amigos estavam mais perto, que estavam falando agitados, balançando mãos, gesticulando, e isso estava mais irritando do que ajudando.
— Para essa porra. — ele disse, e nem sabe em qual tom a voz saiu. Mas eles pararam de falar. — Parem a porra da festa, caralho! Acabou!
Jungkook gritou mais alto, e algumas pessoas de dentro ouviram. A música continuava, e isso estava irritando mais.
— Desliga essa merda, Jaehyun. Manda todo mundo embora. — ele gesticulou para o amigo, e não ficou para ver se ele obedeceria. Tinha uma coisa martelando no seu cérebro, uma coisa tão grande e fodida que conseguia ser maior do que sua vontade de entrar na Mercedes e dirigir até Seongdong-gu, vomitando todos os argumentos e pedidos de desculpas possíveis para que sua namorada não o odiasse demais.
Mas aquela coisa que tinha saído da boca de Ali estava se transmutando e se reproduzindo em um eco infinito na sua mente, e agora ele só queria isso: resolver. Tirar satisfação. Porque tinha certeza de que aquilo continuaria ali até o próximo dia, ou a próxima semana, se ele não fizesse alguma coisa.
Ele se virou um pouco, sabendo que seu alvo estaria no mesmo lugar. Quando encontrou Hoseok, apertou os lábios e olhos com tanta força que não te dava opção de correr.
Você. Quero falar com você agora.
— Jungkook, escuta…
— Eu vou te escutar lá na porra do estúdio, e nem precisa se preocupar com o tempo porque você só sai depois de me convencer que não é o filho da puta miserável que se mostrou hoje.
Jungkook foi na frente, marchando com êxito até o cômodo trancado, sorvendo a raiva e a vontade de sacudir Hoseok até que ele perdesse todos os ligamentos do corpo.
Atrás dele, alguns vieram rápido: Taehyung, Yoongi, Jimin e Namjoon, todos fuzilando Hoseok com os olhos, todos chocados e perdidos, e todos com o mesmo pensamento que o resto:
Que dia merda.


“Finalmente, posso compartilhar com você, através do céu nublado
Todos os pensamentos que entram em minha cabeça
Não há limites para o quão vacilões podemos ser.”

She Looks Like Fun


LONDRES
DIAS ATUAIS

A minúscula tela do Motorola V3 de mostrava três chamadas perdidas no fim da tarde de quarta-feira. Duas eram de Jill e uma de Candice, que devia estar puta por ter acordado na madrugada de Seul especialmente para o Plantão das Garotas (que acontecia todas as terças, religiosamente, a não ser quando se enfiava em cavernas no topo de montanhas ou em voos que levavam mais tempo do que deveriam) e não ser atendida.
Ela conseguiria se resolver com Candice depois. O que a preocupava eram as ligações de sua chefe.
Jill nunca ligava. Muito menos duas vezes.
Ela parou o carro na Regent Street e ficou na dúvida se deveria retornar a ligação. Ou se ela ligaria de novo. Três vezes seriam demais. Jill só ligaria três vezes se estivesse sofrendo o infarto que já tinha dito que ela sofreria se não parasse com as porções de bacon frito no café, almoço e jantar.
Era melhor resolver logo. saiu na calçada, batendo a porta de seu Ford Escort anos 80 com a força necessária que ele precisava para fechar (geralmente era bastante força), e marchou para o prédio espelhado da National Geographic Magazine, tentando disfarçar o nó nas entranhas. Estava se recusando a mandar uma mensagem para Erin e perguntar, de um jeito não tão súbito, como estava o humor da chefe hoje. Erin, que apesar da maquiagem preta pesada e sua estranha mania de ficar em silêncio absoluto por seis horas seguidas, tinha um medo reprimido de desagradar Jill até mesmo quando ela não estava presente. Com certeza, diria que a CEO estaria deslumbrante e equilibrada como sempre (mesmo que isso não fosse sempre).
Finalmente, depois de passar por várias portas, catracas, corredores, editores e até por um labrador retriever latindo dentro do estúdio principal (deviam estar começando as matérias da campanha de vacinação), chegou à porta enorme amadeirada do último andar, uma que a maioria das pessoas temiam caso precisassem entrar. geralmente não era uma delas, assim como não precisava de nenhum crachá, agendamento ou qualquer outra burocracia para subir ali.
Ela bateu uma vez e girou a maçaneta. A luz direta do sol nas paredes de vidro revelavam a realidade do poderio de uma das maiores revistas do mundo. A mulher sentada atrás da cadeira presidente não era diferente; Jill Tiefenthaler, CEO da National Geographic e uma das mulheres mais brilhantes que já conheceu, armada com seu cabelo curto em tom de cinza, sua saia tubinho e seus adesivos de nicotina (que não serviam para nada, mas ela tinha que mostrar que estava tentando).
Jill nem precisou tirar a atenção de sua montanha de papéis para saber quem tinha entrado.
— Por acaso aquela lata velha que você chama de telefone finalmente foi pro saco?
— Deixei no porta-luvas. — fechou a porta. — E já disse pra não chamá-lo assim.
— Eu sempre chamo tudo do jeito que eu quiser.
— Momento perfeito pra eu te contar como chamo a sua cachorra fora da sua vista, então.
Jill ergueu apenas uma parte do olhar para encará-la, exibindo aquele par de íris azuis que a deixavam deslumbrante mesmo aos sessenta anos, e sabia que ela estava lutando para não erguer o dedo do meio para ela.
Era uma reação bastante comum.
— Senta aí, garota. — e assim, ela estava de volta aos seus instrumentos favoritos: seus arquivos infinitos, livros e periódicos atuais que era obrigada a ler e seu balde de café (a falta do cigarro triplicou seu consumo em menos de um mês).
obedeceu, sentando-se na cadeira confortável a qual ela sabia que tinha vindo diretamente da casa de Jill. A maioria das coisas naquela sala tinham vindo de lá, na verdade, porque era difícil saber se ela morava na grande casa amarela com uma garagem vazia em Mayfair, ou se era ali, no seu retângulo gigantesco equipado com frigobar, banheira e cobertores escondidos no armário embaixo da TV.
— Acho que você sabe porque te chamei aqui.
— Não faço a mínima ideia. — respondeu rápido, apesar de saber. Na verdade, só de Jill se propor a discar seu número 48 horas depois de ela ter pousado em Londres, já devia saber o que era.
Jill levantou os olhos de novo, atentos e fuzilantes.
— Tive uma conversinha com o Will hoje.
— Hum... — ela assentiu, quase indiferente.
— Ele me contou algumas coisas da Groenlândia.
— Tipo do tombo dele na geleira?
— Não. Não isso.
— Ele estava com o frequencímetro na mão e o magnetômetro de césio na outra, não dava pra esperar outra coisa.
— E pelo visto, ele também esperava que você não fosse dar uma de Lara Croft no meio do mar, mas ele se enganou. Como sempre se engana em relação a você.
nem se deu ao trabalho de responder. As definições de inconsequência, maluquice, disparates, tudo isso era diferente para ela e Jill, quanto mais para William, que sempre reclamava sem parar por precisar sair no calor e se envolver com qualquer coisa que tivesse relação a campos abertos e grama além dos tornozelos. Certa vez, depois de uma viagem ao Peru para mostrarem a cultura Inca, ele se queixou com Jill por ter entrado na comunidade andina sem a permissão do pesquisador, interagindo com as pessoas mesmo sem saber a língua (os habitantes falavam um idioma indígena) e se abaixando por varais de roupas tortos e desolados para conseguir os melhores cliques. William achou a coisa toda invasiva demais, sobressaltando-se com ela por mais de uma hora até voltarem para o hotel.
amava Will, mas amava muito mais fora do trabalho. Ele não gostava de experiências agitadas e nada que pudesse amassar suas camisas sociais da Hugo Boss, por mais que não admitisse com palavras. Nesse aspecto, ela preferia Dimitri, o cinegrafista do departamento de Produção Audiovisual. Ele, sim, era desapegado. Se precisasse, dormiria numa casinha de cachorro na Tanzânia só para pegar a migração dos elefantes no auge, colocando sua dicção perfeita e sua memória fotográfica em ação que era capaz de fazer uma família inteira se sentar em torno da TV e não conseguir desgrudar os olhos da tela. Ajudava muito o fato de ele ser um homem encorpado e carregado de músculos, com uma roseira tatuada no pulso e um sorriso à base de lentes. Também tinha o fato engraçado do cara viajar levando nada além do necessário, como escova de dentes, duas camisetas e duas calças. Só.
Will nunca dormiria em algum lugar que não tivesse ar-condicionado e molas ensacadas, e nunca chegaria perto de uma casinha de cachorro (ou de um cachorro qualquer). Jill sabia disso, e talvez, bem lá no fundo, se decepcionasse um pouco com ele por isso; sua vira-lata caramelo, que foi resgatada tremendo ao lado de um poço na Flórida, era sua única ligação maternal, e isso importava bastante.
Jill bateu com a ponta da caneta na mesa lentamente. continuava com a expressão neutra.
— Você já viu as fotos? — perguntou.
— Já. Parecia que você estava querendo entrar na boca dela.
— Aposto que ninguém nunca registrou a parte de dentro de uma baleia.
— Nem de dentro do núcleo da Terra. Pelo amor de Deus, ...
— Eu vou perguntar de novo: você viu as fotos?
A mulher parou, e soltou um suspiro longo. Odiava quando aquela garota a olhava daquele jeito, com o nariz empinado, as sobrancelhas retas, a confiança irradiando nos olhos.
Inevitavelmente, Jill já estava abrindo um sorrisinho. Um que se espelhou no rosto de , que sabia que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde.
— Dava pra ver a camada de água descendo por ela, cacete. — Jill jogou a caneta na mesa e riu. — Foi a porra da foto mais linda que eu já vi! Do que qualquer um nessa merda toda já viu. Foi melhor do que aquela vez no vulcão da Etiópia.
— Menos traumático também. Pelo menos pra mim. Will e o doutor já não podem dizer o mesmo...
— Ah, William é um bundão. Passeia com os engomadinhos e defende a burocracia com unhas e dentes. E o doutor Cameron, bom... ele é um homem da ciência. Essa gente só ama livros e mais nada.
— Ele mijou de medo. E deve saber, tipo, o nome de todas as vértebras e costelas dela.
— Homens são limitados, querida. Nunca acham que as coisas são grandes demais, preocupantes demais, incríveis demais. São estúpidos e despreparados. — ela esticou o dedo pela caneca de café. — Mas você foi e fez. Nunca duvidei disso, mas sempre faço questão de te dar um crédito e você sabe. Vamos vender o dobro só com essas fotos. Garanto que nem a Smithsonian foi capaz de fazer uma igual.
— Eles devem estar muito ocupados com as pirâmides do Egito.
As duas estremeceram juntas. Odiavam a Smithsonian. Odiavam absolutamente tudo do lugar, que mais parecia uma revista de arquitetura para a parcela milionária da população mundial que, vez ou outra, anunciava as altas súbitas da bolsa de valores do petróleo e distribuía honrarias para nomes de empresários que, por baixo dos panos, estavam envolvidos em todo tipo de sujeira ambiental. Não restavam dúvidas de quem eram os responsáveis por levarem a empresa até a posição de segunda mais vendida, bem atrás da National.
Jill se recostou na sua cadeira macia, olhando para enquanto segurava a xícara grande. Olhou por um bom tempo, admirando cada parte daquele rosto afilado, as maçãs preenchidas, as roupas pretas que ora pareciam escolhidas a dedo e ora pareciam ser a primeira coisa que ela puxou do armário, os óculos de sol presos no colarinho da blusa, o moletom full-zip que era largo demais para ela, escondendo o braço direito cheio de tatuagens disformes, enquanto o esquerdo vibrava com alguns desenhos pingados e sem explicação. Nunca tinham explicação.
Jill olhou bem para aquela garota bonita, que não temia nenhum milharal, vulcão, geleira, montanha, céu, mar, miséria, devastação... nada que fizesse um ser humano normal pensar que tinha que ir embora dali imediatamente. Era possível, Jill pensou, que fosse a garotinha mais corajosa que já passou pelas portas daquela companhia enorme.
Mas sua coragem era seletiva. E Jill era uma das poucas pessoas que via isso.
— Também te chamei por outro motivo. — continuou, balançando o líquido preto. esperou. — O trabalho na Amazônia.
se desfez de qualquer resquício de sorriso lentamente.
— Precisa ser você. — Jill falou com firmeza. balançou a cabeça.
— Não, não precisa ser eu.
— Ok, então eu quero que seja você.
— Mas por que? A gente conversou sobre isso, o Craig tá melhorando, e já faz um tempão que ele tá querendo viajar com a noiva...
— A Amazônia não é exatamente um destino romântico, . Não estamos no departamento de Turismo.
— Eu sei, mas não vai rolar, Jill, sinto muito. Podemos conversar sobre aquela matéria da Fossa das Marianas. Fiquei sabendo que o Dimitri já tá arrumando tudo.
Jill estreitou os olhos. Decidiu cutucar mais um pouco.
— Aham. E a matéria de Jeonju?
fechou a cara de novo. Ela estava fazendo de propósito.
— Não.
A mulher largou a caneca na mesa com um bufo.
— Você não quer ir ao Brasil, não quer ir pra Coreia, mesmo tendo morado nos dois lugares, e é sempre assim. Estou com você há dois anos e sou obrigada a te ver rejeitando trabalhos que tem uma coisa em comum: suas antigas casas.
— Não tem nada a ver...
— Ah, por favor, , não me faça de idiota. Você entendeu o que eu disse.
Jill revirou os olhos. Às vezes, a maioria das vezes, seus impulsos insanos de fumar vinham depois de uma conversa com . Conversas com aquele mesmo teor: passado.
sentia a mesma coisa. Não a vontade de fumar, mas de fazer algo para cortar aquele assunto, fugir da realidade, fingir ser outra pessoa por um tempo. Toda vez que Jill falava naquilo, ela era sinistramente envolvida por memórias, sensações, presságios que caíam por cima de sua cabeça tão forte que praticamente acabavam com seu dia inteiro. Tirava o gosto da comida, tirava a felicidade de suas conquistas. Dava vontade de se embebedar numa loja de conveniência da Stratford, e depois se encolher nos cobertores de sua cama queen, apagar todas as luzes e fazer aquilo que ela se martirizaria pelo restante do mês por fazer, aquilo que nunca deveria ser mencionado, nem pela própria mente.
tinha vergonha do que fazia nesses dias. Vergonha principalmente do que sentia.
Jill viu o incômodo estampado na cara dela, mas sempre escolhia acreditar que não era mais a garotinha indefesa que tinha atendido sua ligação há dois anos.
— Sabe, , quando você chegou aqui...
— Ah, fala sério. — resmungou, mal criada, querendo bater em si mesma. Por que foi atender aquela ligação? O que ela estava esperando? Uma ligação de Jill nunca era algo tranquilo. Nunca era algo que não se arrependeria depois. Nunca seria melhor do que ter ficado no apartamento aconchegante da Wembley Park, regando sua horta ambiciosa onde sete fileiras impecáveis floresciam.
Jill não se deixou abalar, continuando em voz branda:
— Quando chegou aqui, você chorava todos os dias no banheiro do segundo andar. Passou os primeiros quatro meses assim, até ir diminuindo para três vezes na semana, depois pra duas, depois só aos sábados até parar de vez e você virar uma pessoa que não chora nem se encontrar a cabeça de uma égua ensanguentada no seu travesseiro.
— Vai usar referências de O Poderoso Chefão agora? Foi uma péssima escolha.
— Eu sei, e essa não é a questão. O negócio é que você é minha melhor fotógrafa, e não se engane, não me arrependo nem um pouco de ter feito aquela ligação há dois anos, mas eu não esperava que você fosse me frustrar tanto quando recusa trabalhos que obviamente são feitos pra você por causa de questões que nem se dá ao trabalho de me contar.
franziu os lábios, tentando se lembrar de que aquela mulher na sua frente era a sua chefe. Mesmo indo na sua casa dar comida para a sua vira-lata três vezes por semana, visto-a de babydoll e pantufas enquanto bebia suco de tomate dezenas de vezes e ter ignorado suas ordens mais outras milhares, ela ainda era sua chefe.
— Jill, você se frustra até por eu não comer ervilhas. E não vejo como o fato de eu ter sido uma idiota há dois anos influencia no meu trabalho hoje. Vou continuar sendo sua melhor fotógrafa independentemente se tiver que registrar o mictório do banheiro masculino.
— Eu sei de tudo isso, eu só não entendo...
— Você não precisa entender. Nós não precisamos entender. — se levantou, ajeitando o casaco no corpo. — Já estou liberada? Ainda tenho mais trinta horas de folga antes do próximo expediente e preciso ir ao correio.
Jill pensou em falar mais, mas desistiu. Aquela garota conseguia ser tão cabeça dura que era irritante. Jill também se irritava consigo própria porque, afinal, gerenciava uma empresa gigantesca cheia de fotógrafos ótimos que seriam mais do que capazes de cobrir a reportagem sobre as queimadas, ou sobre a Vila Hanok de Jeonju. Qualquer pessoa estaria seduzida em conhecer terras de belezas incomparáveis e comer feijões e cenouras de primeira à vontade. Provavelmente, se refinasse bem, encontraria um bom profissional que aguentasse dividir um assento numa fileira apertada com William por mais de quinze horas sem ceder ao arroubo de cortar os pulsos, e que seria tão produtivo quanto , mas não era tão simples assim. Todo mundo dentro daquele edifício sabia que, definitivamente, aquele tipo de coisa não era tão simples assim.
Dificilmente alguém seria igual porque dificilmente alguém enxergava o mundo como . Dificilmente, alguém se sentiria tão livre na solidão, ou seguiria a luz frenética de uma aurora boreal a trinta graus negativos. A duras penas, alguém correria o risco de pegar uma queimadura de segundo grau só para registrar os camelos no Saara, andando por fileiras de dunas que iam ficando cada vez mais decaídas. Ou até, de forma mais simplória, alguém raramente ousaria ficar com o celular desligado (ou até mesmo sem ele) por dias e até semanas em pleno século vinte e um, sofrendo de ansiedade pela incomunicação e pela indisponibilidade de acesso ao Instagram.
não era conhecida apenas por atender a todos esses requisitos. Fotojornalistas são acostumados a enfrentar loucuras e todo tipo de coisas que rendiam aquelas fotos quase inconcebíveis ilustradas nos livros didáticos e em jornais de renome, e Jill já tinha passado por incontáveis profissionais dispostos a mergulhar num esconderijo de tubarões sem equipamento de proteção só para render uma boa capa.
Mas de novo: eles não enxergavam como . Não tinham aquela coisa no fundo da retina (da alma) que os fazia ver o ângulo todo, as quatro dimensões, a parte visível e invisível de um panorama.
As outras pessoas antes dela eram apenas faixas de terra não cultivadas, crescendo destrambelhadas, afluindo para algo tão superficial como o auditório pagante da revista, preocupados com a beleza que atrairia likes e não com a mensagem que ela carregaria, não com as possíveis percepções que poderia alcançar. Considerando essa ótica, era um campo de lavanda fértil, bem conservado, que de tanto ser remexido e alagado por tempestades intensas, tinha aprendido a reter a melhor parte e hoje florescia, no tempo e na direção certa.
A garota era espetacular, mas continuava um mistério. Agia de forma puramente resoluta, como se nem estivesse se esforçando de verdade para manter o emprego porque sabia o valor que tinha. Sabia que a National Geographic precisava dela, e às vezes, em vislumbres muito rápidos, ela também dava a entender que precisava da National. Que ali era o seu lugar.
Ou que ela gostava de pensar que era.
— Não tem mais nada, pode ir. — Jill aceitou sua derrota, fazendo um sinal com o queixo para a porta. não esperou muito para começar a andar. — Pode aproveitar e trazer minha revista TaxiDermântico quando voltar amanhã?
— O quê? — se virou.
— É. Você não vai ao correio?
— Ah. É.
Ela não se aprofundou. Fazia três meses que o novo interesse de Jill era taxidermia moderna, o que era dezenas de vezes melhor do que as revistas de bonecos de cera. A última capa tinha um exemplar em tamanho real da Taylor Swift.
— Como é o postal dessa vez? — ela voltou a atenção para os seus papeis.
— Um pouco feio. Não tinha nada de baleias, o que só reforçou como elas são mesmo raras nas geleiras.
— Pode ter a ver com o probleminha apocalíptico do aquecimento global.
— Ou simplesmente porque pinguins e ursos-polares ficam melhores em papel couchê.
— Você poderia estar mandando uma ilustração de um chimpanzé comendo uma cabra que sua amiga acharia lindo.
— Por que você sempre faz analogias tão perturbadoras?
— Porque estou envelhecendo, querida. Não preciso mais me preocupar com conveniências em pelo menos 70% do tempo.
concordou. Se qualquer pessoa ousasse visitar a casa de Jill Tiefenthaler, saberia que a mulher não passava de uma extensão daquele espaço um pouco bizarro cheio de puffs ao invés de sofás, canudos de metal, shampoos em barras, receitas de máscaras faciais com sangue de menstruação e algumas vinhas ressequidas se enrolando nos paus de bambu que ela mantinha na varanda para os pássaros.
— Vou trazer sua revista. — anunciou e colocou a mão na maçaneta.
— E depois vai sair com o Ben, eu suponho.
segurou um suspiro. Pelo amor de Deus, não ia sair daquela sala nunca.
— O que te faz pensar que vou sair com Ben? — ela forçou uma amostra de dentes, mero esqueleto de um sorriso. Jill curtiu a provocação.
— Porque ele é o primeiro carinha que você não dispensa em sei lá, um mês?
— Um mês? Você tá contando?
— Eu fico entediada às vezes, . Muitas vezes.
— Então vai arrumar alguma coisa pra fazer, tipo pintar as unhas ou medir seu pico de açúcar. Você não estava aprendendo um instrumento novo?
— Cansei. São cordas demais, e percebi que se eu quiser ouvir música, é só usar fones de ouvido. Invenção brilhante, você não concorda?
revirou os olhos. Por vezes, não sabia dizer onde estaria hoje se continuasse sendo a mesma garota de antes, que obedecia a qualquer um, confiava em qualquer um. Sua relação com Jill era aberta e espontânea desde que foram assistir ao jogo dos Yankees no London Stadium depois de uma primeira semana conturbada e emotiva para a novata da cidade, que ainda precisava procurar um apartamento decente, se acostumar com o inglês e, principalmente, parar de chorar.
não fazia ideia do que estava acontecendo no jogo, não entendia os passes, rebatidas, marcação de pontos e nada que tivesse a ver com os borrões de camisa branca listrada correndo pelo gramado, mas entendeu o que entrava em ação ali: um voto de confiança de Jill. Uma tentativa de expurgar o primeiro sorriso daquela garota, que era retraída e solitária, e todas essas coisas, Jill captou, de alguma maneira envenenaram e enegreceram o seu ser, a sua expressão, todos os seus traços. As duas eram completamente diferentes, mas a partir do momento em que Jill exigiu indiretamente que ela levantasse a cabeça e tomasse as rédeas de seu trabalho, sua cor e vitalidade foram lentamente voltando.
Jill foi mais do que uma chefe. Ela foi um escape daquela fonte de dor que parecia que nunca mais iria parar de jorrar. Foi o outro par de braços que ajudaram a recolocar a tampa de seu poço escuro e finalmente olhar para a frente.
Isso foi há dois anos, e os resultados dispensavam comentários.
— Bom, é, talvez eu saia com Ben, mas como isso definitivamente não é da sua conta, chefinha, eu vou indo nessa. Pinta essas unhas. — fez um sinal para a mulher e abriu a porta.
— Ei, não esquece minha revista! — foi a última coisa que ela ouviu antes de fechar e sair no corredor.
Enquanto seguia para o elevador, digitou uma mensagem para Candice, sua melhor amiga do outro lado do mundo: “Acho que você vai odiar seu novo postal, mas foi o que deu pra fazer, eu juro. As pessoas não são muito criativas em lugares onde a maior preocupação é não morrer congelado.”
Não demorou muito para receber uma resposta: “Se for muito feio, vou colocar junto com a sua planta. Nada vai abalar a estética do meu escritório.”
“Você deixou a Yoona pregar um provérbio chinês pra prisão de ventre na recepção. Agora como vai a minha roseira?”
“Bem. Ela chama tanta atenção que mal dá pra perceber a fileira das que estão mortas na frente dela.”
“O quê?!”
Candice mandou uma foto. O processador do telefone de demorou uma eternidade para abri-la.
Antes que pudesse retrucar à imagem de suas mini rosas murchas no pequeno mostruário embaixo da cobertura de concreto do Candy Boom, outra mensagem estremeceu o pequeno celular de , uma que quase foi possível ouvir a voz de Jill no seu ouvido.
“Jantar hoje à noite. Vou levar ravioli. E vinho Luigi Bosca. Não deve custar nem vinte libras.”
“Diferentemente dos caras da minha idade, eu curto vinho tinto. Deixam minhas células hipervivas, se é que você me entende.”
balançou a cabeça com um sorriso desdenhoso. Até hoje, o número dele estava salvo apenas como Ben. Sem sobrenome, porque ela não sabia. Sem qualquer outra informação que passasse do básico que o cérebro de já tinha catalogado: cara alto, bonito, uns doze anos mais velho, tinha um emprego (um bom emprego, a julgar pelo Audi A8 que dirigia por aí), usava camisas verdes comuns (ele odiava roupas pretas), tinha uma única tatuagem engraçada na panturrilha com dúzias de brotos retorcidos, fumava socialmente e depois de uma foda (e ele tinha gosto de cigarro, como deveria ser), exalava um cheiro cítrico e mentolado, nada doce, e passava algumas noites da semana se contorcendo firmemente numa cama com até altas horas da noite.
Parecia bom. Aliás, estava sendo bom, estava sendo mais do que suficiente para alguém que não passava muito tempo na cidade e que não sabia o que fazer com as horas livres que restavam depois dos treinos na academia, das aulas de natação, das corridas no parque, das idas à biblioteca e dos jantares insalubres com Jill ou Erin. De vez em quando, achava tão bom estar com Ben que considerava faltar à biblioteca só para vê-lo secar o brilho de suor na nuca e na testa, abrindo aquele sorriso fulgente que vinha após sair de dentro dela, quando ele se endireitava na cama e precisava de três minutos apenas respirando.
Ela considerava, mas nunca seguia em frente com a ideia. No fim, tudo aquilo não mudava nada para . Não mudava o fato de que ela sabia que não ia pular. Poderia sentar no precipício, balançar as pernas, olhar para as profundezas curvadas de sua dimensão e torcer para encontrar uma luz, mas não dava. Mesmo que tentasse, a situação de seu coração permaneceria inalterada. Atado por correntes de ferro àquele que, em algum lugar do planeta, devia estar respirando aliviado por não precisar mais lidar com o fardo do amor de .
Ben nunca falava de amor. Nunca falava mais do que o necessário que permitia. Nunca fazia perguntas demais, porque sabia que ela não responderia. Só as coisas mais chulas preenchiam o silêncio entre eles, tipo quando ele se interessou pelas roseiras no beiral e tirou uma foto com o celular. Ela explicou sobre os vasos, as mudas, o tempo de sol e em como subornava Erin para ir regá-las metodicamente quando estava viajando. Depois, ela o beijava, transavam no sofá e ele voltava para o carro, indo para a sua casa em algum lugar que ela não tinha conhecimento, para fazer seja lá o que ele gostava de fazer quando não estava com ela.
Em suma, Ben era mais querido que a maioria, mas estava com os dias contados. E até lá, faria questão de se divertir muito com ele.



ALEMANHA
DIAS ATUAIS

Quando Jungkook abriu os olhos graças ao sacolejar do carro em movimento, cada galho passando pela janela estava tingido pelo vermelho berrante do crepúsculo europeu.
Ele não fazia ideia de qual era o lugar exatamente, mas Jungjae estava no banco da frente, dividindo a atenção entre o celular e o notebook enquanto comia rosquinhas de manteiga, então era improvável que estivessem em algum país sinistro. Torres enormes e residências de pedra começaram a tomar o espaço acima de um rio estreito e imperturbável, contornando toda a cidade de ponta a ponta, refletindo as luzes já ligadas dos postes na sua superfície como ouro líquido. Na calçada, as pessoas já passeavam de casacos pesados e botas de chuva, habituados com o clima eternamente cinza e úmido que o porto fornecia no centro.
Hamburgo. Era o que estava escrito naquele cronograma que Jungjae tinha colocado na sua mochila. E no seu celular. E na mesinha de cabeceira do hotel, em todos os hotéis anteriores. Sempre secretamente preocupado de Jungkook dar uma de maluco e cair fora de algum compromisso, seja ele relevante ou não. Já tinha feito uma vez e poderia fazer de novo, é claro. Na verdade, foram três vezes. Todas extremamente desconfortáveis para a to do list metódica do seu agente. O garoto esquecia que antes dos grandões da indústria chegarem nele, passavam pelo e-mail, ligação, cafézinhos e jantares caros cheios de conversa pomposa com Lee Jungjae, o porta-voz do astro mundial e quem iria varar a madrugada lendo e relendo cada proposta de contrato, avaliar se não era uma cilada e aí sim colocar nas mãos de Jungkook.
Consequentemente, se qualquer coisinha desse errado depois de tanta refinação, o chumbo quente estouraria para o lado dele, e não do miserável que tinha escolhido o dia anterior das gravações pra encher o cu de whisky e sumir por cinco horas até ligar e dizer que ia demorar para voltar, porque precisava pegar um avião… do México.
No fim de tudo, Jungjae tinha problemas maiores do que a depressão e os rompantes contraditórios de seu cliente. E nos últimos dois anos, com a situação ficando cada vez mais complicada, precisou sacrificar um pouco do seu modo zen e passar a ficar mais perto do garoto, porque querendo ou não, prepotente ou não, bêbado e drogado ou não, cínico ou não, deprimido ou não, ele ainda era a porra da galinha dos ovos de ouro. O pequeno Jeff Bezos que possibilitava que ele dirigisse um Tesla, almoçasse bife Wagyu todos os dias e pegasse um jatinho para as Maldivas toda terça-feira se quisesse.
A estratégia tinha dado resultado. Para começo de conversa, ele largou a maconha, pelo menos no que diz respeito ao dia-a-dia. Bolava um de vez em quando junto com os amigos de sempre, e também sozinho para ganhar inspiração. Mas no último ano, podia-se dizer que ele estava andando na linha. Sem confusão, sem bebedeira exagerada, sem sumiço repentino, sem putaria colossal na sua casa, sem nada como aquela sequência catastrófica de merdas de seu primeiro término de namoro, com “aquela lá”, como rotulava Jungjae. Nunca tinha gravado realmente o nome dela, assim como não gravou o nome da última, mas não importava, as duas não passavam de falha inconveniente a partir do momento em que deixaram sua mina de ouro em estado de desequilíbrio ocupacional.
O carro foi estacionando devagar no pátio do hotel Fairmont, abençoadamente sem lotação de pessoas que, de alguma forma sempre difícil de entender, tomavam conhecimento do novo hóspede que atracaria ali em alguma hora. Mesmo assim, ainda podia se ver umas dez ou doze cabeças enfileiradas, bem atrás de uma corrente de isolamento claramente improvisada com seguranças franzinos mais improvisados ainda. Apesar disso, foi fácil colocar aquele sorriso bem simulado no rosto e atravessar a entrada, cumprimentando a quem estivesse vendo com uma brevíssima reverência e um tchauzinho que não os deixaria perceber como ele andava rápido. A gritaria foi abafada pelo fone de ouvido, e ele já estava do lado de dentro das portas de vidro antes que uma das garotas barradas conseguisse erguer uma perna e correr com todo o fôlego para o que parecia ser um caminho livre, mas uma horda de homens, despontados de dentro de um segundo carro preto como uma cabine, impediu que a engraçadinha desse uma de esperta. Tiveram mais gritos, xingamentos, ofensas à cabelos, bigodes e machismo estrutural, mas Jungkook não viu nada. A partir do momento em que as luzes amareladas do saguão requintado bateram no seu rosto, ele imediatamente voltou à sua rotineira expressão: olhos baixos, pescoço inclinado, traços duros de um cansaço sem fim e lábios cerrados em uma boca que, ultimamente, só sorria quando era obrigada a isso.
Ele logo se livrou do capuz pesado, bagunçando o cabelo. Os fios novos estavam se encrespando facilmente na região do lóbulo da orelha, e com a frente fria que estava por vir, ficaria ainda pior. Não que estética capilar fosse exatamente algo que o preocupasse, mas teria que ouvir Jungjae ou Meg, sua outra sentinela que cuidava da papelada financeira e, de vez em quando, aproveitava uma viagem ou outra para ajudar Jungjae, dizendo que ele precisava fazer a manutenção do comprimento pelo bem do período de promoções. Depois que a maré alta de Jeon Jungkook passasse (se é que passaria), ele poderia voltar a deixar o cabelo crescer até a nuca, colocar outros quatro piercings e fazer aquela tatuagem que passou para Polyc, um círculo de espinhos vermelhos malevolentes no ombro esquerdo, que deixaria sua mãe de cabelo em pé. O tatuador não entendeu o pedido, mas não perdeu seu tempo perguntando. Sabia que não valia a pena. Jungkook vinha trazendo umas demandas extremamente misteriosas, confusas e totalmente ousadas nos últimos dois anos, desde que reencontrou com a ex-namorada daquele jeito fodido que rendeu semanas de desgraça potente não só para ele, mas para um monte de gente. Principalmente para a outra ex.
O resultado disso foi um crescimento furioso de desenhos espalhados agora pela clavícula, peito, antebraço, pernas e, a última, feita num estúdio minúsculo acima da reitoria de uma igreja abandonada em um beco de Buenos Aires, sendo um contorno singelo perto do joelho que imitava uma espiral geométrica. Até mesmo o mastoide não se livrou, ganhando um ramo enegrecido de tinta que Polyc puxou até formar um 7 em fonte palito, fazendo a mesma coisa em lugares diferentes com os outros seis membros do Bangtan Boys, uma tatuagem de irmandade.
Mas a maioria dessas ideias vinham do furor de um momento alheio, reservado para a bebedeira, o baseado, tudo que o fazia escapulir da realidade e ir para um mundo onde sua vida continuava a mesma, onde ele era o mesmo, onde seus melhores sentimentos não estavam condenados. Teoricamente, não estavam. Mas na prática, quando voltava para o mundo real, só conseguia ver ruína. A enchente chegou a uns cinco metros, levando tudo, e ninguém reconstruía de um dia para o outro aquilo que levou a vida inteira para construir. No caso dele, tinha demorado esse quinhão de tempo para descobrir que tinha bom material guardado às traças no canto escuro do seu coração, do seu discernimento, que o tornavam uma pessoa boa. Mas, como um bom homem tolo e desprezível que estava ainda mais certo que era, ele abriu a porta no meio da tempestade e deixou tudo inundar. Às vezes, ainda achava que estava se afogando.
Quando parava para pensar nessas coisas, percebia que condenados era uma forma muito gentil de julgar a situação do seu emocional. Morte instantânea soava melhor, mais realístico. Considerando onde as coisas chegaram… Porra, era uma loucura de pensamento toda vez, era insuportável tentar entender essas coisas. Ele tinha desistido de pisar no consultório de Minji já iria fazer quase um ano, porque as porcarias que tinha feito e se metido não conseguiam chegar na língua para serem explicadas. Ele tentou, e desistiu em seguida. Entender a situação ia muito além do direito que seu ser canalha possuía.
Ele caminhou em silêncio pelos corredores acarpetados do hotel, ouvindo a voz doce e incansável de Meg recitando, novamente, sua agenda lotada e quem seriam as pessoas importantes que ele teria que encontrar (e que essas pessoas o consideravam a presença importante da reunião), e também de como ele deveria levar a alimentação e os treinos a sério, por causa da campanha de inverno da Calvin Klein e seus jeans que não seriam compatíveis com nenhum tipo de camisa por baixo.
— Tommy mandou uma mensagem. Disse que um pouco de boxe poderia te animar, além de modelar seus ombros para a jaqueta. Tá com fome? — ela usou o cartão para abrir o quarto. Teve que fazer umas duas vezes até conseguir. Apesar da elegância, todo aquele lugar tinha sido construído no fim do século 18 e isso era visível. Jungkook raspou a língua pelo piercing no lábio.
— Ele não disse que eu estava proibido de treinar com outra pessoa?
— Ele teria mais autoridade pra dizer isso se estivesse disposto a pegar um avião pra te acompanhar. Você não fez essa proposta pra ele?
— Fiz. Mas o cara é acomodado demais. Nem dorme se não for na própria cama. — Jungkook jogou a mochila na cama king size, sem fazer questão de reparar no resto do cômodo. Sendo um lugar que não o fizesse bater constantemente com a cabeça contra o teto inclinado ou cravar lascas de madeira no pé por conta de um assoalho apodrecido, estava de bom tamanho. Ao contrário de Tommy, Jungkook estava bem confortável em dormir fora da sua cama sempre que podia.
Meg já estava com o rosto no iPad, falando por cima da tela.
— Vou marcar umas aulas com aquela professora que você me falou. Sari, não é? A que veio da Indonésia.
— Meu Deus, quanto tempo não escuto esse nome. — ele tirou o casaco pesado e o jogou em uma cadeira. Todo o aposento tinha aquele cheiro de casas muito antigas, escondendo um mofo no estuque debaixo de todos aqueles quadros caros. A despeito disso, ele ainda queria deitar naquela cama e dormir até o outro dia, mas Meg precisava sair. E ela só saía quando acabava todas as palavras. — Ela tá morando por aqui?
— Em Londres, onde você vai estar daqui a três dias. Vou falar pra ela reservar um horário no final da tarde, assim não te atrapalha no estúdio.
— Ela deve ter uma porrada de alunos, Meg. Vai fazer ela desmarcar com alguém ou desistir de sei lá, ir no cabeleireiro por minha causa? Consigo me virar na academia do hotel, não se preocupa.
— Duvido que os outros alunos dela sejam Jeon Jungkook. Ou que paguem como Jeon Jungkook. — Meg nem olhou para ele. Ainda estava digitando ferozmente, os olhos acompanhando cada letra vibrando no teclado. — Duas semanas devem dar. É o tempo de começar as gravações e acabar tudo até o show em Budapeste. E você não me respondeu se está com fome.
Jungkook abriu o zíper da mochila, procurando alguma coisa distraidamente.
— Sim, tô com fome.
— O que vai querer comer?
— Um X-Duplo com batata frita.
Meg levantou os olhos por cima da luz branca do iPad.
— Nem pensar. Uma salada com avocado. E kimchi, sem arroz. — a mulher foi andando para a porta, parando por um segundo só para passar o dedo indicador por cima de um móvel com flores esquecidas e verificar se tinha pó. — Descansa um pouco depois de trazerem a comida. Amanhã tem a reunião com o produtor e a primeira passagem de som, caso os Elfos cheguem a tempo. Onde você disse que eles estavam mesmo?
— Saindo de Xangai. Com esse monte de conexão pra cá, vai dar tempo de gravar dois álbuns e mobiliar toda essa catacumba de novo.
— Eles aguentam se for pra dormirem num hotel como esse. E de qualquer forma, precisamos deles pra ganhar uns cinquenta milhões no fim de semana. — ela disse a quantia com ar pensativo e frio, como se almoçasse e jantasse com todo aquele dinheiro diariamente, o que poderia ser verdade, mas no lugar dela, Jungjae estaria com um brilho indecente nos olhos, tratando qualquer centavo como orgasmo mental para um ninfomaníaco. Jungkook apenas assentiu distante, e finalmente viu a mulher sair e bater a porta, concedendo sua tão esperada privacidade.
Foi a hora de reparar nas coisas. Aquele quarto parecia uma kitnet; a cama gigantesca em um canto, uma mesa redonda em outro, uma pequena divisória separando tudo isso do sofá e da TV de tela plana, reluzindo na tela desligada as luzes da cidade que entravam pelas janelas provincianas de uma época que ele hoje conseguia até visualizar um pouco, graças aos romances das Brontë e Jane Austen. Era um exagero ao qual ele, na sua posição, já estava acostumado, mas gostava de lembrar a si mesmo que o luxo aglomerado não significava conforto, pelo menos um conforto mais profundo. Na prática, ele se viraria bem em um colchão fino sobre o chão, e umas caixas de papelão como escrivaninha para tentar arranhar alguma coisa no seu novo Chainsaw.
Antigamente, em uma época não tão distante cronologicamente, mas que estava há anos-luz mentalmente, ele ignoraria totalmente a ordem fantasiada de conselho de Meg e sairia para a cidade, ensacado em casacos pesados e máscaras pretas, procurando um lugar bonito para fotografar, um bar com bebidas que ele nunca experimentou, uma boate onde a escuridão era conveniente e as pessoas estariam bêbadas demais para reconhecê-lo, quem sabe até conhecer uma garota legal e ter um caso de uma única noite, que sempre rendia uma boa lembrança e boa música depois, independentemente da merda que acontecer, e quem sabe meter uma tatuagem nova em alguma parte inusitada do corpo, se sentindo vitorioso como um adolescente por conseguir fazer isso sem que Namjoon ou Meg percebessem. Poderia até encontrar um tapete bacana à venda por três euros no Mercado Noturno, para presentear Bam, mesmo que ele fosse destrui-lo em menos de uma semana.
Mas Jungkook só pegou a toalha, entrou no banheiro granfino com azulejos dourados que não eram nada modernos, tomou um banho quente, aparou aqueles fios rebeldes com uma máquina de barbear, se enfiou numa calça de moletom e uma regata apertada que ganhou de cortesia da Fila, recebeu a sua comida e se sentou na varanda, esticando as pernas no sofá de veludo e atestando que aquela brisa fresca era ótima para um cigarro. E um livro.
Ele abriu Orgulho e Preconceito na parte do baile de Netherfield. Gostava desse livro para caralho. Dava raiva em algumas partes, era totalmente incompreensível em outras, e te fazia torcer para o tal Mr. Darcy acabar a história sem nada, mas o que era esse nada? O que era o nada para um homem que, aparentemente, tinha tudo? Inclusive toda a burrice e toda inteligência do mundo juntas numa cabeça só, ou pelo menos sugeria isso até topar com a Elizabeth, que ele amava e odiava pelo fato de não ser uma tonta como as irmãs.
Jungkook sabia que iria se identificar com o cara desde a primeira vez que o personagem se dirigiu à garota. Um retrato de uma fase da vida que ele não tinha qualquer orgulho, mas que, às vezes, pensava o quão lamentável era o fato do passado ser incorrigível, mesmo que ainda se mantivesse tanto no presente.
Ele puxou uma perna para cima e se colocou a ler, franzindo a testa para a maioria das palavras difíceis, mas bem menos do que antes, quando começou a fazer isso há mais de um ano. Quando sua mente pedia, implorava por uma gota, um vislumbre, um resquício dela, da mesma forma que um viciado em heroína arranhava o próprio rosto implorando pela droga. Ler as coisas que ela lia, ouvir o que ela ouvia, assistir o que queria que tivessem assistido… tudo isso guiavam os passos dele, iam transformando não tudo, mas alguma parte de Jungkook. A parte que agora, naquele momento, estava recusando qualquer coisa que não fosse o silêncio urbano, o Dunhill queimando nos dedos e a cerveja em temperatura ambiente que ele pegou no frigobar.
Qualquer um que visse a cena, não entenderia. Ficariam impressionados com o profundo equívoco daquilo, com essa fachada esquisita vinda de um cara de 27 anos que tinha o mundo aos seus pés.
Mas não era preciso medir as ondas da atmosfera para saber que aquela energia diferente do astro era vindoura de uma época datada de uns dois anos atrás, no início do outono. Foi um baita outono. A maioria dos envolvidos mal se lembravam hoje, mas ele ainda revivia, ainda escrevia sobre isso, principalmente sobre tudo que veio depois.
Tinha um pequeno vaso de crisântemos no beiral da sacada, que fez Jungkook pensar na letra que escreveu naqueles tempos, uma que foi feita num calor hediondo de raiva, uma anomalia de sentimento que foi crescendo excessivamente até o limite, mas, diferentemente de tudo que se acreditava, ele não explodiu. Nem todo mundo explodia e saía por aí, agredindo pessoas e patrimônios públicos, matando a si mesmo e quem passar pela frente.
Não foi uma explosão, foi uma deterioração. Foi um ataque nuclear a todos os seus sentidos em câmera lenta, quebrando-os pedrinha por pedrinha. Ele não via nada, não escutava nada, não acreditava em mais nada.
No entanto, estava ali, vivo, sabendo na pele que ser um filho da puta não matava, mas, como dita o senso comum, existiam coisas muito piores que a morte. E essas coisas se mantém ativas por um tempo quase eterno, um que Jungkook demorou a perceber, a entender, mas agora se sentia totalmente íntimo desse pesar. Sabia perfeitamente o que significava ferida aberta. Entendia que ele acumulou várias, que nem todas cicatrizaram e, a não ser que corresse atrás de resolver isso, ficaria daquele jeito para sempre.
Mas honestamente, ele iria postergar isso. Só sentia essa aura deprimente naqueles momentos, à noite e sozinho, quando nada lá fora era tão divertido como antes e a saudade esmagava seu peito, mas dava para aguentar. Ela estava aguentando, com certeza. Sempre aguentou as surras da vida com muito mais valentia do que ele. Sempre soube se reerguer e se adaptar independentemente de quantos golpes recebesse.
Ele que não sabia fazer isso. Até hoje não sabia.
Jungkook recostou a cabeça e olhou de relance para o Lago Alster correndo na margem do hotel, calmo e cintilante. Ele também pretendia ter uma noite calma daquele jeito, sem se desfazer de seus mecanismos de distração para levantar a tampa daquele poço, cheio de memórias difíceis. Mas ele estava sem nada para fazer e sua mente estava frenética, gritando, querendo colocar para fora. Amanhã ele teria aquela reunião com o produtor fodão de alguma parte da Europa e começaria a gravar as músicas novas para a edição repackage de seu álbum de sucesso. Todo o material já estava no e-mail do cara, e este com certeza já tinha lido tudo e preparado as anotações da pré-produção, mas Jungkook ainda queria criar. Queria dar um nome para tudo aquilo que estava se esgueirando nas suas entranhas.
Ele já tinha um título antes de escrever a primeira linha:
Furious Red.
Vermelho Furioso.
Foram as cores das luzes dos faróis traseiros do carro de Candice quando ela arrancou para longe de sua festa naquela noite.
Depois que as coisas começaram a dar errado.

くくく


SEUL
DOIS ANOS ANTES

A leitura do painel de velocidade do Buick deu um pico extraordinário, a pontinha se deslocando quase até o limite. Tal absurdo deixaria enfurecida e sobressaltada em qualquer outro dia, mas naquele momento, era irrelevante. Até desejou que Candice fosse mais rápido, que saísse voando como as cenas mentirosas de Velozes e Furiosos.
Uma corrente de ar frio saía em espiral da abertura do câmbio, fazendo se abraçar, mas não por causa do clima. Suas unhas estavam fechadas na pele cheia de glitter, os lábios prensados e enrugados de apreensão e ainda um pouco de choque desnorteador, fazendo apenas seu corpo estar ali naquele banco do passageiro, mas a mente vagueando em algum lugar. Se Candice ligasse a lanterna em cima do carro e olhasse para , veria uma expressão que nunca viu, e provavelmente nem voltaria a ver.
Mas Candice estava muito ocupada ficando zangada do seu banco do motorista, apertando o volante enquanto costurava carros na avenida em zigue-zague.
— Aquela vadia! Cretina, miserável, filha da mãe… — os xingamentos saíam de seus dentes cerrados, se misturando e formando novos, alguns desconhecidos em todas as línguas. — Como ela teve coragem de chegar assim? Que porra de segurança era essa? Eles deixariam o próximo Freddy Krueger entrar tranquilamente, bastava ter uma peruca loira e um vestido cafona que aperta os peitos. Cacete, eu mataria ela…
A loira tentou olhar de relance para , mas a amiga continuava sem se mexer, os olhos fixos e retos no reflexo das luzes do farol no asfalto.
A voz de Candice se abrandou um pouco:
— Como você está?
demorou a responder.
— Não sei. — a voz saiu fraca, meio trêmula e perdida. A resposta era verdadeira, totalmente honesta. Várias sensações por segundo desnorteavam um homem. — Eu não sei mesmo, Candy.
Candice ficou com mais raiva, mas logo deu um jeito de aplacá-la. Ver daquele jeito rachava seu coração, trazia de volta algumas insinuações que já tinham praticamente sido extinguidas do cérebro dela. Sem perceber, ela pisou ainda mais fundo no acelerador.
— E você? — a voz de ecoou no meio do som do motor, e Candice suspirou forte.
— Eu seria capaz de raspar todo o cabelo dela. Junto com as sobrancelhas.
— Eu ajudaria você.
— Eu te daria essa honra. Meu Deus, , tudo que essa maluca fez! Deu uma de Gollum, ficou te vigiando de longe através de um merdinha que você considerou seu amigo. Ela não faz ideia do quanto isso é difícil, e ele também merece ter o saco enrolado num cano PVC por isso. Porra, são todos psicopatas? Todos que andam com ela ficam assim, meio maníacos? Será que eles estavam transando às escondidas esse tempo todo? E ela ainda teve a coragem de vir pedindo pra voltar com o ex… — Candice respirou fundo, achando melhor não continuar. Seu rosto pálido estava vermelho, o cabelo loiro quase branco naquela semi escuridão.
As unhas de pararam de apertar sua pele e ela se viu abaixando a cabeça, tapando a visão com as mãos, sentindo como se tivesse levado um golpe na cabeça que não passava de jeito nenhum. Tinha um negócio ruim no seu peito, enlaçando seu coração, se estendendo para o pulmão e o diafragma, uma sensação constante e cortante de estar se asfixiando aos poucos. Ela ponderou o que seria necessário para retirar aquela coisa dali, mas os pensamentos estavam espalhados, sem linearidade. O que aconteceu primeiro? Ali soube quem ela era antes ou depois de ter conhecido Changmin? Ele contou para a modelo sobre Jungkook estar em outra? Changmin estava esse tempo todo usando algum bloquinho de notas, catalogando seus passos e sabe-se lá Deus mais o que de dentro do seu quarto sem mobília e sem ar-condicionado em Nowon-gu, mandando tudo para Ali em texto corrido? Ela soube seu nome já em Los Angeles, quando estava com Jaehyun? Ele também mentira sobre tudo? Voltou a encontrá-la depois disso?
Mas a maior e pior das perguntas estava ali, gigantesca, em branco, desesperadora:
Quando Jungkook soube de tudo isso? E como pode esconder dela?
No fundo, ela não queria saber. Gostaria de se fazer de maluca, dormir um sono dos anjos e acordar contando a si mesma que tudo tinha sido um pesadelo, que o trabalho estava frenético, que Jungkook tinha assistido Cães de Aluguel sem ela e isso logicamente a deixaria brava, e que, se fosse necessário, até poderia tomar um pouco daquele chá horrível de Yoona para dormir e se esquecer que toda aquela ocasião tinha de fato existido no calendário.
Mas nunca foi adepta de irrealismos, então estava sendo forçada a encarar a realidade. Quando tudo isso se abrandasse, se é que iria, ela decidiria o que fazer. Primeiro decidir o que pensar, depois no que fazer.
E, por hoje, qualquer uma dessas coisas não envolvia Jeon Jungkook.



Não havia como escapar do calor fulgente que fazia naquele estúdio, mesmo com o termostato indicando uma temperatura agradável. Era um calor de vários verões somados, irradiando em cada um com intensidades diferentes.
Hoseok estava suficientemente familiarizado com a sensação de suor escorrendo por dentro da camiseta, desde que se pôs a caminhar para dentro daquele cômodo com a mente em completo branco.
Ele achou que Jungkook gritaria, ou pior: achou que Yoongi fosse quem faria a abertura, olhando-o daquele jeito que Hoseok sabia que o amigo nunca tinha olhado para nenhum deles, um olhar que já fazia tempo que tinha sido extinguido de seu catálogo de expressões, um olhar de desprezo e cólera que ele não fazia desde que tinha largado seus três empregos temporários em Daegu que pagavam a sua anuidade no estúdio até decidir virar um ídolo na capital.
O olhar aconteceu, mas nenhum deles gritou. Não no início, quando a porta se fechou e aquele silêncio se tornou quase sufocante. Jungkook fechava as mãos em punho, provavelmente com vontade de dar um soco no amigo ou de puxar um cigarro, tanto faz, as duas coisas o aliviariam, e Yoongi ficou parado, encarando Hoseok sem desviar, procurando uma explicação para si mesmo antes de perguntar.
O silêncio foi quebrado por Taehyung:
— Mas que merda é essa de você estar de papinho com a Ali esse tempo todo? Pirou?
— Eu posso explicar. Eu juro que eu posso…
— Poupa a sua saliva. Só quero saber se tudo isso é verdade. — Yoongi interrompeu com a voz dura. — É verdade que você contou pra ela sobre mim e Candice?
No início, ele ficou em silêncio. Não tinha uma explicação legível na sua língua, todos os motivos pareciam irrisórios diante do desenrolar catastrófico. Ele ainda estava encarando Jungkook, que por outro lado, tentava não encará-lo porque sentia que se fizesse isso, iria abrir mão da diplomacia e resolver as coisas de outro modo (um que era totalmente intolerável no meio de seus colegas de trabalho).
— Eu… eu… olha, não foi desse jeito…
— Você contou ou não? — Yoongi trovejou.
— Contei. Mas caramba, eu nunca achei que ia virar o que virou, Yoongi! — ele olhou com olhos agitados para Jungkook, que tinha parado de andar, mas ainda não se dava ao trabalho de se virar. — Nunca imaginei que aquela confusão toda tinha sido culpa da Ali. Ela mal queria saber da notícia, e nem dá pra dizer que contei, porque não passou de um comentariozinho, nós não…
— E você não achou que um comentariozinho fosse fazer mal, não é? — Jungkook se eriçou, as palavras saindo como flecha de fogo. Yoongi estava com a pior expressão do mundo, mas ao contrário do maknae, fazia questão de apontá-la para Hoseok. — Você nunca pensa que as coisas podem fazer mal, esse é o caralho do seu problema. Achou mesmo que Ali estava sendo legal com você a troco de nada? Achou mesmo que ela se importava tanto com essa coisa de amizade? Caramba, onde você tava nos últimos meses? Ela acenderia um isqueiro num spray de desodorante em cima do seu cabelo só pra ver se é divertido.
— É claro que ela queria alguma coisa, Jungkook, ela queria saber de você! — Hoseok se agitou para perto, gesticulando com os braços — Ela sempre quis saber de você, esse sempre foi o tema central da conversa. E não vejo porque eu deveria simplesmente parar de falar com ela só porque vocês dois estavam dando um tempo…
— Quê? Que tempo, que merda você tá falando? A gente não tava dando um tempo, a gente nunca deu um tempo, ela me traiu, porra! Já esqueceu disso?
— Eu sei, mas as coisas não foram bem assim…
— Ah, não foram, e isso foi o que ela te contou? Foi a historinha que ela falou pra te convencer que ela merecia ficar por dentro da nossa vida? Me poupe…
— Calma, Jungkook. — Taehyung colocou uma mão sobre o esterno do amigo antes que ele desse passos perigosos para a frente, que estava dando sem perceber. A respiração dele era um bufo alto, quase se condensando no ar. Toda partícula de felicidade e animação que estava demonstrando mais cedo na sua festa tinha evaporado para a estratosfera.
Yoongi estava na mesma, provavelmente até mais puto. Estava perplexo, na verdade. Tão perplexo que nem sabia qual movimento fazer a seguir. Se fosse qualquer outro babaca, Yoongi poderia gritar, ameaçar, se desdobrar em raiva, mas com Hoseok as coisas ficaram complicadas. Não era um babaca qualquer, era um babaca que ele conhecia há dez anos, que sabia perfeitamente qual sua bebida favorita, sabia de sua história de vida e sabia que ele estava acumulando horas de trabalho no verão para ter um outono mais tranquilo com Candice, antes que as reuniões do próximo álbum começassem. Ele sabia de tudo isso, sabia até de mais coisas, porque Yoongi, um tolo apaixonado, costumava passar duas horas falando da loira entre um passo de dança e outro, entre um acorde e outro, entre uma gravação e outra.
Nunca nem passou pela sua cabeça que qualquer coisa dita ali chegaria aos ouvidos de terceiros. Quanto menos aos ouvidos de Ali Dalphin.
Um remorso estava se avolumando sobre Hoseok a cada segundo, as imagens dos últimos minutos passando no seu cérebro em looping. Consequentemente, o remorso se transformava em pesar, que se transformava em frustração, que se transformava em um enorme “meu Deus como sou burro”.
— Eu não imaginei que ela faria isso. Eu tô falando sério! — ele enfatizou, ignorando os olhares ainda mais pesados em cima de si. — Olha só, eu gosto da Ali, tá legal? Eu sempre gostei dela, sempre nos demos bem, a gente conversava até sobre pastilha de freio, caramba. Quando tudo aquilo aconteceu, eu achei que teria que escolher um lado, crucificar a garota como todos vocês e ficar por isso mesmo, mas na boa, ela não fez nada contra mim. Então por que eu iria ignorar uma ligação dela? — Hoseok foi resoluto. Jungkook riu pelo nariz, ou o que quer que tenha sido aquela soltura de oxigênio quente.
— Eu nunca disse pra você se afastar de ninguém, Hoseok…
— Eu sei, mas também não disse pra eu não me afastar. Não disse que eu deveria ir conversar com ela e ver o que aconteceu. Não disse nada, e Ali também não disse, e ficou por isso mesmo até ela conversar comigo. Não tinha nada demais, ela sempre queria saber de você, e de todas as novidades, e coisas aleatórias de alguém que estava viajando fora de casa há muito tempo. Foi nessa que eu… — ele engoliu a voz. O sentimento de estupidez voltou com tudo. — Comentei que Yoongi não estava mais solteiro. Foi automático, e eu sei que errei, mas eu não fiz por mal, eu não quis complicar nada!
Jungkook grunhiu em alto e bom som, e foi a vez de Yoongi desviar o rosto, bagunçando o cabelo preto até ficar armado. Parecia que tinha óleo nas articulações, todas deslizando e coçando para socarem alguma coisa, e pela primeira vez talvez em bons anos, ele não acharia tão ruim que esse algo fosse o nariz de Jung Hoseok.
— Pois é, mas adivinha só? Você fodeu com muita coisa. — Jungkook alfinetou. — Achei que você já tava na idade de ter malícia no mundo, de desconfiar de gente que nunca demonstrou interesse em você. O que você estava esperando de Ali? Como não percebeu que ela só queria me atingir de algum jeito? Como nem pensou nisso quando os jornalistas apareceram na festa da Candice? Além disso, principalmente, como pensou que eu fosse me importar com qualquer coisa que ela estivesse querendo, porra?
— Porque nunca imaginei que você ia parar de se importar, cacete! — Hoseok gritou. — Você se importava com Ali mais do que sua própria vida, tudo que andava fazendo não passava de uma distração, tudo que ouvia e cantava era sobre ela, tudo que escrevia, e daí você aparece com outra do nada, com uma garota que participou diretamente do seu término, uma garota que você nem dividiria um refrigerante! Como você queria que eu adivinhasse isso?
não participou…
— É claro que participou! Ela estava lá e sabia o que estava fazendo, sabia que você tinha alguém e mesmo assim tirou a foto. Existia a outra opção, JK, a opção de ela ter guardado a câmera e respeitar o seu momento, mas não foi a escolha que ela fez, foi? Ela até podia se dar um minutinho pra fechar os olhos e fingir que não viu nada, mas o emprego dela estava em jogo, o emprego de paparazzi, um emprego que é especializado em expor as coisas da nossa vida como se a gente não tivesse uma. Ela fez isso com dezenas de outras pessoas, e não importa se não queria fazer, querer não é nenhuma ação, querer não muda a ordem dos acontecimentos, assim como você ter se apaixonado por ela não altera o fato de que ela provavelmente te levou a sentir isso, a partir do momento em que abriu caminho pra que Ali se sentisse tão perdida a ponto de ir embora. Pensa um pouco, Jungkook!
O estúdio ficou em silêncio. A respiração pesada de Hoseok era um ruído estridente, captando o ar que tinha sido parado de ser absorvido pelos pulmões dos outros. Até mesmo Yoongi baixou os ombros, chocado, entendendo seu papel de efeito colateral, e não a desgraça principal.
E Jungkook ficou ali, olhando o amigo, sem expressão aparente, sem demonstrar raiva, mágoa, surpresa, nada. Sem deixar claro no ar se seria agora que daria aquele soco em Hoseok. Ele só ficou ali, adentrando naqueles olhos decididos do amigo, e ao mesmo tempo trêmulos, claramente sendo a primeira vez que soltava aquele pensamento em voz alta.
Por fim, seus músculos relaxaram aos poucos.
— Eu sei que mais tarde você vai relembrar tudo que você disse e vai perceber como foi um imbecil, então vou te dar uma folga sobre isso. Mas quero deixar claro uma coisa: você não sabe nada, absolutamente nada, sobre mim e , e tudo bem, eu não preciso que saiba em detalhes porque sei o que você viu, sei o que sentiu, sei que presenciou meu estado imprestável depois daquela merda e em como as coisas voltaram aos trilhos depois que conheci ela. Não dou a mínima pra cota de participação de no meu término, não me importo com as coisas que eu disse ou fiz quando a conheci, porque de um jeito ou de outro, toda aquela merda serviu pra me despertar da situação totalmente errada que eu estava metido com Ali. Finalmente, eu fiquei com os olhos abertos pra reconhecer que eu merecia um pouco mais, só um pouco mais, Hoseok, que eu merecia mais do que um “Oi” vago numa mensagem de texto de três em três dias, mais do que ela deve ter dito pra você que fazia. Não me importa nem se você quiser embarcar na loucura da Ali e escrever uma carta de denúncia e jogar no Weverse amanhã, porque é o que me importa hoje, Hoseok. E eu importo pra ela, uma coisa que é muito irrelevante pra você em um relacionamento aparentemente, mas é por isso que não existe mais eu e Ali. E ela vai acabar entendendo isso em alguma hora, já você eu não tenho tanta certeza, e que se foda. — ele se aproximou mais um pouco, as células tremendo de raiva, em alta atividade de fúria, mas não precisou que Yoongi se alarmasse. Suas palavras foram bem diretas e secas: — Agora, quero que você se mande da minha casa e fica longe da minha vista por uns bons dias até eu relembrar que você só é um palerma ingênuo demais e não uma pessoa de merda. Agora eu vou tentar fazer com que a minha namorada fale comigo. Apaguem a luz quando sair.
Ele imediatamente seguiu para a porta, sem se dar ao trabalho de verificar as expressões dos amigos, sejam elas chocadas, espantosas ou seja lá o que fosse. Não sabia direito o que pensar sobre Hoseok, sobre suas boas intenções que tiveram consequências horríveis, sobre o que ele pensava sobre suas ações. Que se foda. Eles eram amigos e iriam voltar a se abraçar e rir como antes, eventualmente, talvez em pouco ou mais tempo, mas naquele momento, nem conseguia se importar com isso.
Ele tinha outras coisas para resolver. E iria resolvê-las, mesmo que estivesse grudento de suor e com a cabeça dolorida de tanto latejar.
Acima de tudo, estava cansado. Sempre ficava cansado toda vez que cogitava, pensava, desenvolvia a ideia de contar para sobre Changmin. Sabia que seria uma conversa difícil, sabia que abalaria sua namorada, sabia que reviveria coisas desagradáveis… mas o que poderia fazer agora? O leite já se derramou.
Sem olhar para os lados, ele marchou para a garagem, pouco se fodendo se ainda tinham pessoas que ignoraram os avisos de fim de festa, se tinha gente bêbada no seu tapete, se seu celular estivesse tocando sem parar, se seus amigos já estavam sabendo de tudo ou apenas da versão distorcida que o telefone sem fio tinha começado a proliferar. Seu único destino era a Mercedes bem guardada no subsolo, e seus pés se enterrando pesadamente no acelerador.
Antes de cruzar a esquina, ele achou ter ouvido o som sendo ligado de novo de dentro do casarão.




c o n t i n u a...


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