“E eu nunca imaginei, nem em um milhão de anos
Que eu conheceria tantos amantes
E todos os meus maiores arrependimentos mais musculosos explodem detrás dos meus olhos como
Esportes americanos.”
American Sports
GROENLÂNDIA
DIAS ATUAIS
O azul incontrolável do céu da Baía de Disko irradiava em cada pedaço de braço, perna e cílios expostos dos passageiros do Cessna 172.
tinha conseguido prender o cabelo antes que o vento a 40 quilômetros por hora o arrancasse desde o couro cabeludo, porque ali, no extremo oeste da Groenlândia, a realidade era essa: perigosa, imprevisível, mesmo com a vista majestosa.
Will tinha tentado sugerir que ela fizesse um coque, ou que escondesse aquela montanha de cabelos em uma touca, ou até que ela cortasse logo aquilo tudo antes que arrastasse pelo chão, mas não o deu ouvidos. Principalmente porque a parte do cortar não era sério. Ele amava o cabelo dela.
— Na verdade, eu amo as tranças que você me deixa fazer, isso sim.
— Eu não sou sua boneca, Will.
— Eu sei. Você me diz isso todo dia, friamente, mas eu vou continuar me relacionando com o seu cabelo, sim, obrigado.
Will amava mesmo o cabelo de , e dizia isso nos momentos mais aleatórios, até mesmo pegando um cardápio laminado de um bar de beira de estrada em Moçambique. No início, dava um sorrisinho meigo de agradecimento, e seu rosto até queimava às vezes quando ele dizia tal coisa muito perto, mas depois de ter cedido às provocações em algum hotel 2 estrelas na beira de uma estrada na Turquia, a curiosidade desapareceu, restando apenas a boa amizade.
Uma amizade cheia de altos e baixos, discussões e certas situações que faziam Will Allen ter certeza de que passaria o resto da viagem pedindo mesa para um. Situações como aquela em que se encontrava agora, inflando os pulmões para berrar:
— Você tá MALUCA, PORRA? — a voz dele foi surrupiada pelo vento forte no exato instante em que a porta do hidroavião se abriu, quase fazendo sua língua enrolar de volta para a boca. já tinha se livrado do headset aeronáutico, determinada a não ouvir nada. — Você quer me foder, ? TÁ QUERENDO ME FODER? A JILL VAI TE MATAR!
— O quê? — gritou do outro lado, já no limiar da porta aberta, uma perna apoiando o corpo inteiro, impedindo-a de despencar no vazio do oceano. A gritaria em volta não era apenas de Will, mas do piloto, e do homem gorducho encolhido em uma poltrona, com o meio das pernas já úmido pelo medo apavorante de morrer. — Eu não tô te ouvindo!
— Fecha essa porra que vou fazer questão de você me ouvir, sua infeliz! Volta pra cá agora, …
— Quê? Cacarejar? — ela franziu o cenho, mas logo abriu um sorriso, provocando. Viu o rosto de Will ficar vermelho, o vento forte dividindo seu cabelo loiro e liso em dois. Ele costumava girar os calcanhares e sair de perto dela quando a via sendo inconsequente por aí, mas agora, ali, a 200 pés de altura no meio do oceano Atlântico, ficava meio difícil. — Fica quietinho aí e me deixa trabalhar, William.
— !
— Ela está vindo! Olha lá! — apontou com a mão livre para baixo, para a água tremulante e extremamente azul. Na outra, estava segurando sua Sony Alpha, com a lente telefoto tão grande que parecia o bico de um pelicano, pesada e profissional, mas que funcionava na mão dela como uma faca funciona na mão de um cozinheiro. Ela firmou os pés com mais força e gritou, girando a lente: — Bob! Desce mais aí!
— Não, Bob! Não desce! — Will interviu.
— BOB, DESCE MAIS!
— Você quer matar a gente, porra?
— Talvez não seja uma boa ideia, senhorita . — Bob, o piloto careca com um singelo sotaque arrastado, gritou sem dificuldade de seu lugar.
— Bob, qual é! Eu tô com pressa! Ela já vai chegar! — grunhiu, apressada. Ela empinou o queixo para o lado, virando a cabeça para semicerrar os olhos, que já estavam irritados pelo vento forte e a maresia salgada, que entravam pelos seus pulmões comprimidos pelo bote salva-vidas grudado no corpo. Era mais do que o suficiente. — Desce logo essa merda!
— , porra!
pensou em rebater, mas então ela viu. A ondulação na água ficando mais rápida, mais forte, trepidando o ecossistema geral. Sem perder tempo, já posicionou a câmera, firmando mais a perna.
— Ali! Ela tá ali! É ela, não é, doutor? — gritou sem olhar para o homem pálido e horrorizado atrás dela, abraçado contra o banco verde.
— P-por favor, s-senhorita, n-não faça…
— Eu sei que é ela, pode dizer. Aquela garça saiu correndo, as anêmonas sumiram, é ela, doutor, pode falar que sim!
— Jesus Cristo… — o homem soltou o ar. Suor quente descia em cascata pela lateral da sua bochecha, empapando as axilas e outras partes, enquanto seu corpo não parava de tremer. — Eu p-preciso d-d-dsscer…
— , que merda, olha o que você tá fazendo com o velhote! Ele é a nossa matéria de capa, porra! — Will continuou, sabendo disfarçar melhor seus tremores do que o homem de terno marrom.
— A nossa capa vem vindo aí, seu idiota! Ela vai-
De repente, um “zuuuuuuuuuuum” intenso e agourento rasgou o próprio vento forte quando a carcaça cinzenta começou a emergir da água turva, quebrando o silêncio da própria atmosfera marítima.
O coração de disparou no peito.
— BOB, AGORA! ANDA LOGO, DESCE!
— Bob, não!
— ANDA LOGO!
O berro dela foi incisivo, daquele jeito que só em seu momento mais entretido no trabalho conseguia ser, sendo capaz de fazer uma turma de presidentes da república abaixarem a cabeça para obedecê-la. Bob, já ciente de tudo isso, xingou entre os dentes e virou o manche para inclinar significativamente o avião, arrancando um grito estarrecido de Will, um desmaio no convidado e uma risada gostosa de .
Ela afastou o tronco para trás a tempo de ver o tão aguardado momento: a estrutura carnosa da baleia-azul se expondo ao sol forte, cravejada de cracas, lodo, plantas, esqueletos de peixes e milhares de outras coisas que estavam sendo registradas em cliques infinitos da câmera poderosa da melhor fotojornalista da National Geographic.
A baleia subiu, subiu e subiu até estar em contato com o oxigênio, crescendo majestosamente até que o avião não passasse de uma lata de lixo ao lado do Empire State. Tamanha grandeza assustava o mais singelo dos homens dentro da aeronave, mas tudo aquilo arrebatava para outra atmosfera. À medida que a baleia subia, sua câmera tirava mais fotos, qualquer mísero movimento era catalogado, qualquer derramamento de água sobre sua pele grossa era indiscutivelmente lindo. Ela sabia que seria lindo desde que foi designada para a matéria, desde que participou da primeira reunião com o grande doutor oceanógrafo Bryan Cameron, desde que ouviu da boca torta dele que “
uma aparição da baleia-azul na costa oeste da Baía é sempre um evento raro e pouco registrado. Esses animais aparecem duas vezes por ano e depois somem como se nunca tivessem estado ali. Com as mudanças climáticas, talvez nenhuma apareça, então não vamos ter esperanças…”
Mas tinha esperanças. É claro que tinha. Jill a tinha colocado naquela matéria especialmente porque ela
sempre tinha esperanças, e porque sabia que faria de tudo por aquele registro. Que ela não tinha medo de nada, nem mesmo quando sua vida estava em risco.
Era um traço que Jill sempre tinha achado muito, muito curioso.
— Um pouco mais, Bob! — gritou ela, com o olho grudado na lente.
— Tá maluca, porra? Quer se enfiar na boca dela? — as palavras de Will tropeçaram para fora, quase sem completar, e dessa vez não por causa do vento, mas porque ele estava com medo. Afinal, seu trabalho era sempre atrás de um computador, o completo oposto de .
— Ela vai dar o salto. Não vai, doutor? Foi isso que você disse ontem na revisão!
O homem não respondeu. Seus olhos estavam caídos, como se tivesse desmaiado e voltado umas cinco vezes nos últimos cinco minutos.
— Doutor? — virou a cabeça de perfil. Will soltou um urro.
— Chega, merda! Sua dissimulada! Você tá fazendo o cara passar mal! Bob, sobe com essa merda, esse bicho vai atacar a gente!”
— Não sem antes ela pular, Will!
— Que termo mais idiota! Não é assim que se fala, porra!
— Tanto faz, a gente vai esperar! Ela já vai-
— Por favor…. Por favor…
olhou para o homem encolhido de novo. Não entrava na sua cabeça como um estudioso dos oceanos ficava daquele jeito diante de tanta beleza, ainda mais quando estava relativamente bem seguro nos seus cintos de segurança extra fortes.
— , qual é! Você já tirou as fotos, agora a gente vai embora. — Will tentou, a voz mais branda, os olhos grudados no bicho que não parava de crescer à medida que avançava. continuou olhando para ela, esperando, torcendo. Mandando energias positivas por telepatia, dizendo que a peça rara da natureza podia confiar nela. — -
— AGORA!
A água começou a borbulhar. Pequenos montinhos de espuma se condensaram até serem rasgados pelo corpo volumoso do maior animal que já habitou no planeta Terra. A baleia-azul, linda e camuflada com o mar, emergiu para cima, exposta ao oxigênio, a carcaça úmida brilhando no sol, maior do que um navio cargueiro, maior do que tudo que já viu de perto.
Os outros não tiveram forças nem para gritar. Mas gritou, abismada, a câmera tirando fotos sozinha, seu dedo trabalhando enquanto tentava admirar e trabalhar ao mesmo tempo. Gotículas de água salgada voaram sobre ela e na parte de dentro do avião, pequenos peixes foram jogados para o lado no momento em que a baleia deu seu salto, ficando uma eternidade de milissegundos pairando no ar até seu corpo bater na água com força, espalhando tudo aos quatro ventos, afundando com a cauda enorme logo depois.
Por um instante, a perna que apoiava fraquejou, e ela pensou mesmo que poderia cair, mas foi por pouco. O coração estava batendo na garganta, a cabeça tinha ficado em um silencioso ruidoso, e talvez ela tivesse sentido tanto medo quanto os outros por um tempo, mas isso era insignificante diante daquele ato que tinha se tornado tão bom e tão ruim ao mesmo tempo:
Sentir.
Todo o seu corpo estava formigando por sentir. Os órgãos tinham se movimentado de um lado para o outro quando Bob desceu a aeronave e subiu de novo. Quando a baleia passou tão perto de seus olhos que interrompeu toda a luz no rosto dela. O sangue nas veias correu rápido demais, percorrendo todos os hemisférios de seu organismo daquele jeito envolvente que ela já estava carente há um bom tempo.
E sentia falta de experimentar isso. Tanta falta que buscava a sensação sem pudor, sem misericórdia de si mesma, mesmo sabendo qual tinha sido a fonte dessa necessidade.
Todo esse torpor foi cortado bruscamente quando Will irrompeu do próprio medo e a empurrou para o lado, puxando a porta corrediça do avião com os braços que estavam acostumados a puxar 90kg no supino e afundou o turboélice em um silêncio parado e vazio, graças ao corte do vento. Bob nem precisou de comandos; em um instante, estava girando o manche e saindo o mais rápido possível do meio do nada em mar aberto.
balançou a cabeça, piscando os olhos já vermelhos pela maresia, o cabelo revoltado por toda parte, a câmera aninhada no peito como se fosse um filhote assim que caiu sentada na parte de trás da aeronave.
As narinas de Will estavam dilatadas. As veias na sua testa saltando para fora. Provavelmente, daquela vez ele iria levar mais um tempo pra conseguir perdoar . Principalmente pelo fato de ela tê-lo feito se sentir tão… medroso. Insignificante.
Mesmo assim, ela engoliu em seco, jogando uma mecha arrepiada para longe do olho e abrindo um sorriso elegante.
— E então, quem vai querer café?
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Billboard, 14 de julho
DO GRUPO AO UNIVERSO: JUNGKOOK QUEBRA RECORDES E REAFIRMA SEU TRONO GLOBAL!
The Rolling Stone, 20 de julho
HISTÓRIA FEITA! JUNGKOOK ARREBATA RECORDE ATRÁS DE RECORDE E IMPRIME SEU NOME NA MÚSICA
The Hollywood Reporter, 5 de agosto
ALÉM DAS EXPECTATIVAS: JUNGKOOK SUPERA TODOS OS LIMITES E DEFINE O FUTURO DO POP
The New York Times, 12 de agosto
“JUNGKOOK: O VOO SOLO RUMO AO OLIMPO GLOBAL DO POP!”
De um dos maiores nomes do BTS a um fenômeno sem precedentes em carreira solo, o "Golden Maknae" não apenas brilha, mas ilumina um novo caminho para a música mundial, quebrando recordes e arrebatando corações.
Jungkook nunca foi apenas "o maknae" (membro mais novo) do BTS. Com um talento multifacetado que o apelidou de "Golden Maknae", ele sempre prometeu ir além. Agora, em sua explosiva carreira solo, ele não apenas cumpriu a promessa, como a superou de forma espetacular, redefinindo o que significa ser uma superestrela global.
Desde seu primeiro single solo, Looping, Jungkook tem dominado o cenário musical de uma forma que poucos artistas conseguem. Seus lançamentos não são apenas músicas; são eventos globais que paralisam a internet, esgotam estoques e viram febre nas redes sociais.
"É simplesmente insano o que ele está fazendo," comenta Jon Pareles, renomado crítico musical de Nova York. "A transição de um grupo tão gigantesco para o sucesso solo é um desafio monumental, e Jungkook não só o superou, como elevou o nível. Ele tem a voz, a presença de palco e uma capacidade inata de se conectar, que são raras de se ver em um só artista."
Forbes, 22 de agosto
“O FUTURO DO POP: NAS MÃOS DO "GOLDEN MAKNAE"
Com a carreira solo de Jungkook em ascensão meteórica, o futuro do pop parece mais vibrante do que nunca. Sua capacidade de mesclar gêneros, entregar performances vocais impecáveis e manter uma conexão autêntica com seus fãs o posiciona não apenas como uma estrela atual, mas como um ícone duradouro.
"Jungkook está mostrando que a era solo pode ser tão impactante, ou até mais, que a era de grupo," observa a doutora Emily Chen, especialista em cultura pop e tendências musicais. "Ele representa uma nova geração de artistas que transcende fronteiras geográficas e culturais, impulsionada pelo talento e pela paixão de uma base de fãs globalmente conectada. Ele não está apenas batendo recordes; ele está escrevendo o próximo capítulo da história da música pop."
Com o mundo a seus pés e o céu como limite, Jungkook prova que seu voo solo é apenas o começo de uma jornada lendária.
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CALIFÓRNIA
DIAS ATUAIS
Jungkook odiava o carro que tinham alugado.
Dava para ver que era uma coisa que não foi usada tempo suficiente por seres humanos quando jovem só de olhar para a lataria fosca estilizada com uma faixa verde enorme que devia ser popular nos anos 1979, mas agora tinha virado uma coisa desagradável, tanto para olhar quanto para estar, já que o banco não chegava para trás o suficiente para caber suas pernas longas.
No entanto, foi muito fácil esquecer do carro desde que ele baixou a capota e arrancou na Highway 1, sentindo o vento marítimo se avolumar sobre ele e a avenida lisa, tão forte que seria capaz de arrancar seu cabelo se ele não estivesse tão curto. Várias vezes, pensou que os óculos escuros fossem sair voando, mas nem assim ele diminuiria ou voltaria para pegá-los. Desde que tinha saído às pressas do hotel Chateau Marmont naquela manhã, tudo que menos queria era olhar para trás.
Mas, infelizmente, ele ainda tinha telefone. E tinha esquecido de esquecê-lo.
— Você tá interrompendo na melhor música do álbum. — ele grunhiu para o celular acoplado ao som do carro, que não era dos melhores, mas apreciar The Walters não dependia de excelência tecnológica.
A voz do outro lado soou como um bicho que já tentou mordê-lo várias vezes:
—
Jeon. Jungkook. — o bufo saiu quente e alto, mais alto que o vento. —
O que você pensa que tá fazendo agora, cacete?
— Manobrando na Highway. Já bebeu suco de abacaxi dentro de um abacaxi?
—
Você tem uma entrevista em trinta minutos.
— Eu sei.
—
E um show hoje à noite. E duas apresentações amanhã. Uma delas no programa do Stephen Colbert…
— Jamais me esqueceria do Stephen, Jungjae.
—
E tem a prova de figurino para as fotos da People Magazine às quatro. E não se esqueça de Londres na semana que vem! Então vou repetir: o que você pensa que está fazendo que não seja estar no hotel pra esperar a porra dos maquiadores? Eles custam uma fortuna.
Jungkook não respondeu. O carro era uma verdadeira merda. Estava resistindo aos seus esforços de fazê-lo chegar ao limite de velocidade, andando no seu próprio ritmo e pouco se fodendo para o dele. Além disso, aquele vidro temperado era embaçado demais para deixá-lo apreciar a paisagem da Califórnia no fim do verão, um lugar que o dava vontade de nadar, beber champanhe, fumar um baseado e finalmente aprender a surfar.
Também o dava vontade de cantar. Desenhar. Andar na praia e observar tartarugas migrando para o mar.
—
Você tá pensando naquilo, não está? — a voz de Jungjae rasgou os pensamentos do maknae. —
Aquilo que você leu hoje de manhã. Sobre o que você disse ontem…
— Eu não disse nada ontem.
—
Se tivesse dito nada, viraria notícia de qualquer jeito, mas você escolheu a pior hora pra ser sincero demais.
— Eu sempre sou sincero demais.
—
Na frente das câmeras, você é até capaz de dizer que ama roxo.
— É uma cor ridícula pra um carro. Uma cor ridícula pra tudo, na verdade.
—
Ai, moleque. — Jungjae estalou a língua. —
Não precisa sair correndo quando diz algo que se arrependeu. Se falarem sobre isso de novo, é só trocar por outro assunto e pronto, vida que segue, você fez isso a vida toda!
Jungkook riu com sarcasmo, com perplexidade, com uma vontade insana de xingar seu agente brilhante e, de quebra, acelerar aquela lata velha até que ela se desmembrasse e fosse picotada em várias partes.
Mesmo naquele momento, quando não estava perto de nenhuma câmera, nenhum veículo da mídia ou de pessoas que ele precisava impressionar, como todo o circo de Hollywood que amava vigiar cada um de seus passos, Jungkook ainda não conseguia dizer o que realmente estava pensando. Muito menos o que estava sentindo.
Uma das exigências de Jungjae, de sua agência e dele próprio quando decidiu embarcar na carreira solo há mais de um ano era de que ele fosse discreto. Não que fosse tão difícil; ele era um membro do BTS, com suas diversões e puladas de cerca ocasionais sempre acobertadas sob muito dinheiro e influência, mas daquela vez, com o seu nome em jogo, ele estava fazendo questão de não chamar atenção — o que andava sendo brutalmente impossível, visto que ele era
Jeon Jungkook, o astro mundialmente cobiçado, mencionado, extremamente observado e o objeto de desejo de pilhas de nações inteiras que se convergiam em várias partes do mundo para vê-lo nem que fosse por um outdoor de campanha.
Mas ele estava conseguindo. No último ano, em uma rotina intensa de estúdios e viagens, todo mundo estava ciente de cada detalhe da vida
profissional dele. Só isso.
Até a noite passada.
Se pudesse, ele apagaria as últimas dez horas da sua vida, a começar pela escolha da roupa. Ela era encouraçada e apertada demais, mesmo que os comentários da internet tenham ovacionado o designer e a grife pela escolha do Golden Maknae como novo modelo. Disseram que a roupa tinha nascido para ele e vice-versa, e até daria para concordar com isso se Jungkook não tivesse descoberto do pior jeito que o tecido era uma porcaria.
Que tipo de grife chega nesse patamar permitindo que uma manchinha de ponche ficasse tão grudada?
Foi assim que ele adentrou no tapete vermelho do American Music Awards, debaixo dos flashes incansáveis, gritos e cochichos da imprensa em peso e aquela mancha lamentável e possivelmente incriminadora na barra da jaqueta de couro vintage. Jungjae o obrigou a colocar alguma distância entre ele e os jornalistas, e Jungkook sabia que não era apenas pela mancha vagabunda na roupa caríssima.
Era porque não tinha sido apenas
um copo de ponche. E não tinha sido uma mancha feita por terceiros. Ele estava bem perto do status de bêbado, que já era, por si só, um traço bastante cotidiano, e continuaria tirando de letra a dinâmica das interações sociais se não tivesse decidido virar aquela garrafa dentro da van em movimento.
Mas ele conseguiu. Posou para as fotos, recebeu os olhares de adoração que andava topando em cada esquina, carregou zelosamente sua postura e seu sorriso contra as máquinas fotográficas da elite, mantendo seus indicadores de vendas e seu topo no pódio das trends totalmente intacto.
Mas ele tinha que parar para uma entrevista. É claro que tinha. Por questões contratuais, ele deveria responder a algumas perguntas da emissora oficial do evento, perguntas previamente selecionadas e aprovadas por Jungjae.
E as primeiras delas realmente foram as mais genéricas possíveis. Como foi seu processo criativo, o que você pretende no ano que vem, da onde surgiu a inspiração para a coreografia, e trabalho trabalho trabalho… questões que ele já estava acostumado a responder, tendo mil e uma versões da mesma frase na ponta da língua, delineando um sorriso simpático que andava dando por aí de vez em quando.
Mas a imprensa de Hollywood era implacável. Do tipo que fazia de tudo para agarrar uma oportunidade de causar alvoroço na sociedade.
— Obrigada pelas respostas, Jungkook. Só tem uma coisa que bastante gente tá querendo saber, e aquela música da sua live? — a mulher de vestido dourado e maquiagem pesada perguntou com um sorriso brilhante, estendendo um microfone com a logo da CBS.
Jungkook franziu o cenho ligeiramente.
— Música da live?
— Eu tô um pouco atrasada, mas você fez uma há dois anos que estourou o recorde do Weverse, e teve uma música romântica que você cantou e nunca lançou, nem quando começou a gravar seu álbum. Todo mundo ainda tá maluco por ela, e pelo motivo do porque…
Ele parou de escutá-la por um momento. Aquele zumbido no ouvido veio e foi muito rápido, um que levou tempo para parar de ouvir, mas depois de algumas doses de álcool, ele sempre dava um jeito de voltar.
Jungkook quase não conseguiu disfarçar a careta, mas um sorriso bem ensaiado melhorava tudo.
— Ah! É! Aquela música não é trabalho oficial. Ela nem estava em produção, então a equipe achou melhor a gente focar no novo álbum e testar vários gêneros.
May Everything Catch Fire veio com essa pegada indie, colocou o ritmo lá em cima…
— Mas isso tem muito tempo. Ela ainda pode ser lançada?
Ele engoliu um suspiro.
— Essa é uma pergunta bem difícil nesse meio. Alguns rascunhos precisam esperar, é a lei do mercado.
— Ah, sim, sim! Mas não sei se você tá antenado no TikTok, mas essa música foi separada em áudio e anda viralizando por aí, e todo mundo tá curioso pra saber se ela foi composta pra alguém em especial, ou sei lá… — a mulher levantou os ombros, deixando a frase no ar com um sorriso de malícia. Jungkook ouviu o zumbido de novo. Se pudesse, sairia dali sem olhar para trás.
Ele devia ter percebido sua intenção assim que ela mencionou a live ao invés do jogo de luzes surpreendentes que foram ligadas no seu último show no estádio MetLife. A tecnologia de ponta foi mencionada até no The Post, mesmo que fosse apenas para que os economistas fizessem cálculos em cima de cálculos do patrimônio do maknae. Jungkook teve certeza que estava bêbado de verdade naquele evento para não ter percebido mais rápido.
Dezenas de artistas naquele mesmo local estavam recebendo o mesmo teor de perguntas, alguma coisa que misturasse trabalho com sua vida pessoal, jornalistas famintos em achar uma agulha no palheiro, e honestamente, a vida pessoal dele não era realmente um problema. Jungkook não se importava muito em contar de sua família, do seu cachorro, dos seus amigos, dizer o que comeu no café da manhã, o significado de suas tatuagens novas e antigas, pelo menos as que podiam ser vistas (Polyc sempre vibrava de alegria lá de Seul), suas músicas favoritas e sua mania estranha de gostar de assistir luzes de galáxia piscando por sua parede, porque afinal, era só aquilo que era a sua vida. Normal, simples, e o mais tediosa possível.
Pelo menos andava sendo assim nos últimos dois anos.
Mas falar sobre aquilo… sobre qualquer coisa que envolvesse aquela época, já fazia todos os alarmes do seu cérebro zunirem. Os alarmes que os remédios até conseguiam manter sob controle, mas ainda eram como agulhas incomodando seu córtex cerebral, chacoalhando sua amígdala, pintando um mapa coerente para as lembranças que o deixavam fodido toda mísera vez.
— É só uma música. — ele manteve a postura, as sobrancelhas no lugar, os pés bem firmes no chão. — Não é uma autobiografia da minha vida. Aliás, nem acho que coisas assim podem acontecer.
— Entendi. Existe um charme considerável em caras com coração de gelo. Sabia que o pessoal adora escrever fanfics sobre você?
Ele riu. Estava saindo engasgado, mas pareceu muito verdadeiro.
— Eu gostaria de não saber.
— Em quase todas elas, você é durão e não se apaixona nunca. A não ser quando é pelo Jimin.
Eles riram mais alto. Jungkook balançou a cabeça.
— Eu
definitivamente não gostaria de saber disso.
— Sei, sei. Mas ainda é muito curioso todo o seu trabalho de composição, você e a sua música passam a impressão muito verdadeira de alguém que escreve umas histórias de amor quando não tem ninguém olhando. Será que não existe mesmo nada assim…
— Não. — Jungkook cortou, e seu sorriso deu uma baqueada. Pelo canto do olho, ele buscou Jungjae ou seu segurança, chamando-o para entrar na arena. — Não existe nada assim. O álbum todo foi feito sob medida, com…
— O coração é mesmo de gelo, então?
Ele tentou rir. Estava ficando quente.
— Eu não diria isso…
— Engraçado que tem uma música no álbum chamada
Ice in Summer, falando de um garoto terrível que se apaixonou no verão. Bem, é o que dá a entender, mesmo que a letra das outras seja totalmente o contrário…
— Jungkook! — o segurança finalmente chamou, a voz indo acima dos gritos e dos flashes. Ele demorou a perceber, a cabeça lenta.
— Eu vou ter que ir…
— Se me permite insistir numa última pergunta, viram você com a modelo Sydney Preston na semana passada, e a maioria dos comentários concordaram que estavam juntos…
— Obrigado, eu vou nessa. — ele lutou para manter o sorriso, começando a se afastar. A mulher deu um passo à frente.
— A música foi pra ela? Como vai ficar a reputação do coração de gelo?
Ele bufou. As cavidades do peito estavam querendo se encher de raiva quente, e tudo que ele mais queria era largar aquilo tudo, todo aquele evento, e dirigir para o centro da cidade, um lugar povoado por lanchonetes deliciosamente gordurosas e lojas de quinquilharias que o distrairiam enquanto pensava em uma forma de não matar Jungjae e sua inédita incompetência acerca de jornalistas de Hollywood.
Ele achava que todos os lugares do mundo eram como a Coreia? Aqui as pessoas não seguiam regras.
E sua cabeça estava tão lenta, mas tão lenta…
— Jungkook, a gente quer saber! Por que…
— Ele tá ocupado. — Jungkook respondeu por sobre o ombro, sem mais sorrir, sem mais fingir estar minimamente interessado naquela conversa. — O coração tá ocupado. Agora com licença, foi um prazer falar com vocês. — ele acenou para a câmera e as luzes piscantes, dando as costas e seguindo para uma das melhores e mais aguardadas performances da noite da grandiosa premiação musical, na qual seu nome estava exposto em pelo menos quatro categorias.
Ele tá ocupado.
Ele tá ocupado.
Ele tá ocupado.
Meu Deus, como ele foi idiota.
Na hora, ele não pensou que aquilo serviria de alguma coisa. Vários artistas diziam coisas daquele jeito o tempo todo, tentavam desviar assuntos, sendo esquivos e totalmente lúcidos quanto ao impacto que a mídia tinha sobre suas vidas. Jungkook era doze vezes mais esquivo, por motivos profissionais e pessoais, e achou que com um sorrisinho e uma frase daquelas, tudo iria ser levado na esportiva e ele poderia se livrar da entrevista.
Ele até se livrou dela. Mas não se livrou das consequências da internet.
Não demoraram muito a criar matérias, vídeos sensacionalistas e, claro, teorias. Principalmente envolvendo Sydney Preston e, lógico, Ali Dalphin. Sempre Ali Dalphin.
—
É só você continuar fazendo o que já estava fazendo. As pessoas vão esquecer. — Jungjae continuava no telefone, e Jungkook tinha certeza de que ele estava andando de um lado para o outro. —
Os maquiadores já vão chegar. Se você me disser onde está…
— Preciso de uma hora.
—
O quê?
— Eu volto depois disso. Vou dar uma voltinha.
—
Uma voltinha? — o agente quase gritou. —
Vai dar uma voltinha em Los Angeles? Tá achando que ninguém te reconhece por aqui?
— Ninguém vai me ver entrando por um motel, Jungjae.
—
Eu sei, acho que você nem sabe mais chegar em um. — Jungkook fez uma careta.
Ai. —
Não me preocupo com garotas, Jungkook, ainda mais aquelas que não vão ficar. Mas você tem compromisso, tem uma agenda lotada, e eu te garanto que as perguntas vão ser milimetricamente verificadas agora. Vou ameaçar processar e tudo.
Jungkook riu pelo nariz. Se aquele fosse o único problema…
— Eu sei, eu confio em você. Não é à toa que te pago uma fortuna.
—
Uma fortuna também são os maquiadores que estão chegan-
— Tchau, Jungjae. — e desligou o telefone, aumentando o som exponencialmente.
Ele virou na Bunnie Lane, passando por ruas largas e estreitas, recheadas de casas com varandas abauladas e colunas quadradas reluzindo em cores primárias, por prédio desgastados e charmosos, por casas grandes transformadas em bibliotecas, algumas que o fizeram espiar pela janela do carro enquanto dirigia, pensando em entrar, mas não dava. Ele ainda estava na metade de O Morro dos Ventos Uivantes, e não começaria outro até terminar a saga das irmãs Brontë.
Quando passou pela viela onde moradores locais sentados em cadeiras nas varandas encararam sua carroceria com curiosidade e aborrecimento, ele sabia que estava chegando. Sabia desde que sentiu o vento ficar mais gelado e a luz do sol ser constantemente quebrada pelas árvores enormes ao redor. Ele não sabia exatamente o nome da praia, já que as leituras do GPS não faziam sentido, mas sabia que seria um lugar onde poderia fazer o que estava querendo fazer desde que pousara no aeroporto de Los Angeles:
Ficar sozinho. Respirar sozinho. Pensar sozinho.
Então ele estacionou aquela monstruosidade na loja de conveniência da esquina, que alardeava ter o melhor sanduíche de atum da cidade, e seguiu pela pequena trilha deserta de terra batida até a praia, sendo açoitado pelo vento forte e pelo sol poente, sentindo toda a agitação de pensamentos ruins irem abaixando o volume conforme o som do mar ficava mais alto e mais perto.
Jungkook respirou. Respirou como alguém que não respirava há horas infinitas.
Os únicos habitantes do lugar eram um casal de idosos que liam sentados em uma manta estampada e uma senhora de lábios vermelhos que comia um sanduíche e um milk-shake, ambos ocupados demais com suas vidas para reparar no cara de preto que tirava os tênis e sentava na areia branca, apoiando os cotovelos nos joelhos para simplesmente olhar o mar.
Fazia um tempo que o mar acalmava Jungkook. Um tempo que parecia longo e curto na mesma medida.
Vendo-o ali, em um momento de introspecção e até vulnerabilidade, Jeon Jungkook parecia mais velho. Há tempos que seus ombros estavam sempre rijos, suas sobrancelhas sempre franzidas, sua mente em vários lugares. E também já fazia um tempo em que ele simplesmente se sentia flutuando no ar, perdido, desanimado, sem vontade de levantar da cama. Sentindo um vazio que era difícil de explicar, e isso não é, em hipótese alguma, algo confortável de se constatar.
Mas, bem no fundo, ele sabia o que era. Claro que sabia. Aquele mar explicava tudo, apresentava um argumento que reforçava totalmente sua frase dita naquele tapete vermelho, fazendo todos os olhos do mundo se voltarem para um fato que ele não queria trazer de volta:
“
Está ocupado. O coração tá ocupado.”
O coração estava
mesmo ocupado. Abarrotado. Tinha se apossado de todas as coisas externas do organismo e alocado tudo ali, trancando a sete chaves de aço inoxidável, mostrando para ele que, juntando todas as coisas que compunham sua personalidade, a maioria da porção boa tinha sido forjada por ela.
E sem ela, sua única opção era aquela: vazio esporádico, bateria social viciada, que só era recarregada por instantes de silêncio.
Pelo menos, o silêncio agora conseguia ser apenas
silêncio. Sem choro, sem emoções conturbadas, sem vontade de desaparecer. Ele era apenas o silêncio.
Há dois anos, tudo na sua vida tinha explodido para fora do silêncio e do sossego. As coisas nunca tinham sido tão barulhentas quanto naquela época. A luz de seus olhos foi diminuindo à medida que as semanas passavam, e naquele ano, naquela noite, sofreu o primeiro golpe. Tudo estava fadado ao fracasso.
Ele estava fadado ao fracasso.
Raríssimas vezes, ele pensava naqueles dias. Não melhorava em nada, só piorava. Mas em alguns momentos dava para lidar. Até rendia alguma coisa. Tipo naquele momento, quando ele puxou seu novo bloco de notas, um sketchbook de capa preta entulhado com rascunhos de músicas, fotos e anotações dos livros que lia, e começou a rabiscar. Um desenho, uma composição, tanto faz. Ele só precisava se mexer.
Como não se mexeu naquela época.
くくく
SEUL
DOIS ANOS ANTES
parecia ter um carregamento de fogos para o Quatro de Julho pesando nos ombros, e não a mão de Jungkook.
À medida que os segundos passavam, essa mesma mão começou a escorregar e escorregar, até abaixar ao lado do corpo dele, mole e sem reação, combinando com o estado de seu corpo inteiro. Diante daqueles olhos verdes furiosos que os fuzilavam, só conseguia se sentir congelada e patética.
Ali Dalphin deu passos rápidos e furiosos para perto dela, marcando o gramado de forma violenta, olhando ameaçadoramente como um animal selvagem. testou mentalmente os níveis de perigo daquela aproximação e eles apitaram com todas as forças, mas mesmo assim, ainda nem chegou perto de se mexer. Não conseguiu mover um músculo sequer da mandíbula, das pernas, todos os ligamentos seriamente danificados pelo choque.
— Sua puta desgraçada... — ela viu a boca pintada de gloss brilhante proferir, e as palavras foram se formando lentas na cabeça de , mas não foi isso que a fez acordar para a vida. Foi o toque dele, que tinha voltado, finalmente. O toque que raspou em sua pele quando ele deu um passo à frente, tão imenso e decidido quando a garota loira, e ergueu o braço para formar uma faixa de jaqueta preta na frente de , fazendo Ali parar de imediato.
— O que você tá fazendo aqui? — a voz de Jungkook não era alta, mas também não era baixa. Caso contrário, a música não a deixaria entender nada. Mesmo estando atrás dele, conseguia ouvir a mandíbula trincando, as cordas vocais vibrando de irritação, os claros sinais de que ele estava aborrecido.
Ali olhou para ele, e tinha raiva naqueles olhos, mas bem menos do que se esperava de alguém que estava soltando as palavras
puta e
desgraçada há meio segundo. acordou de vez com isso.
Ali Dalphin.
Ali Dalphin estava ali, parada na sua frente, parada na frente de Jungkook. Estava ali e faltou pouco para não avançar em cima dela de uma forma brutal.
Ali não parecia querer fazer a mesma coisa com o maknae.
— Surpreso em me ver? — disse ela para Jungkook. Ele trincou ainda mais os dentes.
— Responde logo. Quem deixou você entrar?
— E por acaso eu não deveria entrar, seu cretino? — de repente os dois braços dela se elevaram na frente do peito dele, armando um empurrão, que não forneceu o menor efeito no cara. — Eu não deveria vir aqui e ver você e essa... essa... — Ali não conseguiu terminar. Ainda esperava que tudo fosse uma pegadinha, um surto psicótico que apareceu tarde demais por causa de tanta oxicodona nos últimos meses.
abriu e fechou a boca. Ela não conseguia ver o rosto de Jungkook, mas não importava — a maneira como ele não estava saindo de sua frente, queria dizer que o olhar que Ali estava recebendo dele era ainda mais letal do que o que ela lançava para .
— Essa é exatamente o que você tá pensando. Não sei o que você tá fazendo aqui, mas você tem que-
— É exatamente o que eu tô pensando?
Exatamente o que eu tô pensando?! — agora ela gritou, e gritou com força, gritou a ponto das pessoas ao redor começarem a reparar. — Você e a ... Porra, você e a
?! Que merda tá acontecendo aqui?! Você pirou de vez, sua vagabunda? Você...
— Ali… — conseguiu falar, mas a próxima frase se perdeu de novo. Os olhos furiosos da modelo quase a derrubavam como um soco. — Ali, eu não…
— Você não o quê? Não pretendia pegar meu namorado? Não pretendia jogar tudo na internet só pra me tirar da jogada?
— Vamos conversar…
— Conversar? Eu vou conversar o quê com você, sua maluca? Conversar sobre como você andou dando pro meu namorado esse tempo todo? E justo com
ela, Jungkook! Você perdeu a sua noção, porra? Tem noção do que ela fez, tem noção de quem ela é?! Além da maior piranha do universo… — o corpo dela já estava se jogando na direção de de novo, as veias saltadas como um touro.
— Parou, parou. Você não vai surtar desse jeito aqui e nem agora, porra. — Jungkook gritou mais alto do que ela, e já dava para perceber o descontrole dele dando as caras, um que ele não pretendia mostrar a ela, mas era inevitável. Quem ela pensava que era, porra?
Ali arfou. As pessoas estavam olhando, e não de um jeito que ela queria. Não do jeito que foi na sua chegada resplandecente, uma exibição tácita de seu magnetismo em lábios cheios e cabelos sedosos, mas agora com uma estranheza misturada com horror.
Tudo que passava na sua cabeça, da forma mais gráfica possível, era usar o punho carnudo para desfazer alguma parte daquele rosto assustado de , agora perfeitamente posicionada para o golpe, se não fosse a montanha de músculos em preto na frente dela, olhando para Ali com olhos que, não adiantava quanto tempo se passasse, ela ainda pensaria que não eram os dele. Não de verdade.
O peito dela subia e descia, a música ao redor se tornando um mero sussurro estúpido, a boca ficando aguada pelo amontoado de palavras que queriam ser disparadas em berros.
— Como… como? — seu timbre foi diminuindo contra a sua vontade, à medida que a cena diante dela ia ficando mais real. À medida que aqueles dois não derretiam e sumiam em alguma alucinação maluca da sua cabeça, antes que ela acordasse no quarto de hotel, suada e com uma dor de cabeça dos infernos, puxando um calendário mental de que dia da semana e do mês devia ser.
Jungkook ficou parado, a expressão severa sem alteração, porém a língua ficando ausente de resposta. Seu cérebro ainda estava tentando assimilar a presença de sua ex-namorada na festa da qual ele definitivamente não a incluiu na lista de convidados, mas que também não se deu ao trabalho de avisar aos homens de preto na entrada que uma certa loira estava proibida de entrar. Ninguém, em sã consciência, pensaria que ela voltaria justo
naquele dia, justo na data em que Jeon Jungkook estava sendo celebrado por dezenas de pessoas como se fosse um feriado nacional.
Mais uma armadilha imprevisível de Ali que ele tinha caído como um idiota. Mais uma vez em que ele não se preparava o suficiente para nada quando o assunto era ela.
— Eu te perguntei
como? Essa merda não faz o menor sentido!
— Você aqui faz menos sentido ainda, Ali. Qual é a sua? Tá querendo o quê?
— O que eu já queria ter feito antes, mas agora, vendo isso, talvez eu tenha chegado atrasada… você definitivamente superou bem rápido. — ela usou um tom de desprezo que combinou com a sua expressão. Se o visse com qualquer outra garota, provavelmente, Ali não se importaria tanto. Pelo contrário, acharia divertido. Sabia de seu lugar bem consolidado no coração dele, sabia que só ela o tinha feito se ajoelhar para pedi-la em namoro na beira do Sena de madrugada depois de engolirem um sanduíche de atum totalmente mediano, mas que parecia extremamente bom depois de um baseado; só ela tinha recebido quantidades obscenas de flores pelo menos uma vez por semana nos últimos três anos; só ela tinha assistido os fogos de artifício à meia-noite com ele do prédio do tribunal em Praga no ano-novo. Ela não se deixaria enganar pelas
outras, outras bocas, outros peitos, outras pernas e outros lugares.
Apesar de estar sendo muito difícil não titubear diante daqueles olhos novos dele, que pareciam lançar fogos direto nela, sem se preocupar com a integridade da própria casa.
— Não vou falar disso com você. — ele disse com um grunhido de raiva. Isso piorou o já desequilibrado estado emocional de Alison.
Ele não deveria estar feliz? era mesmo a única garota que ele ia comer de agora em diante?
— Claro que não vai, agora que tá no meio da maior festa da cidade, enfiando a língua na garota que te expôs pro mundo inteiro, que deixou eu e você à mercê de um monte de comentário bosta, principalmente
eu, que ainda contei pra ela todas as coisas que eu pensava e sentia, que avisei-
— Ali, não é o que você tá pensando! — falou, chegando mais perto e achando a voz. De repente, sentiu uma vontade insana de se defender.
— É exatamente o que eu tô pensando, sua pu-
— Ei, ei! — uma outra voz surgiu das costas de Ali, enganchando dedos e unhas nos braços da modelo até puxá-la para bem longe de e Jungkook, quase fazendo-a tropeçar no gramado e nas pequenas pedras. — Que porra é essa? O que tá aconte-
Candice parou quando viu a cara da loira que havia puxado. Agora mais do que a metade parcial da festa estava olhando, um pouco boquiabertos, um pouco confusos, mas definitivamente com a atenção inteira ali. A melhor amiga de só conseguiu espiar o rosto de Ali Dalphin, espiar o rosto de e se lembrar da cena de segundos atrás, onde aquela maníaca estava a centímetros de tocar em .
Ela nem hesitou em dizer:
— O que a Vadia Secrets tá fazendo aqui?
Ali soltou o ar com força. A parte da pele onde Candice tinha agarrado estava dolorida, e a coisa toda estava ganhando mais plateia. Pouco a pouco, rostos conhecidos estavam se ajuntando, como Yoongi arfando atrás de Candice, Namjoon largando seu cigarro e apertando os olhos para enxergar melhor, Jeong Jaehyun paralisando no batente da porta de vidro, franzindo aquele rosto estúpido e Hoseok correndo com os olhos arregalados para se misturar com todos.
Olhares de choque, de perplexidade, olhares que não iriam dizer que ela era a coisa mais bela da cidade. Tudo que ela não queria, tudo que repudiava.
Mas aquele dia já tinha ido para o ralo a partir do momento em que viu Jungkook e . Aquele garoto tinha, definitivamente, mexido em algo que não deveria ter mexido.
— Se tocar em mim de novo, vai se arrepender, Chaperman.
Candice ficou menos surpresa do que deveria por ela saber seu nome.
— Ah, eu jamais me arrependeria disso. Mas pela política da boa vizinhança, acho que é melhor você juntar esse Versace cafona e cair fora daqui porque dar uma de penetra é o cúmulo do fim de carreira, você não acha? Já tá entregando os pontos desse jeito?
Alguns burburinhos ficaram mais altos. A raiva queimou em cada nervo de Ali.
— Acha que eu sou uma criancinha que você vai aterrorizar?
— Você poderia ser a senhora primeira-dama que eu falaria no mesmo tom e bem claro: cai fora.
Chispa. O bonitão ali não tá afim de falar de novo. — Candice fez um ligeiro movimento para Jungkook, que ainda estava parado ao lado de , ainda tentando não sentir tanta raiva e pensar com clareza.
Ainda estava se esforçando para se agarrar à realidade dos fatos.
Antes que ele pudesse dizer ou fazer alguma coisa, ele viu o corpo de Ali se projetar para frente, direto para Candice, grunhindo um “loira vagaba” em uma sequência muito rápida de acontecimentos. Primeiro ela avançou, depois foi Candice, mas nenhuma das duas se tocaram. O alvoroço começou e terminou em um piscar de olhos, quando todos pareceram acordar e Hoseok pulou para o lado de Ali, puxando-a para trás enquanto Yoongi fazia a mesma coisa com Candice.
— Ali, tá maluca? — Hoseok arfou, e Ali grunhiu porque ele agarrou bem em cima dos dedos da outra desgraçada. — O que você tá fazendo? Você disse-
— Me larga, cacete! — ela se soltou bruscamente. Olhou para uma Candice quase se contorcendo nos braços de Yoongi. — Você se acha muito esperta, não é, Chaperman? Aliás, todos vocês se acham! — ela deu um giro com o corpo, fuzilando Jungkook com o olhar. — Estão muito tranquilos me colocando como vilã, mas a verdade é que vocês se deixaram enganar. Seguiram a porra do roteiro direitinho. Diz aí, sua imbecil, como foi ter a sua festinha de promoção invadida pela imprensa? Fiquei sabendo que nem o chefe dos seguranças conseguiu impedir a bagunça.
Até mesmo Yoongi soltou os braços de Candice, franzindo o cenho prodigiosamente com a informação, sem entender. A reação de Candice foi petrificar o corpo, incapaz de responder ao que não absorveu completamente.
Ela estava dizendo…?
Diante de suas caras confusas, Ali riu. Foi um riso que seria bem bonito se fosse dado em outras circunstâncias. Ali, naquela ocasião, ele só te deixava com vontade de virar o rosto.
— De que merda você tá falando, Ali? — Jungkook se meteu, a raiva fervendo novamente, totalmente direcionada a ela. Estava difícil assimilar tudo de uma forma linear, estava difícil saber o que iria fazer.
Ela olhou para ele e riu ainda mais. Era muito feio e escroto de ver.
— Nossa, como vocês são burros.
Super burros, se eu puder usar o plural. Você achou mesmo que todos os seus amiguinhos tinham virado as costas pra mim?
Todos eles? — Jungkook gelou por completo quando o olhar dela se voltou para Hoseok, sorridente. — Eu fiquei muito bem informada, não é, Hobi? Inclusive do namoro clandestino da loirinha ali. Espero que tenha gostado dos comentários te chamando de piranha periscópio. Eu curti todos. — Ali riu de novo. Estava morrendo de raiva, mas subitamente, o sentimento era minúsculo comparado ao prazer de ver todas as expressões ao redor se tornando nada mais que retratos de choque perpétuo, principalmente dos amigos de Hoseok, que, um por um, foram virando as cabeças em movimentos mecânicos para ele, contorcendo toda a face em algo difícil de descrever ou explicar.
Estava tão bom que valia a pena continuar.
— E você, seu filho da mãe pomposo, achou mesmo que eu não ia me tocar do que você tava querendo? Achou que eu não ia saber dessa merda nunca? Você é um babaca de merda. — ela apontou para Jaehyun, que estava respirando fundo, perdido, atônito com o fato de aquela mulher não estar fumando seus cigarros Marlboro na casa em estilo vitoriano que se abria para campos imensos da propriedade dos Dalphin naquele exato momento. — E você, Jungkook, espero que tenha gostado da garrafa que eu mandei. Sangria, lembra? Nossa bebida favorita.
Ela se achegou a muitos passos dele, parecendo perdida em um devaneio de coragem abrupta para fazer isso ali, no meio de toda aquela gente, especialmente na frente de
. Jungkook mal a viu chegar; sua cabeça estava voltando naquele dia que estava abrindo pacotes atrás de pacotes e até pegar um com a inscrição FRÁGIL, revelando a garrafa de vidro cilíndrica com o líquido vermelho reluzente que nem imaginou que poderia ter vindo dela.
Fazia muito tempo que ele não bebia sangria. Nem sequer sentia vontade. Nem sabia se algum dia já gostou mesmo daquela coisa.
Ele se afastou de Ali, abrindo uma brecha no ombro para que ela olhasse para o lado e visse a outra garota preocupada atrás dele. . Ainda boquiaberta, ainda chocada, e agora com o canto da boca cerrado, o rosto bem longe daquele retrato assustado que viu desde o primeiro dia na Universidade de Seul.
— E você, sua mentirosa? Achou mesmo que eu não me lembraria de você? Achou que eu não te
acharia? — ela trincou os dentes, agora chegando perto de , que não se afastou. Sua mente já estava clareando, a realidade se tornando mais sólida. Ali Dalphin estava ali, e por mais que estivesse sendo a maior cuzona do planeta, achava que ela tinha algum direito de espernear. Sabia que ela não tinha passado os últimos seis meses observando carros passarem lentamente pelas grandes janelas de vidro de sua mansão na França, sabia que ela ainda amava o cara do seu lado e tinha continuado sua busca como uma forma de redenção, a qual se mostrou inútil, mas não diria isso. Ela não estava com vontade de dizer nada, também porque Ali não ouviria nada.
Mas aquele sorriso que ela lhe lançou foi diferente das outras vezes. Diferente do feio e tenebroso que apresentou a todos; o sorriso para foi quase dócil, inocente.
Por um segundo, um milésimo de segundo cortante e delirante, Jungkook sabia exatamente o que Ali diria a seguir:
— Como anda o seu projetinho mixuruca com o Edgar? A coisa das câmeras, o lance das luzes, as passadas de mão que ele com certeza deve dar em você…
— O quê? — perdeu o ar. O coração bateu mais rápido, tomado de um medo irracional.
Ali sorriu mais. Agora ela parecia deslumbrante, linda e maléfica, mas ainda era a beleza de uma flor de acônito venenosa.
— Ah é, que cabeça a minha, esqueci que você não o conhece por esse nome. Provavelmente por culpa do sorriso e do senso patriótico dele, mas Changmin…
— Ali, chega! — Jungkook gritou, arfou, um pânico nublando todas as outras coisas. A face de ficou branca. — Acabou, vai embora. Você já fez o show que queria…
— Eu não fiz metade do que eu queria, idiota! O que foi, não quer que ela saiba a verdade? Não quer deixar sua namoradinha pensar que foi enganada…
— Cala a sua boca.
— Tudo melhora com mais detalhes. Diz aí, , o que você andou aprontando com Changmin? Ele te levou pra passear por celeiros com torres e fazendas brancas, dizendo que ali tinha a melhor iluminação? Foi aí que ele mandou ver, o que, uma ou duas vezes? Disse que te achava preciosa, irreal, quase te pegou no colo e te levou pras alturas? Eu já fui para as alturas com ele uma vez, e olha, o lance é de outro mun-
—
Alison.
— Changmin? Você e Changmin? — agora se mexeu, se colocando na frente de Ali por conta própria. — Do que você tá falando? Como conhece o Changmin?
— Na verdade, é Edgar Zieger. Meu amigo de longa data. Meus olhos e meus ouvidos em todo esse circo nojento que vocês armaram por aqui. Acho que você o conhece bem, não é?
Ela arqueou uma sobrancelha, certeira e provocativa. O estômago inteiro de se revirou. A fiação do seu cérebro ficou velha de repente, pesada, pifando. A primeira coisa que explodiu no vácuo da sua mente foi o nome:
Edgar Zieger. O célebre fotógrafo de renome mundial, carregando uma característica bem singular de não ter fotos de si mesmo (algo que ela sempre se identificou). Um mistério quase lendário, o queridinho das grifes europeias, um cara que sabia absolutamente tudo sobre uma câmera fotográfica e onde ela seria melhor usada.
Cenas dela e Changmin foram passado em um microfilme, as coisas que ele dizia, as coisas que fazia, como discorrer sobre a manutenção de um obturador, a técnica perfeita de
golden hour, ensinando a como trocar os fios dos rolos de filme, como reaproveitar as bases de poliéster…
Não.
Não!
— Você tá mentindo… — mas sabia que não estava. Ali Dalphin podia ser uma mentirosa em outras horas vagas, mas ali, quando estava tão determinada a machucá-la, não perderia seu tempo mentindo. E isso tirou qualquer ação posterior de , a mente voltando no tempo, assustada com o enlaçamento com que tudo estava se mostrando.
Os últimos meses foram uma mentira? Um jogo de xadrez onde ela e todos ao seu redor eram as peças e Ali Dalphin era a única jogadora?
— Alison! — Jungkook estava rangendo os dentes de novo, quase em posição de ataque na frente da loira. Ali se virou para ele.
— Você não parece tão surpreso, Jungkook. Qual foi a conversinha que ele teve com você?
— Cala a-
— Eu vou acabar com ela. — o grunhido de Candice foi ouvido até do outro lado da piscina. A essa altura, a realidade do que Ali tinha dito antes estava batendo aos poucos. As peças foram se juntando lentas, tanto por causa da bebida quanto pelo tanto de informação jogada ali.
A festa. A festa de comemoração do cargo que ela tinha dado o sangue e saúde mental para conquistar, o cargo que era um caminho quase declarado de crescimento, o cargo que merecia uma festa de arromba, uma festa que tinha começado perfeita e estava quase terminando da mesma forma antes que toda aquela algazarra começasse e Candice Chaperman tivesse o nome estourado em todos os veículos da mídia e dedos apontados para si de uma forma bizarramente invasiva.
Candice amava Yoongi, é claro, mas não amou nem um pouco o desrespeito que sofreu por causa dele. Não amou a usurpação que mudou sua vida da água para o vinho. Não amou ter que abrir mão de seu anonimato antes que estivesse plenamente preparada para isso. Não amou a sensação desconfortável de querer, repetidas vezes, pegar uma picape e dirigir sem rumo até algum lugar abandonado, onde tivesse cabras, silêncio e cigarros.
Nunca nem passou pela sua cabeça que Ali Dalphin tivesse alguma coisa a ver com aquilo, mas agora, fazia tanto sentido. Seu ódio por estava escancarado em cada célula do corpo. Dava para sentir mesmo que você nunca tenha encontrado a garota na vida.
Foi por causa disso que Candice avançou, sem pensar. Yoongi não estava segurando, por isso a coisa toda se desenrolou de forma tão rápida e maluca. Ela agarrou o braço da loira, puxando-a para mais perto, os dentes tão cerrados que só um animal selvagem seria capaz de fazer.
— O que foi que você disse? Aliás, o que foi que
admitiu?
Ali detestou aqueles dedos de novo.
— Tenho certeza que você escuta muito bem, sua vaca, mas posso repetir se quiser.
Eu. Chamei. A. Imprensa. Fiz você ter o mesmo gostinho que eu tive quando sua amiguinha tirou aquela foto…
— Você é maluca? — Candice se aproximou de modo perigoso. Yoongi agarrou sua cintura, murmurando avisos que ela não escutava. — Gastou seu tempo destruindo a minha privacidade e do Yoongi porque estava com raiva de ? Por uma coisa que ela
não fez? Qual é o seu problema, cacete? — a palma da mão de Candice foi totalmente aberta no peito de Ali, empurrando-a com certa força. — Achei que você chegaria aqui pra causar com um motivo de verdade, alguma coisa que valesse a pena escutar o seu lado, mas você me vem com
isso? Como você pode-
— Tira as mãos de mim. — Ali bateu na palma de Candice, desejando fazer a mesma coisa naquele rosto maquiado que a olhava com tanta repulsa.
— Você devia estar numa camisa de força.
— Candy… — Yoongi a segurou mais firme. Jungkook estava em modo de alerta.
— Devia estar num hospital psiquiátrico. Devia averiguar se seu único vício são as pílulas coloridas ou pentelhar a vida de pessoas que não se importam mais com você. Você achou o quê, que Jungkook iria simplesmente se ajoelhar, implorando pra voltar? Achou que ele estaria esperando na janelinha como uma lady? Que amanhã vocês dois estariam juntos de novo usando roupas combinando na mesma paleta de cores? Se toca, você é patética, porra. Devia ter gastado sua passagem de avião pra trepar com mais cinco caras em outro barco nas Maldivas.
Ali pulou para ela como um gato. Foi preciso que Jungkook se mexesse, junto com um Yoongi atordoado, puxando Candice para trás milímetros antes que o rosto de sua namorada fosse fustigado pelas garras bem pintadas de uma Ali com dentes à mostra e rosto contorcido de ódio. Seus olhos viraram uma mistura de verdes avermelhados com vermelhos esverdeados. Tudo estava queimando em fogo puro nas veias saltadas de sua testa.
— Sua desgraçada… — foi tudo que ela conseguiu dizer, já que falar não era seu plano. O plano era estraçalhar a cara daquela imbecil. Era fazê-la engolir tudo, todo o lixo que tinha saído de sua boca, uma montanha tão grande que dava para montar uma colina.
Foi a gota d’água mencionar o barco. Mencionar aquela época. A época em que tudo estava fora do lugar na vida de Ali Dalphin, época em que ela sempre achava que estava tarde demais; tarde demais para se arrepender de sua escolha de ir embora, tarde demais para aceitar que tinha perdido tudo, tarde demais para voltar a ter boas noites de sono. Candice Chaperman não estava lá em nenhuma das vezes em que ela precisou de dois comprimidos de Xanax e três doses de whiskey para conseguir fechar os olhos, e mesmo quando isso acontecia, ainda ficava se revirando, ainda via os fantasmas do vazio inalterável do seu ser em cada horizonte que passava, seja em Bali, Bora Bora ou Ilhas Fiji, mostrando como era possível ser tão solitária em meio a tanta fartura.
Candice não sabia de nada disso. Ela era do ramo editorial, onde as pessoas sabiam do que queriam saber e falavam do que queriam falar. Ali a deixaria um tanto surpresa se a contasse a realidade das coisas, mas isso poderia render um olhar de pena, o que seria mil vezes pior do que uma agulha embaixo da unha.
Enquanto isso, no meio da confusão e do falatório vicinal daquela festa que tinha saído totalmente do controle, a cabeça de estava juntando. Juntando, juntando, juntando… seus medidores cerebrais finalmente chegando em um consenso.
Devagar, ela girou o pescoço para Jungkook, a voz saindo em um sussurro quase indecifrável:
— Você sabia?
Ele piscou com a súbita mudança da conversa e da expressão de . O caos abrandou um pouco ao redor, fazendo-o focar ali.
Mas Jungkook não demorou a entender seu olhar. Não demorou a entender nada.
Uma calota de gelo escorreu pelo seu estômago.
— …
Mas ele nem precisava responder. já tinha visto a verdade no seu rosto antes mesmo que ele abrisse a boca. Essas coisas costumavam ser reconfortantes em todos os outros momentos em que estavam juntos, mas naquele… não sabia explicar o que sentia naquele.
E como a grande oportunista que era, Ali prestou atenção e rendeu mais uma boa gargalhada.
— Ah, Jeon. Até me preocupei em como foi tão fácil você me descartar como se fosse uma qualquer, mas olhando agora… acho que você me contava mais coisas. As mentiras e as verdades. O que nossa querida anda tendo?
parou de olhar para ele. Sua atenção foi direcionada exclusivamente para Ali, agora recebendo toda a carga de raiva escondida em alguma viela escura de , raiva que se projetou para fora em uma expressão que ela não mostrava a ninguém, que ela nem sabia que era capaz de fazer. Estava com tanta vontade de agarrar no cabelo da modelo e enrolá-lo nos fios da companhia de energia elétrica do outro lado da cidade que quase se assustou com esse pensamento. Deve ter sido a coisa mais violenta que já passou pela cabeça de .
Só que ela ainda estava no meio de um monte de gente, meia dúzia de rostos infinitos que esboçavam surpresa, choque, dúvidas, divertimento, várias coisas por segundo. A festa ainda estava rolando nos longínquos cômodos internos, mas ali fora, todos tinham parado para ouvir os discursos picados de uma loira com um sotaque francês arranhado. Uma loira cujo nome soava como uma adoração, um cântico dentro do círculo de amigos do anfitrião, e que agora não estava passando por mera inconveniência.
Esse tempo todo, estava se importando com esse fato, se importando com as pessoas, mas não dava mais. Não depois de todas as verdades cuspidas por aquela boca, verdades dolorosas demais e que ficariam ainda mais dolorosas depois que ela chegasse em casa e absorvesse tudo. A festa de Candice. Hoseok. Changmin. Sua Nikon.
Jungkook…
Ela nem queria pensar em Jungkook. Definitivamente, não queria.
Por isso, caminhou até ela, todos os traços do rosto trincados, assumindo um tom de voz que nunca teve:
— Por um mísero segundo, eu pensei em te pedir desculpas. Até me senti culpada quando você apareceu, senti que eu te
devia alguma explicação, mas agora, com tudo isso, com toda a sua sujeira pra cima de Candice, do Yoongi, da covardia de você usar alguém pra se aproximar de mim… quero que você vá se foder, Ali. — invocou um terço de paciência, necessárias para que ela não gritasse. — E quero que vá se foder bem longe daqui, porque você tá estragando a droga da festa do meu namorado.
Meu namorado, Ali, porque nem tudo que você joga fora, vai estar do mesmo jeito quando você decidir voltar pra pegar. Jungkook não é um objeto e ninguém aqui merece ser tratado como um fantoche pro seu show. Você não tinha o direito de mexer nas coisas que mexeu, por isso você
tem que ir embora daqui agora. Chega de piorar as coisas.
A festa ficou em silêncio. Mesmo que a música ainda existisse, ela era indigna de qualquer atenção frente aquilo…
aquela .
Jungkook entrou em um estado inerte. Ali estava muito perto dela, inflando as narinas, perdendo o sorriso malicioso aos poucos, cravando as unhas nas próprias palmas. não estava recuando, não estava mostrando hesitação, mesmo que seus olhos estivessem um pouco molhados e seu lábio tremesse um pouco. Parecia mais raiva, e pouco medo propriamente dito. Ali não duvidou que ela pudesse, sei lá, empurrá-la até que ela saísse daquela casa como um cão.
E com isso, a eletricidade do ódio voltou. Ali já estava com raiva, mas agora tinha ficado possessa, irada com aquele ataque de coragem, a afronta de valentia vinda de uma garota que vivia de ombros encolhidos e olhos baixos por todos os corredores da vida.
Meu Deus. O que tinha acontecido com ela? E o que tinha acontecido com
ele? Que merda eram aqueles dois juntos?
Ali ficou cega com a possível resposta.
— Ah, mas você vai engolir tud-
Ela tentou avançar, e não retrocedeu, mas a comoção foi demais. Dedos fortes e pálidos agarraram Ali antes que ela desse um passo, dedos bem mais fortes e ágeis que os do desajeitado e encurralado Hoseok, dedos que ela já tinha sentido antes, quando estava cometendo uma burrice em Los Angeles.
— Chega, você vai sair agora. — Jaehyun usou a força para empurrá-la para o lado, sem se preocupar com julgamentos, porque sabia que não haveria nenhum. O olhar dele era tão feio que faria uma criança minguar e sair chorando. — Já chamei os seguranças lá fora. Se não quiser piorar tudo, melhor ir de livre e espontânea vontade.
Ela nem sentiu vontade de rir, mas sentiu vontade de debochar. De cuspir no rosto dele. De fazer qualquer coisa que acabasse com aquele olhar.
— Olha ele aí de novo, o Martin Luther King de Seul. Me diz, como anda sendo ficar no banco dos rejeitados?
— Você não precisa se preocupar comigo, Ali. Agora sai.
— Ah, mas eu me preocuparia. Principalmente depois de ter trepado com essa daí. Foi junto com o Jungkook? Fizeram uma DP? Todo mundo fez exames depois?
O vento soprou mais forte quando Jungkook atravessou o gramado a uma velocidade alucinante com as pernas longas, alcançando a loira e seu braço sem misericórdia, começando a levá-la casa adentro, decidido a não esperar segurança nenhum.
— Ai! Que porra, o que você tá fazendo?
— Eu não quero ouvir a sua voz, Dalphin, não quero que você diga uma única palavra até estar fora da minha casa.
— Jungkook! Ei…
O corpo de Ali foi solto com certa brutalidade quando pisaram no hall, onde algumas pessoas totalmente alheias à confusão dançavam e conversavam. Àquela hora da noite, ninguém mais fazia ideia do próprio nome, quanto mais que estavam cantarolando uma versão bêbada de
Highway to Hell ao lado de Jeon Jungkook e Ali Dalphin, o casal mais comentado do mundo há alguns meses, as duas grandes figuras que estamparam todas as manchetes digitais e fizeram os telefones de centenas de editoras não pararem de tocar.
E bastava ver a forma com que cada um se olhava para saber que não eram mais nada disso.
— Você tá fazendo merda! — ela gritou, quase ao mesmo tempo que os sapatos pretos de verniz de dois homens enormes chegavam perto, rodeando-a, sem tocá-lá. Pareciam irmãos gêmeos, iguais na calvície e nas tatuagens do pescoço. — Jungkook! O que é isso? Que palhaçada…
— Palhaçada é o jeito como você chegou, como fodeu com o clima de todo mundo. Tá pensando que é quem, porra?
— Quem eu sou?
Quem eu sou?! — ela quase o empurrou de novo. Aquele questionamento era de revirar o seu estômago. — Como tem coragem de me perguntar isso? Você
sabe quem eu sou, seu babaca, sabe bem demais, e mesmo assim, não achou que seria interessante terminar comigo antes de namorar com outra?
Jungkook soltou um som perplexo. Estava com tanta raiva dela que seria capaz de socar uma parede até virar pó.
— Levem ela embora daqui. Agora.
— Quê? Não, não toca em mim… — ela tentou, mas Jungkook já tinha dado as costas. Ali diria aos caras que poderia ir sozinha, xingaria em uma porção de idiomas diferentes e sairia por conta própria, de cabeça e ombros erguidos para seja lá qual fosse o carro que usou para chegar ali. Provavelmente, pegaria um telefone e tentaria ligar umas duas ou seis vezes para ele, mas que se dane. Jungkook não ficou para ver o resto disso. Voltou com passadas pesadas para fora, os olhos duros e negros, a boca fundida em uma contorção estranha, a mente apagada cheia de tudo e cheia de nada.
Porra, seria uma merda tentar entender tudo isso depois. Seria uma merda até
pensar nisso depois.
Estava tão distraído que mal percebeu quando chegou na árvore de novo, vendo que a maioria das pessoas tinham se dispersado, e se tocou de que estava andando sem rumo até achá-la.
.
Ela estava com Candice, uma mão na testa, a respiração pesada. Ele só teve tempo de se aproximar para ouvir um:
— … embora. Vamos pra casa.
Candice estava passando o braço para puxá-la. Jungkook arfou e se apressou:
— Ei. Ei, espera… — ele colocou as duas mãos no seu ombro. — Você vai embora? Eu vou te levar…
— Não precisa, Candice vai me levar.
— Mas a gente tinha combinado…
— A Candice vai me levar. — ela o encarou dura, resoluta, e Jungkook soube que ela estava com raiva.
Dele.
Isso terminou de destruir a mente do anfitrião.
engoliu em seco, desviando os olhos. Odiava isso às vezes; odiava amá-lo tanto que seu corpo, suas reações, físicas e motoras, estavam sempre prontas para abraçá-lo, ouvi-lo, entendê-lo, perdoá-lo, mesmo sem ouvir a história toda, mesmo que não tivesse veracidade. Aquele tipo de amor que nos torna quase anestesiados para a dor que ele pode nos causar. E Jungkook estava, de fato, causando alguma dor em , um desconforto irascível, um frio que vinha da brecha na janela que ele tinha quebrado no meio daquela tempestade.
— Falo com você amanhã. — foi a única coisa que ela disse antes de sair com Candice, dando passadas mais fundas, quase correndo, amedrontada com a ideia de mudar de ideia. Estava sentindo uma coisa que nunca sentiu antes, algo sem nome, sem distinção, algo que apontava, com todas as letras, que ela tinha feito a escolha certa quando falou daquele jeito com Ali.
E algo a dizia que estava fazendo a errada com Jungkook. Que ela precisava dele, é claro que precisava, mas a necessidade de ficar sozinha era maior. A necessidade de acabar aquela noite de uma vez por todas, permitindo que seu telefone acumulasse todas as “chamadas perdidas” que quisesse.
Com um olhar de relance para as luzes fluorescentes que crepitavam acima do hall, se abraçou quando correu para o carro de Candice e se enfiou no banco do carona.
Lá dentro, Jungkook ficou inerte por um longo tempo, completamente embaixo d’água.
Trágico era a palavra certa para descrever o término daquela noite. Ele não estava preocupado com nenhuma contingência para esse dia; era para ser o dia perfeito, o dia de sua estreia, o dia que algo maior estava tendo início. E tudo bem que esse algo maior aconteceu e seguia acontecendo, mas agora a voz de Ali e sua risadinha estariam para sempre na sua cabeça, relembrando-o dessa data como seu retorno de merda. Um riso absolutamente satisfeito e deliberado.
E também foi o dia que tinha ido embora, exposta a tanta informação quanto os outros, mas com o bônus de topar com a mentira
dele. Ou melhor, a sonegação de algo indiscutivelmente importante.
Ela nem precisou dizer nada. Jungkook simplesmente sabia que ela não tinha a menor intenção de atendê-lo pelas próximas horas.
Nada mais tinha graça. O esplendor chegou ao fim.
Aos poucos, ele foi percebendo que estava sendo tocado, que seus amigos estavam mais perto, que estavam falando agitados, balançando mãos, gesticulando, e isso estava mais irritando do que ajudando.
— Para essa porra. — ele disse, e nem sabe em qual tom a voz saiu. Mas eles pararam de falar. — Parem a porra da festa, caralho! Acabou!
Jungkook gritou mais alto, e algumas pessoas de dentro ouviram. A música continuava, e isso estava irritando mais.
— Desliga essa merda, Jaehyun. Manda todo mundo embora. — ele gesticulou para o amigo, e não ficou para ver se ele obedeceria. Tinha uma coisa martelando no seu cérebro, uma coisa tão grande e fodida que conseguia ser maior do que sua vontade de entrar na Mercedes e dirigir até Seongdong-gu, vomitando todos os argumentos e pedidos de desculpas possíveis para que sua namorada não o odiasse demais.
Mas aquela coisa que tinha saído da boca de Ali estava se transmutando e se reproduzindo em um eco infinito na sua mente, e agora ele só queria isso: resolver. Tirar satisfação. Porque tinha certeza de que aquilo continuaria ali até o próximo dia, ou a próxima semana, se ele não fizesse alguma coisa.
Ele se virou um pouco, sabendo que seu alvo estaria no mesmo lugar. Quando encontrou Hoseok, apertou os lábios e olhos com tanta força que não te dava opção de correr.
—
Você. Quero falar com você agora.
— Jungkook, escuta…
— Eu vou te escutar lá na porra do estúdio, e nem precisa se preocupar com o tempo porque você só sai depois de me convencer que não é o filho da puta miserável que se mostrou hoje.
Jungkook foi na frente, marchando com êxito até o cômodo trancado, sorvendo a raiva e a vontade de sacudir Hoseok até que ele perdesse todos os ligamentos do corpo.
Atrás dele, alguns vieram rápido: Taehyung, Yoongi, Jimin e Namjoon, todos fuzilando Hoseok com os olhos, todos chocados e perdidos, e todos com o mesmo pensamento que o resto:
Que dia merda.