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Autora Independente do Cosmos 𓂃🖊
Finalizada em: agosto.25

SYDNEY
2005


O som estridente da passagem do trem sobre os trilhos naquela manhã deveriam ser suficientes para despertar até o mais pesado dos sonos.
O metal rangeu, chiou, as rodas se chocaram de forma violenta no alumínio à medida que avançavam, tão rápidas como uma bala, estremecendo e sacolejando os vagões, como se estivessem conectados um ao outro de forma preguiçosa e pudessem se soltar ao menor sinal da falta de controle da locomotiva.
Existia um complexo de prédios do outro lado da rua, erguendo-se quase na altura dos trilhos, com os andares acima contemplando uma vista panorâmica do trem de carga que passava com sua fumaça interminável diante de seus olhos. Não era nem de perto a melhor vista da cidade. Logo abaixo, as ruas asfaltadas eram entupidas de poeira e lixo espalhado pelos cães noturnos ou, mais provável, por qualquer gangue de delinquentes sem mais afazeres ou perspectivas que se achavam como Alex no próprio Clockwork Orange.
Era uma vizinhança difícil, e barulhenta. Principalmente barulhenta.
já não se incomodava mais com toda a confusão do lado de fora. Dormia profundamente, envolvido sob os lençóis bagunçados, sonhando com o vácuo negro do absoluto nada, exatamente como induziu sua mente a ficar no dia anterior com toda a bebedeira no Route 99. Não era sua intenção ao sair do trabalho naquela noite, nunca era. Não criticava os companheiros que decidiam perder a cabeça com o álcool aos finais de semana, muito menos àqueles os quais eram tão acometidos por esse vício que já se encontravam no seio patológico da coisa, mas de repente ele, que sempre foi de beber apenas socialmente, arrastava os pés de forma quase automática pela calçada rente ao meio-fio em direção à rua movimentada de bares e luzes fortes a dois quarteirões do restaurante onde lavava pratos até duas da manhã.
Não eram pelas luzes. Muito menos pela música ou mulheres bonitas que entravam e saíam de cada um dos estabelecimentos espalhados pelo beco estreito. Era pelo álcool, a bebida barateada pela concorrência acirrada, o vazio pontual que gradativamente tomava sua consciência depois da primeira garrafa. Era intenso, libertador, prazeroso. Que Deus o perdoasse, mas chegava até a compreender o vício, a puxá-lo cada vez mais para perto de si.
Ele grunhiu, com os lábios afogados no colchão descoberto, enquanto recobrava a consciência naquela manhã. Abriu os olhos para o dia cinzento e apurou os ouvidos com o barulho incessante do trem. Não fazia a menor ideia de que horas eram, mas se não tivesse passado das cinco da tarde, honestamente, não dava a mínima.
Levantou-se devagar, sentindo o latejar característico da cabeça, não tão forte como há dois dias. O tédio havia batido rápido naquela madrugada e ele não se demorou muito no bar, conseguindo cambalear até o ponto de táxi mais próximo e dormir na própria cama desta vez. Sem gatilhos fortes por uma noite, nada que remetesse ao verdadeiro motivo de sua busca incansável pela fuga da tormenta de lembranças que pareciam açoitá-lo até a morte se estivesse sóbrio.
A falta que ela fazia, misturada com a dor do motivo do porquê ela não estava mais ali, eram o suficiente para que ele desejasse se desligar de tudo que o puxasse para o mundo real.

MELBOURNE
2002


A temperatura estava nas alturas naquela noite.
A blusa de botões grudava nas costas de , que se viu obrigado a trocá-la por uma camiseta mais adequada para o clima. Sua perna balançava em pura ansiedade enquanto olhava para fora através da fachada de vidro da lanchonete, de repente desejando que Guy tivesse marcado em algum dos estabelecimentos remanescentes onde se ainda poderia fumar sem precisar deixar o estofado confortável do lugar, já que pretendia atrasar tanto daquela forma.
Não era sua intenção aparecer. Nem mesmo quando o amigo alegara que o assunto era de extrema urgência, não importava, Guy poderia ter comunicado o que quer que fosse por telefone. Ou simplesmente ido ao restaurante, onde deveria estar naquele exato momento em mais uma sessão de prática para a prova do Instituto Gastronômico de Sydney.
Ele imaginava que Guy estaria animado com a formatura, e talvez o convidasse para alguma festa de formandos regada a esbórnia e álcool, mas ele não estava totalmente despreparado para aquela conversa. Tinha a recusa bem na ponta da língua e, de quebra, também forneceria sugestões de colegas que certamente não negariam seu convite.
Mas não imaginava o que aconteceria. As verdadeiras intenções daquele encontro não passaram por sua cabeça em momento algum (e, por isso, não conseguiria se proteger).
O barulho irritante do sino da porta reverberou pelos vidros quando Guy entrou no lugar, usando um chapéu terrível com letras garrafais da Universidade de Melbourne, o que usava geralmente nos dias dos jogos barulhentos de rugby que nunca havia se dado ao trabalho de comparecer. Ele caminhou para a mesa da direita um tanto cambaleante, jogando-se no assento à frente, rindo como um idiota.
Gere! Seu grande sacan-
— Corta essa, Guy. Espero que esse encontro não seja pra eu apreciar a sua embriaguez. Tenho coisas pra fazer, caso não se lembre.
— E lá vem o ranzinza... — Guy respondeu, a voz carregada de tons altos e baixos oscilando na mesma frase, os olhos bêbados encarando o cardápio no balcão da recepção. — Não sei se percebeu, mas nós acabamos de vencer a universidade. Formamos, somos adultos agora! É o último dia que podemos nos submeter a alguma merda juvenil, tipo pintar o cabelo de rosa, fumar três becks de uma vez, ficar pelado no píer…
— É, realmente temos percepções bem diferentes da vida adulta. Talvez porque você não estivesse sendo um até agora. — deu de ombros, de repente amaldiçoando a placa de não fume acima do balcão. Alguém aguentava ficar parado naquele lugar sem fumar? — Mas eu ainda acho que não é por nada disso que você ligou oito vezes lá pro restaurante. Fala logo, Cassavetes, não me faça questionar porque ainda sou seu amigo.
O sorriso ladino e divertido atravessou os lábios de Guy, que estava jogado no assento em uma posição nada confortável, mas esse fato parecia o de menos. Ele encarou o relógio de pulso duas vezes, apertando os olhos pela falta das lentes de contato e ergueu um dedo para cima.
— Só mais um minuto… — murmurou, sem parar de encarar o ponteiro.
revirou os olhos, trincando os dentes com a calmaria chapada do rapaz. A linha de pensamento de Guy e, claro, dos outros colegas de turma que agora mesmo também deveriam estar iguais ou piores do que o seu amigo no quesito alcoólico, era até bem simples: acreditavam fielmente que acordariam no dia seguinte ao diploma recebido já automaticamente adultos e com um bom emprego, que conseguiriam na primeira porta em que batessem, ou no primeiro currículo que mandassem. Bem, não era à toa que odiava quase todos eles, e todo o trabalho que tivera com eles nos últimos quatro anos. Ele sim sabia o que ser adulto significava, o que ser dono do próprio nariz queria dizer a si próprio e por isso aquelas comemorações não faziam o menor sentido para ele.
— … E agora!
Ao final da voz de Guy, o sino da porta soou novamente. A garota recém chegada olhou para os lados de início, não demorando a achar o cara de chapéu estranho com as mãos estendidas para cima, balançando-as fervorosamente como se estivesse acenando para algum jogador de futebol americano direto da arquibancada.
! Estamos aqui! — ele gritou, e automaticamente franziu o cenho. A garota aproximou-se rapidamente da mesa dos dois, com uma das mãos na boca enquanto tentava conter as risadas do cara louco e barulhento que, por incrível que pareça, não parecia estar incomodando tanto os demais clientes. — Jesus Cristo, você tá uma gata!
— Fala mais baixo, seu maluco. — ela sussurrou enquanto se sentava ao lado dele no banco.
Nada ainda vinha na cabeça de . Guy encarou a garota e lhe lançou uma piscadinha nada discreta, logo voltando-se para o amigo.
— Esse é o cara de quem eu falei. Gere. Bonito, né? Não mais do que eu, mas ele com certeza chama a atenção. — Guy se inclinou para o ouvido da garota, que encarou com certa curiosidade. — Acabou de se formar também na Melbourne. Gastronomia, acredita? A comida dele é equivalente ao prazer de um cigarro depois do sexo. Consegue imaginar, ? — ele riu mais uma vez, e a garota apenas balançou a cabeça..
sabia da condição precária em que Guy estava, mas ele ainda devia estar são a ponto de lembrar-se da comunicação visual que os dois mantinham desde que eram calouros. E ele tinha certeza do que os seus olhos estavam gritando naquele momento, e esperava que Guy entendesse quaisquer variações da frase que porra está acontecendo aqui?
Se ele entendeu, fez questão de não responder a de imediato. Em vez disso, continuou com o sorriso largo no rosto enquanto prosseguia com seu monólogo.
, essa é Bates, a mais gata da Melbourne. Futura empresária, modelo nas horas vagas e filantropa em tempo integral, vai se formar ano que vem. Parece ser extrovertida, mas é tímida ao menor dos elogios. — a apresentação fez a garota realmente corou. Ela ergueu os olhos para e mostrou um sorriso envergonhado de canto.
não retribuiu o sorriso. Talvez não tenha percebido tal atitude, mas seus olhos só conseguiam focar em Guy e na tentativa de que explicasse o que estava tentando fazer ali. Não que ele não tivesse uma teoria, mas era absurda demais, Guy não faria isso, não de novo. Era humilhante.
Quando um apito ensurdecedor tomou conta da mesa e Guy pulou do assento enquanto calava seu relógio, soube que ficaria nitidamente zangado se ele fizesse o que estava aparentando fazer.
— Olhem só, consegui acertar o tempo duas vezes hoje! É a minha deixa! — ele riu, caminhando lentamente até a porta.
Guy…
— Adeus, pombinhos! Divirtam-se! E lembrem-se: a noite é uma criança!
Os olhos de seguiram as costas do amigo até que ele estivesse fora do estabelecimento, os dentes trincando a cada passo que se afastava. Ele revirou os olhos, claramente irritado por ter percebido as intenções que o levaram até ali tarde demais.
— Aquele filho da p… — começou a murmurar, levando uma das mãos aos cabelos em sinal de pura frustração até se tocar da garota que ainda estava sentada à sua frente. Que ótimo… — Ah… Oi.
— Oi. — respondeu em um tom tão simpático e adorável que foi capaz de apaziguar um pouco a agitação de . — Desculpe pelo Guy, ele não me disse que as coisas seriam assim. Só me disse pra respirar fundo e pedir chá na mesa catorze.
— É, o Guy é um otário de primeira. — ele travou os braços em cima das pernas, ajeitando a postura no assento. — Não sei até que ponto vai seu conhecimento disso. E aqui não serve chá.
— Não tenho conhecimento de muita coisa sobre ele, na verdade. É difícil me concentrar em alguma dessas coisas quando ele começa a imitar o Al Pacino. Ou quando usa aqueles chapéus ridículos. — os ombros dela se ergueram com o riso frouxo que, por um mísero segundo, deixaram uma pontada de curiosidade em para ver o resto. Mas foi literalmente por um milissegundo, mais rápido do que um piscar de olhos.
— Então, olhe só… . — ele apoiou os cotovelos em cima da mesa, aliviado por se lembrar do nome da garota no último momento. — Eu não sei exatamente o teor da sua conversa com o Guy e muito menos qual foi a propaganda que ele deve ter feito de mim, mas não tô interessado em relacionamentos agora, tudo bem? De nenhum tipo, pra ser franco. Peço desculpas pela minha falta de simpatia antecipada, ou por ter feito você andar até essa mesa nos fundos de uma espelunca como essa à toa, mas eu não tô brincando quando digo que ele é um tremendo idiota que não me deixou à par do que planejava, mesmo que tenha as melhores intenções do mundo. — olhou fixamente para ela, que mudou drasticamente de posição. — E você é bonita, muito bonita mesmo, mas eu sinceramente tenho coisas mais urgentes pra fazer nesse exato momento. Então, isso é uma despedida.
Ele arqueou as sobrancelhas ao fim de sua fala, esperando alguma resposta da garota. Seria mais fácil se ela respondesse alguma coisa, pelo menos. Não o faria se sentir como um total babaca ou coisa parecida. Podia me chamar de idiota, pensou ele. Era melhor, e mais verdadeiro.
saiu de seu estado imóvel quando piscou os olhos algumas vezes antes de responder.
— Ah… Certo, entendi. — sibilou, transferindo a atenção para as unhas pintadas de preto debaixo da mesa. — Isso foi inusitado, espero que perdoe o Guy. Ele está bêbado, como deve ter percebido.
— Ah, com certeza percebi. Mas não tenho tempo pra me preocupar com ele, então pode ficar tranquila. Eu realmente preciso ir. — ele agarrou a carteira no bolso de trás do jeans e jogou algumas notas na mesa, pagando seus 20ml de café. — Até mais, se cuida.
fez um meneio de cabeça e se levantou, trotando até a mesma porta do sino irritante. Mas antes que passasse por ela, ele foi até o balcão e deixou mais dois dólares para a atendente, que olhava para tudo e todos com desinteresse estudado.
Arruma um chá para aquela garota bem ali, ele pediu, e saiu sem olhar para trás.

SYDNEY
2005


O carpete manchado debaixo da porta do Magalhães foi estendido pontualmente às cinco da tarde, e caminhou sorrateiramente até a cozinha nos fundos, depois da portinhola de madeira. Um avental marrom escuro voou até seu rosto, pegando-o de surpresa, mesmo que tivesse conseguido segurar o tecido antes que caísse no chão.
— Você tá um lixo. — falou o responsável pelo arremesso, ajeitando o toque blanche, como diria, mas para era apenas um enorme chapéu pontudo que o fazia pensar que era chef. — Acordou em casa, pelo menos?
— Vai se foder. — murmurou ele, amarrando o avental na cintura, a cabeça naturalmente afundada nos ombros. A ilha de pratos e talheres a serem secados e guardados já estavam esperando.
— Vai espantar os clientes com essa cara. — disse o amigo ao puxar o conjunto de facas de todos os tamanhos da bancada abaixo.
— Estamos na cozinha, seu idiota.
— Alguns gostam de entrar aqui e parabenizar o cozinheiro.
— Ótimo, assim eles não vão conseguir tirar os olhos daquela estufa mal calibrada e vamos poder fechar mais cedo depois de chamarem a vigilância sanitária.
— Jesus Cristo, . — o outro revirou os olhos. — Você sabe que dia é hoje? Não vou perguntar das horas porque você parece ter conhecimento do horário de chegada, mas em que ano estamos? Em que cidade, ou país você está? Porque já se passou um ano e você ainda parece um indigente perdido e fedorento. — ele rosnou, cerrando os olhos pela veia dilatando na têmpora. — O seu estado anda tão deplorável que me pergunto sinceramente como consegue se lembrar da onde mora, e muito menos de como chega lá…
— Por que não vai ver se a sua cebola ou seu suflê estúpido não tá queimando, Port? Francamente…
— Quer fugir do assunto mais uma vez? Tudo bem, não vou insistir. Mas sabe do que você não deveria fugir? Da porra do telefone. Daquela coisa cheia de teclas que até usam em formato móvel agora. Sabe do que eu estou falando? Da única forma que você tem de falar com ela agora.
A mão de quase esbarrou em uma das taças de cristal recém-chegadas em cima da ilha, prontas para mais uma noite em que seriam submetidas a pessoas ricas e esnobes do lado de fora. O sangue ferveu por uns minutos, e ele se odiou imediatamente por isso. Odiou a raiva, a culpa, o batimento acelerado que quis tomar conta de seu peito.
— Vá pro inferno, Malkovich. — sussurrou, conseguindo voltar ao eixo sem que o amigo notasse. — Tô falando sério.
— Liga pra ela, . Ou eu mesmo ligo.
Port desferiu o pano branco apoiado no ombro direto na bancada a fim de se fazer entender, e deixou a cozinha. bufou, fechando os olhos com força enquanto esquecia da tarefa à sua frente. Ele sentiu, podia praticamente ver as lembranças voltando, e desejou o álcool imediatamente, desesperadamente. E se tocou do ponto em que estava, da dimensão que tudo aquilo havia tomado.
Não que essa constatação já não tivesse vindo antes. Ele não precisava de Port para lembrá-lo de que estava no fundo do poço, senão muito perto dele. Mesmo que continuasse aparecendo no trabalho pontualmente, fazendo suas tarefas com competência, ele sabia que não era mais, bem… ele mesmo. Mas era fácil se entregar à alternativa de fuga quando aquelas cenas achavam a brecha em seu inconsciente para retornarem à sua memória, abrindo um rombo gigantesco que facilitava a passagem das demais e que só seria fechado com o álcool à espera na Route 99.
Port não entendia isso. tampouco tentou explicá-lo sobre o misto de emoções que pairavam na sua mente nos últimos tempos. Era a coisa mais maluca que já viveu em toda a sua vida, e nenhuma substância estranha que ele e o amigo tivessem experimentado depois da aula em algum momento da faculdade chegava perto daquilo.
E por essas e outras, ligar para ela era a ideia mais descabida, senão a pior, que ele já havia escutado. Não poderia reviver essas sensações, todas de uma só vez, pegando-o como vários socos simultâneos, não mais um por dia. Era demais para ele. Por que alguém iria querer isso?
A voz pesada e autoritária do gerente interrompeu suas reflexões falidas, puxando-o para a realidade de mais um dia de trabalho a ser vencido. Ouviu as recomendações do dia, os convidados especiais e os fornecimentos que se achavam em falta em caso de alguma emergência, mas que o Magalhães faria o possível para manter as aparências e levar os clientes a escolherem o prato do dia.
balançou a cabeça e voltou-se para o fim da arrumação das taças, quando uma voz sibilou ao seu lado:
— Tenho uma proposta pra você.
Ele não se deu ao trabalho de parar e se virar. Apenas suspirou e respondeu no mesmo tom de voz:
— Não.
O homem de meia-idade revirou os olhos, e limpou a garganta enquanto ajeitava a gravata impecável do pescoço.
— É uma emergência, garoto. Acredite em mim, não iria me atrever a pedir se não fosse por isso.
— O que foi desta vez? — virou-se abruptamente, aceitando que ainda não teria paz e sossego. O homem à sua frente engoliu em seco.
— O Wagyu. — ele respondeu, e mal esperou para falar um “não” em alto e bom som, dando as costas e escapando de volta para os fundos. — ! Porra… como tem a petulância de agir assim? Garoto! — o gerente seguiu o rapaz, o maxilar trincado de raiva. — Qual é o seu problema…
— Meu problema é que não tem apoiador para as louças de chá.
.
— Não vai rolar, Peter. Nem adianta.
— Mas você…
— Não.
— Eu poderia te demitir!
— Você não vai me demitir. — se posicionou na frente do homem, a voz tranquila e inabalável. Havia algo ameaçador em vez de respeitoso quanto a isso.
Peter trincou os dentes.
— Que seja! Você não está entendendo, um CEO importante vem aí, e ele pediu especialmente um bife Wagyu. Eu li seu currículo, garoto, ninguém aqui vai fazer o trabalho melhor do que você, então por Deus, se puder ceder apenas hoje…
— Se eu ceder apenas hoje, amanhã você vai estar colando um crachá de chef no meu peito, mesmo que esse não seja o cargo que me candidatei. Então…
— Te dou o equivalente a um mês de horas extras, isso é suficiente? — o homem o interrompeu, as mãos repentinamente suadas e escondidas nos bolsos da calça social. — Sem a maldita promoção ou qualquer coisa que o faça exercer seu bendito talento desperdiçado. O que acha?
suspirou, mordendo os lábios enquanto encarava seus próprios pés. Ele sabia que queria o dinheiro, precisava dele. Logo pensou no whisky Macallan vendido pelo próprio estabelecimento, e que com certeza Peter daria um bom desconto nele, e todo o universo fugaz e imprevisível que poderia estar escondido dentro daquela garrafa pareciam tentadores demais, um escândalo incontrolável de encontrar o próprio nada, mas ele não conseguiu responder de imediato. No fim de tudo, a questão não era sobre o dinheiro. Ele seria útil, mas viria depois da tormenta, depois de ter que enfrentar o que evitava há meses.
Peter ainda esperava uma resposta, agora mais nervoso do que antes enquanto repassava na cabeça todos os substitutos possíveis que conseguisse arrumar naquela última hora que fossem tão ou mais geniais do que o moleque teimoso à sua frente, o peito queimando em desespero ao ver a lista diminuindo a cada segundo.
— Tudo bem. — concordou , por fim. O suspiro aliviado de Peter foi ouvido até no salão. — Dois meses de horas extras mais uma garrafa de Macallan.
— O quê?! — Peter arfou enquanto levantou apenas uma sobrancelha, provocando-o a dizer não. O gerente, no entanto, decidiu que poderia superar uma garrafa a menos na adega, de graça. — Seu miserável… Ok, certo! Agora começa a cozinhar, o cara está prestes a chegar.
— Sim, senhor. — o rapaz fez uma reverência exagerada com as costas enquanto dava um sorriso de canto, encaminhando-se para o centro da ilha.
Mesmo com a volta de um Port mais calmo, e repentinamente animado com a grande notícia da noite, não serviu para deixar menos receoso com a situação. Ele tinha confiança em seu talento, sua vocação, tão presentes desde o nascimento e tão clara para os demais que o viram crescer. Até chegar onde estava — ou, pelo menos, onde deveria estar — havia sido com esforço, suor e competência, grandes atributos que o fizeram amadurecer mais rápido do que qualquer um de sua idade. A cozinha era sua grande paixão, mas também o lugar onde ele via uma melhora de vida e a ascensão que sempre desejou. Era aquilo, nada mais importava, não deveria importar.
Contudo, no momento, ele se sentia mecanizado. Cozinhar não era mais uma terapia, parecia diferente, parecia faltar algo. Deus do céu, definitivamente estava faltando algo. O prazer, a entrega, o amor…
Essa droga de novo não.
Ele pegou a faca maior, misturada aos demais utensílios da cozinha. Não disse nada enquanto repassava a receita na memória, assim como a montagem do prato e o veredicto do cliente. Seja lá quem fosse, iria se derreter com a explosão de sabores que era capaz de fornecer com suas mãos.
Ele olhou para a cesta dos vegetais frescos que algum outro sous chef havia deixado ao seu lado, agora parado na frente de , obedientemente, do outro lado da ilha, como se esperasse uma ordem do responsável. Ele revirou os olhos, murmurando algo como esquentar a água para fazer uma sopa e esticou o braço para pegar o que precisava, enquanto o garoto à sua frente fazia uma reverência ridícula e ocupava-se da tarefa, como um perfeito soldado.
Era necessário cortar o alho, refogá-lo no azeite, adicionar seus outros temperos especiais que fariam um verdadeiro carnaval na boca de seu consumidor do lado de fora, mas o que veio à suas mãos não era o que pretendia. Ele olhou para a cesta de legumes, observando uma cebola que repousava calmamente acima de todos os outros, parecendo olhar para ele em forma desafiadora, não pedindo que a usasse, mas que olhasse para ela sem lembrar.
O que era isso agora? Uma mera cebola geraria um gatilho de memórias? Poderia existir uma situação mais ridícula e humilhante do que essa?
desviou os olhos e pegou a faca novamente, procurando se concentrar apenas no que iria realmente usar, mas já era tarde demais. Ele se lembrou do que faria com aquela maldita cebola se a usasse. Ela seria fatiada, empanada e iria pro óleo, talvez hoje de um jeito mais refinado, mais profissional, mas no verão daquele ano, ela parecia tão boa quanto o que ele seria capaz de fazer agora…

MELBOURNE
2002


Levou apenas meia hora para saber que não deveria ter ido àquela festa. Principalmente depois daquela garrafa voar acima da sua cabeça, espatifando-se na parede logo atrás.
Os urros do ato poderiam ser ouvidos a quilômetros de distância, e ele revirou os olhos para tal feito enquanto esbarrava nos ombros vizinhos à procura de Guy, que devia estar tentando se dar bem com alguma garota ou bebendo o suficiente para isso.
Deu para chegar na cozinha sem grandes estragos em sua roupa, o que já era muito melhor do que o resultado da festa anterior onde também estavam reunidos seus colegas de turma, há pelo menos três anos, onde o cabelo de uma garota passou pela maior transformação.
— Vou te falar! — Guy gritou para ser ouvido sob a música alta da sala, passando os braços pelos ombros de . — Eu não sei o que é essa coisa com cebola que você inventou agora, mas as pessoas estão indignadas que já acabou.
— Eu não inventei nada. Só melhorei o que já existe. — ele respondeu, se desfazendo do aperto do amigo.
— E continua convencido! Desse jeito, não vai fazer amigo nenhum em Sydney.
— Quando eu abrir meu próprio restaurante e estiver fazendo pratos para o presidente, quem sabe eu me interesse por ter amigos. — deu de ombros, dando um grande gole na cerveja. Um ombro esbarrou no seu, fazendo com que suas mãos quase se desequilibrassem e ele ganhasse o banho de álcool que estava tentando evitar durante toda a noite.
Isso não impediu que alguns fios do líquido caíssem sobre seu queixo. Ele bufou e virou-se rapidamente, ao mesmo tempo que a outra pessoa.
— Mas qual é o seu… — sua voz saiu alta, a expressão claramente zangada e impaciente, mas parou ao notar o rosto da pessoa.
— Me desculpa, não foi minha intenção, a falta de luz me fez pensar que o espaço era maior, eu só… ? — ela franziu o cenho ao reconhecê-lo. sabia que a conhecia de algum lugar, e poderia ser a bebida falando naquele momento, mas da onde conheceria uma garota tão bonita daquele jeito?
! — o berro de Guy em suas costas o fez quase pular de susto. Ele pegou a garota nos braços e a rodopiou no ar, enquanto ela dava gargalhadas estonteantes com o abraço. — Não sabia que apareceria pra iluminar essa caverna. Quem é a sua amiga?
— Essa é a Amélie Tautou, minha colega de turma. Amélie, estes são Guy, da faculdade de Negócios, e , que se formou em Gastronomia agora. — ela apontou para os dois enquanto a outra garota loira ao seu lado dava pequenos acenos com a cabeça, sendo inútil a tentativa de se comunicar.
ainda olhava para a mulher que havia esbarrado. Ela era a garota que Guy havia levado para o encontro às cegas forjado naquele dia, e tudo bem que ele se lembrava de ser uma garota bonita, mas ela sempre foi tão bonita assim?
O álcool, era isso. Ele não bebia muito e sua tolerância era baixa. Com certeza estava vendo as coisas sob uma nova versão, uma que passaria logo.
Ele apenas ria e acenava, não conseguindo acompanhar completamente o andamento do assunto, que pareceu muito breve quando e a amiga disseram algo sobre ir buscar uma bebida no outro lado da casa e desapareceram no meio da multidão. seguiu a garota com o olhar, e alguma coisa estranha atacou em seu estômago. Ela era bonita, incrivelmente bonita, e agora ele se lembrava gradativamente de tudo que havia dito a ela naquele dia, de repente querendo que seu rosto fosse a parede alvo da brincadeira de quebrar garrafas vazias.
— Caras! — o rosto de Port surgiu ao lado de e Guy. — Como a irmã de Leonard Bates se atreve a vir nessa festa desacompanhada? De repente me senti um cara perigoso.
— Quem é Leonard? — perguntou, recebendo os dois pares de olhos para si em total choque.
— Leonard Bates, . Vamos lá, você não lê revistas de economia? — não respondeu, e Port revirou os olhos. — Ele é herdeiro daquela companhia de investimentos do caralho, alguma coisa Coppola, que são extremamente fodas e a maior procura do mercado financeiro quando o assunto é apostar em gente nova na área. É o sonho de todo novo empreendedor.
virou a cabeça automaticamente, à procura da garota desaparecida. Desejou, mais do que nunca, que todos os convidados fizessem fila e o acertassem novamente, cada qual com sua garrafa por ter sido tão idiota com aquela verdadeira galinha dos ovos de ouro.
— Eu não fazia ideia disso... — murmurou, sem perceber. Guy deu uma risada engasgada.
— Não me diga que está arrependido agora de ter dado um fora nela?
— Você deu um fora em Bale?! — Port arregalou os olhos e a boca. — Eu sei que você é estranho, mas não sabia que beirava a essa insanidade.
— Calem a boca. — resmungou e bebeu um gole da cerveja, permitindo que seu orgulho falasse mais alto.
Ele não voltou a vê-la por pelo menos uma hora. Não era tão simples ficar em constante movimento no meio de toda aquela gente, e as pessoas não pareciam se importar com o suor que começava a brotar de suas costas com a passagem do ar cada vez mais estreita naquela massa dançante de carne humana. Por fim, depois de mais alguns goles, ele começou a pensar consigo mesmo que não tinha nada demais. E daí se ela vinha de uma família abastada? Uma com posição casual da nobreza do país? E daí que se aproximar de pessoas assim era exatamente o que ele precisava para dar um grande passo em direção ao seu objetivo profissional? Não importava mais. Agora ele havia arruinado tudo por causa de um momento inoportuno.
Era isso, estava arruinado, falido. Não adiantava ficar se remoendo.
— Eu não falei? — a voz de Port surgiu novamente por suas costas, desta vez no jardim de fora, onde o ar fresco e a música mais ao longe permitia uma melhor harmonia com a festa. — Eu disse que a Bates deveria ter trazido nem que fosse um amigo gay pra fazer companhia pra ela por aqui. Ela já está sendo atacada de novo.
tirou o cigarro dos lábios, olhando para onde Port apontava. Ao lado da mesa larga recheada de bebidas logo à frente da piscina, conversava com um cara grandalhão, de braços fartos cruzados, ainda molhado do recente mergulho e rindo alegremente. Ele, não ela.
Guy e o outro amigo disseram coisas desconexas sobre a situação e logo voltaram para a cerveja e a azaração com outras garotas, mas continuou olhando o quadro. O cara se aproximou dela rápido, e ela deu um passo para trás na mesma velocidade, gesticulando com as mãos sobre sair dali, mas então seu braço foi agarrado com certa brutalidade pelo outro. olhou para os lados, buscando enxergar a amiga de antes, ou qualquer outra pessoa que talvez estivesse vendo aquilo e estivessem sãos o bastante para se tocarem do absurdo que era, mas ninguém se mexeu. Ninguém parecia estar vendo.
bufou e passou as mãos na cabeça. Não soube dizer quando começou a caminhar para lá, jogando a bituca do cigarro em qualquer ponto do gramado, largando a cerveja em cima da mesa bem nas costas da garota.
— Opa, boa noite! — ele disse, abrindo um enorme sorriso que não era do seu feitio. — Eu andei até aqui pra perguntar em qual escola de malucos a ineficiência do prefeito ainda continua prevalecendo para que caras como você ainda consigam andar por aí sem uma focinheira, mas até eu formular tudo isso, cheguei a conclusão de que não adiantaria fazer isso por causa da grande possibilidade de você não entender. Acontece geralmente quando os neurônios continuam os mesmos desde o fundamental. Ah é, claro, sendo assim, será que poderia tirar as patas da garota? Seu ritual de acasalamento só funciona com os da mesma espécie que você, então acredito que vá precisar desistir da gata aqui. Você nem tem penas o suficiente.
piscou os olhos para o rapaz, um tanto atônita com sua aparição repentina. Ela já estava sendo puxada levemente por para trás de suas costas, enquanto ele ainda permanecia com o mesmo sorriso debochado para o grandalhão, sem um pingo de insegurança.
O outro esticou os lados do rosto para sorrir, os ombros fechados com uma tensão visível.
— Não entendo o que disse, amigo, mas sugiro que saia da minha frente. — ele trincou os dentes. Algo em seus olhos era feroz e vivo, e estavam direcionados para a garota do mesmo jeito de um homem das cavernas.
— Acho que você não me ouviu…
— Ele é meu namorado, idiota. — interrompeu antes que terminasse a frase, fazendo com que os dois homens a olhassem em súbito. — Será que você ainda não percebeu?
A primeira reação de foi franzir o cenho para ela. arqueou as sobrancelhas e ele entendeu o recado, detendo-se em olhar para o atleta bombado com mais firmeza. Este, por outro lado, finalmente pareceu seriamente atingido pela informação, do mesmo jeito quando um avião cai em um campo de trigo.
— Namorado… de que porra você está falando, ? Não soube de nenhum namorado seu.
— Acha que eu saio por aí contando da minha vida amorosa como você e seu bando de brutamontes fazem? Como você fez com aquela garota da turma de natação, e tantas outras do departamento? Assim como pretendia fazer comigo agora mesmo?
— Mas… , você é diferente de todas elas, eu já disse…
— A sua habilidade cognitiva também foi pro ralo depois de tantas flexões e esteroides? — voltou para a conversa. — Ouviu alguma palavra que ela disse? Você entende a nossa língua?
— Acha mesmo que vou acreditar que ela tá saindo com você? Corta essa, CDF esquisito…
abriu a boca para destilar mais uma das ofensas em seu acervo, quando seu rosto foi puxado pelos dedos delicados da garota ao lado e sua boca invadida pela dela ali, bem na frente do cara inconveniente, bem no meio da festa de despedida dos formandos.
Ele esperou que ela parasse logo. Nos primeiros segundos, só conseguia ficar parado sem mover um músculo. Mas ele devia encenar também, não devia? O grandalhão ainda estava por perto, e mesmo que ninguém nunca o tivesse agarrado daquela maneira inesperada, não dava para dizer que estava sendo desagradável receber o beijo de uma garota bonita.
Depois disso, o tempo passou voando. jamais saberia quantos minutos foram. Nem como suas mãos foram parar na nuca e na cintura dela. Ele sentiu ela se afastar primeiro, ainda mantendo os olhos fechados. Quando enfim voltaram à realidade, pareceu extremamente chocada.
— Meu Deus! — ela levou uma mão à boca. — Me desculpa, eu não… Eu não devia ter feito isso! Caramba, o que deu em mim…
, está tudo bem, não foi-
— Eu juro que não planejava fazer isso nem nada parecido. Eu só queria me livrar do idiota. Vi o carro dele aqui na frente, mas não achei que teria problemas, mas daí… — ela balançou a cabeça, começando a se afastar. — Eu acho que já vou. Sinto muito.
— Espera, você não… — tentou, mas a garota foi mais rápida, desaparecendo novamente no meio da multidão.
Antes que ele concluísse qualquer tipo de pensamento, seus ombros foram tomados — de novo naquela noite — pelo aperto dos dois amigos, que ofegavam pela corrida para chegar até ali.
Gere, seu grande sacana! — Guy riu alto, virando de frente para o amigo. — Então era esse seu plano o tempo inteiro? Tentar se redimir com a Bates?
— Não foi nada disso…
— Mas se redimiu, não foi? Ela te perdoou, pelo visto! E que jeito mais delicioso de perdoar. — Port deu um tapa nas costas de , rindo tanto quanto Guy. — Você realmente nasceu com algum tipo de talismã de uma era geológica de ouro e todas essas superstições bizarras que trazem sorte pra vida da pessoa. Vou te dizer…
balançou a cabeça, agora ele mesmo rindo. De repente o ambiente parecia mais leve e enérgico. Ele não queria mais olhar para o relógio para verificar as horas e começar a se despedir dos amigos ao menor sinal do limite de seu tédio ter sido atingido.
— Você gostou também, seu grande aproveitador. — disse Guy para , cerrando os olhos.
— É, posso dizer que sim. — ele sorriu, pegando uma outra bebida da mesa.
— E então? Vai vê-la de novo?
— Acho que devo. — respondeu com confiança e clareza. — Ela pode ser de grande ajuda pra uns projetos pessoais.

SYDNEY
2005


limpou o último resquício do molho que havia respingado na borda do prato.
A sombra em volta da ilha aumentou. Talvez aquela fosse claramente uma demonstração de como o diamante Grande Mogul se sentia ao ser encarado sob aquela panorâmica por tantos olhos curiosos e admirados dentro de uma redoma de vidro, seja lá onde estivesse sendo exibido. Há quem dissesse que o resultado final daquele prato era tão digno de exibição quanto os outros diamantes das dinastias antigas do Oriente.
Peter levou as mãos ao peito, os olhos brilhando ao encarar a luz refletida no molho, na crosta da carne, até mesmo na própria cerâmica do prato. Ele encarou o rapaz do outro lado da bancada, agora desfazendo-se do avental na cintura e se afastando da multidão curiosa.
— Pode levar. — voltou para os fundos da cozinha, direto para as luvas de látex que o lembravam de seu verdadeiro serviço: lavar os pratos.
Era uma imagem estranha. O mesmo sous chef que havia ficado de prontidão para quaisquer ordens de na confecção do jantar especial, encarava a cena com certa indignação e até mesmo decepção. Peter revirou os olhos, eufórico demais para perder a saliva em mais uma sugestão para que Gere fizesse um uso melhor de seu nome e voltou a cuspir suas ordens para que levassem o prato principal ao cliente no andar acima, como se carregassem vários quilates de milhões de dólares. Contudo, ele já parecia mais relaxado e tranquilo quanto à repercussão do jantar, já que sabia quem havia preparado.
Em menos de quarenta minutos, os burburinhos na cozinha já adiantavam o diagnóstico do homem de terno do lado de fora, que saboreava com muito prazer o prato pedido: um sucesso. Era exatamente isso que dizia o telefone sem fio.
sabia o que aconteceria a partir do momento em que disse sim ao gerente. Mas, ao ouvir os sussurros e sentir alguns olhares sobre si enquanto ainda cuidava da limpeza dos utensílios, não pôde deixar de sentir um certo alívio ao perceber que realmente havia dado certo. Porque sim, ele sabia fazer o prato, sabia dos segredos e toques especiais para que nenhum erro pudesse dar às caras, sabia como conquistar o paladar das pessoas. Mas, ainda assim, essas coisas eram apenas técnicas registradas em um livro qualquer, ou simplesmente ditas em uma sala de aula, eram apenas regras a serem seguidas. E por muito tempo, a maior parte de sua vida para ser específico, ele acreditava que apenas segui-las o levaria ao sucesso. Que não existiria nenhum prato que não pudesse cozinhar se avançasse conforme essas leis.
Mas ele percebeu, talvez da forma mais difícil, que a ganância acompanhada de pretextos arrogantes, até poderiam fazê-lo ser um bom profissional. Poderiam fazê-lo abrir seu próprio restaurante, sim, e seria um grande restaurante, conquistaria pelo menos quatro estrelas Michelin e quem sabe espalharia filiais por vários países, mas a comida dele seria apenas comida. Ela seria consumida, elogiada e em seguida seria paga, muito bem paga. As pessoas se lembrariam dela por um tempo, e panfletariam o ótimo sabor que o chef poderia oferecer com tal receita, mas aquilo não deixaria marcas permanentes na vida de ninguém. E era esse tipo de coisa que ele havia entendido nos últimos três anos. Desde que ela apareceu.
Porque a comida de Gere da universidade não era a mesma do que havia passado para o Instituto de Sydney. Não era a mesma do cara que havia se destacado com mérito em todos os testes e concursos e recebeu tantas propostas de emprego que já era impossível contabilizar. Não era a mesma do dono do prato autoral que o havia concedido duas indicações ao Guia Michelin. O seu nome piscava em evidência diante dos olhos dos maiores profissionais do ramo gastronômico, primeiro pela sua grande ascensão ao estrelato e, mais tarde, por ter sumido em pleno auge.
Porque ele havia compreendido que, na verdade, não sabia cozinhar. Porque não se tratava apenas de misturar ingredientes e servi-los. Todos os seus esforços de anos foram completamente bagunçados por uma garota, que o mostrava a cada dia que ele podia chegar mais longe do que sonhara se colocasse um pouco mais do que apenas seu talento na comida, mas também seus sentimentos, os mais puros sentimentos bons. E ah, como aquilo pareceu uma enorme besteira quando dito pela primeira vez. Era tão sonhador, infantil e enigmático. Não valia a pena nem a reflexão.
Mas quanto mais passava o tempo com ela, sem perceber, mais esses sentimentos eram adicionados gradativamente em suas receitas, e de repente ele se viu diante de críticas novas, reações diferentes das que sempre recebeu. Porque as pessoas o agradeciam por experimentarem algo tão mágico. E ouviu que a comida os transportou à infância, a episódios específicos de suas vidas, a amores antigos e novos, a esperança e confiança de dias melhores, e chegou até a ver lágrimas, várias delas. E de repente começou a se interessar em quem estava comendo. E como ele poderia tocar o coração dessa pessoa, de verdade. Era uma reviravolta tão apavorante que ele pensava que estava enlouquecendo, mas hoje entendia. Era ali que começava a entender o que era cozinhar de verdade. Que a comida, de fato, era uma arte e que artes falam e repassam mensagens do próprio jeito delas, sem usar palavras.
Era exatamente por isso que ficou aliviado por não ter colocado os seus próprios naquele prato. Não cozinhava desde que ela se foi. Uma cólera insistente tomava conta de si toda vez que se aproximava de uma bancada, e ele julgava o prato preparado como detentor de toda a tristeza e sentimentos malfadados que o atormentavam nos últimos meses.
Ele definitivamente precisaria daquele Macallan mais tarde.
Não faltava muito agora para enfim poder ir embora. Peter não o impediria de sair uma hora mais cedo, e ele certamente não aguentaria seus elogios pelo restante do expediente, mas antes que pudesse averiguar a possibilidade da saída, o gerente entrou a passos afobados na cozinha, indo direto em sua direção.
, você… Pra onde pensa que vai? — ele perguntou ao reparar na pia brilhando e nos pratos perfeitamente empilhados ao lado.
— Pensei em incluir uma saída mais cedo no acordo. Acredito que você não se importe.
— Ah, seu pequeno aproveitador… — Peter inchou as narinas, mas suspirou logo em seguida, abrindo um enorme sorriso que guardava desde o lado de fora. — Tudo bem, pode ir, mas antes de tudo, preciso apresentá-lo ao cliente.
— O quê?
— Não olhe assim pra mim, ele ficou louco pela sua comida. E eu não podia inventar uma pessoa que-
— Ah, podia sim! Eu te dou toda permissão pra isso, Peter. Chama aquele cara que cortou as cebolinhas. Agora se me permite…
! Caramba! Ele só quer te conhecer e elogiar o seu trabalho. Se ele te der um cartão, é só esperar dez minutos e jogar no lixo, como você sempre faz. Pode fazer esse último favor?
bufou, colocando as mãos nos bolsos enquanto pensava.
— Uma folga amanhã.
— Seu moleque…
— É pegar ou largar.
— Tudo bem, tudo bem, agora vamos. Estamos deixando ele esperando.
revirou os olhos e seguiu para o lado de fora, para o ambiente quente e aconchegante do restaurante que havia escolhido trabalhar à convite de Port, que era o único de seus poucos amigos que o deixaria ter um cargo tão distante de como ele imaginara no passado, mesmo que a contragosto.
O cliente estava muito bem instalado no andar de cima, em um espaço amplo e alto o suficiente para uma vista panorâmica e vasta das luzes da cidade. A mesa no centro do ambiente acomodava um homem alto vestindo um terno claramente caro, de costas para a entrada e uma mulher muito bonita e elegante. Ao se aproximar dos dois, Peter coçou a garganta antes de falar:
— Perdão pela demora, senhor Bates. Este é o chef responsável pelo Wagyu que servimos esta noite. Gere.
ergueu a cabeça como um jato à primeira menção do nome. O homem mais à frente sentiu a mesma coisa. Ele virou-se lentamente, levantando-se do assento, olhando para o dono do prato que o havia deixado tão feliz naquela noite.
Leonard não sabia se estava conseguindo sorrir de forma convincente. Também não era sua intenção. Em contrapartida, sentia o coração acelerar de forma tão feroz e atenuante; era como se, por todo esse tempo, ele estivesse em um sono profundo e finalmente despertasse, sentindo a realidade como um todo, vivendo o presente em total perspectiva. Não era apenas pelas lembranças que aquele homem trazia consigo só por estar ali, mas exatamente por que ele estava ali. No restaurante, na cidade, no país. Por que estava aqui? Se ele estava, então ela…
. — ele interrompeu seus pensamentos, usando o mesmo tom de voz doce e autoritário ao mesmo tempo. — Há quanto tempo. Então você é chef agora?
Peter olhou para os dois, de um a outro, com a expressão totalmente confusa. encarou o empresário com olhar firme, porém que não exalava tanta confiança como antes. Ele havia ficado péssimo em disfarçar seus sentimentos.
— Não exatamente… Leonard.
— Entendo. Isso é surpreendente, não vou negar. Pelo que me lembro, as pessoas sempre tinham algo pra você. Soube que foi convidado pelo Mugaritz pessoalmente pra ingressar na cozinha deles. Seria uma conquista e tanto, acho que você andou quebrando alguns recordes por aí.
trincou o maxilar, uma raiva súbita subindo pelo seu peito e uma imensa vontade de correr. Ele não queria saber de suas provocações, queria saber o ponto principal: ela também?
— É, pois é, gosto de estar em casa. — ele deu de ombros, a voz falhando ridiculamente. — E você? O que o traz de volta?
Desta vez, Leonard riu. Também não havia sido nada verdadeira, como se finalmente tivesse feito a pergunta que ele esperava. O empresário revirou os olhos e encontrou o rosto de Peter, ainda parado no mesmo lugar enquanto encarava os dois homens que instauraram um clima tenso e pesado.
— Talvez você não saiba, Peter… — começou Leonard, alinhando as mangas do paletó. — Mas esse garoto foi o aspirante a chef mais jovem a ser indicado pelo Guia Michelin. A capacidade dele é algo realmente impossível de ignorar.
— Ah, eu estou ciente, senhor.
— Pena que todo esse talento não apaga o seu mau caráter e nem o fato de ter sido um completo miserável com a minha irmã.
já esperava essas palavras. Também esperava o sorriso cínico que as acompanhou, mas ainda assim, não pôde deixar de sentir o soco no estômago. E ainda sentia raiva, mas não mais por Leonard, nem no começo. Era por ele mesmo, e sabia que o ex-cunhado reviveria esse sentimento nele por puro rancor de alguém que se sentiu enganado por um suposto amigo.
Peter não soube o que dizer. Sentiu que não deveria. A situação parecia particular demais para que se metesse.
— Você não parece um chef agora. — Leonard continuou, enfiando as mãos nos bolsos, ainda estudando o rapaz. — Se incorporasse a sua marca de chef de verdade, eu teria reconhecido sua comida a partir do momento em que provei. Mas não me veio nada… por que será, ? Por acaso você se esqueceu de quem queria ser? Do lugar que queria tão loucamente alcançar?
O olhar de ambos foi duro e cortante. A pergunta de Leonard tinha sido retórica, mas ele, no fundo, desafiava a respondê-la. Este, por outro lado, apenas apertou os lábios e suspirou de forma pesada, como se estivesse segurando o ar até então.
— Acho que preciso ir. Aproveite o resto do seu jantar. — sibilou ele, dando as costas para o homem.
— Ela também está de volta! Era isso que queria saber, não era? — sentiu os pés pararem no mesmo lugar, à medida que seu coração ousou bater à uma velocidade gritante. — Não ouse nem pensar em chegar perto dela, Gere. Dessa vez, não vou me contentar com apenas um soco.
Um torpor insano sedou o cozinheiro, fazendo-o ficar parado no mesmo lugar por segundos que pareceram eternos. Tão logo recobrou a consciência e voltou a se retirar do lugar, desceu as escadas um pouco cambaleante, fervendo por dentro, e largou a camisa branca de botões amassada num montinho mirrado e emaranhado de roupas sujas ao lado do banheiro. Tinha um nó atando a garganta, quase como um ataque de pânico. só pensava que precisava desesperadamente sair dali, digerir toda a informação, e se afogar no álcool no minuto seguinte para que não pensasse, em hipótese alguma poderia pensar.
Refletir traria as lembranças de novo, e ele não poderia se torturar daquela forma, agora sabendo que ela estava por perto. No último ano, ela tinha sido apenas fotos em revistas, mensagens gravadas na secretária eletrônica, polaroids desbotadas, presentes guardados que ele olhava de tempos em tempos. Era fácil lidar com a ausência quando não existia a possibilidade do encontro. Mas agora, a informação de Leonard mudava tudo…
Ou não mudaria nada. E descobriu que isso seria tão ruim quanto.
Não se despediu de Port ao entrar na cozinha. Ele só queria achar sua mochila, pegar as chaves da adega e tomar posse de seu Macallan de direito. Estava louco por isso, tão louco que seria capaz de matar quem tentasse impedi-lo.
Com o whisky devidamente guardado, tratou logo de seguir à passos largos para a porta dos fundos, por onde sempre chegava e saía. Peter não apareceu, para alívio dele. Devia estar nesse exato momento de joelhos para Leonard, implorando qualquer tipo de perdão sem sentido para inflar o ego do cliente que provavelmente desistiria das centenas de dólares em gorjetas que deixaria sobre a mesa. Não importava, ele poderia se desculpar amanhã, poderia abrir mão do dia de folga para compensar qualquer erro que tenha cometido, mas hoje não. Hoje ele não conseguia encarar tal tipo de coisa.
— Ei, ! — Port gritou por suas costas, mas o rapaz não parou de andar. Sentia os olhos ardendo, as mãos ficando trêmulas e rezava para chorar apenas em casa. — Ei, cara, calma aí! Você está legal…
— Você sabia, não é? — virou-se para o amigo, soltando seus braços dos dedos que o haviam abocanhado, impedindo-o de seguir em frente. Havia raiva em seus olhos, misturada com tantos sentimentos, todos os que ele nunca conseguiu explicar a Port. — Sabia que era Leonard? Sabia que ela tinha voltado? É isso?
Port abriu a boca para responder, mas voltou a fechá-la. Uma grande nuvem de constatação, de compreensão sobre o estado de pareceram atingi-lo como uma onda. De repente, se arrependeu amargamente de todos os julgamentos errôneos que havia feito, tanto interna quanto externamente. Não era apenas uma dor de cotovelo. talvez estivesse sofrendo bem mais do que ele imaginou.
— Eu… Eu pensei que…
— Esse é o seu problema, sempre foi o seu maldito problema: pensar! Acha que essa ideia foi brilhante? Me pedir pra ligar pra ela justo quando ela está de volta? Me diga, achou mesmo que isso seria uma boa ideia? — cerrava os dentes, não obtendo mais tanto sucesso em controlar toda a frustração que sentia. — Achou mesmo que eu precisava de um lembrete do passado? Por acaso acha que eu estou fugindo do quê, Port, me responde! Por todo esse tempo, o que acha que eu estava fazendo?!
, se acalma…
— Não pede pra eu me acalmar, não hoje! Só quero que você me deixe em paz, tá legal? Tô indo nessa.
, sinto muito, mas… Eu…
— Até mais, Port. — ele deu as costas novamente e recomeçou sua caminhada até a porta, mas Port não parecia disposto ainda a deixá-lo ir.
, é sério! Você precisa me ouvir…
— Mas o que diabos você-
preparou-se para virar novamente para ele, até socá-lo se fosse necessário para que aquela perseguição angustiante acabasse e ele finalmente se visse fora daquele ambiente sufocante, mas então tudo de ruim que pudesse acontecer somente naquele dia, finalmente achou a situação caótica perfeita para se instalar e fechar aquele pesadelo com chave de ouro.
Antes que Port pudesse dizer alguma coisa, a cabeça da garota já estava apontando para dentro do hall dos fundos. Ela, com aquele cabelo brilhante, cílios longos e naturais, e as sobrancelhas que tanto podiam demonstrar paciência quanto podiam se erguer em um gesto magnífico de desdém. Bates.
Se tivesse tido tempo, Port explicaria que, na verdade, não fazia ideia de que Leonard apareceria no restaurante naquela noite. Que como o Magalhães estava se popularizando muito no último ano, o empresário certamente quis experimentar a novidade, como um bom amante de comida boa que sempre foi. Ele estar presente ali, naquela ocasião, não passou de uma terrível coincidência do destino, mesmo que dificilmente acreditaria nisso.
Afinal, não apagaria o fato de Port ter mesmo mexido com a cabeça do amigo sobre a volta da garota. Porque ele sabia que estaria ali, porque se adiantou logo em retomar o contato com ela, convidando-a para conhecer o restaurante em que trabalhava e era sócio. Ela se animou com a ideia, mesmo com o estranho pedido de Port para que ela entrasse pelos fundos, alegando ser por um motivo de proteção à identidade dela, já que a garota andava tão popular quanto a Lindsay Lohan ultimamente.
Não, Port não teve a oportunidade de explicar nenhuma dessas coisas. Porque ela pousou os pés no limiar da porta assim que estava prestes a sair. E um som parecido com uma explosão deve ter retumbado pelos ouvidos de ambos, mesmo que o ar de repente pareceu pesado e gélido, sugando todo o oxigênio do ambiente.
Ninguém disse nada por um tempo indeterminado, que pareceram horas para todos os presentes. Uma agitação interior tomou conta de , mas ele não conseguia se mexer. Era ela, realmente era, céus, como isso era possível…
— É… Oi. — ele ouviu a própria voz sair, à medida que seu sangue voltava a circular.
— Oi. — respondeu ela, em um tom ainda mais baixo, sendo incapaz de revirar os olhos.
Port encarou a cena, pensando em dizer alguma coisa, mas desistiu logo em seguida. A situação não pedia nenhuma interferência sua, e de pessoa alguma. Ele sentiu algo no ar que ninguém acreditaria se ele falasse livremente. A percepção da realidade em modo quase palpável.
Era como se duas pessoas finalmente estivessem voltando a respirar.




f i m.


NOTA DA AUTORA › Olá! Sentiram o cheiro do temperinho de Sydney?
Eu gosto de uns personagens, digamos... com um caráter pra lá de suspeito. Acho que criar personagens assim são a forma mais basal do escritor testar sua habilidade, mesmo que no final tenha saído só mais uma persona genérica. Mas é isso que é a beleza de escrever: as tentativas, as reescritas, aquela frase torta e sem sentido que a gente ajeita quase com fita adesiva pra ela se juntar com outra palavra e bum, resultado ótimo. Não vou dizer que FE teve um resultado satisfatório, mas algumas coisas não necessitam de um final fechado. Ainda mais se formos para fazer nada mais, nada menos que apreciar o personagem.
No mais, obrigada pelo seu tempo gasto nessa página! té a próxima história ɞ


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